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Médiuns têm perfil diferente daquele apresentado na literatura científica (USP Notícias)

11/05/2005

Estudo com 115 médiuns kardecistas de São Paulo indica que a maioria possui alto nível socioeducacional, perfil que se enquadra no último censo do IBGE. Segundo a pesquisa, eles não apresentam problemas mentais

Na literatura científica, muitas vezes os médiuns (que se comunicam com espíritos) são descritos como pessoas de baixa escolaridade e renda. Sua mediunidade deve ser entendida como um “mecanismo de defesa contra as opressões sociais”, ou como manifestação de algum quadro dissociativo ou psicótico.

No entanto, um estudo realizado pelo psiquiatra Alexander Moreira de Almeida com médiuns espíritas da cidade de São Paulo mostrou um perfil diferente: os médiuns apresentaram um alto nível socioeducacional e uma prevalência de transtornos mentais menor do que a encontrada na população em geral.

Almeida constatou que 46,5% das pessoas tinham curso superior, 76,5% eram mulheres, menos de 3% estavam desempregados, e a idade média era de 48 anos. A maioria era espírita há mais de 16 anos, vieram de famílias não-espíritas e as vivências mediúnicas começaram na infância.

“Esse perfil sociodemográfico se encaixa no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra um crescimento da proporção de espíritas conforme aumenta a escolaridade da população”, comenta o psiquiatra, que apresentou sua tese de doutorado à Faculdade de Medicina (FMUSP), com orientação do professor Francisco Lotufo Neto.

Os participantes do estudo atuam em nove centros espíritas kardecistas da Capital, pertencentes à Aliança Espírita Evangélica. O médico aplicou um questionário sóciodemográfico a 115 médiuns antes e depois das sessões espíritas. Eles também responderam a questões referentes à atividade mediúnica. Almeida ainda utilizou os questionários SRQ (Self-Report Psychiatric Screening Questionnaire), que rastreia a presença de transtornos mentais, e o EAS (Escala de Adequação Social), que mostra como a pessoa se relaciona em sociedade.

A partir dos resultados foram selecionados 24 médiuns. Eles foram analisados pelo SCAN (Schedules for Clinical Assessment in Neuropsychiatry), um tipo de entrevista psiquiátrica padrão e pelo DDIS (Dissociative Disorders Interview Schedule), um questionário que detecta transtornos dissociativos (quando uma parte da mente funciona de forma independente). “É nessa categoria que os transes mediúnicos são habitualmente encaixados”, explica o médico.

“Os médiuns apresentaram, em média, quatro sintomas de primeira ordem para diagnóstico de esquizofrenia, mas a presença desses sintomas não indicou a existência de nenhuma doença mental”

Transes X esquizofrenia

A escala DDIS investiga a presença de 11 sintomas de primeira ordem para o diagnóstico de esquizofrenia – vozes dialogando na sua cabeça, vozes comentando as suas ações, ter suas ações produzidas ou controladas por alguém ou algo fora de você, entre outros. “Os médiuns apresentaram, em média, quatro deles, mas a presença dos sintomas não indicou a existência de nenhuma doença mental”, afirma. “Além disso, eles também apresentaram uma boa adequação social e demonstraram ter uma saúde mental melhor que a da população em geral”. Não houve correlação entre freqüência de atividade mediúnica e problemas mentais ou desajuste social.

O médico ressalva que os resultados da pesquisa se referem especificamente a médiuns em atividades regulares em centros espíritas. “Para eles trabalharem nos centros são necessários dois anos de cursos, além da participação semanal nas reuniões mediúnicas”, afirma.

Almeida é membro do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. O núcleo tem como objetivo estudar as questões religiosas e espirituais segundo o enfoque científico, sem vínculo com nenhuma corrente filosófica ou religiosa.

“Durante muito tempo a Psiquiatria encarou a mediunidade como um transtorno mental”, conta. “Só a partir das décadas de 50 e 60 é que houve uma mudança de mentalidade, e essas manifestações passaram a ser vistas como sendo não-patológicas quando vivenciadas dentro de uma religião.” De acordo com Almeida, o último censo do IBGE mostrou que o espiritismo ocupa a quarta posição entre as religiões praticadas no Brasil, país com a maior população espírita do mundo. A tese está disponível para consultas no Portal Conhecimento.

Sequestro de CO2 (Pesquisa Fapesp)

Reunimos o que já publicamos sobre o processo de captura de dióxido de carbono da atmosfera, que se dá sobretudo em florestas e oceanos e ajuda a manter equilibrados os níveis de CO2 na atmosfera

Edição Online 13:10 27 de junho de 2016

 

mini Florestas secundárias podem contribuir para mitigar as mudanças climáticas
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Circulação de água no Oceano Atlântico pode explicar baixos níveis de CO2 atmosférico no Último Máximo Glacial |Junho/2016|
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Estocagem de água no solo no período de chuvas é crucial nesse processo, segundo estudo publicado na revista Science |Fevereiro/2016|
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The Violence of Forgetting (New York Times)

Brad Evans: Throughout your work you have dealt with the dangers of ignorance and what you have called the violence of “organized forgetting.” Can you explain what you mean by this and why we need to be attentive to intellectual forms of violence?

Henry Giroux: Unfortunately, we live at a moment in which ignorance appears to be one of the defining features of American political and cultural life. Ignorance has become a form of weaponized refusal to acknowledge the violence of the past, and revels in a culture of media spectacles in which public concerns are translated into private obsessions, consumerism and fatuous entertainment. As James Baldwin rightly warned, “Ignorance, allied with power, is the most ferocious enemy justice can have.”

The warning signs from history are all too clear. Failure to learn from the past has disastrous political consequences. Such ignorance is not simply about the absence of information. It has its own political and pedagogical categories whose formative cultures threaten both critical agency and democracy itself.

What I have called the violence of organized forgetting signals how contemporary politics are those in which emotion triumphs over reason, and spectacle over truth, thereby erasing history by producing an endless flow of fragmented and disingenuous knowledge. At a time in which figures like Donald Trump are able to gain a platform by promoting values of “greatness” that serve to cleanse the memory of social and political progress achieved in the name of equality and basic human decency, history and thought itself are under attack.

Once ignorance is weaponized, violence seems to be a tragic inevitability. The mass shooting in Orlando is yet another example of an emerging global political and cultural climate of violence fed by hate and mass hysteria. Such violence legitimates not only a kind of inflammatory rhetoric and ideological fundamentalism that views violence as the only solution to addressing social issues, it also provokes further irrational acts of violence against others. Spurrned on by a complete disrespect for those who affirm different ways of living, this massacre points to a growing climate of hate and bigotry that is unapologetic in its political nihilism.

It would be easy to dismiss such an act as another senseless example of radical Islamic terrorism. That is too easy. Another set of questions needs to be asked. What are the deeper political, educational, and social conditions that allow a climate of hate, racism, and bigotry to become the dominant discourse of a society or worldview? What role do politicians with their racist and aggressive discourses play in the emerging landscapes violence? How can we use education, among other resources, to prevent politics from being transformed into a pathology? And how might we counter these tragic and terrifying conditions without retreating into security or military mindsets?

Violence maims not only the body, but also the mind and the spirit.

B.E.: You insist that education is crucial to any viable critique of oppression and violence. Why?

H.G.: I begin with the assumption that education is fundamental to democracy. No democratic society can survive without a formative culture, which includes but is not limited to schools capable of producing citizens who are critical, self-reflective, knowledgeable and willing to make moral judgments and act in a socially inclusive and responsible way. This is contrary to forms of education that reduce learning to an instrumental logic that too often and too easily can be perverted to violent ends.

So we need to remember that education can be both a basis for critical thought and a site for repression, which destroys thinking and leads to violence. Michel Foucault wrote that knowledge and truth not only “belong to the register of order and peace,” but can also be found on the “side of violence, disorder, and war.” What matters is the type of education a person is encouraged to pursue.

It’s not just schools that are a site of this struggle. “Education” in this regard not only includes public and higher education, but also a range of cultural apparatuses and media that produce, distribute and legitimate specific forms of knowledge, ideas, values and social relations. Just think of the ways in which politics and violence now inform each other and dominate media culture. First-person shooter video games top the video-game market while Hollywood films ratchet up representations of extreme violence and reinforce a culture of fear, aggression and militarization. Similar spectacles now drive powerful media conglomerates like 21st Century Fox, which includes both news and entertainment subsidiaries.

As public values wither along with the public spheres that produce them, repressive modes of education gain popularity and it becomes easier to incarcerate people than to educate them, to model schools after prisons, to reduce the obligations of citizenship to mere consumption and to remove any notion of social responsibility from society’s moral registers and ethical commitments.

B.E.: Considering Hannah Arendt’s warning that the forces of domination and exploitation require “thoughtlessness” on behalf of the oppressors, how is the capacity to think freely and in an informed way key to providing a counter to violent practices?

H.G.: Young people can learn to challenge violence, like those in the antiwar movement of the early ’70s or today in the Black Lives Matter movement.

Education does more than create critically minded, socially responsible citizens. It enables young people and others to challenge authority by connecting individual troubles to wider systemic concerns. This notion of education is especially important given that racialized violence, violence against women and the ongoing assaults on public goods cannot be solved on an individual basis.

Violence maims not only the body but also the mind and spirit. As Pierre Bourdieu has argued, it lies “on the side of belief and persuasion.” If we are to counter violence by offering young people ways to think differently about their world and the choices before them, they must be empowered to recognize themselves in any analysis of violence, and in doing so to acknowledge that it speaks to their lives meaningfully.

There is no genuine democracy without an informed public. While there are no guarantees that a critical education will prompt individuals to contest various forms of oppression and violence, it is clear that in the absence of a formative democratic culture, critical thinking will increasingly be trumped by anti-intellectualism, and walls and war will become the only means to resolve global challenges.

Creating such a culture of education, however, will not be easy in a society that links the purpose of education with being competitive in a global economy.

B.E.: Mindful of this, there is now a common policy in place throughout the education system to create “safe spaces” so students feel comfortable in their environments. This is often done in the name of protecting those who may have their voices denied. But given your claim about the need to confront injustice, does this represent an ethically responsible approach to difficult subject matters?

Critical education should be viewed as the art of the possible rather than a space organized around timidity, caution and fear.

H.G.: There is a growing culture of conformity and quietism on university campuses, made evident in the current call for safe spaces and trigger warnings. This is not just conservative reactionism, but is often carried out by liberals who believe they are acting with the best intentions. Violence comes in many forms and can be particularly disturbing when confronted in an educational setting if handled dismissively or in ways that blame victims.

Yet troubling knowledge cannot be condemned on the basis of making students uncomfortable, especially if the desire for safety serves merely to limit access to difficult knowledge and the resources needed to analyze it. Critical education should be viewed as the art of the possible rather than a space organized around timidity, caution and fear.

Creating safe spaces runs counter to the notion that learning should be unsettling, that students should challenge common sense assumptions and be willing to confront disturbing realities despite discomfort. The political scientist Wendy Brown rightly argues that the “domain of free public speech is not one of emotional safety or reassurance,” and is “ not what the public sphere and political speech promise.” A university education should, Brown writes, “ call you to think, question, doubt” and “ incite you to question everything you assume, think you know or care about.”

This is particularly acute when dealing with pedagogies of violence and oppression. While there is a need to be ethically sensitive to the subject matter, our civic responsibility requires, at times, confronting truly intolerable conditions. The desire for emotionally safe spaces can be invoked to protect one’s sense of privilege — especially in the privileged sites of university education. This is further compounded by the frequent attempts by students to deny some speakers a platform because their views are controversial. While the intentions may be understandable, this is a dangerous road to go down.

Confronting the intolerable should be challenging and upsetting. Who could read the testimonies of Primo Levi and not feel intellectually and emotionally exhausted? Or Martin Luther King Jr.’s words, not to mention those of Malcolm X? It is the conditions that produce violence that should upset us ethically and prompt us to act responsibly, rather than to capitulate to a privatized emotional response that substitutes a therapeutic language for a political and worldly one.

There is more at work here than the infantilizing notion that students should be protected rather than challenged in the classroom; there is also the danger of creating a chilling effect on the part of faculty who want to address controversial topics such as war, poverty, spectacles of violence, racism, sexism and inequality. If American society wants to invest in its young people, it has an obligation to provide them with an education in which they are challenged, can learn to take risks, think outside the boundaries of established ideologies, and expand the far reaches of their creativity and critical judgment. This demands a pedagogy that is complicated, taxing and disruptive.

B.E.: You place the university at the center of a democratic and civil society. But considering that the university is not a politically neutral setting separate from power relations, you are concerned with what you term “gated intellectuals” who become seduced by the pursuit of power. Please explain this concept.

H.G.: Public universities across the globe are under attack not because they are failing, but because they are they are considered discretionary — unlike K-12 education for which funding is largely compulsory. The withdrawal of financial support has initiated a number of unsavory responses: Universities have felt compelled to turn towards corporate management models. They have effectively hobbled academic freedom by employing more precarious part-time instead of full-time faculty, and they increasingly treat students as consumers to be seduced by various campus gimmicks while burying the majority in debt.

My critique of what I have called “gated intellectuals” responds to these troubling trends by pointing to an increasingly isolated and privileged full-time faculty who believe that higher education still occupies the rarefied, otherworldly space of disinterested intellectualism of Cardinal Newman’s 19th century, and who defend their own indifference to social issues through appeals to professionalism or by condemning as politicized those academics who grapple with larger social issues. Some academics have gone so far as to suggest that criticizing the university is tantamount to destroying it. There is a type of intellectual violence at work here that ignores and often disparages the civic function of education while forgetting Hannah Arendt’s incisive admonition that “education is the point at which we decide whether we love the world enough to assume responsibility for it.”

Supported by powerful conservative foundations and awash in grants from the defense and intelligence agencies, such gated intellectuals appear to have forgotten that in a democracy it is crucial to defend the university as a crucial democratic public sphere. This is not to suggest that they are silent. On the contrary, they provide the intellectual armory for war, the analytical supports for gun ownership, and lend legitimacy to a host of other policies that lead to everyday forms of structural violence and poverty. Not only have they succumbed to official power, they collude with it.

B.E.: I feel your recent work provides a somber updating of Arendt’s notion of “dark times,” hallmarked by political and intellectual catastrophe. How might we harness the power of education to reimagine the future in more inclusive and less violent terms?

H.G.: The current siege on higher education, whether through defunding education, eliminating tenure, tying research to military needs, or imposing business models of efficiency and accountability, poses a dire threat not only to faculty and students who carry the mantle of university self-governance, but also to democracy itself.

The solutions are complex and cannot be addressed in isolation from a range of other issues in the larger society such as the defunding of public goods, the growing gap between the rich and the poor, poverty and the reach of the prison-industrial complex into the lives of those marginalized by class and race.

We have to fight back against a campaign, as Gene R. Nichol puts it, “to end higher education’s democratizing influence on the nation.” To fight this, faculty, young people and others outside of higher education must collectively engage with larger social movements for the defense of public goods. We must address that as the welfare state is defunded and dismantled, the state turns away from enacting social provisions and becomes more concerned about security than social responsibility. Fear replaces compassion, and a survival-of-the-fittest ethic replaces any sense of shared concern for others.

Lost in the discourse of individual responsibility and self-help are issues like power, class and racism. Intellectuals need to create the public spaces in which identities, desires and values can be encouraged to act in ways conducive to the formation of citizens willing to fight for individual and social rights, along with those ideals that give genuine meaning to a representative democracy.

Any discussion of the fate of higher education must address how it is shaped by the current state of inequality in American society, and how it perpetuates it. Not only is such inequality evident in soaring tuition costs, inevitably resulting in the growing exclusion of working- and middle-class students from higher education, but also in the transformation of over two-thirds of faculty positions into a labor force of overworked and powerless adjunct faculty members. Faculty need to take back the university and reclaim modes of governance in which they have the power to teach and act with dignity, while denouncing and dismantling the increasing corporatization of the university and the seizing of power by administrators and their staff, who now outnumber faculty on most campuses.

In return, academics need to fight for the right of students to be given an education not dominated by corporate values. Higher education is a right, and not an entitlement. It should be free, as it is in many other countries, and as Robin Kelley points out, this should be true particularly for minority students. This is all the more crucial as young people have been left out of the discourse of democracy. Rather than invest in prisons and weapons of death, Americans need a society that invests in public and higher education.

There is more at stake here than making visible the vast inequities in educational and economic opportunities. Seeing education as a political form of intervention, offering a path toward racial and economic justice, is crucial in reimagining a new politics of hope. Universities should be subversive in a healthy society. They should push against the grain, and give voice to the voiceless the powerless and the whispers of truth that haunt the apostles of unchecked power and wealth. Pedagogy should be disruptive and unsettling, while pushing hard against established orthodoxies. Such demands are far from radical, and leave more to be done, but they point to a new beginning in the struggle over the role of higher education in the United States.

‘Estudos de neurociência superaram a psicanálise’, diz pesquisador brasileiro (Folha de S.Paulo)

Juliana Cunha, 18.06.2016

Com 60 anos de carreira, 22.794 citações em periódicos, 60 premiações e 710 artigos publicados, Ivan Izquierdo, 78, é o neurocientista mais citado e um dos mais respeitados da América Latina. Nascido na Argentina, ele mora no Brasil há 40 anos e foi naturalizado brasileiro em 1981. Hoje coordena o Centro de Memória do Instituto do Cérebro da PUC-RS.

Suas pesquisas ajudaram a entender os diferentes tipos de memória e a desmistificar a ideia de que áreas específicas do cérebro se dedicariam de maneira exclusiva a um tipo de atividade.

Ele falou à Folha durante o Congresso Mundial do Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu esta semana, em Buenos Aires. Izquierdo foi o homenageado desta edição do congresso.

Na entrevista, o cientista fala sobre a utilidade de memórias traumáticas, sua descrença em métodos que prometem apagar lembranças e diz que a psicanálise foi superada pelos estudos de neurociência e funciona hoje como mero exercício estético.

Bruno Todeschini
O neurocientista Ivan Izquierdo durante congresso em Buenos Aires
O neurocientista Ivan Izquierdo durante congresso em Buenos Aires

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Folha – É possível apagar memórias?
Ivan Izquierdo – É possível evitar que uma memória se expresse, isso sim. É normal, é humano, inclusive, evitar a expressão de certas lembranças. A falta de uso de uma determinada memória implica em desuso daquela sinapse, que aos poucos se atrofia.

Fora disso, não dá. Não existe uma técnica para escolher lembranças e então apagá-las, até porque a mesma informação é salva várias vezes no cérebro, por um mecanismo que chamamos de plasticidade. Quando se fala em apagamento de memórias é pirotecnia, são coisas midiáticas e cinematográficas.

O senhor trabalha bastante com memória do medo. Não apagá-las é uma pena ou algo a ser comemorado?
A memória do medo é o que nos mantém vivos. É a que pode ser acessada mais rapidamente e é a mais útil. Toda vez que você passa por uma situação de ameaça, a informação fundamental que o cérebro precisa guardar é que aquilo é perigoso. As pessoas querem apagar memórias de medo porque muitas vezes são desconfortáveis, mas, se não estivessem ali, nos colocaríamos em situações ruins.

Claro que esse processo causa enorme estresse. Para me locomover numa cidade, meu cérebro aciona inúmeras memórias de medo. Entre tê-las e não tê-las, prefiro tê-las, foram elas que me trouxeram até aqui, mas se pudermos reduzir nossa exposição a riscos, melhor. O problema muitas vezes é o estímulo, não a resposta do medo.

Mas algumas memórias de medo são paralisantes, e podem ser mais arriscadas do que a situação que evitam. Como lidar com elas?
Antes parado do que morto. O cérebro atua para nos preservar, essa é a prioridade. Claro que esse mecanismo é sujeito a falhas. Se entendemos que a resposta a uma memória de medo é exagerada, podemos tentar fazer com que o cérebro ressignifique um estímulo. É possível, por exemplo, expor o paciente repetidas vezes aos estímulos que criaram aquela memória, mas sem o trauma. Isso dissocia a experiência do medo.

Isso não seria parecido com o que Freud tentava fazer com as fobias?
Sim, Freud foi um dos primeiros a usar a extinção no tratamento de fobias, embora ele não acreditasse exatamente em extinção. Com a extinção, a memória continua, não é apagada, mas o trauma não está mais lá.

Mas muitos neurocientistas consideram Freud datado.
Toda teoria envelhece. Freud é uma grande referência, deu contribuições importantes. Mas a psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência, é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro. Hoje a pessoa vai me falar em inconsciente? Onde fica? Sou cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante.

Para mim, a psicanálise hoje é um exercício estético, não um tratamento de saúde. Se a pessoa gosta, tudo bem, não faz mal, mas é uma pena quando alguém que tem um problema real que poderia ser tratado deixa de buscar um tratamento médico achando que psicanálise seria uma alternativa.

E outros tipos de análise que não a freudiana?
Terapia cognitiva, seguramente. Há formas de fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo.

O senhor veio para o Brasil com a ditadura na Argentina. Agora, vivemos um processo no Brasil que alguns chamam de golpe, é uma memória em disputa. O que o senhor acha disso enquanto cientista?
Eu vim por conta de uma ameaça. Não considero um golpe, mas é um processo muito esperto. Mudar uma palavra ressignifica toda uma memória. Há de fato uma disputa de como essa memória coletiva vai ser construída. A esquerda usa o termo golpe para evocar memórias de medo de um país que já passou por um golpe. Conforme essa palavra é repetida, isso cria um efeito poderoso. Ainda não sabemos como essa memória será consolidada, mas a estratégia é muito esperta.

A jornalista JULIANA CUNHA viajou a convite do Congresso Mundial do Cérebro, Comportamento e Emoções

O bichinho que desafia Deus (El País)

Organismo marinho mostra por que o ser humano não está no topo da evolução

MANUEL ANSEDE

Barcelona 13 JUN 2016 – 21:07 CEST

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do 'Oikopleura'.

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do ‘Oikopleura’. JUAN BARBOSA 

“Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz”, escreveu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. E tem algo que fala, ou melhor, grita, numa praia de Badalona, perto de Barcelona: a que é dominada pela Ponte do Petróleo. Por esse dique de 250 metros, que penetra no mar Mediterrâneo, eram descarregados produtos petrolíferos até o final do século XX. E a seus pés se levanta desde 1870 a fábrica do Anís del Mono, o licor em cujo rótulo aparece um símio com cara de Charles Darwin em referência à teoria da evolução, que gerava polêmica na época.

Hoje, a Ponte do Petróleo é um belo mirante com uma estátua de bronze dedicada ao macaco com rosto darwinista. E, por um acaso que fala, entre seus frequentadores se encontra uma equipe de biólogos evolutivos do departamento de Genética da Universidade de Barcelona. Os cientistas caminham pela passarela sobre o oceano e lançam um cubo para fisgar um animal marinho, o Oikopleura dioica, de apenas três centímetros, mas que possui boca, ânus, cérebro e coração. Parece insignificante, mas, como Darwin, faz estremecer o discurso das religiões. Coloca o ser humano no lugar que lhe corresponde: com o resto dos animais.

“Temos sido mal influenciados pela religião, pensando que estávamos no topo da evolução. Na verdade, estamos no mesmo nível que o dos outros animais”, diz o biólogo Cristian Cañestro. Ele e o colega Ricard Albalat dirigem um dos únicos três centros científicos do mundo dedicados ao estudo do Oikopleura dioica. Os outros dois estão na Noruega e no Japão. O centro espanhol é uma salinha fria, com centenas de exemplares praticamente invisíveis colocados em recipientes de água, num canto da Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.

O organismo marinho ‘Oikopleura dioica’ indica que a perda de genes ancestrais, compartilhados com os humanos, seria o motor da evolução

“A visão até agora era que, ao evoluir, ganhávamos em complexidade, adquirindo genes. Era o que se pensava quando os primeiros genomas foram sequenciados: de mosca, de minhoca e do ser humano. Mas vimos que não é assim. A maioria de nossos genes está também nas medusas. Nosso ancestral comum os possuía. Não que tenhamos ganhado genes; eles é que perderam. A complexidade genética é ancestral”, diz Cañestro.

Em 2006, o biólogo pesquisava o papel de um derivado da vitamina A, o ácido retinoico, no desenvolvimento embrionário. Essa substância indica às células de um embrião o que têm que fazer para se transformar num corpo adulto. O ácido retinoico ativa os genes necessários, por exemplo, para formar as extremidades, o coração, os olhos e as orelhas dos animais. Cañestro estudava esse processo no Oikopleura. E ficou de boca aberta.

Uma fêmea de 'Oikopleura dioica' cheia de ovos.

Uma fêmea de ‘Oikopleura dioica’ cheia de ovos. CAÑESTRO & ALBALAT LAB

“Os animais utilizam uma grande quantidade de genes para sintetizar o ácido retinoico. Percebi que no Oikopleura dioica faltava um desses genes. Depois vi que faltavam outros. Não encontramos nenhum”, recorda. Esse animal de três milímetros fabrica seu coração, de maneira inexplicável, sem ácido retinoico. “Se você vê um carro se mover sem rodas, nesse dia sua percepção sobre as rodas muda”, diz Cañestro.

O último ancestral comum entre nós e esse minúsculo habitante do oceano viveu há cerca de 500 milhões de anos. Desde então, o Oikopleura perdeu 30% dos genes que nos uniam. E fez isso com sucesso. Se você entrar em qualquer praia do mundo, ali estará ele rodeando o seu corpo. Na batalha da seleção natural, os Oikopleura ganharam. Sua densidade atinge 20.000 indivíduos por metro cúbico de água em alguns ecossistemas marinhos. São perdedores, mas só de genes.

Nosso último ancestral comum viveu há 500 milhões de anos. Desde então, o ‘Oikopleura’ perdeu 30% dos genes que nos uniam

Albalat e Cañestro acabam de publicar na revista especializada Nature Reviews Genetics um artigo que analisa a perda de genes como motor da evolução. Seu texto despertou interesse mundial. Foi recomendado pela F1000Prime, uma publicação internacional que aponta os melhores artigos sobre biologia e medicina. O trabalho começa com uma frase do imperador romano Marco Aurelio, filósofo estoico: “A perda nada mais é do que mudança, e a mudança é um prazer da natureza”.

Os dois biólogos afirmam que a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da espécie humana. “O chimpanzé e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferenças nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolução dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mandíbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso crânio”, diz Albalat. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.

Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat.Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat. UB

 Em 2012, um estudo do geneticista norte-americano Daniel MacArthur mostrou que, em média, qualquer pessoa saudável tem 20 genes desativados. E isso aparentemente não importa. Albalat e Cañestro, do Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (IRBio) da Universidade de Barcelona, citam dois exemplos muito estudados. Em algumas pessoas, os genes que codificam as proteínas CCR5 e DUFFY foram anulados por mutações. São as proteínas usadas, respectivamente, pelo vírus HIV e o parasita causador da malária para entrar nas células. A perda desses genes torna os humanos resistentes a essas doenças.

No laboratório de Cañestro e Albalat, há um cartaz que imita o do filme Cães de Aluguel (“Reservoir Dogs”, em inglês), de Quentin Tarantino: os cientistas e outros membros de sua equipe aparecem vestidos com camisa branca e gravata preta. A montagem se chama Reservoir Oiks, em alusão ao Oikopleura. Os dois biólogos acreditam que o organismo marinho permitirá formular e responder perguntas novas sobre nosso manual de instruções comum: o genoma.

O ‘Oikopleura’ permite estudar quais genes são essenciais: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos devastadores em nossa saúde

O cérebro do Oikopleura tem cerca de 100 neurônios e o dos humanos, 86 bilhões. Mas somos muito mais semelhantes do que à primeira vista. Entre 60% e 80% das famílias de genes humanos têm um claro representante no genoma do Oikopleura. “Esse animal nos permite estudar quais genes humanos são essenciais”, diz Albalat. Em outras palavras: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos terríveis em nossa saúde.

Os seres vivos possuem um sistema celular que repara as mutações surgidas no DNA. O Oikopleura doica perdeu 16 dos 83 genes ancestrais que regulam esse processo. Essa incapacidade para a autorreparação poderia explicar sua perda extrema de genes, segundo o artigo da Nature Reviews Genetics.

O olhar de Cañestro se ilumina quando ele fala dessas ausências. Os genes costumam atuar em grupo para levar a cabo uma função. Se de um grupo conhecido de oito genes faltam sete no Oikopleura, pois a função foi perdida, a permanência do oitavo gene pode revelar uma segunda função essencial que teria passado despercebida. Esse gene seria como um cruzamento de estradas. Desmantelada uma rodovia, ele sobrevive porque é fundamental em outra. “Essa segunda função já estava no ancestral comum e pode ser importante nos humanos”, diz Cañestro.

“Não existem animais superiores ou inferiores. Nossas peças de Lego são basicamente as mesmas, embora com elas possamos construir coisas diferentes”, afirma. Pense no seu lugar no mundo da próxima vez que mergulhar no mar. Essa neve branca que flutua na água e pode ser vista contra a luz são os excrementos do Oikopleura.

2016 é um dos anos mais secos do Ceará e o pior começa agora (O Povo)

CHUVA 14/06/2016

Os meteorologistas afirmam que não há previsão de precipitações para os últimos seis meses do ano 

Igor Cavalcante

Os próximos meses serão de mais escassez hídrica para o Ceará. Quando o assunto é chuva, o segundo semestre é o mais crítico para o Estado. As precipitações que ainda acontecem são causadas por instabilidades meteorológicas e não devem impactar no cenário de estiagem.

Em coletiva de imprensa ontem, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) informou que, de 2012 para cá, a estiagem deste ano é a segunda pior. Em algumas regiões não choveu nem metade do esperado. O cenário faz de 2016 um dos dez anos mais secos da história.

Contudo, monitoramento do Oceano Pacífico indica que águas estão resfriando. É um sinal de que precipitações podem aumentar no próximo ano. O aquecimento oceânico, fenômeno conhecido como El Niño, impacta na formação da Zona de Convergência Intertropical, principal responsável pelas chuvas na costa cearense. Quando parte do Pacífico está aquecida, as nuvens tendem a se formar e precipitar no mar.

De acordo com Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme, ainda é cedo para garantir boa quadra chuvosa para 2017. “É um aspecto positivo, mas temos de aguardar como vai ser o padrão desse resfriamento”, pondera.

O meteorologista Raul Fritz também é cauteloso quanto às previsões. Segundo ele, mesmo num cenário em que não haja El Niño, bom inverno é incerto.

A preocupação dos meteorologistas é com os meses até a próxima quadra chuvosa.. “A gente tem certeza da chuva no primeiro semestre e certeza de que não chove no segundo semestre”, cita o presidente da Funceme. Historicamente, mais de 90% do volume anual de chuva no Estado acontece no primeiro semestre.

Abaixo do esperado

Também foram as temperaturas elevadas das águas do Pacífico que contribuíram para as poucas precipitações no Estado. Conforme O POVO havia adiantado na edição do último dia 1°, a quadra chuvosa deste ano terminou como a segunda pior desde 2012, quando começou a sequência de cinco anos de estiagem.

Entre fevereiro e maio deste ano, as chuvas ficaram 45,2% abaixo do esperado. Fevereiro foi o período mais crítico, quando o volume no Estado ficou 55,3% abaixo da expectativa. Os meses de março e abril — historicamente de mais chuva — também tiveram precipitações inferiores à média.

As regiões Jaguaribana e do Sertão dos Inhamuns foram as de maior escassez. Nos municípios, as chuvas sequer atingiram metade do esperado, ficando 54,5% e 52,3% abaixo da média, respectivamente.

Segundo o presidente da Funceme, desde o início do ano, o Estado trabalha com o cenário da seca e promove ações para garantir licitações de poços e adutoras emergenciais na tentativa de suprir a necessidade hídrica do Interior.

Saiba mais 

Uma das alternativas para amenizar a escassez hídrica, o Projeto de Integração do rio São Francisco será concluído em dezembro, com previsão de abastecer os reservatórios em janeiro do próximo ano.

No último fim de semana, comitiva do Ministério da Integração vistoriou os eixos Norte e Leste do Projeto. Além do Ceará, Pernambuco e Paraíba devem ser beneficiados a partir de 2017.

Anthropology’s Storyteller-Shaman-Sorcerer Strikes Again With ‘The Corn Wolf’ (Pop Matters)

BY HANS ROLLMAN

27 January 2016

MICHAEL TAUSSIG’S WORK BOTH ATTRACTS AND ANGERS OTHER ANTHROPOLOGISTS. IT ALSO RE-ENCHANTS A DISCIPLINE THAT IS IN DESPERATE NEED OF IT.

cover artTHE CORN WOLF MICHAEL TAUSSIG

(UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS)
DEC 2015

“So who is telling stories nowadays? And who is telling the story about stories?”

Michael Taussig was once dubbed “anthropology’s alternative radical” (by the New York Times, no less). It’s tempting to call him iconoclastic, but his latest collection, The Corn Wolf, problematizes the term ‘iconoclasm’ (it even features an ‘Iconoclasm Dictionary’) so thoroughly that a writer would deploy it at his peril.

Nevertheless, the dilemma sets the mood: Taussig’s work remains as genre-bending today as when he published the book that first raised eyebrows—and ire, among many colleagues in the field—back in 1987.

That book, Shamanism, Colonialism and the Wild Man(University of Chicago Press, 1991), launched a multi-pronged attack on some of the discipline’s most sacred conventions, and remains a controversial (and widely used) text in graduate and upper-level undergraduate anthropology courses today. While undergrads found Taussig’s unapologetic accounts of partaking in drug binges with Amazonian shamans titillating, it was the reflexive critique of anthropologists’ obsession with violence and terror, coupled with the experimental and often poetic style of composition, that put other scholars on edge.

Over a quarter century later, his ability to confound cultural critics and confront convention hasn’t waned. His latest collection of essays written over the past decade, The Corn Wolf, squarely tackles many of the key controversies of our time—the academic industrial complex, Occupy Wall Street, the intensification and precarity of neoliberal capitalist culture, the plight of Occupied Palestine, and more—in Taussig’s characteristically poetic, storyteller style.

Finding Magic in the Corporate Academy

Taussig’s work is the sort of bewilderingly beautiful prose (one is often tempted to call it poetry) that’s able to operate on multiple intellectual levels. The first essay in the collection, “The Corn Wolf: Writing Apotropaic Texts”, immerses the reader fully and mercilessly in the style. It opens with a poor graduate student realizing that writing up their fieldwork is the most difficult and important task of graduate school, and also the one thing graduate school teaches you nothing about. Fieldwork and writing; “they are both rich, ripe, secret-society-type shenanigans. Could it be that both are based on impossible-to-define talents, intuitions, tricks, and fears?”

No wonder many careerist academics dislike him.

Of course the essay isn’t so much about graduate writing as about his own writing, and about the act of writing—the magical act of writing—itself.

For example, Taussig considers anthropology’s treatment of magic and shamanic sorcery: “Pulling the wool over one’s eyes is a simpler way of putting it… What we have generally done in anthropology is really pretty amazing in this regard, piggybacking on their magic and on their conjuring—their tricks—so as to come up with explanations that seem nonmagical and free of trickery.”

This seemingly nonmagical academic form of writing—or mode of production, as he calls it—is what he refers to as ‘agribusiness writing’: “Agribusiness writing is what we find throughout the university and everyone knows it when they don’t see it.” Against it he pitches the idea of ‘apotropaic writing’, a magic that connives with the prosaic to produce a counter-magic of its own.

When anthropologists demystify shamanic sorcery, for instance, the ‘wolfing’ moves of apotropaic magic would reveal the sorcery implicit in the act of the ‘scientific’ anthropologist’s recasting of shamanism. Indeed, the fact that the wonder and magic of the everyday world has been demystified by science is a sort of magical transformation itself. Is this how we re-enchant the world? By the use of story-telling and writing to re-position what seems like the boring, unmagical workaday world of everyday capitalist drudgery and expose it as the magical sleight-of-hand and tricksterism that it is? “I have long felt that agribusiness writing is more magical than magic ever could be and that what is required is to counter the purported realism of agribusiness writing with apotropaic writing as countermagic, apotropaic from the ancient Greek meaning the use of magic to protect one from harmful magic.”

The point emerges again, perhaps unintentionally, in Taussig’s essay “The Stories Things Tell and Why They Tell Them”, as he discusses our collective yearning for “the old days”.

“‘The old days’ is actually a talismanic phrase and phase that ushers in prehistory and hence the enchanted world when things spoke to man… it goes along with what is felt to be a certain lack or loss of poetry—of poetry and ritual—in workaday life. But, you ask, has that really disappeared? Does enchantment not resurface under certain conditions, maybe extreme conditions, as in our contemporary world of machines, corporate control, and heady consumerism?”

Our world seems devoid of magic, comprised of boring realities that brook no alternatives: from the academic industrial complex to neoliberal capitalism. The hegemonic mode of thinking which makes us think that way, is perhaps the most magical and insidious form of sorcery there is.

Winnie-the-Pooh, and Wittgenstein, Too

The essays cover a broad range. Taussig discusses the literary work of B. Traven, that enigmatic, socio-political novelist who wrote under a pseudonym in early 20th century Mexico but is believed to have been an exiled German anarchist. Walter Benjamin appears repeatedly; Adorno and Wittgenstein, too. But to follow the startling trajectory of Taussig’s thought requires more than intellectual reference points: he weaves a sort of magic in his storytelling designed to disrupt the reader’s familiar mode of analysis; that agribusiness reading and writing model that underpins not just the academy but so much of our society’s accepted ways of configuring knowledge. A shaman-scholar, indeed. It’s Taussig’s particular talent: not just anyone can develop an essay drawing together bumblebees, the dialectics of humming, Theodor Adorno and Winnie-the-Pooh. Or produce serious, thought-provoking reflections on what a zebra in a zoo must think of a man riding by on a bicycle.

The value of Taussig’s work is that it can often be read on multiple levels; as enriching to return to as when it provokes for the first time, although the experience and what one gains from it is often quite different each time. The essay “Excelente Zona Social”, originally written to commemorate the anniversary of an anthropological classic, meanders through a set of reflections on the nature of ethnographic fieldwork, set against the backdrop of Taussig’s own time spent with peasants battling the Colombian state for control of occupied land. The peasants and their legal advisors compete with the state and the owners of capital (the palmeros, or palm plantation owners) to produce maps of the territory in dispute: on the state’s side, maps demonstrating ownership and property rights; on the peasants’ side, maps demonstrating usage and community history.

What emerges is a struggle over contesting frames of reference, and even over the language used to articulate the politics of presence. The state and palmeros speak in a legal, bureaucratic language; the peasants in a language of anecdotes and shared stories. Their legal advisor puts it bluntly: “’We have to create a new language,’ says Juan Felipe. ‘The palmeros have theirs, and we need to show the world an alternate model.’” The dispute echoes a broader one that is emerging in indigenous studies today, between competing histories of culture and the ways we recognize knowledge. In recent years, this trend has involved challenging the ways in which oral histories are traditionally devalued in western legal and intellectual culture.

Food for thought. But Taussig—like his spirit-guide, Walter Benjamin—takes it a step further and implicates the reader in this process, as well: “the origin of storytelling lies in the encounter between the traveler and those who stay at home,” he reminds us. The reader is not an innocent bystander; a point to which Taussig returns in subsequent essays.

The Politics of Field Notes

Another recurring theme in The Corn Wolf appears in the form of valuable reflections on the nature of the field journal, used by anthropologists to collect notes—sketches, snatches of conversation, reflections, vague impressions—and which is then typically translated into more standard form for reader consumption: books or journal articles. But in this process of translation it loses much of its magic, and that includes the capacity of the field journal to convey actual experience. When an anthropologist ‘writes up’ their fieldnotes, muses Taussig, after-thoughts kick in and infuse and suffuse the process. “By afterthoughts I mean secondary elaborations that arise on top of the original notes, photographs, and drawings. Through stops, starts, sudden swerves, the original is pulled into a wider and wilder landscape. To reread and to rewrite is to tug at the memories buried therein as well as engage with the gaps, questions, connections, conundrums, and big ideas that lie latent and in turn generate more of the same.”

The point of this reflection, Taussig continues, is to challenge the conventional trajectory of field-notes-to-publication. “I feel impelled to ask, therefore, if anthropology has sold itself short in conforming to the idea that its main vehicle of expression is an academic book or journal article? This is not a plea for exact reproduction of the fieldwork notebook but rather a plea for following its furtive forms and mix of private and public…”

There’s a revealing clue here to the circuitous and unorthodox nature of Taussig’s own writing style. It’s a form of “magical anthropology”, for lack of a better term. Critics speak of magical realism in fiction and literature as involving the use of magical elements to achieve a deeper insight into reality (well-known examples include the work of Gabriel Garcia Márquez, Salman Rushdie, Isabel Allende).  Adam Hothschild, writing in the New York Review of Books, famously referred to the reportage of Polish journalist Ryszard Kapuscinski as comprising a form of “magical journalism”. Such labels describe the use of writing not to convey facts but to communicate experience, by provoking ideas and states of mind that more accurately reflect the perceived reality of a situation, even if the process of doing so requires the storyteller (be they author, journalist or anthropologist) to sometimes run rough-shod over the facts as they might be conventionally presented.

This is also a form of what is referred to as ‘fictocriticism’—the combination of fictive and non-fictive elements in a single text. Its application has particular merit in anthropology. What many of us consider reality—“the facts”, or those details which are intended to convey and communicate reality—can sometimes themselves prove to be a barrier to comprehending reality as it is experienced by another. Facts are consumed and ordered by the reader within their own frame of reference, neatly reinforcing the reader’s pre-existing sense of reality; the experience of the Other those facts are intended to relay remains uncommunicated.

However,  by playing with the presentation of those facts, some storytellers (journalists, social scientists) might manage to more accurately share the insights and experience of the Other, by provoking a deeper, experiential resonance in the reader. Or so a magical anthropology, like magical journalism or magical storytelling of any genre, might suggest.

At any rate, the fact is there’s another thread here worth following: the power of storytelling and the role of the reader, as Taussig explains best in his travelogue-essay,  “My Two Weeks in Palestine”. A recurring theme in Taussig’s work is humanity’s fascination with violence and terror. Anthropologists (and other academics) are often criticized for their fly-in, fly-out method of witnessing violence, and of the careers built on our society’s fascination with violence. Like politicians, diplomats, journalists, humanitarians, and others, they are often criticized for writing about violence and terror without (seemingly) actually being able to do anything to stop it or cause it to abate. The academic, therefore, becomes implicated in the culture of violence, helping to stoke humanity’s fascination with the abominable. Yet the complicity of the academic, the anthropologist, is as nothing compared with the complicity of the reader, suggests Taussig.

This alone makes such storytelling and retelling a treacherous activity. Joseph Conrad called it ‘the fascination of the abomination,’ an accurate if ponderous rendering of the stock in trade of war journalists and war photographers, especially the latter, wild men and wild women to the core, too much in love with their work which soon settles into banality. But that is as nothing compared with the conceit of the reader of their work, secure at one remove from the action, yet no less likely to be buoyed up by the tempestuous currents of attraction and repulsion inflaming it before succumbing to indifference or turning the page or clicking the mouse.

In the face of this, what is to be done? Taussig suggests the act of witnessing is important, but it must lead to something more than mere consumption on the part of the reader. Thus the imperative for the writer, the storyteller, to find a way to write their stories (or articles, or books) in such a way as to provoke a more reactive reading that transcends mere passive consumption. Here the unorthodox anthropologist, open to the creative and experimental potential of the field journal medium or other types of experimental writing, might stumble upon ways of provoking such responses.

(I)t is my hope that the flexibility and “multi-tasking” to be found in the fieldworker’s diary can reconfigure this otherwise paralyzing ‘fascination of the abomination.’ Like the magical shield of Perseus, a diary allows of witness without being turned to stone. Like Walter Benjamin’s Denkbilden or ‘thought-images,’ the diary form facilitates grasping those images that flare up at a moment of danger when the potential for innervating the body is at its highest.

In Palestine he is struck by the way people tell him their stories: horrifying, terrible stories, but told thoughtfully and even with humour. “[T]he point was that people were capable, precisely because of their circumstance, of combining the unthinkable with the sayable—that was the miracle—and hence pass the baton of witnessing along to me, to pass on to you in the hope, vain as it may be, that witnessing becomes something more than consumption. Like travel and anthropology, reading has not only its passions but responsibilities, too.”

Occupying Anthropology

Taussig’s storytelling, in this collection, include an arc of stories on the pace of modern life: the speed-up of global capitalism, the precarious and destroyed lives it leaves in its ever-present wake, and the protest it sparks as workers and intellectuals and all those left in the margins (which is to say, the majority) struggle to pull the emergency brakes on a society speeding out of control. In “I’m So Angry I Made a Sign”, those brakes take the form of the Occupy Wall Street protests, which Taussig witnessed first-hand, and reflects upon in a thoughtful photo-essay.

Even more powerful is the essay that follows: “The Go Slow Party”, a moving cry for resistance against the great speed-up that plagues modern society (including academia). Taussig realizes that “the only time I really go slow is in the shower and having a shit. Both are fine examples of what Hakim Bey called ‘the temporary autonomous zone.’ Both free the mind and stimulate creative thinking…” He proceeds to reflect on the right to be lazy and the need to decolonize play and leisure. His own intervention—fighting for the right to install hammocks in his university department—was denied in favour of his colleagues’ more abstract approaches to the issue, but his reflections on the topic offer a powerful provocation.

In the final essay, “Don Miguel”, he offers some parting advice for anthropologists on the nature of fieldwork.

You learn after a long, long time, that the famous ‘method’ of participant-observation tends to be weighted toward the observation end of things and, what’s more, tends not, according to the profession, to allow much by way of self-observation. What you learn is that because of class and race barriers, what I would call ‘true’ participation is rare and unforgettable, but that the ‘stranger-effect,’ being a foreigner, makes this a lot easier. Some anthropologists, perhaps the great majority, make these barriers into a virtue, claiming that such participation is irrelevant and romantic, that we should study not ourselves, not psychology, not the anthropologist-native interaction, but something as vast and nebulous as ‘culture.’

Not so, asserts Taussig, and he offers a lifetime of examples to the contrary. The particular story he tells in the final essay is an amusing and engaging one: as a student, he made the poor decision to follow the advice of more senior academics and, against his own instincts, reach out to those at the top of the social hierarchy in the region of Colombia in which he was working, instead of simply ignoring them and focusing on the peasants he felt more comfortable with. The result was his being targeted by the local secret police (who had previously ignored him), setting off a frenzied dash around the country to convince the necessary authorities that he and his colleague were, after all, harmless researchers. His point, however, was that his own memory of this incident and the insights it opened up became a unique and different form of participant-observation, because “we had become objects in our own story”.

The Corn Wolf essays are prime Taussig: assuming a form that is both whimsical and yet deadly provocative at the same time. Michael Taussig: anthropology’s trickster magician, poet and storyteller, casts his spell again.

Hans Rollmann is a writer and editor based in Eastern Canada. He’s a columnist, writer and opinions editor with the online news magazine TheIndependent.ca. His work has appeared in a range of other publications both print and online, from Briarpatch Magazine to Feral Feminisms. In addition to a background in radio-broadcasting, union organizing and archaeology, he’s currently completing a PhD in Gender, Feminist & Women’s Studies in Toronto. He can be reached by email at hansnf@gmail.com or @hansnf on Twitter.

Ethnography as Improv (How to Anthropology)

NOVEMBER 02, 2015

By Cheryl Deutsch

“Anthropology is not a social science tout court, but something else. What that something else is has been notoriously difficult to name, precisely because it involves less a subject matter … than a sensibility.”

— Liisa Malkki, Improvising Theory (2007: 63)

 

In this post, I take inspiration from the book Improvising Theory to articulate three aspects of ethnographic practice that often go unnamed in anthropology.  I also follow up with the book’s authors, Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki, to share their thoughts on doing ethnography today.

Most of the book consists of email exchanges from the year Cerwoncka spent in fieldwork as a graduate student and Malkki was her faculty mentor.  The conceit is that Malkki, an anthropologist, must explain to Cerwoncka, a political scientist, what “goes without saying” in anthropology; the customs and quirks that make up the discipline’s sensibility.  But as Malkki writes, “the ‘common sense’ of anthropology is a complicated matter,” and she struggles to articulate its nuances (2007: 163).

Through this exchange and the authors’ reflections, the book offers an intimate view of what ethnographic fieldwork is, in practice, as well as what it amounts to in theory.  Cerwoncka and Malkki conclude that it is ethnography’s improvisational nature that makes it challenging to teach but also special in its theoretical power.

Here are three insights I drew from the book and my subsequent exchange with them:

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1. Ethnography is Improvised

Improv comedy is a form of collaborative story-telling whose humor derives from the uncertainty of its own story line. Improv actors must say yes to whatever comes their way, trusting their training and adrenaline to make a story out of surprise.  The result is comedy.

Improvisational jazz is likewise a form of story-telling whose energy derives from its unrehearsed riffs on popular melodies and classic standards.  Jazz musicians construct improvised melodies out of notes that are spontaneous but not random: they have to make sense with the original song or melody.  Just playing fast, for example, is no guarantee that an improvised solo will succeed: the notes have to make emotional sense.

Both improv comedy and jazz employ skills that can be taught and practiced.  They benefit from excellent technique.  But in all forms of improvisation, training and expertise only go so far.  The rest requires a certain sensibility.

In their book, Improvising Theory: Process and Temporality in Ethnographic Fieldwork, Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki make the case for ethnography as a form of improvisation.

As Cerwoncka reflected in an email exchange with me: “choices made about a research project are shaped out of intellectual, practical and professional considerations… [They] are inevitably made without full information and require constant adjustment and courage to follow one’s rational and intuitive best judgment.”

Courage is a key word here.  All forms of improv involve risk.  But it’s the vulnerability of such creative acts that give them heart and soul.

As recounted in the book, Cerwoncka scheduled a formal interview with a sergeant in the police station where she was conducting her fieldwork.  Before the interview, he talked openly about the groups that they, as cops, hated having to deal with.  “I acted casual about all this information,” she wrote to Malkki, “not jotting any of it down in front of him…  When I went back for the ‘real’ interview, he was much more formal and immediately asked if I wanted to tape the conversation” (2007: 85).  The formal interview had a different tone; he talked about “safe” topics like his family background, and then he was called away.

Reflecting on this experience in her email to Malkki, Cerwoncka decided not to tape further conversations with the police officers.  “It strikes me that they are in the position of taping people (in the interrogation room),” she wrote, “and their context for that is to use the information people give them against the people they arrest.  So I think the recorder will color the interviews too much” (2007: 85).

Later in her fieldwork, however, she found that one sergeant was particularly eager to set up taped interviews for her, so she continued with them.  She began to see that they helped those in the station feel more comfortable with her. “They don’t even seem to mind when I drift and ask them questions about their taste in music or whether they garden,” she wrote (2007: 120).  Hers is a lesson in improvised field practice.

Formal recorded interviews are an important tool in the ethnographer’s toolbox.  But in this exchange, we see that the ethnographer often has to make decisions about when and where, as well as how, to employ such tools in the field.  Ethnographers are also engaged in a form of collaborative story-telling with the people they interact with.  It takes attention and care for ethnography – as improvisation – to make sense.

 

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2. Ethnography Takes Time

Improvising Theory’s greatest strength is its portrayal – in real time – of the year-long process of ethnographic fieldwork.  It illustrates not only the tempo of fieldwork but its many temporalities.  As Malkki writes in her concluding chapter to the book, “ethnography as process demands a critical awareness of the invisible social fact that multiple, different temporalities might be at play simultaneously… [There are] quotidian routines, events that become Events (see Malkki 1997), the panic time of deadlines, the elongated time of boredom, the cyclical time of the return of the expected, the spiral time of returns to the recognizable or the remembered, and so on” (2007: 177).

In their email exchange, we read about Cerwoncka’s uncertainties, her successes, as well as her false starts and trails gone cold.  It’s a messy process through which Malkki’s advice offers perspective and rhythm: some situations require action and attention, others call for patience and meditation.

Before she began her interviews at the police station, for example, Cerwoncka was unsure exactly where she would locate her research exploring Australian national identity.  So she made inroads with a gardening club and with officers at the police station, as well as with the pastor of a church.

In an early email to Malkki, Cerwoncka worried that she was contacting people from too many organizations at once and that she’d be overwhelmed with all their necessary follow-up.  Malkki responded: “Anthropological fieldwork is what you are doing, and therefore regular contact with informants should not just be a goal, but should be built into your everyday schedule.  It’s taxing, embarrassing, etc., but you need the material… Strike while the iron is hot” (2007: 54).  She encouraged her to choose the organizations she wanted to work with thoughtfully and then to make a schedule that would allow her to follow up on interactions and opportunities when they arose.

Later, Cerwoncka dropped the church as a site.  Then, when she was deep in fieldwork with the gardening club and the police officers, one of her political science advisers recommended she add a third site.  So she spent time talking to landscape architects.

At this point, Malkki advised her: “It’s important not to let the third site become something that allows you to escape the pressures of the sites in which you have deep investments already… Another related issue (related to the question of what’s the best use of your time): sometimes downtime is best, taking a week away from the fieldwork.  Then you return to things fresh” (2007: 126).

In this case, the right temporal strategy was patience and perserverance.

When I asked Malkki for her thoughts on ethnography today, she reiterated the importance of time: “If I were to add something… One point would be a warning against the overprofessionalization of graduate students in Anthropology.  Easy for me to say since I’ve got a job!  But anthropology does take time, and I think one has to have the time to ‘grow into it’ somehow without having career milestones always hovering at the edges of one’s attention.  One grows into fieldwork according to one’s temperament and in deep relation with people.  That is transformative.  And then, after fieldwork, one grows into writing.  That too is transformative.  It takes time (and simple grit).  This is very much a mind game.  There are many brilliant people – everyone knows they’re brilliant and their work truly original – but they just can’t let it go, or, sometimes, can’t get over writing blocks.  More time.  One should always be humane toward oneself (and everyone, of course).”

It seems that ethnography not only takes time but many different times: striking while the iron is hot, having patience when fieldwork gets tedious, and time for transformation in the writing phase.

3. Improvisation + Time = Theoretical Insight

Cerwoncka started grad school with the goal of becoming a “theorist,” and this book reflects that ambition.  As helpful as it is in illustrating ethnographic practice, it is equally effective in articulating ethnography’s theoretical power.

In our email exchange, Cerwoncka wrote, “Social analysts need more than description of phenomena, and this thing we call theory helps us try to identify patterns and associations.  However, ethnographic fieldwork and life has reinforced for me the conviction that theory serves us intellectually best when it is in dialogue with activity, data, and a variety of possible material.”

The email exchange with Malkki that documents her fieldwork experience bears this out: theoretical concepts help guide her research questions and observations.  It was Benedict Anderson’s concept of imagined communities that inspired her to look for national identity in the ordinary lives of Australian gardeners and police officers.  But these interlocutors – and Cerwoncka’s improvised engagements with them – also gave shape to the project.  Finally, time and distance add their own maturing effects. What results are the project’s theoretical insights.

Cerwoncka writes about this process of conceptual development in Native to the Nation, based on her dissertation research.  Writing about the police sergeant who eagerly arranged her formal interviews, she writes:  “These arrangements developed into a strange kind of ritual where each interview began with the sergeant ‘joking’ that the junior officer about to be interviewed ‘mustn’t give away the shop secrets’ before I was left alone with him or her” (cited in Cerwoncka and Malkki 2007: 90-1).  Such jests caused her quite a bit of anxiety: uncovering police brutality or corruption would put her and her research in a uncomfortable ethical position.  Only much later, in writing, did she conclude that the sergeant’s comments pointed to in-group boundary policing more so than any real “heart of darkness” within the station (2007: 91).  And it was much longer into writing that she came to believe “that there was another story one could write about the police besides a journalistic-type exposé or a romantic narrative about un-sung heroes” (2007: 92).

The theoretical insights of ethnographic fieldwork take time.  Improvisation in the field is what shakes up one’s orientation to theoretical concepts, but it can take time for that orientation to mature into new conceptualizations.

Postscript: Ethnography and Professionalization

In addition to producing theoretical insights, Cerwoncka also stressed to me the ways in which ethnography has served her as a faculty member and university administrator:

Cerwoncka: “Every time I move to a different institution, role and, or discipline, I find myself doing a version of ethnographic fieldwork!  Fieldwork taught me the techniques and instilled confidence in me to map and analyze patterns of community, be it a police station or a School of Social Sciences.  I think the professional skills I learned through ethnographic fieldwork … are as useful to me as a Dean of Social Sciences at University of East London as they were to my dissertation.”

These thoughts neatly illustrate the challenge and promise of ethnography: that one has to let go and accept in order to reap its creative potential.  Much of the advice embodied in the book revolves around the need for both confidence and acceptance.  One can’t seek out theory but can trust that it will result.  One can’t seek out professionalization but can trust that it will happen.  Just as in improv comedy there is no magic formula for making something funny, so the ethnographer that tells a compelling story can let the scene do its magic.

Thank you to Nikhil Anand for first suggesting Improvising Theory to me.  Thank you, as well, to Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki for taking the time to share their thoughts.  And a final thanks to Ethan Hein for his explanation of improvisational jazz.

Final Kyoto analysis shows 100% compliance (Science Daily)

Date:
June 10, 2016
Source:
Taylor & Francis
Summary:
All 36 countries that committed to the Kyoto Protocol on climate change complied with their emission targets, according to a new scientific study.

Global warming is a real threat for our civilization. All 36 countries that committed to the Kyoto Protocol on climate change complied with their emission targets, according to a recent report in Climate Policy. Credit: © sergei_fish13 / Fotolia

All 36 countries that committed to the Kyoto Protocol on climate change complied with their emission targets, according to a scientific study released today. In addition, the Kyoto process and climate-related policies, represented a low cost for the countries involved — up to 0.1% of GDP for the European Union and an even lower fraction of Japan’s GDP. This is around one quarter to one tenth of what experts had estimated after the agreement was reached in 1997, for delivering the targets set 15 years ahead. The US never ratified the Treaty and Canada withdrew, but all the rest continued and Kyoto came into force in 2005.

The results, reported in the Climate Policy journal, are the first published results to use the final data for national GHG emissions and exchanges in carbon units which only became available at the end of 2015. They show that overall, the countries who signed up to the Kyoto Protocol surpassed their commitment by 2.4 GtCO2e yr -1 (giga-tonnes of CO2 equivalent per year).

“There is often skepticism about the importance of international law, and many critics claim that the Kyoto Protocol failed. The fact that countries have fully complied is highly significant, and it helps to raise expectations for full adherence to the Paris Agreement,” said Prof. Michael Grubb, Editor-in-Chief of the Climate Policy journal and co-founder of research network Climate Strategies.

The researchers found that most of these countries reduced their GHG emissions to the levels required by the Kyoto Protocol, with only nine (Austria, Denmark, Iceland, Japan, Lichtenstein, Luxembourg, Norway, Spain and Switzerland) emitting higher levels. The nine countries only just overshot their targets — in total by around 1% of the average annual emissions capped under Kyoto — and were able to comply with the Protocol using the “flexibility” mechanisms. The researchers also found that overall compliance would have also been achieved even without the so-called ‘hot-air,’ (windfall emission reductions from Eastern Bloc countries).


Journal Reference:

  1. Igor Shishlov, Romain Morel, Valentin Bellassen. Compliance of the Parties to the Kyoto Protocol in the first commitment periodClimate Policy, 2016; 1 DOI: 10.1080/14693062.2016.1164658

How altered gut microbes cause obesity (Science Daily)

Date:
June 8, 2016
Source:
Yale University
Summary:
Obesity is linked to changes in our gut microbes — the trillions of tiny organisms that inhabit our intestines. But the mechanism has not been clear to date. In a new study, a team of researchers has identified how an altered gut microbiota causes obesity.

Obesity is linked to changes in our gut microbes — the trillions of tiny organisms that inhabit our intestines. But the mechanism has not been clear. In a new study published in Nature, a Yale-led team of researchers has identified how an altered gut microbiota causes obesity.

In an earlier study, Gerald I. Shulman, M.D., the George R. Cowgill Professor of Medicine, observed that acetate, a short-chain fatty acid, stimulated the secretion of insulin in rodents. To learn more about acetate’s role, Shulman, who is also an investigator of the Howard Hughes Medical Institute, and a team of Yale researchers conducted a series of experiments in rodent models of obesity.

The research team compared acetate to other short-chain fatty acids and found higher levels of acetate in animals that consumed a high-fat diet. They also observed that infusions of acetate stimulated insulin secretion by beta cells in the pancreas, but it was unclear how.

Next, the researchers determined that when acetate was injected directly into the brain, it triggered increased insulin by activating the parasympathetic nervous system. “Acetate stimulates beta cells to secrete more insulin in response to glucose through a centrally mediated mechanism,” said Shulman. “It also stimulates secretion of the hormones gastrin and ghrelin, which lead to increased food intake.”

Finally, the research team sought to establish a causal relationship between the gut microbiota and increased insulin. After transferring fecal matter from one group of rodents to another, they observed similar changes in the gut microbiota, acetate levels, and insulin.

“Taken together these experiments demonstrate a causal link between alterations in the gut microbiota in response to changes in the diet and increased acetate production,” said Shulman. The increased acetate in turn leads to increased food intake, setting off a positive feedback loop that drives obesity and insulin resistance, he explained.

The study authors suggest that this positive feedback loop may have served an important role in evolution, by prompting animals to fatten up when they stumbled across calorically dense food in times of food scarcity.

“Alterations in the gut microbiota are associated with obesity and the metabolic syndrome in both humans and rodents,” Shulman noted. “In this study we provide a novel mechanism to explain this biological phenomenon in rodents, and we are now examining whether this mechanism translates to humans.”


Journal Reference:

  1. Rachel J. Perry, Liang Peng, Natasha A. Barry, Gary W. Cline, Dongyan Zhang, Rebecca L. Cardone, Kitt Falk Petersen, Richard G. Kibbey, Andrew L. Goodman, Gerald I. Shulman. Acetate mediates a microbiome–brain–β-cell axis to promote metabolic syndromeNature, 2016; 534 (7606): 213 DOI: 10.1038/nature18309

O voo dos Gaviões pela liberdade e critica social nas arquibancadas do Brasil (Le Monde Diplomatique Brasil)

Por Sandro Barbosa de Oliveira

04 de Março de 2016

O estopim para que ocorressem tais manifestações talvez seja o fato do deputado estadual Fernando Capez (PSDB) estar envolvido em denúncias sobre o esquema de desvio de verbas das merendas das escolas públicas do estado de São Paulo. Não por acaso que os Gaviões miram em Capez: o inimigo número um das torcidas.

Muito tem se falado sobre as manifestações políticas da torcida Gaviões da Fiel nos jogos do Campeonato Paulista, mas pouco sobre a história que fundamenta tais manifestações. Por isso, esse artigo pretende apresentar alguns elementos que possam contribuir para elucidar esse fenômeno e problematizar os aspectos que envolvem o seu desenvolvimento. Para tanto, inicia com a seguinte pergunta: quando foi que a torcida realizou a primeira manifestação em 2016?

Final da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2016. Os Gaviões da Fiel Torcida, que tomaram parte das arquibancadas do lendário estádio do Pacaembu, decidiram realizar uma festa popular ao acenderem sinalizadores e gás de fumaça para festejar a partida decisiva entre Corinthians e Flamengo, com a presença das duas maiores torcidas do país. Até aí tudo bem se não fosse o fato de sinalizadores e fumaça serem proibidos pela Federação Paulista de Futebol (FPF) e coibidos pela Polícia Militar (PM) do estado de São Paulo. Mas essa não foi uma simples festa popular. Com essa ação, a torcida corinthiana iniciou uma série de protestos políticos contra FPF, o preço dos ingressos e as proibições que sofrem as torcidas para ingressar com bandeiras, faixas e sinalizadores inofensivos nas arquibancadas, fato que fez com que a torcida sofresse outra punição: ficar 60 dias proibida de entrar com faixas e bandeiras nos estádios.

Esse processo de proibições vem desde 1995 e se institucionalizou na forma de punição sobre as torcidas organizadas (elas que representam a organização coletiva e política de seus torcedores) após o infeliz acontecimento decorrente da briga entre torcidas dos times São Paulo e Palmeiras, também na final da Copa São Paulo daquele ano. De lá para cá a imprensa esportiva, o Ministério Público (sob ações do promotor Fernando Capez), a PM e a FPF construíram um discurso e passaram a criminalizar as torcidas organizadas ao realizar ações para que elas perdessem seu espaço nos estádios, com o objetivo de consolidar o padrão de outro tipo de torcedor: o torcedor “família”, consumidor e individual do chamado “futebol moderno”, aquele que consome, porém, não questiona enquanto sujeito político os problemas do esporte nas arquibancadas.

Nesse meio tempo, com as torcidas banidas por um período das arquibancadas e com o discurso da violência nos estádios, a Rede Globo de televisão, aliada de cartolas e dirigentes de clubes, federações e da CBF, estabeleceu a compra das transmissões para consolidar um sistema de transmissão fechado em canais pago, e deter preferência nas transmissões em canal aberto através de privilégios. Ela negociou diretamente com cada clube e estabeleceu contratos que amarram futuras decisões. Com isso, criou-se um público de torcedores que não iam mais ao estádio (com medo das torcidas) e que assistiam no conforto de suas casas, com seus familiares e amigos até que os estádios voltassem a ser “seguros” e compatíveis com certos interesses de classes desses agentes. Ao retornarem aos estádios, as torcidas foram fichadas pela PM e ficaram impedidas de entrar com bandeiras de bambu, sinalizadores inofensivos e com outros adereços.

Recentemente e não por acaso, foi perceptível que antes, durante e após a Copa do Mundo no Brasil em 2014 organizado pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA) – entidade maior do futebol que também está manchada por escândalos de corrupção tal como a CBF e a FPF – construiu-se um discurso sobre o tal padrão de torcedor e estádio que deveria ser consolidado no país. A organização local desse torneio impediu que manifestantes se aproximassem dos estádios (chamados agora de arenas) por meio de um forte aparato repressor, ao se passar uma imagem para o mundo de que o país vivia alegre e festivamente a Copa (imagem veiculada pela transmissão oficial). No entanto, outros meios mostravam a real situação nas ruas através das manifestações organizadas pelos Comitês Populares da Copa e que foram reprimidas com violência e prisões, imagens estas veiculadas pelas mídias alternativas na Internet. Nesse momento, os Gaviões da Fiel estiveram calados e sequer se manifestaram contra o processo de elitização no futebol que vinha antes da Copa e que se potencializou com o torneio. Se tivessem se posicionado, teriam o apoio das organizações populares que estavam nas ruas lutando por uma Copa popular.

Mas por que os Gaviões da Fiel se manifestaram somente agora em 2016?

Um dos aspectos que chamam a atenção é o posicionamento da atual diretoria dos Gaviões através de seu presidente Rodrigo Fonseca, o Diguinho, que disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato que “Não podemos assistir omissos ao processo de elitização do futebol”. De fato, ele reconhece que “não apenas o Corinthians está passando faz anos e tornando a arquibancada um lugar mais branco e rico que outrora”, e destaca que “CBF, FPF, Rede Globo, diretoria do Corinthians e os tais promotores, todos eles trabalham em conjunto para fazer do futebol um espetáculo de elite”.

Outro aspecto importante é que em 2015 os Gaviões soltaram notas em apoio à greve dos professores da rede pública estadual que durou 90 dias, e aos estudantes que lutaram contra a reorganização escolar e ocuparam com ousadia o coração do espaço público na sociedade – as escolas públicas do estado de São Paulo. Ambas as lutas contra o governo do estado que também puniu as torcidas com uma visão elitista de criminalizá-las. Essas lutas sem dúvida influenciaram os Gaviões e os fez alçar novos voos pela liberdade também nas arquibancadas, ao buscarem em sua própria história e origem o legado da luta contra um sistema opressor em defesa da liberdade e da crítica social nas arquibancadas por meio de um despertar político. Os Gaviões nasceram para fiscalizar e lutar contra os autoritarismos e as censuras impostas pela arbitrariedade de dirigentes e federações no clube e no futebol durante a ditadura militar. Foi a primeira (e talvez única) torcida a levantar em 1979 a faixa pela Anistia ampla aos presos políticos.

Regressando um pouco ao ano de 2007, ano em que a torcida corinthiana protagonizou o Movimento Fora Dualib, o futebol do Corinthians enfrentava crises sem tréguas que culminou com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro daquele ano. A crise que estourou no clube foi resultado das tramas entre dirigentes que agiam de maneira oligárquica e o setor financeiro. No ano de 2005 eles realizaram uma parceria com a Media Sports Investment (MSI), representada pelo iraniano Kia Joorabchian, parceria que expressou a chegada de capitais britânicos e russos de origem duvidosa ao futebol brasileiro. A MSI estabeleceu um contrato em que iria realizar investimentos por dez anos no futebol do Corinthians ao contratar jogadores renomados e construir o estádio para o clube. Ela formou um time que auto intitulou de “galácticos” que conquistou o Campeonato Brasileiro de 2005, mas que na temporada seguinte, devido ao desgaste pelo controle do futebol do clube entre Kia e Dualib, deixou de enviar recursos ao clube que gerenciou o departamento de futebol por conta própria e acumulou uma dívida superior aos R$ 70 milhões. A parceria, que ganhou as manchetes e elevou o clube aos noticiários esportivos do mundo, terminou em 2007 nas páginas policiais com a intervenção do Ministério Público Federal e o bloqueio das contas da MSI e de seus representantes acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, aspectos que fizeram com que os Gaviões e as demais torcidas corinthianas se mobilizarem para retirar da presidência o responsável por essa trama: Alberto Dualib.

Mas o que esse episódio na história do Corinthians pode dizer sobre o futebol brasileiro? Em primeiro lugar, o futebol é a expressão da formação social, econômica e política da sociedade brasileira organizada para exportar “produtos primários”, aspecto estrutural de uma economia “voltada para fora” e que foi devidamente analisada pelo historiador Caio Prado Júnior quando desvelou o seu caráter dependente. No caso do futebol, isso implica em dizer que parte dos jogadores preparados aqui tem seus passes “vendidos” precocemente em transações financeiras para os grandes clubes da Europa, o que atribui um papel decisivo a um agente que não existia antes no futebol – o empresário de jogador, aquele que faz a ponte entre o clube daqui com os clubes estrangeiros de lá. O futebol expressa a desigualdade social já que 0,80% dos jogadores recebem salários entre R$ 50 mil a R$ 500 mil e 82,40% não recebem mais que R$ 1.000,00.[1] Em segundo lugar, os clubes que querem formar grandes elencos para a conquista de títulos e não criaram condições próprias para isso, acabam por depender de recursos externos e recorrem aos investidores, patrocinadores e parceiros na execução dos chamados “projetos” para aquela temporada ou para um período maior. O fato é que os clubes de futebol, que são entidades sem fins lucrativos e/ou associações, passaram a depender de agentes do setor financeiro que visam com os seus “investimentos” encontrar fontes mais rentáveis para suas receitas e viram nos clubes um jeito de gerar rentabilidade aos seus capitais livres de impostos. O problema é o descompasso entre os clubes, já que parte ainda são geridos de maneira oligárquica por seus dirigentes, e os agentes financeiros, empresas e pessoas físicas que investem recursos para obter lucro.

Em tal cenário de investimentos de capitais e mercantilização sem riscos as torcidas organizadas passaram a ser um problema, pois elas querem ver seus times com elencos fortes e disputando títulos, e questionam com força quando isso não acontece. Elas entraram também no jogo do “mercado” e deixaram de lado as manifestações política que marcaram suas trajetórias. Então, como o futebol não é uma ciência exata e depende da dinâmica dos jogos e da organização das equipes, nem sempre é provável que o elenco mais caro e forte saia vencedor daquele campeonato. Mas como os clubes brasileiros foram integrados em um mundo de economia globalizada, financeirizada e midiatizada, precisam lidar com “a propaganda como a alma do negócio”. Mesmo que não vençam campeonatos, o importante é a marca aparecer e se autovalorizar, e para isso o marketing dos clubes grandes foi ampliado. Outro aspecto é que as brigas entre as torcidas que expressava a organização das classes populares teria afastado o torcedor-consumidor do ideário liberal-econômico que manteria essa engrenagem funcionando.

Nesse sentido, estaria aí um nexo que articula uma explicação possível para a proibição das torcidas nos estádios em São Paulo: por um lado, altos investimentos de empresas e emissoras de televisão nos clubes grandes e nas federações, para que garantam o monopólio e o privilégio de valorização e transmissão das partidas, por outro, pacificação e aburguesamento nas arquibancadas, expresso inclusive no programa Fiel Torcedor que exclui e individualiza o acesso ao estádio, duplo movimento chamado pelas torcidas de “futebol moderno”, o qual é possível defini-lo por futebol elitizado. O futebol paulista e brasileiro, portanto, faz então um movimento de regresso às suas origens direto para a elitização, mas com os conflitos de nosso tempo histórico, já que o mesmo se popularizou a partir da década de 1930 e se tornou paixão nacional na década de 1950 entre as classes populares nos processos de industrialização da sociedade.

Por isso, e retomando a importância das recentes manifestações, por que os atos nas arquibancadas protagonizados pelos Gaviões ganharam ressonância geral para além do clubismo? Talvez porque a torcida corinthiana decidiu atacar de maneira politizada as raízes do problema que determinou a sua punição no estádio com uma pauta clara e direta. Com faixas nas partidas contra o Capivariano e o São Paulo no Campeonato Paulista de 2016 estabeleceu o seguinte diálogo com a sociedade: “Rede Globo, o Corinthians não é o seu quintal”; “Cadê as contas do estádio?”; “CBF, FPF a vergonha do futebol”; “Futebol refém da Rede Globo”; “Quem vai punir o ladrão de merendas?”; “Ingresso mais barato”. Foi a primeira vez que uma torcida se manifestou explicitamente nas arquibancadas contra essas entidades e emissora. Entretanto, ao denunciar os causadores da falta de liberdade de expressão e de sua punição das arquibancadas, os Gaviões enfrentaram a PM e a FPF que impediam que as torcidas se manifestassem politicamente nos estádios. Ao derrubarem os argumentos das “autoridades” com referência ao próprio Estatuto do Torcedor que seus algozes utilizavam, demonstraram conhecimento de causa e puderam deslegitimar a tentativa da FPF e da PM de criminalizá-los.

Cabe destacar que o primeiro movimento de torcedores corinthianos contra o “futebol moderno” dentro e fora do Itaquerão (estádio do Corinthians) foi protagonizado por um pequeno grupo de dissidentes dos Gaviões e torcedores comuns em 2014, quando resgataram o movimento criado pelas organizadas “Andrés aqui não tem burguês”. Eles se manifestaram com faixas e dizeres do tipo “Ingresso caro = corinthiano de fora”, ao se posicionar contra os ingressos caros no novo estádio e chamar a atenção para a exclusão dos corinthianos das classes populares (preto, pobre e periférico). Contudo, sofreram represália da PM e tiveram suas faixas tomadas sob alegação de que estavam violando a lei. Esse movimento ficou restrito a este grupo pequeno e não teve visibilidade como ocorreu agora com as ações dos Gaviões que sempre foi referência política e de canto na arquibancada. De qualquer maneira, o grupo criticou o ex-presidente Andrés Sanchez, responsável pela gestão do estádio, e conseguiu uma conquista importante já que foi ano de eleição: uma pequena baixa no preço dos ingressos. Só que o preço dos ingressos continuou alto para as condições de vida das classes populares que historicamente frequentaram os estádios, não só em jogos no Itaquerão, mas também em jogos com mando de campo de times do interior.

Mas no atual momento o que defendem os Gaviões?

Os Gaviões defendem o direito à liberdade de expressão e à livre manifestação da coletividade nas arquibancadas desse Brasil a fora. Essa liberdade foi garantida pela Constituição Federal de 1988 que diz que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição”. Todavia, segundo o Estatuto do Torcedor e o regulamento da FPF, os torcedores podem se manifestar pacificamente nas arquibancadas. Por isso, como disse o jornalista José Trajano “tudo o que eles manifestaram, através das faixas, tem o apoio da maioria da população brasileira. Eles são os nossos porta-vozes. Assino embaixo”. Esse sentimento particular de uma torcida que luta por sua liberdade de crítica social é o sentimento geral de maior parte da população brasileira que se reconhece e se identifica nesse tipo de manifestação, já que o futebol enquanto paixão nacional se tornou um lazer mercantilizado e gerido por dirigentes mafiosos que estão imersos em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro, dominado por uma emissora de TV e que parecem desconsiderar os valores afetivos e de sociabilidade que os torcedores têm por esse esporte popular.

Ademais, talvez o estopim para que ocorressem tais manifestações agora seja o fato de haver chegado ao público denúncias sobre o esquema de desvio de verbas das merendas das escolas públicas do estado de São Paulo, esquema que teria como principal articulador o promotor e deputado estadual Fernando Capez (Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB). Não por acaso que os Gaviões miram em Capez: o inimigo número um das torcidas e que agora se encontra imerso em denúncias sobre atitudes ilícitas e criminosas de desvio de verbas, aspecto que sempre atribuiu em seus discursos às torcidas organizadas. Ironias da história que não só gira, mas, sobretudo, se desenvolve em um movimento espiral de contradições e conflitos sociais em que os agentes e os acontecimentos se convertem no seu contrário, o bom moço da promotoria está no banco dos réus enquanto que os Gaviões procuram resgatar sua imagem de torcida que faz a festa e manifestações legítimas com forte apelo social.

Por fim, os Gaviões apresentam uma crítica social e não só do futebol ao que ocorreu nas escolas públicas com a chamada propina da merenda escolar e parece conclamar as torcidas, os estudantes e os trabalhadores, já que entoaram o canto “Eu não roubo merenda, eu não sou deputado. Trabalho todo dia, não roubo meu Estado” e de “Ladrão, ladrão, devolve o futebol pro povão”, para lutar contra os desmandos e arbitrariedades da FPF e do partido do governo estadual nesses 21 anos de mandatos, o mesmo partido que proibiu as torcidas de se manifestarem nos estádios, os estudantes de se manifestarem nas escolas e os professores de se manifestarem nas ruas. Tal como analisou Marx, podemos inferir também que a história ocorre por assim dizer duas vezes: a primeira como tragédia, com a proibição das torcidas, reorganização escolar e derrota da greve dos professores, e a segunda como farsa, predominância de torcedores “coxinhas” nas arquibancadas, desorganização escolar camuflada e precarização do trabalho de professores nas escolas. É preciso então haver lutas pela liberdade e crítica social nas arquibancadas, nas escolas e nas ruas para que haja a transformação efetiva da sociedade. As demais torcidas do Corinthians e de outros clubes já estão seguindo o exemplo de politização dos Gaviões e se manifestando nas arquibancadas. Tomara que essas manifestações construa um movimento para além do clubismo e por um futebol que retorne ao poder e apropriação das classes populares.

Sandro Barbosa de Oliveira 

Sandro Barbosa de Oliveira é professor, educador popular, bacharel em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Participa do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho da Unifesp. É também associado e cientista social da Usina Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado.

 

Foto: André Lucas Almeida, Jornalistas Livres

 

You’re witnessing the death of neoliberalism – from within (The Guardian)

What does it look like when an ideology dies? As with most things, fiction can be the best guide. In Red Plenty, his magnificent novel-cum-history of the Soviet Union, Francis Spufford charts how the communist dream of building a better, fairer society fell apart.

Even while they censored their citizens’ very thoughts, the communists dreamed big. Spufford’s hero is Leonid Kantorovich, the only Soviet ever to win a Nobel prize for economics. Rattling along on the Moscow metro, he fantasises about what plenty will bring to his impoverished fellow commuters: “The women’s clothes all turning to quilted silk, the military uniforms melting into tailored grey and silver: and faces, faces the length of the car, relaxing, losing the worry lines and the hungry looks and all the assorted toothmarks of necessity.”

But reality makes swift work of such sandcastles. The numbers are increasingly disobedient. The beautiful plans can only be realised through cheating, and the draughtsmen know it better than any dissidents. This is one of Spufford’s crucial insights: that long before any public protests, the insiders led the way in murmuring their disquiet. Whisper by whisper, memo by memo, the regime is steadily undermined from within. Its final toppling lies decades beyond the novel’s close, yet can already be spotted.

When Red Plenty was published in 2010, it was clear the ideology underpinning contemporary capitalism was failing, but not that it was dying. Yet a similar process as that described in the novel appears to be happening now, in our crisis-hit capitalism. And it is the very technocrats in charge of the system who are slowly, reluctantly admitting that it is bust.

You hear it when the Bank of England’s Mark Carney sounds the alarm about “a low-growth, low-inflation, low-interest-rate equilibrium”. Or when the Bank of International Settlements, the central bank’s central bank, warns that “the global economy seems unable to return to sustainable and balanced growth”. And you saw it most clearly last Thursday from the IMF.

What makes the fund’s intervention so remarkable is not what is being said – but who is saying it and just how bluntly. In the IMF’s flagship publication, three of its top economists have written an essay titled “Neoliberalism: Oversold?”.

The very headline delivers a jolt. For so long mainstream economists and policymakers have denied the very existence of such a thing as neoliberalism, dismissing it as an insult invented by gap-toothed malcontents who understand neither economics nor capitalism. Now here comes the IMF, describing how a “neoliberal agenda” has spread across the globe in the past 30 years. What they mean is that more and more states have remade their social and political institutions into pale copies of the market. Two British examples, suggests Will Davies – author of the Limits of Neoliberalism – would be the NHS and universities “where classrooms are being transformed into supermarkets”. In this way, the public sector is replaced by private companies, and democracy is supplanted by mere competition.

The results, the IMF researchers concede, have been terrible. Neoliberalism hasn’t delivered economic growth – it has only made a few people a lot better off. It causes epic crashes that leave behind human wreckage and cost billions to clean up, a finding with which most residents of food bank Britain would agree. And while George Osborne might justify austerity as “fixing the roof while the sun is shining”, the fund team defines it as “curbing the size of the state … another aspect of the neoliberal agenda”. And, they say, its costs “could be large – much larger than the benefit”.

IMF managing director Christine Lagarde with George Osborne.

IMF managing director Christine Lagarde with George Osborne. ‘Since 2008, a big gap has opened up between what the IMF thinks and what it does.’ Photograph: Kimimasa Mayama/EPA

Two things need to be borne in mind here. First, this study comes from the IMF’s research division – not from those staffers who fly into bankrupt countries, haggle over loan terms with cash-strapped governments and administer the fiscal waterboarding. Since 2008, a big gap has opened up between what the IMF thinks and what it does. Second, while the researchers go much further than fund watchers might have believed, they leave in some all-important get-out clauses. The authors even defend privatisation as leading to “more efficient provision of services” and less government spending – to which the only response must be to offer them a train ride across to Hinkley Point C.

Even so, this is a remarkable breach of the neoliberal consensus by the IMF. Inequality and the uselessness of much modern finance: such topics have become regular chew toys for economists and politicians, who prefer to treat them as aberrations from the norm. At last a major institution is going after not only the symptoms but the cause – and it is naming that cause as political. No wonder the study’s lead author says that this research wouldn’t even have been published by the fund five years ago.

From the 1980s the policymaking elite has waved away the notion that they were acting ideologically – merely doing “what works”. But you can only get away with that claim if what you’re doing is actually working. Since the crash, central bankers, politicians and TV correspondents have tried to reassure the public that this wheeze or those billions would do the trick and put the economy right again. They have riffled through every page in the textbook and beyond – bank bailouts, spending cuts, wage freezes, pumping billions into financial markets – and still growth remains anaemic.

And the longer the slump goes on, the more the public tumbles to the fact that not only has growth been feebler, but ordinary workers have enjoyed much less of its benefits. Last year the rich countries’ thinktank, the OECD, made a remarkable concession. It acknowledged that the share of UK economic growth enjoyed by workers is now at its lowest since the second world war. Even more remarkably, it said the same or worse applied to workers across the capitalist west.

Red Plenty ends with Nikita Khrushchev pacing outside his dacha, to where he has been forcibly retired. “Paradise,” he exclaims, “is a place where people want to end up, not a place they run from. What kind of socialism is that? What kind of shit is that, when you have to keep people in chains? What kind of social order? What kind of paradise?”

Economists don’t talk like novelists, more’s the pity, but what you’re witnessing amid all the graphs and technical language is the start of the long death of an ideology.

Cientistas propõem projeto para criar genoma humano sintético (O Globo)

O Globo, 02/06/2016

Imagem de reprodução de DNA de hélice quádrupla – Divulgação/Jean-Paul Rodriguez

WASHINGTON — Um grupo de cientistas propôs, nesta quinta-feira, um projeto ambicioso para criar um genoma humano sintético, que tornaria possível a criação de seres humanos sem a necessidade de pais biológicos. Esta possibilidade levanta polêmica sobre o quanto a vida humana pode ou deve ser manipulada.

O projeto, que surgiu em uma reunião de cientistas da Universidade Harvard, nos EUA, no mês passado, tem como objetivo desenvolver e testar o genoma sintético em células dentro de laboratório ao longo de dez anos. O genoma sintético humano envolve a utilização de produtos químicos para criar o DNA presente nos cromossomas humanos. A meta foi relatada na revista “Science” pelos 25 especialistas envolvidos.

Os cientistas propuseram lançar, ainda este ano, o que chamaram de Projeto de Escrita do Genoma Humano e afirmaram que iriam envolver o público nessa discussão, que incluiria questões éticas, legais e sociais.

Os especialistas esperam arrecadar US$ 100 milhões — o equivalente a R$ 361 milhões — em financiamento público e privado para lançar o projeto este ano. No entanto, eles consideram que os custos totais serão inferiores aos US$ 3 milhões utilizados no Projeto do Genoma Humano original, que mapeou pela primeira vez o DNA humano.

O novo projecto “incluirá a engenharia completa do genoma de linhas de células humanas e de outros organismos importantes para a agricultura e saúde pública, ou aqueles que interpretar as funções biológicas humanas”, escreveram na “Science” os 25 cientistas, liderados pelo geneticista Jef Boeke, do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova York.

Ensayan un dron que ‘siembra’ nubes para provocar lluvia (El Mundo)

El dron Savant pesa 24 kilos y tiene 3 metros de envergadura. KEVIN CLIFFORD

El vuelo experimental ha sido en Nevada (EEUU), azotada por la sequía

EUROPA PRESS

25/05/2016 19:46

Un avión no tripulado ha probado por primera vez con éxito la conocida como ‘siembra’ de nubes, con la que los científicos pretenden provocar lluvia en épocas de sequía. El vuelo experimental, de Desert Research Institute (DRI) se ha llevado a cabo en Nevada (Estados Unidos).

Este dron, conocido como Savant, alcanzó una altitud de más de 120 metros y voló durante aproximadamente 18 minutos. “Es un gran logro”, ha apuntado el científico principal del proyecto, Adam Watts, experto en aplicaciones ecológicas y de recursos naturales.

Este proyecto, primero en su tipo, está ayudando al Estado de Nevada abordar los impactos continuos de sequía y a explorar soluciones innovadoras para luchar contra la ausencia de recursos, tales como aumentar el abastecimiento de agua regionales.

El equipo de investigación lleva más de 30 años de investigación y experiencia en la modificación del clima con experiencia probada en operaciones de fabricación aeroespacial y de vuelo de aviones no tripulados, según apunta el DRI en su página web.

“Hemos alcanzado otro hito importante en nuestro esfuerzo por reducir los riesgos y los costes en la industria de la siembra de nubes y ayudar a mitigar los desastres naturales causados por la sequía, el granizo y la niebla extrema“, ha señalado el CEO de la asociación de aviones no tripulados de América, Mike Richards.

“Con una envergadura de 3 metros de ancho y unos 24 kilos de peso, Savant es el vehículo perfecto para llevar a cabo este tipo de operaciones, debido a su perfil de vuelo superior, el tiempo que permanece en el aire y su resistencia al viento y a otras condiciones climáticas adversas”, ha apuntado Richards.


¿Quién está disolviendo las nubes en Andalucía?

Miguel del Pino, de Asaja Granada, muestra una foto de una de las avionetas. M. RODRÍGUEZ

La patronal agraria Asaja denuncia la ‘siembra’ de yoduro de plata

Piden que su actividad esté regulada por ley para evitar los daños

RAMÓN RAMOS, Granada

07/04/2016 19:31

No es leyenda urbana ni ciencia ficción: las avionetas ‘rompenubes’ existen y su actividad es dañina para los cultivos en las zonas en las que actúan. El último episodio tiene lugar fecha y hora. Fue detectado el pasado lunes día 4 a las 15,50 horas en la comarca granadina del Marquesado. Ese día el pronóstico del tiempo anunciaba lluvias de hasta 30 litros por metro cuadrado y las nubes negras que presidían los cielos parecían certificar el augurio. A la hora citada apareció por el norte una avioneta, sobrevoló la comarca de Este a Oeste y desapareció. Las nubes cambiaron de color, del blanco al negro, y sus efectos de lluvia se quedaron en solo seis litros por metro cuadrado, apunta Luis Ramírez, un agricultor de Huéneja afectado por la actividad de estos vuelos ‘fantasma’.

El efecto cromático en las nubes y su consecuente disminución en la descarga de unas lluvias muy esperadas en la comarca tiene una explicación para los agricultores: la ‘siembra’ entre las nubes de yoduro de plata, una sustancia química actúa cristalizando el agua condensada en las nubes.

Asaja, organización patronal agraria, ha estallado contra esta práctica, que no es exclusiva de la provincia de Granada y se enmarca en los posibles intereses de empresas de energía solar y grandes extensiones agrarias, habitualmente instaladas en las zonas donde actúan las avionetas: el Levante español y también Soria.

La organización ha iniciado una recogida de firmas que aspira a reunir las 500.000 necesarias para promover una iniciativa legislativa que prohíba por ley estas intervenciones ‘rompenubes’ que alteran los ciclos hidrológicos, agravando la sequía y dañando los cultivos.

Los pastos para animales, afectados

En esta línea se constituyó el pasado año la Plataforma para la Defensa del Medio Ambiente y la Naturaleza de la Comarca del Marquesado y del Río Nacimiento, donde la acción de las avionetas ‘rompenubes’ está afectando a los cultivos de cereales y almendros, perjudicando además al crecimiento de los pastos para alimentación del ganado.

Asaja advierte de que la posible intervención en la fase atmosférica del ciclo integral del agua está recogida en la Ley de Aguas y en el Reglamento del Dominio Público Hidráulico con la finalidad de evitar precipitaciones en forma de granizo o pedrisco que causen daños.

En los llanos del Marquesado y otras zonas limítrofes como Guadix, Gor, Los Montes Orientales y río Nacimiento, Almería, una extensión de terrenos cultivables que abarca más de 30.000 hectáreas, están acostumbradas al ruido de avionetas de baja altitud ocultas entre las nubes cuando hay aviso de tormenta, “y es un hecho que desde hace cinco años allí no cae apenas agua”, relata el presidente provincial de Asaja, Manuel del Pino.

En esa zona, el cultivo del cereal ha desaparecido porque cosecha era cero e intentan salvar la actividad agrícola transformando las hectáreas baldías en almendro, más resistente y con mejores posibilidades técnicas de producción, y la ganadería extensiva también se resiente por la ausencia de pastos. Son tierras áridas, pero con la intervención artificial en el régimen de lluvias que se está practicando en ellas, “legal o no”, se están desertizando aun más.

El vuelo de las avionetas ‘rompenubes’ fue detectado en el norte de la provincia de Granada a mediados de los años 90, en plena sequía. Su actividad se ha reanudado en los últimos cinco años. La denuncia de los agricultores ante la Guardia Civil no ha dado fruto porque no es obligatorio comunicar los vuelos a menos de 3.000 metros de altura y se trata, además, de una práctica permitida y regulada en las leyes españolas con la finalidad de evitar precipitaciones en forma de granizo o pedrisco que causen daños.

Asaja asegura que los gobiernos conocen esta práctica pero “no aclaran ciertas cuestiones, como de dónde proceden, quién está detrás y qué intereses se buscan, sean compañías de seguros que pretenden evitar indemnizaciones, grandes corporaciones que quieren proteger sus cultivos, empresas de energía solar, la industria farmacéutica o incluso temas de seguridad”.

How philosophy came to disdain the wisdom of oral cultures (AEON)

01 June 2016

Justin E H Smith is a professor of history and philosophy of science at the Université Paris Diderot – Paris 7. He writes frequently for The New York Times and Harper’s Magazine. His latest book is The Philosopher: A History in Six Types(2016).

Published in association with Princeton University Press, an Aeon Partner

Edited by Marina Benjamin

ESSAY: We learn more about our language by listening to the wolves

IDEA: Why science needs to break the spell of reductive materialism

VIDEO: Does the meaning of words rest in our private minds or in our shared experience?

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Ahron de Leeuw/Flickr

A poet, somewhere in Siberia, or the Balkans, or West Africa, some time in the past 60,000 years, recites thousands of memorised lines in the course of an evening. The lines are packed with fixed epithets and clichés. The bard is not concerned with originality, but with intonation and delivery: he or she is perfectly attuned to the circumstances of the day, and to the mood and expectations of his or her listeners.

If this were happening 6,000-plus years ago, the poet’s words would in no way have been anchored in visible signs, in text. For the vast majority of the time that human beings have been on Earth, words have had no worldly reality other than the sound made when they are spoken.

As the theorist Walter J Ong pointed out in Orality and Literacy: Technologizing the Word (1982), it is difficult, perhaps even impossible, now to imagine how differently language would have been experienced in a culture of ‘primary orality’. There would be nowhere to ‘look up a word’, no authoritative source telling us the shape the word ‘actually’ takes. There would be no way to affirm the word’s existence at all except by speaking it – and this necessary condition of survival is important for understanding the relatively repetitive nature of epic poetry. Say it over and over again, or it will slip away. In the absence of fixed, textual anchors for words, there would be a sharp sense that language is charged with power, almost magic: the idea that words, when spoken, can bring about new states of affairs in the world. They do not so much describe, as invoke.

As a consequence of the development of writing, first in the ancient Near East and soon after in Greece, old habits of thought began to die out, and certain other, previously latent, mental faculties began to express themselves. Words were now anchored and, though spellings could change from one generation to another, or one region to another, there were now physical traces that endured, which could be transmitted, consulted and pointed to in settling questions about the use or authority of spoken language.

Writing rapidly turned customs into laws, agreements into contracts, genealogical lore into history. In each case, what had once been fundamentally temporal and singular was transformed into something eternal (as in, ‘outside of time’) and general. Even the simple act of making everyday lists of common objects – an act impossible in a primary oral culture – was already a triumph of abstraction and systematisation. From here it was just one small step to what we now call ‘philosophy’.

Homer’s epic poetry, which originates in the same oral epic traditions as those of the Balkans or of West Africa, was written down, frozen, fixed, and from this it became ‘literature’. There are no arguments in the Iliad: much of what is said arises from metrical exigencies, the need to fill in a line with the right number of syllables, or from epithets whose function is largely mnemonic (and thus unnecessary when transferred into writing). Yet Homer would become an authority for early philosophers nonetheless: revealing truths about humanity not by argument or debate, but by declamation, now frozen into text.

Plato would express extreme concern about the role, if any, that poets should play in society. But he was not talking about poets as we think of them: he had in mind reciters, bards who incite emotions with living performances, invocations and channellings of absent persons and beings.

It is not orality that philosophy rejects, necessarily: Socrates himself rejected writing, identifying instead with a form of oral culture. Plato would also ensure the philosophical canonisation of his own mentor by writing down (how faithfully, we don’t know) what Socrates would have preferred to merely say, and so would have preferred to have lost to the wind. Arguably, it is in virtue of Plato’s recording that we might say, today, that Socrates was a philosopher.

Plato and Aristotle, both, were willing to learn from Homer, once he had been written down. And Socrates, though Plato still felt he had to write him down, was already engaged in a sort of activity very different from poetic recitation. This was dialectic: the structured, working-through of a question towards an end that has not been predetermined – even if this practice emerged indirectly from forms of reasoning only actualised with the advent of writing.

The freezing in text of dialectical reasoning, with a heavy admixture (however impure or problematic) of poetry, aphorism and myth, became the model for what, in the European tradition, was thought of as ‘philosophy’ for the next few millennia.

Why are these historical reflections important today? Because what is at stake is nothing less than our understanding of the scope and nature of philosophical enquiry.

The Italian philosopher of history Giambattista Vico wrote in his ScienzaNuova (1725): ‘the order of ideas must follow the order of institutions’. This order was, namely: ‘First the woods, then cultivated fields and huts, next little houses and villages, thence cities, finally academies and philosophers.’ It is implicit for Vico that the philosophers in these academies are not illiterate. The order of ideas is the order of the emergence of the technology of writing.

Within academic philosophy today, there is significant concern arising from how to make philosophy more ‘inclusive’, but no interest at all in questioning Vico’s order, in going back and recuperating what forms of thought might have been left behind in the woods and fields.

The groups ordinarily targeted by philosophy’s ‘inclusivity drive’ already dwell in the cities and share in literacy, even if discriminatory measures often block their full cultivation of it. No arguments are being made for the inclusion of people belonging to cultures that value other forms of knowledge: there are no efforts to recruit philosophers from among Inuit hunters or Hmong peasants.

The practical obstacles to such recruitment from a true cross-section of humanity are obvious. Were it to happen, the simple process of moving from traditional ways of life into academic institutions would at the same time dilute and transform the perspectives that are deserving of more attention. Irrespective of such unhappy outcomes, there is already substantial scholarship on these forms of thought accumulated in philosophy’s neighbouring disciplines – notably history, anthropology, and world literatures – to which philosophers already have access. It’s a literature that could serve as a corrective to the foundational bias, present since the emergence of philosophy as a distinct activity.

As it happens, there are few members of primary oral cultures left in the world. And yet from a historical perspective the great bulk of human experience resides with them. There are, moreover, members of literate cultures, and subcultures, whose primary experience of language is oral, based in storytelling, not argumentation, and that is living and charged, not fixed and frozen. Plato saw these people as representing a lower, and more dangerous, use of language than the one worthy of philosophers.

Philosophers still tend to disdain, or at least to conceive as categorically different from their own speciality, the use of language deployed by bards and poets, whether from Siberia or the South Bronx. Again, this disdain leaves out the bulk of human experience. Until it is eradicated, the present talk of the ideal of inclusion will remain mere lip-service.

A New Origin Story for Dogs (The Atlantic)

 

June 2, 2016

The first domesticated animals may have been tamed twice.

Katie Salvi

ED YONG

Tens of thousands of years ago, before the internet, before the Industrial Revolution, before literature and mathematics, bronze and iron, before the advent of agriculture, early humans formed an unlikely partnership with another animal—the grey wolf. The fates of our two species became braided together. The wolves changed in body and temperament. Their skulls, teeth, and paws shrank. Their ears flopped. They gained a docile disposition, becoming both less frightening and less fearful. They learned to read the complex expressions that ripple across human faces. They turned into dogs.

Today, dogs are such familiar parts of our lives—our reputed best friends and subject of many a meme—that it’s easy to take them, and what they represent, for granted. Dogs were the first domesticated animals, and their barks heralded the Anthropocene. We raised puppies well before we raised kittens or chickens; before we herded cows, goats, pigs, and sheep; before we planted rice, wheat, barley, and corn; before we remade the world.

“Remove domestication from the human species, and there’s probably a couple of million of us on the planet, max,” says archaeologist and geneticist Greger Larson. “Instead, what do we have? Seven billion people, climate change, travel, innovation and everything. Domestication has influenced the entire earth. And dogs were the first.” For most of human history, “we’re not dissimilar to any other wild primate. We’re manipulating our environments, but not on a scale bigger than, say, a herd of African elephants. And then, we go into partnership with this group of wolves. They altered our relationship with the natural world.”

Larson wants to pin down their origins. He wants to know when, where, and how they were domesticated from wolves. But after decades of dogged effort, he and his fellow scientists are still arguing about the answers. They agree that all dogs, from low-slung corgis to towering mastiffs, are the tame descendants of wild ancestral wolves. But everything else is up for grabs.

Some say wolves were domesticated around 10,000 years ago, while others say 30,000. Some claim it happened in Europe, others in the Middle East, or East Asia. Some think early human hunter-gatherers actively tamed and bred wolves. Others say wolves domesticated themselves, by scavenging the carcasses left by human hunters, or loitering around campfires, growing tamer with each generation until they became permanent companions.

Dogs were domesticated so long ago, and have cross-bred so often with wolves and each other, that their genes are like “a completely homogenous bowl of soup,” Larson tells me, in his office at the University of Oxford. “Somebody goes: what ingredients were added, in what proportion and in what order, to make that soup?” He shrugs his shoulders. “The patterns we see could have been created by 17 different narrative scenarios, and we have no way of discriminating between them.”

The only way of doing so is to look into the past. Larson, who is fast-talking, eminently likable, and grounded in both archaeology and genetics, has been gathering fossils and collaborators in an attempt to yank the DNA out of as many dog and wolf fossils as he can. Those sequences will show exactly how the ancient canines relate to each other and to modern pooches. They’re the field’s best hope for getting firm answers to questions that have hounded them for decades.

And already, they have yielded a surprising discovery that could radically reframe the debate around dog domestication, so that the big question is no longer when it happened, or where, but how many times.

*    *   *

On the eastern edge of Ireland lies Newgrange, a 4,800-year-old monument that predates Stonehenge and the pyramids of Giza. Beneath its large circular mound and within its underground chambers lie many fragments of animal bones. And among those fragments, Dan Bradley from Trinity College Dublin found the petrous bone of a dog.

Press your finger behind your ear. That’s the petrous. It’s a bulbous knob of very dense bone that’s exceptionally good at preserving DNA. If you try to pull DNA out of a fossil, most of it will come from contaminating microbes and just a few percent will come from the bone’s actual owner. But if you’ve got a petrous bone, that proportion can be as high as 80 percent. And indeed, Bradley found DNA galore within the bone, enough to sequence the full genome of the long-dead dog.

Larson and his colleague Laurent Frantz then compared the Newgrange sequences with those of almost 700 modern dogs, and built a family tree that revealed the relationships between these individuals. To their surprise, that tree had an obvious fork in its trunk—a deep divide between two doggie dynasties. One includes all the dogs from eastern Eurasia, such as Shar Peis and Tibetan mastiffs. The other includes all the western Eurasian breeds, and the Newgrange dog.

The genomes of the dogs from the western branch suggest that they went through a population bottleneck—a dramatic dwindling of numbers. Larson interprets this as evidence of a long migration. He thinks that the two dog lineages began as a single population in the east, before one branch broke off and headed west. This supports the idea that dogs were domesticated somewhere in China.

But there’s a critical twist.

The team calculated that the two dog dynasties split from each other between 6,400 and 14,000 years ago.  But the oldest dog fossils in both western and eastern Eurasia are older than that. Which means that when those eastern dogs migrated west into Europe, there were already dogs there.

To Larson, these details only make sense if dogs were domesticated twice.

Here’s the full story, as he sees it. Many thousands of years ago, somewhere in western Eurasia, humans domesticated grey wolves. The same thing happened independently, far away in the east. So, at this time, there were two distinct and geographically separated groups of dogs. Let’s call them Ancient Western and Ancient Eastern. Around the Bronze Age, some of the Ancient Eastern dogs migrated westward alongside their human partners, separating from their homebound peers and creating the deep split in Larson’s tree. Along their travels, these migrants encountered the indigenous Ancient Western dogs, mated with them (doggy style, presumably), and effectively replaced them.

Today’s eastern dogs are the descendants of the Ancient Eastern ones. But today’s western dogs (and the Newgrange one) trace most of their ancestry to the Ancient Eastern migrants. Less than 10 percent comes from the Ancient Western dogs, which have since gone extinct.

This is a bold story for Larson to endorse, not least because he himself has come down hard on other papers suggesting that cows, sheep, or other species were domesticated twice. “Any claims for more than one need to be substantially backed up by a lot of evidence,” he says. “Pigs were clearly domesticated in Anatolia and in East Asia. Everything else is once.” Well, except maybe dogs.

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Katie Salvi

Other canine genetics experts think that Larson’s barking up the wrong tree. “I’m somewhat underwhelmed, since it’s based on a single specimen,” says Bob Wayne from the University of California, Los Angeles. He buys that there’s a deep genetic division between modern dogs. But, it’s still possible that dogs were domesticated just once, creating a large, widespread, interbreeding population that only later resolved into two distinct lineages.

In 2013, Wayne’s team compared the mitochondrial genomes (small rings of DNA that sit outside the main set) of 126 modern dogs and wolves, and 18 fossils. They concluded that dogs were domesticated somewhere in Europe or western Siberia, between 18,800 and 32,100 years ago. And genes aside, “the density of fossils from Europe tells us something,” says Wayne. “There are many things that look like dogs, and nothing quite like that in east Asia.”

Peter Savolainen from the KTH Royal Institute of Technology in Stockholm disagrees. By comparing the full genomes of 58 modern wolves and dogs, his team has shown that dogs in southern China are the most genetically diverse in the world. They must have originated there around 33,000 years ago, he says, before a subset of them migrated west 18,000 years later.

That’s essentially the same story that Larson is telling. The key difference is that Savolainen doesn’t buy the existence of an independently domesticated group of western dogs. “That’s stretching the data very much,” he says. Those Ancient Western dogs might have just been wolves, he says. Or perhaps they were an even earlier group of migrants from the east. “I think the picture must seem a bit chaotic,” he says understatedly. “But for me, it’s pretty clear. It must have happened in southern East Asia. You can’t interpret it any other way.”

Except, you totally can. Wayne does (“I’m certainly less dogmatic than Peter,” he says). Adam Boyko from Cornell University does, too: after studying the genes of village dogs—free-ranging mutts that live near human settlements—he argued for a single domestication in Central Asia, somewhere near India or Nepal. And clearly, Larson does as well.

Larson adds that his gene-focused peers are ignoring one crucial line of evidence—bones. If dogs originated just once, there should be a neat gradient of fossils with the oldest ones at the center of domestication and the youngest ones far away from it. That’s not what we have. Instead, archaeologists have found 15,000-year-old dog fossils in western Europe, 12,500-year-old ones in east Asia, and nothing older than 8,000 years in between.

“If we’re wrong, then how on earth do you explain the archaeological data?” says Larson. “Did dogs jump from East Asia to Western Europe in a week, and then go all the way back 4,000 years later?” No. A dual domestication makes more sense. Mietje Genompré, an archaeologist from the Royal Belgian Institute of Natural Sciences, agrees that the bones support Larson’s idea. “For me, it’s very convincing,” she says.

But even Larson is hedging his bets. When I ask him how strong his evidence is, he says, “Like, put a number on it? If was being bold, I’d say it’s a 7 out of 10. We lack the smoking gun.”

Why is this is so hard? Of all the problems that scientists struggle with, why has the origin of dogs been such a bitch to solve?

For starters, the timing is hard to pin down because no one knows exactly how fast dog genomes change. That pace—the mutation rate—underpins a lot of genetic studies. It allows scientists to compare modern dogs and ask: How long ago must these lineages have diverged in order to build up this many differences in their genes? And since individual teams use mutation rate estimates that are wildly different, it’s no wonder they’ve arrive at conflicting answers.

Regardless of the exact date, it’s clear that over thousands of years, dogs have mated with each other, cross-bred with wolves, travelled over the world, and been deliberately bred by humans. The resulting ebb and flow of genes has turned their history into a muddy, turbid mess—the homogeneous soup that Larson envisages.

Wolves provide no clarity. Grey wolves used to live across the entire Northern Hemisphere, so they could have potentially been domesticated anywhere within that vast range (although North America is certainly out). What’s more, genetic studies tell us that no living group of wolves is more closely related to dogs than any other, which means that the wolves that originally gave rise to dogs are now extinct. Sequencing living wolves and dogs will never truly reveal their shrouded past; it’d be, as Larson says, like trying to solve a crime when the culprit isn’t even on the list of suspects.

“The only way to know for sure is to go back in time,” he adds.

*    *   *

Katie Salvi

The study informally known as the Big Dog Project was born of frustration. Back in 2011, Larson was working hard on the origin of domestic pigs, and became annoyed that scientists studying dogs were getting less rigorous papers in more prestigious journals, simply because their subjects were that much more charismatic and media-friendly. So he called up his longstanding collaborator Keith Dobney. “Through gritted teeth, I said: We’re fucking doing dogs. And he said: I’m in.”

Right from the start, the duo realized that studying living dogs would never settle the great domestication debate. The only way to do that was to sequence ancient DNA from fossil dogs and wolves, throughout their range and at different points in history. While other scientists were studying the soup of dog genetics by tasting the finished product, Larson would reach back in time to taste it at every step of its creation, allowing him to definitively reconstruct the entire recipe.

In recent decades, scientists have become increasingly successful at extracting and sequencing strands of DNA from fossils. This ancient DNA has done wonders for our understanding of our own evolution. It showed, for example, how Europe was colonized 40,000 years ago by hunter-gatherers moving up from Africa, then 8,000 years ago by Middle Eastern farmers, and 5,000 years ago by horse-riding herders from the Russian steppes. “Everyone in Europe today is a blend of those three populations,” says Larson, who hopes to parse the dog genome in the same way, by slicing it into its constituent ingredients.

Larson originally envisaged a small project—just him and Dobney analyzing a few fossils. But he got more funding, collaborators, and samples than he expected. “It just kind of metastasized out of all proportion,” he says. He and his colleagues would travel the world, drilling into fossils and carting chips of bone back to Oxford. They went to museums and private collections. (“There was a guy up in York who had a ton of stuff in his garage.”) They grabbed bones from archaeological sites.

The pieces of bone come back to a facility in Oxford called the Palaeo-BARN—the Palaeogenomics and Bioarchaeology Research Network. When I toured the facility with Larson, we wore white overalls, surgical masks, oversoles, and purple gloves, to keep our DNA (and that of our skin microbes) away from the precious fossil samples. Larson called them ‘spacesuits.’ I was thinking ‘thrift-store ninja.’

In one room, the team shoves pieces of bone into a machine that pounds it with a small ball bearing, turning solid shards into fine powder. They then send the powder through a gauntlet of chemicals and filters to pull out the DNA and get rid of everything else. The result is a tiny drop of liquid that contains the genetic essence of a long-dead dog or wolf. Larson’s freezer contains 1,500 such drops, and many more are on the way. “It’s truly fantastic the kind of data that he has gathered,” says Savolainen.

True to his roots in archaeology, Larson isn’t ignoring the bones. His team photographed the skulls of some 7,000 prehistoric dogs and wolves at 220 angles each, and rebuilt them in virtual space. They can use a technique called geometric morphometrics to see how different features on the skulls have evolved over time.

The two lines of evidence—DNA and bones—should either support or refute the double domestication idea. It will also help to clear some confusion over a few peculiar fossils, such as a 36,000 year old skull from Goyet cave in Belgium. Genompré thinks it’s a primitive dog. “It falls outside the variability of wolves: it’s smaller and the snout is different,” she says. Others say it’s too dissimilar to modern dogs. Wayne has suggested that it represents an aborted attempt at domestication—a line of dogs that didn’t contribute to modern populations and is now extinct.

Maybe the Goyet hound was part of Larson’s hypothetical Ancient Western group, domesticated shortly after modern humans arrived in Europe. Maybe it represented yet another separate flirtation with domestication. All of these options are on the table, and Larson thinks he has the data to tell them apart. “We can start putting numbers on the difference between dogs and wolves,” he says. “We can say this is what all the wolves at this time period look like; does the Goyet material fall within that realm, or does it look like dogs from later on?”

Larson hopes to have the first big answers within six to twelve months. “I think it’ll clearly show that some things can’t be right, and will narrow down the number of hypotheses,” says Boyko. “It may narrow it down to one but I’m not holding my breath on that.” Wayne is more optimistic. “Ancient DNA will provide much more definitive data than we had in the past,” he says. “[Larson] convinced everyone of that. He’s a great diplomat.”

Indeed, beyond accumulating DNA and virtual skulls, Larson’s greatest skill is in gathering collaborators. In 2013, he rounded up as many dog researchers as he could and flew them to Aberdeen, so he could get them talking. “I won’t say there was no tension,” he says. “You go into a room with someone who has written something that sort of implies you aren’t doing very good science… there will be tension. But it went away very quickly. And, frankly: alcohol.”

“Everyone was like: You know what? If I’m completely wrong and I have to eat crow on this, I don’t give a shit. I just want to know.”

The Value of a Gorilla vs. a Human (Huff Post Green)

 05/31/2016 05:11 pm ET

Bron Taylor

Author, ‘Dark Green Religion: Nature Spirituality and the Planetary Future’

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An individual gorilla is more valuable than an individual human being.

What is your response to that statement?

I have seen no such argument in response to the death of Harambe, the Western Lowland Gorilla who was shot on 28 May at the Cincinnati Zoo. Zookeepers understandably feared for the life of a child who entered his enclosure. The incident has created furor.

Mainstream media depicted the shooting as a tragic necessity because the child was at risk of grievous harm or death. Whether implicitly felt or explicitly stated, the assumption was that the life of this child was more valuable than the life of this gorilla.

This was the view of Jack Hannah, the well-known conservationist and former director of the Columbus Zoo. In a host of interviews he clearly stated that the decision to kill Harambe was an easy call because every human life is more valuable than any animal life.

For her part, the child’s mother, after insisting that she is a responsible parent, asserted on Facebook, “God protected my child until the authorities were able to get to him.” Then she thanked those who saved her son and “most importantly God for being the awsome (sic) God that he is.” She apparently believed that God had intervened, even at the price of the Gorilla’s life.

She did not explain why God did not elect to protect her son by more peaceful means, such as, by preventing him from climbing into the enclosure.

In contrast, a host of critics was outraged by the killing and what they considered the mother’s negligence.

Especially upset were animal rights proponents, who base the value of animals on emotional, or cognitive traits they are believed to share with us, or on their capacity to suffer. For them, the great apes, our closest biological cousins, have rights that deserve respect, foremost, the right to life.

But I could find no one making a reasoned argument that this gorilla’s life was more valuable than that of this human child.

Some environmental philosophers and scientists, however, contend that an individual member of an endangered species is more valuable than an individual human being. Or, as conservation biologist Reed Noss put it to me recently, the value of an individual decreases proportionately with the size of its population.

Such arguments are premised upon an understanding that the viability of a species is associated with the variety of genes in its population: With few exceptions, the greater its genetic diversity the greater will be a species’ resilience in the face of diseases or environmental threats. But the smaller the population is, the higher is the risk of extinction. Consequently, every individual matters.

So, if one starts from an ethical claim that humanity ought not drive other species off the planet, and add scientific understandings about the value of an individual organism to the viability of its species, an endangered animal such as Harambe could be considered more valuable than one that is not valuable in this way.

The argument is as worth pondering . . . and so are our reactions to it.

Our reactions to the value of humans and other animals are typically shaped by culturally deep religious roots.

Put simply, most large human civilizations have religious roots and strong constituencies, which either view humans as a special creation of God, or consider humans to have become the highest and most valuable life forms by leading meritorious past lives.

Whatever ground for felt ethical obligations toward non-human organisms there might be given such premises, when push comes to shove, human lives come first.

In contemporary environmental philosophy, such views are termed anthropocentrism or literally, human-centered ethics.

That is a nice way of putting it.

But it is really the ideology of human supremacy.

Harambe’s demise may not provide a perfect fit for considering the proposition with which I began my provocation. The Zoo had frozen semen taken from him because it is part an international consortium that understands the importance of genetic diversity for efforts to save endangered species. Moreover, Western Lowland Gorillas have more habitat and greater numbers than great apes that are on the very brink of extinction.

But Harambe may have a greater conservation legacy than his genes being posthumously passed on through an endangered species breeding program. Hopefully, this tragic event will increase public awareness of the accelerating extinction crisis and the importance of preserving habitat for wild Gorillas, and protecting endangered species in captive breeding programs.

And perhaps, this case will help those who are skeptical of the religious ideas that undergird human supremacy to leave them behind, once and for all.

It may be that corresponding conservation policies and efforts would follow is such a value transformation spreads.

Indeed, there are signs just such a transformation is under way. It can be seen in the work of Dian Fossey who risked her life and was killed while trying to protect endangered Gorillas, and as rangers are empowered by law to use lethal force against poachers. So, we have examples where the lives of endangered species are considered to be more valuable than at least some human lives.

I hope that zoos will soon, and universally, be on the leading edge of this transformation, rather than reinforcing ancient and self-serving human conceits.

Fenômenos naturais deslocaram 19,2 milhões de pessoas em 2015, alerta escritório da ONU (ONU)

JC 5423, 24 de maio de 2016

Número representa quase 70% do total de deslocados internos do mundo registrado em 2015

Fenômenos naturais forçaram 19,2 milhões de pessoas a abandonarem seus lares em 2015. O contingente representa quase 70% do total de deslocados internos – 27,8 milhões – que se viram obrigados a fugir dos lugares onde moravam por conta de conflitos, violência ou desastres naturais ao longo do ano passado.

Os números foram divulgados na semana passada (12) pelo Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR) em relatório que apresenta um panorama do deslocamento interno global e de suas causas.

O documento alerta para os fatores de risco de desastres associados a processos lentos de alteração ambiental, tais como secas, elevação do nível do mar e desertificação — fenômenos provocados pelas transformações do clima. Ameaças climáticas foram responsáveis por 14,7 milhões de deslocamentos.

“A maioria dos deslocamentos ocasionados por desastres naturais ocorreu devido a eventos climáticos extremos, que aconteceram em um ano com um número recorde de secas, inundações e grandes tempestades tropicais”, continuou Glasser, lembrando que grande parte disso foi causada por um forte El Niño registrado em meio a mudanças climáticas cada vez mais maiores.

Para Glasser, diante desse cenário, é necessário o desenvolvimento de um sistema capaz de melhorar a gestão de risco de desastres a nível local, a fim de evitar o deslocamento de pessoas nesta escala.

“Isso significa melhorar alertas precoces, proporcionar habitação de baixo custo em locais seguros e fazer todo o possível para reduzir o número de pessoas afetadas por catástrofes, segundo o que foi acordado pelos Estados-membros no Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres, no ano passado”, ressaltou.

O Marco é um plano global para reduzir as ameaças de catástrofe adotado pelos Estados-membros das Nações Unidas em 2015, durante uma conferência mundial em Sendai, no Japão.

O acordo estabelece metas para a redução da mortalidade relacionada a desastres, assim como para a diminuição do número de pessoas afetadas, dos danos à infraestrutura e das perdas econômicas.

ONU

Mudanças climáticas podem levar à exclusão de espécies arbóreas em áreas úmidas (INPA)

JC 5423, 24 de maio de 2016

Alterações na composição de espécies vegetais poderão trazer implicações para toda a cadeia alimentar, incluindo o homem

Cheias e secas extremas e subsequentes, como essas que os rios da Amazônia vêm sofrendo nas duas últimas décadas, podem levar à exclusão de espécies de árvores e à colonização por outras espécies menos tolerantes à inundação.

É o que apontam estudos desenvolvidos por pesquisadores associados ao Grupo Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Maua) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), em Manaus, que participa, desde 2013, do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (Peld), por meio do Peld-Maua.

Durante a década de 1970, por exemplo, os níveis máximos anuais do rio Negro ficaram alguns metros acima do valor médio da enchente, e a descida das águas não foi intensa, resultando na inundação de várias populações de plantas durante anos consecutivos. Isso causou a exclusão de muitas espécies arbustivas e arbóreas nas baixas topografias de igapós na região da Amazônia Central, como é o caso de macacarecuia (Eschweilera tenuifolia).

“Acredita-se que esses fenômenos podem ser consequência das mudanças climáticas em curso, mas podem também derivar de variações naturais do ciclo hidrológico. Os estudos realizados no âmbito do Peld-Maua visam confirmar a origem desses fenômenos utilizando informações sobre o crescimento da vegetação”, adianta a coordenadora do Peld-Maua, a pesquisadora do Inpa Maria Teresa Fernandez Piedade.

Anos de secas ou cheias consecutivas podem ultrapassar a capacidade adaptativa das espécies de árvores, especialmente de populações estabelecidas nos extremos do ótimo de distribuição no gradiente inundável (composição de diferentes níveis de inundação a que estão sujeitas as áreas alagáveis).

Segundo Piedade, como a vegetação sustenta a fauna desses ambientes, mudanças na composição de espécies vegetais poderão trazer implicações para toda a cadeia alimentar, incluindo o homem. “A vegetação arbórea das áreas alagáveis amazônicas é bem adaptada à dinâmica anual de cheias e vazantes”, destaca a pesquisadora.

Para ela, determinar o grau de tolerância a períodos extremos das espécies de árvores desses ambientes e de sua fauna associada, como os peixes e roedores, e conhecer sua reação com a dinâmica de alternância entre fases inundadas e não inundadas normais e extremas é um grande desafio e se constitui na base para seu uso sustentável e preservação.

Segundo Piedade, as áreas úmidas (várzeas, igapós, buritizais e outros tipos) cobrem cerca de 30% da região amazônica e são de fundamental importância ecológica e econômica. Ela explica que na várzea, múltiplas atividades econômicas são tradicionalmente desenvolvidas, como a pesca e a agricultura familiar, enquanto que nos igapós, por serem mais pobres em nutrientes e em espécies de plantas e animais, menos atividades econômicas são praticadas. Já nas campinas/campinaranas alagáveis essas atividades são ainda mais reduzidas.

“A ecologia, o funcionamento e as limitações para determinadas práticas econômicas nas várzeas são bastante conhecidas, mas nos igapós de água pretas e nas campinas/campinaranas alagáveis tais aspectos ainda são pouco estudados”, diz Piedade. “Embora se saiba que esses ambientes são frágeis, aumentar e disponibilizar informações sobre eles é fundamental”, acrescenta.

Peld-Mauá

Com o título “Monitoramento e modelagem de dois grandes ecossistemas de áreas úmidas amazônicas em cenários de mudanças climáticas”, o Peld-Maua é um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e também conta com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Insere-se no plano de ação “Ciência, Tecnologia e Inovação para Natureza e Clima”, do MCTI.

O Programa Peld foca no estabelecimento de sítios de pesquisa permanentes em diversos ecossistemas do País, integrados em redes para o desenvolvimento e o acompanhamento de pesquisas ecológicas de longa duração. Atualmente, existem 31 sítios de pesquisa vigentes.

O Peld-Maua é gerenciado pelo Inpa, em Manaus. Tem como vice-coordenador o pesquisador do Inpa, Jochen Schöngart; e como coordenador do Banco de Dados o pesquisador Florian Wittmann, do Departamento de Biogeoquímica do Instituto Max-Planck de Química, com sede em Mainz, na Alemanha.

A coordenadora do Peld-Maua explica que as atividades tiveram início há três anos. “Na primeira fase, que será completada agora em 2016, o Peld-Maua priorizou estudos em um ambiente de igapó e outro de campinarana alagável, mas espera-se que os estudos tenham continuidade e sejam expandidos para outras tipologias alagáveis amazônicas”, diz Piedade.

O Peld-Maua desenvolve estudos nas áreas de inundação das florestas de igapó no Parque Nacional do Jaú (Parna Jaú) – Unidade de Conservação localizada entre os municípios de Novo Airão e Barcelos, no Amazonas –, e ao longo dos gradientes de profundidade do lençol freático das florestas de campinas/campinaranas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, situada entre os municípios de São Sebastião do Uatumã e Itapiranga, também no Amazonas.

Conforme Piedade, diante da conectividade entre os ambientes alagáveis e as formações contíguas de terra-firme ou outras, os sítios de estudos foram escolhidos em ambientes onde os gradientes podem ser também avaliados. “Isso aumenta as possibilidades de trabalhos comparativos”, ressalta.

O Peld-Maua tem por objetivo relacionar a estrutura, composição florística e dinâmica de plantas que produzem sementes (fanerógamas) de dois ecossistemas de áreas úmidas na Amazônia Central com fatores do solo e da disponibilidade de água (hidro-edáficos), por meio do monitoramento em longo prazo para entender possíveis impactos e respostas da vegetação frente a mudanças dos regimes pluviométricos e hidrológicos.

O programa, até o momento, já permitiu a realização de cinco dissertações de mestrado e uma tese de doutorado. Além dos estudos já finalizados, estão em andamento dois pós-doutorados, seis doutorados e quatro mestrados. Quanto à formação de pessoal, dois bolsistas do Programa de Capacitação Institucional (PCI) concluíram suas atividades e dois estão realizando seus projetos, e dois bolsistas do programa de Bolsa de Fomento ao Desenvolvimento Tecnológico (DTI) e dois Pibic’s realizaram seus projetos junto ao Peld-Maua.

Inpa

À espera de Francisco. A peleja da água (O Povo)

Por Fátima Sudário

Este especial À espera de Francisco é mais uma investida do O POVO na grande reportagem e num tema muito caro a todos nós: a água, uma eterna peleja, elemento vital na formação das nossas identidades e das nossas diferenças. Revisitar o tema, portanto, é missão, especialmente em momento tão delicado da vida nacional, com as indefinições que deixam interrogações sobre o futuro de uma obra como a da transposição do Rio São Francisco.

O projeto é polêmico. Sua própria história dá conta disso. Virou dois séculos, demorou a sair da intenção, virar plano, entrar no papel, começar, parar e, de novo, começar. Atravessou governos, interesses políticos, questões ambientais e, principalmente, a profunda insegurança hídrica que desestabiliza a região, leva vidas, ameaça culturas, quebra a economia e finda sonhos de desenvolvimento.

Mas está aí. Ao curso de muitas secas – esta que vivemos já dura cinco anos – a obra gigantesca, com seus túneis, elevatórias, cânions, canais e reservatórios, e um custo de R$ 8,5 bilhões, já está 85,3% concluída. A água é esperada para o fim do ano. Enquanto isso, o cenário afetivo, econômico, social e cultural da região sul do Ceará transformase. Tem lamento por uma memória levada, mas tem a esperança que só a água é capaz de acender nesta gente.

Para mostrar a quantas anda essa espera por águas do São Francisco, os repórteres Cláudio Ribeiro e Fábio Lima e o motorista José Maia Rodrigues pegaram a estrada. Percorreram 2 mil quilômetros do Eixo Norte da obra, pelos municípios de Cabrobó e Salgueiro, em Pernambuco, Jati, Brejo Santo e Mauriti, no Ceará. Mostram não só a construção de concreto, mas as outras construções simbólicas em curso. A dona Edileuza e o seu Zilvan contam, admirados, das flores que plantam. Seu Lu Narciso sonha. Quer voltar a plantar uva. “Espero só a água”. São narrativas que O POVO desenha nestas páginas, na web, no rádio e na tevê. Porque vale a pena saber de tudo isso. Em todas as linguagens.

Etnografias

Por Cláudio Ribeiro

O POVO mantém seu mergulho jornalístico pela etnografia do sertão. Reportando dificuldades e esperanças de um polígono seco de água no chão, mas vivo de se saber refazer. Repórteres do O POVO já percorreram a zona ribeira do São Francisco. Os especiais São Francisco – Vida para o Semiárido, em 2000, e Pelas Águas do Velho Chico, em 2006, trataram da expectativa de um projeto secular que nunca avançava sertão adentro. Transpor o rio era uma possibilidade distante. Em 2013, ainda o segundo ano desta mesma grande seca de meia década que estamos passando, foi publicado/postado o especial A Peleja da Água. A crise hídrica exigindo soluções. Agora À Espera de Francisco mostra o caminho da água no Nordeste redesenhado. O improvável está prestes a acontecer. Os canais do São Francisco regando sertões, desfazendo sofrimento e sede.

Editorial Gráfico

Vias de Água

Por Gil Dicelli 

Os destinos do Velho Chico se abrem a novos sertões. Esperança e dúvidas pelas margens do Semiáriado. No projeto gráfico, o papel rasgado sugere as hidrovias da transposição, cavadas ao longo de cerca de 2 mil km. Atalhos que orientam a leitura, hierarquizando o conteúdo. Caracteres dos títulos também expandem territórios. Avança aqui e acolá uma letra. É como a água do rio que não abarca limites. Brutal e sinuosa, a tipografia escolhida sinaliza o itinerário do São Francisco. A diagramação é assimétrica, a malha de construção da página flui e se reinventa. Legendas das imagens são poças de informação rápida. E um infográfico de página dupla desenha a trajetória do rio e do repórter explicando, em imagem e texto, os detalhes da narrativa. Esse fiar de elementos gráficos faz a escrita visual que contribui para entrelaçar as vidas de Gracinha, Chico de Sinésio, Dedé de Leopoldo e seu Wilson. E de tantos outros. Todos à espera de Francisco.

Futuro

Por Cláudio Ribeiro

São Francisco já não é mais um rio caudaloso nem tão forte como descrito em livros e histórias antigas. Resiste, desde a nascente em Minas Gerais, passando por Bahia e Pernambuco até a foz entre Alagoas e Sergipe, mas está assoreado em vários trechos onde antes se navegava. O homem faz mau uso de seu leito. Um rio também tem sede de chuva. A seca de cinco anos no Nordeste o castiga. É esse o Francisco aguardado no projeto da transposição, feito os ditos da reza. Levar água onde houver o estio.

Até o fim deste ano – se os planos seguirem o planejado e a instabilidade política e econômica não atrapalhar –, a expectativa é que São Francisco encoste também pelo Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Por longos 477 km de canais, 14 aquedutos, quatro túneis perfurando serras, o rio transpondo relevos a partir de nove estações de bombeamento.

Serão 50 reservatórios abastecidos (27 deles construídos pelo projeto) nos quatro estados, pelos Eixos Norte e Leste. O Ceará terá 13 açudes (seis a inaugurar) para essa nova água. Entre eles o maior do Nordeste, o Castanhão, que atualmente está com apenas 9% de sua capacidade. Ele é a principal garantia hídrica para Fortaleza, hoje muito precisado de chuva e de um São Francisco.

A vazão média direcionada pelo rio será de 26 mil litros por segundo em períodos secos. O secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira, defende que já se possibilite dobrar essa vazão tão logo o projeto seja concluído. Explica que a necessidade já é maior do que quando o projeto foi pensado.

85,3% das obras da transposição estão concluídas. Ministério da integração nacional

A obra da transposição foi, outrora, tão somente uma possibilidade defendida no distante 1817 pelo então ouvidor do Crato, Antônio de Porbem Barbosa. Chegou a ser algo recomendado a estudos pelo rei de Portugal dom João VI, em abril de 1821. Despedindo- se do Brasil Colônia, deu a indicação ao príncipe regente, dom Pedro I. Ele deixou o assunto no esquecimento, à época mais preocupado com rebeldes da Confederação do Equador (1824). Dom Pedro II, mais disposto àquela novidade e afeito desenvolver as terras, em 1847, contratou o engenheiro
Henrique Guilherme Fernando Halfeld para o levantamento. Imagine que era tudo mais longe e penoso do que hoje, para percorrer o rio. Só em 1860, Halfeld se manifestou. Citou Cabrobó (PE) como possibilidade de saída de água para outras regiões. Sem tecnologia possível, a ideia hibernou, silenciou por anos.

A proposta ressurgiu com os generais Geisel e Figueiredo na ditadura militar, freqüentou os palanques de FHC, até que em 2007 foi iniciada na gestão Lula. As obras chegaram a parar em 2011, retomadas um ano depois.

Até dezembro

O Ministério da Integração Nacional, responsável pela execução do projeto, diz que foram contratados mais de 10 mil profissionais e há 3.800 máquinas operando 24 horas. É da mesma Cabrobó que agora parte o Eixo Norte, o lado da obra que alcança o Ceará – vai até Cajazeiras (PB). O Eixo Leste sai de Floresta (PE) até Monteiro (PB).

O investimento total bate R$ 8,2 bilhões. A inauguração é aguardada para o fim deste ano. “Para o Governo Federal, o Projeto de Integração do Rio São Francisco é uma prioridade. A obra está prevista para ser concluída até dezembro de 2016”. Foi o que respondeu o Ministério da Integração Nacional ao O POVO, ao ser questionado sobre qual a garantia financeira que o projeto tem diante da crise que atravessa o País – e se há algum risco de redimensionamento ou interrupção dos trabalhos. “Está prevista para chegar ao Ceará no último trimestre deste ano”, reforça o órgão.

As respostas vieram por email. No início de abril, O POVO tentou entrevistar o então ministro da Integração, Gilberto Occhi. No dia 14 de abril, sua exoneração foi assinada por Dilma. Na mesma data saiu publicada a nomeação do substituto, José Rodrigues Pinheiro Dória, indicação de Occhi, e que ainda naquele dia desistiu do cargo. No último dia 15, foi nomeado como interino o veterinário Josélio de Andrade Moura.

O Ministério atualizou que, pelos dados de 31 de março último, o projeto agora “está com 85,3% de conclusão”. A contar do que está posto, não deixar o São Francisco seguir o novo rumo será improvável.

Vídeos

Webdoc

Personagens

Professora Gracinha

A professora Gracinha (Maria das Graças Nunes Bezerra), 41, chora a tristeza do pai, Dezinho (Francisco Nunes dos Santos), 97. Ele teve que deixar o Sítio Torrões, em Brejo Santo, onde viveu por mais de 50 anos. É o lugar onde ela e os dez irmãos foram criados. Brincavam no curral, pulavam de árvores, mergulhavam no Riacho dos Porcos. O sítio foi desapropriado. O terreno está na área onde em breve existirá o açude Porcos, construído para as águas do rio São Francisco.

Além da tristeza, Gracinha tem outro também relacionado ao “novo” rio. Ela é diretora da Escola Maria Leite de Araújo, na localidade Poço do Pau, que é próxima a um dos canteiros de obras. Com cerca de 300 alunos, a escolinha obteve em 2013 as melhores notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dentre todas as escolas cearenses. Gracinha teme que o desempenho dos alunos em 2016 seja prejudicado. A barulheira de caminhões e tratores não para. Apesar do transtorno, Gracinha dá voto de confiança. “Que seja para melhorar a vida da gente, ajudar o agricultor da região”. Seu Dezinho não dá entrevista. Para não debulhar sua mágoa.

Zilvan e Edileuza

Moradores de lugarejos a serem encobertos pelo novo caminho d’água do São Francisco estão sendo remanejados para Vilas Produtivas Rurais (VPRs). Ganham casa nova de três quartos, água encanada, saneamento, escola e posto de saúde. E terão, quando a transposição começar a operar, mais um lote de quatro hectares para plantar. Uma das 31 famílias da VPR Retiro, em Penaforte (CE), é a de seu Zilvan Francisco da Silva, 49, e dona Maria Edileuza Santana, 48. O casal lembra de quando, até 2015, vivia com três filhos na casa de taipa, escondida na caatinga do distrito Atalho, em Brejo Santo. “Lá era bem insegura, a parede caindo”, diz Zilvan, voz encabulada. Dona Edileuza reforça: “Chão de barro, a casa tempo de cair em nós”. Os dois não se imaginavam mais num recomeço, nem a vinda de um rio para perto. “Nunca, nunca mesmo”. Foi sua resposta menos tímida. Edileuza descreveu um sonho: nunca teve um jardim. “Vivi e me criei lá. Era só mato. Hoje planto flor. A casa ficou mais bonita ainda”. chegar água nos canais e açudes da transposição, as famílias das VPRs serão assistidas com um salário e meio. Em breve poderão irrigar o plantio com o novo rio embrenhado em seu novo pedaço de terra.

Wilson Barbosa

O mecânico-montador Wilson Barbosa Vieira completa 65 anos em julho. Já deu entrada nos papéis na à Previdência. Em 3 de julho, dia seguinte ao aniversário, quer estar aposentado. Mas não parar. Gostaria de seguir nas obras da transposição, “se ainda me quiserem”. É um dos 10.242 profissionais contratados pelo projeto São Francisco. Quer continuar até o rio chegar ao Ceará. Ele é cearense de Redenção, mora em Fortaleza, atua em trechos da obra em Pernambuco desde o início de 2014. Vai em casa a cada três meses. Já passou por cinco canteiros, deve ir para o sexto ponto do Eixo Norte. “Comecei em Cabrobó. Tô vindo até aqui desde a beira do rio”. De lá pra cá, seu Wilson trabalhou em duas estações de bombeamento, dois reservatórios, ajudava a erguer uma ponte sobre a BR-232, em Salgueiro, quando O POVO o encontrou. Em breve deve ir para serviços na barragem Milagres. “No começo, achava que ia trabalhar numa obrazinha, que em um ano terminaria. Não pensei que fosse ficar desse tamanho”. Ele celebra a transposição. “Imagine a riqueza que vai ter nesse Nordeste, plantação de fruta, verdura. Vai ser uma beleza”, profetiza seu Wilson.

Lu Narciso

 

 

 

 

 

Eram nove sócios na cooperativa de Poço, em Brejo Santo. Em nove hectares. Plantavam dois tipos de uvas de mesa, a Itália e a benitaka. Vendiam para uma grande rede nacional de supermercados. “Chegamos a ter 12 safras entre 1992 e 1998”, conta Cícero Henrique Furtado, 45, um dos plantadores. Tiravam 110 toneladas por período de colheita. Outro dos sócios era José Narciso Filho, 66, desde menino conhecido como Lu Narciso (foto). “Cheguei a fazer cinco festas da uva. Até governador baixou aqui de helicóptero, veio ver nosso projeto”, relembra. O chão é fértil. Não era lugar de água farta, mas dois poços resguardavam o plantio. Onde eles moram é próximo da parede da barragem Porcos, construída no novo itinerário do São Francisco. Foi a chuva muito grande, em 1995, que estragou os parreirais. Uma safra bancava custos da safra seguinte. Mas o chuvoeiro fez a uva perder sabor. Eles perderam tudo. “Ainda temos a dívida daquela época”, diz Lu Narciso. Ele acredita que o rio pode inspirar e aguar novas perspectivas. “Ah, eu penso em plantar de novo, sim. Se ajudarem a gente, e com essa água aí, pode ser”. Mais cético, Henrique prefere esperar primeiro pelo rio.
Chico de Sinésio

 

Fala-se de tudo na Caldeira do Inferno. O bar é o mais antigo de Brejo Santo. Patrimônio local. Existe desde 1960 – antes era bodega, chamada Ponto Chique. O nome atual veio só a partir de 1970. “Foi ideia dos próprios clientes. Caldeira é justamente por se comentar todos os fatos acontecidos na cidade”. Entre goles, a transposição também entra nas conversas. A explicação, simples e precisa, sai do proprietário do bar, Francisco Gomes Feijó, 74. Ele é Francisco feito o rio que se aproxima, mas no Brejo só o conhecem como Chico de Sinésio. O pai era o Sinésio, dono de antiga barbearia que funcionou onde hoje está o bar. Seu Chico é simpatia toda hora, um detalhista de qualquer história dos frequentadores de seu balcão.E tem de monsenhor a mendigo. Serve cerveja, água, pinga, cigarro, mais boleros e músicas saudosas. Espalha o som pela praça gentilmente, sem nunca incomodar. A parede da Caldeira é ornada de presentes doados por muitas amizades. “ Essa transposição vai ser muito boa para o Brejo. Tá todo mundo só esperando esse momento de a água chegar. Que venha. Mesmo com essas enroladas todas, a obra tá andando”, diz. E estica o bigode branco noutro sorriso.

Dedé de Leopoldo

José Leopoldo Leite, 61, é Dedé de Leopoldo, figura popular em Mauriti (CE) e por cidades do roteiro de vaquejadas. No Nordeste, principalmente. Ganhou 36 carros, tem mais de 600 troféus conquistados. Fez história. Abraçou seu primeiro prêmio aos 14 anos, havia começado aos 12. Os torneios para derrubar boi, laçar, montar bichos brabos, são tradição no Cariri Sul. No sítio Quixabinha, onde moraram o avô e o pai, ainda mantém suas crias no curral. As projeto”, relembra. O chão é fértil. Não era lugar de água farta, mas dois poços resguardavam o plantio. Onde eles moram é próximo da parede da barragem Porcos, construída no novo itinerário do São Francisco. Foi a chuva muito grande, em 1995, que estragou os parreirais. Uma safra bancava custos da safra seguinte. Mas o chuvoeiro fez a uva perder sabor. Eles perderam tudo. “Ainda temos a dívida daquela época”, diz Lu Narciso. Ele acredita que o rio pode inspirar e aguar novas perspectivas. “Ah, eu penso em plantar de novo, sim. Se ajudarem a gente, e com essa água aí, pode ser”. Mais cético, Henrique prefere esperar primeiro pelo pelo rio terras, que se estendem por cerca de 50 hectares, serão atravessadas pelo São Francisco. A fazenda teve um trecho desapropriado para ser cortada por canais e aquedutos que trarão o rio. A casa da propriedade foi erguida 116 anos atrás. Dedé lamenta ao contar que ela também precisou se desocupada – conseguiu que não a demolissem. O canal passa por quase um quilômetro dentro das terras. O pai dele, Leopoldo Leite de Araújo Lima, morreu em agosto de 2015, aos 96 anos. Um ano antes teve que se mudar para a cidade. “Meu pai sentiu porque teve que sair. Vinha todo dia rever o sítio”. Dedé diz que o lençol freático que encharcava o chão do seu bananal foi embarreirado pelo canal. Mas não lamenta tanto. O São Francisco veio para dentro do Quixabinha.

  • Açude Castanhão. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Cabrobo. Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Cabrobo. Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Mauriti (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Mauriti (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)

Economia movida pela transposição

Desses dias incertos da República, a uma semana de trocar nomes e talvez prioridades na Presidência, já se vislumbram medidas para conter respingos a projetos como o da transposição do São Francisco e do Cinturão das Águas do Ceará (CAC). Um depende do outro: o Cinturão só avança e poderá ser útil se o canal da transposição chegar. Ambos só terão andamento com a garantia federal.

Pelo desenho financeiro operacional, é o Estado que executa a obra, dá sua contrapartida de recursos, mas com a União assegurando a maior parte da verba. O Ceará tenta se antecipar a um possível revés, em relação ao que lhe cabe no Cinturão das Águas. O secretário estadual dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, disse ao O POVO que está em negociação com o governo federal para a readequação do projeto.

O Cinturão está orçada em cerca de R$ 1,6 bilhão na primeira etapa – que se estende por 146 km de canais de Jati a Nova Olinda. Prevê-se que de lá a água do São Francisco siga pelo rio Cariús, chegue ao açude Orós e se emende no rio Jaguaribe até o Castanhão – descendo até Fortaleza e o porto do Pecém.

“Estamos trabalhando nos primeiros 40 km”, informa Teixeira. As águas do São Francisco só correrão pelas 12 bacias hidrográficas cearenses se o Cinturão for viabilizado. Estima-se que o projeto total do CAC, numa extensão final de canais de 1.300 km em cinco etapas, seja executado durante pelo menos uma década. Isso a prazos de hoje.

A transposição, pelo volume de recursos direcionados (mais de R$ 8,2 bilhões), não fugiu aos olhos da corrupção. Também esteve sob investigação da Polícia Federal. No fim de 2015, a operação Vidas Secas apontou um esquema de desvios de mais de R$ 200 milhões cometidos por empreiteiras – que já estavam citadas na operação Lava Jato. Das outras coisas que valem a pena celebrar da obra em si, uma das importantes é a economia movimentada no entorno das cidades onde os canteiros foram instalados. Em Salgueiro (PE), dos 36 apartamentos do hotel Mustang, 24 estão locados desde 2012 para operários da obra. Na pousada Talismã (18 apartamentos) no Sertão Hotel (20), na Pousada Imperador (10), todos os quartos estão há pelo menos três anos à disposição de funcionários das empreiteiras, segundo o gerente Vandel Vo, do Hotel Polo. “Foi assim na cidade toda. A obra tá terminando agora caiu um pouco, mas aqui sempre lotou”.

“Apesar de estarmos numa crise, é importante dizer que o canal do São Francisco
traz um momento muito bom. Brejo Santo vive uma efervescência econômica nesse período das obras. Muito dinheiro novo circulando aqui”, reforça Valmir Lucena, 74, expresidente da Câmara Municipal, atualmente no sexto mandato de vereador.

Lucena lembra de quando ainda estavam sendo colhidas as primeiras assinaturas para o projeto, no final dos anos 1990, e a dimensão que a obra tomou. “Você vê pela grandiosidade daquele túnel em Mauriti. Estive lá”, referindo ao Cuncás I, um dos quatro túneis ao longo da transposição. Com 15 km, é o maior túnel hidráulico da América Latina. Abençoado pelo encontro do São Francisco com outros santos da região: começa no distrito de São Miguel, em Mauriti (CE), atravessa por baixo a serra do Espírito Santo e, do outro lado, sai em São José de Piranhas, na Paraíba.

Prioridade e Investimento

Os usos e a gestão das águas da transposição do Rio São Francisco em nível estadual seguem indefinidos. Diante da estiagem de cinco anos consecutivos que assola o Ceará, a prioridade da outorga será para consumo humano e animal. No entanto, a agroindústria e agricultura familiar também serão beneficiadas. “A indústria busca alternativas, poços profundos. Há toda uma estrutura hídrica e com o abastecimento humano e animal isso pode melhorar”, avalia Bessa Júnior, presidente do Conselho Temático de Cadeias Produtivas e Agronegócios da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec).

Segundo ele, a preocupação do setor é com a agricultura familiar e o agronegócio em potencial. “São importantíssimos para o setor e estão sofrendo racionamento e a falta da maior capacidade de a água chegar a esses locais”, afirma.
Em meio à secura, comunidades localizadas às margens da obra veem a água passar e não podem utilizá-la.

Em apresentação das obras à comitiva formada por deputados estaduais do Ceará em abril deste ano, o coordenador geral do projeto de integração do rio São Francisco, Frederico Meira, demonstrou preocupação ao falar de casos de rompimento do canal em Pernambuco.

Ele reforçou a necessidade de segurança nos locais e afirmou que existem propostas de distribuição e utilização de águas individuas, mas é necessário que o Conselho Gestor da Transposição avalie caso a caso. O presidente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), João Lúcio Faria, afirmou que a chegada de águas da transposição para o abastecimento humano irá permitir que os reservatórios sejam utilizados para o incremento das atividades econômicas. Ele não definiu, no entanto, modelo de cobranças e nem administração em nível estadual. (Eduarda Talicy – eduardatalicy@opovo.com.br )

A obra é irreversível

Secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira lembra de debates técnicos de meados dos anos 2000, quando se definia qual volume de água deveria ser redirecionado do São Francisco para cada Estado receptor. Àquela época o Nordeste estava chuvoso, o rio não parecia urgente. Conta que o Ceará era visto como um Estado “com muita água” em 2004. Argumentava que a seca sempre voltava.

Teixeira foi secretário nacional de Infraestrutura Hídrica, entre 2012 e 2013, e ministro da Integração Nacional entre 2013 e 2014. Lidou com os momentos iniciais da obra diretamente. O cenário de estiagem voltou e ficou. “Nossa dependência do rio poderá ser maior”.
Ele não quer contar com a água antes de ela chegar. Acha que o impeachment da presidente Dilma pode atrapalhar a obra. Teixeira não desconsidera que o Cinturão das Águas do Ceará – 27% executado – possa ser afetado por corte de recursos federais. Teme que isso aconteça. É o Cinturão que permitirá a distribuição da água do São Francisco pelo Ceará. (Cláudio Ribeiro)

O POVO – Qual é hoje a necessidade do Ceará em relação à água que virá do São Francisco?
Francisco Teixeira – A oferta hídrica tem grande sazonalidade, variação temporal muito grande. Se a gente pegar desde o início dos anos 90, quando se vem fazendo o gerenciamento da água, controlando estoque dos reservatórios, percebemos uma década difícil. Os dois maiores reservatórios da bacia do Jaguaribe, Banabuiú e Orós, quase esvaziaram em menos de dez anos. Nos anos 90, se você traçar uma linha média no nível dos reservatórios, encontrará durante mais de uma década os reservatórios variando entre 20% e 30%, na média.

OP – O senhor fala só de Orós e Banabuiú?
Teixeira – Tô falando deles (Orós e Banabuiú) com o sistema metropolitano (açudes Pacoti, Riachão, Gavião e Pacajus), que representam os maiores centros de demanda do Estado. Aí, quando chega o auge da discussão do São Francisco, naquele período chuvoso de 2004, os reservatórios apresentam uma inflexão, uma linha vertical, sobem e praticamente enchem. Chegam a quase 100%, até com o Castanhão nisso. Naquele momento se começou a discussão do projeto São Francisco. O pessoal de fora, que olhava nossa capacidade de reservação e o estoque que tínhamos, dizia “o Ceará tá com muita água”. A gente tinha que voltar ao passado pra mostrar os dois pontos da década anterior, onde o Ceará praticamente ficou sem água para grandes usos. No fim da chuva de 2011 estávamos com mais de 80% de reserva. Começamos 2012 com mais de 60%, sem recarga. No começo de 2013 eram 40%, no começo de 2014 eram 32%, o ano passado estávamos em janeiro com 20 e poucos por cento. E agora estamos com 13%. Aí você percebe como essa realidade é muito variável. O que é de novo que aparece? É que naquela época, quando se discutia o projeto do São Francisco, todo mundo sabia que, se olhando num horizonte mais a longo prazo, a necessidade das águas do rio era premente.

A obra do São Francisco chegou num ponto irreversível, e já há muito tempo

Francisco TexeiraSecretário de Recursos Hídricos do Ceará

OP – A obra parou em 2011.
Teixeira – Ela parou em 2011, retomou em 2012. Mas graças a Deus que não se mudou o porte da estrutura, a capacidade dos canais, das estações. Fez-se etapas de instalação de bombas, montagem de adutoras e células de aquedutos. O canal em terra, que é o grosso da obra, foi feito na dimensão pensada no final dos anos 90, início de 2000, que era de 99 m³/s no Eixo Norte e 28 m³/s no Eixo Leste. Porque já se imaginava naquela época que, na questão de água, o cenário de conforto poderia virar de déficit, se não houvesse planejamento. Defendo a tese de que, concluída essa etapa agora, se iria para uma fase imediata de instalar mais duas bombas em cada estação de bombeamento de cada canal. Ficar o Eixo Leste com a capacidade total de 28 m³/s e o Norte, pelo menos com 50 m³/s. Só precisaria comprar mais duas bombas para cada estação, instalar uma adutora a mais, o canal em terra construído e o aqueduto comportam 50 m³/s.

OP – O senhor defende a duplicação por que a necessidade é essa?
Teixeira – Defendo porque esta seca demonstrou uma realidade que a dependência nossa do rio São Francisco poderá ser bem maior do que pensávamos lá atrás. Chegou muito mais rápida até do que pensávamos antes, quando houve a discussão política, o debate técnico. Se tinha muito a discussão sobre a necessidade ou não do projeto. Hoje se discute que o projeto já deveria estar pronto, que tem que ser acelerado, e se discute a flexibilidade da outorga para trazer, de forma contínua, uma vazão até maior do que a estabelecida lá atrás.

OP – Qual é a previsão de chegada dessa água?
Teixeira – Se a água tivesse chegado, já estaria tendo serventia. Essa é uma obra muito complexa e por isso tem suas incertezas também. Na construção de canais, obras civis, túneis, linhas de transmissão, você se depara com problemas que o projeto às vezes não consegue detectar, é normal. Do ano passado pra cá, o pessoal preconizou uma data de julho. Sempre achei uma data mais factível, de setembro, outubro em diante. Mesmo assim aparecem coisas.

OP – Mas o Ceará trabalha com outubro?
Teixeira – É, mas nosso grupo de contingência, que acompanha a questão da seca, não trabalha com a certeza absoluta de que a água vai chegar este ano. Não estamos contando no nosso balanço hídrico com essa água para este ano, para nos salvar de qualquer situação que seja, de garantir água para Fortaleza, outras cidades. Chegando a água do São Francisco, é um adendo, um incremento. Não é que não acreditamos no São Francisco, mas por precaução a gente tem que pensar no cenário mais crítico. Inclusive o São Francisco não chegando.

OP – Para quando está previsto o Orós ser acionado para reforçar o abastecimento de Fortaleza?
Teixeira – Não tenho condições de dar essa resposta agora. Estamos atualizando nossas simulações. Tivemos aí um cenário nada diferente do que a Funceme preconizava. Eu, particularmente, esperava pior do que está acontecendo, principalmente no Interior. Algumas recargas de chuva no Interior nos permitiram um cenário melhor para o segundo semestre. Tínhamos de 50 a 60 cidades que poderiam entrar em colapso no ano passado, não entraram porque construímos mais de 1.200 poços, 200 km de adutora de montagem rápida, além de 600 que já haviam sido feitos. Com essa infraestrutura e chuvas que beneficiaram algumas localidades, acredito que vamos atravessar o segundo semestre no Interior melhor que no ano passado. Mas a situação do Vale do Jaguaribe e Região Metropolitana de Fortaleza vai exigir muito mais atenção e maior restrição ao uso do que no ano passado.

OP – Em quanto está a vazão do Orós e do Castanhão?
Teixeira – O Castanhão hoje está liberando 9 m³/s para o Eixão das Águas. Desses 9 m³/s, está chegando para Fortaleza de 7 a 7,5 m³/s. O resto fica para atender comunidades pelo caminho e um pouco para irrigação. E pelo rio estamos liberando em torno de 5 m³/s hoje. Mas chegamos a liberar zero, em alguns dias, e 2,5 m³/s. Quando o rio apresenta alguma água por causa da chuva, a gente vai lá e fecha. Do Orós, a vazão hoje liberada, em torno de 4 m³/s.

OP
 – O Orós vai mesmo precisar abastecer Fortaleza?
Teixeira – Um dos cenários nossos é que em abril ou maio a gente poderia liberar o Orós para dentro do Castanhão. Vamos ver se será em maio ou junho, com as simulações que estamos fazendo. Para ver, com o que temos hoje (de água), até quando podemos ir. Se ficar o tempo assim e não chover mais, vamos ainda no primeiro semestre acionar o Orós para dentro do Castanhão.

OP – A obra do Cinturão das Águas está em quantos por cento?
Teixeira – Está com algo em torno de 27%. Estamos trabalhando só um lote. São 146 km (primeiro trecho), estamos trabalhando os primeiros 40 km. Vamos ver aí como fica nesse novo cenário político.

OP – A partir da possibilidade do impeachment, qual o seu temor em relação à transposição?
Teixeira – Acho que a obra do São Francisco chegou num ponto que é irreversível, já é há muito tempo. Eu diria que a conclusão dela é irreversível. Precisaria haver um comportamento político totalmente insano para mandar parar uma obra dessas. Não é possível que essas lideranças que aprovaram o impeachment, e ele se concretizando no Senado, não vão ter a responsabilidade de forçar o possível novo governo a concluir o mais rápido possível a obra.

OP – O senhor está preocupado com as obras do Cinturão das Águas do Ceará (CAC)?
Teixeira – Eu tenho mais preocupação com o CAC porque é uma obra delegada, é obra do Governo Federal, do Ministério da Integração. O São Francisco, o Ministério é que conduz. Ao contrário das outras obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), que são delegadas. E, num cenário de restrição econômica que vivemos e imagino que será maior, aí na hora dos cortes não sei como vai ser. O CAC é uma obra associada ao projeto de integração do São Francisco, vai dar maior capilaridade à água do São Francisco no Interior do Estado. É importante em função disso, mas na hora dos cortes de recursos que um possível novo governo venha fazer, eu tenho medo.

OP – Como está sendo o repasse de recursos para o Cinturão das Águas?
Teixeira – A gente vinha recebendo cerca de R$ 10 milhões por mês. Só no ano passado, mesmo com toda dificuldade, investimos no Cinturão R$ 200 milhões. Foram R$ 140 milhões da União e R$ 60 milhões do Estado. Este ano nós temos R$ 150 milhões de previsão, já vieram quase R$ 40 milhões de verba federal. Viria até mais que no ano passado. É emenda de bancada, aprovada, já está desbloqueada. E o Estado tem uma previsão de botar mais R$ 60 milhões. A gente pretende que não haja percalço.

Água dos velhos sertões

A pequena barragem Arapuá-Angicos, no Rio Grande do Norte, capaz de armazenar pouco mais de 4 milhões de m³, é de 1920. É a mais antiga de todo o trajeto a ser percorrido pelo novo rio do sertão setentrional. Em seu itinerário redesenhado pela engenharia do século XXI, São Francisco também encontrará caminhos d’água do passado. O açude Lima Campos, em Icó, no Ceará, foi feito de abril a dezembro de 1932. Havia flagelo, fome, doenças, campos de concentração, mais uma seca molestando bicho e gente. O Estado pelejava por água.
Na Paraíba, o reservatório São Gonçalo tem quase a mesma idade do Lima Campos, é de 1936. A estiagem era igualmente cruel, a mesma região do Polígono das Secas. Em Pernambuco, o açude Curema foi concluído em 1942, quando o atual Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), gestor das águas da República, ainda era chamado de Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.

São paredes de concreto ou areia que barram águas há tempos. Esses quatro e mais 17 açudes serão recuperados, reforçados, adaptados à presença do São Francisco. O rio encherá esses velhos sertões com água nova e a reforma será necessária. O projeto de adequação dos antigos reservatórios está incluído na obra da transposição. Custará mais de R$ 318,7 milhões, entre o levantamento técnico, iniciado três anos atrás, e a execução dos trabalhos. Previsão que se estendam por pelo menos um ano e meio, no mínimo.

O Castanhão, no Ceará, o maior dos açudes do Nordeste, com 6,7 bilhões de m³ de volume possível – hoje com apenas 9% de água -, está na lista. Apesar de ser um açude recente, inaugurado apenas 13 anos atrás, também precisará das adaptações. A reforma do Castanhão está orçada em cerca de R$ 21 milhões e é a que deve durar mais tempo individualmente: 18 meses. Principal garantia de abastecimento de Fortaleza, a barragem foi incluída como prioridade imediata para receber as alterações.

Dos 21 açudes para reforma, 18 são do Dnocs. Os outros três da relação são estaduais: Acauã, na Paraíba; Santa Cruz, no Rio Grande do Norte; e Chapéu, em Pernambuco. José Berlan Cabral, coordenador de estudos e projetos do Dnocs, confirma que três reservatórios da Paraíba estão prontos para lançarem editais de licitação: São Gonçalo, Poções e Boqueirão.
O serviço por fazer não será pouco. Segundo Berlan, haverá recuperação e reforço na parede de algumas barragens, instalação e regulagem de equipamentos hidromecânicos, novos sensores para medir volume e vibração na estrutura, instrumentos de automação, iluminação de galerias. O levantamento de necessidades foi individualizado por açude. O período seco é o ideal para iniciar os trabalhos.

O que for instalado será conectado a centrais de controle, operadas pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf). Os novos equipamentos indicarão, por exemplo, a vazão exata despejada pelo São Francisco. Para estar dentro da outorga estabelecida pela Agência Nacional de Águas (ANA), que é de 26 mil litros por segundo.
Outros cinco reservatórios do Ceará, além do Castanhão, em Jaguaribara, serão atualizados: o Lima Campos, em Icó; o Quixabinha, em Mauriti; o Orós, o Banabuiú, e o Prazeres, em Barro. Só nas barragens cearenses serão investidos R$ 106.466.905,46. O dinheiro será repassado pelo Ministério da Integração Nacional. Os açudes pertencentes aos estados serão reformados com verbas locais. (Cláudio Ribeiro)

 

Quando a tecnociência vê um pixel mas ignora a paisagem. A agricultura convencional mata o solo. Entrevista especial com Antonio Donato Nobre (Unisinos)

Segunda, 16 de maio de 2016

“Mais importante do que ser multidisciplinar é ser não-disciplinar, isto é, integrar e dissolver as ‘disciplinas’ em um saber amplo e articulado, sem fronteiras artificiais e domínios de egos”, afirma o cientista do CCST/Inpe

O conhecimento científico não pode cegar a complexa relação entre os inúmeros ecossistemas presentes no planeta. “Tal abordagem gera soluções autistas que não se comunicam, tumores exuberantes cuja expansão danifica tudo que está em volta. Assim, a tecnociência olha o mundo com um microscópio grudado em seus olhos, vê pixel, mas ignora a paisagem”, afirma Antonio Donato Nobre, cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CCST/Inpe.

“A maior parte da agricultura tecnificada adotada pelo agronegócio é pobre em relação à complexidade natural. Ela elimina de saída a capacidade dos organismos manejados de interferir beneficamente no ambiente, introduzindo desequilíbrios e produzindo danos em muitos níveis”, analisa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Para Nobre, a saída não é abandonar a ciência e a tecnologia produtiva de alimentos, mas sim associá-las e integrá-las a sistemas complexos de vidas em ecossistemas do Planeta. É entender, por exemplo, que a criação de áreas de plantio e produção agropecuária impactarão na chamada “equação do clima”. “É preciso remover os microscópios dos olhos, olhar o conjunto, perceber as conexões e, assim, aplicar o conhecimento de forma sábia e benéfica”, aponta.

Antonio Donato Nobre é cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CCST/Inpe, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, lançado no final de 2014.

Tem atuado na divulgação e popularização da ciência, em temas como a Bomba biótica de umidade e sua importância para a valorização das grandes florestas, e os Rios Aéreos de vapor, que transferem umidade da Amazônia para as regiões produtivas do Brasil.

Foi relator nos estudos sobre o Código Florestal promovidos pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC e Academia Brasileira de Ciências. Possui graduação em Agronomia pela Universidade de São Paulo, mestrado em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e é PhD em Earth System Sciences (Biogeochemistry) pela University of New Hampshire.

Atualmente é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador Visitante no Centro de Ciência do Sistema Terrestre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os impactos da produção agrícola nas mudanças climáticas? Quais os riscos que o modelo do agronegócio (baseado nas grandes propriedades e produção em larga escala de uma só cultura por vez) representa?

Antonio Donato Nobre – A ocupação desordenada das paisagens produz pesados impactos no funcionamento do sistema de suporte à vida na Terra. A expansão das atividades agrícolas — quase sempre associada à devastação das florestas que têm maior importância na regulação climática — tem consequências que se fazem sentir cada vez mais, e serão devastadoras se não mudarmos a prática da agricultura.

A natureza, ao longo de bilhões de anos, evoluiu um sofisticadíssimo sistema vivo de condicionamento do conforto ambiental. Biodiversidade é o outro nome para competência tecnológica na regulação climática. A maior parte da agricultura tecnificada adotada pelo agronegócio é pobre em relação à complexidade natural. Ela elimina de saída a capacidade dos organismos manejados de interferir beneficamente no ambiente, introduzindo desequilíbrios e produzindo danos em muitos níveis.

IHU On-Line – Como aliar agricultura e pecuária à preservação de florestas e outros ecossistemas? Como o novo Código Florestal  brasileiro se insere nesse contexto?

Antonio Donato Nobre – Extensa literatura científica mostra muitos caminhos para unir com vantagens agricultura, criação de animais e a preservação das florestas e de outros importantes ecossistemas. Esse conhecimento disponível assevera não haver conflito legítimo entre proteção dos ecossistemas e produção agrícola. Muito ao contrário, a melhor ciência demonstra a dependência umbilical da agricultura aos serviços ambientais providos pelos ecossistemas nativos.

Em 2012, contrariando a vontade da sociedade, o congresso revogou o código florestal de 1965. A introdução de uma nova lei florestal lasciva e juridicamente confusa já está produzindo efeitos danosos, como aumentos intoleráveis no desmatamento e a eliminação da exigência, ou o estímulo à procrastinação, no que se refere à recuperação de áreas degradadas. Mas a proteção e recuperação de florestas tem direto impacto sobre o regime de chuvas.

Incrível, portanto, que a agricultura, atividade que primeiro sofrerá com o clima inóspito que já bate às portas do Brasil, tenha sido justamente aquela que destruiu e continua destruindo os ecossistemas produtores de clima amigo. Enquanto estiver em vigor essa irresponsável e inconstitucional nova lei florestal, a degradação ambiental somente vai piorar.

IHU On-Line – De que forma o conhecimento mais detalhado sobre as formas de vida, e a relação entre elas, em florestas, como a amazônica, pode inspirar formas mais eficientes de produção de alimentos e, ao mesmo tempo, minimizar impactos ambientais?

Antonio Donato Nobre – A biomimética  é uma nova área da tecnologia que copia e adapta soluções engenhosas encontradas pelos organismos para resolver desafios existenciais. Janine Benyus, a pioneira popularizadora desse saber, antes ignorado, costuma dizer que os designs encontrados na natureza são resultados de 3,8 bilhões de anos de evolução tecnológica. Durante esse tempo, somente subsistiram soluções efetivas e eficazes, que de saída determinaram a superioridade da tecnologia natural.

Ora, a agricultura precisa redescobrir a potência sustentável e produtiva que é o manejo inteligente de agroecossistemas inspirados nos ecossistemas naturais, ao invés de se divorciar deste vasto campo de conhecimento e soluções, como fez com seus agrossistemas empobrecidos, envenenados e que exploram organismos geneticamente aberrantes.

IHU On-Line – Qual o papel do solo na “composição da equação do clima” no planeta? Em que medida o desequilíbrio do solo pode influenciar nas mudanças climáticas?

Antonio Donato Nobre – Microrganismos e plantas têm incrível capacidade para adaptar-se ao substrato, seja solo, sedimento ou mesmo rocha. Essa adaptação gera simultaneamente uma formação e condicionamento do substrato, o que o torna fértil para a vida vicejar ali. O metabolismo dos ecossistemas, incluindo sua relação com o substrato, tem íntima relação com os ciclos globais de elementos químicos. A composição e funcionamento da atmosfera depende, para sua estabilidade dinâmica, portanto, para o conforto e favorecimento da própria vida, do funcionamento ótimo dos ecossistemas naturais.

Na equação do clima, os ecossistemas são os órgãos indispensáveis que geram a homeostase  ou equilíbrio planetário. A agricultura convencional extermina aquela vida que tem capacidade regulatória, mata o solo, fator chave para sua própria sustentação, e introduz de forma reducionista e irresponsável nutrientes hipersolúveis, substâncias tóxicas desconhecidas da natureza e organismos que podem ser chamados de Frankensteins genéticos.

Todos estes insumos tornam as monoculturas do agronegócio sem qualquer função reguladora para o clima, e muito pior, devido à pesada emissão de gases-estufa e perturbações as mais variadas nos ciclos globais de nutrientes, a agricultura tecnificada é extremamente prejudicial para a estabilidade climática.

IHU On-Line – Desde a perspectiva do antropoceno , como avalia a relação do ser humano com as demais formas de vida do planeta hoje? Qual o papel da tecnologia e da ciência nessa relação?

Antonio Donato Nobre – Esta nova era foi batizada de antropoceno porque os seres humanos tornaram-se capazes de alterações massivas na delgada película esférica que nos permitiu a existência e nos dá abrigo. O maior drama da ocupação humana do ambiente superficial da Terra é que tal capacidade está destruindo o sistema de suporte à vida, sistema esse dependente 100% de todas demais espécies as quais o ser humano tem massacrado em sua expansão explosiva.

Infelizmente, na expansão do antropoceno, o conhecimento científico tem sido apropriado de forma gananciosa por mentes limitadas e arrogantes, e empregado no desenvolvimento sinistro de tecnologias e engenharias que por absoluta ignorância tornaram-se incapazes de valorizar o capital natural da Terra. Este comportamento autodestrutivo tem direta relação com a visão de ganho em curto prazo e a ilusão de poder auferida na aplicação autista de agulhas tecnológicas.

IHU On-Line – Em que medida a aproximação entre ciência e saberes indígenas pode contribuir para um novo caminho em termos de preservação do planeta e produção de alimentos?

Antonio Donato Nobre – Cada pesquisador sincero, inteligente e com mente aberta deve reconhecer a máxima milenar da sabedoria socrática: “somente sei que nada sei”. O conhecimento verdadeiro e sem limites internos impõe uma postura sóbria e humilde diante da enormidade da complexidade do mundo e da natureza. Hoje, a ciência mais avançada dá inteiro e detalhado suporte ao saber ancestral de sociedades tribais, que perduraram por milênios. Descer do salto alto da arrogância que fermentou graças ao individualismo permitirá reconhecer essa sabedoria básica de sustentabilidade, preservada no saber indígena.

Para a ciência, a aprender com o saber nativo está a veneração pela sabedoria da Mãe Terra; a intuição despretensiosa que capta o essencial da complexidade em princípios simples e elegantes; e sua capacidade holística e lúdica de articular a miríade de componentes do ambiente em uma constelação coerente e funcional de elos significativos.

IHU On-Line – De que forma a tecnociência e a tecnocracia impactam na forma de observar o planeta? O que isso significa para a humanidade?

Antonio Donato Nobre – A ciência é esta fascinante aventura humana na busca do conhecimento, evoluída aceleradamente a partir do renascimento na Europa. Muitas são suas virtudes e incríveis suas aplicações. No entanto, tais brilhos parecem infelizmente vir acompanhados quase sempre de alucinantes danos colaterais, nem sempre reconhecidos como tal. Na ciência, que gera o conhecimento básico; na tecnologia, que aplica criativamente esse conhecimento; e na engenharia, que transforma conhecimento em realidade, grassa uma anomalia reducionista que permite a hipertrofia de soluções pontuais, desconectadas entre si e do conjunto.

Tal abordagem gera soluções autistas que não se comunicam, tumores exuberantes cuja expansão danifica tudo que está em volta. Assim, a tecnociência olha o mundo com um microscópio grudado em seus olhos, vê pixel, mas ignora a paisagem. Abre caminhos para que ânimos restritos se apropriem de conhecimentos parciais e destruam o mundo. É preciso remover os microscópios dos olhos, olhar o conjunto, perceber as conexões e, assim, aplicar o conhecimento de forma sábia e benéfica.

IHU On-Line – De que forma conceitos como a Ecologia Integral, presentes na Encíclica Laudato Si’, do papa Francisco, contribuem para o desenvolvimento de uma visão sistêmica do ser humano sobre o planeta? Qual a importância de uma perspectiva multidisciplinar acerca da temática ambiental?

Antonio Donato Nobre – Ecologia Integral deve significar o que o nome diz. Aliás, se não for integral não pode ser denominada ecologia. Isso porque na natureza não existe isolamento, cada partícula, cada componente, cada organismo e cada sistema interage com os demais, sob o sábio comando das leis fundamentais. Por isso a ação humana pode gerar um acorde harmonioso na grande sinfonia universal, ou — se desrespeitar as leis — tornar-se fonte de perturbação e destruição.

Mais importante do que ser multidisciplinar é ser não-disciplinar, isto é, integrar e dissolver as “disciplinas” em um saber amplo e articulado, sem fronteiras artificiais e domínios de egos. A ciência verdadeira é aquela oriunda do livre pensar, do profundo sentir e do intuir espontâneo. A busca da verdade está ao alcance de todas as pessoas, não é nem deveria ser território exclusivo dos iniciados na ciência. Todos somos dotados da capacidade de inquirir e temos como promessa de realização o dom da consciência. Cientistas são facilitadores, e como tal deveriam servir aos semelhantes com boa vontade, iluminando o caminho do conhecimento, guiando na direção do saber.

IHU On-Line – Como avalia a agroecologia no Brasil hoje? O que a ciência e a tecnologia oferecem em termos de avanços para esse campo?

Antonio Donato Nobre – Agroecologia, agrofloresta sintrópica, sistemas agroflorestais, agricultura biodinâmica, trofobiose, agricultura orgânica, agricultura sustentável etc. compõem um rico repertório de abordagens que convergem na aspiração de emular em agroecossistemas a riqueza e funcionamento dos ecossistemas naturais. Uma parte dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos autistas de até então pode ser aproveitada para essa nova era de agricultura produtiva, iluminada, respeitadora, harmônica e saudável.

É preciso, porém, que o isolamento acabe, que os conhecimentos sejam transparentes, integrados, articulados, simplificados e recolocados em perspectiva. Se as agulhas tecnológicas foram danosas, como os transgênicos, por exemplo, ainda assim serão úteis para sabermos o que “não” fazer. Na compreensão em detalhe das bases moleculares da vida, abrindo portais para consciência sobre a complexidade astronômica existente e atuante em todos os organismos, a humanidade terá finalmente a prova irrefutável para o acerto das abordagens holísticas e ecológicas.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Antonio Donato Nobre – É preciso iluminar e revelar a imensa teia de mentiras criada em torno da revolução verde com seus exuberantes tumores tecnológicos. As falsidades suportadas por corporações, governos, mídia e educação bitoladora desde a mais tenra idade, implantaram um sistema mundial de dominação que, literalmente, enfia goela abaixo da humanidade um menu infernal de alimentos portadores de doenças.

Esse triunfante modelo de negócio não se contenta em somente alimentar mal, o faz via quantidades crescentes de produtos animais, os quais requerem imensas áreas e grandes quantidades de água e outros insumos para serem produzidos.

Com isso a pegada humana no planeta torna-se destrutiva e insuportável, e a consequência já se faz sentir no clima como falência múltipla de órgãos. Apesar disso, creio que ainda temos uma pequena chance de evitar o pior se, como humanidade, dermos apoio irrestrito para a busca da verdade.

Precisamos de uma operação Lava Jato no campo, e a ciência tem todas as ferramentas para apoiar esse esforço de sobrevivência.

Instituto Humanitas Unisinos

Pinguela deixa fórum do clima por discordar de impeachment (OESP)

Giovana Girardi

16 maio 2016 | 16:46

O físico Luiz Pinguelli Rosa, que desde 2004 era o secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, enviou e-mail a Temer pedindo desligamento do cargo por não concordar com o afastamento de Dilma Rousseff. Em entrevista ao Estado, ele explica seus motivos e analisa a gestão Dilma para o clima

Atualizado às 18h55

O físico Luiz Pinguelli Rosa, que desde 2004 atuava como secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, pediu desligamento do cargo na última quinta-feira, 12, depois do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Em carta enviada ao presidente em exercício, Michel Temer, explicou que se recusava a continuar no cargo.

Reunião ordinária do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas com Dilma e Pinguelli em abril de 2012. Crédito: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Reunião ordinária do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas com Dilma e Pinguelli em abril de 2012. Crédito: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

“Reputo de injusto o afastamento da Presidente da República pelo Congresso Nacional com a conivência do Supremo Tribunal Federal, pois não se provou qualquer crime de responsabilidade como estabelece a Constituição”, escreveu em mensagem enviada ao e-mail institucional da vice-presidência.

Ele lembrou que foi nomeado ao cargo em 2004 pelo então presidente Lula e foi mantido por Dilma. “O Fórum teve várias reuniões com o Presidente da República e Ministros apresentando sugestões que foram incorporadas no Plano Nacional de Mudanças Climáticas e na Lei Nacional sobre Mudanças Climáticas, bem como contribuiu para o Compromisso do Brasil na Conferência do Clima da ONU. No momento, o Fórum estava discutindo as propostas para o Plano de Adaptação nos diversos setores em ligação direta com a Ministra do Meio Ambiente”, disse.

O órgão, formado por cientistas de diversos áreas de clima, foi criado em 2000 por Fernando Henrique e teve uma função de destaque especialmente durante o governo Lula para a formulação de políticas de combate às mudanças climáticas.

Professor emérito da Coppe, o instituto de pós-graduação e pesquisa em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pinguelli foi presidente da Eletrobras no primeiro governo de Lula.

Em entrevista ao Estado, o pesquisador explicou sua decisão. “Não estou fazendo nenhum juízo de valor sobre o governo Temer, mas o fórum é diretamente ligado ao presidente da República e eu não concordo com a mudança dessa forma. Não é uma questão de Dilma, mas de princípio”, disse.

“A tal pedalada é mal definida. Usar verba de banco público que depois é coberto em prazo pequeno é uma trivialidade que qualquer administrador já fez algo parecido. Para falar em crime tem de ser uma coisa séria, tem de ter materialidade, como agir de má fé ou se apropriar de recursos públicos. Quem fez isso foram outros no Congresso e o Supremo Tribunal Federal se fez de bobo. Não me sinto bem em cooperar no nível com o presidente”, complementou.

Mesmo presidindo o fórum, Dilma levou mais de um ano para participar de sua primeira reunião, ainda na primeira gestão, em abril de 2012. Na ocasião, causou polêmica ao dizer, às vésperas da realização da conferência Rio+20, que o evento não iria “discutir a fantasia” das energias renováveis.

“Ninguém numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Eu tenho que explicar para as pessoas como é que elas vão comer, como é que elas vão ter acesso à água, como é que elas vão ter acesso à energia. Eu não posso falar: “olha é possível só com eólica de iluminar o planeta”. Não é. Só com solar, de maneira alguma.”

Pinguelli contemporizou o começo meio torto e disse que hoje a situação é outra. “Tivemos problema com etanol, com biodiesel, porque a política energética não foi muito boa, estimulou muito o uso da gasolina em detrimento do etanol. Mas eólica cresceu bastante. A geração já equivale à (que será produzida por) Belo Monte.”

Veja a seguir a íntegra da entrevista:

O que fez o senhor tomar essa decisão?

Não estou fazendo nenhum juízo de valor sobre o governo Temer, mas o fórum é diretamente ligado ao presidente da República e eu não concordo com a mudança dessa forma. Não é uma questão do governo da Dilma, mas de princípio. A tal pedalada é mal definida.O fato de ter um uso de verba de banco público que depois é coberto em prazo pequeno é uma trivialidade que qualquer administrador faz algo parecido. Não significa um crime. Crime é uma coisa séria, tem de ter materialidade, como agir de má fé ou se apropriar indevidamente de recursos públicos. Quem fez isso foram outros que participaram do processo no Congresso. E o Supremo Tribunal Federal se fez de bobo. Não atuou no caso Eduardo Cunha, que se empenhou no processo de impeachment. O STF tinha desde dezembro uma denúncia contra ele do procurador-geral da República e deixou para fazer valer depois de Dilma já ter sofrido a condenação pela Câmara, o que dá uma intenção suspeita ao supremo. Não me sinto bem em continuar cooperando porque minha ligação como secretário do fórum é com o presidente do Fórum, que é o presidente da República. Não na qualidade de um assessor direto do presidente. Espero que outra pessoa mais afinada com esse governo do que eu vá para esse lugar.

Qual é a avaliação que o senhor faz da gestão Dilma em relação às mudanças climáticas?

Eu não posso dizer que o governo Dilma foi muito atuante na questão climática. Acho que o do Lula foi mais. Por causa, particularmente, da intervenção do Brasil na Conferência (do Clima da ONU) de Copenhague (em 2009) e da elaboração do Plano e da Lei Nacional de Mudanças Climáticas, para o qual o fórum foi muito chamado para ajudar. No momento o fórum estava fazendo uma série de debates mais ligados ao Ministério do Meio Ambiente sobre a questão dos planos de adaptação à mudança climática. E fizemos também, para a conferência de Paris, um estudo em cooperação com colegas de universidades em que fizemos um cenário futuro, de modelagem climática aqui da Coppe, sobre a mudança climática que foi aproveitado na discussão em Paris. Fórum teve uma atividade menor no governo Dilma em relação ao governo Lula, mas não era nula.

O Brasil foi bastante elogiado por sua atuação na costura do Acordo de Paris. Como o sr. viu esse momento?

Acho que a Izabella (Teixeira, ministra do Meio Ambiente em todo o governo Dilma) teve uma presença muito atuante na conferência do clima e o fórum acabou tornando-se mais próxima da Izabella (do que da Dilma). Inclusive na conferência de Paris, foi ela que participou da reunião do fórum. Dilma se afastou, mas Izabella não. Na prática, embora o Fórum continuasse ligado à presidente Dilma no organograma, ficamos mais próximo do Ministério do Meio Ambiente. Não era uma função remunerada. Era voltada para atrais ONGs, acadêmicos, mesmo os setores empresariais para a discussão de problemas concretos da questão internacional da mudança climática. Isso foi feito o tempo todo. Até poucos meses atrás, no fim de 2015, houve essas reuniões. Aí houve um interregno com essa crise profunda que o Brasil atravessa.

Nos últimos dias da gestão Dilma, o ministério do Meio Ambiente correu para aproveitar os últimos momentos e lançou uma série de boas ações para o ambiente, inclusive o Plano Nacional de Adaptação, que era esperado desde o ano passado.. O que o sr. achou disso?

Acho que esse movimento foi bom, deixou uma contribuição concreta. O PNA avança, melhora a situação. É preciso lembrar que o Brasil tem climas diferentes de acordo com a região e pode haver enormes impactos, não só nos fenômenos atmosféricos, que afetam o ambiente e as populações, como enchentes, ventos muito fortes, como também a produção agrícola, que depende muito do clima. Mas é verdade que foi meio corrido. Ele é uma contribuição que reuniu o que já tinha à mão, embora pudesse avançar mais. Mas não impede que o novo governo faça isso. O que foi feito é o que tinha à mão. Acho que o governo tinha uma perspectiva de se prolongar um pouco mais para a elaboração desse plano e foi abreviado.

Qual é a expectativa do senhor sobre o novo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, e para a questão climática na nova gestão.

Ele já foi ministro, né? Faço votos para que faça boa gestão. A expectativa é que tenha boa gestão, ele tem condições para isso, tem interesse nessa área. Já estive com ele muitas vezes discutindo questões da mudança climática. Mas me sentia mais identificado com a gestão Dilma. A própria Izabella foi nossa aluna aqui no doutorado da Coppe. Havia uma proximidade maior. Quanto à política do clima, vamos ver. O Sarney Filho tem pedigree de meio ambiente. Mas o ministro de Minas e Energia (Fernando Filho) é um ilustre desconhecido, é de outro ramo, não tem nada a ver.

O governo Dilma teve como bandeira o pré-sal, investindo mais em combustíveis fósseis que em renováveis, enquanto há uma expectativa mundial de descarbonização até o final do século. O sr. esteve à frente de discussões sobre o futuro energético. Como o sr. vê essa questão?

Acho que o Brasil ainda vai usar petróleo por um tempo, mas tem de reduzir, e isso já tem feito usando biocombustível, que já ultrapassou 40% do total de combustíveis. Mas não está tudo perfeito. Tivemos problema com etanol, com biodiesel, porque a política energética não foi muito boa, estimulou muito o uso da gasolina em detrimento do etanol. O preço da gasolina foi colocado abaixo do preço de importação. Houve uma retomada do etanol por volta de 2003 e 2004 com os carros flex e isso permitiu um aumento grande do consumo do etanol. Mas com o estímulo de preço baixo da gasolina, o etanol perdeu a competitividade, houve uma certa redução do consumo.

E nesse momento se discute na Câmara que carro leve use diesel no Brasil.

Isso é ruim. O que devia ser feito era incentivar os carros híbridos (combustível + elétrico), que ainda são muito caros. Devia haver uma política de compensações e redução desse preço.

As metas brasileiras ao Acordo de Paris também não trazem um aumento significativo do uso de etanol e biocombustíveis (prevê uma participação de 16% de etanol na matriz energética total do País até 2025).

Não é uma participação pequena, mas de fato não tem um grande aumento. Concordo que para o futuro, talvez 2040 em diante, deva aumentar, mas para 2020 é mais difícil mudar a tendência porque energia tem uma inércia muito grande. Depois pode aumentar muito. Mas isso depende da política e ultimamente a política não foi muito favorável ao biocombustível. A gente fez a crítica perante a presidente Dilma. Mostramos essa preocupação. Uso de energia eólica cresceu bastante, já igualou à de Belo Monte. Mas infelizmente a de térmica também cresceu por causa das crises hídricas.

‘No doubt’ Iceland’s elves exist: anthropologist certain the creatures live alongside regular folks (South China Morning Post)

Construction sites have been moved so as not to disturb the elves, and fishermen have refused to put out to sea because of their warnings: here in Iceland, these creatures are a part of everyday life

PUBLISHED : Saturday, 14 May, 2016, 8:01am

UPDATED : Sunday, 15 May, 2016, 6:40pm

Since the beginning of time, elves have been the stuff of legend in Iceland, but locals here will earnestly tell you that elves appear regularly to those who know how to see them.

Construction sites have been moved so as not to disturb the elves, and fishermen have refused to put out to sea because of their warnings: here in Iceland, these creatures are a part of everyday life.

Watch: Iceland’s elves, a force to be reckoned with

But honestly, do they really exist?

Anthropologist Magnus Skarphedinsson has spent decades collecting witness accounts, and he’s convinced the answer is yes.

He now passes on his knowledge to curious crowds as the headmaster of Reykjavik’s Elf School.

“There is no doubt that they exist!” exclaims the stout 60-year-old as he addresses his “students”, for the most part tourists fascinated by Icelanders’ belief in elves.

What exactly is an elf? A well-intentioned being, smaller than a person, who lives outdoors and normally does not talk. They are not to be confused with Iceland’s “hidden people”, who resemble humans and almost all of whom speak Icelandic.

To convince sceptics that this is not just a myth, Skarphedinsson relays two “witness accounts”, spinning the tales as an accomplished storyteller.

The first tells of a woman who knew a fisherman who was able to see elves who would also go out to sea to fish.

One morning in February 1921, he noticed they were not heading out to sea and he tried to convince the other fishermen not to go out either. But the boss would not let them stay on shore.

That day, there was an unusually violent storm in the North Atlantic but the fishermen, who had heeded his warning and stayed closed to shore, all returned home safe and sound.

Seven years later, in June 1928, the elves again did not put out to sea which was confusing because there had never been a fierce storm at sea at that time of year. Forced to head out, they sailed waters that were calm but caught very few fish.

“The elves knew it,” the anthropologist claims.

The other “witness” is a woman in her eighties, who in 2002 ran into a young teen who claimed to know her. Asking him where they had met, he gave her an address where she had lived 53 years ago where her daughter claimed she had played with an invisible boy.

Most people tread lightly when entering into known elf territory
ICELAND MAGAZINE

“But Mum, it’s Maggi!” exclaimed the daughter when her mother described the teen.

“He had aged fives times slower than a human being,” said Skarphedinsson.

Surveys suggest about half of Icelanders believe in elves.

“Most people say they heard [about them] from their grandparents when they were children,” said Michael Herdon, a 29-year-old American tourist attending Elf School.

Iceland Magazine says ethnologists have noted it is rare for an Icelander to really truly believe in elves. But getting them to admit it is tricky.

“Most people tread lightly when entering into known elf territory,” the English-language publication wrote in September.

That’s also the case with construction projects.

It may prompt sniggers, but respect for the elves’ habitat is a consideration every time a construction project is started in Iceland’s magnificent countryside, which is covered with lava fields and barren, windswept lowlands.

Back in 1971, Skarphedinsson recalls how elves disrupted construction of a national highway from Reykjavik to the northeast. The project, he says, suffered repeated unusual technical difficulties because they didn’t want a big boulder that served as their home to be moved to make way for the new road.

“They made an agreement in the end that the elves would leave the stone for a week, and they would move the stone 15 metres. This is probably the only country in the world whose government officially talked with elves,” Skarphedinsson says.

But Iceland is not the only country that is home to elves, he says. It’s just that Icelanders are more receptive to accounts of their existence.

“The real reason is that the Enlightenment came very late to Iceland.

“In other countries, with western scientific arrogance [and] the denial of everything that they have not discovered themselves, they say that witnesses are subject to hallucinations.”

Presidente de Portugal quer fazer revisão do novo acordo ortográfico (Folha de S.Paulo)

Giuliana Miranda, 15/05/2016

Oficialmente, o último acordo ortográfico está em vigor em Portugal desde 2009, mas ainda enfrenta resistência em vários setores. Na semana passada, o time dos descontentes recebeu um apoio de peso: o novo presidente português se mostrou favorável à revisão das regras.

Em visita a Moçambique —país lusófono que, assim como Angola, não ratificou as mudanças—, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que a não adesão dos africanos pode permitir a Portugal também rever sua posição no acordo.

Mauro Vombe – 4.mai.2016/Xinhua
O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, (esq.) saúda o colega moçambicano Filipe Nyusi
O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, (esq.) saúda o colega moçambicano Filipe Nyusi

Na quarta-feira (11), a Associação Nacional de Professores de Português e vários membros da organização “Cidadãos contra o Acordo Ortográfico” recorreram à Justiça pedindo a anulação da norma que disseminou o uso da nova ortografia no país.

No cargo há dois meses, Rebelo de Sousa nunca escondeu sua contrariedade sobre o tema. Na década de 1990, ele assinou um manifesto que reuniu 400 personalidades portuguesas contrárias ao acordo ortográfico.

Embora as críticas públicas tenham se abrandado, o livro de imagens de sua campanha à Presidência, “Afectos”, não adota as mudanças ortográficas nem no título.

Em “O Acordo Ortográfico Não Está Em Vigor” (ed. Guerra & Paz), o embaixador e professor de direito internacional Carlos Fernandes diz que o acordo fere também princípios jurídicos e, por isso, não deveria ser adotado.

Segundo Fernandes, além de as regras anteriores não terem sido oficialmente revogadas, o governo português tampouco cumpriu trâmites legais obrigatórios para a entrada em vigor dos novos parâmetros da língua.

O debate sobre uma possível revisão do acordo —há quem defenda até um referendo— provocou uma “caça às bruxas” ortográfica. Vários políticos tiveram currículos, biografias e livros vasculhados em busca de indícios de que são contrários às mudanças na escrita.

CRÍTICAS AO BRASIL

Embora tenha sido assinado em 1990 pelos Estados de língua oficial portuguesa, o acordo precisa passar por ratificação interna em cada país para entrar em vigor. Brasil, Portugal, São Tome e Príncipe e Cabo Verde já promulgaram a decisão.

Já Angola e Moçambique —que concentram a maioria dos falantes do português depois do Brasil— ainda não têm data para ratificar.

O português é a quinta língua mais falada do mundo, com cerca de 280 milhões de falantes, dos quais 202 milhões estão no Brasil, 24,7 milhões em Angola, 24,6 milhões em Moçambique e 10,8 milhões em Portugal.

Entre os críticos portugueses e africanos, as alterações são encaradas como submissão aos desejos do Brasil. A língua oficial do país é várias vezes pejorativamente chamada de “brasileiro”.

Um dos motivos da discórdia é o fim das consoantes mudas presentes em várias palavras de Portugal. Com o acordo, prevaleceu a versão brasileira. Por exemplo: actor vira ator e óptimo, ótimo.

Segundo o Ministério da Educação brasileiro, as mudanças afetaram cerca de 0,8% dos vocábulos do Brasil e 1,3% dos de Portugal.

GOVERNO DEFENDE

O governo de Portugal segue o acordo ortográfico, e vários ministros saíram em defesa das regras.

Considerado o pai do acordo e um dos mais mais influentes linguistas lusitanos, Malaca Casteleiro também tem defendido sua aplicação.

O primeiro-secretário do Brasil em Lisboa, André Pinto Pacheco, afirmou que ” a embaixada acompanha com atenção o assunto, procurando esclarecer o Estado e a opinião pública de Portugal sobre a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Brasil”.

Diretor do setor de lexicografia e lexicologia da Academia Brasileira de Letras, Evanildo Bechara minimizou as críticas do presidente português e ressaltou o ritmo da implementação do acordo na comunidade lusófona. “É um processo irreversível.”

“Uma alteração ortográfica não é para a geração que a fez, mas para uma geração futura”, afirmou Bechara. O uso da nova ortografia é obrigatório no Brasil desde 1º de janeiro deste ano.