O bichinho que desafia Deus (El País)

Organismo marinho mostra por que o ser humano não está no topo da evolução

MANUEL ANSEDE

Barcelona 13 JUN 2016 – 21:07 CEST

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do 'Oikopleura'.

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do ‘Oikopleura’. JUAN BARBOSA 

“Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz”, escreveu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. E tem algo que fala, ou melhor, grita, numa praia de Badalona, perto de Barcelona: a que é dominada pela Ponte do Petróleo. Por esse dique de 250 metros, que penetra no mar Mediterrâneo, eram descarregados produtos petrolíferos até o final do século XX. E a seus pés se levanta desde 1870 a fábrica do Anís del Mono, o licor em cujo rótulo aparece um símio com cara de Charles Darwin em referência à teoria da evolução, que gerava polêmica na época.

Hoje, a Ponte do Petróleo é um belo mirante com uma estátua de bronze dedicada ao macaco com rosto darwinista. E, por um acaso que fala, entre seus frequentadores se encontra uma equipe de biólogos evolutivos do departamento de Genética da Universidade de Barcelona. Os cientistas caminham pela passarela sobre o oceano e lançam um cubo para fisgar um animal marinho, o Oikopleura dioica, de apenas três centímetros, mas que possui boca, ânus, cérebro e coração. Parece insignificante, mas, como Darwin, faz estremecer o discurso das religiões. Coloca o ser humano no lugar que lhe corresponde: com o resto dos animais.

“Temos sido mal influenciados pela religião, pensando que estávamos no topo da evolução. Na verdade, estamos no mesmo nível que o dos outros animais”, diz o biólogo Cristian Cañestro. Ele e o colega Ricard Albalat dirigem um dos únicos três centros científicos do mundo dedicados ao estudo do Oikopleura dioica. Os outros dois estão na Noruega e no Japão. O centro espanhol é uma salinha fria, com centenas de exemplares praticamente invisíveis colocados em recipientes de água, num canto da Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.

O organismo marinho ‘Oikopleura dioica’ indica que a perda de genes ancestrais, compartilhados com os humanos, seria o motor da evolução

“A visão até agora era que, ao evoluir, ganhávamos em complexidade, adquirindo genes. Era o que se pensava quando os primeiros genomas foram sequenciados: de mosca, de minhoca e do ser humano. Mas vimos que não é assim. A maioria de nossos genes está também nas medusas. Nosso ancestral comum os possuía. Não que tenhamos ganhado genes; eles é que perderam. A complexidade genética é ancestral”, diz Cañestro.

Em 2006, o biólogo pesquisava o papel de um derivado da vitamina A, o ácido retinoico, no desenvolvimento embrionário. Essa substância indica às células de um embrião o que têm que fazer para se transformar num corpo adulto. O ácido retinoico ativa os genes necessários, por exemplo, para formar as extremidades, o coração, os olhos e as orelhas dos animais. Cañestro estudava esse processo no Oikopleura. E ficou de boca aberta.

Uma fêmea de 'Oikopleura dioica' cheia de ovos.

Uma fêmea de ‘Oikopleura dioica’ cheia de ovos. CAÑESTRO & ALBALAT LAB

“Os animais utilizam uma grande quantidade de genes para sintetizar o ácido retinoico. Percebi que no Oikopleura dioica faltava um desses genes. Depois vi que faltavam outros. Não encontramos nenhum”, recorda. Esse animal de três milímetros fabrica seu coração, de maneira inexplicável, sem ácido retinoico. “Se você vê um carro se mover sem rodas, nesse dia sua percepção sobre as rodas muda”, diz Cañestro.

O último ancestral comum entre nós e esse minúsculo habitante do oceano viveu há cerca de 500 milhões de anos. Desde então, o Oikopleura perdeu 30% dos genes que nos uniam. E fez isso com sucesso. Se você entrar em qualquer praia do mundo, ali estará ele rodeando o seu corpo. Na batalha da seleção natural, os Oikopleura ganharam. Sua densidade atinge 20.000 indivíduos por metro cúbico de água em alguns ecossistemas marinhos. São perdedores, mas só de genes.

Nosso último ancestral comum viveu há 500 milhões de anos. Desde então, o ‘Oikopleura’ perdeu 30% dos genes que nos uniam

Albalat e Cañestro acabam de publicar na revista especializada Nature Reviews Genetics um artigo que analisa a perda de genes como motor da evolução. Seu texto despertou interesse mundial. Foi recomendado pela F1000Prime, uma publicação internacional que aponta os melhores artigos sobre biologia e medicina. O trabalho começa com uma frase do imperador romano Marco Aurelio, filósofo estoico: “A perda nada mais é do que mudança, e a mudança é um prazer da natureza”.

Os dois biólogos afirmam que a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da espécie humana. “O chimpanzé e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferenças nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolução dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mandíbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso crânio”, diz Albalat. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.

Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat.Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat. UB

 Em 2012, um estudo do geneticista norte-americano Daniel MacArthur mostrou que, em média, qualquer pessoa saudável tem 20 genes desativados. E isso aparentemente não importa. Albalat e Cañestro, do Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (IRBio) da Universidade de Barcelona, citam dois exemplos muito estudados. Em algumas pessoas, os genes que codificam as proteínas CCR5 e DUFFY foram anulados por mutações. São as proteínas usadas, respectivamente, pelo vírus HIV e o parasita causador da malária para entrar nas células. A perda desses genes torna os humanos resistentes a essas doenças.

No laboratório de Cañestro e Albalat, há um cartaz que imita o do filme Cães de Aluguel (“Reservoir Dogs”, em inglês), de Quentin Tarantino: os cientistas e outros membros de sua equipe aparecem vestidos com camisa branca e gravata preta. A montagem se chama Reservoir Oiks, em alusão ao Oikopleura. Os dois biólogos acreditam que o organismo marinho permitirá formular e responder perguntas novas sobre nosso manual de instruções comum: o genoma.

O ‘Oikopleura’ permite estudar quais genes são essenciais: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos devastadores em nossa saúde

O cérebro do Oikopleura tem cerca de 100 neurônios e o dos humanos, 86 bilhões. Mas somos muito mais semelhantes do que à primeira vista. Entre 60% e 80% das famílias de genes humanos têm um claro representante no genoma do Oikopleura. “Esse animal nos permite estudar quais genes humanos são essenciais”, diz Albalat. Em outras palavras: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos terríveis em nossa saúde.

Os seres vivos possuem um sistema celular que repara as mutações surgidas no DNA. O Oikopleura doica perdeu 16 dos 83 genes ancestrais que regulam esse processo. Essa incapacidade para a autorreparação poderia explicar sua perda extrema de genes, segundo o artigo da Nature Reviews Genetics.

O olhar de Cañestro se ilumina quando ele fala dessas ausências. Os genes costumam atuar em grupo para levar a cabo uma função. Se de um grupo conhecido de oito genes faltam sete no Oikopleura, pois a função foi perdida, a permanência do oitavo gene pode revelar uma segunda função essencial que teria passado despercebida. Esse gene seria como um cruzamento de estradas. Desmantelada uma rodovia, ele sobrevive porque é fundamental em outra. “Essa segunda função já estava no ancestral comum e pode ser importante nos humanos”, diz Cañestro.

“Não existem animais superiores ou inferiores. Nossas peças de Lego são basicamente as mesmas, embora com elas possamos construir coisas diferentes”, afirma. Pense no seu lugar no mundo da próxima vez que mergulhar no mar. Essa neve branca que flutua na água e pode ser vista contra a luz são os excrementos do Oikopleura.

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