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O coronavírus e as desigualdades raciais e de classe (Fórum)

por Dennis de Oliveira ‌

Opinião Quilombo 16 de março de 2020, 23h12

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil‌ ‌‌‌ ‌ ‌

A epidemia do coronavírus no mundo está evidenciando as desigualdades sociais, apesar de aparentemente o vírus contaminar todos e, neste primeiro momento, pessoas das classes média e alta que viajaram para o exterior. De fato, o que salta aos olhos neste momento da epidemia é o fato dela ter tomado uma dimensão na cobertura jornalística muito maior que outras epidemias que ainda hoje vitimam mais pessoas, como a dengue e o sarampo.

À primeira vista, isto ocorre justamente por uma questão de classe: como o epicentro atual do coronavírus é a Europa e não o continente africano ou latino-americano, a visibilidade desta epidemia é muito maior. Uma lógica que também esteve presente quando a mídia hegemônica em todo o mundo, inclusive o Brasil, mobilizou os sentimentos de consternação no ataque do grupo terrorista Exército Islâmico à Paris em 2015. O grupo Boko Haram praticou ataques terroristas até mais violentos em 2019 na Nigéria sem a mesma repercussão. ‌ ‌ ‌

Mas o classismo e o racismo também estão neste caso do coronavírus. E é importante este alerta porque há ideias entre algumas pessoas da periferia de que se trata de “doença de gente rica” e, portanto, não deveria ser objeto de preocupação da população da quebrada. Se não ficarmos atentos, pode-se em pouco tempo haver um deslocamento do epicentro da doença para a periferia e, por conta disto, sem a visibilidade que ela tem agora.

Uma análise de algumas medidas de contenção do vírus: a ordem é sair pouco de casa, procurar trabalhar em “home-office”, transferir as atividades didáticas de escolas e universidades para a modalidade online, suspender viagens internacionais, entre outros. Note-se que os atores atingidos por estas medidas protetivas são aqueles que não estão na maior parte do trabalho precarizado e informal. Se nas universidades as aulas foram suspensas e algumas adotaram o sistema de ensino à distância, como ficam os funcionários operacionais terceirizados? Evidente que eles continuarão trabalhando. ‌

Há o caso relatado pelo colunista Lauro Jardim, do Globo, do empresário  e sua esposa que contraíram o vírus em uma viagem, se colocaram em quarentena no apartamento deles porém obrigaram a empregada doméstica a continuar indo trabalhar desconsiderando o alto risco dela se contaminar. ‌

Com isto, em um primeiro momento, observa-se que tais medidas, ao mesmo tempo que visam proteger um determinado segmento da sociedade, deixam o outro completamente desprotegido. Estes trabalhadores operacionais e precarizados se deslocam para suas casas de transporte coletivo, um ambiente potencialmente explosivo para uma contaminação massiva. ‌ ‌

Esta situação se agrava por dois motivos conjunturais: o primeiro é a desregulamentação do trabalho imposta pela direita em todo o mundo e aplicada no Brasil com maior intensidade no ano passado. A lógica desta proposta é: o ganho depende de quanto trabalha e não de quanto é necessário para sobreviver. Empregadas domésticas, faxineiras, trabalhadores de aplicativos, ambulantes, flanelinhas, motoboys, cicloboys, entre outros teriam que optar entre ficar sem dinheiro ou sair as ruas em busca de trabalho. Ainda que estes trabalhadores contraiam o vírus e fiquem doentes, a tendência é que eles continuem trabalhando pois no mercado informal não tem nenhum tipo de proteção. Imagine este cenário de pessoas com o COVID-19 nas ruas entregando comida, dirigindo Uber, motos, vendendo coisas nas ruas, limpando casas… Imaginem estas pessoas andando nos trens, ônibus, metros lotados. O vírus vai para a periferia, mas volta com tudo pois estas pessoas atendem justamente estes que se julgariam protegidos. O risco é intensificar comportamentos de cunho fascista, racista, xenofóbico.

O segundo motivo é o desmonte do sistema público de saúde que está enfraquecido para o enfrentamento massivo desta epidemia. Este é o momento que mais se precisa do SUS e todo o seu arcabouço de atendimento, prevenção, medicina da família, entre outros. E da estrutura dos laboratórios públicos de pesquisa das universidades e institutos como o Fiocruz, Manguinhos, FURP e das universidades públicas. ‌ ‌

Só para lembrar: 47,3% dos trabalhadores negros estão no mercado informal, 80% dos usuários do SUS se declaram negros. Em outras palavras, estamos falando de situações que atingem a população negra na sua maioria.

Daí que é o momento ímpar para se retomar a pactuação político-social da Constituinte de 1988 e barrar as mudanças de cunho neoliberal que tem sido feitas desde o golpe de 2016. É necessário revogar a emenda constitucional do teto de gastos, fortalecer o SUS e os laboratórios públicos e centrar a política de Estado não no “equilíbrio fiscal para obter a confiança dos mercados”, mas na capacidade de atendimento social massivo para garantir o bem-estar de todos os cidadãos. ‌ ‌

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Mike Davis: O coronavírus e a luta de classes: o monstro bate à nossa porta (Blog da Boitempo)

O perigo que a atual epidemia do COVID-19 representa para as populações pobres de todo o mundo vem sendo quase completamente ignorado pelos jornalistas e governos do ocidente.

Publicado em 16/03/2020

Por Mike Davis.

O coronavírus1 é o velho filme que temos assistido repetidas vezes desde que o livro Zona Quente, de Richard Preston, nos introduziu em 1995 ao demônio exterminador nascido em uma misteriosa caverna de morcegos na África Central e conhecido como Ebola. Aquele foi apenas o primeiro de toda uma sucessão de novas doenças irrompendo no “campo virgem” (esse é o termo adequado) dos sistemas imunes inexperientes da humanidade. Depois do vírus da Ebola, logo se seguiu a influenza aviária, que os humanos pegaram em 1997, e a SARS, que surgiu no final de 2002. Em ambos os casos, a doença surgiu primeiro em Guangzhou, o polo manufatureiro mundial.

Hollywood, é claro, abraçou com tudo esses surtos e produziu uma série de filmes para nos provocar e amedrontar – Contágio (2001), dirigido por Steven Soderbergh, se destaca pela precisão científica e pela sua espantosa antecipação do caos atual.) Além dos filmes e dos inúmeros romances lúgubres, centenas de livros de milhares de artigos científicos responderam a cada surto, muitos deles sublinhando o estado deplorável da prevenção e preparação emergencial global de se detectar e reagir a tais doenças novas.

Caos numérico

Assim, o coronavírus atravessa nossa porta da frente como um monstro já familiar. Sequenciar seu genoma (aliás muito semelhante ao de sua irmã, a amplamente estudada SARS) foi moleza. Ainda nos faltam, no entanto, os pedaços mais vitais de informação. À medida que os pesquisadores trabalham noite e dia para conseguir caracterizar o surto, eles enfrentam três enormes desafios. Em primeiro lugar, a continuada escassez de kits para diagnóstico da infecção viral, especialmente nos Estados Unidos e na África, tem impedido a projeção de estimativas precisas de parâmetros-chave, tais como a taxa de reprodução, o tamanho da população infectada e a quantidade de infecções de caráter benigno. O resultado vem sendo um completo caos numérico.

Alguns países, contudo, dispõem de dados mais confiáveis a respeito do impacto do vírus em certos grupos. E as informações são muito assustadoras. A Itália, por exemplo, registra uma espantosa taxa de mortalidade de 23% entre as pessoas maiores de 65 anos de idade; na Inglaterra, a cifra atualmente se encontra no patamar dos 18% para esse grupo. A “gripe corona” que Trump menospreza representa um perigo sem precedentes para populações geriátricas, com um potencial saldo de mortalidade na casa dos milhões.

Em segundo lugar, assim como as influenzas sazonais, o vírus está sofrendo mutações à medida que atravessa populações dotadas de diferentes composições etárias e condições de saúde. A variedade que os estadunidenses têm mais probabilidade de acabar pegando já é ligeiramente diferente daquela identificada no surto original em Wuhan. As futuras mutações do vírus podem tanto ser benignas quanto alterar a distribuição de virulência, que atualmente cresce vertiginosamente a partir dos cinquenta anos de idade A “gripe corona” de Trump representa no mínimo um perigo mortal ao quarto dos estadunidenses que são de idade, possuem sistemas imunes fracos ou problemas respiratórios crônicos.

Em terceiro lugar, mesmo se o vírus permanecer estável e sofrer poucas mutações, é possível que seu impacto sobre coortes etários mais jovens difira radicalmente em países pobres e entre grupos de alta pobreza. Considere a experiência global da gripe espanhola de 1918-19, que, estima-se, matou cerca de 1-2% da humanidade. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o vírus original do H1N1 teve maior índice de letalidade em jovens adultos, e a explicação que geralmente se dá para tanto é que seus sistemas imunes relativamente mais fortes acabavam reagindo com demasiada intensidade à infecção e atacarem células pulmonares, o que acarretava uma pneumonia viral e um choque séptico. Mais recentemente, contudo, alguns epidemiologistas levantaram a hipótese de que adultos mais velhos podem ter adquirido “memória imune” por conta de um surto anterior ocorrido na década de 1890s que teria os protegido. De todo modo, é sabido que o vírus original da H1N1 encontrou um nicho privilegiado em acampamentos do exército e em trincheiras de batalha, onde ele ceifou a vida de dezenas de milhares de jovens soldados. Esse tornou-se um fator importantíssimo na batalha entre os impérios. Chegou-se a atribuir o colapso da grande ofensiva alemã na primavera de 1918, e portanto o resultado da guerra, ao fato de que os Aliados, em contraste com seu inimigo, tinham condições de reabastecer seus exércitos doentes com tropas estadunidenses recém-chegadas.

Já a gripe espanhola em países mais pobres teve um perfil diferente. Raramente se leva em conta que 60% da mortalidade global (e isso representa ao menos 20 milhões de mortes) ocorreu em Punjabi, Pompéia, e em outras partes da Índia Ocidental onde exportações de grão para a Inglaterra e práticas brutais de requisição coincidiram com uma seca generalizada. As escassezes alimentares que resultaram disso levaram milhões de pobres à beira da fome. Essas populações tornaram-se vítimas de uma sinistra sinergia entre subnutrição, que suprimia sua resposta imune à infecção, e surtos desenfreados de pneumonias virais e bacterianas. Em outro caso semelhante, o Irã sob ocupação inglesa, tendo passado por muitos anos de seca, cólera e escassez alimentar, além de um surto generalizado de malária, precondicionou a morte de, estima-se, um quinto da população.

Essa história – especialmente as consequências desconhecidas das interações com subnutrição e infecções existentes – deveria nos alertar que o COVID-19 pode tomar um caminho diferente e mais letal nas favelas densas e insalubres da África e do Sul Asiático. Com casos agora sendo reportados em Lagos, Kigali, Addis Ababa e Kinshasa, ninguém sabe (e nem saberá por um bom tempo por conta da ausência de testes para diagnóstico) de que forma ele pode entrar em sinergia com as condições locais de saúde e as doenças da região. O perigo desse fenômeno para as populações pobres de todo o mundo vem sendo quase completamente ignorado por jornalistas e governos ocidentais. O único artigo publicado que li nesse sentido argumenta que por conta do fato da população urbana da África ser a mais jovem do mundo, a pandemia deve produzir lá apenas um impacto ameno. À luz da experiência de 1918, essa não passa de uma extrapolação tola. Assim como a suposição de que a pandemia, assim como a gripe sazonal, irá recuar diante de climas mais quentes. (Tom Hanks acabou de pegar o vírus na Austrália, onde ainda é verão.)

Um Katrina médico

É possível que daqui a um ano vejamos com admiração o sucesso da China em conter a pandemia, e que fiquemos horrorizados com o fracasso dos EUA. (Estou aqui fazendo a suposição heróica de que a declaração da China de que a taxa de transmissão está diminuindo rapidamente é mais ou menos precisa.) A incapacidade de nossas instituições de manter fechada a Caixa de Pandora, é claro, não é surpresa para ninguém. Desde o ano 2000 temos repetidamente visto colapsos na linha de frente do atendimento de saúde.

Tanto temporada de gripe de 2009 quanto a de 2018, por exemplo, sobrecarregaram hospitais em todo o país, expondo a chocante escassez de leitos hospitalares depois de vinte anos de cortes na capacidade de internação movidos pela maximização dos lucros (a versão do setor hospitalar para a gestão de inventário just-in-time). A crise remonta à ofensiva corporativa que levou Reagan ao poder e converteu lideranças do Partido Democrata em seus porta-vozes neoliberais. De acordo com A Associação Hospitalar Estadunidense, o número de leitos hospitalares sofreu um espantoso declínio de 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era elevar os lucros através de um aumento no “censo” (calculado a partir do número de leitos ocupados). Mas o objetivo da gerência de uma taxa de ocupação de 90% significava que os hospitais não tinham mais a capacidade de absorver um influxo de pacientes em situações de epidemia e de emergência médica.

Hospitais privados e de caridade fechando as portas e carências de enfermagem, igualmente provocados pela lógica de mercado, devastaram os serviços de saúde em comunidades mais pobres e em áreas rurais, transferindo o fardo para hospitais públicos subfinanciados e instalações médicas do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA. Se as condições do atendimento emergencial em tais instituições já são incapazes de dar conta de infecções sazonais, como esperar que elas deem conta de uma iminente sobrecarga de casos críticos?

No novo século, a medicina emergencial continuou a sofrer reduções no setor privado por conta do imperativo de se preservar o “valor dos acionistas”, buscando o aumento de dividendos e lucros de curto prazo, e no setor público por meio de austeridade fiscal e reduções nos orçamentos estaduais e federias de prevenção e preparação emergencial. O resultado disso é que há apenas 45.000 leitos de UTI disponíveis para lidar com a avalanche projetada de casos graves e críticos de coronavírus. (Em comparação, os sul coreanos dispõem de três vezes mais leitos por milhar do que os estadunidenses.) De acordo com uma investigação feita pela USA Today “apenas oito estados teriam leitos hospitalares suficientes para tratar os 1 milhão de americanos de sessenta ou mais anos de idade que podem adoecer de COVID-19”.

Ao mesmo tempo, os Republicanos vem rechaçando todos os esforços de reconstruir as redes de segurança destruídas pelos cortes orçamentários da recessão de 2008. Os departamentos municipais e estaduais de saúde – a primeira (e vital) linha de defesa – dispõem hoje de equipes 25% menores do que crise financeira doze anos atrás. Além disso, ao longo da última década o orçamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças caiu 10% em termos reais. Desde a coroação de Trump as insuficiências fiscais só se exacerbaram. O New York Times recentemente noticiou que “21% dos departamentos municipais de saúde registraram reduções nos seus orçamentos para o ano fiscal referente a 2017.” Trump também fechou o escritório de pandemia da Casa Branca, uma diretoria instituída pelo Obama depois do surto de Ebola em 2014 para garantir uma resposta nacional rápida e bem-coordenada para novas epidemias.

Estamos nas fases iniciais de um Katrina médico. Ao desinvestirmos em prevenção e preparação emergencial médica no exato momento em que todas as avaliações de peritos recomendam uma expansão generalizada dessas capacidades, nos encontramos em uma situação em que nos faltam tanto suprimentos elementares quanto funcionários públicos de saúde e leitos emergenciais. As reservas nacionais e regionais de mantimentos hospitalares vêm sendo armazenadas em condições muito inferiores às orientações epidemiológicas. Por isso, a débacle de kits para testes de diagnóstico coincidiu com uma escassez crítica de equipamentos protetivos básicos para trabalhadores de saúde.

As enfermeiras militantes, nossa reserva nacional de consciência social, estão garantindo que todos nós compreendamos os graves perigos provocados pelo armazenamento inadequado de mantimentos protetivos essenciais tais como máscaras faciais N95. Elas também nos lembram que os hospitais tornaram-se ambientes ideais para micro-organismos super-resistentes a antibióticos, tais como o C. Difficile, que podem tornar-se seríssimos agentes mortais secundários em alas hospitalares superlotadas. Ainda mais vulneráveis porque invisíveis são as centenas de milhares de trabalhadoras de lares de repouso e as equipes de enfermagem domiciliar, operando em condições de sub-remuneração e sobrecarga de trabalho.

A divisão de classes

O surto expôs instantaneamente a marcada divisão de classes no atendimento de saúde, que a Nossa Revolução colocou na agenda nacional. Em suma: quem dispõe de um bom plano de saúde e também tem condições de trabalhar ou lecionar de casa está confortavelmente isolado, contanto que siga com prudência as diretrizes de segurança. Funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados que gozam de uma cobertura decente terão de fazer escolhas difíceis, optando entre renda e proteção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores de baixa renda do setor de serviços, trabalhadores agrícolas, desempregados e sem teto estão sendo atirados aos lobos.

Mesmo se Washington eventualmente der conta de resolver o fiasco dos testes e fornecer um número adequado de kits para diagnóstico, aqueles que não dispõem de plano de saúde ainda terão de pagar médicos ou hospitais para que estes apliquem os testes. As contas médicas familiares gerais vão disparar, ao mesmo tempo em que milhões de trabalhadores estão perdendo seus empregos e os planos de saúde fornecidos pelos empregadores. Poderia haver defesa mais forte e mais urgente da proposta de se estender o Medicare para todos?

Mas, como todos sabemos, cobertura universal em qualquer sentido minimamente eficaz requer provisão universal de ausências remuneradas por motivo de saúde. Quarenta e cinco por cento da força de trabalho atualmente tem esse direito negado: essas pessoas são portanto virtualmente compelidos a transmitirem a infecção ou abrirem mão da renda mensal. Da mesma forma, quatorze estados governados pelo Partido Republicano se recusaram a implementar a Affordable Care Act3, que expande o Medicaid aos trabalhadores pobres. É por isso que um em cada quarto texanos, por exemplo, não dispõe de cobertura e só pode contar com a sala emergencial do hospital municipal se precisar se tratar.

As contradições mortais dos planos privados de saúde em uma era de pragas são talvez mais visíveis no setor de enfermagem domiciliar e cuidado assistido, que administra 2,5 milhões de estadunidenses de idade – muitos deles dependentes de Medicare. A situação há muito constitui um escândalo nacional. Trata-se de um setor altamente competitivo, capitalizado em salários baixos, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. De acordo com o New York Times, 380.000 pacientes de casas de repouso morrem a cada ano por conta da negligência dessas instalações diante de procedimentos básicos de controle de infecções. Muitas dessas casas de repouso – particularmente em estados do Sul do país – calculam ser mais barato arcar com as multas por violações sanitárias do que contratar funcionários adicionais e treiná-los adequadamente.

Não é de surpreender que o primeiro epicentro de transmissão comunitária foi o Life Care Center, uma casa de repouso em Kirkland, situada nos subúrbios de Seattle. Conversei com Jim Straub, um velho amigo que é líder sindical nas casas de repouso da região de Seattle e está atualmente escrevendo um artigo a respeito do tema para o The Nation. Ele caracterizou a instalação como “sendo uma das piores equipadas em de quadro de funcionários em todo o Estado” e descreveu a totalidade do sistema de casas de repouso de Washington como “o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento de austeridade em um mar de dinheiro da indústria de tecnologia de ponta.”

Além disso, ele assinalou ainda que os oficiais de saúde pública estavam ignorando o fator crucial que explica a rápida taxa de transmissão da doença do Life Care Center para dez outras casas de repouso nas proximidades: “trabalhadores de casas de repouso situadas no mercado imobiliário mais caro dos Estados Unidos via de regra trabalham em mais de um emprego, geralmente atendendo em múltiplas casas de repouso.” Ele diz que as autoridades foram incapazes de descobrir os nomes e as localizações desses segundos empregos e assim perderam todo e qualquer controle sobre a disseminação do COVID-19. E até agora ninguém está propondo compensar a remuneração de trabalhadores expostos para que eles permaneçam em casa.

Agora, como nos alerta o exemplo de Seattle, mais dezenas, talvez centenas, de casas de repouso em todo o país deverão se tornar pontos de foco do coronavírus e seus funcionários, muitos deles recebendo o salário mínimo, optarão racionalmente por permanecer em casa a fim de protegerem suas famílias. Numa situação dessas, o sistema poderia entrar em colapso – e ninguém há de esperar que a Guarda Nacional venha cuidar da reposição dos coletores de urina.

Solidariedade internacional

A cada passo de seu avanço mortal, a pandemia promove uma defesa de uma política de cobertura universal e ausência remunerada no trabalho. Enquanto Biden se concentra em arranhar a popularidade de Trump, os progressistas precisam se unir, como propõe Bernie, para vencer a convenção com sua pauta de Medicare para Todos. Juntos, os delegados de Bernie Sanders e Elizabeth Warren têm um papel a desempenhar no Fiserv Forum em Milwaukee em meados de julho2, mas o resto de nós possui uma tarefa igualmente importante nas ruas, começando agora com lutas contra despejos, demissões e empregadores que se recusam a compensar trabalhadores ausentes (Está com medo de contágio? Permaneça a dois metros de distância do próximo manifestante e você ainda garante uma imagem mais poderosa para a TV. Mas precisamos reivindicar as ruas.)

Como sabemos, a cobertura universal é apenas um primeiro passo. É desapontador, para dizer o mínimo, que nos debates das primárias do Partido Democrata nem Sanders nem Warren chamaram atenção para como as grandes corporações farmacêuticas [Big Pharma] abriram mão de investir em pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das dezoito maiores empresas farmacêuticas, quinze abandonaram totalmente o campo. Medicamentos cardíacos, tranquilizadores viciantes e tratamentos para impotência masculina são alguns dos produtos mais lucrativos do setor, e não a defesa contra infecções hospitalares, doenças emergentes e doenças letais tradicionais dos trópicos, como a malária. A vacina universal para a influenza – isto é, uma vacina voltada para as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – já é uma possibilidade há décadas, mas não é lucrativa o suficiente para ser considerada prioridade.

À medida que a revolução dos antibióticos retrocede, velhas doenças deverão reaparecer ao lado de novas infecções e os hospitais se converterão em ossuários. Até mesmo alguém como Trump pode esbravejar oportunisticamente contra os custos absurdos dos medicamentos de prescrição. O que precisamos, no entanto, é de uma visão mais audaciosa voltada para quebrar os monopólios farmacêuticos e fornecer ao público uma produção de medicamentos vitais. (As coisas já foram assim um dia: durante a Segunda Guerra Mundial, o exército convocou Jonas Salk e outros pesquisadores para desenvolverem a primeira vacina de gripe.) Como escrevi quinze anos atrás em meu livro O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária:

“O acesso a medicamentos vitais, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deveria ser um direito humano, universalmente disponível a preço zero. Se os mercados não tiverem condições de fornecer incentivos para produzir tais drogas de maneira barata, então os governos e as organizações sem fins lucrativos deveriam assumir a responsabilidade por sua manufatura e distribuição. A sobrevivência dos pobres deve sempre ser prioridade sobre os lucros do grande complexo farmacêutico [Big Pharma].”4

A atual pandemia expande o argumento: a organização capitalista agora parece estar biologicamente insustentável na ausência de uma infraestrutura verdadeiramente internacional de saúde pública. Mas tal infraestrutura jamais existirá enquanto movimentos de pessoas não quebrarem o poder das grandes corporações farmacêuticas e de um sistema de atendimento à saúde organizado em função do lucro.

Isso exige um projeto socialista independente para a sobrevivência humana, que vai além de um Segundo New Deal. Desde a época do movimento Occupy, os progressistas vem colocado a luta contra a desigualdade econômica e de renda na ordem do dia, um grande feito. Mas agora os socialistas precisam dar o próximo passo e, tendo as indústrias farmacêutica e de saúde como alvos imediatos, lutarem pela propriedade social e a democratização do poder econômico.

Mas precisamos ter uma avaliação honesta de nossas fraquezas políticas e morais. Por mais que tenho visto com entusiasmo a evolução à esquerda de uma nova geração e o retorno da palavra “socialismo” ao discurso político, há um elemento perturbador de solipsismo nacional no movimento progressista que é simétrico ao novo nacionalismo de direita. Tendemos a falar apenas da classe trabalhadora estadunidense e da história radical dos Estados Unidos (talvez nos esquecendo que Eugene V. Debs era um internacionalista até o último fio de cabelo). Às vezes isso passa perto de uma versão de esquerda do bordão “América em Primeiro Lugar”.

Diante dessa pandemia, os socialistas devem aproveitar toda ocasião para lembrar os outros da urgência da solidariedade internacional. Concretamente, precisamos mobilizar nossos amigos progressistas e seus ídolos políticos a fim de reivindicar um aumento massivo na produção de kits para diagnóstico, equipamentos de segurança e medicamentos vitais para serem distribuídos gratuitamente a países pobres. Cabe a nós garantir que o Medicare para Todos torne-se uma tanto uma política externa quanto uma política doméstica nos EUA.

* Texto enviado pelo autor diretamente para o Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

NOTAS

1 Tem havido muita confusão a respeito da terminologia científica: o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus denominou o vírus de SARS-CoV-2. COVID-19 refere-se ao surto. (Nota do autor).
2 O autor refere-se aqui à Convenção Nacional Democrata de 2020, que definirá o candidato que o Partido escolherá para enfrentar Donald Trump nas eleições presidenciais deste ano. A disputa, como se sabe, atualmente entre Joe Biden e Bernie Sanders, e o apoio da base da candidata progressista Elizabeth Warren é um fator crucial para a vitória do Sanders. (Nota da tradução.)
3 O “Patient Protection and Affordable Care Act” é a “Lei Federal de Proteção e Cuidado ao Paciente”, apelidada de “Obamacare”, sancionada pelo presidente estadunidense em março de 2010. (N. T.)
4 Edição brasileira: O monstro bate à nossa porta: a ameaça global da gripe aviária (São Paulo, Record, 2006). (N. T.)

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Planeta favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de quartzo. O autor também colabora com o livro de intervenção Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.

The Coronavirus Called America’s Bluff (The Atlantic)

Like Japan in the mid-1800s, the United States now faces a crisis that disproves everything the country believes about itself. March 15, 2020

Anne Applebaum Staff writer at The Atlantic

A coronavirus patient in quarantine
Jason Redmond / Reuters

On July 8, 1853, Commodore Matthew Perry of the U.S. Navy sailed into Tokyo Bay with two steamships and two sailing vessels under his command. He landed a squadron of heavily armed sailors and marines; he moved one of the ships ostentatiously up the harbor, so that more people could see it. He delivered a letter from President Millard Fillmore demanding that the Japanese open up their ports to American trade. As they left, Perry’s fleets fired their guns into the ether. In the port, people were terrified: “It sounded like distant thunder,” a contemporary diarist wrote at the time, “and the mountains echoed back the noise of the shots. This was so formidable that the people in Edo [modern Tokyo] were fearful.”

This is the story of an unnatural disaster.

But the noise was not the only thing that frightened the Japanese. The Perry expedition famously convinced them that their political system was incapable of coping with new kinds of threats. Secure in their island homeland, the rulers of Japan had been convinced for decades of their cultural superiority. Japan was unique, special, the homeland of the gods. “Japan’s position, at the vertex of the earth, makes it the standard for the nations of the world,” the nationalist thinker Aizawa Seishisai wrote nearly three decades before Perry’s arrival. But the steamships and the guns changed all that. Suddenly, the Japanese realized that their culture, their political system, and their technology were out of date. Their samurai-warrior leaders and honor culture were not able to compete in a world dominated by science.

The coronavirus pandemic is in its early days. But the scale and force of the economic and medical crisis that is about to hit the United States may turn out to be as formidable as Perry’s famous voyage was. Two weeks ago—it already seems like an infinity—I was in Italy, writing about the first signs of the virus. Epidemics, I wrote, “have a way of revealing underlying truths about the societies they impact.” This one has already done so, and with terrifying speed. What it reveals about the United States—not just this administration, but also our health-care system, our bureaucracy, our political system itself—should make Americans as fearful as the Japanese who heard the “distant thunder” of Perry’s guns.

Not everybody has yet realized this, and indeed, it will take some time, just as it has taken time for the nature of the virus to sink in. At the moment, many Americans are still convinced that, even in this crisis, our society is more capable than others. Quite a lot was written about the terrifying and reckless behavior of the authorities in Wuhan, China, who initially threatened doctors who began posting information about the new virus, forcing them into silence.

On the very day that one of those doctors, Li Wenliang, contracted the virus, the Wuhan Municipal Health Commission issued a statement declaring,“So far no infection [has been] found among medical staff, no proof of human-to-human transmission.” Only three weeks after the initial reports were posted did authorities begin to take the spread of the disease seriously, confirming that human-to-human transmission had in fact occurred. And only three days later did the lockdown of the city, and eventually the entire province, actually begin.

This story has been told repeatedly—and correctly—as an illustration of what’s wrong with the Chinese system: The secrecy and mania for control inside the Communist Party lost the government many days during which it could have put a better plan into place. But many of those recounting China’s missteps have become just a little bit too smug.

The United States also had an early warning of the new virus—but it, too, suppressed that information. In late January, just as instances of COVID-19, the disease caused by the coronavirus, began to appear in the United States, an infectious-disease specialist in Seattle, Helen Y. Chu, realized that she had a way to monitor its presence. She had been collecting nasal swabs from people in and around Seattle as part of a flu study, and proposed checking them for the new virus. State and federal officials rejected that idea, citing privacy concerns and throwing up bureaucratic obstacles related to lab licenses.

Finally, at the end of February, Chu could stand the intransigence no longer. Her lab performed some tests and found the coronavirus in a local teenager who had not traveled overseas. That meant the disease was already spreading in the Seattle region among people who had never been abroad. If Chu had found this information a month earlier, lives might have been saved and the spread of the disease might have slowed—but even after the urgency of her work became evident, her lab was told to stop testing.

Chu was not threatened by the government, like Li had been in Wuhan. But she was just as effectively silenced by a rule-bound bureaucracy that was insufficiently worried about the pandemic—and by officials at the Food and Drug Administration and the Centers for Disease Control and Prevention who may even have felt political pressure not to take this disease as seriously as they should.

For Chu was not alone. We all now know that COVID-19 diagnostic tests are in scarce supply. South Korea, which has had exactly the same amount of time as the U.S. to prepare, is capable of administering 10,000 tests every day. The United States, with a population more than six times larger, had only tested about 10,000 people in total as of Friday. Vietnam, a poor country, has tested more people than the United States. During congressional testimony on Thursday, Anthony Fauci, the most distinguished infectious-disease doctor in the nation, described the American testing system as “failing.” “The idea of anybody getting [tested] easily the way people in other countries are doing it? We’re not set up for that,” he said. “Do I think we should be? Yes, but we’re not.”

And why not? Once again, no officials from the Chinese Communist Party instructed anyone in the United States not to carry out testing. Nobody prevented American public officials from ordering the immediate production of a massive number of tests. Nevertheless, they did not. We don’t know all the details yet, but one element of the situation cannot be denied: The president himself did not want the disease talked of too widely, did not want knowledge of it to spread, and, above all, did not want the numbers of those infected to appear too high. He said so himself, while explaining why he didn’t want a cruise ship full of infected Americans to dock in California. “I like the numbers being where they are,” he said. “I don’t need to have the numbers double because of one ship that wasn’t our fault.”

Donald Trump, just like the officials in Wuhan, was concerned about the numbers—the optics of how a pandemic looks. And everybody around him knew it. There are some indications that Alex Azar, the former pharmaceutical-industry executive and lobbyist who heads the Department of Health and Human Services, was not keen on telling the president things he did not want to hear. Here is how Dan Diamond, a Politico reporter who writes about health policy, delicately described the problem in a radio interview: “My understanding is [that Azar] did not push to do aggressive additional testing in recent weeks, and that’s partly because more testing might have led to more cases being discovered of coronavirus outbreak, and the president had made clear—the lower the numbers on coronavirus, the better for the president, the better for his potential reelection this fall.”

Once again: Nobody threatened Azar. But fear of offending the president may have led him to hesitate to push for aggressive testing nevertheless.

Without the threats and violence of the Chinese system, in other words, we have the same results: scientists not allowed to do their job; public-health officials not pushing for aggressive testing; preparedness delayed, all because too many people feared that it might damage the political prospects of the leader. I am not writing this in order to praise Chinese communism—far from it. I am writing this so that Americans understand that our government is producing some of the same outcomes as Chinese communism. This means that our political system is in far, far worse shape than we have hitherto understood.

What if it turns out, as it almost certainly will, that other nations are far better than we are at coping with this kind of catastrophe? Look at Singapore, which immediately created an app that could physically track everyone who was quarantined, and that energetically tracked down all the contacts of everyone identified to have the disease. Look at South Korea, with its proven testing ability. Look at Germany, where Chancellor Angela Merkel managed to speak honestly and openly about the disease—she predicted that 70 percent of Germans would get it—and yet did not crash the markets.

The United States, long accustomed to thinking of itself as the best, most efficient, and most technologically advanced society in the world, is about to be proved an unclothed emperor. When human life is in peril, we are not as good as Singapore, as South Korea, as Germany. And the problem is not that we are behind technologically, as the Japanese were in 1853. The problem is that American bureaucracies, and the antiquated, hidebound, unloved federal government of which they are part, are no longer up to the job of coping with the kinds of challenges that face us in the 21st century. Global pandemics, cyberwarfare, information warfare—these are threats that require highly motivated, highly educated bureaucrats; a national health-care system that covers the entire population; public schools that train students to think both deeply and flexibly; and much more.

The failures of the moment can be partly ascribed to the loyalty culture that Trump himself has spent three years building in Washington. Only two weeks ago, he named his 29-year-old former bodyguard, a man who was previously fired from the White House for financial shenanigans, to head up a new personnel-vetting team. Its role is to ensure that only people certifiably loyal are allowed to work for the president. Trump also fired, ostentatiously, the officials who testified honestly during the impeachment hearings, an action that sends a signal to others about the danger of truth-telling.

These are only the most recent manifestations of an autocratic style that has been described, over and over again, by many people. And now we see why, exactly, that style is so dangerous, and why previous American presidents, of both political parties, have operated much differently. Within a loyalty cult, no one will tell the president that starting widespread emergency testing would be prudent, because anyone who does is at risk of losing the president’s favor, even of being fired. Not that it matters, because Trump has very few truth-tellers around him anymore. The kinds of people who would dare make the president angry have left the upper ranks of the Cabinet and the bureaucracy already.

But some of what we are seeing is unrelated to Trump. American dysfunction is also the result of our bifurcated health-care system, which is both the best in the world and the worst in the world, and is simply not geared up for any kind of collective national response. The present crisis is the result of decades of underinvestment in civil service, of undervaluing bureaucracy in public health and other areas, and, above all, of underrating the value of long-term planning.

Back from 2001 to 2003, I wrote multiple editorials for The Washington Post about biological warfare and pandemic preparedness—issues that were at the top of everyone’s agenda in the wake of 9/11 and the brief anthrax scare. At the time, some very big investments were made into precisely those issues, especially into scientific research. We will now benefit from them. But in recent years, the subjects fell out of the news. Senators, among them the vaunted Republican moderate Susan Collins of Maine, knocked “pandemic preparedness” out of spending bills. New flu epidemics didn’t scare people enough. More recently, Trump eliminated the officials responsible for international health from the National Security Council because this kind of subject didn’t interest him—or very many other people in Washington, really.

As a nation, we are not good at long-term planning, and no wonder: Our political system insists that every president be allowed to appoint thousands of new officials, including the kinds of officials who think about pandemics. Why is that necessary? Why can’t expertise be allowed to accumulate at the highest levels of agencies such as the CDC? I’ve written before about the problem of discontinuity in foreign policy: New presidents arrive and think they can have a “reset” with other nations, as if other nations are going to forget everything that happened before their arrival—as if we can cheerfully start all relationships from scratch. But the same is true on health, the environment, and other policy issues. Of course there should be new Cabinet members every four or eight years. But should all their deputies change? And their deputies’ deputies? And their deputies’ deputies’ deputies? Because that’s often how it works right now.

All of this happens on top of all the other familiar pathologies: the profound polarization; the merger of politics and entertainment; the loss of faith in democratic institutions; the blind eyes turned to corruption, white-collar crime, and money laundering; the growth of inequality; the conversion of social media and a part of the news media into for-profit vectors of disinformation. These are all part of the deep background to this crisis too.

The question, of course, is whether this crisis will shock us enough to change our ways. The Japanese did eventually react to Commodore Perry’s squadron of ships with something more than fear. They stopped talking about themselves as the vertex of the Earth. They overhauled their education system. They adopted Western scientific methods, reorganized their state, and created a modern bureaucracy. This massive change, known as the Meiji Restoration, is what brought Japan, for better or for worse, into the modern world. Naturally, the old samurai-warrior class fought back against it, bitterly and angrily.

But by then the new threat was so obvious that enough people got it, enough people understood that a national mobilization was necessary, enough people understood that things could not go on that way indefinitely. Could it happen here, too?

Anne Applebaum is a staff writer at The Atlantic. She is a senior fellow of the Agora Institute at Johns Hopkins University. Her latest book is Red Famine: Stalin’s War on Ukraine.

O coronavírus revela que éramos cegos e não sabíamos (El País)

Somente quando o vírus nos encerra em nossas casas e limita nossos movimentos percebemos como é triste a solidão forçada. Quando nos privam da cotidianidade nos sentimos escravos, porque o homem nasceu para ser livre

"Tudo ficará bem", diz um cartaz na varanda de um prédio de Torino ( Nicolò Campo/LightRocket via Getty Images).
“Tudo ficará bem”, diz um cartaz na varanda de um prédio de Torino ( Nicolò Campo/LightRocket via Getty Images).

Juan Arias – 14 mar 2020 – 18:49BRT

A imagem mais dramática e terna, que simboliza ao mesmo tempo a tristeza e a solidão do isolamento ao qual a loucura do coronavírus está nos arrastando, é a dos italianos, habitantes de um país da arte, do tato e da comunicação, que hoje cantam nas janelas das casas diante de ruas e praças vazias. Cantam para consolar os vizinhos encerrados em suas casas. Os lamentos de suas vozes são o símbolo da dor evocada pelos tristes tempos das guerras e dos refúgios contra os bombardeios.

Mas é às vezes nos tempos das catástrofes e do desalento, das perdas que nos angustiam, que descobrimos que, como dizia o Nobel de literatura José Saramago, “somos cegos que, vendo, não veem”. Descobrimos, como uma luz que acende em nossa vida, que éramos cegos, incapazes de apreciar a beleza do natural, os gestos cotidianos que tecem nossa existência e dão sentido à vida.

A pandemia do novo vírus, por mais paradoxal que pareça, poderia servir para abrir nossos olhos e percebermos que o que hoje vemos como uma perda, como passear livres pela rua, dar um beijo ou um abraço, ir ao cinema ou ao bar para tomar uma cerveja com os amigos, ou ao futebol, eram gestos de nosso cotidiano que fazíamos muitas vezes sem descobrir a força de poder agir em liberdade, sem imposições do poder.

Descobri essa sensação quando, dias atrás, fui dar a mão a um amigo e ele retirou a sua. Tinha me esquecido do vírus e pensei que meu amigo poderia estar ofendido comigo. Foi como um calafrio de tristeza.

Às vezes abraçamos, beijamos e nos movemos em liberdade sem saber o valor desses gestos que realizamos quase de forma mecânica. Quando os pais sentem às vezes, no dia a dia, o peso de terem que levar as crianças ao colégio e as deixam lá com um beijo apressado e correndo, mecânico, apreciam, depois do coronavírus, a emoção de que seu filho te peça um beijo ou segure a sua mão. E apreciamos a força de um abraço, do tato, de estarmos juntos apenas quando nos negam essa possibilidade.

Somente quando o vírus nos encerra em nossas casas e limita nossos movimentos percebemos como é triste a solidão forçada, e entendemos melhor o abandono dos presos e dos excluídos. Somente quando nos impedem de nos aproximarmos dos nossos animais de estimação é que descobrimos a maravilha que é poder acariciá-los e abraçá-los.

Se, como dizia Saramago, no cotidiano somos cegos quando não apreciamos a força da liberdade, também, muitas vezes, amando não amamos e livres nos sentimos escravos. O que nos parece cansaço e castigo da rotina revela-se como o maior valor. Quando nos privam dessa cotidianidade nos sentimos escravos, porque o homem nasceu para ser livre.

Na obra Ensaio Sobre a Cegueira (Companhia das Letras), de Saramago, tão recordada nestes momentos de trevas mundiais, na qual uma cidade inteira fica cega e as pessoas enclausuradas, descobre-se melhor nossa insolidariedade e nosso egoísmo. O escritor é duro em seu romance ao fazer daqueles cegos a metáfora de uma sociedade onde cada um, nos momentos de perigo e angústia, pensa apenas em si mesmo.

A única que redime aquela situação perversa dos cegos é uma mulher, a esposa do médico, a única que não perdeu a visão e que se faz passar por cega para ajudar os que de fato são. Aquela mulher é representada hoje pelos italianos que usam suas vozes para, com suas notas doloridas, aliviar a solidão dos vizinhos.

Nestes momentos vividos por boa parte das pessoas do mundo, enclausuradas e presas pelo rigor do poder que as condena negando-lhes a liberdade de movimento, que a dor coletiva nos ajude a vencer nosso atávico egoísmo cotidiano, ao contrário dos cegos egoístas do romance de Saramago.

Que a tragédia do coronavírus consiga nos transformar no futuro em guias e ajuda amorosa dos novos cegos de uma sociedade que muitas vezes parece não saber onde caminhar e que, quando goza de liberdade, anseia pela escravidão.

Que a dor de hoje se transforme em tomada de consciência de que vale mais a liberdade das aves do céu que a escravidão que nos impomos quando somos livres. Que o mundo não caia na tentação dos escravos que Moisés havia tirado da escravidão do Egito, que, enquanto eram conduzidos pelo deserto rumo à liberdade, continuavam preferindo as cebolas e os alhos do tempo da escravidão ao maná que Deus lhes enviava do céu. Não existe maior bem neste planeta do que a liberdade que nos permite amar e sofrer sem sucumbir.

E ante a catástrofe do coronavírus, que poderia nos alcançar a todos, que se rompam neste país as trincheiras entre bolsonaristas e lulistas para nos sentirmos solidários numa mesma preocupação.

Na dor e na calamidade coletiva, sentimos que somos menos desiguais do que pensamos. E que, no fim das contas, as lágrimas não têm ideologia.

Mais informações

Um mapa do risco no mundo (Pesquisa Fapesp)

Com exceção do Japão, os países pobres e em desenvolvimento são os mais vulneráveis a desastres naturais 

MARCOS PIVETTA | ED. 249 | NOVEMBRO 2016

mapa
Por estar sujeito a fortes terremotos e inundações causadas por tsunamis, o Japão é o único país desenvolvido que apresenta risco muito alto de ser afetado por cataclismos, segundo a edição de 2016 do World Risk Report, publicação organizada pela Universidade das Nações Unidas, agência alemã Alliance Development Works e Universidade de Stuttgart. A nação asiática figura na 17ª posição do índice mundial de risco a desastres, que classifica 171 países em função da possibilidade de serem alvo de cinco tipos de eventos extremos: secas, inundações, ciclones ou tempestades, terremotos e aumento do nível do mar.

O índice lista as áreas do globo em ordem decrescente de vulnerabilidade a desastres e os separa em cinco categorias. Cada uma delas é composta por 20% do total de países, que são classificados como sendo de risco muito alto, alto, médio, baixo ou muito baixo. O indicador final é calculado por meio da análise de 28 parâmetros geoclimáticos e socioeconômicos, como a quantidade de pessoas expostas a desastres, a renda e a educação da população, a capacidade de mitigar o impacto de eventos extremos e de se adaptar a mudanças.

Vanuatu, um pequeno arquipélago do Pacífico sul distante 1.700 quilômetros a leste da Austrália, com 250 mil habitantes, é o país mais arriscado do mundo, o número 1 do índice. Está sujeito a terremotos, ciclones e pode ser coberto pelas águas se o nível do mar aumentar. Isso sem contar o vulcanismo, que não entra no cálculo do índice. O segundo lugar é ocupado por Tonga, um arquipélago da Polinésia, e o terceiro, pelas Filipinas. O Haiti, onde o furacão Matthew matou 1.300 pessoas e desalojou 35 mil em outubro, aparece em 21º lugar da lista. O Brasil ocupa a 123ª posição e está classificado na categoria dos países de baixo risco, como os Estados Unidos, a Itália, a Argentina e o Reino Unido. “Nenhum índice baseado em desastres naturais é perfeito”, comenta Lucí Hidalgo Nunes, da Unicamp. “De acordo com as variáveis usadas e o peso dado a elas, as classificações mudam. Mas, certamente, o Brasil não é um dos países em pior situação.”

Visual Perception System Unconsciously Affects Our Preferences (Science Daily)

ScienceDaily (May 23, 2012) — When grabbing a coffee mug out of a cluttered cabinet or choosing a pen to quickly sign a document, what brain processes guide your choices?

New research from Carnegie Mellon University’s Center for the Neural Basis of Cognition (CNBC) shows that the brain’s visual perception system automatically and unconsciously guides decision-making through valence perception. Published in the journal Frontiers in Psychology, the review hypothesizes that valence, which can be defined as the positive or negative information automatically perceived in the majority of visual information, integrates visual features and associations from experience with similar objects or features. In other words, it is the process that allows our brains to rapidly make choices between similar objects.

The findings offer important insights into consumer behavior in ways that traditional consumer marketing focus groups cannot address. For example, asking individuals to react to package designs, ads or logos is simply ineffective. Instead, companies can use this type of brain science to more effectively assess how unconscious visual valence perception contributes to consumer behavior.

To transfer the research’s scientific application to the online video market, the CMU research team is in the process of founding the start-up company neonlabs through the support of the National Science Foundation (NSF) Innovation Corps (I-Corps).

“This basic research into how visual object recognition interacts with and is influenced by affect paints a much richer picture of how we see objects,” said Michael J. Tarr, the George A. and Helen Dunham Cowan Professor of Cognitive Neuroscience and co-director of the CNBC. “What we now know is that common, household objects carry subtle positive or negative valences and that these valences have an impact on our day-to-day behavior.”

Tarr added that the NSF I-Corps program has been instrumental in helping the neonlabs’ team take this basic idea and teaching them how to turn it into a viable company. “The I-Corps program gave us unprecedented access to highly successful, experienced entrepreneurs and venture capitalists who provided incredibly valuable feedback throughout the development process,” he said.

NSF established I-Corps for the sole purpose of assessing the readiness of transitioning new scientific opportunities into valuable products through a public-private partnership. The CMU team of Tarr, Sophie Lebrecht, a CNBC and Tepper School of Business postdoctoral fellow, Babs Carryer, an embedded entrepreneur at CMU’s Project Olympus, and Thomas Kubilius, president of Pittsburgh-based Bright Innovation and adjunct professor of design at CMU, were awarded a $50,000, six-month grant to investigate how understanding valence perception could be used to make better consumer marketing decisions. They are launching neonlabs to apply their model of visual preference to increase click rates on online videos, by identifying the most visually appealing thumbnail from a stream of video. The web-based software product selects a thumbnail based on neuroimaging data on object perception and valence, crowd sourced behavioral data and proprietary computational analyses of large amounts of video streams.

“Everything you see, you automatically dislike or like, prefer or don’t prefer, in part, because of valence perception,” said Lebrecht, lead author of the study and the entrepreneurial lead for the I-Corps grant. “Valence links what we see in the world to how we make decisions.”

Lebrecht continued, “Talking with companies such as YouTube and Hulu, we realized that they are looking for ways to keep users on their sites longer by clicking to watch more videos. Thumbnails are a huge problem for any online video publisher, and our research fits perfectly with this problem. Our approach streamlines the process and chooses the screenshot that is the most visually appealing based on science, which will in the end result in more user clicks.”