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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

Impedir barulho e vaias da torcida é imperialismo cultural, diz sociólogo americano (BBC Brasil)

18.08.2016

Mulher grita durante partida na Rio 2016

Sociólogo americano diz que vê legitimidade no comportamento da torcida brasileira na Rio 2016. GETTY IMAGES

Assim como muitos observadores internacionais acompanhando os Jogos Olímpicos do Rio, o sociólogo americano Peter Kaufman ficou espantado com o episódio das vaias ao atleta francês do salto com vara Renaud Lavillenie. No caso do acadêmico, porém, o que pareceu incomodá-lo mais foi a reação contrária ao comportamento da torcida.

Para o professor da Universidade Estadual de Nova York, que escreve sobre sociologia do esporte e estudou as reações do público ao comportamento de atletas, houve exagero na condenação das manifestações, sobretudo depois do “pito” público dado nos brasileiros pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o alemão Thomas Bach.

Após as vaias a Lavillenie no pódio, Bach usou a conta do COI no Twitter para dizer que o comportamento do público foi “chocante” e “inaceitável nas Olimpíadas”.

“O COI certamente tem questões bem mais importantes para lidar do que vaias de torcedores”, disse Kaufman, em conversa com a BBC Brasil, por telefone.

Veja abaixo, trechos da entrevista:

BBC Brasil – O senhor acompanhou a polêmica das vaias no Brasil?

Peter Kaufman – Sim, porque houve um repercussão considerável de alguns incidentes envolvendo o público na Olimpíada do Rio. O comportamento de torcedores é algo interessante, porque estão em jogo fatores culturais.

Cada cultura tem seus próprios valores: em algumas, é apropriado beijar em vez de apertar a mão quando se é apresentado a alguém, por exemplo. Em outras, é muito aceitável vaiar, assim como em certos países aplausos efusivos podem ser vistos como algo rude.

Torcida durante partida na Rio 2016

Sociólogo aponta que vaias podem ter diferentes motivos, inclusive descontentamento com os gastos nos Jogos. GETTY IMAGES

BBC Brasil – Por que as pessoas vaiam?

Kaufman – É uma questão de expressão, uma forma de interação social e participação. E isso varia de lugar para lugar. Se um alienígena chegasse aqui hoje e fosse assistir a uma competição esportiva, possivelmente teria outra maneira de se comportar de acordo com sua realidade. E, óbvio, sabemos que não é apenas esporte. As Olimpíadas têm um significado muito maior. O público brasileiro pode estar vaiando em desafio às autoridades, ao governo brasileiro e até mesmo ao dinheiro gasto na Olimpíada.

BBC Brasil – É injusto com os atletas?

Kaufman – Alvos de vaias podem se sentir ofendidos, tristes e até ameaçados por uma torcida mais ruidosas. Não os culpo por pensarem apenas na qualidade de seu desempenho em vez de analisar aspectos culturais ou políticos. É perfeitamente compreensível que o atleta francês tenha ficado bastante chateado com as vaias que recebeu até no pódio. Mas ele estava competindo contra um atleta brasileiro e em casa. Pelo que tenho lido sobre a torcida brasileira, era inevitável que ele fosse alvo dessas manifestações.

BBC Brasil – Renaud Lavillenie não foi a primeira “vítima” e não deverá ser a última, mas o comportamento da torcida no Estádio Olímpico, em especial durante provas em que normalmente o silêncio do público é uma questão de etiqueta, como o tênis e a esgrima, irritou até o presidente do COI, Thomas Bach. Como achar um meio termo?

Brasileiros na Rio 2016

Torcida brasileira ficou conhecida pelo excesso de vaias durante os jogos da Rio 2016. GETTY IMAGES

Kaufman – Olha, é irônico que sentimentos de nacionalismo e tribalismo surjam na Olimpíada, uma competição concebida em sua forma moderna para promover a paz e a união ente os povos. Mas o esporte é passional e excitante. As pessoas querem vaiar seu adversário para tentar afetar o resultado de uma partida. E, como costuma ser o caso por causa das rivalidades locais, os brasileiros “pegaram no pé dos argentinos”. Também vimos o público vaiando atletas russos por causa da controvérsia envolvendo o doping. As vaias, por sinal, são o menor dos problemas que o COI tem para resolver.

BBC Brasil – Mas Lavillenie não teria razão ao reclamar do barulho durante o momento de seus saltos? Não seria preciso criar uma cultura de torcida mais apropriada para o esporte olímpico?

Kaufman – Isso seria uma atitude de imperialismo cultural. Por que a maneira do brasileiro torcer é errada? A realidade que conhecemos é criada pelo ambiente em que crescemos. Você mencionou o tênis anteriormente: será que não vale a pena discutirmos a razão para o silêncio durante o saque no tênis enquanto no futebol a torcida pode urrar nos ouvidos de um atacante que vai bater um pênalti? A diferença é que o tênis é um esporte muito mais elitizado.

BBC Brasil: O senhor defende o comportamento da torcida, então?

Kaufman: De certa maneira, sim, apesar de que os esportes têm regras para lidar com isso. Acho fascinante o fato de que as normas de comportamento podem ser diferentes. Fica a impressão de que o COI foi pego de surpresa pela passionalidade do torcedor brasileiro. Mas lembremos da Copa do Mundo de 2010, em que as vuvuzelas do torcedor sul-africano criaram um problema até para quem viu os jogos pela TV. Mas ter proibido seu uso teria amputado um componente cultural.

Vaiar é uma expressão de crenças e valores. É tão “errado” quanto torcer.


Quais são os seis tipos de vaias da torcida brasileira na Rio 2016

Torcida brasileira na Rio 2016

Torcida brasileira já é reconhecida pelo excesso de vaias durante as competições na Rio 2016. GETTY IMAGES

Da esgrima à natação, do basquete ao tênis, atletas foram intensamente vaiados no Rio de Janeiro. E enquanto as vaias são comuns na maioria das Olimpíadas – apesar da ideia de que seja um momento em que o espírito esportivo deve reinar -, já está claro que a Rio 2016 é mais barulhenta que os Jogos mais recentes.

A BBC News fez uma lista com os seis tipos de vaias mais comuns durante a Olimpíada no Brasil, na tentativa de explicar ao público internacional esse fenômeno que vem sendo um dos mais discutidos pela imprensa esportiva:

1. Vaiar por diversão

O público brasileiro tem uma tendência a escolher ” um lado” – torcer por um time, ou um atleta, e vaiar os rivais. Mas eles podem trocar essa lealdade num piscar de olhos.

“Os torcedores brasileiros parecem ser bem igualitários. Eles são capazes de vaiar atletas de muitos países. É muito difícil de identificar o porquê da vaia a um outro atleta”, disse o diretor de comunicação do Comitê Olímpico Internacional, Mark Adams.

A mesma reação foi identificada pelo especialista em Jogos Olímpicos da Universidade de Salford, Andy Miah.

“Eu fiquei surpreso com o quanto eles são verbais e achei uma falta de espírito esportivo toda essa gritaria e vaia. Até eu perceber que era a forma que eles encontraram de se envolver com o drama do evento”, diz.

“Não é malicioso. Eu estava na esgrima ontem e eles estavam vaiando os jogadores e depois torcendo muito e apoiando muito quando eles ganharam. É tudo parte do teatro que é o que eles curtem”.

Ele ainda opina que há diferenças com Londres 2012: “era muito mais quieto, quase nunca tinha gritaria, só aplausos”.

2. Vaiar os favoritos

O público na Rio 2016 demonstrou uma clara preferência pelos azarões. Em uma das primeiras partidas de basquete, os torcedores apoiaram a Croácia enquanto vaiavam os favoritos – a seleção espanhola. A Espanha então começou a perder e foi derrotada por 72-70.

Esse não é um fenômeno novo.

Torcida brasileira na Rio 2016

Em uma das primeiras partidas de basquete, torcedores brasileiros apoiaram a Croácia torcendo pelo time enquanto vaiavam os favoritos, da seleção espanhola. GETTY IMAGES

Durante a Olimpíada de Atenas, em 2004, por exemplo, os torcedores apoiaram a equipe de futebol masculino do Iraque – durante uma semifinal contra o Paraguai – e vaiavam cada vez que os paraguaios ficavam com a bola.

De acordo com o professor de história da mídia da Universidade de Sussex, na Inglaterra, David Hendy, a vaia é “uma tradição nobre” e um lembrete de que o espetáculo é sobretudo para o público, mais do que para os competidores.

“E o público sempre vê tudo em termos dramáticos – um conflito entre heróis e vilões”, explica.

3. Vaiar os russos

Por causa a revelação de um esquema estatal de doping e da decisão do Comitê Olimípico de não suspender todos os atletas, os russos encontraram uma reação particularmente hostil do público no Rio de Janeiro.

As vaias começaram logo na entrada da delegação russa no Maracanã durante a cerimônia de abertura.

“Os russos sempre iriam ser vaiados porque muitos pensam que o COI não deveria ter comprometido os Jogos”, diz Andy Miah.

A nadadora russa Yulia Efimova, que foi banida por 16 meses em 2013 e conquistou o direito de competir novamente no Rio de Janeiro depois de apelar ao Tribunal Arbitral do Esporte, foi vaiada durante toda a competição dos 100 metros peito nas eliminatórias e na final, na qual levou a medalha de prata.

Ela caiu no choro depois que o ouro foi para a americana Lily King, que comentou: “isso só prova que você pode competir limpa e ainda chegar ao topo do pódio”.

Torcida do Brasil em jogo da Alemanha

Torcida brasileira costuma vaiar atletas russos desde o início dos Jogos. GETTY IMAGES

O boxeador russo Evgeny Tishchenko demonstrou frustração com a reação negativa do público aos atletas russos.

“É uma pena que o público se comporte dessa forma, apoiando quem quer que esteja contra a Rússia”, disse ele ao jornal Chicago Tribune.

“Estou bastante irritado com isso. É a primeira vez que eu enfrento esse tipo de tratamento. Para falar a verdade, estou um pouco decepcionado”.

4. Vaias políticas

Ao declarar os Jogos Olímpicos abertos na cerimônia de abertura, o presidente interino Michel Temer foi vaiado.

Temer assumiu em maio depois da suspensão de Dilma Rousseff e foi vaiado apesar dito apenas uma frase. Mas as vaias quase se dissiparam em meio aos fogos de artíficio e à música, até porque o nome de Temer não chegou a ser anunciado.

Presidente em exercício, Michel Temer

Presidente em exercício, Michel Temer, é vaiado na cerimônia de abertura da Rio 2016. GETTY IMAGES

Mas essa não é a primeira vez que uma Olimpíada é um catalisador para a insatisfação com a elite política de um país. O ex-chanceler George Osborne e a então ministra do Interior – e atual premiê – Theresa May foram vaiados na entrega de medalhas durante a Paralimpíada de Londres 2012.

“Foi uma resposta visceral e instantânea de um público indignado com as políticas para os deficientes físicos e que se sentiam sem voz”, diz Hendy.

5. Vaias patrióticas

Os fãs brasileiros foram rápidos em demonstrar apoio aos atletas nativos ao vaiarem vigorosamente seus oponentes.

O tenista alemão Dustin Brown foi vaiado até depois de cair e torcer o tornozelo durante uma partida com Thomaz Bellucci, apesar de ter recebido aplausos e apoio quando se levantou para ser levado ao hospital.

O francês Renaud Lavillenie queixou-se publicamente da vaias que ouviu no Engenhão na noite em que perdeu de Thiago Braz no salto com varas. “Dei tudo de mim e não tenho nenhum arrependimento. Uma prova inacreditável! Só estou decepcionado com a total falta de respeito do público. Isso não é digno de um estádio olímpico”, afirmou.

“As Olimpíadas sempre foram sinônimo de respeito internacional. Então as vaias podem distrair e até evitar que os atletas tenham o melhor desempenho”, diz Rhonda Cohen, psicóloga do esporte da Universidade de Middlesex, na Inglaterra.

O boxeador camaronês Hassan N’Dam N’Jijam certamente não ficou feliz ao perder a luta contra o brasileiro Michel Borges depois de muitas vaias pantomímicas. Segundo ele, o barulho pode ter influenciado os juízes.

Os atletas argentinos também foram vaiados durante a cerimônia de abertura só porque são… argentinos – nossos vizinhos e rivais, especialmente no futebol.

E há o caso da goleira da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, Hope Solo, que postou fotos nas redes sociais falando sobre o vírus da Zika e foi vaiada ao coro de “Zika!”durante a partida contra a Nova Zelândia.

Mas os torcedores não reservaram as vaias apenas aos estrangeiros. A performance ruim dos jogadores brasileiros da seleção de futebol também provocou vaias depois das partidas contra a África do Sul e o Iraque.

6. Vaia aos juízes

Até os juízes olímpicos caíram nas vaias do público brasileiro.

Como anfitriões, os brasileiros conquistaram uma vaga na final do salto sincronizado de 10 metros masculino, apesar de os atletas não terem chances na competição. Inevitavelmente, os juízes consistentemente deram notas baixas, gerando vaias nervosas do público.

Mas vale lembrar que nada se compara à final de ginástica masculina em Atenas 2004. O russo Alexei Nemov animou o público com uma rotina de barras arriscada, e, quando os juízes o avaliaram com notas baixas, ouviu vaias por sete minutos ininterruptos.

An Ancient Mayan Copernicus (The Current/UC Santa Barbara)

In a new paper, UCSB scholar says ancient hieroglyphic texts reveal Mayans made a major discovery in math, astronomy

By Jim Logan

Tuesday, August 16, 2016 – 09:00 – Santa Barbara, CA

The Observatory, Chich'en Itza

“The Observatory” at Chich’en Itza, the building where a Mayan astronomer would have worked. Photo Credit: GERARDO ALDANA

Venus Table

The Preface of the Venus Table of the Dresden Codex, first panel on left, and the first three pages of the Table.

Gerardo Aldana

Gerardo Aldana. Photo Credit: LEROY LAVERMAN

For more than 120 years the Venus Table of the Dresden Codex — an ancient Mayan book containing astronomical data — has been of great interest to scholars around the world. The accuracy of its observations, especially the calculation of a kind of ‘leap year’ in the Mayan Calendar, was deemed an impressive curiosity used primarily for astrology.

But UC Santa Barbara’s Gerardo Aldana, a professor of anthropology and of Chicana and Chicano studies, believes the Venus Table has been misunderstood and vastly underappreciated. In a new journal article, Aldana makes the case that the Venus Table represents a remarkable innovation in mathematics and astronomy — and a distinctly Mayan accomplishment. “That’s why I’m calling it ‘discovering discovery,’ ” he explained, “because it’s not just their discovery, it’s all the blinders that we have, that we’ve constructed and put in place that prevent us from seeing that this was their own actual scientific discovery made by Mayan people at a Mayan city.”

Multitasking science

Aldana’s paper, “Discovering Discovery: Chich’en Itza, the Dresden Codex Venus Table and 10th Century Mayan Astronomical Innovation,” in the Journal of Astronomy in Culture, blends the study of Mayan hieroglyphics (epigraphy), archaeology and astronomy to present a new interpretation of the Venus Table, which tracks the observable phases of the second planet from the Sun. Using this multidisciplinary approach, he said, a new reading of the table demonstrates that the mathematical correction of their “Venus calendar” — a sophisticated innovation — was likely developed at the city of Chich’en Itza during the Terminal Classic period (AD 800-1000). What’s more, the calculations may have been done under the patronage of K’ak’ U Pakal K’awiil, one of the city’s most prominent historical figures.

“This is the part that I find to be most rewarding, that when we get in here, we’re looking at the work of an individual Mayan, and we could call him or her a scientist, an astronomer,” Aldana said. “This person, who’s witnessing events at this one city during this very specific period of time, created, through their own creativity, this mathematical innovation.”

The Venus Table

Scholars have long known that the Preface to the Venus Table, Page 24 of the Dresden Codex, contained what Aldana called a “mathematical subtlety” in its hieroglyphic text. They even knew what it was for: to serve as a correction for Venus’s irregular cycle, which is 583.92 days. “So that means if you do anything on a calendar that’s based on days as a basic unit, there is going to be an error that accrues,” Aldana explained. It’s the same principle used for Leap Years in the Gregorian calendar. Scholars figured out the math for the Venus Table’s leap in the 1930s, Aldana said, “but the question is, what does it mean? Did they discover it way back in the 1st century BC? Did they discover it in the 16th? When did they discover it and what did it mean to them? And that’s where I come in.”

Unraveling the mystery demanded Aldana employ a unique set of skills. The first involved epigraphy, and it led to an important development: In poring over the Table’s hieroglyphics, he came to realize that a key verb, k’al, had a different meaning than traditionally interpreted. Used throughout the Table, k’al means “to enclose” and, in Aldana’s reading, had a historical and cosmological purpose.

Rethinking assumptions

That breakthrough led him to question the assumptions of what the Mayan scribe who authored the text was doing in the Table. Archaeologists and other scholars could see its observations of Venus were accurate, but insisted it was based in numerology. “They [the Maya] knew it was wrong, but the numerology was more important. And that’s what scholars have been saying for the last 70 years,” Aldana said.

“So what I’m saying is, let’s step back and make a different assumption,” he continued. “Let’s assume that they had historical records and they were keeping historical records of astronomical events and they were consulting them in the future — exactly what the Greeks did and the Egyptians and everybody else. That’s what they did. They kept these over a long period of time and then they found patterns within them. The history of Western astronomy is based entirely on this premise.”

To test his new assumption, Aldana turned to another Mayan archaeological site, Copán in Honduras. The former city-state has its own record of Venus, which matched as a historical record the observations in the Dresden Codex. “Now we’re just saying, let’s take these as historical records rather than numerology,” he said. “And when you do that, when you see it as historical record, it changes the interpretation.”

Putting the pieces together

The final piece of the puzzle was what Aldana, whose undergraduate degree was in mechanical engineering, calls “the machinery,” or how the pieces fit together. Scholars know the Mayans had accurate observations of Venus, and Aldana could see that they were historical, not numerological. The question was, Why? One hint lay more than 500 years in the future: Nicolaus Copernicus.

The great Polish astronomer stumbled into the heliocentric universe while trying to figure out the predictions for future dates of Easter, a challenging feat that requires good mathematical models. That’s what Aldana saw in the Venus Table. “They’re using Venus not just to strictly chart when it was going to appear, but they were using it for their ritual cycles,” he explained. “They had ritual activities when the whole city would come together and they would do certain events based on the observation of Venus. And that has to have a degree of accuracy, but it doesn’t have to have overwhelming accuracy. When you change that perspective of, ‘What are you putting these cycles together for?’ that’s the third component.”

Putting those pieces together, Aldana found there was a unique period of time during the occupation of Chichen’Itza when an ancient astronomer in the temple that was used to observe Venus would have seen the progressions of the planet and discovered it was a viable way to correct the calendar and to set their ritual events.

“If you say it’s just numerology that this date corresponds to; it’s not based on anything you can see. And if you say, ‘We’re just going to manipulate them [the corrections written] until they give us the most accurate trajectory,’ you’re not confining that whole thing in any historical time,” he said. “If, on the other hand, you say, ‘This is based on a historical record,’ that’s going to nail down the range of possibilities. And if you say that they were correcting it for a certain kind of purpose, then all of a sudden you have a very small window of when this discovery could have occurred.”

A Mayan achievement

By reinterpreting the work, Aldana said it puts the Venus Table into cultural context. It was an achievement of Mayan science, and not a numerological oddity. We might never know exactly who made that discovery, he noted, but recasting it as a historical work of science returns it to the Mayans.

“I don’t have a name for this person, but I have a name for the person who is probably one of the authority figures at the time,” Aldana said. “It’s the kind of thing where you know who the pope was, but you don’t know Copernicus’s name. You know the pope was giving him this charge, but the person who did it? You don’t know his or her name.”

Most adults know more than 42,000 words (Science Daily)

Date:
August 16, 2016
Source:
Frontiers
Summary:
Armed with a new list of words and using the power of social media, a new study has found that by the age of 20, a native English-speaking American knows 42,000 dictionary words.

Dictionary. How many words do you know? Credit: © mizar_21984 / Fotolia

How many words do we know? It turns out that even language experts and researchers have a tough time estimating this.

Armed with a new list of words and using the power of social media, a new study published in Frontiers in Psychology, has found that by the age of twenty, a native English speaking American knows 42 thousand dictionary words.

“Our research got a huge push when a television station in the Netherlands asked us to organize a nation-wide study on vocabulary knowledge,” states Professor Marc Brysbaert of Ghent University in Belgium and leader of this study. “The test we developed was featured on TV and, in the first weekend, over 300 thousand Dutch speakers had done it — it really went viral.”

Realising how interested people are in finding out their vocabulary size, the team then made similar tests in English and Spanish. The English test has now been taken by almost one million people. It takes up to four minutes to complete and has been shared widely on Facebook and Twitter, giving the team access to an unprecedented amount of data.

“At the Centre of Reading Research we are investigating what determines the ease with which words are recognized;” explained Professor Brysbaert. The test includes a list of 62,000 words that he and his team have compiled.

He added: “As we made the list ourselves and have not used a commercially available dictionary list with copyright restrictions, it can be made available to everyone, and all researchers can access it.”

The test is simple. You are asked if the word on the screen is, or is not, an existing word in English. In each test, there are 70 words, and 30 letter sequences that look like words but are not actually existing words.

The test will also ask you for some personal information such as your age, gender, education level and native language. This has enabled the team to discover that the average twenty-year-old native English speaking American knows 42 thousand dictionary words. As we get older, we learn one new word every two days, which means that by the age of 60, we know an additional 6000 words.

“As a researcher, I am most interested in what this data can tell us about word prevalence, i.e. how well each word is known in a language;” added Professor Brysbaert.

“In Dutch, we have seen that this explains a lot about word processing times. People respond much faster to words known by all people than to words known by 95% of the population, even if the words used with the same frequency. We are convinced that word prevalence will become an important variable in word recognition research.”

With data from about 200 thousand people who speak English as a second language, the team can also start to look at how well these people know certain words, which could have implications for language education.

This is the largest study of its kind ever attempted. Professor Brysbaert has plans to improve the accuracy of the test and extend the list to include over 75,000 words.

“This work is part of the big data movement in research, where big datasets are collected to be mined;” he concluded.

“It also gives us a snapshot of English word knowledge at the beginning of the 21st century. I can imagine future language researchers will be interested in this database to see how English has evolved over 100 years, 1000 years and maybe even longer.”


Journal Reference:

  1. Marc Brysbaert, Michaël Stevens, Paweł Mandera, Emmanuel Keuleers. How Many Words Do We Know? Practical Estimates of Vocabulary Size Dependent on Word Definition, the Degree of Language Input and the Participant’s AgeFrontiers in Psychology, 2016; 7 DOI: 10.3389/fpsyg.2016.01116

Mudanças do clima ameaça segurança alimentar de América Latina e Caribe (ONU)

Relatório produzido pela FAO, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e Associação Latino-Americana de Integração destacou que as mudanças climáticas afetarão o rendimento dos cultivos da agricultura, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central

O impacto das mudanças climáticas na América Latina e no Caribe será considerável devido à dependência econômica da região em relação à agricultura, afirmou novo estudo feito por Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e Associação Latino-Americana de Integração (Aladi).

O estudo foi apresentado no início de agosto em reunião da Celac realizada em Santiago de los Caballeros, na República Dominicana, com o objetivo de ajudar a fornecer insumos para a gestão das mudanças climáticas no Plano para a Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome da Celac 2025.

Segundo as três agências, o setor agrícola é a atividade econômica mais afetada pelas mudanças climáticas, enquanto responde por 5% do PIB regional, 23% das exportações e 16% dos empregos.

“Com uma mudança estrutural em seus padrões de produção e consumo, e um grande impulso ambiental, a América Latina e o Caribe podem alcançar o segundo dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê o fim da fome, a segurança alimentar e a melhora da nutrição e a promoção da agricultura sustentável”, disse Antonio Prado, secretário-executivo adjunto da Cepal.

Segundo ele, o Plano de Segurança Alimentar da Celac e o novo Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável serão os pilares fundamentais para este processo.

O relatório das três agências destacou ainda que a mudança climática afetará o rendimento dos cultivos, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central.

“O desafio atual para a região é considerável: como continuar seu processo positivo de erradicação da fome à medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais profundos e evidentes em seus sistemas produtivos?”, questionou Raúl Benítez, representante regional da FAO.

Os países cujos setores agrícolas sofrerão os maiores impactos (Bolívia, Equador, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Paraguai) já enfrentam desafios importantes em termos de segurança alimentar.

Alguns países da região, assim como a Celac, já deram passos importantes no desenho de planos de adaptação às mudanças climáticas para o setor agropecuário, mas o desafio ainda é grande. Apenas em termos de recursos financeiros, sem levar em conta as mudanças necessárias de política, será necessário algo em torno de 0,02% do PIB regional anual.

Impactos sobre o setor agrícola e a segurança alimentar

Paradoxalmente, apesar de a região gerar uma menor contribuição à mudança climática em termos de emissões de gases do efeito estufa na comparação com outras, é especialmente vulnerável a seus efeitos negativos.

O novo relatório projeta deslocamentos, em altitude e latitude, das regiões de cultivo de espécies importantes como café, cana de açúcar, batata, milho, entre outras.

Nacionalmente, esses impactos podem afetar seriamente a segurança alimentar. Segundo o relatório, na Bolívia as mudanças de temperatura e chuva causarão uma redução média de 20% do faturamento rural.

No caso do Peru, as projeções indicam que o impacto da mudança climática na agricultura irá gerar redução da produção de diversos cultivos básicos para a segurança alimentar, em especial daqueles que necessitam de mais água, como o arroz.

Mas o setor agrícola não apenas é afetado pelas mudanças climáticas, como contribui para que elas ocorram, sendo urgente que os países, como o apoio da CELAC, façam uma transição urgente para práticas agrícolas sustentáveis, tanto em termos ambientais como econômicos e sociais.

Segundo as três agências, a erradicação da fome na América Latina e no Caribe requer uma mudança de paradigma para um modelo agrícola plenamente sustentável que proteja seus recursos naturais, gere desenvolvimento socioeconômico equitativo e permita se adaptar às mudanças climáticas e mitigar seus efeitos.

Leia aqui o relatório completo (em espanhol).

ONU

Rio Acre diminui 18 cm e compromete o abastecimento de água no Estado (MCTIC)

Segundo Cemaden, água captada do rio chega às estações de tratamento com barro, o que prejudica o abastecimento. Relatório cita previsão de chuva a partir de 17 de agosto, mas em volume insuficiente

Em 12 dias, o rio Acre diminuiu 18 centímetros, atingindo 1,35 metro em Rio Branco, o menor nível já registrado. Os dados foram divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, no relatório sobre a seca no estado. Se a estiagem persistir, o rio pode atingir 1,06 metro em 10 de setembro.

“Há uma série de impactos decorrentes dessa situação. A agricultura é totalmente prejudicada. A navegação também é influenciada, pois os barcos não conseguem navegar, e o abastecimento de cidades do interior do estado fica comprometido”, observou o coordenador-geral de Operações do Cemaden, Marcelo Seluchi.

Outro ponto destacado pelo climatologista é o abastecimento de água para a população. Segundo ele, a água que chega às estações de tratamento tem maior quantidade de barro, e essas unidades precisam trabalhar mais para entregar um produto de qualidade para a população. Para isso, foi preciso ajustar as bombas de captação para o volume menor, processo semelhante ao adotado no Sistema Cantareira, em São Paulo (SP).

“Há dificuldade no abastecimento e perda de qualidade da água. O processo de tratamento é mais demorado e acaba encarecido”, afirmou Marcelo Seluchi.

De acordo com o relatório do Cemaden, as chuvas têm sido deficientes desde março, e o período entre junho e agosto é o mais seco do ano no Acre. O documento cita previsão de chuva a partir de 17 de agosto, mas em volume “pouco expressivo”. “Não há expectativa de recuperação do quadro hídrico até o mês de setembro, embora possam ocorrer chuvas ocasionais”, alerta o Cemaden no documento.

“Tivemos alguns quadros de chuvas nos últimos dias, mas não há indícios concretos de que o período chuvoso vá começar na época considerada normal. Precisamos coletar mais dados para poder fazer uma previsão mais acurada”, reforçou Seluchi.

Queimadas

No documento, os pesquisadores também alertam para o risco de incêndios florestais no estado, que registrou, até 26 de julho, três vezes mais ocorrências de focos de calor que o máximo já detectado desde 1998.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e agosto de 2016, o Acre teve 1.120 focos de incêndio, um aumento de 222% em relação ao mesmo período do ano passado.

MCTIC

Ratificação de acordo do clima no Senado transcendeu partidos e ideologia (Observatório do Clima)

Sessão de aprovação acelerada teve petista na presidência, ruralista na relatoria e elogio de tucano, num raro episódio de consenso político em meio à polarização nacional, afirma Alfredo Sirkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima e um dos criadores da campanha Ratifica Já!

A autorização final para a ratificação do Acordo de Paris pelo Senado aconteceu em tempo recorde e conseguiu ser mais ligeira que a da Câmara. Pouco mais de dois meses depois do lançamento da campanha Ratifica Já! Pelo Centro Brasil no Clima, Instituto Clima e Sociedade, Observatório do Clima, SOS Mata Atlântica e dezenas de outras entidades, praticamente ratificados estamos, faltando apenas a sanção presidencial. Esta deve ocorrer quase certamente em setembro, depois da Olimpíada e do desenlace da crise política do impeachment.

O Brasil, assim, tornar-se-á o primeiro país de grande economia a ratificar o Acordo de Paris. Vale a pena ressaltar o extraordinário empenho de alguns parlamentares. Na Câmara, o deputado Evandro Gussi (PV-SP) articulou o regime de urgência. No Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), relator da Comissão Mista de Mudanças Climáticas, além de articular a urgência ainda obteve com o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL), o vice, Jorge Viana (PT-AC) e os líderes dos partidos a sua inclusão numa sessão onde se dava a visita do embaixador do Marrocos, país que vai sediar em novembro a COP22.

A grande curiosidade da votação foi o fato da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), ex-ministra da Agricultura, ter sido a relatora oral da Comissão de Relações Exteriores com um parecer favorável e uma vibrante defesa da agricultura de baixo carbono. A sessão foi presidida pelo vice-presidente do Senado, Jorge Viana, do PT. Os senadores José Agripino (DEM-RN), Antonio Anastasia (PSDB-MG) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) apoiaram o relatório de Kátia Abreu. O presidente da Comissão de Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB-SP), notou que o relatório da colega é uma demonstração de que é possível construir ampla convergência, apesar das eventuais divergências entre os parlamentares.

O Brasil, assim, não apenas está em vias de aderir ao novo acordo do clima, mas também o faz de forma exemplar, num consenso politico transpartidário e transideológico que afasta do cenário qualquer veleidade de negacionismo climático. É um microcosmo da postura que todos os países deveriam adotar, a começar pelos EUA, onde a maioria do Congresso e o candidato republicano à Presidência continuam negando a ciência. Agora ainda temos nosso vasto dever de casa: tirar do papel a INDC, o plano climático nacional, preparar logo seu primeiro ciclo de revisão e um plano de longo prazo de descarbonização da economia brasileira.

 

Observatório do Clima

Large human brain evolved as a result of ‘sizing each other up’ (Science Daily)

Date:
August 12, 2016
Source:
Cardiff University
Summary:
Humans have evolved a disproportionately large brain as a result of sizing each other up in large cooperative social groups, researchers have proposed.

The brains of humans enlarged over time thanks to our sizing up the competition, say scientists. Credit: © danheighton / Fotolia

Humans have evolved a disproportionately large brain as a result of sizing each other up in large cooperative social groups, researchers have proposed.

A team led by computer scientists at Cardiff University suggest that the challenge of judging a person’s relative standing and deciding whether or not to cooperate with them has promoted the rapid expansion of human brain size over the last 2 million years.

In a study published in Scientific Reports, the team, which also includes leading evolutionary psychologist Professor Robin Dunbar from the University of Oxford, specifically found that evolution favors those who prefer to help out others who are at least as successful as themselves.

Lead author of the study Professor Roger Whitaker, from Cardiff University’s School of Computer Science and Informatics, said: “Our results suggest that the evolution of cooperation, which is key to a prosperous society, is intrinsically linked to the idea of social comparison — constantly sizing each up and making decisions as to whether we want to help them or not.

“We’ve shown that over time, evolution favors strategies to help those who are at least as successful as themselves.”

In their study, the team used computer modelling to run hundreds of thousands of simulations, or ‘donation games’, to unravel the complexities of decision-making strategies for simplified humans and to establish why certain types of behaviour among individuals begins to strengthen over time.

In each round of the donation game, two simulated players were randomly selected from the population. The first player then made a decision on whether or not they wanted to donate to the other player, based on how they judged their reputation. If the player chose to donate, they incurred a cost and the receiver was given a benefit. Each player’s reputation was then updated in light of their action, and another game was initiated.

Compared to other species, including our closest relatives, chimpanzees, the brain takes up much more body weight in human beings. Humans also have the largest cerebral cortex of all mammals, relative to the size of their brains. This area houses the cerebral hemispheres, which are responsible for higher functions like memory, communication and thinking.

The research team propose that making relative judgements through helping others has been influential for human survival, and that the complexity of constantly assessing individuals has been a sufficiently difficult task to promote the expansion of the brain over many generations of human reproduction.

Professor Robin Dunbar, who previously proposed the social brain hypothesis, said: “According to the social brain hypothesis, the disproportionately large brain size in humans exists as a consequence of humans evolving in large and complex social groups.

“Our new research reinforces this hypothesis and offers an insight into the way cooperation and reward may have been instrumental in driving brain evolution, suggesting that the challenge of assessing others could have contributed to the large brain size in humans.”

According to the team, the research could also have future implications in engineering, specifically where intelligent and autonomous machines need to decide how generous they should be towards each other during one-off interactions.

“The models we use can be executed as short algorithms called heuristics, allowing devices to make quick decisions about their cooperative behaviour,” Professor Whitaker said.

“New autonomous technologies, such as distributed wireless networks or driverless cars, will need to self-manage their behaviour but at the same time cooperate with others in their environment.”


Journal Reference:

  1. Roger M. Whitaker, Gualtiero B. Colombo, Stuart M. Allen, Robin I. M. Dunbar. A Dominant Social Comparison Heuristic Unites Alternative Mechanisms for the Evolution of Indirect ReciprocityScientific Reports, 2016; 6: 31459 DOI: 10.1038/srep31459

Open Science: o futuro da ciência e o desastre de Mariana (Pesquisa Fapesp)

12.08.2016

O Grupo Independente para Análise do Impacto Ambiental (Giaia) realiza expedições com o objetivo de coletar e analisar amostras da lama com rejeitos de mineração que atingiu o rio Doce após o rompimento da barragem da Samarco, em novembro de 2015, e estimula não cientistas a contribuírem com amostras. Apostando no conceito de ciência aberta, os resultados das viagens são divulgados em tempo real nas redes sociais e no site da organização, permitindo que a população acompanhe o avanço das análises. No vídeo, pesquisadores comentam como o grupo surgiu e algumas consequências do desastre.

Provas #8.754.392.312 e #8.754.392.313 de que o Brasil Odeia Ciência (Meio Bit)

Postado Por  em 12 08 2016

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O brasileiro tem um problema sério com ciência. Ele acha que não precisamos dela. Temos basicamente zero programas sobre ciência na TV aberta, versus centenas de horas semanais de programas religiosos. Todo fim de ano canais abrem espaço para videntes e suas previsões para o ano novo, apenas para misteriosamente esquecer de todas as previsões erradas feitas pelas mesmas pessoas no ano anterior.

O Fantástico dedica 95% do tempo de uma reportagem sobre uma pirâmide idiota flutuando por causa de uns imãs, e 5% com cientistas explicando o truque óbvio. Nos comentários do MeioBit? Vários DEFENDENDO a matéria.

Um tempo atrás o Romário apresentou um Projeto de Lei para desburocratizar a importação de material científico como reagentes, que ficam tanto tempo na aduana que acabam estragando. Teve gente que escreveu cartas pra jornal reclamando, dizendo que não se deve investir em ciência, “e sim em saúde e educação”. No final o projeto foi arquivado.

Estatisticamente as chances de achar um astrólogo em um programa desses de entrevistas tipo Fátima são imensas, tanto quanto são ínfimas as de achar um cientista, sendo que o cientista sempre terá um pastor ou pai de santo como “contraponto”.

No Brasil a profissão de BENZEDEIRA é reconhecida pelo governo e tratada como “patrimônio cultural”. Sendo que a diferença entre benzedeiras e charlatões é que elas rezam antes de cobrar.  Agora, como cereja do bolo de bosta, temos isto:

ufeiro

Isso mesmo. Segundo o G1 o excelentíssimo sr deputado Edmir Chedid, do DEM apresentou uma moção propondo o reconhecimento da profissão de ufeiro, que iria garantir direitos aos ufeiros. Ele diz que

reconhecer a atividade científica que busca entender esses fenômenos, possibilitando financiamentos e linhas de pesquisa destinadas a esse fim junto à Universidades e outras instituições públicas ou privadas”.

Ancient-aliens-guy

Não é surpresa que o Google desconheça projetos do deputado relacionados com ciência de verdade. Ele pelo visto passa boa parte do tempo assistindo History Channel, mas os programas errados. E não, não estou exagerado. Ainda o Deputado:

“os contatos ufológicos acontecem desde os mais remotos tempos da humanidade”. “Há muito tempo atrás, acreditavam que os tais seres ou mesmo suas manifestações eram de origem quase divina, onde estes mesmo seres eram os nossos ‘salvadores’, nossos mediadores entre a ignorância e a sabedoria, para viver uma vida digna e feliz.”

Ele quer gastar dinheiro público com “pesquisadores” dessa bobagem que é basicamente uma seita, e preenche todos os requisitos de pseudociência: é quase 100% baseado em informação anedótica, não é reproduzível, não traz justificativas das hipóteses, etc, etc, etc.

Enquanto isso a FAPESP — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo teve reduzidos em R$ 17 milhões seus repasses para Mestrados e Doutorados, nos últimos 4 anos. Assim não sobra nem pros ufeiros, deputado. O que o senhor tem feito para ajudar a FAPESP? É, eu imaginava.

Acha que acabou? Temos aquele “fenômeno”, aquele grupo picareta chamado Fundação Cacique Cobra Coral, que diz “controlar o tempo” e abusam da credulidade dos retardados, incluindo aí a Prefeitura do Rio que por anos contratou os caras para garantir bom tempo no Réveillon. A taxa de acerto deles? Eu diria que no máximo 50%. A mesma da minha Pedra Controladora do Clima que tenho aqui na minha mesa.

Pior: como todo “místico” no Brasil essa gente é incensada pela mídia, até o Marcelo Tas, que eu julgava inteligente enche a bola dos caras.

Estamos em 2016, imagina-se que gente prometendo controlar o clima através de magia seria no mínimo alvo de risada, certo? Errado. ALGUÉM pagou pra esses espertos irem na Olimpíada de Londres, onde juraram que foram os responsáveis pela pouca chuva na Abertura, e tinham até credencial para um evento com a Dilma. E agora temos… isto:

cacique

Isso mesmo. O tempo está uma bosta, mas eles não falharam. Na matéria do Globo o porta-voz da Fundação diz que o foco deles era garantir o tempo bom na abertura da Olimpíada. Então tá.

Que o clima já estivesse previsto por ciência de verdade, é apenas um detalhe.

O mais triste disso tudo é que todo mundo que promove divulga e protege pseudociência e misticismo faz uso dos benefícios da ciência que diz não “acreditar”. Se ciência é tão ruim assim, incluindo a malvada “alopatia” que tal parar de vacinar suas crianças, rasgar o cartão do pediatra, jogar fora a Insulina e o Isordil e se tratar com chazinhos e homeopatia? GPS? Coisa do capeta, use uma varinha de radbomancia para se achar. Tem uma plantação? Contrate a Cacique Cobra Coral, e não acesse mais as previsões do INPE.

A reserva genética da Humanidade agradecerá.

Governo paga a Cacique Cobra Coral para não chover na Olimpíada, mas se deu mal (Blasting News)

Entidade disse a jornal que não falhou ao tentar prevenir jogos de mau tempo.

Nem mesmo entidade de índio salva Olimpíada da chuva

Nem mesmo entidade de índio salva Olimpíada da chuva 

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PMDB, está tendo um problemão para gerenciar em sua cidade em plena Olimpíada. Desde que os jogos começaram, o município conhecido por ser quente e ensolarado foi assolado pelo frio e ventos. Muitas competições tiveram que ser adiadas, como sessões de tênis e regatas na Lagoa Rodrigues de Freitas. E olha que o #Governo tem uma parceria sobrenatural com a Fundação Cacique Cobra Coral. Há relatos na mídia de que a instituição ganha uma quantia para prevenir a cidade da virada do tempo em grandes eventos. Pelo jeito, a atuação dessa vez não está funcionando. A fundação nega e diz que tudo não poderia estar melhor no Rio.

Os cariocas trocaram os biquínis por casacos e as ressacas já atingem a principal praia da cidade, Copacabana, na Zona Sul do #Rio de Janeiro. Os integrantes da fundação garantem que conseguem incorporar um espírito de um índio do mesmo nome da entidade, que faz com que tragédias climáticas fiquem além da Baía de Guanabara. A crença na entidade fez com que representantes da Cobra Coral fossem à outra Olimpíada. No ano de 2012, por exemplo, eles podiam ser vistos andando por áreas destinadas a governantes, tendo contato até mesmo com o Comitê da hoje presidente afastada Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Em entrevista ao jornal ‘O Globo’ publicada nesta sexta-feira, 12, a médium Adelaide Scritori, que diz que incorpora o espírito do índio poderoso, disse que a principal função foi fazer com que não chovesse na cerimônia de abertura e que as regatas na Baía de Guanabara ocorressem sem lixo. De fato, a abertura dos jogos do Rio de Janeiro aconteceu sem nenhum problema climático. O tempo virou três dias depois e desde então não foi mais controlado. Rajadas de vento chegaram a destruir lonas de estádios e derrubar grades do parque olímpico. As ondas ficaram tão altas que quase invadiram o Centro de Imprensa montado na Zona Sul da Cidade.

O grupo não confirma se realmente recebeu dinheiro da prefeitura e quanto teria recebido.  #Rio2016

‘Chemtrails’ not real, say atmospheric science experts (Science Daily)

Date:
August 12, 2016
Source:
Carnegie Institution for Science
Summary:
Well-understood physical and chemical processes can easily explain the alleged evidence of a secret, large-scale atmospheric spraying program, commonly referred to as ‘chemtrails’ or ‘covert geoengineering.’ A survey of the world’s leading atmospheric scientists categorically rejects the existence of a secret spraying program.

This is a condensation trail, or contrail, left behind an aircraft. Credit: Courtesy of Mick West

Well-understood physical and chemical processes can easily explain the alleged evidence of a secret, large-scale atmospheric spraying program, commonly referred to as “chemtrails” or “covert geoengineering,” concludes a new study from Carnegie Science, University of California Irvine, and the nonprofit organization Near Zero.

Some groups and individuals erroneously believe that the long-lasting condensation trails, or contrails, left behind aircraft are evidence of a secret large-scale spraying program. They call these imagined features “chemtrails.” Adherents of this conspiracy theory sometimes attribute this alleged spraying to the government and sometimes to industry.

The authors of this study, including Carnegie’s Ken Caldeira, conducted a survey of the world’s leading atmospheric scientists, who categorically rejected the existence of a secret spraying program. The team’s findings, published by Environmental Research Letters, are based on a survey of two groups of experts: atmospheric chemists who specialize in condensation trails and geochemists working on atmospheric deposition of dust and pollution.

The survey results show that 76 of the 77 participating scientists said they had not encountered evidence of a secret spraying program, and agree that the alleged evidence cited by the individuals who believe that atmospheric spraying is occurring could be explained through other factors, such as typical airplane contrail formation and poor data sampling.

The research team undertook their study in response to the large number of people who claim to believe in a secret spraying program. In a 2011 international survey, nearly 17 percent of respondents said they believed the existence of a secret large-scale atmospheric spraying program to be true or partly true. And in recent years a number of websites have arisen claiming to show evidence of widespread secret chemical spraying, which they say is linked to negative impacts on human health and the environment.

“We wanted to establish a scientific record on the topic of secret atmospheric spraying programs for the benefit of those in the public who haven’t made up their minds,” said Steven Davis of UC Irvine. “The experts we surveyed resoundingly rejected contrail photographs and test results as evidence of a large-scale atmospheric conspiracy.”

The research team says they do not hope to sway those already convinced that there is a secret spraying program — as these individuals usually only reject counter-evidence as further proof of their theories — but rather to establish a source of objective science that can inform public discourse.

“Despite the persistence of erroneous theories about atmospheric chemical spraying programs, until now there were no peer-reviewed academic studies showing that what some people think are ‘chemtrails’ are just ordinary contrails, which are becoming more abundant as air travel expands. Also, it is possible that climate change is causing contrails to persist for longer periods than they used to.” Caldeira said. “I felt it was important to definitively show what real experts in contrails and aerosols think. We might not convince die-hard believers that their beloved secret spraying program is just a paranoid fantasy, but hopefully their friends will accept the facts.”


Journal Reference:

  1. Christine Shearer, Mick West, Ken Caldeira, Steven J Davis. Quantifying expert consensus against the existence of a secret, large-scale atmospheric spraying programEnvironmental Research Letters, 2016; 11 (8): 084011 DOI: 10.1088/1748-9326/11/8/084011

Seca pode levar o rio Acre ao seu nível histórico mais baixo (Pesquisa Fapesp)

15 de agosto de 2016

Seca pode levar o rio Acre ao seu nível histórico mais baixoSegundo o Grupo de Trabalho em Previsão Climática do MCTIC, estiagem deve afetar navegação e abastecimento dos ribeirinhos, além do risco de queimadas e incêndios florestais na Amazônia e área central do país (Foto: Rio Acre/Agência Acre)

Agência FAPESP – A seca que atinge o sudoeste da Amazônia, especialmente o Acre, deve se agravar ainda mais nos próximos meses, alertou o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), de acordo com a Assessoria de Comunicação Social do Ministério.

Segundo a previsão, o rio Acre deve atingir o seu mais baixo nível histórico (entre 1,20m e 1,30m) e impactar a navegação e o abastecimento de comunidades ribeirinhas da região. O levantamento é válido para os meses de agosto, setembro e outubro deste ano.

O Acre é o estado mais afetado pela estiagem que se estende também para o norte da Amazônia. Desde março, o volume de chuvas é deficitário na região, em parte por conta do El Niño, que começou no outono do ano passado. O fenômeno está associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, alterando os ventos em boa parte do planeta e o regime de chuvas. Na região Norte, leva à seca. A partir de junho, o La Niña, fenômeno oposto, começou a se desenvolver de forma fraca.

“Esta estiagem é fruto de uma interação de vários fenômenos, notadamente o El Niño e a La Niña. Ela já se estende há quase seis meses, e não temos uma noção exata de quando vai normalizar. Estamos acompanhando a situação mensalmente para avaliar como ela se comporta”, afirmou o chefe da Divisão de Pesquisas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo, à Assessoria de Comunicação Social do MCTIC.

O documento alerta ainda para o alto risco de queimadas e incêndios florestais, especialmente na área central do Brasil e no sul e no leste da Amazônia. O número de focos de incêndio pode atingir máximas históricas. Contudo, a adoção de medidas de controle pode mitigar o problema no trimestre.

Poucas chuvas no Nordeste

A região Nordeste também deve sofrer mais com a estiagem no período analisado. De acordo com o grupo de previsão climática do MCTIC, tradicionalmente, agosto é o último mês da estação chuvosa na parte leste da região, mas tem chovido pouco desde abril, início do período de precipitações na região. Com a baixa incidência de chuvas nos últimos anos, a tendência é que a situação se repita na zona da mata, que já apresenta valores abaixo da média para a época do ano.

“O panorama de poucas chuvas nessa área vem se arrastando desde 2012, e os níveis dos reservatórios e dos rios estão muito baixos, mesmo na zona da mata. E isso gera problemas para a população, porque pode haver desabastecimento”, destacou José Marengo.

Participam do GTPCS o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A íntegra do documento pode ser acessada aqui no endereço http://www.cemaden.gov.br/previsao-climatica-para-o-trimestre-aso2016/.

Cobrada pelo mau tempo, Fundação Cacique Cobra Coral diz que não falhou (O Globo)

Representantes da organização garantem que não houve falhas em sua operação

Apesar da operação da Fundação Cacique Cobra Coral os jogos do Rio tem registrado mau tempo, com provas tendo que ser adiadas Foto: Jorge William / Agência O Globo

Apesar da operação da Fundação Cacique Cobra Coral os jogos do Rio tem registrado mau tempo, com provas tendo que ser adiadas – Jorge William / Agência O Globo

POR LUIZ ERNESTO MAGALHAES

10/08/2016 15:53 / atualizado 10/08/2016 16:17

RIO – Regatas na Lagoa adiadas, sessões de tênis remarcadas, transtornos provocados por ressacas que invadem instalações na Praia de Copacabana… Credenciados pelo Comitê Organizador Rio-2016 para acompanhar as condições climáticas durante a Olimpíada, os integrantes da Fundação Cacique Cobra Coral, que garantem ter poder sobrenatural para controlar o tempo, afirmam que não houve falhas na operação espiritual para garantir o sucesso da Olimpíada.

A médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do Cacique Cobra Coral, já circulou várias vezes pelo Parque Olímpico. O porta-voz da fundação, Osmar Santos, garante que o desempenho até agora da entidade é digno de medalha de ouro. Segundo ele, as prioridades foram direcionar o tempo para garantir a cerimônia de abertura sem chuvas e que os ventos soprassem de forma a a garantir que as regatas da Baía de Guanabara ocorressem em raias sem lixo:

Segundo Osmar, no domingo, quando uma forte ventania atingiu a cidade causando estragos e adiando provas do remo, Adelaide sequer estava no Rio. A médium, segundo ele, estaria na Região Serrana, encerrando a operação da Cerimônia de Abertura. O porta voz da médium argumenta que as demandas espirtuais da entidade são inúmeras e não se limitam a Olimpíada

– O grande legado nosso da cerimônia de abertura foi o desvio da Frente Fria que estava no Rio e foi desviada para Minas erais onde despejou 30 milímetros de chuva em pleno agosto no Vale do Jequitinonha. Isso para o cacique é muito mais importante. Agora vamos abrir um corredor para as frentes entrarem pelo continente e apagarem as queimadas no Pantanal – disse Osmar.

De acordo com Osmar, o mau tempo de hoje está relacionado com o atraso na entrada da frente fria na cidade para garantir a limpeza da Baía

Essa não é a primeira vez que a Fundação atua numa Olimpíada. Repórteres do GLOBO encontraram integrantes da Fundação em Londres, em 2012, credenciados inclusive para uma visita da presidente afastada Dilma Roousseff durante um evento oficial do Comitê Olímpico do Brasil. Adelaide também estava em Copenhague (Dinamarca) em 2009 quando o Rio foi eleito cidade sede da Olimpíada de 2016.

A Fundação também, é chamada para outros eventos como o Réveillon e o Rock in Rio. Nas últimas edições das Olimpíadas, no entanto, chegou a chover forte alguns dias. A Fundação Cacique Cobra Coral nas duas ocasiões alegou que ficou retida antes de chegar à Cidade do Rock por problemas no credenciamento do carro que transportava os integrantes.

Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/rio/cobrada-pelo-mau-tempo-fundacao-cacique-cobra-coral-diz-que-nao-falhou-19894579#ixzz4H3PcWa6C
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1952: Uma Odisséia no Sertão (Folha de S.Paulo)

1 Jun 2016

QUARTA-FEIRA, 1° DE JUNHO DE 2016

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Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, que viajou com Guimarães Rosa em 1952

Último vaqueiro relembra expedição que inspirou ‘Grande Sertão: Veredas’

Na viagem que fez pelo sertão de Minas Gerais em 1952, João Guimarães Rosa era conhecido pelos vaqueiros apenas como Joãozito. Hoje, ainda é assim que o último remanescente da expedição se refere ao diplomata e escritor.

“Joãozito era meio caladão, mas engraçado. Contava casos e gostava também de ouvir a gente contar para ele. Sempre [estava] com uma cadernetinha pendurada no pescoço. E nela, escrevia as coisas de qualquer jeito”, relembra Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, mais conhecido como Criolo.

A viagem é histórica porque serviu de subsídio para parte da obra de Guimarães Rosa: o conjunto de sete novelas “Corpo de Baile” e para o romance e obra-prima “Grande Sertão: Veredas” –que seria inicialmente uma das histórias de “Corpo de Baile”. Ambos os livros foram lançados em 1956, há 60 anos.

Alexandre Rezende – 24.mai.2016/Folhapress
SETE LAGOAS, MG, BRASIL, 24-05-2016, 12:30h. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo", na empresa de sua familia em Sete Lagoas. No mês em que "Grande Sertão: Veredas" completa 60 anos, apenas um remanescente da expedição que levou Guimarães Rosa ao sertão de Minas Gerais ainda vive. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo" (apelido irônico por ele ser branco demais), acompanhou Guimarães Rosa na viagem feita em 1952 que inspirou o autor a escrever o romance e ainda guarda imagens e lembranças da época, aos 81 anos.(Alexandre Rezende/Folhapress ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Alexandre Rezende
Francisco Guimarães Moreira Filho, o “Criolo”, na empresa de sua familia em Sete Lagoas

Criolo tinha 17 anos quando participou da travessia de dez dias do escritor pelo interior de Minas Gerais. A comitiva foi organizada pelo pai de Criolo, Chico Moreira, e saiu da fazenda Sirga, onde hoje é o município de Três Marias, para levar 180 cabeças de gado até a fazenda São Francisco, em Araçaí, a 240 km de distância.

Guimarães Rosa (1908-1967) era primo de Chico e foi junto para conhecer o dia a dia do sertanejo. Aprendeu a andar de cavalo, a tocar boiada e, quando voltou para casa, no Rio de Janeiro, levou um papagaio.

Quatro anos depois, publicou os dois livros. Em “Corpo de Baile” (1956), um personagem inspirado no capataz Manuelzão (Manuel Nardi, morto em 1997) está no título de uma das novelas.

“O sucesso dele como escritor foi ‘Grande Sertão’, e saiu dessa viagem da boiada”, diz à Folha Criolo, que ganhou o apelido ainda na infância –uma ironia por ser branco demais.

Numa sala de sua pequena empresa em Sete Lagoas (MG), onde aluga guinchos, Criolo espalhou fotos da expedição nas paredes, que foram registradas pela revista “O Cruzeiro”. Uma placa diz: “A origem do Grande Sertão: Veredas”.

Mas, do livro mesmo, Criolo conhece apenas o título. “Não consegui ler, nem papai. Apesar de ser pessoa estudada, ele não conseguiu entender o palavreado.”

Em 2007, para iniciar a comemoração do centenário do nascimento do escritor, Criolo refez a viagem, que também durou dez dias, acompanhado de mais 40 pessoas.

‘SAUDADES DAÍ’

“Chico, saudades daí tenho sempre”, diz a carta de Guimarães Rosa emoldurada na parede onde fica o acervo de Criolo. Assinada em 6 de outubro de 1952, ela foi enviada para seu pai.

“O papagaio está gordo e alegre, magnífico. Aprendeu muita conversa carioca, mas não se esqueceu do repertório sertanejo: (…) sabe chamar as vacas, com notável entusiasmo”, escreveu Guimarães Rosa.

Da comitiva de nove vaqueiros que acompanhou o escritor, Manuelzão se tornou o mais conhecido e morreu como uma figura mítica do sertão de Minas Gerais.

Já Chico Moreira, que era o dono da fazenda e foi quem viabilizou a expedição, é pouco lembrado. De acordo com o filho, ele tentou ajudar ao máximo Guimarães Rosa a se adaptar à viagem.

Mandou, inclusive, um funcionário ir antecipadamente de uma fazenda a outra com uma mula mansa para o diplomata cavalgar. Mas foi Manuelzão quem ensinou Guimarães Rosa a montar.

Criolo reclama que as fotos da expedição foram retiradas de exposição no museu Casa de Guimarães Rosa, que fica em Cordisburgo (MG), onde o escritor nasceu. Para ele, só querem que o escritor apareça em fotos usando smoking.

“Não querem que fale que ele foi peão, que andou a cavalo, que tocou boiada. Querem que ele só seja alta sociedade”, queixa-se.

Procurada, a coordenação do museu informou que as exposições são temporárias e trocadas constantemente. Também informa que as fotos da expedição continuam, sim, a fazer parte do acervo do museu.

As veredas de Guimarães já são escassas, e antenas se impõem

Paulo Peixoto, 01/06/2016

É difícil lidar com a obra de João Guimarães Rosa e não se sentir provocado a ir esmiuçar o “sertão roseano”, conhecer a gente daquele lugar, o bioma de buritis e veredas, as cidades, as roças, as mínimas coisas tão caprichosamente eternizadas nas histórias e contos desse clássico escritor parido naquele cerrado brasileiro.

Nada melhor do que um período sabático para ler e reler toda a obra de Rosa e pôr os pés naquele pedaço de Minas Gerais que ele muito bem nos apresentou. Foi isso o que eu pude fazer durante cinco meses em 2011.

As duas únicas imposições que fiz a mim mesmo foram: não deixar nunca faltar gasolina no carro e agir sempre de acordo com o tempo do sertão, que passa sem pressa e com prosa. Isso não é lenda!

ORG XMIT: 390901_0.tif O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Guimarães Rosa viaja entre Cordisburgo e Três Marias, no sertão mineiro, colhendo material para o livro "Grande Sertão: Veredas", acompanhado por Álvares da Silva e Eugênio Silva, repórter e fotógrafo, respectivamente, da revista "O Cruzeiro" que publicou, na edição de 21 de junho de 1952, a reportagem sobre a viagem. (Minas Gerais, maio de 1952. Foto de Eugênio Silva/O Cruzeiro) O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Eugênio Silva – 1º.mai.1952/O Cruzeiro. 

O silêncio é uma marca no sertão. Viajar por ele deu sentido a uma frase de Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais”. Era preciso, então, ouvir esse silêncio.

Velhos vaqueiros e tropeiros cruzaram o meu caminho, caso do vivaz, lúcido e já quase cego homem de Beltrão, um lugarejo de Corinto, Feliciano Tavares de Souza, então com 94 anos. Personagem marcante.

Já velho, ele virou benzedor, um homem da “fé curativa”. Ao longo da vida, teve 15 filhos com duas mulheres e uma companhia inseparável: uma arma calibre 38. ”

“[Naquele tempo] Se não estivesse armado, eu não tinha vida [hoje]. Respeitava[-se] era a arma, não a pessoa. O governo deveria ter uma lei de desarmar todo mundo”, dizia ele.

Novos personagens se apresentaram. Foram benzedeiros e benzedeiras vocacionados “”é, eles dizem que é preciso ter vocação para herdar os ensinamentos, a religiosidade e a bondade dos seus parentes mais velhos.

As doceiras do sertão e seus inseparáveis tachos de cobre, os produtores e vendedores de minhocuçu foram outros que conheci.

E não poderiam ter faltado os companheiros de botequim que contavam causos do vaqueiro Manuel Nardi (1904-1997), o Manuelzão, em Andrequicé.

MUDANÇAS

Muita coisa mudou no sertão. A paisagem mudou bastante. As veredas já são escassas.

Para ver de perto o “porto” do rio de Janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontraram, foi preciso atravessar quilômetros de estrada de terra batida em meio a plantações de eucalipto, que viram carvão para siderúrgicas. Uma tragédia ambiental.

Muito da vida rural se tornou urbana no sertão mineiro. O desenvolvimento a partir da segunda metade do século passado levou a isso.

O “brega” anima as festas nas cidades. O marketing americanizado no comércio urbano chamou bastante minha atenção: “Lan House New Emotions”, “Look da Moda”, “Marly Free Modas”.

Outros nomes também me pareceram um tanto estranhos: “Moda Nua Confecções” e “Zeus – A Arte de Vestir Bem”. Haja criatividade!

Mas nas pequenas cidades do sertão prevalece a tranquilidade, a vida pacata. Chegar em Morro da Garça (2.630 habitantes) e ver de perto a colina solitária em forma de pirâmide que inspirou Rosa no conto “O Recado do Morro” foi mais um mergulho no universo do escritor.

Uma antena de telefonia na crista do local agora se impõe. Mas eu a saudei quando precisei usar o celular para enviar um S.O.S. para a retirada do carro atolado.

Nessa viagem dos livros para a realidade do sertão de hoje, foram muitas descobertas. Somos apresentados a um mundo em que as pessoas, embora simples, nos contam histórias cheias de valor, vindas de um tempo em extinção.

Retornar a Cordisburgo e rever o Museu Casa de Guimarães Rosa, conhecer o Memorial Manuelzão, em Andrequicé, descobrir o Memorial Carlos Chagas, em Lassance, me proporcionaram experiências memoráveis. Revi grutas e os tantos rios que demarcam o “sertão roseano”. Nadei em vários deles.

É uma viagem que vale a pena. “Aprender a viver é que é o viver mesmo”, ensinou Rosa.

Cemaden completa cinco anos com o monitoramento de 957 municípios do País (MCTI)

JC, 5449, 1 de julho de 2016

Mais de R$ 72 milhões já foram investidos em radares meteorológicos de alta resolução para monitoramento de áreas de risco. Além disso, o Cemaden desenvolve tecnologia para previsão de quebra de safra no semiárido

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) completa cinco anos com o monitoramento de áreas de risco em 957 municípios do País. Um trabalho feito 24 horas por dia, sem interrupção. As informações fornecidas por radares meteorológicos de alta tecnologia já permitiram a emissão de 5,5 mil alertas para a Defesa Civil. Segundo o diretor do Cemaden, Osvaldo Moraes, 12 novos equipamentos serão adquiridos, o que vai aumentar a confiabilidade dos alertas.

“Os radares serão instalados nas áreas que atualmente não estão cobertas, o que fará com que o Brasil possua um dos mais avançados sistemas de monitoramento de risco de ocorrência de desastres naturais do mundo”, afirma Moraes.

Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o Cemaden investiu R$ 72 milhões em nove radares meteorológicos, equipamentos no estado da arte para aplicações voltadas ao monitoramento de desastres naturais instalados em Petrolina (PE), Natal (RN), Maceió (AL), Salvador (BA), Almenara (MG), Três Marias (MG), São Francisco (MG), Santa Teresa (ES) e Jaraguari (MS). Com eles, o Cemaden consegue mensurar a quantidade de chuvas, fazer uma previsão de tempo de curtíssimo prazo e antecipar a emissão de alertas para municípios com risco de desastres naturais. Os dados estão disponíveis em tempo real para acesso público.

“Esses radares possuem a capacidade de identificar e localizar as nuvens presentes dentro da área de cobertura do equipamento, além de medir a quantidade de chuva em um determinado local. O uso permite que os operadores do Cemaden identifiquem os locais onde as condições meteorológicas aumentam o risco de desastres naturais. Com isso, podemos emitir alertas antecipados sobre o risco de deslizamentos de terra e enchentes, por exemplo, preservando as vidas das pessoas expostas ao risco”, explica o coordenador do projeto Radares Meteorológicos do Cemaden, Carlos Frederico de Angelis.

Ele ressalta que a unidade implantada em Maceió, por exemplo, possui tecnologia e sensibilidade para levantar dados elaborados sobre chuvas num raio de 400 quilômetros de distância. Segundo Angelis, o equipamento é capaz de antecipar os riscos de desastres provocados por fenômenos meteorológicos com até seis horas de antecedência.

“Um desastre natural afeta não só a vida das pessoas que estão em áreas de risco como também a infraestrutura e a economia, como o agronegócio, por exemplo. Os impactos são ainda maiores para os pequenos produtores”, diz Angelis.

Ciência Cidadã

A quebra de safras agrícolas também está no radar do Cemaden, que vai lançar, no segundo semestre, o Sistema de Previsão de Riscos de Colapso de Safras no Semiárido Brasileiro com previsões de risco de colapso de safras geradas a partir de estimativas de modelos agrometeorológicos; dados públicos de safras típicas (milho, mandioca, feijão, arroz e sorgo) por região; e previsão do tempo para um período de 15 a 45 dias.

“A implantação deste projeto contempla o uso de modelos agrometeorológicos integrados a uma rede de monitoramento de dados (meteorológicos, fenológicos, práticas de manejo e informações do solo), contribuindo para a geração de indicadores para o monitoramento da seca, previsão e manejo dos riscos de colapso de safras e aprimoramento dos sistemas de alerta”, explica o diretor do Cemaden.

Além disso, o sistema vai contar com as informações enviadas pelos próprios produtores por meio de aplicativo desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT) do MCTIC e o International Institute for Applied Systems Analysis (Iiasa), da Áustria.

Disponibilizado para aparelhos celulares desde o início do ano, o AgriSupport permite o registro fotográfico georreferenciado de áreas plantadas e a coleta de informações sobre plantios realizados pelos pequenos produtores do semiárido.

No futuro, o monitoramento das safras será estendido para outros cultivos em outras regiões do País.

 MCTIC

A política indigenista e o malogrado projeto de aldeamento indígena do século XIX (Pesquisa Fapesp)

30 de junho de 2016

José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – Existe uma expressiva produção historiográfica sobre os primeiros 250 anos de contato dos indígenas com os conquistadores europeus do atual território brasileiro. O escambo entre forasteiros e nativos, as várias tentativas de escravização dos índios, a catequese jesuíta, o protagonismo indígena em grandes episódios, como a Guerra dos Tamoios, são razoavelmente conhecidos. Mas, após a derrota dos Guarani das Missões Jesuíticas em meados do século XVIII, escasseiam os relatos. Eles só irão reaparecer no século XX, com a intensificação do processo de interiorização. O século XIX, em especial, parece desprovido de índios. Presente na poesia e na prosa da literatura romântica, o indígena é o grande ausente nas páginas da história.

Com a ajuda de frades capuchinhos italianos, o Império procurou enquadrar os índios geográfica e culturalmente, mas a resistência velada que estes opuseram redimensionou o empreendimento (imagem: Cacique Pahi Kaiowá, Aldeamento de Santo Inácio do Paranapanema. Franz Keller, 1865 / Carneiro, Newton: Iconografia Paranaense, Curitiba, Impressora Paranaense, 1950)

No entanto, o século XIX foi palco da primeira política indigenista do Estado brasileiro. O fenômeno é o objeto do livro Terra de índio: imagens em aldeamentos do Império, de Marta Amoroso, publicado com o apoio da FAPESP. A obra resultou das pesquisas de doutorado e pós-doutorado de Amoroso – ambas apoiadas pela FAPESP.

“Esta política de Estado, baseada no “Programa de Catequese e Civilização dos Índios”, e instituída por decreto do imperador Pedro II, consistia no aldeamento das populações indígenas. E atendia a dois objetivos principais: por um lado, integrar o índio, como trabalhador rural, à jovem nação brasileira; por outro, liberar terras, antes utilizadas pelos indígenas, para os imigrantes europeus, que começavam a chegar nas colônias do Sudeste do país”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

Pedro II tinha apenas 19 anos quando assinou, em 24 de junho de 1845, o decreto que criou os aldeamentos. Estes perduraram até o final do Segundo Reinado, em 1889. Aldeamentos foram criados em todas as províncias brasileiras. Para administrá-los e dirigi-los, o Império solicitou à Propaganda Fide, do Vaticano, precursora da atual Congregação para a Evangelização dos Povos, que enviasse ao Brasil frades italianos da Ordem Menor dos Capuchinhos. Cerca de cem missionários capuchinhos desembarcaram no país, logo enviados aos quatro cantos do Império, ao encontro das populações indígenas.

“Os capuchinhos não tinham frente aos índios um projeto de autonomia como o dos jesuítas, que atuaram nos primeiros séculos da colonização. Eram pragmáticos e burocráticos, a maioria deles de origem rural, mal falando o português. E foram contratados como funcionários do governo, com salário pago. Estavam envolvidos no programa de criação da nação brasileira, de construir um povo a partir da mistura. Era um programa de apagamento da identidade indígena, e os capuchinhos se empenharam ao máximo em levá-lo à prática”, informou Amoroso.

A maior parte da documentação utilizada por ela em seu livro veio de um arquivo dessa ordem religiosa, localizado no Rio de Janeiro. “Os capuchinhos deixaram relatórios e cartas absolutamente circunstanciados, com detalhes administrativos ultraminuciosos. Além dos relatos dos viajantes do século XIX, foram esses documentos religiosos, e ao mesmo tempo oficiais, que forneceram a base de dados para o meu trabalho”, afirmou.

Inicialmente a pesquisadora fez um levantamento da cartografia dos aldeamentos do Império. Depois, fechou o foco da pesquisa no sistema de aldeamentos do Paraná, especialmente em seu núcleo central, São Pedro de Alcântara, localizado às margens do rio Tibagi, para o qual havia uma documentação muito substanciosa. “Esse aldeamento, próximo da cidade de Castro, reuniu cerca de 4 mil índios, de quatro etnias: os Kaingang, do tronco linguístico Macro-Jê, e os Kaiowá, Nhandeva e Mbyá, que são falantes da língua Guarani. Considerados agricultores dóceis, os Guarani-Kaiowá, que atualmente sofrem violências brutais devido a conflitos de terras, foram trazidos do Mato Grosso para o Paraná, com a perspectiva de que povoassem os aldeamentos do governo e pudessem produzir mantimentos para abastecer o exército brasileiro na chamada Guerra do Paraguai [1864 – 1870]”, relatou Amoroso.

Segundo a pesquisadora, foram feitas várias tentativas para tornar o aldeamento de São Pedro de Alcântara economicamente produtivo: mantimentos, café, tabaco etc. Mas todas elas fracassaram. Até que o empreendimento finalmente prosperou com a instalação de uma destilaria de aguardente. “Houve todo um esforço, muito bem documentado, dos capuchinhos na montagem dessa destilaria. É incrível que uma das maiores calamidades vividas pelas populações indígenas, que é o alcoolismo, tenha sido oficialmente promovida”, comentou.

Programa de Catequese

O “Programa de Catequese e Civilização dos Índios” inspirou-se em uma ideia de tutela das populações indígenas que remontava aos Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil, produzidos em 1823 por José Bonifácio de Andrada e Silva. E, antes deles, às diretrizes definidas pelo Marquês de Pombal após a expulsão dos jesuítas do Império Português, na segunda metade do século XVIII.

Como escreveu Amoroso, o modelo do indigenismo pombalino, retomado nos aldeamentos indígenas do Império, contrastava na sua concepção com o ideal de autonomia buscada pelas missões jesuíticas. Daí a ênfase na mistura dos índios com os demais habitantes das vilas e povoados, na migração dos colonos para as regiões tradicionalmente habitadas pelos indígenas, e nos deslocamentos forçados dos índios. Bem como nas tentativas de proibição do uso das línguas indígenas e do nheengatu, a chamada “língua geral”, resultante da mistura de idiomas indígenas com o português.

Até por isso, os aldeamentos do Império não eram áreas de confinamento. Os índios não permaneciam reclusos em seu interior. “Os aldeamentos eram concebidos como colônias agrícolas, em cujas sedes ficavam lotados os missionários e funcionários contratados e instaladas as unidades produtivas mais importantes. E essas sedes administravam aldeias indígenas localizadas relativamente perto. Apesar de os deslocamentos serem admitidos pela ideologia associada aos aldeamentos, na maioria dos casos, estes traslados forçados de população de fato não ocorreram. Os frades tutelavam aldeias que já existiam e continuaram existindo”, acrescentou a pesquisadora.

A própria ideia da tutela parece ter sido encarada como uma solução provisória. Em carta enviada pelo Palácio Imperial ao presidente da Província de São Paulo em 1847, dois anos após a assinatura do decreto que criou os aldeamentos, assim foi exposto o princípio que os orientava: “arrancar à vida errante a multidão de selvagens que vaga pelos nossos bosques para reuni-los em sociedade, inspirar-lhes o amor ao trabalho e proporcionar-lhes os cômodos da vida civil, até que possam apreciar as suas vantagens e viver de qualquer trabalho ou indústria”. Essa mesma correspondência ordenava ao presidente provincial que impedisse que o aldeamento acolhesse indígenas e descendentes já integrados à sociedade, “confundidos na massa geral da população”.

Um aspecto para o qual a pesquisadora chamou a atenção foi o fato de que, ao lado de cada aldeamento, o Império instalou também uma guarnição militar. “As Colônias Militares são a evidência de uma política de guerra nas fronteiras internas do Império, em contraponto à ‘brandura para com os índios’ da propaganda imperial”, disse.

O livro destaca as estratégias indígenas diante do “Programa de Catequese e Civilização dos Índios”, encenando uma resistência não declarada nos territórios então administrados pelo Governo. “Tomando como exemplo a participação Guarani em um desses aldeamentos, vislumbram-se conflitos interétnicos e a grande mobilidade de indivíduos e grupos familiares em torno dos equipamentos instalados. O abandono frequente de São Pedro de Alcântara pelos Guarani foi muitas vezes motivado pela impossibilidade de compartilharem o espaço do aldeamento com os funcionários e religiosos e com outros coletivos indígenas aldeados. Já os Kaingang, além de terem imposto sua presença nos aldeamentos originalmente concebidos para os Guarani-Kaiowá, permaneceram em algumas das unidades criadas mesmo depois de estas serem abandonadas pelos órgãos públicos”, descreveu Amoroso.

Moeda de troca

Mas, de maneira geral, o que a pesquisa destacou foi a grande mobilidade dos grupos indígenas que permaneceram em suas aldeias, frequentando eventualmente os aldeamentos.

“Isso era favorecido pelo fato de que, no século XIX, havia ainda uma grande área disponível para a circulação. Logo depois da Lei de Terras de 1850, as fazendas privadas estavam sendo implantadas, os colonos europeus estavam chegando, mas os índios ainda podiam circular por vastas extensões. E frequentavam a civilização apenas quando lhes convinha. Indivíduos que já haviam sido batizados em um aldeamento apresentam-se em outro como ‘selvagens’, em busca de ajuda. E usavam os equipamentos fornecidos pelos missionários como ‘moeda de troca’ nos relacionamentos com outros grupos indígenas. Os frades comentavam e se indispunham contra essa mobilidade, mas nada podiam fazer, porque, sem dizer ‘não’, fazendo-se muitas vezes de desentendidos, os índios opunham uma resistência velada, que acabou se impondo”, argumentou Amoroso.

Assim, a despeito do zelo gerencial dos capuchinhos, a política de aldeamento fracassou. As atividades produtivas não prosperaram, as verbas foram minguando, os equipamentos se degradaram, e as políticas indígenas triunfaram sobre a normatização burocrática. “Nem mesmo a orientação de que os índios deviam se comunicar apenas na língua portuguesa deu certo”, acrescentou a pesquisadora.

Algo importante que a pesquisa buscou destacar foi o “outro lado” dessa história, isto é, como os grupos indígenas vivenciaram o processo. “O trabalho com a documentação, na tentativa de compor uma etnografia, me permitiu perceber que houve todo tipo de arranjo: grupos inteiros foram exterminados, como os Guarani-Kaiowá de São Pedro de Alcântara, que morreram devido a uma epidemia de cólera na década de 1860; grupos permaneceram, como os Kaingang, que até hoje habitam a região; grupos transitaram pelos aldeamentos, sendo registrada ao longo das quatro décadas grande mobilidade dos Nhandeva e os Mbyá”, informou.

Muitos aldeamentos do Império são agora terras indígenas. É o caso do Aldeamento São Jerônimo, atualmente Posto Indígena São Jerônimo da Serra, na margem do rio Tigre, afluente do Tibagi, no Paraná. Criado em 1859, a partir da doação da Fazenda de São Jerônimo pelo Barão de Antonina, teve sua área original, de 33.880 hectares, drasticamente reduzida para pouco mais de 1.339 hectares. Mas sua modesta população vem apresentando consistente crescimento demográfico: 133 pessoas, em 1945; 285, em 1975; 380, em 2005, de acordo com informações do Portal Kaingang.

Também a população Guarani do Estado de São Paulo, computada, em 2013, em 3.593 indígenas das etnias Nhandeva e Mbyá, vem crescendo a uma taxa de 4,5% ao ano, muito superior à da média da população brasileira (de 0,9%, em 2013, e de 0,8%, em 2016) (fonte: www.rau.ufscar.br/wp-content/uploads/2015/05/vol5no1_03.Juracilda.pdf).

Essa tendência de recuperação demográfica de populações altamente devastadas é um fenômeno conhecido e registrado hoje em dia na África. No território brasileiro, cuja população indígena foi reduzida de estimados 5 milhões em 1500 para 400 mil atualmente (distribuídos em cerca de 200 etnias e 170 línguas), isso também está ocorrendo.

“Ainda mais persistente do que a sobrevivência física tem sido a sobrevivência das práticas culturais. O fio da meada que parece desaparecer em um ponto volta a aparecer adiante, muitas vezes de forma surpreendente. Descobri, por exemplo, que o núcleo Guarani que, em 1906, acolheu em São Paulo o célebre etnólogo alemão Curt Unckel (1883 – 1945) provinha exatamente daquele aldeamento estudado, no Paraná. Foram eles que lhe deram o nome Nimuendajú, pelo qual o alemão trocou seu sobrenome Unckel ao se naturalizar brasileiro. Em seu trabalho de campo, Curt Nimuendajú entrevistou grandes xamãs Guarani, que passaram pela experiência dos aldeamentos. Estes lhe falaram do trabalho extenuante que tinham que realizar sob a direção dos capuchinhos. E também relataram seus primeiros contatos com as drogas da civilização: o açúcar e a cachaça.”

Curt Nimuendajú tornou-se um marco da etnologia, quase tão lendário em vida quanto o foi o etnólogo groenlandês Knud Rasmussen (1879 – 1933). É revelador que a busca de uma perspectiva indígena sobre a política de aldeamento tenha convergido para a trajetória do etnólogo. E que uma abordagem antropológica da tentativa de enquadramento institucional dos indígenas tenha vindo desembocar na figura daquele que testemunhou com os próprios olhos, na década de 1920, a mais impressionante manifestação da fidelidade do povo Guarani a suas raízes culturais: a última grande migração para o Leste, em busca da mítica “Terra sem Males” (Yvy marã e’ỹ).

Médiuns têm perfil diferente daquele apresentado na literatura científica (USP Notícias)

11/05/2005

Estudo com 115 médiuns kardecistas de São Paulo indica que a maioria possui alto nível socioeducacional, perfil que se enquadra no último censo do IBGE. Segundo a pesquisa, eles não apresentam problemas mentais

Na literatura científica, muitas vezes os médiuns (que se comunicam com espíritos) são descritos como pessoas de baixa escolaridade e renda. Sua mediunidade deve ser entendida como um “mecanismo de defesa contra as opressões sociais”, ou como manifestação de algum quadro dissociativo ou psicótico.

No entanto, um estudo realizado pelo psiquiatra Alexander Moreira de Almeida com médiuns espíritas da cidade de São Paulo mostrou um perfil diferente: os médiuns apresentaram um alto nível socioeducacional e uma prevalência de transtornos mentais menor do que a encontrada na população em geral.

Almeida constatou que 46,5% das pessoas tinham curso superior, 76,5% eram mulheres, menos de 3% estavam desempregados, e a idade média era de 48 anos. A maioria era espírita há mais de 16 anos, vieram de famílias não-espíritas e as vivências mediúnicas começaram na infância.

“Esse perfil sociodemográfico se encaixa no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra um crescimento da proporção de espíritas conforme aumenta a escolaridade da população”, comenta o psiquiatra, que apresentou sua tese de doutorado à Faculdade de Medicina (FMUSP), com orientação do professor Francisco Lotufo Neto.

Os participantes do estudo atuam em nove centros espíritas kardecistas da Capital, pertencentes à Aliança Espírita Evangélica. O médico aplicou um questionário sóciodemográfico a 115 médiuns antes e depois das sessões espíritas. Eles também responderam a questões referentes à atividade mediúnica. Almeida ainda utilizou os questionários SRQ (Self-Report Psychiatric Screening Questionnaire), que rastreia a presença de transtornos mentais, e o EAS (Escala de Adequação Social), que mostra como a pessoa se relaciona em sociedade.

A partir dos resultados foram selecionados 24 médiuns. Eles foram analisados pelo SCAN (Schedules for Clinical Assessment in Neuropsychiatry), um tipo de entrevista psiquiátrica padrão e pelo DDIS (Dissociative Disorders Interview Schedule), um questionário que detecta transtornos dissociativos (quando uma parte da mente funciona de forma independente). “É nessa categoria que os transes mediúnicos são habitualmente encaixados”, explica o médico.

“Os médiuns apresentaram, em média, quatro sintomas de primeira ordem para diagnóstico de esquizofrenia, mas a presença desses sintomas não indicou a existência de nenhuma doença mental”

Transes X esquizofrenia

A escala DDIS investiga a presença de 11 sintomas de primeira ordem para o diagnóstico de esquizofrenia – vozes dialogando na sua cabeça, vozes comentando as suas ações, ter suas ações produzidas ou controladas por alguém ou algo fora de você, entre outros. “Os médiuns apresentaram, em média, quatro deles, mas a presença dos sintomas não indicou a existência de nenhuma doença mental”, afirma. “Além disso, eles também apresentaram uma boa adequação social e demonstraram ter uma saúde mental melhor que a da população em geral”. Não houve correlação entre freqüência de atividade mediúnica e problemas mentais ou desajuste social.

O médico ressalva que os resultados da pesquisa se referem especificamente a médiuns em atividades regulares em centros espíritas. “Para eles trabalharem nos centros são necessários dois anos de cursos, além da participação semanal nas reuniões mediúnicas”, afirma.

Almeida é membro do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. O núcleo tem como objetivo estudar as questões religiosas e espirituais segundo o enfoque científico, sem vínculo com nenhuma corrente filosófica ou religiosa.

“Durante muito tempo a Psiquiatria encarou a mediunidade como um transtorno mental”, conta. “Só a partir das décadas de 50 e 60 é que houve uma mudança de mentalidade, e essas manifestações passaram a ser vistas como sendo não-patológicas quando vivenciadas dentro de uma religião.” De acordo com Almeida, o último censo do IBGE mostrou que o espiritismo ocupa a quarta posição entre as religiões praticadas no Brasil, país com a maior população espírita do mundo. A tese está disponível para consultas no Portal Conhecimento.

Sequestro de CO2 (Pesquisa Fapesp)

Reunimos o que já publicamos sobre o processo de captura de dióxido de carbono da atmosfera, que se dá sobretudo em florestas e oceanos e ajuda a manter equilibrados os níveis de CO2 na atmosfera

Edição Online 13:10 27 de junho de 2016

 

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The Violence of Forgetting (New York Times)

Brad Evans: Throughout your work you have dealt with the dangers of ignorance and what you have called the violence of “organized forgetting.” Can you explain what you mean by this and why we need to be attentive to intellectual forms of violence?

Henry Giroux: Unfortunately, we live at a moment in which ignorance appears to be one of the defining features of American political and cultural life. Ignorance has become a form of weaponized refusal to acknowledge the violence of the past, and revels in a culture of media spectacles in which public concerns are translated into private obsessions, consumerism and fatuous entertainment. As James Baldwin rightly warned, “Ignorance, allied with power, is the most ferocious enemy justice can have.”

The warning signs from history are all too clear. Failure to learn from the past has disastrous political consequences. Such ignorance is not simply about the absence of information. It has its own political and pedagogical categories whose formative cultures threaten both critical agency and democracy itself.

What I have called the violence of organized forgetting signals how contemporary politics are those in which emotion triumphs over reason, and spectacle over truth, thereby erasing history by producing an endless flow of fragmented and disingenuous knowledge. At a time in which figures like Donald Trump are able to gain a platform by promoting values of “greatness” that serve to cleanse the memory of social and political progress achieved in the name of equality and basic human decency, history and thought itself are under attack.

Once ignorance is weaponized, violence seems to be a tragic inevitability. The mass shooting in Orlando is yet another example of an emerging global political and cultural climate of violence fed by hate and mass hysteria. Such violence legitimates not only a kind of inflammatory rhetoric and ideological fundamentalism that views violence as the only solution to addressing social issues, it also provokes further irrational acts of violence against others. Spurrned on by a complete disrespect for those who affirm different ways of living, this massacre points to a growing climate of hate and bigotry that is unapologetic in its political nihilism.

It would be easy to dismiss such an act as another senseless example of radical Islamic terrorism. That is too easy. Another set of questions needs to be asked. What are the deeper political, educational, and social conditions that allow a climate of hate, racism, and bigotry to become the dominant discourse of a society or worldview? What role do politicians with their racist and aggressive discourses play in the emerging landscapes violence? How can we use education, among other resources, to prevent politics from being transformed into a pathology? And how might we counter these tragic and terrifying conditions without retreating into security or military mindsets?

Violence maims not only the body, but also the mind and the spirit.

B.E.: You insist that education is crucial to any viable critique of oppression and violence. Why?

H.G.: I begin with the assumption that education is fundamental to democracy. No democratic society can survive without a formative culture, which includes but is not limited to schools capable of producing citizens who are critical, self-reflective, knowledgeable and willing to make moral judgments and act in a socially inclusive and responsible way. This is contrary to forms of education that reduce learning to an instrumental logic that too often and too easily can be perverted to violent ends.

So we need to remember that education can be both a basis for critical thought and a site for repression, which destroys thinking and leads to violence. Michel Foucault wrote that knowledge and truth not only “belong to the register of order and peace,” but can also be found on the “side of violence, disorder, and war.” What matters is the type of education a person is encouraged to pursue.

It’s not just schools that are a site of this struggle. “Education” in this regard not only includes public and higher education, but also a range of cultural apparatuses and media that produce, distribute and legitimate specific forms of knowledge, ideas, values and social relations. Just think of the ways in which politics and violence now inform each other and dominate media culture. First-person shooter video games top the video-game market while Hollywood films ratchet up representations of extreme violence and reinforce a culture of fear, aggression and militarization. Similar spectacles now drive powerful media conglomerates like 21st Century Fox, which includes both news and entertainment subsidiaries.

As public values wither along with the public spheres that produce them, repressive modes of education gain popularity and it becomes easier to incarcerate people than to educate them, to model schools after prisons, to reduce the obligations of citizenship to mere consumption and to remove any notion of social responsibility from society’s moral registers and ethical commitments.

B.E.: Considering Hannah Arendt’s warning that the forces of domination and exploitation require “thoughtlessness” on behalf of the oppressors, how is the capacity to think freely and in an informed way key to providing a counter to violent practices?

H.G.: Young people can learn to challenge violence, like those in the antiwar movement of the early ’70s or today in the Black Lives Matter movement.

Education does more than create critically minded, socially responsible citizens. It enables young people and others to challenge authority by connecting individual troubles to wider systemic concerns. This notion of education is especially important given that racialized violence, violence against women and the ongoing assaults on public goods cannot be solved on an individual basis.

Violence maims not only the body but also the mind and spirit. As Pierre Bourdieu has argued, it lies “on the side of belief and persuasion.” If we are to counter violence by offering young people ways to think differently about their world and the choices before them, they must be empowered to recognize themselves in any analysis of violence, and in doing so to acknowledge that it speaks to their lives meaningfully.

There is no genuine democracy without an informed public. While there are no guarantees that a critical education will prompt individuals to contest various forms of oppression and violence, it is clear that in the absence of a formative democratic culture, critical thinking will increasingly be trumped by anti-intellectualism, and walls and war will become the only means to resolve global challenges.

Creating such a culture of education, however, will not be easy in a society that links the purpose of education with being competitive in a global economy.

B.E.: Mindful of this, there is now a common policy in place throughout the education system to create “safe spaces” so students feel comfortable in their environments. This is often done in the name of protecting those who may have their voices denied. But given your claim about the need to confront injustice, does this represent an ethically responsible approach to difficult subject matters?

Critical education should be viewed as the art of the possible rather than a space organized around timidity, caution and fear.

H.G.: There is a growing culture of conformity and quietism on university campuses, made evident in the current call for safe spaces and trigger warnings. This is not just conservative reactionism, but is often carried out by liberals who believe they are acting with the best intentions. Violence comes in many forms and can be particularly disturbing when confronted in an educational setting if handled dismissively or in ways that blame victims.

Yet troubling knowledge cannot be condemned on the basis of making students uncomfortable, especially if the desire for safety serves merely to limit access to difficult knowledge and the resources needed to analyze it. Critical education should be viewed as the art of the possible rather than a space organized around timidity, caution and fear.

Creating safe spaces runs counter to the notion that learning should be unsettling, that students should challenge common sense assumptions and be willing to confront disturbing realities despite discomfort. The political scientist Wendy Brown rightly argues that the “domain of free public speech is not one of emotional safety or reassurance,” and is “ not what the public sphere and political speech promise.” A university education should, Brown writes, “ call you to think, question, doubt” and “ incite you to question everything you assume, think you know or care about.”

This is particularly acute when dealing with pedagogies of violence and oppression. While there is a need to be ethically sensitive to the subject matter, our civic responsibility requires, at times, confronting truly intolerable conditions. The desire for emotionally safe spaces can be invoked to protect one’s sense of privilege — especially in the privileged sites of university education. This is further compounded by the frequent attempts by students to deny some speakers a platform because their views are controversial. While the intentions may be understandable, this is a dangerous road to go down.

Confronting the intolerable should be challenging and upsetting. Who could read the testimonies of Primo Levi and not feel intellectually and emotionally exhausted? Or Martin Luther King Jr.’s words, not to mention those of Malcolm X? It is the conditions that produce violence that should upset us ethically and prompt us to act responsibly, rather than to capitulate to a privatized emotional response that substitutes a therapeutic language for a political and worldly one.

There is more at work here than the infantilizing notion that students should be protected rather than challenged in the classroom; there is also the danger of creating a chilling effect on the part of faculty who want to address controversial topics such as war, poverty, spectacles of violence, racism, sexism and inequality. If American society wants to invest in its young people, it has an obligation to provide them with an education in which they are challenged, can learn to take risks, think outside the boundaries of established ideologies, and expand the far reaches of their creativity and critical judgment. This demands a pedagogy that is complicated, taxing and disruptive.

B.E.: You place the university at the center of a democratic and civil society. But considering that the university is not a politically neutral setting separate from power relations, you are concerned with what you term “gated intellectuals” who become seduced by the pursuit of power. Please explain this concept.

H.G.: Public universities across the globe are under attack not because they are failing, but because they are they are considered discretionary — unlike K-12 education for which funding is largely compulsory. The withdrawal of financial support has initiated a number of unsavory responses: Universities have felt compelled to turn towards corporate management models. They have effectively hobbled academic freedom by employing more precarious part-time instead of full-time faculty, and they increasingly treat students as consumers to be seduced by various campus gimmicks while burying the majority in debt.

My critique of what I have called “gated intellectuals” responds to these troubling trends by pointing to an increasingly isolated and privileged full-time faculty who believe that higher education still occupies the rarefied, otherworldly space of disinterested intellectualism of Cardinal Newman’s 19th century, and who defend their own indifference to social issues through appeals to professionalism or by condemning as politicized those academics who grapple with larger social issues. Some academics have gone so far as to suggest that criticizing the university is tantamount to destroying it. There is a type of intellectual violence at work here that ignores and often disparages the civic function of education while forgetting Hannah Arendt’s incisive admonition that “education is the point at which we decide whether we love the world enough to assume responsibility for it.”

Supported by powerful conservative foundations and awash in grants from the defense and intelligence agencies, such gated intellectuals appear to have forgotten that in a democracy it is crucial to defend the university as a crucial democratic public sphere. This is not to suggest that they are silent. On the contrary, they provide the intellectual armory for war, the analytical supports for gun ownership, and lend legitimacy to a host of other policies that lead to everyday forms of structural violence and poverty. Not only have they succumbed to official power, they collude with it.

B.E.: I feel your recent work provides a somber updating of Arendt’s notion of “dark times,” hallmarked by political and intellectual catastrophe. How might we harness the power of education to reimagine the future in more inclusive and less violent terms?

H.G.: The current siege on higher education, whether through defunding education, eliminating tenure, tying research to military needs, or imposing business models of efficiency and accountability, poses a dire threat not only to faculty and students who carry the mantle of university self-governance, but also to democracy itself.

The solutions are complex and cannot be addressed in isolation from a range of other issues in the larger society such as the defunding of public goods, the growing gap between the rich and the poor, poverty and the reach of the prison-industrial complex into the lives of those marginalized by class and race.

We have to fight back against a campaign, as Gene R. Nichol puts it, “to end higher education’s democratizing influence on the nation.” To fight this, faculty, young people and others outside of higher education must collectively engage with larger social movements for the defense of public goods. We must address that as the welfare state is defunded and dismantled, the state turns away from enacting social provisions and becomes more concerned about security than social responsibility. Fear replaces compassion, and a survival-of-the-fittest ethic replaces any sense of shared concern for others.

Lost in the discourse of individual responsibility and self-help are issues like power, class and racism. Intellectuals need to create the public spaces in which identities, desires and values can be encouraged to act in ways conducive to the formation of citizens willing to fight for individual and social rights, along with those ideals that give genuine meaning to a representative democracy.

Any discussion of the fate of higher education must address how it is shaped by the current state of inequality in American society, and how it perpetuates it. Not only is such inequality evident in soaring tuition costs, inevitably resulting in the growing exclusion of working- and middle-class students from higher education, but also in the transformation of over two-thirds of faculty positions into a labor force of overworked and powerless adjunct faculty members. Faculty need to take back the university and reclaim modes of governance in which they have the power to teach and act with dignity, while denouncing and dismantling the increasing corporatization of the university and the seizing of power by administrators and their staff, who now outnumber faculty on most campuses.

In return, academics need to fight for the right of students to be given an education not dominated by corporate values. Higher education is a right, and not an entitlement. It should be free, as it is in many other countries, and as Robin Kelley points out, this should be true particularly for minority students. This is all the more crucial as young people have been left out of the discourse of democracy. Rather than invest in prisons and weapons of death, Americans need a society that invests in public and higher education.

There is more at stake here than making visible the vast inequities in educational and economic opportunities. Seeing education as a political form of intervention, offering a path toward racial and economic justice, is crucial in reimagining a new politics of hope. Universities should be subversive in a healthy society. They should push against the grain, and give voice to the voiceless the powerless and the whispers of truth that haunt the apostles of unchecked power and wealth. Pedagogy should be disruptive and unsettling, while pushing hard against established orthodoxies. Such demands are far from radical, and leave more to be done, but they point to a new beginning in the struggle over the role of higher education in the United States.

‘Estudos de neurociência superaram a psicanálise’, diz pesquisador brasileiro (Folha de S.Paulo)

Juliana Cunha, 18.06.2016

Com 60 anos de carreira, 22.794 citações em periódicos, 60 premiações e 710 artigos publicados, Ivan Izquierdo, 78, é o neurocientista mais citado e um dos mais respeitados da América Latina. Nascido na Argentina, ele mora no Brasil há 40 anos e foi naturalizado brasileiro em 1981. Hoje coordena o Centro de Memória do Instituto do Cérebro da PUC-RS.

Suas pesquisas ajudaram a entender os diferentes tipos de memória e a desmistificar a ideia de que áreas específicas do cérebro se dedicariam de maneira exclusiva a um tipo de atividade.

Ele falou à Folha durante o Congresso Mundial do Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu esta semana, em Buenos Aires. Izquierdo foi o homenageado desta edição do congresso.

Na entrevista, o cientista fala sobre a utilidade de memórias traumáticas, sua descrença em métodos que prometem apagar lembranças e diz que a psicanálise foi superada pelos estudos de neurociência e funciona hoje como mero exercício estético.

Bruno Todeschini
O neurocientista Ivan Izquierdo durante congresso em Buenos Aires
O neurocientista Ivan Izquierdo durante congresso em Buenos Aires

*

Folha – É possível apagar memórias?
Ivan Izquierdo – É possível evitar que uma memória se expresse, isso sim. É normal, é humano, inclusive, evitar a expressão de certas lembranças. A falta de uso de uma determinada memória implica em desuso daquela sinapse, que aos poucos se atrofia.

Fora disso, não dá. Não existe uma técnica para escolher lembranças e então apagá-las, até porque a mesma informação é salva várias vezes no cérebro, por um mecanismo que chamamos de plasticidade. Quando se fala em apagamento de memórias é pirotecnia, são coisas midiáticas e cinematográficas.

O senhor trabalha bastante com memória do medo. Não apagá-las é uma pena ou algo a ser comemorado?
A memória do medo é o que nos mantém vivos. É a que pode ser acessada mais rapidamente e é a mais útil. Toda vez que você passa por uma situação de ameaça, a informação fundamental que o cérebro precisa guardar é que aquilo é perigoso. As pessoas querem apagar memórias de medo porque muitas vezes são desconfortáveis, mas, se não estivessem ali, nos colocaríamos em situações ruins.

Claro que esse processo causa enorme estresse. Para me locomover numa cidade, meu cérebro aciona inúmeras memórias de medo. Entre tê-las e não tê-las, prefiro tê-las, foram elas que me trouxeram até aqui, mas se pudermos reduzir nossa exposição a riscos, melhor. O problema muitas vezes é o estímulo, não a resposta do medo.

Mas algumas memórias de medo são paralisantes, e podem ser mais arriscadas do que a situação que evitam. Como lidar com elas?
Antes parado do que morto. O cérebro atua para nos preservar, essa é a prioridade. Claro que esse mecanismo é sujeito a falhas. Se entendemos que a resposta a uma memória de medo é exagerada, podemos tentar fazer com que o cérebro ressignifique um estímulo. É possível, por exemplo, expor o paciente repetidas vezes aos estímulos que criaram aquela memória, mas sem o trauma. Isso dissocia a experiência do medo.

Isso não seria parecido com o que Freud tentava fazer com as fobias?
Sim, Freud foi um dos primeiros a usar a extinção no tratamento de fobias, embora ele não acreditasse exatamente em extinção. Com a extinção, a memória continua, não é apagada, mas o trauma não está mais lá.

Mas muitos neurocientistas consideram Freud datado.
Toda teoria envelhece. Freud é uma grande referência, deu contribuições importantes. Mas a psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência, é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro. Hoje a pessoa vai me falar em inconsciente? Onde fica? Sou cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante.

Para mim, a psicanálise hoje é um exercício estético, não um tratamento de saúde. Se a pessoa gosta, tudo bem, não faz mal, mas é uma pena quando alguém que tem um problema real que poderia ser tratado deixa de buscar um tratamento médico achando que psicanálise seria uma alternativa.

E outros tipos de análise que não a freudiana?
Terapia cognitiva, seguramente. Há formas de fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo.

O senhor veio para o Brasil com a ditadura na Argentina. Agora, vivemos um processo no Brasil que alguns chamam de golpe, é uma memória em disputa. O que o senhor acha disso enquanto cientista?
Eu vim por conta de uma ameaça. Não considero um golpe, mas é um processo muito esperto. Mudar uma palavra ressignifica toda uma memória. Há de fato uma disputa de como essa memória coletiva vai ser construída. A esquerda usa o termo golpe para evocar memórias de medo de um país que já passou por um golpe. Conforme essa palavra é repetida, isso cria um efeito poderoso. Ainda não sabemos como essa memória será consolidada, mas a estratégia é muito esperta.

A jornalista JULIANA CUNHA viajou a convite do Congresso Mundial do Cérebro, Comportamento e Emoções

O bichinho que desafia Deus (El País)

Organismo marinho mostra por que o ser humano não está no topo da evolução

MANUEL ANSEDE

Barcelona 13 JUN 2016 – 21:07 CEST

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do 'Oikopleura'.

Os biólogos Ricard Albalat e Cristian Cañestro, com exemplares do ‘Oikopleura’. JUAN BARBOSA 

“Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e que se repete todos os dias, não é senão uma coisa muda. Somente o acaso tem voz”, escreveu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. E tem algo que fala, ou melhor, grita, numa praia de Badalona, perto de Barcelona: a que é dominada pela Ponte do Petróleo. Por esse dique de 250 metros, que penetra no mar Mediterrâneo, eram descarregados produtos petrolíferos até o final do século XX. E a seus pés se levanta desde 1870 a fábrica do Anís del Mono, o licor em cujo rótulo aparece um símio com cara de Charles Darwin em referência à teoria da evolução, que gerava polêmica na época.

Hoje, a Ponte do Petróleo é um belo mirante com uma estátua de bronze dedicada ao macaco com rosto darwinista. E, por um acaso que fala, entre seus frequentadores se encontra uma equipe de biólogos evolutivos do departamento de Genética da Universidade de Barcelona. Os cientistas caminham pela passarela sobre o oceano e lançam um cubo para fisgar um animal marinho, o Oikopleura dioica, de apenas três centímetros, mas que possui boca, ânus, cérebro e coração. Parece insignificante, mas, como Darwin, faz estremecer o discurso das religiões. Coloca o ser humano no lugar que lhe corresponde: com o resto dos animais.

“Temos sido mal influenciados pela religião, pensando que estávamos no topo da evolução. Na verdade, estamos no mesmo nível que o dos outros animais”, diz o biólogo Cristian Cañestro. Ele e o colega Ricard Albalat dirigem um dos únicos três centros científicos do mundo dedicados ao estudo do Oikopleura dioica. Os outros dois estão na Noruega e no Japão. O centro espanhol é uma salinha fria, com centenas de exemplares praticamente invisíveis colocados em recipientes de água, num canto da Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona.

O organismo marinho ‘Oikopleura dioica’ indica que a perda de genes ancestrais, compartilhados com os humanos, seria o motor da evolução

“A visão até agora era que, ao evoluir, ganhávamos em complexidade, adquirindo genes. Era o que se pensava quando os primeiros genomas foram sequenciados: de mosca, de minhoca e do ser humano. Mas vimos que não é assim. A maioria de nossos genes está também nas medusas. Nosso ancestral comum os possuía. Não que tenhamos ganhado genes; eles é que perderam. A complexidade genética é ancestral”, diz Cañestro.

Em 2006, o biólogo pesquisava o papel de um derivado da vitamina A, o ácido retinoico, no desenvolvimento embrionário. Essa substância indica às células de um embrião o que têm que fazer para se transformar num corpo adulto. O ácido retinoico ativa os genes necessários, por exemplo, para formar as extremidades, o coração, os olhos e as orelhas dos animais. Cañestro estudava esse processo no Oikopleura. E ficou de boca aberta.

Uma fêmea de 'Oikopleura dioica' cheia de ovos.

Uma fêmea de ‘Oikopleura dioica’ cheia de ovos. CAÑESTRO & ALBALAT LAB

“Os animais utilizam uma grande quantidade de genes para sintetizar o ácido retinoico. Percebi que no Oikopleura dioica faltava um desses genes. Depois vi que faltavam outros. Não encontramos nenhum”, recorda. Esse animal de três milímetros fabrica seu coração, de maneira inexplicável, sem ácido retinoico. “Se você vê um carro se mover sem rodas, nesse dia sua percepção sobre as rodas muda”, diz Cañestro.

O último ancestral comum entre nós e esse minúsculo habitante do oceano viveu há cerca de 500 milhões de anos. Desde então, o Oikopleura perdeu 30% dos genes que nos uniam. E fez isso com sucesso. Se você entrar em qualquer praia do mundo, ali estará ele rodeando o seu corpo. Na batalha da seleção natural, os Oikopleura ganharam. Sua densidade atinge 20.000 indivíduos por metro cúbico de água em alguns ecossistemas marinhos. São perdedores, mas só de genes.

Nosso último ancestral comum viveu há 500 milhões de anos. Desde então, o ‘Oikopleura’ perdeu 30% dos genes que nos uniam

Albalat e Cañestro acabam de publicar na revista especializada Nature Reviews Genetics um artigo que analisa a perda de genes como motor da evolução. Seu texto despertou interesse mundial. Foi recomendado pela F1000Prime, uma publicação internacional que aponta os melhores artigos sobre biologia e medicina. O trabalho começa com uma frase do imperador romano Marco Aurelio, filósofo estoico: “A perda nada mais é do que mudança, e a mudança é um prazer da natureza”.

Os dois biólogos afirmam que a perda de genes pode inclusive ter sido essencial para a origem da espécie humana. “O chimpanzé e o ser humano compartilham mais de 98% do seu genoma. Talvez tenhamos que procurar as diferenças nos genes que foram perdidos de maneira diferente durante a evolução dos humanos e dos demais primatas. Alguns estudos sugerem que a perda de um gene fez com que a musculatura de nossa mandíbula ficasse menor, o que permitiu aumentar o volume do nosso crânio”, diz Albalat. Talvez, perder genes nos tornou mais inteligentes que o resto dos mortais.

Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat.Pesquisadores do laboratório de Cristian Cañestro e Ricard Albalat. UB

 Em 2012, um estudo do geneticista norte-americano Daniel MacArthur mostrou que, em média, qualquer pessoa saudável tem 20 genes desativados. E isso aparentemente não importa. Albalat e Cañestro, do Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (IRBio) da Universidade de Barcelona, citam dois exemplos muito estudados. Em algumas pessoas, os genes que codificam as proteínas CCR5 e DUFFY foram anulados por mutações. São as proteínas usadas, respectivamente, pelo vírus HIV e o parasita causador da malária para entrar nas células. A perda desses genes torna os humanos resistentes a essas doenças.

No laboratório de Cañestro e Albalat, há um cartaz que imita o do filme Cães de Aluguel (“Reservoir Dogs”, em inglês), de Quentin Tarantino: os cientistas e outros membros de sua equipe aparecem vestidos com camisa branca e gravata preta. A montagem se chama Reservoir Oiks, em alusão ao Oikopleura. Os dois biólogos acreditam que o organismo marinho permitirá formular e responder perguntas novas sobre nosso manual de instruções comum: o genoma.

O ‘Oikopleura’ permite estudar quais genes são essenciais: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos devastadores em nossa saúde

O cérebro do Oikopleura tem cerca de 100 neurônios e o dos humanos, 86 bilhões. Mas somos muito mais semelhantes do que à primeira vista. Entre 60% e 80% das famílias de genes humanos têm um claro representante no genoma do Oikopleura. “Esse animal nos permite estudar quais genes humanos são essenciais”, diz Albalat. Em outras palavras: por que algumas mutações são irrelevantes e outras provocam efeitos terríveis em nossa saúde.

Os seres vivos possuem um sistema celular que repara as mutações surgidas no DNA. O Oikopleura doica perdeu 16 dos 83 genes ancestrais que regulam esse processo. Essa incapacidade para a autorreparação poderia explicar sua perda extrema de genes, segundo o artigo da Nature Reviews Genetics.

O olhar de Cañestro se ilumina quando ele fala dessas ausências. Os genes costumam atuar em grupo para levar a cabo uma função. Se de um grupo conhecido de oito genes faltam sete no Oikopleura, pois a função foi perdida, a permanência do oitavo gene pode revelar uma segunda função essencial que teria passado despercebida. Esse gene seria como um cruzamento de estradas. Desmantelada uma rodovia, ele sobrevive porque é fundamental em outra. “Essa segunda função já estava no ancestral comum e pode ser importante nos humanos”, diz Cañestro.

“Não existem animais superiores ou inferiores. Nossas peças de Lego são basicamente as mesmas, embora com elas possamos construir coisas diferentes”, afirma. Pense no seu lugar no mundo da próxima vez que mergulhar no mar. Essa neve branca que flutua na água e pode ser vista contra a luz são os excrementos do Oikopleura.

2016 é um dos anos mais secos do Ceará e o pior começa agora (O Povo)

CHUVA 14/06/2016

Os meteorologistas afirmam que não há previsão de precipitações para os últimos seis meses do ano 

Igor Cavalcante

Os próximos meses serão de mais escassez hídrica para o Ceará. Quando o assunto é chuva, o segundo semestre é o mais crítico para o Estado. As precipitações que ainda acontecem são causadas por instabilidades meteorológicas e não devem impactar no cenário de estiagem.

Em coletiva de imprensa ontem, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) informou que, de 2012 para cá, a estiagem deste ano é a segunda pior. Em algumas regiões não choveu nem metade do esperado. O cenário faz de 2016 um dos dez anos mais secos da história.

Contudo, monitoramento do Oceano Pacífico indica que águas estão resfriando. É um sinal de que precipitações podem aumentar no próximo ano. O aquecimento oceânico, fenômeno conhecido como El Niño, impacta na formação da Zona de Convergência Intertropical, principal responsável pelas chuvas na costa cearense. Quando parte do Pacífico está aquecida, as nuvens tendem a se formar e precipitar no mar.

De acordo com Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme, ainda é cedo para garantir boa quadra chuvosa para 2017. “É um aspecto positivo, mas temos de aguardar como vai ser o padrão desse resfriamento”, pondera.

O meteorologista Raul Fritz também é cauteloso quanto às previsões. Segundo ele, mesmo num cenário em que não haja El Niño, bom inverno é incerto.

A preocupação dos meteorologistas é com os meses até a próxima quadra chuvosa.. “A gente tem certeza da chuva no primeiro semestre e certeza de que não chove no segundo semestre”, cita o presidente da Funceme. Historicamente, mais de 90% do volume anual de chuva no Estado acontece no primeiro semestre.

Abaixo do esperado

Também foram as temperaturas elevadas das águas do Pacífico que contribuíram para as poucas precipitações no Estado. Conforme O POVO havia adiantado na edição do último dia 1°, a quadra chuvosa deste ano terminou como a segunda pior desde 2012, quando começou a sequência de cinco anos de estiagem.

Entre fevereiro e maio deste ano, as chuvas ficaram 45,2% abaixo do esperado. Fevereiro foi o período mais crítico, quando o volume no Estado ficou 55,3% abaixo da expectativa. Os meses de março e abril — historicamente de mais chuva — também tiveram precipitações inferiores à média.

As regiões Jaguaribana e do Sertão dos Inhamuns foram as de maior escassez. Nos municípios, as chuvas sequer atingiram metade do esperado, ficando 54,5% e 52,3% abaixo da média, respectivamente.

Segundo o presidente da Funceme, desde o início do ano, o Estado trabalha com o cenário da seca e promove ações para garantir licitações de poços e adutoras emergenciais na tentativa de suprir a necessidade hídrica do Interior.

Saiba mais 

Uma das alternativas para amenizar a escassez hídrica, o Projeto de Integração do rio São Francisco será concluído em dezembro, com previsão de abastecer os reservatórios em janeiro do próximo ano.

No último fim de semana, comitiva do Ministério da Integração vistoriou os eixos Norte e Leste do Projeto. Além do Ceará, Pernambuco e Paraíba devem ser beneficiados a partir de 2017.

Anthropology’s Storyteller-Shaman-Sorcerer Strikes Again With ‘The Corn Wolf’ (Pop Matters)

BY HANS ROLLMAN

27 January 2016

MICHAEL TAUSSIG’S WORK BOTH ATTRACTS AND ANGERS OTHER ANTHROPOLOGISTS. IT ALSO RE-ENCHANTS A DISCIPLINE THAT IS IN DESPERATE NEED OF IT.

cover artTHE CORN WOLF MICHAEL TAUSSIG

(UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS)
DEC 2015

“So who is telling stories nowadays? And who is telling the story about stories?”

Michael Taussig was once dubbed “anthropology’s alternative radical” (by the New York Times, no less). It’s tempting to call him iconoclastic, but his latest collection, The Corn Wolf, problematizes the term ‘iconoclasm’ (it even features an ‘Iconoclasm Dictionary’) so thoroughly that a writer would deploy it at his peril.

Nevertheless, the dilemma sets the mood: Taussig’s work remains as genre-bending today as when he published the book that first raised eyebrows—and ire, among many colleagues in the field—back in 1987.

That book, Shamanism, Colonialism and the Wild Man(University of Chicago Press, 1991), launched a multi-pronged attack on some of the discipline’s most sacred conventions, and remains a controversial (and widely used) text in graduate and upper-level undergraduate anthropology courses today. While undergrads found Taussig’s unapologetic accounts of partaking in drug binges with Amazonian shamans titillating, it was the reflexive critique of anthropologists’ obsession with violence and terror, coupled with the experimental and often poetic style of composition, that put other scholars on edge.

Over a quarter century later, his ability to confound cultural critics and confront convention hasn’t waned. His latest collection of essays written over the past decade, The Corn Wolf, squarely tackles many of the key controversies of our time—the academic industrial complex, Occupy Wall Street, the intensification and precarity of neoliberal capitalist culture, the plight of Occupied Palestine, and more—in Taussig’s characteristically poetic, storyteller style.

Finding Magic in the Corporate Academy

Taussig’s work is the sort of bewilderingly beautiful prose (one is often tempted to call it poetry) that’s able to operate on multiple intellectual levels. The first essay in the collection, “The Corn Wolf: Writing Apotropaic Texts”, immerses the reader fully and mercilessly in the style. It opens with a poor graduate student realizing that writing up their fieldwork is the most difficult and important task of graduate school, and also the one thing graduate school teaches you nothing about. Fieldwork and writing; “they are both rich, ripe, secret-society-type shenanigans. Could it be that both are based on impossible-to-define talents, intuitions, tricks, and fears?”

No wonder many careerist academics dislike him.

Of course the essay isn’t so much about graduate writing as about his own writing, and about the act of writing—the magical act of writing—itself.

For example, Taussig considers anthropology’s treatment of magic and shamanic sorcery: “Pulling the wool over one’s eyes is a simpler way of putting it… What we have generally done in anthropology is really pretty amazing in this regard, piggybacking on their magic and on their conjuring—their tricks—so as to come up with explanations that seem nonmagical and free of trickery.”

This seemingly nonmagical academic form of writing—or mode of production, as he calls it—is what he refers to as ‘agribusiness writing’: “Agribusiness writing is what we find throughout the university and everyone knows it when they don’t see it.” Against it he pitches the idea of ‘apotropaic writing’, a magic that connives with the prosaic to produce a counter-magic of its own.

When anthropologists demystify shamanic sorcery, for instance, the ‘wolfing’ moves of apotropaic magic would reveal the sorcery implicit in the act of the ‘scientific’ anthropologist’s recasting of shamanism. Indeed, the fact that the wonder and magic of the everyday world has been demystified by science is a sort of magical transformation itself. Is this how we re-enchant the world? By the use of story-telling and writing to re-position what seems like the boring, unmagical workaday world of everyday capitalist drudgery and expose it as the magical sleight-of-hand and tricksterism that it is? “I have long felt that agribusiness writing is more magical than magic ever could be and that what is required is to counter the purported realism of agribusiness writing with apotropaic writing as countermagic, apotropaic from the ancient Greek meaning the use of magic to protect one from harmful magic.”

The point emerges again, perhaps unintentionally, in Taussig’s essay “The Stories Things Tell and Why They Tell Them”, as he discusses our collective yearning for “the old days”.

“‘The old days’ is actually a talismanic phrase and phase that ushers in prehistory and hence the enchanted world when things spoke to man… it goes along with what is felt to be a certain lack or loss of poetry—of poetry and ritual—in workaday life. But, you ask, has that really disappeared? Does enchantment not resurface under certain conditions, maybe extreme conditions, as in our contemporary world of machines, corporate control, and heady consumerism?”

Our world seems devoid of magic, comprised of boring realities that brook no alternatives: from the academic industrial complex to neoliberal capitalism. The hegemonic mode of thinking which makes us think that way, is perhaps the most magical and insidious form of sorcery there is.

Winnie-the-Pooh, and Wittgenstein, Too

The essays cover a broad range. Taussig discusses the literary work of B. Traven, that enigmatic, socio-political novelist who wrote under a pseudonym in early 20th century Mexico but is believed to have been an exiled German anarchist. Walter Benjamin appears repeatedly; Adorno and Wittgenstein, too. But to follow the startling trajectory of Taussig’s thought requires more than intellectual reference points: he weaves a sort of magic in his storytelling designed to disrupt the reader’s familiar mode of analysis; that agribusiness reading and writing model that underpins not just the academy but so much of our society’s accepted ways of configuring knowledge. A shaman-scholar, indeed. It’s Taussig’s particular talent: not just anyone can develop an essay drawing together bumblebees, the dialectics of humming, Theodor Adorno and Winnie-the-Pooh. Or produce serious, thought-provoking reflections on what a zebra in a zoo must think of a man riding by on a bicycle.

The value of Taussig’s work is that it can often be read on multiple levels; as enriching to return to as when it provokes for the first time, although the experience and what one gains from it is often quite different each time. The essay “Excelente Zona Social”, originally written to commemorate the anniversary of an anthropological classic, meanders through a set of reflections on the nature of ethnographic fieldwork, set against the backdrop of Taussig’s own time spent with peasants battling the Colombian state for control of occupied land. The peasants and their legal advisors compete with the state and the owners of capital (the palmeros, or palm plantation owners) to produce maps of the territory in dispute: on the state’s side, maps demonstrating ownership and property rights; on the peasants’ side, maps demonstrating usage and community history.

What emerges is a struggle over contesting frames of reference, and even over the language used to articulate the politics of presence. The state and palmeros speak in a legal, bureaucratic language; the peasants in a language of anecdotes and shared stories. Their legal advisor puts it bluntly: “’We have to create a new language,’ says Juan Felipe. ‘The palmeros have theirs, and we need to show the world an alternate model.’” The dispute echoes a broader one that is emerging in indigenous studies today, between competing histories of culture and the ways we recognize knowledge. In recent years, this trend has involved challenging the ways in which oral histories are traditionally devalued in western legal and intellectual culture.

Food for thought. But Taussig—like his spirit-guide, Walter Benjamin—takes it a step further and implicates the reader in this process, as well: “the origin of storytelling lies in the encounter between the traveler and those who stay at home,” he reminds us. The reader is not an innocent bystander; a point to which Taussig returns in subsequent essays.

The Politics of Field Notes

Another recurring theme in The Corn Wolf appears in the form of valuable reflections on the nature of the field journal, used by anthropologists to collect notes—sketches, snatches of conversation, reflections, vague impressions—and which is then typically translated into more standard form for reader consumption: books or journal articles. But in this process of translation it loses much of its magic, and that includes the capacity of the field journal to convey actual experience. When an anthropologist ‘writes up’ their fieldnotes, muses Taussig, after-thoughts kick in and infuse and suffuse the process. “By afterthoughts I mean secondary elaborations that arise on top of the original notes, photographs, and drawings. Through stops, starts, sudden swerves, the original is pulled into a wider and wilder landscape. To reread and to rewrite is to tug at the memories buried therein as well as engage with the gaps, questions, connections, conundrums, and big ideas that lie latent and in turn generate more of the same.”

The point of this reflection, Taussig continues, is to challenge the conventional trajectory of field-notes-to-publication. “I feel impelled to ask, therefore, if anthropology has sold itself short in conforming to the idea that its main vehicle of expression is an academic book or journal article? This is not a plea for exact reproduction of the fieldwork notebook but rather a plea for following its furtive forms and mix of private and public…”

There’s a revealing clue here to the circuitous and unorthodox nature of Taussig’s own writing style. It’s a form of “magical anthropology”, for lack of a better term. Critics speak of magical realism in fiction and literature as involving the use of magical elements to achieve a deeper insight into reality (well-known examples include the work of Gabriel Garcia Márquez, Salman Rushdie, Isabel Allende).  Adam Hothschild, writing in the New York Review of Books, famously referred to the reportage of Polish journalist Ryszard Kapuscinski as comprising a form of “magical journalism”. Such labels describe the use of writing not to convey facts but to communicate experience, by provoking ideas and states of mind that more accurately reflect the perceived reality of a situation, even if the process of doing so requires the storyteller (be they author, journalist or anthropologist) to sometimes run rough-shod over the facts as they might be conventionally presented.

This is also a form of what is referred to as ‘fictocriticism’—the combination of fictive and non-fictive elements in a single text. Its application has particular merit in anthropology. What many of us consider reality—“the facts”, or those details which are intended to convey and communicate reality—can sometimes themselves prove to be a barrier to comprehending reality as it is experienced by another. Facts are consumed and ordered by the reader within their own frame of reference, neatly reinforcing the reader’s pre-existing sense of reality; the experience of the Other those facts are intended to relay remains uncommunicated.

However,  by playing with the presentation of those facts, some storytellers (journalists, social scientists) might manage to more accurately share the insights and experience of the Other, by provoking a deeper, experiential resonance in the reader. Or so a magical anthropology, like magical journalism or magical storytelling of any genre, might suggest.

At any rate, the fact is there’s another thread here worth following: the power of storytelling and the role of the reader, as Taussig explains best in his travelogue-essay,  “My Two Weeks in Palestine”. A recurring theme in Taussig’s work is humanity’s fascination with violence and terror. Anthropologists (and other academics) are often criticized for their fly-in, fly-out method of witnessing violence, and of the careers built on our society’s fascination with violence. Like politicians, diplomats, journalists, humanitarians, and others, they are often criticized for writing about violence and terror without (seemingly) actually being able to do anything to stop it or cause it to abate. The academic, therefore, becomes implicated in the culture of violence, helping to stoke humanity’s fascination with the abominable. Yet the complicity of the academic, the anthropologist, is as nothing compared with the complicity of the reader, suggests Taussig.

This alone makes such storytelling and retelling a treacherous activity. Joseph Conrad called it ‘the fascination of the abomination,’ an accurate if ponderous rendering of the stock in trade of war journalists and war photographers, especially the latter, wild men and wild women to the core, too much in love with their work which soon settles into banality. But that is as nothing compared with the conceit of the reader of their work, secure at one remove from the action, yet no less likely to be buoyed up by the tempestuous currents of attraction and repulsion inflaming it before succumbing to indifference or turning the page or clicking the mouse.

In the face of this, what is to be done? Taussig suggests the act of witnessing is important, but it must lead to something more than mere consumption on the part of the reader. Thus the imperative for the writer, the storyteller, to find a way to write their stories (or articles, or books) in such a way as to provoke a more reactive reading that transcends mere passive consumption. Here the unorthodox anthropologist, open to the creative and experimental potential of the field journal medium or other types of experimental writing, might stumble upon ways of provoking such responses.

(I)t is my hope that the flexibility and “multi-tasking” to be found in the fieldworker’s diary can reconfigure this otherwise paralyzing ‘fascination of the abomination.’ Like the magical shield of Perseus, a diary allows of witness without being turned to stone. Like Walter Benjamin’s Denkbilden or ‘thought-images,’ the diary form facilitates grasping those images that flare up at a moment of danger when the potential for innervating the body is at its highest.

In Palestine he is struck by the way people tell him their stories: horrifying, terrible stories, but told thoughtfully and even with humour. “[T]he point was that people were capable, precisely because of their circumstance, of combining the unthinkable with the sayable—that was the miracle—and hence pass the baton of witnessing along to me, to pass on to you in the hope, vain as it may be, that witnessing becomes something more than consumption. Like travel and anthropology, reading has not only its passions but responsibilities, too.”

Occupying Anthropology

Taussig’s storytelling, in this collection, include an arc of stories on the pace of modern life: the speed-up of global capitalism, the precarious and destroyed lives it leaves in its ever-present wake, and the protest it sparks as workers and intellectuals and all those left in the margins (which is to say, the majority) struggle to pull the emergency brakes on a society speeding out of control. In “I’m So Angry I Made a Sign”, those brakes take the form of the Occupy Wall Street protests, which Taussig witnessed first-hand, and reflects upon in a thoughtful photo-essay.

Even more powerful is the essay that follows: “The Go Slow Party”, a moving cry for resistance against the great speed-up that plagues modern society (including academia). Taussig realizes that “the only time I really go slow is in the shower and having a shit. Both are fine examples of what Hakim Bey called ‘the temporary autonomous zone.’ Both free the mind and stimulate creative thinking…” He proceeds to reflect on the right to be lazy and the need to decolonize play and leisure. His own intervention—fighting for the right to install hammocks in his university department—was denied in favour of his colleagues’ more abstract approaches to the issue, but his reflections on the topic offer a powerful provocation.

In the final essay, “Don Miguel”, he offers some parting advice for anthropologists on the nature of fieldwork.

You learn after a long, long time, that the famous ‘method’ of participant-observation tends to be weighted toward the observation end of things and, what’s more, tends not, according to the profession, to allow much by way of self-observation. What you learn is that because of class and race barriers, what I would call ‘true’ participation is rare and unforgettable, but that the ‘stranger-effect,’ being a foreigner, makes this a lot easier. Some anthropologists, perhaps the great majority, make these barriers into a virtue, claiming that such participation is irrelevant and romantic, that we should study not ourselves, not psychology, not the anthropologist-native interaction, but something as vast and nebulous as ‘culture.’

Not so, asserts Taussig, and he offers a lifetime of examples to the contrary. The particular story he tells in the final essay is an amusing and engaging one: as a student, he made the poor decision to follow the advice of more senior academics and, against his own instincts, reach out to those at the top of the social hierarchy in the region of Colombia in which he was working, instead of simply ignoring them and focusing on the peasants he felt more comfortable with. The result was his being targeted by the local secret police (who had previously ignored him), setting off a frenzied dash around the country to convince the necessary authorities that he and his colleague were, after all, harmless researchers. His point, however, was that his own memory of this incident and the insights it opened up became a unique and different form of participant-observation, because “we had become objects in our own story”.

The Corn Wolf essays are prime Taussig: assuming a form that is both whimsical and yet deadly provocative at the same time. Michael Taussig: anthropology’s trickster magician, poet and storyteller, casts his spell again.

Hans Rollmann is a writer and editor based in Eastern Canada. He’s a columnist, writer and opinions editor with the online news magazine TheIndependent.ca. His work has appeared in a range of other publications both print and online, from Briarpatch Magazine to Feral Feminisms. In addition to a background in radio-broadcasting, union organizing and archaeology, he’s currently completing a PhD in Gender, Feminist & Women’s Studies in Toronto. He can be reached by email at hansnf@gmail.com or @hansnf on Twitter.

Ethnography as Improv (How to Anthropology)

NOVEMBER 02, 2015

By Cheryl Deutsch

“Anthropology is not a social science tout court, but something else. What that something else is has been notoriously difficult to name, precisely because it involves less a subject matter … than a sensibility.”

— Liisa Malkki, Improvising Theory (2007: 63)

 

In this post, I take inspiration from the book Improvising Theory to articulate three aspects of ethnographic practice that often go unnamed in anthropology.  I also follow up with the book’s authors, Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki, to share their thoughts on doing ethnography today.

Most of the book consists of email exchanges from the year Cerwoncka spent in fieldwork as a graduate student and Malkki was her faculty mentor.  The conceit is that Malkki, an anthropologist, must explain to Cerwoncka, a political scientist, what “goes without saying” in anthropology; the customs and quirks that make up the discipline’s sensibility.  But as Malkki writes, “the ‘common sense’ of anthropology is a complicated matter,” and she struggles to articulate its nuances (2007: 163).

Through this exchange and the authors’ reflections, the book offers an intimate view of what ethnographic fieldwork is, in practice, as well as what it amounts to in theory.  Cerwoncka and Malkki conclude that it is ethnography’s improvisational nature that makes it challenging to teach but also special in its theoretical power.

Here are three insights I drew from the book and my subsequent exchange with them:

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1. Ethnography is Improvised

Improv comedy is a form of collaborative story-telling whose humor derives from the uncertainty of its own story line. Improv actors must say yes to whatever comes their way, trusting their training and adrenaline to make a story out of surprise.  The result is comedy.

Improvisational jazz is likewise a form of story-telling whose energy derives from its unrehearsed riffs on popular melodies and classic standards.  Jazz musicians construct improvised melodies out of notes that are spontaneous but not random: they have to make sense with the original song or melody.  Just playing fast, for example, is no guarantee that an improvised solo will succeed: the notes have to make emotional sense.

Both improv comedy and jazz employ skills that can be taught and practiced.  They benefit from excellent technique.  But in all forms of improvisation, training and expertise only go so far.  The rest requires a certain sensibility.

In their book, Improvising Theory: Process and Temporality in Ethnographic Fieldwork, Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki make the case for ethnography as a form of improvisation.

As Cerwoncka reflected in an email exchange with me: “choices made about a research project are shaped out of intellectual, practical and professional considerations… [They] are inevitably made without full information and require constant adjustment and courage to follow one’s rational and intuitive best judgment.”

Courage is a key word here.  All forms of improv involve risk.  But it’s the vulnerability of such creative acts that give them heart and soul.

As recounted in the book, Cerwoncka scheduled a formal interview with a sergeant in the police station where she was conducting her fieldwork.  Before the interview, he talked openly about the groups that they, as cops, hated having to deal with.  “I acted casual about all this information,” she wrote to Malkki, “not jotting any of it down in front of him…  When I went back for the ‘real’ interview, he was much more formal and immediately asked if I wanted to tape the conversation” (2007: 85).  The formal interview had a different tone; he talked about “safe” topics like his family background, and then he was called away.

Reflecting on this experience in her email to Malkki, Cerwoncka decided not to tape further conversations with the police officers.  “It strikes me that they are in the position of taping people (in the interrogation room),” she wrote, “and their context for that is to use the information people give them against the people they arrest.  So I think the recorder will color the interviews too much” (2007: 85).

Later in her fieldwork, however, she found that one sergeant was particularly eager to set up taped interviews for her, so she continued with them.  She began to see that they helped those in the station feel more comfortable with her. “They don’t even seem to mind when I drift and ask them questions about their taste in music or whether they garden,” she wrote (2007: 120).  Hers is a lesson in improvised field practice.

Formal recorded interviews are an important tool in the ethnographer’s toolbox.  But in this exchange, we see that the ethnographer often has to make decisions about when and where, as well as how, to employ such tools in the field.  Ethnographers are also engaged in a form of collaborative story-telling with the people they interact with.  It takes attention and care for ethnography – as improvisation – to make sense.

 

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2. Ethnography Takes Time

Improvising Theory’s greatest strength is its portrayal – in real time – of the year-long process of ethnographic fieldwork.  It illustrates not only the tempo of fieldwork but its many temporalities.  As Malkki writes in her concluding chapter to the book, “ethnography as process demands a critical awareness of the invisible social fact that multiple, different temporalities might be at play simultaneously… [There are] quotidian routines, events that become Events (see Malkki 1997), the panic time of deadlines, the elongated time of boredom, the cyclical time of the return of the expected, the spiral time of returns to the recognizable or the remembered, and so on” (2007: 177).

In their email exchange, we read about Cerwoncka’s uncertainties, her successes, as well as her false starts and trails gone cold.  It’s a messy process through which Malkki’s advice offers perspective and rhythm: some situations require action and attention, others call for patience and meditation.

Before she began her interviews at the police station, for example, Cerwoncka was unsure exactly where she would locate her research exploring Australian national identity.  So she made inroads with a gardening club and with officers at the police station, as well as with the pastor of a church.

In an early email to Malkki, Cerwoncka worried that she was contacting people from too many organizations at once and that she’d be overwhelmed with all their necessary follow-up.  Malkki responded: “Anthropological fieldwork is what you are doing, and therefore regular contact with informants should not just be a goal, but should be built into your everyday schedule.  It’s taxing, embarrassing, etc., but you need the material… Strike while the iron is hot” (2007: 54).  She encouraged her to choose the organizations she wanted to work with thoughtfully and then to make a schedule that would allow her to follow up on interactions and opportunities when they arose.

Later, Cerwoncka dropped the church as a site.  Then, when she was deep in fieldwork with the gardening club and the police officers, one of her political science advisers recommended she add a third site.  So she spent time talking to landscape architects.

At this point, Malkki advised her: “It’s important not to let the third site become something that allows you to escape the pressures of the sites in which you have deep investments already… Another related issue (related to the question of what’s the best use of your time): sometimes downtime is best, taking a week away from the fieldwork.  Then you return to things fresh” (2007: 126).

In this case, the right temporal strategy was patience and perserverance.

When I asked Malkki for her thoughts on ethnography today, she reiterated the importance of time: “If I were to add something… One point would be a warning against the overprofessionalization of graduate students in Anthropology.  Easy for me to say since I’ve got a job!  But anthropology does take time, and I think one has to have the time to ‘grow into it’ somehow without having career milestones always hovering at the edges of one’s attention.  One grows into fieldwork according to one’s temperament and in deep relation with people.  That is transformative.  And then, after fieldwork, one grows into writing.  That too is transformative.  It takes time (and simple grit).  This is very much a mind game.  There are many brilliant people – everyone knows they’re brilliant and their work truly original – but they just can’t let it go, or, sometimes, can’t get over writing blocks.  More time.  One should always be humane toward oneself (and everyone, of course).”

It seems that ethnography not only takes time but many different times: striking while the iron is hot, having patience when fieldwork gets tedious, and time for transformation in the writing phase.

3. Improvisation + Time = Theoretical Insight

Cerwoncka started grad school with the goal of becoming a “theorist,” and this book reflects that ambition.  As helpful as it is in illustrating ethnographic practice, it is equally effective in articulating ethnography’s theoretical power.

In our email exchange, Cerwoncka wrote, “Social analysts need more than description of phenomena, and this thing we call theory helps us try to identify patterns and associations.  However, ethnographic fieldwork and life has reinforced for me the conviction that theory serves us intellectually best when it is in dialogue with activity, data, and a variety of possible material.”

The email exchange with Malkki that documents her fieldwork experience bears this out: theoretical concepts help guide her research questions and observations.  It was Benedict Anderson’s concept of imagined communities that inspired her to look for national identity in the ordinary lives of Australian gardeners and police officers.  But these interlocutors – and Cerwoncka’s improvised engagements with them – also gave shape to the project.  Finally, time and distance add their own maturing effects. What results are the project’s theoretical insights.

Cerwoncka writes about this process of conceptual development in Native to the Nation, based on her dissertation research.  Writing about the police sergeant who eagerly arranged her formal interviews, she writes:  “These arrangements developed into a strange kind of ritual where each interview began with the sergeant ‘joking’ that the junior officer about to be interviewed ‘mustn’t give away the shop secrets’ before I was left alone with him or her” (cited in Cerwoncka and Malkki 2007: 90-1).  Such jests caused her quite a bit of anxiety: uncovering police brutality or corruption would put her and her research in a uncomfortable ethical position.  Only much later, in writing, did she conclude that the sergeant’s comments pointed to in-group boundary policing more so than any real “heart of darkness” within the station (2007: 91).  And it was much longer into writing that she came to believe “that there was another story one could write about the police besides a journalistic-type exposé or a romantic narrative about un-sung heroes” (2007: 92).

The theoretical insights of ethnographic fieldwork take time.  Improvisation in the field is what shakes up one’s orientation to theoretical concepts, but it can take time for that orientation to mature into new conceptualizations.

Postscript: Ethnography and Professionalization

In addition to producing theoretical insights, Cerwoncka also stressed to me the ways in which ethnography has served her as a faculty member and university administrator:

Cerwoncka: “Every time I move to a different institution, role and, or discipline, I find myself doing a version of ethnographic fieldwork!  Fieldwork taught me the techniques and instilled confidence in me to map and analyze patterns of community, be it a police station or a School of Social Sciences.  I think the professional skills I learned through ethnographic fieldwork … are as useful to me as a Dean of Social Sciences at University of East London as they were to my dissertation.”

These thoughts neatly illustrate the challenge and promise of ethnography: that one has to let go and accept in order to reap its creative potential.  Much of the advice embodied in the book revolves around the need for both confidence and acceptance.  One can’t seek out theory but can trust that it will result.  One can’t seek out professionalization but can trust that it will happen.  Just as in improv comedy there is no magic formula for making something funny, so the ethnographer that tells a compelling story can let the scene do its magic.

Thank you to Nikhil Anand for first suggesting Improvising Theory to me.  Thank you, as well, to Allaine Cerwoncka and Liisa Malkki for taking the time to share their thoughts.  And a final thanks to Ethan Hein for his explanation of improvisational jazz.