1952: Uma Odisséia no Sertão (Folha de S.Paulo)

1 Jun 2016

QUARTA-FEIRA, 1° DE JUNHO DE 2016

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Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, que viajou com Guimarães Rosa em 1952

Último vaqueiro relembra expedição que inspirou ‘Grande Sertão: Veredas’

Na viagem que fez pelo sertão de Minas Gerais em 1952, João Guimarães Rosa era conhecido pelos vaqueiros apenas como Joãozito. Hoje, ainda é assim que o último remanescente da expedição se refere ao diplomata e escritor.

“Joãozito era meio caladão, mas engraçado. Contava casos e gostava também de ouvir a gente contar para ele. Sempre [estava] com uma cadernetinha pendurada no pescoço. E nela, escrevia as coisas de qualquer jeito”, relembra Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, mais conhecido como Criolo.

A viagem é histórica porque serviu de subsídio para parte da obra de Guimarães Rosa: o conjunto de sete novelas “Corpo de Baile” e para o romance e obra-prima “Grande Sertão: Veredas” –que seria inicialmente uma das histórias de “Corpo de Baile”. Ambos os livros foram lançados em 1956, há 60 anos.

Alexandre Rezende – 24.mai.2016/Folhapress
SETE LAGOAS, MG, BRASIL, 24-05-2016, 12:30h. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo", na empresa de sua familia em Sete Lagoas. No mês em que "Grande Sertão: Veredas" completa 60 anos, apenas um remanescente da expedição que levou Guimarães Rosa ao sertão de Minas Gerais ainda vive. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo" (apelido irônico por ele ser branco demais), acompanhou Guimarães Rosa na viagem feita em 1952 que inspirou o autor a escrever o romance e ainda guarda imagens e lembranças da época, aos 81 anos.(Alexandre Rezende/Folhapress ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Alexandre Rezende
Francisco Guimarães Moreira Filho, o “Criolo”, na empresa de sua familia em Sete Lagoas

Criolo tinha 17 anos quando participou da travessia de dez dias do escritor pelo interior de Minas Gerais. A comitiva foi organizada pelo pai de Criolo, Chico Moreira, e saiu da fazenda Sirga, onde hoje é o município de Três Marias, para levar 180 cabeças de gado até a fazenda São Francisco, em Araçaí, a 240 km de distância.

Guimarães Rosa (1908-1967) era primo de Chico e foi junto para conhecer o dia a dia do sertanejo. Aprendeu a andar de cavalo, a tocar boiada e, quando voltou para casa, no Rio de Janeiro, levou um papagaio.

Quatro anos depois, publicou os dois livros. Em “Corpo de Baile” (1956), um personagem inspirado no capataz Manuelzão (Manuel Nardi, morto em 1997) está no título de uma das novelas.

“O sucesso dele como escritor foi ‘Grande Sertão’, e saiu dessa viagem da boiada”, diz à Folha Criolo, que ganhou o apelido ainda na infância –uma ironia por ser branco demais.

Numa sala de sua pequena empresa em Sete Lagoas (MG), onde aluga guinchos, Criolo espalhou fotos da expedição nas paredes, que foram registradas pela revista “O Cruzeiro”. Uma placa diz: “A origem do Grande Sertão: Veredas”.

Mas, do livro mesmo, Criolo conhece apenas o título. “Não consegui ler, nem papai. Apesar de ser pessoa estudada, ele não conseguiu entender o palavreado.”

Em 2007, para iniciar a comemoração do centenário do nascimento do escritor, Criolo refez a viagem, que também durou dez dias, acompanhado de mais 40 pessoas.

‘SAUDADES DAÍ’

“Chico, saudades daí tenho sempre”, diz a carta de Guimarães Rosa emoldurada na parede onde fica o acervo de Criolo. Assinada em 6 de outubro de 1952, ela foi enviada para seu pai.

“O papagaio está gordo e alegre, magnífico. Aprendeu muita conversa carioca, mas não se esqueceu do repertório sertanejo: (…) sabe chamar as vacas, com notável entusiasmo”, escreveu Guimarães Rosa.

Da comitiva de nove vaqueiros que acompanhou o escritor, Manuelzão se tornou o mais conhecido e morreu como uma figura mítica do sertão de Minas Gerais.

Já Chico Moreira, que era o dono da fazenda e foi quem viabilizou a expedição, é pouco lembrado. De acordo com o filho, ele tentou ajudar ao máximo Guimarães Rosa a se adaptar à viagem.

Mandou, inclusive, um funcionário ir antecipadamente de uma fazenda a outra com uma mula mansa para o diplomata cavalgar. Mas foi Manuelzão quem ensinou Guimarães Rosa a montar.

Criolo reclama que as fotos da expedição foram retiradas de exposição no museu Casa de Guimarães Rosa, que fica em Cordisburgo (MG), onde o escritor nasceu. Para ele, só querem que o escritor apareça em fotos usando smoking.

“Não querem que fale que ele foi peão, que andou a cavalo, que tocou boiada. Querem que ele só seja alta sociedade”, queixa-se.

Procurada, a coordenação do museu informou que as exposições são temporárias e trocadas constantemente. Também informa que as fotos da expedição continuam, sim, a fazer parte do acervo do museu.

As veredas de Guimarães já são escassas, e antenas se impõem

Paulo Peixoto, 01/06/2016

É difícil lidar com a obra de João Guimarães Rosa e não se sentir provocado a ir esmiuçar o “sertão roseano”, conhecer a gente daquele lugar, o bioma de buritis e veredas, as cidades, as roças, as mínimas coisas tão caprichosamente eternizadas nas histórias e contos desse clássico escritor parido naquele cerrado brasileiro.

Nada melhor do que um período sabático para ler e reler toda a obra de Rosa e pôr os pés naquele pedaço de Minas Gerais que ele muito bem nos apresentou. Foi isso o que eu pude fazer durante cinco meses em 2011.

As duas únicas imposições que fiz a mim mesmo foram: não deixar nunca faltar gasolina no carro e agir sempre de acordo com o tempo do sertão, que passa sem pressa e com prosa. Isso não é lenda!

ORG XMIT: 390901_0.tif O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Guimarães Rosa viaja entre Cordisburgo e Três Marias, no sertão mineiro, colhendo material para o livro "Grande Sertão: Veredas", acompanhado por Álvares da Silva e Eugênio Silva, repórter e fotógrafo, respectivamente, da revista "O Cruzeiro" que publicou, na edição de 21 de junho de 1952, a reportagem sobre a viagem. (Minas Gerais, maio de 1952. Foto de Eugênio Silva/O Cruzeiro) O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Eugênio Silva – 1º.mai.1952/O Cruzeiro. 

O silêncio é uma marca no sertão. Viajar por ele deu sentido a uma frase de Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais”. Era preciso, então, ouvir esse silêncio.

Velhos vaqueiros e tropeiros cruzaram o meu caminho, caso do vivaz, lúcido e já quase cego homem de Beltrão, um lugarejo de Corinto, Feliciano Tavares de Souza, então com 94 anos. Personagem marcante.

Já velho, ele virou benzedor, um homem da “fé curativa”. Ao longo da vida, teve 15 filhos com duas mulheres e uma companhia inseparável: uma arma calibre 38. ”

“[Naquele tempo] Se não estivesse armado, eu não tinha vida [hoje]. Respeitava[-se] era a arma, não a pessoa. O governo deveria ter uma lei de desarmar todo mundo”, dizia ele.

Novos personagens se apresentaram. Foram benzedeiros e benzedeiras vocacionados “”é, eles dizem que é preciso ter vocação para herdar os ensinamentos, a religiosidade e a bondade dos seus parentes mais velhos.

As doceiras do sertão e seus inseparáveis tachos de cobre, os produtores e vendedores de minhocuçu foram outros que conheci.

E não poderiam ter faltado os companheiros de botequim que contavam causos do vaqueiro Manuel Nardi (1904-1997), o Manuelzão, em Andrequicé.

MUDANÇAS

Muita coisa mudou no sertão. A paisagem mudou bastante. As veredas já são escassas.

Para ver de perto o “porto” do rio de Janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontraram, foi preciso atravessar quilômetros de estrada de terra batida em meio a plantações de eucalipto, que viram carvão para siderúrgicas. Uma tragédia ambiental.

Muito da vida rural se tornou urbana no sertão mineiro. O desenvolvimento a partir da segunda metade do século passado levou a isso.

O “brega” anima as festas nas cidades. O marketing americanizado no comércio urbano chamou bastante minha atenção: “Lan House New Emotions”, “Look da Moda”, “Marly Free Modas”.

Outros nomes também me pareceram um tanto estranhos: “Moda Nua Confecções” e “Zeus – A Arte de Vestir Bem”. Haja criatividade!

Mas nas pequenas cidades do sertão prevalece a tranquilidade, a vida pacata. Chegar em Morro da Garça (2.630 habitantes) e ver de perto a colina solitária em forma de pirâmide que inspirou Rosa no conto “O Recado do Morro” foi mais um mergulho no universo do escritor.

Uma antena de telefonia na crista do local agora se impõe. Mas eu a saudei quando precisei usar o celular para enviar um S.O.S. para a retirada do carro atolado.

Nessa viagem dos livros para a realidade do sertão de hoje, foram muitas descobertas. Somos apresentados a um mundo em que as pessoas, embora simples, nos contam histórias cheias de valor, vindas de um tempo em extinção.

Retornar a Cordisburgo e rever o Museu Casa de Guimarães Rosa, conhecer o Memorial Manuelzão, em Andrequicé, descobrir o Memorial Carlos Chagas, em Lassance, me proporcionaram experiências memoráveis. Revi grutas e os tantos rios que demarcam o “sertão roseano”. Nadei em vários deles.

É uma viagem que vale a pena. “Aprender a viver é que é o viver mesmo”, ensinou Rosa.

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