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Após Trump sair do Acordo de Paris, Cacique Cobra Coral deixa de atender pedidos dos EUA (UOL Notícias)

02/06/2017, 20h54

2.jun.2017 - Post da Fundação Cacique Cobra Coral no Instagram

2.jun.2017 – Post da Fundação Cacique Cobra Coral no Instagram. Instagram/Reprodução

Em nota publicada no Instagram nesta sexta-feira (2), a Fundação Cacique Cobra Coral afirmou que deixará de prestar atendimentos climáticos aos EUA. A medida será mantida “enquanto perdurar a falta de bom senso do presidente Donald Trump com relação a retirada dos EUA do Acordo de Paris, rompendo o acordo global firmado em dezembro de 2015 com mais de 190 países para reduzir a emissão de gases que produzem o efeito estufa”.

A entidade esotérica diz, em seu site, que sua missão é “minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Também diz ser orientada pelo Cacique Cobra Coral, “espírito que teria sido de Galileu Galilei e Abraham Lincoln”.

O presidente americano afirmou que pacto climático internacional é injusto, representa um enorme fardo econômico para os EUA e não seria eficaz o suficiente. Em seu discurso, a expressão “mudança climática” não foi mencionada sequer uma vez. Trump preferiu falar de mais dinheiro e empregos.

“O Acordo de Paris sobre o clima é simplesmente o mais recente exemplo de que Washington cedeu a uma resolução que penaliza os Estados Unidos para beneficiar outros países. Deixa os trabalhadores americanos, que eu amo, e o contribuintes absorverem o custo, em termos de perda de empregos, menores salários, fechamento de fábricas e enorme redução na produção econômica”, disse Trump.

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Brazil ratification pushes Paris climate deal one step closer (Nature)

NATURE | TREND WATCH

Country joins top emitters United States and China in joining the agreement this month.

Jeff Tollefson

14 September 2016

Zuma Press/eyevine

São Paulo, Brazil: the country accounts for 2.5% of global carbon emissions.

Brazil, one of the world’s leading greenhouse-gas emitters, ratified the Paris climate pact on 12 September, adding to growing momentum to bring the 2015 agreement into force before the end of this year.

The agreement had received a significant boost earlier this month when the United States and China — by far the world’s leading emitters — formally joined on 3 September.

The Paris deal seeks to hold warming ‘well below’ 2°C above pre-industrial temperatures. For it to take effect, 55 countries accounting for 55% of global emissions must ratify or otherwise formally join the accord. Countries can ratify, accept or approve the deal, depending on their domestic processes.

So far, 28 countries representing 41.5% of global emissions have joined up, and no one knows precisely what combination of countries might push the agreement over the threshold.

At least 58 countries have committed to join by the end of the year, but many of those are island states and other small emitters, says Eliza Northrop, who is tracking the process for the World Resources Institute, an environmental think tank in Washington DC. So the question is how quickly some of the other major emitters will come through, including India, Japan, South Korea, Mexico and Canada.

“It’s a bit of a puzzle at this point, but I feel very confident that it will enter into force this year,” says Northrop.

Less clear is whether the agreement will take effect before the next round of climate negotiations in Marrakech, Morocco, in November. For that to happen, other major emitters would need to ratify the Paris pact by 7 October, because it only enters into force 30 days after the ‘55/55’ threshold has been met.

One of the biggest challenges comes from the European Union, where each country must go through its own legislative procedures before the negotiating bloc can sign off as a whole. But there is little doubt that the Paris agreement will take effect in record time. By comparison, the Paris deal’s predecessor, the 1997 Kyoto Protocol, didn’t enter into force for more than seven years after it was adopted.

Nature doi:10.1038/nature.2016.20588

Ratificação de acordo do clima no Senado transcendeu partidos e ideologia (Observatório do Clima)

Sessão de aprovação acelerada teve petista na presidência, ruralista na relatoria e elogio de tucano, num raro episódio de consenso político em meio à polarização nacional, afirma Alfredo Sirkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima e um dos criadores da campanha Ratifica Já!

A autorização final para a ratificação do Acordo de Paris pelo Senado aconteceu em tempo recorde e conseguiu ser mais ligeira que a da Câmara. Pouco mais de dois meses depois do lançamento da campanha Ratifica Já! Pelo Centro Brasil no Clima, Instituto Clima e Sociedade, Observatório do Clima, SOS Mata Atlântica e dezenas de outras entidades, praticamente ratificados estamos, faltando apenas a sanção presidencial. Esta deve ocorrer quase certamente em setembro, depois da Olimpíada e do desenlace da crise política do impeachment.

O Brasil, assim, tornar-se-á o primeiro país de grande economia a ratificar o Acordo de Paris. Vale a pena ressaltar o extraordinário empenho de alguns parlamentares. Na Câmara, o deputado Evandro Gussi (PV-SP) articulou o regime de urgência. No Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), relator da Comissão Mista de Mudanças Climáticas, além de articular a urgência ainda obteve com o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL), o vice, Jorge Viana (PT-AC) e os líderes dos partidos a sua inclusão numa sessão onde se dava a visita do embaixador do Marrocos, país que vai sediar em novembro a COP22.

A grande curiosidade da votação foi o fato da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), ex-ministra da Agricultura, ter sido a relatora oral da Comissão de Relações Exteriores com um parecer favorável e uma vibrante defesa da agricultura de baixo carbono. A sessão foi presidida pelo vice-presidente do Senado, Jorge Viana, do PT. Os senadores José Agripino (DEM-RN), Antonio Anastasia (PSDB-MG) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) apoiaram o relatório de Kátia Abreu. O presidente da Comissão de Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB-SP), notou que o relatório da colega é uma demonstração de que é possível construir ampla convergência, apesar das eventuais divergências entre os parlamentares.

O Brasil, assim, não apenas está em vias de aderir ao novo acordo do clima, mas também o faz de forma exemplar, num consenso politico transpartidário e transideológico que afasta do cenário qualquer veleidade de negacionismo climático. É um microcosmo da postura que todos os países deveriam adotar, a começar pelos EUA, onde a maioria do Congresso e o candidato republicano à Presidência continuam negando a ciência. Agora ainda temos nosso vasto dever de casa: tirar do papel a INDC, o plano climático nacional, preparar logo seu primeiro ciclo de revisão e um plano de longo prazo de descarbonização da economia brasileira.

 

Observatório do Clima

Brasil e mais 169 países assinam acordo sobre mudança climática (Estadão)

Cláudia Trevisan e Altamira Silva Junior – 22 de abril de 201

Dilma: 'O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos'

Dilma: ‘O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos’

Representantes de 170 países assinaram nesta sexta-feira, 22, o Acordo de Paris sobre mudança climática, batendo o recorde da história da Organização das Nações Unidas (ONU) de adesão a um tratado internacional em um único dia. Mas todos ouviram o alerta do secretário-geral da entidade, Ban Ki-Moon, de que as boas intenções terão pouco impacto se a convenção não for ratificada pelos países o mais breve possível. Sem isso, o tratado não entrará em vigor.

“Estamos em uma corrida contra o tempo”, disse Ban no discurso de abertura da cerimônia, no plenário da ONU em Nova York. A urgência foi enfatizada por vários chefes de Estado, incluindo os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e da França, François Hollande.

Dilma assegurou “a pronta entrada em vigor” da convenção, mas essa decisão depende do Congresso. “O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos”, disse a presidente em seu discurso. E repetiu os compromissos assumidos pelo Brasil durante a negociação do tratado, entre os quais a promessa de reduzir em 37% a emissão de gases poluentes até 2025, na comparação com os patamares registrados em 2005.

Frustração. Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, disse que Dilma frustrou as expectativas de entidades ambientais que esperavam uma sinalização clara de que o Brasil assumirá metas mais ambiciosas em 2018, quando haverá uma avaliação dos resultados do acordo. “O Brasil precisa reconhecer que deve fazer mais que o prometido no ano passado”, disse. “Todos devem, porque estamos na trajetória de 3ºC de aquecimento.”

Aprovado por representantes de 195 nações em dezembro, o tratado prevê uma série de compromissos nacionais com o objetivo de limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC até o fim do século, em relação ao patamar anterior ao período industrial. Para que entre em vigor, o Acordo de Paris precisa ser ratificado por pelo menos 55 países que representem ao menos 55% das emissões de gases do efeito estufa.

“A era do consumo sem consequências chegou ao fim. Nós temos de intensificar os esforços para ‘descarbonizar’ nossas economias”, ressaltou o secretário-geral das Nações Unidas. Além do caráter simbólico, a cerimônia desta sexta tinha o objetivo de mobilizar os líderes mundiais em torno da ratificação do acordo, de forma que entre em vigor no próximo ano e não em 2020, como inicialmente previsto.

Primeiro a discursar, o presidente da França lembrou que Paris vivia uma situação trágica em dezembro, sob o impacto dos atentados terroristas que haviam provocado a morte de 130 pessoas no mês anterior. Ainda assim, ressaltou, foi possível fechar o acordo histórico sobre mudança climática.

Acordo de Paris é uma nova Revolução Industrial, diz especialista (Agência Brasil)

O texto final do acordo estabelece o objetivo de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais e garantir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC

“É como se fosse uma nova Revolução Industrial”, disse o coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, Tasso Azevedo, na segunda-feira, 14, ao falar sobre o Acordo de Paris, primeiro acordo global sobre o clima, aprovado no último sábado (12) na 21ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21), na capital francesa, por 195 países e a União Europeia, para entrar em vigor em 2020.

“Começamos uma nova era onde as pessoas estão alinhadas sabendo para onde ir. Isso faz com que os investimentos comecem a ser feitos nessa direção e provavelmente daqui a 30 ou 40 anos, vamos lembrar esse final de ano como o momento em que mudamos a forma de se desenvolver. É como se fosse uma nova Revolução Industrial, agora com um objetivo atrelado a um desenvolvimento e tecnologia, que é a sustentabilidade e um clima seguro para todos”, afirmou.

O texto final do acordo estabelece o objetivo de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2 graus Celsius (ºC) em relação aos níveis pré-industriais e garantir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC.

Segundo Azevedo, entretanto, as metas atuais levam a um aumento de cerca de 3ºC, mas também definem, claramente, uma direção de trabalho. “O que é importante é que, em Paris, se definiu um modo de operar que faz com que se faça uma revisão, progressivamente, em ciclos de cinco em cinco anos para que os países possam ir aprofundando as metas de forma que nos próximos ciclos possamos caminhar no sentido de limitar a 2ºC”, disse.

As Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas (INDCs) apresentadas pelos países também foram importantes para o sucesso do acordo, segundo os especialistas. “É um acordo aprovado por unanimidade, ninguém deixou de ser escutado. As contribuições foram voluntárias e é aquilo que foi apresentado voluntariamente que se torna, então, obrigatório”, disse Tasso Azevedo.

“Grande parte do sucesso desta COP21 se deve a questões de procedimento. A estratégia das INDCs ajudou a romper a lógica binária de negociações entre países desenvolvidos versus países em desenvolvimento”, diz, em nota, o diretor de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Henrique Lian.

Em vídeo divulgado pelas redes sociais, o diretor-presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, disse que as empresas privadas também assumiram posições importantes para redução de emissões, mas que ainda existem desafios. Entre eles estão a adaptação, que é uma oportunidade muito grande para as empresas, segundo ele; a questão dos acessos aos financiamentos; a transparência; e a construção de políticas públicas, “é algo que o governo deixa claro, a importância das empresas estarem construindo conjuntamente as políticas públicas”, afirmou.

Segundo Abrahão, entretanto, há outro tema, pouco tratado, que é o estilo de vida da população. “Nosso modo de viver é algo que nos traz desafios, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista das empresas”, disse.

Para Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, as ações do dia a dia são importantes para redução das emissões, quando, por exemplo, as pessoas escolhem andar de transporte coletivo, usar o aquecedor solar ou consumir produtos de origem sustentável. Ele diz ainda que o País pode implementar ações imediatas, como o desmatamento zero, o investimento forte na agricultura de baixo carbono e na recuperação de pastagens degradadas e o investimento em energias renováveis.

Principais pontos do Acordo de Paris, segundo Ministério do Meio Ambiente:

– Fortalece a implementação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) sob os seus princípios.

– Busca limitar o aumento da temperatura média global a bem abaixo de 2ºC em relação aos níveis pré-industriais e empreender esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC.

– Promove o financiamento coletivo de um piso de US$ 100 bilhões por ano para países em desenvolvimento, considerando suas necessidades e prioridades.

– Estabelece processo que apresenta as contribuições nacionalmente determinadas (INDCs), com metas individuais de cada país para a redução de emissões de gases de efeito estufa.

– Cria um mecanismo de revisão a cada cinco anos dos esforços globais para frear as mudanças do clima.

Agência Brasil

Aquecimento global: um estranho evento em Paris (Outras Palavras)

POR GEORGE MONBIOT

Derretimento de glaciares, cada vez mais comum em diversas partes do mundo. Para Monbiot, Um aquecimento máximo de 1,5ºC, alvo improvável a que agora se aspira, era plenamente realizável quando da primeira conferência sobre mudança climática da ONU em Berlim, em 1995

Cúpula do Clima foi, ao mesmo tempo, avanço e desastre. Formou-seconsenso inédito sobre gravidade da ameaça. Mas lobbies bloquearam as medidas indispensáveis para enfrentá-la

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Comparado com aquilo que poderia ter sido, é um milagre. Comparado com o que deveria ter sido, é um desastre.

Dentro dos estreitos limites em que se deram as negociações, o desenho do acordo sobre o clima na ONU, em Paris, é um grande sucesso. O alívio e autocongratulação com que o texto final foi saudado reconhece o fracasso em Copenhague, há seis anos, quando as negociações correram descontroladamente durante algum tempo, até desmoronar. O acordo de Paris ainda espera a adoção formal, mas sua aspiração ao limite de 1,5ºC para o aquecimento global, depois de tantos anos de rejeição dessa meta, pode ser vista no quadro de uma vitória retumbante. Nesse e em outros sentidos, o texto final é mais forte do que foi antecipado pela maioria das pessoas.

Fora desse quadro, contudo, ele parece outra coisa. Duvido que qualquer um dos negociadores acredite que, como resultado desse acordo, o aquecimento global não irá superar 1,5ºC. Como o preâmbulo do documento reconhece, em vista das débeis promessas que os governos levaram a Paris, mesmo 2ºC seria loucamente ambicioso. Ainda que algumas nações tenham negociado de boa fé, é provável que os resultados reais nos levem a níveis de colapso climático que serão perigosos para todos e letais para alguns. Os governos falam em não onerar as futuras gerações com dívidas. Mas acabam de concordar em sobrecarregar nossos filhos e netos com um legado muito mais perigoso: o dióxido de carbono produzido pela queima contínua de combustíveis fósseis, e os impactos de longo prazo que isso irá exercer sobre o clima global.

Com 2ºC de aquecimento, grandes partes da superfície do mundo irão se tornar menos habitáveis. Os habitantes dessas regiões provavelmente enfrentarão extremos climáticos selvagens: secas piores em alguns lugares, enchentes mais devastadoras em outros, tempestades mais fortes e, potencialmente, graves impactos no abastecimento de alimentos. Ilhas e cidades costeiras correm o risco de desaparecer sob as ondas, em muitas partes do mundo.

A combinação de mares acidificados, morte de corais e derretimento do Ártico pode significar o colapso de toda a cadeia alimentar marinha. Em terra, as florestas tropicais tendem a ser reduzidas, os rios podem minguar e os desertos, aumentar. Extinção em massa será provavelmente a marca da nossa era. Essa é a cara do que os alegres delegados à conferência de Paris enxergaram como sucesso.

Os próprios termos do documento final poderão fracassar? Também é possível. Embora os primeiros rascunhos especificassem datas e percentuais, o texto final visa apenas “alcançar o pico global de emissão de gases de efeito de estufa o mais rápido possível”. É algo que pode significar qualquer coisa e nada.

Para ser justo, o fracasso não deve ser debitado às conversações de Paris, mas a todo o processo. Um aquecimento máximo de 1,5ºC, meta improvável a que agora se aspira, era plenamente realizável quando da primeira conferência sobre mudança climática da ONU em Berlim, em 1995. Houve duas décadas de procrastinação, causadas por lobbies – abertos, encobertos e frequentemente sinistros. Além disso, os governos relutaram em explicar a seus eleitorados que a fixação pelo curto prazo tem custos a longo prazo. O resultado é que três quartos da janela de oportunidade agora se fecharam. As negociações de Paris são as melhores que jamais tivemos. E isso é um sinal terrível.

O resultado, avançado em comparação a todos os anteriores, deixa-nos com um acordo quase comicamente distorcido. Enquanto as negociações sobre quase todos os outros riscos globais buscam enfrentar ambos os lados do problema, o processo climático da ONU preocupa-se inteiramente com consumo de combustíveis fósseis, enquanto ignora sua produção.

Em Paris, os delegados concordaram solenemente em cortar a demanda de petróleo e carvão, mas em casa busca-se maximizar a oferta. O governo do Reino Unido impôs até mesmo a obrigação legal de “maximizar a recuperação econômica” do petróleo e gás do país, com a Lei de Infraestrutura de 2015. A extração de combustíveis fósseis é um fato duro. Mas não faltam fatos suaves ao acordo de Paris: promessas escorregadias e que podem ser desfeitas. Até que resolvam manter os combustíveis no solo, os governos continuarão a sabotar o acordo que acabam de fazer.

É o melhor que se poderia conseguir, nas condições atuais. Nos EUA, nenhum provável sucessor de Barack Obama demonstrará o mesmo compromisso. Em países como o Reino Unido, grandes promessas no exterior são minadas por orçamentos domésticos esquálidos. Seja o que for que aconteça agora, não seremos bem-vistos pelas gerações que nos sucederem.

Então está bem, deixe que os delegados se congratulem por um acordo melhor do que poderia ser esperado. E que o temperem com um pedido de desculpas a todos aqueles a quem a conferência irá trair.

Nations Approve Landmark Climate Accord in Paris (New York Times)

LE BOURGET, France — With the sudden bang of a gavel Saturday night, representatives of 195 nations reached a landmark accord that will, for the first time, commit nearly every country to lowering planet-warming greenhouse gas emissions to help stave off the most drastic effects of climate change.

The deal, which was met with an eruption of cheers and ovations from thousands of delegates gathered from around the world, represents a historic breakthrough on an issue that has foiled decades of international efforts to address climate change.

Traditionally, such pacts have required developed economies like the United States to take action to lower greenhouse gas emissions, but they have exempted developing countries like China and India from such obligations.

The accord, which United Nations diplomats have been working toward for nine years, changes that dynamic by requiring action in some form from every country, rich or poor.

Scientists and leaders said the talks here represented the world’s last, best hope of striking a deal that would begin to avert the most devastating effects of a warming planet.

Mr. Ban said there was “no Plan B” if the deal fell apart. The Eiffel Tower was illuminated with that phrase Friday night.

The new deal will not, on its own, solve global warming. At best, scientists who have analyzed it say, it will cut global greenhouse gas emissions by about half enough as is necessary to stave off an increase in atmospheric temperatures of 2 degrees Celsius or 3.6 degrees Fahrenheit. That is the point at which, scientific studies have concluded, the world will be locked into a future of devastating consequences, including rising sea levels, severe droughts and flooding, widespread food and water shortages and more destructive storms.

But the Paris deal could represent the moment at which, because of a shift in global economic policy, the inexorable rise in planet-warming carbon emissions that started during the Industrial Revolution began to level out and eventually decline.

“The world finally has a framework for cooperating on climate change that’s suited to the task,” said Michael Levi, an expert on energy and climate change policy at the Council on Foreign Relations. “Whether or not this becomes a true turning point for the world, though, depends critically on how seriously countries follow through.”

Just five years ago, such a deal seemed politically impossible. A similar 2009 climate change summit meeting in Copenhagen collapsed in acrimonious failure after countries could not unite around a deal.

Unlike in Copenhagen, Foreign Minister Laurent Fabius of France said on Saturday, the stars for this assembly were aligned.

The changes that led to the Paris accord came about through a mix of factors, particularly major shifts in the domestic politics and bilateral relationships of China and the United States, the world’s two largest greenhouse gas polluters.

Since the Copenhagen deal collapsed, scientific studies have confirmed that the earliest impacts of climate change have started to sweep across the planet. While scientists once warned that climate change was a problem for future generations, recent scientific reports have concluded that it has started to wreak havoc now, from flooding in Miami to droughts and water shortages in China.

In a remarkable shift from their previous standoffs over the issue, senior officials from both the United States and China praised the Paris accord on Saturday night.

Representatives of the “high-ambition coalition,” including Foreign Minister Tony de Brum of the Marshall Islands, left, wore lapel pins made of dried coconut fronds, a symbol of Mr. de Brum’s country.CreditJacky Naegelen/Reuters 

Secretary of State John Kerry, who has spent the past year negotiating behind the scenes with his Chinese and Indian counterparts in order to help broker the deal, said, “The world has come together around an agreement that will empower us to chart a new path for our planet.”

Xie Zhenhua, the senior Chinese climate change negotiator, said, “The agreement is not perfect, and there are some areas in need of improvement.” But he added, “This does not prevent us from marching forward with this historic step.” Mr. Xie called the deal “fair and just, comprehensive and balanced, highly ambitious, enduring and effective.”

Negotiators from many countries have said that a crucial moment in the path to the Paris accord came last year in the United States, when Mr. Obama enacted the nation’s first climate change policy — a set of stringent new Environmental Protection Agency regulations designed to slash greenhouse gas pollution from the nation’s coal-fired power plants. Meanwhile, in China, the growing internal criticism over air pollution from coal-fired power plants led President Xi Jinping to pursue domestic policies to cut coal use.

In November 2014 in Beijing, Mr. Obama and Mr. Xi announced that they would jointly pursue plans to cut domestic greenhouse gas emissions. That breakthrough announcement was seen as paving the way to the Paris deal, in which nearly all the world’s nations have jointly announced similar plans.

The final language did not fully satisfy everyone. Representatives of some developing nations expressed consternation. Poorer countries had pushed for a legally binding provision requiring that rich countries appropriate a minimum of at least $100 billion a year to help them mitigate and adapt to the ravages of climate change. In the final deal, that $100 billion figure appears only in a preamble, not in the legally binding portion of the agreement.

Despite the historic nature of the Paris climate accord, its success still depends heavily on two factors outside the parameter of the deal: global peer pressure and the actions of future governments.

The core of the Paris deal is a requirement that every nation take part. Ahead of the Paris talks, governments of 186 nations put forth public plans detailing how they would cut carbon emissions through 2025 or 2030.

Those plans alone, once enacted, will cut emissions by half the levels required to stave off the worst effects of global warming. The national plans vary vastly in scope and ambition — while every country is required to put forward a plan, there is no legal requirement dictating how, or how much, countries should cut emissions.

Thus, the Paris pact has built in a series of legally binding requirements that countries ratchet up the stringency of their climate change policies in the future. Countries will be required to reconvene every five years, starting in 2020, with updated plans that would tighten their emissions cuts.

Countries will also be legally required to reconvene every five years starting in 2023 to publicly report on how they are doing in cutting emissions compared to their plans. They will be legally required to monitor and report on their emissions levels and reductions, using a universal accounting system.

That hybrid legal structure was explicitly designed in response to the political reality in the United States. A deal that would have assigned legal requirements for countries to cut emissions at specific levels would need to go before the United States Senate for ratification. That language would have been dead on arrival in the Republican-controlled Senate, where many members question the established science of human-caused climate change, and still more wish to thwart Mr. Obama’s climate change agenda.

So the individual countries’ plans are voluntary, but the legal requirements that they publicly monitor, verify and report what they are doing, as well as publicly put forth updated plans, are designed to create a “name-and-shame” system of global peer pressure, in hopes that countries will not want to be seen as international laggards.

That system depends heavily on the views of the future world leaders who will carry out those policies. In the United States, every Republican candidate running for president in 2016 has publicly questioned or denied the science of climate change, and has voiced opposition to Mr. Obama’s climate change policies.

In the Senate, Mitch McConnell, the Republican leader, who has led the charge against Mr. Obama’s climate change agenda, said, “Before his international partners pop the champagne, they should remember that this is an unattainable deal based on a domestic energy plan that is likely illegal, that half the states have sued to halt, and that Congress has already voted to reject.”

There were few of those concerns at the makeshift negotiations center here in this suburb north of Paris. The delegates rose to their feet in applause to thank the French delegation, which drew on the finest elements of the country’s longstanding traditions of diplomacy to broker a deal that was acceptable to all sides.

France’s European partners recalled the coordinated Nov. 13 terrorist attacks in Paris, which killed 130 people and threatened to cast a shadow over the negotiations. But, bound by a collective good will toward France, countries redoubled their efforts.

“This demonstrates the strength of the French nation and makes us Europeans all proud of the French nation,” said Miguel Arias Cañete, the European Union’s commissioner for energy and climate action.

Yet amid the spirit of success that dominated the final hours of the negotiations, Mr. Arias Cañete reminded delegates that the accord was the beginning of the real work. “Today, we celebrate,” he said. “Tomorrow, we have to act. This is what the world expects of us.”

Correction: December 12, 2015. An earlier version of this article misstated part of the name of the agency for which Michael Levi works. It is the Council on Foreign Relations, not the Center on Foreign Relations.

Sewell Chan, Melissa Eddy, Justin Gillis and Stanley Reed contributed reporting.

Protocolo Climático do Estado de São Paulo é lançado internacionalmente na COP21 (Revista Fapesp)

09 de dezembro de 2015

Elton Alisson, de Paris  |  Agência FAPESP – A Secretaria Estadual do Meio Ambiente lançou internacionalmente na terça-feira (08/12), durante um evento paralelo à 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21), na Embaixada do Brasil em Paris, o Protocolo Climático do Estado de São Paulo.

O Protocolo visa estimular empresas e entidades estabelecidas no Estado de São Paulo a adotarem medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, incluindo iniciativas de redução das emissões de gases de efeito estufa, de aumento da eficiência hídrica e energética e de práticas de responsabilidade socioambiental, com intuito de atender à Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC).

De adesão voluntária, o Protocolo Climático já conta com a adesão de mais de 60 empresas e entidades, como o Carrefour, a Natura, o Grupo Votorantim, a Dow e Associação Paulista de Supermercados (Apas), entre outras.

“O Protocolo permitirá ao Governo do Estado de São Paulo identificar empresas e entidades líderes em mitigação e adaptação às mudanças climáticas, que podem servir de modelo para outras”, disse Patricia Iglecias, secretária estadual do Meio Ambiente, durante o evento.

De acordo com ela, o Protocolo foi apresentado ao secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, na última sexta-feira (04/12), durante o Climate Summit for Local Leaders – outro evento paralelo à COP21 que reuniu centenas de representantes de municípios, estados e regiões do mundo em Paris, para discutir ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas implementadas por governos subnacionais .

Os estados de Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal também manifestaram interesse de replicar a experiência do protocolo, contou Iglecias.

“Esperamos que outros estados também repliquem essa iniciativa. O papel dos governos subnacionais e o engajamento das empresas e da sociedade civil são fundamentais para implementação das medidas de mitigação e adaptação que estão sendo discutidas pelos governos nacionais na COP21”, avaliou.

Durante o evento, 28 empresas e entidades que aderiram ao protocolo climático paulista apresentaram exemplos de medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa e de boas práticas socioambientais que implementaram nos últimos anos e assinaram o termo de adesão ao Protocolo.

A Natura, por exemplo, atingiu a meta de reduzir em 33,2% suas emissões de gases de efeito estufa em 2013 por meio de medidas como a substituição de embalagens por versões mais ecológicas.

“Conseguimos uma redução de 41% nas emissões de gases de efeito estufa na produção de uma de nossas principais linhas de produtos por meio da substituição da embalagem por uma versão com refil [que pode ser recarregada]”, disse Keyvan Macedo, gerente de sustentabilidade da fabricante de cosméticos.

O Carrefour, por sua vez, conseguiu reduzir 450 mil quilômetros no transporte de produtos do seu centro de distribuição para as lojas, em razão de um programa de logística inteligente, reduzindo a emissão de poluentes. A empresa estabeleceu a meta de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2025 e 70% até 2040. A Dow, por sua vez, tem um plano para diminuir as emissões de gases de efeito estufa nas Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016, segundo representantes da empresa.

“São Paulo produz bens e serviços de alto valor agregado e pode trazer uma considerável vantagem competitiva se passar a produzir cada vez mais com maior eficiência e menor intensidade de carbono”, avaliou Iglecias.

“A transição para uma economia que atenda a essas necessidades pode e deve ser impulsionada por parcerias com o setor privado”, afirmou.

Assinatura de memorandos

Durante o evento, também foi assinado um memorando de entendimento entre a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o R20 – Regions of Climate Action – uma iniciativa internacional lançada em 2011 pelo ator e ex-governador da Califórnia, nos Estados Unidos, Arnold Schwarzenegger para promover uma economia de baixo carbono – para captação de US$ 50 milhões para o Programa Nascentes, de restauração dos mananciais paulistas.

Também foi lançado no evento um Protocolo de Boas Práticas Sociambientais para o Setor Financeiro com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O protocolo funcionará como uma regulamentação estadual da normativa do Banco Central a respeito das políticas internas socioambientais de instituições financeiras atuantes no Estado de São Paulo.

“O Protocolo de Boas Práticas Socioambientais para o Setor Financeiro surgiu de um termo de minuta de responsabilidade socioambiental desenvolvido pela Febraban e o Ministério Público Federal em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente”, explicou Iglecias.

A secretária também anunciou durante o evento o lançamento do Fundo Climático Paulista.

A ideia do fundo é captar recursos para substituição das atuais fontes energéticas de edifícios públicos paulistas por alternativas mais eficientes.

“Queremos que isso traga uma mudança da matriz energética dos prédios públicos do Estado de São Paulo. Entendemos que o setor público também tem que dar sua contribuição para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, afirmou Iglecias.

Participaram do evento o embaixador do Brasil na França, Paulo César de Oliveira Campos, o secretário de mudanças climáticas e qualidade ambiental do Brasil, Carlos Klink, os deputados Ricardo Tripoli e Orlando Morando, e representante de ONGs, órgãos do governo de São Paulo, entidades e associações do Brasil e da França.

Conta das mudanças climáticas é mais alta para nações ricas (O Globo)

ActionAid calcula que países desenvolvidos devem doar 0,1% do PIB a fundo comum

POR O GLOBO

18/11/2015 6:00

 

Mulheres polonesas conversam em frente à usina: países desenvolvidos não pagam valores justos para atenuar mudanças climáticas, diz ONG – JOE KLAMAR/AFP

RIO — Um novo estudo da ONG ActionAid denunciou ontem a diferença abissal entre as quantias exigidas e as doadas pelos países desenvolvidos para que as nações mais pobres criem medidas de adaptação contra as mudanças climáticas. Em 2013, foram destinados cerca de US$ 5 bilhões para o combate ao aquecimento global. Na próxima década, serão necessários US$ 150 bilhões por ano para combater os eventos extremos. O debate sobre financiamento está entre as prioridades da Conferência do Clima de Paris, a partir do dia 30.

De acordo com o instituto, as nações ricas deveriam dedicar pelo menos 0,1% de seu PIB a um fundo climático internacional. É um índice 70 vezes menor do que o gasto em 2008 para a adoção de políticas contra a recessão econômica.

Os EUA deveriam aumentar suas contribuições aos países pobres em mais de 154 vezes, passando dos US$ 440 milhões gastos em 2013 para US$ 67,5 bilhões em 2025.

A União Europeia precisa multiplicar os seus investimentos em 11 vezes, passando dos US$ 3,2 bilhões vistos em 2013 para US$ 36,9 bilhões em 2025.

Os cálculos são baseados nas emissões históricas — a contribuição atribuída a cada país para provocar as mudanças climáticas — e em sua capacidade de ajudar financeiramente, levando em conta os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Especialista em financiamento climático da ActionAid, Brandon Wu acredita que os países em desenvolvimento estão enfrentando sozinhos “uma crise que não causaram”.

— O problema não é falta de dinheiro — assegura. — Os EUA, por exemplo, gastam muito mais em subsídios para os combustíveis fósseis do que em medidas de adaptação ao clima. É falta de vontade política.

IMPASSE HISTÓRICO

Wu avalia que o financiamento contra as mudanças climáticas pode ser o item mais polêmico entre os discutidos na Conferência do Clima. Tradicionalmente, os países ricos e pobres discordam sobre o tamanho do rombo, e as nações desenvolvidas não concordam em assumir totalmente as indenizações contra o aquecimento global, eximindo economias emergentes, como China e Brasil, de qualquer compromisso financeiro.

— Um novo acordo (global sobre o clima) não é possível sem esclarecimento sobre como serão as finanças — pondera. — Os países em desenvolvimento não podem adaptar suas economias, livrando-as das emissões de carbono, sem apoio internacional. Talvez não consigamos saber exatamente quanto será investido por cada país, mas precisamos impor novos prazos e objetivos. Aqueles discutidos até agora são vagos demais.

Já Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, acredita que as negociações financeiras não devem ser uma prioridade.

— O mais importante é discutir que metas podem impedir o avanço da temperatura global — defende. — O financiamento é um jogo político. Resistimos a abandonar o petróleo, da mesma forma como, antes, não queríamos largar o carvão. Mais do que abrir o cofre, precisamos pensar em um novo modelo econômico, que tipo de capitalismo devemos adotar.

Acordo da conferência de Paris sobre clima terá cumprimento obrigatório (Folha de S.Paulo)

Clóvis Rossi

23/11/2015

A COP21, a conferência global sobre o clima que se inicia no dia 30 em Paris, será de cumprimento obrigatório pelas partes, ao contrário do que tinha dito, na semana passada, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

Kerry dissera que não sairia de Paris um tratado, mas seu chefe, o presidente Barack Obama, assinou nesta segunda-feira, 16, com seus pares do G20, texto em que afirmam “a determinação de adotar um protocolo, outro instrumento legal ou um desenlace acordado com força legal nos termos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas”.

É o acordo que prevê limitar o aumento da temperatura na Terra a 2°C até o final do século, em relação aos níveis da era pré-industrial.

Superar esse teto, dizem os especialistas, geraria consequências apocalípticas.

Berk Ozkan/AFP
Líderes do G20 posam para a tradicional foto do grupo durante a cúpula realizada em Antalya, na Turquia
Líderes do G20 posam para a tradicional foto do grupo durante a cúpula realizada em Antalya, na Turquia

Não por acaso, o comunicado final da cúpula do G20, encerrada nesta segunda-feira, 16, em Antalya, afirma que “a mudança climática é um dos grandes desafios de nosso tempo” e que “2015 é um ano crítico, que requer ação efetiva, forte e coletiva sobre a mudança climática e seus efeitos”.

É natural nessas circunstâncias que o tema tenha sido, depois de terrorismo, o que provocou debates mais agudos na cúpula das grandes economias do planeta.

Uma das polêmicas, não resolvida no comunicado final, girou em torno da revisão das INDCs (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas), ou seja, os compromissos que cada país estabeleceu para si próprio e que levará à COP21.

Já são 160 os países que estabeleceram suas INDCs, Brasil inclusive (a meta brasileira prevê reduzir em 43% a emissão dos gases do efeito estufa até 2030, com base no nível registrado em 2005).

“Vamos cumprir”, assegurou a presidente Dilma Rousseff, “e, se não o fizermos, teremos que prestar contas”.

REVISÃO EM CINCO ANOS

O Brasil apoiou, no G20, a tese de revisão das metas de cinco em cinco anos, mas outros países foram contra, pelo que o comunicado final não a menciona.

Dilma explicou o apoio brasileiro: a revisão a cada cinco anos permitiria analisar a incorporação de tecnologias e modalidades de financiamento que, eventualmente, abreviassem a obtenção das metas.

A presidente se diz otimista sobre o resultado de Paris, entre outras razões porque o formato mudou na comparação com Copenhague, a outra grande cúpula climática: desta vez, serão os chefes de governo que estarão na conferência no momento inicial, indicando claramente as orientações a serem seguidas.

Em Copenhague, foram os negociadores que abriram o encontro, ao qual os chefes de governo compareceram apenas do meio para o fim, com impasses já cristalizados.

AMBIENTALISTAS CRITICAM

O otimismo de Dilma, no entanto, não é compartilhado pelas entidades ambientalistas, que criticaram duramente o comunicado do G20.

“Os chefes de Estado poderiam ter oferecido um claro e poderoso sinal ante a iminência da Cúpula do Clima, pondo uma data para o fim dos subsídios a combustíveis fósseis e concordando em parar de financiar projetos de combustível fóssil ao redor do mundo”, disse, por exemplo, Ümit Sahin, da ONG Pelo Clima.

“Em vez disso” –continuou– “recuperaram posições anteriores e, ao fazê-lo, correm o risco de ficar do lado errado da história.”

Conta das mudanças climáticas é mais alta para nações ricas (O Globo)

ActionAid calcula que países desenvolvidos devem doar 0,1% do PIB a fundo comum

POR O GLOBO

Mulheres polonesas conversam em frente à usina: países desenvolvidos não pagam valores justos para atenuar mudanças climáticas, diz ONG – JOE KLAMAR/AFP

RIO — Um novo estudo da ONG ActionAid denunciou ontem a diferença abissal entre as quantias exigidas e as doadas pelos países desenvolvidos para que as nações mais pobres criem medidas de adaptação contra as mudanças climáticas. Em 2013, foram destinados cerca de US$ 5 bilhões para o combate ao aquecimento global. Na próxima década, serão necessários US$ 150 bilhões por ano para combater os eventos extremos. O debate sobre financiamento está entre as prioridades da Conferência do Clima de Paris, a partir do dia 30.

De acordo com o instituto, as nações ricas deveriam dedicar pelo menos 0,1% de seu PIB a um fundo climático internacional. É um índice 70 vezes menor do que o gasto em 2008 para a adoção de políticas contra a recessão econômica.

Os EUA deveriam aumentar suas contribuições aos países pobres em mais de 154 vezes, passando dos US$ 440 milhões gastos em 2013 para US$ 67,5 bilhões em 2025.

A União Europeia precisa multiplicar os seus investimentos em 11 vezes, passando dos US$ 3,2 bilhões vistos em 2013 para US$ 36,9 bilhões em 2025.

Os cálculos são baseados nas emissões históricas — a contribuição atribuída a cada país para provocar as mudanças climáticas — e em sua capacidade de ajudar financeiramente, levando em conta os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Especialista em financiamento climático da ActionAid, Brandon Wu acredita que os países em desenvolvimento estão enfrentando sozinhos “uma crise que não causaram”.

— O problema não é falta de dinheiro — assegura. — Os EUA, por exemplo, gastam muito mais em subsídios para os combustíveis fósseis do que em medidas de adaptação ao clima. É falta de vontade política.

IMPASSE HISTÓRICO

Wu avalia que o financiamento contra as mudanças climáticas pode ser o item mais polêmico entre os discutidos na Conferência do Clima. Tradicionalmente, os países ricos e pobres discordam sobre o tamanho do rombo, e as nações desenvolvidas não concordam em assumir totalmente as indenizações contra o aquecimento global, eximindo economias emergentes, como China e Brasil, de qualquer compromisso financeiro.

— Um novo acordo (global sobre o clima) não é possível sem esclarecimento sobre como serão as finanças — pondera. — Os países em desenvolvimento não podem adaptar suas economias, livrando-as das emissões de carbono, sem apoio internacional. Talvez não consigamos saber exatamente quanto será investido por cada país, mas precisamos impor novos prazos e objetivos. Aqueles discutidos até agora são vagos demais.

Já Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, acredita que as negociações financeiras não devem ser uma prioridade.

— O mais importante é discutir que metas podem impedir o avanço da temperatura global — defende. — O financiamento é um jogo político. Resistimos a abandonar o petróleo, da mesma forma como, antes, não queríamos largar o carvão. Mais do que abrir o cofre, precisamos pensar em um novo modelo econômico, que tipo de capitalismo devemos adotar.

Upcoming UN Climate Summit can’t overlook China’s support of global coal power (Science Daily)

Date:
October 27, 2015
Source:
Princeton University
Summary:
When global leaders converge on Paris on Nov. 30 for the 2015 United Nations climate change conference, they should create guidelines and incentives for developing nations to cooperate with one another on lower-carbon energy projects, according to a new report. Failure to do so could contribute to an unchecked expansion of coal energy in developing counties, which has already accelerated in recent years with the help of Chinese firms going global.

When global leaders converge on Paris on Nov. 30 for the 2015 United Nations climate change conference, their goal will be to deliver an agreement that, for the first time, seeks to safeguard the Earth’s climate by having all nations that are significant sources of carbon dioxide rein in their emissions.

A threat to that plan might be the unchecked growth of coal-intensive energy in the world’s developing nations — a dangerous trend recently accelerated by the expansion of Chinese firms seeking business internationally, according to researchers from Princeton University, Tongji University in Shanghai and the University of California-Irvine.

The Paris conference is the 21st annual meeting to revisit and strengthen the international environmental treaty known as the UN Framework Convention on Climate Change (UNFCCC). Created at the 1992 UN Conference on Environment and Development, commonly known as the “Earth Summit,” the treaty sets goals and procedures for signatory nations to contain and reduce carbon emissions.

However, the researchers write in the journal Nature Climate Change that any agreement reached in Paris also should be expanded to provide guidelines and incentives — already under discussion for industrialized countries — for developing nations to cooperate with one another on lower-carbon energy projects. Failure to do this, the authors write, could allow further “dirty” energy cooperation between developing nations and complicate the United Nations’ goal to keep the global average temperature within 2 degrees Celsius of what it was around 1750 at the dawn of the Industrial Age.

“After years of effort to construct a truly global climate agreement, negotiators are on course to accept a system with incoherent rules for developed and developing countries in terms of investing in low-carbon energy outside their borders. We think that may be harmful in the long run,” said lead author Phil Hannam, a doctoral candidate in the Program in Science, Technology and Environmental Policy (STEP) at Princeton’s Woodrow Wilson School of Public and International Affairs.

The paper, which includes the first tally of Chinese involvement in power plants around the world, includes co-authors Michael Oppenheimer, the Albert G. Milbank Professor of Geosciences and International Affairs at Princeton; Zhenliang Liao, an associate professor of environmental science and engineering at Tongji University; and Steven Davis, an assistant professor of earth system science at UC-Irvine.

Carbon emissions continue to rise from energy production as developing nations such as India, Brazil and South Africa fuel their rapid industrialization, the researchers report. At the same time, developing nations such as China have the capital and technology to support other burgeoning economies. But the lack of international attention — and UN incentives — for developing nations to support each other’s energy needs in a low-carbon way has helped keep coal power a popular choice, according to the authors.

Chinese firms — which often have financial or policy backing from China’s state banks — have poured coal-power equipment into other Asian countries, partly as a result of China’s slowing domestic power-market growth. The situation could get worse as China pledges to reduce domestic carbon emissions, according to the paper. The researchers found that of the total power capacities in Asian countries other than China that have involvement from Chinese firms, 68 percent in operation, 77 percent under construction and 76 percent in planning burn coal. This level of involvement in coal exceeds the global trend, Hannam said.

“While China has tightened its belt on coal power domestically, that’s pushing Chinese firms to help build coal plants in other countries, so much so that China’s firms are disproportionately focused in coal-intensive energy abroad relative to other nations,” Hannam said. “Instead, if the UNFCCC integrated low-carbon cooperation between developing countries in the climate agreement, China could lead the way for countries to make pledges for low-carbon investment globally, just as they pledge domestic emissions cuts.”

The loopholes of ‘climate finance’

“Climate finance,” which Hannam and his co-authors focus on, is an important tool for guiding clean-energy development internationally. In an effort to keep global emissions low, a nation’s government — usually in concert with private money — will support low-carbon development in other nations. Richer industrialized nations with a long history of emissions have committed to mobilizing climate finance to the tune of US$100 billion per year by 2020. Some of this funding will flow through the Green Climate Fund established in 2010 to support low-carbon investment in the developing world.

Developing nations — generally with China at the helm — have entered into numerous parallel arrangements to support energy-sector growth in other developing nations. China has established the South-South Cooperation Fund for supporting low-carbon investment.

Several other energy-financing agreements, however, are not only outside the UN’s purview, they often benefit from vastly more funding than the Green Climate Fund or the South-South fund and have no explicit low-carbon directive, the authors reported.

The New Development Bank headquartered in Shanghai and formed by China, Brazil, Russia, India and South Africa to support infrastructure projects in developing countries boasts a starting capital of $100 billion. Some $50 billion in capital is already behind the China-based Asian Infrastructure Investment Bank, and another $40 billion supports China’s Silk Road Fund — both entities are intended to accelerate development in China’s less prosperous neighbors.

Efforts to encourage countries to support low-carbon development is complicated by the fact that there are no universally accepted standards for climate finance, Hannam said. Even the Green Climate Fund may permit financing for coal power.

“This highlights the need for both developed and developing countries to agree to common definitions of what qualifies as climate finance,” Hannam said. “Then the UNFCCC can look across the multiple emerging institutions and provide incentives for all power-sector finance — regardless of country of origin — to shift from coal to lower-carbon sources.”

The issues the authors discuss have already been broached in diplomatic circles, said Oppenheimer, who will be attending the Paris conference in part to promote the ideas laid out in the perspective piece. The United States recently persuaded China to reconsider its carbon-intensive power investments abroad, he said. While American support is crucial, climate finance is a complicated international balancing act that is influenced by many nations’ pursuit of economic gain and influence, Oppenheimer said.

“If the United States stays focused and makes this a priority within its international climate approach, then there’s a fair chance other governments will likewise support such an effort,” Oppenheimer said. “However, there is clearly more to international energy finance than just the United States and China. Japan, for instance, also finances coal power internationally and has a lot at stake politically in China’s Asia-focused institutions. It’s not simple.”

Gilbert Metcalf, a professor of economics at Tufts University and former deputy assistant secretary for environment and energy at the U.S. Department of Treasury, agreed that developing nations also must be brought into the fold. The norm has been for industrialized nations to foot the bill for low-carbon investment in poorer nations. The recent initiatives by China and other developing nations have somewhat upset that dynamic, but countries with small economies might still hesitate to commit themselves to investment standards long applied only to rich countries, said Metcalf, who was not involved in the research but is familiar with it.

Nonetheless, Metcalf said, the paper in Nature Climate Change is significant for taking a proactive approach to dealing with the climate-finance issue, as well as for detailing the energy-sector investments for an emerging financial force such as China.

“Providing some systematic measurement of climate finance is extremely valuable, especially with regard to climate finance from China and other developing countries. As China’s recent announcement to provide climate finance outside of the Green Climate Fund indicates, developing country finance will be an important part of the climate finance architecture,” he said.

“The massive external coal investment highlighted in [this paper] makes clear that South-South investment is not necessarily green investment,” he said. “It also makes clear that incentives built into the Paris agreement — or post-Paris negotiations — to green South-South investment will be extremely valuable to support global efforts to decarbonize.”


Journal Reference:

  1. Phillip M. Hannam, Zhenliang Liao, Steven J. Davis, Michael Oppenheimer. Developing country finance in a post-2020 global climate agreementNature Climate Change, 2015; 5 (11): 983 DOI: 10.1038/nclimate2731

ONU desiste de criar órgão para cuidar de refugiados climáticos (O Globo)

Ideia foi retirada do rascunho de acordo que será levado à Conferência de Paris

POR O GLOBO

Operários cruzam com o Ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, durante sua visita ao local onde será realizada a 21ª Conferência do Clima, em Le Bourget – JACKY NAEGELEN / REUTERS

RIO — O rascunho do acordo global sobre mudanças climáticas, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na última segunda-feira, já mostra alterações feitas, aparentemente, devido a pressões de alguns países. O documento será usado como base para as negociações durante a 21ª Conferência do Clima (COP 21) em Paris, em dezembro.Porém, foi retirada do documento a ideia de se criar um organismo para ajudar as pessoas a escapar dos desastres causados pelas mudanças climáticas.

Segundo o site do jornal britânico “The Guardian”, o passo atrás aconteceu por pressão da Austrália, que vem sendo criticada por sua pouca ambição em diminuir a emissão de gases de efeito estufa. A versão anterior do acordo incluía “instalações para a coordenação dos deslocamentos causados pelas mudanças climáticas” que deveriam prover “migrações organizadas e realocações planejadas”, assim como compensações, em dinheiro, para as pessoas que necessitam deixar suas casas para escapar da elevação do nível do mar, de condições meteorológicas extremas ou se mudar por conta da destruição da agricultura local.

A Austrália, no entanto, se opôs à criação das instalações, e essa medida foi retirada do novo texto. “A Austrália não vê a criação de instalações para a coordenação dos deslocamentos causados pelo clima como a maneira mais eficaz ou eficiente de progredir em direção a uma ação internacional significativa para enfrentar os impactos das mudanças climáticas”, disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores e Comércio, segundo o jornal “Guardian”. “A Austrália já está trabalhando com os nossos parceiros do Pacífico nessas questões importantes”.O país da Oceania já gastou mais de US$ 50 milhões em projetos de combate às mudanças climáticas no Pacífico e contribuiu com US$ 200 milhões para o Fundo Verde do Clima, mas vem sendo criticado por sua falta de ambição em cortar suas emissões de gases do efeito estufa e não ter um quadro político que apoie a causa de maneira consistente. O novo rascunho de 20 páginas, que substituiu outro, de 90, exortou todas as nações a se comprometerem com políticas de mitigação e endurecerem seus compromissos a cada cinco anos.

O projeto também salienta a importância da cooperação internacional e do apoio aos esforços de adaptação dos países em desenvolvimento, mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática. O acordo ainda aponta a necessidade de todos os governos estarem engajados na causa.

Os impactos da mudanças climáticas devem deslocar até 250 milhões de pessoas em todo o mundo até 2050, incluindo muitos habitantes das ilhas do Pacífico. Em algumas áreas do Pacífico, o nível do mar está subindo 1,2 centímetros por ano, quatro vezes mais rápido do que a média global, o que é alarmante. Em ilhas a dois ou três metros acima do nível do mar, comunidades já estão sendo realocadas, e a água potável e as colheitas são constantemente ameaçadas por inundações de água salgada.

A COP 21 terá como principal objetivo costurar um novo acordo entre os países para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, diminuindo o aquecimento global e, em consequência, limitar o aumento da temperatura global em 2ºC até 2100.

Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/onu-desiste-de-criar-orgao-para-cuidar-de-refugiados-climaticos-17709772#ixzz3o0X1HOcF
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Protocolo de Paris será maior acordo climático do mundo com 190 signatários (Agência Brasil)

01/08/2015 08h36

Alana Gandra – Repórter da Agência Brasil

A pouco mais de 100 dias para o início da 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), que ocorrerá entre 30 de novembro e 11 de dezembro próximo, em Paris, na França, a perspectiva é de assinatura do maior acordo climático do mundo. O Protocolo de Paris vai substituir o Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em fevereiro de 2005. Mas ao contrário do acordo anterior, que tinha metas específicas para um grupo de menos de 40 países desenvolvidos, o Protocolo de Paris será um acordo global que envolverá mais de 190 países que fazem parte da Convenção do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU).

Para o coordenador do Observatório do Clima, rede de organizações não governamentais (ONGs) e movimentos sociais que atuam na agenda climática brasileira, André Ferretti, a realidade do mundo mudou bastante de lá para cá. “Muitos países que naquela época tinham um papel bem menor nas emissões globais assumiram posições de mais emissões – como a China – e a economia dos países emergentes evoluiu na economia global em relação ao que ocorria nos anos de 1990. Isso por si só já exige novas formas de tratar da questão”, disse.

O novo acordo será uma espécie de guia de desenvolvimento para o futuro. Ferretti explicou que, por mais que se trate o protocolo como uma discussão ambiental, ele é, na verdade, uma discussão de desenvolvimento, já que vai estabelecer parâmetros para os países signatários seguirem durante as próximas décadas, “até a metade do século, pelo menos”. O intuito é estabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE), “para que, ao final do século, não ultrapasse aquecimento superior a 2 graus Celsius (°C) em relação ao que havia no período pré-industrial”.

O coordenador do Observatório do Clima disse que a temperatura da Terra já subiu cerca de 0,8% desde a revolução industrial até hoje. “Estamos falando de um máximo de 1,2 graus. Acima disso, as consequências poderiam ser desastrosas para a humanidade”. Cientistas alertam que nem a espécie humana, nem muitas espécies de animais e plantas passaram por uma temperatura média tão alta. “Então, os riscos são muito maiores”.

Por essa razão, Ferretti afirmou que os países precisam entrar em um acordo. Eles devem apontar medidas domésticas que pretendem colocar em prática para um horizonte de curto prazo, entre 2025 e 2030 e, depois, para um horizonte mais longo, até 2050. A ONU estabeleceu o prazo até 1º de outubro para que os países apresentem suas propostas de redução das emissões de GEE, que constituem a principal causa do aquecimento global. Poucos países encaminharam suas propostas até agora, entre eles estão Noruega, Gabão, Suíça, México e Estados Unidos.

O Brasil, segundo Ferretti, está atrasado no envio de suas metas porque, embora o prazo final seja o início de outubro, havia uma solicitação formal do secretariado da Convenção do Clima para que as propostas fossem enviadas até o final de março, para facilitar a evolução das negociações, uma vez que as propostas terão de ser traduzidas para as seis línguas oficiais da ONU (inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo). Além disso, o esforço de cada país pode ser apresentado em bases distintas umas das outras e ele terá de ser colocado em uma mesma base, para ver o que a população global pretende fazer. “Se o Brasil e outros países deixarem para outubro, corre-se o risco de se chegar no dia 30 de novembro com esses números [de emissões] ainda não muito claros”.

Na avaliação do Observatório do Clima, o Brasil – que esteve sempre na liderança nas negociações internacionais de clima, desde a assinatura da Convenção do Clima, em 1992, no Rio de Janeiro, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92) – “nos últimos anos se acomodou”. O governo brasileiro conseguiu reduzir o desmatamento na Amazônia, principal fonte de emissões no país, após 2004, mas a partir daí “ficou em uma situação muito confortável”. Ferretti lembrou, porém, que o Brasil continua emitindo gases de efeito estufa por desmatamento na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e em outros biomas.

A última estimativa feita pela Rede Observatório do Clima, com base em dados de 2013, mostra que a mudança de uso da terra equivale a 34,6% das emissões brasileiras; energia, 30,2%; agropecuária, 26,6%; indústria, 5,5%; e resíduos, 3,1%. “A gente vê que agropecuária, energia e mudança de uso da terra, juntas, representam mais de 90% das emissões. Infelizmente, o Brasil, nessa última década, aumentou suas emissões em todos os setores avaliados. Só conseguiu reduzir na mudança do uso da terra. E mesmo aí, nós aumentamos um pouco, de novo, nos dois últimos anos”, alertou.

Para o ambientalista, o Brasil está na contramão dos investimentos em fontes limpas de energia. Enquanto países como China e Coreia estão investindo muito em fontes renováveis, como solar e eólica (dos ventos), o Brasil, de acordo com o Plano de Expansão Decenal de Energia 2014/2023, prevê investir em torno de 71% dos investimentos projetados de R$ 1,263 trilhão em combustíveis fósseis e apenas 9,2% em fontes renováveis.

Todas essas questões serão debatidas no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (Cbuc), que ocorrerá no período de 21 a 25 de setembro próximo, em Curitiba (PR). Está programado um simpósio com participação de especialistas internacionais, para discutir o tema da adaptação às mudanças climáticas, de forma a reduzir os impactos delas para a sociedade em geral.

Edição: Denise Griesinger

Obama is paving the way for success in Paris (Grist)

President Obama deserves major props for laying the groundwork for successful climate change negotiations in Paris this December. The effort, much of which has happened behind the scenes, doesn’t have the simple sex appeal of rejecting Keystone XL, but it will have a much greater global impact.

Over the last year, the Obama administration has wrung groundbreaking climate commitments from China and Brazil, and started making progress with India. The China and Brazil deals exceeded what informed observers had realistically hoped for — they have moved the needle on what’s politically possible and they are building momentum for U.N. talks in Paris. Most importantly, the fact that these countries are working with the U.S. on climate change and pledging to curb their emissions at all means we have crossed the crucial threshold to getting a climate agreement.

First, a quick overview of where things stand with China, India, and Brazil, which are the first, second, and fifth largest countries by population and the first, fourth, and seventh in total greenhouse gas emissions.

  • On June 30, the U.S. and Brazil jointly announced a set of climate and clean-energy goals. Both will ramp up non-hydro renewable energy sources to 20 percent of their electricity-generation portfolio by 2030. That would double the renewable share in Brazil and triple it in the U.S. Brazil also pledged to reforest 30 million acres of the Amazon and crack down on illegal deforestation. Just as important, the two nations promised to work together in Paris for a strong global accord.
  • Also on June 30, China released the formal pledge it will be taking to the Paris talks, known as an “intended nationally determined contribution,” or INDC. Back in November, in a game-changing breakthrough, China and the U.S. jointly announced new climate goals. While the U.S. pledged to cut carbon emissions from 2005 levels by 26 to 28 percent by 2025, China promised to make its emissions peak by 2030 and aim for an approximately 20 percent clean energy portfolio by that same year. (That triggered some predictable carping from Republicans that China got the better of the deal, but their analysis conveniently ignores the fact that the U.S. is far richer and a far bigger cumulative climate polluter than China.) And now China’s INDC goes a little further with a new goal for lowering its carbon intensity — the amount of greenhouse gas pollution generated for each dollar of economic output — by 60 to 65 percent from 2005 levels by 2030. The country is also planning a major reforestation campaign and a national cap-and-trade system.
  • India is the laggard here, in that it hasn’t submitted an INDC or even detailed plans the way Brazil has. But in January, Indian Prime Minister Narendra Modi and President Obama announced cooperation on expanding clean energy investment in India. The two also pledged to cooperate closely in the runup to Paris, which in itself marks progress. Expert observers say that India’s INDC, when it does come out, will likely contain ambitious wind and solar energy targets.

A year ago, a pessimist like me would not have predicted we would be here today. For two decades, large developing countries have refused to curb their emissions, arguing that they can’t be constrained as they try to lift their populations out of poverty, and that rich countries have been responsible for most of the historic climate pollution. In 2009, at the last big U.N. climate negotiations in Copenhagen, the major developing countries made much less ambitious pledges than they have this time around, merely promising to reduce carbon intensity or slow emissions growth compared to business-as-usual scenarios.

As recently as last September, at the U.N. Climate Summit in New York, this dynamic persisted. Leaders of large developing nations such as Brazil and Indiapointedly insisted on their right to develop economically without having to sacrifice their country’s well-being to clean up a mess rich nations created. Speaking at the summit, Brazilian President Dilma Rousseff said her country did not intend to despoil the environment in pursuit of economic development, but also forcefully said, “We will not relinquish the need to reduce inequalities and raise the living standards of our people.” China, meanwhile, was coy. Vice Premier Zhang Gaoli said the country would announce goals for reductions in carbon intensity and renewable energy deployment “as soon as we can.”

But now, thanks in large part to aggressive diplomatic efforts by the Obama administration, what once seemed impossible is happening: Developing nations are getting on board to curb their emissions and participate fully in a comprehensive global climate change agreement. Getting that initial buy-in from these big developing players is a necessary precondition to getting any agreement to substantially reduce emissions. Until now, it has proven elusive because of a problem every college freshman studying game theory could understand: It only makes sense to cut your emissions if everyone else does too. Building the trust that everyone will step up is essential. American conservatives have long argued against climate action by saying that China isn’t doing anything, so the U.S. shouldn’t either. With remarkable speed, that talking point has been knocked down.

“Three years ago, if you had said, ‘China will commit to peak its emissions,’ people would have thrown you out of the room,” says Jake Schmidt, director of the Natural Resources Defense Council’s international program.

The Obama administration has been able to convince developing nations to work with us on climate change because the president’s Climate Action Plan — particularly its largest component, the Clean Power Plan to regulate emissions from power plants — demonstrates that we’ll uphold our end of the bargain. “The No. 1 question we get from Chinese officials is, ‘What is the U.S. doing to reduce its own emissions?’” says Schmidt. The Climate Action Plan, announced in June 2013, showed other countries exactly what the Obama administration would do under executive authority. Says Schmidt: “The more the plan was implemented, the more that showed the Chinese that this is something the U.S. isn’t just talking about, it’s something the U.S. is going to do.” And the plan paved the way for the U.S.’s INDC, submitted in March, which reiterates the goal of cutting carbon emissions 26 to 28 percent below 2005 levels by 2025, and lays out plans to achieve that, such as new emissions standards on heavy-duty vehicles.

The breakthrough with China last fall has had a cascading effect: Now that the biggest developing nation has shown that it’s willing to coordinate with the U.S. on climate policy, other developing nations are more comfortable doing so too.

Brazil’s Rousseff may have been especially interested in showing global climate leadership, and partnering with Obama, because she has been embroiled in a corruption scandal that has damaged her popularity back home. “Everything we’ve heard from Brazilian experts is that Dilma has been forced to talk about and focus on climate change because Obama has raised it with her, starting with the Summit of the Americas in Panama in April,” says Schmidt. “If you’re Dilma, standing next to the leader of the world’s largest economy and still the world superpower, that’s a good platform.” In her remarks with Obama after that meeting, Rousseff singled out climate change as “a much-needed area for joint initiatives,” and two and half months later the two leaders made their joint climate announcement.

Few major steps forward are unaccompanied by a caveat. In this case, that would be the fact that the pledges made thus far would not cut emissions to the extent needed to limit global warming to 2 degrees Celsius, or 3.6 degrees Fahrenheit, above pre-industrial levels — the widely agreed-upon goal of international climate negotiations. Every news article on the Brazil-U.S. announcement was sure to note that. In fact, no matter what pledges emerge as part of a Paris agreement, there’s little chance of staying below 2C. As David Roberts recently explained, that would require both massive emissions cuts across the globe and a huge program of carbon capture and sequestration.

But rather than getting discouraged by what the Paris pledges leave to be desired, climate hawks should be enthused by the promise they hold. “The first step is always the hardest,” says Schmidt. “As [countries] implement their INDCs, they’ll find it’s easier to go much farther and faster than they could imagine in 2015 because, lo and behold, it doesn’t blow up your economy. And the cost of wind and solar becomes much cheaper over time, and then the politics of going more aggressive becomes much easier. Paris and these commitments is not the end of the story.” That’s why pragmatic climate action groups like Al Gore’s Climate Reality Project are talking about “Paris and Beyond.”

Even though major scientific bodies have generally settled on staying below 2C of warming as the way to avert catastrophic climate change, it is not a magic threshold. Climate change is not controlled by an on or off switch located right at exactly 2 degrees. It is a continuum, albeit one with a steep curve. We’ve already damaged the Earth’s atmosphere, and we’ll damage it a lot more even if we stop at 1.9 degrees of warming. Some feedback loops and other cataclysmic effects are expected to kick in around 2 degrees, but 2.1 degrees of warming would be better than 2.5. Global warming of 3 degrees would be vastly worse, but still far less bad than 4 or 5 degrees. As Vox’s Brad Plumer writes, “Climate change isn’t an issue with a single point of ‘success’ or a single point of ‘failure.’”

We can’t stop all the bad effects of climate change, but now that major developing countries are playing ball, we have a better chance at stopping some of them. That’s cause to applaud progress so far — and cause to push for as much more as we can get.

Quebra de protocolo (Folha de S.Paulo)

19/02/2015

O Protocolo de Kyoto –controverso tratado de 1997 para conter a mudança do clima– teve escasso sucesso. A melhor evidência disso está no fato de as negociações internacionais sobre o tema tomarem hoje rumo muito diferente.

Nada assegura, no entanto, que uma trilha bem-sucedida se iniciará na decisiva conferência de Paris, a ser realizada em dezembro.

Neste fevereiro faz dez anos que o protocolo entrou em vigor, após a ratificação por 189 países. O acordo estabelecia que 37 nações industrializadas reduziriam suas emissões de gases do efeito estufa em 5% no período de 2008 a 2012, tomando por base o ano de 1990.

A meta foi alcançada com folga. Os países comprometidos cortaram em 22,6% a poluição que aprisiona radiação solar na atmosfera, aquecendo-a além da conta. Assim, falar em fracasso parece mesquinho.

Ocorre que as emissões globais subiram 16,2% até 2012. O clima mundial seguiu firme na rota do aquecimento porque não participavam do tratado os dois maiores poluidores, China e Estados Unidos.

O primeiro, por ser um país em desenvolvimento –e que desenvolvimento: sua economia cresceu a taxas próximas de 10% ao ano. O segundo, por força da política doméstica, uma vez que a eleição do presidente democrata Barack Obama foi incapaz de reverter o veto congressual a qualquer acordo que excluísse a China.

Ao final do primeiro período de Kyoto, em 2012, tentou-se em Doha (Qatar) um novo e mais ambicioso objetivo: reduzir em 18% as emissões até 2020. Apenas 23 nações aderiram à meta até agora.

O fracasso da via aberta em 1997 e pavimentada em 2005 foi sobretudo político. Obter consenso entre diversos países em torno de objetivos que possam ser monitorados e cobrados por uma instância internacional parece cada vez mais inviável, assim como a transferência de recursos e tecnologia, anátema entre potências desenvolvidas.

A alternativa surgida na tortuosa negociação diplomática sobre mudança do clima, após o fiasco da Cúpula de Copenhague (2009), foi afrouxar compromissos. Eles podem agora ser voluntários, e cada nação propõe quando planeja alcançá-lo e com base em qual ano.

Há amplo ceticismo, porém, quanto à chance de que a estratégia desvinculante produza o resultado esperado, a saber, impedir que o aquecimento ultrapasse 2°C neste século. Além desse limite, a ciência indica risco acentuado de desastres como secas duradouras e enchentes avantajadas.

Todas as atenções se voltam para o fim do outono em Paris.

*   *   *

Kyoto, 10, engatinha

16/02/2015

Protocolo, que entrou em vigor em 2005, fracassou em reduzir emissões mundiais de gases-estufa; para piorar, novas metas, traçadas em 2012, só tiveram 23 adesões

MAURÍCIO TUFFANI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dez anos após ter entrado em vigor, o Protocolo de Kyoto tem um diagnóstico claro: o acordo fracassou em reduzir as emissões mundiais de gases-estufa, que cresceram 16,2% de 2005 a 2012.

O pacto internacional, porém, não foi de todo inócuo e teve certo sucesso em conscientizar a sociedade e implantar projetos ambientais, tecnológicos e de desenvolvimento econômico para prevenir o agravamento do aquecimento global.

Concluído em 1997 em Kyoto, no Japão, o protocolo estabelecia metas de redução das emissões de gases-estufa. Só em 2005 ele adquiriu força para entrar em vigor, com a ratificação pela Rússia.

O protocolo teve 189 ratificações, entre elas a do Brasil, em 2002. Mas suas novas metas de redução de emissões de 2013 a 2020, estabelecidas em 2012 no Qatar, só tiveram até agora 23 adesões.

Em um balanço, a secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) destacou que 37 países, a maioria da União Europeia, superaram sua meta de reduzir em 5% suas emissões até 2012.

A agência, contudo, deixou de lado os números do aumento global das emissões e o alerta enfático feito em 2014 por seu braço científico, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática): não há mais tempo para reduzir a concentração de gases-estufa para que o aumento médio da temperatura da superfície terrestre até 2100 seja inferior a 2º C.

Essa elevação traria como consequência mais secas, derretimento de geleiras e inundações de zonas costeiras pela elevação dos oceanos.

Para evitar esse cenário, seria preciso reduzir as emissões em 80% até 2050.

PERDAS E GANHOS

“Estou convencida de que sem o protocolo de Kyoto não estaríamos avançados como hoje na crescente penetração das energias renováveis”, disse Christiana Figueres, secretária-executiva da UNFCCC.

Figueres também destacou cerca de 7.800 projetos de apoio a países em desenvolvimento, envolvendo benefícios de até US$ 13,5 bilhões para reduzir emissões por desmate e para “sequestro de carbono” da atmosfera por meio de recuperação e ampliação de florestas.

“Se olharmos quantitativamente para as emissões, o protocolo falhou. Mas sem ele a União Europeia não teria atingido grandes avanços nas reduções”, diz Carlos Nobre, que acaba de assumir o cargo de diretor do Cemaden (Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais).

Nobre ressalta que a Alemanha mostrou que é possível reduzir os gases-estufa sem diminuir seu PIB. “Vejo com otimismo esse efeito pedagógico”, disse Nobre.

Já para o físico da USP e membro do IPCC Paulo Artaxo, ainda que o tratado tenha aumentado a adesão de novas tecnologias e a conscientização para o que ele chama de “problema mais sério já enfrentado pela humanidade”, houve, além do aumento da concentração de carbono na atmosfera, acúmulo de CO2 nos oceanos, o que pode causar desequilíbrios para a vida marinha.

PERSPECTIVAS

Segundo Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, a próxima conferência do clima, em dezembro, em Paris, poderá ter avanços graças ao recente acordo entre EUA (que assinaram mas não ratificaram o Protocolo de Kyoto) e China.

Para ele, um dos grandes desafios para os governos, inclusive o do Brasil, é o planejamento econômico e energético. Ele afirma que isso ainda é feito sem assimilar as mudanças climáticas, e a atual crise energética e hídrica do país é prova disso.

Fabio Feldmann, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas e de Biodiversidade e ex-secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, afirma ainda que a redução de desmatamentos no Brasil criou uma “falsa impressão” de que o país pode continuar com os mesmos níveis de emissões em outros setores.

De fato, enquanto as emissões por desmates no país diminuíram 64% de 2005 a 2013, as das atividades agropecuárias e do consumo de energia cresceram, respectivamente, 6% e 42%, segundo o Observatório do Clima.

“Há tecnologia para redução de emissões”, diz pesquisador Paulo Artaxo (Zero Hora)

Considerado uma das principais autoridades em mudanças climáticas, físico afirma que o Protocolo de Kyoto “já é letra morta”

por Bruno Felin

24/01/2015 | 11h23

"Há tecnologia para redução de emissões", diz pesquisador Paulo Artaxo Anxo Lamela/Anxo Lamela

Camadas de gelo da Groelândia perdem aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao anoFoto: Anxo Lamela / Anxo Lamela

Paulo Artaxo é uma das principais autoridades em mudanças climáticas a representar o Brasil nas conferências da ONU. O físico da Universidade de São Paulo tem mais de 300 trabalhos publicados, parte deles nas grandes revistas científicas do mundo. É uma das pessoas a colocar o país como referência em estudos sobre o clima.

Como o mundo saiu da conferência em Lima, no Peru? Há um rascunho de acordo?
Paulo Artaxo: 
Não há um rascunho. Há, no máximo, uma tentativa de se fazer um acordo para redução de emissões, mas não há nenhum compromisso concreto com uma possivel verificação (de quem cumpre ou não). Isso, infelizmente, ainda não existe. O Protocolo de Kyoto foi uma ferramenta importante, mas já é letra morta, não foi cumprido pela falta de penalidade para quem não cumpre.

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O que emperrou para que esse encontro tivesse mais resultados concretos?
Paulo Artaxo: 
Obviamente, o que emperra são as velhas questões de sempre: quem paga a conta e como é que são divididas as responsabilidades do ponto de vista das reduções de emissões. Alguns países, como os Estados Unidos, não aceitam fazer nenhum tipo de redução se a China, por exemplo, que é o seu grande competidor, também não fizer uma redução. Essa é a questão.

Quanto ao proximo acordo, temos de ficar otimistas ou pessimistas?
Paulo Artaxo: Não é questão de ficar otimista, ou jogo de sim ou não. É fundamental que se façam políticas de redução de emissão de gases do efeito estufa, principalmente no setor de energia. Isso é fundamental, a estabilidade do clima no planeta no futuro depende disso. Agora, isso não é a única coisa relevante no nosso planeta, você tem questões econômicas, tecnológicas e políticas para tratar com isso. Então, não podemos simplesmente imaginar que vamos chegar em Paris, vamos sentar e redigir o novo acordo, e todo mundo vai ficar feliz. Não funciona desse jeito. É um longo processo, que esperamos que tenha sucesso, mas não se espera que saia um acordo para reduzir 80% das emissões. Talvez fique em 20% até 2050.

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Temos tecnologia para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. O desafio é barateá-la?
Paulo Artaxo: Na verdade não é uma questão tecnológica. Há tecnologia para redução de emissões em todos os setores. Por exemplo, o setor mais óbvio é a indústria automotiva. Existe tecnologia para reduzir as emissões dos automóveis em pelo menos 50%. A questão é ter políticas públicas que ponham essas tecnologias em uso. Tem que obrigar as fábricas a fazer carros mais eficientes no menor prazo possível. Se isso não acontece, as fábricas vão continuar colocando no mercado carros extremamente ineficientes e totalmente inapropriados para a questão climática como a gente tem hoje.

Nos gráficos abaixo, as evidências demonstram a urgência por ações:

Níveis de CO2Os níveis de CO2 sempre variaram durante a história da Terra. Ao respirar, as plantas retiram o CO2 da atmosfera, ficam com o carbono e soltam oxigênio. Os animais puxam o oxigênio e soltam CO2. Um balanço perfeito. Durante centenas de milhares de anos, os seres vivos foram morrendo e esse material indo cada vez mais para o fundo da Terra. Ao ser exposto a calor e pressão, se transformou nos combustíveis fósseis: petróleo, gás e carvão. E aí mora o nosso problema: todo esse carbono que demorou centenas de milhares de anos para se formar está voltando para a atmosfera em apenas algumas centenas de anos.

Veja animação com o aumento do CO2 ao longo dos anos:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/co2.html

Aumento da temperatura

A temperatura oscilou durante toda a história do planeta acompanhando os níveis de CO2 na atmosfera. Cientistas estimam que os gases do efeito estufa emitidos pelo homem demorem 50 anos para começar a alterar os níveis de CO2 medidos. Por isso é perceptível que, após a revolução industrial, a temperatura tenha aumentado tanto.

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_arte_infograficos_imagem_estatica/index.html?img=http://zerohora.clicrbs.com.br/rbs/image/17179158.jpg


Em animação, veja onde a temperatura aumentou nos últimos anos:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/temperature.html

Aumento do nível dos oceanos

O aumento do nível do mar se dá por dois fatores relacionados ao aquecimento global: a água que vem do derretimento do gelo da terra e a expansão natural da água quando esquenta. Em média, o nível do mar está subindo 3.17 milímetros por ano. No último século, foram 17 centímetros.

Em gráfico, acompanhe o aumento do nível do mar:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_arte_infograficos_imagem_estatica/index.html?img=http://zerohora.clicrbs.com.br/rbs/image/17179157.jpg

Desmatamento

Manter as florestas de pé é fundamental para combater o aquecimento, pois as plantas absorvem o CO2 e liberam oxigênio. O Brasil tem a segunda maior área de florestas do mundo, atrás apenas da Rússia, e já desmatou muito a Amazônia. Porém, os números vêm reduzindo, somos exemplo para outros países.

Em gráfico, veja o desmatamento da Amazônia nos últimos anos:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_arte_infograficos_imagem_estatica/index.html?img=http://zerohora.clicrbs.com.br/rbs/image/17179343.jpg

Massa de gelo

As camadas de gelo da Antartica reduziram cerca de 147 bilhões de toneladas por ano enquanto as da Groelândia perderam aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao ano. No Ártico, a média de declínio da camada de gelo é de 13,3% por década (relativo às médias de 1981 a 2010).

Veja como ficaram alguns pontos do globo antes e depois dos efeitos das mudanças climáticas:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/antesdepois/index.html