Freud examina o que mantém uma multidão coesa (Folha de S.Paulo)

20/06/2013 – 14h06

da Livraria da Folha

Dentre os fenômenos da mente examinados por Sigmund Freud (1856-1939), “o que mantém coesa uma massa de pessoas?” intrigou o pai da psicanálise por muito tempo. “Psicologia das Massas e Análise do Eu” apresenta as considerações de Freud sobre este tema.

“A psicologia das massas trata do indivíduo como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição ou como elemento de um grupo de pessoas que, em certo momento e com uma finalidade determinada, se organiza numa massa”, escreve Freud na introdução da obra.

Publicado originalmente em 1921, o ensaio é fruto de anos de pesquisas e observações. O título está inserido no contexto do período entreguerras, quando ideais nazistas e fascistas começam a ganhar força na Europa devastada pela Primeira Guerra (1914-18).

“O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche”, escreve o psicanalista e professor Edson Sousa no prefácio à edição.

Freud se detém no funcionamento e nos mecanismos inconscientes que fazem uma multidão obedecer e idolatrar a um líder. Segundo Sousa, o livro “traz elementos que nos permitem abordar fenômenos sociais como o racismo, a intolerância religiosa e o fanatismo político”.

"Psicologia das Massas..." é um dos textos sociais de Sigmund FreudConhecido como um de seus textos sociais, a “Psicologia das Massas e Análise do Eu” debate as ideias de Gustave Le Bon (1841-1931) e usa conceitos como identificação, regressão, idealização, libido e recalque na investigação.

Nascido em 1856, na região da Morávia, Freud estudou medicina na Universidade de Viena e se demonstrava especialmente intrigado com a neurofisiologia. Já graduado, trabalhou no hospital da mesma cidade, quando conheceu Jean-Martin Charcot (1825-93) e o uso da hipnose.

Anos mais tarde, em 1895, publica “Estudo sobre Histeria” em parceria com o médico Joseph Breuer. “A Interpretação dos Sonhos”, considerada sua obra mais importante, chega quatro anos depois.

A edição de “Psicologia das Massas e Análise do Eu” publicada pela L&PM traz revisão técnica e prefácio de Edson Sousa e ensaio biobibliográfico de Paulo Endo e Edson Sousa. Leia trecho do livro (abaixo).

PREFÁCIO

Psicologia das massas:
Uma reflexão em contrafluxo

Quando o caminhante canta na escuridão.
recusa seu estado de angústia, mas nem por
isso pode ver mais claramente.
SIGMUND FREUD
Inibição, sintoma e angústia

Psicologia das massas e análise do eu surge de uma inquietação de Freud, a qual esteve presente em toda a sua vida e que pode ser resumida em uma tese explicitada logo na abertura do texto: “Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto, ajudante e adversário, e por isso, desde o princípio, a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social”. Assim, Freud responde, de forma contundente, aos críticos de ontem e de hoje que veem na psicanálise uma disciplina restrita aos conflitos individuais dos sujeitos, virando as costas para o que acontece no mundo. Os inúmeros textos escritos pelo pai da psicanálise sobre questões sociais, buscando sempre dialogar com outras disciplinas no campo da história, sociologia, antropologia, política, arte, arqueologia, biologia, filosofia e religião, mostram um pensador engajado e atento aos acontecimentos de seu tempo. Seus textos e sua extensa correspondência com dezenas de intelectuais das mais diversas áreas dão provas de seu posicionamento crítico sobre o que se passava no mundo em que vivia.

Psicologia das massas, publicado em 1921, foi gestado lentamente e não deixa de ser um esforço louvável de reflexão diante da barbárie que representou para o mundo, e especialmente para a Europa, a destruição provocada pela Primeira Grande Guerra. Freud sentira na própria pele seus efeitos. Três dos seus filhos estavam no front: Martin, Oliver e Ernst. Seu genro Max, assim como alguns colegas e muitos pacientes, também. Era uma época de incertezas e de muitas perguntas sobre o que levara a humanidade a tal grau de barbárie, de destruição e de violência. Escrevera na época: “Parece-nos como se nunca antes um acontecimento tivesse destruído tantos bens comuns preciosos da humanidade, confundido tantos dos mais lúcidos intelectos, degradado tão cabalmente os mais elevados”. Em algumas passagens de Psicologia das massas, Freud faz menção à guerra e escolhe o Exército como um dos fenômenos de massa que analisa. O outro coletivo que lhe aponta um horizonte de reflexão se refere aos grupos religiosos, entre os quais toma particularmente como objeto de estudo a Igreja Católica.

A cautela de Freud nesse campo de estudo se devia ao fato de ter que percorrer toda uma ampla bibliografia da nascente psicologia social no final do século XIX e início do século XX. Seu texto traz uma extensa análise crítica da obra de Gustave Le Bon, autor âncora de seu estudo, dialogando com o clássico livro do autor francês Psicologia das multidões, publicado pela primeira vez em Paris em 1895. Convida também para o debate William McDougall e seu livro The Group Mind [A mente grupal], Wilfred Trotter com Os instintos do rebanho na paz e na guerra e Gabriel Tarde com As leis da imitação. Muitos outros autores que se dedicaram a estudar os fenômenos de massa são evocados em um detalhe ou outro, de forma que Psicologia das massas acabou se tornando uma espécie de guia do estado da questão na época. O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche. Freud evoca também em seu texto um série de outros escritos seus, procurando situar o presente estudo em relação à sua obra. São inúmeras as referências a Três ensaios de teoria sexualTotem e tabuLuto e melancoliaAlém do princípio do prazer e Introdução ao narcisismo.

Freud busca responder, em seu ensaio, a uma das perguntas que considerava um divisor de águas nos diversos estudos com os quais teve contato: o que mantém uma determinada massa coesa? A resposta terá muitas derivações, as quais o leitor terá a oportunidade de encontrar na leitura do presente texto. Ele responde a essa questão resumindo-a em uma palavra: Eros. Freud não se contenta com análises mais descritivas presentes nos textos nos quais se deteve, pois as considera insuficientes para entender uma série de fenômenos grupais. Falar em sugestão, hipnose, mecanismos de fascinação, sede de poder não lhe parecia responder ao fenômeno que liga os elementos de uma massa entre si e em relação a um líder. Para compreender esses mecanismos psíquicos, Freud ousou transferir alguns conceitos já clássicos em sua obra para a compreensão do funcionamento psíquico das massas, tais como identificação, regressão, idealização, circuitos de investimento libidinal e a lógica do recalque com suas derivações, manifestadas sobretudo na formação dos sintomas.

Psicologia das massas nos abre alguns caminhos de reflexão. Freud vinha concebendo esse texto há algum tempo, recolhendo notas, lendo as obras disponíveis sobre o tema. Já havia desenvolvido anos antes uma série de estudos sobre as razões da posição masoquista do ser humano bem como sobre o conceito de pulsão (ou impulso, conforme se preferiu na presente tradução) de morte, crucial no entendimento de sua metapsicologia. Este último foi amplamente desenvolvido em seu texto Além do princípio do prazer (1920). Nesse mesmo ano, em uma viagem de férias aos Alpes, preparava as primeiras notas de Psicologia das massas e parecia muito cauteloso e sem pressa em finalizar seu estudo. Do alto das montanhas e em meio às inúmeras anotações que vinha recolhendo, escreve a seu biógrafo oficial, Ernst Jones: “Trouxe comigo o material para a Psicologia das massas e análise do eu, mas minha cabeça até agora se recusa obstinadamente a se interessar por esses problemas profundos”.

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