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Imprensa versus governo (Fapesp)


Imprensa versus governo
Rede da Democracia, formada por três grandes jornais, teve papel na queda de Jango
Carla Rodrigues
Edição Impressa 181 – Março 2011

© AGÊNCIA ESTADO
Tropas no comício da Central do Brasil

No jargão da imprensa escrita, “retranca” é a classificação do assunto contido em uma página, editoria ou em um conjunto de textos jornalísticos. Sob a retranca “Na Rede da Democracia”, entre outubro de 1963 e março de 1964, os três mais importantes jornais do país – O Jornal, dos Diários Associados, Jornal do Brasil, da família Nascimento Brito, e O Globo, da família Marinho – se uniram em torno de uma pauta em comum: a defesa do nacionalismo contra o comunismo, a crítica à ineficiência do Congresso, a falta de legitimidade do presidente João Goulart, o perigo de o governo ceder às pressões das manifestações de massa e dos movimentos populares. Diariamente publicada nos três diários e veiculada à noite nas suas respectivas emissoras de rádio, a Rede da Democracia ajudou a enfraquecer e derrubar o governo de Jango, deposto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Os acontecimentos políticos posteriores a esse momento da história brasileira têm sido muito registrados e debatidos. Mas sobre o consórcio formalizado pelos jornais sob a denominação de Rede da Democracia pouco se estudou. Foi nesse vazio que trabalhou o historiador Aloysio Castelo de Carvalho em sua pesquisa de pós-doutorado em história social na Universidade de São Paulo (USP), cujo resultado está sendo lançado no livro A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), coedição entre a NitPress e a Editora da UFF (Universidade Federal Fluminense), onde Carvalho também é professor.

“A Rede da Democracia está incluída num debate sobre a relação entre os jornais e o governo de João Goulart”, diz o pesquisador. Relação que evoluiu de maneira peculiar: em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou, os três jornais defenderam uma posição antigolpe, afirmando a legalidade da posse do vice João Goulart. Dois anos depois, a Rede da Democracia cerrava fileiras contra o presidente.

Em 1961 coube ao então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, montar a chamada Rede da Legalidade, que transmitia, a partir do porão do Palácio Piratini, discursos do aliado de Jango reproduzidos em ondas curtas por dezenas de emissoras do interior e de outros estados. O modelo de resistência brizolista inspiraria, anos depois, o empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. As rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil passaram a transmitir em conjunto, a partir de 1963, pronunciamentos que no dia seguinte eram publicados nos jornais com a mesma retranca. Alguns títulos ilustram o conteúdo editorial da Rede: “União Nacional dos Estudantes é um antro de delinquentes políticos”, “O dispositivo chamado sindical é na realidade dispositivo comunista”, “Dias graves se aproximam se não for repelida a invasão marxista”, “Ministério do Trabalho comanda as greves que agitam nosso país”, “Nosso país não está só ameaçado, mas comprometido com o comunismo” são exemplos da tomada de posição da imprensa diante do governo de Jango. Entre os signatários estavam parlamentares da oposição e  donos de jornais que, na visão de Carvalho, se arvoraram na pretensão de se tornarem atores políticos.

© AGÊNCIA ESTADO
Tanques do Exército no Rio no dia do golpe militar

Padrão – Foi em busca de compreender qual foi o papel da imprensa na queda de Jango e na emergência do governo militar que Carvalho acabou encontrando um padrão discursivo formado por quatro principais eixos: uma concepção valorativa da própria imprensa, que se atribui o papel de porta-voz da opinião pública; o temor de que o ingresso das massas no sistema político seria um risco para o país; a falta de confiança no presidente da República quando ele conta com apoio popular; a falta de confiança nas instituições políticas, inclusive no Congresso e no Senado, contribuindo para reforçar a percepção do papel da imprensa como fiscal dessas mesmas instituições e afirmando a importância da liberdade de imprensa.

No período Jango, os três jornais unificados sob a Rede da Democracia viam a sociedade brasileira como uma emergente sociedade de massas, mas resistiam ao ingresso dessa massa na participação política, que passou a se dar pela via dos movimentos sociais e das manifestações populares. “Os jornais reagiram de forma conservadora, afirmando que a única participação política legítima era pelas formas institucionais”, lembra Carvalho.
No entanto, essas formas institucionais estavam fechadas à massa de trabalhadores que, no processo de urbanização e industrialização, chegava à vida política. O voto não era permitido aos analfabetos, por exemplo, e em 1963 metade da população brasileira não sabia ler nem escrever. Daí a grande importância da Rede da Democracia em veicular suas ideias no rádio, a fim de ganhar adesões também entre as massas como parte de um processo que, para Carvalho, faz parte da competição da imprensa para representar a opinião pública. “É uma visão publicista de opinião pública, que desvaloriza a expressão pela via do voto ou das instituições”, explica o professor.

Embora reconheça que há períodos muito negativos, Eugênio Bucci, professor de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), considera que generalizações sobre a relação entre governo e imprensa enfrentam dois problemas: o primeiro, a dificuldade de caracterizar a imprensa como uma entidade de condutas unificadas. Há, lembra ele, pluralidade e diversidade. Que poderia ser maior, reconhece, mas que já avançou muito em relação aos anos 1960. No cenário atual, não apenas jornais, mas rádios, TVs, sites de internet formam um mosaico de veículos de comunicação com expressão de pontos de vista muito distintos entre si.

“Apesar do comportamento de certos veículos da chamada grande imprensa, há mais diversidade, mais pluralidade. Sobrevive entre nós uma mentalidade que tem repercussão na imprensa e rejeita tudo aquilo que emerge do povo iletrado, essa mistura de raça e cor considerada ruim”, argumenta Bucci. Para ele, é preciso ter muito cuidado para não cair num modelo linear, segundo o qual se pode classificar a imprensa de boa ou ruim.

Lua de mel – O que leva Bucci a discutir o segundo problema: como se tem visto no noticiário após a posse da presidente Dilma Rousseff, há períodos de verdadeira lua de mel entre jornais e governo. Foi assim, por exemplo, no início do primeiro mandato de Lula, lembra Bucci. Segundo ele, o tratamento que o governo Lula recebeu varia muito entre os períodos e entre os veículos. “A TV Record, por exemplo, compete com a TV Globo na cobertura crítica do governo”, exemplifica, lembrando que blogs e sites, como o IG, exercem papel importante em contrapontos ao discurso dos grandes jornais e também formam opinião.

© FOLHAPRESS
Goulart fala com multidão na Central do Brasil

O fato de a internet ainda não ser uma mídia de massa faz com que o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), discorde da capacidade desses novos meios de comunicação de democratizar a informação e se constituir numa via alternativa à grande imprensa. Para ele, o mecanismo fundamental que mantém a relação umbilical entre poder e imprensa é a lei das concessões de rádio e TV. Por isso, acredita que a única forma de alterar o que chama de “relação bilateral” entre Estado e meios de comunicação é uma revisão na lei das concessões. “É preciso assegurar que qualquer grupo social possa se expressar com autonomia”, defende Baía.

A autonomia da imprensa sempre esteve em debate em tempos de crise. Foi assim nos anos 1960, quando a Rede da Democracia pregava seu direito à liberdade de imprensa como forma de garantir a expressão de um determinado ponto de vista em relação ao governo Jango e compartilhado pelos três jornais que integravam o consórcio. O debate sobre liberdade de imprensa esteve novamente em pauta durante os dois mandatos do governo Lula, e com ele veio a discussão sobre mecanismos de controle social da informação. “A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”, alega Carvalho. “Lula é um produto da liberdade de imprensa”, contrapõe Bucci, lembrando que foi a abertura política e, com ela, o fim da censura à imprensa que permitiram o contato entre o Partido dos Trabalhadores e o eleitorado.

Carvalho conclui que, quando se sentem ameaçados, os jornais formam alianças formais, como a Rede da Democracia, para fazer ecoar o discurso liberal e conservador. “Vai chegar o momento em que a imprensa será objeto de crítica das outras instituições. E os jornais não poderão mais ser irresponsáveis e manipuladores”, aposta Carvalho.

 

 

Literatura da fome: projeto promove encontro inusitado (Faperj)

Danielle Kiffer

Para Ana Paula, Glauber Rocha tem estilo similar ao de Artaud, por vincular a escrita ao traço pictórico e reinventar a gramática.

Você tem fome de quê?”. A música Comida, da banda Titãs, já colocava há algum tempo o questionamento sobre as inúmeras fomes que sentimos, que vão desde o desejo de consumir arte à necessidade da própria comida. Porém, é a abordagem do sentido literal da palavra que dá forma a um encontro que parecia improvável: entre os escritores brasileiros Josué de Castro e Graciliano Ramos, o cineasta Glauber Rocha e o poeta, ator e diretor teatral francês Antonin Artaud. O projeto “O corpo extremo: da escrita limite ao limite da escrita”, desenvolvido pela professora Ana Paula Veiga Kiffer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), analisa a questão da fome e da loucura de Antonin Artaud, usando como referência a fundamentação crítica e teórica dos três autores brasileiros.

Para a professora, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, poucas semelhanças unem os quatro escritores, além do foco no tema que os reúne. “Todos retrataram a fome, mas de maneiras diversas. Em termos de estilo, acredito que Glauber Rocha é o que mais se aproxima de Artaud, pois ambos extrapolam a escrita e a vinculam ao traço pictórico, reinventando a gramática em suas obras, o que mostra a necessidade de criar um modo de dizer o que sentiam que ia além das palavras”, detalha. Dos quatro pensadores, por exemplo, o único que realmente vivenciou a fome foi o poeta francês, como explica Ana Paula: “Apesar de vir de uma família com boas condições financeiras, Artaud experimentou a pobreza e a fome em diferentes fases da vida. Ele viveu a decadência e a carência material do período entre a primeira e a segunda guerras mundiais na Europa e durante sua internação em instituições psiquiátricas, onde a alimentação era escassa. Durante a Segunda Guerra, época de sua internação, a fome foi utilizada como forma de extermínio nessas instituições.”

Com o romance Homens e Caranguejos, Josué de Castro foi inspiração para o
movimento conhecido como mangue beat.

Uma das primeiras teorias de Artaud que tem relação com a fome é o manifesto Teatro da Crueldade, de 1934. Nele, o autor clama por um teatro e uma cultura cujas forças vivas fossem idênticas às da fome. Ainda nos anos 1930, ele escreveu o poema intitulado A fome não espera, em que denuncia a decadência político-econômica da Europa da época. No poema, Artaud incita o leitor a transformar sua fome em seu próprio tesouro. Como destaca Ana Paula, há, no texto, uma grande semelhança com a Estétyka da Fome, de Glauber Rocha, na qual ele também nos desafia a fazer da nossa precariedade a nossa força. “Artaud é um autor radical como Glauber também é radical. O discurso de ambos não tem nada de vitimização, muito pelo contrário. É, sim, transformador, um estímulo à potência, à afirmação de uma diferença e às características que o povo brasileiro possui. Muitas vezes, de onde muito pouco se espera, há grandes movimentos de superação. Um exemplo que podemos citar, aqui mesmo no Rio de Janeiro, é o caso da Coopa-Roca, uma cooperativa de mulheres da favela da Rocinha, que fez do fuxico sua arte, sua forma de sobrevivência. E tudo com muito sucesso.”

Apesar de não ser mais um assunto discutido na intelectualidade, a literatura sobre a fome, no Brasil, gerou frutos que rendem até hoje. Um grande exemplo vem do escritor e médico Josué de Castro. Uma de suas principais obras e seu único romance, Homens e Caranguejos, publicado em 1967, influenciou, quase trinta anos mais tarde, a formulação do movimento musical mangue beat, liderado por Chico Science e Fred Zero Quatro, na década de 1990,  em Recife. Se Josué de Castro compara os homens, catadores de caranguejo, aos próprios crustáceos, ambos famintos e mergulhados na lama, Chico Science fala do mangue e sua sociedade marginal de homens-caranguejo, juntando na mesma panela musical, funk, hip hop e influências regionais.

Durante suas pesquisas em obras literárias, Ana Paula observou que a relação entre a loucura e a fome é estreita. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, por exemplo, os personagens centrais da trama que se passa no sertão nordestino brasileiro, sentem tanta fome que passam a delirar. “Pode-se dizer que a fome leva à loucura e a loucura pode levar a um tal estado de abandono e indigência, em que a fome certamente estará presente. Estas duas características estão muito próximas.”

Também a experiência do francês Artaud, durante o período em que ficou internado, tanto no asilo de Rodez quanto em Ivry-Sur-Seine, na França, foi registrada, de forma original e única, em cadernos escolares. “Nestes cadernos, podemos perceber a materialização da fome vivida, que transforma essa experiência em um discurso que traz um novo modo de dizer, que parece tratar a linguagem como algo concreto e material.” Para Ana Paula, a discussão sobre a fome deve ser retomada sob outro ângulo, encarando-a e a outros problemas da nossa sociedade, mas substituindo a vitimização pela superação.