Profetas da chuva do Nordeste aderem ao trabalho remoto (Folha de S.Paulo)

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Douglas Gavras, 10 de abril de 2021


Todos os anos, os chamados profetas da chuva do interior do Ceará se reúnem para divulgar suas previsões para a quadra chuvosa na região —período que geralmente vai de janeiro a junho e é crucial para o sustento das famílias de pequenos agricultores locais. Com a pandemia do novo coronavírus, no entanto, até eles tiveram de aderir ao “trabalho remoto”.

Os profetas são nordestinos que dizem antever as chuvas no semiárido observando sinais da natureza, como a floração de determinadas plantas, o comportamento de pássaros ou o movimento dos insetos. Para alguns deles, por exemplo, se o joão-de-barro não estiver no ninho é sinal de chuva.

“A formiga é o bicho mais inteligente que existe”, define o agricultor Titico Báia, de 69 anos e há 35 como profeta. “Elas começam a limpar o formigueiro no verão e jogam o bagaço seco fora. Dali a 90 dias, a chuva vem. Quando o sapo cururu se prepara para começar a cantar, também é sinal de água.”

Báia é conhecido por observar a natureza principalmente em três dias de setembro e três em outubro. O comportamento de animais, do vento e da lua nesses dias ajuda a prever como será a chuva no primeiro semestre do ano seguinte. “A gente vive da safra de milho e de feijão. E a regularidade da chuva é o que define se a vida vai ser mais fácil ou mais difícil naquele ano. Em 2021, a chuva só não foi mais esperada do que a vacina.”

“Em uma época em que não tínhamos medições regulares na nossa região, essas mulheres e esses homens eram a bússola para os agricultores. Eles diziam a hora certa de plantar e ajudavam a garantir uma colheita melhor”, conta o diretor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tauá (337 km de Fortaleza), José Alves Neto. Ele é um dos organizadores do encontro dos profetas da chuva da região do sertão dos Inhamuns, que acontece há cinco anos. “Mesmo hoje, os órgãos que medem as chuvas escutam o que os profetas têm a dizer.”

Com a pandemia da Covid-19, no entanto, esse grupo de observadores da natureza, que faz recomendações do melhor dia de plantio e estimativas de como será o inverno do ano, não pôde se reunir, já que a maioria tem mais de 60 anos e faz parte do grupo de risco.

Para manter a tradição, os profetas populares se adaptaram e promoveram os primeiros encontros virtuais, com transmissões de profecias pela internet, aumento das parcerias com rádios locais e trocas de previsões com outros agricultores pelo WhatsApp. A tecnologia, que chegou a ser vista como rival da tradição popular, agora ajuda os observadores da natureza a continuarem em atividade.

Quem espera a vacina para voltar a circular pela região é o agricultor Totonho Alves, 64. Ele, que herdou a sensibilidade para observar a natureza do pai e do avô, começou a notar o trabalho das formigas e outros sinais há 40 anos. “Meu avô sempre dizia que a chuva estava para vir quando via as formigas trabalhando mais do que o normal. Foi ele quem me ensinou que vinha enchente quando a coruja cantava na beira do riacho.”

Alves conta que as formigas poucas vezes erraram com ele. Quando elas saem das terras mais baixas e se mudam para o alto é sinal de chuva. Mas, se o formigueiro estiver na beira dos riachos, não é bom sinal. “Sinto falta do encontro presencial, daquele movimento, de poder reencontrar os amigos e trocar previsões. Mas com a pandemia, a gente faz o que pode”, diz.

O encontro mais antigo do estado começou em 1997, na região de Quixadá, a 164 km de Fortaleza. Na época, o funcionário da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) Hélder Cortez se deu conta de que havia um número cada vez maior de interessados em ouvir os agricultores que alertavam sobre as chuvas. Hoje, são 22 profetas na região do município.

Ano passado, antes da pandemia, 400 pessoas se reuniram em um auditório em Quixadá. “Este ano, pela internet, tanta gente se interessou pelos profetas que surgiram várias ideias para que essa cultura não se perca. Com o fim da pandemia, a gente pretende criar uma escola de formação de profetas, em parceria com instituições locais”, diz Cortez.

A audiência online animou os profetas e alguns municípios querem manter os encontros virtuais mesmo após a vacina. O evento no sertão dos Inhamuns, por exemplo, que chegava a reunir até 90 pessoas em auditórios de escolas da região quando era presencial, já tem mais de 3.000 visualizações no canal oficial no YouTube.

O diretor do IFCE de Boa Viagem, no Sertão de Canindé, João Paulo Arcelino do Rêgo, que organizou algumas das gravações das profecias virtuais, conta que a maioria dos profetas não tem acesso regular à internet e acaba não trocando previsões ao longo do ano. Os encontros presenciais sempre foram a oportunidade para isso.

“Este ano, levamos uma equipe de filmagem até a casa de cada um deles, fizemos os vídeos e o evento aumentou de tamanho. O mais surpreendente é que as previsões batiam, mesmo sem eles conversarem antes. Não é por acaso que muitos engenheiros agrônomos da região nos telefonam para saber o que os profetas têm a dizer”, diz ele.

“Quando eles viram que a pandemia se arrastaria em 2021 também e que as reuniões seriam prejudicadas, foram os primeiros a cobrar uma solução. São pessoas que tiram o sustento da terra e que são profetas por vocação, sem ganhar nada com isso. Para eles, repassar as previsões é a forma de manter viva a tradição”, diz Neto.

Outra expectativa é a de que a tecnologia também sirva para atrair mais jovens interessados em aprender sobre as técnicas de observação da natureza, já que a transmissão desse conhecimento para as novas gerações é fonte constante de preocupação do grupo.

“A nossa intenção é repassar o conhecimento para as outras gerações. Minha esperança é um dos meus filhos mais novos, que é quem eu levo para observar a natureza comigo. Quando eu vier a faltar, é ele quem vai levar a história para frente”, diz Alves.

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