Ficar fechado em casa pode afetar a saúde mental: o que fazer para não explodir

Renzo Taddei – 3 de abril de 2020; atualizado em 4 de abril de 2020

A imensa maioria das discussões atuais a respeito dos problemas trazidos pela pandemia de COVID-19 centrou-se, até o momento, no binômio sistema de saúde-economia. O isolamento social faz a curva baixar e desorganiza amplos setores da economia; o chamado isolamento vertical, sem a necessária testagem em massa, preserva a economia mas mantém a trajetória do sistema de saúde rumo ao colapso. Parece não haver mais dúvida que, sem os recursos que permitiriam às autoridades realizar testes na intensidade do que se viu na Coréia do Sul, não há alternativa responsável que não seja permanecer fechado em casa.

Ocorre, no entanto, que há um terceiro elemento na questão, e que só agora, passadas as primeiras semanas desde que o distanciamento social começou seriamente em lugares como São Paulo, começa a se fazer visível: o isolamento afeta a saúde mental das pessoas. A imensa maioria dos meus colegas acadêmicos pensou que os problemas de trabalhar em casa seriam a falta de infraestrutura (como cadeiras desconfortáveis, internet instável, ou competição com outros membros da família pelo uso do computador), de ambiente suficientemente silencioso (com as crianças brincando ao redor) para que as reuniões digitais ocorressem sem interrupções, ou mesmo da disciplina necessária para trabalhar em ambiente onde o corpo aprendeu a relaxar. Os indícios de que havia algo mais na equação começaram a aparecer na forma de memes nas redes sociais. Em um dos áudios engraçados que circulou pelo WhatsApp, uma voz feminina dizia que, se ela sobrevivesse ao vírus, o mesmo provavelmente não ocorreria ao seu casamento. Em outro, o áudio de origem argentina apresenta um homem em uma conferência de trabalho por Internet, dizendo aos colegas da necessidade de se ter paciência e calma com as alterações exigidas no momento, enquanto uma criança grita de forma ininterrupta ao fundo. Em dado momento, o mesmo homem explode em ataque de fúria, gritando com a criança para que esta se cale. Em outro áudio, um homem lista rituais e mandingas que surgiram no lares, como reação ao medo generalizado – a enorme quantidade e suposta incompatibilidade entre tais rituais compondo a carga humorística da mensagem.

Passadas as primeiras semanas, tais memes cessaram. O que me ocorreu foi que, ao invés das pessoas terem se acostumado com a situação e esta, portanto, ter perdido o caráter de novidade que sustenta o humor, a realidade aponta para exatamente o contrário disso: o confinamento começou a afetar a saúde mental das pessoas, e o assunto perdeu a graça, porque virou sofrimento. No últimos dias, uma série de artigos na imprensa internacional e em postagens nas redes sociais mostra que o assunto ganhou visibilidade nos países em que o confinamento ocorre há mais tempo. No Brasil, grupos especializados nas áreas de psicologia e psiquiatria já haviam alertado (e aqui) para essa questão. Agora, ela efetivamente bate à porta de todos nós.

Há muitos motivos mais visíveis, nos debates públicos, do que o tema da saúde mental: além das recomendações médicas para evitar o contágio, dos reflexos devastadores na economia, e do debate planetário a respeito dos distintos protocolos de tratamento e eficácia dos medicamentos, há a questão incontornável dos óbitos produzidos pela epidemia e como o luto impacta as famílias afetadas. Discutirei o tema das mortes e do luto em outro texto.

Há muitas razões pelas quais o confinamento afeta a saúde mental das pessoas. Na minha área de atuação, a antropologia, há trabalhos de referência importantes sobre essa questão. Como este texto não é acadêmico, não vou fazer referências específicas (ver exemplo aqui). Mas o que parece claro na literatura é que, enquanto indivíduos, nossa existência nos coloca em muitos papéis sociais distintos, com identidades, e portanto formas de pensar, de organizar nossas emoções, e de nos relacionarmos com as outras pessoas, diversas. Isso nos conecta com ecossistemas variados de formas de pensar, sentir e agir. Quando estou na universidade lidando com colegas, sem que eu me dê conta, meus pensamentos, postura corporal e formas de uso da fala se ajustam à situação, de modo que as coisas fluam com naturalidade. Quando estou em sala de aula, com estudantes, novamente, de forma inconsciente, eu assumo identidade distinta, o que ocasiona um ajuste de mente, corpo, fala e atitude. Em casa, o mesmo ocorre em contextos que me evocam na qualidade de cônjuge, ou na qualidade de pai. E assim sucessivamente, em uma grande variedade de contextos sociais. Não há nada de patológico em mudar de identidade – e portanto de padrão de pensamento, postura corporal, estilo de fala e atitude -; bizarro seria tratar meus estudantes como trato minha esposa, ou me relacionar com meus colegas como o faço com minha filha. Um indivíduo saudável sabe transitar por grande número de contextos sociais, e ao mesmo tempo sabe identificar, muitas vezes de forma inconsciente, que padrão de pensamentos-emoções-comportamentos-atitudes é apropriado para cada contexto. Lembro-me de estudante, fanática torcedora do Corinthians, que vinha a todas as minhas aulas com a camiseta do clube, e sistematicamente faltava às aulas nas quartas-feiras em que o time jogava. Um dia eu disse a ela que iria reprovar por faltas em minha disciplina, e que poderia ver o jogo no reprise da televisão. Ela respondeu de bate-pronto: “tem coisas que eu não falo na frente da minha avó”. O que ela estava me dizendo é que é impossível reproduzir em casa o contexto do estádio; e que o estádio era importante dentro do rol de contextos sociais dentro dos quais ela transitava, e que permitiam a ela que vivesse toda a gama de emoções necessárias para que se mantivesse feliz e saudável.   

Essa grande variedade de contextos de vida social nos proporciona a possibilidade de vivência e manifestação de amplo espectro de emoções e padrões de ideias, e isso, aparentemente, é fundamental para a manutenção da saúde de nosso ser, em um contexto em que o físico, o mental e o emocional estão profundamente imbricados. É exatamente aqui que o confinamento desorganiza a vida das pessoas: ele reduz drasticamente a quantidade de contextos sociais que experimentamos e vivemos, e ao fazer isso, limita a gama de emoções e as formas de manifestação corporal passíveis de manifestação. Como resultado, as pessoas começam a sentir-se ansiosas, deprimidas, irritadiças, e eventualmente agressivas. Em escala demográfica, aumentam os casos de violência doméstica de todos os tipos, bem como a incidência de sintomas de doenças mentais.  

Como mencionei acima, sou antropólogo, e não psicólogo ou psiquiatra. Ocorre, no entanto, que por ter vivido experiência traumática no passado (estava em Nova York no dia 11 de setembro de 2001), vivo em relação intensa com tais profissionais há duas décadas, na qualidade de paciente. Um detalhe relevante, para a discussão apresentada neste texto, é que não foi exatamente após o ataque terrorista que meus sintomas de síndrome de estresse pós-traumático surgiram. Três ano depois do evento mencionado, foi a ansiedade relacionada com a defesa da minha tese de doutorado que fez a caldeira explodir.  

Se, nos parágrafos acima, eu descrevi algumas das razões pelas quais o confinamento pode afetar a saúde mental da uma pessoa, a situações é bastante mais crítica quando se trata de gente com problemas prévios de saúde mental. Como é de amplo conhecimento, há muitas décadas o mundo vive uma epidemia de depressão e outras formas de patologias da mente. Na minha experiência de professor universitário, o crescimento do número de casos de estudantes com depressão ou distúrbios de ansiedade e pânico na última década é assustador. Ao mesmo tempo, vivemos em um país em que a doença mental ainda é um tabu entre largas parcelas da população, e onde o tema é visto pelas lentes da discriminação e do preconceito, muitas vezes pela própria pessoa que sofre. Dos países do norte a indústria cultural nos trouxe a imagem de que quem sucumbe à enfermidade mental é uma pessoa fracassada.

É assim, portanto, que a pandemia de COVID-19 nos encontra: uma parcela da população padecendo de sofrimentos psíquicos e emocionais, com acompanhamento de especialista; outra parcela, imensamente maior do que a primeira, com sintomas mas sem acompanhamento algum, em razão de preconceito próprio ou alheio, de falta de acesso a serviços de saúde mental, ou de falta de informação. Outra ainda, carregando nas costas o custo emocional, contido e abafado, de experiências traumáticas do passado, mantido sob controle com muito esforço, e portanto sem sintomas mais pronunciados. Se, para as pessoas que não possuem histórico nem sintomas de doenças mentais, o confinamento pode fazer com que estas coisas apareçam, para os que convivem com elas a perspectiva é de dias difíceis pela frente. Muitas caldeiras irão estourar.

Que fique bem claro que nada disso é argumento em favor de que se abandone a estratégia de distanciamento social horizontal. É apenas a constatação de que, se efetivamente não temos alternativa, é preciso enfrentar o desafio com coragem, paciência, compreensão, e ajuda especializada. No que diz respeito a este último item, é oportuno lembrar que, de todas as categorias profissionais, os psicólogos constituem grupo para o qual trabalhar em casa sempre foi prática comum. Nos últimos anos, muitos psicólogos passaram a fazer atendimentos pela Internet de forma rotineira. É em virtude disso que pode-se afirmar com segurança que a oferta de serviços de tratamento psicológico não se desorganizou com a pandemia. Quem procurar indicação de psicólogo pela Internet provavelmente encontrará, sem muita dificuldade, profissional que faça o atendimento em condições perfeitamente compatíveis com o distanciamento social horizontal. O mesmo está ocorrendo com os profissionais da psiquiatria.

Para algumas pessoas, talvez o custo do tratamento psicológico ou psiquiátrico seja impedimento para a procura de ajuda profissional. No contexto do agravamento da crise econômica, uma série de entidades e grupos passou a oferecer serviços de apoio psicológico de forma gratuita e remota; há grupos que ofereciam tais serviços de forma gratuita anteriormente à pandemia, e apenas se prepararam para maior volume de demanda. Uma lista de tais organizações é oferecida no final deste texto.

Na minha experiência de quem tem que gerir uma caldeira sempre à beira da explosão, além da incontornável psicoterapia e do comumente recomendado tratamento com medicações psiquiátricas, senti necessidade de complementação destas coisas com exercícios. Qualquer pessoa que comece tratamento psicológico ou psiquiátrico vai escutar isso dos profissionais da saúde mental: exercício é fundamental. Eu adiciono a isso, no entanto, outra forma de exercício: o exercício emocional. O que eu quero dizer com isso é que existem estratégias interessantes para lidar com emoções represadas e que estão incomodando:

– Uma delas é um exercício da yoga chamado “sopro ha” (há vários vídeos no Youtube ensinando o exercício – como este, por exemplo). Aliás, uma combinação conveniente entre exercícios físicos e técnicas de gestão das emoções é o livro chamado Yoga Para Nervosos, do venerado mestre Hermógenes, e disponível em PDF aqui.

– Meditação ajuda tremendamente. Há muitos apps de meditação gratuitos online, e vídeos no youtube também. Além da meditação do tipo mindfulness, há algumas específicas para ajudar o indivíduo a aceitar a realidade que me parecem especialmente eficazes.

– Outra técnica é ver filmes de gêneros diversos, e que evocam emoções diferentes. Especialmente recomendados são os filmes que fazem chorar. Tem muita gente que tem dificuldade em chorar. O choro é uma forma importantíssima de reequilíbrio das emoções. Quem acha que não vai precisar chorar nisso tudo que estamos passando provavelmente não entendeu o que está por vir e vai ver a caldeira explodir antes do que imagina.

Algumas pessoas acham que uma boa estratégia para liberar as tensões é o álcool. Na verdade, o álcool deve ser evitado a todo custo, não apenas porque existe o perigo real do crescimento dos casos de alcoolismo, como porque há correlação direta e forte entre o álcool e a violência doméstica.

Por fim, para que essas coisas funcionem, as pessoas precisam aprender a prestar a atenção às próprias emoções, e às emoções de quem está ao seu redor. Se estamos todos afetados pela pandemia, ainda que de formas diversas, e estamos todos sujeitos aos solavancos emocionais diários do contexto presente, não há remédio que não passe, necessariamente, pela paciência, pela compreensão e pela empatia. O que eu espero é que, com boa ajuda de profissionais da saúde mental, aprendendo a identificar as próprias emoções e a dos que nos rodeiam, e a usar estratégias de modo a gerir tais emoções de forma construtiva (mesmo que dificultosa), sejamos todos capazes de evitar que as nossas emoções, desorganizadas e confusas como estão agora, produzam qualquer coisa que se assemelhe à violência.  


Serviços de ajuda psicológica gratuitos:

1) A PonteAPonte criou banco de dados com mapeamento de ações de arrecadação e prestação de serviços às comunidades no contexto do COVID-19, disponível no link https://bit.ly/3bPUWYp. Um dos serviços mapeados é a oferta de ajuda psicológica gratuita. Reproduzo abaixo os dados disponíveis na data de 3 de abril de 2020 (o banco de dados é atualizado e expandido constantemente).

– Relações simplificadas: psicólogos, psicanalistas e outros profissionais criaram iniciativas de solidariedade e de escuta para dar suporte emocional durante a pandemia. Agendamento pelo site https://www.relacoessimplificadas.com.br/escuta

– Ana Horta, docente da escola paulista de enfermagem da Unifesp, formou um grupo de 40 psicólogos disponíveis para o trabalho de acolhimento voluntário e online dos profissionais que estão na linha de frente dessa pandemia. O nome e celular do interessado deve ser enviado ao email acolhimentocovid@gmail.com

– A Chave da Questão: grupo de psicólogos que atendem online e de forma gratuita. Contato pelo site: https://www.achavedaquestao.com/

– Escuta Viva: grupo de psicanalistas oferece escuta psicanalítica online. Prioridade para idosos, moradores de periferias e trabalhadores da saúde, mas aberto a todos. Contato pelo site: https://escuta-viva.reservio.com

– Varandas Terapêuticas: o Instituto Gerar de Psicanálise oferece grupos terapêuticos online mediados por psicanalistas para a superação do confinamento. O pagamento é voluntário. Contato pelo site: https://institutogerar.com.br/clinica-instituto-gerar/#varandas-terapeuticas

– Cruzando Histórias: escuta ou apoio psicológico, acolhimento e orientação profissional grátis com 200 psicólogos e mentores de carreira para pessoas desempregadas e em dificuldades especiais. Contato pelo site: https://www.cruzandohistorias.org/post/escutacao-especial

– Lugar de Fala: grupo de psicólogos, psicanalistas e médicos oferece apoio. Contato pelo site: https://fernandanoyapinto.wixsite.com/lugardefala

– A empresa Mão na Roda oferece serviço de escuta solidária, através de encontros semanais online, por iniciativa de Sandra Tudisco. Pagamento voluntário. Contato pelo telefone: (11) 97120-1803

– A psicóloga Fanny Carvalho Aranha do grupo Humanic oferece ajuda psicológica online gratuita. Contato através do site: http://www.humanic.com.br

– Grupo de psicólogos disponibiliza atendimento para as pessoas que estão mais sensíveis a essa mudança de rotina que estamos atravessando. Trata-se de um acompanhamento psicológico breve. Entrar em contato com os profissionais e agendar atendimento:  

Anna Carolina Kolhy: (11) 98155-9015

Felipe Sitta: (11) 99625-8383

Fernanda Portugal: (11) 98269-7807

Jennyfer Gonçalves: (11) 98220-9223

Jessica Gomes: (18) 99806-4063

Luana Estima: (11) 99412-8780

Marcia Voboril: (11) 99829-6700

Nancy Caneparo: (11) 98182-6852

Rafaela Midori: (11) 99891-1128

Sueli Rugno: (11) 99641-1446


2) Artigo da Folha de S.Paulo: Psicanalistas oferecem atendimento gratuito online; saiba onde encontrar (01/04/2020), com lista de serviços gratuitos. Acessar os links das instituições:

Psicanálise na Praça Roosevelt, de São Paulo
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise na Rua, de Brasília
Contato: facebook.com/psinarua
Atendimentos às sextas, das 16h30 às 18h30, e aos sábados, 10h às 12h

Psicanálise na Praça, de Porto Alegre
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise de Rua, de São Carlos (SP)
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h, para pessoas da região de São Carlos

Grupo bate-papo, de Brasília
Atendimentos: terças, às 13h; quartas, às 10h e às 14h; sextas, às 10h

Varandas Terapêuticas – Instituto Gerar
Contato: tel. (11) 3032-6905 e (11) 97338-3974
Atendimentos: mediante agendamento
Pagamento voluntário

EscutAto – Instituto de Psicologia da USP (IPUSP)
Atendimentos: mediante agendamento


3) CVV — Centro de Valorização da Vida. Atendimento por voluntários, por telefone ou chat.

Converse por chat: http://www.cvv.org.br/chat.php

Converse por telefone: 141 (veja os horários de atendimento)

Seja voluntário do CVV


Ver ainda:

Artigo Saúde mental para quem não tem condições de pagar, por Victor Freitas, publicado no portal Medium em 5 de maio de 2018

Artigo Depressão: saiba onde encontrar atendimento gratuito, de Marcela Fonseca, publicado no site Moda Sem Crise em 08 de agosto de 2018

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