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A Ciência Política brasileira também odeia os povos indígenas? (Boletim Lua Nova)

Leonardo Barros Soares[1]

No fim de 2016, o cientista político professor da universidade de Wisconsin-Milwalkee, Kennan Ferguson, publicou um artigo na revista da American Political Science Association com o título provocativo “ Why does Political Science hate American Indians?” (“Por que a Ciência Política odeia os índios norte-americanos?”, em tradução livre). O texto é uma espécie de ensaio crítico que parte do que o autor considera verdades incontroversas: 1. Há poucos professores indígenas nos departamentos de Ciência Política dos EUA; 2. Poucos assuntos indígenas são tomados, por cientistas políticos, como assuntos políticos importantes; 3. Poucos pontos de vistas de povos indígenas são considerados criticamente dentro da disciplina e; 4. Poucos intelectuais, acadêmicos ou discursos de ativistas indígenas são parte dos programas dos cursos da área.

Não é preciso uma investigação de muita envergadura para constatar que estes pontos se aplicam integralmente ao caso brasileiro. Você, cientista político que me lê, conhece algum colega professor que é indígena? Considera que a política indigenista ou qualquer outro tema ligado aos povos indígenas brasileiros é importante? Os pontos de vista indígenas estão incluídos criticamente em nossos programas de cursos? Se a resposta é negativa a todas essas perguntas – como eu tenho certeza de que são – talvez caiba perguntar, ecoando o texto de Ferguson: a Ciência Política brasileira também odeia os povos indígenas do país?

Nesse texto, busco apresentar brevemente as oito hipóteses de trabalho levantadas por Ferguson no referido texto para explicar o que ele denomina de “processo de eliminação” dos povos indígenas do radar disciplinar da Ciência Política. Devido ao escopo exíguo, o intuito aqui é tão somente o de iniciar algum debate entre nós. Em que pese o fato de que foram pensadas a partir da percepção de Ferguson para os Estados Unidos, como veremos a seguir, as reflexões do autor se aplicam, quase que sem necessidade de qualquer mediação, para o caso brasileiro.  

Antes de adentrarmos na lista de hipóteses, duas palavras. Primeiramente, está para ser publicado na Revista Brasileira de Ciência Política meu artigo no qual traço um amplo diagnóstico do desinteresse da Ciência Política sobre questões indígenas. Nele também demonstro que há exemplos muito interessantes de cientistas políticos não- indígenas e indígenas – sim, eles existem, mas ainda não aqui no Brasil- fazendo trabalhos excepcionais no Canadá, país que parece ser o exemplo também para Ferguson. Aliás, cabe ressaltar que a Canadian Political Science Association talvez seja a única associação profissional do campo que tem um comitê de reconciliação com os povos indígenas do país e que oferece um conjunto de referências sistematizadas para que os professores possam incluir em seus cursos. “Fica a dica” para a Associação Brasileira de Ciência Política, e para conferirem o artigo.

Em segundo lugar,  é forçoso reconhecer que as hipóteses de Ferguson são mais amplas do que as que eu estava desenvolvendo até o momento. Eu julgava que a Ciência Política brasileira não se interessava por povos indígenas basicamente por três motivos: 1. O processo progressivo de especialização das disciplinas científicas e a consequente eleição de certos “objetos” de pesquisa canônicos, quando a questão indígena virou tema cativo da antropologia; 2. O proverbial internalismo da disciplina, ou seja, sua dificuldade de dialogar com outros campos do conhecimento, especialmente a antropologia nacional e; 3. Racismo e ignorância puras e simples, fruto do completo desconhecimento da história e do presente dos povos indígenas brasileiros, o que facilita a perpetuação de uma série de estereótipos perniciosos ligados a uma suposta arcaicidade do modo de fazer política indígena.

Como veremos a seguir, há mais razões do que essas por mim elencadas. Vamos a elas.

As hipóteses de Ferguson sobre o processo de eliminação da temática indígena do campo disciplinar da Ciência Política

  1. A disciplina é estruturada em torno do conceito de estado-nação, um conceito amarrado em torno de uma série de premissas sobre soberania territorial que exclui as vítimas do colonialismo: O conceito de estado-nação é certamente um dos mais importantes e centrais do campo, tomado como unidade de análise precípua de estudos quantitativos e qualitativos de todos os tipos. Ferguson chama a atenção para a necessidade de que falta à disciplina uma reflexão mais profunda e crítica sobre o conceito, de modo a trazer à baila a violência do processo colonial que expulsou indígenas de seus territórios tradicionais e exterminou-os quando possível. Ademais, um conceito monolítico de soberania territorial exclui da equação política o fato de que muitos povos indígenas nunca foram “conquistados” ou “cederam” suas terras para a potência colonizadora, e que remanescem se autocompreendendo como nações soberanas que têm direito a algum grau de controle sobre o território em que habitam. Colega cientista político, você conhece e saberia  elencar os povos indígenas brasileiros e suas reivindicações por soberania territorial?
  2. A Ciência Política sofre de um viés anti-histórico: segundo o autor, a Ciência Política mainstream tem uma parca compreensão dos fenômenos históricos e dificuldade de trabalhar com um conceito de “historicidade rica”. Ademais, ao se aproximar de disciplinas como a Economia, busca mais capacidade preditiva sobre o futuro do que a investigação consequente do passado. Por fim, em suas palavras, “a história para a Ciência Política é o historicismo Whig, uma forma de contar os eventos do passado como um conto procedimental de progressivo acúmulo de riqueza, felicidade e equidade” (p.1032, tradução nossa). Mais uma vez, você seria capaz de falar da história da relação do Estado brasileiro com os povos indígenas e sua evolução ao longo dos séculos?
  3. A política dos grupos de interesse é o tema central para a Ciência Política e, sob esse prisma, os povos indígenas são apenas mais um grupo de interesse: enxergar os povos indígenas como um grupo de interesse “a mais” dentre os demais grupos políticos tem o condão de minimizar a distinção de suas demandas políticas. Estas, grosso modo, são caracterizadas, sobretudo, pela luta pelo reconhecimento de sua legitimidade enquanto atores que almejam deter algum grau de autodeterminação cultural e material em face à pressão por seu desaparecimento ou integração forçada à sociedade colonizadora. Caracterizados assim, grupos indígenas podem facilmente ser integrados a esquemas analíticos em pesquisas sobre “não-brancos”, o que diminui a capacidade de entendimento de suas demandas específicas. Você sabe qual é a pauta de reivindicações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil?
  4. A centralidade de análises a partir do sistema legal da sociedade nacional exclui as investigações sobre os sistemas legais criados pelos povos indígenas: Em que pese o fato de que o debate recente sobre o chamado Novo Constitucionalismo Latino-Americano tenha colocado em evidênciaas novas constituições da região que, em larga medida, incluíram dispositivos relativos aos direitos dos povos indígenas, a perspectiva de que cientistas políticos trabalhariam com outro paradigma constitucional que não do estado-nação é, para dizer o mínimo, pouco plausível. O debate sobre sistemas legais criados por povos indígenas ainda está confinado a algumas pesquisas no campo do Direito no Brasil e mais avançada em outros países. Colega cientista político, você conhece algum sistema legal instituído por algum povo indígena? Esses códigos legais são escritos ou orais? Em que medida eles se relacionam com o sistema político e jurídico da sociedade circundante?
  5. Mesmo as disciplinas potencialmente mais abertas a receberem contribuições indígenas estão eivadas pelo pressuposto da superioridade europeia: Ferguson argumenta que há dois pressupostos conectados em certas disciplinas do currículo dos cientistas políticos  que facilitam a exclusão dos povos indígenas: a ideia de que autores europeus construíram conceitos universais inquestionáveis e; a ideia de que o conhecimento válido é aquele em formato de texto, o que exclui toda a reflexão política indígena incorporada, por exemplo, em forma de pinturas, cantos ou objetos artesanais. De fato, hoje parece mais comum que o chamado “pensamento decolonial” se torne uma disciplina à parte no currículo dos cientistas políticos do que um componente que atravessa “por dentro” as formulações clássicas de autores tais como Locke, Hobbes e Rousseau. Por outro lado, também parece impensável a ideia de questionar o conceito de soberania territorial a partir, digamos, da exegese de uma “Wampum Belt” (cordões de contas utilizadas por indígenas canadenses para celebrar a realização de um tratado com a coroa britânica). Ou você, colega cientista político, está disposto a mergulhar profundamente no significado político das pinturas corporais de um determinado povo indígena para produzir conhecimento a partir dessa perspectiva?
  6. As categorias consideradas políticas por excelência são de difícil tradução para os contextos indígenas: categorias tais como “líder político”, ou “propriedade fundiária individual”, por exemplo, são inexistentes em muitos povos indígenas. Cientistas políticos normalmente são ávidos por esculpir variáveis independentes e dependentes claramente separadas uma das outras, ou trabalhar com atores e instituições políticas monolíticas, artifícios redutores da complexidade inerente à organização política dos povos indígenas. Assim, um problema de incomensurabilidade conceitual pode ser um desafio a mais para indígenas que queiram adentrar o mundo do campo da Ciência Política e, inversamente, para analistas que possam se interessar pelo tema indígena.
  7. O indivíduo liberal auto orientado da escolha racional como unidade de análise é uma abstração teórica que deslegitima as formas coletivas de pertencimento e de ação: se o Estado é uma ficção teórica que invisibiliza as violências cometidas contra os povos indígenas, assim o é a ideia de indivíduos racionais que agem motivados pela maximização de sua satisfação. A antropologia é pródiga em estudos demonstrando a complexidade das afiliações comunitárias e ontológicas dos povos indígenas brasileiros, e o pressuposto o indivíduo racional-maximizador deve ser profundamente revisto quando da realização de pesquisas relacionadas aos povos indígenas.
  8. Por fim, a própria estrutura institucional do sistema universitário dificulta o acesso e a conexão dos povos indígenas à disciplina: em primeiro lugar, é evidente que muitas universidades estão localizadas distantes das terras indígenas, o que traz uma dificuldade real de presença de indígenas nos campi das instituições. Além disso, a despeito do fato de que já há uma razoável difusão de cotas para indígenas em cursos de graduação, estas ainda são pouco comuns em nível de pós-graduação. Em suma, há uma série de entraves estruturais para que povos indígenas formem seus intelectuais e possam pautar debates acadêmicos de dentro das universidades.

As hipóteses de Kennan Ferguson aqui apresentadas são provocativas e eu espero que possamos, enquanto grupo de scholars do campo da Ciência Política, refletir criticamente sobre cada uma delas. Assim, quem sabe, possamos ter menos receio, no futuro, de respondermos à pergunta que dá título a esse texto.

Referências     

FERGUSON, Kennan. Why does Political Science Hate American Indians? In:  Perspectives on Politics nº.14.vol. 4, 2016.

SOARES, Leonardo Barros Soares: A ausência eloquente: ciência política brasileira, povos indígenas e o debate acadêmico canadense contemporâneo. In: Revista Brasileira de Ciência Política. No prelo.

Referência imagética


[1] Doutor em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Realiza Estágio pós-doutoral no Departamento de Estudos Latino-americanos da Universidade de Brasília (ELA/UnB). Membro do Laboratório e Grupo de Estudos em Relações Interétnicas (LAGERI/UnB) e do Réseau d’études Latinoamericaínes de Montréal (RÉLAM/Université de Montréal). E-mail: leobarros@ufpa.br.   

A ‘regra dos 3,5%’: como uma pequena minoria pode mudar o mundo (BBC)

Por David Robson, 13 de maio de 2019; traduzido por Google Translator e revisado por Renzo Taddei em 3 de junho de 2020

BBC Future

Protestos não-violentos têm duas vezes mais chances de sucesso do que conflitos armados – e aqueles que atingem um limiar de 3,5% da população nunca falharam em provocar mudanças.

Em 1986, milhões de filipinos tomaram as ruas de Manila em protesto pacífico e oração no movimento People Power. O regime de Marcos caiu no quarto dia.

Em 2003, o povo da Geórgia expulsou Eduard Shevardnadze através da Revolução das Rosas, sem derramamento de sangue, na qual manifestantes invadiram o prédio do parlamento segurando flores.

No início deste ano, os presidentes do Sudão e da Argélia anunciaram que se afastariam depois de décadas no cargo, graças a campanhas pacíficas de protesto.

Em cada caso, a resistência civil de membros comuns do público superou a elite política na obtenção de mudanças radicais.

Obviamente, existem muitas razões éticas para usar estratégias não violentas. Mas uma pesquisa convincente de Erica Chenoweth, cientista política da Universidade de Harvard, confirma que a desobediência civil não é apenas a escolha moral; é também a maneira mais poderosa de moldar a política mundial – por larga vantagem.

Olhando para centenas de campanhas no século passado, Chenoweth descobriu que as campanhas não-violentas têm duas vezes mais chances de atingir seus objetivos do que as campanhas violentas. E embora a dinâmica exata dependa de muitos fatores, ela demonstrou que são necessários cerca de 3,5% da população participando ativamente dos protestos para a garantia de mudanças políticas efetivas.

A influência de Chenoweth pode ser vista nos protestos recentes do movimento Extinction Rebellion, cujos fundadores dizem terem sido diretamente inspirados por suas descobertas. Como ela chegou a essas conclusões?

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth's work inspired their campaign (Credit: Getty Images)
Os organizadores da Extinction Rebellion declararam que o trabalho de Chenoweth inspirou sua campanha (Crédito: Getty Images)

É desnecessário dizer que a pesquisa de Chenoweth se baseia nas filosofias de muitas figuras influentes ao longo da história. O abolicionista afro-americano Sojourner Truth, a sufragista Susan B Anthony, o ativista da independência indiana Mahatma Gandhi e o defensor dos direitos civis dos EUA Martin Luther King, todos defenderam, de forma convincente, o poder dos protestos pacíficos.

No entanto, Chenoweth admite que, quando começou sua pesquisa em meados dos anos 2000, ela era inicialmente bastante cética a respeito da ideia de que ações não violentas poderiam ser mais poderosas que conflitos armados, na maioria das situações. Como estudante de doutorado na Universidade do Colorado, ela passou anos estudando os fatores que contribuem para o aumento do terrorismo quando foi convidada a participar de um workshop acadêmico organizado pelo Centro Internacional de Conflitos Não-Violentos (ICNC), uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington, D.C. O workshop apresentou muitos exemplos convincentes de protestos pacíficos que provocam mudanças políticas duradouras – incluindo, por exemplo, os protestos do Poder Popular, nas Filipinas.

Chenoweth, porém, ficou surpresa ao descobrir que ninguém havia comparado de maneira abrangente as taxas de sucesso de protestos não-violentos com o dos violentos; talvez os estudos de caso tenham sido simplesmente escolhidos por algum tipo de viés de confirmação. “O ceticismo frente à ideia de que a resistência não-violenta poderia ser um método eficaz para alcançar grandes transformações na sociedade serviu de motivação para a pesquisa”, diz ela.

Trabalhando com Maria Stephan, pesquisadora do ICNC, Chenoweth realizou uma extensa revisão da literatura sobre resistência civil e movimentos sociais de 1900 a 2006 – uma base de dados que foi corroborada por outros especialistas da área. Elas consideraram principalmente tentativas de provocar mudanças de regime. Um movimento era considerado como tendo obtido sucesso se atingisse plenamente suas metas, no prazo de um ano após o pico de engajamento e como resultado direto de suas atividades. Uma mudança de regime resultante de intervenção militar estrangeira não seria considerada um sucesso, por exemplo. Enquanto isso, uma campanha era considerada violenta se envolvesse bombardeios, sequestros, destruição de infraestrutura – ou qualquer outro dano físico a pessoas ou propriedades.

“Estávamos tentando aplicar um teste bastante difícil à resistência não-violenta como estratégia”, diz Chenoweth. (Os critérios eram tão rigorosos que o movimento de independência da Índia não foi considerado evidência a favor de protestos não-violentos, nas análises de Chenoweth e Stephan – uma vez que os recursos militares em decadência da Grã-Bretanha foram considerados um fator decisivo, mesmo que os próprios protestos também tenham tido enorme influência).

Ao final desse processo, eles coletaram dados de 323 campanhas violentas e não violentas. E seus resultados – que foram publicados em seu livro Por que a resistência civil funciona: a lógica estratégica do conflito não-violento – foram impressionantes.

A força está nos números

No geral, as campanhas não violentas tiveram duas vezes mais chances de sucesso do que as campanhas violentas: elas provocaram mudanças políticas em 53% das vezes, em comparação com 26% nos protestos violentos.

Isso foi em parte resultado do fator demográfico. Chenoweth argumenta que as campanhas não-violentas têm maior probabilidade de sucesso porque podem recrutar mais participantes, de uma população muito mais ampla, aumentando a possibilidade de que os protestos causem a paralisia da vida urbana normal e no funcionamento da sociedade.

De fato, das 25 maiores campanhas que elas analisaram, 20 foram não-violentas, e destas 14 obtiveram sucesso estrondoso. No geral, as campanhas não violentas atraíram cerca de quatro vezes mais participantes (200 mil pessoas em média) do que as campanha violentas (média de 50 mil pessoas).

A campanha do Poder Popular contra o regime de Marcos, nas Filipinas, por exemplo, atraiu dois milhões de participantes no seu auge, enquanto os protestos brasileiros em 1984 e 1985 atraíram um milhão, e a Revolução de Veludo, na Tchecoslováquia, em 1989, atraiu 500 mil participantes.

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)
Tendo atraído milhões de apoiadores, as manifestações do Poder Popular removeram o regime de Marcos nas Filipinas (Crédito: Getty Images)

“Os números realmente fazem a diferença para a construção da força dos movimentos que efetivamente representam ameaça para autoridades ou ocupações entrincheiradas”, diz Chenoweth – e protestos não-violentos parecem ser a melhor maneira de obter esse amplo apoio.

Uma vez que cerca de 3,5% de toda a população começa a participar ativamente, o sucesso parece ser inevitável.

Além do movimento Poder Popular, a Revolução do Canto na Estônia e a Revolução das Rosas na Geórgia atingiram a participação de 3,5% da população

“Não houve campanhas que fracassaram depois de atingirem 3,5% de participação durante um evento de pico”, diz Chenoweth – um fenômeno que ela chamou de “regra dos 3,5%”. Além do movimento Poder Popular, o mesmo foi observado na Revolução do Canto na Estônia, no final dos anos 80, e na Revolução das Rosas, na Geórgia, no início de 2003.

Chenoweth admite que inicialmente ficou surpresa com seus resultados. Mas ela agora cita diversas razões pelas quais protestos não-violentos podem obter níveis tão altos de apoio. Talvez, obviamente, os protestos violentos excluam necessariamente as pessoas que têm aversão ou medo ao derramamento de sangue, enquanto manifestantes pacíficos mantêm o movimento com alto nível moral.

Chenoweth ressalta que os protestos não-violentos também têm menos barreiras físicas à participação. Você não precisa estar em forma e saudável para se envolver em uma greve, enquanto campanhas violentas tendem depender do apoio de homens jovens e em boa forma física. E embora muitas formas de protestos não-violentos também apresentem sérios riscos – basta lembrar da Praça da Paz Celestial, na China, em 1989 – Chenoweth argumenta que as campanhas não-violentas são geralmente mais fáceis de discutir abertamente, o que significa que as notícias de sua ocorrência podem atingir um público mais amplo. Movimentos violentos, por outro lado, exigem um suprimento de armas e tendem a depender de operações subterrâneas mais secretas, e podem ter dificuldades em conectar-se à população em geral.

Uma mulher idosa fala às forças de segurança da Argélia durante protestos recentes (Crédito: Getty Images)

Ao envolver amplo apoio em toda a população, as campanhas não-violentas também têm maior probabilidade de obter apoio entre a polícia e as forças armadas – os mesmos grupos em que os governo se apoiam para promover a ordem.

Durante um protesto pacífico de milhões de pessoas nas ruas, os membros das forças de segurança também podem ter mais medo de que seus familiares ou amigos estejam na multidão – o que os induz a não reprimir o movimento. “Ou quando estão olhando para o grande número de pessoas envolvidas, podem chegar à conclusão de que o navio está afundando e não querem afundar com ele”, diz Chenoweth.

Em termos das estratégias específicas usadas, as greves gerais “provavelmente são um dos métodos mais poderosos, se não o mais poderoso, de resistência não-violenta”, diz Chenoweth. Mas eles têm um custo pessoal, enquanto outras formas de protesto podem ser completamente anônimas. Ela aponta os boicotes dos consumidores na África do Sul na era do apartheid, nos quais muitos cidadãos negros se recusavam a comprar produtos de empresas de proprietários brancos. O resultado foi uma crise econômica que afetou a elite branca do país e que contribuiu para o fim da segregação, no início dos anos 90.

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)
Protestos não-violentos têm mais probabilidade de atrair apoio de toda a sociedade. Aqui, uma manifestante pró-reforma frente às forças de segurança no Marrocos, em 2011 (Crédito: Getty Images)

“Existem mais opções de resistência não-violenta que não colocam as pessoas em perigo físico, principalmente à medida que o número aumenta, em comparação à atividade armada”, diz Chenoweth. “E as técnicas de resistência não-violenta costumam ser mais visíveis, de modo que é mais fácil para as pessoas descobrir como participar diretamente e como coordenar suas atividades para a interrupção máxima”.

Número mágico?

Esses são padrões muito genéricos, naturalmente, e apesar de serem duas vezes mais bem-sucedidos do que os conflitos violentos, a resistência pacífica ainda falha 47% das vezes. Como Chenoweth e Stephan apontaram em seu livro, isso ocorre em alguns casos porque os movimentos nunca obtiveram apoio ou impulso suficientes para “erodir a base de poder do adversário e manter a resiliência diante da repressão”. Mas alguns protestos não-violentos relativamente grandes também falharam, como os protestos contra o partido comunista na Alemanha Oriental, na década de 1950, que atraíram 400 mil membros (cerca de 2% da população) no seu auge, e ainda assim não atingiram seus objetivos.

A base de dados de Chenoweth demonstra que é apenas quando os protestos não-violentos atingem o limiar de 3,5% de engajamento ativo que o sucesso está garantido – e chegar a esse nível de apoio não é uma tarefa fácil. No Reino Unido, isso representaria 2,3 milhões de pessoas ativamente envolvidas em um movimento (aproximadamente o dobro do tamanho de Birmingham, a segunda maior cidade do Reino Unido); nos EUA, envolveria 11 milhões de cidadãos – mais do que a população total da cidade de Nova York.

Contudo, permanece o fato de que campanhas não violentas são a única maneira confiável de manter esse tipo de envolvimento.

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia - another example of Chenoweth's "3.5% rule" (Credit: Getty Images)
Um casal comemora a Revolução de Veludo de 1989, que ajudou a derrubar o regime comunista na Tchecoslováquia – outro exemplo da “regras dos 3,5%” de Chenoweth (Crédito: Getty Images)

O estudo inicial de Chenoweth e Stephan foi publicado pela primeira vez em 2011 e suas descobertas atraíram muita atenção desde então. “A influência delas sobre esse campo de pesquisa têm sido imensa”, diz Matthew Chandler, que pesquisa resistência civil na Universidade de Notre Dame, em Indiana.

Isabel Bramsen, estudiosa de conflitos internacionais na Universidade de Copenhague, concorda que os resultados de Chenoweth e Stephan são convincentes. “[Agora] é uma verdade estabelecida dentro do campo de analise que as abordagens não-violentas têm muito mais chances de sucesso do que as violentas”, diz ela.

Com relação à “regra dos 3,5%”, ela ressalta que, enquanto 3,5% é uma pequena minoria, esse nível de participação ativa provavelmente significa que muito mais pessoas concordam tacitamente com a causa.

Estes pesquisadores estão agora tentando desvendar os fatores que podem levar ao sucesso ou fracasso de um movimento. Bramsen e Chandler, por exemplo, enfatizam a importância da unidade entre os manifestantes.

Como exemplo, Bramsen aponta para o levante fracassado no Bahrein, em 2011. A campanha inicialmente envolveu muitos manifestantes, mas rapidamente se dividiu em facções concorrentes. A perda de coesão resultante, pensa Bramsen, impediu o movimento de ganhar impulso suficiente para provocar mudanças.

O interesse de Chenoweth recentemente se concentrou em protestos mais próximos de casa – como o movimento Black Lives Matter e a Marcha das Mulheres em 2017. Ela também está interessada na Extinction Rebellion, recentemente popularizada pelo envolvimento da ativista sueca Greta Thunberg. “Eles confrontam-se com muita inércia”, diz ela. “Mas acho que eles têm um grupo central incrivelmente inteligente e estratégico. E eles parecem ter todos os instintos certos sobre como se desenvolver e ensinar por meio de campanhas de resistência não violentas”.

Por fim, ela gostaria que nossos livros de história prestassem mais atenção às campanhas não violentas, em vez de se concentrarem tanto nas guerras. “Muitas das histórias que contamos uns aos outros se concentram na violência – e mesmo que se trate de desastres horríveis, ainda encontramos uma maneira de encontrar vitórias nela”, diz ela. No entanto, tendemos a ignorar o sucesso dos protestos pacíficos.

“Há pessoas comuns que o tempo todo estão envolvidas em atividades heroicas que estão realmente mudando o mundo – e elas também merecem atenção e comemoração”.

David Robson é jornalista sênior da BBC Future.

The ‘3.5% rule’: How a small minority can change the world (BBC)

Protestors in Sudan (Credit: Getty Images)

By David Robson – 13th May 2019

Nonviolent protests are twice as likely to succeed as armed conflicts – and those engaging a threshold of 3.5% of the population have never failed to bring about change.

In 1986, millions of Filipinos took to the streets of Manila in peaceful protest and prayer in the People Power movement. The Marcos regime folded on the fourth day.

In 2003, the people of Georgia ousted Eduard Shevardnadze through the bloodless Rose Revolution, in which protestors stormed the parliament building holding the flowers in their hands.

Earlier this year, the presidents of Sudan and Algeria both announced they would step aside after decades in office, thanks to peaceful campaigns of resistance.  

In each case, civil resistance by ordinary members of the public trumped the political elite to achieve radical change.

There are, of course, many ethical reasons to use nonviolent strategies. But compelling research by Erica Chenoweth, a political scientist at Harvard University, confirms that civil disobedience is not only the moral choice; it is also the most powerful way of shaping world politics – by a long way.

Looking at hundreds of campaigns over the last century, Chenoweth found that nonviolent campaigns are twice as likely to achieve their goals as violent campaigns. And although the exact dynamics will depend on many factors, she has shown it takes around 3.5% of the population actively participating in the protests to ensure serious political change.

Chenoweth’s influence can be seen in the recent Extinction Rebellion protests, whose founders say they have been directly inspired by her findings. So just how did she come to these conclusions?

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth's work inspired their campaign (Credit: Getty Images)

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth’s work inspired their campaign (Credit: Getty Images)

Needless to say, Chenoweth’s research builds on the philosophies of many influential figures throughout history. The African-American abolitionist Sojourner Truth, the suffrage campaigner Susan B Anthony, the Indian independence activist Mahatma Gandhi and the US civil rights campaigner Martin Luther King have all convincingly argued for the power of peaceful protest.

Yet Chenoweth admits that when she first began her research in the mid-2000s, she was initially rather cynical of the idea that nonviolent actions could be more powerful than armed conflict in most situations. As a PhD student at the University of Colorado, she had spent years studying the factors contributing to the rise of terrorism when she was asked to attend an academic workshop organised by the International Center of Nonviolent Conflict (ICNC), a non-profit organisation based in Washington DC. The workshop presented many compelling examples of peaceful protests bringing about lasting political change – including, for instance, the People Power protests in the Philippines.

But Chenoweth was surprised to find that no-one had comprehensively compared the success rates of nonviolent versus violent protests; perhaps the case studies were simply chosen through some kind of confirmation bias. “I was really motivated by some scepticism that nonviolent resistance could be an effective method for achieving major transformations in society,” she says

Working with Maria Stephan, a researcher at the ICNC, Chenoweth performed an extensive review of the literature on civil resistance and social movements from 1900 to 2006 – a data set then corroborated with other experts in the field. They primarily considered attempts to bring about regime change. A movement was considered a success if it fully achieved its goals both within a year of its peak engagement and as a direct result of its activities. A regime change resulting from foreign military intervention would not be considered a success, for instance. A campaign was considered violent, meanwhile, if it involved bombings, kidnappings, the destruction of infrastructure – or any other physical harm to people or property.

“We were trying to apply a pretty hard test to nonviolent resistance as a strategy,” Chenoweth says. (The criteria were so strict that India’s independence movement was not considered as evidence in favour of nonviolent protest in Chenoweth and Stephan’s analysis – since Britain’s dwindling military resources were considered to have been a deciding factor, even if the protests themselves were also a huge influence.)

By the end of this process, they had collected data from 323 violent and nonviolent campaigns. And their results – which were published in their book Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict – were striking.

Strength in numbers

Overall, nonviolent campaigns were twice as likely to succeed as violent campaigns: they led to political change 53% of the time compared to 26% for the violent protests.

This was partly the result of strength in numbers. Chenoweth argues that nonviolent campaigns are more likely to succeed because they can recruit many more participants from a much broader demographic, which can cause severe disruption that paralyses normal urban life and the functioning of society.

In fact, of the 25 largest campaigns that they studied, 20 were nonviolent, and 14 of these were outright successes. Overall, the nonviolent campaigns attracted around four times as many participants (200,000) as the average violent campaign (50,000).

The People Power campaign against the Marcos regime in the Philippines, for instance, attracted two million participants at its height, while the Brazilian uprising in 1984 and 1985 attracted one million, and the Velvet Revolution in Czechoslovakia in 1989 attracted 500,000 participants.

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)

“Numbers really matter for building power in ways that can really pose a serious challenge or threat to entrenched authorities or occupations,” Chenoweth says – and nonviolent protest seems to be the best way to get that widespread support.

Once around 3.5% of the whole population has begun to participate actively, success appears to be inevitable.

Besides the People Power movement, the Singing Revolution in Estonia and the Rose Revolution in Georgia all reached the 3.5% threshold

“There weren’t any campaigns that had failed after they had achieved 3.5% participation during a peak event,” says Chenoweth – a phenomenon she has called the “3.5% rule”. Besides the People Power movement, that included the Singing Revolution in Estonia in the late 1980s and the Rose Revolution in Georgia in the early 2003.

Chenoweth admits that she was initially surprised by her results. But she now cites many reasons that nonviolent protests can garner such high levels of support. Perhaps most obviously, violent protests necessarily exclude people who abhor and fear bloodshed, whereas peaceful protesters maintain the moral high ground.

Chenoweth points out that nonviolent protests also have fewer physical barriers to participation. You do not need to be fit and healthy to engage in a strike, whereas violent campaigns tend to lean on the support of physically fit young men. And while many forms of nonviolent protests also carry serious risks – just think of China’s response in Tiananmen Square in 1989 – Chenoweth argues that nonviolent campaigns are generally easier to discuss openly, which means that news of their occurrence can reach a wider audience. Violent movements, on the other hand, require a supply of weapons, and tend to rely on more secretive underground operations that might struggle to reach the general population.

An elderly woman talks to the Algerian security forces during the recent protests (Credit: Getty Images)

An elderly woman talks to the Algerian security forces during the recent protests (Credit: Getty Images)

By engaging broad support across the population, nonviolent campaigns are also more likely to win support among the police and the military – the very groups that the government should be leaning on to bring about order.

During a peaceful street protest of millions of people, the members of the security forces may also be more likely to fear that their family members or friends are in the crowd – meaning that they fail to crack down on the movement. “Or when they’re looking at the [sheer] numbers of people involved, they may just come to the conclusion the ship has sailed, and they don’t want to go down with the ship,” Chenoweth says.

In terms of the specific strategies that are used, general strikes “are probably one of the most powerful, if not the most powerful, single method of nonviolent resistance”, Chenoweth says. But they do come at a personal cost, whereas other forms of protest can be completely anonymous. She points to the consumer boycotts in apartheid-era South Africa, in which many black citizens refused to buy products from companies with white owners. The result was an economic crisis among the country’s white elite that contributed to the end of segregation in the early 1990s.

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)

“There are more options for engaging and nonviolent resistance that don’t place people in as much physical danger, particularly as the numbers grow, compared to armed activity,” Chenoweth says. “And the techniques of nonviolent resistance are often more visible, so that it’s easier for people to find out how to participate directly, and how to coordinate their activities for maximum disruption.”

A magic number?

These are very general patterns, of course, and despite being twice as successful as the violent conflicts, peaceful resistance still failed 47% of the time. As Chenoweth and Stephan pointed out in their book, that’s sometimes because they never really gained enough support or momentum to “erode the power base of the adversary and maintain resilience in the face of repression”. But some relatively large nonviolent protests also failed, such as the protests against the communist party in East Germany in the 1950s, which attracted 400,000 members (around 2% of the population) at their peak, but still failed to bring about change.

In Chenoweth’s data set, it was only once the nonviolent protests had achieved that 3.5% threshold of active engagement that success seemed to be guaranteed – and raising even that level of support is no mean feat. In the UK it would amount to 2.3 million people actively engaging in a movement (roughly twice the size of Birmingham, the UK’s second largest city); in the US, it would involve 11 million citizens – more than the total population of New York City.

The fact remains, however, that nonviolent campaigns are the only reliable way of maintaining that kind of engagement.

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia - another example of Chenoweth's "3.5% rule" (Credit: Getty Images)

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia – another example of Chenoweth’s “3.5% rule” (Credit: Getty Images)

Chenoweth and Stephan’s initial study was first published in 2011 and their findings have attracted a lot of attention since. “It’s hard to overstate how influential they have been to this body of research,” says Matthew Chandler, who researches civil resistance at the University of Notre Dame in Indiana.

Isabel Bramsen, who studies international conflict at the University of Copenhagen agrees that Chenoweth and Stephan’s results are compelling. “It’s [now] an established truth within the field that the nonviolent approaches are much more likely to succeed than violent ones,” she says.

Regarding the “3.5% rule”, she points out that while 3.5% is a small minority, such a level of active participation probably means many more people tacitly agree with the cause.

These researchers are now looking to further untangle the factors that may lead to a movement’s success or failure. Bramsen and Chandler, for instance, both emphasise the importance of unity among demonstrators.

As an example, Bramsen points to the failed uprising in Bahrain in 2011. The campaign initially engaged many protestors, but quickly split into competing factions. The resulting loss of cohesion, Bramsen thinks, ultimately prevented the movement from gaining enough momentum to bring about change.

Chenoweth’s interest has recently focused on protests closer to home – like the Black Lives Matter movement and the Women’s March in 2017. She is also interested in Extinction Rebellion, recently popularised by the involvement of the Swedish activist Greta Thunberg. “They are up against a lot of inertia,” she says. “But I think that they have an incredibly thoughtful and strategic core. And they seem to have all the right instincts about how to develop and teach through a nonviolent resistance campaigns.”

Ultimately, she would like our history books to pay greater attention to nonviolent campaigns rather than concentrating so heavily on warfare. “So many of the histories that we tell one another focus on violence – and even if it is a total disaster, we still find a way to find victories within it,” she says. Yet we tend to ignore the success of peaceful protest, she says.

“Ordinary people, all the time, are engaging in pretty heroic activities that are actually changing the way the world – and those deserve some notice and celebration as well.”

David Robson is a senior journalist at BBC Future. Follow him on Twitter: @d_a_robson.

Como duas pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil (BBC)

6 junho 2016

ciencia politica

Nara Pavão e Natália Bueno: pesquisadoras questionam chavões da política no Brasil 

O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?

A julgar pelos estudos de duas jovens pesquisadoras brasileiras em ciência política, não.

Natália Bueno e Nara Pavão, ambas de 32 anos, se destacam no meio acadêmico no exterior com pesquisas robustas que desmistificam chavões da política brasileira que alimentam debates em redes sociais e discussões de botequim.

Natural de Belo Horizonte (MG), Natália faz doutorado em Yale (EUA), uma das principais universidades do mundo. Em pouco mais de oito anos de carreira, acumula 13 distinções acadêmicas, entre prêmios e bolsas.

A pernambucana Nara é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Vanderbilt (EUA). Soma um doutorado (Notre Dame, EUA), dois mestrados em ciência política (Notre Dame e USP), 16 distinções.

Em comum, além da amizade e da paixão pela ciência política, está o interesse das duas em passar a limpo “verdades absolutas” sobre corrupção, comportamento do eleitor e políticas públicas no Brasil.

Eleitor é racista?

O Brasil é um país de desigualdades raciais – no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde. Atraída pelo tema desde a graduação, Natália Bueno verificou se isso ocorre também na representação política.

O primeiro passo foi confirmar o que o senso comum já sugeria: há, proporcionalmente, mais brancos eleitos do que na população, e os negros são subrepresentados. Por exemplo, embora 45% da população brasileira (segundo o IBGE) se declare branca, na Câmara dos Deputados esse índice é de 80%.

E como a diferença foi mínima na comparação entre população e o grupo dos candidatos que não se elegeram, a conclusão mais rasteira seria: o brasileiro é racista e privilegia brancos ao votar.

politica

Abertura dos trabalhos no Congresso em 2016; pesquisa investigou desigualdade racial na política nacional. FABIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

Para tentar verificar essa questão de forma científica, Natália montou um megaexperimento em parceria com Thad Dunning, da Universidade da Califórnia (Berkeley). Selecionou oito atores (quatro brancos e quatro negros), que gravaram um trecho semelhante ao horário eleitoral. Expôs 1.200 pessoas a essas mensagens, que só variavam no quesito raça.

Resultado: candidatos brancos não tiveram melhor avaliação nem respondentes privilegiaram concorrentes da própria raça nas escolhas.

Mas se a discrepância entre população e eleitos é real, onde está a resposta? No dinheiro, concluiu Natália – ela descobriu que candidatos brancos são mais ricos e recebem fatia maior da verba pública distribuída por partidos e também das doações privadas.

A diferença média de patrimônio entre políticos brancos (em nível federal, estadual e local) e não brancos foi de R$ 690 mil. E em outra prova do poder do bolso nas urnas, vencedores registraram R$ 650 mil a mais em patrimônio pessoal do que os perdedores.

Políticos brancos também receberam, em média, R$ 369 mil a mais em contribuições de campanha do que não brancos. A análise incluiu dados das eleições de 2008, 2010 e 2014.

“Se a discriminação tem um papel (na desigualdade racial na representação política), ela passa principalmente pelas inequidades de renda e riqueza entre brancos e negros que afetam a habilidade dos candidatos negros de financiar suas campanhas”, diz.

Corruptos estão no poder por que o eleitor é ignorante?

A corrupção é um tema central no debate político atual no Brasil. E se tantos brasileiros percebem a corrupção como problema (98% da população pensa assim, segundo pesquisa de 2014), porque tantos políticos corruptos continuam no poder?

A partir de dados de diferentes pesquisas de opinião – entre elas, dois levantamentos nacionais, com 2 mil e 1,5 mil entrevistados -, a recifense Nara Pavão foi buscar respostas para além do que a ciência política já discutiu sobre o tema.

politica

Ato contra corrupção no Congresso em 2011; estudo investiga por que corruptos se mantêm no poder. ANTONIO CRUZ/ABR

Muitos estudos já mostraram que a falta de informação política é comum entre a população, e que o eleitor costuma fazer uma troca: ignora a corrupção quando, por exemplo, a economia vai bem.

“Mas para mim a questão não é apenas se o eleitor possui ou não informação sobre políticos corruptos, mas, sim, o que ele vai decidir fazer com essa informação e como essa informação vai afetar a decisão do voto”, afirma a cientista política.

A pesquisa de Nara identificou um fator chave a perpetuar corruptos no poder: o chamado cinismo político – quando a corrupção é recorrente, ela passa ser vista pelo eleitor como um fator constante, e se torna inútil como critério de diferenciação entre candidatos.

Consequência: o principal fator que torna os eleitores brasileiros tolerantes à corrupção é a crença de que a corrupção é generalizada.

“Se você acha que todos os políticos são incapazes de lidar com a corrupção, a corrupção se torna um elemento vazio para você na escolha do voto”, afirma Nara, para quem o Brasil está preso numa espécie de armadilha da corrupção: quão maior é a percepção do problema, menos as eleições servem para resolvê-lo.

Quem recebe Bolsa Família não critica o governo?

O programa Bolsa Família beneficia quase 50 milhões de pessoas e é uma das principais bandeiras das gestões do PT no Planalto. Até por isso, sempre foi vitrine – e também vidraça – do petismo.

Uma das críticas recorrentes pressupõe que o programa, para usar a linguagem da economia política, altera os incentivos que eleitores têm para criticar o governo.

Famílias beneficiadas não se preocupariam, por exemplo, em punir um mau desempenho econômico ou a corrupção, importando-se apenas com o auxílio no começo do mês.

politica

Material de campanha em dia de votação em São Paulo em 2012; receber benefícios do governo não implica em conivência com Poder Público, conclui estudo. MARCELO CAMARGO/ABR

Deste modo, governos que mantivessem programas massivos de transferência de renda estariam blindados contra eventuais performances medíocres. Seria, nesse sentido, um arranjo clientelista – troca de bens (dinheiro ou outra coisa) por voto.

Um estudo de Nara analisou dados do Brasil e de 15 países da América Latina que possuem programas como o Bolsa Família e não encontrou provas de que isso seja verdade.

“Em geral, o peso eleitoral atribuído à performance econômica e à corrupção do governo é relativamente igual entre aqueles que recebem transferências de renda e aqueles que não recebem”, afirma.

A conclusão é que, embora esses programas proporcionem retornos eleitorais para os governantes de plantão, eles não representam – desde que sigam regras rígidas – incentivo para eleitores ignorarem aspectos ddo desempenho do governo.

ONGs são ralo de dinheiro público?

Organizações de sociedade civil funcionam como um importante instrumento para o Estado fornecer, por meio de parcerias e convênios, serviços à população.

Diferentes governos (federal, estaduais e municipais) transferem recursos a essas entidades para executar programas diversos, de construção de cisternas e atividades culturais.

Apenas em nível federal, essas transferências quase dobraram no período 1999-2010: de RS$ 2,2 bilhões para R$ 4,1 bilhões.

ONGs

Cisterna em Quixadá (CE), em serviço que costuma ser delegado a organizações civis; pesquisadora estudou distribuição de recursos públicos para essas entidades. FERNANDO FRAZÃO/ABR

Esse protagonismo enseja questionamentos sobre a integridade dessas parcerias – não seriam apenas um meio de canalizar dinheiro público para as mãos de ONGs simpáticas aos governos de plantão?

Com o papel dessas organizações entre seus principais de interesses de pesquisa, Natália Bueno mergulhou no tema. Unindo métodos quantitativos e qualitativos, analisou extensas bases de dados, visitou organizações e construiu modelos estatísticos.

Concluiu que o governo federal (ao menos no período analisado, de 2003 a 2011) faz, sim, uma distribuição estratégica desses recursos, de olho na disputa política.

“A pesquisa sugere que governos transferem recursos para entidades para evitar que prefeitos de oposição tenham acesso a repasses de recursos federais. Outros fatores, como implementação de políticas públicas para as quais as organizações tem expertise e capacidade únicas, também tem um papel importante.”

Ela não encontrou provas, porém, de eventual corrupção ou clientelismo por trás desses critérios de escolha – o uso das ONGs seria principalmente parte de uma estratégia político-eleitoral, e não um meio de enriquecimento ilícito.

“Esse tipo de distribuição estratégica de recursos é próprio da política e encontramos padrões de distribuição semelhantes em outros países, como EUA, Argentina e México”, diz Natália.

Corrupção é difícil de verificar, mas a pesquisadora usou a seguinte estratégia: comparou ONGs presentes em cidades com disputas eleitorais apertadas, checou a proporção delas no cadastro de entidades impedidas de fechar parcerias com a União e fez uma busca sistemática por notícias e denúncias públicas de corrupção.

De 281 ONGs analisadas, 10% estavam no cadastro de impedidas, e apenas uma por suspeita de corrupção.

Hard-wired: The brain’s circuitry for political belief (Science Daily)

Date:
December 23, 2016
Source:
University of Southern California
Summary:
When people’s political beliefs are challenged, their brains become active in areas that govern personal identity and emotional responses to threats, neuroscientists have found.

The amygdala — the two almond-shaped areas hugging the center of the brain near the front — tends to become active when people dig in their heels about a political belief. Credit: Photo/Courtesy of Brain and Creativity Institute at USC

A USC-led study confirms what seems increasingly true in American politics: People become more hard-headed in their political beliefs when provided with contradictory evidence.

Neuroscientists at the Brain and Creativity Institute at USC said the findings from the functional MRI study seem especially relevant to how people responded to political news stories, fake or credible, throughout the election.

“Political beliefs are like religious beliefs in the respect that both are part of who you are and important for the social circle to which you belong,” said lead author Jonas Kaplan, an assistant research professor of psychology at the Brain and Creativity Institute at USC Dornsife College of Letters, Arts and Sciences. “To consider an alternative view, you would have to consider an alternative version of yourself.”

To determine which brain networks respond when someone holds firmly to a belief, the neuroscientists with the Brain and Creativity Institute at USC compared whether and how much people change their minds on nonpolitical and political issues when provided counter-evidence.

They discovered that people were more flexible when asked to consider the strength of their belief in nonpolitical statements — for example, “Albert Einstein was the greatest physicist of the 20th century.”

But when it came to reconsidering their political beliefs, such as whether the United States should reduce funding for the military, they would not budge.

“I was surprised that people would doubt that Einstein was a great physicist, but this study showed that there are certain realms where we retain flexibility in our beliefs,” Kaplan said.

The study was published on Dec. 23 in the Nature journal, Scientific Reports. Study co-authors were Sarah Gimbel of the Brain and Creativity Institute and Sam Harris, a neuroscientist for the Los Angeles-based nonprofit Project Reason.

Brain response to belief challenges

For the study, the neuroscientists recruited 40 people who were self-declared liberals. The scientists then examined through functional MRI how their brains responded when their beliefs were challenged.

During their brain imaging sessions, participants were presented with eight political statements that they had said they believe just as strongly as a set of eight nonpolitical statements. They were then shown five counter-claims that challenged each statement.

Participants rated the strength of their belief in the original statement on a scale of 1-7 after reading each counter-claim. The scientists then studied their brain scans to determine which areas became most engaged during these challenges.

Participants did not change their beliefs much, if at all, when provided with evidence that countered political statements such as, “The laws regulating gun ownership in the United States should be made more restrictive.”

But the scientists noticed the strength of their beliefs weakened by one or two points when challenged on nonpolitical topics, such as whether “Thomas Edison had invented the light bulb.” The participants were shown counter statements that prompted some feelings of doubt, such as “Nearly 70 years before Edison, Humphrey Davy demonstrated an electric lamp to the Royal Society.”

The study found that people who were most resistant to changing their beliefs had more activity in the amygdalae (a pair of almond-shaped areas near the center of the brain) and the insular cortex, compared with people who were more willing to change their minds.

“The activity in these areas, which are important for emotion and decision-making, may relate to how we feel when we encounter evidence against our beliefs,” said Kaplan, a co-director of the Dornsife Cognitive Neuroimaging Center at USC.

“The amygdala in particular is known to be especially involved in perceiving threat and anxiety,” Kaplan added. “The insular cortex processes feelings from the body, and it is important for detecting the emotional salience of stimuli. That is consistent with the idea that when we feel threatened, anxious or emotional, then we are less likely to change our minds.”

Thoughts that count

He also noted that a system in the brain, the Default Mode Network, surged in activity when participants’ political beliefs were challenged.

“These areas of the brain have been linked to thinking about who we are, and with the kind of rumination or deep thinking that takes us away from the here and now,” Kaplan said.

The researchers said that this latest study, along with one conducted earlier this year, indicate the Default Mode Network is important for high-level thinking about important personal beliefs or values.

“Understanding when and why people are likely to change their minds is an urgent objective,” said Gimbel, a research scientist at the Brain and Creativity Institute. “Knowing how and which statements may persuade people to change their political beliefs could be key for society’s progress,” she said.

The findings can apply to circumstances outside of politics, including how people respond to fake news stories.

“We should acknowledge that emotion plays a role in cognition and in how we decide what is true and what is not true,” Kaplan said. “We should not expect to be dispassionate computers. We are biological organisms.”


Journal Reference:

  1. Jonas T. Kaplan, Sarah I. Gimbel & Sam Harris. Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidenceScientific Reports, December 2016 DOI: 10.1038/srep39589

Rise of the internet has reduced voter turnout (Science Daily)

Date:
September 16, 2016
Source:
University of Bristol
Summary:
During the initial phase of the internet, a “crowding-out” of political information occurred, which has affected voter turnout, new research shows.

The internet has transformed the way in which voters access and receive political information. It has allowed politicians to directly communicate their message to voters, circumventing the mainstream media which would traditionally filter information.

Writing in IZA World of Labor, Dr Heblich from the Department of Economics, presents research from a number of countries, comparing voter behaviour of municipalities with internet access to the ones without in the early 2000s. It shows municipalities with broadband internet access faced a decrease in voter turnout, due to voters suddenly facing an overwhelmingly large pool of information and not knowing how to filter relevant knowledge efficiently. Similarly, the internet seemed to have crowded out other media at the expense of information quality.

However, the introduction of interactive social media and “user-defined” content appears to have reversed this. It helped voters to collect information more efficiently. Barack Obama’s successful election campaign in 2008 set the path for this development. In the so-called “Facebook election,” Obama successfully employed Chris Hughes, a Facebook co-founder, to lead his highly effective election campaign.

Using a combination of social networks, podcasts, and mobile messages, Obama connected directly with (young) American voters. In doing so, he gained nearly 70 per cent of the votes among Americans under the age of 25.

But there is a downside: voters can now be personally identified and strategically influenced by targeted information. What if politicians use this information in election campaigns to target voters that are easy to mobilize?

Dr Heblich’s research shows there is a thin line between desirable benefits of more efficient information dissemination and undesirable possibilities of voter manipulation. Therefore, policymakers need to consider introducing measures to educate voters to become more discriminating in their use of the internet.

Dr Heblich said: “To the extent that online consumption replaces the consumption of other media (newspapers, radio, or television) with a higher information content, there may be no information gains for the average voter and, in the worst case, even a crowding- out of information.

“One potential risk relates to the increasing possibilities to collect personal information known as ‘big data’. This development could result in situations in which individual rights are violated, since the personal information could be used, for example, to selectively disseminate information in election campaigns and in influence voters strategically.”

See the report at: http://wol.iza.org/articles/effect-of-internet-on-voting-behavior

The One Weird Trait That Predicts Whether You’re a Trump Supporter (Politico Magazine)

And it’s not gender, age, income, race or religion.

1/17/2016

 

If I asked you what most defines Donald Trump supporters, what would you say? They’re white? They’re poor? They’re uneducated?

You’d be wrong.

In fact, I’ve found a single statistically significant variable predicts whether a voter supports Trump—and it’s not race, income or education levels: It’s authoritarianism.

That’s right, Trump’s electoral strength—and his staying power—have been buoyed, above all, by Americans with authoritarian inclinations. And because of the prevalence of authoritarians in the American electorate, among Democrats as well as Republicans, it’s very possible that Trump’s fan base will continue to grow.

My finding is the result of a national poll I conducted in the last five days of December under the auspices of the University of Massachusetts, Amherst, sampling 1,800 registered voters across the country and the political spectrum. Running a standard statistical analysis, I found that education, income, gender, age, ideology and religiosity had no significant bearing on a Republican voter’s preferred candidate. Only two of the variables I looked at were statistically significant: authoritarianism, followed by fear of terrorism, though the former was far more significant than the latter.

Authoritarianism is not a new, untested concept in the American electorate. Since the rise of Nazi Germany, it has been one of the most widely studied ideas in social science. While its causes are still debated, the political behavior of authoritarians is not. Authoritarians obey. They rally to and follow strong leaders. And they respond aggressively to outsiders, especially when they feel threatened. From pledging to “make America great again” by building a wall on the border to promising to close mosques and ban Muslims from visiting the United States, Trump is playing directly to authoritarian inclinations.

Not all authoritarians are Republicans by any means; in national surveys since 1992, many authoritarians have also self-identified as independents and Democrats. And in the 2008 Democratic primary, the political scientist Marc Hetherington found that authoritarianism mattered more than income, ideology, gender, age and education in predicting whether voters preferred Hillary Clinton over Barack Obama. But Hetherington has also found, based on 14 years of polling, that authoritarians have steadily moved from the Democratic to the Republican Party over time. He hypothesizes that the trend began decades ago, as Democrats embraced civil rights, gay rights, employment protections and other political positions valuing freedom and equality. In my poll results, authoritarianism was not a statistically significant factor in the Democratic primary race, at least not so far, but it does appear to be playing an important role on the Republican side. Indeed, 49 percent of likely Republican primary voters I surveyed score in the top quarter of the authoritarian scale—more than twice as many as Democratic voters.

Political pollsters have missed this key component of Trump’s support because they simply don’t include questions about authoritarianism in their polls. In addition to the typical battery of demographic, horse race, thermometer-scale and policy questions, my poll asked a set of four simple survey questions that political scientists have employed since 1992 to measure inclination toward authoritarianism. These questions pertain to child-rearing: whether it is more important for the voter to have a child who is respectful or independent; obedient or self-reliant; well-behaved or considerate; and well-mannered or curious. Respondents who pick the first option in each of these questions are strongly authoritarian.

Based on these questions, Trump was the only candidate—Republican or Democrat—whose support among authoritarians was statistically significant.

So what does this mean for the election? It doesn’t just help us understand what motivates Trump’s backers—it suggests that his support isn’t capped. In a statistical analysis of the polling results, I found that Trump has already captured 43 percent of Republican primary voters who are strong authoritarians, and 37 percent of Republican authoritarians overall. A majority of Republican authoritarians in my poll also strongly supported Trump’s proposals to deport 11 million illegal immigrants, prohibit Muslims from entering the United States, shutter mosques and establish a nationwide database that track Muslims.

And in a general election, Trump’s strongman rhetoric will surely appeal to some of the 39 percent of independents in my poll who identify as authoritarians and the 17 percent of self-identified Democrats who are strong authoritarians.

What’s more, the number of Americans worried about the threat of terrorism is growing. In 2011, Hetherington published research finding that non-authoritarians respond to the perception of threat by behaving more like authoritarians. More fear and more threats—of the kind we’ve seen recently in the San Bernardino and Paris terrorist attacks—mean more voters are susceptible to Trump’s message about protecting Americans. In my survey, 52 percent of those voters expressing the most fear that another terrorist attack will occur in the United States in the next 12 months were non-authoritarians—ripe targets for Trump’s message.

Take activated authoritarians from across the partisan spectrum and the growing cadre of threatened non-authoritarians, then add them to the base of Republican general election voters, and the potential electoral path to a Trump presidency becomes clearer.

So, those who say a Trump presidency “can’t happen here” should check their conventional wisdom at the door. The candidate has confounded conventional expectations this primary season because those expectations are based on an oversimplified caricature of the electorate in general and his supporters in particular. Conditions are ripe for an authoritarian leader to emerge. Trump is seizing the opportunity. And the institutions—from the Republican Party to the press—that are supposed to guard against what James Madison called “the infection of violent passions” among the people have either been cowed by Trump’s bluster or are asleep on the job.

It is time for those who would appeal to our better angels to take his insurgency seriously and stop dismissing his supporters as a small band of the dispossessed. Trump support is firmly rooted in American authoritarianism and, once awakened, it is a force to be reckoned with. That means it’s also time for political pollsters to take authoritarianism seriously and begin measuring it in their polls.

Matthew MacWilliams is founder of MacWilliams Sanders, a political communications firms, and a Ph.D. candidate in political science at the University of Massachusetts, Amherst, where he is writing his dissertation about authoritarianism.

Read more: http://www.politico.com/magazine/story/2016/01/donald-trump-2016-authoritarian-213533#ixzz3xj06TM2n

In our world beyond nations, the future is medieval (New Scientist)

04 September 2014

Magazine issue 2985

Islamic State is more like a postmodern network than a nation state – so we’ll need new tactics to deal with it

FOR most of the past thousand years, there were no nations in Europe. It was a hotchpotch of tribal groupings, feudal kingdoms, autonomous cities and trading networks. Over time, the continent’s ever more complex societies and industries required ever more complex governance; with the French Revolution, the modern nation state was born.

Now the nation’s time may be drawing to a close, according to those who look at society through the lenses of complexity theory and human behaviour. There is plentiful evidence for this once you start looking (see “End of nations: Is there an alternative to countries?Movie Camera“). Consider the European Union, which is trying – much to the disapproval of many Europeans – to transcend its member nations.

Is this a prospect to welcome or dread? One possible reaction is a resurgence of nationalism, based in the desire to consolidate a perceived common identity. Russia’s bellicosity in eastern Ukraine, for example, was supposedly intended to protect the interests of Russian speakers – a transnational act in itself.

Some believe, instead, that the medieval way of running things is due for a comeback. For much of the Middle Ages, power was wielded by city states, like Florence and Hamburg, and by mercantile associations like the Hanseatic League. Reinventing this system might not sound like progress, especially to those who mistrust the overweening power of cities like London or bodies like the World Trade Organization, but it has its pluses. The governors of big cities oversee most of the world’s inhabitants, share many concerns and are often freer to act than national governments.

Small nations could also thrive, particularly if they distinguish themselves through high-tech expertise (New Scientist, 31 May 2014, p 12). Witness how talk of “going it alone” around the imminent Scottish referendum has often segued into talk of how a politically independent Scotland could maintain its links with England and the EU.

But post-nationalism has its ugly side, too. Islamic State, the extremist movement which has overrun northern Iraq and Syria, is usually described as medieval in a pejorative sense. But it is also hyper-modern, interested in few of the trappings of a conventional state apart from its own brutal brand of law enforcement. In fact, it is more of a network than a nation, having made canny use of social media to exert influence far beyond its geographical base.

Confronted with this post-national threat, the world’s most powerful nations have reacted with something approaching stunned silence. “We have no strategy,” said US president Barack Obama in a rare gaffe. The British government has resorted to “royal prerogative” – a medieval legal instrument if ever there was one – to provide a pretext for controlling the movements of British jihadis. It remains to be seen if this will work: any such action is fraught with complexity under international law.

Thirteen years ago this month, Al-Qaida’s attack on the World Trade Center demonstrated the shortcomings of conventional defences in the face of 21st-century threats. The response was a radical reshaping of the security and military landscape, with effects that are still playing out.

Today, Al-Qaida’s offspring pose a similarly acute challenge to the apparatus of international relations. Even if we decide not to embrace post-nationalism, we’ll have to figure out how to engage with those who do. And we don’t have a thousand years to do it.

This article appeared in print under the headline “State of the nation”

Political attitudes derive from body and mind: ‘Negativity bias’ explains difference between liberals and conservatives (Science Daily)

Date: July 31, 2014

Source: University of Nebraska-Lincoln

Summary: Neither conscious decision-making or parental upbringing fully explain why some people lean left and others lean right, researchers say. A mix of deep-seated psychology and physiological responses are at the core of political differences.


Pictured are University of Nebraska-Lincoln political scientists Kevin Smith, left, and John Hibbing, right. Credit: University Communications, University of Nebraska-Lincoln/Craig Chandler

Do people make a rational choice to be liberal or conservative? Do their mothers raise them that way? Is it a matter of genetics?

Two political scientists from the University of Nebraska-Lincoln and a colleague from Rice University say that neither conscious decision-making nor parental upbringing fully explain why some people lean left while others lean right.

A growing body of evidence shows that physiological responses and deep-seated psychology are at the core of political differences, the researchers say in the latest issue of the journal Behavioral and Brain Sciences.

“Politics might not be in our souls, but it probably is in our DNA,” says the article written by political scientists John Hibbing and Kevin Smith of UNL and John Alford of Rice University.

“These natural tendencies to perceive the physical world in different ways may in turn be responsible for striking moments of political and ideological conflict throughout history,” Alford said.

Using eye-tracking equipment and skin conductance detectors, the three researchers have observed that conservatives tend to have more intense reactions to negative stimuli, such as photos of people eating worms, burning houses or maggot-infested wounds.

Combining their own results with similar findings from other researchers around the world, the team proposes that this so-called “negativity bias” may be a common factor that helps define the difference between conservatives, with their emphasis on stability and order, and liberals, with their emphasis on progress and innovation.

“Across research methods, samples and countries, conservatives have been found to be quicker to focus on the negative, to spend longer looking at the negative, and to be more distracted by the negative,” the researchers wrote.

The researchers caution that they make no value judgments about this finding. In fact, some studies show that conservatives, despite their quickness to detect threats, are happier overall than liberals. And all people, whether liberal, conservative or somewhere in between, tend to be more alert to the negative than to the positive — for good evolutionary reasons. The harm caused by negative events, such as infection, injury and death, often outweighs the benefits brought by positive events.

“We see the ‘negativity bias’ as a common finding that emerges from a large body of empirical studies done not just by us, but by many other research teams around the world,” Smith explained. “We make the case in this article that negativity bias clearly and consistently separates liberals from conservatives.”

The most notable feature about the negativity bias is not that it exists, but that it varies so much from person to person, the researchers said.

“Conservatives are fond of saying ‘liberals just don’t get it,’ and liberals are convinced that conservatives magnify threats,” Hibbing said. “Systematic evidence suggests both are correct.”

Many scientists appear to agree with the findings by Hibbing, Smith and Alford. More than 50 scientists contributed 26 peer commentary articles discussing the Behavioral and Brain Sciences article.

Only three or four of the articles seriously disputed the negativity bias hypothesis. The remainder accepted the general concept, while suggesting modifications such as better defining and conceptualizing a negativity bias; more deeply exploring its nature and origins; and more clearly defining liberalism and conservatism across history and culture.

Journal Reference:

  1. John R. Hibbing, Kevin B. Smith, John R. Alford. Differences in negativity bias underlie variations in political ideology. Behavioral and Brain Sciences, 2014; 37 (03): 297 DOI: 10.1017/S0140525X13001192

Contrary to image, city politicians do adapt to voters (Science Daily)

Date: July 29, 2014

Source: Massachusetts Institute of Technology

Summary: Political scientists have long wondered whether city governments in the U.S. are really responsive to their voters. Aren’t local governments simply mired in machine politics, or under the sway of local big-money interests? Does ideology matter? Now a uniquely comprehensive study has produced a pair of distinctive findings: first, that the policies of city governments do closely match the politics of their citizens, and second, that this occurs regardless of the exact form of government than a city has.


Political scientists have long wondered whether city governments in the U.S. are really responsive to their voters. Aren’t local governments simply mired in machine politics, or under the sway of local big-money interests? Does ideology matter?

Now a uniquely comprehensive study co-authored by an MIT political scientist has produced a pair of distinctive findings: first, that the policies of city governments do closely match the politics of their citizens, and second, that this occurs regardless of the exact form of government than a city has.

That means that urban governance is more flexible, adaptable, and representative than the popular image might suggest. It also indicates that the link between public opinion and policy outcomes in municipal government is independent of whether it is led by a mayor, a town council, or selectmen, or uses direct referendums as opposed to indirect representatives.

“Politics doesn’t look quite as different at the local level as people thought it did,” says Chris Warshaw, an assistant professor of political science at MIT, and an author of a new paper detailing the findings of the study.

The research is singularly broad, examining the policies of every U.S. city and town with a population of 20,000 or more. It breaks new ground by extensively examining, on the municipal front, what researchers have found to be true of federal and state governments: that the views of the people usually matter significantly in shaping political action.

Or, as the researchers say in their new paper on the subject, there is a “robust role for citizen policy preferences in determining municipal policy outcomes.”

All politics is not just local, but ideological

The paper, “Representation in Municipal Government,” appears in the latest issue of the American Political Science Review. It was written by Warshaw and Chris Tausanovitch, an assistant professor of political science at the University of California at Los Angeles.

The study links data from seven large-scale surveys, taken from 2000 through 2011, each of which asked 30,000 to 80,000 American voters their views on a wide range of policy questions. To further enhance the measurement of policy preferences among voters, the researchers also incorporated models that estimate preferences based on demographic and geographic information, and looked at other data, such as on presidential vote results in cities and towns.

The study examined 1,600 American municipalities. San Francisco, Seattle, and Washington ranked as the most liberal cities with 250,000 or more people, while Mesa, Ariz., Oklahoma City, and Virginia Beach, Va., were rated as the most conservative.

To see if voter preferences matched the policies that municipal governments enacted, Warshaw and Tausanovitch used a wide variety of data sources to rate the policy choices enacted by local governments, often involving spending and taxes. “The substantively consequential policies are the ones we look at,” Warshaw says.

The researchers also controlled for cities’ fiscal health, since well-off municipalities can afford to spend more on public projects and regulations than poorer towns and cities.

Even accounting for such factors, Warshaw and Tausanovitch found that liberal cities tend to both tax and spend more, while having “less regressive tax systems,” with a lower share of revenues from sales taxes. This strong correlation, they found, persists whatever the form of local government.

So while people like to say that “all politics is local,” Warshaw thinks we should amend that view. The notion that “idiosyncratic local political battles, about zoning, land, growth, and fixing potholes, is the core of city politics,” as he puts it, is not quite wrong; it’s just that the battles over such things also occur within the same ideological spectrum that applies to state and federal politics.

Room for more research

Warshaw notes that more research could be conducted on the causal mechanisms that make cities broadly responsive to public opinion. “My hope is this will inspire other people to go out and fill in those mechanisms,” he says.

Methodologically, he suggests, the variation in the structures of city governments, among other things, might allow scholars to further compare and contrast otherwise similar groups of municipalities.

“Given that we know the powers of cities vary a lot in different states, an obvious piece of variation to explore is that in states that give more discretion to cities, you [might] get different outcomes,” Warshaw says. “By utilizing that variation across the country, you can start to get into those questions.”

Extreme Political Attitudes May Stem from an Illusion of Understanding (Science Daily)

Apr. 29, 2013 — Having to explain how a political policy works leads people to express less extreme attitudes toward the policy, according to new research published in Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science.

The research suggests that people may hold extreme policy positions because they are under an illusion of understanding — attempting to explain the nuts and bolts of how a policy works forces them to acknowledge that they don’t know as much about the policy as they initially thought.

Psychological scientist Philip Fernbach of the Leeds School of Business at the University of Colorado, Boulder and his co-authors were interested in exploring some of the factors that could contribute to what they see as increasing political polarization in the United States.

“We wanted to know how it’s possible that people can maintain such strong positions on issues that are so complex — such as macroeconomics, health care, foreign relations — and yet seem to be so ill-informed about those issues,” says Fernbach.

Drawing on previous research on the illusion of understanding, Fernbach and colleagues speculated that one reason for the apparent paradox may be that voters think they understand how policies work better than they actually do.

In their first study, the researchers asked participants taking an online survey to rate how well they understood six political policies, including raising the retirement age for Social Security, instituting a national flat tax, and implementing merit-based pay for teachers. The participants were randomly assigned to explain two of the policies and then asked to re-rate how well they understood the policies.

As the researchers predicted, people reported lower understanding of all six policies after they had to explain them, and their positions on the policies were less extreme. In fact, the data showed that the more people’s understanding decreased, the more uncertain they were about the position, and the less extreme their position was in the end.

The act of explaining also affected participants’ behavior. People who initially held a strong position softened their position after having to explain it, making them less likely to donate bonus money to a related organization when they were given the opportunity to do so.

Importantly, the results affected people along the whole political spectrum, from self-identified Democrats to Republicans to Independents.

According to the researchers, these findings shed light on a psychological process that may help people to open the lines of communication in the context of a heated debate or negotiation.

“This research is important because political polarization is hard to combat,” says Fernbach. “There are many psychological processes that act to create greater extremism and polarization, but this is a rare case where asking people to attempt to explain makes them back off their extreme positions.”

In addition to Fernbach, co-authors include Todd Rogers of the Harvard Kennedy School; Craig R. Fox of the University of California, Los Angeles; and Steven A. Sloman of Brown University.

Journal Reference:

  1. P. M. Fernbach, T. Rogers, C. R. Fox, S. A. Sloman.Political Extremism Is Supported by an Illusion of UnderstandingPsychological Science, 2013; DOI:10.1177/0956797612464058