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Indígena de 81 anos aprende a usar computador e cria dicionário para salvar seu idioma da extinção (QGA)

Marie Wilcox é a última pessoa no mundo fluente no idioma Wukchumi

Conheça Marie Wilcox, uma bisavó de 81 anos e a última pessoa no mundo fluente no idioma Wukchumi. O povo Wukchumi costumava ter uma população de 50.000 pessoas antes de terem contato com os colonizadores, mas agora são somente 200 pessoas vivendo no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Sua linguagem foi morrendo aos poucos a cada nova geração, mas Marie se comprometeu com a tarefa de revivê-la, aprendendo a usar um computador para que conseguisse começar a escrever o primeiro dicionário Wukchumni. O processo levou sete anos, e agora que terminou ela não pretende parar seu trabalho de imortalizar sua língua nativa.

O documentário “Marie’s Dictionary”, disponível no Youtube, nos mostra a motivação de Marie e seu trabalho árduo para trazer de volta e registrar um idioma que foi quase totalmente apagado pela colonização, racismo institucionalizado e opressão.

No vídeo, Marie admite ter dúvidas sobre a gigantesca tarefa que ela se comprometeu: “Eu tenho dúvidas sobre minha língua, e sobre quem quer mantê-la viva. Ninguém parece querer aprender. É estranho que eu seja a última… Tudo vai estar perdido algum dia desses, não sei”.

Mas com sorte, esse dia ainda vai demorar. Marie e sua filha Jennifer agora dão aulas para membros da tribo, e trabalham num dicionário em áudio para acompanhar o dicionário escrito que ela já criou.

Veja o vídeo (em inglês).

(QGA)

Populações pré-colombianas afetavam pouco a Amazônia, diz estudo (Estado de São Paulo)

Fábio de Castro

28 de outubro de 2015

Antes da chegada dos Europeus às Américas, uma grande população indígena habitava a Amazônia. Mas, ao contrário do que sustentam alguns cientistas, os impactos dessa ocupação humana sobre a floresta eram extremamente pequenos, segundo um novo estudo internacional realizado com participação brasileira.

pesquisa, publicada nesta quarta-feira, 28, na revista científica Journal of Biogeography, foi liderada por cientistas do Instituto de Tecnologia da Flórida, nos Estados Unidos e teve a participação de Carlos Peres, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Imagem de satélite da Amazônia ocidental mostra mendros de rios com 'braços-mortos', onde viviam grandes populações antes da chegada dos europeus; o novo estudo mostra que o impacto desses povos na floresta era menor do que se pensava

Imagem de satélite da Amazônia ocidental mostra mendros de rios com ‘braços-mortos’, onde viviam grandes populações antes da chegada dos europeus; o novo estudo mostra que o impacto desses povos na floresta era menor do que se pensava

Segundo o novo estudo, as populações amazônicas pré-colombianas viviam em densos assentamentos perto dos rios, afetando profundamente essas áreas. Mas os impactos que elas produziam na floresta eram limitados a uma distância de um dia de caminhada a partir das margens – deixando intocada a maior parte da Bacia Amazônica.

A pesquisa foi realizada com o uso de plantas fósseis, estimativas de densidade de mamíferos, sensoriamento remoto e modelagens computacionais de populações humanas. Segundo os autores, os resultados indicam que as florestas amazônicas podem ser muito vulneráveis às perturbações provocadas por atividades madeireiras e de mineração.

O novo estudo refuta uma teoria emergente, sustentada por alguns arqueólogos e antropólogos, de que as florestas da Amazônia são resultado de modificações da paisagem produzidas por populações ancestrais. Essa teoria contradiz a noção de que as florestas são ecossistemas frágeis.

“Ninguém duvida da importância da ação humana ao longo das principais vias fluviais. Mas, na Amazônia ocidental, ainda não se sabe se os humanos tiveram sobre o ecossistema um impacto maior que qualquer outro grande mamífero”, disse o autor principal do estudo, Mark Bush, do Instituto de Tecnologia da Flórida.

Dolores Piperno, outra autora do estudo, arqueóloga do Museu Americano de História Natural, afirma que há exagero na ideia de que a Amazônia é uma paisagem fabricada e domesticada. “Estudos anteriores se basearam em poucos sítios arqueológicos próximos aos cursos de água, e extrapolaram os efeitos da ocupação humana pré-histórica para todo o bioma. Mas a Amazônia é heterogênea e essas extrapolações precisam ser revistas com dados empíricos”, disse ela.

“Esse não é apenas um debate sobre o que ocorreu há 500 anos, ele tem implicações muito relevantes para a sociedade moderna e para as iniciativas de conservação”, afirmou Bush.

De acordo com Bush, se as florestas tivessem sido pesadamente modificadas antes da chegada dos Europeus e tivessem se recuperado no período de uma só geração de árvores para adquirir um nível tão vasto de biodiversidade, essa capacidade de recuperação rápida poderia ser usada como justificativa para uma atividade madeireira agressiva.

Entretanto, se a influência dos humanos foi muito limitada, como mostra o novo estudo, a atividade madeireira e mineradora têm potencial para provocar na floresta consequências de longo prazo, possivelmente irreversíveis.

“Essa distinção se torna cada vez mais importante, à medida em que os gestores decidem se irão reforçar ou flexibilizar a proteção de áreas já designadas como parques de conservação”, afirmou Bush.

‘A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami’. Entrevista com Bruce Albert (National Geographic Brasil)

ENTREVISTA 29/09/2015

“A produção indígena na cena cultural é, de fato, cada vez mais importante no Brasil, mas ainda muito aquém de suas imensas possibilidades”, afirma Bruce Albert, um dos autores do livro. Confira uma entrevista com o etnólogo francês

por Felipe Milanez 
Capa do livro A Queda do Céu

Da amizade de 30 anos entre o etnólogo francês Bruce Albert e o xamã e porta-voz do povo YanomamiDavi Kopenawa nasceu A Queda do Céu, lançado agora pela Companhia das Letras no Brasil. 720 páginas, R$ 69,90). Publicado originalmente em francês em 2010, na prestigiosa coleção Terre Humaine, o livro é um libelo contra a destruição da Floresta Amazônica e traz as meditações do xamã a respeito do contato com o homem branco, ameaça constante para seu povo desde os anos 1960.

Davi Kopenawa nasceu por volta de 1956, em Marakana, grande casa comunal situada na floresta tropical de piemonte do alto Rio Toototobi, no norte do estado do Amazonas, próximo à fronteira com a Venezuela. A vocação de xamã desde a primeira infância, fruto de um saber cosmológico adquirido graças ao uso de potentes alucinógenos, é o primeiro dos três pilares que estruturam o livro. O segundo é o relato do avanço dos brancos pela floresta e seu cortejo de epidemias, violência e destruição. Por fim, os autores trazem a odisseia do líder indígena para denunciar a destruição de seu povo. Recheada de visões xamânicas e meditações etnográficas sobre os brancos, A Queda do Céu não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a noção de progresso e desenvolvimento defendida por aqueles que os Yanomami – com intuição profética e precisão sociológica – chamam de “povo da mercadoria”.

Na entrevista abaixo, o jornalista Felipe Milanez entrevista Bruce Albert, doutor em antropologia pela Université de Paris X-Nanterre e pesquisador sênior do Institut de Recherche pour le Développement (IRD, Paris). Albert participou em 1978 da fundação da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY), que conduziu com Davi Kopenawa uma campanha de 14 anos até obter, em 1992, a homologação da Terra Indígena Yanomami. Viaja à terra yanomami praticamente todos os anos, há quatro décadas.

Como surgiu a ideia do livro e como ele pode inspirar novos trabalhos literários de lideranças indígenas?

Bruce Albert A ideia do livro nasceu durante a invasão garimpeira da terra yanomami no fim dos anos 1980. O caos sanitário e ambiental era total. A sobrevivência do povo Yanomami no Brasil estava em jogo. Davi estava profundamente angustiado e revoltado. Pensou que, para evitar o fim de seu povo devia contar sua história e transmitir seus conhecimentos. Ele sabia que, para os brancos, o que não está escrito não existe. Queria, portanto, que as palavras yanomami, inaudíveis nas cidades, saíssem da floresta e se espalhassem pelo mundo afora na forma de um livro. Nós já éramos amigos, engajados contra o garimpo, eu falava yanomami o suficiente. Ele decidiu pedir minha ajuda para escrever suas palavras, que são também as antigas palavras do seu povo. Inventamos assim juntos este livro “falado-escrito” que acabou tecendo uma mensagem xamânico-política com um projeto de descolonização da escrita etnográfica.

O que acho fundamental nesta parceria, foi justamente essa vontade de cruzar, em pé de igualdade, nossas perspectivas intelectuais num projeto político-etnográfico comum. Eu acho que esta forma de etnografia colaborativa tem bastante potencial para divulgar a história e o pensamento de muitos povos sem acesso à escrita. Mas trata-se de uma forma transitória. Muitos letrados indígenas já surgiram e continuam surgindo e estão hoje, Brasil afora, inventando seus próprios gêneros de autoetnografia, estilos de escrita e formas literárias. É um movimento de reapropriação da etnografia que tem como pano de fundo o surgimento progressivo dos povos indígenas como sujeitos políticos desde os anos 1970.

O que mais marcou a sua vida na sua relação com os yanomami e como o pensamento deles se situa em meio a grande diversidade de pensamentos indígenas no Brasil?

Bruce Albert Encontrei os yanomami muito jovem, há mais de três décadas, e obviamente marcaram muito minha vida intelectual e pessoal em muitos aspectos. Acho que a lição mais interessante que podem nos dar os yanomami – os povos indígenas em geral – não remete nem as experiências individuais, necessariamente anedóticas, nem a saberes específicos, inevitavelmente recortados ao sabor de nossas fantasias utilitaristas.

O que os índios nos ensinam fundamentalmente é que existem outros universos humanos e não humanos possíveis e pensáveis, e que o nosso mundo, tão arbitrário quantos os outros e consideravelmente mais mortífero, não é necessariamente o mais digno de apreço. Este efeito de comparação perturbador constitui uma contribuição fundamental para destabilizar a cegueira de nosso narcisismo autodestrutivo e assim, tal vez, garantir nossa sobrevivência intelectual e física. Sem isso, estamos condenados à morte dos xamãs e à queda do céu, como nos ensina Davi Kopenawa. Esta é a vocação do livro, além de sua dimensão etnobiográfica.

O que era “ecologia” para o senhor, na época em que conheceu Davi? E o que é ecologia hoje?

Bruce Albert Conheci Davi em 1978, tinha 26 anos e “ecologia” era ainda um tema muito incipiente. Suponho que, na época, eu não pensava muito além das noções de senso comum da minha sociedade de origem. Inventamos a noção de “natureza” como um vasto espaço exterior a humanidade ocidental – um espaço “selvagem” dedicado ao desbravamento e à exploração sem limites. Este imenso espaço misterioso e ameaçador circundava o espaço outrora restrito da (boa) sociedade e da “civilização”. Mais tarde a perspectiva se inverteu. Com o avanço da industrialização, chegamos à noção de “meio ambiente”, uma “natureza” vencida e transformada em uma variedade de espaços cada vez mais residuais, englobados pela sociedade dominante (reservas, parques, etc).

São estas nossas categorias que a contra-etnografia do Davi Kopenawa contribui a descontruir com muita perspicácia. Ele desafia, por um lado, nossa velha categoria de natureza através de sua tradução da urihi a pree, a “terra-floresta mundo”, que engloba uma fervilhante sociedade de seres visíveis ou invisíveis, humanos e não-humanos. Ele sugere que nossa noção de “ecologia” deveria hoje se aproximar desta perspectiva anti-antropocêntrica para poder conversar com a tradição xamânica indígena. Por outro lado, ele reduz nossa categoria de “meio ambiente” a uma fórmula impiedosa : “é o resto do que vocês ainda não destruíram”.

Vivemos hoje uma crise política e econômica, e sobretudo uma grande crise ecológica. Que perspectivas de saída podemos vislumbrar através do ponto de vista yanomami?

Bruce Albert Davi Kopenawa propõe uma poética, humorada e muito certeira etnografia de nosso absurdo fascínio por mercadorias que ironiza chamando de “mercadorias-namoradas”. Além disso, ele nos oferece um sábio diagnóstico xamânico sobre a queda do céu cujas conclusões são basicamente as mesmas que a dos cientistas do IPCC: se persistimos com nosso mito do crescimento infinito e nossa economia predadora de combustíveis fósseis, chegaremos a um catástrofe socioambiental de magnitude ainda pouco imaginável para o público em geral, porém já muito bem pensada pelo xamãs dos povos indígenas. A mensagem é, portanto : ter a audácia de pensar/construir um novo mundo para deixar de ser o grotesco e perigoso “Povo da Mercadoria” descrito pelos xamãs yanomami.

Como o senhor analisa a atual conjuntura dos povos indígenas no Brasil?

Bruce Albert A situação é a pior possível. Da novela do genocídio dos guarani à mortalidade infantil subsaariana dos yanomami ou dos povos do Vale do Javari, assistimos hoje a uma volta inquietante aos tempos do indigenismo sombrio da ditadura. O modelo de economia de commodities, apresentado como novo milagre desenvolvimentista pelos governos recentes, não passou de um lamentável remake – em versão chinesa – dos sonhos falidos da ditadura. Sob a fachada de um “progressismo” traído, os velhos tempo neocoloniais vigoram como nunca para os povos indígenas.

A antropologia às vezes é vista como uma ciência que fala de situações muito específicas, e difíceis de serem generalizadas. No livro, a crítica da Davi parece estender-se para um plano geral, e somos convidados a refletir sobre o mundo através da visão yanomami. Há uma mudança, nesse sentido, de rumos na antropologia?

Bruce Albert A (nossa) antropologia escreve em nome dos outros e idealmente o faz (ou deveria fazê-lo) com empatia, solidariedade política e com um esforço de tradução à altura intelectual de seus interlocutores. Resta que, mesmo assim, guarda um indevido monopólio sobre a descrição e a publicação dos mundos vividos alheios e sobre a antropologia dos outros. Esse caminho não é mais sustentável. Como falei, os povos indígenas da Amazônia emergiram, há algumas décadas, enquanto sujeitos políticos no cenário nacional e internacional. Esta situação está aos poucos abrindo espaço não somente às crescentes experiências de autoetnografia e de etnografia colaborativa, como mencionei, mas também à possibilidade de uma contra-etnografia indígena sobre nosso mundo, portanto de uma antropologia reversa, como a elaborada por Davi Kopenawa. A (nossa) antropologia, ao dialogar cada vez mais com os intelectuais indígenas num pé de igualdade, deveria portanto tornar-se cada vez mais simétrica e fonte de cruzamentos conceituais.

Nos últimos anos os povos indígenas têm sido responsáveis por uma grande e intensa produção cultural. O que tem impedido que a produção seja ainda maior e qual o papel da academia nesse sentido?

Bruce Albert A produção indígena na cena cultural é, de fato, cada vez mais importante no Brasil, mas ainda muito aquém de suas imensas possibilidades : existem no pais 243 povos falando mais de 150 línguas. A razão essencial, me parece, é que, no Brasil de 2015, a maior parte dos povos indígenas tem ainda que lutar para sobreviver fisicamente face a espoliações e violências. Acho portanto que os antropólogos, além da sua solidariedade política, têm mesmo, nestes tempos críticos, que intensificar os seus esforços para apoiar o movimento indígena de expressão autônoma na escrita, artes plásticas, música, vídeos, etc. Existem experiências históricas neste sentido no Brasil, como o projeto Vídeos nas Aldeias ou a série Narradores do Rio Negro, do Instituto Socioambiental. Me parece que o mundo acadêmico poderia se abrir mais à novas experiências etnográficas centradas na autoria indígena. Espero que A Queda do Céu seja um incentivo para isto.

Nesse ano também foi lançado o livro de Ailton Krenak, alguns anos atrás foi Álvaro Tukano. São alguns exemplos de livros produzido por indígenas de uma mesma geração (hoje com 50 a 70 anos), que foram jovens lideranças nos anos 1980 e que lutaram para alcançar os direitos que estão hoje na Constituição Federal. Como o senhor vê essa geração, o que mudaram e romperam com a anterior, e o que deixam para as próximas?

Bruce Albert As lideranças indígenas da geração do Davi Kopenawa, formam uma geração histórica, de pioneiros das lutas e da organização do movimento indígena. É uma geração de líderes carismáticos, cujas singularidades fora do comum foi capaz de representar simultaneamente seus povos e os povos indígenas da Amazônia de maneira mais ampla. A partir dos anos 1990, estas figuras emblemáticas, até então solitárias, começaram a abrir espaço para as gerações mais novas, que passaram por experiências diversas de escolarização e constituíram o viveiro das inúmeras associações indígenas que se formaram desde então. A trajetória do Davi é exemplar nesta geração. Sua pequena infância se desenvolveu longe do brancos, foi depois alfabetizado por missionários evangélicos, trabalhou em sua juventude na FUNAI como intérprete, tornou-se uma liderança de destaque nacional e internacional no anos 1980-1990 e, enfim, promoveu a fundação da Hutukara Associação Yanomami em 2004. No livro, Davi relata com uma emoção vibrante todos os momentos chaves desta incrível odisseia entre dois mundos, do medo que teve dos primeiros brancos vistos na infância, até sua primeira visita a Nova York. É realmente um depoimento fundamental para a história dos Índios no Brasil, mas também, simplesmente, para a história do Brasil contemporâneo.

Aproveitamento de recursos hídricos poderá gerar renda para indígenas (Agência Senado)

Da Redação | 28/09/2015, 09h39 – ATUALIZADO EM 28/09/2015, 17h07

Proposta que altera a Constituição Federal para assegurar aos indígenas participação nos resultados do aproveitamento de recursos hídricos em suas terras (PEC 76/2011) está na pauta da reunião de quarta-feira (30) da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

Hoje já são reconhecidos aos índios os direitos de posse permanente das terras que ocupam e de usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Quanto à participação na exploração dos recursos, a Constituição garante apenas o direito a resultados obtidos com as riquezas minerais.

O autor da PEC, senador Blairo Maggi (PR-MT), explica que, no caso da implantação de hidrelétricas em terras indígenas, por exemplo, “não há garantia explícita da participação dos índios nos resultados de tal exploração”.

Ele acrescenta que essa lacuna tem gerado divergências na interpretação da norma constitucional e insegurança jurídica para as comunidades. Para o parlamentar, se a Constituição concede aos índios usufruto exclusivo das riquezas dos rios e dos lagos existentes em suas terras, é justo que haja compensação caso sejam privados do livre acesso a essas águas.

O relator, senador Valdir Raupp (PMDB-RO), apoia a proposta e questiona: “se as comunidades têm direito à participação no resultado da lavra mineral, por que também não teriam esse direito em relação ao aproveitamento dos recursos hídricos? Ambas as atividades podem impactar fortemente as comunidades”, observa.

A PEC 76/2011 prevê, para o aproveitamento dos recursos hídricos, a mesma exigência constitucional já estabelecida para exploração de riquezas minerais em terras indígenas, ou seja, autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas.

Após análise na CCJ, a PEC segue para dois turnos de votação em Plenário.

Outros projetos

A pauta da reunião inclui outros 33 projetos, entre eles, proposta de emenda à Constituição (PEC 62/2015), da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que acaba com a vinculação automática entre vencimentos mensais recebidos por agentes públicos, como parlamentares e ministros dos tribunais superiores. O fim do chamado “efeito cascata” no reajuste dessas remunerações recebeu relatório favorável do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

Agência Senado

Hidrelétrica no rio Tapajós pode extinguir espécies, diz Inpa (UOL)

BBC

29/09/201509h25 

VIDEO

O Tapajós é um dos últimos grandes rios amazônicos sem barragens e a nova fronteira de megaprojetos do governo federal de usinas na Amazônia

Ao menos 40 grandes hidrelétricas estão atualmente em construção ou planejamento na bacia amazônica.

Em fase de licenciamento ambiental, a usina de São Luiz do Tapajós é a maior delas e considerada uma prioridade pelo governo.

A construção da usina foi tema de uma assembleia entre povos indígenas da região, ONGs, ambientalistas e representantes do governo.

A BBC Brasil conversou com Jansen Zuanon, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) presente na reunião, sobre os possíveis impactos desta e outras obras do tipo sobre o meio ambiente.

Para compreender os conflitos entre fazendeiros e indígenas em MS (Campo Grande News)

22/09/2015 09:17

Por Jorge Eremites e Paulo Esselin (*)

Há muito os problemas que atingem os povos indígenas em Mato Grosso do Sul ganharam manchete na imprensa regional, nacional e internacional. Todos os anos índios são mortos e nada é feito de objetivo para mudar a realidade. Autoridades eleitas pelo povo, como vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, prefeitos e governador, mandato após mandato e salvo honrosas excessões, simplificam o problema. Ao fazerem isso, rechaçam o enfrentamento da questão fundiária, causa maior dos conflitos entre fazendeiros e comunidades indígenas.

Além disso, não raramente recorrem ao argumento de culpar instituições alhures pelo etnocídio ou genocídio cultural em andamento no estado: Supremo Tribunal Federal, Governo Federal, Ministério da Justiça, ONGs, Presidência da República, Conselho Indigenista Missionário, Ministério Público Federal, forças alienígenas que desejariam se apoderar do Aquífero Guarani etc. Repetidas vezes, de maneira costumeira, utilizam de sofismas dos mais variados para distorcer a realidade e formar opinião pública contrária à regularização das terras indígenas no país.

Ao fazerem isso, essas autoridades se isentam de quaisquer responsabilidades, terceirizam o problema e lavam as mãos. Afirmam que é a União, e basicamente ela, que pode e deve solucionar os conflitos pela posse da terra, desde que assim o faça a favor dos fazendeiros, aqueles que possuem títulos de propriedade privada da terra e por vezes financiam campanhas eleitorais e projetos de poder.

A questão fundiária, por sua vez, é um problema muito antigo e suas origens remontam aos séculos 18, 19 e 20, quando se deu a origem da propriedade privada da terra na região. Com o final da chamada Guerra do Paraguai (1864-1870), o antigo sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, passou a ser mais rapidamente colonizado por migrantes oriundos de outras partes do Brasil, além de imigrantes vindos de além-mar e paízes vizinhos. Desde então o espaço regional se configurou como palco de muitos conflitos pela posse da terra, especialmente quando comunidades indígenas tiveram seus territórios invadidos por fazendeiros e militares desmobilizados do exército imperial. A documentação oficial da época, como os relatórios da Diretória dos Índios da Província de Mato Grosso, comprova a situação. Contudo, sem os povos originários esta parte da bacia platina não estaria incorporada ao território nacional.

Foi graças às alianças com os indígenas, feitas desde o século 18, que Portugal estabeleceu sua hegemonia na porção central da América do Sul. Posteriormente, quando o Brasil tornou-se Estado-nação, as alianças permaneceram durante o período imperial. Exemplo disso foi o protagonismo que os indígenas tiveram na defesa do território nacional durante a Guerra do Paraguai. Autores renomados como o Visconde de Taunay, apenas para citar um exemplo, extenderam-se sobre o assunto e teceram elogios à participação dos Terena, Kinikinao, Kadiwéu, Guató e outros povos que, sozinhos ou ao lado do exército imperial, combateram as tropas invasoras do Paraguai na década de 1860.

Com o fim do conflito bélico platino houve a expansão da fronteira pastoril e, consequentemente, o aumento da titulação dolosa de territórios indígenas a favor de terceiros. A partir de então os povos originários passaram a ter suas terras usurpadas e via de regra não tinham a quem recorrer. Esta é uma das marcas colonialistas da formação do Estado Brasileiro e da propriedade privada da terra em Mato Grosso do Sul.

Neste contexto foi ainda imposto aos Guarani, Kaiowá, Terena e outros indígenas uma forma perversa de exploração da força de trabalho, análoga à escravidão moderna, baseada no conhecido sistema do barracão. Durante a primeira metade do século 20, muitos fazendeiros tinham transformado milhares de indígenas na principal mão-de-obra a ser explorada nas propriedades rurais que eram organizadas no antigo sul de Mato Grosso. Esta situação é verificada na fronteira com o Paraguai e a Bolívia, na Serra de Maracaju e em praticamente todo o estado.

Milhares de indígenas passaram a trabalhar na condição de vaqueiros e em outras atividades econômicas, tais como: lavoura, colheita e preparo da erva-mate, exploração de ipecacuanha, transporte fluvial etc. Muitas mulheres foram ainda “pegas a laço”, violentadas e forçadas a se casar com não-índios, história esta presente na memória de muitos dos antigos (sul) mato-grossenses. Apesar disso tudo, os índios pouco usufruiram das riquezas que produziram e passaram a viver em situações cada vez mais difíceis, sobremaneira quando suas roças foram invadidas pelo gado e os fazendeiros mandaram derrubar as matas existentes em seus territórios. Depois de formadas as propriedades rurais, especiamente entre os anos de 1950 a 1970, a mão-de-obra indígena foi dispensada de muitas fazendas.

Neste contexto histórico, marcado pela expansão do agronegócio no Centro-Oeste, dezenas de comunidades indígenas, as quais ainda conseguiam viver no fundo das fazendas, foram expulsas das terras de ocupação tradicional. Este processo de esbulho foi concluído na década de 1980.

No começo do século 20, Cândido Mariano da Silva Rondon, posteriormente conhecido como Marechal Rondon, à frente da Comissão de Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso, deixou registrado os ataques que fazendeiros desfechavam contra os indígenas, como ocorria na bacia do rio Taboco. Em suas palavras: “[…] eivados da falsa noção de que o índio deve ser tratado e exterminado como uma fera contra o qual devem fazer convergir todas as suas armas de guerra, os fazendeiros ao invés de reconciliarem-se com os silvícolas trucidavam homens, mulheres e crianças e aprisionando os que não havia logrado fugir”.

Segundo Rondon, não contentes com os assassinatos, alguns fazendeiros “abriam os ventres de índias que se achavam em adiantado estado de gravidez”. Ações desta natureza são definidas como etnocídio e persistem, com outras roupagens, até o tempo presente. Por isso em Mato Grosso do Sul os indígenas são percebidos por muitos como não-humanos, chamados pejorativamente de “bugres”.

Dessa forma, no âmbito da constituição do Estado Brasileiro e da formação da sociedade nacional, foram registradas sucessivas tentativas de exploração, dominação e até extermínio contra os povos indígenas. À medida que se estabeleceram na região, fazendeiros incorporaram territórios indígenas ao seu patrimônio. Muitos conseguiram isso requerendo junto às autoridades estaduais, sem muitas dificuldades e por meio pouco ortodoxos, títulos de propriedade privada da terra. Muitas áreas atingiam um tamanho tal que era demarcada vagamente em função da particularidade geográfica de cada região: córregos, rios, morros etc. Embora tivessem logrado a titularidade de vastas extensões, frequentemente não tomaram posse imediata das terras, onde comunidades indígenas conseguiram permanecer, de maneira mansa e pacífica, por décadas sem grandes infortúnios.

À frente desses fazendeiros emergiu um grupo de proprietários de terra que se enriqueceu ao longo dos anos e, aproveitando-se da influência que tinham nos governos municipais, estadual e federal, ganhou poderes sobre pessoas e coisas. Mais ainda, promoveu todo tipo de violação dos direitos elementares dos povos indígenas. Constituiu-se, assim, uma elite ruralista com muita influência nos poderes constituídos na República, isto é, no próprio Estado Brasileiro. Seus feitos são enaltecidos por uma historiografia colonialista, geralmente financiada com dinheiro público, ligada à construção de uma história oficial e de uma identidade sul-mato-grossense, geralmente em oposição à de Mato Grosso, particularmente de Cuiabá.

Assim, no tempo presente observamos mais uma situação de conflitos entre ruralistas e comunidades Guarani, Kaiowá e Terena. O resultado disso foi mais um indígena assassinado durante a retomada de uma área oficialmente declarada como terra indígena, chamada Ñande Ru Marangatu, localizada no município de Antônio João, na fronteira com o Paraguai. Sobre o assunto, até o momento nenhuma autoridade esclareceu de onde veio o tiro que no dia 29 de agosto de 2015 ceifou a vida do Kaiowá Simeão Fernandes Vilhalba, 24 anos. A julgar pelo histórico do assassinato de indígenas no estado, como aconteceu com Nelson Franco (1952) e Marçal de Souza (1983), este será mais um caso em que os criminosos permanecerão impunes.

As autoridades máximas estaduais, com destaque para o governador do estado, em tese teriam a obrigação de contribuir positivamente para a elucidação dos fatos e repressão a todo tipo de violência armada contra povos originários. Trata-se de uma responsabilidade inerente ao cargo para o qual foram eleitos e em defesa do Estado Democrático de Direito, cujo conceito não se limita à defesa da propriedade privada da terra e da classe social à qual pertencem. Todavia, uma conduta desse tipo é incompatível com o protagonismo que certas autoridades tiveram no chamado Leilão da Resistência, ação planejada e executada por ruralistas para arrecadar fundos e financiar ações contra a retomada de terras indígenas, com a contratação de milícias armadas, tal qual noticiado pela imprensa desde 2013.

Por isso em Mato Grosso do Sul há uma situação peculiar da qual parte da população do estado não sente orgulho: quem não é fazendeiro, será tratado como boi bagual e, portanto, como não-humano ou animal selvagem, sobretudo os povos originários, comunidades tradicionais e segmentos de classes sociais em situação de vulnerabilidade social.

(*) Jorge Eremites de Oliveira é doutor em História (Arqueologia) pela PUCRS e docente da Universidade Federal de Pelotas e Paulo Marcos Esselin é doutor em História (História Ibero-Americana) pela PUCRS e docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Ibama nega licença de operação a Belo Monte (Estadão)

ANDRÉ BORGES – O ESTADO DE S. PAULO

22 Setembro 2015 | 20h 24

Sem a autorização, a usina fica impedida de encher o reservatório para começar a gerar energia; instituto lista 12 exigências que não foram atendidas pela concessionária.

Hidrelétrica de Belo MonteHidrelétrica de Belo Monte

Atualizado às 23h00

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou o pedido da concessionária Norte Energia para emissão da licença de operação da hidrelétrica de Belo Monte, em construção no Pará. Sem a licença, a usina fica impedida de encher o seu reservatório e, consequentemente, de iniciar a geração de energia.

Na noite desta terça-feira, a Norte Energia, por sua vez, declarou que o parecer do Ibama não é uma “negativa de seu pedido” e sim um prazo para que a concessionária “faça a comprovação das ações compensatórias”. Essa comprovação, segundo a empresa, será dada ainda nesta semana.

Após análise criteriosa das condicionantes socioambientais que teriam de ser cumpridas pela Norte Energia, o Ibama concluiu que foram constatadas “pendências impeditivas” para a liberação da licença. Em despacho encaminhado hoje à diretoria da concessionária, o diretor de licenciamento do Ibama, Thomaz Miazaki, elencou 12 itens que não foram atendidos pela empresa.

“Diante da análise apresentada no referido Parecer Técnico, bem como do histórico de acompanhamento da equipe de licenciamento ambiental da UHE Belo Monte, informo que foram constatadas pendências impeditivas à emissão da Licença de Operação para o empreendimento”, declara Miazaki.

Para liberar o empreendimento, o Ibama exige o cumprimento de uma série de empreendimentos. Na área logística, afirma que é preciso que sejam concluídas obras de recomposição das 12 interferências em acessos existentes na região, além da implantação das oito pontes e duas passarelas previstas para adequação do sistema viário de Altamira, município mais afetado pela usina.

O órgão pede a conclusão das obras de saneamento nas vilas “Ressaca” e “Garimpo do Galo”, a comprovação de que o sistema de abastecimento de água (captação superficial) nas localidades em vilas próximas à usina encontra-se em operação para atendimento da população local e apresentação de cronograma e metas para operação do sistema de esgotamento sanitário de Altamira. “As metas deverão considerar os dados da modelagem matemática de qualidade da água dos Igarapés de Altamira apresentada pela Norte Energia”, declara o Ibama.

Os atrasos em reassentamentos também foram destacados pelo instituto. O órgão pede a conclusão do remanejamento da população atingida diretamente pela usina, especialmente aquelas localizadas na área urbana de Altamira, além dos ribeirinhos moradores de ilhas e “beiradões” do rio Xingu. É cobrado o cronograma para conclusão da implantação da infraestrutura prevista para o reassentamentos urbanos coletivos (RUCs). O mesmo vale para moradores da área rural.

A Norte Energia terá que concluir a execução do projeto de “demolição e desinfecção de estruturas e edificações” na região atingida pelo reservatório e apresentar planejamento para o “cenário de necessidade de tratamento das famílias que, embora localizadas fora da área diretamente atingida, poderão sofrer eventuais impactos decorrentes da elevação do lençol freático em áreas urbanas de Altamira, após a configuração final do reservatório Xingu”.

Finalmente, a empresa terá que concluir as metas de corte e limpeza de vegetação definidas no “plano de enchimento”. Todas as exigências deverão ser alimentadas com registros fotográficos e demais documentos.

Sacred Land of Amazonian Munduruku To Be Flooded By Dam (CIP Americas Program)

By   |  24 / August / 2015

Munduruku-2The Munduruku are one of the largest ethnic groups in Brazil with a population of over thirteen thousand. For the last three centuries they have lived in the heart of the Amazon along 850 kilometers the Tapajós river in the eastern region of the state of Pará. This area is also home to the largest gold deposits in the world. The Tapajós is the last of the great Amazonian rivers without a dam but now the Brazilian government has approved plans for the construction of seven large hydroelectric plants on its river basin. These will have serious implications for at least one hundred indigenous settlements.

The main proposed hydroelectric plant, known as the Tapajós Complex, is in Sāo Luis de Tapajós. Constructio is scheduled to begin in 2017, to come online by 2020. It will flood out an area of 722,25 square kilometers, and will be the third largest dam in the country.

Most of the settlements along the river will be adversely affected by the dam, but it is undoubtedly the Sawré Muybu Indigenous Territory that will suffer the most. They will have to abandon their homes as the projected flooding will cover most of the area they consider their territory.

“That is exactly what they want. They want us as far away as possible from here. We are at war to defend our land. They will have to carry our dead bodies out of here,” said Rozeninho Saw in an interview with the Americas Progam.

“The Munduruku have always been known as great warriors,” he noted, recalling the tribe’s history. “In fact, the word ‘Munduruku’ refers to “red ants” because, like them, our ancestors left for battle well organized and attacked en masse.”

The federal government’s plan to expel the Munduruku from their ancestral lands goes against the constitution because the displacement of indigenous people is prohibited under Article 231. Article 231 recognizes the right of indigenous people to live permanently on their traditional territories. In an attempt to make the project legal, the Brazilian government has argued that the territory of the Sawre Muybu has never been officially, and therefore legally, recognized.

The government’s case, and along with it the plans for the hydroelectric project, has come under increased pressure due the disclosure of a seven-year study undertaken by the National Foundation of the Indian (FUNAI) that clearly outlines the historical inhabitancy by the Munduruku people of the territory in question as per the established guidelines of defining ancestral lands and sacred sites. The report, completed in 2013, proves the Munduruku’s claim to the land and establishes boundaries of the Sawre Muybu Indigenous Territory. It remained unpublished by the presidency of FUNAI until it was recently leaked to some media outlets.

The report concludes, “Based on an exhaustive investigation that addressed anthropological, ethnohistoric, cartographic, environmental, and topographic concerns, the working group fully recognizes the traditional character of the Munduruku people in the specified territory.”

Tapajós: Predominantly Indigenous 

While non-indigenous communities are now increasingly populating the Tapajós area, the FUNAI report states that many parts of it still remain exclusively inhabited by indigenous people. Non-indigenous colonization can be traced back to the 19th century when the area absorbed many migrant workers catering to the rubber boom. This influx declined and ultimately stopped with the fall in the price of latex on the world market.

“Those migrants who remained and settled in the area, adapted to the indigenous customs and were assimilated into the community, not the other way round,” the study states. This lack of non-indigenous inhabitants is juxtaposed with the overwhelming presence of the Munduruku, and some other ethnicities predating the European conquest of the Amazon but little is known of their origins or history.”

Today, the region is still bereft of a significant non-indigenous presence. Most of the non-indigenous population is involved in illegal mining and overfishing.

FUNAI, the government body entrusted with establishing and implementing the nation’s indigenous policies, stipulates that there are a total of eleven Munduruku indigenous territories in the state of Pará. Ten of these are located along the margins of the Tapajós, however only two are officially recognized and geographically demarcated. The remaining territories are still undergoing this process of demarcation.

Tierra Madre 

Munduruku-1The Sawré Muybu Indigenous Territory, as defined in report, encompasses an area of 178,173 hectares along 232 kilometers of the river through the municipalities of Itaituba and Trairão in the state of Pará. Where the Tapajós meets the Amazon River, four different tribes have settled (the Praia do Mangue, Praia do Índio, Sawre Apompu and Sawre Juybu). But it is the three main settlements (the Sawre Muybu, Ms Dace Watpu and Karo Muybu), which play a central and vital role for the whole Munduruku ethnic population. “We are a sort of mother ship for all the other settlements,” explains Rozeninho, “because our territory is the largest. The other tribes come here to get food and materials and to find someone to marry.”

The FUNAI report goes on to state that the central area of the Munduruku territory is host to many springs which feed into the Tapajós and which are “the source of habitats ecologically unique to the area in terms of flora and fauna (especially for hunting) and consequently offer the population of the Sawre Muyru an appropriate and vital source for nourishment and provide them with the raw materials needed for their tools and shelter.”

The Sawre Muybu IT also contains many of the Munduruku sacred sites, like the Igarapé Sāo Gonçalo and the Igarapé do Fecho, both of which will completely disappear underwater when, and if, the area is flooded by the dam. The small canal known as the Sāo Gonçalo, narrow but navigable, flows into the Tapajós at the exact location of the Ancient Village of the Munduruku. “This small canal is fundamental to one of the main rituals, known as the Tinguijada, of the Munduruku.   It is also the source of many palm, copal, and patauá trees which attract many species the Munduruku hunt,” the FUNAI report specifies. Likewise, the Igarapé do Fecho, another small canal that flows into the Tapajós, is fundamental to the mythology of the Munduruku as they “believe it is the birthplace of the Tapajós,” adds Rozeninho.

According to a petition filed by the Federal Prosecutor asking the Supreme Court to suspend the license for the project on the grounds of it being a violation of the rights of the Munduruku, it lists the violation of sacred sites relevant to the beliefs, customs, traditions, symbology and spirituality of these indigenous populations, all of which are protected by the constitution, as its main reason.

The territory of Sawre Muybu coincides geographically with the Flora Itaituba II special conservation area. This alone should be grounds to impede it from being flooded. But in January 2012, President Dilma Rousseff ordered the scaling down in size of seven areas of special conservation, one of them being Flora Itaituba II .   As a result, the unprotected area now falls squarely within the boundaries of the Munduruku territories and is now destined to become part of the reservoir formed by the dam. These perimeters were officially reduced and redefined by the government under the Medida Provisional (MP) n. 558/2012 which was formally passed into law n.12.678/2012.

From Tapajós To The World 

The immense Tapajós River is comprised of a series of islands, lakes and lagoons that are rich in fish stock. It is also a major conduit for the transportation of Amazonian produce such as nuts, bacaba, burtiti and copal. Just at the point where the Igarapé do Fecho disgorges into the Tapajós, the main river narrows considerably due to protuberances on both sides of the bank. The bedrock is sheer granite, and large boulders and strong currents make the navigation of large boats almost impossible.

The seven planned hydroelectric projects will raise the water level, converting the river into a succession of reservoirs. This alteration will most certainly facilitate the navigation of the river for larger vessels. Given its strategic position connecting one of Brazil’s largest agricultural production (of soya and maize) with the newly established centers of mineral exploration (of gold and aluminum), traffic along the river will undoubtedly ramp up on a grand scale from the north of Pará, onto the Amazon River, and out towards the Atlantic Ocean.

These hydroelectric plants are thus seen to be a key component to the exploitation of the minerals in the region. “They are fundamental to the functioning of the industry because they will provide them with the electricity necessary to run the mines. “In reality this completely negates the rights of the people who inhabit the region,” Nayana Fernandez, director of the documentary “Indigenas Munduruku: Weaving Resistance” and activist for the indigenous of the region, told CIP Americas.

China: Eletrobrás Furnas, closely tied to the Federal Ministry of Mines and Energy, recently signed a memorandum of cooperation with China Three Gorges International Corporation (CTG) to build the Sāo Luis do Tapajós Hydroelectric Dam. This agreement consolidates the company’s strategy of positioning itself among the largest energy producers in the world.

Minerals For the World 

Munduruku-4The proliferation of gold prospecting and mining is another factor adding to the growing environmental crisis in the Tapajós region. Known to have the largest untapped deposits in the world, gold nevertheless has been mined in the region since the 1950s, the FUNAI report states. “In the 1980s the municipality of Itaituba was the largest gold producer in the world, extracting an estimated ten tons per month,” according to the Office of Mining and the Environment of Itaituba and the Tapajós Association of Gold Producers.

Data provided by the Department of Mineral Production (DNPM) and analyzed in the FUNAI report shows that an official permit for gold mining issued was issued in 2013 to the Miners Association of the Amazon, which guarantees the legitimacy of the licenses on file at the DMPM. No less than 94 of these licenses infringe on the territorial rights of the Sawre Muybu IT.

In 2012 the Institute of Socioeconomic Studies published a report stating that in the decade between 2000 and 2010 exports from the region officially designated the “Legal” Amazon increased much more the exports from other Brazilian regions, namely by 518% versus 366%, or from 5,000 million dollars in 2000 to 26,000 million in 2010.

The state of Pará was itself responsible for 48% (or 12,800 million dollars) of the total value of exports in 2010. The schedule of exports details the predominance of minerals, followed by farming produce, and meat in particular. Three companies – Vale, Alunorte, and Albrás (aluminum and iron ore) – accounted for 78% of the export market value, or 10,000 million dollars, in the state of Pará.

Aluminum mining consumes almost 6% of the energy generated in the Brazil. According to Celio Bermann, “aluminum is sold at a relatively insignificant price on the international market and generates negligible employment figures. The work force employed by the aluminum production industry is 70 times smaller than the work forced generated for the food and drinks industry, and 40 times smaller than that employed by the textile industry.”

In Brazil, transnational companies that control 70% of its distribution and 30% of its production primarily provide for energy. 665 companies consume 30% of the total energy produced by the hydroelectric plants.

Records show that over 2000 hydroelectric dams have been constructed up until the year 2012. Over a million people have been expelled from their homes and land as a result; 70% of them without being indemnified in any way. China, Spain and the United States were the biggest investors in Brazil in 2014. According to the CEPAL, the Economic Commission for Latin America and the Caribbean, Chinese foreign direct investment topped 1,161 million dollars in 2015, mainly due to increased investment in oil, electrical distribution and manufacturing.

Impact

Although work has not yet begun in Tapajós, the Munduruku are already subject to the impact of the project on their lives on a daily basis. “The simple act of not publishing the report specifying the demarcation lines of the Sawre Muybu territory is an important impact of the project on the community. As is the process of self-demarcation of their sacred lands, undertaken by the indigenous communities themselves. They have been forced to go down this route in order to defend the concept of what it means to be Munduruku in light of the fight for the right to remain in the land of their ancestors,” says Nayana Fernandez. She goes on to say that the Munduruku’s prime focus and main weapons in the fight are the experiences of other traditional communities who have already been subject to the myriad effects of the hydroelectric plants in their midst as well as the dire warnings of environmental disaster issued by many studies and reports.

Munduruku-8Hydroelectric dams in other rivers – the River Teles Pires, or the Belo Monte Dam in the Xingu River, for example – are prime examples of the most extreme of consequences.

“In order to build the Teles Pires Dam, construction companies dynamited the waterfalls known as “Sete Quedas (Seven Falls)” which were a sacred site for the Kayabi, the Apiaka, and the Munduruku. They were allowed to commit this ethno historic crime without having had any prior consultation with the local communities, as is required by the Convention No. 169 of the International Labor Organization to which Brazil is signatory,” she asserts.

The landscape will be altered dramatically, as will the behavior and flow of the river and its tributaries. This will, in turn, create social and economic problems, not least through the appropriation and segregation of large spaces to specifically and exclusively designate them for the transport of materials, for the warehousing of produce and for waste management.

FUNAI’s impact report details alterations in the level and direction of the river; the denuding of vegetation and habitats for fauna, specifically in forested areas and in freshwater marshes and wetlands; the severe interference in the migration routes of fish, and the increased endangerment of animal species, among them: manatees, freshwater dolphins, pink porpoises, caimans, Amazonian turtles, amarillos, otters, and lizards unique to the environment. The flooding will furthermore result in the disappearance of the islands, lagoons, and freshwater swamp forests that surround the Tapajós River, and consequently in the disappearance of their unique habitats too.

No Funding For The Recognition of Ancestral Lands? 

In May 2014 the public prosecutor lodged a case in the Federal Court of Itaituba against FUNAI for delaying the demarcation process of the Sawre Muybu Indigenous Territory. The Munduruku met with Maria Augusta Assirati, ex- president of FUNAI, in Brasilia in September of 2014. It was at that meeting that she admitted that the delay in the publication of the report was due to interference from various branches of the government with interests in the hydroelectric project.

The public prosecutor proceeded with his case in the courts insisting on legal territorial demarcation for the Sawre Muybu well into 2015. Eventually the court ruled that FUNAI was legally obliged to continue with the process of certifying and demarking the territory. It was further stipulated that until FUNAI complied, the organization would have to pay a daily fine of 900 US dollars to the Munduruku. FUNAI has appealed the decision but as yet there has been no final ruling.

According to the arguments presented in court by the public prosecutor, FUNAI maintained that priority in the national demarcation process of indigenous lands had been allocated to the indigenous territories of the south and southeast and that there were no available public funds for the same process in the Amazonian region. The prosecutor rejected that argument saying that public funds were utilized for the preparation of the report, therefore they were available.

“It would be a waste of public money if the report were archived after the great investment incurred in its preparation and, above else, the unquestionable violation of the constitutional rights of indigenous people that would result if that were to occur,” said the prosecutor Camoēs Buenaventura.

Guarding Ancestral Territory 

Munduruku-5Munduruku art has as its central motif the figure of the Jabuti, an Amazonian turtle. Legends say the animal’s shrewdness and community spirit helped it defeat its most feared enemies.

“We have to use our own wisdom to quench the attempted extermination of our people. The enemies of the indigenous communities behave like the Great Anaconda who clasps her victims so hard their bones crush before suffocating them. But Jabuti gave us a lesson in how to defeat them,” say the Munduruku in a letter signed collectively.

The Munduruku’s last resort has been to self-demarcate their ancestral lands. The first step taken to recuperate and reclaim the territory as their own was in October of 2014, using as their geographical point of reference the same territorial limits as those outlined in the FUNAI report. Precisely because the federal government did not officially recognize this report, the Munduruku felt compelled to uphold the position articulated in it.

“The self-demarcation of the Sawre Muybu Indigenous Territory is a resistance movement against those developments proposed by the government and foreign multinational companies in the Amazon. These include hydroelectric dams, the exploitation of the forest, and the expansion of the agroindustry.   It also represents the organization of the indigenous people to collectively guard against and protect the rights of the indigenous communities in light of the illegal occupation of their lands and the continued abuse of their natural resources,” their letter continues.

The Munduruku have recently issued a second salvo in the quest to recuperate and reclaim their territory. In July 2015 they wrote, “We have unquestionable evidence of the manmade destruction of our fruit producing trees. We take care of these trees because not only do we eat the fruit, they are the future we will leave to our grandchildren. We can see that there are not many left, almost none on our lands. The fruit provides nourishing juice for our children and all we can see is its decimation. We have always said that the pariwat (the white man) is not aware of any of this. This is why we are engaged in this process of self-demarcation. We do not think as the pariwat who is destroying our trees thinks.”

According to Rozeninho, the Munduruku are convening a general meeting for September 2015 to evaluate the progress of the campaign so far and to discuss what future steps they will take.

Photos by Santiago Navarro F. 

Translation by Isabella Weibrecht  

Laymert Garcia dos Santos: ‘Hoje, xamanismo é alta tecnologia de acesso’ (O Globo)

Doutor pela Sorbonne e estudioso dos ianomâmis, paulista que montou ópera com cosmologia indígena em Munique veio ao Rio para aula na EAV Parque Lage

POR ARNALDO BLOCH

Na oca do Parque Lage, Laymert capta energias ianomami Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo

“Nasci numa cidade que mal conheço, Itápolis, mistura de pedra, (‘ita’), do guarani, e cidade (‘polis’), do grego: um pouco a essência brasileira. Estudei no Rio e passei décadas na França. Lecionei muitos anos no Brasil, trabalhando relações entre tecnologia, cultura, ambiente e arte. Sou casado, tenho um filho patologista”

Conte algo que não sei. 

Hoje, o que a gente considerava o sobrenatural indígena, o xamanismo, é uma alta tecnologia de acesso o a mundos virtuais, com lógicas que não são ocidentais, mas no final acabam chegando, cada vez mais, a uma espécie de cruzamento com a perspectiva tecnocientífica racional.

Em que ponto se dá esse cruzamento?

A ciência já sabe que existe, na Amazônia, um apocalipse anunciado, se a devastação persistir. Há um milênio os ianomâmis falam de um apocalipse mítico: quando não houver mais xamãs, o céu vai cair… pois são eles que seguram o céu, junto com os espíritos auxiliares humanimais.

As profecias convergem para a ecologia de ponta… 

Sim. E na ópera que fizemos essas duas perspectivas acabam convergindo para um final catastrófico. Na perspectiva ianomâmi, o homem branco é inumano, um vetor de destruição, e produz a xawara, espécie de fumaça canibal, que vai devorando florestas, espalhando as doenças e epidemias, contaminando rios.

Deve ser complexo transpor uma cosmologia dessas para os palcos de Munique…

Ficamos um tempo na aldeia Demini, semi-isolada, e trabalhamos com os xamãs, em parceria com o Instituto Goethe, o Sesc São Paulo, o ZKM (maior centro de arte e tecnologia da Europa), a Bienal de Teatro Música de Munique e gente da comunidade científica.

Como levar o espírito da aldeia a uma cena de ópera? 

Depois de todo o trabalho conceitual na aldeia, chegamos a uma encenação do conflito entre a xawara e o xamã. O público assistia circulando no próprio palco, um labirinto. O xamã era representado pelo cantor suíço Christian Zehnder, que já trabalhou na África e na Ásia e é um dos raros no mundo a usar a técnica do voice over, que permite emitir duas vozes ao mesmo tempo, recurso gutural. Quem fazia a xawara era um grande cantor de idade já, o inglês Phil Minton, cantor de jazz.

E tal da tecnologia,era só coadjuvante da tragédia? 

Num espaço comprid se dispunha uma sequência de telas, e eram projetadas imagens e luzes que traduziam os fenômenos da selvada através de algoritmos. O público ficava perdido na “floresta,” o xamã numa ponta, xawara na outra, além de um político, um missionário e um cientista.

Os ianomâmis assistiram?

A maioria, não. A ópera não foi feita para eles. Mesmo assim, foram a Munique o chefe Davi Kopenawa e dois xamãs.

E como reagiram? 

Primeiro, ficaram satisfeitos com o fato de um público tomar conhecimento, de maneira séria, do que são a cosmologia e o pensamento deles. O caráter estratégico. Mas da a apresentação em si eles riram: acham que arte é coisa de criança, não é o sentido profundo do fenômeno. Que aquela ópera era uma brincadeira perto do xamanismo. Um professor de filosofia percebeu aí uma simetria: os brancos acham os índios infantis por suas crenças, e eles nos acham infantis por nossas representações de sua realidade.

O que a experiência trouxe a você como pessoa?

Fui muitas vezes. Nos começo dos anos 2000 presidi uma ONG que lutou pela defesa e preservação do território ianomami. Estar com eles ajuda a gente a entender não só o que é o outro, mas o que somos. É um tipo de privilégio. Pena que pouca gente teve ou tem um contato de pura positividade com esse mundo que, para nós, é quase sempre vivido na esfera do negativo. Pela educação que a gente tem, pela tradição histórica do modo como os brasileiros tratam os índios. No Japão, seriam seres preciosos, sagrados.

Eduardo Viveiros de Castro: ‘O que se vê no Brasil hoje é uma ofensiva feroz contra os índios’ (O Globo)

Antropólogo lança livro ‘Metafísicas canibais’ e expõe fotografias na mostra ‘Variações do corpo selvagem’

POR GUILHERME FREITAS


Índio com filmadora de Viveiros de Castro no Alto Xingu, em 1976. – Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

RIO – Certa vez, ao dar uma palestra em Manaus, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro deparou-se com uma plateia dividida entre cientistas e índios. Enquanto apresentava suas teses sobre o perspectivismo ameríndio, conceito desenvolvido a partir da cosmologia dos povos com que estudou na Amazônia, notou que a metade branca da plateia ia perdendo o interesse. No fim da palestra, diante do silêncio dos cientistas, uma índia pediu a palavra para alertá-los: “Vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse”.

A cena, relembrada por Viveiros de Castro em entrevista ao GLOBO, remete a uma das teses centrais de seu novo livro, “Metafísicas canibais” (Cosac Naify e n-1 Edições). O autor descreve-o como a “resenha” ou “sinopse” de uma obra que nunca conseguirá concluir e que se chamaria “O Anti-Narciso”. Nela, aproximaria filosofia e antropologia, Deleuze e Lévi-Strauss, para investigar a pergunta: “o que deve conceitualmente a antropologia aos povos que estuda?”. As culturas e sociedades pesquisadas pelos antropólogos, escreve, “influenciam, ou, para dizer de modo mais claro, coproduzem” as teses formuladas a partir dessas pesquisas.

Um dos mais influentes antropólogos hoje, autor de “A inconstância da alma selvagem” (Cosac Naify, 2002) e professor do Museu Nacional da UFRJ, Viveiros de Castro desenvolve em “Metafísicas canibais” suas ideias sobre o perspectivismo, formadas a partir de ideias presentes em sociedades amazônicas sobre como humanos, animais e espíritos veem-se a si mesmos e aos outros. Ele descreve a antropologia como uma forma de “tradução cultural” e pleiteia que seu ideal é ser “a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento”. O que implica reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena: “não podemos pensar como os índios; podemos, no máximo, pensar com eles”.Os primeiros contatos de Viveiros de Castro com esse universo estão registrados nas fotografias que fez durante o trabalho de campo com os índios Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina, entre meados dos anos 1970 e início dos 1990. Parte dessas fotos será exibida pela primeira vez na exposição “Variações do corpo selvagem”, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a partir do dia 29 de agosto. Com curadoria da escritora e crítica de arte Veronica Stigger e do poeta e crítico literário Eduardo Sterzi, a mostra reúne ainda fotos feitas pelo antropólogo nos anos 1970, quando trabalhava com o cineasta Ivan Cardoso, mestre do gênero “terrir” e diretor de filmes como “O segredo da múmia” (1982) e “As sete vampiras” (1986).

Em entrevista por e-mail, Viveiros de Castro, de 64 anos, fala sobre o livro e a exposição e discute outros temas de sua obra e sua atuação pública, como a crise climática, abordada em “Há mundo por vir?” (Cultura e Barbárie, 2014), que escreveu com a filósofa Déborah Danowski, com quem é casado. Fala também sobre a resistência dos índios contra o “dispositivo etnocida” armado contra eles no Brasil, que mira “suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia e sua autonomia política interna”.

Numa nota em “Metafísicas canibais”, você comenta que, sempre que expôs a ouvintes ameríndios suas teses sobre o perspectivismo, eles perceberam as implicações que elas poderiam ter para “as relações de força em vigor entre as ‘culturas’ indígenas e as ‘ciências’ ocidentais que as circunscrevem e administram”. Quais seriam essas implicações? O que interlocutores ameríndios costumam lhe dizer sobre o perspectivismo?

“Sempre que” é um pouco exagerado; dá impressão que eu faço tours de seminários sobre o pensamento indígena para ouvintes indígenas… Eu tinha em mente, naquela nota, uma ocasião em particular. Em 2006, a convite do Instituto Socioambiental, fiz uma palestra para uma plateia de cientistas do INPA, em Manaus, sobre as cosmologias amazônicas e as concepções indígenas da natureza da natureza, por assim dizer. Ao entrar na sala, descobri, com não pouca ansiedade, que apenas metade da plateia era composta de cientistas (biólogos, botânicos, pedólogos etc.) — e que a outra metade da sala estava cheia de índios do Rio Negro. Falar do que pensam os índios diante de uma plateia de índios não é exatamente uma situação confortável. Decidi então apresentar uma versão esquemática do que eu sabia a respeito do modo como o que chamei de “perspectivismo ameríndio” se manifestava nas culturas rionegrinas (povos Tukano e Aruaque, principalmente). No meio da palestra fui percebendo os cientistas cada vez menos interessados naquilo, e os índios cada vez mais agitados. Na hora das perguntas, nenhum cientista falou nada. Os índios, com sua cortesia habitual, esperaram os brancos presentes pararem de não dizer nada até que eles começassem a falar. Uma senhora então se levantou e, dirigindo-se à metade branca e científica da plateia, disse: “vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse: que vocês não veem as coisas direito; que, por exemplo, os peixes, quando fazem a piracema (a desova) estão na verdade, lá no fundo do rio, transformados em gente como nós, fazendo um grande dabucuri (cerimônia indígena típica da região)”. E outro índio perguntou: “aquilo que o professor disse, sobre os morros da região serem habitados por espíritos protetores da caça, é verdade. Mas isso quer dizer então que destruir esses morros com garimpo e mineração é perigoso, não é mesmo? E não quereria dizer também que índio não pode ser capitalista?” Percebi, naquele confronto entre cientistas que estudam a Amazônia e os índios que vivem lá, que os primeiros estão interessados apenas no saber indígena que interessa ao que eles, cientistas, já sabem, isto é, àquilo que se encaixa na moldura do conhecimento científico normalizado. Os índios são “úteis” aos cientistas na medida em que podem servir de informantes sobre novas espécies, novas associações ecológicas etc. Mas a estrutura metafísica que sustenta esse conhecimento indígena não lhes dizia absolutamente nada, ou era apenas um ornamento pitoresco para os fenômenos reais. E os índios, ao contrário, se interessaram precisamente pelo interesse de um branco (eu) sobre isso. O que me deu muita coisa a pensar.

Mais geralmente, porém, tenho tido notícia da difusão lenta e episódica, mas real, de meus escritos (e os de meus colegas) sobre isso que chamei de “perspectivismo” junto a pensadores indígenas, ou muito próximos politicamente a eles, em outros países da América Latina (o livro foi traduzido para o espanhol, assim como diversos artigos de mesmo teor). Isso me alegra e, por que não dizer, envaidece muito. Mil vezes poder servir, com esses meus escritos aparentemente tão abstratos, à luta indígena pela autonomia política e filosófica que ser lido e comentado nos círculos acadêmicos — o que também não faz mal nenhum, bem entendido.

Eduardo Viveiros de Castro na Flip 2014 – Arquivo/André Teixeira/2-8-2014

No livro, você pergunta: “O que acontece quando se leva o pensamento nativo a sério?”. E continua: “Levar a sério é, para começar, não neutralizar”. Partindo destes termos, quais são as maiores ameaças de “neutralização” do pensamento indígena no Brasil hoje?

‘O que se pretende é transformar o índio em pobre, tirando dele o que tem — suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia, sua autonomia política interna — para obrigá-lo a desejar consumir o que não tem.’

– EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO, Antropólogo

Neutralizar este pensamento significa reduzi-lo ao efeito de um complexo de causas ou condições cuja posse conceitual não lhes pertence. Significa, como escrevi no livro, pôr entre parênteses a questão de saber se e como tal pensamento ilustra universais cognitivos da espécie humana, explica-se por certos modos de transmissão socialmente determinada do conhecimento, exprime uma visão de mundo culturalmente particular, valida funcionalmente a distribuição do poder político, e outras tantas formas de neutralização do pensamento alheio. Trata-se de suspender tais explicações-padrão, típicas das ciências humanas, ou, pelo menos, evitar encerrar a antropologia nela. Trata-se de decidir, em suma, pensar o outro pensamento como uma atualização de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral, o “nosso” inclusive. Tratá-lo como tratamos qualquer sistema intelectual ocidental: como algo que diz algo que deve ser tratado em seus próprios termos, se quisermos respeitá-lo e incorporá-lo como uma contribuição singular e valiosa à nossa própria e orgulhosa tradição intelectual. Só depois disso poderemos, se tal for nossa veleidade, anatomizá-lo e dissecá-lo segundo os instrumentos usuais da redução científica das práticas de sentido humano.

Mas sua pergunta acrescentava “no Brasil hoje”. No Brasil hoje o que se vê é muito mais que uma “neutralização do pensamento nativo”. O que se vê é uma ofensiva feroz para acabar com os nativos, para varrer suas formas de vida (e portanto de pensamento) da face do território nacional. O que se pretende hoje — o que sempre se pretendeu, mas hoje os métodos são ao mesmo tempo cada vez mais sutis e eficazes sem deixarem de ser brutais como sempre foram — é silenciar os índios, desindianizar todo pensamento nativo, de modo a transformar aquela caboclada atrasada toda que continua a “rexistir” (este é o modo de existência dos índios no Brasil hoje: a “rexistência”) em pobre, isto é, em “bom brasileiro”, mal assistencializado, mal alfabetizado, convertido ao cristianismo evangélico por um exército de missionários fanáticos, transformado em consumidor dócil do estoque infinito de porcarias produzidas pela economia mundial. Em suma: fazer do índio (os que não tiverem sido exterminados antes) um “cidadão”. Cidadão pobre, é claro. Índio rico seria uma ofensa praticamente teológica, uma heresia, à ideologia nacional. Para fazê-lo passar de índio a pobre, é preciso primeiro tirar dele o que ele tem — suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia, sua autonomia política interna —‚ para obrigá-lo a desejar consumir o que ele não tem — o que é produzido na terra dos outros (no país do agronegócio, por exemplo, ou nas fábricas chinesas).

Como avalia o estado atual das mobilizações indígenas contra intervenções do Estado em seus modos de vida, como na região do Xingu, com a construção da usina de Belo Monte?

Os índios fazem o que podem. Estão lutando contra uma máquina tecnológica, econômica, politica e militar infinitamente mais poderosa do que eles. No caso de Belo Monte, já perderam. Mas não sem dar um bocado de trabalho ao “programa” que esse governo, cujo ódio estúpido aos índios só é comparável ao que se via nos sombrios tempos da ditadura, vai implantando a ferro e a fogo na Amazônia inteira, inclusive fora do Brasil. Mas a luta continua, e ainda tem muito índio disposto a resistir (a “rexistir”) ao dispositivo etnocida armado contra eles, no Mato Grosso do Sul, no Tapajós, no Xingu, no Rio Negro e por aí afora.

Você tem trabalhado com o conceito de Antropoceno (que já definiu como o momento em que “o capitalismo passa a ser um episódio da paleontologia”) para alertar sobre os efeitos destrutivos da ação humana sobre o planeta. O que precisa mudar no debate público sobre a crise climática?

Muito. Isso tudo vai descrito no livro que coautorei com a filósofa Déborah Danowski, “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, onde comparamos, de um lado, os efeitos já instalados e aqueles por vir da catástrofe ecológica desencadeada pela economia movida a combustíveis fósseis, e tudo o que vem com ela (inclusive o capitalismo financeiro e cognitivo), com os modos com que esse tema arquimilenar, o “fim do mundo”, vem sendo tematizado pela imaginação estética, política e mitológica de nossa própria civilização moderna, de outro lado. E por fim, tecemos considerações sobre como a “mudança de Era” (como dizem os camponeses nordestinos para se referir aos efeitos já palpáveis das mudanças climáticas) por que passamos hoje é pensada pelos índios, em suas mitologias e em sua prática ecopolítica concreta. Penso que as ciências humanas têm sido lentas em assumir que esta questão, que a palavra “Antropoceno” resume, é a questão mais grave e urgente da história humana desde o começo da era Neolítica, e que estamos entrando em uma situação inédita para a espécie como um todo. O debate na esfera pública tem sido laboriosamente mitigado, quando não silenciado, por uma poderosíssima máquina de propaganda financiada pelos principais interessados no status quo, a saber, as grandes corporações petroleiras e outras, como a Monsanto, a Nestlé, a Bunge, a Dow, a Vale, a Rio Tinto etc. Sem falarmos nos governos nacionais, meros instrumentos de polícia desses atores econômicos. Mas as coisas começam a mudar, devagar, mas mudando. Infelizmente, “devagar” é péssimo. Porque a aceleração dos processos de desequilíbrio termodinâmico do planeta marcha em ritmo crescente. O tempo e o espaço entraram em crise, escapam-nos por todos os lados. Hoje a luta política fundamental, a ser levada a nível mundial, é a luta pela liberação do espaço e do tempo.

Você afirma que o perspectivismo não é uma forma de relativismo cultural e, ao conceito corrente de “multiculturalismo”, contrapõe a noção de “multinaturalismo”. Quais são os problemas do relativismo cultural e como o multinaturalismo os evita?

‘O problema que se coloca não é o da “tolerância” (só os donos do poder são “tolerantes”), mas o da diplomacia’

– EDUARDO VIVEIROS DE CASTROAntropólogo

O relativismo cultural é, ao menos como costumeiramente divulgado pela vulgata ideológica dominante, meramente a ideia de que existem várias opiniões sobre o mundo, o universo ou a “realidade”, mas que esta “coisa lá fora” (o mundo etc.) é uma só. Entre essas várias opiniões, há uma certa — a nossa, ou melhor, aquela que acreditamos ser a verdade cientifica (e 99,99% dos que acreditam nela não sabem em que estão acreditando). O resto é “cultura”, superstição, visões exóticas de gente que vive “fora da realidade”. Em relação a essa gente, podemos e até devemos mostrar um pouco de tolerância (afinal, são apenas opiniões, “visões de mundo”), devemos ser “multiculturalistas”. Mas a Natureza, com N maiúsculo, é uma só, e independe de nossas opiniões (exceto da minha, isto é, a da “Ciência” que nos serve de religião laica). O que chamei de “multinaturalismo” ou de “perspectivismo multinaturalista”, para caracterizar as metafísicas indígenas, supõe a indissociabilidade radical, ou pressuposição recíproca, entre “mundo” e “visão”. Não existem “visões de mundo” (muitas visões de um só mundo), mas mundos de visão, mundos compostos de uma multiplicidade de visões eles próprios, onde cada ser, cada elemento do mundo é uma visão no mundo, do mundo — é mundo. Para este tipo de ontologia, o problema que se coloca não é o da “tolerância” (só os donos do poder são “tolerantes”), mas o da diplomacia ou negociação intermundos.

Você defende uma concepção de antropologia como “descolonização permanente do pensamento”. Como ela pode fazer isso? Quais são os maiores impasses da disciplina hoje?

Vou responder rapidamente, ou os leitores não precisarão ler o livro… Trata-se de tomar o discurso dos povos que estudamos (os “nativos”, sejam quem forem) como interlocutores horizontalmente situados em relação ao discurso dos “observadores” (os “antropólogos”). O que a antropologia estuda são sempre outras antropologias, as antropologias dos outros, que articulam conceitos radicalmente diversos dos nossos sobre o que é o anthropos, o “humano”, e sobre o que é o logos (o conhecimento). Descolonizar o pensamento é explodir a distinção entre sujeito e objeto de conhecimento, e aceitar que só existe entreconhecimento, conhecimento comparativo, e que a antropologia como “estudo do outro” é sempre uma tradução (e uma tradução sempre equívoca) para nosso vocabulário conceitual do estudo do outro. O maior desafio vivido hoje pela antropologia é o de aceitar isso e tirar daí todas as consequências, inclusive as consequências políticas.

As fotografias reunidas em “Variações do corpo selvagem” remetem ao seu trabalho de campo com os Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina. Quais foram suas maiores descobertas nos encontros com esses povos?

Tudo o que eu escrevi sobre eles.

Kuyawmá se pintando com tabatinga para o javari. Aldeia Wauja, Alto Xingu, 1977.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Mapukayaka pinta Sapaim que pinta Ayupu. Aldeia Yawalapíti, Alto Xingu, 1977.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Combatente yawalapíti pinta-se para ritual do Javari, Alto Xingu, 1977.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Os Araweté assistindo a fime sobre eles, no Xingu, em 1992Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Índio com filmadora do antropólogo em aldeia yawalapíti no Alto Xingu, em 1976.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Yuruawï-do no jirau da casa de farinha. Aldeia do médio Ipixuna, 1982.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Foto inédita do filme O Segredo da Múmia, de Ivan Cardoso. Floresta da Tijuca, 1981.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Anselmo Vasconcelos, Ivan Cardoso, Oscar Ramos e a múmia, em O Segredo da Múmia, de Ivan Cardoso,…Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Hélio Oiticica como adepto de Dionísio. Filmagem de O Segredo da MúmiaFoto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

Wilson Grey e Felipe Falcão em O Segredo da Múmia, de Ivan Cardoso, 1981.Foto: Divulgação/Eduardo Viveiros de Castro

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Editorial: Fogo, índios e folclore (Folha de S.Paulo)

31/03/98

A notícia de que a Fundação Nacional do Índio (Funai) está financiando a viagem de um grupo de índios a Roraima a fim de realizar o “ritual da chuva” para combater o fogo mereceria ser tratada como uma anedota. Mereceria, não fosse ela o relato de um exemplo caricatural da inépcia que vem caraterizando a atuação do poder público brasileiro diante da devastação das reservas naturais e da pequena economia do Estado.

É um disparate que um órgão público como a Funai desperdice os seus poucos recursos dando chancela a crenças e práticas que só fazem sentido dentro do universo cultural dos índios. Isto é, se está considerando que não há hipótese de que algum funcionário da fundação realmente acredite que o ritual caiapó possa levar chuva para Roraima.

Considerações sobre o absurdo à parte, o que está em jogo é um problema que precisa ser enfrentado de modo racional, com o auxílio de conhecimentos científicos e o uso de tecnologia adequada. Embora a Funai não esteja nem de longe no centro do combate ao fogo, a atitude da fundação parece, no entanto, ser equivalente à de um ministro da Saúde que resolvesse agora recorrer ao poder dos pajés para combater a expansão da dengue ou da malária.

A atitude da Funai dá tintas lamentavelmente folclóricas a uma série de negligências e irresponsabilidades que contribuíram para agravar a catástrofe ambiental em Roraima.

O governo federal demorou muito a agir, apesar de ter sido alertado há meses para a existência do problema. Recusou a ajuda internacional, mostrando desconhecer a gravidade do incêndio. Agora, ao nacionalismo injustificado, que, seja dito, ainda parece imperar em amplos setores das Forças Armadas, vem se somar o primitivismo da Funai, que no episódio infelizmente se inspira mais na magia do que na ciência.

*   *   *

MEGAINCÊNDIO
Ianomâmis afirmam que a fundação deveria usar os pajés locais e não caiapós, como será feito
Funai “importa’ índios para dança da chuva (Folha de S.Paulo)

ALTINO MACHADO
da Agência Folha, em Boa Vista

São Paulo, segunda, 30 de março de 1998

Lideranças indígenas de Roraima criticaram ontem a Funai (Fundação Nacional do Índio) por se valer de supostos poderes sobrenaturais de dois pajés e duas crianças da etnia caiapó para fazer chover na região.

A equipe para celebrar o “ritual da chuva”, liderada pelo cacique Mengaron, estava sendo aguardada ontem em Boa Vista por funcionários da Funai. Hoje ou amanhã, a equipe será transportada de avião à reserva ianomâmi.

“Não faz sentido gastar dinheiro público com algo um tanto absurdo, quando a estiagem e o fogo estão deixando os índios sem ter o que comer”, disse Adalberto Silva, 39, vice-presidente do CIR (Conselho Indígena de Roraima).

Silva diz que teria sido melhor se a Funai tivesse comprado comida ou remédio com a verba que será gasta com a equipe do “ritual da chuva”. “O Mengaron é um funcionário da Funai e certamente os outros também são e moram em Brasília”, disse o diretor do CIR.

A decisão da Funai deixou perplexos os ianomâmis, que têm seus próprios xaboris (pajés). “Nós não vamos entender xabori caiapó, porque caiapó é uma nação diferente”, disse João Davi, 36, líder da aldeia Papiú Novo (a 285 km de Boa Vista). “Não entendemos por que vão trazer crianças.”

Davi, que está sendo iniciado como pajé, disse que sua etnia faz rituais durante os quais recorre aos “espíritos da natureza” para fazer chover. “A Funai quer aparecer à custa de nosso sofrimento. A gente nem sabia que iam fazer isso.”

“Ainda pedimos aos espíritos para mandar chuva. A Funai podia reunir os xaboris ianomâmis num mesmo lugar, e não trazer de uma nação diferente”, disse.

O administrador da Funai, Walter Blos, considerou “natural” a realização do “ritual da chuva”. O chefe da Operação Ianomâmi, Marcos Vinícius Ferreira, 30, diz que a sugestão de fazer chover em Roraima teria sido de Mengaron. “Decidimos facilitar essa ajuda espiritual aos ianomâmis”, disse.

Ciência
O Exército também estuda fazer chover, mas usando técnicas científicas. A 1ª Brigada de Infantaria de Selva pediu à Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia) um técnico para avaliar a possibilidade de provocar chuva na região.

A assessoria de comunicação da brigada informou que o representante da fundação deve chegar durante a semana. De acordo com a brigada, a Funceme é conhecida no Nordeste por suas técnicas de bombardeamento de nuvens para provocar chuva.

Alarme falso
Ontem, às 18h50 (horário local, 19h50 no horário de Brasília), choveu em Boa Vista por cerca de dois minutos. A chuva chegou a animar alguns pedestres e motoristas que estavam na rua.

Cinco pessoas que viajavam na caçamba de uma camionete em frente ao Palácio do Governo, gritaram “Viva! Olha a chuva!”.

Alguns pedestres aplaudiram, e alguns motoristas buzinaram. Mas a alegria durou pouco. A quantidade de chuva não possibilitou nem mesmo a formação de poças ou de enxurrada.

A água da chuva apenas deixou marcas esparsas sobre o chão e as capotas dos carros. O céu continua encoberto, como está há alguns dias devido à fumaça dos incêndios que cobre Boa Vista.

Hoje deve chegar a Roraima o deputado federal Fernando Gabeira (PV-SP), membro da comissão de meio ambiente da Câmara.

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O saber e a pose (Folha de S.Paulo)

Os índios são no Brasil de hoje um dos últimos redutos de uma espiritualidade autêntica

OLAVO DE CARVALHO

20/04/98 

Escrevendo na Folha, uma cientista social (ah, como é rico em cientistas sociais este Brasil!) explica-nos que a eficácia dos ritos indígenas para produzir chuva é um resultado do consenso social. Não é maravilhoso? Pressionadas pela opinião pública, as nuvens fazem pipi de medo. Já a “Veja”, com seu característico ar de menininho primeiro da classe, alerta contra o ressurgimento das crendices, como se fosse muito mais  racional e científico acreditar na “Veja” do que nos pajés de Roraima.

Da minha parte, não me lembro de jamais ter acreditado piamente numa única linha dessa revista. Não vai nisso nenhuma ofensa aos coleguinhas: um jornalismo saudável não dá por pressuposta a sua própria infalibilidade, sobretudo em assuntos tão estranhos à mente jornalística como o é a arte de fazer chover.

Havendo motivos de sobra para duvidar de que citadinos incapazes de extrair um pingo d’água de um coco seco tenham grande autoridade para opinar em questões de pluviosidade ritual, parece-me que as classes falantes têm oferecido ao público, no que dizem da chuva que salvou Roraima, um triste espetáculo de ignorância presunçosa.

Enquanto os pajés davam com modéstia exemplar um show de eficiência e poder, os ditos civilizados procuravam esconder sua vergonhosa impotência por trás de pedantismos verbais, recriminações mútuas, acusações ao “governo ladro” que não produz chuva e, “last but not least”, despeitadíssimas tentativas de diminuir e aviltar o grande feito dos dois admiráveis sacerdotes.

Mas que mais poderiam fazer? Que entende de diálogos com o céu essa gente imersa na “completa terrestrialidade e mundanização do pensamento” preconizada por Antônio Gramsci?

A “Veja”, por exemplo, está tão longe do assunto que, quando fala de “renascimento da fé”, não entende por essa expressão nada mais que um fenômeno de marketing. Crendice, no sentido rigoroso do termo, seria acreditar que mentalidades lacradas na atualidade jornalística mais compressiva, incapazes de desligar-se mesmo hipoteticamente dos preconceitos contemporâneos, pudessem nos ensinar alguma coisa sobre o supratemporal e o eterno.

Para quem enxerga alguma coisa nesses domínios, há uma diferença abissal entre o mero “sentimento religioso”, fato imanente à psique humana, e o ato espiritual propriamente dito, cujo alcance se prolonga para muito além dos limites da subjetividade individual ou coletiva e chega a tocar um outro plano de existência, que nem por invisível é menos real e objetivo do que este mundo nosso de pedra e sangue.

Uma das mais notórias ilustrações dessa distinção é, precisamente, a diferença entre a pura força auto-hipnótica da sugestão coletiva e o efeito físico que certas preces e ritos determinam sobre a natureza em torno, imune, por definição, às flutuações da opinião pública.

Em última instância, como já ensinava o episódio de Moisés ante os magos do Egito, é o domínio sobre o mundo físico que atesta a diferença entre o carisma em sentido estrito – dom de Deus e poder espiritual autêntico – e o “carisma” em sentido sociológico, redutivo e caricatural, vulgar atração mútua entre as massas e seu ídolo.

Mas essa diferença é, por definição, invisível à mentalidade radicalmente mundanizada das classes falantes, um clero leigo empenhado em tampar o céu para que, na escuridão resultante, sua potência iluminista de meio watt pareça um verdadeiro sol.

Eis por que essas pessoas chegam ao supremo ridículo de atribuir o efeito dos ritos sobre a natureza ao funcionamento imanente da psique e da sociedade, como se árvores e nuvens, bichos e galáxias fossem regidos pelas leis da nossa vã sociologia. Explicar o objeto pelo sujeito, o transcendente pelo imanente é o mesmo que conferir às leis da eletrotelefonia o poder de determinar o que se diz numa conversa telefônica.

Mas, na ânsia de negar, o orgulho moderno não hesita em afundar no ilogismo mais estúpido. O apego à modernidade científica torna-se, então, uma crendice supersticiosa que faz um sujeito regredir à noite dos tempos e pensar como um neandertalóide.

Não, caros intelectuais, vocês não têm nenhuma explicação válida para a chuva produzida em Roraima pelas preces dos dois pajés, e o ar de superioridade fingida com que falam do que não entendem só mostra que sua ciência é bem menos confiável que a deles.

Certas tribos brasileiras conservam uma intensidade de vida religiosa e o domínio de conhecimentos espirituais que de há muito se tornaram, para a intelectualidade citadina, misteriosos e incompreensíveis. Os índios não fazem mistério algum em torno desses conhecimentos, assim como os santos da igreja, os gurus vedantinos, os grandes mestres do budismo. É a malícia temerosa do observador que torna obscuro e ameaçador o luminoso e evidente e que, não suportando a luz, busca reduzi-la à refração das suas próprias trevas.

Malgrado o empobrecimento de suas culturas, os índios são no Brasil de hoje um dos últimos redutos de uma espiritualidade autêntica, feita de um conhecimento que é objetividade, simplicidade e poder; nada tem a ver com o misto de sentimentalismo e exaltação ideológica apresentado como a única religião possível por uma pseudociência cega e pretensiosa, por todo um cortejo desprezível de padrecos e acadêmicos incapazes de enxergar além das paredes do poço gnosiológico em que se enfurnam.

Se os dois pajés fizeram o que a gente da cidade não pôde fazer, o mais elementar bom senso aconselharia admitir a hipótese de que sabem algo que ela não sabe. Se ela exclui essa hipótese “in limine” e ainda fala deles com despeito, isso, além de constituir uma ingratidão para com benfeitores – um dos “cinco pecados que bradam aos céus”, segundo a Bíblia -, é um vexame intelectual que ilustra de maneira especialmente eloquente a distância invencível que existe entre o saber e a pose.

Assassinatos de indígenas disparam no Brasil, comprova relatório do Cimi (Agência Senado)

Da Redação | 05/08/2015, 18h08 – ATUALIZADO EM 05/08/2015, 20h20

O relatório Violência contra os Povos Indígenas do Brasil, referente a 2014, aponta um aumento dos casos de violência e violações contra integrantes das comunidades indígenas. No período, 138 índios foram assassinados, contra 97 casos no ano anterior. Um dos dados mais alarmantes é o número de suicídios, que chegou a 135, ante 73 ocorrências em 2013.

Produzido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o relatório foi debatido em audiência pública nesta quarta-feira (5), na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A antropóloga Lúcia Helena Rangel salientou que o relatório ainda é uma expressão parcial da realidade, pois o Cimi não consegue captar todas as ocorrências em todo o país.

— Mesmo assim, os registros são assustadores — comentou a antropóloga, coordenadora da pesquisa.

Questão da terra

O debate foi proposto pelo senador Telmário Mota (PDT-RR), que se revezou na direção dos trabalhos da audiência com o presidente da comissão, Paulo Paim (PT-RS). Na avaliação dos convidados, os fatores de estímulo à violência são antigos e decorrem fundamentalmente da negação do direito à terra, da disputa em torno de áreas indígenas e conflitos possessórios.

— O que vemos é o não reconhecimento, por parte do Estado, às comunidades indígenas, que permanecem tendo seus direitos negados — observou Lúcia Rangel.

Mesmo no caso dos suicídios, o entendimento é de que em grande medida as ocorrências estão relacionadas à falta de perspectivas para indivíduos que precisam da terra para viver e trabalhar, em harmonia com suas culturas. Os 135 casos de 2014 configuram o maior número em 29 anos, com predomínio de ocorrências no Mato Grosso do Sul (48), notadamente entre índios Guarani-kaiowá.

A mortalidade na infância foi ainda apontada como indicador de situação de violação de direitos: o relatório registra 785 mortes de crianças indígenas, na faixa de 0 a 5 anos, contra 693 no ano anterior. A situação mais grave se situa entre os índios Xavantes, no Mato Grosso, com a taxa de mortalidade chegando a impressionantes 141,64 mortes por mil crianças. Já média nacional registrada pelo IBGE, em 2013, foi de 17 por mil.

Segundo o relatório, em 2014 mais do que dobraram os registros de invasões possessórias, exploração ilegal de terras indígenas e outros danos ao patrimônio. Enquanto em 2013 foram 36 ocorrências, em 2014 aconteceram 84 casos.

Funai

O ex-senador João Pedro Gonçalves da Costa (PT), que assumiu em junho passado o comando da Fundação Nacional do Índio (Funai), destacou a importância da audiência diante da “dívida histórica” que o país tem com os povos indígenas. Reconheceu que é essencial avançar na questão das terras indígenas.

— Não pode haver índio sem terra; os povos indígenas não podem viver sem história do lugar ponde pisaram seus ancestrais — defendeu.

João Pedro anunciou a intenção de percorrer de imediato as aldeias de todo o país, começando pelo Mato Grosso, lugar de conflitos possessórios mais graves. Também salientou o papel do Congresso e do Judiciário, além de estados e prefeituras, na solução dos problemas. Depois, apelou aos senadores por apoio para reforçar o orçamento da Funai, por meio de emendas parlamentares.

Entre os senadores, as manifestações foram de solidariedade às demandas dos povos indígenas. Para a senadora Simone Tebet (PMDB-MT), existe a perspectiva de solução para os conflitos sobre terras. Mostrou otimismo com a aprovação de proposta de emenda constitucional (PEC 71/2011) que prevê pagamento de indenizações a produtores que estejam em posse “mansa e pacífica” das terras, o que agilizará a devolução das áreas aos índios.

“Estratégia de ataque” 

O secretário-executivo do Cimi, Kleber Cesar Buzato, denunciou o que definiu como a “estratégia anti-indígena” no país. Um dos objetivos seria impedir o reconhecimento e a demarcação das terras tradicionais que continuam invadidas, na posse de não-índios. Outro seria reabrir e rever procedimentos de demarcação já finalizados. Por fim, disse que há ainda o interesse em invadir, explorar e mercantilizar as terras já demarcadas e sob a posse de índios.

— Se não tomarmos iniciativas muito firmes, coordenadas e articuladas, a tendência é de se aprofundar ainda mais esse quadro de violências contra os povos indígenas — alertou.

Em seguida, Buzato listou iniciativas e decisões adotadas, em separado, pelo Executivo, Legislativo e o Judiciário que, a seu ver, traduzem interesses de ruralistas, mineradoras e empreiteiras, entre outros segmentos do mercado. Uma delas seria o Decreto 7.957/2013), que regulamenta a atuação das Forças Armadas no “combate a povos e comunidades locais” que resistirem a empreendimentos em seus territórios. Outra veio por meio da Portaria Interministerial 60/2015, que define procedimentos a serem seguidos pela Funai para licenciamento ambiental de empreendimentos que impactam essas terras.

Mineração

No âmbito do Legislativo, um dos projetos é o PL 161/1996, da Câmara dos Deputados, que regulamenta a mineração em terras indígenas, com abertura à exploração pelo setor privado, que hoje é vedada. Foi citada ainda uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 215/2000), que transfere ao Congresso o poder de demarcar e rever a processos de terras indígenas já demarcadas.

— Na prática, significa atribuir à bancada ruralista o poder de decidir ou não sobre a demarcação das terras. Se aprovada, a tendência é não passa mais nada — comentou.

Quanto ao Judiciário, Buzato mencionou julgamento da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal que atribuiu interpretação mais restritiva a dispositivo constitucional que define o conceito de “terra tradicionalmente ocupada pelos povos”. Com base nessa decisão, segundo ele, foi possível anular atos administrativos de demarcação de terras de povos Guarani-Kaiowá e Terena, no Mato Grosso do Sul, e do povo Canela-Apãniekra, no Maranhão.

Desamparo

Alberto Terena, representante do Povo Terena e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirmou que os povos indígenas e seus líderes vivem uma situação de desespero diante do permanente desrespeito a seus direitos. Segundo ele, a luta não começou com a atual geração nem as anteriores, mas desde que os colonizadores europeus ocuparam o país.  Lembrou que os Terena, hoje com mais de seis mil indivíduos, dispõem de reserva com pouco mais de 2 mil hectares e esperam longamente pela devolução de terras esbulhadas.

— Achavam que éramos poucos e que seríamos exterminados ou intregados à sociedade. Mas isso não aconteceu, e a nova geração se multiplica; por isso, precisamos das nossas terras — comentou.

Outro líder, Kâhu Pataxó, da Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia, relatou a ocorrência de regulares conflitos na região e o assassinato de índios que lutam pela recuperação de suas terras. Também denunciou o uso excessivo de força, seja por efetivos da Polícia Federal ou da Polícia Militar do estado, na tentativa de retiradas dos índios das terras. A seu ver, esses conflitos vão de fato se agravar se vier a ser aprovada a PEC 215.

— O que vamos ver o extermínio final dos índios — comentou, antecipando que as comunidades estão dispostas a dar a vida para garantir suas terras.

Encíclica 

Antonio Carlos Moura, que falou pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz, também vinculada à CNBB, também apontou ações de “conluio” entre o Estado brasileiro e segmento econômicos na continuidade do esbulho de terras e direitos dos índios. Destacou a recente encíclica do papa Francisco como fonte de inspiração para luta pelo reconhecimento desses direitos.

Participou ainda da audiência a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues, que comoveu colegas e plateia com o relato da história dos Avá-Canoeiro do Araguaia, também mencionada no relatório da Comissão Nacional da Verdade, de 2014. Caçadores, eles chegaram à região fugindo das frentes de colonização. Por seguidas gerações, foram atingidos por incêndios de aldeias, ações de caçadores de índios e ataques de tribos inimigas, com sucessivos massacres.

Já reduzidos a menos de dez indivíduos, foram então pegos, com a ajuda de agentes do aparelho de repressão. Passaram a viver em área de uma fazenda do Bradesco, submetidos a violências e privações. Só não desapareceram completamente porque se reproduziram, por meio de uniões com indivíduos de outras etnias (Javaé, Tuxá e Karajá). Hoje somam pouco mais de 20 pessoas.

Do the Amazon’s Last Isolated Tribes Have a Future? (New York Times)

Shuri, known as Epa, goes back and forth between his tribe and rural communities on the Curanja River in Peru’s Amazon region. CreditJason Houston 

HIS name is Shuri, but everyone calls him Epa, which means father in the indigenous Pano language family. His wizened face and bare, gnomish feet are familiar to the villagers who live along the Curanja River, which flows through some of the densest rain forest of Peru’s vast Amazon region.

Most of Epa’s tribe remains deep in the jungle, unclothed, hunting with bows and arrows, picking medicinal plants to ward off illness, and avoiding outsiders. But such isolated peoples can no longer depend on the forest as a refuge. In the past year, throughout the Amazon, they have begun to emerge in settled areas in unpredictable, disturbing and occasionally violent ways, often because of hunger or desperation.

I met Epa at his camp just upstream from the last village, where the unbroken jungle begins. He boasts of his hunting prowess. But he also wears a soccer shirt and nylon shorts and spends time among and near the settled people on the river — indigenous people, only a generation or two removed from forest life, who have welcomed him into their villages.

Last October, the villagers traveled in wooden canoes to vote in local elections. When they returned, one hut had burned to the ground and many of the machetes, clothes, pots and pans, mosquito nets, hammocks and drying fruits and nuts in villages along the river were gone. Epa, who had stayed behind, admitted that he had set fire to the hut, saying it was an accident, but denied any other involvement. Villagers blame his tribe for the raid.

Villagers have spotted the people they call “the nakeds” stealing fruit from orchards. Even the clothes on scarecrows go missing. Some villagers suspect that the mild-mannered Epa is a spy, feeding intelligence to his tribe.

In other parts of the rain forest, violence by and against once-isolated people is suddenly on the rise. In May, just outside the Manú National Park south of the Curanja, a man from the isolated Mashco Piro tribe shot an arrow that killed a 20-year-old indigenous villager. Last year, several members of Peru’s isolated Xinane group waded across a river to seek help at a Brazilian settlement. A few of their relatives, they said, had died when they were attacked, possibly by drug traffickers.

There are other groups living beyond the reach of the global economy, in places like the Andaman Islands in the Indian Ocean and the mountains of New Guinea. But the planet’s largest and most diverse isolated cultures are centered in the Amazon, primarily in western Brazil and eastern Peru. They lack immunity from many Western diseases, modern weapons to defend themselves from armed intruders like drug smugglers and illegal loggers, and a voice in national politics.

They have good reason to stay hidden. European and African diseases killed tens of millions of Native Americans after Columbus landed. A century ago, thousands were coerced into working for the rubber barons. Even seemingly benevolent outsiders proved angels of death. In the 1950s, a visiting German ethnographer left behind a pathogen that killed some 200 people.

Anthropologists and nongovernmental organizations warn that drug trafficking, logging, mining and petroleum extraction, along with a changing climate, vanishing species and a shrinking forest, put these tribes at risk. Even TV crews searching for “uncontacted” natives pose a threat; according to a 2008 report by a Peruvian anthropologist, one crew that strayed beyond its permitted area has been implicated in the deaths of some 20 native people from flu.

The indigenous people who remain appear to be fighting among themselves for dwindling resources, like turtle eggs and piglike peccaries. Lifting his shirt, Epa showed me a scar on his torso — inflicted during an attack by tribal enemies, he said. He and his two wives and a mother-in-law live part time in their camp, close to a guard post staffed by indigenous people. He said he had avoided having children because he was always on the run.

Brazil and Peru have taken radically different approaches toward isolated peoples. For Brazil, which has pursued the sort of engagement pioneered by late 19th-century missionaries, the Amazon has long been a frontier to be tamed. Officials built small frontier posts in the jungle, planted gardens and let tribes gather the harvest. Enticed into contact, the isolated people would trade ornaments and forest products for metal tools and objects, and be drawn gradually into the labor force.

But abrupt contact with outsiders spread devastating disease and created debilitating dependence. The Nambikwara, for example, were about 5,000 strong around 1900. By the late 1960s, only 550 remained. Anthropologists and Brazilian frontiersmen called sertanistas likened the policy to genocide. One of them, Sydney Possuelo, who went on to head the isolated tribes unit of Funai, the Brazilian agency on indigenous affairs, persuaded the government in the late 1980s to impose a policy of no contact to protect the isolated peoples.

Recently, however, Brazil has slashed funding for Funai. Angry Brazilian anthropologists, indigenous groups and sertanistas cite the Amazonian land rush as the reason. Once land is protected, it cannot be sold to private or public developers. Under President Dilma Rousseff’s leadership, approval of applications to set aside land for indigenous peoples — both isolated and not — has virtually ceased.

Peru, by contrast, has only recently admitted that its isolated peoples even exist. It traditionally looks to the Pacific rather than its rain forest hinterland. Nine out of 10 Peruvians live in the Andes or along the coastal plain, but most of the country’s land is within the Amazon basin. As recently as 2007, Alan García, then the president, dismissed “the figure of the uncontacted native jungle dweller” as a fiction created by zealous environmentalists.

Since then, as evidence of their existence has become impossible to dispute, the government has moved to set up five reserves, covering an area larger than Massachusetts, as safety zones for the tribes, with more planned. But even if a reserve is created and adequately policed, petroleum companies can explore for and extract oil if it is considered in the national interest. “The region has seen massive death of isolated peoples due to contact with oil prospectors,” said the Peruvian anthropologist Beatriz Huertas.

Both nations see the Amazon as a treasure house of oil, timber and gold. Two continentwide projects crossing Brazil and Peru — the $2.8 billion, 1,600-mile Interoceanic Highway and the Chinese-sponsored $10 billion, 3,300-mile Twin Ocean Railroad — will no doubt stimulate both economies, but at a steep cost. The railroad, which China’s premier, Li Keqiang, lobbied for during a May visit to South America, would plow through tropical savanna and thick forest, cutting across Peru’s remote Madre de Dios region, home to hundreds of indigenous communities.

Development can’t be halted, but it can be carried out more intelligently and humanely than what happened in the 19th century in the United States. We know what works. Small frontier posts on rivers can protect reserves from intruders. Immunized health care workers can provide emergency care and snuff out potential epidemics among isolated peoples who emerge for help. Illegal loggers and miners can be prosecuted. Road and railroad construction and oil prospecting can respect the borders of reserves and parks. None require a huge financial investment. They do require an inclusive political approach and an awareness of history.

Last month the Peruvian government announced that it would help a small group of Mashco Piro that has appeared more than 100 times in the past year on the banks of the Madre de Dios River, the same group responsible for the May death of a villager. Tribe members accepting food and clothing from tourists and missionaries are at serious risk of disease and death, and villagers fear more violence. Advocates of isolated peoples are watching closely to see if Peru can ensure the long-term health of the Mashco Piro while protecting their land from outsiders.

Half a millennium after Columbus arrived, we have an opportunity — really one last chance — to avoid repeating the catastrophes endured by so many native peoples in the Americas. This is no longer the 19th century: We have more than enough information. We understand pathogens and can immunize those who might contact isolated peoples. We can acknowledge that some people don’t want to join the global economy. And we can protect them until they are ready to enter the modern mainstream, while extracting the resources that we need. We don’t have to commit another genocide.

Do the world’s ‘uncontacted’ tribes deserve to be left alone? (Washington Post)

 July 23, 2015

Members of the Mashco Piro tribe observe a group of travelers from across the Alto Madre de Dios river in the Manu National Park in the Amazon basin of southeastern Peru, as photographed through a bird scope in this file picture from Oct. 21, 2011.  (REUTERS/Jean-Paul Van Belle)

For the first time, anthropologists working for the Peruvian government will attempt to make contact with members of a remote tribe living in the Amazon jungle. The move follows growing concerns about the behavior of the Mascho Piro people, which has included attacks and raids on neighboring communities.

South America, and in particular the vast Amazon region, is home to some of the world’s last remaining “uncontacted” tribes — indigenous communities that, for whatever reason, have managed to exist almost entirely outside the purview of the nation-states in which they technically live. Experts fear a whole slew of risks that may follow should these tribes come into full contact with the outside world, from exploitation by rapacious mining and logging companies to the devastating transfer of pathogens to which they have no immunity.

In recent decades, some governments have taken a protective stance, working to shield these communities from outside contact mostly because of the health risks involved. After all, some estimates suggest contact with outside diseases killed up to 100 million indigenous people following the European arrival in the Americas.

Peru bars contact with about a dozen “uncontacted” Amazonian tribes living within its borders, a positive departure from an earlier time when the government would not even recognize their existence. Brazil has its own federal agency responsible for indigenous peoples. In 2011, it allowed cameras to document unprecedented aerial footage of its observations over the jungle.

Rights groups and activists have long campaigned in the defense and protection of indigenous lands in the Amazon, fighting against the predatory interests of oil companies as well as a tragic history of violence that saw tribal peoples victim to generations of settlers, loggers, and traffickers.

Survival International, which campaigns for the rights of tribal and indigenous communities worldwide, says that Peru and Brazil are not doing enough to safeguard these “uncontacted” tribes. Last year, the organization warned against tourists carrying out “human safaris” near Mascho Piro land.

Jeffrey Kluger, Time magazine’s science editor, recently recounted a study in Science magazine that detailed the challenges and ethics of how to treat “uncontacted” tribes. This included this chilling anecdote of how vulnerable some of these tribes are to outside contact:

Goods that go from body to body should be entirely off-limits. [Journalist Andrew] Lawler spoke to Peruvian villager Marcel Pinedo Cecilio, 69, who was born in the forest but later emerged. Cecilio recalls his first contact with an outsider—thought to have been an ethnographer and photographer—who left the villagers with a gift of a fishbone necklace. Shortly thereafter, much of the tribe came down with a sore throat and fever and 200 of them died. In the 1980s, up to 400 Peruvian villagers died from passing contact with crews of Shell oil company workers.

As a result, the current investigation into the Mashco Piro tribe in Peru has earned its concerned critics.

“Authorities should restrict boat transit and keep people from approaching,” Klaus Quicque, president of FENAMAD, a regional indigenous federation in Peru, told Reuters.

The urgency of the contact was spurred by an incident in May, when some members of the tribe attacked another local community, killing  a young man with an arrow. The officials enlisted to make contact will engage the tribe through interpreters who speak the Yine language, which they believe shares similarities to the tongue spoken by the Mashco Piro people.

In 2013, the Mashco Piro earned global attention when dozens of members of the tribe appeared on the banks of Amazonian tributary near a small Yine town, and demanded rope, machetes and bananas. FENAMAD rangers stationed there dissuaded them from crossing the river, but the standoff was tense, with some of the men from the tribe carrying bows and long wooden lances.

Nearby villagers, Christian missionaries and the occasional tourist have all reported meeting Mashco Piro people.

“We can no longer pretend they aren’t trying to make some sort of contact,” Luis Felipe Torres, a Peruvian official working on state tribal affairs, told Reuters. “They have a right to that, too.”

Experts say the phrase “uncontacted” is something of a misnomer, given that all communities on the planet are aware of their neighbors and have some sense of the wider world outside their homes.

“People have this romanticized view that isolated tribes have chosen to keep away from the modern, evil world,” said Kim Hill, an anthropologist at Arizona State University, in an interview with the BBC last year. But that’s rarely the case.

“There is no such thing as a group that remains in isolation because they think it’s cool to not have contact with anyone else on the planet,” said Hill.

Writing in Science magazine last month, Hill and colleague Robert Walker reiterated this point, suggesting that many of South America’s “uncontacted” communities had “chosen isolation out of fear of being killed or enslaved” and that, like most human beings living in constrained circumstances, “they also wanted outside goods and innovations and positive social interactions with neighbors.”

The academics suggested the best path forward is a policy of “controlled contact” with these communities, carefully managed to avoid the spread of disease, but also enable the building of trust and providing aid and medical help if needed. The current Peruvian mission may serve a test case for this sort of endeavor.

 VIDEO: Peru’s Amazon evacuated due to threat of attack (1:24) – Communities from Peruvian Amazon are evacuated amid fears of attacks from isolated indigenous tribes. (Reuters)

Sentença confirma: usina no Tapajós só pode ser licenciada após consulta aos povos afetados (Ministério Público Federal no Pará )

JC 5198, 17 de junho de 2015

A consulta foi considerada obrigatória em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Sentença registrada na segunda-feira (15) confirma consulta nos moldes da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho

A Justiça Federal de Itaituba confirmou em sentença que o governo federal está proibido de licenciar a usina São Luiz do Tapajós sem antes realizar a consulta prévia, livre e informada conforme prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que tem força de lei no Brasil. A sentença, do juiz Ilan Presser, confirma decisões anteriores no mesmo processo, inclusive uma suspensão de segurança do Superior Tribunal de Justiça. Todas determinam que a consulta seja realizada, tanto com povos indígenas quanto com ribeirinhos, antes da emissão de qualquer licença ao empreendimento.
“Não se pode ignorar a assertiva de que a vontade da Convenção 169 da OIT, e do artigo 231 da Constituição é de, a partir do exercício do direito de consulta, seja permitida a preservação e fomento do multiculturalismo; e não a produção de um assimilacionismo e integracionismo, de matriz colonialista, impostos pela vontade da cultura dominante em detrimento dos modos de criar, fazer e viver dos povos indígenas, que corre o grave risco de culminar em um etnocídio”, diz a sentença judicial.

Para a Justiça, já está havendo violação do direito de consulta por parte do estado brasileiro. “Em todo o procedimento de licenciamento ainda não foi observado materialmente o direito de consulta prévia. Ou seja, da leitura dos autos verifica-se que os réus estão suprimindo direitos de minorias, materializados na consulta. Ou, na melhor das hipóteses, estão invertendo, indevidamente, as fases do licenciamento.”

A decisão cita jurisprudência nacional e internacional sobre o direito à consulta e alerta para o risco do Brasil ser condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos, como já ocorreu com Suriname, Paraguai e Equador, por permitirem a instalação de empreendimentos para extração de recursos em terras de populações tradicionais sem a devida consulta prévia.

Durante o processo judicial foram feitas manifestações pelos réus – Eletrobrás, Eletronorte, Aneel e Ibama – que indicam, de acordo com a sentença judicial, falta de conhecimento sobre as comunidades indígenas e tradicionais que habitam a região e serão afetadas pelos empreendimentos. Em suas manifestações, os entes do governo brasileiro tentam sustentar a tese de que não há impacto sobre populações indígenas e tradicionais porque não há terras indígenas demarcadas na área de impacto direto do empreendimento.

“Não se verifica adequada e razoável a alegação de que não existe influência do empreendimento em áreas demarcadas, até porque, como visto acima, existe indicativo de que as terras indígenas Andirá-Marau, Praia do Mangue, Praia do Índio e Pimental, KM 43 e São Luiz do Tapajós serão afetadas, algumas das quais já demarcadas, como a Praia do Índio e Praia do Mangue”, refuta o juiz federal na sentença.

A sentença menciona a situação da terra indígena Sawré Muybu, dos índios Munduruku, que teria parte significativa de seu território alagada pela usina e é objeto de outro processo judicial, em que o governo tenta protelar a demarcação – já em fase avançada – com o objetivo não declarado de facilitar o licenciamento da usina. Os argumentos do governo nos dois processos são complementares e auto-explicativos. No processo sobre a terra indígena, a Fundação Nacional do Índio alega que não há prioridade na demarcação. No processo sobre a usina que vai afetar a terra indígena, é a vez da Eletrobrás e da Aneel alegarem que sem demarcação, não cabe consulta prévia.

“Não resta outra conclusão possível senão a de que é irresponsável e inconstitucional se fazer vistas grossas a um possível e grave fato consumado de destruição sociocultural. Assim como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a cachorra Baleia sonhava, de forma inatingível, com seus preás, não se pode permitir que os povos indígenas, futuramente, ao recordar de seu passado, sonhem com um presente que já lhes seja impossível desfrutar. Não se podem relegar aos livros de História os elementos socioculturais de grupos só porque possuem modos de criar, fazer e viver diversos da cultura prevalente”, conclui a sentença.

Avaliações ambientais

O Ministério Público Federal, autor da ação sobre a consulta dos povos afetados pela usina São Luiz do Tapajós, também solicitou à Justiça que obrigasse estudos mais amplos sobre os impactos, levando-se em consideração que, apesar do licenciamento ser feito para cada empreendimento, o projeto do governo é para pelo menos cinco barragens no rio Tapajós e os impactos conjuntos ou sinérgicos sobre a bacia hidrográfica deveriam ser melhor avaliados.

Para isso, o MPF pediu a obrigação de fazer dois estudos – Avaliação Ambiental Integrada e Avaliação Ambiental Estratégica, ambos previstos na legislação ambiental brasileira. A sentença obriga o país a realizar um deles e não reconhece a necessidade do segundo. No processo, o governo tentou se esquivar da necessidade das avaliações apresentando o conceito de usina-plataforma, que supostamente seria aplicado no Tapajós.

Na sentença, o juiz considera que falta comprovação suficiente da eficácia desse modelo e que a Avaliação Ambiental Integrada é tanto mais necessária pelo fato das usinas do Tapajós afetarem um mosaico de áreas especialmente protegidas onde se localizam terras indígenas, de comunidades tradicionais e unidades de conservação, seja de uso integral, seja de uso sustentável.

Processo nº 0003883-98.2012.4.01.3902 – Vara Única de Itaituba

Íntegra da Sentença

(Assessoria de Comunicação – Ministério Público Federal no Pará )

The Ant, the Shaman and the Scientist: Shamanic lore spurs scientific discovery in the Amazon (Notes from the Ethnoground)

NOVEMBER 22, 2011

When he pointed to the tree trunk and said the scars were from fires set by invisible forest spirits, I had no idea this supernatural observation would lead to a new discovery for natural science.  Mariano, the eldest shaman of the Matsigenka village of Yomybato in Manu National Park, Peru, had first showed me the curious clearings in the forest that form around clumps of Cordia nodosa, a bristly tropical shrub related to borage (Borago officinalis).  Both the Matsigenka people and tropical ecologists recognize the special relationship that exists between Cordia and ants of the genus Myrmelachista: the Matsigenka word for the plant is matiagiroki, which means “ant shrub.”

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Maximo Vicente, Mariano’s grandson, standing by a 
swollen, scarred trunk near a Cordia patch.

For scientists, the clearings in the forest understory around patches of Cordia are caused by a mutualistic relationship with the ants.  Cordia plants provide the ant colony with hollow branch nodes for nesting and bristly corridors along twigs and leaves for protection, while the ants use their strong mandibles and acidic secretions to clear away competing vegetation.  Local Quechua-speaking colonists refer to the clearings as “Devil’s gardens” (supay chacra).  For the Matsigenka, these clearings are the work of spirits known as Sangariite, which means ‘Pure’ or ‘Invisible Ones’.  Matsigenka shamans like Mariano come to these spirit clearings and consume powerful narcotics and hallucinogens such as tobacco paste, ayahuasca (Banisteriopsis), or the Datura-like toé (Brugmansia).[1]

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A “Sangariite village clearing” (igarapagite sangatsiri)
in the upland forests of Manu Park.

With the aid of visionary plants, the shaman perceives the true nature of these mundane forest clearings: they are the villages of Sangariite spirits, unimaginably distant and inaccessible under ordinary states of consciousness.  While in trance, the shaman enters the village and develops an ongoing relationship with a spirit twin or ally among the Sangariite, who can provide him or her with esoteric knowledge, news from distant places, healing power, artistic inspiration, auspicious hunting and even novel varieties of food crops or medicinal plants.[2]  As proof of the existence of these invisible villages, Mariano pointed out to me the scars on adjacent tree trunks all around large, dense Cordia patches: “The scars are caused by fires the Sangariite set to clear their gardens every summer,” he explained.

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Mariano wearing a cotton tunic with designs taught him by the
Sangariite spirits during an ayahuasca trance.

Douglas Yu, an expert on ant-plant interactions, was researching Cordia populations in the forests around Yomybato.[3]  I told him of Mariano’s observations about the Sangariite villages, and pointed out the distinctive marks on adjacent trees.  In his years of research, Yu had never noticed the trunk scars.  Intrigued, he cut into the scars and found nests teeming with Myrmelachista ants that appeared to be galling the trunks to create additional housing.  As detailed in a 2009 publication in American Naturalist[4], this case is the first recorded example of ants galling plants, reopening a century-old debate in tropical ecology begun by legendary scientists Richard Spruce and Alfred Wallace. The discovery of Myrmelachista‘s galling capability also helped Yu understand how this ant species persists in the face of competition by two more aggressive ant types, Azteca and Allomerus, that can also inhabit Cordia depending on ecological conditions.

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Douglas Yu carries out research on ant-plant
interactions in the Peruvian Amazon.

My ongoing collaborations with Yu and other tropical biologists in indigenous communities have highlighted how important it is to pay attention to local people’s rich and often underappreciated knowledge about forest ecosystems: sometimes even those elements of folklore that appear quaint or “unscientific” contain astute insights about natural processes.

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Cross section of a tree trunk galled by Myrmelachista ants
(photo: Megan Frederickson).

— This article was first published online on Nov. 7, 2011 with Spanish and Portuguese translations by O Eco Amazônia.

References:

[1] G.H. Shepard Jr. (1998) Psychoactive plants and ethnopsychiatric medicines of the Matsigenka. Journal of Psychoactive Drugs 30 (4):321-332; G.H. Shepard Jr. (2005) Psychoactive botanicals in ritual, religion and shamanism. Chapter 18 in: E. Elisabetsky & N. Etkin (Eds.), Ethnopharmacology. Encyclopedia of Life Support Systems (EOLSS), Theme 6.79. Oxford, UK: UNESCO/Eolss Publishers [http://www.eolss.net].

[2] G.H. Shepard Jr. (1999) Shamanism and diversity:  A Matsigenka perspective. In Cultural and Spiritual Values of Biodiversity, edited by D. A. Posey. London: United Nations Environmental Programme and Intermediate Technology Publications.

[3] D.W. Yu, H. B. Wilson and N. E. Pierce (2001) An empirical model of species coexistence in a spatially structured environment. Ecology 82 (6):1761-1771.
[4] D.P. Edwards, M.E. Frederickson, G.H. Shepard Jr. and D.W. Yu (2009) ‘A plant needs its ants like a dog needs its fleas’: Myrmelachista schumanni ants gall many tree species to create housing. The American Naturalist 174 (5):734-740. [http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19799500]

Posted by Glenn H. Shepard at 10:11 AM

Study explores how past Native American settlement modified WNY forests (Buffalo University)

June 2, 2015

Charlotte Hsu

Fire-tolerant trees that bear edible nuts were unusually abundant near the historical sites of Native American villages, research suggests

BUFFALO, N.Y. — A new study by University at Buffalo geographers explores how humans altered the arboreal make-up of Western New York forests before European settlers arrived in large numbers.

The research looked at land survey data from around 1799-1814, and used this information to model which tree species were present in different areas of Chautauqua County, New York, at that time.

The analysis placed hickory, chestnut and oak trees in larger-than-expected numbers near the historical sites of Native American villages, said co-author Steve Tulowiecki, who conducted the research as a geography PhD candidate at the University at Buffalo and is now an adjunct lecturer of geography at SUNY Geneseo. This finding is important because these species produce edible nuts, and are also more likely than many other trees to survive fires.

PHOTOS: http://www.buffalo.edu/news/releases/2015/05/048.html

“Our results contribute to the conversation about how natural or humanized the landscape of America was when Europeans first arrived,” Tulowiecki said. “Our society has competing views about this: On one hand, there is the argument that it was a wilderness relatively untouched by man. Recently, we’ve had this perspective challenged, with some saying that the landscape was dramatically altered, particularly through burning and other clearance practices.”

The findings of the new research — more fire-tolerant, large-nut-bearing trees than expected within about 15 kilometers of village sites — suggest that Native American communities in the study area modified the forest in ways that favored those species, Tulowiecki said. He noted that flame-sensitive beech and sugar maples, which burn readily in forest fires, appeared in smaller numbers than expected near village sites.

Forest modifications may have impacted upwards of 20 percent of total land area in modern-day Chautauqua County, according to Tulowiecki’s analysis.

The research is important, he said, because it uses data to address questions surrounding historical forest modification.

“There have been contentious debates over the past few decades regarding the spatial extent of Native American impacts upon pre-European landscapes,” he said. “Yet, very few studies have offered exhaustive methods to understand or quantify these impacts. Our study utilizes advanced quantitative models, geographic information systems, original land survey data, and historical-archaeological records of Native American settlement in order to understand these impacts.”

Tulowiecki, who finished his PhD in 2015, conducted the study with his advisor, UB Associate Professor of Geography Chris Larsen, PhD. The research was published online on May 19 in Ecological Monographs, a journal of the Ecological Society of America.

Picturing a 19th-century forest

To predict how the forest looked 200 years ago, Tulowiecki and Larsen synthesized several sources of information.

They began with the observations of surveyors from the Holland Land Company, who documented the terrain of Chautauqua County between 1799 and 1814. These assessors included details on which types of trees they found at thousands of locations in the region.

Tulowiecki and Larsen mapped this information, then overlaid it with data showing the temperature, precipitation, soil conditions and other environmental variables at different locations. This helped the researchers understand what types of trees typically grew under various conditions, and they used this information to build predictive models showing how all of Chautauqua County would have looked, tree-wise, at the turn of the 19th century if environmental conditions were the only factor at play.

Apparently, they were not, because in some places the distribution of tree species predicted by the model didn’t match the reality of what surveyors saw.

The sites where these discrepancies occurred coincided with the historical location of Native American villages as mapped or described by various sources, Tulowiecki says. This suggested that Native American societies – particularly the Seneca – modified the areas surrounding their communities.

To account for this possibility, the researchers refined their predictive models. In addition to the original environmental variables, they incorporated a new variable that captured information related to proximity to village sites.

The models improved as a result.

Hawaiian telescope fight prompts new rules for Mauna Kea (Nature)

Thirty Meter Telescope can proceed, but one-quarter of existing telescopes on mountain must be removed in the next decade.

Alexandra Witze

27 May 2015

Hawaii Governor David Ige says the Thirty Meter Telescope project can move forward.

The controversial Thirty Meter Telescope (TMT) should be built atop the sacred Hawaiian mountain of Mauna Kea as planned — but one-quarter of the 13 telescopes already there need to be taken down by the time the TMT starts operating in the mid-2020s, Hawaii’s governor David Ige said on 26 May.

Ige’s long-awaited statement aims to break the impasse between the TMT project, which halted construction in early April after protests broke out, and Native Hawaiians, who see the telescope — bigger than any on Mauna Kea so far — as the latest violation of an important cultural site.

The governor laid out sweeping changes to how Mauna Kea will be managed in the future. “We have in many ways failed the mountain,” he said. “We have not done right by a very special place.”

The shift could significantly affect astronomers who use the world-class facilities atop Mauna Kea, which include the twin 10-metre Keck telescopes as well as the 8-metre-class Gemini Northern and Subaru telescopes. The first astronomical observatories were built on Mauna Kea starting in the 1960s.

Perhaps most significantly, “the university must decommission as many telescopes as possible, with one to begin this year and at least 25% of all telescopes gone by the time the TMT is ready for operation,” Ige said. The first to go will be the Caltech Submillimeter Observatory, whose closure was announced in 2009; it will start to be dismantled later this year.

But none of the other 12 telescopes had immediate plans to shutter. The submillimetre-wavelength James Clerk Maxwell Telescope is just beginning a new life under the operation of the East Asian Observatory. The 3.8-metre United Kingdom Infrared Telescope was similarly transferred from the UK’s Science and Technology Facilities Council to the University of Hawaii in Manoa last year.

“This is all new to us,” says Peter Michaud, a spokesman for the Gemini Observatory based in Hilo, Hawaii. “Until we learn more about it, we’re not really able to say much of anything.”

A 2010 plan commissioned by the university lays out a framework for how various observatories could be taken down. The governor’s announcement is likely to accelerate those scenarios, says Günter Hasinger, director of the University of Hawaii’s Institute for Astronomy in Manoa. “In principle this is nothing new,” he says. “We have always made the point that the space on top of the mountain should only be populated by the best telescopes.”

A changing landscape

Ige’s changes all push toward reducing impact on the mountain’s 4,200-metre summit. The University of Hawaii leases more than 45 square kilometres as a science reserve. The current lease is good until the end of 2033, but Ige said that when that is up the university must return more than 40 square kilometres — all the land not needed for astronomy — to the state’s Department of Land and Natural Resources. The university must also agree that the TMT location, which is a few hundred metres below the actual summit, is the last area on the mountain where any telescopes will ever be built.

An artist’s conception of the Thirty Meter Telescope on Mauna Kea, with existing telescopes in the background.

Visitors to the mountain top will be limited, and be required to receive cultural training. A new cultural council will be created to provide input to the Office of Mauna Kea Management.

“It’s up to different organizations to decide their next step,” said Ige. “I intend to fully protect the right of TMT to proceed to construction, and respect and protect the right of protestors to peacefully protest.”

“We will work with the framework he has put forth,” said Henry Yang, chair of the TMT International Observatory board, in a statement. “We know we have a lot of work ahead of us. We appreciate that there are still people who are opposed to the project, and we will continue to respectfully listen and work with them to seek solutions.“

Ige said his office would work with the university to develop a timeline for the various actions. “To my point of view this is a very important step forward, and will hopefully solve the Gordian knot that we are in,” says Hasinger.

TMT construction ignited a firestorm of protest among Native Hawaiians and also by many astronomers who pushed to redress what they see as decades of scientists essentially colonizing a sacred space.

The $1.5-billion TMT project chose Mauna Kea over a mountain top in Chile, and had gone through a seven-year permissions process. Partners include the University of California, the California Institute of Technology, and the governments of China, Japan, India and Canada. Legal challenges are still wending their way through Hawaiian courts.

Two competing telescopes are both under construction in Chile.

Nature, doi:10.1038/nature.2015.17639

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Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Houve um tempo em que falar de índios no Brasil era um exercício romântico. Tão romântico quanto fantasioso.

No começo do século XX, alguns doutos paulistas saíram pelo seu estado batizando os lugares com nomes tupi, do Anhangabaú a Araçatuba, movidos por ímpetos eruditos, não necessariamente por remissões mais escrupulosas à realidade. Quando a região de Guaianases, na cidade de São Paulo, foi batizada com esse nome, havia centenas de anos que os Guainá, que ali teriam sido aldeados à força no século XVI, já não mais existiam para contar qualquer coisa a respeito da sua história. Os índios daqueles eruditos paulistas, cultores do “tupi antigo”, eram algo bastante postiço. Realizando com perversa ironia os ideais antropofágicos dos mesmos tupi, que séculos antes iam à guerra, entre outras coisas, para caçar, para seus futuros filhos, os nomes daqueles que comeriam, acabaram eles agora transformados em não mais que nomes, desta feita como que nomes em conserva, para serem usados nessa curiosa salada toponímica.

Enquanto isso, no oeste paulista, a partir de Bauru, travava-se uma guerra pela expansão da fronteira agrária, empurrada pela ferrovia. Era um legítimo cenário de bang-bang, e as principais vítimas do extermínio, operado por “bugreiros” e outros agentes, eram os Kaingang e os Xavante, genericamente chamados de Coroados, gente da família linguística jê (muito diferente da família tupi, portanto); extermínio que a história oficial paulista fez questão de sepultar sob a tampa de concreto do silêncio, escrevendo, em seu lugar, o relato fantasioso de uma simples saga de imigrantes. Assim, Araçatuba, por exemplo, terra kaingang, hoje capital do boi gordo, no extremo-oeste paulista, pôde, também ela, ganhar seu bucólico nome tupi: bosque de araçás.

Note-se: não estamos nos confins selváticos e geograficamente obscuros de uma imensa Amazônia; uma Amazônia quase que alheia e que nem parece ter fim (e que daí, pela “lei” da oferta e da procura, se presuma como tão… barata). Estamos no hoje pujante e urbanizado oeste paulista, há não mais que cem anos atrás, apenas vinte anos antes de São Paulo embarcar em uma aventura militar contra um incipiente governo nacional antioligárquico.

De romantismo em romantismo, chegamos aos anos 80, em que os índios, eternos candidatos a nobres selvagens, passam a ser agora heróis ecológicos. Esses, pelo menos, ainda estavam vivos. É bem verdade que a relação dos índios com aquilo que chamamos “natureza” é muito diferente da que a nossa sociedade tem, a começar pelo fato de que, como nos ensina a antropologia amazonista hoje, eles não a reconhecem como “natureza” ― como objeto exterior e à parte, feito para ser usado, apropriado e apenas eventualmente “preservado” como coisa patrimonializada ―, mas como “gente”, como uma multiplicidade de sujeitos imprescindíveis de uma relação sem a qual o mundo habitado não é compreensível nem poderia existir. No entanto, transformar os índios em heróis da “nossa” natureza, incorporados como parte daquele objeto à parte, e igualmente alheio a nós, pode não ser mais que uma dessas nossas projeções, tão românticas quanto utilitárias, de ver Peri beijar Ceci… e morrer em seguida. Parará tim bum bum bum.

Se o novo romantismo ecológico ao menos chamou os índios para a agenda enquanto eles ainda estão vivos, sua tônica acanhadamente preservacionista os fez equivaler, mais uma vez, ao passado; a um passado de aparente pureza florística e faunística que precisaria ser sempre revivido ― ou “resgatado”, como gosta de usar a terminologia patrimonializadora em voga ― de forma idealmente imutável. Mais uma vez, os índios parecem entrar na (nossa) dança sob a clave do embalsamamento, mesmo que, agora, sob a agenda de uma patrimonialização talvez tão fetichista quanto a toponímia mítica dos velhos eruditos paulistas.

No entanto, nos últimos tempos, os últimos lastros românticos que ainda pareciam nos avalizar a existência dos índios parecem estar ruindo, o que não nos augura necessariamente algo virtuoso, porque ficamos mal-acostumados a depender dos romantismos para assegurar uma (traiçoeira e manhosa) legitimidade simbólica desses Outros Nacionais (como os chamou a antropóloga Alcida Ramos) e, por consequência, garantir as bases institucionais da sua existência enquanto povos acolhidos e protegidos ― não falemos sequer ainda de “respeitados”, porque o respeito à diferença não é algo que se aprenda por meio de projeções românticas.

Não é preciso lembrar, para as pessoas razoavelmente informadas, o estado de coisas em que andam as políticas de governo… e os horizontes obscuros das políticas de Estado… com relação aos povos indígenas. Também já é quase ocioso lembrar o quanto um e outro (políticas de governo e projetos de política de Estado) têm se estimulado mutuamente, para promover o etnocídio indígena por meio do solapamento dos direitos. Seja para quem for, qualquer solapamento de direitos é sempre um sequestro da cidadania. Daria até para lembrar, parafrasticamente, aquele poema de Brecht: “primeiro levaram os índios…”.

O que alenta e justifica essa marcha implacável nós também já sabemos o que é: a velha ideologia desenvolvimentista repaginada pelo avatar inquestionável do consumo como critério, seja de teórica “inclusão” seja de teórico “bem-estar”. Assim, no coração dessa nova ideologia desenvolvimentista encontra-se uma operação utilitarista singela: trocar a cidadania pelo consumo. E, nela, o único lugar para os índios ― uma vez corroídas, por esse realismo neoclássico rasteiro, as amarras românticas que os sustentavam ― é o de se tornarem, eles também, modestíssimos consumidores, apoiados por programas assistenciais do governo, depois de entregarem seus “meios de produção” a quem realmente interessa, como aqueles que, vencidos, entregaram outrora o que são hoje terras de boi gordo.

Claro que os que já se renderam inteiramente à coisificação utilitarista do consumo (e provavelmente se esqueceram até de ser gente) vão dizer: melhor boi gordo do que índio ― e no estado em que chegamos, isso é exatamente o que muitos pensam, sem que tenham a necessidade de pronunciá-lo. No entanto, a troca utilitarista, na sua racionalidade de meios e no seu afã predatório, quer apenas ganhar hoje, para a aventura de uns quantos, o que o bem comum poderia, de outra forma, ganhar multiplicado amanhã, se sobreviver até lá. E é aí que a equação que move as curvas de utilidade se alarga para variáveis e horizontes impensados pelos mecano-economistas.

No atual estado de coisas, entretanto, parece haver apenas duas alternativas para salvar a (potencialmente subversiva) diversidade existencial dos Outros Nacionais da sanha desenvolvimentista de moê-la e transformá-la em salsicha: ou reciclamos as projeções românticas em algum novo (e duvidoso) feitiço encantatório das nossas narrativas nacionais, ou tiramos os índios do alheamento passadista a que sempre foram condenados e os reconhecemos como uma aposta sincera no futuro; num futuro não apenas deles, como também não apenas nosso, mas num futuro de diálogo, para além do alheamento, no qual eles também são, necessariamente, sujeitos de fala ― não “eles” a pessoa x ou y, ou a “representação” w ou z, mas, ainda mais radicalmente, as suas visões de mundo. A primeira alternativa, a da reciclagem das projeções românticas, sempre foi aquela imediatamente sedutora, e, com ela, chega-se até mesmo a lançar mão de alegados exotéricos. A segunda, por sua vez, é a que reclama uma reflexão antiutilitária, mas estratégica, que talvez seja exatamente aquilo pelo qual muitos de nós, antropólogos, trabalhamos.

Em 1952, num texto escrito para a Unesco, Lévi-Strauss defendia que as sociedades só sobrevivem porque aprendem umas com as outras. Uma sociedade que se isola na certeza das suas verdades fenece diante dos problemas para os quais sua visão de mundo não alcança soluções. As “soluções” de grande alcance, portanto, não são meramente tecnológicas, mas conceituais. São as ideias que dimensionam a técnica e que dão uso às ferramentas, ou, segundo a fórmula famosa do epistemólogo Georges Canguilhem: o microscópio não é a extensão da vista, mas a extensão da inteligência. Sem o conceito de micro-organismo, o que se veria pelas lentes de um microscópio seria apenas um conto de fadas.

Evidentemente que as tecnologias ajudam, mas o que está sempre por detrás delas são as ideias. De pouco adiantaria, para a expansão europeia dos séculos XV e XVI, o astrolábio que os europeus aprenderam dos árabes, se alguns deles não dispusessem do novo e herético conceito de uma Terra redonda. Descobrir a América, nesse sentido, foi a consagração de uma grande heresia, frente a uma doxa tão potente à sua época quanto os mitos econômicos atuais e suas leis inquestionáveis. E as coisas não pararam por aí, evidentemente, porque, como também nos lembrava Lévi-Strauss, isso é a história, e os europeus, casualmente, não se encontravam na situação dos Mayas em torno do ano 1.000, quando, orgulhosos e isolados, viram suas opulentas cidades colapsarem por conta de uma crise ecológica, por eles mesmo provocada, e para a qual nem o refinamento do conhecimento dos seus astrônomos e sacerdotes tinha uma solução a dar.
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Ainda assim, um milênio após o fim do período Maya Clássico, o muralista Diego Rivera pintaria em uma das paredes do Palácio Nacional do México a lista do que a tradição ameríndia mexicana havia legado ao mundo: uma lista de cultivos alimentares que, além de cacau, tomate e feijão, é encabeçada, evidentemente, pelo milho, cuja notável diversidade genética dos cultivares meso-americanos a Monsanto está tratando hoje de eliminar, por meio de seu milho transgênico com patente “made in USA”. Não apenas o milho, mas sobretudo a batata, levada dos Andes pelos europeus, produzem muito mais calorias por hectare plantado que o trigo, nascido na Mesopotâmia e levado para a Europa. O cultivo desse tubérculo, rapidamente estimulado e expandido no Velho Continente, foi responsável por eliminar a fome endêmica e medieval da Europa, e constituir a base demográfica sem a qual a Revolução Industrial não teria sido possível e, com ela, a nossa arrogante modernidade.Por trás da domesticação dos tubérculos nos Andes há um enorme conjunto de ideias sobre como a mãe-terra gera seus frutos, como o trabalho comum os recolhe, como eles podem ser acumulados e conservados, e como devem ser distribuídos. À época da Conquista, os indígenas dos Andes eram muitíssimo mais bem nutridos e saudáveis que os europeus. Diante dessa diferença evidente, estes últimos aproveitaram apenas um produto específico, o que, para eles, já foi muito. Há quem acredite que o socialismo e o Estado do bem-estar social teriam sido inventados alguns séculos antes se os europeus, além das batatas, tivessem levado as ideias.

Apostar nos índios, e portanto na diversidade cultural, como nosso futuro comum de não-alheamento, não significa meramente apostar que a erva de algum pajé possa trazer a cura para o câncer. Expor nossas ideias ao contato com outras visões de mundo pode nos curar de coisas muito piores: nossos próprios e mesquinhos limites.

Quando comentávamos antes que o militantismo ecologista, ao trazer intuitivamente os índios à baila, acabou descuidando do que eles poderiam pensar a respeito da “nossa” natureza ― apenas para servirem ao que nós continuamos a pensar dela e da sua “preservação” enquanto objeto ―, sugeríamos também que a recusa, por parte dos índios, à sumária objetificação dessa “natureza” corresponde ao reconhecimento dela, por eles, como sujeito de uma relação. Conceitos como animismo, perspectivismo e multinaturalismo (por oposição a multiculturalismo) vêm sendo testados pelos antropólogos para descrever o sentido da socialidade indígena na Amazônia e a sua maneira de reconhecer os agentes das relações. Esse fenômeno, no entanto ― como tentamos demonstrar em nossas pesquisas nos Andes ―, pode, na realidade, se constituir como um traço ameríndio generalizado, continental. E o que ele desafia não é apenas a nossa forma de relação com uma “natureza” dada, mas sim a forma como nós a conceituamos, para, em seguida, nos sentirmos à vontade para subjugá-la, a partir de uma relação sujeito-objeto em que a extensão do uso e da posse (a simples destruição incluída) se define pelos casuísmos de uma racionalidade instrumental.

Se aquele tipo de perspectiva sobre a socialidade tem uma incidência efetivamente ameríndia, continental, e se a dimensão do seu desafio pode e deve ser posta em larga escala, então quem nos manda o recado político é o movimento indígena equatoriano, que inspirou em boa medida a elaboração da última Constituição do país, referendada em 2008. Nela, pela primeira vez no mundo, a Natureza foi reconhecida como sujeito jurídico de direito, para que em seu nome e da sua integridade, seja defendida como parte interessada em qualquer ação judicial visando garantir sua “existência, manutenção e regeneração de seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos evolutivos” (Art. 71). Talvez seja ocioso se prender a emblemas ou ressentimentos étnicos: se essa Natureza corresponde tão somente, ou não, à Pachamama, a mãe-terra dos andinos, tal como explicitamente a nomeia o mesmo artigo 71… Estamos, antes, em um terreno de fecundas heterogeneidades discursivas, no terreno do desafio das ideias. E é aí que se fazem as grandes apostas no futuro, porque é isso que, para o bem ou para o mal, com a lista de Diego Rivera e muitas outras, e também com toda a precariedade das experiências, constituiu o Novo Mundo.

O desafio posto pelo pensamento ameríndio de reconhecer a socialidade como espaço de interação necessária de muitos sujeitos, que faz o mundo girar não por conta de alguma hierarquia natural ou do imperativo de marcas de origem que definem privilégios, mas por conta das diferentes maneiras de vê-lo e de tecer acordos, nos sugere que viver em não-alheamento significa reconhecer que o Outro é, inescapavelmente, parte de qualquer consideração que se faça sobre si mesmo. Como já o enunciava, bela e sinteticamente, o professor Eduardo Viveiros de Castro, “para os ameríndios, o Outro não é apenas pensável, ele é indispensável”. Talvez não tenhamos lição melhor, para começarmos a repensar seriamente o que possamos entender por cidadania, em um contexto flagrado por iniquidades; um contexto que não será reformado se se insistir apenas no polo da objetificação alheadora, no fetiche da mercadoria e, em último termo, na dispensabilidade dos outros.

Não se trata de opor um fantasioso “espiritualismo” indígena a um materialismo ocidental “realista”. Trata-se de desafiar um certo regime de socialidade (o nosso, ocidental e moderno) com outras ideias, disposições e possibilidades. Algumas delas é bem provável que até já tenhamos aprendido inconscientemente, ao longo de nossa história cultural, afinal o território mais largo da cultura, a parte submersa desse iceberg, é, como também dizia Lévi-Strauss, esse inconsciente. Os índios que os portugueses aqui encontraram, com quem conviveram e que permanecem no (apenas aparente) subterrâneo das nossas mestiçagens, não legaram aos brasileiros de hoje simplesmente tapioca, rede de dormir e outras coisas. Legaram-nos também um modo de nos relacionarmos quotidianamente, que, muito diferente dos europeus, não parte do princípio do reconhecimento do lugar social e pertencimento de alguém sempre e necessariamente pelas suas marcas de origem ― algo que tanto prezam nossas elites senhoriais, que se querem mais “europeias”. Se os brasileiros aprenderam a se abrir cordialmente aos outros, digeri-los e abrasileirá-los como parte de um nós possível (ainda que muitas vezes perverso e hierárquico ― mas a hierarquia não é, com certeza, um legado indígena), isso seguramente não foi aprendido dos europeus.

E se se trata ainda de desafiar um certo regime de socialidade com outras ideias, disposições e possibilidades, então, levar a sério o não-alheamento diante da diversidade significa garantir aos muitos da cidadania um lugar ativo, ouvi-los mais detidamente e deixar-se desafiar pela possibilidade da invenção, pela potencial complicação do que parece já estar dado pelas nossas formas institucionais, recusando a simples tentação de domesticá-los às formas prévias, a uns quantos programas assistenciais, quotas e representações de fachada. Afinal de contas, o que é, por exemplo, o ideal político do “Buen Vivir” (ou, em quéchua, “Sumaq Kausay”), alentado pelas novas disposições constitucionais do Equador e da Bolívia, senão uma enorme complicação para a planura desenvolvimentista; uma complicação ainda a reclamar um ou vários Amartya Sen para lhe inventar indicadores por agora imponderáveis? Mas, e o que é também o ideal político do “Buen Vivir” senão um desafio em nome da “imanência da suficiência”, dos índios, contra a voraz e predatória “transcendência da necessidade”, do Ocidente capitalista, de que nos falava Eduardo Viveiros de Castro [1]?

Talvez seja também preciso dizer que encarar seriamente a opção do não-alheamento significa, com bastante probabilidade, molestar alguns lugares comuns tidos hoje como “politicamente corretos”, e que são aqueles tributários do multiculturalismo neoliberal, quais sejam, suas obsessões com fronteiras bem acabadas, identidades amuralhadas e os contratos de patrimonialização. Os verdadeiros diálogos não se realizam sobre a prévia domesticação dos seus termos por gramáticas unilaterais ― ou uma pretensa universalidade habermasiana. Eles não são uma mera exibição de emblemas, para marcar posição dentro de um mercado contratualista ― ou uma economia contratualista da alteridade. Os verdadeiros diálogos são aqueles em que nos “contaminamos” e nos arriscamos com as razões de ser dos outros. Os pós-estruturalistas talvez tenham nisso razão ao usarem o termo “devir”.

A Constituição brasileira de 88 consagrou os direitos coletivos indígenas como base positiva do direito à reprodução cultural. Sequestrar os primeiros é também sequestrar este último. O que perdemos todos com isso é mais do que uma diversidade meramente nominal, a diversidade passiva do multiculturalismo objetificador. Estaremos perdendo possibilidades de cidadania. E estaremos perdendo possibilidades de futuro. Pois é aí, e não num passado romântico ou instrumentalmente ecológico, que os índios deveriam sobretudo ser vistos.

[1] http://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-isa/o-brasil-e-grande-mas-o-mundo-e-pequeno

B.C. First Nations group rejects $1-billion offer for LNG venture (Globe and Mail)

The proposed Pacific NorthWest LNG project would be built on Lelu Island, near eelgrass beds that nurture young Skeena salmon. (www.lonniewishart.com/Pacific Northwest LNG)

BRENT JANG
VANCOUVER — The Globe and Mail

Published Wednesday, May. 13 2015, 1:15 AM EDT

Last updated Wednesday, May. 13 2015, 12:40 PM EDT

Lax Kw’alaams members voting in the final of three meetings have unanimously rejected a $1-billion cash offer from Pacific NorthWest LNG, declining to give aboriginal consent sought by the project while creating uncertainty for plans to export liquefied natural gas from British Columbia’s north coast.

Globe and Mail Update May. 12 2015, 7:30 PM EDT

Video: Can Petronas overcome the opposition to its LNG project?

The lure of the money, which would be spread over 40 years, is being overshadowed by what the native group views as excessive environmental risks. The Lax Kw’alaams fear the Pacific NorthWest LNG project led by Malaysia’s Petronas will harm juvenile salmon habitat in Flora Bank, located next to the proposed export terminal site on Lelu Island.

“The terminal is planned to be located in the traditional territory of the Lax Kw’alaams,” the aboriginal group’s band council said in a statement Wednesday. “Only Lax Kw’alaams have a valid claim to aboriginal title in the relevant area – their consent is required for this project to proceed. There are suggestions governments and the proponent may try to proceed with the project without consent of the Lax Kw’alaams. That would be unfortunate.”

In the first vote in Lax Kw’alaams, 181 eligible voters unanimously stood up to indicate their opposition to the LNG proposal. In the second vote in Prince Rupert, the pattern continued as 257 eligible voters declined to provide aboriginal consent. Tuesday night’s vote at a downtown Vancouver hotel made it three unanimous rejections in a row, said Lax Kw’alaams Mayor Garry Reece.

In Vancouver, 112 Lax Kw’alaams members stood up to convey their no votes, two sources close to the native group said. Dozens of others phoned and e-mailed band officials to signal their opposition.

The voting tally “sends an unequivocal message this is not a money issue,” the Lax Kw’alaams band council said. “This is environmental and cultural.”

Mr. Reece and 12 elected councillors will make the final decision on behalf of the 3,600-member band. They left the door open for good-faith negotiations, as long as those discussions don’t involve being too close to Flora Bank.

“Lax Kw’alaams is open to business, to development and to LNG,” including talks with Pacific NorthWest LNG, according to the statement.

An estimated 800 people live in the community of Lax Kw’alaams, while roughly 1,800 are based in Prince Rupert and another 1,000 in Vancouver and elsewhere.

Besides the cash offer from Pacific NorthWest LNG, the B.C. government is willing to transfer 2,200 hectares of Crown land, valued at $108-million and spread over the Prince Rupert harbour area and other property near Lax Kw’alaams. TransCanada Corp.’s Prince Rupert Gas Transmission pipeline plan is also under scrutiny by the First Nations group.

The band council said there needs to be better co-ordination among the provincial and federal governments, with the latter represented by the Prince Rupert Port Authority (PRPA). Lelu Island and nearby waters are under jurisdiction of the port authority.

“To date, it is the considered opinion of the Lax Kw’alaams that there has been indifference to the point of negligence or willful blindness, or both, by PRPA in respect” of the Pacific NorthWest LNG project, according to the band council’s statement.

Pacific NorthWest LNG filed its environmental impact statement in February, 2014. The Canadian Environmental Assessment Agency expressed concerns to the joint venture in May, 2014. Catherine Ponsford, the agency’s project manager for the Pacific and Yukon region, emphasized the need for Pacific NorthWest LNG to take heed of what is currently the picturesque setting of Lelu Island. “The project would convert large parts of Lelu Island, an undeveloped area of 192 hectares, into an industrial site,” she wrote in a five-page letter to Michael Lambert, Pacific NorthWest LNG’s head of environmental and regulatory affairs.

Ms. Ponsford sent another letter to Mr. Lambert in February, noting that Pacific NorthWest LNG agreed to conduct “3-D sediment dispersion modelling” to study the complex system that effectively holds Flora Bank in place. Ten weeks after that letter, Pacific NorthWest LNG submitted a new study by engineering firm Stantec Inc., dated May 5, that argued the construction of a suspension bridge and trestle from Lelu Island to Chatham Sound would not have an adverse effect on salmon habitat in Flora Bank.

The Canadian Environmental Assessment Agency, which began its review of Pacific NorthWest LNG in April, 2013, is expected to rule on the project by October.

“The significance of the Skeena River estuary to area First Nations cannot be overstated,” the band council said. “Lax Kw’alaams has on staff a team of scientists directed to assess the environmental challenges posed by the existing design for movement of LNG from the terminal.”

New Territories in Acre and Why They Matter (E-flux)

Journal #59, 11/2014

Marjetica Potrč

The Croa River community consists of approximately four hundred families spread out across eighty thousand hectares of Amazonian forest. They aspire to see the land they inhabit become an extraction reserve, and in fact, it is in the process of becoming precisely this: one of the new territories in Acre. As such, it is a good example of the current trend toward territorialization in the Brazilian state. It is also a good example of what territories stand for: self-organization, sustainable growth, and local knowledge.


Territorialization of Acre State (1988, 1999, 2006), Courtesy the artist

The Croa community’s land is located a few hours’ drive and a short boat ride from Cruzeiro do Sul. A small city, Cruzeiro do Sul is a major center for the western part of Acre and the region around the Jurua River. There are daily flights from Rio Branco, and the town is accessible by road from Rio Branco six months of the year and by the Jurua River throughout the year. From Cruzeiro do Sul it takes two to three weeks to travel by boat to Manaus. In short, the Croa community is nestled in the western corner of Brazil’s Amazonian forest and, from the perspective of São Paulo, seems a remote and isolated place—something that, in our world of excessive connectivity, is considered a negative. But from the perspective of the people who live there, relative isolation can be a bonus. The communities I saw, including the Croa community, draw strength from their cultural identity and a sustainable economy. Not all these communities are strong, but they understand clearly that both these conditions are necessary if they are to thrive. The communities are well connected among themselves and, beyond Acre, with the world—strangely enough, many of the things that concern them are, in fact, more closely related to world issues than to specifically Brazilian ones.


Left: Ashanika Indian, Acre. Photo by Mauro Almeida. Right: Marjetica Potrč, Drawing No.1/7: Pattern Protects, 2007, 7 drawings. Courtesy the artist and Galerie Nordenhake, Berlin.

When such communities reach out to others, they want to do it on their own terms. They want to interact in a positive way with others and at the same time remain separate. By reaffirming their own territories, they are actively participating in the creation of twenty-first-century models of coexistence, where the melting pot of global cities is balanced by centers where people voluntarily segregate themselves. After all, one of the most successful and sought-after models of living together today is the gated community—the small-scale residential entity. But unlike gated communities, which represent static strategies of retreat and self-enclosure, the new territories in Acre are dynamic and proactive: they reach out to others.


Isolation and Connectivity, Left: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo. Right: Marjetica Potrč, Drawing No.5/12, Florestania, 2006, 12 drawings. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York.

Statement #1: The world must be pixelized! Democracy is particles!

Over the past two decades, Acre has been pixelizing itself into new territories, such as extraction reserves and Indian territories, along with sustainable urban territories. The government supports the territorialization of the state. These new territories are the result of collaboration between the government and local communities. The communities are self-organized entities and, basically, bottom-up initiatives. Their focus is on empowering their own people (education is a primary concern); practicing the sustainable extraction of forest-based resources; and developing a small-scale economy as both a tool for their communities’ survival (several communities have been successfully selling their goods on the global market) and as a counter-model to the globalized economy created by multinational companies and organizations. The Acrean communities have a particular approach to land ownership. In the new territories, the emphasis is not on the individual owning land and extracting resources from it solely for his own benefit, but on the collective ownership and sustainable management of natural resources for the benefit of the whole community. Here, the existence of an individual is understood essentially as coexistence. Being always means “being with,” and “I” does not take precedence over “we.”1 In short, the new territories suggest forms of living together that go beyond neoliberalism and its understanding of individualism, liberal democracy, and market capitalism.

Notice that the new territories of Acre represent a social and economic alternative to China’s new territories, which are characterized by fast-growing, large-scale economies and an ideology of progress. The territories of Acre, by contrast, are grounded in a small-scale economy; the people who live there feel a personal responsibility both toward their own communities and toward the world community.

In fact, in their dynamics of deregulation and strategies of transition, Acre’s new territories suggest a different comparison: with the European Union as it is today. As a geopolitical entity, Europe is constantly expanding. It is a body in flux. Within its shifting boundaries, the consequences of the gradual dissolution of the social state and the ideology of multiculturalism can be seen in territories consolidated around ethnic groups and other kinds of communities. As last year’s rejection of the EU constitution by French and Dutch voters indicates, people want to live in a more localized European Union; similarly, the EU explores a paradigm in which regional entities serve as a counterbalance to the nation-state. An emphasis on the local means that more decisions are taken at the local level and bottom-up initiatives are on the increase. The state of “transition” is accepted as a working model, and there is a civil society in the making that is quite different not only from the society of twentieth-century modernism, which feared any threat to unity, but also from the present-day ideology of globalization. As regionalism and localism gain ground, new models of coexistence emerge, such as urban villages and urban villas, new typologies of residential architecture. In the heyday of the modernist national state, a residential community could mean some ten thousand people. Today, an urban village means two thousand people—a dramatic shrinkage from the earlier model. Another important distinction is that today’s urban villages are, again, bottom-up initiatives, while the modernist residential community was organized from the top down. The question is: just how far is it possible to “downscale” the world community?

The territories in Acre are the result of “degrowth,” the process by which society fragments and pixelizes itself down to the level of the local community, and sometimes even further, to the level of the individual.2 Age-old wisdom tells us that when individuals take responsibility for building their own lives, they also build their communities, and beyond that, the world community: “When I build my life, I build the world.” As the Acrean territories show, communities see the consequences of such practices very clearly: they see “upscaling”—the scaling down of the economy and the pixelation of territories produce a new kind of connectedness: “upgrowth.” In Acre, particles and group identities are forces of democracy.

Statement #2: We must grow up strong together!

A precondition for communities in the new territories to thrive is that they draw strength from a sustainable economy, local experience—a loose notion that embraces the importance of cultural identity—and education. The communities believe that territories which are strong in these areas have the best chance to prosper. Although the emphasis is clearly on the local (they see rural communities as guaranteeing greater dignity, in contrast to the kind of life migrants to urban centers experience), they do not romanticize localness. They see themselves as players in the contemporary world: they had to overcome both the colonial past and the dominant globalizing pressures of the present. Theirs is a post-colonial, post-neoliberal practice. From where they stand, they see the future as their present.

Universidade da Floresta (University of the Forest), Acre. Left: video still by Garret Linn, in Marjetica Potrč, Florestania: A New Citizenship, video, 2006. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

Practice #1: We are growing up together strong; we are connected! But first, let’s isolate ourselves. Only then we will be able to connect on our own terms.

The new territories of Acre are, indeed, strong and well aware of the benefits that come from being connected. Clearly, local emphasis, self-esteem, and connectedness make a perfect match, not a contradiction. I am thinking in particular of an ongoing initiative by Indian tribes to connect their remote areas via satellite through solar-powered communication centers. Representatives from the tribes are traveling all the time—at least this was the impression I received from encountering them on the streets of Rio Branco and at airports, or, for that matter, not seeing them because they were in São Paulo while I was in Rio Branco, or in Rio Branco when I was in Cruzeiro do Sul. Indeed, I had the feeling that they traveled more than Paulistas. An Acrean can with justice say to a Paulista: “I know you, but you don’t know me.” The general feeling one gets in São Paulo is that Acre is very far away, an unknown, isolated region, not well connected at all. This perspective of the center toward the periphery is overturned in Acre, where territories are understood as centers that want to connect on their own terms. Acreans don’t see themselves as being too isolated. They like their degree of isolation. They draw on the wisdom of the forest: the “center” is a place in the forest where the “game”—the chance to make a good life for oneself thanks to the proximity of natural resources and community infrastructure—is strong and multiple connections to the outside world are not necessarily a bonus; the “periphery,” meanwhile, is along the river, where a person may be more connected to the world outside but the “game” is not so strong. As always—and as common wisdom tells us—the center is what’s most important.


School Bus, Croa Community, Acre. Left: video still by Garret Linn, in Marjetica Potrč, Florestania: A New Citizenship, video, 2006. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

Practice #2: We marry local experience with hi-tech knowledge!

The new territories of Acre are strong “centers” with rich local experience; they balance connectedness and isolation well. In a way, these territories are perfect islands: you can reach anyone from here but not everyone can reach you. The next most important thing is their practice of self-sustainable management—the result of blending local experience and hi-tech knowledge. Hi-tech sustainable solutions help them upgrade their living conditions, and allow them to communicate and trade from remote locations with little or no energy infrastructure. Advanced technology (such as solar-powered satellite dishes) means that at last, in the twenty-first century, the remote territories of Acre can themselves become centers, no less than other places, by using self-generated energy, which in turn gives them greater freedom in communicating. Without a doubt, the combination of local experience (from the territories) with hi-tech knowledge (from Brazil) is potentially a geopolitical advantage. But can it really work without the support of the state?

Practice #3: Happiness is: growing in small steps! Ours is a dignified life! We are accountable for ourselves and to others!

Those who manage the sustainable extraction of forest-based resources see the small-scale economy both as a tool for their own survival as well as a new economic model that is necessary for the survival of the planet and society at large. In Acre, clichés acquire real meaning: “The survival of the rain forest is the survival of the earth; the rain forest is the final frontier; the world is one community.” It feels as if Acre’s government and its people are on a mission. Does the future of the world depend on locally managed territories and small-scale economies providing a balance to the globalizing forces of multinational companies and organizations? The people I spoke with in Acre are convinced of this. But there’s a Catch-22, an obvious contradiction that resides in the very notion of sustainability. While any nonsustainable extraction of forest resources would have dire consequences not only to these communities but also to the entire world, efforts to achieve self-sustainable management of the forest through a small-scale economy present important challenges. Can the territories really survive and even thrive on this? Apart from natural resources, how well does local knowledge trade on the global market?

Practice #4: We protect what belongs to us! Cupuaçu is ours!

The new territories of Acre are strong centers and well connected; they practice self-sustainability and self-protection. The protection of the new territories is a must, not only because of the long history of their cultures being abused—which means self-protection comes naturally to those who live here—but also because of the ongoing threat of bio-piracy. The unlawful theft of natural resources in a region whose greatest wealth is biodiversity ranges from famous incidents involving the theft of rubber tree seeds (which led to the collapse of the region’s rubber extraction economy), to recent cases of a Japanese company, among others, attempting to patent the indigenous fruit known as cupuaçu (the Japanese patent has recently been revoked). So it’s no surprise, really, that Acre’s efforts to protect the territories from outsiders may seem excessive. The remoteness of their location does not guarantee sufficient protection for the Indian territories. If visitors to an extraction reserve are viewed with healthy suspicion because of fears that they might be involved with bio-piracy, a visit to an Indian tribe is extremely difficult to arrange. The main reason for this is to shield indigenous cultures. In theory, all would-be visitors to an Indian tribe must state their reasons for wanting to travel there, and visits must then be approved by the community. In this way, the territories remind us of the fortified city-states of Renaissance Italy or today’s contested territories in the West Bank. Indeed, the Acrean practice of planting trees as border protection in defense of one’s territory mirrors practices by Palestinians and Jewish settlers before the erection of the Israeli Barrier Wall halted negotiations between the two communities. A major difference, however, is that, while the Acrean territories may recall walled cities, they are not closed off. Today, the borders of these fragile and contested territories are porous. They permit and even welcome negotiations. And as for any precise demarcation of these territories’ borders, this remains in flux for the simple reason that rivers change their course and villages relocate themselves in the search for natural resources. And here is a contradiction: these strong territories are in fact fragile territories. To be able to exist and prosper, they need to be constantly communicating with the world and negotiating with their neighbors.

Practice #5: We are not objects of study! We want to share our knowledge on equal terms! In a horizontal world, education must be horizontal! To each group, their own education! We are unique!

Education—learning and sharing knowledge—is a crucial issue for the new territories, but the same may be said for the whole of Brazil and beyond. We have learned that the riches of education, though seemingly immaterial, are what guarantee the material wealth of nations. Today, the richest countries are those with the strongest educational systems. This awareness is even more important in the context of Brazil, ranked first in the world in the gap between rich and poor—which also means there is an immense gap where education is concerned. The new territories of Acre, although wealthy in both natural and intellectual resources, cannot hope to provide the kind of high-quality education the rich world demands. But being so inventive, the people of Acre organize things differently. The goal is to customize education for particular groups in the community. Established hierarchies are put in question, and education is organized in a way that makes sense for the community. Schools and local knowledge are cherished and protected—just as the territories themselves are. It struck me that the demands that shape education are, in a way, similar to those that shape the territories. Both exist for their people and both are necessary for people’s prosperity and aspirations, framing the life of the community.

Two collaborations are under way in Acre that I find especially inspiring. One involves the building of schools in remote areas for primary education; this is a collaboration between the local communities and the government. A typical school of this sort is equipped with extensive solar paneling and a satellite dish—in other words, an energy supply and a means of communication with the world. The second collaboration concerns higher education. This is the University of the Forest, whose goal is to bring together the knowledge of rubber-tappers, Indians, academics, and scientists so as to marry local experience with Western science. This makes sense. Brazil, after all, is a hi-tech country where the knowledge of those who live in the forest is not taught in the classroom but experienced directly. Indians and rubber-tappers, the caretakers of the forest, don’t want to be objects of research. They want to contribute to our shared knowledge on an equal basis. They want to trade their knowledge as they see fit. I see the University of the Forest as a new and important model for higher education.

Statement #3: The people of the ’60s were thinkers; we are doers!

My aim in writing this was to make sense of what I experienced during my stay in Acre in March and April 2006. I know that my assessment of the situation is far from thorough, but so be it. For me, it all comes down to the question: “What does it mean to live a dignified and responsible life today?” I realize that the community structures in Acre are not intended as models for other communities. The things I have mentioned here are simply their practice—the practice of sustainable existence. For me, their strategies recall other twenty-first-century experiences, such as the new states of the Western Balkans, which were formed when the region collapsed in the wars in the 1990s; like Acre, this region, too, has become pixelized into small territories—territories that are rejuvenating themselves by implementing practices and pursuing aspirations similar to those of the people of Acre. In both cases, downscaling is producing a scaling up: these particles and group identities are not static and self-enclosed, but dynamic and open to the world. I believe that faster and slower worlds can exist simultaneously in parallel realities, and the Western Balkans and Acre seem to me to be fast worlds, in some ways ahead of the rest. So it’s possible for us to learn from their practices.

I loved what I saw in Acre. It would be nice to think that the proposals of Constant and Yona Friedman, as well as other thinkers of the 1960s, such as Hélio Oiticica and Lygia Clark, who dreamed of a world community, provided inspiration for the people who are today forging Acre’s new territories, but I know that the Acreans have very likely never heard of them. Still, it’s beautiful to see that the doers of today are materializing the ideas of the thinkers of the ’60s. I thought it was fantastic how everyone we talked with in Acre saw clearly the benefits of their practices, for both themselves and the world community, and understood how to implement them. The new Acrean territories make me hopeful for our future coexistence. Their success is evidence that humanity can function as an intelligent organism. As it reaches critical mass, the world community, combined with a free-market economy, is generating alternative approaches to today’s neoliberalism, whether this means an emphasis on small-scale economies or a society based on local communities. Most importantly, those who live in the Acrean territories understand themselves as particles in, and contributors to, the world community.


Rural School “Luiz Placido Fernandes,” Acre. Left: Courtesy of Seplands and Prodeem, the State of Acre, Brazil. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

For sharing their vision and experience, I am particularly grateful to Camila Sposati, who provided me with a superb introduction to Acre and its people, to Sergio de Carvalho e Souza, who was an incredible guide for understanding the new territories, to members of the Croa community (Gean Carlos de Oliveira and Silvana Rossi), to representatives of the Indians (Luiz Waldenir Silva de Souza and Mutsa Katukina), the extraction reserves, and the government (Chico Genu and Marcus Vinicius), as well as to Manuela Carneiro da Cunha, co-author of the Enciclopédia da Floresta and a key figure in the University of the Forest, and many others besides.

Em favor da florestania (Trópico)

entrevista: Mauro Almeida

Por Renato Sztutman

A Universidade da Floresta, no Acre, luta para combinar o conhecimento científico com os saberes dos povos da região

A função de uma universidade pública é, ao menos em teoria, garantir o acesso de todos os cidadãos ao conhecimento. Nisso reside o seu ideal de igualdade. Sabe-se, no entanto, que esse acesso “universal” acaba restrito a uma fatia da população que pôde contar com uma educação de alto nível e que partilha determinados valores culturais. O desafio passa a ser, então, como incluir no ensino superior a população menos favorecida, por vezes pertencente a diferentes segmentos étnicos e culturais, vetores minoritários da sociedade.

A esse desafio soma-se outro, igualmente urgente: conceber um plano de ensino e pesquisa que reconheça nessas pessoas não receptáculos de um conjunto de saberes assegurados como universais, mas sobretudo sujeitos do conhecimento, capazes de realizar sínteses próprias e, ainda, transformar os conhecimentos produzidos pelo Ocidente moderno. Nesse sentido, incluir pode deixar de significar o enquadramento necessário em uma realidade estabelecida para designar um diálogo simétrico e transformador.

Esses desafios têm sido bastante discutidos por Mauro Almeida, professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mais precisamente no que diz respeito à sua experiência com a concepção da Universidade da Floresta, inaugurada no início de 2006 na cidade de Cruzeiro do Sul.

Localizada no extremo ocidente do Brasil, no Estado do Acre, num ponto quase eqüidistante entre Rio Branco e o oceano Pacífico, a região de Cruzeiro do Sul caracteriza-se pela sua riquíssima biodiversidade. Para Mauro Almeida, como para os demais idealizadores desse novo centro de ensino, o importante é promover a convivência, no interior e nos interstícios do ambiente acadêmico, de saberes tradicionais e científicos, de modo que sejam produzidas reflexões sobre o futuro da região em questão, o que exige investigações sobre manejo ambiental, biodiversidade, saúde e diversidade lingüística e cultural.

Nota-se que o Acre revela uma luta já antiga em favor da “florestania”, neologismo bem-sucedido ali empregado para fazer referência a essa percepção de que a cidadania deve estender-se aos habitantes e seres da floresta, não podendo estar dissociada da questão ambiental.

O campus expandido da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul, que já conta com cursos de biologia, enfermagem, engenharia florestal, pedagogia e letras, todos eles constituídos por pesquisadores formados em importantes centros acadêmicos, é apenas uma das pontas do que se chama Universidade da Floresta. O campus está associado em rede ao Instituto da Biodiversidade e Manejo dos Recursos Naturais, órgão voltado à pesquisa admitindo a presença de pesquisadores indígenas e seringueiros, e ao Centro de Formação e Tecnologia da Floresta (Ceflora), responsável pelo oferecimento de cursos profissionalizantes e oficinas técnicas.

Essa estrutura em rede permite articular o ensino com uma atividade de pesquisa de ponta e, ao mesmo tempo, integrar a população local. Assim, o conhecimento científico sobre o ambiente, bem como as condições para o uso de recursos naturais de maneira sustentável, são produzidos dentro de uma relação de respeito e diálogo com as populações indígenas, seringueiras e ribeirinhas. Estas se tornam agentes fundamentais nos processos de pesquisa e fazem valer suas demandas, como a comercialização de determinados produtos e a proteção de seus conhecimentos, freqüentemente ameaçados por interesses comerciais privados e predatórios.

Como aposta Almeida na entrevista abaixo, um novo conceito de universidade está sendo gestado, permitindo que o conhecimento acadêmico seja produzido em mão-dupla. Alunos da cidade são levados à floresta e impulsionados a conduzir suas pesquisas e rever seus pressupostos por meio da valorização dos conhecimentos dos povos da região, transmitidos sobretudo por determinados “mestres” -como os pajés- que detêm saberes específicos sobre o ambiente.

De modo reverso, índios e seringueiros são aos poucos trazidos às cidades, às salas de aula e aos laboratórios, tornando-se colaboradores e pesquisadores. (Num futuro não muito longínquo, quem sabe, eles poderão ser também incorporados como docentes.) Se esse intercâmbio der certo, resultando em sínteses criativas entre saberes científicos e locais, um ideal mais concreto de inclusão terá sido alcançado. As populações locais terão sido reconhecidas como sujeitos do conhecimento, e não apenas como sujeitos carentes de conhecimento. A universidade terá se tornado, enfim, espaço da pluralidade, uma “pluriversidade” aberta a todos.

*

Como nasceu a idéia da Universidade da Floresta? A que tipo de demandas ela vem atendendo no Acre?

Mauro Almeida: A idéia surgiu há vários anos e, em 2003, ela estourou em uma reunião pública que contou com a participação de 500 pessoas, incluindo 80 organizações de todos os tipos. Essa reunião discutiu o ensino superior em Cruzeiro do Sul, segunda cidade do Acre e que fica a 600 km da capital, Rio Branco. Atualmente, ela possui 60 mil habitantes, está em crescimento. Ela está sendo conectada ao Brasil por uma estrada asfaltada, a BR-364, que passa por Rondônia e provavelmente continuará até o Ucaiali, de onde já há ligação com o Pacífico, passando pelos Andes.

A expectativa é que, num período próximo, haja um fluxo muito grande nessa região. E isso exige um planejamento adequado para o uso da floresta e dos recursos, e também para a proteção das populações indígenas e tradicionais que lá se encontram. A região de Cruzeiro do Sul abriga a maior parte das áreas indígenas e das unidades de conservação do Estado do Acre. Praticamente metade dessa microrregião é ocupada por parques nacionais, terras indígenas e reservas extrativistas. Trata-se de uma área que conta com uma altíssima biodiversidade.

O desafio que se apresenta é, portanto, compatibilizar a conservação da riqueza natural com o respeito aos direitos intelectuais e culturais das populações indígenas, seringueiros e agricultores locais e, além disso, encontrar meios para melhorar a qualidade de vida das pessoas que ali habitam. É preciso, então, fazer face às pressões que vão chegar quando a BR-364 estiver concluída. Uma das maneiras de fazer isso é pela educação.

O deputado federal Henrique Afonso (PT) transformou a demanda da população local pelo ensino superior na bandeira de seu mandato e foi buscar apoio entre cientistas e pesquisadores que já estavam trabalhando nessa região e entre indígenas e seringueiros. Não se tratava simplesmente de fazer uma campanha para criar novos cursos -cursos tradicionais, como o de direito.

A idéia era mais ousada, era articular a universidade com a criação de cursos que fossem voltados para a busca de soluções apropriadas para o uso dos recursos naturais da região e de uma forma de gerar renda que respeitasse o meio ambiente e as populações indígenas e tradicionais.
Como se deu a participação do governo do Acre no processo de implantação da universidade?

Almeida: O grupo de trabalho articulado em 2003 foi se encaminhando para criar um projeto que, em 2005, depois de muitos trâmites, finalmente teve um sinal verde do Ministério da Educação para se viabilizar. O ministro Tarso Genro prometeu liberar a contratação de 90 professores, dos quais 50 seriam para a Universidade Federal do Acre. Quarenta desses professores seriam destinados imediatamente para uma unidade autônoma, o campus Cruzeiro do Sul, e seriam seguidos por outros tantos num futuro próximo.

O então governador do Estado, Jorge Viana, se comprometia com investimentos na infraestrutura, na conclusão de estradas e na via telefônica. E o Ministério da Ciência e Tecnologia, com investimentos para recursos em pesquisa e equipamento de laboratório. A Universidade da Floresta começou, então, a ser implantada em 2005, contratando por concurso público um pessoal científico do mais alto nível e de várias universidades do Brasil: ecólogos, biólogos moleculares, enfermeiros, engenheiros florestais etc.

Um dos objetivos do governo era garantir que a universidade agisse junto com a população que não estava matriculada nos cursos acadêmicos, mas que manifestava demanda pela formação profissional nas mais diversas áreas. Essa formação seria dada, então, através das chamadas escolas da floresta, pólos de formação, espalhando-se ao mesmo tempo na cidade de Cruzeiro do Sul e dentro da floresta, por meio, por exemplo, de unidades fluviais itinerantes, os chamados “barcos-escola”.
Quais as expectativas das populações indígenas da região diante da proposta da Universidade da Floresta? Em que medida essa proposta se vê articulada às demandas já existentes de um curso superior diferenciado?

Almeida: Há indígenas ingressando na Universidade da Floresta, pois muitos deles possuem o curso médio completo. Mas os índios da região têm uma antiga reivindicação, que é a criação de um terceiro grau indígena, voltado para a formação em nível superior dos professores indígenas. Esses professores estão atuando há muitos anos em escolas organizadas por várias entidades indígenas, indigenistas e do governo; a principal delas é a ONG Comissão Pró-Índio do Acre (CPI). Uma estratégia possível seria que as escolas bilíngües e o treinamento de professores nativos adquirissem status de curso superior.

Outra idéia é a criação de um curso superior indígena para formar não apenas professores, mas também especialistas em manejo florestal, em línguas indígenas etc., dentro da universidade. E o setor de línguas e pedagogia da Universidade da Floresta já apresentou uma proposta nesse sentido. Então, há o caminho de cursos específicos para índios, com uma direção principal de formação de professores indígenas com especializações em manejo florestal e em línguas indígenas.

O modelo são os cursos para índios que funcionam atualmente no Mato Grosso e em Rondônia. Mas o conceito da Universidade da Floresta é, de fato, mais amplo, podendo combinar-se ao anterior: trata-se de produzir um estímulo para a entrada dos índios que passariam a fazer os mesmos cursos que os demais. Uma das questões que devem ser enfrentadas é, portanto, como propiciar essa entrada.
Há algum sistema que favoreça a inclusão de alunos indígenas, como um sistema de cotas, por exemplo?

Almeida: Não tem. Isso é um assunto em discussão. Eu pessoalmente sou favorável a algum sistema que permita a inclusão. Haveria um conjunto de vagas para indígenas, e esse curso superior indígena poderia ser articulado com os outros. E só pensar que há um conjunto de vagas, à parte, reservadas para uma certa demanda social. No futuro, poderia haver um grande número de alunos indígenas entrando nesse sistema com bolsas de estudos, sendo estimulados com a inclusão e fazendo os mesmos cursos que os não-indígenas, e não cursos especiais separados para os índios.

Eu acho que seria o que eles próprios gostariam. Por exemplo, aqueles que vão ser professores especializados em línguas estariam fazendo o curso de línguas da Universidade da Floresta. O curso de letras já existe, só que agora está recebendo uma injeção de novos professores, com lingüistas competentes contratados recentemente e que trabalham com as línguas indígenas da região.

Seria importante fortalecer a idéia de que a formação dos indígenas deve incluir no currículo as línguas e os conhecimentos locais. É preciso evitar que os professores indígenas, que se formaram numa trajetória educacional ligada ao povo deles, caiam num tipo de formação que os reduza a pessoas desgarradas, como se elas fossem carentes de conhecimentos relacionados, por exemplo, à tecnologia florestal.
Como se dá a inclusão da população local na figura de pesquisadores? Qual é a concepção de pesquisa implicada na proposta da Universidade da Floresta e em seu trabalho conjunto com outros órgãos, como o Instituto da Biodiversidade?

Almeida: O projeto da Universidade da Floresta não pode ser dissociado da criação do Instituto da Biodiversidade. Através dele, o Ministério da Ciência e Tecnologia canaliza recursos para pesquisas de caráter aplicado, tendo em vista os desafios da região e a participação de pessoas da população local como pesquisadores, muitas vezes bolsistas. Na verdade, o Instituto da Biodiversidade está funcionando de maneira ainda virtual. Ele conta com uma espécie de portfólio de projetos, financiados atualmente pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade.

Dentre esses projetos, há uma certa liberdade para especificar qual será a participação dos professores, dos pesquisadores, indígenas e seringueiros. Há alguns projetos, em que a maior parte de seus recursos é investida em bolsas para seringueiros. São bolsas muito baixas.

Na verdade, são estímulos para uma dedicação parcial em uma pesquisa colaborativa. A atividade principal dos seringueiros é escrever diários com temas variados, por exemplo, a fauna e o uso dela na forma de caça. Muitas vezes, esses seringueiros, que podem ser adultos ou adolescentes, estão em processo de alfabetização, entrando em contato com a técnica da escrita. O status dos seringueiros no Instituto da Biodiversidade é o de “pesquisadores da floresta”.

Nos cursos que a escola da floresta vai realizar na área, eles vão participar como alunos e, alguns, talvez, como professores. Por exemplo, um curso que já ocorreu em 2005, antes da instalação da Universidade da Floresta, tratava da tecnologia do processamento da mandioca para fazer a famosa farinha.

O Instituto da Biodiversidade tem como objetivo gerar conhecimento científico, oferecendo uma visão ampla sobre a floresta. Ele deverá fomentar oficinas, seminários e debates sobre os resultados da pesquisa, assim como publicações dos resultados, tanto em livros e manuais, mais acessíveis para as populações de lá, quanto em revistas científicas. Isso, aliás, já tem acontecido. Alguns desses pesquisadores locais já são co-autores em publicações científicas. O objetivo é tratar índios e seringueiros em pé de igualdade. É um objetivo difícil de atingir, pois tem muita resistência nesse sentido.
Como superar essas resistências? Em que medida essa simetria de saberes está sendo reconhecida e instituída?

Almeida: Nas instituições nacionais financiadoras de pesquisa não há uma maneira de incluir o indígena como pesquisador. É possível incluí-lo apenas como mão-de-obra de pesquisa, como auxiliar de campo, como guia. É possível remunerá-lo como técnico. Mas não existe uma categoria de pesquisador de notório saber ou de pesquisador tradicional como nós gostaríamos. Agora, é lutar para que a atividade de produção de conhecimento seja reconhecida como uma atividade de pesquisa, análoga à dos cientistas.

É muito freqüente que pesquisadores das áreas de biologia, antropologia ou outras sejam acompanhados em seu trabalho de campo por um guia local. Mas este aparece no mais das vezes como um trabalhador braçal, quando, em muitos casos, é um profundo conhecedor da floresta. Conhece as propriedades daquelas plantas, os hábitos daqueles animais, dá pistas, dicas e indicações. Atua como um verdadeiro colaborador. Ele é dono de um largo conhecimento, que vem sendo filtrado, utilizado e processado, mas que perde a autoria original.

Então, a nossa idéia é que seja possível produzir um trabalho com autoria, fazendo com que eles passem a escrever os seus próprios trabalhos em formatos que sejam melhores para eles. Pode não ser um formato tradicional, pode ser divulgado numa página da internet, pode ser um desenho, uma narrativa gravada.
A divulgação dos resultados de pesquisas como essas exige providências relativas à proteção dos conhecimentos tradicionais. Afinal, eles se tornam mais expostos para o uso comercial e privado. Como equacionar, então, a atividade de pesquisa e as políticas de proteção?

Almeida: Não se trata, é claro, de colocar em domínio público uma série de conhecimentos, embora a forma tradicional de transmissão desses conhecimentos corresponda a um uso bastante livre. A idéia é combinar pesquisa e políticas de proteção desses conhecimentos, que possuem um forte potencial econômico. O que não podemos fazer é entregar o ouro aos bandidos…

Há um projeto, incentivado por Manuela Carneiro da Cunha, de montar na Universidade da Floresta uma “extratoteca”, um repositório de extratos vegetais e animais, produtos com valor econômico potencial muito alto, juntamente com um laboratório para análise desse material. Ali, os índios trabalhariam em cooperação com os cientistas. Trata-se de um laboratório capaz de realizar análises biotecnológicas, e um dos focos possíveis seria criar uma “biblioteca” de moléculas identificadas nas secreções de animais e vegetais.

Seria possível, em princípio, identificar, registrar e, em alguns casos, gerar uma patente sobre processos biotecnológicos em benéfico das populações locais, impedindo, por exemplo, que o valor associado a isso seja apropriado. Vou citar o exemplo dos sapos, que representam um dos maiores índices de biodiversidade na região. Só em duas áreas, o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva Extrativista do Alto Juruá, foram detectadas 140 espécies de sapos. Cada uma delas é um armazém de substâncias distintas dotadas de propriedades específicas, e um dos exemplos são os sapos da espécie Philomedusa bicolor, mais conhecidos como sapos kampo, cuja secreção tem inúmeras propriedades relevantes para a saúde humana.

Um projeto, atualmente conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente, por iniciativa da ministra Marina Silva, pretende atender a reivindicações de proteção do uso tradicional da chamada vacina do sapo kampo e também dos direitos e potenciais sobre aplicações médicas dessa substância. Esse projeto surgiu em resposta à demanda dos índios Katukina. A discussão está sendo conduzida pelos próprios índios, junto com as entidades externas que estão colaborando no projeto, ou seja, as universidades e o próprio governo.
Você pensa que a proposta de inclusão de pajés e mestres da floresta no ambiente da Universidade da Floresta criou ou pode criar certa resistência ou mesmo “ciúmes” por parte dos pesquisadores e cientistas? Como você avalia o diálogo estabelecido entre esses diferentes agentes?

Almeida: Houve mesmo esse medo. Mas acho que o susto de certos cientistas com a idéia de que os pajés entrariam na Universidade da Floresta para dar aula se deve a um mal-entendido. O ideal dessa universidade é a criação de um espaço que tem como meta tratar simetricamente -com equivalência e com o respeito mútuo- os conhecimentos tradicionais e os conhecimentos científicos e acadêmicos.

Devem ser considerados ao mesmo tempo a atividade de produção de saber pelos moradores da floresta e o próprio espaço acadêmico como outro espaço de produção do conhecimento. Tanto os índios como os moradores tradicionais da floresta precisam de um tempo para estabelecer um relacionamento entre os conhecimentos que eles acumularam e a visão do mundo que eles encontram na cidade ou entre os cientistas.

Os cientistas, por sua vez, precisam de um tempo para entender e respeitar o ponto de vista dos moradores da floresta. Esse tipo de diálogo entre pesquisadores científicos e detentores de conhecimentos tradicionais é complicado. Mas, gradualmente, pode surgir uma convivência pacífica entre essas duas tradições. Isso não significa um se colocar no lugar do outro, ou misturar as duas formas de gerar e usar conhecimento. Não, os conhecimentos possuem teores diferentes, finalidades distintas e procedimentos também diferenciados.

É preciso entender, por outro lado, que há espaço para cada um deles e pode se estabelecer, sim, um diálogo. É possível, para cada um dos lados, vislumbrar uma maneira diferente de abordar o significado da vida humana, da natureza, das técnicas corporais, da saúde. Em países como a China, por exemplo, nos cursos universitários-acadêmicos de formação de médicos, a tradição ocidental e a medicina chinesa convivem de uma maneira bastante produtiva. Para chegar a um ponto em que o pajé indígena seja aceito como professor convidado ou como um sábio da floresta que tem um status reconhecido é preciso de muito tempo.

Uma impressão inicial foi a de que essa Universidade da Floresta talvez fosse misturar tudo, provocando uma inversão, uma espécie de anulação de todas as certezas do saber científico. Em vez disso, penso que é preciso um esforço para permitir que, dentro da universidade, possa se estabelecer um bom convívio com alunos e mesmo professores que saíram de outras tradições e possuem conhecimentos diversos daquele produzido pela nossa ciência. Isso não significa anular a especialização já existente.

Uma maneira de fazer essa aproximação importante entre os diferentes tipos de conhecimento é exatamente através da pesquisa. E aí o Instituto da Biodiversidade entra com seus projetos autônomos. Porque lá o pesquisador e os alunos -que estão na universidade- vão a campo fazer atividade de pesquisa e passarão a conviver com aqueles que eu tenho chamado de “mestres da floresta”. A idéia é que os alunos aprendam, na prática, a respeitar os conhecimentos adquiridos em outras fontes. Há uma série de curadores tradicionais que exercem uma atividade terapêutica reconhecida regionalmente como válida. Em suma, a idéia é de pluralismo epistemológico -reconhecer a diversidade de modos de gerar conhecimentos relevantes para a humanidade.
Quais as expectativas desses mestres da floresta em relação à universidade?

Almeida: Uma das demandas é que a universidade seja uma ponte para que os conhecimentos e os produtos produzidos na floresta -por exemplo, substâncias atualmente classificadas como “fitoterápicas”- possam chegar às prateleiras dos brancos e serem enfim reconhecidas e comercializadas como remédios. Atualmente essa transição é muito trabalhosa e fora do alcance de moradores locais. Os índios fazem pressão também para que a Universidade da Floresta seja respeitosa com seu saber e suas formas de vida, e assim leve a sociedade a respeitá-las. Mas os indígenas e seringueiros também querem aprender coisas que não sabem.

O desafio da Universidade da Floresta está, então, em articular cientistas e moradores da floresta, a fim de conhecer e utilizar sensatamente a biodiversidade, impedir o seu uso predatório, o seu saque. Trata-se de fazer face a uma pressão, como a do mercado biotecnológico, por substâncias da floresta. Mas como fazer? Quem vai pesquisar os conhecimentos da floresta? Quem vai articular essas ricas tradições de conhecimento com a realidade do mundo moderno?

É preciso formar pessoas lá mesmo para refletir sobre essas questões e encontrar respostas. E é preciso colocar os próprios índios e moradores da mata dentro dessa formação para que eles, juntos, encontrem essa solução. Eu não tenho essa solução e nem pretendo ter. A idéia dos cientistas se instalarem naquele “fim do mundo” funcionou, e a equipe que foi contratada lá é muito competente. Para ir para lá, é preciso agir movido por um ideal. Eu estou muito entusiasmado com esse grupo. Eu tenho certeza que eles irão interagir com o povo da região. Já estão interagindo.
Como trazer para uma universidade a idéia de diferença, de pluralidade? Em que medida o igualitarismo e o universalismo buscados nesses espaços podem abrigar o reconhecimento e a valorização das diferenças?

Almeida: Não podemos ficar de salto alto e dizer: “A universidade, quem quiser que entre, faça o vestibular, pois não existe diferença”. Existe diferença, sim, e as pessoas têm de ser reconhecidas, inclusive, na diferença em relação à sua competência, como sábios que geram conhecimento importante sobre a vida e, portanto, podem oferecer uma importante contribuição para a nossa sociedade.

As pessoas mantêm as suas identidades próprias, adquirem auto-respeito, passam por cima do que fizeram com elas no passado. E nós temos de tratá-las também com respeito. Isso tem de ser incluído na academia. A igualdade é, na verdade, o reconhecimento das diferenças. Se queremos garantir a igualdade de todos no acesso à universidade, uma das primeiras coisas que temos de fazer é tratar diferentemente as pessoas.

Um deficiente físico que precisa de uma cadeira de rodas não pode ser tratado da mesma maneira que aquela pessoa que não necessita de uma cadeira de rodas. Ele está sendo tratado desigualmente para garantir um acesso igual ao saber. O cego que entrar na universidade vai precisar de um livro especial. Os exemplos podem ser multiplicados. Não há novidade alguma nisso. O ideal de igualdade deve ser o reconhecimento da diversidade. Eu penso que isso é algo muito importante num país como o Brasil.
(Publicado em 7/4/2007)

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Renato Sztutman
É professor de antropologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), doutor em antropologia pela USP e co-editor da revista “Sexta-Feira”.

O que não queremos ver nos nossos índios (OESP)

27/4/2015 – 01h02

por Washington Novaes*

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Notícia de poucos dias atrás (Diário Digital, 19/4) dá conta de pesquisa (relatada pela revista Science) de um grupo de cientistas que, trabalhando na fronteira Brasil-Venezuela com índios ianomâmis, conclui que eles têm anticorpos resistentes a agentes externos – “um microbioma com o nível mais alto de diversidade bacteriana” jamais registrado em qualquer outro grupo. Por isso mesmo, “seu sistema imunológico apresenta mais microrganismos e de todas as bactérias que o dos demais grupos humanos conhecidos” – como demonstrou o sequenciamento de DNA e de bactérias encontradas na pele, na boca e nos intestinos.

Essas análises foram confirmadas por pesquisas em universidades norte-americanas, que recentemente devolveram aos ianomâmis 2.693 amostras de sangue levadas para os Estados Unidos em 1962 – e que agora foram sepultadas pelos índios em cerimoniais respeitosos. Segundo os pesquisadores, na relação com outros grupos humanos esses índios perdem a diversidade de microrganismos e se tornam vulneráveis a doenças que antes não conheciam.

A memória dá um salto e retorna a 1979, quando o autor destas linhas, então chefe da redação do programa Globo Repórter, da Rede Globo, foi pela primeira vez ao Parque Indígena do Xingu documentar um trabalho que ali vinha sendo feito por uma equipe de médicos da Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal de São Paulo), liderada pelo professor Roberto Baruzzi. Os pesquisadores acompanhavam a saúde de cada índio de várias etnias do sul do Xingu, mantinham fichas específicas de todos e as comparavam com a visita anterior. A conclusão era espantosa: não havia ali um só caso de doenças cardiovasculares – exatamente porque, vivendo isolados, os índios não tinham nenhum dos chamados fatores de risco dessas doenças: não fumavam, não bebiam álcool, não tinham vida sedentária nem obesidade, não apresentavam hipertensão, não consumiam sal (só sal vegetal, feito com aguapé) nem açúcar de cana. Saindo do Xingu, fomos documentar grupos de índios caingangues e guaranis aculturados que viviam nas proximidades de Bauru (SP). Os que trabalhavam eram boias-frias e os demais, mendigos, alcoólatras, com perturbações mentais. Praticamente todos eram hipertensos, obesos, com taxas de mortalidade altas e precoces. A comparação foi ao ar num documentário, As Razões do Coração, que teve índices altíssimos de audiência.

São informações que deveriam fazer parte de nossas discussões de hoje, quando estamos às voltas com várias crises na área de saúde – epidemias de dengue (mais de 220 casos novos por hora, 257.809, ou 55% do total, em São Paulo), índices altíssimos de obesidade, inclusive entre jovens e crianças, doenças cardiovasculares entre as mais frequentes causas de morte. Mas em lugar de prestar atenção aos modos de viver de indígenas, enquanto ainda na força de sua cultura, continuamos a tratá-los como seres estranhos, que vivem pelados, não falam nossas línguas, não trabalham segundo nossos padrões. A ponto de eles terem agora de se rebelar para que não se aprove no Congresso Nacional, sob pressão principalmente da “bancada ruralista”, uma proposta de emenda constitucional que lhes retira parte de seus direitos assegurados pela constituição de 1988 e transfere da Funai para o Congresso o poder de demarcar ou não terras indígenas.

Com esses rumos acentuaremos o esquecimento de que eles foram os “donos” de todo o território nacional, do qual foram gradativamente expulsos. Mas ainda são quase 1 milhão de pessoas de 220 povos, que falam 180 línguas, em 27 Estados. Agora avança, inclusive no Judiciário, a tese de que só pode ser reconhecido para demarcação território já ocupado efetivamente por eles antes de 1988. E assim cerca de 300 áreas correm riscos.

Só que nos esquecemos também dos relatórios da ONU, do Banco Mundial e de outras instituições segundo os quais as áreas indígenas são os lugares mais eficazes em conservação da biodiversidade – mais que as reservas legais e outras áreas protegidas. Que seus modos de viver são os que mais impedem desmatamentos – esse problema tão angustiante por sua influência na área do clima e dos regimes de chuvas.

Isso não tem importância apenas para o Brasil. A própria ONU, por meio de sua Agência para a Alimentação e Agricultura (FAO), afirma (Eco-Finanças, 17/4) que a “crise da água” afetará dois terços da população mundial em 2050 (hoje já há algum nível de escassez para 40% da população). E que o fator principal será o maior uso da água para produzir 60% mais alimentos que hoje.

Mas há diferenças de um lugar para outro. Os países ditos desenvolvidos, com menos de 20% da população mundial, consomem quase 80% dos recursos físicos; os Estados Unidos, com 5% da população, respondem por 40% do consumo. Segundo a sua própria Agência de Proteção Ambiental, os EUA jogam no lixo 34 milhões de toneladas anuais de alimentos. No mundo, um terço dos alimentos é desperdiçado (FAO, 5/2), enquanto mais de 800 milhões de pessoas passam fome e mais de 2 bilhões vivem abaixo da linha de pobreza. No Brasil mesmo, 3,4 milhões de pessoas passam fome (Folha de S.Paulo, 22/9/2014). A elas podemos somar mais de 40 milhões de pessoas que vivem do Bolsa Família.

Diante de tudo isso, vale a pena lembrar o depoimento do saudoso psicanalista Hélio Pellegrino, no livro Noel Nutels – Memórias e Depoimentos, sobre o médico que dedicou sua vida a grupos indígenas. “Se estamos destruindo os índios”, escreveu Hélio Pellegrino, “é porque nossa brutalidade chegou a um nível perigoso para nós próprios. Os índios representam a possibilidade humana mais radical e íntima de transar com a natureza (…). Homem e natureza são casados (…). Dissolvido esse casamento, o homem tomba num exílio feito de poeira amarga e estéril”. (O Estado de S. Paulo/ #Envolverde)

Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.

(O Estado de S. Paulo)