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Poor air quality kills 5.5 million worldwide annually (Science Daily)

Date: February 12, 2016

Source: University of British Columbia

Summary: New research shows that more than 5.5 million people die prematurely every year due to household and outdoor air pollution. More than half of deaths occur in two of the world’s fastest growing economies, China and India.


New research shows that more than 5.5 million people die prematurely every year due to household and outdoor air pollution. More than half of deaths occur in two of the world’s fastest growing economies, China and India. Credit: Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), University of Washington

New research shows that more than 5.5 million people die prematurely every year due to household and outdoor air pollution. More than half of deaths occur in two of the world’s fastest growing economies, China and India.

Power plants, industrial manufacturing, vehicle exhaust and burning coal and wood all release small particles into the air that are dangerous to a person’s health. New research, presented today at the 2016 annual meeting of the American Association for the Advancement of Science (AAAS), found that despite efforts to limit future emissions, the number of premature deaths linked to air pollution will climb over the next two decades unless more aggressive targets are set.

“Air pollution is the fourth highest risk factor for death globally and by far the leading environmental risk factor for disease,” said Michael Brauer, a professor at the University of British Columbia’s School of Population and Public Health in Vancouver, Canada. “Reducing air pollution is an incredibly efficient way to improve the health of a population.”

For the AAAS meeting, researchers from Canada, the United States, China and India assembled estimates of air pollution levels in China and India and calculated the impact on health.

Their analysis shows that the two countries account for 55 per cent of the deaths caused by air pollution worldwide. About 1.6 million people died of air pollution in China and 1.4 million died in India in 2013.

In China, burning coal is the biggest contributor to poor air quality. Qiao Ma, a PhD student at the School of Environment, Tsinghua University in Beijing, China, found that outdoor air pollution from coal alone caused an estimated 366,000 deaths in China in 2013.

Ma also calculated the expected number of premature deaths in China in the future if the country meets its current targets to restrict coal combustion and emissions through a combination of energy policies and pollution controls. She found that air pollution will cause anywhere from 990,000 to 1.3 million premature deaths in 2030 unless even more ambitious targets are introduced.

“Our study highlights the urgent need for even more aggressive strategies to reduce emissions from coal and from other sectors,” said Ma.

In India, a major contributor to poor air quality is the practice of burning wood, dung and similar sources of biomass for cooking and heating. Millions of families, among the poorest in India, are regularly exposed to high levels of particulate matter in their own homes.

“India needs a three-pronged mitigation approach to address industrial coal burning, open burning for agriculture, and household air pollution sources,” said Chandra Venkataraman, professor of Chemical Engineering at the Indian Institute of Technology Bombay, in Mumbai, India.

In the last 50 years, North America, Western Europe and Japan have made massive strides to combat pollution by using cleaner fuels, more efficient vehicles, limiting coal burning and putting restrictions on electric power plants and factories.

“Having been in charge of designing and implementing strategies to improve air in the United States, I know how difficult it is. Developing countries have a tremendous task in front of them,” said Dan Greenbaum, president of Health Effects Institute, a non-profit organization based in Boston that sponsors targeted efforts to analyze the health burden from different air pollution sources. “This research helps guide the way by identifying the actions which can best improve public health.”

Video: https://youtu.be/Kwoqa84npsU

Background:

The research is an extension of the Global Burden of Disease study, an international collaboration led by the Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) at the University of Washington that systematically measured health and its risk factors, including air pollution levels, for 188 countries between 1990 and 2013. The air pollution research is led by researchers at the University of British Columbia and the Health Effects Institute.

Additional facts about air pollution:

  • World Health Organization (WHO) air quality guidelines set daily particulate matter at 25 micrograms per cubic metre.
  • At this time of year, Beijing and New Delhi will see daily levels at or above 300 micrograms per cubic meter metre; 1,200 per cent higher than WHO guidelines.
  • While air pollution has decreased in most high-income countries in the past 20 years, global levels are up largely because of South Asia, Southeast Asia, and China. More than 85 per cent of the world’s population now lives in areas where the World Health Organization Air Quality Guideline is exceeded.
  • The researchers say that strict control of particulate matter is critical because of changing demographics. Researchers predict that if air pollution levels remain constant, the number of deaths will increase because the population is aging and older people are more susceptible to illnesses caused by poor air quality.
  • According to the Global Burden of Disease study, air pollution causes more deaths than other risk factors like malnutrition, obesity, alcohol and drug abuse, and unsafe sex. It is the fourth greatest risk behind high blood pressure, dietary risks and smoking.
  • Cardiovascular disease accounts for the majority of deaths from air pollution with additional impacts from lung cancer, chronic obstructive pulmonary disease (COPD) and respiratory infections.
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Hidrelétrica no rio Tapajós pode extinguir espécies, diz Inpa (UOL)

BBC

29/09/201509h25 

VIDEO

O Tapajós é um dos últimos grandes rios amazônicos sem barragens e a nova fronteira de megaprojetos do governo federal de usinas na Amazônia

Ao menos 40 grandes hidrelétricas estão atualmente em construção ou planejamento na bacia amazônica.

Em fase de licenciamento ambiental, a usina de São Luiz do Tapajós é a maior delas e considerada uma prioridade pelo governo.

A construção da usina foi tema de uma assembleia entre povos indígenas da região, ONGs, ambientalistas e representantes do governo.

A BBC Brasil conversou com Jansen Zuanon, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) presente na reunião, sobre os possíveis impactos desta e outras obras do tipo sobre o meio ambiente.

Ibama nega licença de operação a Belo Monte (Estadão)

ANDRÉ BORGES – O ESTADO DE S. PAULO

22 Setembro 2015 | 20h 24

Sem a autorização, a usina fica impedida de encher o reservatório para começar a gerar energia; instituto lista 12 exigências que não foram atendidas pela concessionária.

Hidrelétrica de Belo MonteHidrelétrica de Belo Monte

Atualizado às 23h00

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou o pedido da concessionária Norte Energia para emissão da licença de operação da hidrelétrica de Belo Monte, em construção no Pará. Sem a licença, a usina fica impedida de encher o seu reservatório e, consequentemente, de iniciar a geração de energia.

Na noite desta terça-feira, a Norte Energia, por sua vez, declarou que o parecer do Ibama não é uma “negativa de seu pedido” e sim um prazo para que a concessionária “faça a comprovação das ações compensatórias”. Essa comprovação, segundo a empresa, será dada ainda nesta semana.

Após análise criteriosa das condicionantes socioambientais que teriam de ser cumpridas pela Norte Energia, o Ibama concluiu que foram constatadas “pendências impeditivas” para a liberação da licença. Em despacho encaminhado hoje à diretoria da concessionária, o diretor de licenciamento do Ibama, Thomaz Miazaki, elencou 12 itens que não foram atendidos pela empresa.

“Diante da análise apresentada no referido Parecer Técnico, bem como do histórico de acompanhamento da equipe de licenciamento ambiental da UHE Belo Monte, informo que foram constatadas pendências impeditivas à emissão da Licença de Operação para o empreendimento”, declara Miazaki.

Para liberar o empreendimento, o Ibama exige o cumprimento de uma série de empreendimentos. Na área logística, afirma que é preciso que sejam concluídas obras de recomposição das 12 interferências em acessos existentes na região, além da implantação das oito pontes e duas passarelas previstas para adequação do sistema viário de Altamira, município mais afetado pela usina.

O órgão pede a conclusão das obras de saneamento nas vilas “Ressaca” e “Garimpo do Galo”, a comprovação de que o sistema de abastecimento de água (captação superficial) nas localidades em vilas próximas à usina encontra-se em operação para atendimento da população local e apresentação de cronograma e metas para operação do sistema de esgotamento sanitário de Altamira. “As metas deverão considerar os dados da modelagem matemática de qualidade da água dos Igarapés de Altamira apresentada pela Norte Energia”, declara o Ibama.

Os atrasos em reassentamentos também foram destacados pelo instituto. O órgão pede a conclusão do remanejamento da população atingida diretamente pela usina, especialmente aquelas localizadas na área urbana de Altamira, além dos ribeirinhos moradores de ilhas e “beiradões” do rio Xingu. É cobrado o cronograma para conclusão da implantação da infraestrutura prevista para o reassentamentos urbanos coletivos (RUCs). O mesmo vale para moradores da área rural.

A Norte Energia terá que concluir a execução do projeto de “demolição e desinfecção de estruturas e edificações” na região atingida pelo reservatório e apresentar planejamento para o “cenário de necessidade de tratamento das famílias que, embora localizadas fora da área diretamente atingida, poderão sofrer eventuais impactos decorrentes da elevação do lençol freático em áreas urbanas de Altamira, após a configuração final do reservatório Xingu”.

Finalmente, a empresa terá que concluir as metas de corte e limpeza de vegetação definidas no “plano de enchimento”. Todas as exigências deverão ser alimentadas com registros fotográficos e demais documentos.

Sacred Land of Amazonian Munduruku To Be Flooded By Dam (CIP Americas Program)

By   |  24 / August / 2015

Munduruku-2The Munduruku are one of the largest ethnic groups in Brazil with a population of over thirteen thousand. For the last three centuries they have lived in the heart of the Amazon along 850 kilometers the Tapajós river in the eastern region of the state of Pará. This area is also home to the largest gold deposits in the world. The Tapajós is the last of the great Amazonian rivers without a dam but now the Brazilian government has approved plans for the construction of seven large hydroelectric plants on its river basin. These will have serious implications for at least one hundred indigenous settlements.

The main proposed hydroelectric plant, known as the Tapajós Complex, is in Sāo Luis de Tapajós. Constructio is scheduled to begin in 2017, to come online by 2020. It will flood out an area of 722,25 square kilometers, and will be the third largest dam in the country.

Most of the settlements along the river will be adversely affected by the dam, but it is undoubtedly the Sawré Muybu Indigenous Territory that will suffer the most. They will have to abandon their homes as the projected flooding will cover most of the area they consider their territory.

“That is exactly what they want. They want us as far away as possible from here. We are at war to defend our land. They will have to carry our dead bodies out of here,” said Rozeninho Saw in an interview with the Americas Progam.

“The Munduruku have always been known as great warriors,” he noted, recalling the tribe’s history. “In fact, the word ‘Munduruku’ refers to “red ants” because, like them, our ancestors left for battle well organized and attacked en masse.”

The federal government’s plan to expel the Munduruku from their ancestral lands goes against the constitution because the displacement of indigenous people is prohibited under Article 231. Article 231 recognizes the right of indigenous people to live permanently on their traditional territories. In an attempt to make the project legal, the Brazilian government has argued that the territory of the Sawre Muybu has never been officially, and therefore legally, recognized.

The government’s case, and along with it the plans for the hydroelectric project, has come under increased pressure due the disclosure of a seven-year study undertaken by the National Foundation of the Indian (FUNAI) that clearly outlines the historical inhabitancy by the Munduruku people of the territory in question as per the established guidelines of defining ancestral lands and sacred sites. The report, completed in 2013, proves the Munduruku’s claim to the land and establishes boundaries of the Sawre Muybu Indigenous Territory. It remained unpublished by the presidency of FUNAI until it was recently leaked to some media outlets.

The report concludes, “Based on an exhaustive investigation that addressed anthropological, ethnohistoric, cartographic, environmental, and topographic concerns, the working group fully recognizes the traditional character of the Munduruku people in the specified territory.”

Tapajós: Predominantly Indigenous 

While non-indigenous communities are now increasingly populating the Tapajós area, the FUNAI report states that many parts of it still remain exclusively inhabited by indigenous people. Non-indigenous colonization can be traced back to the 19th century when the area absorbed many migrant workers catering to the rubber boom. This influx declined and ultimately stopped with the fall in the price of latex on the world market.

“Those migrants who remained and settled in the area, adapted to the indigenous customs and were assimilated into the community, not the other way round,” the study states. This lack of non-indigenous inhabitants is juxtaposed with the overwhelming presence of the Munduruku, and some other ethnicities predating the European conquest of the Amazon but little is known of their origins or history.”

Today, the region is still bereft of a significant non-indigenous presence. Most of the non-indigenous population is involved in illegal mining and overfishing.

FUNAI, the government body entrusted with establishing and implementing the nation’s indigenous policies, stipulates that there are a total of eleven Munduruku indigenous territories in the state of Pará. Ten of these are located along the margins of the Tapajós, however only two are officially recognized and geographically demarcated. The remaining territories are still undergoing this process of demarcation.

Tierra Madre 

Munduruku-1The Sawré Muybu Indigenous Territory, as defined in report, encompasses an area of 178,173 hectares along 232 kilometers of the river through the municipalities of Itaituba and Trairão in the state of Pará. Where the Tapajós meets the Amazon River, four different tribes have settled (the Praia do Mangue, Praia do Índio, Sawre Apompu and Sawre Juybu). But it is the three main settlements (the Sawre Muybu, Ms Dace Watpu and Karo Muybu), which play a central and vital role for the whole Munduruku ethnic population. “We are a sort of mother ship for all the other settlements,” explains Rozeninho, “because our territory is the largest. The other tribes come here to get food and materials and to find someone to marry.”

The FUNAI report goes on to state that the central area of the Munduruku territory is host to many springs which feed into the Tapajós and which are “the source of habitats ecologically unique to the area in terms of flora and fauna (especially for hunting) and consequently offer the population of the Sawre Muyru an appropriate and vital source for nourishment and provide them with the raw materials needed for their tools and shelter.”

The Sawre Muybu IT also contains many of the Munduruku sacred sites, like the Igarapé Sāo Gonçalo and the Igarapé do Fecho, both of which will completely disappear underwater when, and if, the area is flooded by the dam. The small canal known as the Sāo Gonçalo, narrow but navigable, flows into the Tapajós at the exact location of the Ancient Village of the Munduruku. “This small canal is fundamental to one of the main rituals, known as the Tinguijada, of the Munduruku.   It is also the source of many palm, copal, and patauá trees which attract many species the Munduruku hunt,” the FUNAI report specifies. Likewise, the Igarapé do Fecho, another small canal that flows into the Tapajós, is fundamental to the mythology of the Munduruku as they “believe it is the birthplace of the Tapajós,” adds Rozeninho.

According to a petition filed by the Federal Prosecutor asking the Supreme Court to suspend the license for the project on the grounds of it being a violation of the rights of the Munduruku, it lists the violation of sacred sites relevant to the beliefs, customs, traditions, symbology and spirituality of these indigenous populations, all of which are protected by the constitution, as its main reason.

The territory of Sawre Muybu coincides geographically with the Flora Itaituba II special conservation area. This alone should be grounds to impede it from being flooded. But in January 2012, President Dilma Rousseff ordered the scaling down in size of seven areas of special conservation, one of them being Flora Itaituba II .   As a result, the unprotected area now falls squarely within the boundaries of the Munduruku territories and is now destined to become part of the reservoir formed by the dam. These perimeters were officially reduced and redefined by the government under the Medida Provisional (MP) n. 558/2012 which was formally passed into law n.12.678/2012.

From Tapajós To The World 

The immense Tapajós River is comprised of a series of islands, lakes and lagoons that are rich in fish stock. It is also a major conduit for the transportation of Amazonian produce such as nuts, bacaba, burtiti and copal. Just at the point where the Igarapé do Fecho disgorges into the Tapajós, the main river narrows considerably due to protuberances on both sides of the bank. The bedrock is sheer granite, and large boulders and strong currents make the navigation of large boats almost impossible.

The seven planned hydroelectric projects will raise the water level, converting the river into a succession of reservoirs. This alteration will most certainly facilitate the navigation of the river for larger vessels. Given its strategic position connecting one of Brazil’s largest agricultural production (of soya and maize) with the newly established centers of mineral exploration (of gold and aluminum), traffic along the river will undoubtedly ramp up on a grand scale from the north of Pará, onto the Amazon River, and out towards the Atlantic Ocean.

These hydroelectric plants are thus seen to be a key component to the exploitation of the minerals in the region. “They are fundamental to the functioning of the industry because they will provide them with the electricity necessary to run the mines. “In reality this completely negates the rights of the people who inhabit the region,” Nayana Fernandez, director of the documentary “Indigenas Munduruku: Weaving Resistance” and activist for the indigenous of the region, told CIP Americas.

China: Eletrobrás Furnas, closely tied to the Federal Ministry of Mines and Energy, recently signed a memorandum of cooperation with China Three Gorges International Corporation (CTG) to build the Sāo Luis do Tapajós Hydroelectric Dam. This agreement consolidates the company’s strategy of positioning itself among the largest energy producers in the world.

Minerals For the World 

Munduruku-4The proliferation of gold prospecting and mining is another factor adding to the growing environmental crisis in the Tapajós region. Known to have the largest untapped deposits in the world, gold nevertheless has been mined in the region since the 1950s, the FUNAI report states. “In the 1980s the municipality of Itaituba was the largest gold producer in the world, extracting an estimated ten tons per month,” according to the Office of Mining and the Environment of Itaituba and the Tapajós Association of Gold Producers.

Data provided by the Department of Mineral Production (DNPM) and analyzed in the FUNAI report shows that an official permit for gold mining issued was issued in 2013 to the Miners Association of the Amazon, which guarantees the legitimacy of the licenses on file at the DMPM. No less than 94 of these licenses infringe on the territorial rights of the Sawre Muybu IT.

In 2012 the Institute of Socioeconomic Studies published a report stating that in the decade between 2000 and 2010 exports from the region officially designated the “Legal” Amazon increased much more the exports from other Brazilian regions, namely by 518% versus 366%, or from 5,000 million dollars in 2000 to 26,000 million in 2010.

The state of Pará was itself responsible for 48% (or 12,800 million dollars) of the total value of exports in 2010. The schedule of exports details the predominance of minerals, followed by farming produce, and meat in particular. Three companies – Vale, Alunorte, and Albrás (aluminum and iron ore) – accounted for 78% of the export market value, or 10,000 million dollars, in the state of Pará.

Aluminum mining consumes almost 6% of the energy generated in the Brazil. According to Celio Bermann, “aluminum is sold at a relatively insignificant price on the international market and generates negligible employment figures. The work force employed by the aluminum production industry is 70 times smaller than the work forced generated for the food and drinks industry, and 40 times smaller than that employed by the textile industry.”

In Brazil, transnational companies that control 70% of its distribution and 30% of its production primarily provide for energy. 665 companies consume 30% of the total energy produced by the hydroelectric plants.

Records show that over 2000 hydroelectric dams have been constructed up until the year 2012. Over a million people have been expelled from their homes and land as a result; 70% of them without being indemnified in any way. China, Spain and the United States were the biggest investors in Brazil in 2014. According to the CEPAL, the Economic Commission for Latin America and the Caribbean, Chinese foreign direct investment topped 1,161 million dollars in 2015, mainly due to increased investment in oil, electrical distribution and manufacturing.

Impact

Although work has not yet begun in Tapajós, the Munduruku are already subject to the impact of the project on their lives on a daily basis. “The simple act of not publishing the report specifying the demarcation lines of the Sawre Muybu territory is an important impact of the project on the community. As is the process of self-demarcation of their sacred lands, undertaken by the indigenous communities themselves. They have been forced to go down this route in order to defend the concept of what it means to be Munduruku in light of the fight for the right to remain in the land of their ancestors,” says Nayana Fernandez. She goes on to say that the Munduruku’s prime focus and main weapons in the fight are the experiences of other traditional communities who have already been subject to the myriad effects of the hydroelectric plants in their midst as well as the dire warnings of environmental disaster issued by many studies and reports.

Munduruku-8Hydroelectric dams in other rivers – the River Teles Pires, or the Belo Monte Dam in the Xingu River, for example – are prime examples of the most extreme of consequences.

“In order to build the Teles Pires Dam, construction companies dynamited the waterfalls known as “Sete Quedas (Seven Falls)” which were a sacred site for the Kayabi, the Apiaka, and the Munduruku. They were allowed to commit this ethno historic crime without having had any prior consultation with the local communities, as is required by the Convention No. 169 of the International Labor Organization to which Brazil is signatory,” she asserts.

The landscape will be altered dramatically, as will the behavior and flow of the river and its tributaries. This will, in turn, create social and economic problems, not least through the appropriation and segregation of large spaces to specifically and exclusively designate them for the transport of materials, for the warehousing of produce and for waste management.

FUNAI’s impact report details alterations in the level and direction of the river; the denuding of vegetation and habitats for fauna, specifically in forested areas and in freshwater marshes and wetlands; the severe interference in the migration routes of fish, and the increased endangerment of animal species, among them: manatees, freshwater dolphins, pink porpoises, caimans, Amazonian turtles, amarillos, otters, and lizards unique to the environment. The flooding will furthermore result in the disappearance of the islands, lagoons, and freshwater swamp forests that surround the Tapajós River, and consequently in the disappearance of their unique habitats too.

No Funding For The Recognition of Ancestral Lands? 

In May 2014 the public prosecutor lodged a case in the Federal Court of Itaituba against FUNAI for delaying the demarcation process of the Sawre Muybu Indigenous Territory. The Munduruku met with Maria Augusta Assirati, ex- president of FUNAI, in Brasilia in September of 2014. It was at that meeting that she admitted that the delay in the publication of the report was due to interference from various branches of the government with interests in the hydroelectric project.

The public prosecutor proceeded with his case in the courts insisting on legal territorial demarcation for the Sawre Muybu well into 2015. Eventually the court ruled that FUNAI was legally obliged to continue with the process of certifying and demarking the territory. It was further stipulated that until FUNAI complied, the organization would have to pay a daily fine of 900 US dollars to the Munduruku. FUNAI has appealed the decision but as yet there has been no final ruling.

According to the arguments presented in court by the public prosecutor, FUNAI maintained that priority in the national demarcation process of indigenous lands had been allocated to the indigenous territories of the south and southeast and that there were no available public funds for the same process in the Amazonian region. The prosecutor rejected that argument saying that public funds were utilized for the preparation of the report, therefore they were available.

“It would be a waste of public money if the report were archived after the great investment incurred in its preparation and, above else, the unquestionable violation of the constitutional rights of indigenous people that would result if that were to occur,” said the prosecutor Camoēs Buenaventura.

Guarding Ancestral Territory 

Munduruku-5Munduruku art has as its central motif the figure of the Jabuti, an Amazonian turtle. Legends say the animal’s shrewdness and community spirit helped it defeat its most feared enemies.

“We have to use our own wisdom to quench the attempted extermination of our people. The enemies of the indigenous communities behave like the Great Anaconda who clasps her victims so hard their bones crush before suffocating them. But Jabuti gave us a lesson in how to defeat them,” say the Munduruku in a letter signed collectively.

The Munduruku’s last resort has been to self-demarcate their ancestral lands. The first step taken to recuperate and reclaim the territory as their own was in October of 2014, using as their geographical point of reference the same territorial limits as those outlined in the FUNAI report. Precisely because the federal government did not officially recognize this report, the Munduruku felt compelled to uphold the position articulated in it.

“The self-demarcation of the Sawre Muybu Indigenous Territory is a resistance movement against those developments proposed by the government and foreign multinational companies in the Amazon. These include hydroelectric dams, the exploitation of the forest, and the expansion of the agroindustry.   It also represents the organization of the indigenous people to collectively guard against and protect the rights of the indigenous communities in light of the illegal occupation of their lands and the continued abuse of their natural resources,” their letter continues.

The Munduruku have recently issued a second salvo in the quest to recuperate and reclaim their territory. In July 2015 they wrote, “We have unquestionable evidence of the manmade destruction of our fruit producing trees. We take care of these trees because not only do we eat the fruit, they are the future we will leave to our grandchildren. We can see that there are not many left, almost none on our lands. The fruit provides nourishing juice for our children and all we can see is its decimation. We have always said that the pariwat (the white man) is not aware of any of this. This is why we are engaged in this process of self-demarcation. We do not think as the pariwat who is destroying our trees thinks.”

According to Rozeninho, the Munduruku are convening a general meeting for September 2015 to evaluate the progress of the campaign so far and to discuss what future steps they will take.

Photos by Santiago Navarro F. 

Translation by Isabella Weibrecht  

China’s Communist-Capitalist Ecological Apocalypse (Truthout)

Sunday, 21 June 2015 00:00 By Richard Smith, Truthout | News Analysis 

A pedestrian wearing a protective mask in Beijing, Jan. 17, 2012. Decades of coal-powered industrialization combined with the government-promoted car craze have brought China the worst air pollution in the world. (Photo: Gilles Sabrie/The New York Times)

A pedestrian wearing a protective mask in Beijing, January 17, 2012. Decades of coal-powered industrialization combined with the government-promoted car craze have brought China the worst air pollution in the world. (Photo: Gilles Sabrie/The New York Times)

This article seeks to explain why China’s environmental crisis is so horrific, so much worse than “normal” capitalism most everywhere else, and why the government is incapable of suppressing pollution even from its own industries. I begin with an overview of the current state of China’s environment: its polluted air, waters, farmland and the proximate causes, including overproduction, overdevelopment, profligate resource consumption, uncontrolled dumping and venting of pollutants. I then discuss the political-economic drivers and enablers of this destruction, the dynamics and contradictions of China’s hybrid economy, noting how market reforms have compounded the irrationalities of the old bureaucratic collectivist system with the irrationalities of capitalism resulting in a diabolically ruinous “miracle” economy. I conclude with a précis of the emergency steps the country will have to take to take to brake the drive to socio-ecological collapse, with dire implications for us all.

The first time Li Gengxuan saw the dump trucks from the nearby factory pull into his village, he could not believe his eyes. Stopping between the cornfields and the primary school playground, the workers dumped buckets of bubbling white liquid onto the ground. Then they turned around and drove right back through the gates of their factory compound without a word.

In March 2008, Li and other farmers in Gaolong, a village in the central plains of Henan Province near the Yellow River, told a Washington Post reporter that workers from the nearby Luoyang Zhonggui High-Technology Company had been dumping this industrial waste in fields around their village every day for nine months. The liquid, silicon tetrachloride, was the byproduct of polysilicon production and it is a highly toxic substance. When exposed to humid air, silicon tetrachloride turns into acids and poisonous hydrogen chloride gas, which can make people dizzy and cause breathing difficulties.

Ren Bingyan, a professor of material sciences at Hebei Industrial University, contacted by the Post, told the paper that “the land where you dump or bury it will be infertile. No grass or trees will grow in its place … It is … poisonous, it is polluting. Human beings can never touch it.”

When the dumping began, crops wilted from the white dust, which sometimes rose in clouds several feet off the ground and spread over the fields as the liquid dried. Village farmers began to faint and became ill. And at night, villagers said “the factory’s chimneys released a loud whoosh of acrid air that stung their eyes and made it hard to breath.”

“It’s poison air. Sometimes it gets so bad you can’t sit outside. You have to close all the doors and windows,” said Qiao Shi Peng, 28, a truck driver who worried about the health of his 1-year-old.

China’s rise has come at a horrific social and environmental cost.

Reckless dumping of industrial waste is everywhere in China. But what caught the attention of The Washington Post was that the Luoyang Zhonggui High-Technology Company was a “green energy” company producing polysilicon destined for solar energy panels sold around the world. Indeed, it was a major supplier to Suntech Power Holdings, then the world’s leading producer of solar panels, and Suntech’s founder, Shi Zhengrong, topped the Hunrun list of the richest people in China in 2008. (1)

Silicon tetrachloride is an unavoidable byproduct of polysilicon production. But reckless pollution of farm villages is not unavoidable. Today, China is the only country in the world where such criminal behavior and cynical disregard for the health and lives of farmers and workers has become standard practice on a national scale by governments at every level, even as the government’s own environmental agencies decry such behavior and struggle, mostly in vain, to stop it. As one Chinese researcher told the Post, “If this happened in the United States, you’d be arrested.” But in China environmental regulations are regularly flouted by state-owned and private industries with the connivance of government officials at all levels while protesting farmers, workers and environmental activists are arrested, jailed, beaten or worse, and their lawyers with them.

Polysilicon production produces about four tons of silicon tetrachloride liquid waste for every ton of polysilicon produced. In Germany, where Siemens produces solar panels, pollution recovery technology is installed to process the silicon tetrachloride waste and render it harmless. But such environmental protection technology is expensive. In 2008, the cost to produce polysilicon safely was about $84,500 a ton in Germany and would not have cost much less in China. Chinese companies have been producing it for $21,000 to $56,000 a ton, saving millions of dollars a month, by just dumping the toxic waste in rural areas on helpless village communities.

Gaolong village is a mirror to China. It illustrates how the marriage of capitalism and Stalinist bureaucratic collectivism has created a diabolically destructive hybrid economic system, a rogue economy that is ravaging China’s environment, ruining the health of Chinese people, rendering more and more of the country unlivable, driving the country to ecological collapse and threatening to bring the whole planet down with it. (2)

I. China Self-Destructs

For more than three decades, China’s “miracle” economy has been the envy of the world or at least the envy of capitalist economists for whom wealth creation is the highest purpose of human life. Since 1979, China’s GDP has grown by an average of just under 10 percent per year. Never, the World Bank tells us, has a nation industrialized and modernized so quickly or lifted so many millions out of poverty in such a short time. From a backward, stagnant, largely agrarian socialism-in-poverty, Deng Xiaoping brought in foreign investors, introduced market incentives, set up export bases, turned China into the light-industrial workshop of the world and renovated China’s huge state-owned enterprises (SOEs).

“Fast fashion” is speeding the disposal of the planet.

Three and a half decades of surging economic growth lifted China from the world’s 10th largest economy in 1979 to No. 1 by 2014. What’s more, after decades of export-based growth, China’s 12th Five-Year Plan 2011-2015 sought to refocus the economy on internal market demand to realize Xi Jinping’s “Chinese Dream” of national rejuvenation and turning China into a mass consumer society on the model of the United States. As China sailed right through the global near-collapse of 2008 to 2009, hardly missing a beat, while Western capitalist economies have struggled to keep from falling back into recession, even the Thatcherite Economist magazine had to concede that China’s state capitalism may be in certain respects superior to capitalist democracies and is perhaps even the wave of the future.

But China’s rise has come at a horrific social and environmental cost. It’s difficult to grasp the demonic violence and wanton recklessness of China’s profit-driven assault on nature and on the Chinese themselves. Ten years ago, in an interview with Der Spiegel magazine in March 2005, Pan Yue, China’s eloquent, young vice-minister of China’s State Environmental Protection Agency (SEPA) told the magazine, “the Chinese miracle will end soon because the environment can no longer keep pace.” Pan Yue added:

We are using too many raw materials to sustain [our] growth … Our raw materials are scarce, we don’t have enough land, and our population is constantly growing. Currently there [are] 1.3 billion people living in China, that’s twice as many as 50 years ago. In 2020 there will be 1.5 billion … but desert areas are expanding at the same time; habitable and usable land has been halved over the past 50 years … Acid rain is falling on one third of Chinese territory, half of the water in our seven largest rivers is completely useless, while one fourth of our citizens do not have access to clean drinking water. One third of the urban population is breathing polluted air, and less than 20 percent of the trash in cities is treated and processed in an environmentally sustainable manner … Because air and water are polluted, we are losing between 8 and 15 percent of our gross domestic product. And that doesn’t include the costs for health … In Beijing alone, 70 to 80 percent of all deadly cancer cases are related to the environment.

And criticizing Western economists who reassure us that more growth is the key to repairing the environmental damage done from growth, Pan said:

And there is yet another mistake … It’s the assumption that economic growth will give us the financial resources to cope with the crises surrounding the environment, raw materials, and population growth. [But] there won’t be enough money, and we are simply running out of time. Developed countries with a per capita gross national product of $8,000 to $10,000 can afford that, but we cannot. Before we reach $4,000 per person, different crises in all shapes and forms will hit us. Economically we won’t be strong enough to overcome them. (3)

Pan Yue’s searing honesty got him sidelined but if anything, he understated the speed, ferocity and scale of China’s ecological destruction, a destruction that extends far beyond China itself.

A. Consuming the Planet to Support Unsustainable Growth

As China’s growth took off in the 1980s and 1990s, the industrial boom rapidly depleted the country’s resources, especially lumber, oil and minerals, forcing Beijing to turn outward to feed its voracious engines of growth. The manic and thirsty industrialization boom in China’s northern industrial cities drained China’s northern fresh aquifers leaving some 600 cities, including Beijing, facing dire water shortages while severely polluting most remaining reserves. Profit-hungry loggers cut down most of what was left of China’s forests, recklessly denuding mountains and precipitating such extensive flooding and loss of life in 2009 that the government banned domestic logging. Chinese loggers then turned to plundering Siberia, Malaysia, Indonesia, and even New Guinea and parts of Africa. China had little oil to begin with so industrialization and automobilization quickly turned China from a modest oil exporter into a net importer in 1993 and the world’s leading oil importer by 2013. China’s iron ore, copper and other critical industrial mineral reserves have also been rapidly drawn down, forcing the country to import growing quantities of minerals.

The government has squandered astounding quantities of resources building entire industries China does not need.

In result, today, with 20 percent of the world’s population, China is now by far the world’s largest consumer of marketed primary industrial raw materials (cement, metal ores, industrial minerals, fossil fuels and biomass). China consumes more than 32 percent of the world’s total of these resources, nearly four times as much as the United States, the second largest consumer. China consumes just over half the world’s coal and a third of the world’s oil. China is the leading producer and consumer of steel with 46 percent of world output and now relies on imports for 77 percent of its iron ore. (4) China has become the world’s largest consumer of lumber and forest products, leveling forests from Siberia to Southeast Asia, New Guinea, Congo and Madagascar. Greenpeace concluded that on current trends “future generations will be living on a planet without ancient forests.” (5)

Of course, China has the world’s largest population and is industrializing from a comparatively low level just three decades ago so it’s hardly surprising that it would consume lots of resources to build infrastructure and modernize. But the fact is, most of these resources have been squandered on a stupendous scale, and for all the waste and pollution, most Chinese have gotten surprisingly little out of it all.

The Disposables Revolution and “The Great Acceleration” of Global Consumption

For a start, look at the export bases that have powered China’s rise. When China launched its “reform and opening” (gaige kaifang) in the early 1980s and invited foreign investors to set up joint-ventures and special economic zones, China’s combination of ultra cheap labor plus few-to-no environmental restrictions attracted many of the world’s dirtiest and least sustainable industries. Steel, coke, aluminum, cement, chemicals and petrochemicals, metal plating, leather tanning, plastics, paints and finishes, synthetic fibers and textile production, fabric dyeing, paper production, along with auto battery and electronics recycling – most of the toxic and smokestack industries facing increasingly tough environmental restrictions at home in the United States and Europe, relocated to China after 1980. (6) Seventy percent of the world’s e-waste is dumped in China.

On top of this, China’s masses of low-paid migrant workers were a magnet for the world’s most labor-intensive manufacturing and assembly industries. By the 1990s, China had more than 104 million manufacturing workers, about twice as many as the United States, Canada, Japan, Germany, France, Italy and the United Kingdom, combined. And they worked eight- to 16-hour days, often seven days a week, for an average of $0.57 per hour in 2002, by one estimate, less than the handloom operators earned in the early Industrial Revolution in England. This “China Price” set the global floor for high-volume, light-industrial manufacturing from the 1980s. (7)

The price collapse spurred the biggest boom in global consumption in history and this in turn accelerated global resource plunder on an unprecedented scale. The sudden availability of such a huge pool of ultra-cheap workers also spurred a minor industrial revolution enabling producers to annihilate most of the remaining categories of durable goods and replace them with cheaper, disposable substitutes. With the disposables revolution, local tailors and alteration shops, shoe repair shops, appliance repair shops, TV repairmen and the like all but vanished in the West as it became cheaper to toss these items and replace them than repair them.

The Chinese Communist Party promoted the car craze to bolster status-seeking middle-class political support.

Take clothes: “Fast fashion,” (also known as “trashion fashion”) from H&M, Target, Zara and others, now rules the women’s apparel market with clothes so cheap it’s often not worth the cost of dry cleaning them. As Elizabeth Kline relates in her recent book Overdressed: The Shockingly High Cost of Cheap Fashion, “seasonal shopping patterns have given way to continuous consumption.” Zara delivers new lines twice a week to its stores. H&M and Forever 21 stock new styles every day. In Kline’s words: “Buying so much clothing and treating it as if it is disposable, is putting a huge added weight on the environment and is simply unsustainable.” To say the least.

The US cotton crop requires the application of 22 billion pounds of toxic pesticides every year. Most fiber is dyed or bleached, and treated in toxic chemical baths to make it brighter, softer, more fade resistant, waterproof or less prone to wrinkles. Upholstery fabrics and children’s pajamas are treated with ghastly chemicals to make them stain resistant or fireproof. These toxic baths consume immense quantities of chemicals and water, and it goes without saying that in China, the chemicals are routinely just dumped in rivers and lakes, untreated, just like that silicon tetrachloride poured out on Li Gengxuan’s cornfield. Then after all the chemical treatments, the fabrics have to be dried under heat lamps. These processes consume enormous quantities of energy.

The textile industry is one of the largest sources of greenhouse gas emissions in the world, and it’s growing exponentially. In 1950, when there were about 2.5 billion people on earth, they consumed around 10 million tons of fabric for all uses. Today, we are 7 billion, but we consume more than 70 million tons of fabric annually, nearly three times as much per person as we consumed in the 1950s. Producing 70 million tons of fabric consumes astounding quantities of resources including more than 145 million tons of coal and between 1.5 and 2 trillion gallons of fresh water, every year. Synthetic fibers like polyester and such (now 60 percent of the market) are the worst: They consume between 10 and 25 times as much energy to produce as natural fibers. In short, “fast fashion” is speeding the disposal of the planet. (8)

And what’s true for China’s garment industry is true for most of the rest of China’s export industries. From cheap, disposable shoes and clothes, toys, tools, housewares, Christmas junk and flimsy plastic appliances to meticulously made and expensive but nevertheless designed-to-be-obsolesced iPhones and 60-inch flat-screen TVs, most of the world’s light-industrial goods are made in China and they are, for the most part, deliberately designed to be unrepairable and mostly unrecyclable. After their short life, they all end up piled on the world’s ever-growing garbage mountains, sent back to China in containers filled with e-trash to be “recycled” by children melting the plastic off motherboards over open fires, or left floating around the world’s oceans in giant plastic gyres over vast stretches of oceans, hundreds of feet deep. (9)

Scenes of Planetary Destruction From the 12th Five-Year Plan

When we turn to China’s domestic economy, the waste is breathtaking. As China’s economy opened to the West and China’s exports began returning billions of dollars in foreign exchange, Beijing launched wave after wave of gargantuan development projects: dams, airports, rail systems, roads, subways, sewerage systems, new industries, new housing, new cities, new ports and more. China’s supercharged government planners have been showcasing China’s engineering prowess and economic might by building the world’s biggest dams, the tallest skyscrapers, biggest airports, longest and highest bridges, longest rail and road networks and longest tunnels.

Since the 1980s, China has built enough new housing to re-house the entire population.

Since Deng Xiaoping launched his “Four Modernizations of agriculture, defense, science and technology” and reform and opening up, the country has been in perpetual Great Leap Forward mode: Five-Year plans have set annual industrial growth rates of 8 percent and promoted successive sets of “pillar” industries – autos, electronics, petrochemicals, clean energy and so on. In the current 12th Five-Year Plan (2011-2015), the State Council calls for development of “seven strategic emerging industries” including 1) energy efficient and environmental technologies like “clean coal,” 2) next generation IT and cloud computing and the “Internet of Things,” 3) biotechnology, 4) high-tech manufacturing of vehicles and aircraft, expanding high-speed rail service to 45,000 kilometers, expanding motor expressways to 83,000 kilometers, 5) new-generation nuclear power, more solar and wind energy systems, 6) new materials including development of rare earths, special glass and ceramics, high-performance fiber and composite materials, 7) new-energy vehicles: motor batteries, drive motors, electronic controls, plug-in hybrid and electric vehicles, low-emissions vehicles. (10)

No doubt, the Chinese have benefited from new housing, infrastructure, schools, hospitals and so on. But the government has also squandered astounding quantities of resources building entire industries China does not need, building useless vanity projects, superfluous housing, redundant infrastructure and more. From the start this investment boom has been characterized by uncontrolled overproduction and out-of-control pollution.

Scene 1: The “Car Craze” China and Planet Earth Did Not Need

The 12th Five-Year Plan calls for “enhancing China’s independent capacity to manufacture automobiles, domesticating production of all key parts,” for “large-scale commercialization” of energy efficient and hybrid vehicles, for “building … world-famous brands and core competencies” and so on. Hybrid or not, this is an industry the Chinese do not need. Up to 1979, China produced around 160,000 motor vehicles per year with trucks and buses accounting for 90 percent of the output. People got around on bicycles, buses and trains. In 1990, China had just 5.5 million cars, trucks and buses on the road. By 2013, China became the world’s largest auto assembler cranking out 18.7 million cars and light vehicles, more than twice the number produced in the United States in that year. By 2013, China had 240 million cars on its roads, almost as many as in the United States, and China could have an estimated 390-532 million cars on the road by 2050. The question is, why does China need anything like such a huge auto industry? The lead headline of Bloomberg News for April 9, 2014, citing the latest Intergovernmental Panel on Climate Change report, was “Cars become the biggest driver of greenhouse-gas increases.” What’s wrong with this picture?

China surpassed the US in 2007 to become the world’s leading carbon dioxide emitter.

The automobilization of China has brought three profound changes. First, it has dramatically lengthened the time it takes to get anywhere in China’s gridlocked cities (average speed on Beijing’s ring roads is 9 miles per hour) and created epic, world-historic traffic jams on highways feeding into Beijing and other cities. One jam-up near Beijing in 2010 stretched over 100 kilometers and lasted for two weeks. Secondly, it has added a dense new layer of smog on top of the already thick layers of smog from coal combustion smothering China’s cities. And thirdly, it has paved over much-needed farmland and wetlands and wasted enormous resources China, and the world, does not have to waste. This did not have to happen.

The Communist Party promoted joint-venture auto production as a “pillar” industry in the 1990s for two reasons: First, once the government embarked on its market-reform strategy, abandoning lifetime employment, it needed to push growth to generate private- and state-sector jobs, like capitalist governments everywhere. Speaking in November 2013, Prime Minister Li Keqiang stressed that:

Employment is the biggest thing for well-being. The government must not slacken on this for one moment … For us, stable growth is mainly for the sake of maintaining employment.

Auto manufacture and related industries now account for one out of every eight urban jobs in China excluding road building, another big employer.

Secondly, the Chinese Communist Party (CCP) promoted the car craze to bolster status-seeking middle-class political support. In the 1980s, the CCP supported a modest consumerism. But after the Tiananmen uprising in the spring of 1989, the government opted for expansive consumerism to placate the middle classes. Hence the car craze, followed by the airline craze, the shopping mall craze, the high-speed train craze, the foreign tourism craze, and so on. It is no small irony that just as the CCP was ramping up auto production and banning bicycles from public roads in the 1990s, European countries were moving in the opposite direction – barring cars from many central city streets, promoting bicycles and car sharing, and expanding public transit. China didn’t begin expanding its urban subways in earnest until the late 2000s, after two decades of automobilization had gridlocked its cities and dramatically increased air pollution.

Scene 2: The Roads Not Taken

As China was racing to surpass the US as the world’s largest car market, the Communist Party decided that China should also “catch up and overtake” the US interstate highway system as well. So by 2010 China built 53,000 miles of intercity expressways, exceeding the US interstate highway system’s 47,000 miles. But this program, built at huge cost and by tearing through cities and paving over thousands of square miles of valuable farms, wetlands and so on, is yet another ill-conceived boondoggle because except for a few highways near major cities like Beijing or Shenzhen, China’s expressways are often little used. In places, farmers dry their crops on empty super highways. McClatchy’s Beijing bureau chief Tom Lasseter writes under this picture:

Do you see any cars along this road? One often hears about the traffic jams in the big cities of China. But here’s the flip side of the coin: In rural towns and cities in China, local officials like to build big showcase projects, displaying grandiosity but little utility. I was in the city of Fengzhen in Inner Mongolia yesterday. By Chinese standards, it is a small place, maybe 200,000 people. So imagine my surprise as we leave the downtown to come across this eight-lane highway going past a mammoth new City Hall. Nary a car on it. A passerby could keel over with a stroke on that highway and not risk getting run over for many hours. The city is already in hot water for building a power plant that Beijing says is unneeded. Across China, there are plenty of largely empty hotels, brand new empty highways, modern airports that lose money for lack of traffic, etc. What happens is that unelected local officials, not particularly responsive to local needs, find that pharaonic projects give their municipalities a luster that can attract investment, which is their path to promotion within the one-party system. So for every eight-lane road you see like this, there is a happy bureaucrat pondering a bright career ahead. (11)

How much cement has been poured, how much iron rebar has been forged, and how much coal has been burned to produce the energy to pave over so much of China – for no useful purpose whatsoever?

Scene 3: Half-Empty Trains and Subways

And how much steel, aluminum, copper, cement and electricity have been consumed to build China’s huge national network of high-speed trains? The 12th Five-Year Plan budgeted hundreds of billions of dollars to build more than 16,000 miles of high-speed rails by 2020. By 2013, China had already built more high-speed trains than the rest of the world combined. But this too is more make-work and prestige project than modernizing necessity. High-speed trains are hugely expensive to build and operate and consume more than twice as much electricity to run as regular trains, so tickets can cost 10 times the price of regular train tickets in China. Since few Chinese people can afford such prices, the trains often run at half capacity or less. Chinese transportation experts say the government is throwing money away on bullet trains, money that could be better spent on regular railroads, especially cargo lines, and developing mass transit in and around cities. (12) New York University economist Nouriel Roubini told Reuters in 2011:

“I was recently in Shanghai and I took their high-speed train to Hangzhou,” he said, referring to the new Maglev line that has cut traveling time between the two cities to less than an hour from four hours previously.

“The brand new high-speed train is half-empty and the brand new station is three-quarters empty. Parallel to that train line, there is also a new highway that looked three-quarters empty. Next to the train station is also the new local airport of Shanghai and you can fly to Hangzhou,” he said.

“There is no rationale for a country at that level of economic development to have not just duplication but triplication of those infrastructure projects.” (13)

Duplication, triplication, overconstruction and waste is everywhere in China, even with subways. Twenty-two cities already have subway systems and money was budgeted in 2012 to build subways in another 16 by the end of 2018. Wang Mengshu, a subway engineer from the Chinese Academy of Engineering who helped design China’s first subway in Beijing in 1965, says these are completely unnecessary, too expensive, again more prestige projects than public service: “Second-, third-, fourth-tier cities … those cities don’t need to build subways. Even if they can afford to build them, they can’t afford to run them. But a lot of places think that if they have a subway, then they are a big city.” (14)

Scene 4: China as “Major Aerospace and Air-Travel Power”

The 12th Five-Year Plan grandiosely calls for a push to make China a “major aerospace and air-travel power.” Plans call for nearly a hundred new airports, thousands of new airliners, thousands of helicopters, business jets and small aircraft of all varieties. Boeing estimates Chinese carriers will need more than 5,260 new airliners – worth $670 billion – by 2031. (15) Great for Boeing. But not only did China not “need” this industry, it’s just suicidal for developing countries like China to repeat the same environmental mistakes as the West did.

The UN Intergovernmental Panel on Climate Change calculates that aviation is currently responsible for about 3.5 percent of anthropogenic climate change and says that if present trends continue this share will grow to between 5 percent and 15 percent by 2050 while the absolute contribution of aviation generated emissions will soar. Aviation is already the fastest growing source of global carbon dioxide emissions and if it continues to grow at its current rate it will overwhelm all the cuts engineers have managed to make elsewhere. (16) There are not currently nor are there on the horizon any practical alternatives to kerosene-based fuels for commercial jet aircraft. This is why after surveying the literature on potentials for greenhouse gas mitigation in other forms of transportation, environmental journalist George Monbiot concludes that while some forms of transport can be rendered a bit greener, there’s virtually nothing we can do with aviation with present or foreseeable technologies:

There is, in other words, no technofix. The growth in aviation and the need to address climate change cannot be reconciled. Given that [efficiency gains tend to be canceled out by growth] a 90 percent cut in emissions requires not only that growth stops, but that most of the planes which are flying today are grounded. I recognize that this will not be a popular message. But it is hard to see how a different conclusion could be extracted from the available evidence. (17)

In a world where climate scientists tell us we need to cut global carbon dioxide emissions by 90 percent by 2050, global aviation emissions are on course to double by 2030. It will be suicidal to let this happen. Absent some technical miracle, the only way to suppress aviation emissions is to suppress the numbers of people jetting around the planet, not add hundreds of millions of Chinese to this jet set. Coming to grips with this reality may not be popular in China or the United States, but the alternative is not going to be popular either.

Scene 5: Construction Frenzies, Ghost Cities and the Mother of All Real Estate Bubbles

Yet none of the above compares with the resources squandered on the construction boom of recent decades. China’s construction juggernaut has been gobbling up China’s best peri-urban farmland, expelling tens of millions of farmers and urban residents and consuming staggering quantities of resources to build unneeded housing, shopping malls, industrial parks, office buildings, power plants and infrastructure in a country already bursting with overpopulated, polluted megacities. (18) Millions of urban residents were cleared out of Beijing and Shanghai, which were completely rebuilt with thousands of skyscrapers, apartment blocks, highways and shopping malls. (19) Cities and provinces compete to build cloud-piercing skyscrapers even if they have no prospective tenants for them.

In one village, 80 percent of the population is said to have died from pollution-induced cancers since 1991.

By 2020, 12 of the planet’s 20 tallest towers are expected to be in provincial cities like Shenyang, Wuhan and Suzhou. The office vacancy rate in Shenyang is nearly 30 percent, yet three more towers, all bigger than the Chrysler Building in New York City, are under construction, and another 12 are on the drawing boards. Beijing’s premier architectural atrocity, the Rem Koolhaas-designed CCTV tower – dubbed “Big Underpants” by the locals – sits nearly empty since it was built in 2008. Cities compete to build ersatz Wall Street “financial centers” as in Beijing (abandoned) and Tianjin (abandoned and unfinished). Stunningly lavish offices for cadres are built everywhere. China’s coast has multiple redundant ports, some nearly empty, but more are planned.

Since the 1980s, China has built enough new housing to re-house the entire population but the construction boom has become a self-sustaining, perpetual engine of construction for the sake of construction – supply with no demand. And there are not just miles of empty apartment blocks but entire “ghost cities” complete with office towers, hospitals, schools, futuristic airports, museums, universities, libraries, theaters, sports fields, and miles and miles of apartment towers and subdivisions of McMansions – but almost no people. (20) Twenty-one percent of China’s urban residents, the wealthy and middle classes, own two urban apartments, some own three or four – all bought for speculation, not to live in, not vacation homes. More than 22.4 percent of urban apartments and houses remained vacant in 2014.  (21) By one estimate, more than 64 million surplus apartments had been built in China, enough to house almost half the population of the United States, yet millions more are under construction. (22) Economists have warned that what China is really building is the biggest real estate bubble in history. CBS interviewed Wang Shi, CEO of China Vanke, China’s biggest homebuilder (which makes him the world’s biggest homebuilder), who told CBS’s Lesley Stahl that this can’t last, “this is a bubble, for sure.” When it bursts, “it will be a disaster, a disaster.” (23)

Scene 6: Tofu Construction

Construction is breathtakingly fast in China but it can also be breathtakingly sloppy, dangerous and destined to a short life span. That’s because China’s local building department regulators, like food safety and environment regulators, are subordinate to local officials who partner with and profit off the very construction companies the regulators are nominally supposed to regulate. In result, safety is often subordinated to speed and cost, with predictable results. The Chinese call it doufazha, “tofu” construction. Bridges collapse regularly. Between July 2011 and August 2012, eight major bridges collapsed. An Australian reporter counted four collapsed bridges in just nine days in July 2012. (24) High-speed railway bridges collapse. Buildings collapse. Some just topple over. Millions of peasants have been cleared off the land and dumped into “new towns” around cities where the shoddy new housing is already crumbing as the displaced farmers move in. In 2010, China’s Ministry of Housing admitted the low quality of construction and warned that “China’s newly-built houses can only last for 20 or 30 years.” (25) Have the Chinese invented disposable housing?

Officials call for tougher regulations but most Chinese blame corruption. Zhu Lijia, a professor at the Chinese Academy of Governance in Beijing, says bid rigging is the norm and there are no checks or balances on the procurement process. “We do have relevant laws regarding the bidding process, but there is a lack of enforcement. The bidding process is only a show.” A college student, Zeo Niu, interviewed by National Public Radio after a major bridge collapse in 2012, knew the system well. Her uncle runs a construction company in central China. She said using substandard material while charging for high-quality goods is routine. What really upsets her, she said, “is that so many projects collapse, people just become overwhelmed. ‘I will never remember those victims’ names in this accident, and people won’t remember it,’ Niu said. ‘It will all be buried by another accident.'” (26)

“Twenty More Years of Roaring Growth”?

In The Wall Street Journal of August 20, 2014, Justin Yifu Lin, an economist and close adviser to senior leaders in Beijing, stated that he’s confident China can sustain its recent 8 percent per year growth rate for the foreseeable future. He predicts “20 years of roaring growth” for China. Really? Where does Yifu think the resources are going to come from for this scale of consumption? As it happens, in 2011, the Earth Policy Institute at Columbia University calculated that if China keeps growing by around 8 percent per year, Chinese average per capita consumption will reach the current US level by around 2035. But to provide the natural resources for China’s 1.3 billion to consume on a per capita basis like the United States’ 330 million consume today, the Chinese – roughly 20 percent of the world’s population – will consume as much oil as the entire world consumes today. It would also consume more than 60 percent of other critical resources.

Production Consumption* Commodity Unit Consumption Latest Year Projected Consumption 2035
U.S. China China World
Grain Million Tons 338 424 1,505 2,191
Meat Million Tons 37 73 166 270
Oil Million Barrels per Day 19 9 85 86
Coal Million Tons of Oil Equivalent 525 1,714 2,335 3,731
Steel Million Tons 102 453 456 1,329
Fertilizer Million Tons 20 49 91 214
Paper Million Tons 74 97 331 394

*Projected Chinese consumption in 2035 is calculated assuming per-capita consumption will be equal to the current US level, based on projected GDP growth of 8 percent annually. Latest year figures for grain, oil, coal, fertilizer and paper are from 2008. Latest year figures for meat and steel are from 2010. Source: Earth Policy Institute, 2011

How can this happen? What would the rest of the world live on? Already, as resource analyst Michael Klare reviews in his latest book, The Race for What’s Left (2012), around the world existing reserves of oil, minerals and other resources “are being depleted at a terrifying pace and will be largely exhausted in the not-too-distant future.”

B. Airpocalypse Now

Decades of coal-powered industrialization combined with the government-promoted car craze since the 1990s have brought China the worst air pollution in the world. Scientists have compared north China’s toxic smog to a “nuclear winter” and the smog is also sharply reducing crop yields. Lung cancer is now the leading cause of death in Beijing and nationally pollution-induced lung disease is taking the lives of more than 1.2 million people a year. With 20 percent of the world’s population, China now burns as much coal as the rest of the world put together. Twenty of the world’s 30 smoggiest cities are in China.

As domestic food grows increasingly unsafe, alarmed middle-class Chinese strip supermarkets of imported food.

Ironically, China is also a “green technology” leader, the world’s largest producer of both windmills and solar panels. Yet in China these account for barely 1 percent of electricity generation. Coal presently supplies 69 percent of China’s total energy consumption; oil accounts for 18 percent; hydroelectric, 6 percent; natural gas, 4 percent; nuclear, less than 1 percent; and other renewables including solar and wind, 1 percent. (27)China currently burns 4 billion tons of coal a year; the US burns less than 1 billion; the European Union, about 0.6 billion. China has marginally reduced the carbon intensity of production in recent years by installing newer, more efficient power plants but these gains have been outstripped by relentless building of more power plants. To make matters worse, even when power plants are fitted with scrubbers to reduce pollution, operators often don’t turn on the scrubbers because these cut into their profits.

While government plans call for reducing coal’s share of the energy mix from 69 percent to 55 percent by 2040, it projects that China’s absolute coal consumption will still rise by more than 50 percent in the same period in line with China’s projected economic growth of around 7.7 percent per year. The World Health Organization considers air pollution above 25 micrograms of particulate matter per cubic meter (PM2.5) to be unsafe. China’s current national average is 75 micrograms but particulate levels in many cities average in the hundreds.

In the winter of 2013, China suffered from the worst air pollution in its history as half of the country, nearly the whole of northern and eastern China, was smothered in dense smog for weeks at a time. Smog alerts were called in 104 cities in 20 of China’s 30 provinces as schools and airports closed in Beijing, Shanghai and other cities. In January, PM2.5 levels in Beijing reached 900 micrograms per cubic meter. As Beijing was choking in smog in the winter of 2013, Deutsche Bank analysts gloomily concluded that even if China’s economy slowed to 5 percent growth per year from it’s current 7.6 percent rate, coal consumption would still nearly double and China’s smog could increase by as much as 70 percent by 2030. (28)

China’s leaders thus face an intractable dilemma. They can’t keep growing the economy without consuming ever more coal, oil and gas. Yet the more fossil fuels they burn, the more uninhabitable China’s cities become, the more Chinese people flee the country, and the faster China’s emissions are driving global warming.

Cooking the Planet to Produce Junk No One Needs

China surpassed the United States in 2007 to become the world’s leading carbon dioxide emitter. By 2013, China’s emissions were already nearly double those of the US. The US Energy Information Administration calculates that even if China grows at only 5.7 percent per year, 2 percent less than its current rate and about half the average rate it grew over the past decade, its carbon dioxide emissions would still soar to almost 15 billion tons by 2040, almost triple that of the US. (29) By 2013, China’s per capita emissions surpassed those of Europe. With just 20 percent of the world’s population, China already accounts for almost 30 percent of global carbon dioxide emissions.

Coal-to-Gas Bases Will Doom the Climate

Under pressure to reduce smog and greenhouse gas emissions but still maintain economic growth, the government has begun talking about putting a cap on coal emissions. But this cap would be pegged to expected growth and demand, so coal use is likely to continue rising for years. (30) Yet the most worrisome threat to reducing emissions comes from the government’s newest plan to “clean up its cities” by building dozens of huge “coal-gasification bases” in Shanxi, the Ordos Basin, Inner Mongolia, Xinjiang and other remote areas. These plants will burn coal directly to generate electricity in situ and convert coal to liquid fuels like “syngas” (like natural gas but from coal), which will then be transported to the cities to be burned in power plants, factories and cars.

These huge bases, some encompassing areas larger than the states of Delaware and Connecticut, will be the largest fossil fuel development projects in the world. And far from reducing coal use, scientists say, these complexes consume so much coal-fired energy to produce the syngas and other chemicals that they generate almost twice as much carbon dioxide emissions as if the coal were just directly burned in power plants. (31) Furthermore, water-intensive coal extraction in the new coal bases in northern and western provinces threatens to seriously aggravate China’s already severe water crisis in these regions. (32) And as if all this weren’t enough, the government has also declared its intention to develop “fracking” wherever possible in China. (33)

The UN Intergovernmental Panel on Climate Change calculates that if we’re to keep global warming below 2 degrees Celsius, humanity cannot add more than 880 gigatons of carbon dioxide emissions to the atmosphere before 2050. Collectively, we’ve already used up more than half of that “carbon budget” leaving us a remaining budget of just 349 billion gigatons. If China produces just 10 billion tons of carbon dioxide per year, its current rate, with no growth whatsoever, it will still consume the entire carbon budget for the whole of humanity by itself by 2050.

C. Undrinkable Water, Poisoned Soils, Toxic Food

If the air is bad, the water is far worse. In a few decades of breakneck industrialization, the Chinese have managed to severely and irreversibly pollute most of the nation’s fresh water supplies with dire implications for public health. China’s fresh water sources are contaminated by pesticides, industrial chemicals, heavy metals and myriad other toxics. China’s largest rivers resemble vast open cesspools and for much of their length the banks are strewn with every imaginable kind of trash, and numberless outlet pipes spewing multiple toxics, dead fish, dead pigs and pigswill. Gushing pollutants turn long stretches of rivers bright red or purple or milky white or inky black. Sewage is routinely dumped mostly untreated in the nation’s rivers, the same rivers many cities take their drinking water from, imperiling the health of hundreds of millions. The government has built wastewater treatment facilities all over the country but most remain unused. (34)

These days China’s state sector has all the superficial trappings of a market economy.

China’s rivers suffer huge spills of all kinds of toxic chemicals – benzene, xanthogenate, analine – every year. In north China, the Yellow River “is a catastrophe” and the 300-odd rivers that drain the North China Plain “are open sewers if they are not completely dry” in the words of Ma Jun, China’s leading authority on the country’s water crisis. (35) According to a government report, the Yangtze River, the world’s third longest, is seriously and irreversibly polluted. Long stretches are said to be in “critical condition,” in places, too dangerous even to touch. Aquatic life has all but collapsed. Pollution and shipping wiped out China’s legendary Yangtze Baiji dolphin while even common carp “are gasping for survival.” (36) The 500-mile-long reservoir filling up behind the huge Three Gorges dam on the Yangtze qualifies as the world’s biggest cesspool. In some areas groundwater is being irreversibly polluted as textile dyeing mills and other factories, looking to avoid fines for dumping their effluents into rivers, instead drill and pump them into the earth. Some “use high-pressure pumps to discharge huge volumes of their wastewater directly underground.” According to one scientist, “deliberate, malicious waste discharge by factories has already become endemic.” (37)

The China Geological Survey reported in 2013 that 90 percent of the country’s groundwater is polluted, and 60 percent of it is “severely” polluted. A survey of 11 cities across China in 2012 indicated that 64 percent of water sources were severely polluted and 33 percent moderately polluted. Only 3 percent of sources could be graded as clean. (38) It’s difficult to overstate the dire implications of these practices: In China, groundwater is not only tapped for drinking water throughout rural China as well as in many cities, but over much of the country, especially the parched northern plains, this is the main source of water for farming.

Mass Production of “Cancer Villages”

China’s rivers have received many major toxic industrial chemical spills over the years. In September 2004, Jim Yardley of The New York Times reported on the situation in the Huai River basin, upstream from Shanghai, after a huge chemical spill created an 82-mile-long band of water that killed nearly every living thing and was too polluted even to touch. And the Huai, Yardley pointed out, was supposed to have been a government “success story.” (39) In April 2014, a major leak of benzene poisoned the drinking water for millions in Gansu Province.

Beginning in the 1980s and 1990s, the government promoted the development of market-oriented “township and village industries” to promote growth and employment. These industries, the darlings of the World Bank and Western market-enthusiast academics, became notorious polluters. Foreign-invested special economic zone industries are also major polluters. (40) In the 1990s and 2000s, in response to growing anti-pollution protests in the cities, the government pushed dirty industries out of the cities and into the countryside and rural towns. This brilliant move resulted in horrific contamination of whole rural regions and the mass production of “cancer villages” where extraordinary numbers of inhabitants are dying from intestinal, liver and other cancers caused by ingesting toxic water and food.

Nongovernmental organizations count at least 459 villages spread across every province except far-western Qinghai and Tibet. In one village, 80 percent of the population is said to have died from pollution-induced cancers since 1991. (41) There are villages where almost every child is lead-poisoned. (42) Dumping of toxic chemicals and heavy metals extends even to remote corners of China. In neo-tropical Yunnan Province, investigators have found “rampant chromium dumping” polluting rice paddies and drinking water.

The Damage Done

The problem with water pollution, unlike air pollution, is that it doesn’t disappear once the dumping stops. Heavy metals and other contaminants don’t easily break down or wash away. They can be very long-lived and can’t really be “cleaned up.” (43) Once groundwater is polluted, there’s just no possible remediation. This means that extensive areas of China’s farmland, especially in the north, are effectively doomed. (44) This is taking a huge toll on the health of Chinese people as well as non-human life forms and poses a mortal threat to the entire society. Elizabeth Economy, author of The Rivers Run Black (2007), writes that “Less well documented [than air pollution] but potentially even more devastating is the health impact of China’s polluted water. Today, fully 190 million Chinese are sick from drinking contaminated water. All along China’s major rivers, villages report skyrocketing rates of diarrheal diseases, cancer, tumors, leukemia, and stunted growth.” (45)

The Bad Earth and Toxic Foods

China’s farmlands are extensively polluted with synthetic fertilizers, pesticides, heavy metals, sewage sludge and innumerable industrial toxics. Much of this comes from polluted irrigation water. In places, even industrial wastewater has been used to irrigate farms when local wells have dried up or are themselves too polluted to use. In December 2013, the Ministry of Land and Resources reported that 3 million hectares (7.4 million acres – roughly the area of Belgium) of China’s farmland is too polluted to grow crops on and researchers said that “as much as 70 percent” of China’s farmland could be contaminated to some degree. (46) In April 2014, the government reported that almost 20 percent of the country’s arable land, 10 percent of its woodlands and 10 percent of its grassland soils were seriously polluted with heavy metals, such as cadmium, mercury, arsenic, lead, chromium, zinc and nickel plus inorganic compounds including DDT. The survey, carried out between 2006 and 2010, but suppressed for four years as a state secret out of fear of public outrage, summed up the nation’s farmland situation as “grim”(yanjun). (47)

Shocking as this is for a nation that must try to feed 20 percent of the world’s population on 7 percent of the world’s arable land, environmentalists suspect the published figures understate the true extent of soil contamination. (48) In November 2014, the government conceded that 40 percent of the nation’s farmland is degraded from acidification, pollution and erosion, and the government “is growing increasingly concerned about its food supply after years of rapid industrialization resulted in widespread pollution of waterways and farmland.” (49)

Life in the Communist Party is not so different from life in the mafia.

In May 2013, the Food and Drug Administration of Guangzhou, the capital of Guangdong Province, reported that 40 percent of the rice tested at restaurants that spring was contaminated with cadmium, a highly toxic heavy metal than can cause bone disease, cancer and other illnesses. Since extensive national testing has not yet been done for this or other contaminants, there is concern that such pollution is widespread. Fish (and fishermen) have also been found to have high levels of cadmium, mercury and lead. (50)

To add further insult to consumers, deliberate food adulteration, contamination and fakery is rife in China. In 2008, public anger erupted after the government reported that tens of thousands of children were at risk of kidney stones and other organ damage from milk powder mixed with melamine, a chemical used to deceive protein tests. At least six infants died from illnesses linked to the tainted powder, which sickened more than 300,000 children.

Despite repeated government crackdowns, food contamination is severe and growing in China. As domestic food grows increasingly unsafe, alarmed middle-class Chinese strip supermarkets of imported food and Chinese tourists clear out the shelves of baby formula from New Zealand to Holland to pack and take home in their suitcases. Public alarm is also driving up food imports, which in turn is driving up world food prices. (51) For the first time in its history, China now imports more grain than it produces. This is bad news not only for China’s basic food security but also for natural resources around the world as China’s demand for soybeans, corn, wheat and other grains is leveling forests from Africa to the Amazon.

What’s Going on Here?

Why is it that the same government that has lifted the living standards of more people – millions – faster than any other nation in history, that has built the world’s largest high-speed rail network, the largest airports, longest bridges, skyscrapers by the hundreds and whole cities practically overnight, can’t guarantee safe drinking water or food or medicines or breathable air to its citizens? Why can’t it enforce its own environmental regulations, or its own building codes? Why can’t it stop its own local governments from squandering money building unneeded housing, airports and rail lines? Why is it that the same ruthless police state that so proficiently crushes dissent and censors the internet can’t stop producers, even state-owned companies, from making lead-paint-coated toys, poisoned milk and baby formula, and toxic meat and dumplings, and can’t suppress corruption in its own officials? The answer to all these questions is to be found in the nature, contradictions and tendencies of China’s hybrid bureaucratic collectivist-capitalist economic system.

II. A Political Economy

China’s rulers preside over the largest and most dynamic economy in the world, a powerhouse of international trade whose state-owned conglomerates count among the largest companies in the world. They profit immensely from their state-owned enterprises’ (SOEs) market returns. But they’re not capitalists, at least not with respect to the state-owned economy. Communist Party members don’t own individual SOEs or shares in state companies like private investors. They collectively own the state, which owns most of the economy. They’re bureaucratic collectivists who run a largely state-planned economy that also produces extensively for the market. But producing for the market is not the same thing as capitalism. (52)

Three of the top 10 2014 Fortune Global 500 corporations are Chinese. But they’re not owned by Chinese capitalists. They’re owned by the Chinese government. James McGregor notes, “Of the sixty-nine companies from mainland China in the Fortune Global 500 in 2012, only seven were not SOEs … [and all of these seven] companies have received significant government assistance and most count government entities among their shareholders.” Thirty-five years after the introduction of market reforms, China’s government still owns and controls the commanding heights of the economy: banking, large-scale mining and manufacturing, heavy industry, metallurgy, shipping, energy generation, petroleum and petrochemicals, heavy construction and equipment, atomic energy, aerospace, telecommunications, vehicles (often in partnership with Western companies), aircraft manufacture, airlines, railways, biotechnology, military production and more. Plus all the land and natural resources: There is no private property in China.

“Families benefited from their control of state companies, amassing private wealth as they embraced the market economy.”

In key industries SOEs own and control between 75 and 100 percent of assets including 96.2 percent of telecom, 91.6 percent of power generation, 76.6 percent of petroleum and petrochemicals, 76.2 percent of airlines, 74 percent of autos, and so on. China’s banks are 100 percent state-owned (though there are some private equity firms). (53) In the words of James McGregor, “SOEs monopolize or dominate all significant sectors of the economy and control the entire financial system. Party leaders deploy the SOEs to build and bolster the economy – and undergird the Party’s monopoly political control. The private sector provides a lubricant for growth and the opportunity for people to become rich as long as they support the Party.” (54) SOEs together with local government-owned urban collective and township and village industries currently account for 50 percent of China’s current non-farm GDP. Foreign-invested joint ventures account for about 30 percent of non-farm GDP (though Chinese partners of larger joint ventures, like auto assembly, are mostly SOEs). China’s indigenous private sector accounts for about 20 percent of non-farm GDP. (55)

SOEs resemble capitalist corporations but they’re not driven by the same motor of market competition; they don’t face the same incentives and penalties as capitalist firms, at least not to the same extent, and they’re not run like capitalist companies. (56) These days China’s state sector has all the superficial trappings of a market economy: corporations, CEOs, IPOs, stock markets and so on. The Ministry of Petroleum is now called China National Petroleum Corporation. Baoshan Iron and Steel now calls itself Baosteel Group Corp. and so on. But SOEs aren’t “corporations.”

Dozens of Chinese SOEs have held IPO listings on the New York Stock Exchange and China’s own toy stock markets in Shenzhen and Shanghai. But the government won’t allow its companies to be bought and sold. It will only permit a minority of shares, not more than 25 percent, and only non-voting shares at that, to be traded on the market. As one expert put it “the Chinese government is the only shareholder that counts.” (57) Lots of SOEs produce some or most of their output for the market. State Grid produces power for, besides China (where it has a monopoly), Singapore and Australia, and is developing facilities in the Philippines and Portugal. But State Grid does not answer to shareholders or boards. China’s SOEs are not run by boards of directors and elected CEOs. They don’t have boards of directors. And their CEOs and senior management are all appointed by the Communist Party. All Chinese state “corporations” have Communist Party secretaries who without exception outrank the enterprise CEOs. (58)

To be sure, China has a vast capitalist market economy side-by-side with the state sector. Thousands of real, foreign corporations operate in China today: Apple, Toyota, Audi, GM, Samsung, Procter & Gamble, Walmart, even the Avon lady. And China has plenty of homegrown entrepreneurs and privately owned businesses. China is said to have more than a million US-dollar millionaires and at least 89 billionaires. The private sector includes sizeable companies like Baidu (the internet search giant that dominates the China market since Google left), Tencent (instant messaging), Jack Ma’s Alibaba, real estate developers like Dalian Wanda Group and China Vanka, food processors like Wahaha Corp., insurance companies, and others. But these are not the core of the economy. China’s biggest private company by valuation, Alibaba, doesn’t produce anything at all; like eBay it just connects sellers with buyers. Most of China’s private businesses are small, on average less than half the size of SOEs, and the vast majority are even smaller. They include thousands of small coal mines, thousands of local construction companies, some small steel mills, textile and garment industries, shoemakers, retail shops and supermarkets, restaurants, self-employed truckers, family businesses and the like.

“Get Rich and You’ll Get Audited”

The Communist Party keeps its domestic capitalists on a short leash. Successful entrepreneurs soon find they need a state “partner,” or the government sets up its own competitors to suppress them, or they suffer forced buyouts. Those who cross the Party disappear and their property is seized, and worse. (59) Those whose names appear on Forbes’ list of the world’s wealthiest citizens or the Hong Kong Hunrun Rich List sometimes vanish without a trace. Chinese people call these the “pig-killing lists.” Middle-class Chinese speculate on apartments and suburban villas but the land they sit on is state-owned. Indeed, even title to the apartments and villas they’ve bought is never really secure because these can easily be seized by the state on a whim, with no recourse.

It’s been estimated that in the last three decades more than 60 million Chinese farmers and urban residents have been summarily evicted from their homes and farms to make way for government development projects of all sorts across the country. More than a million and a half farmers and townsfolk were evicted to make way for the Three Gorges Dam. Several million residents of Beijing were evicted to shabby satellite towns while their ancient Beijing homes, some dating back to the Ming dynasty, were leveled to make way for shopping malls, apartment towers and Olympic sports stadiums. (60) In such a system, arbitrary political power and generalized insecurity condition every aspect of life, even within the ruling Party itself – especially within the ruling Party.

A. Beijing’s Game of Thrones

China’s ruling class is the nomenklatura, the upper ranks of the 86-million-member Chinese Communist Party. Since the victory of the revolution in 1949, China has been run by the party-army-bureaucratic aristocracy, the leaders of which reside behind the walls of the Zhongnanhai complex adjacent to the Forbidden City. (61) In the 1950s, they nationalized the economy, divided up government administrative and economic management posts among themselves and centralized all surplus extraction. Today, this state-owned economy is run by their children and will soon be run by their grandchildren.

Since Mao’s death in 1976, the inner circle of the ruling “red families” have been headed up by the so-called “Eight Immortals”: Deng Xiaoping, Chen Yun (the CCP’s leading economic planner), Wang Zhen, Li Xiannian (PRC president), Peng Zhen (NPC Congress chair), Song Renqiong (party personnel chief), Yang Shangkun (PRC president), and Bo Yibo (vice premier and last of the eight to die at 98 in 2007). (62)As the elders retired and died off they entrusted the reins of power to their children, the “princeling” (taizi dang) sons and daughters of the first generation of communist rulers. Since the bad old days when Mao and his Gang of Four dispatched their rivals to rot in dungeons, or shot Lin Biao’s plane out of the sky to prevent his escape to Moscow, the Communist Party has made every effort to present a public façade of leadership unity and discipline and portray its internal workings as “regularized” with “collective leadership,” “10-year rotations” of “presidents” and “prime ministers,” “mandatory retirement of senior officials at 65” and so on. Nothing could be further from the truth.

A study released in February 2015 declared that living in China’s cities is “as deadly as smoking.”

Today, as in Mao’s day, CCP internal political machinations resemble nothing so much as The Godfather or “Game of Thrones.” And how could it be otherwise? In the absence of the rule of law, without elections to choose government representatives, without inner-party democracy, without constitutional procedures to regularize succession to office, without an independent judiciary, justice department, attorney generals and police to systematically prosecute and punish corrupt politicians, in such a system, no one owns their office, position or job on the basis of merit, professional qualification, fixed-year terms or enforceable contracts. Every cadre’s personal and political security depends, above all, on the strength of his/her guanxi: his connections and relationships with networks of allies, their patrons above, their supporters below and especially to families, clans and factions.

From the days of Mao’s purges of “capitalist roaders” Lin Biao, Liu Shaoqi and Deng Xiaoping, to Deng Xiaoping’s own purge of the Maoist Gang of Four, to Jiang Zemin’s purge of “counterrevolutionaries” Zhao Ziyang, Bao Tong et al. in the wake of the 1989 Tiananmen uprising, to current President Xi Jinping’s show trials of  “corrupt” rival Bo Xilai (son of Bo Yibo) and his persecution of powerful opponents in the oil faction and secret police led by Zhou Yongkang, the Chinese Communist Party’s internal political dramas differ little from the treacherous, fratricidal power struggles of the Corleones, Barzinis and Straccis of The Godfather or the bloody feudal wars of the Starks, Tullys and Boltons for supremacy in Westeros. As in “Game of Thrones,” China’s communists are embroiled in nonstop faction building, never-ending intrigue and infighting, and treacherous factional struggles while the paramount leader du jour‘s claim to the red throne in Zhongnanhai is never completely secure. (63)

President Xi Jinping came into office in 2012 on a campaign vowing to “swat tigers and flies alike.” Xi had been brought in to replace the disgraced Shanghai Mayor Chen Liangyu on the strength of his anticorruption campaigns in Zhejian Province where he once told an anti-graft conference: “Rein in your spouses, children, relatives and friends and staff, and vow not to use power for personal gain.” (64) But Xi is just as corrupt as all the rest, and just as thuggish.

Xi once remarked that as a young man he liked to watch The Godfather. Yu Jie, an exiled author of numerous critical books on China, titled his latest book, Godfather of China Xi Jinping (still awaiting publication as of March 2015). Yu told The New York Times that the film was Xi’s political study guide: “The Communist Party is China’s biggest mafia, and the party boss Xi Jinping is the godfather of China.” As if to confirm Yu’s thesis, when he tried to publish the book in Hong Kong, one publisher was arrested in Shenzhen and disappeared. A second prospective publisher received a threatening phone call from Beijing telling him that the book “absolutely cannot be published” and if he publishes it, “your personal safety and the safety of your family cannot be guaranteed” so he immediately dropped the project.

Life in the Communist Party is not so different from life in the mafia: It’s a constant, treacherous and highly dangerous nonstop factional struggle between crime family-based groupings in struggle with one another over top offices and treasure. The key to safety is building unshakable vertical and horizontal networks of support and protection – of guanxi. And the key to solidifying those networks is sharing the loot from corruption. As political scientist Minxin Pei put it: “If your patrons do not protect you, you’re toast … Corruption is the glue that keeps the party stuck together.” (65)

B. Grabbing the Brass Ring: Gangster Capitalism and the Necessity of Corruption

China’s economy mirrors its politics. China’s communist party-state has grown immensely wealthy over the past three decades from rivers of income flowing in from huge state monopolies like Sinopec (China Petroleum), State Grid, Bank of China, China Telecom, from taxing export foreign exchange earnings, and more. But the question is, how is this loot shared out among the ruling class of China, the “gang” of 86 million Communist Party members? In capitalist economies, this is entirely formalized and regularized. One’s wealth is based on property, cash in the bank, stock ownership and such – all secured by the rule of law, enforceable contracts, an impersonal state, independent judiciary and the police. But China has none of this. Cadres don’t privately own SOEs; they don’t own shares in SOEs.

Yet we know from multiple sources including trials of corrupt officials, revelations about secret offshore bank accounts, records of foreign property purchases, and especially from recent headline exposés in The New York Times and Bloomberg News on the wealth of China’s leading “princelings” including former and current heads of state, that China’s Communist Party cadres have gotten gloriously rich by way of market reforms. (66) The New York Times calculated that former Premier Wen Jiabao was worth at least $2.7 billion when he retired in 2012, all secreted under the names of close relatives. (67) As Xi Jinping climbed the party ranks, his extended family got rich in minerals, real estate and mobile-phone equipment. Today, his family is worth at least $376 million, again, with virtually all of it listed in the names of his close relatives rather than his own.

Markets and the Mother of All Moral Hazards

When Deng Xiaoping rejected Maoism and told the Chinese that now it was OK, even  “glorious to get rich,” he faced an immediate problem: To get marketization rolling, he urged the cadres to promote private businesses and joint-ventures with foreign investors, to “jump into the sea of commerce” as he said in his famous “southern tour” of Shenzhen in 1992. Deng’s market reforms thus presented the personally penniless but functionally all-powerful CCP cadres with the mother of all moral hazards. China’s reintroduction of capitalism presented the cadres with a once-in-an-epoch opportunity to grab the brass ring, to get rich, really rich, and fast. The party-state owned all land, resources and industries, and controlled the banks and pension funds, foreign trade and currency exchange, courts, police and everything else. The problem was that the only ways to profit from this were all illegal: bribery, smuggling, influence peddling, embezzling money from state industries, profiting from guandao (reselling state-owned raw materials and commodities on the free market at huge markups), asset stripping, currency manipulation, money laundering and so on.

Risky, but how could they resist? Far from resisting, they led the way in what exiled economist He Qinglian called “the marketization of power.” (68) Besides, since there was no independent judicial system, it was left to the party officials to police themselves. The very people who stood to gain the most from the coming market boom were supposed to refrain from self-dealing. Even so, the breadth and brazenness of corruption grew slowly at first. Looking back to the 1980s, Bao Tong, a senior party official arrested and imprisoned as a “counterrevolutionary” during the 1989 Tiananmen crackdown told Bloomberg News in December 2013: “A bottle of Moutai, two cartons of Chunghwa cigarettes – corruption was no more than that at the beginning…. Now an enterprise worth 10 billion yuan can be purchased with 1 billion. This would have been appalling to people back then.” (69)

“It Doesn’t Matter Who Owns the Money; It Only Matters Who Gets to Use It”

Today, the buffet of benefits available to the upper ranks includes extravagant state-provided housing, posh offices, fleets of limousines, access to state-owned vacation villas, travel and plenty of pocket change to spend on fine French wines, Rolexes, Louis Vuitton handbags and the rest. At the top, princelings are often heads of giant conglomerates, which themselves own dozens or even hundreds of individual SOEs. Presumably this gives them access to multiple income streams and ample opportunities to plunder the government’s ever-growing treasure. Princeling Bo Xilai didn’t send his son Guagua to Harrow, Oxford and Harvard, and buy him Porsches, Ferraris and fancy apartments in Oxford and Cambridge, Massachusetts, on his official salary.

Even China’s leaders complain that China’s “governments at all levels” had turned the state’s banks into “ATMs for officials and official businessmen.” (70) As one SOE boss put it: “It doesn’t matter who owns the money; it only matters who gets to use it.” (71) As individuals, they loot according to their rank, positions and guanxi. And of course, who gets to use exactly what is shrouded in secrecy. Financial Times Beijing bureau chief Richard McGregor quotes a businessman jailed on corruption charges who said: “Every official has three lives. Their public life, their private life, and their secret life.” (72)

In the boom years of the 1990s and 2000s in China’s ruling class, taking their cue from New York banksters who were becoming their partners and backers, corruption flourished on a previously unimagined scale. They siphoned huge sums from state banks, SOEs and ministries. They looted pension funds and state charities. They’ve profited from illegal arms sales and smuggling. They made vast fortunes in real estate evicting millions of farmers and selling their land to developers. They made more fortunes taking cuts from listing Chinese companies on the New York Stock Exchange. In all this, the “princeling” children and grandchildren of the “Eight Immortals” have led the way.

“The anticorruption push is more of a Stalinist purge than a genuine attempt to clean up the government.”

In the 1980s, Deng Xiaoping, Chen Yun and the other aging revolutionary generation leaders entrusted their children to run the new market-oriented state conglomerates like CITIC, China Poly Group (arms, African oil, etc.). Deng’s daughter Deng Rong and her brother Deng Zhifang were among the first to go into real estate in the 1990s. As Bloomberg reported in its investigative report on the 103 children and grandchildren of the Eight Immortals, “Families benefited from their control of state companies, amassing private wealth as they embraced the market economy. Forty-three of the 103 ran their own business or became executives in private firms … The third generation – grandchildren of the Eight Immortals and their spouses, many of whom are in their 30s and 40s – have parlayed family connections and overseas education into jobs in the private sector.” Others took over state-sector conglomerates and SOEs.

Twenty-six of the heirs of just these eight revolutionary leaders ran or held top positions in big SOEs: “Three children alone – General Wang’s son, Wang Jun, Deng’s son-in-law, He Ping; and Chen Yuan, the son of Mao’s economic tsar – headed or still run state-owned companies with combined assets of about $1.6 trillion in 2011. (73) Deng’s son-in-law Wu Jianchang got himself appointed head of numerous metals companies and then became, conveniently, minister of metallurgy. Deng’s grandson Zhuo Su got himself appointed head of a company that bought into an Australian iron ore business. Wang Jun, the revolutionary general’s son, set up a huge conglomerate, Poly Group, with Deng Xiaoping’s son-in-law He Ping, another general. Chen Yun installed his son Chen Yuan as head of the giant state-owned China Development Bank with assets of more than $1 trillion. His sister, Chen Xiaodan, worked at Morgan Stanley in New York, set up her own private equity firm, and worked with her father’s China Development Bank to support Chinese firms investing abroad in Europe and elsewhere.

Wang Zhi, General Wang’s third son, “borrowed” 300,000 yuan from his employer, the Ministry of Electronics, to set up his own company building personal computers, eventually partnering with Bill Gates to develop a Chinese version of Windows software. As Yang Dali of the University of Chicago put it, “The entire country was in business – the Party, the military, the courts, the prosecutor’s office, the police…. Insiders could get rich very quickly.” And “[w]hen the top is corrupt, this is how it will be all the way down,” said Dai Qing, China’s leading environmental activist who herself grew up in the Zhongnanhai compound with the princelings after being adopted by a famous general. (74) Bloomberg reports that, when he was lying in a hospital bed in 1990, hardline Maoist Gen. Wang Zhen (1908-1993) told a visitor that he felt betrayed by his own children. Decades after he had risked his life fighting for an egalitarian utopia, his children were only interested in getting rich: “Turtle eggs,” he said to the visiting well-wisher, using a slang term for bastards. “I don’t recognize them as my sons.” (75)

Getting the Loot Out of China

International banking connections also have been key to the princelings’ strategy of getting their loot out of China. Over the years, it has been estimated that princelings and other high cadres, cronies and capitalists have funneled $1-4 trillion in unreported assets out of the country since 2000. Credit Suisse, PricewaterhouseCoopers and UBS – Western banks with notorious experience in sheltering US and other tax evaders – set up secret companies and accounts for at least 21,000 Chinese in Caribbean tax havens including for Wen Yunsong, Wen Jiabao’s son. High cadres, their relatives and other rich guys fly suitcases of money to North America, Australia, Caribbean havens and other friendly destinations. (76)

In February 2014, it was reported that more than 45,000 (!) Chinese millionaireshad queued up in Vancouver, British Columbia, to get investor residence visas in return for five-year, interest-free loans to the Canadian government. In the US, 80 percent of the government’s EB-5 investor program visas are going to wealthy ex-mainland Chinese; in Australia, it’s nine out of 10. At least 18 of the Eight Immortals’ descendants own or run entities registered in the British Virgin Islands, Cayman Islands, Liberia and other secret offshore tax havens. (77) Bo Yibo’s wife Gu Kailai, convicted in 2012 of murdering her British business partner, controlled a web of businesses from Beijing to the Caribbean worth at least $126 million and stashed many of her assets with her sister in places like the British Virgin Islands, according to Bloomberg. (78) So it goes.

C. Implications, Tendencies, Consequences

This structural arrangement of bureaucratic/gangster capitalist power and property has given China’s economy a radically different pattern and trajectory of economic development from normal capitalism anywhere in the West. We can specify at least the following broad systemic tendencies in this hybrid economic system:

1. Priority to the state-owned economy: Shocked and riveted by the collapse of communism in Eastern Europe and especially the communist debacle in the USSR, Deng Xiaoping and his successors have been determined to avoid such a fate by maintaining state control over the commanding heights of the economy, avoiding substantial privatization and limiting the internal market, as noted above. That’s why the maximand of China’s SOEs is not profit maximization. Their maximand is the security, wealth and power of the Chinese Communist Party and that’s not the same thing. The Bank of China, China Development Bank, the Industrial & Commercial Bank of China and other huge state banks sit at the apex of China’s economy and count among the Global Fortune 500 largest companies. But unlike Citibank or HSBC, their job isn’t to make money. Their job is to lose money – or more precisely, to disburse it.

It’s often said that in the transition to capitalism China’s market reformers “abandoned central planning.” That’s an exaggeration. They reduced the scope of indicative planning but they did not abandon planning the state sector; they monetized it. Instead of issuing physical output targets à la Stalin and Mao, they direct most of the state economy by writing checks: by ordering state banks to disburse funds to support the production goals of the state plans (though they still set physical targets for some items – kilometers of rails, kilometers of roads, tons of wheat and cotton etc., as noted above). In the 1990s, the government leased out, sold off or closed down thousands of small unprofitable SOEs producing consumer goods including wood and leather products, furniture, building materials, garments, food products and the like. Dispensing with these, the government concentrated on restructuring, modernizing, expanding and diversifying the state’s SOEs. (79)

The government also expanded the state sector by establishing entirely new industries: consumer appliances, solar and wind power, biotech, high-speed trains, passenger aircraft, IT and others. But instead of assigning production targets for quantities of Geely cars, Suntech solar panels or China National Railways (CNR) high-speed trains, they allocate funds via state banks to support state-owned industries like CNR and to establish and support state-private joint ventures like Suntech and Geely. Since the 1990s, China’s SOEs, and the entire state industrial sector, have grown enormously. Whereas in the 1970s, China’s SOEs counted for almost nothing in the world economy, today, China’s “national champions” Sinopec, China National Petroleum and State Grid Corporation rank among the 10 largest companies by revenue in the 2014 Fortune 500.

Prioritizing the state sector means that the government often finds it rational to subvert its own market reforms to protect state interests: So when the head of a major state-owned conglomerate was removed for embracing market economics too enthusiastically, a Beijing University expert on China’s state-enterprises commented: “There’s a system in place, not just one person. The party’s appointee draws his position from patronage … and the task is to engage with state leaders and safeguard government assets, not to maximize profits.” (80) This is why the government enforces SOE monopolies regardless of efficiency, why it limits Western investor ownership share in joint ventures, why it bars Western firms from investing in key industries, and why it directs its huge sovereign wealth fund mainly to invest in the resource extraction industries China needs to fuel its national economic development even though global resource prices and resource industry profits have both been falling since 2008. (81) This is all in the collective interest of China’s state-based ruling class.

Yet at the same time, individually, princelings and well-placed cadres are simultaneously conniving, like the gangsters they are, to privatize pieces of the state-owned economy and to sell them at huge discounts to themselves, their relatives and partners, usually via private investment banks that have their real owners concealed behind multiple layers of paper and shell companies. Cadres also funnel money out of SOE profits to buy businesses and properties in the West. SOE overseas companies open still other opportunities to privately pocket profits earned overseas before they’re sent back to China. It can’t be ruled out that such trends could eventually lead to a broad selloff of state assets à la Poland. But for the present, the party seems determined to protect the state-owned economy rather than let it collapse and be sold off and privatized.

2. Hypergrowth drivers: incentives without penalties: China’s SOEs, as we noted, don’t live or die on the basis of their performance in the market. Lots of SOEs are inefficient but because many are also monopolies, they can still be gold mines. (82) As one official observed, “the overall economy has been so good that even pretty stupid SOEs could do well without much effort.” (83) Broke, indebted, inefficient or not, so long as their SOEs are in-plan, and especially if they’ve been designated “key” or “strategic” or “pillar” industries like coal, oil, autos, aerospace, biotech, high-speed rail or some other priority, SOE managers could assume that they would never be forced out of business regardless of their economic performance and generally speaking they have not been.

In result, SOE managers have had the best of both worlds: They have every incentive to borrow and spend, especially on capital construction (including those palatial offices to run the operations), but they face little or no threat of discipline for excess or failure. Given the profit-sharing arrangement between the center and the SOEs, for SOE bosses, it’s capitalism when the SOE is making money but socialism when it needs a government bailout. This is the main driver of “blind growth” across the economy and this can be expected to continue.

3. Hypergrowth drivers: job creation: In capitalist economies, neither individual companies nor governments are obliged to create jobs, though in extreme circumstances like the Great Depression, governments have set up jobs programs to keep the peace. But in China, in the old Maoist bureaucratic collectivist system, the government was the only employer, so it had to employ everyone because there was nowhere else to find work. In Mao’s day, successive generations of workers were simply assigned to work units (danwei) with the result that China’s industries and government offices were often abundantly overstaffed. But with the turn to the market, the government abolished guaranteed employment in the mid-1990s and SOEs laid off some 50 million superfluous workers in the 1990s to make their industries more efficient.

By then however, many excessed workers could find jobs in the new parallel market economy while others were forced into retirement on subsistence pensions. The destruction of millions of state jobs with state benefits provoked widespread protests and unrest in the late 1990s and early 2000s. To contain this unrest, and also to keep up with China’s relentless population growth, the government has been forced to spend heavily on wave after wave of WPA-like, make-work capital construction projects across the country since the 1990s, even if much of what got built was unneeded, as noted above. Given the special threat that extensive unemployment poses to a nominally workers state, this pattern of make-work overproduction and overdevelopment can be expected to continue.

4. Collective property weakens efforts to reduce pollution: Collective ownership means that even with its police-state dictatorship, the center can’t always enforce its will against lower-level officials because those local, country, provincial, ministerial officials, SOE bosses and so on are more partners with Beijing in their joint ownership of the national economy than strictly subordinates. They all have their own guanxi networks to defend their turf and promote their own interests in contravention of central initiatives when it suits their purposes. This is why central efforts to restrain pollution tend to be subverted or defeated by local officials whose overriding concern is to keep the economic engines running regardless of the smog.

China has comprehensive environmental legislation on the books. It has its own Environmental Protection Agency equivalent, the State Environmental Protection Agency (SEPA). It has a State Food and Drug Administration (SFDA) and other regulatory agencies. But the evidence everywhere is that regulation is largely a failure. (84) Here and there SEPA has managed to enforce some cleanups and shutdowns of some conspicuous polluters, usually smaller operations. But more often than not, SEPA regulators are powerless against polluters because environmental protection officers are subordinate to and even paid by local officials who profit from and generate jobs in the same polluting industries SEPA wants to suppress. (85)

In her documentary Under the Dome, Chai Jing asks Ding Yan, the director of the government’s Ministry of Environmental Protection (MEP) Vehicular Pollution Research Institute, about why his agency doesn’t force China’s vehicle manufacturers to stop selling trucks with fake National Standard 4 emission stickers certifying that the vehicles meet the highest emissions standards when in fact they only meet the lowest National Standard 1. “If you (the MEP) assert you have legal authority, no one can deny that, so why not just execute the law?” Ding told her that regardless of the law, his agency had no real power to enforce it: “Nowadays, I don’t dare open my mouth out of fear that [the polluters] will see that I have no teeth” (at 48:19).

Since the highly personalized and politicized state can’t rely on the rule of law, independent courts and police to enforce its environmental regulations, the government has to resort to “campaigns” to enforce environmental compliance. But this approach is hopelessly ineffectual. Beijing issues big directives, sends inspectors around and fines the polluting companies. But as often as not local government partners just pay the fines, or block regulators from shutting down the polluters, or let the regulators shut them down but then let the companies reopen under a new name. If all else fails, there’s always bribery. MEP officials are regularly bribed to let polluters continue operations. (86)

A year after Xi Jinping launched his “war on pollution,” the official press describes Beijing as “all but unlivable.” A study released in February 2015 declared that living in China’s cities is “as deadly as smoking.” (87) The government’s ambitious plans to improve water quality and safety have likewise failed. The 12th Five-Year Plan goal of “completely solving rural drinking water issues” by the end of 2015 “will not be met, and some villages are going backward because of scarcity and pollution.” Urban water safety has not improved and even bottled water is often contaminated. (88)

Moreover, the center itself is conflicted about enforcing its own pollution regulations because the central government, as much as local governments, needs to maximize growth to meet its plan targets and maintain employment to keep the peace. So while it talks about cracking down on pollution, more often than not Beijing also has to prioritize job creation over environmental protection. (89) Therefore, so long as there is no real separation of powers, these trends can be expected to continue and China’s pollution problems will remain essentially unsolvable.

5. Bureaucratic particularism and competition drive redundancy and overinvestment: SOE bosses, and local, provincial and ministerial officials may not face market competition in the same way and to the same extent as capitalist firms, but they face intense bureaucratic competition for access to resources and appropriations from the center. This particularistic intra-ruling class struggle over access to state funds also shapes the broad pattern of China’s economic development, powering tendencies to redundancy, duplication, irrational investment and waste throughout the economy. Thus, in his book on China’s growing airline industry, James Fallows writes:

Foreign reports often present these projects as carefully coordinated expressions of China’s larger ambitions for a modern transportation system and to an extent they are. But there is also bitter bureaucratic and commercial rivalries between the airline and railroad interests within China, each seizing on any opportunity to argue that it reflected the wiser and more farsighted use of the country’s resources. (90)

In China’s hybrid economic system, generally speaking, officials can only profit from their own units – their localities, ministries and SOEs. Cadres can’t buy shares in SOEs anywhere in the economy like in capitalism. No cadre in Sichuan can invest in and profit off of state-owned industries in Shanghai or Shenzhen. So if Sichuan officials wanted to profit from Premier Wen Jaibao’s call at the launching of the 12th Five-Year Plan, to “enhance China’s automobile manufacturing capability,” their only way to do was to build auto plants in their own province. And that’s what happens. That’s why China has more than 130 auto plants, thousands of power plants (one for every three square kilometers in Jiangsu province), roads and bridges to nowhere, more than 30 airlines, near-empty airports everywhere, more than 800 shipyards, redundant ports, redundant “world financial centers,” redundant shopping malls and ghost cites, with all the waste those entail. These tendencies are, again, built into the bureaucratic collectivist nature of this economic system and will continue as long as this system is in effect.

6. Rampant, ineradicable corruption: Anticorruption campaigns have been a feature of CCP inner-party struggles since long before the founding of the People’s Republic. They reached their apogee of hysteria in Mao Zedong’s terror campaign of the “cultural revolution” against “capitalist roaders” in his own party. These days the party brags that it disciplines tens of thousands of corrupt officials every year. Prominent party and state figures tried and punished in recent years include Beijing Mayor Liu Zhihua who received a suspended death sentence in 2009 for bribery. Shanghai party chief Chen Liangyu got 18 years in 2008 for corruption. Zheng Xiaoyu, head of China’s SFDA, was executed in 2007 for taking bribes to approve an antibiotic blamed for at least 10 deaths. Rixin Kang, former head of China’s nuclear power agency, was sent to prison for life in 2011; Cheng Tonghai, former head of Sinopec, got a suspended death sentence in 2009. Li Peiying, the head of Beijing’s Capital Airport, was executed in August 2009. Railway minister Liu Zhijun was given a suspended death sentence in 2013. Bo Xilai, the first member of the Party’s Politburo to be arrested since the end of the Mao era, was given a suspended death sentence in 2013. In January 2015, 70 SOE bosses were nabbed in one sweep, 16 generals in another.

Yet for all the campaigns, arrests and executions, corruption only grows worse every year. And why would it not? Opportunities for getting rich quick have grown as fast as the economy. And despite all the lurid press reports, the chances of getting caught are miniscule and for most corruption cases the consequences are not nearly as dire as the headlines imply, especially for the most elite, the biggest gangsters. (91)Geremie Barmé of the Australian National University says that in his research, for all the drama, most of the offspring of China’s revolutionary founders, the so-called “second red generation,” whose ranks include Xi Jinping and Bo Xilai, had largely escaped serious punishment: “In the murky corridors of Communist power, an impressive number of party gentry progeny, or the offspring of the Mao-era nomenklatura, have been implicated in corrupt practices … But word has it that, like the well-connected elites of other climes, they’ve enjoyed a ‘soft landing’: being discretely relocated, shunted into delicate retirement or quietly ‘redeployed.'” (92)Bo Xilai’s confinement is thought to be not too harsh, and not include orange suits.

Guanxi rules. Xi Jinping’s “war on corruption” is swatting competing tigers like Zhou Yangkang’s clique but has conspicuously failed to swat blatantly corrupt tigers right under his nose, starting with his own sister, brother-in-law, niece and their private sector partners, all of whom have made fortunes trading influence for lucrative state-private deals. Instead, Xi is just pushing them to cash out of their hundreds of millions of dollars in politically vulnerable investments. (93) Novelist Murong Xuecun writes in The New York Times that “the anticorruption push is more of a Stalinist purge than a genuine attempt to clean up the government.” Xi, he says, has mainly targeted specific party factions while those groups that support and pledge loyalty to Xi appear untouched. He notes that in Xi’s former fiefs in Fujian and Zhejian provinces, “as best I can tell not one official above the deputy provincial level has been arrested on suspicion of corruption. Recently the question was raised on the internet: Why have no ‘big tigers’ been found in Fujian and Zhejiang? The message was almost immediately deleted.” (94)

Without the rule of law, an independent judiciary, courts and police to prosecute and punish corrupt cadres, Xi Jinping’s only option is to try to terrorize the cadres by sending down “discipline inspection teams” to punish local transgressors and jail some blatant offenders. The Chinese call it “killing the chickens to scare the monkeys.” But after the terror passes and the teams return to Beijing, it’s back to business as usual. So after wrapping up the second round of two-month inspections in 10 provinces launched in July 2014, Wang Qishan, head of the Central Commission for Discipline Inspection (CCDI) warned officials, “Don’t go back on your old ways when our backs are turned … we will come back and catch you off guard.” (95)

But really, what can the poor CCDI do? The Chinese Communist Party is a cesspool of corruption from top to bottom. The CCDI can’t arrest the entire party. Xi needs these officials to run his economy and administration, but most are well enough connected to avoid his terrorists. Xi can’t trust the police to systematically enforce anticorruption measures because the police themselves are notoriously corrupt. Even his corruption investigators can’t be trusted (1,575 corruption investigators were themselves busted in 2014). By October, Wang was complaining that the cadres were not taking him seriously: “We have stepped up the anti-graft campaign but some party cadres are still undeterred. Some have become even more corrupt.” Wang “vowed to ramp up inspections of the lower tiers of government.” (96) Good luck on that, Mr. Wang.

Pursued with too much vigor, Xi’s anticorruption campaign against senior officials risks not only unsettling elite stability, but also destroying what’s left of the party’s credibility. As a retired princeling military officer said about the most recent campaign against graft and profiteering in the army: “You can’t do it too much, otherwise the party comes out too black, and the leaders won’t like it.” (97) Of course, self-limiting anticorruption campaigns only guarantee that corruption will continue to grow. Moreover, the anti-graft drive is also hurting economic growth as cadres sit on their hands, fearing to do any work that might bring complication, and companies pull back from spending on luxury goods, feasting, champagne and cars – the spending by the 1% that drives so much growth in China, as in the West.

What’s worse is that with the spectacle of China’s political leadership by “communist” princelings-turned-billionaires, corruption rots the whole society from the top down. Whereas in the 1980s, millions of China’s youth were idealistic passionate protesters for democracy, today many of China’s millennial generation have lost all hope for change, been seduced by capitalism and consumerism, become cynical and indifferent toward politics, human rights and the environment, and are insouciant toward CCP lies and repression. Others are just giving up and emigrating.

III. Braking the Drive to Collapse

It goes without saying that the Chinese have every right to modernize, industrialize and improve their material standard of living. But the problem is that capitalism can’t sustainably provide this for the Chinese, the Americans or anyone anymore. As many Chinese say today, “Who cares if we have the world’s highest GDP if we can’t live here?” The Chinese don’t need a higher standard of living based on endless consumerism. They need a better mode of life: clean, unpolluted air, water and soil; safe and nutritious food; comprehensive public health care; safe, quality housing; a public transportation system centered on urban bicycles and public transit instead of cars and ring roads; and more.

We all need to live better by consuming less and consuming rationally, fairly and sustainably. Given the planet’s desperate shape today, the only way humanity is going to survive this century is if developed countries and developing countries contract and converge their resource consumption and pollution around a sustainable global average that will permit the world’s peoples to live in tolerable conditions while reserving resources for future generations and other life forms. (98)

As China Goes, So Goes the World

Climate scientists tell us that, given all the failed promises to date, the backpedaling and soaring carbon dioxide emissions, we now face a “climate emergency.” On present trends we’re on course to a 4 to 6-degree Celsius warming before the end of this century: If we don’t radically suppress fossil fuel burning over the next few decades to keep the warming below the 2-degree Celsius threshold, planetary heating will accelerate beyond any human power to stop it and global ecological collapse will be unavoidable. To have a chance of staying below 2 degrees, the industrialized nations and China must cut carbon emissions by 40 to 70 percent globally by 2050 as compared to 2010, which would require cuts on the order of 6 to 10 percent per year. (99) China would have to cut its industrial emissions by 30 to 90 percent as compared to 2010, the variance depending upon expected growth rates and other assumptions. (100)

The only way China could suppress its greenhouse gas emissions by anything like that amount would be to impose a drastic across-the-board economic contraction, including radical retrenchments and shutdowns of most of the industries that have been built up in the last three decades of market mania. I’m sure this sounds extreme, if not completely crazy. But I don’t see what other conclusion we can draw from the science. On the positive side, as I surveyed above, since so much of China’s resource waste and pollution is just completely unnecessary and harmful, what sounds like extreme austerity could prove just the opposite: liberating, a move to that “better mode of life.” Such an emergency plan would have to include at least the following elements:

  • Shut down all but critically essential coal-fired power plants needed as a temporary measure to keep the lights and heat on and essential public services in operation until renewable replacements can be brought on line. Abandon the coal gasification projects and phase out oil- and gas-powered fuel plants as quickly as possible. Force a rapid transition of energy generation to renewable wind, water and solar energy sources but with the goal of producing much less electricity overall, closer to what China produced in the early 1980s before the market-driven industrialization boom. The US and other developed countries should be obliged to provide extensive technical and material assistance to facilitate this transition.
  • Shut down most of the auto industry. This industry is just a total waste of resources and is the second-biggest contributor to global warming. Most public transportation will have to shift back to bicycles, buses, trains and subways – basically a modernized and expanded version of what the Chinese had in the early 1980s before the auto craze. But the air will be cleaner, transportation will be faster, people will be healthier and immense resources will be conserved.
  • Shut down most of the coastal export industries. Most of China’s coastal export industries are geared to producing unsustainable, disposable products, as noted above. There is just no way to have a sustainable economy in China or anywhere if we don’t abolish the throwaway repetitive-consumption industries in China and around the world.
  • Retrench or close down aviation, shipping, and other redundant and unsustainable transportation industries. Abandon the “aviation superpower” boondoggle. Abandon further expansion of the high-speed train network. China has already built more planes, trains and subways than it needs by any rational accounting of needs. Same with the shipbuilding industry, most of which is geared to container and bulk carrier shipping. This industry needs to be drastically reduced as China’s imports and exports decline with industrial contraction.
  • Shut down most of the construction industry. Even with China’s huge population, the country is massively overbuilt and littered with useless, superfluous buildings, housing, highways, bridges, airports and so on. Some of this can be repurposed. Some should be demolished and the lands returned to farmlands, wetlands, parks or other beneficial use.
  • Abandon the urbanization drive and actively promote re-ruralization.Urban life has its advantages but urban residents consume several times the energy and natural resources and generate several times as much pollution as rural farm families. Besides, most of the tens of millions of Chinese who were relocated to the cities in the last three decades did not go voluntarily; they were forced off their farms by land-grabbing, profiteering local officials. Those ex-farmers who wish to return to the land should be permitted to do so. There is no law of nature that says farm families must be impoverished. In today’s world, family farmers with adequate land and decent technology, who can market their own produce so they don’t get ripped off by middlemen, and who are not under the thumb of banks, landlords or state-landlords, can do very well. (101) China’s farmers are poor because the state has been squeezing them to subsidize industrialization. The best way to raise rural living standards is to give them security in their farms and pay them fair prices for their produce.
  • Abandon the imperial plunder and Han colonization of the West.Xinjiang, Tibet and Mongolia are not ethnically Chinese. If the Chinese government abandons its market-based development strategy it would have no “need” to plunder the natural resources of the West; those peoples can be left in peace to develop at their own pace and in accordance with their ecological limits. And after wrecking so much of their environment, the Chinese owe them some help.
  • Launch an emergency national plan for environmental remediation and restoration of public health. Chinese environmental and health experts have called for a comprehensive integrated plan to address the nation’s environmental and public health issues. (102) Experts say it could take generations to restore China’s farmlands, rivers and lakes to tolerable biological health though, as noted above, in places this may be impossible. A significant share of the costs of this remediation should also be borne by the Western nations whose companies callously contributed to this pollution by offshoring their dirtiest industries to China.
  • Launch a national public works jobs program. If China is going to have to shut down so much of its industrial economy to brake the drive to ecological collapse, then it is going to have to find or create new jobs for all those displaced workers. In Guangdong Province alone, there are something like 40 million manufacturing workers, most of them dedicated to producing the sorts of needless products described above. Forty million unemployed workers would be a big problem. And that’s just Guangdong. But unbreathable air, undrinkable water, unsafe food, polluted farmland, epidemic cancer, rising temperatures and rising seas along coastal China are bigger problems. So there’s just no way around this very inconvenient truth. Making bad stuff has to stop; stopping it will unemploy vast numbers of workers, and other, non-destructive, low-carbon jobs have to be found or created for them. Fortunately, in China, there is no shortage of other socially and environmentally useful work to do: environmental remediation, reforestation, transitioning to organic farming, transitioning to renewable energy, rebuilding and expanding public social services, rebuilding the social safety net, especially for China’s aging population, and much else.

Pan Yue was certainly prescient: The Chinese miracle has come to an end because the environment can no longer keep pace. The question is, can the Chinese find a way to grab hold of the brakes and wrench this locomotive of destruction to a halt before it hurls the country off the cliff?

Revolution or Collapse?

One thing is certain: This locomotive is not going to be stopped so long as the Communist Party has its grip on the controls. The Chinese Communist Party is locked in a death spiral. It can’t rein in corruption because the party is built on corruption, thrives on corruption and can’t police itself. It can’t rein in ravenous resource consumption and suicidal pollution because, given its dependence on the market to generate new jobs, it has to prioritize growth over the environment like capitalist governments everywhere.

It can’t even discipline its own subordinate officials to enforce and obey the government’s environmental, food and drug safety, building codes and similar laws because in this system subordinate officials aren’t necessarily subordinate and can often mobilize their family and guanxi-based backers to defend their interests and thwart Beijing. So long as this basic structural class/property arrangement remains in effect, no top-down “war on pollution” or “war on corruption” is going to change this system or brake China’s trajectory to ecological collapse. Given the foregoing, I just don’t see how China’s spiral to collapse can be reversed short of social revolution.

China’s Communist Party seems all-powerful and unassailable. But it’s not. It’s frightened, desperate and disintegrating. It faces unprecedented threats: near daily industrial strikes; militant and often violent protests over land grabs, chemical plants, incinerators, power plants and the like; “terrorist” attacks from Xinjiang; and even worse, subversive thought that just can’t be stopped by the Great Firewall. Chai Jing’s Under the Dome had 300 million downloads before the government took it down off the web after a week and a half. Who knows what spark will light the next social explosion?

Resistance is growing as pollution and public health worsen, as it becomes harder to sustain that 8 percent growth rate to stave off unrest, as Xi Jinping’s war on corruption only serves to publicize the unregenerate character of the entire Communist Party and underscore its incapacity to solve any of China’s huge problems. Since Xi took over in 2012, he’s been determined to save China’s Communist Party from the fate of its Soviet cousin. Xi ridiculed Mikhail Gorbachev’s “weakness” and cast himself as the tough-guy Godfather, cracking down on the press, the internet and social media, religious groups, democrats, nongovernmental organizations, Western joint-venture partners and “Western ideas.” But this repression just reveals his weakness, not his strength.

The more he harasses, fines and drives Western joint-venture partners out of China, the less access he will have to their technology and the less competitive his SOEs will become. The more tightly he polices culture and censors the internet, the faster China’s intellectuals, scientists, professionals and college graduates will pack up and move to Australia. Nothing demonstrates this weakness and lack of self-confidence more than the Party’s very public disintegration: The government bitterly complains that large numbers of “ready-to-flee, naked officials” (so-called because they’ve sent their families and money to Los Angeles or Vancouver) are scheming to follow them. Surveys show that half of China’s rich (most of whom are Communist Party members) have either left the country or are planning to do so as soon as they can. (103)

China has to be the first nation in history in which significant numbers of its own triumphant ruling class are abandoning their own success story en masse. Today, Xi Jinping faces subversion and resistance everywhere he looks, yet he can’t even count on his comrades. To add to his headaches, Godfather Xi now faces an in-your-face democracy movement in Hong Kong that refuses to die. From workers’ strikes to environmental protests to Occupy Central for Love and Peace, these struggles and movements are fragmented, inchoate and unorganized, so far, but they all share a common demand: bottom-up democracy. Therein lies China’s best hope.

Footnotes

1. Ariana Enjung Cha, “Solar energy firms leave waste behind in China,” The Washington Post, 9 March 2008. All quotations are from this article.

2. There’s no better illustration of this government-industry collusion and pollution’s catastrophic impact on the health of China’s people than journalist Chai Jing’s sensational new documentary on China’s smog Under the Dome – Investigating China’s Smog (Wumai diaocha: qiongding zhixia) which went online in late February and is being rightly hailed as China’s Silent Springhttps://www.youtube.com/watch?v=T6X2uwlQGQM.

3. “The Chinese miracle will end soon,” Der Spiegel 7 March 2005: www.spiegel.de/speigel/0,1515,345694.html.

4. Elizabeth Economy and Michael Levi, By All Means Necessary, Oxford 2014, chapters 3 and 4.

5. Craig Simons, The Devouring Dragon, New York, 2013, p. 9 and chapters 7 and 8.

6. Joseph Kahn and Mark Landler, “China grabs west’s smoke-spewing factories,” The New York Times, 21 December 2007. William J. Kelly and Chip Jacobs, The People’s Republic of Chemicals (Los Angeles: Vireo 2014).

7. Alexandra Harney, The China Price, New York, 2008, pp. 8-9.

8.Overdressed, New York, 2013, pp. 3, 124-125. Energy consumption: FAO, cited in “Fabric and your carbon footprint, O Ecotextiles, 10 March 2013, at http://oecotextiles.wordpress.com/2013/10/03/fabric-and-your-carbon-footprint/.

9. Niu Yue, “China No 1 dumper of plastic into ocean,” China Daily, February 19, 2015.

10.State Council Decision on Accelerating the Development of Strategic Emerging Industries, October 2010 at http://www.gov.cn/zwgk/2010-10/18/content_1724848.htm.
State Council 12th Five-Year Plan (FYP) on Development of Strategic Emerging Industries, July 2012 at http://www.gov.cn/zwgk/2012-07/20/content_2187770.htm.
MOF and NDRC Interim Measures for the Administration of Special Funds for Strategic Emerging Industries, December 2012 at http://jjs.mof.gov.cn/zhengwuxinxi/zhengcefagui/201301/t20130124_729883.html.

11. Tom Lasseter, “Empty highways,” McClatchy News, August 24, 2006, 11:33PM at http://blogs.mcclatchydc.com/china/2006/08/empty_highways.html.

12. Professor Zhao Jian of Beijing Jiaotong University says, “It is unwise to continue building high-speed rail lines while the current high-speed network has a hard time getting enough passengers and is operating at a loss … The country has built more than 10,000 kilometers of high-speed rail lines and most lines are losing money because of inadequate demand.” Some lines run at only 30 percent of capacity he said, and even the busiest, such as the train from Beijing to Shanghai, “will run a loss for a long time … The rush to build high-speed rail networks indicates that the old investment-driven growth model has hardly changed.” Sun Wenjing, “Government throwing money away on bullet trains, expert says,” Caixin, 10 July 2014 at http://english.caixin.com/2014-07-10/100702343.html.

13. Kevin Lim, “‘Meaningful probability’ of a China hard landing: Roubini,” Reuters, 13 June 2011.

14. Wang is quoted in Tania Branigan, “Riding Beijing’s subway end to end: 88km of queues and crushes on 20p ticket,” The Guardian, 10 September, 2014 at http://www.theguardian.com/cities/2014/sep/10/-sp-beijing-subway-china-metro-queues-ticket-investment.

15. James Fallows, China Airborne, New York, 2012, pp. 28-29. David Barboza, “Airports in China hew to an unswerving flight path,” The New York Times, 3 April 2013. Bloomberg News, “China plan seeks to bolster airports, locally-produced airplanes,” 21 January 2013 at http://www.bloomberg.com/news/2013-01-21/china-plan-seeks-to-bolster-airports-locally-produced-airplanes.html.

16. IPCC, Aviation and the Global Atmosphere: A Special Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge UK 1999, at http://www.grida.no/climate/ipcc/aviation/index.htm. George Monbiot, Heat, Cambridge UK 2007, p. 174.

17. Monbiot, Heat, p. 182 and sources cited therein.

18. In the decade from 2000 China’s cities expanded by over 80 percent. A national land survey found that 130,000 square kilometers of farmland, equal to half the area of Germany, was paved over in the urbanization frenzy between 1996 and 2009 – and it hasn’t slowed since. Mandy Zuo, “Stop concreting over prime farmland, China’s big cities told,” South China Morning Post, 9 November, 2014. Cui Zheng, “Scientists issue warning over development of coastal wetlands,” Caixin, 25 November 2014.

19. See Jasper Becker, City of Heavenly Tranquility, Oxford 2008, chapters 17 and 18.

20. See Darmon Richter, “Welcome to Ordos: the world’s largest ‘ghost city’ [China],” The Bohemian Blog, 13 February 2014 at: http://www.thebohemianblog.com/2014/02/welcome-to-ordos-world-largest-ghost-city-china.html.

21. “Housing oversupply causing major crisis for Chinese economy, NTD.TV, 16 May 2014 at http://www.ntd.tv/en/programs/news-politics/china-forbidden-news/20140516/143998-housing-oversupply-causing-major-crisis-for-chinese-economy-.html. Eg. George Steinmetz, “Let a hundred McMansions bloom,” The New York Times Magazine, 21 September 2014. Neil Gough, “A muddy tract now, but by 2020, China’s answer to Wall Street,” The New York Times, 3 April, 2014.

22. Lillian Liu, “A question of time, FinanceAsia, 8 September 2010 at http://www.financeasia.com/News/231364. Vincent Fernando, CFA, “There are now enough vacant properties in China to house over half of America,” Business Insider, 8 September 2010 at http://www.businessinsider.com/there-are-now-enough-vacant-properties-in-china-to-house-over-half-of-america-2010-9. Robin Banerji and Patrick Jackson, “China’s ghost towns and phantom malls,” BBC News Online, 13 August 2012 at http://www.bbc.com/news/magazine-19049254. Yifei Chen, “Chasing ghosts: where is China’s next wave of empty ‘new towns’?” South China Morning Post, February 13, 2015.

23. “China’s real estate bubble,” CBS 60 Minutes, 11 August 2013 at http://www.cbsnews.com/videos/chinas-real-estate-bubble/. Gus Lubin, “Satellite pictures of the empty Chinese cities where home prices are crashing,” Business Insider, 10 December 2011, 1:48PM at http://www.businessinsider.com/china-ghost-cities-2011-11#. David Barboza, “Chinese city has many buildings but few people,” The New York Times, 9 October 2010.

24. Zarathustra, “China’s crumbing infrastructure model,” Macrobusiness, 28 July 2012 at 9:49AM at http://www.macrobusiness.com.au/2011/07/is-chinas-growth-model-a-train-wreck/.Wall Street Examiner reporter/blogger Russ Winter posted several photos of collapsed bridges in his “Yes, China is truly different” Winter Economic and Market Watch, 28 August 2012 at http://www.wallstreetexaminer.com/blogs/winter/?p=5290.

25. Lu Chen, op. cit. After the collapse of an apartment in Fenhua, Zhejian Province in April 2014, officials warned of a “coming wave of such accidents as the ‘fast food’ buildings built in the 1980s and 1990s enter their 30s and 20s.” Building safety experts warned people not to purchase apartments in certain localities known to be particularly risky. Most “won’t last 50 years, or in some cases about 25 years,” and they present constant safety hazards. Zheng Fengtian, “Weak buildings threaten life,” China Daily, 11-14 April 2014.

26. Frank Langfitt, “Chinese blame failing bridges on corruption,” National Public Radio, 29 August 2012 at http://www.npr.org/2012/08/29/160231137/chinese-blame-failed-infrastructure-on-corruption.

27. US E.I.A., China, updated 4 February 2014 at http://www.eia.gov/co.

28. Lily Kuo, “China’s nightmare scenario: by 2025 air quality could be much much worse,” posted 12 March 2013 on Quartz at http://qz.com/61694/chinas-nightmare-scenario-by-2025-air-quality-could-be-much-much-worse/. Wang Yue, “China unlikely to reduce coal use in the next decade,” Chinadialogue.org, 10 February 2014 at https://www.chinadialogue.net/blog/6718-China-unlikely-to-reduce-coal-use-in-the-next-decade/esn. US EIA, China, 4 February 2014, op cit.

29. Zeke Hausfather, “Global carbon dioxide emissions: increases dwarf US reductions,” Yale Forum on Climate Change & the Media, 2 July 2013 at http://www.yaleclimateconnections.org/2013/07/global-co2-emissions-increases-dwarf-recent-u-s-reductions/.

30. Chris Buckley, “China’s plan to limit coal use could spur consumption for years,” The New York Times, 25 July 2014. As Xi Jinping and Barack Obama concluded their “historic” accord in November 2014 to cut both country’s carbon dioxide emissions and Xi promised to reduce China’s reliance on coal for power generation and boost renewables, the news that China’s coal consumption actually fell by 2.5 percent in 2014, the first decline in a century, gave cause for optimism. Combined with the fact that China continues to lead the world in annual additions of wind and solar power, many hoped that China’s coal consumption was finally peaking. But as Andrew Revkin points out, while China’s coal production and imports declined in 2014, half of China’s coal is used outside the power sector, in heavy industry, which use has fallen as the overall economy has slowed in recent years. Coal consumption in the power sector continues its relentless climb: In 2014, China’s newly added coal power capacity exceeded new solar energy by 17 times, new wind energy by four times, even new hydro power by more than three times. In just this one year, China added more new coal-fired power plants than Britain’s entire fleet. These new plants will be pumping out greenhouse gases for many decades to come and in fact, most of China’s coal-fired power plants are less than 15 years old so could they could still be running half a century from now. In short, for all the promises, coal is still king in China. Moreover, the economic slowdown is also likely to be short-lived as the government is furiously pumping money into the economy to revive growth. Andrew Revkin, “A look behind the headlines on China’s coal trends,” Dot Earth, The New York Times, 18 February 2015: 6:00 PM at http://dotearth.blogs.nytimes.com/2015/02/18/a-look-behind-the-headlines-on-chinas-coal-trends/?_r=0.

31. William J. Kelly, “China’s plan to clean up air in cities will doom the climate, scientists say,” InsideClimate News, 13 February 2014 at http://insideclimatenews.org/news/20140213/chinas-plan-clean-air-cities-will-doom-climate-scientists-say.

32.Reuters, “China’s coal expansion may spark water crisis, warns Greenpeace,” The Guardian, 15 August 2012. See also the accompanying documentary photos by Lu Guang: “China’s mega coal power bases exacerbate water crisis – in pictures,” The Guardian, August 21, 2012 at http://www.theguardian.com/environment/gallery/2012/aug/21/china-mega-coal-water-crisis-in-pictures.

33. See Sophie Beach, “China’s fracking boom and the fate of the planet” in China Digital Times 19 September 2014 at http://chinadigitaltimes.net/2014/09/chinas-fracking-boom-fate-planet/.

34. Investigators have found that only a third of China’s wastewater treatment plants are operating. Cui Zheng, “Seas of sewage,” CaixinOnline, 12 October 2012 at http://english.caixin.com/2012-10-12/100446374.html.

35. Ma Jun, China’s Water Crisis, Norwalk 2004, p. vii.

36. Sun Xiaohua, “Pollution takes heavy toll on Yangtze,” China Daily, 16 April 2007.  Shai, Oster, “It may be too late for China to save the Yangtze goddess,” The Wall Street Journal, 6 December 2006.

37. Xu Nan, “Poisoned groundwater sparks media storm in China,” China Dialogue, February 2, 2013 at https://www.chinadialogue.net/blog/5749-Poisoned-groundwater-sparks-media-storm-in-China/en.

38. Cecilia Torajada and Asit K. Biswas, “The problem of water management,” China Daily, March 5, 2013. Gong Jing and Liu Hongqiao, “Half of China’s urban drinking water fails to meet standards,” China Dialogue, June 6, 2013 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/6074-Half-of-China-s-urban-drinking-water-fails-to-meet-standards.

39. Ten years previously, a pollution tide had killed fish and sickened thousands of people. By 2001, the government claimed to have shut down polluters and declared the cleanup a success. But the Huai is now a symbol of the failure of environmental regulation in China. After spending more than $8 billion over a decade to clean up the Huai basin, the State Environmental Protection Administration concluded in 2004 that “some areas were more polluted than before.” Jim Yardley, “Rivers run black, and Chinese die of cancer,” The New York Times, 12 September 2004. An Baijie, “Polluted river flows with carcinogens,” China Daily, 8 August 2013 (on pollution of the Huaihe in Anhui Province by manganese, nitrates and other carcinogens from local factories).

40. Dr. Linda Greer (NRDC), “Top clothing brands linked to water pollution scandal in China,” China Dialogue, 9 October 2012 at https://www.chinadialogue.net/blog/5203-Top-clothing-brands-linked-to-water-pollution-scandal-in-China/en. (Armani, Calvin Klein, Marks and Spencer, Zara and others.)

41. Xue Haitao and Liku Hongqiao, “Sip of death plagues cancerous river villages,” CaixinOnline, 9 October 2013 at http://english.caixin.com/2013-10-09/100589447.html. Yu Dawei et al., “The poisoning of the Nanpan river basin,” CaixinOnline, 1 September 2011 at http://english.caixin.com/2011-09-01/100297332.html.  Sophie Beach “Shangba, China’s village of death,” posted 3 December 2007 on www.sprol.com/?p=371. Mary Ann Toy, “Waiting for death in fetid cancer villages,” Sidney Morning Herald, 26 May 2007. Jim Yardley, “Rivers run black, and Chinese die of cancer,” The New York Times 12 September 2004. Staff, “South China river polluted by thallium, cadmium,” China Daily, 6 July 2013. Elizabeth Economy, The River Runs Black.

42. Michael Wines, “Smelter in China poisons more than 1,300 children” The New York Times, 21 August 2009. Staff, “Anhui battery factory poisons 200 children,” Caixin slide show, 6 January 2011 at http://english.caixin.com/2011-01-06/100214424.html.

43. Luna Lin, “China’s water pollution will be more difficult to fix than its dirty air,” China Dialogue, 17 February 2014 at https://www.chinadialogue.net/blog/6726-China-s-water-pollution-will-be-more-difficult-to-fix-than-its-dirty-air-/en. Zhang Chun, “China ‘lacks experience’ to clean up its polluted soil,” China Dialogue, 14 April 2014 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/6897-China-lacks-experience-to-clean-up-its-polluted-soil.

44. Matt Currell, “Losing lifeblood in north China,” China Dialogue, September 17, 2010 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/3823-Losing-lifeblood-in-north-China.

45. Economy, “The great leap backwards,” Foreign Affairs, September-October 2007.

46.Reuters in Beijing, “China says more than 3m hectares of land too polluted to farm,” South China Morning Post, 30 December 2013.

47. Ministry of Environmental Protection, Huanjing baohu bu he guotu ziyuan bu fabu quanguo turang wuran zhuangkuang diaocha gongbao (Environmental Protection Ministry and Land and Natural Resources Ministry release countrywide soil contamination condition survey bulletin), 17 April 2014 at http://www.mep.gov.cn/gkml/hbb/qt/201404/t20140417_270670.htm.

48. See Sam Geal and Elizabeth Hilton, “Culture of secrecy behind China’s pollution crisis,” and Angel Hsu and Andrew Moffat, ” China’s soil pollution crisis still buried in mystery,” both in Pollution and Health in China: Confronting the Human Crisis, special issue of China Dialogue, 9 September 2014 at https://s3.amazonaws.com/cd.live/uploads/content/file_en/7289/chinadialogue_health_journal.pdf.

49.Xinhua, “More than 40 percent of China’s arable land degraded,” China Daily, 5 November 2014.

50. Liu Hongqiao, “The polluted legacy of China’s largest rice-growing province,” China Dialogue, 30 May 2014 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/7008-The-polluted-legacy-of-China-s-largest-rice-growing-province. Zheng Yesheng and Qian Yihong, Shendu Youhuan  –  Dangdai Zhongguo de Kechixu Fazahan Wenti (Grave Concerns: Problems of Sustainable Development for China) (Beijing: China Publishing House 1998), pp. 8-10.

51. John Dearing, “China’s polluted soil and water will drive up world food prices,” China Dialogue, 3 March 2015 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/7768-China-s-polluted-soil-and-water-will-drive-up-world-food-prices.

52. For example, antebellum southern planters produced cotton, tobacco, sugar and indigo entirely for market, indeed for the world market. But they did so with slave labor. This hybrid capitalist-slave mode of production was obviously radically different than production for a market based on free labor in the North and it had broad implications for productivity, economic development, and more. It gave their economy an entirely different character, dynamic and trajectory, and it had profound economic, social, political and psychological consequences, many of which we still deal with today.

53. James McGregor, No Ancient Wisdom, No Followers: the Challenges of Chinese Authoritarian Capitalism (Westport: Prospecta Press: 2012), p. 4-5, 16-19 (quote from p. 57) and the sources cited therein, including the head of the State-owned Assets Supervision and Administration Commission (SASAC).

54.No Ancient Wisdom, p. 2

55. Andrew Szamosszegi and Cole Kyle, “An Analysis of State-owned Enterprises and State Capitalism in China,” October 26, 2011. US-China Economic and Security Review Commission (USCC), pp. 21-22 at http://origin.www.uscc.gov/sites/default/files/Research/10_26_11_CapitalTradeSOEStudy.pdf.On state control of the banking sector, see Carl E. Walter and Fraser J.T. Howie, Red Capitalism: The Fragile Foundations of China’s Extraordinary Rise (Singapore: Wiley & Sons, 2012), pp. 31-33 and passim. Also: Henry Sanderson and Michael Forsythe, China’s Superbank (Singapore: Wiley & Sons, 2013). Barry Naughton, The Chinese Economy: Transitions and Growth (Cambridge: MIT 2007), pp. 190, 299-304, 325.

56. Thus with respect to the banking sector, Szamosszegi and Cole write that: “The state banking sector dominates the landscape in China and tends to favor SOEs at the expense of private sector firms. Second, SOEs are in general an important instrument of government policy. The government uses SOEs to facilitate structural change in the Chinese economy, to acquire technology from foreign firms, and to secure raw material sources from beyond China’s borders. For example, in 2009, the government turned to its SOEs and state‐owned banks to provide stimulus to the domestic economy. Third, the CCP and SASAC maintain important influence over the executives of SOEs. These executives face two sets of incentives. On the one hand, the entities they control are supposed to be profitable, and SOE executives are now rewarded based on financial performance. On the other hand, the appointments of top executives to SOE management and their future career paths upon leaving the SOE are determined by the Central Organization Department of the CCP. Thus, SOE executives have an incentive to follow the government’s policy guidance. Recent examples, as well as financial disclosure documents, indicate that if maximizing shareholder value conflicts with state goals, SOEs and their wholly owned subsidiaries are likely to pursue the goals of the state.” “An Analysis of State-owned Enterprises” op.cit. p. 3.

57. McGregor, No Ancient Wisdom, p. 59.

58. Walter and Howie, Red Capitalism, p. 24, 187.

59. Ben Blanchard, “Chinese billionaire mining tycoon Liu Han is executed over his links to a ‘mafia-style’ gang,” Sydney Morning Herald, 9 February 2015. Most accounts say that his real crime was his link to the Zhou Yongkang clique.

60. Becker, City of Heavenly Tranquility, pp. 287-289.

61. Sydney University’s Kerry Brown says the number of “high-level cadres” (gaoji ganbu) who run the ministries, the state conglomerates and the administration, all concentrated in Beijing, total no more than 2,562, which means, he says, that China is effectively “run by group of people that is smaller than most villages in Europe.” The New Emperors: Power and the Princelings in China, New York 2014, pp. 20-21.

62. Richard McGregor, The Party, New York 2010. Carl E. Walter and Fraser J.T. Howie, Red Capitalism, Singapore 2012, pp. 22-25 and passim.

63. Eg. Shi Jiangtao, “Struggle for supremacy by party factions now on display,” South China Morning Post, 13 October 2012. Matthew Robertson, “China’s ‘hatchet man’ set to be purged in party struggle,” Epoch Times, 30 May-3 June 2014 (reporting a rumored threat to Xi Jinping’s life by the Bo Xilai faction). Teddy Ng, “Rising star Li Yuanchao forges ties with all political factions in China, South China Morning Post,1 October 2012.

64. Quoted in Bloomberg News, “Xi Jinping millionaire relations reveal fortunes of elite,” 29 June 2012.

65. Quoted in David Barboza, “The Corruptibles,” The New York Times, 3 September 2009. See also again, Robertson, “China’s ‘Hatchet Man’ set to be purged … ” in op cit.

66. Outgoing Premier Wen Jiabao, incoming Premier Xi Jinping, and other wealthy princelings were profiled in Bloomberg News and The New York Times, in 2012 and 2013 – which got both papers shut down in China and their reporters denied visa renewals in 2013. See “Heirs of Mao’s comrades rise as new capitalist nobility” and links to related stories in Bloomberg News, 26 December 2012 at http://www.bloomberg.com/news/2012-12-26/immortals-beget-china-capitalism-from-citic-to-godfather-of-golf.html. Also again Richard McGregor, The Party and Kerry Brown, The New Emperors.

67. David Barboza, “Billions in hidden riches for family of Chinese leader,” The New York Times, 25 October, 2012.

68.Zhongguode xianjing (China’s Pitfalls) (Hong Kong: Mingjing chubanshe, 1997)

69. “Heirs of Mao’s comrades rise as new capitalist nobility,” op cit. p. 11.

70. Ex-Premier Zhu Rongji, quoted in Richard McGregor, The Party, p. 45.

71. Quoted in Walter and Howie, Red Capitalism, p. 23. In October 2014, one high-level cadre in the energy ministry caught up in Xi Jinping’s anticorruption sweep, had stashed away 200 million yuan (HK$252 million) in banknotes in one of his apartments. The pile of banknotes weighed more than 2.3 tons.

72. Quoted in Richard McGregor, The Party, pp. 140-41.

73. “Heirs of Mao’s comrades rise as new capitalist nobility,” Bloomberg News, 26 December 2012 p. 3 at
http://www.bloomberg.com/news/2012-12-26/immortals-beget-china-capitalism-from-citic-to-godfather-of-golf.html. Further citations below are from articles in this collection.

74. Yang Dali and Dai Qing were quoted in Bloomberg News, “Heirs” op cit. pp. 5,6 and 10.

75.Bloomberg News, “Heirs,” pp. 1,5.

76. Chinese fly cash to North America, by the suitcase,” The Wall Street Journal, 2 January 2013. Shen Ming, “Chinese military officers secretly moving money offshore,” Epoch Times, 28 June 2012. Benjamin Robertson, “US1.25 trillion moved out of mainland China illegally in 10 years, says report,” South China Morning Press, 16 December 2014.

77. James Ball and Guardian US Interactive Team, “China’s princelings storing riches in Caribbean offshore haven,” The Guardian, 21 January 2014, reporting on the findings of a two-year reporting effort by the International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ). Bloomberg News, “Heirs” p. 6.

78. “China murder suspect’s sisters ran $126 million empire,” Bloomberg News, 13 April 2012.

79. On SOE restructuring and growth of the planned economy, see Peter Nolan, Transforming China: Globalization, Transition and Development, London 2004, chapter 5.

80. James T. Areddy and Laurie Burkitt, “Shake-up at China firm shows reach of graft crackdown,” The Wall Street Journal, 23 April 2014.

81. So for example, with respect to China’s investment in mines in Zambia, Professor Ching Kwan Lee quotes a Chinese mining executive who says “We don’t need to maximize profit, but we need to make some profit. The state won’t support us if we make losses year after year.” Lee adds, “between profit optimization and profit maximization lies the space for achieving other types of return – political influence and access to raw materials.”  “The spectre of global China,” New Left Review 2/89, September-October 2014, p. 36.

82. Thus James McGregor writes: “Despite their chronically imprudent lending habits, SOE banks are kept afloat – and reap huge profits to boot – through government-set interest rates. With a ceiling on the interest rates for deposits and a floor on lending rates, China’s banks have enjoyed a comfortable spread of about three percentage points, which guarantees profits.” No Ancient Wisdom, p. 65.

83. Long Youngtu, China’s chief negotiator at the WTO, quoted in James McGregor, No Ancient Wisdom, p. 5 (my italics).

84. Liu Jianqiang, “China’s environment ministry an “utter disappointment,” China Dialogue, March 7, 2013 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/5788-China-s-environment-ministry-an-utter-disappointment-.  Tang Hao, “China’s food scares show the system is bust,” China Dialogue, 31 August 2012, at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/5142-China-s-food-scares-show-the-system-is-bust.

85. See Brian Tilt, The Struggle for Sustainability in Rural China, New York 2010, chapter 6. Han Wei, “Officials failing to stop textile factories dumping waste in Qiantang River,” China Dialogue, 1 August 2013 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/5589-Officials-failing-to-stop-textile-factories-dumping-waste-in-Qiantang-River.

86. Liu Qin, “China’s environment ministry launches anti-graft reforms,” China Dialogue, 11 March, 2015.

87. John McGarrity, “One year on after “war” declared on pollution, Beijing air scarcely improves,” China Dialogue, 2 February 2015. https://www.chinadialogue.net/blog/7695-One-year-on-after-war-declared-on-pollution-Beijing-air-scarcely-improves/en. Xu Nan, “China’s noxious air ‘as deadly as smoking: study,” China Dialogue, 4 February 2015 at https://www.chinadialogue.net/blog/7697-China-s-noxious-air-as-deadly-as-smoking-study/en.

88. Lu Hongqiao, “China set to miss safe rural drinking water targets,” China Dialogue, March 5, 2015 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/7762-China-set-to-miss-safe-rural-drinking-water-targets. Huang Hao, “Village water supplies in China hit by scarcity and contamination,” China Dialogue, March 5, 2014 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/7209-Village-water-supplies-in-China-hit-by-scarcity-and-contamination. Abigail Barnes, “China’s bottled water: the next health crisis? China Dialogue, July 22, 2014 at https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/7152-China-s-bottled-water-the-next-health-crisis-.

89. Judith Shapiro writes that “There are competing and conflicting emphases on growth, government legitimacy, clean development, and stability, creating a confusing policy-making landscape in which actors sometimes work at cross purposes or with uncertain lines of responsibility … Economic realities and concerns about unemployment and social unrest often push the government away from environmentally friendly action. The Ministry of Environmental Protection is hardly in a position to close the enormous state-run iron and steel plants in the great north-eastern rust belt, where unemployment is exceedingly high and shutdowns would mean even more job losses.” Shapiro, China’s Environmental Challenges, Cambridge UK 2012, pp. 69-70.

90.China Airborne, p. 99.

91. China’s Communist Party currently counts around more than 85 million members. Last year, the government reported that more than 71,000 cadres were “investigated for violating Party regulations.” Of these only 23,000 “received Party or administrative penalities,” mostly censures, and comparatively few were actually sent to prison or are executed. Pretty good odds. “Disciplinary watchdogs seek to fight factionalism within the Party,” People’s Daily, 12 January 2015 at http://en.people.cn/n/2015/0112/c90785-8834538.html.

92. Barmé is quoted in Andrew Jacobs, “In China’s antigraft campaign, small victories and bigger doubts,” The New York Times, 16 January 2015.

93. Michael Forsythe, “As China’s leader fights graft, his relatives shed assets,” The New York Times, 17 June 2014.

94. “China’s selective crackdown,” 17 January 2015.

95. Alice Yan, “Don’t go back on your old ways when our backs are turned, CCDI warns cadres,” South China Morning Post, 5 November 2014.

96. Andrea Chen, “Some cadres shrugging off anticorruption campaign, graft-buster warns,” South China Morning Post, 25 October 2014.

97. Jane Perlez, “Corruption in military poses a test for China,” The New York Times, 14 November 2012.

98. On this see my “Capitalism and the destruction of life on earth: six theses on saving the humans” Real-world Economics Review, July 2013 at http://www.paecon.net/PAEReview/issue64/Smith64.pdf and my “Climate crisis, the deindustrialization imperative, and the jobs vs. environment dilemma” in Truthout, 17 November, 2014 at http://www.truth-out.org/news/item/27226-climate-crisis-the-deindustrialization-imperative-and-the-jobs-vs-environment-dilemma.

99. IPCC, Climate Change 2014: IPCC Fifth Assessment Synthesis Report (November 2014) at http://www.ipcc.ch/report/ar5/syr/. James Hansen, Storms of My Grandchildren, New York 2009.

100. Ecofys, WWF Report 2015, It’s Time to peak: why China’s corporate sector needs to set ambitious greenhouse gas reduction targets,” (WWF, February 2015) p. 11 at http://www.ecofys.com/files/files/wwf-ecofys-2015-it-is-time-to-peak.pdf.

101. Eg. Chrystia Freeland, “The triumph of the family farm,” The Atlantic, 13 June 2012. Also: “Rebuilding America’s Economy with Family Farm-centered food systems,” n.a., Farm Aid, 2013 at http://www.farmaid.org/makethecase. Alan Bjerga, “Organic lets family farms prosper in industrial-agriculture era,” Bloomberg News, 28 June 2012 at http://www.bloomberg.com/news/2012-06-28/organic-lets-family-farms-prosper-in-industrial-agriculture-era.html.

102. Eg. He Guangwei, “China faces long battle to clean up its polluted soil,” He Guangwei, “The victims of China’s soil pollution crisis, Chu Han, “The human cost of living in the ‘mercury capital’ of China [Guizhou province],” Angel Hu and Andrew Moffet, “China’s soil pollution crisis still buried in mystery,” all in Pollution and Health in China: Confronting the Human Crisis, special issue of China Dialogue, September 9, 2014 (in Chinese with some English summaries) at https://s3.amazonaws.com/cd.live/uploads/content/file_en/7289/chinadialogue_health_journal.pdf.

103. “Almost half of wealthy Chinese want to leave, study shows,” The Wall Street Journal, 5 September 2014. Benjamin Carlson, “As war on corruption mounts, China’s rich flee to America, Global Post, 9 February 2014. John Kennedy, “China has at least 1.18 million ready-to-flee ‘naked officials,’ anticorruption rant reveals,” South China Morning Post, 27 February 27, 2013 at  http://www.scmp.com/comment/blogs/article/1159628/china-has-least-118-million-ready-flee-naked-officials-anti-corruption.

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Sentença confirma: usina no Tapajós só pode ser licenciada após consulta aos povos afetados (Ministério Público Federal no Pará )

JC 5198, 17 de junho de 2015

A consulta foi considerada obrigatória em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Sentença registrada na segunda-feira (15) confirma consulta nos moldes da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho

A Justiça Federal de Itaituba confirmou em sentença que o governo federal está proibido de licenciar a usina São Luiz do Tapajós sem antes realizar a consulta prévia, livre e informada conforme prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que tem força de lei no Brasil. A sentença, do juiz Ilan Presser, confirma decisões anteriores no mesmo processo, inclusive uma suspensão de segurança do Superior Tribunal de Justiça. Todas determinam que a consulta seja realizada, tanto com povos indígenas quanto com ribeirinhos, antes da emissão de qualquer licença ao empreendimento.
“Não se pode ignorar a assertiva de que a vontade da Convenção 169 da OIT, e do artigo 231 da Constituição é de, a partir do exercício do direito de consulta, seja permitida a preservação e fomento do multiculturalismo; e não a produção de um assimilacionismo e integracionismo, de matriz colonialista, impostos pela vontade da cultura dominante em detrimento dos modos de criar, fazer e viver dos povos indígenas, que corre o grave risco de culminar em um etnocídio”, diz a sentença judicial.

Para a Justiça, já está havendo violação do direito de consulta por parte do estado brasileiro. “Em todo o procedimento de licenciamento ainda não foi observado materialmente o direito de consulta prévia. Ou seja, da leitura dos autos verifica-se que os réus estão suprimindo direitos de minorias, materializados na consulta. Ou, na melhor das hipóteses, estão invertendo, indevidamente, as fases do licenciamento.”

A decisão cita jurisprudência nacional e internacional sobre o direito à consulta e alerta para o risco do Brasil ser condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos, como já ocorreu com Suriname, Paraguai e Equador, por permitirem a instalação de empreendimentos para extração de recursos em terras de populações tradicionais sem a devida consulta prévia.

Durante o processo judicial foram feitas manifestações pelos réus – Eletrobrás, Eletronorte, Aneel e Ibama – que indicam, de acordo com a sentença judicial, falta de conhecimento sobre as comunidades indígenas e tradicionais que habitam a região e serão afetadas pelos empreendimentos. Em suas manifestações, os entes do governo brasileiro tentam sustentar a tese de que não há impacto sobre populações indígenas e tradicionais porque não há terras indígenas demarcadas na área de impacto direto do empreendimento.

“Não se verifica adequada e razoável a alegação de que não existe influência do empreendimento em áreas demarcadas, até porque, como visto acima, existe indicativo de que as terras indígenas Andirá-Marau, Praia do Mangue, Praia do Índio e Pimental, KM 43 e São Luiz do Tapajós serão afetadas, algumas das quais já demarcadas, como a Praia do Índio e Praia do Mangue”, refuta o juiz federal na sentença.

A sentença menciona a situação da terra indígena Sawré Muybu, dos índios Munduruku, que teria parte significativa de seu território alagada pela usina e é objeto de outro processo judicial, em que o governo tenta protelar a demarcação – já em fase avançada – com o objetivo não declarado de facilitar o licenciamento da usina. Os argumentos do governo nos dois processos são complementares e auto-explicativos. No processo sobre a terra indígena, a Fundação Nacional do Índio alega que não há prioridade na demarcação. No processo sobre a usina que vai afetar a terra indígena, é a vez da Eletrobrás e da Aneel alegarem que sem demarcação, não cabe consulta prévia.

“Não resta outra conclusão possível senão a de que é irresponsável e inconstitucional se fazer vistas grossas a um possível e grave fato consumado de destruição sociocultural. Assim como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a cachorra Baleia sonhava, de forma inatingível, com seus preás, não se pode permitir que os povos indígenas, futuramente, ao recordar de seu passado, sonhem com um presente que já lhes seja impossível desfrutar. Não se podem relegar aos livros de História os elementos socioculturais de grupos só porque possuem modos de criar, fazer e viver diversos da cultura prevalente”, conclui a sentença.

Avaliações ambientais

O Ministério Público Federal, autor da ação sobre a consulta dos povos afetados pela usina São Luiz do Tapajós, também solicitou à Justiça que obrigasse estudos mais amplos sobre os impactos, levando-se em consideração que, apesar do licenciamento ser feito para cada empreendimento, o projeto do governo é para pelo menos cinco barragens no rio Tapajós e os impactos conjuntos ou sinérgicos sobre a bacia hidrográfica deveriam ser melhor avaliados.

Para isso, o MPF pediu a obrigação de fazer dois estudos – Avaliação Ambiental Integrada e Avaliação Ambiental Estratégica, ambos previstos na legislação ambiental brasileira. A sentença obriga o país a realizar um deles e não reconhece a necessidade do segundo. No processo, o governo tentou se esquivar da necessidade das avaliações apresentando o conceito de usina-plataforma, que supostamente seria aplicado no Tapajós.

Na sentença, o juiz considera que falta comprovação suficiente da eficácia desse modelo e que a Avaliação Ambiental Integrada é tanto mais necessária pelo fato das usinas do Tapajós afetarem um mosaico de áreas especialmente protegidas onde se localizam terras indígenas, de comunidades tradicionais e unidades de conservação, seja de uso integral, seja de uso sustentável.

Processo nº 0003883-98.2012.4.01.3902 – Vara Única de Itaituba

Íntegra da Sentença

(Assessoria de Comunicação – Ministério Público Federal no Pará )

Ask A Mind: Is Studying Witchcraft `Useful’ for Development? (Savage Minds)

June 7, 2015
By Maia

Can anthropologists combine research on witchcraft with research on development? Why are some topics considered more relevant to understanding development issues than others? This post is a response to a question from a reader considering doing a research project in anthropology. It provides an overview of some recent work on witchcraft by anthropologists mostly working in Africa.

This reader’s question raises several issues- about development, about witchcraft and about defining a research problem.   Responding to it provides an opportunity to practice demand driven anthropology- an underutilized potential of the blog format. As an anthropologist who works on development institutions, and on witchcraft in East Africa, this is my take on it.

Ideas about witches and violence directed against those who are thought to practice witchcraft , including women and children, remain socially significant in many countries in the world.  The negative social impacts of witchcraft make it a development issue in relation to human rights violations and its contribution to social exclusion. Moreover, representations of witchcraft in popular culture consistently situate what witches are alleged to do in direct contradiction of aspirations to achieve personal and national development.

Our reader asks whether the study of witchcraft is distinct from the kinds of research which would be relevant to development, and whether witchcraft and development are distinct domains of social practice which demand different sorts of analysis.   Should she aim to study witchcraft in the hope that it may have something to say about development or is there, as one professor working in development told her, `more useful work to be done around behavior change and water, sanitation and health than witchcraft’?

These questions are partly influenced by our reader’s current situation within development practice (she works in an NGO), hence the professor’s concern for prioritizing the understanding of behavior change that could prove useful for designing more effective interventions. But they are also informed by the ways that witchcraft has been addressed within contemporary anthropology as a field of symbolic practice.   The well known work of Jean and John Comaroff, for example, interprets witchcraft beliefs at least partially as a vehicle through which experiences of peripheralization, including global social relations, can be symbolically articulated (1999).

If witchcraft enables the articulation of an `occult economy’   it is at the same time materially grounded with effects in the real world (Moore & Sanders 2001). Witchcraft as a social institution frequently operates as a means through which human relations are restructured sustained by expanding economies of the occult comprising healers, unwitchers and diviners. It is often accompanied by violence.

The social inseparability of these two dimensions of witchcraft is the focus of ongoing ethnographic work by Isak Niehaus and Adam Ashforth. Both Niehaus and Ashforth have spent many years researching the everyday politics of witchcraft in South Africa. In the years immediately after the   ANC victory, witchcraft accusations, murder and expulsions were widespread in rural areas and townships as deadly weapons in local conflicts centered on political allegiance and access to resources.

Violent practices justified by witchcraft were an important part of the local political system, supported by vested interests. Accusations of witchcraft were invoked to escalate disputes with serious social consequences (Niehaus 1993Ashforth 2005). Those affected by witchcraft include those who believe they are bewitched and those who find themselves accused of witchcraft . The personal experiences of the affected in South Africa are sensitively examined by both authors (Niehaus 2012Ashforth 2000). A new book by James Howard Smith  and Ngeti Mwadime explores related issues in Kenya (2014).

Certain social categories can find themselves liable to accusation and the violence or expulsion which follow.   Attacks on older women accused of witchcraft in Western Tanzania have attracted international media attention since the 1990s (Mesaki 2009). More recently in Tanzania people with albinism, particularly children, have been at risk of murder by practitioners of witchcraft who seek to use their body parts to make powerful medicines (Bryceson et al 2010).

It is evident from these examples that practices related to witchcraft are strongly rooted in the ideas that people hold about witches and their powers. The tenacity of these ideas is not simply explained by what ideas about witches mean. It is equally a product of what Mary Douglas called `entrenchment’ (1991: 726) ; that is the actions people take which sustain ideas about witchcraft and the practices through which it is realized institutionally. In Western Tanzania, as in South Africa (Ashforth 2005 ), diviners play a crucial role in diagnosing witchcraft as the cause of personal misfortune and in identifying alleged witches, responding to demand to resolve personal and political differences through severing relations (e.g. Green 2009).

While what is categorized as the `traditional’ healing sector promoted through the political valorization of African medicine provides support for the institutional foundation for the sustained presence of witchcraft across the continent (Langwick 2011Ashforth 2005) , sub disciplinary boundaries within anthropology have generally worked against the problematization of the institution of witchcraft , both within medical anthropology and in relation to the wider political economy. Consideration of witchcraft primarily in terms of the ontological deflects from the interrogation of   the economics which sustains it and creates lucrative small business opportunities for the countless individuals who set themselves up as herbalists, diviners and healers.

Anthropological uncertainty about the situation of witchcraft feeds into ways in which various state authorities, colonial and post colonial, have approached it and inadvertently promoted it. If witchcraft is understood as essentially a matter of culture and belief it can potentially be attacked through education and political campaigns, while legal sanctions are directed against those who practice witchcraft and against those seeking to make them knowable.

It is clear from recent media reports in a number of countries that neither approach is working. Evangelical Christian churches proliferating on the continent readily assume responsibility for addressing perceived witchcraft threats within and beyond their congregations (Meyer 2004Hasu 2012). Social media fuels the extension of transnational economies founded on the occult, dispersing witchcraft through the diaspora while offering a means for those afflicted to address it.

If the transnational appeal of healers and preachers such as the hugely popular TB Joshua in Nigeria are testament to the enduring salience of notions about witchcraft, they are also indicators of the consistent imbrication of witchcraft with innovation and social transformation. Witchcraft is not , despite systematic condemnation by the governments seeking to prohibit it, a traditional and static social institution. It is a continually evolving assemblage.

The institution of witchcraft, wherever it occurs, is not only wholly implicated in modernity (Geschiere 1997). Those engaged with witchcraft either as purchasers of its powers, such as the miners of Western Tanzania, or the diviners offering protection from it consistently seek to adapt the ways in which they do so; through new forms of protective practice, changes in how clients seeking protection are dealt with or the contexts in which certain medicines come to be viewed as efficacious (e.g Green & Mesaki 2005Englund 2007). It is not witchcraft in the abstract but the practice of it which in many settings is perceived to be antithetical to modernization and moving forwards. Personal ambition may be thwarted by witches whose jealousy prevents a person from getting ahead. Witchcraft as is therefore consistently viewed by those affected by it as getting in the way of development (Smith 2008).

Governments tend to claim that witchcraft related practices and ideas are backward and anti- development, a political position certainly, but one which borrows its legitimation from certain kinds of anthropology. In constituting witchcraft as a matter of culture anthropologists and African states fail to acknowledge the ways in which it comes to be institutionally entrenched in various settings.   The study of witchcraft is inherently entangled with development as ideology and in terms of the interventions at social reform undertaken by successive African governments.

The study of witchcraft , in Africa and elsewhere, demands some kind of engagement with the politics of development in various institutional forms. It is also important. However much we contribute to understanding witchcraft, however meaningful it may be, witchcraft as an institution amounts to symbolic, structural and actual violence. It causes significant social harm. If anthropologists can help unpick its institutional tenacity we will have made a useful contribution.

References Cited

Ashforth, Adam. Madumo, a man bewitched. University of Chicago Press, 2000.

Ashforth, Adam. Witchcraft, violence, and democracy in South Africa. University of Chicago Press, 2005.

Bryceson, Deborah Fahy, Jesper Bosse Jønsson, and Richard Sherrington. “Miners’ magic: artisanal mining, the albino fetish and murder in Tanzania.” The Journal of Modern African Studies 48, no. 03, (2010): 353-382.

Comaroff, Jean, and John L. Comaroff. “Occult economies and the violence of abstraction: notes from the South African postcolony.” American ethnologist 26, no. 2 (1999): 279-303.

Douglas, Mary. “Witchcraft and leprosy: two strategies of exclusion.” Man (1991): 723-736.

Englund, Harri. “Witchcraft and the limits of mass mediation in Malawi.” Journal of the Royal Anthropological Institute 13, no. 2 (2007): 295-311.

Geschiere, Peter The Modernity of Witchcraft: politics and the occult in postcolonial Africa. University of Virginia Press, 1997.

Green, Maia, and Simeon Mesaki. “The birth of the “salon”: Poverty,“modernization,” and dealing with witchcraft in southern Tanzania.” American Ethnologist 32, no. 3 (2005): 371-388.

Green, Maia. “The social distribution of sanctioned harm.” Addison et al, Poverty Dynamics (2009): 309-327.

Hasu, Päivi. “Prosperity gospels and enchanted world views: Two responses to socio-economic transformation in Tanzanian Pentecostal Christianity.” Pentecostalism and Development: Churches, NGOs and Social Change in Africa 1 (2012): 67.

Langwick, Stacey Ann. Bodies, politics, and African healing: The matter of maladies in Tanzania. Indiana University Press, 2011.

Mesaki, Simeon. “The tragedy of ageing: Witch killings and poor governance among the Sukuma.” Dealing with Uncertainty in Contemporary African Lives. Stockholm: Nordiska Afrikainstitutet (2009): 72-90.

Meyer, Birgit. “Christianity in Africa: From African independent to Pentecostal-charismatic churches.” Annual Review of Anthropology (2004): 447-474.

Moore, Henrietta L., and Todd Sanders. “Magical interpretations and material realities.” Magical interpretations, material realities: modernity, witchcraft and the occult in postcolonial Africa (2001): 552-566.

Niehaus, Isak A. “Witch-hunting and political legitimacy: continuity and change in Green Valley, Lebowa, 1930–91.” Africa 63, no. 04 (1993): 498-530.

Niehaus, Isak. Witchcraft and a life in the new South Africa. Vol. 43. Cambridge University Press, 2012.

Smith, James H., and Ngeti Mwadime. Email from Ngeti: An Ethnography of Sorcery, Redemption, and Friendship in Global Africa. Univ of California Press, 2014.

Smith, James Howard. Bewitching development: witchcraft and the reinvention of development in neoliberal Kenya. University of Chicago Press, 2008.

When aid brings conflict, not relief (Science Daily)

[If economists and agronomists read sociological and anthropological assessments of development programs, this would not be a novelty to them]

Date: January 28, 2015

Source: University of Illinois College of Agricultural, Consumer and Environmental Sciences (ACES)

Summary: Although you might expect that providing aid to impoverished villages in the Philippines could only bring them relief, a study found that the villages that qualified for some forms of aid actually saw an increase in violent conflict.


Although you might expect that providing aid to impoverished villages in the Philippines could only bring them relief, a University of Illinois study found that the villages that qualified for some forms of aid actually saw an increase in violent conflict.

“Interestingly, those municipalities that were eligible to receive aid but didn’t accept it saw the largest increase in violence,” said U of I economist Ben Crost. “During what’s called the social preparation phase, it becomes known that the village is eligible for aid. Insurgent forces from the communist New People’s Army or a Muslim separatist group attack and then the village drops out of the program because they are intimidated. That’s why the places that didn’t participate saw the most violence.”

Between 2003 and 2008, more than 4,000 villages received aid through a flagship community-driven development program in the Philippines. The program used an arbitrary threshold of 25 percent to determine the poverty level at which communities qualified to receive aid.

“Only the 25 percent of the poorest municipalities qualified to receive aid,” Crost explained. “Those above the threshold are barely too rich to get it, and the others are just poor enough to get it. That means that these places should be comparable in all respects with the one exception that these slightly poorer places were much more likely to receive aid than the slightly richer places. So they were almost the same in poverty levels and in background levels of violence.” The same, until they became eligible for aid, that is.

“The way they targeted it with this arbitrary 25 percent cutoff allowed us to compare places that were just below the cutoff to places that were just above it,” Crost said.

Aid data from the World Bank were analyzed with data on conflict in the Philippines that was provided by his co-author from Stanford University, Joe Felter.

Ironically, projects anticipated to be most appreciated by the people receiving them may place them at a higher risk of being attacked. “We think that one mechanism that explains our results is that the insurgents actually tried to derail the project,” Crost said. “They didn’t want it to succeed. The insurgents had an incentive to strike and try to sabotage the program before it ever took off because its success would weaken their support in the population. We know that some of the municipalities actually dropped out of the program for this reason — because they were worried about insurgent attacks.”

Crost’s recent research is looking for ways to provide aid to those who need it that doesn’t also make them visible targets that are easy to attack. He said that because of the very public participation component in the community-driven development program, it was easier to derail.

“The aid in this case was given for improvements in infrastructure,” Crost said. “We need to find a more hidden way to give aid. One program we’re looking at now is conditional cash transfers, in which poor families get money if they do things like send their kids to school or have them vaccinated. These programs are popular in many developing countries. We have found some suggestive evidence that this kind of aid led to a decrease in violence — or at least we don’t find any evidence that it leads to an increase like we saw in this study.”

Crost said that, unfortunately, most of the evidence that has come out since this paper was published points in the same direction. “There’s evidence on U.S. food aid and on the national rural employment guarantee scheme in India, which is a huge anti-poverty program. Both of these studies found the same effect — that conflict increases in the places that get aid.”

“Aid Under Fire: Development Projects and Civil Conflict” was published in a recent issue of American Economic Review and written by Benjamin Crost, Joseph Felter, and Patrick Johnston.


Journal Reference:

  1. Benjamin Crost, Joseph Felter, Patrick Johnston. Aid Under Fire: Development Projects and Civil Conflict†American Economic Review, 2014; 104 (6): 1833 DOI: 10.1257/aer.104.6.1833

Oxfam: Em 2016, 1% mais ricos terão mais dinheiro que o resto do mundo (Carta Capital)

19/1/2015 – 09h33

por Redação da Carta Capital

pobreza Oxfam: Em 2016, 1% mais ricos terão mais dinheiro que o resto do mundo

A redução da pobreza é um dos eixos da agenda de desenvolvimento pós-2015. Crianças na favela de Kallayanpur, uma das favelas urbanas em Daca, Bangladesh. Foto: ONU/Kibae Park 

ONG britânica divulga dados sobre a desigualdade social no mundo para tentar guiar as discussões do Fórum Econômico Mundial

Um estudo divulgado nesta segunda-feira 19 pela ONG britânica Oxfam afirma que, em 2016, as 37 milhões de pessoas que compõem o 1% mais rico da população mundial terão mais dinheiro do que os outros 99% juntos. O relatório tem o objetivo de influenciar as discussões a serem travadas no Fórum Econômico Mundial (FEM), que reúne os ricos e poderosos no resort suíço de Davos entre 21 e 24 de janeiro.

O estudo da Oxfam é baseado no relatório anual sobre a riqueza mundial que o banco Credit Suisse divulga anualmente desde 2010. Na versão mais recente, divulgada em outubro 2014, o Credit Suisse mostrou que o 1% mais rico (com bens de 800 mil dólares no mínimo) detinha 48,2% da riqueza mundial, enquanto os outros 99% ficavam com os 51,8%. No grupo dos 99%, também há uma significativa desigualdade: quase toda a riqueza está nas mãos dos 20% mais ricos, enquanto as outras pessoas dividem 5,5% do patrimônio.

No estudo divulgado nesta segunda, a Oxfam extrapolou os dados para o futuro e indica que em 2016 o 1% mais rico terá mais de 50% dos bens e patrimônios existentes no mundo. “Nós realmente queremos viver em um mundo no qual o 1% tem mais do que nós todos juntos?”, questionou Winnie Byanyima, diretora-executiva da Oxfam e co-presidente do Fórum Econômico Mundial. Em artigo publicado no site do FEM, Byanyima afirma que o fórum tem em 2015 o duplo desafio de conciliar a desigualdade social e as mudanças climáticas. “Tanto nos países ricos quanto nos pobres, essa desigualdade alimenta o conflito, corroendo as democracias e prejudicando o próprio crescimento”, afirma Byanyima.

A diretora da Oxfam lembra que há algum tempo os que se preocupavam com a desigualdade eram acusados de ter “inveja”, mas que apenas em 2014 algumas personalidades como o papa Francisco, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, manifestaram preocupação com a desigualdade social. “O crescente consenso: se não controlada, a desigualdade econômica vai fazer regredir a luta contra a pobreza e ameaçará a estabilidade global”, afirma.

A Oxfam mostra que a riqueza do 1% é derivada de atividades em poucos setores, sendo os de finanças e seguros os principais e os de serviços médicos e indústria farmacêutica dois com grande crescimento em 2013 e 2014. A Oxfam lembra que as companhias mais ricas do mundo usam seu dinheiro, entre outras coisas, para influenciar os governos por meio de lobbies, favorecendo seus setores. No caso particular dos Estados Unidos, que concentra junto com a Europa a maior parte dos integrantes do 1% mais rico, o lobby é particularmente prolífico, afirma a Oxfam, para mexer no orçamento e nos impostos do país, destinando a poucos recursos que “deveriam ser direcionados em benefícios de toda a população”.

Para a Oxfam, a desigualdade social não deve ser tratada como algo inevitável. A ONG lista uma série de medidas para colocar a diferença entre ricos e pobres sob controle, como fazer os governos trabalharem para seus cidadãos e terem a redução da desigualdade como objetivo; a promoção dos direitos e a igualdade econômica das mulheres; o pagamento de salários mínimos e a contenção dos salários de executivos; e o objetivo de o mundo todo ter serviços gratuitos de saúde e educação.

* Publicado originalmente no site Carta Capital.

Eliane Brum: “Belo Monte: a anatomia de um etnocídio” (El País)

A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

 1 DIC 2014 – 10:40 BRST

Quando alguém passa num concurso do Ministério Público Federal, costuma estrear no que se considera os piores postos, aqueles para onde os procuradores em geral não levam a família e saem na primeira oportunidade. Um destes que são descritos como um “inferno na Terra” nos corredores da instituição é Altamira, no Pará, uma coleção de conflitos amazônicos à beira do monumental rio Xingu. Em 2012, Thais Santi – nascida em São Bernardo do Campo e criada em Curitiba, com breve passagem por Brasília nos primeiros anos de vida – foi despachada para Altamira. Ao ver o nome da cidade, ela sorriu. Estava tão encantada com a possibilidade de atuar na região que, no meio do curso de formação, pegou um avião e foi garantir apartamento, já que as obras da hidrelétrica de Belo Monte tinham inflacionado o mercado e sumido com as poucas opções existentes. Thais iniciava ali a sua inscrição na tradição dos grandes procuradores da República que atuaram na Amazônia e fizeram História.

Ela já teve a oportunidade de deixar Altamira três vezes, a primeira antes mesmo de chegar lá. Recusou todas. Junto com outros procuradores do MPF, Thais Santi está escrevendo a narrativa de Belo Monte. Ou melhor: a narrativa de como a mais controversa obra do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento dos governos Lula-Dilma, um empreendimento com custo em torno de R$ 30 bilhões, poderá ser julgada pela História como uma operação em que a Lei foi suspensa. E também como o símbolo da mistura explosiva entre o público e o privado, dada pela confusão sobre o que é o Estado e o que é a Norte Energia S.A., a empresa que ganhou o polêmico leilão da hidrelétrica. Fascinante do ponto de vista teórico, uma catástrofe na concretude da vida humana e de um dos patrimônios estratégicos para o futuro do planeta, a floresta amazônica.

A jovem procuradora, hoje com 36 anos, conta que levou quase um ano para ver e compreender o que viu – e outro ano para saber o que fazer diante da enormidade do que viu e compreendeu. Ela se prepara agora para entrar com uma ação denunciando que Belo Monte, antes mesmo de sua conclusão, já causou o pior: um etnocídio indígena.

Nesta entrevista, Thais Santi revela a anatomia de Belo Monte. Desvelamos o ovo da serpente junto com ela. Ao acompanhar seu olhar e suas descobertas, roçamos as franjas de uma obra que ainda precisa ser desnudada em todo o seu significado, uma operação que talvez seja o símbolo do momento histórico vivido pelo Brasil. Compreendemos também por que a maioria dos brasileiros prefere se omitir do debate sobre a intervenção nos rios da Amazônia, assumindo como natural a destruição da floresta e a morte cultural de povos inteiros, apenas porque são diferentes. O testemunho da procuradora ganha ainda uma outra dimensão no momento em que o atual governo, reeleito para mais um mandato, já viola os direitos indígenas previstos na Constituição para implantar usinas em mais uma bacia hidrográfica da Amazônia, desta vez a do Tapajós.

Thais Santi, que antes de se tornar procuradora da República era professora universitária de filosofia do Direito, descobriu em Belo Monte a expressão concreta, prática, do que estudou na obra da filósofa alemã Hannah Arendt sobre os totalitarismos. O que ela chama de “um mundo em que tudo é possível”. Um mundo aterrorizante em que, à margem da legalidade, Belo Monte vai se tornando um fato consumado. E a morte cultural dos indígenas é naturalizada por parte dos brasileiros como foi o genocídio judeu por parte da sociedade alemã.

A entrevista a seguir foi feita em duas etapas. As primeiras três horas no gabinete da procuradora no prédio do Ministério Público Federal de Altamira. Sua sala é decorada com peças de artesanato trazidas de suas andanças por aldeias indígenas e reservas extrativistas. Na mesa, vários livros sobre a temática de sua atuação: índios e populações tradicionais. Entre eles, autores como os antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha. A sala é cheirosa, porque as funcionárias do MPF costumam tratar Thais com mimos. Carismática, ela costuma produzir esse efeito nas pessoas ao redor. Dias antes da entrevista, participou da comemoração dos 10 anos da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio. Thais dormiu numa rede na porta do posto de saúde que sua ação ajudou a implantar, a alguns metros de onde acontecia um forró que durou a noite inteira. O sono era interrompido ora por casais mais animados em sua ênfase amorosa, ora por um atendimento de emergência no posto de saúde. Impassível, Thais acordou no dia seguinte parecendo tão encantada com todos, como todos com ela. “Noite interessante”, limitou-se a comentar.

A entrevista é interrompida pela chegada afetuosa de uma funcionária trazendo primeiro café e água, depois peras. É bastante notável, nas respostas de Thais, o conhecimento teórico e a consistência de seus argumentos jurídicos. Embora visivelmente apaixonada pelo que faz, em sua atuação ela se destaca por ser conceitualmente rigorosa e cerebral. Mas, na medida em que Thais vai explicando Belo Monte, sua voz vai ganhando um tom indignado. “Como ousam?”, ela às vezes esboça, referindo-se ou à Norte Energia ou ao governo. Como ao contar que, ao votar na última eleição, deparou-se com uma escola com paredes de contêiner, piso de chão batido, as janelas de ferro enferrujado, as pontas para fora, a porta sem pintura, nenhum espaço de recreação e nem sequer uma árvore em plena Amazônia. Uma escola construída para não durar, quando o que deveria ter sido feito era ampliar o acesso à educação na região de impacto da hidrelétrica.

A segunda parte da entrevista, outras três horas, foi feita por Skype. Reservada na sua vida pessoal, quando Thais deixa escapar alguma informação sobre seu cotidiano, suas relações e seus gostos, de imediato pede off. “Não tenho nem Facebook”, justifica-se. Dela me limito a dizer que acorda por volta das 5h30 da manhã, que faz yoga e que todo dia vai admirar o Xingu. Em seu celular, há uma sequência de fotos do rio. Uma a cada dia.

A procuradora Thais Santi, em sua sala no Ministério Público Federal de Altamira, no Pará / LILO CLARETO (DIVULGAÇÃO)

A senhora chegou em Altamira no processo de implantação de Belo Monte. O que encontrou?

Thais Santi – Encontrei aqui a continuação do que eu estudei no meu mestrado a partir da (filósofa alemã) Hannah Arendt. Belo Monte é o caso perfeito para se estudar o mundo em que tudo é possível. A Hannah Arendt lia os estados totalitários. Ela lia o mundo do genocídio judeu. E eu acho que é possível ler Belo Monte da mesma maneira.

O que significa um mundo em que tudo é possível?

Santi – Existem duas compreensões de Belo Monte. De um lado você tem uma opção governamental, uma opção política do governo por construir grandes empreendimentos, enormes, brutais, na Amazônia. Uma opção do governo por usar os rios amazônicos, o recurso mais precioso, aquele que estará escasso no futuro, para produzir energia. Essa opção pode ser questionada pela academia, pela população, pelos movimentos sociais. Mas é uma opção que se sustenta na legitimidade do governo. Podemos discutir longamente sobre se essa legitimidade se constrói a partir do medo, a partir de um falso debate. Quanto a esta escolha, existe um espaço político de discussão. Mas, de qualquer maneira, ela se sustenta na legitimidade. Pelo apoio popular, pelo suposto apoio democrático que esse governo tem, embora tenha sido reeleito com uma diferença muito pequena de votos. Agora, uma vez adotada essa política, feita essa escolha governamental, o respeito à Lei não é mais uma opção do governo. O que aconteceu e está acontecendo em Belo Monte é que, feita a escolha governamental, que já é questionável, o caminho para se implementar essa opção é trilhado pelo governo como se também fosse uma escolha, como se o governo pudesse optar entre respeitar ou não as regras do licenciamento. Isso é brutal.

O Ministério Público Federal já entrou com 22 ações nesse sentido. Por que a Justiça Federal não barra essa sequência de ilegalidades?

O Governo pode escolher fazer Belo Monte, mas não pode escolher desrespeitar a Lei no processo de implantação da hidrelétrica

Santi – Lembro que, quando eu trabalhava com meus alunos, discutíamos que há um conflito entre dois discursos. De um lado, há um discurso fundado na Lei, preso à Lei, e do outro lado o discurso de um Direito mais flexível, mais volátil, em que o operador tem a possibilidade de às vezes não aplicar a Lei. Eu dizia a eles que esses discursos têm de estar equilibrados, nem para o extremo de um legalismo completo, nem para o outro, a ponto de o Direito perder a função, de a Lei perder a função. Hoje, se eu desse aula, Belo Monte é o exemplo perfeito. Perfeito. Eu nunca imaginei que eu viria para o Pará, para Altamira, e encontraria aqui o exemplo perfeito. Por quê? Quando eu peço para o juiz aplicar regra, digo a ele que essa regra sustenta a anuência e a autorização para a obra e que, se a regra não foi cumprida, o empreendimento não tem sustentação jurídica. E o juiz me diz: “Eu não posso interferir nas opções governamentais” ou “Eu não posso interferir nas escolhas políticas”. É isso o que os juízes têm dito. Portanto, ele está falando da Belo Monte da legitimidade e não da Belo Monte que se sustenta na legalidade. Assim, Belo Monte é o extremo de um Direito flexível. É o mundo em que a obra se sustenta nela mesma. Porque a defesa do empreendedor é: o quanto já foi gasto, o tanto de trabalhadores que não podem perder o emprego. Mas, isso tudo não é Direito, isso tudo é Fato. A gente se depara com a realidade de uma obra que caminha, a cada dia com mais força, se autoalimentando. A sustentação de Belo Monte não é jurídica. É no Fato, que a cada dia se consuma mais. O mundo do tudo é possível é um mundo aterrorizante, em que o Direito não põe limite. O mundo do tudo possível é Belo Monte.

O mundo do tudo é possível é um mundo aterrorizante, onde o Direito não põe limites

E como a senhora chegou a essa conclusão?

Santi – Eu levei quase um ano para entender o que estava acontecendo com os indígenas no processo de Belo Monte. Só fui entender quando compreendi o que era o Plano Emergencial de Belo Monte. Eu cheguei em Altamira em julho de 2012 e fui para uma aldeia dos Arara em março, quase abril, de 2013. Eu sabia que lideranças indígenas pegavam a gasolina que ganhavam aqui e vendiam ali, trocavam por bebida, isso eu já sabia. Mas só fui sentir o impacto de Belo Monte numa aldeia que fica a quase 300 quilômetros daqui. Brutal. Só compreendi quando fui até as aldeias, porque isso não se compreende recebendo as lideranças indígenas no gabinete. Eu vi.

O que a senhora viu?

Santi – O Plano Emergencial tinha como objetivo criar programas específicos para cada etnia, para que os indígenas estivessem fortalecidos na relação com Belo Monte. A ideia é que os índios se empoderassem, para não ficar vulneráveis diante do empreendimento. E posso falar com toda a tranquilidade: houve um desvio de recursos nesse Plano Emergencial. Eu vi os índios fazendo fila num balcão da Norte Energia, um balcão imaginário, quando no plano estava dito que eles deveriam permanecer nas aldeias. Comecei a perceber o que estava acontecendo quando fiz essa visita à terra indígena de Cachoeira Seca e conheci os Arara, um grupo de recente contato. E foi um choque. Eu vi a quantidade de lixo que tinha naquela aldeia, eu vi as casas destruídas, com os telhados furados, chovendo dentro. E eles dormiam ali. As índias, na beira do rio, as crianças, as meninas, totalmente vulneráveis diante do pescador que passava. Quando Belo Monte começou, esse povo de recente contato ficou sem chefe do posto. Então, os índios não só se depararam com Belo Monte, como eles estavam sem a Funai dentro da aldeia. De um dia para o outro ficaram sozinhos. Os Arara estavam revoltados, porque eles tinham pedido 60 bolas de futebol, e só tinham recebido uma. Eles tinham pedido colchão boxe para colocar naquelas casas que estavam com telhado furado e eles não conseguiram. Esse grupo de recente contato estava comendo bolachas e tomando refrigerantes, estava com problemas de diabetes e hipertensão. Mas o meu impacto mais brutal foi quando eu estava tentando fazer uma reunião com os Arara, e uma senhora, talvez das mais antigas, me trouxe uma batata-doce para eu comer. Na verdade, era uma mini batata-doce. Parecia um feijão. Eu a peguei, olhei para a menina da Funai, e ela falou: “É só isso que eles têm plantado. Eles não têm nada além disso”. Esse era o grau de atropelo e de desestruturação que aquele plano tinha gerado. Era estarrecedor.

Qual era a cena?

Santi – Era como se fosse um pós-guerra, um holocausto. Os índios não se mexiam. Ficavam parados, esperando, querendo bolacha, pedindo comida, pedindo para construir as casas. Não existia mais medicina tradicional. Eles ficavam pedindo. E eles não conversavam mais entre si, não se reuniam. O único momento em que eles se reuniam era à noite para assistir à novela numa TV de plasma. Então foi brutal. E o lixo na aldeia, a quantidade de lixo era impressionante. Era cabeça de boneca, carrinho de brinquedo jogado, pacote de bolacha, garrafa pet de refrigerante.

A cena na aldeia dos Arara de Cachoeira Seca, índios de recente contato, era a de um pós-guerra, um holocausto, com lixo para todo lado

Isso foi o que eles ganharam da Norte Energia?

Santi – Tudo o que eles tinham recebido do Plano Emergencial.

Era esse o Plano Emergencial, o que deveria fortalecer os indígenas para que pudessem resistir ao impacto de Belo Monte?

Santi – Tudo o que eles tinham recebido do Plano Emergencial. O Plano Emergencial gerou uma dependência absoluta do empreendedor. Absoluta. E o empreendedor se posicionou nesse processo como provedor universal de bens infinitos, o que só seria tolhido se a Funai dissesse não. A Norte Energia criou essa dependência, e isso foi proposital. E se somou à incapacidade da Funai de estar presente, porque o órgão deveria ter sido fortalecido para esse processo e, em vez disso, se enfraqueceu cada vez mais. Os índios desacreditavam da Funai e criavam uma dependência do empreendedor. Virou um assistencialismo.

Como a senhora voltou dessa experiência?

Santi – Eu dizia: “Gente, o que é isso? E o que fazer?”. Eu estava com a perspectiva de ir embora de Altamira, mas me dei conta que, se fosse, o próximo procurador ia demorar mais um ano para entender o que acontecia. Então fiquei.

O Plano Emergencial foi usado para silenciar os indígenas, únicos agentes que ainda tinham voz e visibilidade na resistência à hidrelétrica

E o que a senhora fez?

Santi – Eu não sabia entender o que estava acontecendo. Pedi apoio na 6ª Câmara (do Ministério Público Federal, que atua com povos indígenas e populações tradicionais), e fizemos uma reunião em Brasília. Chamamos os antropólogos que tinham participado do processo de Belo Monte na época de elaboração do EIA (Estudo de Impacto Ambiental), para que pudessem falar sobre como esses índios viviam antes, porque eu só sei como eles vivem hoje. Um antropólogo que trabalha com os Araweté contou como esse grupo via Belo Monte e não teve ninguém sem nó na garganta. Os Araweté receberam muitos barcos, mas muitos mesmo. O Plano Emergencial foi isso. Ganharam um monte de voadeiras (o barco a motor mais rápido da Amazônia), e eles continuavam fazendo canoas. Para os Araweté eles teriam de sobreviver naqueles barcos, esta era a sua visão do fim do mundo. E até agora eles não sabem o que é Belo Monte, ainda acham que vai alagar suas aldeias. A Norte Energia é um provedor de bens que eles não sabem para que serve. Outra antropóloga contou que estava nos Araweté quando o Plano Emergencial chegou. Todas as aldeias mandavam suas listas, pedindo o que elas queriam, e os Araweté não tinham feito isso, porque não havia coisas que eles quisessem. Eles ficavam confusos, porque podiam querer tudo, mas não sabiam o que querer. E aí as coisas começaram a chegar. Houve até um cacique Xikrin que contou para mim como foi. Ligaram para ele de Altamira dizendo: “Pode pedir tudo o que você quiser”. Ele respondeu: “Como assim? Tudo o que me der na telha?”. E a resposta foi: “Tudo”. O cacique contou que pediram tudo, mas não estavam acreditando que iriam receber. De repente, chegou. Ele fazia gestos largos ao contar: “Chegou aquele mooonte de quinquilharias”. Tonéis de refrigerante, açúcar em quantidade. Foi assim que aconteceu. Este era o Plano Emergencial.

E o que aconteceu com os índios depois dessa intervenção?

Santi – As aldeias se fragmentaram. Primeiro, você coloca na mão de uma liderança, que não foi preparada para isso, o poder de dividir recursos com a comunidade. A casa do cacique com uma TV de plasma, as lideranças se deslegitimando perante a comunidade. Ganhava uma voadeira que valia 30, vendia por oito. Fora o mercado negro que se criou em Altamira com as próprias empresas. O índio ficou com dinheiro na mão e trocou por bebida. O alcoolismo, que já era um problema em muitas aldeias, que era algo para se precaver, aumentou muito. Acabou iniciando um conflito de índios com índios, e aumentando o preconceito na cidade entre os não índios. O pescador, para conseguir uma voadeira, precisa trabalhar muito. E a comunidade passou a ver o índio andando de carro zero, de caminhonetes caríssimas, bebendo, houve casos de acidentes de trânsito e atropelamento. Então, como é possível? Acho que nem se a gente se sentasse para fazer exatamente isso conseguiria obter um efeito tão contrário. Os índios se enfraqueceram, se fragmentaram socialmente, a capacidade produtiva deles chegou a zero, os conflitos e o preconceito aumentaram.

Belo Monte é um etnocídio indígena

A senhora acha que essa condução do processo, por parte da Norte Energia, com a omissão do governo, foi proposital?

Santi – Um dos antropólogos da 6ª Câmara tem uma conclusão muito interessante. No contexto de Belo Monte, o Plano Emergencial foi estratégico para silenciar os únicos que tinham voz e visibilidade: os indígenas. Porque houve um processo de silenciamento da sociedade civil. Tenho muito respeito pelos movimentos sociais de Altamira. Eles são uma marca que faz Altamira única e Belo Monte um caso paradigmático. Mas hoje os movimentos sociais não podem nem se aproximar do canteiro de Belo Monte. Há uma ordem judicial para não chegar perto. Naquele momento, os indígenas surgiram como talvez a única voz que ainda tinha condição de ser ouvida e que tinha alguma possibilidade de interferência, já que qualquer não índio receberia ordem de prisão. E o Plano Emergencial foi uma maneira de silenciar essa voz. A cada momento que os indígenas vinham se manifestar contra Belo Monte, com ocupação de canteiro, essa organização era, de maneira muito rápida, desconstituída pela prática de oferecer para as lideranças uma série de benefícios e de bens de consumo. Porque os indígenas têm uma visibilidade que a sociedade civil não consegue ter. Vou dar um exemplo. Houve uma ocupação em que os pescadores ficaram 40 dias no rio, na frente do canteiro, debaixo de chuva, e não tiveram uma resposta. Aquele sofrimento passava despercebido. E de repente os indígenas resolvem apoiar a reivindicação dos pescadores, trazendo as suas demandas também. E, de um dia para o outro, a imprensa apareceu. Os indígenas eram a voz que ainda poderia ser ouvida e foram silenciados.

Com as listas de voadeiras, TV de plasma, bolachas, Coca-Cola?

Santi – No caso das ocupações de canteiro não eram nem as listas. No caso da ocupação que aconteceu em 2012, até hoje eu não entendo qual é o lastro legal que justificou o acordo feito. As lideranças saíram da ocupação e vieram para Altamira, onde negociaram a portas fechadas com a Norte Energia. Cada uma voltou com um carro, com uma caminhonete. E isso também para aldeias que sequer têm acesso por via terrestre. Então eu acho que não tem como entender o Plano Emergencial sem dizer que foi um empreendimento estratégico no sentido de afastar o agente que tinha capacidade de organização e condições de ser ouvido. É preciso deixar clara essa marca do Plano Emergencial de silenciar os indígenas.

A mistura entre o empreendedor e o Estado é uma das marcas de Belo Monte

O que é Belo Monte para os povos indígenas do Xingu?

Santi – Um etnocício. Essa é a conclusão a que cheguei com o Inquérito Civil que investigou o Plano Emergencial. Belo Monte é um etnocídio num mundo em que tudo é possível.

E o Ministério Público Federal vai levar à Justiça o etnocídio indígena perpetrado por Belo Monte?

Santi – Certamente. É necessário reavaliar a viabilidade da usina no contexto gerado pelo Plano Emergencial e pelas condicionantes não cumpridas.

A ditadura militar massacrou vários povos indígenas, na década de 70 do século 20, para tirá-los do caminho de obras megalômanas, como a Transamazônica. Aquilo que a História chama de “os elefantes brancos da ditadura”. Agora, como é possível acontecer um etnocídio em pleno século 21 e na democracia? Por que não se consegue fazer com que a lei se aplique em Belo Monte?

Thais – Eu virei uma leitora dos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs). E os estudos mostraram uma região historicamente negligenciada pelo Estado, com povos indígenas extremamente vulneráveis por conta de abertura de estradas e de povoamentos. Então, Belo Monte não iria se instalar num mundo perfeito, mas num mundo de conflitos agrários, na região em que foi assassinada a Irmã Dorothy Stang, com povos indígenas violentados pela política estatal e com diagnóstico de vulnerabilidade crescente. É isso o que os estudos dizem. O diagnóstico, então, mostra que Belo Monte seria um acelerador, Belo Monte aceleraria esse processo a um ritmo insuportável e os indígenas não poderiam mais se adaptar. Ou seja, Belo Monte foi diagnosticado para os indígenas como uma obra de altíssimo risco. Isso no EIA. Não é de alto impacto, é de altíssimo risco à sua sobrevivência étnica. Com base nesse diagnóstico, os estudos indicam uma série de medidas mitigatórias indispensáveis para a viabilidade de Belo Monte. A Funai avaliou esses estudos, fez um parecer e falou a mesma coisa: Belo Monte é viável desde que aquelas condições sejam implementadas.

E o que aconteceu?

Santi – Para explicar, precisamos falar daquela que talvez seja a questão mais grave de Belo Monte. Para Belo Monte se instalar numa região dessas, o Estado teve que assumir um compromisso. Você não pode transferir para o empreendedor toda a responsabilidade de um empreendimento que vai se instalar numa região em que está constatada a ausência histórica do Estado. Existe um parecer do Tribunal de Contas dizendo que a obra só seria viável se, no mínimo, a Funai, os órgãos de controle ambiental, o Estado, se fizessem presentes na região. Belo Monte é uma obra prioritária do governo federal. Se o Ministério Público Federal entra com ações para cobrar a implementação de alguma condicionante ou para questionar o processo, mesmo que seja contra a Norte Energia, a União participa ao lado do empreendedor. A Advocacia Geral da União defende Belo Monte como uma obra governamental. Só que Belo Monte se apresentou como uma empresa com formação de S.A., como empresa privada. E na hora de cobrar a aplicação de políticas públicas que surgem como condicionantes do licenciamento? De quem é a responsabilidade? Então, na hora de desapropriar, a Norte Energia se apresenta como uma empresa concessionária, que tem essa autorização, e litiga na Justiça Federal. Na hora de implementar uma condicionante, ela se apresenta como uma empresa privada e transfere a responsabilidade para o Estado. Essa mistura entre o empreendedor e o Estado é uma das marcas mais interessantes de Belo Monte. E não só isso. Há as instâncias de decisão. O Ministério do Meio Ambiente define a presidência do Ibama. A presidência da República define o Ministério do Meio Ambiente. Da Funai, a mesma coisa. Então é muito difícil entender Belo Monte, porque a gente tem um empreendimento que é prioritário e ao mesmo tempo a empresa é privada. Ser privada significa contratar o Consórcio Construtor Belo Monte (Andrade Gutierrez, Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS e outras construtoras com participações menores) sem licitar. Ela diz que não vai fazer, que não cabe a ela fazer. E ninguém manda fazer. Então, a gente tem uma situação em que o empreendedor se coloca como soberano, reescrevendo a sua obrigação. Por exemplo: entre as condicionantes, estava a compra de terra, pela Norte Energia, para ampliação da área dos Juruna do KM 17, porque eles ficariam muito expostos com a obra. A Norte Energia fez a escolha da área. Mas quando a Funai disse para a Norte Energia que comprasse a área, a empresa respondeu: “Não, já cumpri a condicionante. Já fiz a escolha da área, é responsabilidade do governo comprar a área”. E a Funai silenciou. E o Ibama nem tomou conhecimento. Houve uma reunião, e eu perguntei à Funai: “Vocês não cobraram a Norte Energia para que cumprisse a condicionante? Quem tem que dizer o que está escrito é a Funai e não a Norte Energia”. E se a Norte Energia diz “não”, a Funai tem que dizer “faça”, porque existem regras. Conseguimos que a Norte Energia comprasse a área por ação judicial. Mas este é um exemplo do processo de Belo Monte, marcado por uma inversão de papéis. A Norte Energia reescreve as obrigações se eximindo do que está previsto no licenciamento. Quem dá as regras em Belo Monte? O empreendedor tem poder para dizer “não faço”? Veja, até tem. Todo mundo pode se negar a cumprir uma obrigação, desde que use os mecanismos legais para isso. Se você não quer pagar pelo aluguel, porque o considera indevido, e eu quero que você pague, o que você faz? Você vai conseguir lá em juízo, você vai recorrer da decisão. Mas não aqui. Aqui a Norte Energia diz: “Não faço”.

As empreiteiras que fizeram os estudos de viabilidade são hoje meras contratadas da Norte Energia, sem nenhuma responsabilidade socioambiental

E o governo se omite por quê?

Santi – Não cabe a mim dizer. Há em Belo Monte questões difíceis de entender. O que justifica uma prioridade tão grande do governo para uma obra com impacto gigantesco e com um potencial de gerar energia nada extraordinário, já que o rio não tem vazão em parte do ano? O que que justifica Belo Monte? É inegável que há uma zona nebulosa. Veja o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte, veja quem assina. (Aponta os nomes das empresas: Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht…). E, na hora do leilão, eles não participaram do leilão. Surge uma empresa criada às pressas para disputar o leilão. Essa empresa, a Norte Energia, constituída como S.A., portanto uma empresa privada, é que ganha o leilão, que ganha a concessão. E as empreiteiras que participaram dos estudos de viabilidade? Formaram o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), que é um contratado da Norte Energia. E a Norte Energia, por sua vez, mudou totalmente a composição que ela tinha na época do leilão. Hoje, com muito mais aporte de capital público. Então, as empreiteiras que fizeram os estudos de viabilidade e de impacto ambiental hoje são meras contratadas, sem nenhuma responsabilidade socioambiental no licenciamento. Os ofícios que enviamos para a CCBM nunca são para cobrar nada, porque não há nenhuma condicionante para elas, nenhuma responsabilidade socioambiental. Com essa estrutura, os recursos de Belo Monte não passam por licitação. O que é Belo Monte? Eu realmente não sei. Não é fácil entender Belo Monte. É a História que vai nos mostrar. E, quem sabe, as operações já em curso (da “Lava Jato”, pela Polícia Federal, que investigam a atuação das empreiteiras no escândalo de corrupção da Petrobrás) tragam algo para esclarecer essa nebulosidade.

No caso dos indígenas, estava previsto o fortalecimento da Funai, para que o órgão pudesse acompanhar o processo. Em vez disso, a Funai passou por um processo de enfraquecimento, articulado também no Congresso, pela bancada ruralista, que continua até hoje….

O Plano Emergencial foi transformado num balcão de negócios em que os indígenas foram jogados no consumismo dos piores bens

Santi – Eu visitei a aldeia Parakanã, na terra indígena Apyterewa. Quando eu cheguei lá, eu não acreditei nas casas que estavam sendo construídas. Meia-água, de telha de Brasilit. Uma do lado da outra, naquele calor. Eu perguntei para o funcionário da Funai como eles permitiram, porque os Parakanã também são índios de recente contato. E eles não ficavam nas casas, ficavam num canto da aldeia. Aí a gente foi para os Araweté, também construindo. A aldeia estava cheio de trabalhadores. Aquelas meninas andando nuas. Os pedreiros ouvindo música naqueles radinhos de celular. Eu perguntei à Funai: “Como que vocês permitem?”. A Funai não estava acompanhando as obras, não sabia quem estava na aldeia nem de onde tinha vindo aquele projeto de casa. A Funai tinha que acompanhar os programas e ela não está acompanhando. Estava previsto o fortalecimento da Funai e aconteceu o contrário. No Plano de Proteção Territorial estava prevista uma espécie de orquestra para proteger as terras indígenas. Haveria 32 bases, se não me engano, em locais estratégicos, já que proteger o território é condição para proteger os indígenas. Esse plano é uma das condicionantes mais importantes de Belo Monte. Na verdade, Belo Monte seria impensável sem a proteção dos territórios indígenas. E protegeria também as unidades de conservação, freando o desmatamento, porque teria ali Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Funai, todos juntos. E isso com previsão de contratação de 120 funcionários para atuar nessa proteção. E isso tinha que anteceder a obra. Daí, em 2011 vem o pedido de Licença de Instalação, já, e o plano não tinha começado. A Funai anuiu com a Licença de Instalação desde que o plano fosse implementado em 40 dias. E diz: “Enfatizamos que o descumprimento das condicionantes expressas nesse ofício implicará a suspensão compulsória da anuência da Funai para o licenciamento ambiental do empreendimento”. É com isso que eu me deparo. No final de 2012, os indígenas cobraram a implementação desse plano em uma ocupação dos canteiros de obra, e ficou claro que sequer havia iniciado a construção das bases. A partir daí, a Norte Energia passou a simplificar e reescrever o plano. A Funai não tinha força para cobrar a implantação da condicionante, mas não anui com o que a Norte Energia passa a fazer. Propusemos uma ação no dia 19 de abril de 2013, que era Dia do Índio, para que cumprissem a condicionante. E que se aplicasse o que estava escrito: que o não cumprimento implicará a suspensão compulsória da anuência da Funai para o licenciamento. O juiz deferiu a liminar quase um ano depois, já em 2014. Mas qual a resposta do Judiciário? Que suspender a anuência da Funai ao licenciamento seria interferir nas opções políticas do governo. Resultado: hoje a gente está virando 2014 para 2015 e a Proteção Territorial não está em execução. Foi a última informação que eu recebi da Funai. O plano ainda não iniciou.

Essa é a situação hoje?

Santi – O Plano Emergencial era um conjunto de medidas antecipatórias indispensáveis à viabilidade de Belo Monte. Envolvia o fortalecimento da Funai, um plano robusto de proteção territorial e o programa de etnodesenvolvimento. O fortalecimento da Funai não foi feito. O plano de proteção não iniciou. E o plano de etnodesenvolvimento? Foi substituído por ações do empreendedor à margem do licenciamento, por meio das quais os indígenas foram atraídos para Altamira, para disputar nos balcões da Norte Energia toda a sorte de mercadoria, com os recursos destinados aos programas de fortalecimento.

Como é possível?

Santi – Eu realmente acho que existe uma tragédia acontecendo aqui, que é a invasão das terras indígenas, é a desproteção. A gente vê a madeira saindo. As denúncias que recebemos aqui de extração de madeira na terra indígena Cachoeira Seca, na terra indígena Trincheira Bacajá, elas são assustadoras. E eu realmente me pergunto: como? A pergunta que eu tinha feito para o juiz nesse processo era isso: “Belo Monte se sustenta no quê, se essa condicionante, que era a primeira, não foi implementada?”. Belo Monte se sustenta no fato consumado. E numa visão equivocada de que, em política, não se interfere. Como se aquela opção política fosse também uma opção por desrespeitar a Lei. O fato é que Belo Monte, hoje, às vésperas da Licença de Operação, caminha sem a primeira condicionante indígena. Eu te digo: é estarrecedor.

Belo Monte caminha, portanto, à margem da Lei?

Santi – Essa ação da Norte Energia se deu à margem do licenciamento. Se os estudos previram que Belo Monte seria de altíssimo risco, e trouxeram uma série de medidas necessárias, e o que o empreendedor fez foi isso… A que conclusão podemos chegar? Se existiam medidas para mitigar o altíssimo risco que Belo Monte trazia para os indígenas, e essas políticas não foram feitas, e em substituição a elas o que foi feito foi uma política marginal de instigação de consumo, de ruptura de vínculo social, de desprezo à tradição, de forma que os indígenas fossem atraídos para o núcleo urbano pelo empreendedor e jogados no pior da nossa cultura, que é o consumismo. E no consumismo dos piores bens, que é a Coca-Cola, que é o óleo… Ou seja: todos os estudos foram feitos para quê? Tanto antropólogo participando para, na hora de implementar a política, o empreendedor criar um balcão direto com o indígena, fornecendo o que lhe der na telha? O que aconteceu em Belo Monte: o impacto do Plano Emergencial, que ainda não foi avaliado, até esse momento, foi maior do que o próprio impacto do empreendimento. A ação do empreendedor foi avassaladora. Então, de novo, qual é o impacto de Belo Monte? O etnocídio indígena.

E o que fazer agora?

A Defensoria Pública da União não estava presente em Altamira, enquanto milhares de atingidos eram reassentados sem nenhuma assistência jurídica

Santi – Hoje Belo Monte é uma catástrofe. Eu demorei um ano para ver, um ano para conseguir compreender e agora eu vou te dizer o que eu acho. Se a Lei se aplicasse em Belo Monte, teria que ser suspensa qualquer anuência de viabilidade desse empreendimento até que se realizasse um novo estudo e fosse feito um novo atestado de viabilidade, com novas ações mitigatórias, para um novo contexto, em que aconteceu tudo o que não podia acontecer.

É possível afirmar que a Norte Energia agiu e age como se estivesse acima do Estado?

Santi – A empresa se comporta como se ela fosse soberana. E é por isso que eu acho que a ideia aqui é como se a Lei estivesse suspensa. É uma prioridade tão grande do governo, uma obra que tem que ser feita a qualquer custo, que a ordem jurídica foi suspensa. E você não consegue frear isso no poder judiciário, porque o Judiciário já tem essa interpretação de que não cabe a ele interferir nas políticas governamentais. Só que o poder judiciário está confundindo legitimidade com legalidade. Política se sustenta na legitimidade e, feita uma opção, o respeito à Lei não é mais uma escolha, não é opcional. E aqui virou. E quem vai dizer para o empreendedor o que ele tem que fazer?

Além da questão indígena, há também a questão dos reassentamentos. Em novembro, o Ministério Público Federal de Altamira fez uma audiência pública para discutir o reassentamento de moradores da cidade, que foi muito impactante. Qual é a situação dessa população urbana com relação à Belo Monte?

Santi – De novo, como no caso dos indígenas, nós temos uma obra de um impacto enorme, numa região historicamente negligenciada, e o Estado tinha que estar instrumentalizado para que Belo Monte acontecesse. E quando nós nos demos conta, a obra está no seu pico – e sem a presença de Defensoria Pública em Altamira. Até 2013, havia uma pessoa na Defensoria Pública do Estado, que acompanhava a questão agrária, uma defensora atuante com relação à Belo Monte, mas que precisava construir uma teoria jurídica para atuar, porque ela era uma defensora pública do Estado e as ações de Belo Monte eram na Justiça Federal. Depois, todos foram removidos e não veio ninguém substituir.

Isso na Defensoria Pública Estadual. Mas e a federal?

Santi – A Defensoria Pública da União nunca esteve presente em Altamira.

Nunca? Em nenhum momento?

Santi – Não. E a Defensoria Pública do Estado também não estava mais.

A população estava sendo removida por Belo Monte sem nenhuma assistência jurídica? As pessoas estavam sozinhas?

Estamos assistindo diariamente ao impacto brutal de Belo Monte no Xingu, e o governo já se lança numa nova empreitada no Tapajós

Santi – Sim. É incompreensível que, em uma obra que cause um impacto socioambiental como Belo Monte, a população esteja desassistida. Num mundo responsável, isso é impensável. E acho que para qualquer pessoa com um raciocínio médio isso é impensável. Então fizemos uma audiência pública para que todos pudessem realmente ser escutados. Porque um dia chegou na minha sala uma senhora muito humilde. Poucas vezes eu tinha me deparado com uma pessoa assim, por que ela veio sozinha e já era uma senhora de idade. E eu não conseguia entender o que ela falava. Eu não conseguia. Ela estava desacompanhada, desesperada, e eu falei pra ela assim: “A senhora espera lá fora, que eu vou resolver algumas coisas aqui, e eu vou com a senhora pessoalmente na empresa”. Porque o reassentamento, como ele é feito? A Norte Energia contratou uma empresa que faz o papel de intermediária entre a Norte Energia e as pessoas. Chama-se Diagonal. Então cheguei na empresa com ela. É uma casa, as pessoas ficam do lado de fora, naquele calor de 40 graus, esperando para entrar. E, uma a uma, vão sendo chamada para negociar. Essa senhora foi lá negociar a situação dela. E ofereceram para ela uma indenização. E ela não queria uma indenização, ela queria uma casa. E ela diz: “Eu não quero a indenização, eu quero uma casa!”. Neste momento, ela está falando com um assistente social da empresa. E aí, se ela não concorda com o que está sendo oferecido, o advogado da empresa vai explicar a ela por que ela não tem direito a uma casa. E se ela continuar não concordando, esse processo vai para a Norte Energia. Para mim, isso já foi uma coisa completamente estranha. A palavra não é estranha… Eu diria, foi uma coisa interessante. Porque a Norte Energia funciona como uma instância recursal, da indignação da pessoa contra uma empresa que é uma empresa contratada por ela. Então a revolta das pessoas é contra a empresa Diagonal. Aí o caso da pessoa vai para a Norte Energia, e a Norte Energia vai com seu corpo de advogados – 26 advogados contratados só para esse programa – fazer uma avaliação e explicar para a pessoa as regras que são aplicadas. E que, se essa pessoa não aceitar, ela tem um prazo para se manifestar. E, se ela não se manifestar nesse prazo, ou se ela não concordar, o processo vai ser levado para a Justiça, e a Norte Energia vai pedir a emissão da posse. A senhora vai ter que sair de qualquer jeito e discutir em juízo esses valores. Veja a situação com que eu me deparei. Primeiro: a senhora não tinha nenhuma condição nem de explicar a história dela, ela tinha dificuldades de falar. Porque o tempo deles é outro, a compreensão de tudo é outra. A gente está falando de pessoas desse mundo aqui, que não é o mundo de lá, é o mundo de cá. E que eu mesma não tinha capacidade de entender. Então, essa pessoa, que tem dificuldade para se expressar, como ela vai dialogar sozinha, na mesa do empreendedor, com advogados e pessoas que estão do lado de lá? Naquele momento eu tive a compreensão de que, primeiro, existia uma confusão de papéis ali, porque a Norte Energia se apresentava como instância recursal, mas fazia o papel dela. A outra empresa também fazia o papel dela. Quem estava ausente era o Estado. Quem estava ausente era quem tinha que acompanhar essa pessoa. Então, quem estava se omitindo ali era o Estado. Para mim era inadmissível que aquela senhora estivesse sozinha negociando na mesa do empreendedor. Na audiência pública apareceu outra senhora que assinou, mas contou chorando que não sabia ler. Assinou com o dedo. Assinou uma indenização, mas queria uma casa. Isso resume a violência desse processo. Há muitos casos. Muitos. E tudo isso estava acontecendo porque a Defensoria Pública da União não estava aqui. Uma das funções da audiência pública foi chamar o Estado. A Defensoria Pública é uma instituição que está crescendo, que se fortalece, e eu acho que ela não pode deixar à margem uma realidade com risco de grande violação de direitos humanos, como é Belo Monte.

Como se explica um empreendimento desse tamanho, com milhares de remoções, sem a presença da Defensoria Pública da União?

Santi – Como você imagina uma obra com o impacto de Belo Monte sobre 11 terras indígenas, com o impacto que já ficou claro, com alto risco de destruição cultural, sem a Funai estruturada? Como a Funai está em Altamira com o mesmo número de servidores que ela tinha em 2009? Como não foi feita uma nova sede da Funai? Como não foi contratado um servidor para a Funai? E o ICMBio? Temos aqui seis unidades de conservação na área de impacto do empreendimento. Entre essas unidades, só a Estação Ecológica da Terra do Meio tem três milhões de hectares. Se você me perguntar hoje quantos gestores o ICMBio tem nessas unidades eu vou te dizer: a unidade da (Reserva Extrativista) Verde para Sempre está sem gestor. A unidade do Iriri está sem gestor, foi contratado um cargo em comissão. Ou seja, não existe servidor do ICMBio pra cuidar dessa unidade do Iriri. Para a resex Riozinho do Anfrísio também foi contratado um servidor extraquadro. Para o Parque Nacional da Serra do Padre também. A gente tem Belo Monte com um impacto no seu ápice, no momento da maior pressão antrópica já prevista, com as unidades de conservação sem gestor. E o impacto, o desmatamento, é uma prova disso. Na Resex Riozinho do Anfrísio a extração ilegal de madeira já atravessou a unidade e chegou nos ribeirinhos. É uma região que está numa efervescência de impacto. E o concurso público realizado para o ICMBio só previu a contratação de analistas para o Tapajós, onde o ICMBio precisa hoje fazer uma avaliação positiva para que sejam autorizados os empreendimentos das hidrelétricas lá. Eu não consigo entender como o Estado se lança a outro empreendimento sem responder pelo que está acontecendo aqui. Eu te falo isso porque você me pergunta como é possível a Defensoria Pública não estar aqui. Para mim, isso não é um susto, porque eu estou acompanhando outras instituições absolutamente indispensáveis no licenciamento de Belo Monte e totalmente defasadas. E o ICMBio é uma prova disso. E os gestores que têm aqui do ICMBio são extremamente atuantes. Mas, sozinhos, eles não dão conta. Como é possível uma pessoa responder pelos três milhões de hectares da estação ecológica? E sem nenhum apoio? O que eu posso dizer é que, nas investigações que fizemos aqui com relação à Belo Monte, a realidade é a ausência do Estado. Num mundo em que tudo é possível, a gente consegue viver com uma realidade em que 8 mil famílias vão ser reassentadas sem que a Defensoria Pública da União tivesse sido acionada para vir para Altamira. Belo Monte é o mundo em que o inacreditável é possível.

Voltando ao início dessa entrevista, qual é a analogia que a senhora faz entre os estudos de Hannah Arendt sobre os totalitarismos e essa descrição que a senhora fez até aqui sobre o processo de Belo Monte?

A mineradora canadense Belo Sun prenuncia um ciclo de exploração dos recursos naturais da Amazônia em escala industrial, sobrepondo impactos na região

Santi – Vai ficando mais claro, né? Quando eu coloquei para você que a Lei está suspensa, ou seja, as regras, os compromissos assumidos, as obrigações do licenciamento, na verdade eu pensava no Estado de Exceção. Eu entendo que essa realidade que eu descrevo é a realidade de um Estado de Exceção.

Mas, como é possível que tudo seja possível?

Santi – Quando você assiste ao governo se lançar a um novo empreendimento, desta vez no Tapajós, com outro impacto brutal, sem responder pelo passivo de Belo Monte, o que vem à mente? E a gente, nesse dia a dia de Belo Monte, assistindo a esse impacto, assistindo ao desmatamento, assistindo à questão dos indígenas, ao sofrimento da população local, assistindo às pessoas morrendo porque o hospital está superlotado, assistindo aos indígenas completamente perdidos… E então a gente vê o governo se lançar a um novo empreendimento. A pergunta que vem é essa: como é possível? Belo Monte não acabou. Quando, um ano atrás, a então presidente da Funai (Maria Augusta Assirati) deu uma entrevista (à BBC Brasil) falando de Belo Monte, ela disse a seguinte frase: “Nenhum dos atores envolvidos estava preparado para a complexidade social, étnica e de relações públicas que foi Belo Monte”. Quando eu leio uma frase como essa, e a gente assiste ao governo brasileiro usar Belo Monte como campanha política na época das eleições, e se lançar a um novo empreendimento, eu me pergunto: o que dizer a um governo que diz que não estava preparado para Belo Monte? Belo Monte não acabou. Se você tem responsabilidade, a sua responsabilidade não acaba porque a tragédia aconteceu. Ou seja, o passivo de Belo Monte, no Xingu, fica, e o governo vai começar uma nova empreitada no Tapajós? E qual é a prova de que essa nova empreitada não vai causar um passivo como este? A prova tem que ser feita aqui em Belo Monte. A Funai tem que estar estruturada aqui. As terras têm que estar protegidas aqui. A população tem que ter sido removida com dignidade aqui. Então, quando você me pergunta de Hannah Arendt, eu lembro dessa frase da presidente da Funai. Quando Arendt conclui o julgamento do nazista (em seu livro “Eichmann em Jerusalém”), ela diz o seguinte: “Política não é um jardim de infância”. E ela estava analisando o genocídio. Eu não tenho dúvida de dizer que aqui a gente está analisando um etnocídio, e política não é um jardim de infância. Então, a ação do Ministério Público aqui é a de responsabilizar, até onde for possível. Um dia essas ações vão ser julgadas. Belo Monte um dia será julgada.

A maioria das ações que o Ministério Público Federal está propondo, há anos, esbarram nos presidentes dos tribunais. Por quê? Qual é a sua hipótese?

Santi – Belo Monte é uma obra “sub judice”. Vai ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal. São 22 ações, com conteúdos extremamente diversificados. A postura do Poder Judiciário de que o fundamento jurídico, o mérito da ação, fique suspenso de análise com base na decisão política, que é a suspensão de segurança, é uma decisão que não precisa de respaldo na Lei, ela busca respaldo nos fatos. A suspensão de segurança é um mecanismo extremamente complicado, porque ele abre o Direito.

Acho que é importante aqui fazer um parêntese para explicar aos leitores que o mecanismo jurídico de “suspensão de segurança” é um resquício da ditadura. Ele impede qualquer julgamento antecipado de uma ação, que poderia ser pedido por conta da urgência, da relevância e da qualidade das provas apresentadas. É concedido pela presidência de um tribunal, que não analisa o mérito da questão, apenas se limita a mencionar razões como “segurança nacional”. Assim, quando o mérito da ação é finalmente julgado, o que em geral leva anos, uma obra como Belo Monte já se tornou fato consumado. Quais são as justificativas para o uso de suspensão de segurança em Belo Monte?

Numa sociedade de consumo, desde que se preserve o eu hegemônico de cada um, a morte cultural de um povo não dói

Santi – Em Belo Monte as justificativas são a necessidade da obra, o prazo, o cronograma, os valores, o quanto custa um dia de obra parada ou a quantidade de trabalhadores que dependem do empreendimento. Com esses fundamentos muito mais fáticos, empíricos e políticos, o mecanismo da suspensão de segurança permite a suspensão da decisão jurídica liminar que se obtém nas ações judiciais. E, com isso, as decisões acabam perdendo a capacidade de transformação. Com uma ressalva com relação à Belo Monte: as pessoas de direito privado não podem requerer a suspensão de segurança. A Norte Energia não poderia pedir. Quem faz isso, então, é a Advocacia Geral da União, que atua ao lado da Norte Energia nas ações judiciais. Ainda, a interpretação desse mecanismo vem permitindo que ele se sobreponha a todas as decisões – e não apenas as liminares – até o julgamento pela instância final. É um mecanismo que tem previsão legal, mas é um mecanismo extremamente complicado, porque pode se sustentar em fatos. E o Direito que se sustenta em fatos é o Direito que se abre ao mundo em que tudo é possível. O Ministério Público Federal não questiona a opção política do governo por Belo Monte, mas questiona o devido processo de licenciamento. A gente questiona a legalidade, não a legitimidade dessa opção. Mas o fato é que essa legitimidade é obtida sem o espaço de diálogo. E hoje eu realmente acho que a sociedade deveria refletir e discutir essa opção de interferência nos rios da Amazônia. Nós já sabemos o impacto que o desmatamento vem causando, a gente sabe o valor da água, a gente sabe o valor da Amazônia. Por isso, entendo que essas decisões que podem se sustentar em fatos são perigosas para o Estado democrático de Direito, já que os fatos nem sempre têm respaldo democrático.

Na sua opinião, com tudo o que a senhora tem testemunhado, qual será o julgamento de Belo Monte no futuro?

Santi – Ah, eu acho que essa pergunta é um pouco complicada. Sinceramente, eu acho que essa questão da legitimidade de Belo Monte tem que ser discutida num debate público. Eu me coloco como procuradora da República. Estou falando da minha leitura jurídica desse processo. Agora, se perguntar para a Thais, pessoa, o que ela acha que vai acontecer com Belo Monte, eu te diria que há perguntas que precisam ser feitas. Será que o modo de vida dessa região poderia ser suportado por outras fontes de energia? Eu não tenho dúvida que sim. Na região, quem precisa de Belo Monte são as indústrias siderúrgicas, e uma mineradora canadense (Belo Sun) que vai se instalar e extrair ouro em escala industrial, na região de maior impacto de Belo Monte. Então, quem depende dessa energia é essa empresa e outras que virão. E isso é uma coisa que tem me assustado muito com relação à Belo Monte. Uma das consequências de Belo Monte é essa possibilidade de extração de recursos minerais em escala industrial na Amazônia. E a disputa por esses recursos já começou. Fico extremamente preocupada com a possibilidade de instalação de um empreendimento minerário desse porte na região do epicentro de impacto de Belo Monte, sem que tenha sido feito o estudo do componente indígena e sem a avaliação do Ibama. Vai haver ali uma sobreposição de impactos.

É bem séria e controversa, para dizer o mínimo, a instalação dessa grande mineradora canadense, Belo Sun. Qual é a situação hoje?

Santi – Esse projeto minerário prenuncia um ciclo de exploração dos recursos naturais da Amazônia em escala industrial, que se tornará viável com Belo Monte. É também o prenúncio de um grave risco. De que grandes empreendimentos venham sobrepor seus impactos aos da hidrelétrica, sem a devida e competente avaliação. Com isso, os impactos de Belo Monte acabam por se potencializar a uma dimensão extraordinária. E o pior, as ações mitigatórias indispensáveis ao atestado de viabilidade da hidrelétrica perigam perder a eficácia, caso não haja um cauteloso controle de sobreposição de impactos. Se a geração de energia por Belo Monte depende do desvio do curso do rio Xingu, e a viabilidade da hidrelétrica para os povos indígenas da região depende de um robusto monitoramento para que se garanta a reprodução da vida no local, como um projeto de alto impacto localizado no coração do trecho de vazão reduzida do rio Xingu pode obter atestado de viabilidade sem estudos de impacto sobre os povos indígenas? E, se quem licencia Belo Monte é o Ibama, que é o órgão federal, e quem tem atribuição constitucional de proteger os povos indígenas é a União, como esse licenciamento poderia tramitar perante o órgão estadual? São essas questões que o Ministério Público Federal levou ao Poder Judiciário, sendo que hoje há uma sentença anulando a licença emitida, até que se concluam os estudos sobre os indígenas. Decisão que está suspensa até que seja julgado o recurso da Belo Sun pelo Tribunal Regional Federal em Brasília. Há também uma decisão recente impondo ao Ibama que participe de todos os atos desse licenciamento perante o órgão estadual. Mas, quando você me pergunta o que vai ser Belo Monte no futuro, acho que a grande questão de Belo Monte vai ser: para quem Belo Monte? Por que Belo Monte?

Há uma caixa preta em Belo Monte?

Hannah Arendt lia os estados totalitários. Ela lia o mundo do genocídio judeu. É possível ler Belo Monte da mesma maneira

Santi – As questões nebulosas de Belo Monte, o fato de a obra ser uma prioridade absoluta, são questões que a História vai contar, e eu espero que conte rápido.

Como é viver em Altamira, no meio de todos esses superlativos?

Santi – Na verdade, a realidade me encanta. Mesmo trágica. Entende? Por mais que a gente tenha vontade de chorar, ela é impressionante. Eu me surpreendo a cada dia com as coisas que acontecem aqui, seja pelo tamanho das áreas, já que estamos falando de milhões de hectares, de grilagem de terra de 200 mil hectares, de desmatamento de 1 mil hectares. Tudo é da ordem do inimaginável. Então eu acabo tendo muito essa posição de uma intérprete da realidade. Quando eu decidi ficar em Altamira, algumas pessoas falaram: “Nossa, parabéns pelo ato de desprendimento!”. Mas, para mim, ficar em Altamira é um privilégio. Conhecer as populações tradicionais é um privilégio. Poder receber um cacique, aqui, é um privilégio. Então, a minha relação com Altamira é de que cada dia eu me curvo mais. Quando eu falo “eu me curvo mais” é no sentido de ficar mais humilde diante das pessoas daqui. Há um momento do dia em que o sol provoca uma espécie de aura dourada na Volta Grande do Xingu. Eu vou ao rio porque eu quero ver isso. E cada dia é diferente. Ele nunca está igual. Quando eu vejo o rio, eu só tenho a agradecer a possibilidade de ele existir. É como esses índios, como esses ribeirinhos. Obrigada por serem diferentes, por me mostrar um mundo diferente do que eu estava acostumada em Curitiba. Eu acho tão bonito o menino que toma banho no barril, aí a mãe penteia o cabelinho dele pro lado, coloca ele na garupa da bicicleta, e leva ele na bicicleta. Eu adoro ver… Eu adoro observar. No meu dia a dia eu vivo esse encantamento pela região, sabendo que daqui pra lá a gente tem uma floresta que atravessa a fronteira do Brasil e que é maravilhosa. E que é o que, no futuro, vai ser a coisa mais valiosa. Como eu trabalho com a questão de Belo Monte, me vem no fundo esse sentimento de tristeza por conhecer a audácia do homem de mexer naquilo, de desviar esse rio.

Quando a encontrei numa reserva extrativista, dias atrás, a senhora brincou que sentia um pouco de inveja dos ribeirinhos. Como é isso?

Santi – É que eu acho que o trabalho deles é mais importante do que o meu. Eu realmente acho. Se você tem um olhar para o outro como se ele fosse um pobre, como se fosse um desprovido, a nossa atuação é muito limitada. Hoje eu tenho um olhar para eles de que eu tenho o direito de que eles continuem vivendo assim. Porque eles conhecem uma alternativa. Então, eu hoje sinto que é um direito nosso, do mundo de cá, e não só deles. É essa a dimensão que eu te falo. Eu agora reescrevo e recompreendo o meu trabalho, porque ele ganha uma outra dimensão sob essa perspectiva. Ou seja: o Ministério Público protege as populações indígenas e tradicionais não só porque elas têm direitos, mas também porque é importante para o conjunto da sociedade que o modo de vida delas continue existindo. Elas têm o direito de se desenvolver a partir delas mesmas, e não segundo o que a gente acha que é bonito. E nós, nossos filhos, precisamos desse outro modo de vida, precisamos que vivam assim. Por isso, também, o processo de Belo Monte com relação aos indígenas é tão doloroso.

A senhora mencionou que seria importante que a sociedade fizesse um debate público sobre a interferência do Estado nos rios da Amazônia. Por que a senhora acha que a sociedade não está fazendo? Ou, dito de outro modo: por que as pessoas não se importam?

Santi – Essa é a pergunta mais difícil. Acho que a Amazônia não interessa só ao Brasil, interessa para o mundo todo. E esse impacto tem que ser discutido até a última possibilidade das fontes alternativas. O que eu quero dizer é: se a política do governo se sustenta numa legitimidade que depende da aceitação popular com relação à utilização dos rios da Amazônia como fonte geradora de energia, esse debate tem que ser feito. E hoje eu acredito que é um momento importante, porque o Brasil está vivendo a falta de água. E essa falta de água está sendo relacionada ao desmatamento da Amazônia. E o desmatamento da Amazônia aumentou, a gente sabe disso. As pessoas vêm aqui relatar o que está saindo de caminhão com madeira. É um relato que já é público, e o Brasil tem hoje, talvez, o bem mais precioso do mundo, que é a Amazônia. É por isso que esse debate é importante, porque tem que ser dada à população o espaço mais livre possível de debate, de diálogo, sobre o que se pretende fazer com seu bem mais precioso. Com o risco, inclusive, de que seja tirado dela. Por isso que é realmente importante que se discuta isso. Acho que quando eu não vivia aqui, eu não tinha a dimensão. A gente sabe de longe, mas eu não tinha a dimensão do que estava acontecendo. É muito grande. Primeiro tira a madeira mais nobre, aí desmata, aí vem o gado. Inclusive a carne… Eu não como carne há muitos anos. Eu já tinha uma opção por ser vegetariana. Mas, agora, depois que eu vejo o que precisa para criar um boi, e o quanto isso interfere na região amazônica, eu não tenho coragem de comer carne. Carne, para mim, vem com a imagem daquele tronco que está saindo daqui. Eu sofro por ver o tamanho das toras de madeira que saem daqui. Sofro. Dói ver. Eu sofro de deixar o meu lixo aqui. Porque eu sei que Altamira não tem reciclagem. Eu levo meu lixo embora, eu não deixo o meu lixo aqui.

Leva de avião?

Santi – Eu levo meu lixo para ser reciclado em Curitiba. Porque a gente vive na fronteira da Amazônia, numa região em que a questão do lixo é extremamente complicada, e realmente tem que ter coragem para jogar, eu não consigo. Uma vez eu li um livro que se chama “Os Cidadãos Servos”, de Juan Ramón Capella. E eu lembro que esse livro falava o seguinte: que as pessoas apertam a descarga do banheiro e têm a sensação de que estão limpando a sua casa. E, quando você aperta a descarga, na verdade você está sujando o mundo. Então, eu tenho essa sensação muito forte de que, quando eu coloco o meu saco de lixo na rua, em vez de fazer uma composteira, eu estou sujando o mundo, eu estou sujando a minha casa, porque a minha casa é o mundo. Acho que o debate em torno da Amazônia passa por isso. Por um debate em torno desse individualismo, da forma como as pessoas vivem centradas no consumismo, no que as pessoas buscam, que está desconectado do outro e está desconectado do mundo. Para mim é muito claro que a minha casa não acaba na porta da minha casa, a minha responsabilidade pelo mundo não acaba na porta do meu universo individual. Não é razão, é um sentimento de que a casa das pessoas está aqui, também. Nesse contexto em que a gente vive, as pessoas têm uma preocupação com o eu, com a beleza, com a estética, com o consumo. Então é muito difícil ter um debate público em torno das questões ambientais. É uma marca de uma época, mesmo. E há outra questão que eu acho mais forte ainda, e que me assusta mais em Belo Monte. Daí eu vou te explicar com um pouquinho de calma… Não vai acabar nunca a entrevista!

Fica tranquila…

Santi – Eu acho o seguinte. Eu já falei que vejo Belo Monte como um etnocídio. Quando a Hannah Arendt estuda os regimes totalitários, ela faz uma descrição do nazismo, ela faz uma descrição da política de Hitler que é muito interessante. O Hitler afirmava que tinha descoberto uma lei natural, e que essa lei natural era uma lei da sobreposição de uma raça, de um povo sobre o outro. Os judeus seriam um obstáculo que naturalmente seria superado por essa lei natural. Quando eu digo que os estudos de Belo Monte identificaram um processo de desestruturação dos povos indígenas da região, que já tinha começado com a Transamazônica, e que Belo Monte só acelera esse processo, me vem essa imagem de Hannah Arendt dizendo que Hitler apenas descobriu uma forma de acelerar o processo de uma lei natural que ele afirmava ter descoberto. E aqui, o que Belo Monte faz a esse processo de desestruturação iniciado com a Transamazônica é acelerá-lo a um ritmo insustentável para os indígenas. E talvez seja essa a justificativa para as suspensões das decisões judiciais, e de a Lei não se aplicar aqui. O que me assusta é a forma como a sociedade naturaliza esse processo com uma visão de que é inevitável que os indígenas venham a ser assimilados pela sociedade circundante, pela sociedade hegemônica. E aceitar que Belo Monte vai gerar a perda de referências e conhecimentos tradicionais com relação à Amazônia, a perda de outras formas de ver o mundo que poderiam ser formas de salvação, mesmo, do futuro. Então, esse processo de etnocídio é naturalizado e, por ser naturalizado, não dói para as pessoas. Não dói o fato de os índios estarem morrendo. Numa sociedade de consumo, desde que não se perca o eu hegemônico de cada um, a morte cultural de um povo não dói. Então, o que eu sinto é isso: é extremamente assustador a forma como a sociedade aceita esse processo.

É por isso, afinal, porque a maioria da população brasileira não se importa com a morte cultural dos povos indígenas, e mesmo com a morte física, nem se importa com a morte da floresta, que Belo Monte é possível apesar de atropelar a Lei?

Santi – Em última instância, as decisões judiciais também têm o respaldo da sociedade. Se essas suspensões de segurança causassem uma reação muito forte, elas não teriam legitimidade. Por que o silêncio? Como a sociedade aceita a não garantia dos direitos dos povos indígenas? Aceita porque naturaliza esse processo, que é um processo totalitário. É um processo em que o eu único, o todo, prevalece sobre o diferente. E que você não é capaz de olhar o diferente com respeito, como algo que é diferente de você, do seu eu. Isso é uma realidade, mesmo, que a gente está vivendo, de dificuldade para os povos indígenas, para as populações tradicionais, para essas culturas diferentes se manterem. Mesmo que hoje exista uma série de garantias fundamentais, de ordem internacional, na Constituição Federal, é muito difícil. E é por isso que aqui, no Brasil, quem dá a palavra sobre isso é o Supremo Tribunal Federal. E o Supremo tem que fazer isso, pela leitura da Constituição. Então um dia isso vai ser julgado. Um dia o Plano Emergencial vai ser julgado pelo Supremo. Um dia a forma como os índios não foram ouvidos nesse processo vai ser julgada pelo Supremo.

Mas aí o fato já está consumado.

Santi – É, esse é o problema. É o fato que a cada dia se consuma.

A senhora se sente impotente diante de Belo Monte, desse fato que se consuma apesar de todo o esforço, de todas as ações, e sem o apoio da sociedade, que se omite?

Santi – Acho que o Ministério Público Federal não é impotente. Mas eu penso que hoje, sozinho, apenas pela via do poder judiciário, o Ministério Público Federal não consegue fazer com que a Lei se aplique aqui. Belo Monte é um desafio ao Estado de Direito. Acima de tudo, acredito que a história tem que ser contada. E o que o Ministério Público Federal vem fazendo aqui em Altamira é a história viva de Belo Monte. E aí, eu diria: o Ministério Público não silencia. Não sei o que a História vai dizer de Belo Monte. Mas, o que eu posso dizer é que o Ministério Público Federal não silenciou.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da RuaA Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com  Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

“O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água” (Jornal Opção)

Edição 2048 (5 a 11 de outubro de 2014)

Uma das maiores autoridades sobre o tema, professor da PUC Goiás diz que destruição do bioma é irreversível e que isso compromete o abastecimento potável em todo o País

Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?
Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?
Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?
Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões, trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

As plantas  do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os Buritis que vemos hoje estavam nascendo. eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. também por isso, o dano ao bioma é irreversível

Qual é a consequência imediata desse quadro?
Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?
Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?
Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?
De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?
Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

“Tragédia urbana começa com drama no campo”

Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?
Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.
Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?
Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?
Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.
Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.
Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?
Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.
Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?
A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Professor Altair Sales fala ao jornalista Elder Dias: "A proteção das águas tinha de ser questão de segurança nacional”

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?
É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?
Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?
Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?
Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?
Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.
É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?
Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?
Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

Pressões territoriais forçam índios isolados a estabelecer contato (Fapesp)

Integrantes de grupo indígena travam primeiro contato com funcionários da Funai e índios Ashaninka na Aldeia Simpatia, no Acre (foto: divulgação/Funai)

31/07/2014

Por Elton Alisson, de Rio Branco (AC)

Agência FAPESP – Um grupo indígena de etnia ainda não identificada estabeleceu em junho o primeiro contato com funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) e com índios Ashaninka, na Aldeia Simpatia, da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Envira, na fronteira do Acre com o Peru. O grupo, que recebeu destaque da revista Science, pode ser apenas um de vários outros da região que devem sair da “condição de anonimato” nos próximos anos.

Isso porque o avanço da exploração de madeira e petróleo, além do narcotráfico e da construção de estradas próximas ou nas terras indígenas – principalmente no lado peruano –, podem estar forçando-os a sair do isolamento na floresta e a se aproximar das aldeias de índios já contatados.

A avaliação foi feita por pesquisadores participantes de uma mesa-redonda sobre índios isolados no Acre realizada durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou no domingo (27/07), no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.

“Há um conjunto de 10 áreas indígenas nessa região de fronteira do Acre com o Peru, conhecida como Paralelo 10, que são corredores de índios isolados”, disse Terri Vale de Aquino, antropólogo da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai e professor da UFAC.

“Existem muitas denúncias de casos de contatos forçados, escravidão e, sobretudo, de violência contra os povos indígenas nessa região. Isso tem provocado a migração para o Acre”, afirmou Aquino.

De acordo com o pesquisador, a construção de uma rodovia de 40 quilômetros de extensão entre os rios Muru e Tarauacá atingirá uma área utilizada por índios Kaxinawá destinada exclusivamente a índios isolados que vivem na fronteira do Acre com Peru, apontou.

“As lideranças dos índios Kaxinawá estão fazendo uma denúncia ao Ministério Público Federal porque essa estrada está sendo construída sem licença e estudos e relatórios de impacto ambiental”, afirmou.

Além disso, a distribuição de lotes para a exploração de petróleo e gás na região está “ilhando” terras indígenas no Alto Juruá e impactando diretamente os povos indígenas e grupos de índios isolados na região, sobretudo do lado peruano da fronteira, apontou.

Para agravar esses problemas, narcotraficantes têm buscado novas rotas de tráfico de drogas na Amazônia por meio do Alto Envira, um rio binacional que nasce em terras peruanas e passa pelo Acre, contou Aquino.

“O narcotráfico está muito intenso no Alto Envira e por dois anos desarticulou as bases de índios isolados do Rio Xinane [afluente do Envira] pela violência que imprimiu na região”, afirmou. “Esse conjunto de fatores pressiona muito os povos indígenas isolados que habitam essa região fronteiriça.”

Segundo os pesquisadores, o grupo de índios isolados que estabeleceu o primeiro contato no dia 29 de junho no Acre também relatou, por meio de intérpretes, ter sofrido atos de violência cometidos por não indígenas nas cabeceiras do rio Envira, em território peruano.

“Esses índios isolados podem estar fugindo dos madeireiros e do narcotráfico, além da exploração de petróleo e gás e da construção de estradas em suas terras”, estimou Aquino.

Presença recente

De acordo com Aquino, a presença de povos indígenas isolados no Acre é um fenômeno relativamente recente e tem se intensificado. Nos últimos 30 anos, a Funai avistou e passou a monitorar quatro grupos de índios isolados no Alto Envira, mas estima que possam existir muitos outros na região.

“O grupo de indígenas que estabeleceu contato em junho contou que há outros grupos de índios isolados na região – alguns aliados e outros inimigos deles – que nem sabíamos que existiam”, disse Aquino.

Um dos mais recentes grupos de índios isolados no estado foi avistado por funcionários da Funai em 2008 na cabeceira do rio Xinane e chegou à região fugindo do avanço dos madeireiros e do narcotráfico sobre suas terras, disse Aquino.

Já um outro grupo de índios isolados avistado na cabeceira do rio Humaitá, na margem esquerda do Envira, sobreviveu ao massacre de populações indígenas durante o primeiro ciclo da borracha da Amazônia, entre 1880 e 1920, no chamado “tempo dos seringais”, e resistiu por mais de 100 anos ao primeiro contato.

“Estima-se que eles formem um grupo de aproximadamente 300 índios, sendo o maior entre os quatro povos indígenas isolados já avistados pela Funai nessa região do Acre”, disse Aquino. “Eles já são bastante conhecidos aqui no Acre inclusive por outros povos isolados, que acham que eles são feiticeiros e xamãs.”

Além desses, há o grupo Mashco-Piro, conhecido pelo comportamento nômade. A comunidade costuma caminhar pelas cabeceiras do rio Madre de Díos, no lado peruano, e afluentes – em grupos grandes, formados por entre 100 e 150 índios.

Em geral, segundo Aquino, eles entram no território acreano no verão. Permanecem por períodos de três a quatro dias em um mesmo lugar e logo em seguida já migram para outro.

“Nunca localizamos nenhuma maloca ou roçado desse grupo de índios isolados no Acre. Eles são conhecidos como povo de floresta e se estabelecem aqui em acampamentos provisórios, compartilhando a terra do povo Pano”, contou.

Aumento de evidências

De acordo com Aquino, a presença desses quatro grupos de índios isolados já identificados no Acre foi constatada por meio de avistamentos e confrontos, além de coletas de vestígios de sua presença na região, tais como saques, rastros ou de utensílios, como cestas e flechas, que deixaram pelo caminho.

Um mapeamento realizado pelo pesquisador para verificar a presença de índios isolados no Acre nas últimas três décadas apontou que o maior número de evidências foi coletado entre os anos de 2006 e 2013.

Do total de 231 evidências coletadas da presença desses índios isolados na região, 156 foram registradas nesses últimos oito anos. E desses 156 indícios, 70 foram saques de ferramentas de metal, contou Aquino.

“Isso denota que esses grupos de índios isolados estão buscando, principalmente, ferramentas de metal, e substituindo o machado de pedra pelo de aço. Eles também conhecem armas e já usam até espingardas”, contou.

Uma hipótese levantada pelos pesquisadores para explicar o aumento do número de saques na região é a busca por tecnologia por parte dos grupos de índios isolados.

“Percebemos que também há muitas iniciativas de aproximação desses grupos de índios isolados pela curiosidade de conhecer e coletar produtos industrializados”, disse Carlos Lisboa Travassos, coordenador-geral de Índios Isolados e Recém-Contatados da Funai.

“Algumas dessas situações de contato podem trazer um risco muito grande à saúde desses índios isolados, uma vez que eles não possuem imunidade à gripe e a outras doenças que podem levá-los a morrer de uma forma muito rápida e devastadora”, destacou.

O grupo de sete índios – quatro rapazes, duas mulheres jovens e uma criança – que estabeleceu o primeiro contato no fim de junho contraiu gripe e teve de ser transferido para a Base de Proteção Etnoambiental Xinane, da Funai, para receber atendimento médico.

Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes do grupo. “Precisamos nos preparar para amenizar os primeiros riscos à saúde desses grupos no primeiro contato e estabelecer uma relação franca com eles”, afirmou Travassos.

Segundo Travassos, a política de proteção aos índios isolados da Funai é a do não contato, respeitando a autodeterminação de aproximação dos povos. São previstas, contudo, ações de intervenção, como planos de contingência, quando um grupo indígena isolado procura estabelecer contato, como ocorreu no final de junho.

Registro do contato

No início da palestra os pesquisadores da Funai exibiram um vídeo de alguns minutos com imagens do primeiro contato com o novo grupo de índios isolados para uma plateia composta por muitos indígenas do Brasil e Peru.

De acordo com informações dos intérpretes que integraram a equipe da Funai que estabeleceu o primeiro contato, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico Pano, e o contato e a permanência deles na região ocorreram de forma pacífica, apesar de os índios Ashaninka terem se assustado com o aparecimento dos “forasteiros”. “Eles falaram que a língua deles é muito próxima à dos Jaminawá, se não for a mesma”, contou Aquino.

Segundo os antropólogos da Funai, alguns dos traços que os diferenciam de outros grupos isolados é o uso de folhas de envira (árvore da floresta tropical) amarrada no pênis e na cintura, na qual levam um facão.

O arco e a flecha que utilizam são feitos de madeira de pupunha e a ponta da flecha é feita de taboca (um tipo de bambu) e é bastante perfurante.

É possível descarbonizar o planeta até 2050 (Instituto Ethos)

24/7/2014 – 12h20

por Jorge Abrahão*

shutterstock 129374378 É possível descarbonizar o planeta até 2050

Relatório mostra como países mais poluidores (o Brasil entre eles) podem baixar drasticamente a concentração de carbono em suas atividades até 2050.

Enquanto nós e o mundo acompanhávamos a Copa do Mundo, um relatório elaborado pelo Instituto do Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (Iddri, na sigla em francês) e pela Rede de Soluções do Desenvolvimento Sustentável (SDSN, na sigla em inglês), que conta com a participação do economista Jeffrey Sachs, foi entregue ao secretário-geral da ONU, Ban-Ki Moon.

O documento mostrou pela primeira vez como os 15 países mais poluidores do mundo (o Brasil entre eles) podem baixar drasticamente a concentração de carbono em suas atividades até 2050 e, com isso, contribuir para que a temperatura do planeta não aumente 2 graus centígrados.

O relatório, que ainda não é definitivo, tem o título Pathways to Deep Decarbonization (algo como “Caminhos para Descarbonização Profunda”) e é a primeira iniciativa de cooperação global a traçar soluções para diminuir a emissão de gases de efeito estufa (GEE).

Esse documento é resultado do trabalho de 15 equipes de pesquisadores, representando as 15 nações que mais emitem GEE: África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Japão, México, Reino Unido e Rússia.

Estas equipes trabalharam para responder a seguinte pergunta: “O que falta fazer para chegar a 2050 com chance de manter o crescimento da temperatura global em menos de 2oC, sem emitir mais de 1,6 toneladas de carbono, em média, contra as 5,2 toneladas de hoje?”

O Iddri e a SDSN indicaram ainda três pilares sobre os quais a resposta de cada país devia ser trabalhada, pois são as matrizes em que as emissões globais mais têm crescido:

– Aumento da eficiência e da responsabilidade no consumo de energia;

– Descarbonização do setor elétrico, com investimentos em fontes renováveis e nuclear e em tecnologias de sequestro de carbono;

– Desenvolvimento de biocombustíveis, veículos elétricos, células de hidrogênio e outras tecnologias que reduzam as emissões do setor de transportes.

Embora sejam pilares comuns, as respostas dadas pelos países não foram idênticas, pois cada nação possui particularidades específicas e prioridades diferentes.

Os projetos de alguns países

A China, país altamente industrializado e dependente do carvão, optou por desenhar um caminho de modernização do parque fabril, com a implementação de tecnologia de captura e armazenamento de carbono.

A Indonésia, cujas emissões vêm principalmente do desmatamento e das queimadas, propôs uma melhor gestão do uso da terra e o manejo sustentável das florestas. Os pesquisadores indonésios relataram que há grandes áreas degradadas que podem ser recuperadas para atividades econômicas ou para o plantio de culturas para biocombustíveis, reduzindo a pressão sobre a floresta em pé.

Os Estados Unidos, com sua enorme classe média de forte poder aquisitivo, sinalizam com programas de eficiência energética e de padrões mais altos (ou de menor quantidade de poluentes) nos combustíveis.

A África do Sul pretende investir em eficiência energética na indústria, nos veículos elétricos e nos biocombustíveis.

Os relatórios do Brasil, da Alemanha e do México ainda não foram apresentados. Em nosso país, os trabalhos estão sendo coordenados pelo professor Emílio La Rovere, do Coppe/UFRJ. E as atividades têm a participação da SDSN Brasil, lançada em março de 2014, com o apoio de várias organizações, entre as quais o Instituto Ethos.

Conclusões

Os especialistas concluem, entre outras coisas que:

– De todos os setores estudados, os dois que apresentam mais desafios para uma profunda descarbonização são o de transporte de carga e o de processos industriais, que ainda precisam ser aprofundados;

– Essa descarbonização profunda depende, em larga escala, da capacidade de entrega nos próximos anos de novas tecnologias de baixo carbono que ainda estão em desenvolvimento. Algumas tecnologias em áreas-chave, como armazenamento de energia, ainda precisam de desenvolvimento.

Entretanto, a conclusão mais importante é que, sem um compromisso de longo prazo – até 2050 – os países não conseguirão firmar acordos de curto e médio prazos, indispensáveis para que a humanidade chegue ao meio do século sem atingir os 2oC de aumento na temperatura do planeta.

Isso significa limitar as emissões a 1.000 GtCO2e até o final do século, condição para termos dois terços de chance de mantermos o aquecimento global em até 2oC em 2100.

Jorge Abrahão é diretor-presidente do Instituto Ethos.

** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.

(Instituto Ethos)

Desastres naturais arrasarão os benefícios do desenvolvimento (IPS)

24/7/2014 – 10h14

por Stephen Leahy, da IPS

desastres Desastres naturais arrasarão os benefícios do desenvolvimento

Uxbridge, Canadá, 24/7/2014 – Será impossível acabar com a pobreza extrema e a fome com o rápido aquecimento do planeta, repleto de secas, inundações catastróficas e um clima cada vez mais instável, segundo ativistas que participaram das negociações dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, no dia 19, o rascunho dos 17 ODS após um ano e meio de discussão entre mais de 60 países participantes no processo voluntário.

Os ODS são um conjunto de metas e objetivos destinados a eliminar a pobreza extrema e conseguir o desenvolvimento sustentável. Quando estiverem definidos em 2015, ao término dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), os ODS se converterão no itinerário a ser seguido pelos países para elaborarem suas políticas e decisões ambientais e socioeconômicas.

“Os desastres naturais são um motivo importante do descumprimento de muitas das metas dos ODM”, afirmou Singh Harjeet,  coordenador internacional de mitigação de riscos de desastres na ActionAid International, uma organização de desenvolvimento internacional com sede em Johannesburgo. “Uma inundação grande ou um tufão podem atrasar o desenvolvimento de uma região em 20 anos”, apontou. Os tufões são ciclones tropicais caracterizados por ventos superiores a 118 quilômetros por hora.

Singh recordou que o tufão Haiyan matou mais de seis mil pessoas e deixou quase dois milhões de vítimas nas Filipinas em novembro de 2013. Menos de um ano antes, em dezembro de 2012, o país sofreu com a passagem do tufão Bopha, que causou mais de mil mortes e cerca de US$ 350 milhões em danos. Nas duas últimas semanas dois tufões atingiram esse país, que pode sofrer mais 20 tormentas antes de terminar a temporada desses fenômenos climáticos em outubro.

“Os desastres naturais repercutem em tudo: na segurança alimentar, saúde, educação, infraestrutura, etc. Você não pode sair da pobreza se precisa reconstruir sua casa a cada dois anos”, afirmou Singh. Os objetivos de eliminação da pobreza ou quase qualquer coisa proposta pelos ODS “não têm sentido sem a redução das emissões de carbono”, assegurou.

As emissões de carbono produzidas pela queima de petróleo, carvão e gás prendem o calor do sol. Esta energia calórica adicional equivale à explosão diária de 400 mil bombas atômicas, semelhantes à que destruiu a cidade japonesa de Hiroxima em 1945, nos 365 dias do ano, segundo James Hansen, especialista em clima e ex-diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço (Nasa), dos Estados Unidos. Em consequência, agora o planeta está 0,8 grau mais quente.

“A mudança climática repercute em todos os fenômenos meteorológicos porque o entorno em que ocorrem está mais quente e úmido do que costumava ser”, explicou à IPS Kevin Trenberth, especialista em fenômenos extremos e cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, dos Estados Unidos. A mudança climática não necessariamente provoca os desastres naturais, mas não há dúvidas de que os agrava, afirmou.

Os ODS devem incorporar questões do clima e vias para o desenvolvimento baixo em emissão de carbono, disse Bernadette Fischler, copresidente da britânica Beyond 2015, uma aliança de mais de mil organizações da sociedade civil que trabalham pela solidez e eficácia dos ODS. “A mudança climática é um problema urgente e tem de estar muito visível nos ODS”, opinou à IPS.

No rascunho atual dos ODS, o clima é o objetivo 13, que pede aos países que “adotem medidas urgentes para combater a mudança climática e suas consequências”. Não há metas de redução das emissões, e em sua maioria se referem apenas à adaptação frente aos próximos fenômenos do clima. “Os países não querem adiantar suas posições nas negociações da ONU sobre mudança climática”, pontuou Lina Dabbagh da Climate Action Network, uma rede mundial de organizações ambientalistas.

A Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC) habilita a negociação para adotar um novo tratado sobre o clima mundial em 2015. Após cinco anos de conversações, não houve progressos em temas fundamentais. “Os ODS são uma grande oportunidade para avançar no clima, mas o objetivo climático é débil e não há um programa de ação”, apontou Dabbagh à IPS.

A redação final do rascunho dos ODS foi um processo extremamente politizado, o que gerou um texto muito cauteloso. As alianças e divisões entre os países foram muito semelhantes às existentes nas negociações da CMNUCC, incluída a divisão entre o Sul em desenvolvimento e o Norte industrial, destacou Dabbagh. Segundo Fischler, os governos estão preocupados com a mudança climática e suas consequências, mas existe uma forte discordância sobre com refleti-lo nos ODS, e alguns pretendem que sejam mencionados apenas no preâmbulo do projeto final.

Países como a Grã-Bretanha acreditam que 17 objetivos são muitos e é possível que alguns sejam eliminados no último ano das negociações, que começarão quando os ODS forem apresentados formalmente à Assembleia Geral da ONU, no dia 24 de setembro. Um dia antes, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, organizará uma cúpula climática com os chefes de governo de muitos países, com a intenção de colocar em andamento o processo para um ambicioso tratado internacional sobre o clima no próximo ano.

“A sociedade civil pressionará fortemente durante a cúpula para que o clima seja uma parte integral dos ODS”, afirmou Dabbagh. Porém, acrescentou, resta muito a ser feito para que os responsáveis políticos e as pessoas compreendam que a ação climática é a chave para eliminar a pobreza extrema e alcançar o desenvolvimento sustentável. Envolverde/IPS

(IPS)

Pan-Amazônia à brasileira (Agência Pública)

Ambiente
02/12/2013 – 11h07

por Bruno Fonseca e Jessica Mota, para a Agência Pública

gasoduto Pan Amazônia à brasileira

Gasoduto de Camisea no Peru. Foto: Divulgação Skanska

Obras negociadas pelo BNDES na Amazônia sul-americana incluem hidrelétrica com rachaduras, gasoduto com vazamentos e rodovia que estremeceu a presidência da Bolívia.

Na vertente leste da Cordilheira dos Andes, início da Amazônia Peruana, o dinheiro brasileiro começa a erguer uma barragem de 200 metros de altura – e trata-se de muito dinheiro. São mais de US$ 320 milhões em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), quantia que representa mais de um quarto do custo total da bilionária hidrelétrica de La Chaglla, que será uma das três maiores usinas do Peru em 2015, quando deve ser concluída.

Quem toca as obras, no Rio Huallaga, a mais de 400 km da capital, Lima, é a gigante brasileira Odebrecht. A usina é uma peça importante para a Odebrecht, que tem olhos especiais para o território peruano, onde atua há 33 anos e possui ao menos outros nove empreendimentos (AQUI AQUI) em execução, desde rodovias a gasodutos e portos.

Há razões de sobra para justificar o interesse da Odebrecht no Peru. As licitações para megaempreendimentos são menos concorridas no país vizinho que em terras brasileiras, onde há mais empreiteiras a disputar o filão. Tomemos como exemplo a própria usina de La Chaglla. Simplesmente não houve concorrência na licitação. Segundo reportagem da revista Carta Capital, o único adversário possível, a empresa peruana Chancadora Centauro, desistiu ainda na fase de estudos, alegando não ter condições de cumprir o prazo.

A conexão com a costa oeste do Peru é também um caminho precioso para os produtos brasileiros atingirem o Oceano Pacífico. Assim, uma empreiteira como a Odebrecht passa a contar com o apoio de outras empresas brasileiras que, por sua vez, ainda podem trazer consigo o suporte de financiadores públicos para grandes empreendimentos. É este o caso dos investimentos no porto de Bayovar, construído pela Odebrecht a partir de dinheiro da mineradora Vale para escoar sua produção de fosfato a partir de uma mina cujos investimentos chegaram a mais de US$ 560 milhões de dólares. (AQUI) A Vale, por sua vez, trouxe a Andrade Gutierrez, que conseguiu dinheiro do BNDES para construção de uma usina de dessalinização da água fornecida à mina. O BNDES, como de costume, não revela quanto repassou à Andrade Gutierrez através do fomento à contratação pós-embarque (leia mais sobre a falta de transparência do BNDES aqui).

Já na costa leste, a Amazônia Peruana é uma área estratégica para a produção de energia. Estratégica porque a alta declividade em algumas regiões permite represas com menor área de inundação e maior potencial energético. Mas também porque possibilita a venda de energia para o Brasil e, com isso, conquista o coração de financiadores públicos do porte do BNDES. Tanto é que, em 2010, Brasil e Peru firmaram um acordo energético para construção de hidrelétricas em território peruano para exportar energia para o Brasil (AQUI), consolidação de um namoro que começou em 1997 a partir de um memorando de entendimento sobre cooperação em energia (AQUI).

Em contato com a Pública, o BNDES, entretanto, se recusou a comentar quais projetos de hidrelétricas peruanas estariam sendo avaliados pelo banco. “O BNDES não faz comentários sobre se um projeto está ou não sendo analisado pela instituição. Podemos dizer apenas que nenhum daqueles projetos foi até o momento aprovado ou contratado pelo BNDES”, informou a assessoria, depois de uma evasiva troca de 27 e-mails com a Pública.

Fato é que, em 2011, a pressão de comunidades indígenas levou a Odebrecht a desistir da construção da usina de Tambo 40, na região Central do país, que seria financiada pelo BNDES. Os grupos populares contestavam a previsão de alagamento de 73 mil hectares de florestas amazônicas e o deslocamento de 14 mil pessoas (AQUI). A hidrelétrica seria construída pela brasileira OAS.

perfuracao Pan Amazônia à brasileira

Perfuração de túnel nas obras da Hidrelétrica-de Chaglla, no Peru. Foto: Divulgação Odebrecht

BNDES financia exploração de gás e tragédia ambiental no Peru

O projeto de gás Camisea, no departamento de Cuzco, na Amazônia peruana, próxima ao estado do Acre, foi iniciado em 2003 por uma parceria público-privada, com grande aporte de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Localizado em uma região próxima a comunidades indígenas – como a Reserva Territorial Kugapakori, Nahua, Nanti (RTKN), onde vivem os índios Nahua, Nanti, Matsigenka e Mashco-Piro – o projeto foi visto com preocupação por ambientalistas. O objetivo era transportar gás natural e líquidos de gás natural até a área costeira do Peru, no Oceano Pacífico.

O Consórcio Camisea é liderado pela argentina Pluspetrol, junto à Repsol-YPF, Sonatrach, Hunt Oil, Techpetrol e SK Energy. Durante os primeiros anos de desenvolvimento do projeto, ocorrerm seis vazamentos de gás. Glenn Shepard, antropólogo e etno-botânico convidado pelo Import-Export Bank, dos Estados Unidos a integrar um painel de estudo – o South Peru Panel – sobre o projeto, como condição de empréstimo do banco à Hunt Oil, esteve na região durante duas semanas no final de 2011. Em seu blog, o especialista comentou o descaso com infraestrutura na região, que não tem nem saneamento básico, e ressaltou o que lhe disse um morador local: “não há vida para viver. Sem peixe, não há nada. A água está contaminada. Há muitas doenças”. (Leia o informe do antropólogo AQUIe o último relatório lançado pelo painel AQUI, ambos em inglês)

O BID chegou a realizar duas auditorias, e fez um empréstimo de US$5 milhões para o governo, destinado a fortalecer seu sistema de proteção ambiental e social associado ao projeto, de acordo com o próprio banco. A segunda parte do projeto recebeu aprovação de financiamento do Banco Interamericano em 2007 – não sem protestos de organizações ambientais, que alegaram omissão a certos critérios nas auditorias realizadas pelo BID, referentes a danos à biodiversidade e comunidades indígenas.

Em 2009, o BNDES aprovou um empréstimo para exportação da Confab Industrial S/A com destino à Transportadora de Gás do Peru, na modalidade de buyer’s credit, na qual o banco estabelece o contrato diretamente com a empresa importadora, por meio do exportador. Como sempre, o valor não é divulgado pelo banco. Este ano, o caso culminou em uma crise no governo peruano, com pedido de demissão do então vice-ministro de Interculturalidade do Peru, Paulo Vilca (leia mais AQUI).

BNDES na Bolívia: ex-ministro aponta má fama de empresas brasileiras

Os problemas envolvendo obras de empreiteiras brasileiras financiadas pelo BNDES se estendem pela região amazônica de outros países da América do Sul. Talvez um dos mais notórios exemplos é a construção da estrada San Ignacio de Moxos / Villa Tunari, na Bolívia – obra que se tornou um fiasco político e diplomático.

A estrada, também conhecida como rodovia Cochabamba-Beni, é um antigo antigo projeto do governo boliviano que cobria mais de 300 km, mas tomou corpo depois do BNDES firmar um contrato de US$ 332 milhões, através da aliança do então presidente Lula e o mandatário boliviano Evo Morales (AQUI). Faltaria à Bolívia apenas completar US$ 80 milhões para bancar a obra.

A construção da estrada foi entregue à empreiteira brasileira OAS em meio a uma delicada situação: pouco antes, a construtora brasileira Queiroz Galvão havia sido expulsa por não cumprir especificações do projeto de construção de duas rodovias no sul da Bolívia. As estradas apresentavam rachaduras nas obras e utilização de asfalto no lugar de cimento, segundo apontou o governo boliviano em 2007. A Bolívia chegou a decretar a prisão de um dos diretores da companhia, que escapou do país.

A situação foi revertida após negociações entre Brasil e Bolívia, mas novamente a Queiroz Galvão foi expulsa após divergências no custo de conserto das duas rodovias. A empresa afirmou por nota, na época, que iria buscar ressarcimento pelos danos pela “rescisão unilateral e injustificada do contrato pela Administradora Boliviana de Estradas”.

Após a desastrosa operação, a OAS assumiu o contrato de reparo das estradas e, coincidentemente, venceu a licitação para a construção da rodovia San Ignacio de Moxos / Villa Tunari na mesma época.

Apenas dois anos depois, em 2009, a OAS passou a ser investigada pela Controladoria-Geral da Bolívia após avaliações oficiais apontarem superfaturamento na estrada de Villa Tunari. Um estudo da Sociedade dos Engenheiros da Bolívia (SIB, em espanhol) afirmou que o preço de cada quilômetro era o dobro de outras obras na Bolívia, em locais de topografia similar. Além disso, a OAS foi a única empresa a participar da licitação.

Como se não bastasse, um trecho da rodovia passava dentro das terras do Parque Nacional y Territorio Indígena Isiboro-Secure (TIPNIS). O resultado: em agosto de 2011, a Confederação de Povos Indígenas da Bolívia (CIDOB) e outras organizações iniciaram uma marcha em oposição ao projeto, que durou meses e enfrentou prisões e espancamentos de manifestantes. A pressão popular foi tão intensa que balançou o primeiro governo de um indígena no país vizinho e, em outubro do mesmo ano, Evo Morales acabou promulgando uma Lei que impedia a rodovia de passar por TIPNIS e o declarava como território intangível.

O imbróglio acabou com o cancelamento do contrato com a OAS e o desgaste foi tamanho que, através da sua assessoria de imprensa, a empresa afirmou que atualmente não possui nenhum outro empreendimento na Bolívia.

O BNDES também foi afetado pela polêmica, e teve de publicar nota oficial afirmando que o banco havia determinado o cumprimento de todas as exigências ambientais cabíveis para que fosse firmado o contrato de financiamento à exportação de bens e serviços utilizados na estrada boliviana. “A assinatura do contrato foi condicionada às exigências usuais do BNDES, além de requisitos adicionais, elaborados em coordenação com o governo boliviano e fiscalizados por auditoria independente. Nos trechos da estrada que não passam por reserva indígena, o licenciamento ambiental já foi concluído, o que permitiu o início das obras”. Nenhum desembolso foi realizado pelo banco, visto que o contrato foi cancelado.

Mas, para Alejandro Almaraz, que foi vice-ministro de Terras do governo de Evo Morales até 2010 – e hoje é um dos maiores opositores da obra – todo o caso envolvendo a estrada do TIPNIS demonstra uma postura prejudicial das empresas brasileiras para com o povo boliviano, com conivência do governo local. “A imagem da empresa brasileira ficou muito desgastada, entretanto não é algo tão chamativo por não se tratar de nenhuma novidade. Está é a tradicional imagem das empresas construtoras brasileiras na Bolívia. Há várias décadas as empresas brasileiras têm uma espécie de monopólio na construção de estradas bolivianas, ao menos das grandes. Sempre houve esse tipo de denúncias, com bastante fundamento, mostrando superfaturamentos que beneficiam as empresas brasileiras. Isto é uma história eterna”, critica.

Para Almaraz, há pouca transparência sobre o tema na Bolívia. “Se abriu um processo judicial que, como tantos outros que envolvem agentes do governo, está congelado. Recentemente, pouco se fala [sobre o caso] na Bolívia e na imprensa. Tampouco há transparência sobre os ressarcimentos [entre a empresa brasileira e o governo boliviano] e na resolução do contrato” avalia.

Atualmente, a rodovia San Ignacio de Moxos / Villa Tunari segue em construção – exceto pelo trecho que passaria por TIPNIS – por empresas bolivianas. Entretanto, o governo boliviano vem realizando consultas com as populações afetadas para tentar retomar a construção do trecho (leia mais AQUI).

Imbróglios diplomáticos

Em 2004, o BNDES aprovou financiamento referente à exportação de bens e serviços da Odebrecht para a construção da hidrelétrica de San Francisco, na província amazônica de Pastaza, no Equador. O consórcio construtor contou também com as internacionais Alstom e Vatech.

A usina começou a operar em 2007, e no ano seguinte apresentou as primeiras falhas, que incluíam rachaduras em um dos túneis e defeitos em uma turbina. De seu lado, a Odebrecht afirmou que “durante seu primeiro ano de operação, a Central (hidrelétrica) trabalhou continuamente, sob a responsabilidade de empresa do governo equatoriano, e acima da capacidade projetada”, segundo comunicado. A empresa ainda alegou que as falhas se deviam a um aumento significativo de sedimentos” nas águas do rio Pastaza devido à erupção do vulcão Tungurahua, a 20 quilômetros da usina. Por outro lado, o governo equatoriano de Rafael Correa afirmou que a usina hidrelétrica apresentava “falhas estruturais” e exigiu uma indenização de US$ 43 milhões pelas perdas, além da reparação da obra.

A crise culminou com a emissão de dois decretos de Correa que pediam a tomada dos bens da construtora, o término de todos os contratos da empresa no país e expulsão de seus funcionários do território equatoriano. Foi o início de uma crise bilateral entre o Equador e o Brasil, com a declaração de que o governo de Correa não pagaria o crédito fornecido pelo BNDES para a importação dos serviços da Odebrecht para a concessionária equatoriana. Ao fim, o Equador voltou atrás, pagou o financiamento e, em 2010, entrou em acordo com a Odebrecht, que retomou suas operações no país.

mapa Pan Amazônia à brasileira

Mapa Investimentos negociados pelo BNDES na Pan-Amazônia

Como saber o que o BNDES faz na Pan-Amazônia?

Os diversos casos de conflitos socioambientais envolvendo os megaempreendimentos tocados por empresas brasileiras vêm se acumulando, e lançando dúvidas sobre a atuação das corporações brasileiras na Amazônia sulamericana – problema que se estende aos financiadores, sobretudo às instituições públicas como o BNDES, que, supostamente, deveria primar pelo desenvolvimento regional antes de abraçar tais projetos.

A situação se torna ainda mais dramática devido à dimensão dos investimentos do BNDES na região. Desde o início do governo Lula, o banco investiu mais de US$ 2 bilhões em apoios à exportação de empresas brasileiras somente para países que abarcam a Amazônia internacional (Bolívia, Colômbia, Equador, Bolívia e Venezuela). O principal país beneficiado é a Venezuela, que recebeu mais de dois terços desse valor (cerca de US$ 1,4 bi).

Toda essa quantia pode ser ainda maior, visto que o BNDES divulga apenas os números das exportações da modalidade de pós-embarque (quando o banco apoia a comercialização de bens e serviços nacionais no exterior), deixando de divulgar as cifras da modalidade de pré-embarque (quando o banco apoia a produção no Brasil das mercadorias que serão exportadas).

Além disso, o BNDES não disponibiliza uma lista clara de quais projetos no exterior foram ou estão sendo apoiados ou negociados pela instituição. A Pública enviou uma lista ao banco com quase 30 projetos, apenas da Pan-Amazônia (veja abaixo), que em algum momento haviam sido assinalados pela imprensa como destinos de financiamento do BNDES. Apenas o projeto da hidrelétrica de Chaglla foi confirmado pelo banco – a todos os demais, o BNDES se recusou a comentar, ainda que alguns deles tivessem documentos do Itamaraty que comprovavam o interesse do Governo Brasileiro em financiar obras bilaterais através do banco. O BNDES também se recusou a comentar quais motivos poderiam ter levado ao cancelamento do financiamento desses projetos e até mesmo se o banco ainda estaria em processo de avaliação dos contratos. Ou seja, o BNDES e o Governo Federal argumentam sigilo bancário para negar uma gama gigantesca de informações – desde negociações em curso até valores e projetos beneficiadas – e defender que o sigilo tem supremacia sobre o direito à informação da sociedade brasileira.

Veja a lista de projetos enviada à assessoria de imprensa do BNDES no link original da matéria.

A série BNDES na Amazônia é uma parceria da Agência Pública com O Eco.

** Publicado originalmente no site Agência Pública.

Megaport (POPSCI)

The robot-staffed, windmill-powered Dutch port poised to become the most efficient cargo handler ever.

By Andrew Rosenblum; Posted 04.26.2013 at 2:20 pm

The Most Efficient Cargo HandlerThe Most Efficient Cargo Handler:  Courtesy Port of Rotterdam; Inset A: Courtesy APM Terminals; Inset B: Paul Wootton; Inset C: Courtesy APM Terminals; Inset D: Courtesy Port of Rotterdam

Business is booming at Europe’s largest port, in Rotterdam, the Netherlands, which sees the lion’s share of the continent’s imports and exports. About 34,000 ships and 12 million shipping containers—each large enough to hold 27 refrigerators, 175 bicycles, or 2,500 pairs of jeans—already pass through it each year. But that’s nothing compared with the 32 million containers it will handle by 2035. With no land for expansion, the Port of Rotterdam Authority has approved a $4-billion project to turn four square miles of 66-foot-deep ocean into dry ground for what will likely become the most advanced port in the world, Maasvlakte 2. The new facility will include automated container-moving vehicles powered by 13-ton batteries in place of diesel and a harbor so deep it will accommodate superships that haven’t even been built yet. So far, dredging boats have vacuumed up more than seven billion cubic feet of sand from the ocean to fill in the new site, which will open its first terminal next year. When the entire port is finished, in 2035, it will see enough containers each month to circle half the Earth.

FASTER

Modern terminals move no more than 30 containers an hour. At Maasvlakte 2, automated equipment will blow past that rate and improve overall efficiency by up to 50 percent. People will control ship-to-shore cranes [A] remotely from an office. Then, automated ground vehicles [B] will grab a container or two and navigate by following transponders in the pavement. Rather than wait in line for a crane to unload its cargo, the vehicles will unload themselves with built-in hydraulic lifts. And instead of polluting and noisy diesel engines, they will run on rechargeable, 13-ton lead-acid batteries. After an eight-hour shift, the vehicles will enter a robotic battery-exchange station [C] to swap for a fresh one.

DEEPER

The world’s largest container ship, the CMA CGM Marco Polo, is larger than an aircraft carrier, and superships [D] of the future will be even bigger. That’s because the more goods crammed onto a vessel, the cheaper the shipping cost per ton. The 16,000-container Marco Polo requires a port at least 53 feet deep. Berths at Maasvlakte 2 will be six feet deeper than that, appropriate for ships that carry 18,000 containers or more.

GREENER

If the world’s shipping industry were a country, its carbon footprint would be the sixth largest. But this port is pushing for electric container-moving vehicles, cleaner engines on water and land, and harbored ships that use electric shoreside power. The port authority plans to shift goods onto more efficient rail [E] and inland ships to cut container-truck traffic by 25 percent by 2030. Electricity will probably come from windmills and two 1,100-megawatt coal and biomass electric plants that will capture most of their carbon dioxide. The port authority has also launched a large-scale carbon-capture and storage demo program to put 1.2 million tons of CO2 a year in exhausted undersea oilfields.

MORE FLOODPROOF

Manmade beaches and dunes, held in place by wind-resistant marram grass, form a soft seawall [F] on the port’s south and west edges. To protect the northwest side from stronger storms, engineers completed a more expensive hard seawall [G]: sand covered by stone, topped off by 19,558 44-ton concrete blocks—likely the largest concrete blocks in all of Europe. Computer modeling suggests the seawall could withstand waters 18 feet above sea level.

This article originally appeared in the May 2013 issue of Popular Science.

Apenas 33% dos brasileiros ligam felicidade a dinheiro (OESP)

Por Gabriela Vieira | Estadão Conteúdo – qui, 25 de abr de 2013

A intrigante pergunta ‘o que é felicidade?’ foi mais uma vez objeto de pesquisa. O Instituto Akatu entrevistou 800 pessoas de doze capitais do País e concluiu que mais de 60% dos entrevistados relacionaram o sentimento com a saúde e o convívio social com família ou amigos. Em seguida apontaram qualidade de vida. O quesito “dinheiro” veio em quarto lugar entre os itens que mais fazem as pessoas felizes. Segundo a “Pesquisa Akatu 2012: Rumo à Sociedade do Bem-Estar”, divulgada nesta quinta-feira, 25, apenas cerca de três em cada dez brasileiros (33%) indicaram a tranquilidade financeira em suas respostas.

O levantamento também destacou oito temas (afetividade, alimentos, água, durabilidade, energia, mobilidade, resíduos e saúde) nos quais os entrevistados escolheram, aleatoriamente, entre caminhos considerados sustentáveis ou “de sociedade de consumo”. “Em cinco dos oito temas predominaram as escolhas sustentáveis”, indica o diretor presidente do Instituto Akatu, Hélio Mattar.

Ocorreu um empate entre as escolhas nas temáticas sobre energia e resíduos. Apenas no assunto saúde a maioria das pessoas optou pela opção consumista, que era a de possuir um bom plano de saúde. “Essa resposta na verdade é condizente com o que as pessoas consideraram ser felicidade. Ela revela mais uma preocupação com a saúde e com a precariedade do sistema público. Até mesmo porque a outra opção consistia em práticas preventivas, como ter mais lazer e fazer exercícios físicos”, explica Mattar.

Consumo consciente

Ainda foi possível concluir que o número de consumidores conscientes é maior quanto mais alta a classe social dos entrevistados. No entanto, destaca Mattar, a tendência à maior preferência pelo “caminho da sustentabilidade” pode ser verificada em todas as classes econômicas. Para o diretor da Akatu, algumas práticas sustentáveis ainda têm o fator econômico como limitador. É o caso da compra de produtos orgânicos ou provenientes de materiais reciclados, que costumam ser mais caros do que os regulares.

Indígenas ameaçam guerra para barrar hidrelétricas no rio Tapajós (Valor Econômico)

JC e-mail 4671, de 25 de Fevereiro de 2013.

Um grupo de líderes de aldeias localizadas no Pará e no norte do Mato Grosso esteve em Brasília para protestar contra ações de empresas na região

Não houve acordo. O governo teve uma pequena amostra, na semana passada, da resistência que enfrentará para levar adiante seu projeto de construção de hidrelétricas ao longo do rio Tapajós, uma região isolada da Amazônia onde vivem hoje cerca de 8 mil índios da etnia munduruku. Um grupo de líderes de aldeias localizadas no Pará e no norte do Mato Grosso, Estados que são cortados pelo rio, esteve em Brasília para protestar contra ações de empresas na região, que realizam levantamento de informações para preparar o licenciamento ambiental das usinas.

Os índios tiveram uma reunião com o ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão. Na mesa, os projetos da hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e de Jatobá, dois dos maiores projetos de geração previstos pelo governo. Lobão foi firme. Disse aos índios que o governo não vai abrir mãos das duas usinas e que eles precisam entender isso. Valter Cardeal, diretor da Eletrobras que também participou da discussão, tentou convencer os índios de que o negócio é viável e de que eles serão devidamente compensados pelos impactos. Os índios deixaram a sala.

Para o cacique Arnaldo Koba Munduruku, que lidera todos os povos indígenas da região do Tapajós, o resultado do encontro foi negativo. “Nosso povo não quer indenização, nem quer o dinheiro de usina. Nosso povo quer o rio como ele é”, disse Koba ao Valor. “Não vamos permitir que usinas ou até mesmo que estudos sejam feitos. Vamos unir nossa gente e vamos para o enfrentamento. O Tapajós não vai sofrer como sofre hoje o rio Xingu”, afirmou o líder indígena, referindo-se às complicações indígenas que envolvem o licenciamento e a construção da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA).

Numa carta que foi entregue nas mãos do secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, os índios pediram “que o governo brasileiro respeite a decisão do povo munduruku e desista de construir essas hidrelétricas”. No mesmo documento, os índios cobram agilidade na investigação da morte de Adenilson Kirixi Munduruku, que foi assassinado com três tiros em novembro do ano passado, na região do Teles Pires, rio localizado no norte do Mato Grosso e que forma o Tapajós, em sua confluência com o rio Juruena.

Os índios se negaram a assinar um documento apresentado pela Presidência, que previa compromissos a serem assumidos pelo governo, por entenderem que se tratava de uma consulta prévia já atrelada ao licenciamento das usinas do Tapajós. “Viemos até aqui para cobrar a punição pelo assassinato de nosso irmão, mas vimos que a intenção do governo era outra. Ele queria mesmo era tratar das usinas, mas não permitimos isso”, disse o líder indígena Waldelirio Manhuary Munduruku. “Não vamos nos ajoelhar. Não haverá usinas, nem estudos de usinas. Iremos até o fim nessa guerra.”

No balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) divulgado na semana passada, o cronograma de São Luiz do Tapajós e de Jatobá estabelece o mês de setembro para conclusão dos estudos ambientais das usinas. O levantamento de informações na região começou a ser feito pela Eletrobras há pelo menos um ano e meio. Analistas ambientais e técnicos da estatal têm enfrentado resistências na região para colher informações dos moradores.

O grupo de empresas que o governo reuniu em agosto do ano passado para participar da elaboração dos estudos dá uma ideia do interesse energético que a União tem no Tapajós. Com a Eletrobras estão Cemig Geração e Transmissão, Copel Geração e Transmissão, GDF Suez Energy Latin America Participações, Endesa do Brasil e Neoenergia Investimentos.

Com as usinas de São Luiz e Jatobá, o governo quer adicionar 8.471 megawatts de potência à sua matriz energética. O custo ambiental disso seria a inundação de 1.368 quilômetros quadrados de floresta virgem, duas vezes e meia a inundação que será causada pela hidrelétrica de Belo Monte. O governo diz que é pouco e que, se forem implementadas todas as usinas previstas para a Amazônia, menos de 1% da floresta ficaria embaixo d”água.

(André Borges – Valor Econômico)

O recorde de Dilma (Brasileiros)

3 de fevereiro de 2013 – 10:37

Metade dos impostos arrecadados pelo governo são destinados a programas sociais

50,4%. Essa é a porcentagem do que o governo federal gasta de sua arrecadação com programas sociais e verbas destinadas diretamente a famílias registradas em políticas de auxílio. As informações são da Folha de S. Paulo.

O número, um recorde nacional, mostra que entre regime geral de previdência, amparo ao trabalhador e assistência, o governo da presidenta Dilma Rousseff distribuí R$ 405,2 bilhões. O valor representa 9,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

O aumento das despesas do governo com medidas sociais podem ser creditados ao aumento do salário mínimo, que subiu 7,5% acima da inflação, maior guinada desde o ano de 2006. Assim como as aposentadorias, pensões e benefícios trabalhistas, os programas assistências seguem o salário mínimo como referência.

A política social explica a carga de impostos nacional, que hoje representa 35% da arrecadação do governo. Em outros países emergentes da América Latina e da Ásia, a carga tributária representa entre 20% e 25% da arrecadação. Recentemente, a Argentina subiu seus impostos e se aproximou dos valores tributados arrecadados pelo Brasil.

Queda da taxa de desemprego

Os valores investidos pelo governo federal parecem estar surtindo efeito junto à população. Na última quinta-feira, dia 31, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no país em 2012 foi de 5,5%, a menor da série histórica iniciada no ano de 2003.

Em relação ao seguro-desemprego, um novo decreto editado recentemente apresenta mudanças para quem deseja usufruir do benefício. Agora, trabalhadores que ingressarem no programa pela terceira vez terão que participar de curso profissionalizante para garantir o direito.

Programa símbolo do governo de Lula, o Bolsa Família representa a maior despesa entre os programas sociais mantidos pelo governo federal. Criado há quase dez anos, o programa passou por significativa reformulação sob a tutela de Dilma Rousseff.

A linha de ação da presidenta busca beneficiar famílias que estão abaixo da linha da miséria. Enquadram-se nessa categoria famílias cujo rendimento é inferior ao valor de R$ 70 por pessoa. Em virtude dessa meta, a despesa com o programa saltou de R$ 13,6 bilhões no fim do governo Lula para R$ 20,5 bilhões em 2012. O Bolsa Família beneficia 13,9 milhões de famílias em todo o Brasil.

Dez anos de Fome Zero ajuda Guaribas (PI) a elevar IDH (Agência Brasil)

Da Agência Brasil – 03/02/2013

Lucas Rodrigues
Enviado Especial da EBC

Guaribas (PI) – Lançado no dia 3 de fevereiro de 2003, no município com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, o Programa Fome Zero foi criado com o objetivo de erradicar a miséria, com a transferência de renda e garantindo o alimento para as famílias que viviam na extrema pobreza. Hoje, o Brasil ainda tem pelo menos 5,3 milhões de pessoas sobrevivendo com menos de R$ 70 por mês, diferentemente do início dos anos 2000, quando eram 28 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Nos último dez anos, esse número vem diminuindo. Em parte, por causa de políticas públicas de ampliação do trabalho formal, do apoio à agricultura e da transferência de renda. Hoje, a iniciativa, que ganhou o nome de Bolsa Família, chega a quase 14 milhões de lares. Ela nasceu do Programa Fome Zero, criado para garantir no mínimo três refeições por dia a todos os brasileiros. E foi do interior do Nordeste que essa iniciativa partiu para o restante do país.

Depois de dez anos, a Agência Brasil voltou a Guaribas, no sul do Piauí, escolhida como a primeira beneficiária do programa de transferência de renda. Localizada a 600 quilômetros ao sul da capital, Teresina, Guaribas não oferecia condições básicas para uma vida digna de sua população: faltava comida no prato das famílias, que, na maioria das vezes, só tinham feijão para comer. Não havia rede elétrica e poucas casas tinham fogão a gás.

Mulheres e crianças andavam quilômetros para conseguir um pouco de água e essa busca, às vezes, durava o dia inteiro. A dona de casa Gilsa Alves lembra que, naquela época, “era difícil encontrar água para lavar roupa”, no período de seca. “Às vezes, até para tomar banho era com dificuldade”.

O aposentado Eurípedes Correa da Silva não se esquece daquele tempo, quando chegou a trabalhar até de vigia das poucas fontes que eram verdadeiros tesouros durante os longos períodos de seca, com água racionada. Hoje, a água chega, encanada, à casa dele.

Pai de sete filhos, Eurípedes tem televisão e geladeira. Além do dinheiro da lavoura e da aposentadoria, ele recebia o benefício do Fome Zero e agora conta com o Bolsa Família. O benefício chega a 1,5 mil lares e a meta é alcançar 2 mil neste ano, o que representa oito em cada dez moradores da cidade. A coordenadora do programa em Guaribas, Raimunda Correia Maia, diz que “o dinheiro que gira no município, das compras, da sustentação dos filhos, gera desenvolvimento”.

A energia elétrica também chegou a Guaribas e trouxe com ela internet e os telefones celulares. No centro da cidade, há uma praça com ruas calçadas e uma delegacia, além de agências bancárias, dos Correios e escolas. A frota de veículos cresceu e, hoje, o que se vê são motos, em vez de jegues.

O município conquistou o principal objetivo: acabar com a miséria. Mesmo assim, ainda está entre os mais pobres do país e enfrenta o êxodo dos jovens em busca de emprego em grandes cidades. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2007, quase 10% dos moradores deixaram Guaribas.

Alan e Rosângela podem ser os próximos. O Bolsa Família e as melhorias na cidade não foram suficientes para manter o casal no município, já que ali os dois não encontram trabalho. Os irmãos já foram para São Paulo e é impossível sustentar a família de oito pessoas com um cartão (do Bolsa Família) de R$ 130.

Quem escolheu ficar na cidade sabe que muita coisa tem que melhorar. O esgoto ainda não é tratado; algumas obras não saíram do lugar, como a do mercado municipal. Até o memorial erguido em homenagem ao Fome Zero está abandonado há anos. Longe de Teresina, os moradores se sentem isolados, principalmente por causa da dificuldade de chegar à cidade mais próxima: são 54 quilômetros de estrada de terra, em péssimo estado, até Caracol.

Isso torna difícil escoar a produção de feijão e milho e faz com que todos os produtos cheguem mais caros. A dificuldade de acesso também prejudica uma das conquistas da região: a unidade de saúde. A doméstica Betânia Andrade Dias Silva levou o filho de 5 anos para uma consulta e não encontrou médicos.

Há mais de um mês, o atendimento é feito apenas por enfermeiras e por um dentista. Mesmo oferecendo um salário que chega a R$ 20 mil, a prefeitura diz que não consegue contratar médicos. O jeito é mandar os pacientes mais graves para as cidades vizinhas.co. Ela desabafa: “É ruim né?! Principalmente numa cidade pequena, na qual você precisa de um atendimento melhor, tem que sair para ir para outra cidade, Caracol, São Raimundo, que fica longe daqui. Por exemplo, caso de urgência, se você estiver à beira da morte, acaba morrendo na estrada… Então, é difícil”.

Mas essa situação pode começar a mudar ainda neste ano. Segundo informou a Secretaria de Transportes do Piauí, o trecho da BR-235 que liga Guaribas a Caracol deve começar a ser asfaltado em outubro. Por enquanto, está sendo asfaltado outro trecho da rodovia, entre Gilbués e Santa Filomena.

O casal Irineu e Eldiene saiu de Guaribas para procurar trabalho em outras cidades, mas voltou. Agora eles levantam, pouco a pouco, uma pousada no centro da cidade. Irineu diz que a obra que está fazendo não é “nem tanto pensando no agora”, é para o futuro. “Estou vendo que a cada ano que está passando, Guaribas está desenvolvendo mais”.

A expectativa de Irineu e Edilene é resultado da mudança dessa que já foi a cidade mais pobre do país. Mesmo com dificuldades, os moradores de Guaribas, agora, olham para o futuro com mais esperança e otimismo. Eldiene garante que vai ficar e ver a pousada cheia de clientes.

Veja aqui galeria de fotos de Guaribas na época do laçamento do Fome Zero.

Edição: Tereza Barbosa

Brazil’s ‘Poor’ Middle Class, And The Poor That No Longer Serve Them (Forbes)

By Kenneth Rapoza – 1/22/2013 @ 11:41AM |8.546 views

Let me preface this by saying that this is not a jab at Brazil. This is actually a story that shows how Brazil’s rising tide is lifting all boats. The poor have more opportunities than ever before. They are earning more money (for some, how’s 56 percent sound?). And for the middle class that used to depend on them to wash their dishes and make their lunch, those days of luxury are over.

Bemvindo a vida Americana, meu bem!

*       *       *

My “house.” Edificio Bretagne. How I miss it. Right in the fold, top floor, all three windows were mine all mine. And a maid cleaned them for me.

Ask an expat what they love most about living overseas and they will inevitably tell you this: the taxes and the maid service. That’s right. Maids. And not for the rich, mind you, but for middle-of-the-road, beer-from-a-can drinking, 2.5 GPA achieving riff-raff professionals. Whether they’re living in Dubai, Mumbai or Brazil, they all love their maids. It’s a luxury they cannot afford back home.

I lived in Brazil for 10 years. I left in March 2010. Maids cooked my lunch, always a three courser. Rice. Beans, sometimes black, sometimes Carioca-style, which meant brown. Meat. Salad. Desert. Fresh squeezed orange juice or Swiss lemonade. Passion fruit. Guarana. Then, she did my dishes. Afterwards, she washed my clothes and pressed them.

As time went on, maintaining a daily maid became too costly. I cut back. I had a maid just twice a week. She cleaned. She did laundry. I cooked. I paid her R$80 a day, or R$140 a week, which was around $78 for two full days of work. Her name was Hélia. Me and my girls loved Hélia. I hope she is doing well. Anyway…

We lived in this beautiful building pictured here in São Paulo, in the Higienopolis neighborhood. A colleague of mine from one of the big U.S. newswires lived there, too. Our children hung out together a lot, especially in the swimming pool, which was surrounded by palm trees that housed these small green parrots that blended in with the palm leaves. He too had a maid, only his maid was there every day and sometimes on the weekends. A female columnist from Folha de São Paulo newspaper lived in the building, too. She also had a daughter. Only her daughter had a maid and a nanny, seven days a week. This was an early 40-something year old newspaper columnist, not a rock star.

Like me, my colleague was an American living a life we could never afford in the States. Ever. We were both scum sucking reporters waiting for the ax to fall on our necks. He, a little richer and hopeful; me, a little younger and angrier. One thing we all appreciated was being able to afford the extra help.

My swimming pool. We even had a barman. Though he was a grump. Me, my daughter and the daughter of an American reporter colleague called him Mr. Grumpy Pumpkin Man during our Halloween parties. Ahhh, the life…

Over the last 8 years, the income of Brazil’s domestic workers has risen by an estimated 56 percent, according to the Brazilian Institute for Geography and Statistics, IBGE. It’s a hard number to quantify because every single maid in Brazil is paid under the table in cash. By comparison, the average income in general rose by 29 percent. Nationwide, the average salary paid to domestic servants runs around R$721 a month, or around $360. However, that figure is double or triple in big cities like São Paulo and Rio de Janeiro. The income of Brazilian maids has risen by an average of 6.7 percent in just one year in real terms. Adding to the price tag is a steady decline in the number of domestic workers in the market.

Quite frankly, Brazil’s economy is getting richer. The poor have better things to do than clean up after middle class teenagers who still haven’t learned to fold and put away their own  T-shirts.

Short supply, high prices. Many Brazilians cannot afford the help. Welcome to your American Dream, Brazil!

Carol Campos is an administrator at Banco do Brasil in São Paulo. It’s a nice, full-time middle class gig. She lives in Higienopolis. I’ve been to her house many times. Our kids are friends. They went to school together. She used to have a maid every day when her first child was born, then down to a couple days a week and now — because of the rising cost of living — she tells me, “We are now down to just one day per week. It’s too expensive.” She pays her maid R$90 ($45) a day.

A host of new labor laws designed to protect informal workers drove up costs. The government wanted the working poor, most of them women, to have enough money to save for retirement and, of course, healthcare. That started driving up prices around the year 2000.

“About four years ago, when me and my sister were in college and working, my family all decided to just hire a ‘diarista’,” says , Leoberto José Preuss, a systems analyst at Brazilian IT firm TOTVS in Joinville, Santa Catarina, one of the more middle class states in the country.  Back then he says, a diarista, a maid that just comes once in a while and charges a flat day rate, charged just R$60 a day to cook and clean a house. “You’re lucky if you find anyone for less than 90,” he says. “We have someone come three days a week. It’s difficult to find anyone available these days.”

It will get harder. And as time goes on, it will definitely get more costly. So costly, in fact, that the majority of middle class Brazilians will no longer have a maid.

The government recently required full time domestic workers to receive the coveted “thirteenth salary”, a whole month’s work of pay in December, plus workman’s comp through the FGTS tax.  Brazilian maid service is becoming professionalized, and that has pulled the rug out from the middle class that has come to depend on them to keep their house in order.

A poll from Folha de São Paulo this month asked respondents if they would be able to afford a maid given the new labor laws. Out of the 1,177 on line respondents, 44 percent said no, 26 percent said they’d have to cut back on hours. So a total 70 percent are starting to get used to the fact that the good ole “Banana Republic” days are gone.

*       *       *

Sarah Castro, 28, is also from Santa Catarina. She is one of the Brazilian middle class that grew up with a live-in maid, her very own Mary Poppins. For Americans, this is an imperial wet dream.  All that’s missing is Tinkerbell. In the dream, you’re from the rich nation before the days of labor rights, and your family can afford to hire your neighbors wife to clean the house, while he cleans your chimney.  Those days are gone in London. They are ending in Florianopolis, Santa Catarina, where Sarah was raised and now works as a reporter.

“Our maid was named Nice. She lived with us and was part of our family. I miss her. There was no one like her,” she says. “Nowadays, we only have a maid once a week.  A good maid is hard to find.”

Let’s rephrase that. Barring a dystopian future, by the time Sarah is in her 40s, an affordable maid will be impossible to find.

I was in my early 20s when I first came to Brazil in 1995, I lived with a family in a city called Londrina, population around 500,000.  It’s in the center of Parana state, an agribusiness boom town.  The father was a professor at the local university.  The mother owned a small business, operating a clothing company out of what was once their garage. They had one weaving machine that made fabric 24 hours a day, 7 days a week. I can still hear that thing moving back and force, swish-swoosh; swish-swoosh, swish-swoosh. They were Brazil’s middle class. By my standards, they were rich because six days a week they had a maid who cooked and cleaned for them so both parents could work. The maid served them. She picked up after the four children. She cleaned up the dog’s mess in the yard.

Here’s the rub, I was raised by a maid. My mother didn’t graduate from high school. But she grew up in America. A maid that didn’t go to school in Brazil doesn’t live like one that grew up in the U.S.  The Brazilians couldn’t believe that a maid’s son had a basketball pole in his yard, an above ground pool and that my family had three cars. Their car ran on ethanol, and that thing was a piece of junk; a jalopy is more like it. Damn, meu filho; I had aCamaro Berlinetta!

Inequality in Brazil allowed the middle class to enjoy a life of luxury their American peers envied.

I never saw a messy Brazilian house in the decade I lived there. Everything was in its place.  Two-income households in São Paulo, as busy as a two-income household in New York, never had a dish in the sink, an unmade bed, or a laundry basket overflowing onto the bathroom floor.

Embrace the mess, Brazil. (And pick up those socks!)

“I have a maid come once every 15 days and that’s it,” says Keli Bergamo, a lawyer in Parana state. “The cooking, the clothes washing, I have to do myself. But I live alone. I know a lot of people who are cutting back. Brazilians will get crafty with the labor laws, though,” she says, adding that many wealthy Brazilians will avoid the full time labor rules by getting rid of full time maids and hiring part-timers in their place.

“These new laws make it more costly to maintain domestic help in Brazil,” she says. “A lot of people are going to give up this comfort and will have to divide the labor between the members of their household from now on.”

Direitos humanos: um estorvo para as esquerdas? (Le Monde Diplomatique Brasil)

Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos

por Deisy Ventura, Rossana Rocha Reis
07 de Janeiro de 2013

01181761(1)Mãe e filho dormem na rua em São Paulo ao lado do operário que opera britadeira. Renato Stockler/ Reuters

Entre os anos 1960 e 1980, numa América Latina esmagada por regimes ditatoriais, grande parte das esquerdas abraçou o discurso e a pauta dos direitos humanos. Em incontáveis casos, os direitos humanos foram o fulcro de movimentos e ações autoproclamadas esquerdistas. Retomada a democracia, o gozo dos direitos civis e políticos tornou possível que personagens, grupos e partidos identificados com esse campo chegassem ao governo em diversos Estados latino-americanos. Atualmente, o exercício do poder suscita questões sobre a concepção de direitos humanos tanto da esquerda que governacomo da esquerda que defende incondicionalmente esses governos, embora amiúde obnubilada em larguíssimas coalizões.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a interação entre os direitos humanos e a política no Brasil de hoje. As críticas ao governo pautadas pelos direitos humanos têm merecido uma virulenta reação. Pululam as contradições não apenas entre discurso e prática, mas também dentro dos próprios discursos, e entre certas práticas. É como se um projeto de transformação social prescindisse ou, em alguns casos, fosse considerado até mesmo incompatível com a garantia de certos direitos, paulatinamente convertidos em estorvos. Quem cobra do governo federal o respeito aos direitos humanos é acusado de fazer o jogo da oposição, supostamente pondo em risco um “projeto maior”. Argumentos conjunturais como os de que faltam os meios ou o momento não é oportuno para sua efetivação, confundem-se, a cada dia mais, com a minimização da importância dos direitos humanos.

Em resposta a mobilizações como as relacionadas à hidrelétrica de Belo Monte e aos índios Guarani-Kaiowá, entre outros episódios recentes, um número inquietante de autoridades governamentais não tem hesitado em difundir argumentos gravemente equivocados sobre direitos humanos, com efeitos nefastos não apenas sobre a agenda política, mas também sobre a opinião pública. Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos.

Os direitos humanos são burgueses. A relação entre a esquerda e os direitos humanos foi marcada pela interpretação oferecida por Karl Marx, principalmente em Sobre a questão judaica (1843),a propósito dos processos de construção da cidadania moderna. Para Marx, o reconhecimento da igualdade formal (jurídico-política) do indivíduo não é suficiente para a realização do ideal de emancipação humana almejado pelo socialismo. A afirmação de um direito natural tal qual expresso nas Declarações de Direitos Humanos seria, assim, a consagração do homem egoísta e do interesse privado. No entanto, avaliar a conjuntura atual pinçando da obra de Marx apenas sua concepção de direitos humanos, sem levar em conta sua crítica ao direito em geral, à política em si e, sobretudo, à existência do Estado, configura um reducionismo imperdoável, se não uma espécie de marxismo à la carte. Por outro lado, a emancipação humana, tal como imaginada por Marx, depende de mudanças estruturais, certamente inalcançáveis por meio de uma pauta adstrita aos direitos humanos. Contudo, essa constatação não diminui a importância histórica e tangível dos direitos humanos em processos emancipatórios. Se “o homem é um ser que esquece”, como diz um antigo provérbio, é preciso reiterar o que a história recente do Brasil e da América Latina nos ensina: a importância da emancipação civil e política na luta pela transformação da sociedade e da economia. É claro que os direitos humanos não são, nem devem ser, o objetivo final das esquerdas. Entretanto, nenhum sistema político pelo qual vale a pena lutar pode prescindir do respeito à dignidade humana e do feixe de direitos que dela deriva. Ademais, desafiada pela complexidade do presente, a esquerda não pode ser condenada a uma percepção de direitos humanos do século XIX.

Os direitos humanos são uma invenção ocidental, e a política de direitos humanos no plano internacional é uma forma de imperialismo. Embora a perspectiva do respeito à dignidade humana exista em diversas culturas e épocas, é indiscutível que a noção moderna de direitos humanos, base das normas internacionais nessa matéria, tem suas raízes intelectuais no Iluminismo, na Revolução Francesa e na independência norte-americana. Porém, o sentido de um conjunto de ideias não pode ser limitado ao contexto no qual ele foi produzido. Ao longo dos séculos, o conceito da igual dignidade dos indivíduos em liberdades e direitos mobilizou, no mundo inteiro, grupos e agendas muito diversificados. A revolução que levou à independência haitiana, por exemplo, não apenas reproduziu, mas reinterpretou e acrescentou direitos à Carta de Direitos do Homem e do Cidadão. Da mesma maneira, o movimento feminista, execrado pelos revolucionários franceses, valeu-se dos termos da Carta para formular suas demandas; e a Constituição mexicana de 1917 e os movimentos de libertação nacional e de reconhecimento de direitos coletivos apropriaram-se da ideia de direitos humanos e expandiram seu significado. Portanto, sua origem histórica e cultural não deve ser vista como um pecado original, já que não impediu a emergência de direitos que podem fundamentar a própria resistência às diferentes formas de imperialismo.

Incorporar a agenda de direitos humanos na política externa seria fazer o jogo dos Estados Unidos nas relações internacionais. Os Estados Unidos são grandes objetores e violadores do direito internacional. Por exemplo, lutaram contra a aprovação do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional; e, descumprindo promessas, mantêm aberta a base de Guantánamo, em Cuba. A instrumentalização do discurso dos direitos humanos por Washington, uma das marcas da Guerra Fria, confirmou sua atualidade, entre outros, nos casos das intervenções no Iraque e no Afeganistão. Na Líbia, em 2011, “a comunidade internacional” teria recorrido à intervenção militar a fim de “evitar o massacre” da população civil por um cruel ditador, um aliado do Ocidente frescamente descartado. O uso da força foi então autorizado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com base no princípio da “responsabilidade de proteger”. Trata-se de uma nova forma jurídica do antigo direito de ingerência, ampla o suficiente para derrubar o governo da Líbia e omitir-se diante do linchamento de Muamar Kadafi, ao mesmo tempo que dá guarida a graves violações de direitos humanos no Barein, na Síria e no Iêmen. Segundo o presidente Barack Obama, os Estados Unidos devem intervir, coletiva ou unilateralmente, quando seus “interesses e valores” forem ameaçados, sem preocupação com a coerência. O que prevalece é o interesse na preservação das zonas de influência, em detrimento de qualquer concepção de direitos humanos. Logo, para o Brasil, descartar o respeito aos direitos humanos como critério de sua política externa jamais constituiria uma forma de oposição à hegemonia dos Estados Unidos. É preciso opor-se aos atos, não aos pretextos.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) praticou uma ingerência inaceitável nos assuntos internos brasileiros no caso Belo Monte. A oposição à construção da usina é promovida pelos Estados Unidos. O recente ataque do governo federal ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos foi um desserviço às gerações futuras. Não se pode confundir a OEA com a Comissão ou a Corte interamericanas, e ainda menos com os Estados Unidos, que jamais aceitaram a Convenção Americana dos Direitos do Homem. A oposição à hidrelétrica de Belo Monte é legítima e genuinamente brasileira, vinculada à luta histórica pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação do meio ambiente. Ainda que imperfeitos, os mecanismos regionais de proteção aos direitos humanos são uma grande conquista dos povos, salvaguarda indispensável diante do autoritarismo que segue assombrando nosso continente. Os recentes golpes impunes em Honduras e no Paraguai, ambos avalizados pelos Estados Unidos, demonstram que os mecanismos regionais precisam ser valorizados.

Impor condicionalidades em termos de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente nos empréstimos concedidos pelo governo brasileiro a outros países é um tipo insuportável de interferência e uma forma de imperialismo. Na década de 1970, uma importante conquista da sociedade norte-americana foi a exigência de que os países beneficiados por empréstimos respeitassem determinados padrões de cumprimento de direitos humanos. Essa medida teve um impacto importante nas relações entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas, corroendo a sustentação interna da política norte-americana de apoio aos regimes autoritários e impondo constrangimentos ao Executivo. No contexto atual, em que bancos e agências do Estado brasileiro se tornam importantes fontes de financiamento de obras de infraestrutura na América Latina, é importante que os empréstimos concedidos e os acordos de cooperação incorporem a exigência de respeito aos direitos humanos. Longe de ser uma forma de ingerência, trata-se de garantir que o dinheiro dos contribuintes brasileiros não seja utilizado para financiar intervenções que comprometam a dignidade das populações envolvidas. Conceder financiamentos sem compromisso com a promoção de direitos é uma característica fundamental do mercado, não do Estado, necessariamente submetido ao interesse público.

Direitos civis e políticos são de direita, direitos econômicos e sociais são de esquerda. Os direitos humanos são, na verdade, indivisíveis. Longe de ser uma formalidade vazia, a afirmação da indivisibilidade é uma forma de proteção dos indivíduos contra a seletividade dos Estados. A identificação de alguns direitos com a direita e de outros com a esquerda, embora guarde relação com a geopolítica da Guerra Fria, aproxima-se perigosamente da justificativa apresentada pelos generais-presidentes brasileiros aos organismos internacionais, quando interpelados sobre as frequentes violações cometidas em nome da segurança nacional. Para eles, os avanços na área de saneamento básico, habitação e saúde constituíam a política brasileira de direitos humanos, enquanto as denúncias sobre torturas, prisões arbitrárias, assassinatos e desaparecimentos faziam parte de um complô comunista mundial.

O desenvolvimento é mais importante para as pessoas do que o respeito aos direitos humanos. Em um mundo com recursos materiais e humanos limitados, existem muitas escolhas difíceis a fazer. As exigências em relação a um governo vão muito além daquelas colocada pela pauta dos direitos humanos. No atual contexto de crise econômica mundial, com perspectivas de agravamento, o tema do desenvolvimento adquire importância renovada, e é natural que assim seja. Entretanto, o contexto econômico não pode servir de justificativa para o atropelamento de direitos humanos, sob pena de produzir, mais uma vez, um crescimento econômico que não se traduz em uma melhora real e equitativa do panorama social brasileiro. Nós já tivemos, no Brasil, desenvolvimento sem respeito aos direitos humanos. Não foi bom para as esquerdas.

O combate à miséria é a forma mais efetiva de combater a violação dos direitos humanos. O combate à miséria é parte fundamental de uma política de direitos humanos. Mais do que isso, podemos afirmar que, sem uma política de erradicação da miséria, a promoção dos direitos humanos está fadada ao fracasso. No entanto, ela não é suficiente para garantir a observância dos direitos humanos. Infelizmente, o conjunto de desigualdades que afetam a dignidade dos indivíduos em nosso país é muito mais amplo. Iniquidades e discriminações que envolvem questões de gênero, cor, orientação sexual, regionalismo e xenofobia exigem ações específicas. Uma sociedade menos desigual em termos econômicos não é sinônimo de uma sociedade que respeita igualmente os direitos humanos de todos os seus cidadãos. Quando a inclusão social se opera essencialmente pelo aumento do consumo, toda sorte de egoísmo pode ser favorecida.

O respeito aos direitos humanos é uma etapa já conquistada no Brasil. Atualmente, nosso problema seria a falta de meios, não a falta de consenso em relação aos princípios. Esperava-se que os direitos humanos alcançassem lugar de destaque na agenda política pós-redemocratização. Seria o momento de generalizar o acesso a esses direitos (prioridade de investimento em políticas sociais) e de afirmar a cultura dos direitos (os bens da vida não constituem privilégios de alguns, nem assistencialismo). Porém, grande parte da população brasileira acredita piamente que os direitos humanos são o maior obstáculo à sua segurança. A vulnerabilidade fala mais alto do que a cidadania. A erosão da perspectiva dos direitos é evidente em nosso tempo, e não apenas no Brasil. Cresce o respaldo eleitoral de grupos e partidos que militam abertamente contra direitos fundamentais já consagrados por lei. É chocante a maneira leviana com que temas como a tortura, o aborto ou a sexualidade, entre tantos outros, têm sido discutidos nos períodos eleitorais. Cresce também a estapafúrdia naturalização das alianças com esses grupos. É preciso reconhecer que a defesa incondicional dos direitos humanos está ameaçada nas campanhas e nos programas de governos de candidatos das esquerdas, mas, sobretudo, em suas gestões.

Por fim, um projeto de transformação da sociedade brasileira com vista à emancipação humana não pode prescindir da luta pelos direitos humanos. Há valores e parâmetros éticos – como o reconhecimento e o respeito pelas especificidades e pelas diferenças étnicas, de gênero e orientação sexual – que não podem ser negociados ou plebiscitados, seja em nome da democracia, do desenvolvimento ou de um suposto anti-imperialismo. Uma agenda positiva de direitos humanos deve estabelecer mínimos denominadores para a ação política. No momento em que os valores de mercado avançam sobre todos os governos, este talvez seja, ainda que temporariamente, nosso “projeto maior”.

Deisy Ventura
Professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, IRI-USP

Rossana Rocha Reis
Professora do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Disease Burden Links Ecology to Economic Growth (Science Direct)

Dec. 27, 2012 — A new study, published Dec. 27 in the open access journal PLOS Biology, finds that vector-borne and parasitic diseases have substantial effects on economic development across the globe, and are major drivers of differences in income between tropical and temperate countries. The burden of these diseases is, in turn, determined by underlying ecological factors: it is predicted to rise as biodiversity falls. This has significant implications for the economics of health care policy in developing countries, and advances our understanding of how ecological conditions can affect economic growth.

According to conventional economic wisdom, the foundation of economic growth is in political and economic institutions. “This is largely Cold War Economics about how to allocate property rights — with the government or with the private sector,” says Dr Matthew Bonds, an economist at Harvard Medical School, and the lead author of the new study. However, Dr Bonds and colleagues were interested instead in biological processes that transcend such institutions, and which might form a more fundamental economic foundation.

The team was intrigued by the fact that tropical countries are generally composed of poor agrarian populations while countries in temperate regions are wealthier and more industrialized. This distribution of income is inversely related to the burden of disease, which peaks at the equator and falls along a latitudinal gradient. Although it is common to conclude that economics drives the pattern of disease, the authors point out that most of the diseases that afflict the poor spend much of their life-cycle outside the human host. Many cannot even survive outside the tropics. Their distribution is largely determined by ecological factors, such as temperature, rainfall, and soil quality.

Because of the high correlations between poverty and disease, determining the effects of one on the other was the central challenge of their statistical analysis. Most previous attempts to address this topic ignored disease ecology, argue Bonds and colleagues. The team assembled a large data set for all of the world’s nations on economics, parasitic and infectious vector-borne diseases, biodiversity (mammals, birds and plants) and other factors. Knowing that diseases are partly determined by ecology, they used a powerful set of statistical methods, new to macroecology, that allowed variables that may have underlying relationships with each other to be teased apart.

The results of the analysis suggest that infectious disease has as powerful an effect on a nation’s economic health as governance, say the authors. “The main asset of the poor is their own labor,” says Dr Bonds. “Infectious diseases, which are regulated by the environment, systematically steal human resources. Economically speaking, the effect is similar to that of crime or government corruption on undermining economic growth.”

This result has important significance for international aid organizations, as it suggests that money spent on combating disease would also stimulate economic growth. Moreover, although diversity of human diseases is highly correlated with diversity of surrounding species, the study indicates that the burden of such human disease actually drops when biodiversity rises. The analysis is inconclusive about why this effect is so strong. The authors suggest that competition and predation limit the survival of disease vectors and free-living parasites where biodiversity is high. The research sets the stage for a number of future analyses that need to lay bare the relationship between health care funding and economic development.

Journal Reference:

  1. Matthew H. Bonds, Andrew P. Dobson, Donald C. Keenan.Disease Ecology, Biodiversity, and the Latitudinal Gradient in IncomePLoS Biology, 2012; 10 (12): e1001456 DOI: 10.1371/journal.pbio.1001456