Laymert Garcia dos Santos: ‘Hoje, xamanismo é alta tecnologia de acesso’ (O Globo)

Doutor pela Sorbonne e estudioso dos ianomâmis, paulista que montou ópera com cosmologia indígena em Munique veio ao Rio para aula na EAV Parque Lage

POR ARNALDO BLOCH

Na oca do Parque Lage, Laymert capta energias ianomami Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo

“Nasci numa cidade que mal conheço, Itápolis, mistura de pedra, (‘ita’), do guarani, e cidade (‘polis’), do grego: um pouco a essência brasileira. Estudei no Rio e passei décadas na França. Lecionei muitos anos no Brasil, trabalhando relações entre tecnologia, cultura, ambiente e arte. Sou casado, tenho um filho patologista”

Conte algo que não sei. 

Hoje, o que a gente considerava o sobrenatural indígena, o xamanismo, é uma alta tecnologia de acesso o a mundos virtuais, com lógicas que não são ocidentais, mas no final acabam chegando, cada vez mais, a uma espécie de cruzamento com a perspectiva tecnocientífica racional.

Em que ponto se dá esse cruzamento?

A ciência já sabe que existe, na Amazônia, um apocalipse anunciado, se a devastação persistir. Há um milênio os ianomâmis falam de um apocalipse mítico: quando não houver mais xamãs, o céu vai cair… pois são eles que seguram o céu, junto com os espíritos auxiliares humanimais.

As profecias convergem para a ecologia de ponta… 

Sim. E na ópera que fizemos essas duas perspectivas acabam convergindo para um final catastrófico. Na perspectiva ianomâmi, o homem branco é inumano, um vetor de destruição, e produz a xawara, espécie de fumaça canibal, que vai devorando florestas, espalhando as doenças e epidemias, contaminando rios.

Deve ser complexo transpor uma cosmologia dessas para os palcos de Munique…

Ficamos um tempo na aldeia Demini, semi-isolada, e trabalhamos com os xamãs, em parceria com o Instituto Goethe, o Sesc São Paulo, o ZKM (maior centro de arte e tecnologia da Europa), a Bienal de Teatro Música de Munique e gente da comunidade científica.

Como levar o espírito da aldeia a uma cena de ópera? 

Depois de todo o trabalho conceitual na aldeia, chegamos a uma encenação do conflito entre a xawara e o xamã. O público assistia circulando no próprio palco, um labirinto. O xamã era representado pelo cantor suíço Christian Zehnder, que já trabalhou na África e na Ásia e é um dos raros no mundo a usar a técnica do voice over, que permite emitir duas vozes ao mesmo tempo, recurso gutural. Quem fazia a xawara era um grande cantor de idade já, o inglês Phil Minton, cantor de jazz.

E tal da tecnologia,era só coadjuvante da tragédia? 

Num espaço comprid se dispunha uma sequência de telas, e eram projetadas imagens e luzes que traduziam os fenômenos da selvada através de algoritmos. O público ficava perdido na “floresta,” o xamã numa ponta, xawara na outra, além de um político, um missionário e um cientista.

Os ianomâmis assistiram?

A maioria, não. A ópera não foi feita para eles. Mesmo assim, foram a Munique o chefe Davi Kopenawa e dois xamãs.

E como reagiram? 

Primeiro, ficaram satisfeitos com o fato de um público tomar conhecimento, de maneira séria, do que são a cosmologia e o pensamento deles. O caráter estratégico. Mas da a apresentação em si eles riram: acham que arte é coisa de criança, não é o sentido profundo do fenômeno. Que aquela ópera era uma brincadeira perto do xamanismo. Um professor de filosofia percebeu aí uma simetria: os brancos acham os índios infantis por suas crenças, e eles nos acham infantis por nossas representações de sua realidade.

O que a experiência trouxe a você como pessoa?

Fui muitas vezes. Nos começo dos anos 2000 presidi uma ONG que lutou pela defesa e preservação do território ianomami. Estar com eles ajuda a gente a entender não só o que é o outro, mas o que somos. É um tipo de privilégio. Pena que pouca gente teve ou tem um contato de pura positividade com esse mundo que, para nós, é quase sempre vivido na esfera do negativo. Pela educação que a gente tem, pela tradição histórica do modo como os brasileiros tratam os índios. No Japão, seriam seres preciosos, sagrados.

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