Em favor da florestania (Trópico)

entrevista: Mauro Almeida

Por Renato Sztutman

A Universidade da Floresta, no Acre, luta para combinar o conhecimento científico com os saberes dos povos da região

A função de uma universidade pública é, ao menos em teoria, garantir o acesso de todos os cidadãos ao conhecimento. Nisso reside o seu ideal de igualdade. Sabe-se, no entanto, que esse acesso “universal” acaba restrito a uma fatia da população que pôde contar com uma educação de alto nível e que partilha determinados valores culturais. O desafio passa a ser, então, como incluir no ensino superior a população menos favorecida, por vezes pertencente a diferentes segmentos étnicos e culturais, vetores minoritários da sociedade.

A esse desafio soma-se outro, igualmente urgente: conceber um plano de ensino e pesquisa que reconheça nessas pessoas não receptáculos de um conjunto de saberes assegurados como universais, mas sobretudo sujeitos do conhecimento, capazes de realizar sínteses próprias e, ainda, transformar os conhecimentos produzidos pelo Ocidente moderno. Nesse sentido, incluir pode deixar de significar o enquadramento necessário em uma realidade estabelecida para designar um diálogo simétrico e transformador.

Esses desafios têm sido bastante discutidos por Mauro Almeida, professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mais precisamente no que diz respeito à sua experiência com a concepção da Universidade da Floresta, inaugurada no início de 2006 na cidade de Cruzeiro do Sul.

Localizada no extremo ocidente do Brasil, no Estado do Acre, num ponto quase eqüidistante entre Rio Branco e o oceano Pacífico, a região de Cruzeiro do Sul caracteriza-se pela sua riquíssima biodiversidade. Para Mauro Almeida, como para os demais idealizadores desse novo centro de ensino, o importante é promover a convivência, no interior e nos interstícios do ambiente acadêmico, de saberes tradicionais e científicos, de modo que sejam produzidas reflexões sobre o futuro da região em questão, o que exige investigações sobre manejo ambiental, biodiversidade, saúde e diversidade lingüística e cultural.

Nota-se que o Acre revela uma luta já antiga em favor da “florestania”, neologismo bem-sucedido ali empregado para fazer referência a essa percepção de que a cidadania deve estender-se aos habitantes e seres da floresta, não podendo estar dissociada da questão ambiental.

O campus expandido da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul, que já conta com cursos de biologia, enfermagem, engenharia florestal, pedagogia e letras, todos eles constituídos por pesquisadores formados em importantes centros acadêmicos, é apenas uma das pontas do que se chama Universidade da Floresta. O campus está associado em rede ao Instituto da Biodiversidade e Manejo dos Recursos Naturais, órgão voltado à pesquisa admitindo a presença de pesquisadores indígenas e seringueiros, e ao Centro de Formação e Tecnologia da Floresta (Ceflora), responsável pelo oferecimento de cursos profissionalizantes e oficinas técnicas.

Essa estrutura em rede permite articular o ensino com uma atividade de pesquisa de ponta e, ao mesmo tempo, integrar a população local. Assim, o conhecimento científico sobre o ambiente, bem como as condições para o uso de recursos naturais de maneira sustentável, são produzidos dentro de uma relação de respeito e diálogo com as populações indígenas, seringueiras e ribeirinhas. Estas se tornam agentes fundamentais nos processos de pesquisa e fazem valer suas demandas, como a comercialização de determinados produtos e a proteção de seus conhecimentos, freqüentemente ameaçados por interesses comerciais privados e predatórios.

Como aposta Almeida na entrevista abaixo, um novo conceito de universidade está sendo gestado, permitindo que o conhecimento acadêmico seja produzido em mão-dupla. Alunos da cidade são levados à floresta e impulsionados a conduzir suas pesquisas e rever seus pressupostos por meio da valorização dos conhecimentos dos povos da região, transmitidos sobretudo por determinados “mestres” -como os pajés- que detêm saberes específicos sobre o ambiente.

De modo reverso, índios e seringueiros são aos poucos trazidos às cidades, às salas de aula e aos laboratórios, tornando-se colaboradores e pesquisadores. (Num futuro não muito longínquo, quem sabe, eles poderão ser também incorporados como docentes.) Se esse intercâmbio der certo, resultando em sínteses criativas entre saberes científicos e locais, um ideal mais concreto de inclusão terá sido alcançado. As populações locais terão sido reconhecidas como sujeitos do conhecimento, e não apenas como sujeitos carentes de conhecimento. A universidade terá se tornado, enfim, espaço da pluralidade, uma “pluriversidade” aberta a todos.

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Como nasceu a idéia da Universidade da Floresta? A que tipo de demandas ela vem atendendo no Acre?

Mauro Almeida: A idéia surgiu há vários anos e, em 2003, ela estourou em uma reunião pública que contou com a participação de 500 pessoas, incluindo 80 organizações de todos os tipos. Essa reunião discutiu o ensino superior em Cruzeiro do Sul, segunda cidade do Acre e que fica a 600 km da capital, Rio Branco. Atualmente, ela possui 60 mil habitantes, está em crescimento. Ela está sendo conectada ao Brasil por uma estrada asfaltada, a BR-364, que passa por Rondônia e provavelmente continuará até o Ucaiali, de onde já há ligação com o Pacífico, passando pelos Andes.

A expectativa é que, num período próximo, haja um fluxo muito grande nessa região. E isso exige um planejamento adequado para o uso da floresta e dos recursos, e também para a proteção das populações indígenas e tradicionais que lá se encontram. A região de Cruzeiro do Sul abriga a maior parte das áreas indígenas e das unidades de conservação do Estado do Acre. Praticamente metade dessa microrregião é ocupada por parques nacionais, terras indígenas e reservas extrativistas. Trata-se de uma área que conta com uma altíssima biodiversidade.

O desafio que se apresenta é, portanto, compatibilizar a conservação da riqueza natural com o respeito aos direitos intelectuais e culturais das populações indígenas, seringueiros e agricultores locais e, além disso, encontrar meios para melhorar a qualidade de vida das pessoas que ali habitam. É preciso, então, fazer face às pressões que vão chegar quando a BR-364 estiver concluída. Uma das maneiras de fazer isso é pela educação.

O deputado federal Henrique Afonso (PT) transformou a demanda da população local pelo ensino superior na bandeira de seu mandato e foi buscar apoio entre cientistas e pesquisadores que já estavam trabalhando nessa região e entre indígenas e seringueiros. Não se tratava simplesmente de fazer uma campanha para criar novos cursos -cursos tradicionais, como o de direito.

A idéia era mais ousada, era articular a universidade com a criação de cursos que fossem voltados para a busca de soluções apropriadas para o uso dos recursos naturais da região e de uma forma de gerar renda que respeitasse o meio ambiente e as populações indígenas e tradicionais.
Como se deu a participação do governo do Acre no processo de implantação da universidade?

Almeida: O grupo de trabalho articulado em 2003 foi se encaminhando para criar um projeto que, em 2005, depois de muitos trâmites, finalmente teve um sinal verde do Ministério da Educação para se viabilizar. O ministro Tarso Genro prometeu liberar a contratação de 90 professores, dos quais 50 seriam para a Universidade Federal do Acre. Quarenta desses professores seriam destinados imediatamente para uma unidade autônoma, o campus Cruzeiro do Sul, e seriam seguidos por outros tantos num futuro próximo.

O então governador do Estado, Jorge Viana, se comprometia com investimentos na infraestrutura, na conclusão de estradas e na via telefônica. E o Ministério da Ciência e Tecnologia, com investimentos para recursos em pesquisa e equipamento de laboratório. A Universidade da Floresta começou, então, a ser implantada em 2005, contratando por concurso público um pessoal científico do mais alto nível e de várias universidades do Brasil: ecólogos, biólogos moleculares, enfermeiros, engenheiros florestais etc.

Um dos objetivos do governo era garantir que a universidade agisse junto com a população que não estava matriculada nos cursos acadêmicos, mas que manifestava demanda pela formação profissional nas mais diversas áreas. Essa formação seria dada, então, através das chamadas escolas da floresta, pólos de formação, espalhando-se ao mesmo tempo na cidade de Cruzeiro do Sul e dentro da floresta, por meio, por exemplo, de unidades fluviais itinerantes, os chamados “barcos-escola”.
Quais as expectativas das populações indígenas da região diante da proposta da Universidade da Floresta? Em que medida essa proposta se vê articulada às demandas já existentes de um curso superior diferenciado?

Almeida: Há indígenas ingressando na Universidade da Floresta, pois muitos deles possuem o curso médio completo. Mas os índios da região têm uma antiga reivindicação, que é a criação de um terceiro grau indígena, voltado para a formação em nível superior dos professores indígenas. Esses professores estão atuando há muitos anos em escolas organizadas por várias entidades indígenas, indigenistas e do governo; a principal delas é a ONG Comissão Pró-Índio do Acre (CPI). Uma estratégia possível seria que as escolas bilíngües e o treinamento de professores nativos adquirissem status de curso superior.

Outra idéia é a criação de um curso superior indígena para formar não apenas professores, mas também especialistas em manejo florestal, em línguas indígenas etc., dentro da universidade. E o setor de línguas e pedagogia da Universidade da Floresta já apresentou uma proposta nesse sentido. Então, há o caminho de cursos específicos para índios, com uma direção principal de formação de professores indígenas com especializações em manejo florestal e em línguas indígenas.

O modelo são os cursos para índios que funcionam atualmente no Mato Grosso e em Rondônia. Mas o conceito da Universidade da Floresta é, de fato, mais amplo, podendo combinar-se ao anterior: trata-se de produzir um estímulo para a entrada dos índios que passariam a fazer os mesmos cursos que os demais. Uma das questões que devem ser enfrentadas é, portanto, como propiciar essa entrada.
Há algum sistema que favoreça a inclusão de alunos indígenas, como um sistema de cotas, por exemplo?

Almeida: Não tem. Isso é um assunto em discussão. Eu pessoalmente sou favorável a algum sistema que permita a inclusão. Haveria um conjunto de vagas para indígenas, e esse curso superior indígena poderia ser articulado com os outros. E só pensar que há um conjunto de vagas, à parte, reservadas para uma certa demanda social. No futuro, poderia haver um grande número de alunos indígenas entrando nesse sistema com bolsas de estudos, sendo estimulados com a inclusão e fazendo os mesmos cursos que os não-indígenas, e não cursos especiais separados para os índios.

Eu acho que seria o que eles próprios gostariam. Por exemplo, aqueles que vão ser professores especializados em línguas estariam fazendo o curso de línguas da Universidade da Floresta. O curso de letras já existe, só que agora está recebendo uma injeção de novos professores, com lingüistas competentes contratados recentemente e que trabalham com as línguas indígenas da região.

Seria importante fortalecer a idéia de que a formação dos indígenas deve incluir no currículo as línguas e os conhecimentos locais. É preciso evitar que os professores indígenas, que se formaram numa trajetória educacional ligada ao povo deles, caiam num tipo de formação que os reduza a pessoas desgarradas, como se elas fossem carentes de conhecimentos relacionados, por exemplo, à tecnologia florestal.
Como se dá a inclusão da população local na figura de pesquisadores? Qual é a concepção de pesquisa implicada na proposta da Universidade da Floresta e em seu trabalho conjunto com outros órgãos, como o Instituto da Biodiversidade?

Almeida: O projeto da Universidade da Floresta não pode ser dissociado da criação do Instituto da Biodiversidade. Através dele, o Ministério da Ciência e Tecnologia canaliza recursos para pesquisas de caráter aplicado, tendo em vista os desafios da região e a participação de pessoas da população local como pesquisadores, muitas vezes bolsistas. Na verdade, o Instituto da Biodiversidade está funcionando de maneira ainda virtual. Ele conta com uma espécie de portfólio de projetos, financiados atualmente pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade.

Dentre esses projetos, há uma certa liberdade para especificar qual será a participação dos professores, dos pesquisadores, indígenas e seringueiros. Há alguns projetos, em que a maior parte de seus recursos é investida em bolsas para seringueiros. São bolsas muito baixas.

Na verdade, são estímulos para uma dedicação parcial em uma pesquisa colaborativa. A atividade principal dos seringueiros é escrever diários com temas variados, por exemplo, a fauna e o uso dela na forma de caça. Muitas vezes, esses seringueiros, que podem ser adultos ou adolescentes, estão em processo de alfabetização, entrando em contato com a técnica da escrita. O status dos seringueiros no Instituto da Biodiversidade é o de “pesquisadores da floresta”.

Nos cursos que a escola da floresta vai realizar na área, eles vão participar como alunos e, alguns, talvez, como professores. Por exemplo, um curso que já ocorreu em 2005, antes da instalação da Universidade da Floresta, tratava da tecnologia do processamento da mandioca para fazer a famosa farinha.

O Instituto da Biodiversidade tem como objetivo gerar conhecimento científico, oferecendo uma visão ampla sobre a floresta. Ele deverá fomentar oficinas, seminários e debates sobre os resultados da pesquisa, assim como publicações dos resultados, tanto em livros e manuais, mais acessíveis para as populações de lá, quanto em revistas científicas. Isso, aliás, já tem acontecido. Alguns desses pesquisadores locais já são co-autores em publicações científicas. O objetivo é tratar índios e seringueiros em pé de igualdade. É um objetivo difícil de atingir, pois tem muita resistência nesse sentido.
Como superar essas resistências? Em que medida essa simetria de saberes está sendo reconhecida e instituída?

Almeida: Nas instituições nacionais financiadoras de pesquisa não há uma maneira de incluir o indígena como pesquisador. É possível incluí-lo apenas como mão-de-obra de pesquisa, como auxiliar de campo, como guia. É possível remunerá-lo como técnico. Mas não existe uma categoria de pesquisador de notório saber ou de pesquisador tradicional como nós gostaríamos. Agora, é lutar para que a atividade de produção de conhecimento seja reconhecida como uma atividade de pesquisa, análoga à dos cientistas.

É muito freqüente que pesquisadores das áreas de biologia, antropologia ou outras sejam acompanhados em seu trabalho de campo por um guia local. Mas este aparece no mais das vezes como um trabalhador braçal, quando, em muitos casos, é um profundo conhecedor da floresta. Conhece as propriedades daquelas plantas, os hábitos daqueles animais, dá pistas, dicas e indicações. Atua como um verdadeiro colaborador. Ele é dono de um largo conhecimento, que vem sendo filtrado, utilizado e processado, mas que perde a autoria original.

Então, a nossa idéia é que seja possível produzir um trabalho com autoria, fazendo com que eles passem a escrever os seus próprios trabalhos em formatos que sejam melhores para eles. Pode não ser um formato tradicional, pode ser divulgado numa página da internet, pode ser um desenho, uma narrativa gravada.
A divulgação dos resultados de pesquisas como essas exige providências relativas à proteção dos conhecimentos tradicionais. Afinal, eles se tornam mais expostos para o uso comercial e privado. Como equacionar, então, a atividade de pesquisa e as políticas de proteção?

Almeida: Não se trata, é claro, de colocar em domínio público uma série de conhecimentos, embora a forma tradicional de transmissão desses conhecimentos corresponda a um uso bastante livre. A idéia é combinar pesquisa e políticas de proteção desses conhecimentos, que possuem um forte potencial econômico. O que não podemos fazer é entregar o ouro aos bandidos…

Há um projeto, incentivado por Manuela Carneiro da Cunha, de montar na Universidade da Floresta uma “extratoteca”, um repositório de extratos vegetais e animais, produtos com valor econômico potencial muito alto, juntamente com um laboratório para análise desse material. Ali, os índios trabalhariam em cooperação com os cientistas. Trata-se de um laboratório capaz de realizar análises biotecnológicas, e um dos focos possíveis seria criar uma “biblioteca” de moléculas identificadas nas secreções de animais e vegetais.

Seria possível, em princípio, identificar, registrar e, em alguns casos, gerar uma patente sobre processos biotecnológicos em benéfico das populações locais, impedindo, por exemplo, que o valor associado a isso seja apropriado. Vou citar o exemplo dos sapos, que representam um dos maiores índices de biodiversidade na região. Só em duas áreas, o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva Extrativista do Alto Juruá, foram detectadas 140 espécies de sapos. Cada uma delas é um armazém de substâncias distintas dotadas de propriedades específicas, e um dos exemplos são os sapos da espécie Philomedusa bicolor, mais conhecidos como sapos kampo, cuja secreção tem inúmeras propriedades relevantes para a saúde humana.

Um projeto, atualmente conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente, por iniciativa da ministra Marina Silva, pretende atender a reivindicações de proteção do uso tradicional da chamada vacina do sapo kampo e também dos direitos e potenciais sobre aplicações médicas dessa substância. Esse projeto surgiu em resposta à demanda dos índios Katukina. A discussão está sendo conduzida pelos próprios índios, junto com as entidades externas que estão colaborando no projeto, ou seja, as universidades e o próprio governo.
Você pensa que a proposta de inclusão de pajés e mestres da floresta no ambiente da Universidade da Floresta criou ou pode criar certa resistência ou mesmo “ciúmes” por parte dos pesquisadores e cientistas? Como você avalia o diálogo estabelecido entre esses diferentes agentes?

Almeida: Houve mesmo esse medo. Mas acho que o susto de certos cientistas com a idéia de que os pajés entrariam na Universidade da Floresta para dar aula se deve a um mal-entendido. O ideal dessa universidade é a criação de um espaço que tem como meta tratar simetricamente -com equivalência e com o respeito mútuo- os conhecimentos tradicionais e os conhecimentos científicos e acadêmicos.

Devem ser considerados ao mesmo tempo a atividade de produção de saber pelos moradores da floresta e o próprio espaço acadêmico como outro espaço de produção do conhecimento. Tanto os índios como os moradores tradicionais da floresta precisam de um tempo para estabelecer um relacionamento entre os conhecimentos que eles acumularam e a visão do mundo que eles encontram na cidade ou entre os cientistas.

Os cientistas, por sua vez, precisam de um tempo para entender e respeitar o ponto de vista dos moradores da floresta. Esse tipo de diálogo entre pesquisadores científicos e detentores de conhecimentos tradicionais é complicado. Mas, gradualmente, pode surgir uma convivência pacífica entre essas duas tradições. Isso não significa um se colocar no lugar do outro, ou misturar as duas formas de gerar e usar conhecimento. Não, os conhecimentos possuem teores diferentes, finalidades distintas e procedimentos também diferenciados.

É preciso entender, por outro lado, que há espaço para cada um deles e pode se estabelecer, sim, um diálogo. É possível, para cada um dos lados, vislumbrar uma maneira diferente de abordar o significado da vida humana, da natureza, das técnicas corporais, da saúde. Em países como a China, por exemplo, nos cursos universitários-acadêmicos de formação de médicos, a tradição ocidental e a medicina chinesa convivem de uma maneira bastante produtiva. Para chegar a um ponto em que o pajé indígena seja aceito como professor convidado ou como um sábio da floresta que tem um status reconhecido é preciso de muito tempo.

Uma impressão inicial foi a de que essa Universidade da Floresta talvez fosse misturar tudo, provocando uma inversão, uma espécie de anulação de todas as certezas do saber científico. Em vez disso, penso que é preciso um esforço para permitir que, dentro da universidade, possa se estabelecer um bom convívio com alunos e mesmo professores que saíram de outras tradições e possuem conhecimentos diversos daquele produzido pela nossa ciência. Isso não significa anular a especialização já existente.

Uma maneira de fazer essa aproximação importante entre os diferentes tipos de conhecimento é exatamente através da pesquisa. E aí o Instituto da Biodiversidade entra com seus projetos autônomos. Porque lá o pesquisador e os alunos -que estão na universidade- vão a campo fazer atividade de pesquisa e passarão a conviver com aqueles que eu tenho chamado de “mestres da floresta”. A idéia é que os alunos aprendam, na prática, a respeitar os conhecimentos adquiridos em outras fontes. Há uma série de curadores tradicionais que exercem uma atividade terapêutica reconhecida regionalmente como válida. Em suma, a idéia é de pluralismo epistemológico -reconhecer a diversidade de modos de gerar conhecimentos relevantes para a humanidade.
Quais as expectativas desses mestres da floresta em relação à universidade?

Almeida: Uma das demandas é que a universidade seja uma ponte para que os conhecimentos e os produtos produzidos na floresta -por exemplo, substâncias atualmente classificadas como “fitoterápicas”- possam chegar às prateleiras dos brancos e serem enfim reconhecidas e comercializadas como remédios. Atualmente essa transição é muito trabalhosa e fora do alcance de moradores locais. Os índios fazem pressão também para que a Universidade da Floresta seja respeitosa com seu saber e suas formas de vida, e assim leve a sociedade a respeitá-las. Mas os indígenas e seringueiros também querem aprender coisas que não sabem.

O desafio da Universidade da Floresta está, então, em articular cientistas e moradores da floresta, a fim de conhecer e utilizar sensatamente a biodiversidade, impedir o seu uso predatório, o seu saque. Trata-se de fazer face a uma pressão, como a do mercado biotecnológico, por substâncias da floresta. Mas como fazer? Quem vai pesquisar os conhecimentos da floresta? Quem vai articular essas ricas tradições de conhecimento com a realidade do mundo moderno?

É preciso formar pessoas lá mesmo para refletir sobre essas questões e encontrar respostas. E é preciso colocar os próprios índios e moradores da mata dentro dessa formação para que eles, juntos, encontrem essa solução. Eu não tenho essa solução e nem pretendo ter. A idéia dos cientistas se instalarem naquele “fim do mundo” funcionou, e a equipe que foi contratada lá é muito competente. Para ir para lá, é preciso agir movido por um ideal. Eu estou muito entusiasmado com esse grupo. Eu tenho certeza que eles irão interagir com o povo da região. Já estão interagindo.
Como trazer para uma universidade a idéia de diferença, de pluralidade? Em que medida o igualitarismo e o universalismo buscados nesses espaços podem abrigar o reconhecimento e a valorização das diferenças?

Almeida: Não podemos ficar de salto alto e dizer: “A universidade, quem quiser que entre, faça o vestibular, pois não existe diferença”. Existe diferença, sim, e as pessoas têm de ser reconhecidas, inclusive, na diferença em relação à sua competência, como sábios que geram conhecimento importante sobre a vida e, portanto, podem oferecer uma importante contribuição para a nossa sociedade.

As pessoas mantêm as suas identidades próprias, adquirem auto-respeito, passam por cima do que fizeram com elas no passado. E nós temos de tratá-las também com respeito. Isso tem de ser incluído na academia. A igualdade é, na verdade, o reconhecimento das diferenças. Se queremos garantir a igualdade de todos no acesso à universidade, uma das primeiras coisas que temos de fazer é tratar diferentemente as pessoas.

Um deficiente físico que precisa de uma cadeira de rodas não pode ser tratado da mesma maneira que aquela pessoa que não necessita de uma cadeira de rodas. Ele está sendo tratado desigualmente para garantir um acesso igual ao saber. O cego que entrar na universidade vai precisar de um livro especial. Os exemplos podem ser multiplicados. Não há novidade alguma nisso. O ideal de igualdade deve ser o reconhecimento da diversidade. Eu penso que isso é algo muito importante num país como o Brasil.
(Publicado em 7/4/2007)

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Renato Sztutman
É professor de antropologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), doutor em antropologia pela USP e co-editor da revista “Sexta-Feira”.

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