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Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia (Deutsche Welle/Carta Capital)

14/11/2014 – 12h24

por Fernando Caulyt, da Deutsche Welle

operacaopequiacapa 1 Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia

Floresta possui função importante de levar chuvas a outras regiões do continente. No entanto, cientistas são cautelosos com associação entre redução da mata e a pior estiagem em 80 anos no Sudeste

O Sudeste passa pela pior seca dos últimos 80 anos, com mais 130 municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais afetados. Um relatório recente, apoiado pela ONG WWF Brasil, apontou o desmatamento na Amazônia como uma possível causa para o fenômeno – e a conseguinte crise da água. Especialistas ouvidos pela DW, porém, dizem que os motivos vão além.

Ainda não há um estudo científico que comprove a relação direta entre desmatamento e seca. E estudiosos são céticos em fazer essa ligação, sobretudo porque a queda na precipitação em 2014 está fora da proporção na comparação com o aumento da área desmatada no último ano – em 2013 ela atingiu um total de 763 quilômetros quadrados.

Apesar de pesquisadores concordarem sobre a importância da Amazônia na regulação do clima para todo o país, a contribuição do desmatamento para a atual seca é controversa.

Devido à capacidade das árvores de absorver água do solo, a floresta amazônica possui um importante papel para a regulação do clima na América do Sul. Ela libera umidade para atmosfera, mantendo o ar em movimento e levando chuvas para o continente.

A umidade é exportada para regiões distantes pelos chamados “rios voadores” – sistemas aéreos de vapor – irrigando áreas no Sul, Sudeste, Centro-Oeste do Brasil, além de Bolívia, Paraguai e Argentina.

Esse papel já foi comprovado por diversos estudos. E foi reforçado por um relatório que reuniu artigos sobre o potencial climático da floresta divulgado no final de outubro pela Articulação Regional Amazônica (ARA), como o apoio da WWF Brasil.

O documento, porém, vai além. E aponta que o desmatamento na região pode ter um impacto significativo sobre o clima próximo e também distante da Amazônia, ao reduzir a transpiração da floresta e modificar a dinâmica de nuvens e chuvas no continente.

“Não posso colocar toda a culpa na Amazônia, mas há uma combinação de efeitos, e o desmatamento é em parte responsável. Há também uma oscilação natural e as mudanças climáticas provocadas pelos homens”, afirma Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da WWF.

Maretti diz que os efeitos do aquecimento global pioram com o desmatamento na região, que aumenta as emissões de CO2 na atmosfera.

Para Pedro Telles, coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, a destruição da floresta é um dos fatores que contribuiu para causar a atual seca, mas não é o principal. “O principal fator da crise da água em São Paulo é a má gestão. Há anos já se sabia que o Sistema Cantareira tinha limitações e possivelmente chegaria a uma situação de crise e esgotamento. Há problemas na distribuição da água, o desperdício nessa etapa ultrapassa 30%, além da pouca preservação da área de manancial. Mas esses fatores nunca foram tratados adequadamente”, afirma Telles.

O biólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também é ponderado ao relacionar a seca ao desmatamento. Ele afirma que pode haver uma relação entre os dois, devido ao papel climático da floresta, mas evita apontá-lo como a causa principal. “Não temos dados para explicar uma queda de precipitação tão drástica somente por esse efeito. A queda na precipitação no corrente ano está muito fora da proporção em relação ao aumento da área desmatada de 2013 para 2014″, completa Fearnside.

Entre a comunidade científica é quase unânime a importância da Amazônia para as chuvas no continente. No entanto, há divergências sobre sua relação com a estiagem.

“Não dá para dizer que o desmatamento da Amazônia é responsável pela estiagem no Sudeste, porque não existe nenhum estudo científico que comprove essa relação direta”, afirma o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O meteorologista da USP Tercio Ambrizzi é da mesma opinião. “É muito difícil associar a atual seca com o desmatamento. Ele causa impacto, mas numa variabilidade de mais longo prazo e contribui para as mudanças climáticas”, reforça.

Sampaio lembra que a seca foi causada pelo predomínio de uma intensa massa de ar seco sobre o estado de São Paulo durante o verão, que bloqueou as frentes frias vindas do sul trazendo as chuvas.

Além disso, as mudanças climáticas podem estar contribuindo para a situação atual. “A seca pode ser caracterizada com um desses extremos e pode ser já uma resposta às mudanças climáticas, mas não ocorre somente por isso”, completa Ambrizzi.

Com chuvas abaixo da média, o volume de água em importantes rios e represas do Sudeste, como o rio Paraíba do Sul, a nascente do São Francisco e o Sistema Cantareira, diminuiu drasticamente. O abastecimento hídrico em várias cidades está comprometido.

A estiagem também contribuiu para aumentar o número de incêndios florestais no Sudeste. Entre em janeiro e novembro deste ano, os focos de incêndios aumentaram 275% no Rio de Janeiro, 150% em São Paulo e 135% em Minas Gerais, em relação ao mesmo período de 2013.

* Publicado originalmente pela Deutsche Welle e retirado do site Carta Capital.

(Carta Capital)

Desmatamento na Amazônia na mídia – 10 de novembro de 2014

“Estamos indo direto para o matadouro”, diz o cientista Antonio Nobre (Portal do Meio Ambiente)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

Antonio Donato Nobre é um dos melhores cientistas brasileiros, pertence ao grupo do IPCC que mede o aquecimento da Terra e é um especialista em questões amazônicas. É mundialmente conhecido como pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).  Excerto do evento de lançamento do relatório “O Futuro Climático da Amazônia” em 30/10/2014.

Por Daniela Chiaretti, Do Valor

Eis a entrevista.

Quanto já desmatamos da Amazônia brasileira?

Só de corte raso, nos últimos 40 anos, foram três Estados de São Paulo, duas Alemanhas ou dois Japões. São 184 milhões de campos de futebol, quase um campo por brasileiro. A velocidade do desmatamento na Amazônia, em 40 anos, é de um trator com uma lâmina de três metros se deslocando a 726 km/hora – uma espécie de trator do fim do mundo. A área que foi destruída corresponde a uma estrada de 2 km de largura, da Terra até a Lua. E não estou falando de degradação florestal.

Essa é a “guilhotina de árvores” que o senhor menciona?

Foram destruídas 42 bilhões de árvores em 40 anos, cerca de 3 milhões de árvores por dia, 2.000 árvores por minuto. É o clima que sente cada árvore que é retirada da Amazônia. O desmatamento sem limite encontrou no clima um juiz que conta árvores, não esquece e não perdoa.

O sr. pode explicar?

Os cientistas que estudam a Amazônia estão preocupados com a percepção de que a floresta é potente e realmente condiciona o clima. É uma usina de serviços ambientais. Ela está sendo desmatada e o clima vai mudar.

A mudança climática…

A mudança climática já chegou. Não é mais previsão de modelo, é observação de noticiário. Os céticos do clima conseguiram uma vitória acachapante, fizeram com que governos não acreditassem mais no aquecimento global. As emissões aumentaram muito e o sistema climático planetário está entrando em falência como previsto, só que mais rápido.

No estudo o sr. relaciona destruição da floresta e clima?

A literatura é abundante, há milhares de artigos escritos, mais de duas dúzias de projetos grandes sendo feitos na Amazônia, com dezenas de cientistas. Li mais de 200 artigos em quatro meses. Nesse estudo quis esclarecer conexões, porque esta discussão é fragmentada. “Temos que desenvolver o agronegócio. Mas e a floresta? Ah, floresta não é assunto meu”. Cada um está envolvido naquilo que faz e a fragmentação tem sido mortal para os interesses da humanidade. Quando fiz a síntese destes estudos, eu me assombrei com a gravidade da situação.

Qual é a situação?

A situação é de realidade, não mais de previsões. No arco do desmatamento, por exemplo, o clima já mudou. Lá está aumentando a duração da estação seca e diminuindo a duração e volume de chuva. Agricultores do Mato Grosso tiveram que adiar o plantio da soja porque a chuva não chegou. Ano após ano, na região leste e sul da Amazônia, isso está ocorrendo. A seca de 2005 foi a mais forte em cem anos. Cinco anos depois teve a de 2010, mais forte que a de 2005. O efeito externo sobre a Amazônia já é realidade. O sistema está ficando em desarranjo.

A seca em São Paulo se relaciona com mudança do clima?

Pegue o noticiário: o que está acontecendo na Califórnia, na América Central, em partes da Colômbia? É mundial. Alguém pode dizer – é mundial, então não tem nada a ver com a Amazônia. É aí que está a incompreensão em relação à mudança climática: tem tudo a ver com o que temos feito no planeta, principalmente a destruição de florestas. A consequência não é só em relação ao CO2 que sai, mas a destruição de floresta destrói o sistema de condicionamento climático local. E isso, com as flutuações planetárias da mudança do clima, faz com que não tenhamos nenhuma almofada.

Almofada?

A floresta é um seguro, um sistema de proteção, uma poupança. Se aparece uma coisa imprevista e você tem algum dinheiro guardado, você se vira. É o que está acontecendo agora, não sentimos antes os efeitos da destruição de 500 anos da Mata Atlântica, porque tínhamos a “costa quente” da Amazônia. A sombra úmida da floresta amazônica não permitia que sentíssemos os efeitos da destruição das florestas locais.

O sr. fala em tapete tecnológico da Amazônia. O que é?

Eu queria mostrar o que significa aquela floresta. Até eucalipto tem mais valor que floresta nativa. Se olharmos no microscópio, a floresta é a hiper abundância de seres vivos e qualquer ser vivo supera toda a tecnologia humana somada. O tapete tecnológico da Amazônia é essa assembleia fantástica de seres vivos que operam no nível de átomos e moléculas, regulando o fluxo de substâncias e de energia e controlando o clima.

O sr. fala em cinco segredos da Amazônia. Quais são?

O primeiro é o transporte de umidade continente adentro. O oceano é a fonte primordial de toda a água. Evapora, o sal fica no oceano, o vento empurra o vapor que sobe e entra nos continentes. Na América do Sul, entra 3.000 km na direção dos Andes com umidade total. O segredo? Os gêiseres da floresta.

Gêiseres da floresta?

É uma metáfora. Uma árvore grande da Amazônia, com dez metros de raio de copa, coloca mais de mil litros de água em um dia, pela transpiração. Fizemos a conta para a bacia Amazônica toda, que tem 5,5 milhões de km2: saem desses gêiseres de madeira 20 bilhões de toneladas de água diárias. O rio Amazonas, o maior rio da Terra, que joga 20% de toda a água doce nos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia. Esse fluxo de vapor que sai das árvores da floresta é maior que o Amazonas. Esse ar que vai progredindo para dentro do continente vai recebendo o fluxo de vapor da transpiração das árvores e se mantém úmido, e, portanto, com capacidade de fazer chover. Essa é uma característica das florestas

É o que faz falta em São Paulo?

Sim, porque aqui acabamos com a Mata Atlântica, não temos mais floresta. Qual o segundo segredo?

Chove muito na Amazônia e o ar é muito limpo, como nos oceanos, onde chove pouco. Como, se as atmosferas são muito semelhantes? A resposta veio do estudo de aromas e odores das árvores. Esses odores vão para atmosfera e quando têm radiação solar e vapor de água, reagem com o oxigênio e precipitam uma poeira finíssima, que atrai o vapor de água. É um nucleador de nuvens. Quando chove, lava a poeira, mas tem mais gás e o sistema se mantém.

E o terceiro segredo?

A floresta é um ar-condicionado e produz um rio amazônico de vapor. Essa formação maciça de nuvens abaixa a pressão da região e puxa o ar que está sobre os oceanos para dentro da floresta. É um cabo de guerra, uma bomba biótica de umidade, uma correia transportadora. E na Amazônia, as árvores são antigas e têm raízes que buscam água a mais de 20 metros de profundidade, no lençol freático. A floresta está ligada a um oceano de água doce embaixo dela. Quando cai a chuva, a água se infiltra e alimenta esses aquíferos.

Como tudo isso se relaciona à seca de São Paulo?

No quarto segredo. Estamos em um quadrilátero da sorte – uma região que vai de Cuiabá a Buenos Aires no Sul, São Paulo aos Andes e produz 70% do PIB da América do Sul. Se olharmos o mapa múndi, na mesma latitude estão o deserto do Atacama, o Kalahari, o deserto da Namíbia e o da Austrália. Mas aqui, não, essa região era para ser um deserto. E no entanto não é, é irrigada, tem umidade. De onde vem a chuva? A Amazônia exporta umidade. Durante vários meses do ano chega por aqui, através de “rios aéreos”, o vapor que é a fonte da chuva desse quadrilátero.

E o quinto segredo?

Onde tem floresta não tem furacão nem tornado. Ela tem um papel de regularização do clima, atenua os excessos, não deixa que se organizem esses eventos destrutivos. É um seguro.

Qual o impacto do desmatamento então?

O desmatamento leva ao clima inóspito, arrebenta com o sistema de condicionamento climático da floresta. É o mesmo que ter uma bomba que manda água para um prédio, mas eu a destruo, aí não tem mais água na minha torneira. É o que estamos fazendo. Ao desmatar, destruímos os mecanismos que produzem esses benefícios e ficamos expostos à violência geofísica. O clima inóspito é uma realidade, não é mais previsão. Tinha que ter parado com o desmatamento há dez anos. E parar agora não resolve mais.

Como não resolve mais?

Parar de desmatar é fundamental, mas não resolve mais. Temos que conter os danos ao máximo. Parar de desmatar é para ontem. A única reação adequada neste momento é fazer um esforço de guerra. A evidência científica diz que a única chance de recuperarmos o estrago que fizemos é zerar o desmatamento. Mas isso será insuficiente, temos que replantar florestas, refazer ecossistemas. É a nossa grande oportunidade.

E se não fizermos isso?

Veja pela janela o céu que tem em São Paulo – é de deserto. A destruição da Mata Atlântica nos deu a ilusão de que estava tudo bem, e o mesmo com a destruição da Amazônia. Mas isso é até o dia em que se rompe a capacidade de compensação, e é esse nível que estamos atingindo hoje em relação aos serviços ambientais. É muito sério, muito grave. Estamos indo direto para o matadouro.

O que o sr. está dizendo?

Agora temos que nos confrontar com o desmatamento acumulado. Não adianta mais dizer “vamos reduzir a taxa de desmatamento anual.” Temos que fazer frente ao passivo, é ele que determina o clima.

Tem quem diga que parte desses campos de futebol viraram campos de soja.

O clima não dá a mínima para a soja, para o clima importa a árvore. Soja tem raiz de pouca profundidade, não tem dossel, tem raiz curta, não é capaz de bombear água. Os sistemas agrícolas são extremamente dependentes da floresta. Se não chegar chuva ali, a plantação morre.

O que significa tudo isso? Que vai chover cada vez menos?

Significa que todos aqueles serviços ambientais estão sendo dilapidados. É a mesma coisa que arrebentar turbinas na usina de Itaipu – aí não tem mais eletricidade. É de clima que estamos falando, da umidade que vem da Amazônia. É essa a dimensão dos serviços que estamos perdendo. Estamos perdendo um serviço que era gratuito que trazia conforto, que fornecia água doce e estabilidade climática. Um estudo feito na Geórgia por uma associação do agronegócio com ONGs ambientalistas mediu os serviços de florestas privadas para áreas urbanas. Encontraram um valor de US$ 37 bilhões. É disso que estamos falando, de uma usina de serviços.

As pessoas em São Paulo estão preocupadas com a seca.

Sim, mas quantos paulistas compraram móveis e construíram casas com madeira da Amazônia e nem perguntaram sobre a procedência? Não estou responsabilizando os paulistas porque existe muita inconsciência sobre a questão. Mas o papel da ciência é trazer o conhecimento. Estamos chegando a um ponto crítico e temos que avisar.

Esse ponto crítico é ficar sem água?

Entre outras coisas. Estamos fazendo a transposição do São Francisco para resolver o problema de uma área onde não chove há três anos. Mas e se não tiver água em outros lugares? E se ocorrer de a gente destruir e desmatar de tal forma que a região que produz 70% do PIB cumpra o seu destino geográfico e vire deserto? Vamos buscar água no aquífero?

Não é uma opção?

No norte de Pequim, os poços estão já a dois quilômetros de profundidade. Não tem uso indefinido de uma água fóssil, ela tem que ter algum tipo de recarga. É um estoque, como petróleo. Usa e acaba. Só tem um lugar que não acaba, o oceano, mas é salgado.
O esforço de guerra é para acabar com o desmatamento?

Tinha que ter acabado ontem, tem que acabar hoje e temos que começar a replantar florestas. Esse é o esforço de guerra. Temos nas florestas nosso maior aliado. São uma tecnologia natural que está ao nosso alcance. Não proponho tirar as plantações de soja ou a criação de gado para plantar floresta, mas fazer o uso inteligente da paisagem, recompor as Áreas de Proteção Permanente (APPs) e replantar florestas em grande escala. Não só na Amazônia. Aqui em São Paulo, se tivesse floresta, o que eu chamo de paquiderme atmosférico…

Como é?

É a massa de ar quente que “sentou” no Sudeste e não deixa entrar nem a frente fria pelo Sul nem os rios voadores da Amazônia.

O que o governo do Estado deveria fazer?

Programas massivos de replantio de reflorestas. Já. São Paulo tem que erradicar totalmente a tolerância com relação a desmatamento. Segunda coisa: ter um esforço de guerra no replantio de florestas. Não é replantar eucalipto. Monocultura de eucalipto não tem este papel em relação a ciclo hidrológico, tem que replantar floresta e acabar com o fogo. Poderia começar reconstruindo ecossistemas em áreas degradadas para não competir com a agricultura.

Onde?

Nos morros pelados onde tem capim, nos vales, em áreas íngremes. Em vales onde só tem capim, tem que plantar árvores da Mata Atlântica. O esforço de guerra para replantar tem que juntar toda a sociedade. Precisamos reconstruir as florestas, da melhor e mais rápida forma possível.

E o desmatamento legal?

Nem pode entrar em cogitação. Uma lei que não levou em consideração a ciência e prejudica a sociedade, que tira água das torneiras, precisa ser mudada.

O que achou de Dilma não ter assinado o compromisso de desmatamento zero em 2030, na reunião da ONU, em Nova York?
Um absurdo sem paralelo. A realidade é que estamos indo para o caos. Já temos carros-pipa na zona metropolitana de São Paulo. Estamos perdendo bilhões de dólares em valores que foram destruídos. Quem é o responsável por isso? Um dia, quando a sociedade se der conta, a Justiça vai receber acusações. Imagine se as grandes áreas urbanas, que ficarem em penúria hídrica, responsabilizarem os grandes lordes do agronegócio pelo desmatamento da Amazônia. Espero que não se chegue a essa situação. Mas a realidade é que a torneira da sua casa está secando.

Quanto a floresta consegue suportar?

Temos uma floresta de mais de 50 milhões de anos. Nesse período é improvável que não tenham acontecido cataclismas, glaciação e aquecimento, e no entanto a Amazônia e a Mata Atlântica ficaram aí. Quando a floresta está intacta, tem capacidade de suportar. É a mesma capacidade do fígado do alcoólatra que, mesmo tomando vários porres, não acontece nada se está intacto. Mas o desmatamento faz com que a capacidade de resiliência que tínhamos, com a floresta, fique perdida.

Aí vem uma flutuação forte ligado à mudança climática global e nós ficamos muito expostos, como é o caso do “paquiderme atmosférico” que sentou no Sudeste. Se tivesse floresta aqui, não aconteceria, porque a floresta resfria a superfície e evapora quantidade de água que ajuda a formar chuva.

O esforço terá resultado?

Isso não é garantido, porque existem as mudanças climáticas globais, mas reconstruir ecossistemas é a melhor opção que temos. Quem sabe a gente desenvolva outra agricultura, mais harmônica, de serviços agroecossistêmicos. Não tem nenhuma razão para o antagonismo entre agricultura e conservação ambiental. Ao contrário. A agricultura consciente, que soubesse o que a comunidade científica sabe, estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo proteção das florestas. E, por iniciativa própria, replantaria a floresta nas suas propriedades.

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10/11/2014 – 01h16

Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer (WWF Brasil)

por Redação do WWF Brasil

amazonia desmatamento peter 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer

O mais recente relatório divulgado, na última semana, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) alertou: o planeta precisa de mudanças, caso contrário os danos ambientais e climáticos poderão ser irreversíveis. No Brasil, a situação não é diferente. Muito há que ser mudado, principalmente, no que se refere à conservação da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia. Pelo fato de desempenhar um papel essencial no combate aos efeitos das mudanças climáticas, pesquisas recentes associam a destruição das florestas no norte do País às graves consequências para o clima, devido à sua função na estocagem do carbono e na regulação do regime das chuvas, que abastecem, por exemplo, as regiões Sudeste e Sul.

Apesar do alerta e da necessidade de mudança, o Brasil tem caminhado no sentido contrário, principalmente, no que diz respeito ao desmatamento da Amazônia. Antes mesmo da divulgação das estimativas oficiais de desmatamento em 2014, prevista para as próximas semanas, os números do sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) apontam uma tendência de crescimento no norte do País.

Segundo o sistema, baseado em estimativas a partir de imagens de satélites e destinado a orientar a fiscalização em campo, nos últimos três anos (2012, 2013 e 2014), houve um aumento de cerca de 49% nas taxas correspondentes entre agosto de um ano a julho do ano seguinte. Na comparação de 2013 a 2014, considerando apenas os meses do início da estação seca na Amazônia (maio-julho), os quais concentram boa parte do desmatamento anual, o valor dobrou, passando de 893 km2 para 1535 km2 (veja gráfico abaixo).

grafico desmatamento 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer

O sistema Deter é um dos sistemas de monitoramento criado pelo governo para apontar alertas de desmatamento e demonstrar suas tendências. Por esta razão, serve também para estimar o que deve acontecer com os dados oficiais de referência para o monitoramento do desmatamento, por meio de um segundo sistema mais acurado. Este segundo sistema é o que gera os dados a serem divulgados nas próximas semanas, que terão por base os valores levantados pelo Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que registra, via satélite, áreas equivalentes a pouco mais de seis campos de futebol (6,25 hectares). Esta estimativa é divulgada sempre no final do ano, geralmente no mês de novembro. Em meados de julho do ano seguinte, as taxas são consolidadas oficialmente, após o detalhamento dos estudos. Entretanto, as estimativas de novembro contém uma imprecisão muito pequena em relação aos dados definitivos que serão divulgados no ano que vem.

“As taxas de desmatamento da Amazônia, consideradas como oficiais pelo governo brasileiro, são as do Prodes, que trabalha com imagens de melhor resolução espacial, capazes de mostrar também os pequenos desmatamentos. No entanto, os números apontados pelo Deter são importantes indicadores para os órgãos de controle e fiscalização e para nos mostrar a tendência que vem por aí”, explica Mauro Armelin, superintendente de conservação do WWF-Brasil. O Prodes, em seu último levantamento, já havia registrado um aumento em relação ao ano anterior de 29% nas taxas de desmatamento para o período de agosto de 2012 a julho de 2013, em que 5.891 km² de floresta amazônica foram perdidos. “Existe a tendência do Prodes acompanhar a tendência do Deter, ou seja, haver aumento do desmatamento registrado oficialmente em 2014. É claro que esperamos boas notícias, ou seja, que estejamos errados em nossa análise, e que as novas taxas do Prodes mostrem o recuo do desmatamento. Mas a tendência é justamente a contrária”, conclui.

Segundo Armelin, o Brasil corre o risco de fechar o ano com a pior performance ambiental dos últimos anos. “Estamos numa situação complicada. Ao mesmo tempo que o desmatamento tende a crescer, também não avançamos em alternativas energéticas de baixo carbono. Para piorar, os incentivos do governo têm aumentado para a expansão automobilística, com um forte incentivo a combustíveis fósseis, com cada vez mais subsídios para a gasolina, por exemplo”, avalia Armelin. Tais investimentos não contribuem em nada com as metas divulgadas pelo relatório do IPCC. O documento sugere que o uso, sem restrições de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás), seja suspenso até o ano de 2100 e que o uso de alternativas renováveis suba até 70% até 2050. “Acreditamos que para contribuir com essas recomendações, o Brasil precisa ter um melhor planejamento energético que considere fontes de energia de menor impacto, como solar, eólica, baseada em biomassa e em pequenas centrais hidrelétricas, as PCHs”, explica Mauro.

Sem estes investimentos, continuaremos a ir na direção contrária ao desenvolvimento sustentável. “Precisamos finalmente entender, como sociedade, que as escolhas que fizermos agora irão refletir na qualidade de vida das futuras gerações. Eventos climáticos extremos, como a escassez de chuvas no sudeste que está ocorrendo agora, serão fenômenos que se tornarão mais comuns enquanto a temperatura do planeta continuar a crescer. A Amazônia é um ativo chave para a proteção da segurança climática, hídrica e energética, não só da população brasileira, mas também mundial”, alerta Armelin.

Alternativas

O atual cenário da Amazônia clama por uma intervenção urgente. O governo precisa agir rapidamente para evitar que o desmatamento fuja do controle e aumente os riscos para a região em termos da perda de sua biodiversidade e da depreciação de seu capital natural, com fortes impactos sobre sua população. “É preciso avançar em ações estruturantes, como a implementação em larga escala do Cadastro Ambiental Rural, de iniciativas de restauração florestal dentro das propriedades privadas, de forma a assegurar cumprimento da lei ambiental, e de ações de ordenamento e de planejamento do uso do solo”, ressalta Marco Lentini, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil.

Além disso, segundo o especialista, é preciso implementar de forma mais eficiente ações que levem ao bom uso e à valorização de florestas, principalmente em iniciativas de manejo florestal, e que apresentem alternativas econômicas contra o desmatamento. Um exemplo seria o desenvolvimento de um amplo sistema para o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como carbono, água e biodiversidade. “A floresta amazônica, além de proporcionar serviços imensuráveis em termos de regulação do clima e do regime de chuvas, oferece uma ampla gama de produtos que podem ser aproveitados de forma racional pela sociedade. Ou seja, podemos aliar conservação e desenvolvimento. Nossa sociedade tem investido em modelos que priorizam ou um objetivo, ou o outro. É chegado o momento de sairmos desta paralisia de paradigma”, avalia Lentini.

* Publicado originalmente no site WWF Brasil.

(WWF Brasil)

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10/11/2014 – 01h08

Destamento: Má notícia pode virar pesadelo (Greenpeace)

por Redação do Greenpeace

desmatamento1 Destamento: Má notícia pode virar pesadelo

Últimos dados do sistema de alerta Deter apontam tendência de crescimento do desmatamento da Amazônia.

O que foi má notícia no ano passado se anuncia antecipadamente como pesadelo para 2015: depois de vários anos de queda, o aumento no desmatamento da Amazônia pode se confirmar como tendência em 2014 (assim que a taxa oficial anual da derrubada de árvores na região para este ano for divulgada) e como grande desafio em 2015. Segundo a Folha de S.Paulo, em nota divulgada em seu site, sexta-feira, dia 7, os alertas de desmatamento na região aumentaram 122% em agosto e setembro passados, comparados com o mesmo período do ano anterior. Dados do Deter, diz a Folha, mostram alertas de desmatamentos num total de 1.626 km² de florestas nesses dois meses.

Agosto e setembro são os dois primeiros meses que comporão a taxa oficial de desmatamento em 2015. Por razões técnicas, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) monitora desmatamento entre agosto de um ano e julho do próximo, – o chamado “ano fiscal do desmatamento”. Os alertas são baseados em imagens de satélite que permitem análise rápida por serem mais leves, dada a baixa resolução das imagens, e compõem o Deter – o sistema de monitoramento em tempo real passado ao Ibama para auxiliar no combate a ilegalidades na floresta. Sendo assim, os meses de agosto e setembro de 2014 comporão os dois primeiros do “ano fiscal” de 2015.

Apesar de o sistema Deter ter um grau de imprecisão na medição, o crescimento nesses dois primeiros meses de apuração da taxa de desmatamento a ser considerada em 2015 é motivo para séria preocupação, explica Paulo Adario, estrategista sênior do Greenpeace para florestas. “O aumento dos números do Deter apontado pela Folha confirma uma tendência já apontada pelos dados da ONG Imazon e acende a luz vermelha. O dragão do desmatamento acordou.”

“Essa é uma má notícia para o governo, que vinha se beneficiando da imagem positiva criada pela queda no desmatamento, e para todos nós. O desmatamento da Amazônia é a principal contribuição do Brasil para a mudança climática. A floresta perde cada vez mais cobertura e nós sentimos a consequência dessa destruição para muito além das fronteiras da Amazônia, como na forte estiagem que seca as torneiras no Sudeste.”

* Publicado originalmente no site Greenpeace.

(Greenpeace)

Dados que governo segurou mostram desmatamento alto (Folha de S.Paulo)

JC 5062, 10 de novembro de 2014

Perda de cobertura vegetal na Amazônia cresceu 122% em agosto e setembro, ante o mesmo período de 2013, informa a Folha de sábado

Agora é oficial: o desmatamento na Amazônia disparou em agosto e setembro. Foram devastados 1.626 km² de florestas, um crescimento de 122% sobre os mesmos dois meses de 2013.

O governo federal já conhecia esses dados antes do segundo turno da eleição presidencial, realizado no último dia 26 –a divulgação do aumento no desmatamento poderia prejudicar a votação da presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição.

Veja a matéria completa em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/194542-dados-que-governo-segurou-mostram-desmatamento-alto.shtml

(Marcelo Leite/Folha de S.Paulo)

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Amazônia morre e jornais não veem (Folha de S.Paulo)

A continuar nesse ritmo, só os mortos de sede vão testemunhar o fim da floresta amazônica, publica Leão Serva em artigo na Folha

A imprensa parece ter acordado para a maior tragédia ambiental em curso nesta região do planeta, a destruição acelerada da Amazônia. Mas talvez agora já seja tarde demais: há fortes sinais de falência do [http://goo.gl/G154Uk] sistema amazônico, que inclui a floresta e sua influência sobre o clima continental.

Veja a matéria completa em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/194887-amazonia-morre-e-jornais-nao-veem.shtml

(Folha de S.Paulo)

Amazônia já está entrando em pane, afirma cientista (Folha de S.Paulo)

Seca no Sudeste pode estar ligada ao desmate e à degradação da floresta

Com 20% da floresta desmatada outros 20% degradados, a floresta amazônica já começa a falhar em seu papel de regulação do clima da América do Sul, diz o biogeoquímico Antonio Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Veja a matéria na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/193261-amazonia-ja-esta-entrando-em-pane-afirma-cientista.shtml

(Rafael Garcia / Folha de S.Paulo)

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JC, 5055, 30 de outubro de 2014

Mudanças climáticas provocarão ‘impactos irreversíveis’ nos ecossistemas, dizem cientistas

Grupo que elabora relatório do IPCC destaca que os corais são a maior preocupação ambiental

Vinte e sete ecossistemas podem sofrer impactos “graves, invasivos e irreversíveis”, que atingirão seres humanos e outras espécies, se não forem tomadas providências imediatas contra o aumento de eventos extremos do clima. A maior preocupação são os corais, cuja presença não é muito marcante no Brasil. O tema marcou as discussões de 500 cientistas reunidos nesta quarta-feira em Copenhague, responsáveis por concluir nesta sexta o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Veja a matéria completa em: http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/mudancas-climaticas-provocarao-impactos-irreversiveis-nos-ecossistemas-dizem-cientistas-14404015#ixzz3HdHQtJo2

(Renato Grandelle / O Globo)

Passada eleição, Alckmin quer ajuda de Dilma frente a crise da água; Desmatamento da Amazônia causa seca em SP, diz cientista (Valor Econômico)

Passada eleição, Alckmin quer ajuda de Dilma frente a crise da água

Reportagem do Valor Econômico mostra que governador de São Paulo pedirá recursos financeiros e a desoneração de impostos

Passada a eleição presidencial, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou nesta quarta-feira que pedirá ao governo federal recursos financeiros e a desoneração de impostos para enfrentar a atual crise de desabastecimento de água.

Veja a matéria completa em: http://www.valor.com.br/politica/3756024/passada-eleicao-alckmin-quer-ajuda-de-dilma-frente-crise-da-agua#ixzz3HdTf6J51

(Valor Econômico)

Desmatamento da Amazônia causa seca em SP, diz cientista

“Estamos indo para o matadouro”, afirma o especialista em mudanças climáticas e agrônomo do Inpe

Em tom dramático, o cientista Antonio Donato Nobre, um dos maiores especialistas do mundo em floresta amazônica, disse ao Valor que é possível, sim, relacionar a seca no Sudeste, que castiga especialmente o Estado de São Paulo, com o desmatamento.

Veja a matéria na íntegra: http://www.valor.com.br/brasil/3759904/desmatamento-da-amazonia-causa-seca-em-sp-diz-cientista

(Daniela Chiaretti / Valor Econômico)

Estudo investiga atraso da estação chuvosa na Amazônia (Agência Fapesp)

30/10/2014 – 12h26

por Redação da Agência Fapesp

Amazonia2 Estudo investiga atraso da estação chuvosa na Amazônia

Agência FAPESP – A transição da estação seca para a estação chuvosa no sul da Amazônia costuma ocorrer entre os meses de setembro e outubro. Atrasos nesse processo causam fortes impactos na agricultura local, na geração de energia e no funcionamento dos grandes rios da região, dos quais a população depende até mesmo para se locomover.

As fortes secas que afetaram a Amazônia nos anos de 2005 e 2010, bem como as enchentes de 2009 e 2014, indicam uma crescente variabilidade no início do período das chuvas que os modelos de previsão do clima ainda não são capazes de detectar com sensibilidade.

Compreender melhor os fatores que influenciam essa transição e, dessa forma, aperfeiçoar os modelos matemáticos existentes é o objetivo de um projeto apoiado pela FAPESP e coordenado pelo pesquisador José Antônio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com a cientista Rong Fu, da University of Texas, nos Estados Unidos.

“Observamos um aumento de quase um mês na duração do período de seca, quando comparado aos dados dos anos 1970. Os modelos matemáticos existentes indicam que esse atraso no início das chuvas tende a aumentar. Queremos investigar se há influência da pluma de poluição da região metropolitana de Manaus nesse processo”, contou Marengo.

A pesquisa está sendo realizada no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon), que reúne pesquisadores de diversas universidades e institutos brasileiros e norte-americanos e conta com financiamento do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), entre outros parceiros.

Resultados preliminares foram apresentados na terça-feira (28/10), em Washington (Estados Unidos), durante o simpósio FAPESP-U.S. Collaborative Research on the Amazon.

“Evidências da literatura sugerem que a transição do período de seca para o de chuvas é influenciada por fatores externos, como anomalias na temperatura da superfície do oceano, transporte de umidade, entre outros. Mas o gatilho para essa transição está sem dúvida dentro da floresta”, disse Fu.

Os pesquisadores estão trabalhando com dois diferentes modelos, um americano, chamado Community Earth System Model (Cesm), e o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (Besm, na sigla em inglês). Mas, segundo Marengo, eles ainda não são capazes de representar com precisão os impactos da extensão da seca no sul da Amazônia.

Existem parâmetros que precisam ser melhorados, como a inclusão de aerossóis e a representação das nuvens baixas. A ideia é usar toda a gama de dados gerada pelos diversos experimentos do GOAmazon para alimentar esses modelos e aperfeiçoá-los”, contou Marengo.

De acordo com o pesquisador, a região sul da Amazônia é a que sofre mais com o atraso do início das chuvas, pois no norte não há um período de seca definido. Além do impacto sobre as populações, os cientistas temem que o prolongamento do período de seca possa causar danos permanentes à floresta.

“O ser humano se adapta, mas a floresta pode começar a secar e ficar mais vulnerável a queimadas. Quando começar a chover pode ser tarde demais. Somente com o aperfeiçoamento dos modelos poderemos ter mais certeza sobre os possíveis impactos”, disse Marengo.

Modelando nuvens

Outro projeto realizado no âmbito do GOAmazon que tem como objetivo o aperfeiçoamento de modelos de previsão climática foi apresentado no simpósio em Washington por Tercio Ambrizzi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e por seu colega Carlos Roberto Mechoso, da University of California em Los Angeles (Ucla).

“Nosso objetivo é investigar como os aerossóis produzidos pela região de Manaus influenciam o processo de formação de nuvens na Amazônia. Nós comparamos as simulações que os diversos modelos são capazes de fazer com dados reais que estão sendo produzidos nos diversos sítios de pesquisa do GOAmazon”, disse Ambrizzi.

Depois de aperfeiçoados, esses modelos poderão ser incorporados em programas que desenham cenários de mudança climática, aumentando o grau de confiabilidade das projeções, afirmou o pesquisador.

Ao todo, o grupo trabalha com cinco diferentes modelos matemáticos, entre eles um de previsão do clima global, um de previsão regional e um voltado especificamente à formação de nuvens. Há ainda um programa capaz de mapear a trajetória das nuvens, desde o desenvolvimento inicial, a maturação e o decaimento, na forma de chuva, com auxílio de imagens de satélite.

Por meio do chamado modelo lagrangiano de difusão de partículas, o grupo de Ambrizzi investiga detalhadamente de onde vem a umidade existente na região da Amazônia e para onde ela se dirige. Os primeiros resultados foram divulgados em artigo publicado na revista Hydrology and Earth System Sciences.

“É possível ver claramente pela trajetória das partículas que as regiões do Atlântico tropical norte e sul são fontes de umidade para a Amazônia. Essas partículas caminham até a região Sudeste, onde se transformam em chuva”, disse Ambrizzi.

Sítios de pesquisa

Desde o início de 2014, uma gama enorme de dados sobre composição química de aerossóis e gases atmosféricos, microfísica de nuvens e parâmetros meteorológicos está sendo coletada nos diversos sítios de pesquisa instalados na região amazônica para o projeto GOAmazon.

O chamado sítio T3, localizado em Manacapuru, a 100 km de Manaus, é onde está instalada a estrutura do Atmospheric Radiation Measurement (ARM) Facility – um conjunto móvel de equipamentos terrestres e aéreos desenvolvido para estudos climáticos e pertencente ao DoE. O local recebe a pluma de Manaus após percorrer um longo caminho e sofrer interações com partículas emitidas pela floresta e com a radiação solar.

O T2 está situado no município de Iranduba, situado na margem do Rio Negro oposta à cidade de Manaus, e recebe a pluma de poluição assim que ela é emitida. Lá foi instalado com apoio da FAPESP um contêiner com equipamentos semelhantes aos existentes em Manacapuru.

A infraestrutura para coleta de dados do GOAmazon conta ainda com duas torres instaladas dentro da cidade de Manaus, na sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), batizada de sítio T1, e um conjunto de torres ao norte de Manaus – conhecido como T0 –, que inclui a Torre Alta de Observação da Amazônia (Atto), com 320 metros de altura. O T0 está situado no lado oposto ao percorrido pela pluma e representa, portanto, as condições da atmosfera amazônica sem a influência da poluição.

“Estamos analisando os dados das estações antes da pluma de Manaus e depois da pluma de Manaus. A primeira constatação é que, sem conhecer a situação da química atmosférica antes da pluma, no T0, fica quase impossível interpretar os dados coletados no T3, onde está a infraestrutura do ARM”, ressaltou Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e idealizador do projeto GOAmazon ao lado de Scot Martin, da Harvard University, nos Estados Unidos.

A comparação entre os dados coletados nos diversos sítios, afirmou Artaxo, revela haver forte influência da pluma de Manaus na composição química dos aerossóis e dos gases traço observados em Manacapuru.

“Qual é o impacto e suas consequências ainda vamos analisar. Já vimos, em relação ao ozônio, que há um aumento de até quatro vezes na concentração quando se comparam o T0 e o T3. Passa de 10 partes por milhão (ppm) para 40 ppm após a pluma, chegando a níveis que podem ser danosos às plantas. Vimos também forte efeito no balanço de radiação atmosférica, alterando a quantidade de radiação disponível para as plantas realizarem fotossíntese”, disse.

* Publicado originalmente no site Agência Fapesp.

(Agência Fapesp)

Cacique é impedido pelo governo federal de participar da 1ª Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas (IHU)

Ban Ki-Moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), prometeu na manhã desta segunda-feira, 22, lutar contra a exclusão e a marginalização a que povos indígenas estão submetidos no mundo. A declaração acontece a propósito da abertura da 1ª Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas, na sede das nações Unidas, em Nova York. A fala do secretário-geral da ONU, neste momento histórico, ocorre na ocasião em que pela segunda vez no ano uma liderança indígena é impedida de sair do país pelo governo brasileiro.

A reportagem é do portal do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, 22-09-2014.

O cacique Marcos Xukuru recebeu o aviso da Funai, na última sexta-feira, 19, de que não poderia embarcar para Nova York e participar da conferência devido ao fato de ter pendência com a Justiça brasileira. O cacique integraria a delegação indígena do Brasil. A pendência, na verdade, trata-se de um processo judicial envolvendo a luta pela demarcação da Terra Indígena Xukuru do Ororubá, no município de Pesqueira (PE), em 2003, que já transitou e foi julgado pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5).

“Não há nenhum impedimento judicial dizendo que eu não posso sair do país. Recentemente tive duas vezes no exterior para fazer denúncias de violações aos direitos humanos contra os povos indígenas. Uma delas em Nova York, inclusive. Houve um boicote que partiu do Ministério da Justiça. Sabemos que existe receio por parte de gente do governo quanto ao que podemos dizer para o mundo”, afirma o cacique. A Assessoria Jurídica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) diz não ter conhecimento de nenhum outro processo envolvendo o cacique fora esse já encerrado.

A presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, conforme Marcos Xukuru, fez o convite para que ele participasse da conferência. Foi ela também que justificou as razões do impedimento ao cacique, numa ligação onde Maria Augustadisse que a suspensão da viagem se deu por questões diplomáticas, em face da pendência judicial. “A Funai me convidou para ir com outras lideranças. Um processo que não me proíbe de viajar foi usado. É uma situação. Sabemos que isso veio do Ministério da Justiça”, diz o Xukuru. O cacique, por medida cautelar da Organização dos Estados Americanos (OEA), faz parte do programa de proteção do estado de Pernambuco.

O demais integrantes da delegação do Brasil que se deslocou para Nova York ameaçou boicotar o encontro caso o cacique não fosse reintegrado ao grupo. Porém, o Xukuru explica que pediu aos parentes que demovessem a ideia e fossem à conferência, alegando que “é um momento único para dizer o que se passa no país, quais violações estão acontecendo aqui e que lideranças estão sendo impedidas de dialogar em âmbito mundial justamente pela criminalização que sofrem quando lutam por seus direitos”, ataca o cacique Marcos Xukuru.

Este ano já é o segundo caso de lideranças indígena impedida de viajar ao exterior para agendas políticas, de denúncia de violações aos diretos destes povos. Em abril, o cacique Babau Tupinambá, uma das lideranças da luta pela demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, foi barrado a ir ao Vaticano para encontro com o Papa Francisco, a convite da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Depois de conceder o visto, a Polícia Federal voltou atrás alegando que existiam ordens de prisão contra Babau e pediu que ele devolvesse o passaporte apresentando-se à autoridade policial.

A 1ª Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas termina nesta terça, 23. Um documento sobre os direitos dos povos indígenas e sua implementação, preparado diante de consulta aos países integrantes da ONU e povos indígenas, deverá concluir o histórico encontro mundial. Segundo a ONU, existem 370 milhões de indígenas de mais de 5 mil comunidades espalhados por 90 países. Eles representam 5% da população global. No Brasil, são quase 900 mil indígenas divididos em 305 povos. O país também concentra cerca de 94 grupos livres, ou seja, povos em situação voluntária de isolamento.

Processo contra o cacique do povo Xukuru

Cacique Marcos Xukuru, em 2003, sofreu um atentado em um trecho da estrada que corta a Terra Indígena Xukuru do Ororubá. Na ocasião, dois jovens indígenas acabaram mortos e um terceiro conseguiu fugir, avisando as demais lideranças do povo. Com dois mortos e o cacique desaparecido – ele havia corrido para o interior da mata – a comunidade, tomada por uma comoção coletiva, incendiou a sede da fazenda localizada onde o atentado ocorreu e se dirigiu para a Vila de Cimbres com o objetivo de retirar da terra indígena o que restava de invasores e aliados dos fazendeiros.

O conflito entre os xukuru e os invasores foi inevitável. A terra indígena, naquele momento, já tinha sido demarcada. No entanto, o cacique, então vítima de um atentado, passou a ser acusado de ter liderado os ataques contra os fazendeiros e demais invasores do território. Um processo de desenrolou por quase 10 anos, até que o TRF-5 o julgou condenando cacique Marcos e mais 20 lideranças do povo Xukuru a quatro anos de prisão. A sentença, no entanto, foi revertida em pena alternativa com o pagamento de cestas básicas.

No dia 3 deste mês, a Assembleia Legislativa de Pernambuco condecorou o cacique Marcos Xukuru com a comenda Leão do Norte, na categoria Direitos Humanos.

Pressões territoriais forçam índios isolados a estabelecer contato (Fapesp)

Integrantes de grupo indígena travam primeiro contato com funcionários da Funai e índios Ashaninka na Aldeia Simpatia, no Acre (foto: divulgação/Funai)

31/07/2014

Por Elton Alisson, de Rio Branco (AC)

Agência FAPESP – Um grupo indígena de etnia ainda não identificada estabeleceu em junho o primeiro contato com funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) e com índios Ashaninka, na Aldeia Simpatia, da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Envira, na fronteira do Acre com o Peru. O grupo, que recebeu destaque da revista Science, pode ser apenas um de vários outros da região que devem sair da “condição de anonimato” nos próximos anos.

Isso porque o avanço da exploração de madeira e petróleo, além do narcotráfico e da construção de estradas próximas ou nas terras indígenas – principalmente no lado peruano –, podem estar forçando-os a sair do isolamento na floresta e a se aproximar das aldeias de índios já contatados.

A avaliação foi feita por pesquisadores participantes de uma mesa-redonda sobre índios isolados no Acre realizada durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou no domingo (27/07), no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.

“Há um conjunto de 10 áreas indígenas nessa região de fronteira do Acre com o Peru, conhecida como Paralelo 10, que são corredores de índios isolados”, disse Terri Vale de Aquino, antropólogo da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai e professor da UFAC.

“Existem muitas denúncias de casos de contatos forçados, escravidão e, sobretudo, de violência contra os povos indígenas nessa região. Isso tem provocado a migração para o Acre”, afirmou Aquino.

De acordo com o pesquisador, a construção de uma rodovia de 40 quilômetros de extensão entre os rios Muru e Tarauacá atingirá uma área utilizada por índios Kaxinawá destinada exclusivamente a índios isolados que vivem na fronteira do Acre com Peru, apontou.

“As lideranças dos índios Kaxinawá estão fazendo uma denúncia ao Ministério Público Federal porque essa estrada está sendo construída sem licença e estudos e relatórios de impacto ambiental”, afirmou.

Além disso, a distribuição de lotes para a exploração de petróleo e gás na região está “ilhando” terras indígenas no Alto Juruá e impactando diretamente os povos indígenas e grupos de índios isolados na região, sobretudo do lado peruano da fronteira, apontou.

Para agravar esses problemas, narcotraficantes têm buscado novas rotas de tráfico de drogas na Amazônia por meio do Alto Envira, um rio binacional que nasce em terras peruanas e passa pelo Acre, contou Aquino.

“O narcotráfico está muito intenso no Alto Envira e por dois anos desarticulou as bases de índios isolados do Rio Xinane [afluente do Envira] pela violência que imprimiu na região”, afirmou. “Esse conjunto de fatores pressiona muito os povos indígenas isolados que habitam essa região fronteiriça.”

Segundo os pesquisadores, o grupo de índios isolados que estabeleceu o primeiro contato no dia 29 de junho no Acre também relatou, por meio de intérpretes, ter sofrido atos de violência cometidos por não indígenas nas cabeceiras do rio Envira, em território peruano.

“Esses índios isolados podem estar fugindo dos madeireiros e do narcotráfico, além da exploração de petróleo e gás e da construção de estradas em suas terras”, estimou Aquino.

Presença recente

De acordo com Aquino, a presença de povos indígenas isolados no Acre é um fenômeno relativamente recente e tem se intensificado. Nos últimos 30 anos, a Funai avistou e passou a monitorar quatro grupos de índios isolados no Alto Envira, mas estima que possam existir muitos outros na região.

“O grupo de indígenas que estabeleceu contato em junho contou que há outros grupos de índios isolados na região – alguns aliados e outros inimigos deles – que nem sabíamos que existiam”, disse Aquino.

Um dos mais recentes grupos de índios isolados no estado foi avistado por funcionários da Funai em 2008 na cabeceira do rio Xinane e chegou à região fugindo do avanço dos madeireiros e do narcotráfico sobre suas terras, disse Aquino.

Já um outro grupo de índios isolados avistado na cabeceira do rio Humaitá, na margem esquerda do Envira, sobreviveu ao massacre de populações indígenas durante o primeiro ciclo da borracha da Amazônia, entre 1880 e 1920, no chamado “tempo dos seringais”, e resistiu por mais de 100 anos ao primeiro contato.

“Estima-se que eles formem um grupo de aproximadamente 300 índios, sendo o maior entre os quatro povos indígenas isolados já avistados pela Funai nessa região do Acre”, disse Aquino. “Eles já são bastante conhecidos aqui no Acre inclusive por outros povos isolados, que acham que eles são feiticeiros e xamãs.”

Além desses, há o grupo Mashco-Piro, conhecido pelo comportamento nômade. A comunidade costuma caminhar pelas cabeceiras do rio Madre de Díos, no lado peruano, e afluentes – em grupos grandes, formados por entre 100 e 150 índios.

Em geral, segundo Aquino, eles entram no território acreano no verão. Permanecem por períodos de três a quatro dias em um mesmo lugar e logo em seguida já migram para outro.

“Nunca localizamos nenhuma maloca ou roçado desse grupo de índios isolados no Acre. Eles são conhecidos como povo de floresta e se estabelecem aqui em acampamentos provisórios, compartilhando a terra do povo Pano”, contou.

Aumento de evidências

De acordo com Aquino, a presença desses quatro grupos de índios isolados já identificados no Acre foi constatada por meio de avistamentos e confrontos, além de coletas de vestígios de sua presença na região, tais como saques, rastros ou de utensílios, como cestas e flechas, que deixaram pelo caminho.

Um mapeamento realizado pelo pesquisador para verificar a presença de índios isolados no Acre nas últimas três décadas apontou que o maior número de evidências foi coletado entre os anos de 2006 e 2013.

Do total de 231 evidências coletadas da presença desses índios isolados na região, 156 foram registradas nesses últimos oito anos. E desses 156 indícios, 70 foram saques de ferramentas de metal, contou Aquino.

“Isso denota que esses grupos de índios isolados estão buscando, principalmente, ferramentas de metal, e substituindo o machado de pedra pelo de aço. Eles também conhecem armas e já usam até espingardas”, contou.

Uma hipótese levantada pelos pesquisadores para explicar o aumento do número de saques na região é a busca por tecnologia por parte dos grupos de índios isolados.

“Percebemos que também há muitas iniciativas de aproximação desses grupos de índios isolados pela curiosidade de conhecer e coletar produtos industrializados”, disse Carlos Lisboa Travassos, coordenador-geral de Índios Isolados e Recém-Contatados da Funai.

“Algumas dessas situações de contato podem trazer um risco muito grande à saúde desses índios isolados, uma vez que eles não possuem imunidade à gripe e a outras doenças que podem levá-los a morrer de uma forma muito rápida e devastadora”, destacou.

O grupo de sete índios – quatro rapazes, duas mulheres jovens e uma criança – que estabeleceu o primeiro contato no fim de junho contraiu gripe e teve de ser transferido para a Base de Proteção Etnoambiental Xinane, da Funai, para receber atendimento médico.

Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes do grupo. “Precisamos nos preparar para amenizar os primeiros riscos à saúde desses grupos no primeiro contato e estabelecer uma relação franca com eles”, afirmou Travassos.

Segundo Travassos, a política de proteção aos índios isolados da Funai é a do não contato, respeitando a autodeterminação de aproximação dos povos. São previstas, contudo, ações de intervenção, como planos de contingência, quando um grupo indígena isolado procura estabelecer contato, como ocorreu no final de junho.

Registro do contato

No início da palestra os pesquisadores da Funai exibiram um vídeo de alguns minutos com imagens do primeiro contato com o novo grupo de índios isolados para uma plateia composta por muitos indígenas do Brasil e Peru.

De acordo com informações dos intérpretes que integraram a equipe da Funai que estabeleceu o primeiro contato, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico Pano, e o contato e a permanência deles na região ocorreram de forma pacífica, apesar de os índios Ashaninka terem se assustado com o aparecimento dos “forasteiros”. “Eles falaram que a língua deles é muito próxima à dos Jaminawá, se não for a mesma”, contou Aquino.

Segundo os antropólogos da Funai, alguns dos traços que os diferenciam de outros grupos isolados é o uso de folhas de envira (árvore da floresta tropical) amarrada no pênis e na cintura, na qual levam um facão.

O arco e a flecha que utilizam são feitos de madeira de pupunha e a ponta da flecha é feita de taboca (um tipo de bambu) e é bastante perfurante.

Tatunca Nara: alemão vive na Amazônia e tem até RG que diz que ele é índio (Der Spiegel)

Alexander Smoltczyk

20/07/201406h00

Hansi Richard Günther Hauck, nascido em Grub am Forst, na Bavária, mora em Manaus e acredita ser Tatunca Nara, chefe da tribo Ugha Mongulala. Acima, Tatunca Nara em imagem sem data divulgada pelo escritor Karl Brugger

Hansi Richard Günther Hauck, nascido em Grub am Forst, na Bavária, mora em Manaus e acredita ser Tatunca Nara, chefe da tribo Ugha Mongulala. Acima, Tatunca Nara em imagem sem data divulgada pelo escritor Karl Brugger

No final dos anos 60, um homem apareceu no Estado do Acre, no meio da região amazônica. Ele usava um pano amarrado sobre os genitais e uma pena, carregava um arco e dizia que era Tatunca Nara, chefe de Ugha Monulala. Ninguém nunca tinha ouvido falar de uma tribo indígena com aquele nome. Além disso, o homem não se parecia em nada com um índio. Ele era branco e falava com um forte sotaque francês.

Ele dizia que tinha herdado o sotaque de sua mãe, explicando que ela era uma freira alemã que havia sido levada pelos índios. Seu povo, segundo ele, vivia em uma cidade subterrânea chamada Akakor, e o alemão era a única língua falada lá – resultado da prole de 2.000 soldados nazistas que viajaram pela Amazônia em submarinos.

Sua história teria deixado as pessoas surpresas em qualquer outro lugar. Mas histórias bizarras não são incomuns na região amazônica, então ninguém deu muita atenção a Tatunca Nara.

Por outro lado, ele era simpático e sua aparição não teria resultado em muita coisa se não tivesse chamado a atenção de Karl Brugger, um correspondente da rede de televisão alemã ARD na época. Ele visitou Tatunca Nara em Manaus e gravou a história em 12 fitas de áudio.

Segundo Brugger: “foi a história mais estranha que já ouvi”. Era uma história de visitantes extraterrestres, ritos secretos de “anciãos” e incursões de “bárbaros brancos”, todas descritas exaustivamente e em grande detalhe, e sem interrupções “desde o ano zero até o presente”.

Mais surpreendente ainda foi o fato de que o livro de Brugger, “The Chronicle of Akakor” [“A Crônica de Akakor”], tenha desfrutado de certo sucesso. Nos círculos Nova Era, as histórias de Tatunca foram estudadas como se fossem Manuscritos do Mar Morto. Elas incluíam trechos como: “cinco dias vazios no final do ano são dedicados à adoração de nossos deuses.”

O oceanógrafo Jacques Cousteau contratou Tatunca como guia quando explorou a região com seu barco, o Calypso, em 1983. O filme de aventura “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de 2008, é sobre uma cidade submersa na Amazônia chamada Akator e uma tribo indígena chamada Ugha Mogulala. O personagem do filme se veste com um pano na cintura e uma pena.

O original existe? Tatunca está vivo? Este repórter viajou recentemente para o Brasil em uma tentativa de encontrar o homem lendário.

Em busca de Tatunca e boatos sinistros
O barco Almirante Azevedo II sobe e desce o Rio Negro há mais de 30 anos. A viagem de Manaus até Barcelos leva 35 horas, uma jornada através de águas negras que se tornam ácidas por causa da vegetação em decomposição. Estamos na temporada de chuvas e a floresta está inundada, transformando o Rio Negro em uma vasta rede de afluentes e brejos fétidos.

Raimundo Azevedo, o capitão, está agachado perto de uma pilha de pneus no deck inferior, recebendo uma massagem nas costas de um fisioterapeuta que entrou no barco em algum momento. Quando questionado sobre Tatunca, ele diz: “o índio da Alemanha? É claro que eu o conheço. Todo mundo no rio o conhece. É claro que ele ainda está vivo – a não ser que alguém tenha atirado nele na semana passada.”

O Almirante Azevedo II viajou pela noite negra como tinta, em meio a uma bolha de sons de água passando e do ruído explosivo e entorpecente do motor de diesel, ruídos que ecoavam em uma parede de vegetação exuberante e enredada ao longo das margens do rio. O capitão Azevedo coloca uma camisa e sobe as escadas até o deck superior para jogar cartas.

Os passageiros, que não somam mais do que poucas dúzias, estão deitados em suas redes, embrulhados como salsichas penduradas para defumar. Um cristão pentecostal faz o sinal da cruz e reza, enquanto o rapaz ao seu lado está entretido com fotos de vaginas em seu telefone celular. Parece que cada um tem um jeito diferente de começar o dia. O capitão, que ouviu falar sobre a fortaleza de Tatunca na floresta, diz: “ninguém ousa ir até lá, porque ele instalou armadilhas com explosivos e prendeu armas nas árvores. Ninguém sabe o que ele esconde lá.” De vez enquanto, um guincho agudo é ouvido à medida que o barco passa desliza próximo às margens.

“Teve um alemão que escreveu um livro sobre Tatunca”, disse o capitão. “Ele até tatuou uma tartaruga no coração, assim como Tatunca. Eles o mataram no Rio.”

“A bala passou direto pela tartaruga”, acrescentou Lucio, um motorista de táxi gordo com uma pedaço do cotovelo saindo como uma protuberância pelo pulso, resultado de um acidente de moto.

“Mas aquele não era Tatunca.”

“Talvez não.”

O barco sobe lentamente o rio, abrindo caminho entre matéria orgânica pré-histórica, e quanto mais ele se esquiva de troncos de árvores à deriva e ilhas flutuantes, mais o grupo discute os rumores sobre o alemão que vive rio acima – e mais sinistros eles se tornam.

Alguns ossos foram encontrados há sete anos, diz Lucio. “Ossos longos. Não eram de nenhum morador da Amazônia. Talvez um alemão.” Tatunca o matou, diz Lucio, para ficar com seu dinheiro e sua mulher. “É o que as pessoas dizem. Mas Tatunca diz que não foi ele.”

“Talvez não. Eles dizem que ele está fugindo da polícia de seu país”, diz o capitão. Agora, Tatunca deve ter bem os seus 70 anos. E ainda assim, observa o capitão, ainda está forte e em boa condição física. “Ele odeia os gringos”, diz outro homem. Ele faz uma pausa, olha para os outros, e diz: “vocês são gringos”.

O barco desliza entre as margens, vazias e ainda assim promissoras. Uma sombra ocasionalmente surge na superfície da água, um dos botos cor-de-rosa nativos do Rio Negro, que, segundo dizem, vão para a terra à noite e engravidam as mulheres.

O aventureiro alemão Rüdiger Nehberg também encontrou este índio branco, Tatunca Nara, durante uma expedição entre os índios Yanomami. Os dois homens se odiaram à primeira vista e acusaram um ao outro de mentiras e assassinato. Sua animosidade mútua aparentemente persiste até hoje. “Tatunca quer me afogar no Rio Negro”, escreveu Nehberg em um e-mail em maio.

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Tribo isolada da Amazônia é filmada pela primeira vez

13.ago.2013 – Nove índios da etnia kawahiva andavam nus pela mata em Colniza, no Mato Grosso, quando foram filmados por uma equipe da Funai (Fundação Nacional do Índio). Esta é a primeira vez que a tribo, que evita contato com o homem branco, é registrada. Os homens levavam arcos e flechas, indicando que são os guerreiros do grupo, enquanto as mulheres carregavam alguns objetos e as crianças (acima) Leia mais Reprodução/TV Globo

Assassinatos e desaparecimentos
A animosidade vem do fato de que Nehberg publicou um livro em 1991 intitulado “The Self-Made Chief” [algo como “O Homem Que Se Fez Cacique”].

Nele, ele revelou que o verdadeiro nome de Tatunca Nara é Hansi Richard Günther Hauck, e que ele nasceu em Grub am Forst, uma cidade perto de Coburgo, na Baviera, e não no Rio Negro, em 1941.

De acordo com Nehberg, Hauck, que leu muitos livros ao estilo de “Tarzan” quando era menino, abandonou sua mulher e filhos em 1966, aceitou um emprego a bordo do navio cargueiro Dorthe Odendorff, e eventualmente desapareceu no Brasil. Amigos antigos dizem que, quando era criança, Hauck uma vez disse ter testemunhado a aterrissagem de seres extraterrestres.

Isso tudo seria inofensivo se não tivesse havido três mortes que continuam sem explicação até hoje, mortes que ocorreram às margens do Rio Negro. Todas as três vítimas tinham sido atraídas para a região depois de ler “A Crônica de Akakor” e pediram a um certo Tatunca Nara para guiá-las até a cidade submersa. E, de acordo com testemunhas, ele fez a mesma promessa para todas as três: “vou mostrar-lhe Akakor”.
O Departamento de Polícia Criminal Federal da Alemanha lançou uma investigação sobre o suspeito assassinato e desaparecimento de três indivíduos “contra o cidadão alemão Günther Hauck, que vive no Brasil com uma identidade falsa”. Mas a investigação não chegou a lugar nenhum.

Depois de 35 horas de viagem insuportavelmente lenta, Barcelos aparece na margem esquerda como uma profecia, a cerca de 500 quilômetros rio acima a partir de Manaus. Há 30 igrejas evangélicas nesta cidade de 15 mil moradores, alguns dos quais dirigem pela região proclamando a salvação pelos alto-falantes de suas picapes em meio ao ar parado e empoeirado: “Deus não nega nenhum milagre!” É a religião dos abastados, daqueles que preferem acreditar no futuro e não na vida depois da morte.

O fascínio da Amazônia
O rio Amazonas e seus afluentes sempre exerceram um certo fascínio sobre as pessoas cansadas do ordinário, caçadores de fortunas e garimpeiros – entre eles o ator alemão Klaus Kinski, o geógrafo do século 19 Alexandre von Humboldt, um explorador nazista chamado Otto Schulz-Kampfhenkel e inúmeros defensores da floresta. A encarnação mais recente do aventureiro amazônico é um texano esquelético com olhos molhados, chamado pelos amigos de “o fabuloso Faltermann”, que empurrava sua bicicleta na frente do Café Regional.

Aos 20 anos, Patrick Faltermann deixou a casa dos pais no Cinturão da Bíblia nos EUA, profundamente conservador, embarcou em um navio cargueiro para Belém, uma cidade na Amazônia, e trocou seu laptop por um caiaque. Ele se pôs a remar no rio. Fez isso à moda antiga, como ele diz, sem GPS, contra a correnteza e com pouco mais do que o livro “Through the Brazilian Wilderness” de Teddy Roosevelt, na mochila. Foi uma jornada de noites negras e solitárias, capim cortante, aranhas venenosas e de se perder durante dias. Agora, quatro anos depois, Faltermann viajou 4.500 quilômetros e diz: “encontrei Tatunca há quatro semanas. Ele deve ter seus 70 e poucos anos, mas é mais forte que eu. As pessoas parecem ter medo dele, não é?”

Tatunca colocou armadilhas com dinamite em volta de sua cabana no meio da floresta, diz Faltermann. “Ele tem amigos militares. Isso ajuda, porque muitas pessoas gostariam de matá-lo a tiros. Ele aparentemente disse a uma menina que era pai dela e que ela tinha de ir com ele, em seu barco. O homem é incrível.”

Uma brisa fresca vem de vez em quando do rio no meio do dia quente. Faltermann abre outra lata de cerveja Skol, espera até que um caminhão passe e diz: “as histórias dele parecem um monte de mentiras. E o português dele é pior do que o meu. É como se fosse uma grande ‘ego trip’. Mas ele conhece a área melhor do que ninguém. E ele tem algum interesse na área indígena, subindo o rio Araçá.”

Algum interesse? “El Dorado. Em tese fica lá em cima perto dos dois picos, acima da cachoeira. Tatunca é o único que foi lá até agora.” Para as pessoas de Barcelos, “El Dorado” parece ser um lugar como qualquer outro.

Até recentemente, Barcelos era a capital mundial do comércio de peixes ornamentais, tão conhecida no mundo dos aquaristas quanto Cognac é entre os entusiastas da bebida. Em 1831, o pesquisador austríaco Johann Natterer descobriu o acará de Symphysodon, ou o acará-disco, nas águas salobras em torno de Barcelos. A espécie, apelidada de “rei dos peixes de aquário”, habita milhões de salas de estar hoje, normalmente junto com o tetra neon, o peixe ornamental mais popular de todos e também nativo do Rio Negro.

Em Barcelos, os orelhões têm formado de peixes ornamentais, e durante o Carnaval as pessoas se dividem em dois grupos, os Neons e os Discos, e atacam umas às outras usando fantasias de peixe feitas em casa.

Mas agora que o peixe ornamental está sendo criado em larga escala na Ásia, o comércio caiu 70%.

Há algum tempo, dois alemães fanáticos por aquários foram presos por biopirataria. Eles acreditaram nas garantias de seu guia, um nativo que, para sua surpresa, falava alemão fluentemente e chamava a si mesmo de Tatunca Nara.

Na prefeitura, um prédio embolorado perto do rio, somos informados de que a “Crônica de Akakor” gerou toda uma indústria de turismo. Além dos aquaristas, vários amigos da floresta e dos índios começaram a visitar a área – mas isso parou depois das notícias sobre as três mortes.
A primeira pessoa a desaparecer foi John Reed, um jovem norte-americano. Isso foi no final dos anos 80.

O especialista em florestas suíço Herbert Wanner desapareceu em 1984. Seus tênis, alguns ossos e um crânio com um buraco de bala foram encontrados um ano depois. Foi sobre esses ossos que os homens do rio haviam falado.

Reed tratava a “Crônica” como um guia para sua própria vida. Em sua última comunicação, uma carta para seus pais, ele escreveu: “acredito na honestidade de Tatunca mais do que nunca.”

A terceira pessoa a desaparecer foi Christine Heuser, uma instrutora de ioga de Kehl am Rhein, uma cidade no sudoeste da Alemanha. Ela também devorou a “Crônica de Akakor”, e estava convencida de que tinha sido mulher de Tatunca Nara em uma vida passada. Ela o visitou no verão de 1986. Há uma foto que a mostra dependurada em um cipó, com o torso nu. Não foram encontrados os restos de Heuser.

Águas escuras
Desde que o comércio de peixes ornamentais praticamente parou, os donos de barcos no alto do Rio Negro começaram a procurar outros trabalhos. Muitos servem como guias para pescadores norte-americanos que vão para a região em busca do peixe Oscar. Outros sobem o Rio Negro e entram em afluentes ao longo da fronteira com a Colômbia, onde usam seus barcos para traficar pacotes de cocaína.

“Perguntei a Tatunca se ele tinha matado aqueles três. Ele diz que não.” Para Mamá, a palavra de Tatunca é o bastante. Mamá, um homem rústico com uma tatuagem de cavalo-marinho e uma bandana na cabeça, é chamado de “Pirata” em Barcelos. Ele usa uma bandeira pirata em seu barco e está em casa nas águas escuras do rio. “Só não transporto drogas”, observa Mamá, sem que a pergunta tenha sido feita. Quando ele sorri, um dente de cerâmica vermelho aparece no canto direito de sua boca.

Mamá diz que é o único amigo de Tatunca. “Eu disse para ele que não estava interessado em suas histórias. Só quero um pouco do ouro.” De acordo com Mamá, os dois homens subiram o rio Araçá juntos em novembro.

“Até o ponto perto da cachoeira. Lá há duas entradas de caverna. Talvez fossem túneis construídos pelos nazistas. Tentamos, sem sucesso, descer de rapel. Tatunca começou dizendo que havia algumas coisas muito estranhas.” O que poderia parecer estranho para um pirata chamado Mamá? “Ele disse: o rei Salomão está prestes a vir cavalgando.” E então? “Ele queria que eu o matasse.” Mas o rei não se materializou. Talvez fosse a entrada errada da caverna. “Tatunca está provavelmente está na cabana agora. Posso levá-lo até lá.”

Depois das chuvas torrenciais da noite, a estrada de terra para Ajuricaba é impiedosa. Uma cobra apareceu no meio do caminho no quilômetro 8, e depois de mais dois quilômetros a estrada acabava em lama vermelha na altura dos joelhos. Se Tatunca Nara está de fato em sua cabana na floresta, não há como chegar até ele. “Talvez seja melhor para você”, diz Mamá, o pirata.

“Tatunca? Não, ele não está aqui”

Mas então aparece a sogra de Tatunca, Elfriede Katz, 88.

Sua casa ribeirinha fica na Estrada de Nazaré, na periferia da cidade. Como em todas as casas judias, há um mezuzá contendo versos hebraicos da Torá pendurado sobre a moldura da porta. Katz está de bom humor, sentada em uma cadeira de balanço na varanda. “Tatunca? Não, ele não está aqui”, diz com um sotaque de Bremen. Seus pais, explica, imigraram para o Brasil logo depois que ela nasceu. Mais tarde, Katz se casou com um fabricante de pianos cuja família havia fugido do Holocausto.

Katz se tornou uma soprano e cantou na ópera “La Traviata” em teatros em São Paulo e Porto Alegre. Ela jamais imaginaria que passaria sua velhice na capital mundial do comércio de peixes ornamentais, com um genro índio-alemão, que disse a ela que se chamava Grande Cobra D’Água.

“Minha filha me falou que tinha conhecido um índio-alemão. Tatunca mandava cartas de amor pelo correio militar para ela. Elas vinham com um carimbo de “confidencial”. Então os dois se mudaram para o Rio Negro e viveram entre os ianomami por anos, até que seus dois filhos tiveram que ir para a escola.” Katz parece não ter dúvidas sobre a as origens de seu genro. Ela e seu marido seguiram a filha até Barcelos, onde abriram um pequeno hotel. A maioria dos filhos de Tatunca foi parar em Barcelos, inclusive os três que não deveriam voltar para a floresta.
Katz observa mais tarde que Tatunca não está na região no momento, mas que desceu o rio até Manaus com sua mulher Anita. Ela não sabe quando ele volta, diz ela, e cantarola um trecho de Violetta com sua voz aguda: “È strano…”

Deve ser terrivelmente difícil manter as histórias. É preciso muito esforço para manter uma rede de mentiras, não importa o quão bem construída ela possa ser. Revisões constantes, acréscimos e renovações são necessárias. Algumas mentiras caem por terra enquanto novas são acrescentadas. Tudo isso requer uma atenção constante, especialmente quando novos visitantes chegam, pessoas que querem conhecer os arredores e fazem perguntas. É preciso cautela antes que os visitantes sejam guiados a uma história nova e possivelmente ainda mais fantasiosa. Contar histórias pode ser mais difícil do que a própria vida.

E a vida tem uma forma de escolher seu próprio caminho. Ela encena o encontro com Tatunca Nara de acordo com suas leis improváveis.

Encontro com Tatunca
Finalmente o encontramos no Amazonas, um shopping center em Manaus, entre a lanchonete Bob’s e uma loja C&A (veja fotos). Ele carrega uma sacola de compras. Mas é ele, com seu rosto de ator, as mãos e a pele enrugada e a cabeça com cabelos fartos. Falando com um sotaque da região Franconia da Baviera, ele diz: “Bom dia, eu sou o Tatunca.”

Depois de todas as histórias, rumores e tentativas de demonizar o homem, a sensação é de que estamos diante de algum cacique indígena ficcional – ou talvez de Jack, o estripador. Esta é a história de nosso encontro: o fotógrafo Johannes Arlt precisava de uma camisa nova e Tatunca tinha acompanhado sua mulher Anita para Manaus para uma operação nos olhos. Os dois acontecimentos acabaram coincidindo. Esta foi a primeira vez que ele foi para Manaus em seis anos, diz ele. É o tipo de coincidência que soa como uma das histórias sobre Tatunca.
“Vamos sentar”, diz ele. “Não gosto de estar na cidade. Prefiro estar na floresta, com meus índios.”

Ele não parece ligar para quem está sentado à sua frente. Ele não está interessado em ouvir as histórias dos outros, apenas à sua própria. Ele fala sobre seu tempo entre os índios Yanomami, quando ele e Anita administravam uma enfermaria e uma escola.

Os índios ensinaram-lhe a sobreviver na floresta, diz. E então, depois de medir o ouvinte para descobrir qual a probabilidade de este acreditar em sua história, fez um desvio para um labirinto de fantasias: “eu entreguei o posto de cacique em novembro. O pajé tinha dois desses servos de Deus de três metros de altura com ele. Ele disse que os anciãos estavam retornando, e que eles tinham aberto o túnel”. Ele fala sobre paredes em forma de tartaruga, e de uma caverna com a estrela de Davi acima.

Sempre que ele faz essas afirmações, sua mulher, Anita, coloca uma mão sobre o joelho dele e diz “querido”, e ele fica em silêncio.
Talvez tivesse sido melhor simplesmente deixar o homem falar, da forma como ele está falando agora, em um fluxo de memórias e fantasias, invenções, mentiras ultrajantes e descrições detalhadas. A maior parte da “Crônica de Akakor” foi inventada, diz ele. “Brugger queria escrever um novo ‘Papalagi’.”

“O Papalagi” era uma leitura obrigatória na Alemanha durante a época dos hippies. Nele, um chefe samoano fictício faz discursos essenciais sobre a civilização a seu povo. Neste ponto, Tatunca poderia dizer que toda a “Crônica” era pura fantasia. Mas ele não faz isso. É claro, ele não pode colocar as premissas básicas em questão porque, como diz ele, elas são verdadeiras: “há alemães entre meu povo. É claro, eles não chegaram de submarino. A água aqui é muito rasa para isso. Eles tiveram que trocar de barco primeiro.”

Encontramos Tatunca de novo na manhã seguinte, desta vez sem Anita, no mercado de peixe de Manaus, perto das águas escuras do Rio Negro. “Vocês querem ir para El Dorado?”, ele pergunta. “Não é uma lenda. Encontrei muros como estes em Machu Picchu. Posso levá-los lá.” Sem hesitação, ele pega uma caneta e um bloco de papel e começa a desenhar o caminho para El Dorado. Fica em algum lugar sobre um platô entre o rio Araçá e o rio Demini.

Suas histórias são intermináveis e enroladas e não demora muito para que surja uma suspeita: a cidade perdida de Tatunca Nara não fica na floresta, em hipótese alguma. Fica ao longo do Füllbach, um rio na Francônia, em Grub am Forst, um lugar de onde Günter Hauck fugiu um dia. Ele foi o mais longe possível, para os afluentes mais remotos da Amazônia, e para uma nova existência que não podia ter nada em comum com sua vida anterior.

De acordo com os arquivos de investigações feitas no Brasil, houve um alemão aparentemente confuso chamado Günther Hauck que nunca retornou ao seu navio cargueiro depois de uma folga em terra. Um psiquiatra o diagnosticou como esquizofrênic, e a embaixada alemã o enviou de volta à Alemanha.

Tatunca conhece esse tal de Günther Hauck? Não pessoalmente, diz. Ele viajou para a Alemanha uma vez, acrescenta, e as pessoa se referiram a ele como Günther Hauck quando esteve por lá. Também havia uma mulher, e para evitar problemas ele foi para a cama com ela. Mas tudo isso estava totalmente errado, diz ele. “Eu sou Tatunca. Ponto final.”

“Günther Hauck” é simplesmente uma pele que foi trocada há muito tempo. Para provar seu ponto, Tatunca tira sua carteira de identidade brasileira, que o identifica como “índio” e contém um carimbo da agência brasileira encarregada de assuntos indígenas. Ele deve ter sido muito convincente como índio.

Se simplesmente tivessem deixado o homem falando sozinho, provavelmente nada disso teria acontecido. Mas suas histórias o alcançaram. Elas atraíram pessoas para a região, pessoas que queriam mais do que ouvir suas histórias. Elas queriam ser guiadas rio acima, ver a cidade subterrânea com seus próprios olhos e entrar nela.

Os mundos que ele tinha conseguido manter distantes haviam repentinamente se juntado. Talvez ele tenha se sentido encurralado por todos os admiradores e caçadores de tesouros, e pelos curiosos. Rüdiger Nehberg foi o pior de todos. Ele chegou com arquivos e velhas fotos nas mãos, e queria saber exatamente quem era Tatunca. “Ele é esquizofrênico, aquele Nehberg. Um mentiroso.”

E então teve a professora de ioga que dizia ser sua verdadeira esposa.

“Eu não matei aqueles três”
Talvez, quando todas as suas desculpas, ameaças e feitiços não funcionaram mais, ele decidiu deixá-los sozinhos com suas expectativas, e simplesmente os deixou caminhar em meio à mata cheia de veneno e espinhos. Sem experiência, uma pessoa não consegue sobreviver por muito tempo na floresta, nem mesmo com a “Crônica de Akakor” em sua bagagem.

Quando questionado sobre os desaparecidos, Tatunca diz: “eu vivo com minha consciência. Eu matei muitas pessoas, mas eu era soldado e elas carregavam armas. Eu sou inocente. Mas não matei aqueles três, como me acusam de ter feito.”

A história do que aconteceu a John Reed e outros provavelmente continuará sendo um mistério. O processo alemão contra Günter Hauck, mais conhecido como Tatunca Nara, foi retirado, por causa da ausência do acusado. Isso não deixa nada além de suspeitas.

Mas então ele disse alguma coisa enquanto passava pelo mercado de peixe de Manaus, enquanto tilápias eram desossadas nas barracas de peixe próximas. “Meu nome, Tatunca, significa Grande Cobra D’água. Ela tem o hábito de só atacar suas vítimas quando não há nada em torno para atrapalhar suas atividades.”

Então o que resta a não ser a suspeita de que o homem é um sonhador, um impostor e um mentiroso de talento, uma pessoa que vê a existência de sua certidão de nascimento como nada mais do que uma mera possibilidade?

Numa manhã em Barcelos, um barco listrado azul e branco estava ancorado no pier perto da fábrica de gelo. Ele carregava fardos de piaçava, uma fibra de palmeira para fazer vassouras. Alguns índios estavam dormindo no barco, até serem acordados por um homem enrome e queimado de sol que começou a erguer os fardos para a margem.

O dono do barco é Seder Heldio, 36, filho de Tatunca, que não fala mais alemão. A cidade de Grub am Forst não significa nada para ele. Mas ele se lembra de crescer entre os índios. “Meu pai deve ter lhe contado muitas histórias, mas ele é meu pai. Nenhuma das acusações de assassinato foi comprovada. Tudo o que aconteceu foi que sua empresa de turismo foi à falência.”

E isso, diz Heldio, é injusto. “Eu vi o filme Indiana Jones”, diz Heldio, filho de Tatunca. “Soa muito como a história de meu pai sobre Akakor. Ele nunca recebeu um centavo por isso. Talvez ele tenha inventado algumas das histórias. Mas ele pagou por isso com sua vida.”

Heldio também tem histórias para contar sobre os índios. As dele são sobre a Fundação Nacional do Índio, a Funai, que busca proteger os povos indígenas impedindo-os de trabalhar por salários e, em vez disso, fornece ajuda. Heldio diz que sua empresa na verdade é ilegal, porque ele não oferece a seus empregados os benefícios trabalhistas obrigatórios exigidas pelos sindicato, incluindo moradia e horas de trabalho fixas. O problema, explica Heldio, é que os índios não gostam de dormir em contêineres e só vão trabalhar quando não têm nada para caçar. “Eles querem manter os Yanomami como se estivessem em um zoológico. Eu lhes dou dinheiro para que possam comprar coisas.”

O filho do sonhador de Francônia, que queria ser um índio em vez de Günther Hauck, não se tornou cacique. Em vez disso, ele trabalha como capataz, alguém que está distanciando os indígenas de seu estado natural e inserindo-os na economia monetária. E como seus métodos são justos, os Yanomami o respeitam e talvez até o adorem. E, neste caso, sem o envolvimento de seres extraterrestres, anciãos ou El Dorado.

Jens Glüsing contribuiu com a reportagem.

Tradutor: Eloise De Vylder

Amazon rainforest grew after climate change 2,000 years ago -study (Reuters)

BY ALISTER DOYLE, ENVIRONMENT CORRESPONDENT

OSLO, July 8 Mon Jul 7, 2014 11:58pm BST

(Reuters) – Swathes of the Amazon may have been grassland until a natural shift to a wetter climate about 2,000 years ago let the rainforests form, according to a study that challenges common belief that the world’s biggest tropical forest is far older.

The arrival of European diseases after Columbus crossed the Atlantic in 1492 may also have hastened the growth of forests by killing indigenous people farming the region, the scientists wrote in the U.S. journal Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

“The dominant ecosystem was more like a savannah than the rainforest we see today,” John Carson, lead author at the University of Reading in England, said of the findings about the southern Amazon.

The scientists said that a shift toward wetter conditions, perhaps caused by natural shifts in the Earth’s orbit around the sun, led to growth of more trees starting about 2,000 years ago.

The scientists studied man-made earthworks – uncovered by recent logging in Bolivia – that included ditches up to about a kilometre (1,100 yards) long and up to 3 metres deep and 4 metres wide.

They found large amounts of grass pollen in ancient sediments of nearby lakes, suggesting the region had been covered by savannah. They also found evidence of plantings of maize, pointing to farming.

PRISTINE

The Amazon has traditionally been seen as a pristine, dense rainforest, populated by hunter-gatherers. In recent years, however, archaeologists have found hints that indigenous peoples lived in the thick forest, but managed to clear tracts of land for farming.

The PNAS study suggests a new idea – that the forest simply did not exist in some regions.

The “findings suggest that rather than being rainforest hunter-gatherers, or large-scale forest clearers, the people of the Amazon from 2,500 to 500 years ago were farmers,” the University of Reading said in a statement.

Carson said that perhaps a fifth of the Amazon basin, in the south, may have been savannah until the shift, with forests covering the rest.

In one lake, Laguna Granja, rainforest plants only took over from grass as the main sources of pollen in sediments about 500 years old, suggesting a link to the arrival of Europeans.

The purpose of the earthworks is unknown – they could have been defensive or for drainage or religious purposes.

And understanding the forest could help solve puzzles about climate change.

The Amazon rainforest affects climate change because trees soak up heat-trapping carbon dioxide as they grow and release it when they rot or are burnt. Brazil has sharply slowed deforestation rates in recent years.

Carson said that the growth of Amazonian forests could, for instance, have contributed to the Little Ice Age, from about 1350 to 1850 by absorbing heat-trapping gases from the air.

Michael Heckenberger, an expert on the Amazon at the University of Florida, said the study added to evidence that people living in the Amazon managed nature.

“These indigenous systems were highly sophisticated…There are over 80 domesticated or semi-domesticated crops in the Amazon,” he said. “In Europe at the time they were working with about six.” (Reporting by Alister Doyle; Editing by Lisa Shumaker)

 

Deep in the Amazon, an Isolated Village Tunes In to the World Cup (New York Times)

MANAUS, Brazil — The PP Maués would not set sail for an hour, but its long and narrow decks were already crisscrossed with hammocks for an overnight trip down the Amazon.

By the time it was to dock early last Monday at the regional port for which it was named, the Maués would have traveled 15 hours from the nearest World Cup stadium.

A second boat would be needed to reach an even more remote indigenous village that planned to watch Brazil play Mexico last Tuesday. The village did not have electricity or cellphone signals and would rely on a diesel generator to indulge its secluded passion for soccer.

While Rio de Janeiro and its famous beaches provide the touristic backdrop of the World Cup, the fevered grip of the world’s most popular sporting event can be felt even in some of the most isolated areas of the rain forest, where outsiders seldom visit.

“Football is in our blood,” said Andre Pereira da Silva, 32, the chief of a small community of Sateré-Mawé Indians in Manaus, the largest city in the Amazon, who served as a guide. The intended destination was his home village, Monte Salém, one of an estimated 150 Sateré-Mawé (pronounced sah-teh-RAY mah-WAY) communities of about 11,000 residents along the lower Amazon.

The decks of the PP Maués were crisscrossed with hammocks for an overnight trip down the Amazon.CreditMauricio Lima for The New York Times

“Wait until you see it,” Pereira da Silva said. “You will feel you are in the middle of the stars.”

As a boy in Monte Salém, he made soccer balls with the sap of rubber trees, using a stick to shape the latex into an improvised if sometimes uncontrollable sphere.

“Ten trees for one ball,” he said, sitting in the boat’s tiny dining room Sunday with his young son, his own thick hair tied in a ponytail. “The problem was, it bounced too much.”

On the passenger boat’s upper deck, the sentimental romance of Brega music played from two huge speakers. More than 300 customers were aboard a ship half the length of a football field. Children played among the hammocks and the luggage or peered over the rails. Some passengers transported used televisions or flat screens still in their boxes. In the aft of the boat, a new washing machine and refrigerator were lashed together, as if exposed as stowaways.

Most passengers lay in their hammocks, sleeping, reading, or listening to music and playing games on smartphones. Some watched on tiny green screens as Lionel Messi and Argentina opened their World Cup against Bosnia and Herzegovina.

The game was also showing on a small, staticky television in the boat’s galley. Two men sat on backless chairs. Two more peered in the doorway as a cook made gelatinous soup from orzo, meat and carrots.

“Messi’s slow tonight,” Rodrigo Xavier, 26, said. “He’s not playing well.

Xavier, a Brazil fan, drew great pleasure from this.

Minutes later, Messi passed the ball and retrieved it on a give-and-go. He skimmed the top of the penalty area, dribbling past two defenders who collided and fell behind him. Given wide space, he ricocheted a shot off the left goal post and into the net. Xavier smiled. This was why Messi was widely considered the best player in the world. Even a Brazilian had to admit his appreciation.

Abruptly, the kitchen cleared. The boat had no satellite dish, and the TV’s antennas lost contact with the signal from Manaus. Paulo José, the ship’s owner, was left to eat in silence. He did not seem to mind.

“I don’t like football at all,” José said. “I’m different from most of the men.”

A nearly full moon appeared, sending a column of light rippling toward the boat. A man pointed his flashlight at the water’s edge, searching for caimans and their cigarette eyes. The stars seemed as white and near as the blossoms that hung from trees like scoops of ice cream.

MONDAY DAWNED COOL and overcast. Lightning flashed on the horizon. The rain came, and rolls of blue plastic were unfurled along the sides of the decks to keep passengers dry.

“It’s raining because the English are here” at the World Cup, Pereira da Silva said with a laugh.

Passengers disembarked the Maués after a 15-hour overnight trip down the Amazon.Credit Mauricio Lima for The New York Times

By 8 a.m., only a drizzle remained as the boat reached Maués, a small regional port where a caffeine-rich plant called guaraná is manufactured for use in sodas, energy drinks and herbal teas. Firecrackers greeted the ship’s arrival. Fishermen paddled canoes toward market, their foam coolers full of prized fish with striped tails.

On streets above the docks, Brazil flags fluttered from an armada of motorcycles. The most deft or careless of the bikers steered with one hand and held an open umbrella in the other. Shops sold soccer balls, hats, plastic trumpets and jerseys of Neymar, the young Brazilian star forward. Even a kitten wore a necklace in Brazil’s colors, yellow and green.

Some men wore jerseys of the big Brazilian club teams — Flamengo and Vasco da Gama — allegiances built in the 1950s and 1960s, when the only radio signal that reached Maués came from Rio, more than 1,600 miles away.

A few teenagers were spotted wearing their own versions of Neymar’s distinct Mohawk mullet, which he sometimes dyes blond.

Neymar scored twice in Brazil’s opener against Croatia, but Pereira da Silva was not certain that Neymar was ready for the World Cup.

“He needs more experience; he needs to fight a little more,” he said. “He’s only interested in his gold hair. That’s the story of footballers today. They want to be good-looking.”

He carried a large sack of clothes to give to the chief of Monte Salém or trade for seeds to make necklaces and bracelets. He was to meet his mother and father in Maués and then travel together to the family’s ancestral village. At least that was the plan. Now there was a problem. The generator in Monte Salém was broken.

“Argentina,” Pereira da Silva said wryly, finding a convenient scapegoat. “Argentina breaks everything.”

After a breakfast of soup and hot sauce, he found another village with a working generator. It was called Nova Belo Horizonte. The trip would take 75 minutes by power boat from Maués. In midafternoon Monday, the equatorial heat was stifling, but Pereira da Silva’s parents yelled, “Waku sese” as the boat reached the village. Everything is really good.

Nova Belo Horizonte is home to 22 families, most of them living in wooden houses with thatched roofs. A rudimentary soccer field, with wood goal posts and no nets, has been cleared of stones and tamped flat amid the surrounding groves of guaraná, pineapples, oranges, bananas, peppers and the staple root called manioc.

For the first time, men’s and women’s teams from the village are participating in an area tournament of Brazil’s Indigenous Games. An important men’s match is scheduled for Sunday. The winner of the tournament will receive $1,500, which could readily be used in a village that, like other indigenous communities, has tried to protect traditional lands from encroaching development and perceived government indifference.

Health care is distant and inadequate, village elders said. There is no radio contact with the hub Maués, four or five hours away on the most common type of boat. Cellphones do not work.

The front steps of the school have crumbled, and the ceiling leaks. Classes for older students in Nova Belo Horizonte cannot be held at night during the World Cup, villagers said, because area government officials seem to be on holiday. Only a portion of the diesel needed to fuel the community generator had been provided.

“They only want our votes,” said Pereira da Silva’s father, Luiz Sateré, 56, a community coordinator for the Sateré-Mawé. “It’s the only thing that matters.

Sateré-Mawé Indians playing soccer in the Nova Belo Horizonte village. Credit Mauricio Lima for The New York Times

Yet even if spending on World Cup stadiums seemed wasteful in a country with so many needs, it was important that the tournament returned to Brazil for the first time since 1950, said Reginaldo da Silva Andrade, 27, the chief of Nova Belo Horizonte.

“Brazilian people are the ones who love and watch the game the most in the world,” da Silva Andrade said.

IN NOVA BELO HORIZONTE, soccer serves many purposes: fun, fitness, conflict avoidance and a diversion from alcohol and drugs. It also provides a chance to socialize with other river villages. Teams travel by boat, and tournaments are often accompanied by festivals.

More important than the money available in the Indigenous Games, da Silva Andrade said, is a chance to “show people on the outside that we are capable of doing this.” He added: “We are realizing our dreams. People think we can’t play. We’ve got to show them.”

On Tuesday, when Brazil played Mexico, all classes were canceled in Nova Belo Horizonte. It will be the same every time Brazil plays. At sunrise, women in the village began hauling water from the well, carrying buckets on their heads. Soon, children kicked around a soccer ball. Some stood in the goal wearing flip-flops on their hands to cushion the heaviness of the shots.

Two small boys played with a ball made from plastic bags, paper and a sleeveless T-shirt. One kicked the ball past the other and yelled, “Goooooooal!” The generator rumbled on to test the television at the chief’s home. The TV kept going on and off.

It is a widely repeated story that soccer came to Brazil in the late 1890s when a man named Charles Miller returned from schooling in England with two balls in his suitcase.

But Pareci Indians earlier made balls from the latex of rubber trees and played a game called zicunati, which permitted only heading, according to “Futebol: The Brazilian Way of Life,” a book by the British writer Alex Bellos.

An Indian nicknamed Indio helped Brazil qualify for the 1958 World Cup, the tournament that introduced Pelé to the world, Bellos wrote. In the late 1990s, José Sátiro do Nascimento, a defender who sometimes used coconuts for balls as a boy, became the first Indian to make one of Brazil’s top club teams, Corinthians of São Paulo. In 2009, a professional team of indigenous players was formed in the state of Pará.

Among the Sateré-Mawé, female players are welcomed, which is not always the case in the broader macho culture of Latin American soccer. One women’s team in Manaus, the capital of Amazonas state, carries the name of the initiation ritual in which boys in the tribe become men after being repeatedly stung by venomous ants.

When Brazil played Croatia in the World Cup opener, Janildzes Michiles, 28, said, she took written notes, concentrating on the defensive work of the mop-haired star David Luiz.

“It is a way to show women can do the same as men,” Michiles said.

On Monday night, while the generator in Nova Belo Horizonte ran for a couple of hours, Michiles watched the United States defeat Ghana, 2-1. Ghana seemed to play better, applying more consistent pressure, she said.

“The Americans ran hard for the ball, but they have to get faster,” she said. “They looked slow.”

Sateré-Mawé Indians in the Nova Belo Horizonte village watch the Brazil-Mexico match.Credit Mauricio Lima for The New York Times

EARLY TUESDAY AFTERNOON, Nova Belo Horizonte hosted men and women from a nearby village, Brasileia, for two pickup matches. The visitors traveled in boats decorated with green and yellow streamers and announced their arrival by blowing whistles.

Both the women and the men from Brasileia prevailed by 3-1 scores in wilting heat. After Rariani da Silva Andrade finished the women’s game for the visitors, she lent her right shoe to her husband, Isaías Oliveira Gomes, whose left foot remained bare.

“He has an injured toe,” she explained.

Friendly defeat for Nova Belo Horizonte did not dampen enthusiasm for Brazil’s World Cup match against Mexico. Some villagers watched from their own homes. About 20 spectators gathered in the outdoor kitchen of the community chief. A few wore festive crowns made from palm fronds. Chicken stew and a crunchy flour called farinha were prepared. Eleven minutes into the match, the television clicked on.

“We will watch and learn,” said da Silva Andrade, the village chief.

Neymar soon threatened with a header, but Guillermo Ochoa, Mexico’s goalkeeper, dived and pushed the shot wide. At halftime, the match remained scoreless.

“I’ll be playing for Brazil in the second half,” da Silva Andrade joked.

When the game started again, Ochoa remained impenetrable. He deflected the ball with his hands and his thigh. His positioning and anticipation and reaction were impeccable. The villagers in Nova Belo Horizonte grew nervous, frustrated.

A pet parrot began to squawk at the anxious voices. One woman held tightly to her lucky beads. Michiles, the women’s player, hid her face behind three palm fronds. In the final minute of regulation, the score remained 0-0. Then the television went out.

It came back on briefly, then failed again as the game extended into three minutes of added time.

“The TV is angry with Brazil,” joked Pereira da Silva, the village chief and guide from Manaus.

Again and again, the screen flickered on, then went blank.

“The TV is scared,” said another villager, Geovani Miranda, laughing.

The screen went dark another time. When the picture returned, Luiz Felipe Scolari, Brazil’s coach, was giving a postgame interview. For a few seconds, there was confusion in Nova Belo Horizonte. Then came confirmation. The final score was 0-0 on an afternoon of intrigue and missed opportunity.

When Pelé appeared on the screen to give his analysis, the TV again went off. It was just as well.

“I don’t want to hear any apologies; I don’t want to hear how it would be different if Pelé was playing,” Pereira da Silva said, the humor gone from his voice. “Even the TV doesn’t want to hear him.”

It could have been worse. At least Brazil had not lost. In Nova Belo Horizonte, the home team remained favored to win the World Cup.

“Brazil is a fighter,” said Luiz Sateré, Pereira da Silva’s father, who wore a Neymar jersey. “Brazil is a warrior.”

Brazil plans to stop the killing of pink dolphins (Washington Post)

FILE – In this Nov. 2005 FILE photo released by Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA), an Amazon river dolphin swims in the Airao River in Amazonas state, Brazil. Brazil will temporarily ban the catch of a type of catfish in an effort to halt the killing of the Amazon pink dolphin, whose flesh is used as bait, the Fishing and Aquaculture Ministry said Tuesday, June, 3, 2014. (Sefora Antela Violante, INPA, File/Associated Press)

 June 3

SAO PAULO — Brazil will temporarily ban the catch of a type of catfish in an effort to halt the killing of the Amazon pink dolphin, whose flesh is used as bait, the Fishing and Aquaculture Ministry said Tuesday.

Ministry spokesman Ultimo Valadares said the government is working out the details of a five-year moratorium on fishing of the species called piracatinga that is expected to go into effect early next year.

“That should give us enough time to find an alternative bait for the piracatinga,” Valadares said by phone.

Nivia do Campo, president of an environmental activist group in the northern jungle state of Amazonas, welcomed the news because more than 1,500 freshwater dolphins are killed annually in the Mamiraua Reserve where she studies the mammals.

She said that since 2000, when fishermen started slaughtering them for bait, the number of dolphins living on the reserve has been dropping by about 10 percent a year. The reserve currently has a population of about 13,000 dolphins.

Poor fishermen are encouraged to use dolphin flesh as bait by merchants from neighboring Colombia, a big market for that species, de Campo said.

Known as the “water vulture” because it thrives on decomposing matter in rivers, the piracatinga is not consumed by people living along the rivers of the Amazon region.

The pink dolphin is under threat, “and if nothing is done to stop the killing it will become extinct,” de Campo added. “That is why the moratorium is excellent news. It will allow us to discover other baits fishermen can and continue earning money selling piracatinga she said.

The moratorium will also help stop the killing of the Amazon caiman, whose flesh is also used as bait to catch piracatinga.

For centuries, the pink dolphins have been revered by locals and protected by myth. According to one tale, the dolphins transform into handsome men and leave the water at night, seducing local women before returning to the river. Many consider it bad luck to kill them.

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Abelhas “biônicas” vão ajudar a monitorar mudanças climáticas na Amazônia (O Globo)

JC e-mail 4966, de 04 de junho de 2014

Microssensores instalados em insetos vão colher dados sobre seu comportamento e do ambiente

Nas suas idas e vindas das colmeias, as abelhas interagem com boa parte do ambiente em sua volta, além de realizarem um importante trabalho de polinização de plantas que muito contribui para a manutenção da biodiversidade e a produção de alimentos em todo mundo. Agora, enxames delas vão assumir um outro papel, o de estações meteorológicas “biônicas”, para ajudar a monitorar os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia e em seu próprio comportamento.

Desde a semana passada, pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e da CSIRO, agência federal de pesquisas científicas da Austrália, estão instalando microssensores em 400 abelhas de um apiário no município de Santa Bárbara do Pará, a uma hora de distância de Belém, na primeira fase da experiência, que também visa descobrir as causas do chamado Distúrbio de Colapso de Colônias (CCD, na sigla em inglês), que só nos Estados Unidos já provocou a morte de 35% desses insetos criados em cativeiro.

– Não sabemos como as abelhas vão se comportar diante das projeções de aumento da temperatura e mudanças no clima devido ao aquecimento global – conta o físico Paulo de Souza, pesquisador-visitante do ITV e da CSIRO e responsável pela experiência. – Assim, entender como elas vão se adaptar a estas mudanças é importante para podermos estimar o que pode acontecer no futuro.

Souza explica que os microssensores usados no experimento são capazes de gerar a própria energia e captar e armazenar dados não só do comportamento das abelhas como da temperatura, umidade e nível de insolação do ambiente. Tudo isso espremido em um pequeno quadrado com 2,5 milímetros de lado com peso de 5,4 miligramas, o que faz com que as abelhas, da espécie Apis mellifera africanizadas, com em média 70 miligramas de peso, sintam como se estivessem “carregando uma mochila nas costas”.

– Mas isso não afeta o comportamento delas, que se adaptam muito rapidamente à instalação dos microssensores – garante.

Já a partir no próximo semestre, os pesquisadores deverão começar a instalar os microssensores, que custam US$ 0,30 (cerca de R$ 0,70) cada, em espécies nativas da Amazônia não dotadas de ferrão. Segundo Souza, estas abelhas são ainda mais importantes para a polinização das plantas da região, e são também mais sensíveis a mudanças no ambiente. Assim, a escala da experiência deve aumentar, com a utilização de 10 mil dos pequenos aparelhos ao longo de várias gerações de abelhas, que vivem em média dois meses.

O tamanho dos atuais sensores, porém, não permite que o dispositivo seja instalado em insetos menores, como mosquitos. Por isso, o grupo de Paulo de Souza já trabalha numa nova geração de microssensores com um décimo de milímetro, ou o equivalente a um grão de areia. Segundo o pesquisador, os novos sensores, que devem ficar prontos em quatro anos, terão as mesmas capacidades dos atuais, com a vantagem de serem “ativos”, isto é, vão poder transmitir em tempo real os dados coletados.

– Quando tivermos os sensores deste tamanho, poderemos aplicá-los na forma de spray nas colmeias, além de usá-los para monitorar outras espécies de insetos, como mosquitos transmissores de doenças – diz. – Mas a vantagem principal é que com eles vamos poder fazer das abelhas e outros insetos verdadeiras estações meteorológicas ambulantes, permitindo um monitoramento ambiental numa escala sem precedentes, já que cada abelha ou mosquito vai atuar como um agente de campo.

(Cesar Baima / O Globo)
http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/abelhas-bionicas-vao-ajudar-monitorar-mudancas-climaticas-na-amazonia-12712798#ixzz33gDI4XQy

Losing Ground in the Amazon (New York Times)

A global forest mapping system developed by a team of scientists from the University of Maryland, Google and the United States government is now able to pinpoint exactly where and at what rate deforestation is occurring around the world. The results are alarming. The world is losing the equivalent of 50 soccer fields of forest every minute. In Brazil — home to 60 percent of the Amazon rain forest and a major component of the planet’s climate system — the rate of deforestation jumped 28 percent during 2012-13. Environmentalists say a 2012 change in Brazil’s regulations governing forest conservation is partly responsible.

Brazil had been making good progress. From a high of 10,588 square miles in 2004, deforestation dropped to 1,797 square miles in 2011; the number of metric tons of carbon dioxide released into the atmosphere dropped as well, from 1.1 billion metric tons in 2004 to 298 million metric tons in 2011. These successes resulted from aggressive enforcement of the country’s 1965 Forest Code, and a 2006 soy moratorium, a voluntary pledge brokered by the Brazilian government, agribusiness and environmental groups to prevent trade in soybeans cultivated on deforested land.

Soybeans aren’t the only cause of deforestation in Brazil, but they are a major factor. Brazil is now the world’s second-largest producer of soybeans after the United States. Soybeans have been a boon to Brazil’s economy, and global demand is growing. Under intense pressure from agricultural interests, Brazil’s Chamber of Deputies approved legislation in July 2012 that rolled back many provisions of the 1965 Forest Code, reduced the amount of reserve areas in the Amazon and gave amnesty to past violators. To her credit, Brazil’s president, Dilma Rousseff, thwarted some of the most damaging provisions of the new legislation, but the rate of deforestation still rose.

The soy moratorium has been extended until the end of 2014, by which time Brazil plans to have in place new mechanisms to monitor soybean cultivation on deforested land. These mechanisms must be backed by credible enforcement. And developed countries need to do more to help Brazil, Indonesia and other nations whose forests are at risk protect a resource in which everyone has a stake.

Luciana Vanni Gatti: Na trilha do carbono (Fapesp)

MARCOS PIVETTA e RICARDO ZORZETTO | Edição 217 – Março de 2014

© LÉO RAMOS

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Emoldurado por um nascer do sol no município acreano de Senador Guiomard, um castanheiro-do-pará ocupou o primeiro plano da capa de 6 de fevereiro da revista científica inglesa Nature, uma das mais prestigiadas do mundo. A árvore tropical simbolizava a Amazônia, tema central de um artigo que teve como autor principal Luciana Vanni Gatti, 53 anos, coordenadora do Laboratório de Química Atmosférica do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Luciana e os coautores do trabalho calcularam o chamado balanço de carbono da floresta amazônica  que é uma comparação entre a quantidade de carbono na forma de dióxido de carbono (CO2) emitida e a absorvida pela bacia Amazônica – em dois anos consecutivos que apresentaram temperaturas acima da média dos últimos 30 anos, mas uma variação significativa no regime de chuvas.

O ano de 2010 foi marcado por uma estiagem extrema e o de 2011 por chuvas acima da média. “Vimos que a Amazônia se comportou como uma fonte de carbono no ano seco quando também levamos em conta as queimadas”, diz Luciana, que dividiu a coautoria do artigo com Emanuel Gloor, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e John Miller, da Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos. “Mas, no ano úmido, seu balanço de carbono foi próximo a neutro, a quantidade emitida e a absorvida foram mais ou menos equivalentes.” Os dados do estudo sobre gases atmosféricos foram obtidos por uma iniciativa comandada desde 2010 pela brasileira, cujos esforços de pesquisa fazem parte do Amazonica (Amazon Integrated Carbon Analysis), um grande projeto internacional coordenado por Gloor. A cada duas semanas, pequenos aviões alçam voo de quatro localidades amazônicas (Santarém, Alta Floresta, Rio Branco e Tabatinga) e coletam amostras de ar ao longo de um perfil vertical descendente, entre 4,4 quilômetros de altitude e 200 ou 300 metros do solo. As amostras são enviadas para o laboratório de Luciana no Ipen onde são quantificados gases de efeito estufa, entre outros. No trabalho foram estudados o CO2, o monóxido de carbono (CO) e o hexafluoreto de enxofre (SF6).

Os resultados foram interpretados como preocupantes, pois sugerem que a capacidade de a Amazônia absorver da atmosfera o CO2, principal gás de efeito estufa, parece estar associada à quantidade de chuvas. Em anos secos, como 2010, ocorrem mais incêndios em áreas com floresta e também nas já desmatadas, que liberam grandes quantidades de CO, e o estresse hídrico aparentemente reduz os níveis de fotossíntese das plantas e as fazem retirar menos CO2 da atmosfera. Nesta entrevista, Luciana fala dos resultados e das implicações de seu estudo e conta um pouco de sua carreira.

Você esperava que o trabalho parasse na capa daNature?
Mais pela importância do tema do que pela qualidade do trabalho, esperava que saísse sim, mas não imaginava que fosse capa. Vou a muitos congressos e encontro gente do mundo inteiro falando da Amazônia. Essas pessoas não têm ideia do que é a região. Nunca vieram aqui e ficam fazendo modelagem, extrapolando dado local como se fosse representativo de toda a região. Vejo resultados muito variados de modelagem, mostrando a Amazônia como sendo desde grande absorvedora até grande emissora de CO2. A Amazônia faz diferença no balanço global de carbono. Por isso, descobrir qual é o seu peso nesse balanço é tremendamente importante. Hoje do que mais se fala? De mudança climática. O planeta está ficando hostil ao ser humano. Mas inicialmente pretendíamos publicar na Science.

Por quê?
Era meu objetivo porque o [Simon] Lewis [pesquisador da Universidade de Leeds] publicou na Science em 2010 um paper com conclusões que queríamos contestar. Ele disse que a Amazônia tinha emitido naquele ano o equivalente à queima de combustíveis fósseis de todo os Estados Unidos. Era um trabalho feito com modelagem e tinha chegado a um resultado muito exagerado. Queria publicar na Science para responder ao Lewis. Chegamos a submeter para a revista uma versão de nosso artigo, na época apenas com os dados de 2010, um ano muito seco. Era um trabalho que determinava o balanço de carbono naquele ano. A Science disse que era um estudo relevante, mas que tinha um escopo técnico demais, fora de sua linha editorial. Nem mandaram o artigo para ser analisado por referees e sugeriram que o enviássemos para uma revista mais especializada. Mas, quando analisamos os dados de 2011, encontramos uma situação completamente diferente daquela de 2010. O entendimento de por que os efeitos sobre o balanço de carbono foram tão diferentes em 2010 e 2011 foi o que fez a Nature gostar do paper. Por esse motivo, sou a favor de estudos de longa duração. Se tivesse feito uma campanha em 2010, ia achar que a Amazônia se comporta daquele jeito todos os anos.

Em editorial, a Nature disse que os resultados do artigo são uma notícia ruim. Concorda com essa avaliação?
Concordo. É uma notícia bem triste. Não esperávamos que a Amazônia pudesse apresentar um resultado tão baixo de absorção de carbono. Nunca ninguém mediu isso da forma como fizemos agora. Existem vários trabalhos que, a partir de um dado local, extrapolam uma média para a região. Mas tirar uma média é válido? Já sabemos que existe muita variação dentro da Amazônia.

Qual era o senso comum sobre o balanço de carbono na região?
Que a Amazônia absorvia em torno de meio petagrama de carbono por ano, era o que se estimava. Todo mundo acha que a Amazônia é um grande sink [sumidouro] de carbono. Mas em 2010, por causa do estresse hídrico, as plantas fizeram menos fotossíntese e aumentou sua mortalidade. Então a floresta na média absorveu apenas 0,03 petagrama de carbono. Muito pouco. Isso equivale a 30 milhões de toneladas de carbono. O valor é igual à margem de erro do estudo. Devido a queimadas propositais e a incêndios florestais, a Amazônia emitiu 0,51 petagrama de carbono (510 milhões de toneladas de carbono). Portanto, no balanço de carbono a emissão foi muito maior do que a absorção. É uma notícia horrível. Em 2011, que foi mais úmido, o balanço foi praticamente neutro [a floresta emitiu 0,30 petagrama de carbono, mas abosorveu 0,25 petagrama, oito vezes mais que no ano anterior].

A quantidade de chuvas é o fator principal para entender o balanço de carbono na Amazônia?
Não é bem isso. Nosso estudo mostra que a disponibilidade de água é um fator mais importante do que a temperatura. É questão de peso. Mas isso não quer dizer que a temperatura não seja importante. A grande diferença entre 2010 e 2011 foi a questão hídrica, só que ela também está ligada à variação de temperatura. É difícil dar uma resposta definitiva. Esse dado indica que não dá para fazer modelo de previsão climática levando em conta apenas o aumento de temperatura. É preciso colocar todas as consequências desse aumento de temperatura. Um modelo muito simplista vai ficar longe do que vai acontecer no futuro.

A seca de 2010 e as chuvas de 2011 foram anormais para a Amazônia?
Não podemos dizer que a chuva de 2011 foi extrema, porque ela não foi acima da máxima histórica. Foi um ano chuvoso, acima da média, mas não incomum. É uma questão de definição. Houve outros anos com níveis semelhantes de precipitação. A seca de 2010 foi extrema, incomum, abaixo da mínima histórica. No entanto, não posso dizer que a capacidade de absorção em 2011 equivale à média de um ano chuvoso. Em 2010, a floresta tinha sofrido muito com a seca e, no ano seguinte, a vegetação ainda poderia estar sob efeito do impacto desse estresse absurdo. A história de um ano pode estar influenciando o ano seguinte. Pode ser que, depois de um ano chuvoso, o sequestro de carbono seja maior se houver em seguida um segundo ano também chuvoso.

Os dados de um ano não devem ser analisados de forma isolada.
Exatamente! Por isso, temos que realizar estudos de longo prazo. Quando participei de campanhas e vi que havia essa variabilidade de ano para ano, desisti desse tipo de estudo. Acho vantajoso o fato de se reunir [em campanhas] muitos pesquisadores de varias áreas e os estudos de uns complementarem o de outros. Os avanços em alguns aspectos do conhecimento são muitos nesse tipo de situação, mas não no sentido de se conhecer um valor significativo que represente toda a Amazônia. Nesse aspecto existe muita variabilidade. Não dá pra estudar um mês na estação seca e outro na chuvosa e achar que esses períodos representam tudo o que ocorre no período de estiagem e no úmido e se estender o resultado para todo o ano. Esse número pode ser o dobro ou a metade do real, por exemplo. Durante nosso estudo de 10 anos em Santarém, vi essa grande variabilidade. Sou muito perfeccionista. Se sei que meu número pode estar muito errado, isso não me satisfaz.

Com dados de apenas dois anos, é seguro chegar a alguma conclusão sobre o balanço de carbono na Amazônia?
Como 2010 foi tão diferente de 2011, concluímos que nem com quatro ou cinco anos, que era nosso plano original, chegaremos a uma média conclusiva. Agora estamos à procura de recursos para financiar a continuidade desse projeto por uma década. A média de 10 anos é suficiente? Sim, estudos sobre o ciclo de carbono são mais conclusivos se forem decadais. Mas é importante entender que a Amazônia está sendo alterada, tanto pelo homem como pelo clima, que o homem também está alterando. Então o que acharmos de resultado mediano pode ser diferente do que ocorreu na década passada e na retrasada. Vamos submeter um projeto para continuar esse estudo. Mas, além de recursos para as medidas, precisamos de recursos para ter uma equipe para conduzir o projeto também. Sou a única funcionária do Ipen atuando no projeto, todos os demais são pagos pelos projetos envolvidos nesse estudo. E, sem essa equipe tão afinada, não existiria esse projeto incrível. É um esforço muito grande de muitas pessoas.

Alguns estudos sugerem que o aumento dos gases de efeito estufa pode levar algumas plantas a fazer mais fotossíntese. Isso não poderá alterar o balanço de carbono na Amazônia no longo prazo?
Não é só isso. É verdade que mais COna atmosfera estimula a planta a fazer mais fotossíntese. Mas há outros mecanismos. Em uma situação de estresse hídrico, a raiz absorve menos água. A planta diminui seu metabolismo e assim absorve menos carbono. O que sabemos ao certo é que a floresta reduz sua capacidade de absorver carbono com a diminuição da disponibilidade de água.

Como o ar coletado em quatro pontos da Amazônia pode representar a atmosfera de toda essa enorme região?
Em qualquer um dos pontos, as amostras coletadas nos voos representam uma massa de ar que passou por várias partes da Amazônia, desde a costa brasileira até o ponto de coleta e, no caso de Santarém, até de trechos do Nordeste. Se ela levou sete dias para chegar até o ponto de coleta, representa uma semana e não apenas o momento em que foi obtida. Ela guarda toda a história do caminho que percorreu dentro da Amazônia nesses sete dias, de todas as emissões e absorções que ocorreram nesse percurso. Não estamos, portanto, coletando uma amostra de ar referente a uma hora. Estamos coletando a história de uma coluna de ar que viajou todo esse caminho desde a costa brasileira. Calculamos o caminho que cada massa de ar fez até ser coletada em cada altitude amostrada.

Esse método não tem alguma limitação?
A grande limitação é só termos feito coletas até 4,4 quilômetros de altura. O que ocorre acima disso está fora da nossa área de medição. Uma nuvem convectiva pode levar o ar que estava embaixo para cima e vice-versa. Isso pode fazer com que nossa coluna de ar seja parcialmente levada para uma altitude acima do nosso limite de voo. Nesse caso, perdemos informação. Essa é a maior fonte de erro do nosso método. O ideal seria voarmos a até 8 ou 12 quilômetros de altura. Já começamos a fazer isso no inicio de 2013 no ponto de estudo próximo a Rio Branco e os resultados são muito animadores. Nessa faixa de altitude, em um ano, não observamos uma variação muito significativa que indique um erro grande. Isso é muito animador.

Os quatro pontos de coleta de amostras de ar se comportam iguais?
O ponto próximo a Santarém é diferente de tudo em termos de resultado. Vamos pensar em sua área de influência. Todo litoral tem uma densidade populacional grande. Nesse ponto da região amazônica temos a maior relação área/população. Nossos dados coletados ali sofrem influência urbana, antropogênica e de combustíveis fósseis que não aparecem tanto em outros pontos da Amazônia. Haveria influência inclusive da poluição vinda das cidades do Nordeste. Às vezes, na estação chuvosa, observamos nesse ponto emissão de carbono, enquanto nos outros três pontos que monitoramos há absorção.

O que explica essa diferença?
Podem ser as atividades antropogênicas em áreas próximas a Santarém. As Guianas estão acima do equador. Quando é a estação chuvosa no Brasil, lá é a seca. Tem também as queimadas e as atividades antrópicas nas cidades próximas de nosso litoral. Dizem para eu parar as medidas em Santarém, que não representa a Amazônia. Mas tenho uma série histórica de 14 anos. O Brasil não tem série histórica de medidas desse tipo. Se pararmos de medir em Santarém… Fico em um dilema.

Mas Santarém não representa uma parte importante da Amazônia oriental?
Na área de influência de Santarém, 40% é floresta. Se considerar a área de toda a floresta amazônica, Santarém pega uma “fatiazinha”, entre aspas porque é gigante, de 20%. Só descobrimos isso quando passamos a estudar o outro lado da Amazônia. As amostras obtidas no avião são resultantes de uma história de tudo o que aconteceu antes de o ar chegar lá. Com exceção do monóxido de carbono, que vem das queimadas de floresta, não há como saber a contribuição de cada fonte de carbono. No caso de Santarém, essa abordagem não funciona muito bem. Acreditamos que uma parte do monóxido de carbono venha de outras queimas de biomassa, talvez de combustíveis fósseis e não basicamente da queima de vegetação florestal.

Como começou seu trabalho na Amazônia?
Participei do LBA [Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia] desde o início, em 1998. Fiz campanhas de campo. Há 10 anos, comecei as medidas sistemáticas em Santarém. Até então, as amostras dos perfis de ar iam para os Estados Unidos para serem analisadas em um laboratório da Noaa [National Oceanic and Atmospheric Administration]. Em 2004 montei meu laboratório no Ipen e as amostras pararam de ir para os Estados Unidos. Meu laboratório é uma réplica do laboratório da Noaa, o melhor laboratório do planeta de gás de efeito estufa. Fiz tudo igualzinho e importamos uma réplica do laboratório deles. Botamos tudo dentro de caixas e trouxemos para cá. Tudo, tudo. Do mouse à estante. O sistema todinho encaixotado. Podemos medir CO2, CH4, N2O, CO, SF6 e H2. O laboratório foi pago pela Nasa e o usamos no LBA. Tudo o que aprendi nessa área foi com a equipe da Global Monitoring Division da Noaa. Passei três temporadas lá. Estamos juntos sempre, eles têm acesso ao Magic, que é esse nosso sistema de análise. Tudo é feito em parceria com eles. São 10 anos trabalhando com esses caras. Sou filha deles. Depois de 2004 conseguimos uma frequência maior de medidas em Santarém. Naquele ano, voamos na estação seca e na estação chuvosa pela primeira vez. Tentamos também realizar medições em Manaus, mas dos três anos de coletas tivemos problemas de autorização de voo em um ano e no ano seguinte com as análises de CO2. Então o dinheiro acabou. Como só tinha dados de um ano inteiro, acabei nunca publicando essas informações. Mas isso é uma falha que tenho de corrigir. Ficamos só em Santarém até 2009, quando ganhamos verba da FAPESP e da Nerc [agência do Reino Unido de financiamento de pesquisas] e passamos a fazer medições em mais três pontos.

Quando os estudos se restringiam a Santarém foi possível chegar a alguma conclusão?
Observamos que existe uma variabilidade muito grande no balanço de carbono durante a estação chuvosa na Amazônia. Publicamos esses dados num paper em 2010. Vimos que não adianta fazer um estudo de um ou dois anos. Tem de ser de muitos anos. Essa foi a primeira lição importante que aprendi com esse estudo.

Qual é o passo seguinte do trabalho na Amazônia?
Calcular o balanço de carbono em 2012 e 2013. Já temos os dados. O ano de 2012, por exemplo, está no meio do caminho entre 2010 e 2011. Choveu absurdamente na parte noroeste e no resto foi mais seco do que em 2010. Por isso gosto do dado coletado em avião, que nos possibilita calcular a resultante [das emissões e absorções de carbono]. Se eu trabalhasse apenas com uma torre de emissão e ela estivesse no lado seco, concluiria uma coisa. Se estivesse do lado chuvoso, concluiria outra. Com o tipo de dado que usamos, podemos levar tudo em consideração e ver o que predominou. Calcular tudo e tirar a média. E, na média, 2012 foi seco na bacia toda. Em número de focos de queimada, deu bem entre 2010 e 2011.

Você começou sua carreira fora da química atmosférica. Como foi o início?
Fiz iniciação científica e mestrado em eletroquímica. Mas tinha uma frustração enorme e me perguntava para que isso serviria. Houve então a primeira reunião de química ambiental no Brasil, que o Wilson Jardim [professor da Unicamp], organizou lá em Campinas em 1989. Fui lá e me apaixonei. Era aquilo que eu queria fazer da minha vida.

Você é de onde?
Sou de Birigui, mas saí da cidade com 3 anos. Morei boa parte do tempo em Cafelândia, que tinha então 11 mil habitantes. Lá todo mundo se conhece. Por isso sou assim. Falo com todo mundo. Também falo muito com as mãos. Meus alunos dizem que, se amarrarem minhas mãos, não dou aula. O pessoal da portaria no Ipen nem pede meu crachá. É coisa de interiorano. O paulistano é capaz de estar sozinho no meio de uma multidão. De Cafelândia, minha família mudou-se para Ribeirão Preto, porque meu pai não queria que os filhos saíssem de casa para estudar. Ele escolheu uma cidade com muitas faculdades e mudou a família toda para lá. Ele era representante da Mobil Oil do Brasil. Para ele, tanto fazia estar em Cafelândia ou em Ribeirão. O engraçado é que minha irmã foi para Campinas, eu fui para a Federal de São Carlos, meu irmão foi para a FEI de São Bernardo e a única que ficou em casa foi a terceira irmã. Tive problema de saúde e precisei voltar para a casa dos meus pais antes de me formar. Me transferi para a USP de Ribeirão, mas ali o curso de química tinha quase o dobro de créditos do da federal de São Carlos. Levei mais três anos e meio para fazer o que faltava, que consumiria apenas um e meio na federal. Tudo tinha pré-requisito. Mas foi muito legal porque em São Carlos estudei bem apenas durante o primeiro ano. Depois virei militante de partido semiclandestino, dirigente estudantil. Fazia mais política que estudava. Éramos proibidos de assistir às aulas. Quando chegava a época de prova, xerocava o caderno dos amigos, varava a noite estudando e de manhã, sem ter dormido, ia lá, fazia prova e passava. Mas imagine o que ficava na cabeça. Ainda bem que praticamente tive de refazer a graduação. Que profissional seria eu se não tivesse tido que fazer a graduação de novo e aprendido a estudar muito?

Como eram as aulas na USP?
Larguei o movimento estudantil, que tinha me decepcionado muito. Queria um mundo mais justo. Mas tive um namorado que era da direção nacional do partido revolucionário. Terminei com ele, que se vingou de mim usando o poder dele. Compreendi que o problema não estava no modo de produção, comunista ou socialista, mas no nível evolutivo do ser humano. Então resolvi que a única pessoa que eu podia mudar era eu mesma. Virei zen e espiritualizada e comecei a minha revolução interna. Compreendi que não podia mudar o mundo, mas podia me tornar uma pessoa melhor. Aí comecei minha carreira, praticamente do zero, porque na USP de Ribeirão Preto é muito puxado. Se não estuda, não passa. Fiz iniciação científica, ganhei bolsa da FAPESP, fui me embrenhando e me apaixonando pela química ambiental.

Como foi seu doutorado?
Foi o que deu para fazer. Quando eu comecei o doutorado com o [Antonio Aparecido] Mozeto, era para ser sobre compostos reduzidos de enxofre, já na área de gases. Naquela época, ninguém trabalhava com gás. Só tinha um no Brasil, Antonio Horácio Miguel, que trabalhava na área, mas ele tinha ido para o exterior. Eu tinha que fazer tudo. Tinha, por exemplo, que desenvolver um padrão com tubo de permeação. Tive de desenvolver o tubo, comprar o líquido para permear e tudo mais. Quando fiz tudo funcionar e coloquei o tubo dentro do cromatógrafo, o aparelho pifou. O professor tinha comprado um cromatógrafo para medir compostos de enxofre que um professor da Universidade do Colorado tinha decidido fabricar. O projeto veio todo errado. Tinha uma cruzeta de aço inoxidável, com uma chama que, quando queima, produz hidrogênio e água. A chama esquentou a cruzeta e vazou água na fotomultiplicadora e queimou o aparelho. Durou um dia. O problema é que eu estava já havia dois anos fazendo isso e precisava de um novo aparelho para desenvolver o doutorado. O Wilson Jardim então me perguntou por que eu achava que ninguém trabalhava com gás no país. “Esse negócio é difícil! O único que trabalhava foi para fora do Brasil. Larga desse tema e vai para outra coisa”, ele me disse. Mas, a essa altura, eu já tinha perdido dois anos e era a única docente da Federal de São Carlos sem doutorado. Um professor então me disse que eu ainda estava em estágio probatório e que, se eu não fizesse um doutoradozinho de um ano para comprovar o título, não iam aprovar o estágio probatório. Saí correndo atrás de um tema que dava para fazer e que eu não me envergonhasse de ter feito. Fiz análise de sedimento de fundo de lagoas próximas ao rio Mogi-Guaçu. Apliquei análises que são usadas em trabalhos com aerossóis para descobrir a origem dos sedimentos e também datá-los. Dessa forma, dá para saber a história da ocupação da bacia dos rios. Acabei o doutorado na Federal de São Carlos e entrei para a química atmosférica, que era o que eu queria, área carente entre os pesquisadores brasileiros.

Uso de botos do Amazonas como isca para pesca pode causar extinção da espécie (Agência Brasil)

JC e-mail 4895, de 14 de fevereiro de 2014

Segundo as alegações, não há pessoal suficiente para exercer uma fiscalização contínua na região

Levantamento feito pela pesquisadora Sannie Muniz Brum com 35 comunidades de pescadores em área de reserva de desenvolvimento sustentável, na região do Baixo Rio Purus, no Amazonas, constatou que botos-vermelhos, conhecidos também como botos-cor-de-rosa, estão sendo mortos e usados como isca para a pesca do peixe piracatinga (Callophysusmacropterus).

Sannie é pesquisadora do Instituto Piagaçu (IPI) e colaboradora da Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa). O projeto teve apoio da Fundação Boticário de Proteção à Natureza. Sannie alerta que, no longo prazo, essa prática pode acabar levando à extinção do “golfinho da Amazônia”. “As medidas têm que ser tomadas agora. Se não, é extinção”, disse Sannie hoje (13) à Agência Brasil.

A coordenadora adjunta do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Carla Marques, disse que, em comitês internacionais, o governo brasileiro tem sido cobrado sobre a preservação dos botos da Amazônia.

O problema, disse, é que não há pessoal suficiente para exercer uma fiscalização contínua na região. O ICMBio fiscaliza as áreas dentro das unidades de conservação e o Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) se encarrega de fiscalizar fora dessas unidades. “Dentro do instituto tem uma política de tentar evitar que ocorram essas práticas, mas o ICMBio não tem o poder de polícia”.

Carla Marques informou que têm sido feitas campanhas pelo governo em conjunto com o Centro de Estudo e Pesquisa da Amazônia (Cepam). O órgão do Ministério do Meio Ambiente tem conhecimento da utilização do golfinho como isca para pesca, o que é ilegal, e está articulando ações para coibir a prática em parceria com o Ibama e o próprio ministério. “A gente tem feito algumas ações de fiscalização em conjunto com o Ibama, mas as ações são pontuais. A Amazônia é um mundo inteiro. A gente não consegue coibir tudo”.

Carla admitiu que esse é um problema de difícil solução e que ocorre em outros países. Ela acredita que para resolver o problema, só com fiscalização. “Está todo mundo pensando em tentar mitigar esse problema, mas é de difícil solução pela falta de pessoal que se tem. Os dois órgãos têm pouco contingente para atender a uma região como a Amazônia”. Ela relatou, inclusive, que algumas ações ocorrem em parceria com a Polícia Federal e as polícias locais. “Mas são pontuais. A gente não consegue estar presente o tempo todo. E a pesca continua”.

Além de uma fiscalização mais rigorosa e permanente, a pesquisadora Sannie Brum defendeu a necessidade de se levar às comunidades que habitam em áreas protegidas informações para que saibam que é crime e ilegal usar botos-vermelhos como isca para a pesca. “É preciso que haja uma conscientização. Eles [pescadores] sabem que é proibido, que não podem fazer”. É preciso que haja uma coibição efetiva para que decidam parar essa prática. “Educar e trazer informações são medidas para a conscientização dos pescadores”.

Segundo a pesquisadora, a mortalidade do golfinhos é elevada na região do Baixo Purus devido à atividade de pesca da piracatinga. Considerando 15 toneladas pescadas somente na região, de acordo com relato dos próprios pescadores, a estimativa é que até 144 botos-cor-de-rosa sejam mortos por ano para virar isca. “É um absurdo”.

A situação se agrava considerando que os golfinhos têm uma reprodução lenta. As fêmeas têm uma gestação de cerca de dez meses e, após o nascimento, podem cuidar dos filhotes por até quatro anos. Com isso, a inserção de novos botos na natureza é demorada. Sannie diz que a morte de um grande número desses animais pode inviabilizar a manutenção da espécie.

Para a pesquisadora, a fiscalização é importante, mas constitui o primeiro passo. “Ela tem que ser mais efetiva e aberta à discussão”. Ela reiterou a necessidade de uma grande campanha de educação ambiental nas comunidades, para que os moradores entendam a importância que o boto tem para o meio ambiente e para ele mesmo. Hoje, disse, o pescador vê o boto como um concorrente para suas atividades de pesca. “A gente precisa mudar isso. E só muda com educação”.

Sannie Brum pretende começar uma nova pesquisa para descobrir o que pode ser usado como alternativa de isca para a pesca da piracatinga. A coordenadora adjunta do CMA, Carla Marques, informou que esse é um tipo de peixe que se alimenta de carne morta ou em putrefação. Por isso, é rejeitado como alimento pelos próprios pescadores.

Sannie Brum explicou que apesar disso, eles vendem o produto para mercados de São Paulo, do Paraná e do Nordeste e, inclusive, para outros países, como a Colômbia. Para isso, usam o nome fantasia de “douradinha”. Como é vendido sob a forma de filé, a piracatinga acaba sendo comprada pelos consumidores que o confundem com um peixe nobre, a dourada (Brachyplathystomaflavicans).

(Alana Gandra /Agência Brasil)

Sua flecha é a palavra (Boletim da UFMG)

Nº 1845 – Ano 40
18.11.2013

Bárbara Pansardi

“Pra quem não me conhece, sou Davi Kopenawa, filho da Amazônia, que vive no meio da floresta.” As palavras simples e fortes do líder indígena são certeiras como uma flecha que acerta direto no coração – é o que ele mesmo diz. O xamã yanomami acredita que sua arma é a palavra, com a qual protege a floresta amazônica e os povos autóctones.

“Nós, Yanomami, somos guerreiros para defender nossos direitos, nosso povo, nossas crianças, nossa terra própria. Nossos antepassados não sabiam se defender, não sabiam brigar por não compreender a língua portuguesa”, explica o xamã e intérprete da Funai, que utiliza o idioma como instrumento político. “Eu não posso viver isolado. Meu povo yanomami já foi isolado. Hoje não, nós conversamos com políticos sobre o problema da nossa terra, da saúde”, afirma.

Sua mensagem é firme, mesmo quando sua expressão parece hesitar, revelando a cadência de quem não tem o português como língua materna. “Minha fala é diferente; não é fala de cidade, não. Eu falo sobre natureza, sobre meio ambiente, terra, sobre o que é bom pra nós todos”, justifica Kopenawa.

A convite do Programa Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), Davi veio à UFMG ensinar o que os napë [homem branco, não índio] parecem não saber. “Será que o homem não tem pensamento, não pensa em seu futuro, nas gerações que vão sofrer? Consciência dos napë é diferente da consciência indígena. Terra é nossa vida, sustenta a barriga, é nossa alegria”, alega, tecendo dura crítica às atividades econômicas que se valem da exploração das riquezas naturais.

Para Kopenawa, o problema gerado pelo homem branco com a extração dos recursos é incontornável, não há reflorestamento que o resolva. “Reflorestar não vai trazer ar limpo, não vai chamar a chuva; só miséria, fome, sofrimento”, afirma, fazendo uma analogia com as cicatrizes que se formam quando ferimos a pele, sobre as quais não voltam a nascer pelos. “Na terra, depois que corta, não cresce de novo, não nasce urihi [cobertura florestal], porque não tem força, não tem água lá embaixo. Derrama sangue da terra e ela fica seca, a água vai embora.”

Davi explica o que em sua filosofia indígena designa por “coração da terra”. De acordo com ele, trata-se de um processo cíclico segundo o qual a água é conduzida por caminhos subterrâneos que a elevam para que em seguida se precipite novamente, em movimento continuamente circular, como na corrente sanguínea. “Nós estamos circulando juntos”, acrescenta, esclarecendo que o coração humano pulsa sob mesmo ritmo. Homem e natureza, portanto, estão ligados. Então, “destruímos a nós mesmos ao devastar a terra; nosso coração bate junto com a hutukara, terra-mãe”.

Diferentes, porém complementares

O xamã acredita na capacidade de mobilizar os outros como multiplicadores de uma consciência ambiental renovada, e se alegra porque vê seu conhecimento reconhecido na esfera acadêmica. “Sou analfabeto, mas tenho saber tradicional. Eles estão me escutando e achando bom. Estão interessados, gostando muito. Eu também estou gostando. Venho para me aproximar do homem branco que nunca conheceu de mim e para conhecê-lo como amigo. Não índio também está reconhecendo minha imagem, minha fala, a experiência que eu tenho e aprendi desde pequeno.”

Entre os xamãs yanomami, boa parte dos saberes advêm do campo onírico. Os sonhos – muitas vezes associados ao transe induzido pelo sopro do pó de yãkoana [alucinógeno] – funcionam como revelações esclarecedoras. Os xapiri [espíritos] são os responsáveis por alumbrar as ideias e desvelar a sapiência do líder. Davi conta que ele próprio “sonha terra, floresta, chuva, trovão, tudo o que tem no universo”. Por isso, irrita-se com os antropólogos que, “como formigas, andam procurando sabedoria” e valem-se do conhecimento alheio. “Eu não quero antropólogo falso, que só quer trair o meu povo, que só quer aprender, tirar e copiar conhecimento yanomami”, revolta-se, em alusão à experiência com o americano Napoleon Chagnon, que trata os yanomami como ferozes e violentos.

No livro La chute du ciel, escrito em conjunto com o antropólogo francês Bruce Albert, Kopenawa conta que pediu ao xori [amigo] que o ajudasse. Como discordava dos pesquisadores que frequentavam sua aldeia e imputavam juízos sobre o modo de vida indígena, resolveu manifestar-se. “Quem vai falar sobre meu povo yanomami sou eu. Eu não sou antropólogo, mas Bruce me ajudou a escrever como no meu sonho, um sonho conhecimento. Eu queria escrever para os antropólogos da cidade, para mostrar como o Yanomami pensou. Esse livro é um mensageiro para entrar na capital. Antropólogo que não conhece índio, não conhece aldeia, não conhece mato vai ler. Esse livro foi escrito para fazer antropólogo respeitar. Foi muito bom pra mostrar minha capacitação, a capacidade que eu tenho de quem conhece rio, terra, mato”, relata.

Quanto à sua participação nas palestras ao longo da semana, o xamã mostrou-se alegre e satisfeito por cumprir a tarefa que lhe foi confiada pelos anciões. “Estou com orgulho de mim. Sou um yanomami em paz. Estou dizendo boas coisas pra eles [homens brancos] entenderem, pensarem e depois fazer respeitar. Nós somos povo indígena, guardião da terra; estamos aqui para proteger”, assevera.

É um erro escolarizar o conhecimento tradicional, avalia pesquisadora da USP (Notícias da UFMG)

Foca Lisboa/UFMG
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Manuela Carneiro propôs projeto de valorização do conhecimento tradicional

Quinta-feira, 21 de novembro de 2013, às 5h50

As possibilidades de cooperação entre os cientistas acadêmicos e os chamados “conhecedores tradicionais” – em especial os indígenas – foram abordadas em conferência na UFMG da professora Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo (USP), no início deste mês. O evento integrou a programação doColóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami.

Para a professora, é um contrassenso tentar escolarizar o conhecimento tradicional. “Ele não é só conteúdo; são também formas de existência e de transmissão desse conteúdo. Assim, em vez de se pensar em escolarização, devemos propor programas de pesquisa de conhecimentos tradicionais estabelecendo pontes entre o conhecimento prático e o que se aprende na escola”, defendeu.

Na ocasião, Maria Manuela detalhou a proposta que submeteu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a criação de programa focado na valorização do conhecimento tradicional e na criação de uma economia na Amazônia que seja compatível com o conceito de “floresta em pé”

“Fizemos a proposta ao Ministério, que parece ter gostado do projeto, e o incluiu no seu programa para o período de 2010-2014. A ideia é que o projeto resulte em editais anuais, e que fomente a distribuição equitativa de poder e de recursos”, explicou.

O Portal UFMG resumiu aspectos da conferência de Maria Manuela Carneiro da Cunha. Confira a seguir.

O contexto político
Formamos um conselho consultivo e propusemos ao MCTI um programa focado na importância da valorização dos conhecimentos tradicionais para o Brasil. O Ministério demonstrou interesse e pôs o programa na sua agenda para o período 2010-2014. Mas quiseram começar de uma forma mais prudente do que se poderia esperar. Encomendaram um estudo de três anos para avaliar a viabilidade e o formato de um programa permanente. É o que estamos fazendo atualmente. Mas sabemos que, quando mudam governo e secretário, mudam as políticas. E em 2014 teremos novas eleições. Portanto, não temos nenhuma segurança de que o programa vai se reverter em algo permanente. Mas estamos trabalhando para isso. Já foi um importante avanço tratar a questão no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em vez do Ministério da Educação (MEC).

Floresta em pé
O programa se chama Bases para um programa de pesquisas interculturais e fortalecimento do conhecimento tradicional e tem dois pilares principais. Um trata de fomentar a criação de um tipo de economia na Amazônia que seja compatível com a ideia de “floresta em pé”. Essa parte foi mais facilmente aceita. O segundo diz respeito à valorização dos conhecimentos tradicionais. Ou seja, de se reconhecê-lo e buscar o auxílio das populações tradicionais, que têm o know-how nesse tipo de manejo da floresta, para fomentar seu uso sustentável. Essa é uma ação que enfrenta mais resistência. Temos implantado projetos pilotos. São tentativas de demonstrar que é possível criar uma agricultura da “floresta em pé”, de que essa mudança de paradigma é interessante para todas as partes – populações tradicionais, cientistas das universidades e para a sociedade como um todo.

Contribuição do saber tradicional
Tenho trabalhado junto a especialistas solicitando levantamentos sobre as contribuições econômicas que os conhecimentos tradicionais podem oferecer. Mas temos de ter em mente que o mais importante não é mensurável. Não se pode medir o conhecimento tradicional pelo seu valor econômico; existem questões mais importantes. Um grande problema hoje é que, se o aspecto econômico não é mensurado, a contribuição oferecida pelo conhecimento tradicional não é apreciada, não é levada em conta, apesar de ser imprescindível para o trabalho. Pesquisadores fazem “descobertas” e não reconhecem o conhecimento tradicional embutido em seus trabalhos. Dizem: “não devo nada aos conhecimentos tradicionais”, quando, na verdade, devem muito.

Repartição equitativa
Até hoje não temos uma medida precisa para fazer essa avaliação. Mas estamos chegando a algum tipo de consenso de como deve ser feita a regulamentação desse reconhecimento. O Congresso Nacional está recebendo um projeto de lei que vai substituir medida provisória sobre o assunto. A ideia é estipular o pagamento equitativo, a recompensa, a “repartição equitativa de benefícios”; esse é o termo, porque essa recompensa pode até mesmo ser não monetária. Uma frente de trabalho tem sido a de colaborar para o estabelecimento de qual deve ser, do ponto de vista econômico, o aporte a ser feito em remuneração ao conhecimento tradicional embutido nos processos científicos. No entanto, cabe repetir: não se pode exigir uma justificativa estritamente econômica para preservar a diversidade de línguas, práticas e cantos. Reduzir tudo isso à questão do capital seria um absurdo.

Conhecimento em construção
Quando os cientistas apreciam o conhecimento tradicional, eles pensam o seguinte: “vamos fazer um levantamento e então guardar o recurso para futuras pesquisas”. O problema é que essa postura desconsidera que o conhecimento tradicional é fruto de um processo vivo, que está sempre em transformação. Ele depende da população que o gerou, depende dela para continuar se transformando, se aprimorando. Se você armazena cientificamente uma informação, ela não terá a mesma validade quando for retomada. Venho insistindo com o MCTI que não se deve pensar o conhecimento tradicional como algo pronto e consolidado, mas sim como conhecimento em constante construção, tal qual o conhecimento científico. Por incrível que pareça, isso é muito difícil de entrar na cabeça de biólogos, de cientistas acadêmicos.

O valor dos mateiros
Quando os cientistas vão adentrar a floresta, eles sempre precisam da orientação dos mateiros, oriundos da população local: são eles que conhecem a mata, os territórios, e que estão sempre descobrindo coisas novas, novos caminhos. Ainda assim eles são sempre depreciados nos institutos de pesquisa. Sempre são colocados como assistentes, sendo muito pouco valorizados no contexto da construção do conhecimento – e muito mal pagos. E a verdade é que os mateiros são os primeiros pesquisadores. Eles aprenderam no local e estão transmitindo esses conhecimentos para os pesquisadores científicos.

Desvalorização histórica
A história tradicional faz tudo para solapar o conhecimento tradicional. Por exemplo: a nossa escola, ao ser levada para essas comunidades, considera que o que a criança aprende em casa é algo sem valor. Faz com que esse conhecimento seja visto como de uma instância inferior. A escola atrapalha de várias maneiras: sua forma de elaborar seu calendário, seus horários… Por isso, as pessoas mais velhas dessas sociedades acabam se sentindo desvalorizadas quando em contato com a nossa. Em muitas dessas comunidades, eles são os responsáveis por passar certos conhecimentos de pai para filho. E a nossa escola canônica não entende ou aceita isso muito bem. A reação são as “escolas diferenciadas”, criadas pelas próprias comunidades indígenas – e que naturalmente vêm sofrendo muita resistência. São escolas que pensam seu calendário para que ele seja compatível com as atividades tradicionais da comunidade, que pensam a importância da língua, do conhecimento local, das tradições, das festas, da participação social. Aí está um aspecto muito importante a ser solucionado. É preciso que a escola se adapte à realidade dessas comunidades, no sentido de uma política de fortalecimento do conhecimento tradicional. Saber como fazer uma canoa, por exemplo, importa muito mais do que certos “conhecimentos” que as escolas acham importante disseminar.

Os riscos da ‘revolução verde’
Uma retomada histórica explica o desafio que se vive hoje na agricultura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma “revolução verde”: uma ambiciosa tentativa de aumentar a produção agrícola no mundo inteiro e resolver o problema da fome. Foi algo muito importante. Entre as mais de sete mil espécies de plantas alimentícias existentes no mundo, as trinta mais produtivas foram selecionadas para formarem a base da alimentação da maioria. Mas as demais espécies dessa enorme variedade foram de certa forma esquecidas. Apesar de sua importância na época, foi uma medida política muito arriscada. Quando a base de alimentação mundial é tão pequena, crescem os riscos de escassez caso algo aconteça com alguma dessas espécies. É uma medida em que não se considera que as variedades são adaptadas a cada lugar, ao tipo de solo, à quantidade de sol e chuva, às pragas. Então resolveram o problema da não adaptação das espécies às pragas e às demais dificuldades dos novos ambientes com o uso maciço de fertilizantes e de defensivos agrícolas. E hoje o Brasil é um “campeão” no uso dos dois. Resolveu-se o problema. Mas a que custo? Tornamo-nos reféns dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Ao custo do sacrifício das variedades locais. E o risco disso é enorme.

Cultivo on farm
Em algum momento, percebemos que o que se estava fazendo era uma política agrícola extremamente perigosa. Na Irlanda, por exemplo, aconteceu um desastre em função disso. Assim como na Bélgica, França, Alemanha, a base da alimentação no país era a batata, que havia sido domesticada pelos índios da América e levada para a Europa pelos espanhóis após a colonização. Os espanhóis levaram poucas espécies, as mais produtivas. Os irlandeses, em dado momento, estavam se alimentando só de duas espécies. Foi quando aconteceu uma praga que durou quatro anos e acabou com tudo. Um milhão de pessoas morreu de fome. Outro milhão migrou. É um exemplo de como é necessário guardar as variedades. Mas não basta fazer bancos de sementes como os da Embrapa, em que as sementes ficam em uma geladeira, mas não continuam se adaptando às mudanças do meio ambiente. O clima muda, o solo muda. Então, é preciso que as espécies continuem sendo cultivadas na roça, sendo cultivadas on farm, pois só se adaptam aquelas que continuam sendo cultivadas em campo. Isso é fundamental para a nossa segurança alimentar. E aí entra a questão dos conhecimentos tradicionais, dos índios, que tem o hábito de cultivar variedades.

Experiência no Rio Negro
Um desses projetos-pilotos de que falei está sendo desenvolvido às margens do Rio Negro, na Amazônia. Lá, a despeito das políticas governamentais que buscam consolidar a plantação apenas das poucas espécies mais produtivas, os índios estão plantando em seus roçados mais de cem variedades de mandioca, colaborando com a diversidade tão importante para a segurança de nosso sistema agrário. Hoje, 500 milhões de pessoas comem mandioca no mundo. É um alimento que tem enorme consumo na África, por exemplo. Se houvesse uma praga como a das batatas, teríamos hoje um problema enorme, a exemplo do que aconteceu na Irlanda. Esse caso da mandioca é um exemplo de como o conhecimento tradicional tem uma importância fundamental. Porque é o conhecimento tradicional dos índios que possibilita que lá, no Rio Negro, haja tanta variedade da espécie. Normalmente, a mandioca é plantada como “clone”; come-se a raiz e planta-se o caule. Mas a mandioca sabe dar flor, que tem semente. E, quando dá flor, é porque houve reprodução sexuada, de forma que essa semente não é um clone. A formiga gosta dessa semente, que é docinha. Então ela leva a semente para debaixo da terra. Essa é uma semente que só brota se houver fogo; só nasce na capoeira. Nesse sentido, ela tem brotado no Rio Negro em função do trabalho dos índios mais antigos, que gostam de cultivar as variedades e trabalham para que haja essa capoeira. As variedades também são fruto do trabalho das mulheres indígenas, que cultivam experimentalmente as sementes. Elas plantam em uma margem da roça algo que só vai dar a partir do segundo ou do terceiro ano. É um trabalho de colecionador. Essas mulheres de fato pesquisam para avaliar cada nova variedade e depois para cultivá-la. Há ainda a cultura de troca de sementes entre famílias e tribos, nas festas. Há um gosto pela coleção.

Virada política
Mesmo assim, ainda há hoje uma política do governo querendo disseminar o cultivo das espécies de mandioca entre as comunidades tradicionais, algo como “ensinar padre a rezar missa”. Insistem em focar nas espécies mais produtivas, ainda na lógica da revolução verde. E isso em um contexto em que o Brasil é signatário de um tratado que obriga o país a fomentar o cultivo de variedades na roça, de fomentar esse cultivo on farm, e não em bancos de sementes. O Brasil não está cumprindo esse tratado. Nesse sentido, nosso projeto-piloto visa transformar essas práticas tradicionais do Rio Negro em um sistema reconhecido como forma de conservação on farm valiosa e estratégica para o Brasil e para o mundo. É isso que a gente está construindo.

Leia também o perfil do líder yanomami David Kopenawa, publicado na edição 1845 do Boletim UFMG.

(Ewerton Martins Ribeiro)

“O REDD+ está pedindo socorro”, alerta Conservação Internacional (CarbonoBrasil)

Economia

01/10/2013 – 11h51

por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil

florestanew 300x208 O REDD+ está pedindo socorro, alerta Conservação Internacional

ONG afirma que mecanismo está ameaçado pelo grande desequilíbrio entre oferta e demanda; enquanto mais de 22 milhões de créditos podem ser gerados anualmente, apenas 6,8 milhões teriam compradores. 

A demora para criar instrumentos que estimulem, ou obriguem, países e empresas a comprar créditos florestais de carbono e a falta de vontade política para incluir o REDD+ (clique aqui e saiba mais sobre o conceito de REDD+)  em mercados já estabelecidos, como o EU ETS, estão resultando no excesso de créditos no mercado voluntário, causando a queda dos preços e diminuindo o interesse para o desenvolvimento de projetos de conservação florestal.

Essa é a mensagem central que a Conservação Internacional (CI) tenta passar com o relatório “REDD+ Market: Sending Out an SOS” (algo como Mercado de REDD+: pedindo socorro).

De acordo com a ONG, apenas considerando a certificação Verified Carbon Standard (VCS), até 22 milhões de créditos podem ser gerados anualmente, porém, a demanda do mercado voluntário atualmente não passaria de 6,8 milhões. Desde 2010, a procura por esse tipo de crédito teria caído 65%.

Esse desequilíbrio entre oferta e demanda fez com que o preço médio dos créditos do REDD+ passasse de US$ 12 em 2011 para US$ 6 no ano passado.

A CI aponta que o REDD+ já ajudou a proteger mais de 14 milhões de hectares de florestas. Além disso, trouxe ganhos para mais de 70 mil pessoas em comunidades locais, evitou as emissões de quatro milhões de toneladas de CO2 equivalente desde 2009 e protegeu 139 espécies que estão ameaçadas de extinção.

situacaoredd 133x300 O REDD+ está pedindo socorro, alerta Conservação Internacional“A falta de recompensas financeiras para esses casos de sucesso envia um sinal forte e preocupante para todos os países desenvolvendo esforços para reduzir o desmatamento. Suas ações não têm recebido apoio, mas indiferença e incertezas. Esse sinal não gera a motivação necessária para promover as reformas políticas complexas que o REDD+ tanto precisa”, afirma o relatório.

Como podem apenas ser negociados no mercado voluntário, os créditos do REDD+ são muito dependentes de doadores e de ferramentas internacionais que ainda não possuem a abrangência para estimular novos projetos de forma sustentável.

O relatório cita a Forest Carbon Partnership Facility’s do Banco Mundial (FCPF), o fundo de ação antecipada de REDD+ da Alemanha e o futuro Fundo Climático Verde como exemplos de mecanismos que têm buscado aumentar a demanda por créditos, mas que, no entanto, ainda são muito limitados em termos de disponibilização de financiamentos, de escopo geográfico e de velocidade de implementação.

Propostas

Uma das soluções óbvias citadas pela CI passa por garantir um preço justo para os créditos de REDD+.

Isso poderia ser conseguido de diversas formas: maior interesse dos fundos climáticos pelo REDD+, expansão dos programas de compensação voluntária do setor privado e a criação de compromissos para países doadores.

“Essas ações ajudariam a catalisar novos investimentos assim como estabilizariam a situação dos atuais projetos para os próximos anos, reduzindo a vulnerabilidade das comunidades devido à queda dos preços do REDD+”, afirma o relatório.

Outro ponto que precisa receber atenção seria o reconhecimento dos benefícios múltiplos dos projetos de REDD+.

Segundo a CI, as iniciativas de conservação florestal melhoram a vida de povos nativos, protegem a biodiversidade e garantem os serviços ecossistêmicos.

Assim, programas governamentais que tenham objetivos semelhantes aos que são alcançados pelo REDD+ deveriam considerar o financiamento desse tipo de projeto. Dessa forma, o mecanismo seria encarado não apenas como uma ferramenta para “compensar emissões”, mas também como um modelo de desenvolvimento inteligente.

O relatório destaca que muitos projetos já começam a ser desenvolvidos pelos próprios povos nativos, como é o caso do Projeto de Carbono Florestal Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro do povo Paiter Suruí, localizado nos estados de Rondônia e Mato Grosso.

Inclusive, no mês passado, o projeto Suruí vendeu seus primeiros créditos de REDD+; foram 120 mil unidades compradas pela Natura.

A CI conclui que a importância de manter o REDD+ funcionando em um alto nível de qualidade não pode ser subestimada. Não apenas para lidar com o desmatamento e com as emissões de gases do efeito estufa, mas também para evitar os impactos negativos que projetos mal elaborados podem produzir.

“Para alcançar os resultados esperados, está claro que o REDD+ deve melhorar em escala, mas também em questões como legislação (…) Isso deve ser feito para evitar que estímulos perversos sejam criados”, explica o relatório.

A ONG está neste caso se referindo aos riscos muitas vezes associados ao REDD+, como a exploração dos povos nativos e os conflitos por terras.

“Estabelecer estruturas institucionais é necessário para implementar a gestão local que facilitará o desenvolvimento de mecanismos de REDD+ nacionais e internacionais”, conclui a CI.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

O que é e como surgiu o REDD? (ipam.org.br)

Florestas tropicais representam hoje 15% da superfície terrestre (FAO, 2006 apud GCP, 2008) e contém cerca de 25% de todo o carbono contido na biosfera terrestre (BONAN, 2008 apud GCP, 2008). Além disso, 90% dos cerca de 1,2 bilhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza dependem dos recursos florestais para sobreviverem (GCP, 2008).

Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), das Nações Unidas (2006), aproximadamente 13 milhões de hectares de florestas tropicais são desmatados todos os anos (uma área equivalente ao Peru).

Preservar florestas, além da redução nas emissões de gases do efeito estufa, tem o potencial de gerar co-benefícios substanciais, como impactos positivos sobre a biodiversidade e sobre a conservação de recursos hídricos.  A floresta em pé também auxilia na estabilização do regime de chuvas e, conseqüentemente, do clima (Angelsen, 2008).

O relatório do IPCC publicado em 2007 (IPCC, 2007) estimou as emissões por desmatamento nos anos 1990 como sendo de aproximadamente 20% do total, fazendo da “mudança no uso da terra” a segunda atividade que mais contribui para o aquecimento global (GCP, 2008).

Conceito e desenvolvimento

O conceito de REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), basicamente, parte da idéia de incluir na contabilidade das emissões de gases de efeito estufa aquelas que são evitadas pela redução do desmatamento e a degradação florestal.  Nasceu de uma parceria entre pesquisadores brasileiros e americanos, que originou uma proposta conhecida como “Redução Compensada de Emissões” (Santilli et al, 2000), que foi apresentada durante a COP-9, em Milão, Itália (2003), por IPAM e parceiros. Segundo este conceito, os países em desenvolvimento detentores de florestas tropicais, que conseguissem promover reduções das suas emissões nacionais oriundas de desmatamento receberiam compensação financeira internacional correspondente às emissões evitadas. O conceito de redução compensada tornou-se a base da discussão de REDD nos anos seguintes.

Em seguida, durante a COP-11, em Montreal, Canadá (2005) a chamada “Coalition of Rainforest Nations” ou “Coalizão de Nações Tropicais”, liderados por  Papua Nova Guiné e Costa Rica, apresentou uma proposta similar que tem por objetivo discutir formas de incentivar economicamente a redução do desmatamento nos países em desenvolvimento, detentores de florestas tropicais (Pinto et al, 2009).

O argumento colocado é que os países tropicais são responsáveis por estabilizar o clima por meio de suas florestas e, assim, os custos para mantê-las em pé devem ser divididos por todos. Esta iniciativa fez com que, oficialmente, o assunto REDD fosse incluído na pauta de negociações internacionais.

Um ano depois, na COP-12, em Nairobi, Nigéria (2006), o governo brasileiro anunciou publicamente uma proposta para tratar da questão do desmatamento, também muito parecida com as anteriores, só que sem considerar o mecanismo de mercado de créditos de carbono e sim as doações voluntárias.

A COP-13, realizada em Bali, Indonésia, em 2007, culminou com a Decisão 1/ CP 13, conhecida como “Mapa do Caminho de Bali”, para discutir como inserir o tema REDD num mecanismo que será estruturado para iniciar em 2012, ano em que chega ao fim o primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto.

É imprescindível notar que este mecanismo foi inicialmente concebido para os países em desenvolvimento que detêm florestas tropicais, permitindo-os participar efetivamente dos esforços globais de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Necessário também salientar que a discussão sobre o desmatamento evitado evoluiu de um mecanismo que tinha foco somente no desmatamento evitado (COP 11, 2005), para ser ampliado e incluir a degradação de florestas (COP 13, 2007),

e REDD+?

Hoje o conceito foi ampliado e é conhecido como REDD+, se refere à construção de um mecanismo, ou uma política, que deverá contemplar formas de prover incentivos positivos aos países em desenvolvimento que tomarem uma ou mais das seguintes ações para a mitigação das mudanças climáticas:

1. Redução das emissões derivadas de desmatamento e degradação das florestas;

2. Aumento das reservas florestais de carbono;

3. Gestão sustentável das florestas;

4. Conservação florestal. (Pinto et al, 2009).

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Referências:

ANGELSEN, Arild. (org.). Moving Ahead with REDD: Issues, Options and Implications. CIFOR. Poznan, Polônia. 2008.

GLOBAL CANOPY PROGRAM. The Little REDD Book: A guide to Governmental and non-governmental proposals for Reducing Emissions from Deforestation and Degradation. 2008. Disponível em: http://www.the littleREDDbook.org

INTERNATIONAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change Synthesis Report. Summary for Policymakers. Switzerland. 2007.

PINTO, Erika; MOUTINHO, Paulo; RODRIGUES, Liana; OYO FRANÇA, Flavia Gabriela; MOREIRA, Paula Franco; DIETZSCH, Laura. Cartilha: Perguntas e Respostas Sobre Aquecimento Global. 4a edição. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Belém. 2009.

SANTILLI, Márcio; MOUTINHO, Paulo; SCHWARTZMAN, Stephan; NEPSTAD, Daniel; CURRAN, Lisa; NOBRE, Carlos. Tropical deforestation and the Kyoto Protocol: an editorial essay. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. 2000.

Contribuição de conteúdo por Ricardo Rettmann (ricardo.rettmann@ipam.org.br)

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Acesse publicação REDD no Brasil: um enfoque amazônico

O livro apresenta e discute as condições favoráveis do Brasil à implementação de um regime nacional de REDD+ e propõe dois modelos de estrutura institucional para a repartição de benefícios: um baseado na distribuição por estados e outra por cate-gorias fundiárias. REDD+ é aqui discutido como um elemento importante na transição do modelo de desenvolvimento da Amazônia para um de baixas emissões de carbono, com distribuição de renda e justiça social. A alteração mais importante desta 3a edição foi a utilização da metodologia de cálculo do desmatamento evitado proposta pelo Comitê Técnico do Fundo Amazônia, juntamente com parâmetros fixados pelo Decreto 7.390/2010, que regulamenta a Política Nacional sobre Mudança do Clima. Esta alteração nos cálculos não altera a mensagem central do livro, porém pode ser percebida em algumas figuras chaves que demonstram o valor total do desmatamento evitado no Brasil.

Faça download da publicação

Pescador que atirou em boto diz que quase foi encantado e fica perturbado (Voz do Norte)

homem boto

Depois de atirar num boto que estava perturbando sua pescaria Valdecir da Costa Souza, 20, passou a apresentar perturbações psicológicas e afirma que os animais estão o atraindo. Além de ouvir vozes ele vê um homem sentado numa pedra no rio tentando levá-lo para a água e o problema está preocupando os familiares.

Tudo começou quando Valdecir participava de uma pescaria junto com o primo Natanael dos Santos, em uma comunidade do interior do Amazonas e alguns botos rasgavam as redes e comiam o peixe, momento que o pescador resolveu dar um tiro num dos animais.

Segundo conta o primo, imediatamente após o tiro, surgiram vários botos ao redor do barco que tentaram alagar a embarcação e eles não conseguiram continuar a pescaria. Mesmo depois do barco ter sido ancorado nas margens do rio os animais não foram embora, momento em que Valdecir começou a passar mal.

“Comecei a passar mal e apareceu um homem em cima de uma pedra branca no meio do rio que tentava levá-lo para a água. Ele me chamava e dizia que ai me levar”, contou o pescador ainda abatido, que no momento pedia socorro ao primo que afirmou que eram muitos botos e quando eles apareciam Valdecir começava a passar mal.

“Quando eu ficava perto do meu primo, que estava comigo na pescaria, eles se afastavam e o homem desaparecia”, conta ainda assustado em sua residência. Depois que chegou em casa o pescador deu muito trabalho a família que tinha que segurá-lo a força pois ele queria entrar no rio.

Segundo a tia do pescador, Lúcia dos Santos, todas as vezes que Valdecir sentia a presença dos botos ficava com a voz diferente e com muita força. “Não sei o que acontecia, ele começava a desmaiar depois queria entrar no rio. Eram nove homens e três mulheres para poder segurá-lo”, afirmou.

O pai pescador, José Alberto de Souza, 62, conta que também já foi vitima de um boto, quando estava com amigos madeireiros nas margens de um igarapé na fronteira com o Peru. Eles jogavam baralho quando sentiu algo estranho no corpo e via um homem sobre uma pedra no igarapé que tentava levá-lo para a água.

José Alberto afirma que tudo começou depois que seu pai desapareceu nas águas do Rio Juruá, encantado por um boto. “Meu estava numa canoa que naufragou e vários botos começaram a boiar no local, ele nunca foi encontrado. Depois ele apareceu para minha esposa dizendo que estava em um boto e que eu precisava desencantá-lo. Ela me disse antes mesmo dele aparecer três vezes, depois disso nunca mais voltou”, ressaltou.

[Acessado em 23 de maio de 2013]

Severe Climate Jeopardizing Amazon Forest, Study Finds (Science Daily)

Jan. 18, 2013 — An area of the Amazon rainforest twice the size of California continues to suffer from the effects of a megadrought that began in 2005, finds a new NASA-led study. These results, together with observed recurrences of droughts every few years and associated damage to the forests in southern and western Amazonia in the past decade, suggest these rainforests may be showing the first signs of potential large-scale degradation due to climate change.

At left, the extent of the 2005 megadrought in the western Amazon rainforests during the summer months of June, July and August as measured by NASA satellites. The most impacted areas are shown in shades of red and yellow. The circled area in the right panel shows the extent of the forests that experienced slow recovery from the 2005 drought, with areas in red and yellow shades experiencing the slowest recovery. (Credit: NASA/JPL-Caltech/GSFC)

An international research team led by Sassan Saatchi of NASA’s Jet Propulsion Laboratory, Pasadena, Calif., analyzed more than a decade of satellite microwave radar data collected between 2000 and 2009 over Amazonia. The observations included measurements of rainfall from NASA’s Tropical Rainfall Measuring Mission and measurements of the moisture content and structure of the forest canopy (top layer) from the Seawinds scatterometer on NASA’s QuikScat spacecraft.

The scientists found that during the summer of 2005, more than 270,000 square miles (700,000 square kilometers, or 70 million hectares) of pristine, old-growth forest in southwestern Amazonia experienced an extensive, severe drought. This megadrought caused widespread changes to the forest canopy that were detectable by satellite. The changes suggest dieback of branches and tree falls, especially among the older, larger, more vulnerable canopy trees that blanket the forest.

While rainfall levels gradually recovered in subsequent years, the damage to the forest canopy persisted all the way to the next major drought, which began in 2010. About half the forest affected by the 2005 drought — an area the size of California — did not recover by the time QuikScat stopped gathering global data in November 2009 and before the start of a more extensive drought in 2010.

“The biggest surprise for us was that the effects appeared to persist for years after the 2005 drought,” said study co-author Yadvinder Malhi of the University of Oxford, United Kingdom. “We had expected the forest canopy to bounce back after a year with a new flush of leaf growth, but the damage appeared to persist right up to the subsequent drought in 2010.”

Recent Amazonian droughts have drawn attention to the vulnerability of tropical forests to climate change. Satellite and ground data have shown an increase in wildfires during drought years and tree die-offs following severe droughts. Until now, there had been no satellite-based assessment of the multi-year impacts of these droughts across all of Amazonia. Large-scale droughts can lead to sustained releases of carbon dioxide from decaying wood, affecting ecosystems and Earth’s carbon cycle.

The researchers attribute the 2005 Amazonian drought to the long-term warming of tropical Atlantic sea surface temperatures. “In effect, the same climate phenomenon that helped form hurricanes Katrina and Rita along U.S. southern coasts in 2005 also likely caused the severe drought in southwest Amazonia,” Saatchi said. “An extreme climate event caused the drought, which subsequently damaged the Amazonian trees.”

Saatchi said such megadroughts can have long-lasting effects on rainforest ecosystems. “Our results suggest that if droughts continue at five- to 10-year intervals or increase in frequency due to climate change, large areas of the Amazon forest are likely to be exposed to persistent effects of droughts and corresponding slow forest recovery,” he said. “This may alter the structure and function of Amazonian rainforest ecosystems.”

The team found that the area affected by the 2005 drought was much larger than scientists had previously predicted. About 30 percent (656,370 square miles, or 1.7 million square kilometers) of the Amazon basin’s total current forest area was affected, with more than five percent of the forest experiencing severe drought conditions. The 2010 drought affected nearly half of the entire Amazon forest, with nearly a fifth of it experiencing severe drought. More than 231,660 square miles (600,000 square kilometers) of the area affected by the 2005 drought were also affected by the 2010 drought. This “double whammy” by successive droughts suggests a potentially long-lasting and widespread effect on forests in southern and western Amazonia.

The drought rate in Amazonia during the past decade is unprecedented over the past century. In addition to the two major droughts in 2005 and 2010, the area has experienced several localized mini-droughts in recent years. Observations from ground stations show that rainfall over the southern Amazon rainforest declined by almost 3.2 percent per year in the period from 1970 to 1998. Climate analyses for the period from 1995 to 2005 show a steady decline in water availability for plants in the region. Together, these data suggest a decade of moderate water stress led up to the 2005 drought, helping trigger the large-scale forest damage seen following the 2005 drought.

Saatchi said the new study sheds new light on a major controversy that existed about how the Amazon forest responded following the 2005 megadrought. Previous studies using conventional optical satellite data produced contradictory results, likely due to the difficulty of correcting the optical data for interference by clouds and other atmospheric conditions.

In contrast, QuikScat’s scatterometer radar was able to see through the clouds and penetrate into the top few meters of vegetation, providing daily measurements of the forest canopy structure and estimates of how much water the forest contains. Areas of drought-damaged forest produced a lower radar signal than the signals collected over healthy forest areas, indicating either that the forest canopy is drier or it is less “rough” due to damage to or the death of canopy trees.

Results of the study were published recently in the Proceedings of the National Academy of Sciences. Other participating institutions included UCLA; University of Oxford, United Kingdom; University of Exeter, Devon, United Kingdom; National Institute for Space Research, Sao Jose dos Campos, Sao Paulo, Brazil; Boston University, Mass.; and NASA’s Ames Research Center, Moffett Field, Calif.

For more on NASA’s scatterometry missions, visit:http://winds.jpl.nasa.gov/index.cfm . You can follow JPL News on Facebook at: http://www.facebook.com/nasajpl and on Twitter at: http://www.twitter.com/nasajpl . The California Institute of Technology in Pasadena manages JPL for NASA.

Em busca de um novo lugar para o homem e a natureza. Entrevista com Philippe Descola (Instituto Humanitas Unisinos)

Terça, 20 de novembro de 2012

O francês Philippe Descola, de 64 anos, é parte de um grupo de antropólogos contemporâneos – ao lado do também francês Bruno Latour e do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro – que propõe embaçar a distinção natureza/cultura, durante muito tempo orientadora do pensamento sobre o humano.

O ponto de partida de sua obra foi uma longa convivência, nos anos 1970, com a tribo achuar, indígenas da Amazônia equatoriana, sobre os quais publicou no Brasil “As Lanças do Crepúsculo” (Cosac Naify). Antes de se formar em antropologia sob a orientação de Claude Lévi-Strauss, estudou filosofia com Michel Foucault e Gilles Deleuze, pensadores que também o influenciaram.

Descola, que esteve no Brasil no mês passado para série de conferências no Rio, em Brasília e no Recife, hoje se interessa pelo que chama de “ontologia das imagens”, mais uma estratégia de questionar o naturalismo e a ideia de que os humanos possuem uma interioridade distinta que os separa dos outros existentes.

A entrevista é de Carla Rodrigues e publicada pelo jornal Valor, 20-11-2012.

Nesta entrevista, ele fala dos desdobramentos desse tipo de pensamento, acusado muitas vezes de relativista, para o ambiente, a defesa dos animais e a forma de fazer antropologia, dentro do que chama de “uma teoria geral sobre a continuidade e a descontinuidade entre humanos e não humanos”.

Eis a entrevista.

Sua obra começa com uma etnologia na Amazônia, nos anos 1970. O senhor acompanha o debate sobre a questão indígena na Amazônia hoje?

É um debate relativamente simples. De um lado, a espoliação territorial das terras indígenas – que é muito grave e diferente nos diversos países que compõem a Amazônia -, a destruição da floresta e do modo de vida de populações que vivem dela, como seringueiros. São problemas muito graves e cada país o encara de maneira diversa. Mesmo assim, a situação do extermínio da população ameríndia já foi pior. Quando comecei a fazer etnologia na Amazônia, os ameríndios não eram representados na cena pública. Os etnólogos ocupavam um papel importante como porta-vozes, para fazer eco a situações que eram dramáticas. A grande mudança atual é que os ameríndios ocupam uma posição de interlocução, o que no Brasil é particularmente notável. Sem intermediários, são capazes de se fazer entender por eles mesmos, o que é muito positivo.

A partir desse trabalho, o senhor começou a pensar as relações entre humanos e não humanos. Quais são as consequências desse tipo de pensamento?

Toda a tradição do pensamento humanista consiste, de forma um tanto paradoxal, em pôr os humanos no centro e, ao mesmo tempo, de tirá-los do centro do mundo. É uma espécie de contradição permanente do pensamento. O que tento fazer – inspirado por Lévi-Strauss – é “desantropocentralizar” a antropologia, uma disciplina que nasceu, no âmbito das ciências sociais, como resultado da vontade de ter uma atitude reflexiva sobre as nossas experiências coletivas, na Europa e no mundo ocidental. Sociedade, natureza, cultura, história e razão são conceitos que nos permitiram nos objetivar a nós mesmos, mas são extremamente inadaptados para a análise e a descrição de realidades diferentes. O que tento fazer é compreender como em outros sistemas culturais, aqui, por exemplo, na Amazônia, existem espécies animais, vegetais, espíritos que formam certa espécie de sociedade. São sociedades coextensivas aos cosmos que nos impedem de distinguir a cultura de um lado, a natureza de outro.

Trata-se de repensar os objetivos da antropologia?

A antropologia nasce na segunda metade do século XIX na Europa para questionar sobre como viviam as sociedades que não estabeleciam a distinção natureza/cultura, justamente no momento em que o pensamento europeu estava se estabelecendo a partir dessa distinção. Era a partir dessa distinção que os departamentos das universidades começaram a se organizar, separando as ciências da natureza das ciências humanas. Nesse mesmo momento havia a descoberta de que havia sociedades que não consideravam essa distinção. De certa forma, a antropologia surge como uma ciência que busca entender esse “escândalo lógico”. Essa distinção que hoje nos parece superada tem uma história, que eu retracei no livro “Par-delà Nature et Culture” (Gallimard), que começa com os gregos, passa pelo cristianismo, mas começou a emergir entre o século XV e o XVII.

Qual é a importância desse tipo de pensamento para a defesa do ambiente?

O fato de distinguir de um lado a vida social, de outro a natureza, favoreceu a percepção de que a natureza é alguma coisa exterior ao homem e pode ser transformada em um recurso passível de ser destruído em nome da vida social. Chamar a atenção sobre outras formas de concepção da relação entre humano e não humano – que se dá não apenas nos ameríndios, mas no budismo e em outras formas de organização -, é mostrar que os humanos são uma prolongação do ambiente e as perturbações que produzem nele não apenas são dramáticas para todos os seres, mas também para nós. Há cada vez mais pessoas convencidas de que a distinção natureza/cultura não tem nenhum sentido, porque fenômenos como aquecimento global e efeito estufa são naturais, mas também culturais. O que se vê é a irrupção do social dentro do natural e do natural dentro do social, o que terá efeitos políticos importantes que, esperamos, não seja tarde demais.

O crescente movimento de defesa dos animais também pode ser considerado um desdobramento desse tipo de pensamento?

Faço distinção entre duas formas de defender os direitos dos não humanos. Há uma versão, individualista, que inclui nomes muito conhecidos, como Peter Singer, que tem por objetivo estender aos não humanos certos direitos que são dos humanos. O que pode ser muito positivo, mas é um tipo de discurso a partir de uma visão muito ocidental da questão. Há outro tipo de defesa dos animais, que chamo de ecocentrada, defensora da biodiversidade. Em tudo, nas espécies, na cultura, vale mais a diversidade do que a monotonia.

O senhor e o brasileiro Viveiros de Castro compartilham muitas ideias a respeito da necessidade de superação da distinção natureza/cultura. O que há de proximidade e de distância no pensamento dos senhores?

Ao longo do tempo desenvolvemos nosso pensamento por meio de um diálogo permanente, que começou há 30 anos e perseverou na França e no Brasil. Somos muito influenciados por Lévi-Strauss, o que já é um ponto de partida importante. Também somos ambos especializados nas sociedades amazônicas e contribuímos para transformar a visão sobre esses grupos ao aportar a percepção de que parte importante da vida dessas sociedades se passa não com os humanos, mas com os não humanos. Para compreender essas sociedades, pensar a relação com a natureza foi muito importante. Nós dois sublinhamos que essa relação com a natureza se traduz numa forma de existência e organização social muito particular, ao incluir os não humanos na vida social. Não podemos compreender essas sociedades se não compreendermos isso.

No entanto, a diferença que se estabelece entre nós ao longo do tempo é que eu desenvolvi um pensamento que visa tomar as sociedades amazônicas e particularmente sua concepção de relação entre humanos e não humanos como um tipo entre outros, dentro de uma teoria geral sobre a continuidade e a descontinuidade entre humanos e não humanos. Já Viveiros de Castro se engajou em um trabalho filosófico sobre o pensamento ameríndio como um tipo de pensamento alternativo ao pensamento ocidental.

Nossas divergências hoje vêm do fato de que eu sempre estive engajado em um projeto geral de antropologia, do qual as sociedades amazônicas fazem parte, entre outras, enquanto Viveiros de Castro, principalmente no seu último livro, publicado na França (“Métaphysiques Cannibales. Lignes d’Anthropologie post-Structurale“, PUF, 2009, sem edição brasileira), expõe um projeto inspirado pela filosofia de Gilles Deleuze, de desenvolver o que poderia ser chamado de uma filosofia indígena, que se propõe a ser um contraponto à filosofia ocidental.

Uma leitura de antropólogos e sociólogos sobre o futuro da Amazônia (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4549, de 27 de Julho de 2012.

O enfraquecimento de agências multilaterais de cooperação internacional começa a ameaçar as políticas para conservação da Amazônia Legal. A afirmativa é do presidente do Programa Nova Cartografia Social, Alfredo Wagner de Almeida, que ministrou conferência ontem (26) na 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís.

Sob o tema “Povos e comunidades tradicionais atingidos por projetos militares”, o antropólogo alertou sobre a ação de sete estados que buscam reduzir a Amazônia Legal, cujos projetos tramitam no Legislativo. Dentre os quais estão o Mato Grosso que prevê retirar a participação de sua área como Amazônia Legal, igualmente a Rondônia, que quer retirar esse título de suas terras da região. Outros estados como Maranhão e Tocantins querem tirar o título de todas suas áreas consideradas Amazônia Legal.

A região engloba uma superfície de aproximadamente 5.217.423 km², o equivalente a cerca de 61% do território brasileiro. Foi instituída com objetivo de definir a delimitação geográfica da região política captadora de incentivos fiscais para promoção do desenvolvimento regional.

“Essa é uma primeira tentativa de reduzir a Amazônia Legal, pois esses estados agora não gozam mais dos benefícios concedidos pelas agências internacionais multilaterais”, analisou Almeida, também conselheiro da SBPC e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Segundo o pesquisador, os organismos internacionais, até então, eram fontes de recursos para programas de proteção à Amazônia. Tais como, o Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL), destinado à demarcação de terras indígenas, fomentado principalmente pelo governo da Alemanha. E o PPG7 (Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil). Foram essas políticas que fortaleceram a criação do Ministério do Meio Ambiente. “Sem o apoio das agências multilaterais as políticas para a Amazônia encolheram”, disse, sem citar valores.

Conforme o antropólogo, a decisão dos estados que querem sair da Amazônia Legal significa para eles “liderar mais terras segundo as quais consideram ser produtivas”, em detrimento da conservação das florestas.

As declarações do antropólogo são baseadas no dossiê “Amazônia: sociedade, fronteiras e políticas”, produzido por Edna Maria Ramos de Castro, socióloga do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e diretora da SBPC, que intermediou a conferência. A íntegra do documento foi publicada recentemente no Caderno CRH da Bahia.

Terras indígenas – Na avaliação da autora do dossiê, os dispositivos jurídicos desses estados ameaçam as terras indígenas – protagonistas na conservação da biodiversidade que precisam da natureza para sobreviver. “São dispositivos legais, são claros na Constituição, mas essa prática pode levar a uma situação de impasse [da sociedade]”, analisou. Edna citou o caso da polêmica obra da hidrelétrica de Belo Monte que se tornou um ícone de um processo de resistência da sociedade brasileira.

Mudança de paradigma – O antropólogo fez uma leitura sobre o atual modelo político brasileiro administrativo. Ele vê uma mudança de uma política “de proteção” para uma “ideia de protecionismo”. “A distinção entre proteção e protecionismo revela em primeiro lugar o enfraquecimento das agências multilaterais internacionais”, disse. Segundo ele, o protecionismo “erige” fora do âmbito da proteção.

Do ponto de vista de Alfredo Wagner, os sinais de mudança refletem principalmente os desacordos na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em dezembro de 2011 em Genebra. Na ocasião, houve sinais de ruptura de acordos internacionais – até então chamados de mercado comum. Um exemplo “é o engavetamento” da chamada Rodada de Doha, em razão de divergência entre as partes sobre subsídios agrícolas concedidos por países desenvolvidos.

Expansão da área militar e infraestrutura – O antropólogo lembra que no auge dos organismos multilaterais a área de segurança, isto é, a dos militares, não era fomentada porque não fazia parte de uma política de mercado único. Ele observa, entretanto, uma mudança a partir de 2009 quando há um deslocamento do modelo e problemas com os militares começam a aparecer, em decorrência da reedição de projetos de fronteiras militarizadas. “A partir daí inicia um capítulo de conflitos”.

Afastamento de fundos internacionais e órgãos reguladores – Segundo ele, o que mais sobressai na “ideia do protecionismo” é a identificação de recursos naturais estratégicos, como commodities agrícolas e minérios, que – sob o argumento de desenvolvimento sustentável – podem ser utilizados para o incremento de grandes obras de infraestrutura.

“Tudo passa a ser interpretado como interesses nacionais. A ideia de bloco vai perdendo força, o que pode explicar as próprias tensões no Mercosul, quando a Venezuela é levada ao bloco em momentos de crise. Esses interesses nacionais passam a se articular de maneira disciplinada sem passar pelas entidades multilaterais”, considera o antropólogo.

Segundo ele, atual ação do Estado brasileiro não passa pelas entidades multilaterais. Reflexo é o afastamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de duas normas estrangeiras. Uma delas é a Lei de Direitos Humanos Internacional da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ele lembra que o Brasil deixou de investir “nessa corte” a partir do momento em que a hidrelétrica de Belo Monte foi condenada pelo órgão. “O Brasil passa a ter uma posição unilateral, semelhante a dos norte-americanos na Guerra do Golfo”, observa o antropólogo. “A ideia do protecionismo vem de forma bastante forte”.

Alfredo Wagner também observa sinais de afastamento da Convenção 169 em que obriga a consulta prévia de comunidades prejudicadas por grandes obras de infraestrutura, por exemplo. Segundo ele, o Brasil é condenado a seis violações em projetos militares. Uma é pela construção do Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA) em comunidades quilombolas no Maranhão, sem licenciamento ambiental e sem consulta às comunidades “afetadas”.

Ele alerta também sobre quatro medidas preocupantes em andamento segundo as quais preveem a construção emergencial de hidrelétricas. Um exemplo é a Medida Provisória 558 de 18 de janeiro de 2012 em que prevê redução de unidades protegidas e de conservação de florestas sob o argumento de desenvolvimento. Segundo ele, o Ibama aprovou em apenas cinco dias uma minuta de termo de referência da Eletronorte para construção de uma hidrelétrica em São Luiz de Tapajós. Na prática, foi aprovado o plano de trabalho encaminhado para diagnosticar as obras. “Com o ritmo emergencial para essas obras parece que os direitos são colocados em suspenso”.

Recursos de inconstitucionalidade – Tal MP foi questionada pela Procuradoria Geral da República por uma ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade). O Ministério Público Federal considerou que as unidades de conservação nas áreas de hidrelétricas são essenciais para minimizar os impactos ambientais dos projetos; e argumentou que qualquer discussão sobre a redução dessas áreas florestais deve ser realizada no Congresso Nacional, a fim de evitar a edição de uma MP. “O Brasil hoje vive o império das Medidas Provisórias que impedem a ampla discussão da sociedade. Isso dá uma ideia de capitalismo autoritário”, disse o antropólogo.

Privatização de terras na Amazônia – Ele também alerta sobre a privatização das terras públicas na Amazônia sob o “eufemismo” de regularização fundiária, via o programa Terra Legal, pela Lei 11.952 de julho de 2009. Encaminhada pela Presidência da República, a medida prevê privatizar 70 milhões de hectares de terras públicas, um volume considerável em relação ao total de 850 milhões de hectares de terras que compõem o Brasil, segundo o antropólogo. Alfredo Wagner alerta sobre a agilidade na titularidade das terras para grandes propriedades que a MP permite, em detrimento dos pequenos proprietários.

Inicialmente, a medida foi questionada pelo Ministério Público por uma ADIN pela justificativa de que ela estabelece “privilégios injustificáveis” em favor de grileiros que no passado se beneficiaram de terras públicas e houve concentração de terras. “Essa MP é tão cruel quanto a Lei de Terras Sarney de 1969”, disse o antropólogo.

Judicialização do Estado – Buscando tranquilizar os ânimos da plateia lotada por alunos, pesquisadores, cientistas, dentre outros – estimada em cerca de 140 pessoas – que temia ser a volta da ditadura militar, o antropólogo respondeu sobre o atual modelo: “Ele não é igual à ditadura militar”, respondeu o atribuindo a um “judicialização do Estado” e de “uma coisa esquisita”.

Na ocasião, o antropólogo usou a frase de sociólogos para explicar uma crise: “O velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu. Mas está havendo uma transformação.”

(Viviane Monteiro – Jornal da Ciência)