Como tirar São Paulo da UTI? (Folha de S.Paulo)

26 de janeiro de 2015

Especialistas sugerem parcerias público-privadas e engajamento da sociedade civil para vencer limitações de água, fiação e arborização

FERNANDA MENA RAUL JUSTE LORES DE SÃO PAULO

Vazamentos no sistema da Sabesp, que hoje desperdiçam cerca de 20% da água coletada e tratada em São Paulo, podem ser descobertos por sensores já usados em Cingapura. Empresas que descubram e consertem esses vazamentos, em parcerias público-privadas, receberiam pelo volume de água “recuperado” aos cofres da Sabesp.

Quanto aos fios da rede elétrica que deixam os paulistanos no breu ao sinal de vento ou chuva, a AES Eletropaulo, prefeituras e proprietários de imóveis poderiam ratear o alto custo de se enterrar a fiação aérea.

Árvores que caem e derrubam a rede elétrica em um cenário de blecautes e falta de água frequentes indicam que retirar São Paulo de sua atual UTI vai depender de parcerias público-privadas, participação da sociedade civil e soluções tecnológicas ainda pouco testadas. As contas são bilionárias.

No aniversário de 461 anos de São Paulo, especialistas ouvidos pela Folha dizem que está na hora de sair da “zona de conforto”, buscando novas maneiras de encarar (e financiar) problemas que afetam serviços essenciais, mas que costumam ficar no subterrâneo das prioridades políticas.

Caro mesmo, todos eles concordam, é ficar sem água e sem luz na região metropolitana de São Paulo, que representa 16% do PIB nacional.

VIDAS SECAS

“Recuperar e conservar mananciais, investir em reúso e em políticas para reduzir consumo e perdas são fundamentais para garantir o abastecimento.” A frase foi publicada em 2003 em reportagem nesta Folha.

“O cenário provável é de esgotamento do sistema. Se a água não acabar em março, acaba em agosto”, avisa Marussia Whately, da Aliança pela Água, que reúne organizações pela promoção da segurança hídrica em São Paulo. “Precisamos de uma liderança que ajude a população a lidar com a crise.”

Na Califórnia, que já entra em seu quarto ano de seca, “foi fundamental o governador decretar estado de emergência, assumir o problema e convocar celebridades, como Lady Gaga, para gravar vídeos contra o desperdício”, diz Brendan Wonnacott, gerente da campanha “Save our water” [poupe nossa água]. “A população usou as redes sociais para denunciar vazamentos e desperdício.”

A Odebrecht Ambiental criou a Juntos Pela Água, iniciativa que divulga boas práticas e promoveu a economia de cerca de 20% da água consumida em cidades como Limeira e Porto Ferreira.

Bem mais custosos são os programas de redução de perdas no sistema.

Um plano da Sabesp de 2008 propunha reduzir a quantidade de água desperdiçada em vazamentos de cerca de 20% para 13% até 2020 e previa gastar R$ 4,4 bilhões. Mas, em 2012, o plano ficou mais modesto no objetivo (redução de perdas só para 16,8%), com um inflacionado orçamento de R$ 6 bi.

“Os custos são enormes, mas precisamos trocar tubulações com mais de 50 anos e implantar distritos de controle”, diz Luiz Roberto Gravina Pladevall, da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente.

“Precisamos achar um modelo em que empresas possam ser recompensadas pela descoberta e conserto de vazamentos de água”, diz o diretor-técnico da Promon Engenharia, Rodney Faria. “Todos sairiam ganhando, afinal a Sabesp começaria a cobrar e ganhar pela água que hoje se perde”, diz.

Neste quadro, a promoção de oferta de água de reúso (a partir da “limpeza” do esgoto), para uso industrial, ainda é tímida.

Há o Aquapolo Ambiental, que custou R$ 364 milhões à Odebrecht Ambiental e abastece hoje cinco empresas do polo petroquímico do ABC, na Grande SP. Sua produção libera, por mês, 450 milhões de litros de água potável.

A longo prazo, mananciais de rios e represas, desmatados em até 70%, precisam ser reflorestados. “Recuperar 3% dessas áreas aumenta a capacidade desses reservatórios em até 50%”, diz Samuel Barreto, da ONG americana The Nature Conservancy.

FIOS E ÁRVORES

O enterramento da fiação da rede elétrica dos postes sempre foi tratado como questão estética, mas ventos de 85 quilômetros por hora que atingiram a cidade no último mês deixaram 800 mil pessoas sem luz.

“As árvores arrebentaram a fiação. Essa recomposição da rede é demorada”, explica Sidney Simonaggio, vice-presidente de operações da AES Eletropaulo.

Se a rede fosse subterrânea, nada disso teria acontecido. Fazer essa transição custa R$ 15 bilhões para o centro expandido de São Paulo, ou R$ 5,8 milhões por quilômetro quadrado.

Em 2013, estudo feito para a empresa aponta que o enterramento de fios só seria viável com rateio dos custos entre AES (cabos e material técnico), usuários (que pagariam tributos pela valorização do seu imóvel) e prefeituras, que fariam as obras de engenharia civil (com a oportunidade de padronizar o calçamento de boa parte da cidade).

Diagnósticos bancados por associações de bairros poderiam servir de base para uma operação emergencial para cortar, podar ou transplantar árvores em “risco iminente” –metade das árvores em calçadas da cidade fica em áreas nobres (e de arborização antiga), como Pinheiros, Jardins, Higienópolis, Butantã, Vila Mariana e Alto de Pinheiros.

“Ainda pagamos muitas vezes a poda por volume, o que incentiva as empresas terceirizadas a podar mais do que o necessário”, diz Marcelo Cocco, engenheiro agrônomo e arborista, da consultoria Legal Tree.

“Precisamos já de um Plano Diretor de Arborização Urbana.” Porto Alegre catalogou suas árvores, com plano de manejo, substituição de árvores de risco e produção de mudas. Seu plano de arborização é de 2000.

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