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Projeto que proíbe o uso de animais em testes de cosméticos poderá ter votação mais rápida (Agência Câmara)

JC e-mail 4881, de 27 de janeiro de 2014

O objetivo é que a matéria seja votada ainda neste ano

O autor de projeto que proíbe o uso de animais em testes de produtos cosméticos (PL 6602/13), deputado Ricardo Izar (PSD-SP), pediu ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, que seu projeto seja desvinculado (desapensado) de outro mais antigo que institui o Código Federal de Bem-Estar Animal (PL 215/07). O objetivo é que a matéria seja votada ainda neste ano.

O projeto de Izar proíbe a utilização de animais em atividades de ensino, pesquisas e testes laboratoriais com substâncias para o desenvolvimento de produtos de uso cosmético em humanos e aumenta os valores de multa nos casos de violação de seus dispositivos.

O debate sobre o uso de animais em testes e pesquisas de cosméticos ganhou força após o caso do Instituto Royal. Em outubro de 2013, 178 beagles e sete coelhos usados em pesquisas foram retirados por ativistas e moradores de São Roque, no interior paulista, de uma das sedes do instituto.

Ricardo Izar participou de Comissão Externa da Câmara para acompanhar o caso. Ele considera que o Brasil está atrasado neste aspecto. “Não só moralmente por causa do respeito aos animais, mas mercadologicamente. Hoje, as empresas que produzem cosméticos não podem exportar para a Comunidade Europeia porque lá é proibida a comercialização de produtos cosméticos que usaram animais em testes ou nos seus ingredientes. Então, mercadologicamente, nós também estamos atrasados.”

Legislação de SP
São Paulo é o primeiro estado do Brasil a adotar uma legislação que veta o uso de animais em testes laboratoriais de produtos estéticos em desenvolvimento. Testes com animais envolvendo questões de saúde ainda poderão ser feitos. A medida ainda será regulamentada, mas empresas que desobedecerem ficarão sujeitas à multa de cerca de R$ 1 milhão por animal usado em teste. O estabelecimento terá a suspensão temporária do alvará de funcionamento e, em casos de reincidência, a multa dobra e a suspensão será definitiva.

O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) ainda avalia as propostas de legislação e não adotou posição oficial. O coordenador do órgão, Mauro Granjeiro, antecipa que a proibição adotada em São Paulo pode representar risco para população por impedir uma fiscalização adequada dos órgãos de vigilância sanitária. “Ela impede completamente a realização de qualquer teste in vivo com cosméticos. Isso acaba impactando em potenciais análises dos laboratórios oficiais de toxicologia que porventura tenham necessidade de verificar a toxicidade de um produto cosmético que tenha ido ao mercado e provocado reações adversas na população. Nós não temos ainda no mundo capacidade de substituir completamente os ensaios em animais.”

Mauro Granjeiro lembra ainda que a Europa proibiu os testes em animais após mais de dez anos de adaptação dos laboratórios.

Há 21 projetos em discussão na Câmara que tratam do assunto, todos tramitando em conjunto. As propostas devem ser analisadas por uma comissão especial.
Íntegra da proposta:

(Geórgia Moraes/Agência Câmara – 24/01)

Protestos contra Copa do Mundo terminam com atos de violência (OESP)

Manifestantes ateiam fogo em carro durante protesto contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, na região central de São Paulo, neste sábado.

São Paulo, 25 jan (EFE).- Os protestos que aconteceram neste sábado em diferentes pontos do Brasil contra a organização da Copa do Mundo transcorreram em sua maioria com normalidade, embora em cidades como São Paulo tenham sido registrados vários atos de violência e destruição de patrimônio público.

No final da manifestação da capital paulista, que durante as primeiras horas aconteceu de maneira pacífica, um grupo de manifestantes quebrou vidros de várias agências bancárias e de uma concessionária, além de terem atacado um veículo da Polícia.

Na mesma avenida, um automóvel foi incendiado após ser atingido por um objeto inflamável, embora alguns dos manifestantes tenham tentado apagar as chamas.

Além dos estabelecimentos que iam fechando à passagem do protesto, um hotel no qual vários manifestantes tinham se refugiado por volta das 20h foi fechado pelas tropas de choque da Polícia Militar, que em várias ocasiões tentou dispersar os presentes com tiros para o ar e bombas de efeito moral.

Por enquanto, não há informação de feridos nem detidos.

Os protestos se repetiram em mais de uma dezena de cidades, como Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, embora em todas elas a presença de manifestantes tenha sido muito menor do que a esperada.

Na sexta-feira, mais de 40 mil pessoas confirmaram sua presença nas manifestações através das redes sociais, previstas a princípio em mais de 30 cidades, enquanto em São Paulo, onde aconteceu a mais movimentada, se concentraram ao redor de 2.500 pessoas, segundo a PM.

Em Goiânia, 200 pessoas protestaram esta manhã pelo mesmo motivo. O encontro aconteceu com tranquilidade, embora no último momento alguns encapuzados tenham queimado vários pneus.

A manifestação foi promovida por várias organizações sociais com o objetivo de criticar a despesa elevada do Governo na realização da competição, em detrimento de outros serviços como educação e saúde.

O manifesto da convocação denuncia, entre outros fatos, a despesa extra prevista da organização do Mundial e atribui o aumento do orçamento à corrupção nas instituições responsáveis pela construção dos novos estádios que estão sendo construídos para o evento esportivo.

“É um absurdo que o Brasil organize uma Copa do Mundo porque há problemas na saúde, na educação e na habitação que estão em condições péssimas”, afirmou à Agência Efe Daivis Souza, que participava do protesto de São Paulo. EFE

*   *   *

Protesto no Brasil contra a Copa deixa saldo de 143 detidos (OESP)

25.jan.2014

São Paulo, 26 jan (EFE).- Pelo menos 143 pessoas foram detidas neste sábado acusadas de participar de distúrbios ocorridos nas manifestações que aconteceram em diferentes cidades em protesto contra a organização da Copa do Mundo.

Em São Paulo, 128 pessoas foram detidas, por enquanto, após as manifestações registradas na capital paulista, e que terminaram com confrontos entre a Polícia e os manifestantes, informou a Polícia Militar (PM) através de sua conta no Twitter.

Em Fortaleza, 15 pessoas foram aprisionadas pelos protestos registrados em frente do estádio Arena das Dunas, inaugurado na quarta-feira passada pela presidente Dilma Rousseff.

Um grupo de manifestantes tentou invadir o estádio, danificou uma arquibancada de acesso ao local e ateou fogo em uma loja utilizada pelos trabalhadores da recém inaugurada obra, informou a “Folha de São Paulo”.

De acordo com as autoridades, 15 pessoas foram detidas por tal ação.

As manifestações começaram de forma pacífica na maior parte das cidades, embora tenham terminado com alguns focos de violência em algumas delas. EFE

For some in Brazil, World Cup means evictions (Washington Post)

By Donna Bowater, Published: January 25, 2014

PORTO ALEGRE, Brazil — Where there was once a soccer field in this city in southern Brazil, there is a highway.

And where there were once shanty homes, there are piles of timber, bricks and the debris of those who used to live there.

The reason is the World Cup. The mega-event that will play out this summer in a dozen Brazilian cities is driving a frenzy of road construction, airport renovations and other projects.

The impact is being felt most strongly among the poorest citizens, including residents of Porto Alegre’s largest favela, or slum, who have come to regard the soccer championship as synonymous with evictions, removals and demolition.

Activists say that as many as 250,000 people across the country are threatened with eviction — although some of those efforts have been underway for years and are likely to outlast the soccer tournament as building projects continue. Brazil is also preparing to host the Summer Olympics in 2016.

Some Brazilian officials insist that most displacements are not linked to World Cup preparations. Independent researchers say they have to rely on witness reports. But residents of the Santa Teresa neighborhood here, as well those in other poor areas, say there is no doubt that evictions are underway, as they lose neighbors and open space.

“It breaks a cycle of friendship, a cycle of custom,” said 42-year-old Antonio Daniel Knevitz de Oliveira, who lives deep in the heart of Santa Teresa, where he grew up.

“Brazil is by far and away the champion of forced removals,” said Christopher Gaffney, a visiting geography professor at the Fluminense Federal University in Rio de Janeiro. “This is clearly the most impactful World Cup ever, with a lot of ambitious projects.”

In some of the affected cities, the World Cup and the Olympics are the latest justifications used by authorities to clear favelas.

Characterized as “irregular” settlements where many do not have deeds to their properties, there have been long-standing attempts to reclaim the slums where more than 11 million Brazilians live.

The added pressure of hosting the two biggest sporting events in the world has given authorities additional incentive to act.

The scale of displacements in Rio de Janeiro prompted Amnesty International to launch a campaign, Enough Forced Evictions, after it found evidence of housing rights violations in the city. A network of Brazilian activists, the National Coalition of People’s World Cup Committees, sought to sound the alarm last year in a report to a U.N. human rights panel.

That group said as many as 32,000 people in Porto Alegre could be at risk of eviction because of World Cup projects, with more than 1,500 families affected by the road-widening project.

Porto Alegre is Brazil’s 10th-largest city, with a sizable population of European immigrants and a rapid rate of economic growth. About 13 percent of residents live in favelas, including those in Santa Teresa who were evicted so that a nearby road could be widened to improve traffic flow around the soccer stadium.

Residents say the loss of the soccer field meant children were playing barefoot pickup games deep inside the favela, where violent drug traffickers rule.

The government is compensating families forced to move, but the resettlement packages of $22,000 are described by activists as inadequate in a country where real estate prices have been soaring.

For Knevitz, who has three jobs and three children, the upheaval has compounded a sense of uncertainty about his family’s future.

“I don’t want to run the risk of seeing another World Cup or big event and the authorities saying, ‘You’ll be removed,’­ ” he said.

Direitos Humanos: ainda a passos lentos no Brasil (Revista Fórum)

22/1/2014 – 11h45

por Redação da Revista Fórum

Policia protesto 300x199 Direitos Humanos: ainda a passos lentos no Brasil

Manifestações de junho de 2013 e repressão policial foram mencionadas no documento. Foto: Mídia Ninja

Má conduta policial, execuções, torturas, superlotação carcerária e impunidade são os “destaques” brasileiros no Relatório Mundial da Human Rights Watch de 2014

“O Brasil está entre as democracias mais influentes em assuntos regionais e globais. Nos últimos anos, tornou-se uma voz cada vez mais importante em debates sobre as respostas internacionais a problemas de direitos humanos. No plano doméstico, entretanto, o país continua enfrentando graves desafios relacionados aos direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais cometidas por policiais, tortura, superlotação das prisões e impunidade para os abusos cometidos durante o regime militar”

É assim que a ONG Human Rights Watch (HRW), inicia o seu relatório de 2014 sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, divulgado nessa terça-feira (21/01) em 14 cidades ao redor do mundo sobre mais de 90 países. Como não podia deixar de ser, um dos principais tópicos no contexto brasileiro foram a atuação policial frente às manifestações populares de 2013, a questão carcerária no país – apesar de a barbárie no Maranhão ainda não ter sido divulgada à época da conclusão do documento – e denúncias de tortura.

O relatório diz: “Dezenas de jornalistas que cobriram as manifestações de junho foram feridos ou detidos pela polícia. Durante um protesto em São Paulo em 13 de junho, uma repórter e um fotógrafo foram atingidos nos olhos por balas de borracha e ficaram gravemente feridos”. Segundo Maria Laura Canineu, diretora da ONG para o país, “ficou ainda mais claro o mau preparo da polícia para lidar com multidões. Durante os protestos, pudemos ver que o padrão de conduta dos policiais não mudou e, em muitos casos, usaram a força de forma desproporcional contra os manifestantes”. A diretora também citou a morte de Amarildo – preso, torturado e executado – dando outro exemplo da violência policial que teve como resultado a denúncia de 25 policiais pela tortura e, 17 deles, pelo crime de ocultação do cadáver.

A questão da tortura também foi abordada no tópico sobre a situação carcerária no Brasil. De acordo com a ONG, a Subcomissão das Nações Unidas para a Prevenção de Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos e Degradantes informou ter recebido relatos “repetidos e consistentes” de presos sobre espancamentos e outros maus-tratos durante a custódia policial, sendo o caso mais notório o espancamento, sufocamento e aplicação de choques elétricos a quatro homens para forçá-los a confessar o estupro e assassinato de uma menina de 14 anos em julho de 2013.

Outro caso presente no relatório foram os agentes da Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) espancando seis adolescentes, na Vila Maria, em São Paulo. O crime só veio a público graças às gravações das câmeras de segurança do complexo prisional. Em conversa com nossa redação, Julio Cesar Fernandes Neves, ouvidor chefe da Polícia Militar do Estado de São Paulo, confirmou ter lido o relatório da HRW: “Vamos apurar as denúncias de tortura na PM onde elas acontecerem, não importa. Nem em guerras se tolera a tortura”.

Outros temas destacados pelo relatório foram a violência contra mulheres, LGBTs (3 mil denúncias de violência em 2012) e contra ativistas do campo e indígenas, com 37 membros de tribos indígenas mortos no Mato Grosso do Sul – também em 2012 – e quase 2,5 mil ativistas rurais ameaçados de morte durante a última década.

No âmbito da política externa, a diretora da ONG diz: “O Brasil falhou, por exemplo, ao se omitir na votação da ONU sobre a guerra na Síria. Quando o Brasil fala, como no caso da invasão de privacidade, dá repercussão. Mas quando o Brasil se omite, isso também causa uma reação, e ela é bastante negativa para o país no cenário mundial.”

Apesar de elogiar a postura brasileira na questão da violação de privacidade e espionagem internacional dos EUA, o tímido avanço na área de segurança pública desde o último relatório mostra que o Brasil ainda tem muito a fazer.

* Publicado originalmente no site Revista Fórum.

O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade? (Portal Aprendiz)

22/1/2014 – 11h31

por Danilo Mekari e Pedro Ribeiro Nogueira, do Portal Aprendiz

Antes relegados à lugares invisíveis da cidade, onde não reuniam tanta gente e nem chamavam tanta atenção, os encontros de jovens da periferia de São Paulo tomaram outras proporções a partir do dia 7/12 do ano passado, quando ocorreu o primeiro rolezinho – encontro marcado via redes sociais – no Shopping Metrô Itaquera. Ao mesmo tempo, tramitava um projeto de lei que coibia os bailes funks de acontecerem nas ruas, posteriormente vetado pelo prefeito Fernando Haddad (PT).

Para quem participa está claro o motivo da reunião: se divertir, escutar música, fazer amizades e até mesmo paquerar – tudo isso dentro dos templos do consumo que esses mesmos jovens são tentados a fazer parte diariamente, através da publicidade intensa e da ostentação de outras classes mais abastadas.

Para os reais consumidores dos shoppings, porém, esses encontros são uma ameaça à tranquilidade com que fazem suas compras e, mais, devem ser devidamente contidos pelas forças de segurança e proibidos pela Justiça.

foto1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?

O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade? | Envolverde

Os rolezinhos, porém, não pararam de crescer. Se antes eram restritos à capital paulista, agora se espalham por vários estados. E, se antes também se restringiam a um encontro de jovens das camadas mais populares, hoje há rolês organizados por jovens de classe média, universitários e movimentos sociais que apoiam o direito de ir e vir desses adolescentes.

Também se tornaram pauta prioritária na agenda do governo federal, por receio de se tornarem o estopim de novas manifestações, inclusive com a participação de black blocs.

Instigado por esse debate e em busca de sentidos para esse fenômeno, o Portal Aprendiz perguntou para Leonardo Sakamoto, Ermínia Maricato, Douglas Belchior, Alexandre Barbosa Pereira e Pablo Ortellado o que os rolezinhos nos dizem sobre a segregação e o direito à cidade.

Confira as respostas!

sakamoto1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Leonardo Sakamoto – jornalista e doutor em Ciência Política, autor do Blog do Sakamoto

“A maior parte da molecada que vai aos rolezinhos não quer fazer nenhum protesto e sim curtir e ser curtido. Não são politizados, como também não era a maioria dos que foram às ruas nas jornadas de junho. Mas o cutucão, se não é o objetivo, acaba sendo o efeito colateral, pois a presença deles naquele espaço provoca uma reação violenta. Daí, há dois caminhos para analisar os rolês: quem são e o que querem esses jovens e o porquê da reação de determinados grupos sociais, sejam eles do centro ou da própria periferia.

Shoppings são bolhas, oferecem a garantia de que nada vai acontecer com você se estiver lá dentro comprando. Da mesma forma que cercas eletrificadas mentem sobre a proteção de casas, que carros blindados mentem sobre a proteção de famílias, que a presença de uma arma de fogo mente quando promete afastar qualquer risco real.

Quando centenas de “intrusos” ameaçam invadir essa realidade virtual, querendo fazer parte dela, seus usuários sentem que ela se desligou de repente e entram em pânico. Porque esse grupo de garotos e garotas talvez não entenda, mas é exatamente deles que parte do povo que se refugia em shoppings quer fugir. Fisicamente. Simbolicamente.”

erminia1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Ermínia Maricato – professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP

“Nas relações sociais, no Brasil, existe uma profunda distância entre discurso e prática ou entre o texto da lei e sua aplicação. Em consequência, grande parte da sociedade permanece sem direitos previstos na legislação. São ignorados, segregados e invisíveis apesar das dimensões dessa exclusão. Como essa espécie de apartheid não é clara e assumida, vive-se uma contradição, um faz de conta. Faz de conta que isso é uma democracia, faz de conta que a lei se aplica a todos da mesma forma, faz de conta que todos têm direitos iguais, como é o caso do direito à cidade.

O que a prática dos rolezinhos tem de notável, fantástico, extraordinário mesmo, é o desnudamento dessa contradição. Quando os exilados urbanos decidem andar pela cidade, esse apartheid explode na cara da sociedade ainda que não seja essa a intenção da maior parte da moçada. Essa atitude questiona, profundamente, a sociedade que aprendeu a ser cínica (especialmente o “partido da mídia”) para esconder a incrível desigualdade de um país que não é pobre mas tem um povo pobre.”

odug1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Douglas Belchior – professor de História e integrante da UneAfro Brasil, autor do blog Negro Belchior

“Por parte dos shoppings vemos temos uma contradição, já que se espalharam pelas periferias justamente atrás do poder aquisitivo desse público que eles agora recusam.

A medida em que o mundo, através de seus valores, convence a população de que para “ser” é preciso “ter”, de que “viver” é não apenas “consumir” mas também “ostentar”… e ao mesmo tempo não proporciona espaços de convivência, de lazer e educação que provoquem o interesse da juventude, os shoppings passam a ser a grande opção.

Criminalizado como um dia fora a capoeira, o futebol, o samba e o rap, o funk moderno é tão contraditório em seu conteúdo quanto o é a resistência em sua forma e estética e nesse momento está servindo também para fazer aflorar o racismo enraizado na alma das elites hipócritas – muito mais vinculadas aos valores da luxúria e ostentação que a turma do funk.

Os meninos e meninas do funk hoje afrontam os cara-pálidas com sua presença física, com o tom de sua pele, com sua roupa, com seu som. Tudo isso, intencional ou não, é profundamente político e contestador por sua própria natureza.”

pablo1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Pablo Ortellado – professor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH) e autor do livro “20 Centavos: A Luta Contra o Aumento” (Ed. Veneta)

“Ainda permanece um pouco obscuro os motivos que levaram os jovens da periferia a marcar encontros coletivos nos shoppings da cidade – queriam mesmo só se divertir ou estariam também desafiando as barreiras econômicas e raciais que dividem os que têm dos que não têm? Seja como for, a resposta dura e anticidadã dos shopping centers e da Justiça conferiu um caráter social e político ao fenômeno.

E é nessa resposta jurídica que busca garantir aos shoppings o direito de escolher quem pode frequentá-los que se formalizou e se evidenciou a segregação espacial implícita que rege a nossa sociedade. Seja qual for a motivação, a repercussão colocou em discussão a vergonhosa separação espacial que segrega os ricos dos pobres e os brancos dos negros.”

alexandre1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Alexandre Barbosa Pereira – pesquisador do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana (LabNAU) da USP e autor da tese “A maior zoeira: experiências juvenis na periferia de São Paulo”

“Os rolezinhos demonstram a necessidade de lutarmos por espaços, físicos, sociais e subjetivos, de representação, expressão e reconhecimento para todos. O principal recado que os jovens dos rolezinhos nos dão é o de que querem o direito a se divertir na cidade.”

* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.

Violence, Infectious Disease and Climate Change Contributed to Indus Civilization Collapse (Science Daily)

Jan. 16, 2014 — A new study on the human skeletal remains from the ancient Indus city of Harappa provides evidence that inter-personal violence and infectious diseases played a role in the demise of the Indus, or Harappan Civilization around 4,000 years ago.

Evidence for maxillary infection in individual G.I.S.15. The lesions included porosity, alveolar resorption, abscessing at the right canine and third premolar, and antemortem tooth loss (a = right ventral view). This individual also had inflammatory changes to the palatine process of the maxilla leading to localized bone destruction and perforation (b = inferior view of palate). There is evidence for porosity and inflammation at the inferior margin of the pyriform aperture, porosity and deformation of the infraorbital foramen caused by infection of the left maxillary sinus (c: ventral view). (Credit: Gwen Robbins Schug, K. Elaine Blevins, Brett Cox, Kelsey Gray, V. Mushrif-Tripathy. Infection, Disease, and Biosocial Processes at the End of the Indus Civilization. PLoS ONE, 2013; 8 (12): e84814 DOI: 10.1371/journal.pone.0084814)

The Indus Civilization stretched over a million square kilometers of what is now Pakistan and India in the Third Millennium B.C. While contemporaneous civilizations in Egypt and Mesopotomia, are well-known, their Indus trading partners have remained more of a mystery.

Archaeological research has demonstrated that Indus cities grew rapidly from 2200-1900 B.C., when they were largely abandoned. “The collapse of the Indus Civilization and the reorganization of its human population has been controversial for a long time,” lead author of the paper published last month in the journal PLOS ONE, Gwen Robbins Schug, explained. Robbins Schug is an associate professor of anthropology at Appalachian State University.

Climate, economic, and social changes all played a role in the process of urbanization and collapse, but little was known about how these changes affected the human population.

Robbins Schug and an international team of researchers examined evidence for trauma and infectious disease in the human skeletal remains from three burial areas at Harappa, one of the largest cities in the Indus Civilization. The results of their analysis counter longstanding claims that the Indus civilization developed as a peaceful, cooperative, and egalitarian state-level society, without social differentiation, hierarchy, or differences in access to basic resources.

The data suggest instead that some communities at Harappa faced more significant impacts than others from climate and socio-economic strains, particularly the socially disadvantaged or marginalized communities who are most vulnerable to violence and disease. This pattern is expected in strongly socially differentiated, hierarchical but weakly controlled societies facing resource stress.

Robbins Schug’s and colleagues’ findings add to the growing body of research about the character of Indus society and the nature of its collapse.

“Early research had proposed that ecological factors were the cause of the demise, but there wasn’t much paleo-environmental evidence to confirm those theories,” Robbins Schug said. “In the past few decades, there have been refinements to the available techniques for reconstructing paleo-environments and burgeoning interest in this field.”

When paleoclimate, archaeology, and human skeletal biology approaches are combined, scientists can glean important insights from the past, addressing long-standing and socially relevant questions.

“Rapid climate change events have wide-ranging impacts on human communities,” Robbins Schug said. “Scientists cannot make assumptions that climate changes will always equate to violence and disease. However, in this case, it appears that the rapid urbanization process in Indus cities, and the increasingly large amount of culture contact, brought new challenges to the human population. Infectious diseases like leprosy and tuberculosis were probably transmitted across an interaction sphere that spanned Middle and South Asia.”

Robbins Schug’s research shows that leprosy appeared at Harappa during the urban phase of the Indus Civilization, and its prevalence significantly increased through time. New diseases, such as tuberculosis, also appear in the Late Harappan or post-urban phase burials. Violent injury such as cranial trauma also increases through time, a finding that is remarkable, she said, given that evidence for violence is very rare in prehistoric South Asian sites generally.

“As the environment changed, the exchange network became increasingly incoherent. When you combine that with social changes and this particular cultural context, it all worked together to create a situation that became untenable,” she said.

The results of the study are striking, according to Robbins Schug, because violence and disease increased through time, with the highest rates found as the human population was abandoning the cities. However, an even more interesting result is that individuals who were excluded from the city’s formal cemeteries had the highest rates of violence and disease. In a small ossuary southeast of the city, men, women, and children were interred in a small pit. The rate of violence in this sample was 50 percent for the 10 crania preserved, and more than 20 percent of these individuals demonstrated evidence of infection with leprosy.

Robbins Schug said lessons from the Indus Civilization are applicable to modern societies.

“Human populations in semi-arid regions of the world, including South Asia, currently face disproportionate impacts from global climate change,” the researchers wrote. “The evidence from Harappa offers insights into how social and biological challenges impacted past societies facing rapid population growth, climate change and environmental degradation. Unfortunately, in this case, increasing levels of violence and disease accompanied massive levels of migration and resource stress and disproportionate impacts were felt by the most vulnerable members of society.”

Journal Reference:

  1. Gwen Robbins Schug, K. Elaine Blevins, Brett Cox, Kelsey Gray, V. Mushrif-Tripathy. Infection, Disease, and Biosocial Processes at the End of the Indus Civilization.PLoS ONE, 2013; 8 (12): e84814 DOI:10.1371/journal.pone.0084814

Torcida organizada do Fluminense faz festa de aniversário dentro da sede do clube, em Laranjeiras (ESPN)

Por Thales Machado, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.COM.BR

Reprodução

Fluminense Torcida Young Flu Festa Sede do Clube Laranjeiras

Torcida organizada do Fluminense, a “Young Flu” fez sua festa de aniversário na sede do clube, em Laranjeiras

O elenco do Fluminense faz a pré-temporada na cidade de Mangaratiba, 85km distante do Rio de Janeiro. A sede social tricolor, no entanto, ficou agitada no último domingo. Em uma época na qual as relações entre agremiações e torcidas organizadas estão em pauta, a sede do clube tricolor, em Laranjeiras, recebeu uma grande festa de comemoração dos 43 anos da “Young Flu”, maior torcida organizada do time.

Se a torcida organizada pode frequentar o mesmo local onde os jogadores treinam, dirigentes administram e sócios frequentam o clube, o mesmo não se pode dizer dos estádios. A torcida “Young Flu” está, desde o fim de outubro do ano passado, suspensa dos estádios onde o Fluminense jogar, por um prazo de seis meses.

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Fluminense Torcida Young Flu Festa Sede do Clube Laranjeiras Torcedores Portão da Sede
Torcedores da “Young Flu” posam para foto em frente à sede do clube, onde a organizada fez sua festa
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Fluminense Torcedor Posta Foto Campo Laranjeiras Festa Young Flu

Torcedores postaram foto pisando no campo de treino

A decisão foi do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e ocorreu após ação violenta de um grupo de 30 integrantes da mesma depois da partida entre o Fluminense e o Vitória, pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã. A assessoria de imprensa do TJ confirma que a suspensão continua em 2014.

Com entradas cobradas a R$ 30 para homens e R$ 10 para mulheres, a festa ocupou uma das quadras da sede social, que foi decorada com bandeiras da facção. Na Rua Pinheiro Machado, em frente ao clube, ônibus de diversas cidades do Rio e de fora do estado desembarcavam membros da torcida. A entrada era controlada por seguranças do Fluminense Football Club.

“O espaço foi cedido para sócios do Fluminense, que fazem parte da torcida em questão. Os mesmos solicitaram espaço no clube para a realização de uma festa na qualidade de sócios. Todos os associados do clube possuem esse direito. Os convites para o evento não foram vendidos no Fluminense e qualquer pessoa que venha realizar uma festa no clube tem direito de cobrar a entrada, o mesmo valeria para a realização de uma festa de aniversário, onde o aniversariante pede a contribuição de seus convidados, por exemplo”, esclareceu em nota a assessoria de imprensa do Fluminense.

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Fluminense Torcedora Posta Foto Campo Laranjeiras Festa Young Flu

Fluminense diz que torcedores foram ‘repreendidos’ pelas fotos

No cartaz da foto, no entanto, é possível observar que a festa é claramente da organizada, não aparecendo nome de nenhum sócio. Para adentrar a festa, era obrigatório o uso de uma camisa especial da Young Flu, confeccionada para a festa.

Algumas fotos mostram que a festa se estendeu em outras partes do clube, incluindo o campo de treinamento, alvo de constantes reclamações de atletas e treinadores. No sábado, o clube divulgou imagens do tratamento que o campo vem recebendo, parecido com o do Maracanã. No dia seguinte, imagens de alguns torcedores que foram na festa posando no gramado podiam ser encontradas publicamente em redes sociais. Informado pela reportagem, o clube diz que os torcedores foram repreendidos pela administração logo que tiraram as fotos à beira do campo.

Prática não é comum em outros clubes do Rio

Reprodução

Fluminense Torcida Young Flu Cartaz Festa Sede do Clube Laranjeiras

Cartaz da festa da “Young Flu”, feita na sede do Flu

As conturbadas relações entre clubes e torcidas fazem parte da história recente do futebol no Rio de Janeiro. O próprio Fluminense já se envolveu em polêmicas com ingressos sendo distribuídos a facções. Os rivais, Vasco, Fluminense e Botafogo, já tiveram problemas diversos, envolvendo até violência e ameaça a jogadores.

Tradicionais entre as torcidas, as festas de aniversário não costumam acontecer nas dependências dos clubes, como no caso da agremiação tricolor agora. A Força Jovem Vascaína, por exemplo, maior torcida do Vasco, comemorou seus 42 anos na quadra da Unidos da Tijuca, escola de samba importante da cidade. A Fúria Jovem do Botafogo costumava comemorar seu aniversário na Kabanna Catonho, uma casa de shows. O local foi interditado por falta de segurança, e ano passado a torcida mudou a festa para outro local na Penha, Zona Norte do Rio. A exceção é a torcida “Botachopp”, do Botafogo, que comemorou 11 anos de existência em uma festa no ano passado, no interditado Engenhão.

“Isso só ocorre com a Botachopp porque é uma torcida bem mais família. São senhoras, senhores, gente de paz, tem até a ´BotaSuco´, que é para confraternizar as crianças. A torcida nunca se envolveu em briga, ou foi suspensa, nem teve ninguém preso. Duvido muito que a diretoria liberaria o Engenhão ou General Severiano se fosse a Fúria ou a TJB, que são mais perigosas”, afirmou Rafael Oliveira, integrante da torcida desde 2006.

Duas maiores organizadas do Flamengo, “Jovem Fla” e “Raça Rubro Negra” também não usam a Gávea ou qualquer outra dependência do clube para qualquer evento festivo, usando, em maioria, casas de shows para isso.

Reprodução

Torcida Fúria Jovem Botafogo

Comunicado da “Fúria Jovem”, do Botafogo, sobre mudança do local de sua festa 

Rolezinhos: O que estes jovens estão “roubando” da classe média brasileira – por Eliane Brum (Época)

Publicado em Quarta, 25 Dezembro 2013

Os novos “vândalos” do Brasil

O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, “roubando” da classe média brasileira?

eliane brum

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram “convidados” a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum “tumulto”, mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás.

Se não há crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo está sendo criminalizada?

Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou “nova classe média”, parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca.

Antes, em 7 de dezembro, cerca de 6 mil jovens haviam ocupado o estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, e também foram reprimidos. Vários rolezinhos foram marcados pelas redes sociais em diferentes shoppings da região metropolitana de São Paulo até o final de janeiro, mas, com medo da repressão, muitos têm sido cancelados. Seus organizadores, jovens que trabalham em serviços como o de office-boy e ajudante geral, temem perder o emprego ao serem detidos pela polícia por estarem onde supostamente não deveriam estar – numa lei não escrita, mas sempre cumprida no Brasil. Seguranças dos shoppings foram orientados a monitorar qualquer jovem “suspeito” que esteja diante de uma vitrine, mesmo que sozinho, desejando óculos da Oakley ou tênis Mizuno, dois dos ícones dos funkeiros da ostentação. Às vésperas do Natal, o Brasil mostra a face deformada do seu racismo. E precisa encará-la, porque racismo, sim, é crime.

“Eita porra, que cheiro de maconha” foi o refrão cantado pelos jovens ao entrarem no Shopping Internacional de Guarulhos. O funk é de MC Daleste, que afirma no nome artístico a região onde nasceu e se criou, a zona leste, a mais pobre de São Paulo, aquela que todo o verão naufraga com as chuvas, por obras que os sucessivos governos sempre adiam, esmagando sonhos, soterrando casas, matando adultos e crianças. Daleste morreu assassinado em julho com um tiro no peito durante um show em Campinas – e assassinato é a primeira causa de morte dos jovens negros e pobres no Brasil, como os que ocuparam o Shopping Internacional de Guarulhos.

A polícia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu. Uma das frequentadores do shopping disse a frase-símbolo à repórter Laura Capriglione, na Folha de S. Paulo: “Tem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este”. Nos dias que se seguiram, em diferentes sites de imprensa, leitores assim definiram os “rolezeiros” (veja entrevista abaixo): “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Negros emerge aqui como palavra de ofensa.

As novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de riqueza. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem neste mundo.”

O funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá. Em seus clipes, os MCs aparecem com correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, em carros caros, cercado por mulheres com muita bunda e pouca roupa. (Para conhecer o funk da ostentação, assista ao documentárioaqui). Diferentemente do núcleo duro do hip hop paulista dos ano 80 e 90, que negava o sistema, e também do movimento de literatura periférica e marginal que, no início dos anos 2000, defendia que, se é para consumir, que se compre as marcas produzidas pela periferia, para a periferia, o funk da ostentação coloca os jovens, ainda que para a maioria só pelo imaginário, em cenários até então reservados para a juventude branca das classes média e alta. Esta, talvez, seja a sua transgressão. Em seus clipes, os MCs têm vida de rico, com todos os signos dos ricos. Graças ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.

Esta exaltação do luxo e do consumo, interpretada como adesão ao sistema, tornou o funk da ostentação desconfortável para uma parcela dos intelectuais brasileiros e mesmo para parte das lideranças culturais das periferias de São Paulo. Agora, os rolezinhos – e a repressão que se seguiu a eles – deram a esta vertente do funk uma marca de insurgência, celebrada nos últimos dias por vozes da esquerda. Ao ocupar os shoppings, a juventude pobre e negra das periferias não estava apenas se apropriando dos valores simbólicos, como já fazia pelas letras do funk da ostentação, mas também dos espaços físicos, o que marca uma diferença. E, para alguns setores da sociedade, adiciona um conteúdo perigoso àquele que já foi chamado de “funk do bem”.

A resposta violenta da administração dos shoppings, das autoridades públicas, da clientela e de parte da mídia demonstra que esses atores decodificaram a entrada da juventude das periferias nos shoppings como uma violência. Mas a violência era justamente o fato de não estarem lá para roubar, o único lugar em que se acostumaram a enxergar jovens negros e pobres. Então, como encaixá-los, em que lugar colocá-los? Preferiram concluir que havia a intenção de furtar e destruir, o que era mais fácil de aceitar do que admitir que apenas queriam se divertir nos mesmos lugares da classe média, desejando os mesmo objetos de consumo que ela. Levaram uma parte dos rolezeiros para a delegacia. Ainda que tivessem de soltá-los logo depois, porque nada de fato havia para mantê-los ali, o ato já estigmatizou-os e assinalará suas vidas, como historicamente se fez com os negros e pobres no Brasil.

Jefferson Luís, 20 anos, organizador do rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos, foi detido, é alvo de inquérito policial, sua mãe chorou e ele acabou cancelando outro rolezinho já marcado por medo de ser ainda mais massacrado. Ajudante geral de uma empresa, economizou um mês de salário para comprar a corrente dourada que ostenta no pescoço. Jefferson disse ao jornal O Globo: “Não seria um protesto, seria uma resposta à opressão. Não dá para ficar em casa trancado”.

Por esta subversão, ele não será perdoado. Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir – e nos shoppings? Mais uma frase de Jefferson Luiz: “Se eu tivesse um quarto só pra mim hoje já seria uma ostentação”. Ele divide um cômodo na periferia de Guarulhos com oito pessoas.

Neste Natal, os funkeiros da ostentação parecem ter virado os novos “vândalos”, como são chamados todos os manifestantes que, nos protestos, não se comportam dentro da etiqueta estabelecida pelas autoridades instituídas e por parte da mídia. Nas primeiras notícias da imprensa, o rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos foi tachado de “arrastão”. Mas não havia arrastão nenhum. O antropólogo Alexandre Barbosa Pereira faz uma provocação precisa: “Se fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe média, como aconteceu várias vezes, seria interpretado como um flash mob?”.

A ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.”

Por que os administradores dos shoppings, polícia, parte da mídia e clientela só conseguem enquadrar um grupo de jovens negros e pobres dentro de um shopping como “arrastão”? Há várias respostas possíveis. Pereira propõe uma bastante aguda: “Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem?”. Seria este o “roubo” imperdoável, que colocou as forças de repressão na porta dos shoppings, para impedir a entrada de garotos desarmados que queriam zoar, dar uns beijos e cobiçar seus objetos de desejo nas vitrines?

Para nos ajudar a pensar sobre os significados do rolezinho e do funk da ostentação, entrevisto Alexandre Barbosa Pereira nesta coluna. Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele dedica-se a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas. Em seu mestrado, percorreu o mundo da pichação. No doutorado, mergulhou nas escolas públicas para compreender o que é “zoar”. Desde 2012, pesquisa o funk da ostentação. Mesmo que os rolezinhos, pela força da repressão, se encerrem neste Natal, há muito que precisamos compreender sobre o que dizem seus protagonistas – e sobre o que a reação violenta contra eles diz da sociedade brasileira

– O rolezinho aparece ligado ao funk da ostentação. Em que medida há, de fato, essa ligação?

Alexandre Barbosa Pereira – O funk ostentação é uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Região Metropolitana de São Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte temática: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. Não se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente começaram a produzir videoclipes inspirados na estética dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento é a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, até então, era principalmente a criminalidade para o consumo. As músicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao invés de cantarem: “Rouba moto, rouba carro, bandido não anda à pé” (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostentação cantam: “Vida é ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, vários investimentos. Ah como é bom ser o top do momento” (MC Danado). Deste modo, os MCs começaram a ter mais espaços para cantar em casas noturnas e passaram a produzir videoclipes cada vez mais elaborados, com mais de 20 milhões de acessos no YouTube, o que levou a um sucesso às margens da mídia tradicional. Alguns MCs chegaram a alcançar grande repercussão entre um segmento do público jovem, sem nunca ter aparecido na televisão. Vi meninas chorando por MCs em bailes, mesmo antes de o funk ostentação alcançar o destaque que conseguiu na grande mídia. Surgiram empresas especializadas na produção de clipes no estilo ostentação, como a Kondzilla e a Funk TV, claramente inspirados no gangsta rap, em que os jovens aparecem em carrões e motos, exibindo-se com roupas, dinheiro e mulheres. Uma reflexão interessante a se fazer é como a mídia tradicional, que antes execrava o chamado funk proibidão, que falava de crime, drogas e sexo abertamente, agora começa a elogiar o funk ostentação, denominando-o até como “funk do bem” e ressaltando a trajetória econômica e social ascendente dos MCs.

Pergunta. Fazendo um parêntese aqui, antes de chegar ao rolezinho, qual é o caminho para um jovem pobre ter acesso ao consumo de luxo, segundo o olhar do funk da ostentação? Esta virada que você mencionou…

Resposta. Primeiro que esse bem de luxo não é tão de luxo assim, afinal uma garrafa de uísque a 60 ou 80 Reais não é nenhum absurdo. É sempre possível comprar uma réplica daqueles óculos escuros que custam mais de mil reais. Nas casas noturnas de funk que observei, este era o preço. Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. Não sai tão caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim estão fora do alcance da maioria desses jovens. Mas aí há uma explicação interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem como um mundo de “riqueza” ou de “luxo”, com carros, mansões, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prestígio, daí a grande identificação. O crime pode ser um caminho para acessar esse mundo de luxo ou o que esses jovens entendem por um mundo de luxo, mas não é único. Esta é a lição que muitos MCs de funk têm tentando passar em suas falas na grande mídia. Eles de certa forma mostram um outro caminho, que, aliás, sempre esteve presente para esses jovens da periferia: tornar-se famoso pela música ou pelo futebol. Aliás, esses são caminhos que aparecem como os mais possíveis para os jovens negros e pobres das periferias do país imaginarem um futuro de sucesso. Num mundo em que há uma forte divisão entre trabalho intelectual e manual, com a extrema valorização do primeiro, o uso do corpo em formas lúdicas como meio de ganhar dinheiro mostra-se como opção para uma transformação da vida. “Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso aí”, esse é o Negro Drama cantado pelos Racionais MC’s. Os MCs de funk ostentação estão tentando dizer que é possível construir uma vida de sucesso pela música. E o que era ficção, os videoclipes com carros importados emprestados ou alugados, com dinheiro cenográfico jogado para o ar, começa a tornar-se realidade. Muitos deles começam a ganhar uma quantidade razoável de dinheiro com os shows. Acho que a ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.

Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”

Por outro lado, é preciso destacar que masculinidades pautadas pelo desejo de possuir um automóvel ou uma motocicleta não foram construídas pelo funk ostentação. Já existia há um tempo. Para os meninos da periferia, possuir um bom carro, bonito e potente, é uma das metas principais de vida. A posse do carro é, no imaginário desses jovens, mas também da população em geral, um indicativo de sucesso econômico e social, garantindo, consequentemente, sucesso com as mulheres.

Neste caldo cultural, o consumo é cada vez mais exaltado como espaço de afirmação e de reconhecimento para os jovens. É, inclusive, bastante complexa a forma como se dá a relação entre criminalidade e consumo no funk. Na virada que produziram, parece que há o recado de que essas duas ações sociais podem constituir dois lados de uma mesma moeda. Eles não deixam de falar do crime. Acabam citando-o indiretamente, como nas músicas do MC Rodofilho, nas quais ele celebra: “Ai meu deus, como é bom ser vida loka!”. O importante é entender como o crime e o consumo são pautas constantes nas relações de sociabilidade dos jovens da periferia. Os mais pobres também querem que ipads, iphones e automóveis potentes façam parte de seu mundo social. Ainda preciso observar e refletir mais sobre isso, mas acho que tanto no caso do crime, como no do consumo temos que atentar mais para o modo como se dão as relações entre pessoas e coisas. Fico pensando que a busca de realização apenas pelo consumo envolve sentimentos e posturas extremas de um egoísmo hedonista e de um profundo desprezo pelos outros humanos. As mercadorias, ou as coisas almejadas, de certa forma têm conformado as subjetividades contemporâneas. E nessas novas subjetividades, pautadas pelo instantâneo e o instável, parece não haver muito espaço para a solidariedade. Há uma nova tendência na discussão antropológica afirmando que não podemos entender as coisas apenas como representação ou resultado do social. Precisamos pensar também em como as coisas fazem as pessoas e mesmo o social, como as coisas, ou as mercadorias mais desejadas hoje, motivam tanto um consumismo desenfreado, irracional e egoísta, quanto o ingresso de jovens na criminalidade. Sempre fico espantado quando vejo as imagens, em outros países, das pessoas correndo desesperadas para comprar um novo lançamento de smartphone, videogame ou tablet… Mas não só isso, tais coisas também motivam e determinam formas de estar, pensar, relacionar-se e sentir no mundo contemporâneo.

Penso muito nisso quando parte da classe média critica o consumo desses jovens, dizendo que apenas eles – da classe média que, supostamente, pagaria os impostos – têm direito a consumir, ou se relacionar com certos produtos. Será que, desse modo, a classe média entende que os jovens estão roubando o direito exclusivo de eles consumirem ou de se relacionarem com esses objetos de prestígio? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo?

Essa crítica pode vir inclusive de certa classe média mais intelectualizada e mesmo com ideias políticas progressistas, mas que acha que sabe o que é melhor para os pobres. Aí fazem a crítica, a partir dos seus ipads e iphones, ao que entendem como um consumo irracional dos mais pobres, que deveriam poupar ao invés de gastar com produtos que não seriam para o nível econômico deles. Enfim, tem aí um jogo de perde e ganha e também de busca de satisfações individuais que envolve o roubo do direito de alguns ao consumo, que é preciso aprofundar para entendermos melhor essas dinâmicas contemporâneas. Todos têm o direito a consumir o que quiserem hoje? E seria viável, hoje, todos consumirem em um alto padrão? Que implicações ambientais teríamos? E se não é sustentável ou viável que todos consumam em tamanha intensidade, por que incentivamos tal consumismo? Com isso, o que quero dizer é que não se pode pensar a relação entre crime e consumo apenas entre os pobres, mas creio que precisamos também olhar para as classes médias e altas e para os crimes que, historicamente, têm sido cometidos contra os mais pobres e o meio ambiente para proteger o consumo dos ricos.

P. É neste ponto que os rolezinhos aparecem e criam uma tensão das mais reveladoras neste Natal?

R. Os rolezinhos nos shoppings estão ligados diretamente a esse contexto. Não sei dizer como surgiram efetivamente, mas me parece que despontaram por essas novas associações que as redes sociais permitem fazer, de forma que uma brincadeira possa virar algo sério. De repente, uma convocatória feita na internet pode levar centenas de jovens a se encontrarem num shopping, local onde podem ter acesso a esses bens cantados nas músicas, ainda que apenas por acesso visual. Agora, o que é importante ressaltar é que não foram os rolezinhos nem o funk ostentação que criaram essa relação de fascinação com consumo. Esta já existia há muito tempo. Os Racionais, há mais de dez anos, já cantavam sobre isso, com afirmações como: “Você disse que era bom e a favela ouviu, lá também tem uísque, red bull, tênis nike e fuzil” ou “Fartura alegra o sofredor”

É importante perceber que os shoppings onde os rolezinhos ocorreram estão em regiões mais periféricas. Eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade.”

P. Algumas análises relacionam os rolezinhos a uma ação afirmativa da juventude negra e pobre, a uma denúncia da opressão e a uma reivindicação de participação, neste caso no mundo do consumo. Como você analisaria este fenômeno tão novo?

R. Não me arriscaria a dizer que há um movimento político muito claro. Pode indiretamente constituir-se como uma ação afirmativa da juventude negra e pobre. Talvez a tensão que se criou com a criminalização desses jovens, durante os rolezinhos, possa levar a algum tipo de reflexão e ação política maior, mas é difícil prever. Em um livro intitulado Cidadania Insurgente, (o antropólogo americano) James Holston analisa o surgimento das periferias urbanas no Brasil, particularmente em São Paulo, apontando a discriminação contra certas espécies de cidadãos no Brasil. Esse autor mostra como, historicamente, as formulações de cidadania elaboradas pelos mais pobres se deram a partir de sua ocupação dos bairros nas periferias das grandes cidades. Noções e práticas próprias de cidadania que se produziram, ao mesmo tempo, por meio das experiências de tornar-se proprietário, de participar de movimentos sociais por melhorias dos bairros e de ingressar no mercado consumidor. Primeiro se ocupou os bairros, mesmo sem estrutura mínima. Depois, ocorreram as reivindicações pela legalização dos terrenos ocupados. E, enfim, vieram as lutas pela chegada da energia elétrica, saneamento básico e asfalto. Acho sempre muito interessante, em conversas com lideranças antigas dos bairros periféricos de São Paulo, observar que elas indicam a chegada do asfalto como o grande marco de transformação do bairro e a integração deste ao espaço urbano.

Encaro, portanto, ações como estas, dos rolezinhos, do ponto de vista dessa “cidadania insurgente”, referindo-se a associações de cidadãos que reivindicam um espaço para si e, assim, se contrapõem ao grande discurso hegemônico ou, se não se dissociam do discurso hegemônico, ao menos provocam ruídos nele. Trata-se de uma reivindicação por cidadania, participação política e direitos que, historicamente, foi feita na marra, pelos mais pobres, muitas vezes nas costuras entre o legal e o ilegal, e que começou com a própria ocupação dos bairros na periferia da cidade de São Paulo, como forma de habitar e sobreviver no mundo urbano. Essa cidadania não necessariamente se apresenta como resistência, mas pode também querer, em muitos casos, associar-se ao hegemônico, produzindo dissonâncias.

O que são o funk ostentação e os rolezinhos se não essa reivindicação dos jovens mais pobres por maior participação na vida social mais ampla pelo consumo? Estas ações culturais parecem situar-se nessa lógica, que não necessariamente se contrapõe ao hegemônico, na medida em que tenta se afirmar pelo consumo, mas provoca um desconforto, um ruído extremamente irritante para aqueles que se pautam por um discurso e uma prática de segregação dos que consideram como seus “outros”.

P. Como definir este desconforto? O que são os “outros” neste contexto? E que papel estes “outros” desempenham?

R. O desconforto em ver pobres ocupando um lugar em que não deveriam estar, como o de consumidores de certos produtos que deveriam ser mais exclusivos. É um tipo de espanto, que indaga: “Como eles, que não têm dinheiro, querem consumir produtos que não são para a posição social e econômica deles?”. Estes “outros” são os considerados “subalternos”. Podem ser funkeiros, pobres e pardos da periferia, mas podem ser também as empregadas domésticas, os motoboys, os pichadores, entre outros “outros”, que muitas vezes são utilizados como bode expiatório das frustrações de uma parcela considerável da classe média.

Há uma tendência de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas: a do bandido, a da vítima e a do herói.”

Os rolezinhos não são protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirmações de: “Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo”. Entretanto, por serem jovens pobres de bairros periféricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um gênero musical considerado marginal, eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na própria concepção do shopping, não está prevista a presença desse público, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe média alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercussão seria a mesma, se a criminalização seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um flash mob. Há uma tendência, por parcela considerável da classe média, da mídia e do poder público de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas, quase sempre exclusivistas: a do bandido, a da vítima e a do herói.

P. Como funcionam estas três perspectivas – bandido, vítima e herói?

R.  São muito mais formas de enquadrar esses jovens por aqueles que querem tutelá-los do que categorias assumidas pelos próprios jovens. Por isso, são contextuais. Dependendo da situação e dos atores sociais com quem dialogam, o jovem pode ser entendido a partir de uma dessas categorias. O pichador, por exemplo, é um agente que pode mobilizar todas essas classificações, dependendo do contexto e dos interlocutores: a polícia, a secretaria de cultura, os pesquisadores acadêmicos ou a ONG que quer salvar os jovens da periferia da violência. No caso do funk, por exemplo, já há comentários e mesmo textos de pessoas mais politizadas vendo os rolezinhos como uma ação afirmativa ou extremamente contestatória. Para estes, os protagonistas dos rolezinhos são vítimas que se tornaram heróis. Outros, como a polícia, a administração dos shoppings e a clientela, mas também seus vizinhos, que moram lá nos bairros pobres da periferia, enxergam neles principalmente vilões e mesmo bandidos.

Jovens como estes que estão nos rolezinhos não necessariamente aceitam se encaixar nesses rótulos, mas, em alguns casos, podem também se encaixar em todos eles ao mesmo tempo. Não se pode simplificar um fenômeno como este. Porém, se pensarmos esse movimento que surge principalmente com o hip hop, de valorizar a periferia como espaço político e de afirmação positiva, é possível ver, sim, ainda que em menor intensidade, uma certa ação política. De dizer: “Somos da quebrada e temos orgulho disso”. Um movimento de reversão do estigma em marca positiva.

P. Mas há, de fato, uma ação consciente, organizada, com um sentido político prévio? Ou o sentido está sendo construído a partir dos acontecimentos, o que é igualmente legítimo?

R. Olha, sinceramente, é difícil dizer se há um sentido político, direto, consciente e/ou explícito. Talvez por parte de alguns, mas pelo que vi nas redes sociais, não da maioria. Se o movimento persistir ou tomar outras formas, pode ser que tal sentido político fique mais forte. Por enquanto é difícil analisar esse ponto. O antropólogo (indiano) Arjun Appadurai analisa há algum tempo as mudanças que se processam no mundo por causa do avanço das tecnologias de comunicação e de transporte. Segundo este autor, as pessoas cada vez mais se deslocam no mundo atual, e não apenas fisicamente, mas também e talvez principalmente pela imaginação, por causa de meios de comunicação como a televisão e, mais recentemente, pela internet. Hoje é possível imaginar-se nos mais diferentes lugares do mundo, mas também em diferentes classes sociais. O que são os videoclipes de funk da ostentação que não imagens/imaginações que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social ou possuir melhores condições econômicas para o consumo?

O que são os videoclipes de funk ostentação que não imagens que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social?”

Essa imaginação, segundo esse autor, pode constituir-se como um projeto político compartilhado, mas pode também ser apenas uma fantasia, como algo individualista e egoísta, sem grandes potenciais políticos. Parece-me que o funk da ostentação em São Paulo e movimentos como o dos rolezinhos nos shoppings têm intensamente essas duas potências. Difícil saber se alguma delas irá prevalecer ou tornar-se hegemônica.

P. A escolha da música do MC Daleste, assassinado num show em Campinas, para o rolezinho promovido no Shopping Internacional de Guarulhos, pode ter um significado a mais?

R. A escolha da música do MC Daleste na entrada dos jovens no shopping de Guarulhos me pareceu bastante significativa, por vários motivos. Principalmente, porque a morte dele no palco, cantando funk, de certa forma construiu um marco para esse funk da ostentação. O seu assassinato acabou por dar ainda mais visibilidade a esta vertente do funk paulista. MC Daleste cantava proibidão antes e, assim, essa relação confusa entre crime e consumo manifesta-se de modo bastante forte no que o MC Daleste representa. Há no seu próprio nome artístico essa afirmação de um certo orgulho do lugar de onde vem e de ser da periferia, que tanto o funk quanto o hip hop expressam. Não é por acaso que ele é “Da Leste”. Lembremos que Guarulhos também está à leste da Região Metropolitana de São Paulo.

P. Hoje, uma parte significativa da geração que se criou nas periferias com movimentos contestatórios como o hip hop e a literatura periférica ou marginal tem, pelo funk da ostentação, assumido os valores de consumo das classes médias e alta. Como você analisa este fenômeno e o insere no contexto histórico atual do Brasil?

R. O que um evento como esse parece evidenciar é, por um lado, esse anseio por consumir e por afirmar-se pelo consumo que esses jovens vêm demonstrando já há algum tempo, pelas letras dos funks, mas que também já é visto no hip hop. Apesar das críticas de certos segmentos do hip hop, não sei se o funk ostentação rompe com o hip hop mais politizado dos anos 1980 e 1990 ou se oferece uma das muitas possíveis continuidades a esse movimento cultural. Parece-me que o funk ostentação é uma releitura paulista, muito influenciada pelo hip hop, do funk carioca. Muitos MCs de funk eram MCs de hip hop, muitos deles, além dos funks, cantam também raps, e músicas dos Racionais são ouvidas nos shows. Trechos de letras de músicas dos Racionais podem ser encontrados facilmente nas letras do funk. Agora, o fato é que o funk não é tão marcado pela questão política como o hip hop. O Montanha, de Cidade Tiradentes, disse-me algo interessante, certa vez, de que, na verdade, o hip hop ofereceria um espaço de expressão política que faltava aos jovens, já o funk é um espaço de lazer e de sociabilidade. Parece-me uma reflexão interessante. Não que o hip hop não possa conter lazer e sociabilidade também, nem o funk, protesto político, mas que as duas vertentes tendem para um dos polos. O funk, aliás, ganhou esse grande espaço junto aos jovens das periferias de São Paulo porque, nessa articulação de um espaço de lazer, configurou-se um espaço para as mulheres que, no hip hop, era mais difícil. As mulheres são presença fundamental nos bailes funks. O protagonismo da dança sempre foi delas. Ainda que os meninos também dancem e as meninas participem cada vez mais como MCs. O hip hop sempre foi muito mais masculino, da dança ao estilo de se vestir.

P. Mas qual é a diferença, na sua opinião, entre a forma como, por exemplo, os Racionais falam em consumo e os MCs da ostentação falam de consumo?

Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade que se pautam cada vez mais pela busca do reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens.”

R. Há aí duas perspectivas. Quando digo que os Racionais já cantavam isso, quero dizer que eles já identificavam essa necessidade de consumir da juventude. E de consumir o que eles achavam que era bom, nada de consumo consciente. Por isso digo que os Racionais já faziam, há mais de dez anos, uma leitura desse anseio por consumir dos jovens pobres. Por outro lado, há essa dimensão de movimentos como o dos escritores da periferia, promovendo produtos da periferia, pela periferia. O funk ostentação começa sem se preocupar com essa questão diretamente. Ele não tem dor na consciência por cantar o consumo em suas músicas e aderir ao sistema, por exemplo. Porém, indiretamente, se acaba chegando a um outro ponto, na medida em que uma parcela considerável de jovens da periferia passa a possuir algum tipo de renda com a produção do funk. Sejam os meninos que gravam os videoclipes, os próprios MCs, mas também empresários, produtores, técnicos e mesmo alguns MCs tornando-se empreendedores e criando seus próprios negócios. Como o MC Nego Blue, que observando de perto o sucesso das roupas de grife entre os jovens, criou a Black Blue, uma loja de roupas cujo símbolo é uma carpa colorida. Hoje, além de possuir lojas próprias, já vende suas roupas em lojas multimarcas, ao lado de camisas da Lacoste ou de outras marcas famosas que os meninos procuram, e por um preço muito parecido. Uma das empresas que agencia shows de funk em Cidade Tiradentes chama-se justamente “Nóis por nóis”.

Os rolezinhos parecem dizer: não apenas queremos consumir, mas queremos ocupar em massa e se divertir aí nos seus shoppings, nos seus ou nos nossos. É importante perceber também que os shoppings onde os eventos ocorreram estão em regiões mais periféricas, provavelmente próximos ao próprio bairro de moradia dos jovens. Por enquanto, eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade, na região dos Jardins, Faria Lima, Marginal Pinheiros etc. Pode haver aí também um componente de um termo que surgiu muito forte para mim na pesquisa que fiz em escolas de ensino médio, no meu doutorado, que é a ideia do “zoar”. Eles querem zoar, que é chamar a atenção para si e se divertir, namorar, brincar e, se for preciso, brigar.

P. Por que, neste momento, o lazer se impõe como uma reivindicação desta geração, acima de questões como saúde, educação e transporte de qualidade?

R. Acho que não há uma reivindicação política bem formuladinha como acontecia com o hip hop: queremos mais saúde, educação e lazer. Eles simplesmente querem estar nos shoppings para zoar e vão. Não há essa reflexão mais elaborada que o hip hop produz, é mais espontâneo. Esse talvez possa ser um ponto de distinção. E o próprio funk é, por si só, lazer e diversão, um dispositivo poderosíssimo para dançar e motivar paqueras. O zoar pode ser lido como um ato político, mas não me parece intencional. Acho que cria uma tensão que é política, que é de disputa de poder pelos espaços da cidade, mas não há um manifesto pela zoeira ou pelos rolezinhos, como houve, por exemplo, no caso do manifesto da arte periférica dos escritores.

P. Há também um movimento maior para sair dos guetos e ocupar os guetos da classe média? Em massa e não mais individualmente, como quando um grupo de rap aparecia numa TV, mesmo sendo a MTV, ou um escritor do movimento literário marginal ou periférico publicava numa grande editora? Esta é uma novidade importante?

R. Acho que abre, sim, para fora do gueto, do bairro onde se vive, mas não para muito longe, pois, afinal, os shoppings para os quais eles vão estão do lado de suas casas. Neste sentido, acho que o hip hop, apesar de falar mais do gueto, abre-se muito mais para fora do gueto, na medida em que conquista um espaço importante nas políticas públicas de cultura, por exemplo.

É como se a sociedade dissesse: ‘Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo’.”

Claro que esse espaço de lazer é problemático e conflitivo mesmo dentro dos bairros das periferias onde moram esses jovens. Se entrevistarmos os seus vizinhos, certamente a maioria vai se posicionar totalmente favorável à proibição das festas de rua que eles organizam, com som alto que muitas vezes toma a madrugada toda. Por isso, acho importante não tomar o funk nem como um movimento libertador, nem como o grande vilão ou o grande movimento de corrupção da juventude contemporânea, como setores mais moralistas, à esquerda e à direita, tendem a fazer.

A questão do consumo também me parece problemática. O desejo pelo consumo sempre existiu. Bem antes do governo Lula, o processo de urbanização induz a esse apego maior ao consumo. Porém, não dá para se negar que houve, nos últimos anos, também uma melhora econômica para segmentos que antes estavam bastante afastados do mercado. Porém, acho que reduzir o sucesso do funk da ostentação a isso é simplificar demais o movimento e esquecer que ocorreram e ocorrem movimentos juvenis parecidos em outras partes do mundo, como o próprio gangsta rap, nos Estados Unidos, no qual os videoclipes se inspiram.

Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade. É preciso conceder aos jovens, e não apenas aos pobres, mas aos de classe média e alta também, outros espaços de reconhecimento e de estabelecimento de relações sociais que não sejam pautados pela afirmação por meio da posse e do consumo de bens. Porque, afinal, como dizem os Racionais, mais uma vez: “Quem não quer brilhar, quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. De repente, para alguns, ter um tênis caro, um smartphone de última geração ou ir ao shopping para zoar, pode ser uma forma encontrada para tentar brilhar.

P. Ao ocupar os shoppings, os adeptos do funk da ostentação estariam promovendo sua primeira atitude de insurgência contra o sistema, no sentido de: “Vou ocupar o espaço que me é negado ou onde não me querem”. É isso? Ou as próprias letras das músicas, interpretadas, em geral, como adesão ao sistema, já seriam, de fato, uma insurgência, na medida que se apropriam, simbolicamente, dos valores da elite e da classe média e, agora, com os rolezinhos, também de seus espaços físicos?

R. Sim, acho que essa é a maior irritação da classe média com esses movimentos. Basta ver os comentários aos videoclipes no YouTube, irritados com os meninos ostentando e exibindo-se com produtos mais caros, que não deveriam estar com aqueles meninos, pobre e negros, em sua maioria. Esta é a principal insurgência que eles provocam. A classe média, de uma maneira geral, a mais pobre ou a mais rica, a mais ou menos intelectualizada, irrita-se bastante quando os subalternos compram bens caros, mesmo antes deles. Já ouvi comentários indignados, do tipo: “Minha empregada comprou uma televisão de última geração, melhor do que a minha”. Isso tem antecedentes históricos que parecem refletir até hoje. James Holston, ainda no livro sobre cidadania insurgente, que citei anteriormente, traz como exemplo a legislação colonial portuguesa, que proibia aos negros o uso de joias e artigos considerados finos…

P. Parece que os “rolezeiros” dos shoppings estão ocupando o mesmo lugar simbólico dos “vândalos” nas manifestações, na narrativa feita por parte da grande mídia e pelas autoridades instituídas. Como você interpreta essa reação?

Os comentários em sites e redes sociais revelam esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população brasileira.”

R. O que me assustou de verdade nessa história toda foram as reações, de mídia e de polícia, condenando e mandando prender, mesmo em casos em que disseram que não houve arrastões, mas correrias. Fico questionando quem provocou a correria: os jovens ou a ação dos seguranças e da polícia? Eventos como estes revelam também uma faceta complicada e extremamente preconceituosa da classe média brasileira. Dei uma entrevista curta para o site de um grande grupo de comunicação e fiquei assustado ao ler os comentários dos leitores, de um ódio terrível contras os meninos e meninas que foram aos shoppings, contra os pobres, contra mim, que tive uma fala dissonante na entrevista, ressaltando a forma preconceituosa com que tal tema vinha sendo tratado. Ao falarem do evento, algumas palavras utilizadas como categorias de acusação contra os jovens e as jovens foram bastante reveladoras do preconceito, e mesmo do racismo, deste segmento social: “favelados”, “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Nesse último caso, inclusive, fica evidente o racismo que aparece em muitos comentários dessa notícia, mas também nas comunidades dos rolezinhos que os jovens criaram nas redes sociais. Um dos comentários pede para que os jovens voltem para a África. Isso é muito grave. Revela esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população. Como se tal sociedade dissesse, por meio dos representantes dos shoppings, da mídia e da polícia, brincando um pouco com a questão das manifestações de junho: “Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo”.

P. A classe média é racista?

R. O que chamamos de classe média não é um todo homogêneo. É possível segmentá-la em diferentes níveis e a partir de diferentes contextos, é possível pensar em uma classe média intelectualizada ou não intelectualizada. Contudo, parece-me que a divisão mais importante para se pensar a classe média em São Paulo é a que se dá por critérios socioeconômicos e espaciais. Há a classe média que está concentrada principalmente no entorno do eixo central, que vai do Centro a Pinheiros, passando pela Avenida Paulista e bairros próximos. Esta, em sua maioria, vive numa bolha e tem poucos contatos com outras classes sociais, com exceção dos trabalhadores subalternos: porteiros, empregadas domésticas etc. Para esta, em grande medida, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.

Porém, há também certa classe média baixa que vive na periferia. Citando novamente o Holston, ele fala de uma diferenciação que se produziu nas periferias de São Paulo entre aqueles que compraram seus terrenos, ainda que por meio de contratos obscuros, e aqueles que ocuparam os espaços da cidade, formando as favelas. Essa pequena diferença não cria um grande abismo econômico, mas produz uma profunda diferenciação, por meio do qual um grupo estigmatiza o outro. Já vi um indivíduo desta classe média da periferia questionando programas como o bolsa família, porque tinha visto potes vazios de iogurte no lixo da favela. Este indivíduo afirmava que nem ele consumia iogurte com tanta frequência, como eles se davam ao direito de consumir tal produto, que era um luxo, raro, mas sobre o qual ele detinha certa exclusividade?

A questão do auxílio aos mais pobres, principalmente o bolsa família, é um forte fator de estigmatização por parte desses diferentes segmentos da classe média, mas principalmente por parte dessa classe média da periferia. Estive, recentemente, em uma escola pública próxima a uma grande favela de São Paulo. Segundo os professores, um dos problemas daquela escola era o fato de que 90% dos alunos vinham da favela vizinha. E que, hoje, esses alunos estavam muito acomodados, pois viviam de bolsas e na favela tinham tudo muito fácil, com a grande quantidade de projetos presentes por lá. Inclusive, projetos de música, ressaltou um professor. É muito importante refletir sobre isso, porque esses professores, se não moram na favela, são vizinhos dela. Mas, ainda assim, permitem-se diferenciar-se dos jovens por questões muito pequenas. E são estes professores os responsáveis por formar esses jovens. Será que, com este olhar, são capazes de lutar para que a escola se torne um espaço de convivência, afirmação e reconhecimento para os jovens?

P. Como você, que tem acompanhado o cotidiano de escolas públicas, em São Paulo, percebe a educação?

Para uma parcela da classe média de São Paulo, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.”

R. É necessário pensarmos em uma educação para as diferenças, para que não caiamos mais na armadilha da intolerância e das análises apressadas e preconceituosas de setores das elites e das camadas médias, ao se referirem aos “subalternos”. Lembro-me de um documentário português, que vale a pena ser assistido, sobre a história de um arrastão que não existiu. Chama-se: “Era uma vez um arrastão” (assista aqui). Nele, conta-se do dia em que jovens caboverdianos ou descendentes de caboverdianos resolveram frequentar a nobre praia de Carcavelos, em Portugal. A polícia, ao ver a concentração de jovens de origem africana, assustou-se e resolveu intervir, provocando uma grande correria, que foi noticiada como arrastão. Mas, de fato, os jovens fugiam da repressão policial gratuita. Isso talvez nos ensine algo sobre os arrastões que estamos a criar todo dia, criminalizando jovens pobres cotidianamente.

Quando estive pesquisando em escolas públicas da periferia de São Paulo, era comum ouvir dos professores que, naquela escola, os alunos eram todos bandidos ou marginais. O discurso da criminalização é efetivo e poderoso e condena muita gente ao fracasso escolar e mesmo ao crime. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, num livro sobre educação e juventude, ressalta a necessidade cada vez mais premente, na contemporaneidade, de desenvolvermos a arte de conviver com os estranhos e a diferença. Em especial num mundo no qual as migrações tendem a aumentar cada vez mais. No nosso caso, não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros. Mas brasileiros que moram muito, muito distante, ainda que vizinhos. Moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…

P. Em que medida, na sua opinião, os rolezinhos se ligam às manifestações de junho?

R. Acho que não há uma ligação direta. Mas, indiretamente, é possível perceber a reivindicação comum do uso do espaço público e de quebra das marcas da segregação. Lembro-me que, antes das manifestações de junho, para a imprensa conservadora era um tabu ocupar a Avenida Paulista. Os movimentos sociais mostraram que não apenas não era um tabu, como era um direito, o direito de ir às ruas e ocupá-las para protestar. Os rolezinhos não parecem ter uma pauta tão clara, mas também estão, ainda que indiretamente, dizendo: “Vocês não disseram que era bom consumir? Pois bem, nós também queremos!”

P. Essa ocupação de espaços que supostamente pertenceriam a “outros”, tanto no caso das manifestações como no caso dos rolezinhos, parece marcar uma novidade importante. O que está acontecendo?

R.  Acho que a novidade está aí, mas é difícil dizer o que está acontecendo ou o que acontecerá. Pode ser apenas um surto – algo parecido com o que foi a revolta da vacina como reação às propostas políticas opressoras de reforma sanitária do Rio de Janeiro, por exemplo – ou pode ser uma nova forma de pensar os espaços públicos e privados nas cidades brasileiras. Porém, é difícil prever. Os rolezinhos podem ter acabado nesta semana, por exemplo. E movimentos como os de junho não se repetiram com tanta intensidade e repercussão. Contudo, o que movimentos como estes garantem é a possibilidade de se tensionar essa ocupação dos espaços urbanos, amplamente negada até então.

Aqui não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros que moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…”

P. Por que este nome, rolezinho? E que significados ele contém?

R. Rolezinho é um termo que está diretamente ligado à ideia de lazer. De sair para se divertir e usufruir da cidade. Os pichadores, com os quais realizei pesquisa no mestrado, também usam a ideia de rolê, para se referirem às suas pichações. Com isso estão dizendo que pichar é dar voltas para conhecer e se apropriar da cidade. Parece que, por este termo, indiretamente, podemos entender uma reivindicação pelo direito de se divertir na cidade.

P. Divertir-se na cidade não seria um ato de insubordinação para jovens pobres e negros? Talvez até o maior ato de insubordinação?

R. Sim, principalmente numa sociedade em que pobres e negros têm que trabalhar – e apenas trabalhar – sem reclamar. Lembremos de que a ROTA, no final do regime militar, atuava nas periferias abordando os moradores e cobrando-lhes a carteira profissional como prova de que eram trabalhadores e não vagabundos. Devotados, portanto, ao trabalho e não à diversão. Agora, claro que esses jovens não estão pensando exatamente nisso. Querem muito mais é se divertir.

P. Como entender este fenômeno, que é, ao mesmo tempo, uma insubordinação e uma adesão ao sistema?

R.  Acho que a melhor palavra é paradoxo. O funk da ostentação em São Paulo é paradoxal: não dá para situá-lo num polo ou noutro, dentro do modo tradicional de pensar a política. Conservador ou revolucionário? Nenhum dos dois, mas com possibilidade para os dois ao mesmo tempo.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas.

Exposição relembra shows étnicos com humanos ‘exóticos’ na Europa (BBC)

Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil

Atualizado em  2 de dezembro, 2011 – 09:46 (Brasília) 11:46 GMT

Uma exposição no museu do Quai Branly, em Paris, mostra como seres humanos considerados “exóticos, selvagens ou monstros” foram exibidos durante séculos em feiras, circos e zoológicos no Ocidente.A exposição Exibições – A Invenção do Selvagem indica, segundo os organizadores, que esses “espetáculos” com índios, africanos e asiáticos, além de pessoas portadoras de deficiência, que tinham o objetivo de entreter os espectadores, influenciaram o desenvolvimento de ideias racistas que perduram até hoje.”A descoberta dos zoológicos humanos me permitiu entender melhor por que certos pensamentos racistas ainda existem na nossa sociedade”, diz o ex-jogador da seleção francesa de futebol Lilian Thuram, um dos curadores da mostra.Thuram, campeão da Copa do Mundo de 1998 pela França, criou uma fundação que luta contra o racismo. Ele narra os textos ouvidos no guia de áudio da exposição.”É difícil acreditar, mas o bisavô de Christian Karembeu (também ex-jogador da seleção francesa) foi exibido em uma jaula como canibal em 1931, em Paris”, diz Thuram.A exposição é fruto das pesquisas realizadas para o livro Zoológicos Humanos, do historiador francês Pascal Blanchard e também curador da mostra.

Medição de crânios

A exposição reúne cerca de 600 obras, entre fotos e filmes de arquivo, além de pôsteres de “espetáculos” e objetos usados por cientistas no século 19, como instrumentos para medir os crânios.Nesse período, se desenvolveram noções sobre a raça e o conceito de hierarquia racial, com teses de que os africanos seriam o elo que faltava entre o macaco e os homens brancos ocidentais, ou o “homem normal”, como consideravam os cientistas.A exposição começa com as primeiras chegadas de povos “exóticos” à Europa, trazidos pelos exploradores, como os índios tupinambá, do Brasil, que desfilaram, em 1550, para o rei Henrique 2º em Rouen, na França.Pessoas com deformações físicas e mentais também serviam de atração para as cortes europeias na época.No início do século 19, a exibição de “selvagens” deixou de ser reservada às elites, com o surgimento de “shows étnicos”, que ganharam força com o desenvolvimento da antropologia e a conquista colonial.Londres, que apresentou uma exposição de índios brasileiros Botocudos em 1817, tornou-se a “capital dos espetáculos étnicos”, seguida pela França, Alemanha e Estados Unidos.A exibição em Londres, em 1810, e em Paris, em 1815, da sul-africana Saartje Baartman, conhecida como “Vênus Hotentote” (nome pelo qual sua tribo era conhecida à época), que tinha nádegas proeminentes, marcou uma reviravolta nesse tipo de apresentação.

Indústria de espetáculos

Esses “shows” se profissionalizaram com interesse cada vez maior do público, tornando-se uma indústria de espetáculos de massa, com turnês internacionais.Em Paris, um “vilarejo” africano foi montado próximo à Torre Eiffel em 1895, com apresentações sensacionalistas de mulheres quase nuas e homens tidos como canibais.”É em um contexto expansionista das grandes potências ocidentais e de pesquisa desenfreada dos cientistas que essas exibições vão ganhar legitimidade necessária para existir”, afirmam os organizadores da mostra.Eles dizem que os espetáculos de “diversão” serviam também como instrumento de propaganda para legitimar a colonização.O apogeu dessas exibições ocorreu entre 1890 e os anos 1930.Depois disso, os “shows étnicos” deixaram de existir por razões diversas: falta de interesse do público, surgimento do cinema e desejo das potências de excluir o “selvagem” da propaganda de colonização.A última apresentação desse tipo foi realizada em Bruxelas, em 1958. O “vilarejo congolês” teve de ser fechado devido às críticas na época.Segundo os organizadores da mostra, mais de 1 bilhão de pessoas assistiram aos espetáculos exóticos realizados entre 1800 e 1958.A exposição fica em cartaz no museu do Quai Branly até 3 de junho de 2012.

Kennedy planejava invasão dos EUA no Brasil (Yahoo! News)

Por  | Yahoo Notícias – 06.jan.2014

Informações divulgadas pelo site “Arquivos da Ditadura”, que mantém conteúdo colhido nos últimos 30 anos pelo jornalista Elio Gaspari sobre o governo militar do Brasil, mostram que o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy debateu a possibilidade de invadir o Brasil para depor o então presidente João Goulart.

A conversa aconteceu na Casa Branca e teve como centro do debate as situações no Brasil e no Vietnã. Kennedy indaga a possibilidade de seu país “intervir militarmente” no Brasil por conta da tensa situação política envolvendo João Goulart. O questionamento aconteceu 46 dias antes de Kennedy ser assassinado em Dallas, no Texas.

Alguns meses após a conversa e posterior morte do então presidente norte-americano, os militares assumiram o poder no Brasil. É possível ouvir o áudio da conversa, em inglês, clicando aqui.

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Ditadura militar quis monitorar Jango na Argentina

Brazil 2014: More than just the World Cup (The Christian Science Monitor)

From elections to transportation fare increases and potentially renewed protests, 2014 promises big stories to watch across Brazil.

By Rachel Glickhouse, Guest blogger / January 2, 2014

People watch fireworks exploding over Copacabana beach during New Year celebrations at the Pavao Pavaozinho slum in Rio de Janeiro, January 1, 2014. Pilar Olivares/Reuters

While 2013 [was] an incredibly interesting year forBrazil, 2014 promises to be even more fascinating. Beyond the World Cup, which promises to occupy much of the year’s headlines, here are some of the big issues to watch.

Transportation fare increases: Governments throughout Brazil backed down on raising bus and subway fares in 2013 after those increases helped spursome of the largest protests seen since redemocratization. Nevertheless, a fare increase could be coming in Rio as early as January.

Inflation and cost of living: In 2013, food prices rose over 9 percent and were the major cause of inflation this year. Overall, inflation this year is estimated at under 6 percent, while some estimates put next year’s inflation at a little over 6 percentSão Paulo and Rio in particular continue to see a rising cost of living.

Consumer debt: With more Brazilians gaining access to the banking system and credit, consumer debt has been a growing problem to keep an eye on. Over the past 12 months, the number of Brazilian families in debt has fluctuated between 60 and 65 percent. Around 20 percent of Brazilians are behind on their bills. Over three-quarters of Brazilians in debt point to credit cardsas the source of their debt; credit card interest rates in Brazil continue to be sky-high, reaching up to 500 percent a year.

Security: While in the past decade, the overall trend for homicides has been an increase in the Northeast and a drop in the Southeast, crimes like robberies andmuggings are rising in cities like Rio and São Paulo. Rio in particular has faced problems with crime this year after a period of seeming improvements.

Pacification in Rio: Though initial results were promising, this year has seen some cracks in Rio’s pacification strategy, such as outbreaks of violence in pacified favelas and revelations of police abuses, the most serious being the torture and murder of favela residents. One of the most important things revealed this year are statistics showing disappearances in pacified favelas rising as murders fall. We’ll see what happens with this trend next year. Fundamentally, the biggest problem with the strategy is the police force itself, as some police have traditionally been criminals themselves, either working directly with drug traffickers or operating in militias when off-duty. Without a major police reform, the strategy could see similar challenges next year.

Health and education policies: One of the major complaints of protesters [last] year was that the government is investing in the World Cup but not enough in hospitals and schools. In 2013, the government began importing Cuban doctors in a bid to bring medical services to underserved areas, which initially was met with controversy that has petered out a bit. Much more remains to be done though, so [this year] it will be interesting to see how the program goes. There were also big teachers’ strikes this year which could potentially happen again in 2014.

Corruption scandals: One of the most important things that happened in 2013 was when a group of defendants in the country’s biggest corruption case went to jail. Parts of the trial are going to drag on next year as some defendants get appeals, but a new corruption scandal would feed another one of the protesters’ complaints.

Protests: While it seems likely that there will be some demonstrations around the World Cup, it remains to be seen whether there will be a repeat of the 2013 protests. That will depend on all of the factors above.

Elections: Brazil will hold presidential and legislative elections in October, which means that federal policies will potentially be designed to appease voters as President Dilma Rousseff seeks reelection. It may not be a year to experiment with reforms or to raise taxes, but it could be a year of bread and circuses.

Infrastructure: While a lot of focus will be on finishing stadiums in time for the games, it remains to be seen how many transportation infrastructure projects, ranging from new highways to airport renovations, will be completed before June. In addition, it will be important to see which major infrastructure projects are moving in an election year, like the Belo Monte dam or the São Francisco water project.

– Rachel Glickhouse is the author of the blog Riogringa.com.

Racism remains ‘institutionalized’ in Brazil: UN panel (CTV News)

Brazil racism

Nubia de Lima, 29, poses for a photo in her Rio de Janeiro apartment in Brazil on Feb. 25, 2013. (AP / Felipe Dana)

The Associated Press
Published Friday, December 13, 2013 2:32PM EST

RIO DE JANEIRO, Brazil — Institutionalized racism persists in Brazil despite government efforts to tackle the issue, members of a United Nations panel examining conditions among black Brazilians said Friday.

Two members of the U.N.’s working group on Afro-descendants said their 10-day fact-finding mission to five Brazilian cities underscored that the government has finally acknowledged the problem and has “shown its willingness to combat racism.”

But the panel said Brazilian blacks “still suffer from structural, institutional and interpersonal racism.”

“Historical injustices continue profoundly affecting the lives of millions of Afro-Brazilians and are present throughout all levels of Brazilian society,” panel member Mireille Fanon-Mendes-France told journalists at a news conference in Rio de Janeiro.

Brazil received more African slaves than any other country in the Americas and was the last major nation to abolish slavery, and people of colour here still tend to languish at the bottom of the social pyramid.

“To overcome the legacy of colonialism and slavery, the challenges Brazil faces are enormous,” Fanon said. “Afro-Brazilians represent more than half of the Brazilian population, however they’re sub-represented and invisible in most positions of power, in the media and the private sector.”

She added that blacks continued to face hurdles in accessing quality education, the courts, health care, basic sanitation and other state services.

“Although Brazil has progressed in reducing poverty, we note that there’s still a great contrast between the situation of black Brazilians and the country’s rapid economic growth,” Fanon said, reading from a report with the group’s initial conclusions.

She praised a series of recent government measures aimed at stamping out the lasting legacy of slavery, including affirmative action in universities.

Still, Fanon added that “advances in dismantling of racial discrimination remains slow.”

The group will report its findings to the Brazilian government next year, with a series of non-binding recommendations.

Read more: http://www.ctvnews.ca/world/racism-remains-institutionalized-in-brazil-un-panel-1.1591369#ixzz2negBg4Bn

Unease among Brazil’s farmers as Congress votes on GM terminator seeds (The Guardian)

Environmentalists warn approval could shatter global agreement not to use technology, with devastating repercussions

 in Rio de Janeiro and 
theguardian.com, Thursday 12 December 2013 16.34 GMT

Brazil national congress

Brazil’s national Congress is under pressure from landowning groups to green light GM ‘terminator’ seeds. Photograph: Ruy Barbosa Pinto/Getty Images/Flickr RF

Brazil is set to break a global moratorium on genetically-modified “terminator” seeds, which are said to threaten the livelihoods of millions of small farmers around the world.

The sterile or “suicide” seeds are produced by means of genetic use restriction technology, which makes crops die off after one harvest without producing offspring. As a result, farmers have to buy new seeds for each planting, which reduces their self-sufficiency and makes them dependent on major seed and chemical companies.

Environmentalists fear that any such move by Brazil – one of the biggest agricultural producers on the planet – could produce a domino effect that would result in the worldwide adoption of the controversial technology.

Major seed and chemical companies, which together own more than 60% of the global seed market, all have patents on terminator seed technologies. However, in the 1990s they agreed not to employ the technique after a global outcry by small farmers, indigenous groups and civil society groups.

In 2000, 193 countries signed up to the UN Convention on Biological Diversity, which recommended a de facto moratorium on this technology.

The moratorium is under growing pressure in Brazil, where powerful landowning groups have been pushing Congress to allow the technology to be used for the controlled propogation of certain plants used for medicines and eucalyptus trees, which provide pulp for paper mills.

The landowning groups want to plant large areas with fast growing GMtrees and other non-food GM crops that could theoretically spread seeds over wide areas. The technology, they argue, would be a safeguard, ensuring that no second generation pollution of GM traits takes place. They insist that terminator seeds would only be used for non-food crops.

Their efforts to force a bill to this effect through Congress, ongoing since 2007, have been slowed due to resistance from environmentalists.

The proposed measure has been approved by the legislature’s agricultural commission, rejected by the environmental commission, and now sits in the justice and citizenship commission. It is likely to go to a full Congressional vote, where it could be passed as early as next Tuesday, or soon after the Christmas recess.

Environment groups say there would be global consequences. “Brazil is the frontline. If the agro-industry breaks the moratorium here, they’ll break it everywhere,” said Maria José Guazzelli, of Centro Ecológico, which represents a coalition of Brazilian NGOs.

This week they presented a protest letter signed by 34,000 people to thwart the latest effort to move the proposed legislation forward. “If this bill goes through, it would be a disaster. Farmers would no longer be able to produce their own seeds. That’s the ultimate aim of the agro-industry,” she said.

The international technology watchdog ETC, which was among the earliest proponents of a ban on terminator technology in the 1990s, fears this is part of a strategy to crack the international consensus.

“If the bill is passed, [we expect] the Brazilian government to take a series of steps that will orchestrate the collapse of the 193-country consensus moratorium when the UN Convention on Biological Diversity meets for its biennial conference in Korea in October 2014,” said executive director Pat Mooney.

But Eduardo Sciarra, Social Democratic party leader in the Brazilian Congress, said the proposed measure did not threaten farmers because it was intended only to set controlled guidelines for the research and development of “bioreactor” plants for medicine.

“Gene use restriction technology has its benefits. This bill allows the use of this technology only where it is good for humanity,” he said.

The technology was developed by the US Department of Agriculture and the world’s largest seed and agrochemical firms. Syngenta, Bayer, BASF, Dow, Monsanto and DuPont together control more than 60% of the global commercial seed market and 76% of the agrochemical market. All are believed to hold patents on the technology, but none are thought to have developed the seeds for commercial use.

Massive protests in the 1990s by Indian, Latin American and south-east Asian peasant farmers, indigenous groups and their supporters put the companies on the back foot, and they were reluctantly forced to shelve the technology after the UN called for a de-facto moratorium in 2000.

Now, while denying that they intend to use terminator seeds, the companies argue that the urgent need to combat climate change makes it imperative to use the technology. In addition, they say that the technology could protect conventional and organic farmers by stopping GM plants spreading their genes to wild relatives – an increasing problem in the US, Argentina and other countries where GM crops are grown on a large scale.

A Monsanto spokesman in Brazil said the company was unaware of the developments and stood by a commitment made in 1999 not to pursue terminator technology. “I’m not aware of so-called terminator seeds having been developed by any organisation, and Monsanto stands firmly by our commitment and has no plans or research relating to this,” said Tom Helscher.

On its website, however, the company’s commitment only appears to relate to “food crops”, which does not encompass the tree and medicinal products under consideration in Brazil.

• Additional research by Anna Kaiser

Background to a controversy

Ever since GM companies were found to be patenting “gene-use restriction” or “terminator” technologies in the 1990s, they have been accused of threatening biodiversity and seeking to make farmers dependent on big industry for their livelihoods.

In many developing countries, where up to 80% of farmers each year choose their best plants and save their own seed, terminator technology is a byword for all genetic modification, raising fears that sterile GM strains could contaminate wild plants and regular crops – with devastating consequences.

The GM companies, which claimed in the 1990s that they wanted to introduce the seeds only to stop farmers stealing their products, were forced to shelve the technology in the face of massive protests in India, Latin Amercia and south-east Asia.

In the face of growing international alarm, the 193 countries signed up to the UN Convention on Biological Diversity unanimously agreed in 2000 that there should be a de facto international moratorium. This was strengthened at the Conference of the Parties in 2006, under the presidency of Brazil.

Since then, the moratorium has held firm. But the GM companies have shifted their arguments, saying that gene-use restriction technologies now allow seeds to reproduce, but could “switch off” the GM traits. This, they argue, would reduce the possibility of the seeds spreading sterility. In addition, they say the technology could protect organic and conventional farmers from the spread of transgenes to wild relatives and weeds, which plagues GM farmers in the US and elsewhere.

The fear now is that the global moratorium could quickly unravel if Brazil, one of the most important agricultural countries in the world, overturns its national law to ban terminator technology. Other countries, pressed strongly by the powerful GM lobby, would probably follow, leading inevitably to more protests.

Ruralistas saem pela “Porta dos Fundos” (Greenpeace)

16/12/2013 – 12h05

por Nathália Clark, do Greenpeace

Os parlamentares da bancada ruralista sempre fazem tudo às avessas ou na calada da noite. Por esse motivo, suas artimanhas foram expostas na última quinta-feira (12) como eles merecem: pela porta dos fundos. O Porta dos Fundos, canal alternativo que tem feito grande sucesso na internet com vídeos humorísticos, produziu uma “homenagem” à bancada ruralista. O vídeo “Xingó Kayapu”, lançado na semana anterior, traz uma sátira às dezenas de propostas legislativas que tramitam no Congresso Nacional, incluindo a PEC 215, e à tentativa da parcela mais atrasada do agronegócio brasileiro de limar os direitos dos povos tradicionais a suas terras.

Veja abaixo o vídeo original do Porta dos Fundos:

 

No Congresso, comissão da PEC anti-indígena é instalada

Em “comemoração” ao Dia Internacional de Direitos Humanos, 10 de dezembro, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), instalou a tão falada comissão especial para discutir a PEC 215. Num plenário lotado de representantes indígenas, os parlamentares ruralistas não se intimidaram com os gritos de “assassinos” enquanto discutiam os nomes para o grupo que debaterá a Proposta de Emenda à Constituição. O projeto visa transferir do Executivo para o Legislativo a competência pela demarcação de Terras Indígenas e áreas quilombolas.

Na última quarta-feira (11), dia seguinte à instalação da comissão, os parlamentares se reuniram novamente para definir a mesa diretora. Foram eleitos como presidente e relator, respectivamente, os deputados Afonso Florence (PT-BA) e Osmar Serraglio (PMDB-PR). Luis Carlos Heinze (PP-RS), outro expoente da bancada ruralista, ficou como segundo vice-presidente.

“A PEC 215, proposta pelos ruralistas, pode agravar ainda mais casos de violência contra indígenas no campo, como aconteceu recentemente no caso da TI Alto Turiaçu. A proposta enfraquece direitos conquistados pelos povos indígenas e acirra a disputa por terra. É uma triste ironia que uma decisão como essa de instalar a PEC tenha sido tomada justamente no dia em que se comemoram os direitos humanos”, afirma Romulo Batista, da Campanha Amazônia do Greenpeace.

Mesmo depois de o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmar que a PEC é inconstitucional, o Planalto não acionou sua base parlamentar para barrar a ação do presidente da Câmara e dos ruralistas. Durante a Mobilização Nacional Indígena, que ocorreu na primeira semana de outubro, a presidenta Dilma Rousseff chegou a divulgar que orientaria sua base parlamentar a votar contra a PEC 215.

Protesto Munduruku

Também no Dia Internacional dos Direitos Humanos cerca de 50 índios Munduruku ocuparam a sede da Advocacia-Geral da União (AGU) para pedir uma série de demandas como a revogação da Portaria 303, que prevê intervenções militares e empreendimentos hidrelétricos, minerais e viários em terras indígenas sem consulta prévia aos povos, a demarcação da Terra Indígena Munduruku no Médio Tapajós e que se mantenha a decisão da 1ª Vara da Justiça Federal de Mato Grosso, que suspendeu o leilão para a Usina Hidrelétrica de São Manoel, no Rio Teles Pires.

* Publicado originalmente no site Greenpeace.

World Cup: Rio favelas being ‘socially cleansed’ in runup to sporting events (The Guardian)

Slum dwellers say thousands forced out of their homes to make way for building projects for tournament and 2016 Olympics

 and  in Rio de Janeiro

The Guardian, Thursday 5 December 2013 17.58 GMT

Boys play football in the Borel favela

Boys playing football in the Borel favela in Rio de Janeira, which will host seven World Cup games followed by the Olympics in 2016. Photograph: Buda Mendes/Getty

The World Cup and the Olympics are being used as a pretext for “social cleansing” as tens of thousands of Rio slum dwellers are driven out to the city periphery, favela residents say.

While millions of eyes turn to north-eastern Brazil for the World Cup draw on Friday, poor communities in Rio de Janeiro are still struggling to be heard as they fight against evictions they say are related to the city’s mega sporting events.

Next year, Rio will host seven games, including the final, followed in 2016 by the Olympics. The city’s mayor, Eduardo Paes, describes this as an opportunity for the city to modernise and create a legacy for future generations. But many of those on the frontline of change feel they are the victims of social cleansing.

At least 19,000 families have been moved to make way for roads, renovated stadiums, an athletes’ village, an ambitious redevelopment of the port area and other projects that have been launched or accelerated to prepare the city for the world’s two biggest sporting events.

“The authorities wouldn’t even enter our community in the past and there was no mention of moving us, but then Brazil won the right to host the World Cup and everything changed,” Maria do Socorro told a hearing in the city council building this week. Socorro’s home of 40 years in the Indiana favela has been marked for demolition.

Countless communities are affected. Among the best known are Vila Autódromo, which will be the site of the main Olympic stadium and athletes’ village; Providência, which is close to the port redevelopment and Indiana, which is about 10 minutes’ drive from the newly refurbished Maracanã stadium.

As was the case in Beijing, London and South Africa before their mega events, the government says such programmes are necessary to modernise the city. Numerous relocations have been carried out in the past as Rio has evolved, but politicians and campaigners say the forthcoming sporting events are driving the process forward at an unprecedented rate, and often in violation of the law. “The government is obliged to publicise preliminary studies, listen to the views of affected communities and offer alternative housing close to their old homes, but the Rio municipality has not complied with any of these laws,” said Renato Cinco, a council member for the leftwing PSOL party.

“People are being moved more than 40km [25 miles] from their homes with very little prior notice and no compensation.”

Civil society groups say the relocations are motivated by surging land values. As new infrastructure is put in place for the World Cup and Olympics, property prices rise in the surrounding areas.

Maracanã stadium

The revamped Maracanã stadium, which is 10 minutes’ drive from the Indiana favela. Photograph: Owen Humphreys/PA

“There is a process of gentrification taking place in the whole city that is connected to the sports events and how the government sees the city: it is no longer a place for residents, but as a business to sell to foreign investors. That’s what the World Cup is about,” said Renata Neder of Amnesty.

“There have been waves of evictions in the past, but this latest one that began after Rio was chosen to host the mega events may be the biggest one yet in terms of numbers.

“The authorities insist that due process has been followed and no residents have been forcibly relocated. The Rio 2016 chief operating officer, Leo Gryner, said the high-profile case of Vila Autódromo showed how far the government was willing to go to accommodate residents.

“In Vila Autódromo the mayor said he would move people to a new place and build nice housing projects for people to move to a new area. People started protesting, saying you couldn’t evict people because of the Olympics. So after some time, the city admitted they should not have forced them to go. They talked to each one of the people living in that area, roughly half said they wanted to move and the other half wanted to stay,” he said.

“Then when they started to see the project going up they realised it was very nice and so they came here to demonstrate and demand to be moved to the new housing! The city talked to everyone.” This is refuted by residents.

That is disputed by residents. And in less prominent cases, residents complain of being harassed by officials and engineers who tell them their homes are not safe. In some cases, this is true. Thousands have died over the years in the floods and landslides that affect many river and hillside favelas during the annual rainy season.

But a visit to the Indiana favela, which sits next to the river Maracanã, suggested the genuine threat to a handful of homes may be being used to justify the clearance of swaths of the community.

Several houses, including two wooden shacks, sat below the flood line and looked too poorly built to withstand a deluge. But the majority of homes marked for demolition – including several that had already been destroyed – were on seemingly firm concrete foundations several metres above the flood line.

“It is true that there are risks from the river, but only in certain places. The problem is that the government is arbitrarily trying to move everyone, even those who are not at risk,” said Ines Ferreira de Abril, a local health worker.”

Many people have already moved out under the relentless pressure from the government. They are going house by house and ultimately, they want to get rid of all of us because this land is very valuable now. They want us out of the way before the big events.”

• This article was amended on 6 December 2013 to clarify that Leo Gryner’s comments about Vila Autódromo are disputed by residents. This article was further amended on 11 December 2013 to correct Renato Cinco’s name, from Renata Silva as the original said.

Não há razão para que a polícia reproduza estrutura do Exército, diz Luiz Eduardo Soares (Sul 21)

Data:11/dez/2013, 14h43min

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Samir Oliveira

O antropólogo e cientista Luiz Eduardo Soares esteve em Porto Alegre nesta terça-feira (10), onde promoveu uma palestra sobre a desmilitarização da polícia na Câmara Municipal, a convite da vereadora Fernanda Melchionna (PSOL). Um dos maiores especialistas em segurança pública e direitos humanos do país. Luiz Eduardo foi secretário de Segurança do Rio de Janeiro durante o governo de Anthony Garotinho — ocasião em que foi demitido pelo governador ao vivo durante entrevista para um telejornal –, e foi secretário nacional da área no governo do ex-presidente Lula (PT).

Durante o discurso para a numerosa plateia que lotou o plenário Ana Terra, o especialista explicou porque defende a desmilitarização e a unificação das polícias brasileiras. Ele entende que, constitucional e democraticamente, não existem motivos para que a polícia reproduza a estrutura organizacional do Exército. “Cartesianamente, só haveria uma hipótese que justificaria o caráter militar da polícia ostensiva: se as finalidades fossem as mesmas do Exército. Se fizermos uma leitura minimamente sistemática da Constituição, compreenderemos que o propósito da polícia é garantir direitos à cidadania e defender a legalidade. Não estamos falando de guerra”, disse.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Luiz Eduardo defendeu a aprovação da PEC 51, do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que ajudou a elaborar. O projeto desmilitariza a polícia militar, unifica as forças policiais em uma estrutura de ciclo único — ostensivo e investigativo — e unifica também as carreiras de seus servidores.

Ele informou que a proposta conta com amplo apoio nas categorias de base dos policiais civis e militares. Uma pesquisa realizada com 65 mil trabalhadores detectou que 70% deles apoiam a iniciativa. Entretanto, ele ressaltou que o projeto sofre oposição por parte de delegados e oficiais e não encontra respaldo junto ao governo federal.

Para o antropólogo, a PEC resolveria injustiças que identifica em relação aos próprios policiais. Ele considera que os policiais militares estão sujeitos a uma dura disciplina e a um rigoroso código de comportamento — que os impede até de formar organizações coletivas e emitir opiniões. Luiz Eduardo citou casos em que policiais foram presos em quartéis por pautar debates sobre mudanças na categoria.

“Eles se sentem revoltados com essa situação. Então quando lhes pedimos respeito aos direitos humanos, eles não entendem do que estamos falando. Essa não é a realidade em que vivem, não é assim que são educados”, justifica.

Além disso, ele explica que as carreiras das polícias não favorecem o crescimento profissional das categorias da base. “Quem entra na Polícia Militar, com muita sorte, pode se tornar sargento em 20 anos. Na Policia Civil, uma pessoa com 22 anos, recém formada em direito, que não entende nada de segurança pública e de gestão, pode fazer um concurso e se tornar delegado, chefiando 30 servidores que estão há mais de 20 anos na área”, resume.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fonte de ódio entre policiais e manifestantes “está longe” dos protestos

Para Luiz Eduardo Soares, as manifestações deste ano no Brasil foram positivas. Em entrevista coletiva antes da palestra, ele disse à jornalistas que houve uma tática adotada pelos políticos e por parte da mídia para dividir os manifestantes entre os considerados bons e os considerados vândalos. Ele entende que alguns ativistas “morderam essa isca” e isso acabou dificultando a adesão da maioria da população aos protestos.

Sobre a repressão policial identificada durante os atos, ele entende que se trata de algo anterior às manifestações. “Muitas vezes a gente vê o manifestante com ódio do policial e o policial com ódio do manifestante, quando a fonte do ódio de ambos está longe dali”, disse. Para o antropólogo, as condições do conflito gerado entre ambas as partes “geram sua própria história e produzem sua própria dor”, criando “situações ardilosas” para manifestantes e policiais.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

“Estamos enjaulando jovens negros e pobres com uma voracidade feroz”

Luiz Eduardo Soares defende o fim da política de guerra às drogas e do proibicionismo em relação a substâncias atualmente consideradas ilícitas. Ele apontou que esse é um dos principais fatores responsáveis pelo crescimento da população carcerária do Brasil – a quarta maior do mundo, estimada em mais de 550 mil pessoas.

“Tínhamos 140 mil presos na metade dos anos 1990. Hoje temos 550 mil. Quem está preso? O jovem negro e pobre. Estamos enjaulando jovens negros e pobres com uma voracidade feroz”, lamentou.

O especialista sustenta que a prisão de jovens ligados ao que chama de “varejo do tráfico de drogas” é a solução mais simples encontrada por governantes e pelo aparato de segurança pública para responder às pressões da classe média e da mídia por “menos impunidade e mais segurança”. “A mídia cobra os governos baseada nos problemas da classe média, esse é o recorte”, assegura.

Segundo ele, o proibicionismo em relação às drogas e a atual formatação das forças de segurança geram enorme discriminação social e racial no país. “A proibição das drogas, conectada com nosso modelo policial, constitui um núcleo de reprodução de desigualdades e do racismo no Brasil. Não há situação em que o racismo seja mais pronunciável no país do que na segurança pública”, critica.

Ruralistas instalam comissão da PEC 215 sob protestos de índios e conivência do governo (Instituto Socioambiental)

11/12/2013 – 01h11

por Oswaldo Braga de Souza, do ISA

indios Ruralistas instalam comissão da PEC 215 sob protestos de índios e conivência do governo

Índios protestam em sala onde ruralistas instalaram comissão especial da PEC 215 | Luís Macedo – Agência Câmara

Planalto faz vista grossa de manobra do presidente da Câmara e de ruralistas para instalar colegiado. Defensores de direitos indígenas serão minoria em comissão.

A Câmara dos Deputados instalou, ontem à noite, a comissão especial que vai analisar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que transfere do governo federal para o Congresso a atribuição de aprovar a demarcação de Terras Indígenas (TIs) e a criação de Unidades de Conservação (UCs). Se aprovado, na prática o projeto deverá paralisar os processos de formalização de áreas protegidas.

A comissão foi instalada pelos próprios ruralistas, em clima tenso e sob protestos de índios dentro do Congresso. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), autorizou o funcionamento do colegiado mesmo sem a indicação formal de um presidente, de um relator e dos representantes do PT, PV e PSB. A articulação política do Planalto fez vista grossa da manobra.

Alves tomou a decisão depois de uma reunião com os ruralistas, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Mesmo depois de Cardozo reafirmar que a PEC é inconstitucional, o Planalto não acionou sua base parlamentar para barrar a ação do presidente da Câmara e dos ruralistas.

“O governo está completamente desarticulado e conivente”, criticou o deputado Padre Ton (PT-RO), presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Indígenas. Ele sugere que Cardozo também não fez nenhuma articulação para tentar se contrapor à bancada da agropecuária. “O PT tem toda a força, 89 deputados. Se ele quisesse, poderíamos colocar o presidente contra a parede”, afirma Padre Ton.

A reunião para a eleição do presidente e do relator da comissão foi convocada para hoje à tarde. Padre Ton defende que o PT não indique seus representantes para tentar impedir o início dos trabalhos. Há divergências dentro do partido sobre a melhor a estratégia a seguir, mas a tendência é que a legenda aceite indicar seus representantes e o presidente. O nome cotado para assumir o cargo é o do deputado Afonso Florence (PT-BA). O provável relator seria Osmar Serraglio (PMDB-PR), que já produziu um parecer favorável à proposta na Comissão de Constituição e Justiça.

A perspectiva é de aprovação da PEC 215. Dos 22 titulares do colegiado, a estimativa é que não mais do que seis seriam contra a proposta. Se referendado na comissão, o projeto segue ao plenário da Câmara, onde precisar ser aprovada em dois turnos, e depois vai ao Senado.

A instalação da comissão é um compromisso de campanha fechado por Alves com os ruralistas. O presidente da Câmara chegou a defender, durante o dia, o adiamento da instalação do colegiado diante das divergências sobre o assunto. Os ruralistas não tomaram conhecimento da posição e instalaram a comissão por volta das 21h.
“É a terceira vez que Henrique Alves declara guerra aos índios para chantagear o governo a favor dos ruralistas. Está acirrando o conflito para o ano da Copa e das eleições”, afirma Márcio Santilli, sócio fundador do ISA.

Em abril deste ano, Alves firmou um acordo para adiar a instalação da comissão depois que um grupo de índios ocupou o plenário da Câmara. Ele criou um grupo de trabalho formado por líderes indígenas, ruralistas e defensores dos direitos indígenas. Os ruralistas recusaram-se a participar do trabalho e o grupo elaborou um parecer contrário à PEC 215. Mesmo assim, Alves concordou em criar a comissão especial (saiba mais).

Durante a Mobilização Nacional Indígena, que ocorreu na primeira semana de outubro, a presidenta Dilma Rousseff chegou a divulgar que orientaria sua base parlamentar para votar contra a PEC 215.

* Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental.

Violência no futebol: sobre a briga entre torcedores do Vasco e do Atlético Paranaense na Arena Joinville

10/12/13 04:00 Atualizado em 10/12/13 10:50 

Leone Mendes, o brutamonte da barra de ferro, era da banda da igreja e é dono de barbearia (Extra)

Wilson Mendes

Leone preso na Delegacia de Joinville Foto: Terceiro / Divulgação Polícia Civil de SC

Para os moradores de Austin, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, as cenas de selvageria protagonizadas pelo vascaíno Leone Mendes da Silva, de 23 anos, não combinam com o descontraído e pacato barbeiro do bairro, ex-saxofonista da banda da igreja evangélica local.

— Ele sempre torceu pelo Vasco, mas esse fanatismo aumentou com o tempo. Eu sempre falando: “Meu filho, larga isso de jogo, de torcida”. Mas nunca pensei que ele faria uma coisa dessas. Eu preciso que ele me explique o que aconteceu lá. Ele é um rapaz bom — avaliou, entre lágrimas, Cleuza Mendes da Silva, de 48 anos, mãe de Leone. Eles ainda não se falaram depois da prisão.

Solteiro e filho único, é o barbeiro quem sustenta a casa, construída no mesmo terreno utilizado por outros parentes. A braçadeira de capitão do lar foi transferida em definitivo há cerca de três anos, depois que ele terminou o Ensino Médio e Cleuza sofreu um derrame.

Leone com a barra de ferro com a qual foi flagrado agredindo torcedores do Atlético-PR, um deles desacordado

Leone com a barra de ferro com a qual foi flagrado agredindo torcedores do Atlético-PR, um deles desacordado Foto: Giuliano Gomes / Folhapress

— Ele ajudou muito a mãe nessa época. Tantos remédios que comprou! — defende a tia, que não se identificou. Os vizinhos jogam no mesmo time da tia, numa tática de defesa calçada em rápidos elogios anônimos.

— Eu estou realmente surpresa. Ele foi aluno do meu marido, frequentou a minha casa e sempre foi uma ótima pessoa. Não sei o que aconteceu — diz a moradora da esquina.

O grupo de vizinhos da frente, incluindo um jovem devidamente uniformizado com a camisa da torcida organizada, garante que Leone nunca criou problemas nas partidas que acompanhou.

— Ele ia mais a jogos no Rio e São Paulo. Acho que longe assim esse foi o primeiro. Nunca ouvi dizer dele envolvido em briga. Nem machucado ele voltava — relatou um homem.

A mãe reclama de jogo sujo, e diz que fará de tudo para que as partidas com a Justiça seja disputadas em casa, no Rio de Janeiro.

— Eu não tenho dinheiro agora, mas se for preciso vendo até a casa. Eu quero que saibam que tenho ciência que o que ele fez foi errado. Não estou passando a mão na cabeça dele, mas ele tem 23 anos, emprego, carro e um salão. É trabalhador — desabafou Cleuza.

Cleusa, mãe de Leone, sofre com a prisão do filho

Cleusa, mãe de Leone, sofre com a prisão do filho Foto: Paulo Nicolella / Extra

De acordo com ela, os organizadores é que erraram ao deixar uma partida de futebol decisiva e com tantos torcedores acontecer sem apoio policial.

— Mostram ele, mas como pode milhares de pessoas juntas sem policiamento, sem segurança? O organizador desse jogo queria mesmo uma tragédia.

Enquanto o filho está detido na Penitenciária Regional de Joinville, aguardando os trâmites do processo que responde por tentativa de homicídio, a mãe reza.

— Eu oro que isso sirva para ele voltar para os pés do Senhor e para mim. Também peço que o jovem ferido fique bem, para dar paz à mãe dele, que está sofrendo tanto quanto eu. Porque houve má organização, mas nós que sofremos — arrematou.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/vasco/leone-mendes-brutamonte-da-barra-de-ferro-era-da-banda-da-igreja-e-dono-de-barbearia-11021154.html#ixzz2n6D55JxF

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10/12/13 04:00 

Diretoria do Vasco pagou aluguel de ônibus e deu desconto de 75% nos ingressos para a torcida (Extra)

Torcedor da organizada do Vasco segura um rival pelo calção

Torcedor da organizada do Vasco segura um rival pelo calção Foto: Pedro Kirilos

Por Bruno Marinho

A campanha que culminou com a queda do Vasco para a Série B este ano entrará negativamente para a história, assim como os episódios de violência protagonizados por sua principal torcida organizada. Tudo com a conivência da diretoria. O clube financia torcedores uniformizados subsidiando 75% do valor dos ingressos e ajudando também no transporte para as partidas como visitante. Foram justamente em duas partidas longe do Rio que as brigas ocorreram.

Domingo, cerca de 100 torcedores da principal facção vascaína partiram do Rio para Joinville, em dois ônibus. O ingresso, que estava sendo vendido por R$ 100, custou R$ 25 para os membros da organizada. O gasto com o aluguel do ônibus também é dividido. Neste fim de semana, um foi bancado pelos torcedores, o outro pelo Vasco.

Antes do conflito em Santa Catarina, o clube já tinha sofrido com o confronto entre torcedores rivais na partida contra o Corinthians, dia 25 de agosto. Na ocasião, o time perdeu quatro mandos de campo. Punição semelhante deverá se repetir por causa da briga generalizada de domingo, com a pena a ser cumprida nas primeiras rodadas da Segunda Divisão.

Procurada, a diretoria da Força Jovem Vasco, cujos integrantes foram flagrados pelas câmeras de TV na briga na Arena Joinville, se defendeu, mas admitiu que houve excessos.

— As imagens mostram que estávamos nos defendendo, com os torcedores do Atlético na área destinada aos vascaínos. Mas eu entendo que houve excessos, sim — disse Jean Santana, diretor financeiro da organizada.

Já a diretoria do Vasco não foi encontrada para comentar o financiamento à torcida. Manoel Barbosa, vice de patrimônio e responsável pela venda de ingressos, não atendeu as ligações. A assessoria de imprensa do clube também foi procurada. Ela informou que o Vasco repudia qualquer tipo de violência e que o clube ajudará no que for possível para que os culpados sejam punidos.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/vasco/diretoria-do-vasco-pagou-aluguel-de-onibus-deu-desconto-de-75-nos-ingressos-para-torcida-11020955.html#ixzz2n6ExOYcX

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10/12/13 05:00 

Primo de brigão da barra de ferro diz que advogado da Força Jovem alegará legítima defesa (Extra)

Leone com a barra de ferro com a qual foi flagrado agredindo torcedores do Atlético-PR, um deles desacordado

Leone com a barra de ferro com a qual foi flagrado agredindo torcedores do Atlético-PR, um deles desacordado Foto: Giuliano Gomes / Folhapress

Wilson Mendes

A defesa de Leone Mendes da Silva, de 23 anos, o vascaíno flagrado agredindo um torcedor do Atlético com uma barra de ferro, deve alegar que a ação foi por legítima defesa. A informação foi dada por um primo de Leone, que está acompanhando o caso. Leone está preso sob a acusação de tentativa de homicídio e será defendido pelo advogado da organizada Força Jovem.

— A torcida entrou em contato conosco oferecendo o serviço. Nós já tínhamos procurado um advogado, mas ele cobrou R$ 4 mil somente para ir até Santa Catarina fazer contato e buscar informações. Vamos esperar a definição da torcida para não termos que gastar tanto — disse.

A família espera que a defesa consiga libertá-lo com a justificativa de legítima defesa. Para eles, Leone entrou na briga para se defender de agressões e, como os vascaínos eram minoria, “utilizaram o que tinham em mãos”.

Até a tarde de ontem, nenhum parente de Leone havia recebido qualquer contato do Vasco com oferta de ajuda. Sem muitos recursos, eles depositam as esperanças no defensor da torcida organizada.

— Eles me explicaram que o que está pesando muito é a imagem dele batendo em um homem já caído. Mas, no meio da confusão, as pessoas não pensam direito — opinou o primo.

Leone, que tem uma barbearia em Austin, na Baixada Fluminense, deixou a casa da mãe com destino ao Sul às 19h de sábado, num ônibus fretado pela Força Jovem. O último contato com a família foi feito uma hora antes do jogo.

— Precisamos ir até lá. Ele não ligou para casa, está sem roupas e sem os documentos, que ficaram aqui na casa — diz o primo, revelando que outros parentes de Leone estão recebendo ameaças pelo Facebook: — Dizem que se ele voltar vão espancá-lo e atear fogo no salão dele.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/primo-de-brigao-da-barra-de-ferro-diz-que-advogado-da-forca-jovem-alegara-legitima-defesa-11021252.html#ixzz2n6FNONV2

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10/12/13 05:00 

Ministério Público do Rio pedirá suspensão da Força Jovem por três anos (Extra)

MP pedira a suspensão da torcida do clube carioca

MP pedira a suspensão da torcida do clube carioca Foto: Pedro_Kirilos

Paolla Serra

A Força Jovem está com os dias contados nos estádios. Horas depois da briga generalizada que deixou quatro torcedores internados após ficarem feridos durante a partida entre Atlético Paranaense e Vasco, na Arena Joinville, o Ministério Público promete uma medida drástica em relação a torcida organizada carioca. Nos próximos dias, o promotor de Justiça Paulo Sally irá pedir que a Força Jovem do Vasco (FJV) fique impedida de ir aos estádios por três anos.

De acordo com Sally, o MP do Rio e o de Santa Catarina estão fazendo uma ação conjunta para evitar que cenas como a de anteontem, consideradas por ele como “terríveis”, se repitam. O promotor informou que aguarda apenas as documentações referentes às prisões para dar entrada no pedido para afastar a Força Jovem dos jogos. Ele informou ainda que os promotores catarinenses também irão tomar medidas em relação a Fanáticos, uniformizada do Atlético-PR.

Paulo Sally, da 4ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do Consumidor e do Contribuinte da Capital, afirmou ainda que as duas torcidas já eram alvos de investigações do órgão. A FJV deixou de cumprir obrigações, inclusive, como entregar os nomes de seus componentes do grupo antes do jogo.

O promotor tomará como base o artigo 39 do Estatuto do Torcedor, que prevê que a torcida organizada “que, em evento esportivo, promover tumulto; praticar ou incitar a violência; ou invadir local restrito aos competidores, árbitros, fiscais, dirigentes, organizadores ou jornalistas será impedida, assim como seus associados ou membros, de comparecer a eventos esportivos pelo prazo de até 3 (três) anos”.

— O relatório das prisões e outros documentos serão importantes e vão dar alicerce a punição que será dada a Força Jovem — disse Sally.

Contra a Justiça não há Força.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/vasco/ministerio-publico-do-rio-pedira-suspensao-da-forca-jovem-por-tres-anos-11021128.html#ixzz2n6FrGApL

Uniformizadas do Corinthians se mobilizam para afastar vândalos da frente do Itaquerão (Terra)

Por Luciano Borges

Em 24/06/2013

“Aviso” de corintianos que está circulando na internet

As torcidas uniformizadas do Corinthians estão mobilizadas desde a semana passada. Motivo: o temor de que manifestações organizadas na zona leste parem ou passem na porta das obras onde está sendo construído o Itaquerão, estádio do clube paulista, que será sede da partida de abertura da Copa do Mundo  de 2014. 

Na última quinta-feira, um grupo de manifestantes ficou na porta do estádio e gritou palavras de ordens contra o dinheiro gasto na organização da Copa do Mundo de 2014. Foi um ato pacífico, que pegou os uniformizados de surpresa.

Já na sexta-feira, avisada por corintianos da zona leste, a Gaviões da Fiel decidiu “proteger” o Itaquerão de possíveis ações de vandalismo. “Como começaram os atos de vandalismo, isso preocupou a torcida. Somos favoráveis às manifestações, mas não aceitamos que queiram depredar uma propriedade particular como é nosso estádio”, disse Alex da Matta, integrante da área de comunicação da Gaviões.

Rapidamente, os uniformizados entraram em ação. Oficialmente, organizaram um churrasco na porta da futura arena. Na prática, montaram um cordão na porta da obra em Itaquera.

Junto com outras torcidas (Camisa 12, Pavilhão Nove, Estopim da Fiel, Coringão Chopp e Fiel Macabra), eles saíram da sede social e seguiram de metrô até Itaquera. Cerca de dois mil torcedores se prepararam para qualquer confronto.

Os torcedores se reuniram ainda no final da tarde da sexta-feira Foto: Gaviões da Fiel

Não foi preciso. Informantes munidos de rádios e telefones celulares participaram da manifestação que começou no Tatuapé e informavam quais as intenções dos líderes da passeata. Ficou claro que o Itaquerão não estava no roteiro. Ficou apenas o churrasco.

Mesmo assim, neste domingo, a diretoria da Gaviões conversou com líderes de movimentos sociais da Zona Leste de São Paulo. Queria garantia de que a integridade da obra seria mantida. Mesmo com o compromisso de que futuros protestos nas ruas da região não vão passar pelo Itaquerão, os alvinegros continuam atentos.

Um comunicado oficial emitido pela Gaviões no site e nas mídias sociais explica a posição da torcida. E, na Internet, um cartaz mostra bem a disposição de avisar que o Itaquerão é intocável.

Posicionamento sobre os protestos em nosso Estádio

Os Gaviões da Fiel desde os primeiros protestos se posicionou a favor dos verdadeiros movimentos que reivindicam mudanças absolutamente necessárias para o bem do nosso país. Não poderia ser de outra forma, esta é uma marca da nossa agremiação desde a sua fundação.

Porém, desde a última semana circulavam alguns boatos e notas via internet que haveria protestos relacionados à construção do Estádio em Itaquera, logo, entramos em contato com vários movimentos e nenhum deles se posicionou como organizadores do ato.

Sendo assim não apenas os Gaviões, como as outras organizadas do Sport Club Corinthians Paulista se mobilizaram para ir ao estádio com a preocupação de possíveis ações oportunistas. Neste domingo dia 23/06 alguns movimentos (dos quais preservaremos suas posições) entraram em contato conosco e passaram uma posição sobre possíveis manifestos na região da Zona Leste de São Paulo, dialogamos e chegamos num consenso a respeito da região do Estádio.

 Isso não quer dizer que no futuro próximo algum grupo sem uma posição oficial, diferente de tais movimentos organizados, não possa agir por conta própria, ou até mesmo outros grupos oportunistas. Mas estaremos de olho.

Mais uma vez deixamos bem claro que o Estádio em Itaquera é propriedade particular do Sport Club Corinthians Paulista, não entraremos em questões desnecessárias, pois sabemos que o clubismo de rivais fala mais alto do que o bom senso. 

Os Gaviões jamais aceitaria que ações que prejudicassem a população do nosso país fossem necessárias para alcançar um patrimônio do qual a sua falta nunca influenciou em nossas conquistas e glórias.

Temos a consciência que juntamente com a construtora o Corinthians pagará o valor do financiamento, já que no dia 4 de junho de 2013, o Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou o Parque São Jorge como garantia financeira para o banco Caixa Econômica solicitar o empréstimo ao BNDS.

A mesma instituição financeira realizou o levantamento e constatou que o terreno oferecido como garantia vale em torno de R$ 1,2 bi. A outra parte do valor da obra será pago através de certificados de Incentivo ao desenvolvimento emitido pela Prefeitura de São Paulo. A emissão de certificados de Incentivo ao desenvolvimento para a construção do estádio corresponde a uma lei municipal de incentivo ao desenvolvimento que é aplicada a qualquer investimento na Zona Leste da cidade de São Paulo, e não consiste em dinheiro que o governo irá pagar diretamente. Junto a isto, contará com patrocínios.

Portanto não aceitaremos de forma alguma que o nosso futuro estádio possa ser alvo de possíveis atos sem preocupações éticas. 

Com relação à Copa do Mundo e outros seguimentos, os Gaviões continuarão apoiando toda e qualquer forma de protestos que contribuam verdadeiramente para o bem do povo Brasileiro, e contribuirá para que a sujeira que toma conta do nosso país seja limpa e que o nosso futuro realmente espelhe a nossa grandeza. Gaviões da Fiel Torcida uma Família que Defende o Coringão.

One Percent of Population Responsible for 63% of Violent Crime, Swedish Study Reveals (Science Daily)

Dec. 6, 2013 — The majority of all violent crime in Sweden is committed by a small number of people. They are almost all male (92%) who early in life develops violent criminality, substance abuse problems, often diagnosed with personality disorders and commit large number non-violent crimes. These are the findings of researchers at Sahlgrenska Academy who have examined 2.5 million people in Swedish criminal and population registers.

In this study, the Gothenburg researchers matched all convictions for violent crime in Sweden between 1973 and 2004 with nation-wide population register for those born between 1958 to 1980 (2.5 million).

Of the 2.5 million individuals included in the study, 4 percent were convicted of at least one violent crime, 93,642 individuals in total. Of these convicted at least once, 26 percent were re-convicted three or more times, thus resulting in 1 percent of the population (23,342 individuals) accounting for 63 percent of all violent crime convictions during the study period.

“Our results show that 4 percent of those who have three or more violent crime convictions have psychotic disorders, such as schizophrenia and bipolar disorder. Psychotic disorders are twice as common among repeat offenders as in the general population, but despite this fact they constitute a very small proportion of the repeat offenders,” says Örjan Falk, researcher at Sahlgrenska Academy.

One finding the Gothenburg researchers present is that “acts of insanity” that receive a great deal of mass media coverage, committed by someone with a severe psychiatric disorder, are not responsible for the majority of violent crimes.

According to the researchers, the study’s results are important to crime prevention efforts.

“This helps us identify which individuals and groups in need of special attention and extra resources for intervention. A discussion on the efficacy of punishment (prison sentences) for this group is needed as well, and we would like to initiate a debate on what kind of criminological and medical action that could be meaningful to invest in,” says Örjan Falk.

Studies like this one are often used as arguments for more stringent sentences and US principles like “three strikes and you’re out.” What are your views on this?

“Just locking those who commit three or more violent crimes away for life is of course a compelling idea from a societal protective point of view, but could result in some undesirable consequences such as an escalation of serious violence in connection with police intervention and stronger motives for perpetrators of repeat violence to threaten and attack witnesses to avoid life sentences. It is also a fact that a large number of violent crimes are committed inside the penal system.”

“And from a moral standpoint it would mean that we give up on these, in many ways, broken individuals who most likely would be helped by intensive psychiatric treatments or other kind of interventions. There are also other plausible alternatives to prison for those who persistently relapse into violent crime, such as highly intensive monitoring, electronic monitoring and of course the continuing development of specially targeted treatment programs. This would initially entail a higher cost to society, but over a longer period of time would reduce the total number of violent crimes and thereby reduce a large part of the suffering and costs that result from violent crimes,” says Örjan Falk.

“I first and foremost advocate a greater focus on children and adolescents who exhibit signs of developing violent behavior and who are at the risk of later becoming repeat offenders of violent crime.”

Journal Reference:

  1. Örjan Falk, Märta Wallinius, Sebastian Lundström, Thomas Frisell, Henrik Anckarsäter, Nóra Kerekes. The 1 % of the population accountable for 63 % of all violent crime convictionsSocial Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 2013; DOI: 10.1007/s00127-013-0783-y

Guaranis desmentem livros e revelam nova história (A Nova Democracia)

Ano VI, nº 40, fevereiro de 2008

Rosana Bond

Os guaranis, que por muito tempo observaram o passado de seu povo ser escrito e deturpado pela ideologia das classes dominantes, decidiram dar um basta e tomar nas mãos a tarefa de desmentir os livros e contar sua própria História.

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— Chegou a hora de a sociedade não-indígena do Brasil conhecer a verdade, ninguém pode continuar pensando que perdemos a memória — afirma Werá Tupã (Leonardo), da aldeia do Morro dos Cavalos, SC, tido como um dos mais destacados intelectuais indígenas do sul do país.Ele faz parte de um grupo de guaranis que vem pesquisando fatos históricos e episódios lendários com o objetivo de reapresentá-los ao povo brasileiro de um modo diferente daquele com que foi narrado pelo pensamento reacionário. Um dos temas, cujo estudo demorou anos e ainda não está totalmente concluído, é a verdadeira história de Sepé Tiarajú.

Sepé foi um dos maiores guerreiros indígenas do sul do país, líder da resistência dos Sete Povos das Missões (RS) contra tropas espanholas e portuguesas, na chamada Guerra Guaranítica, de 1753 a 1756. Essa guerra foi abordada (de maneira fantasiosa e truncada) no filme A Missão, com Robert de Niro e Jeremy Irons, em 1986. Tal rebelião foi consequência do Tratado de Madri, pelo qual Portugal e Espanha trocaram entre si os Sete Povos das Missões, sob domínio espanhol, pela Colônia do Sacramento, sob domínio lusitano. O acordo obrigava os 30 mil guaranis e os jesuítas das sete reduções a abandonarem o Rio Grande do Sul e passarem ao território castelhano, no outro lado do rio Uruguai.

A Companhia de Jesus, chefia jesuíta na Europa, ordenou a mudança, mas os guaranis não aceitaram. Sepé liderou a resistência e em carta à Coroa de Espanha deu o famoso aviso: “Esta terra tem dono!”.

ARMAS DE CANA BRAVA

Sepé articulou uma espécie de Confederação Guaranítica, criando inovadoras táticas militares para a época, nas quais priorizava a guerrilha e evitava grandes batalhas. Chegou a idealizar e construir quatro peças de artilharia, confeccionadas com cana brava. Foi assassinado numa emboscada, por soldados espanhóis e portugueses, nos campos de Caiboaté, às margens da Sanga da Bica, em 7 de fevereiro de 1756.

O bravo e exemplar Sepé Tiarajú transformou-se num símbolo para os gaúchos. Há um rio e um município com seu nome e, em Santo Ângelo, uma estátua no centro da cidade. Os guaranis não vêem problema nisso, mas há uma questão de fundo que parece lhes desgostar e incomodar há muito tempo. Que é a “desindianização” de Sepé.
A História escrita pela cartilha das classes exploradoras e da igreja católica apossou-se da figura heróica, metamorfoseando-a quase num branco que era índio por acaso.

Os livros falam que ele “abraçou a doutrina cristã” e foi “o mais ardoroso defensor da obra dos jesuítas”; que “seus mestres foram os padres”; que ele lutou “sugestionado pelos religiosos”; que “era índio missioneiro, provavelmente já cristão de terceira geração”; que alguns padres foram “os principais estrategistas da resistência”; que, órfão de pai e mãe, “foi criado pelos jesuítas”; Werá Tupã discorda de tudo isso. Os livros erram até numa informação básica, sobre sua origem. Numa revelação inédita e surpreendente, Werá diz que Sepé não era guarani. E sim pertencia a “um outro povo indígena que não conseguimos identificar. Ele foi adotado pelos guaranis e criado como um dos nossos”.

A pesquisa a respeito de Sepé baseou-se na história oral, preservada na memória de índios centenários que viveram no Rio Grande do Sul, entre eles a velha xamã Tatãty Yva Rete (Maria Candelária Garay), apontada por antropólogos da Universidade Federal de Santa Catarina (UF SC) e PUC de São Paulo como uma das lideranças femininas mais importantes e respeitadas da tribo. Nascida aproximadamente em 1874, Tatãty foi avó adotiva de Werá Tupã.

A verdadeira história de Sepé Tiarajú

[ele] não era um cristão mesmo, como dizem, porque na verdade ele respeitava mais a religião do avô, a religião do nosso povo. Karaí Djekupé foi e continua sendo um grande herói dos guaranis

O AND foi escolhido pelos guaranis para ser o primeiro órgão de comunicação dos djuruá (não-índios) a tomar conhecimento do conteúdo do estudo, que poderá se transformar em breve num livro. Eis um resumo, contado por Werá Tupã:

“Ao contrário do que se diz, Sepé não era guarani. Ele nasceu em outro povo indígena, que não conseguimos identificar. Quando ele tinha dois anos de idade, sua aldeia, que ficava no Rio Grande do Sul, foi atacada por portugueses ou espanhóis. Os guaranis correram para ajudar, mas o lugar já tinha sido invadido e quase todos tinham sido massacrados.

Os guaranis salvaram o menino e o levaram para uma aldeia nossa, perto da missão de São Miguel. Um casal adotou ele. O avô da família era um pajé muito poderoso e o menino adorava ele. Uma coisa que quase ninguém sabe é que o nome certo dele não era Sepé Tiarajú. Esse era o jeito que os padres das missões entenderam e escreveram.

Seu nome era Djekupé A Djú, que significava “Guardião de Cabelo Amarelo”. “Guardião” porque era um guerreiro e “cabelo amarelo” porque não tinha o cabelo bem preto como os guaranis, era meio castanho. Mas era índio mesmo, não mestiço.

Quando o menino começou a crescer, pensaram que ia ser um pajé, um religioso, e ele começou a ser preparado para isso. Mas seu outro lado, de guerreiro, foi mais forte e aí mudou o seu destino. Recebeu nome de guerreiro, Djekupé A Djú. E também era chamado pelos guaranis de Karaí Djekupé, “Senhor Guardião”.

O destino de guerreiro foi porque ele era revoltado com os brancos e tinha gratidão pelos guaranis. Queria lutar pelos guaranis. É que, na aldeia, nunca esconderam dele a sua história, tudo que tinha acontecido no ataque.

Os jesuítas não criaram ele, mas ia sempre nas missões porque os padres davam apoio na defesa e ele ficava uns tempos lá. Foi assim que aprendeu a língua espanhola.

Os padres não treinaram ele, foi preparado sim pelo grande exército guarani, os “kereymba” [pronuncia-se “krimbá”]. Era um ótimo guerreiro.

Além do mais, tinha facilidade para conversar com os homens brancos, uma coisa que os outros guerreiros não tinham aptidão para fazer. Djekupé A Djú lutava, fazia de tudo para que as aldeias guaranis não fossem perturbadas. Principalmente porque ele pensava no seu avô, não queria que nada atrapalhasse a preparação espiritual do seu avô [Werá não entrou em detalhes, mas é possível supor que, de acordo com a tradição, o velho pajé se preparava espiritualmente para “viajar” à Terra Sem Mal, a Yvy Mara Ey, uma espécie de paraíso, que segundo o mito pode ser alcançado em vida ou após a morte].

Por aí se vê que Djekupé A Djú podia se relacionar com os jesuítas, mas não era um cristão mesmo, como dizem, porque na verdade ele respeitava mais a religião do avô, a religião do nosso povo. Karaí Djekupé foi e continua sendo um grande herói dos guaranis e esta é a sua verdadeira história”.

Estudos históricos e antropológicos vêm indicando, cada vez mais, que a falada conversão dos guaranis ao cristianismo, nas reduções jesuíticas, foi talvez mais aparente que real. Esses indígenas não se recusavam ao batismo e às missas, muitas vezes por apreciarem a estética dos rituais e para não desgostarem os padres.

Um sinal disso pode ser a não permanência da religião. O número de guaranis católicos, hoje, é ínfimo. Tem havido “ataques” de seitas protestantes às aldeias e muitos frequentam os cultos. Mas ainda não se pode avaliar a verdadeira dimensão do prejuízo cultural, pois os guaranis parecem possuir uma auto-defesa eficiente, baseada no ato de “desviar-se”, com extrema diplomacia, que ilude inteligentemente os desavisados.

Patrick Lane: An open letter to all the wild creatures of the Earth (Times Colonist)

PATRICK LANE / TIMES COLONIST

DECEMBER 2, 2013 02:39 PM

Patrick Lane speaks at UVic's convocation ceremony.

Photograph by: University of Victoria

Victoria poet Patrick Lane received an honorary doctor of letters degree from the University of Victoria on Nov. 13. Lane, who has won the Governor General’s Literary Award and numerous other honours, has written 25 volumes of poetry, as well as fiction and non-fiction. He is known for what the university called the “gritty honesty” of his style. In keeping with his unique voice, his convocation speech was moving and powerful. Here is the text of his speech.

It is 65 years ago, you’re 10 years old and sitting on an old, half-blind, grey horse. All you have is a saddle blanket and a rope for reins as you watch a pack of dogs rage at the foot of a Ponderosa pine.

High up on a branch, a cougar lies supine, one paw lazily swatting at the air. He knows the dogs will tire. They will slink away and then the cougar will climb down and go on with its life in the Blue Bush country south of Kamloops. It is a hot summer day. There is the smell of pine needles and Oregon grape and dust. It seems to you that the sun carves the dust from the face of the broken rocks, carves and lifts it into the air where it mixes with the sun. Just beyond you are three men on horses.

The men have saddles and boots and rifles and their horses shy at the clamour of the dogs. The man with the Winchester rifle is the one who owns the dog pack and he is the one who has led you out of the valley, following the dogs through the hills to the big tree where the cougar is trapped. You watch as the man with the rifle climbs down from the saddle and sets his boots among the slippery pine needles. When the man is sure of his footing he lifts the rifle, takes aim, and then … and then you shrink inside a cowl of silence as the cougar falls.

As you watch, the men raise their rifles and shoot them at the sun. You will not understand their triumph, their exultance. Not then. You are too young. It will take years for you to understand. But one day you will step up to a podium in an auditorium at a University on an island far to the west and you will talk about what those men did. You know now they shot at the sun because they wanted to bring a darkness into the world. Knowing that has changed you forever.

Today I look back at their generation. Most of them are dead. They were born into the first Great War of the last century. Most of their fathers did not come home from the slaughter. Most of their mothers were left lost and lonely. Their youth was wasted through the years of the Great Depression when they wandered the country in search of work, a bed or blanket, a friendly hand, a woman’s touch, a child’s quick cry. And then came the Second World War and more were lost. Millions upon millions of men, women, and children died in that old world. But we sometimes forget that untold numbers of creatures died with them: the sparrow and the rabbit, the salmon and the whale, the beetle and the butterfly, the deer and the wolf. And trees died too, the fir and spruce, the cedar and hemlock. Whole forests were sacrificed to the wars.

Those men bequeathed to me a devastated world. When my generation came of age in the mid-century, we were ready for change. And we tried to make it happen, but the ones who wanted change were few. In the end, we did what the generations before us did. We began to eat the world. We devoured the oceans and we devoured the land. We drank the lakes and the seas and we ate the mountains and plains. We ate and ate until there was almost nothing left for you or for your children to come.

The cougar that died that day back in 1949 was a question spoken into my life, and I have tried to answer that question with my teaching, my poems and my stories. Ten years after they killed the cougar, I came of age. I had no education beyond high school, but I had a deep desire to become an artist, a poet. The death of the cougar stayed with me through the years of my young manhood. Then, one moonlit night in 1963, I stepped out of my little trailer perched on the side of a mountain above the North Thompson River. Below me was the sawmill where I worked as a first-aid man. Down a short path, a little creek purled through the trees just beyond my door. I went there under the moon and, kneeling in the moss, cupped water in my hands for a drink. As I looked up I saw a cougar leaning over his paws in the thin shadows. He was six feet away, drinking from the same pool. I stared at the cougar and found myself alive in the eyes of the great cat. The cougar those men had killed when I was a boy came back to me. It was then I swore I would spend my life bearing witness to the past and the years to come.

I stand here looking out over this assembly, and ask myself what I can offer you who are taking from my generation’s hands a troubled world. I am an elder now. There are times many of us old ones feel a deep regret, a profound sorrow, but our sorrow does not have to be yours. You are young and it is soon to be your time. A month ago, I sat on a river estuary in the Great Bear Rainforest north of here as a mother grizzly nursed her cubs. As the little ones suckled, the milk spilled down her chest and belly. As I watched her, I thought of this day and I thought of you who not so long ago nursed at your own mother’s breast. There, in the last intact rainforest on earth, the bear cubs became emblems of hope to me.

Out there are men and women only a few years older than you who are trying to remedy a broken world. I know and respect their passion. You, too, can change things. Just remember there are people who will try to stop you, and when they do you will have to fight for your lives and the lives of the children to come.

Today, you are graduating with the degrees you have worked so hard to attain. They will affect your lives forever. You are also one of the wild creatures of the Earth. I want you for one moment to imagine you are a ten-year-old on a half-blind, grey horse. You are watching a cougar fall from the high limb of a Ponderosa pine into a moil of raging dogs. The ones who have done this, the ones who have brought you here, are shooting at the sun. They are trying to bring a darkness into the world.

It’s your story now.

How do you want it to end?

© Copyright 2013

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Sua flecha é a palavra (Boletim da UFMG)

Nº 1845 – Ano 40
18.11.2013

Bárbara Pansardi

“Pra quem não me conhece, sou Davi Kopenawa, filho da Amazônia, que vive no meio da floresta.” As palavras simples e fortes do líder indígena são certeiras como uma flecha que acerta direto no coração – é o que ele mesmo diz. O xamã yanomami acredita que sua arma é a palavra, com a qual protege a floresta amazônica e os povos autóctones.

“Nós, Yanomami, somos guerreiros para defender nossos direitos, nosso povo, nossas crianças, nossa terra própria. Nossos antepassados não sabiam se defender, não sabiam brigar por não compreender a língua portuguesa”, explica o xamã e intérprete da Funai, que utiliza o idioma como instrumento político. “Eu não posso viver isolado. Meu povo yanomami já foi isolado. Hoje não, nós conversamos com políticos sobre o problema da nossa terra, da saúde”, afirma.

Sua mensagem é firme, mesmo quando sua expressão parece hesitar, revelando a cadência de quem não tem o português como língua materna. “Minha fala é diferente; não é fala de cidade, não. Eu falo sobre natureza, sobre meio ambiente, terra, sobre o que é bom pra nós todos”, justifica Kopenawa.

A convite do Programa Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), Davi veio à UFMG ensinar o que os napë [homem branco, não índio] parecem não saber. “Será que o homem não tem pensamento, não pensa em seu futuro, nas gerações que vão sofrer? Consciência dos napë é diferente da consciência indígena. Terra é nossa vida, sustenta a barriga, é nossa alegria”, alega, tecendo dura crítica às atividades econômicas que se valem da exploração das riquezas naturais.

Para Kopenawa, o problema gerado pelo homem branco com a extração dos recursos é incontornável, não há reflorestamento que o resolva. “Reflorestar não vai trazer ar limpo, não vai chamar a chuva; só miséria, fome, sofrimento”, afirma, fazendo uma analogia com as cicatrizes que se formam quando ferimos a pele, sobre as quais não voltam a nascer pelos. “Na terra, depois que corta, não cresce de novo, não nasce urihi [cobertura florestal], porque não tem força, não tem água lá embaixo. Derrama sangue da terra e ela fica seca, a água vai embora.”

Davi explica o que em sua filosofia indígena designa por “coração da terra”. De acordo com ele, trata-se de um processo cíclico segundo o qual a água é conduzida por caminhos subterrâneos que a elevam para que em seguida se precipite novamente, em movimento continuamente circular, como na corrente sanguínea. “Nós estamos circulando juntos”, acrescenta, esclarecendo que o coração humano pulsa sob mesmo ritmo. Homem e natureza, portanto, estão ligados. Então, “destruímos a nós mesmos ao devastar a terra; nosso coração bate junto com a hutukara, terra-mãe”.

Diferentes, porém complementares

O xamã acredita na capacidade de mobilizar os outros como multiplicadores de uma consciência ambiental renovada, e se alegra porque vê seu conhecimento reconhecido na esfera acadêmica. “Sou analfabeto, mas tenho saber tradicional. Eles estão me escutando e achando bom. Estão interessados, gostando muito. Eu também estou gostando. Venho para me aproximar do homem branco que nunca conheceu de mim e para conhecê-lo como amigo. Não índio também está reconhecendo minha imagem, minha fala, a experiência que eu tenho e aprendi desde pequeno.”

Entre os xamãs yanomami, boa parte dos saberes advêm do campo onírico. Os sonhos – muitas vezes associados ao transe induzido pelo sopro do pó de yãkoana [alucinógeno] – funcionam como revelações esclarecedoras. Os xapiri [espíritos] são os responsáveis por alumbrar as ideias e desvelar a sapiência do líder. Davi conta que ele próprio “sonha terra, floresta, chuva, trovão, tudo o que tem no universo”. Por isso, irrita-se com os antropólogos que, “como formigas, andam procurando sabedoria” e valem-se do conhecimento alheio. “Eu não quero antropólogo falso, que só quer trair o meu povo, que só quer aprender, tirar e copiar conhecimento yanomami”, revolta-se, em alusão à experiência com o americano Napoleon Chagnon, que trata os yanomami como ferozes e violentos.

No livro La chute du ciel, escrito em conjunto com o antropólogo francês Bruce Albert, Kopenawa conta que pediu ao xori [amigo] que o ajudasse. Como discordava dos pesquisadores que frequentavam sua aldeia e imputavam juízos sobre o modo de vida indígena, resolveu manifestar-se. “Quem vai falar sobre meu povo yanomami sou eu. Eu não sou antropólogo, mas Bruce me ajudou a escrever como no meu sonho, um sonho conhecimento. Eu queria escrever para os antropólogos da cidade, para mostrar como o Yanomami pensou. Esse livro é um mensageiro para entrar na capital. Antropólogo que não conhece índio, não conhece aldeia, não conhece mato vai ler. Esse livro foi escrito para fazer antropólogo respeitar. Foi muito bom pra mostrar minha capacitação, a capacidade que eu tenho de quem conhece rio, terra, mato”, relata.

Quanto à sua participação nas palestras ao longo da semana, o xamã mostrou-se alegre e satisfeito por cumprir a tarefa que lhe foi confiada pelos anciões. “Estou com orgulho de mim. Sou um yanomami em paz. Estou dizendo boas coisas pra eles [homens brancos] entenderem, pensarem e depois fazer respeitar. Nós somos povo indígena, guardião da terra; estamos aqui para proteger”, assevera.

A magia do crachá (Combate Racismo Ambiental)

25/11/2013 11:34

Sitio Pimental visto do km 52 da Rodovia Transamazônica. Os buracos gigantes nas rochas vão abrigar as turbinas da casa de força principal de Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA)

Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA)

Por Antônio Claret Fernandes, para Combate Racismo Ambiental

O Camponês se tornara operário da noite para o dia. Essa metamorfose aparentemente repentina se deu num processo mais longo, pela conjunção de dois elementos. O primeiro é o abandono histórico dos colonos na transamazônica e, o segundo, a propaganda das benesses nos canteiros de obra de Belo Monte.

O camponês, agora operário, trabalhara em toda a sua vida no cacau. Sua família viera do Paraná e se fixara na Transamazônica. Conquistara um lote de 100 hectares, o que daria para tocar a sua sobrevivência, mas fora pego de surpresa pela doença da mãe, e venderam a terra, o gadinho, tudo.

Nos tempos áureos do cacau, a meia foi um bom negócio. O colono tirava até 15 mil reais por ano. É claro que um proprietário de cacau, que tinha 400 mil pés e várias famílias de colonos, em situação quase análoga à escravidão, tirava muito mais.

O trabalho de meia tem um fator psicológico que interfere diretamente na produtividade. O meeiro se sente, via de regra, dono dos serviço; ele suga o próprio sangue, trabalha desde madrugada até a noite, envolvendo toda a família. A produtividade maior se dá à custa de uma jornada excessiva de trabalho, em condições precárias. A meia camufla a relação empregado/patrão.

O Cacau se espalhou em grande parte do Oeste do Pará, na transamazônica. Na região de Medicilândia, ele entrou como uma opção ao gado e ao canavial que crescia, a partir da falida usina de Pacal, graças à força da mobilização popular. Ele era uma opção de resistência ao agronegócio. Hoje, nem tanto! Além do próprio cacau estar na pauta do agronegócio, ele só se viabiliza com um alto grau de exploração da mão de obra. Isso explica a pendenga atual entre proprietário de cacau e Ministério do Trabalho, que veio impondo multas pesadas na região, exigindo carteira assinada, e levou a uma mobilização que parou a Transamazônica. Os proprietários, juntamente com alguns meeiros manipulados, preferem o contrato, que não assegura nenhum direito ao colono e o coloca 24 horas no cuidado da lavoura.

Esse é contexto histórico, de sofrimento e falta de perspectiva, que levou o camponês a tornar-se um operário em belo Monte. Ele entrou nessa onda, seguindo os passos de centenas senão milhares de outros, na sua maioria jovem, que migram do campo para a cidade à busca de dias melhore. O êxodo rural é intenso em toda a região da Transamazônica e do Xingu. Há lugares onde o campo se esvazia por completo, muitas comunidades já fecharam as portas, não há gente para tocar a já fragilizada agricultura familiar. Os jovens, com toda a sua energia para o trabalho e animação do ambiente, são empurrados para a cidade, restando, na roça, os velhinhos aposentados. Na primeira oportunidade, arranjam uma casinha na cidade e se mudam para lá, também, a busca de políticas públicas básicas, em especial atendimento à saúde, abrindo caminho para o fortalecimento do agronegócio.

Essa canga histórica sobre o pescoço do camponês, obrigando-o a passar quase uma vida inteira na meia de cacau, ou como diarista em terra alheia, hoje, no Xingu, badalam as propagandas das glórias de Belo Monte. Assemelha-se aos Lusíadas, de Camões, cantando as glórias de Portugal. Esse contraste entre falta de perspectiva no campo e portas que se abrem com o ‘caráter redentor’ de Belo Monte acaba atraindo muita gente. Lá no canteiro de obra, se diz, há gente como em formigueiro. O número chega hoje perto de 30 mil pessoas. Isso a princípio agrada a quem está cansado do isolamento lá no fundo do Travessão, até hoje sem estrada, sem escola, sem assistência à saúde, sem luz. Aquele lufa-lufa é tudo que o jovem quer experimentar, induzido pela curiosidade. Para ele, aquilo tudo, coisa tão nova na região, é um sonho, e soa mesmo como um progresso. De quebra, além da oportunidade de convivência com tantas pessoas de vários lugares, e de trabalhar numa das maiores obras do mundo, badalada em cada canto, ele terá a ocasião de divertir-se, na quadra de esportes, no bilhar e poderá, ainda, frequenta os bordéis, que são muitos aos redores dos canteiros.

O que mais contagia o camponês metamorfoseado em operário é o crachá. Já tinha visto nele algo de muito especial quando ficara no hospital do Câncer em Muriaé – MG, como acompanhante de sua irmã, acometida da doença. Com aquele papel plastificado, ele tinha acesso ao prédio, ao apartamento, ao refeitório. No ambiente de trabalho, porém, é a primeira vez que experimentava a magia do crachá. Muito cedo o percebeu, e passou a tratar o crachá como uma relíquia.

Antes, enquanto camponês, costumava persignar-se na hora de colocar a cabeça no travesseiro par dormir. Quando acordava, antes mesmo de descer os pés e firmá-los no chão, pensava no novo dia pela frente e, e, com o corpo ainda doído, respirava a esperança de um novo tempo, e orava. Agora, não! A primeira e a última coisa que tomava conta do seu pensamento, desde o levantar-se ao deitar-se, e nos momentos mais íntimos, era o crachá. Nalgumas vezes era pego batendo no peito, como a penitenciar-se, para certificar-se de que o crachá estava ali, dependurado ao pescoço. Para não esquecê-lo, por nada dessa vida, dormia com ele pregado ao uniforme cinza, com um broche resistente, comprado especialmente para esse fim.

O operário morava a 70 km de Pimental, um dos canteiros de Belo Monte. Por isso era obrigado a sair de casa às quatro horas da madrugada e retornava às 8 da noite. O cansaço era grande. Mas nem parava para pensar nisso. Estava, de fato, maravilhado. Mostrava o crachá, e o ônibus parava, abrindo-lhe a porta. Tinha ainda, por cima, as horas entinas, coisa que nunca tinha visto antes.

Em pouco tempo de operário, com a força do crachá, pode comprar uma moto nova, a prestação. Que bacana!, pensava. Na meia do cacau, qualquer coisa que quisesse comprar era com dinheiro vivo. Agora ele chegava a uma loja, com o uniforme cinzento escrito CCBM, e o crachá dependurado, e levava um par de coisas! Sentia-se uma pessoa integrada ao sistema, um consumidor.

O operário notava, por diversas vezes, que muitos de seus colegas, inebriados com a magia do crachá, se incorporavam um ar arrogante. Eram empregados, comumente peões de obra – pensava o operário -, mas tinham assimilado a arrogância dos capitalistas, e sua ideologia. Como a história do menino empobrecido que sentia uma imensa alegria por lavar o carro de seu primo enricado. Gastavam o dinheiro do Mês todo em uma festa apenas, ou nos bares e bordéis,aos finais de semana, meio abobados naquela ritmo novo de vida, e mangavam de seus antigos conhecidos, fora da obra. Por vezes passavam na rua, de crachá á vista, com o nariz empinado. Quando desciam do ônibus, com o uniforme marcado do sal, do suor de um dia árduo, esbarravam nos transeuntes, como se fossem eles, os operários, os donos das ruas de Altamira.

O operário, porém, não tinha esse comportamento. É verdade que andava, agora, de cabeça erguida, o seu semblante não revelava mais aquelas marcas sóbrias da humilhação, pois o camponês é um corpo estranho na cidade; sua cabeça erguida era de altivez, não de arrogância.

Em cinco meses de trabalho, a Norte Energia corta as horas entinas e obriga o confinamento dos trabalhadores. Os de Brasil Novo, mais distantes, foram os primeiros a perder esse direito. No início, o operário estranhou. Mas não tinha outra opção. Era voltar à meia de cacau, coisa para a qual já não tinha disposição, ou aceitar aquela nova condição. No caso dele, como era jovem e solteiro, não era um absurdo ficar confinado no canteiro, pensava.

Ninguém escaparia ao confinamento. Decisão da empresa é decisão, pois ela tem a força, ao menos por enquanto, para impor o que lhe interessa. Além do corte dos ônibus que buscavam trabalhadores em Brasil Novo e Vitória do Xingu, a empresa está promovendo a mudança de dez famílias por dia dos hotéis de Altamira para a chamada Vila dos Operários. E ela só admite um novo trabalhador com a condição de alojar-se no canteiro de obra. Até o final de dezembro de 2013, estarão todos confinados, ou na vila dos operários ou nos alojamentos.

O sentimento inicial de insegurança por morar num canteiro de obra e a saudade da família caíram por terra em pouco tempo. O ritmo louco de vida ali quebra tudo: os princípios, os costumes. O camponês metamorfoseado em operário chegou mesmo a pensar que as benesses prometidas por Belo Monte, e intensamente alardeadas, fossem mesmo tudo verdade. Lá, no canteiro, era como uma cidade: alojamento com ar condicionado, quatro operários em cada quarto, quadra de esportes, academia, uma pequena biblioteca – esta montada com doações dos próprios trabalhadores, o que achou um pouco estranho -, um salão ecumênico, bordéis à vontade e para todos os gostos.

O operário, mais que antes, sentia a magia do crachá. A uma simples apresentação, em qualquer repartição, a porta se abre, com exceção de espaços terceirizados, como a academia e os bordéis. Aí é só dinheiro vivo! Na hora marcada, e no refeitório indicado, os operários chegam correndo quanto suportam por causa do cansaço, tiram o crachá do pescoço, passam o código de barra numa máquina, e podem almoçar à vontade, como uma ração balanceada que lhe restaura a força física para mai s meio período de trabalho intenso, quase forçado.

Aquele entusiasmo inicial, porém, veio tão rápido como tão rapidamente foi cedendo lugar a um sentimento de monotonia e desumanização. Mais do que cansaço, pois isso ele sentia na meia de cacau e quando ia todos os dias á casa, chegando às 8 da noite e saindo às quatro da madrugada. Era algo diferente. Era uma desumanização, um embrutecer-se, um sentir-se peça de uma imensa engrenagem, doida e maluca, que gira dia e noite engolindo tudo que encontre pela frente. Uma coisa totalmente sem sentido. Na hora que ia para o alojamento, apesar do corpo moído e tonto de tanto trabalho, o sono já não vinha tão rápido. Nos primeiros dias ele caía na cama como um morto. Passava um tempo, dez minutos que fossem, pensando. Como é bom pensar! Mais do que nunca, tão sem tempo andava, sentia o gosto de ser gente, refletindo. Imaginava aquelas máquinas imensas, centenas, milhares, roncando dia e noite canteiro de obras afora. A pá-carregadeira, trator de esteira, aqueles caminhões cujos pneus são agigantados, os guindastes lá nas alturas, toda aquela força bruta tinha o dedo, o suor, o sangue dos operários. A desolação, a raiva, e muita indignação iam tomando conta de sua consciência. Dentro de si, notava que o operário crescia e o camponês ia diminuindo, até, provavelmente, desaparecer por completo.

Na meia de cacau, ainda se lembrava, ele persignara-se tantas vezes pedindo a Deus que o livrasse dos bichos maus peçonhentos, e o abençoasse buscando forças, sei lá onde, para que ele mesmo sugasse a sua última gota de sangue, até esgotar-se. Depois descobrira a magia do crachá, que ocupara o lugar da reza, e lhe garantia, por milagre, o transporte, a comida, o crédito. Com o crachá começara a sentir-se gente. Agora era invadido por uma contradição terrível. Buscara a liberdade, experimentara-a, inicialmente, mas agora via sua vida, e de tantos, afundar-se numa escravidão terrível, mais sofisticada que na meia de casal, e, por isso, mais cruel. E nem tinha ânimo nem coragem de rezar a Deus e de livrá-lo da realidade terrível do ‘risco quatro’ que assinara no seu processo de admissão ao trabalho em Belo Monte. Risco quatro significa risco de morte! O grande deus era o império econômico bem à sua frente, ditando as regras do mundo.

Para além da magia do crachá, esse novo sentimento o ocupava por inteiro.  Na imaginação, no momento de insônia, ele olhava a máquina, lhe apertava o botão, movia-a, na leveza da tecnologia, da fina flor do capitalismo, empurrando de uma só vez dezenas de toneladas de pedra como se tivessem o peso de uma folha de papel, e sentia sua força agigantar-se no poder da máquina criada pela inteligência da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, sentia-se uma peça provisória, descartável, daquela máquina poderosa. A peça mais importante e, ao mesmo tempo, a mais depreciada, desgastada, lançada fora, com tanta oferta no mercado de Altamira, vinda maltrapilha de todas as regiões do Brasil.

O crachá continuava extremamente importante, pois lhe garantia o acesso ao ambiente de trabalho, ao alojamento, ao refeitório. Num acordo com a gerência, dentro de um Plus conquistado a partir das hidrelétricas do Madeira, o pagamento no bordel podia ser mensal, e sem crachá, para se evitarem problemas.

No dia 7 de setembro, quando soube que um colega seu ia celebrar no espaço ecumênico do Pimental, ascendeu-se uma luzinha no fundo de sua contradição. Conhecia-a o bem e não era possível que ele fosse ali para abençoar aquela máquina de moer gente. Que decepção! Quanta descoberta! Uma segurança, de uniforme azul e tarja amarela, rodou o tempo todo, com arma na cintura, em torno do espaço da celebração. Às vezes olhava da janela aberta. No bando da frente, num canto, um funcionário da Norte Energia ficou um tempo todo com um aparelho de comunicação á mão. Às vezes o levava ao ouvido e conversava com alguém. Um outro, com uma filmadora, não perdia nenhum detalhe. Quando o padre pediu aos participantes que orassem pelos mortos e acidentados no canteiro de obra, ninguém, absolutamente ninguém abriu o bico. Ao final, na ação de graças, equipe de Pastoral Operária recém-iniciada proclamou os Direitos Universais dos Atingidos por Barragens, um texto do militante Leandro escrito no Encontro Nacional do MAB, nos dias 5 a 7 de setembro, em São Paulo. Isso foi a gota de água! Cândido, funcionário da Norte Energia que contratara a missa, foi para o olho na rua. E o camponês, agora totalmente metamorfoseado em operário, passa a frequentar as reuniões do grupo que liderava as greves na luta pelos direitos.

Descobrira, entre outras coisas, que a magia do crachá estava diretamente associada à força do operário explorado, a serviço do capital. O que parecia uma benesse era como a senha da exploração. As portas se lhe abriam porque ele, o operário, era a peça mais importante e, ao mesmo tempo, a mais perigosa. Inicialmente teve raiva do crachá. Depois percebera que a questão ia para muito além de um pedaço de papel dependurado ao pescoço.

Seus conceitos iam mudando de forma galopante, quase no ritmo acelerado da construção de Belo Monte. Aprendera desde criança que o trabalho dignifica o homem. Agora, em Belo Monte, descobre que cruzar os braços dignifica mais do que o trabalho. Cruzar os braços pode libertar uma classe e um povo inteiro. Então, com a mesma disposição empenhada na meia de cacau, sugando o próprio sangue, garantindo seu ganha-pão e um grande lucro ao patrão, agora, como operário, divide seu tempo em jornada dupla: no movimento da máquina e nos bastidores da greve.

Belo Monte teria parado pelo poder da Justiça no dia tal. Montaram-se artimanhas par driblar a Justiça, esconderam o diretor da Norte Energia, que não foi encontrado para assinar a notificação, até que  a Liminar foi derrubada pela AGU – Advocacia Geral da União.  O operário sentia que o poder organizado da classe operária é mais forte que a Justiça e que o império econômico. Os operários, justamente os operários, intensamente explorados, são, ao mesmo tempo, um dos principais sujeitos da mudança. Ele sentiu isso na pele quando os trabalhadores, pela primeira vez com a sua participação, pararam o sítio do Pimental, entre os dias 9 a 14 de novembro.

O operário aprendeu outras coisas além da força da classe trabalhadora organizada. Ele sentiu, e se enraivou, com o papel do Sintrapav, o sindicato que representa a categoria. Há muito já desconfiava disso. Olhava aqueles sindicalistas, bem vestidos, de camisa de manga complica, de malas pretas na mão, e via neles muita semelhança com os chefes da empresa. A única diferença, pensava, é que o poder dos donos da barragem é maior que o deles. Mas a cabeça, a lógica capitalista, é a mesma: ambos vivem como sanguessuga, da exploração do trabalho do trabalhador.

Pois é! A Justiça quis para Belo Monte, e não conseguiu. A força da Justiça se torne e vira cinza frente ao império econômico. Pois os operários organizados podem parar e mudar os rumos de Belo Monte. O antigo camponês, agora operário, via isso e sentia orgulho da sua classe.

Num dia de manhã, na saída do refeitório, após o café, o Encarregado de Turma pedira o Crachá ao operário para fazer sei lá o quê. Como era seu dia de folga, o operário lhe entregou o crachá, e seguiu para uma reunião dos companheiros de luta. No almoço, não conseguiu entrar no refeitório, pois estava sem o crachá. À tarde procurou pelo encarregado por todos os cantos, mas não o encontrou. À noite, com a barriga roncando de fome, quis sair para comprar qualquer coisa numa vendinha no antigo povoado do Pimental – totalmente destruído por Belo Monte -, mas foi barrado pela Guarda Patrimonial, na guarita. ‘Se você sair sem o crachá, não pode voltar’, disse-lhe. Não havia nenhum autoritarismo em sua fala, apenas cumpria normas. E o orientou a pedir a um colega que lhe trouxesse um marmitex. Assim fez. E passou a noite, mas já meio desconfiado com tudo aquilo.

No outro dia, bem de madrugada, levantou-se, cuidou rapidamente os papéis da organização dos operários, guardados a sete chaves, e se dirigiu ao refeitório para o café da manhã. Foi novamente barrado. Um colega seu do lado de dentro, vendo-o naquela situação – com fome e sem poder entrar -, tentou trazer-lhe uma fruta no bolso, mas na saída a máquina apitou e o segurança veio logo. Mesmo sem nada no estômago, ele tentou tomar o ônibus para dirigir-se ao local do trabalho, a uma distância de três quilômetros. Foi para o ponto. O motorista, porém, não permitiu seu embarque por fala do crachá. ‘estou perdido e não encontro, por nada, o encarregado’, pensou.

Voltou então ao Alojamento, e lá dentro a fofoca já andava solta: vinte companheiros contaram que trabalharam o dia todo e tiveram que voltar a pé do trabalho ao alojamento por falta dos crachás, que foram recolhidos pelo encarregado. Não tinham mais dúvida! Tinha caído na armadilha do crachá.

Articularam-se, com toda discrição, em conversa miúda. A essas alturas os telefones, todos de uma única operadora permitida no canteiro, já poderiam estar grampeados. Dito e feito: pelos menos uma centena dos operários estava sem o crachá. Isso significa sem trabalho, sem comida, sem condições de permanecer ali dentro. Demitidos sem ao menos ser mandados embora.

Num último esforço, ainda tentaram procurar os superiores: os capacetes verdes, os camisas azuis, os sem identificação – chefes supremos, mas ninguém, absolutamente ninguém fora encontrado. A armadilha fora friamente montada.

No terceiro dia, próximo de 150 pessoas saíam a pé, com suas bolsas, e desciam o canteiro, passando pela guarita, até chegar à Transamazônica. Iam tentar a vida em outro lugar. A consciência lhes custara a cabeça.

Nessas bandas do Brasil e da Amazônia, onde cangaceiros e capatazes se juntam à fina flor do capitalismo, os mecanismos de desova de ‘persona non grata’, de pessoa perigosa ao sistema de exploração, não tem limite. Pode ser numa eliminação por encomenda, num sumiço no canteiro de obra, enterrado no concreto e sepultado como indigente. Pode ser colocado no carro da polícia à força e solta em Rurópolis, a 300 km de distância, com a recomendação de não voltar. Podem vários ônibus ser lotados de grevistas e soltos em Marabá, a 500 km de distância, longe de suas terras, e lá ficam rodados. Ou pode ser, simplesmente, tomar-lhe o crachá.

Assim se foram: sem crachá, sem emprego, mas com a semente da liberdade plantada no canteiro de obra. Novas greves, mais organizadas, mais fortes, virão a qualquer momento.