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Apesar do cerco das autoridades e do controle das fronteiras, barras bravas argentinas estão no Rio (Extra)

15/06/14 05:00 

Barra brava do Clube Atlético Chaco For Ever no Cristo Redentor

Barra brava do Clube Atlético Chaco For Ever no Cristo Redentor Foto: Reprodução/Twitter

Leandro Saudino e Rafael Soares

O governo argentino entregou às forças de segurança brasileiras uma lista com 2,1 mil nomes de integrantes de torcidas organizadas argentinas — as populares e violentas barras bravas. Para evitar brigas em jogos do Mundial, esses “hinchas” — que já foram condenados pela Justiça ou barrados dos estádios pelos clubes — estão proibidos de entrar em território brasileiro. Quando identificados pelas autoridades nas fronteiras, são deportados. Porém, a Interpol vê brechas no sistema.

— Pelo ar, não há como passar pelo controle migratório. Mas, por vias terrestres, em postos sem pontes, como em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, não há como controlar. Não vamos fechar 100% as fronteiras — admitiu, ao Jogo Extra, o chefe da Interpol no Brasil Luiz Eduardo Navajas. — Sem contar que torcedores fora da lista também podem fazer parte de torcidas e não temos motivos para barrá-los.

Barras do Club Atlético Talleres na praia de Copacabana

Barras do Club Atlético Talleres na praia de Copacabana Foto: Reprodução/Twitter

Apesar do cerco, alguns “hinchas” já estão no Rio: no Twitter, o perfil “barrabravphotos” postou, durante a semana, imagens que mostram os “hinchas” desfilando, com naturalidade, com suas faixas e surdos por pontos turísticos como o Cristo Redentor e a Praia de Copacabana. Nas fotos, aparecem torcedores de equipes de menor expressão no cenário argentino, como Club Deportivo Laferrere, Club Atlético Talleres e Clube Atlético Chaco For Ever.

A Polícia Federal e a Interpol monitoram os grupos de torcedores que entram no país. Os órgãos de inteligência da PF já identificaram que os torcedores mudaram a rota de entrada no país após cinco torcedores serem deportados — dois pela via aérea e três pelo município de Uruguaiana. Agora, eles estão tentando entrar pelo Uruguai, onde o controle é mais difícil.

— A lista com os barras bravas pode ser acessada em todo posto de imigração. Os barras bravas que estão na lista e conseguirem entrar vão fazer isso de forma ilegal. Vamos intensificar os bloqueios da Polícia Rodoviária nessas regiões — afirma Navajas.

Barras do Club Sportivo Dock Sud a caminho do Rio

Barras do Club Sportivo Dock Sud a caminho do Rio Foto: Reprodução/Twitter 

Alto escalão abre portas para torcedores

Organizadas, influentes e poderosas. As “hinchadas”, ao mesmo tempo em que protagonizam alguns dos episódios mais tristes do futebol argentino, frequentam os gabinetes do alto escalão da política nacional. Criado para a Copa da África do Sul, com apoio e financiamento do governo kirchnerista, o grupo Hinchadas Unidas Argentinas (HUA) — que conta com integrantes de torcidas de mais de 40 clubes do país — teve sua dissolução anunciada no início de junho.

Durante a coletiva de imprensa, a advogada da entidade Débora Hambo acusou a Associação do Futebol Argentino (AFA) de repassar entradas da Copa do Mundo do Brasil para outros grupos de barras bravas, ligados aos grandes clubes de futebol do país vizinho, como Boca Juniors e River Plate.

Barras do Club de Gimnasia y Esgrima La Plata

Barras do Club de Gimnasia y Esgrima La Plata Foto: Reprodução/Twitter

Nesse mesmo evento, a HUA divulgou que 150 integrantes da entidade viriam ao Brasil, mesmo sem ingressos, para torcer para a Argentina. Esses torcedores viriam ao Rio para tentar se encontrar com o presidente da AFA, Julio Grondona. Antes da dissolução, a HUA havia pedido à AFA 1.500 ingressos.

Em abril, o jornal argentino “Olé” publicou uma entrevista com o líder de uma torcida organizada do Internacional (Gilberto Bitancourt Viegas), conhecido como Giba, em que ele afirmava que conseguiria ingressos para 200 argentinos verem jogos da Copa.

Mesmo que os barras bravas consigam os ingressos, eles não poderão entrar nos estádios com suas faixas e instrumentos: a Fifa proíbe a entrada de cartazes com manifestações ou nomes de organizações nos estádios.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/apesar-do-cerco-das-autoridades-do-controle-das-fronteiras-barras-bravas-argentinas-estao-no-rio-12864333.html#ixzz34jWTYw3z

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Argentina hooligans can go to Brazil World Cup (Global Post)

 

Notorious Argentine “barras bravas” football hooligans can travel to the World Cup without intelligence being passed on beforehand to hosts Brazil, a court has ruled.

The court in Buenos Aires said that the Argentine government is not allowed to tell another country personal information about its citizens, a lawyer for the United Argentine Fans (HUA) supporters’ group said Wednesday.

Debora Hambo welcomed the judgment “to avoid persecution of supporters, like in South Africa in 2010.”

During the World Cup in South Africa, 30 Argentine supporters considered dangerous were turned back at airports or deported shortly after arrival, after Argentine authorities passed on intelligence about potential trouble-makers.

An Argentina fan was killed in Cape Town during a clash between rival barras bravas groups on the eve of the quarter-final between Germany and Argentina.

Brazilian and Argentine authorities have held preliminary discussions about cooperation on security.

Argentina has a long and troubled history of football hooliganism with at least 24 people killed in trouble between fans in the last two years.

Argentina face Bosnia and Herzegovina, Iran and Nigeria in the group phase of the June-July world Cup.

Preso por ser jovem, pobre e usar boné (Envolverde)

Inter Press Service – Reportagens
19/3/2014 – 12h52

por Fabiana Frayssinet, da IPS

marcha Preso por ser jovem, pobre e usar boné

Cerca de 15 mil pessoas participaram, no dia 20 de novembro de 2013, da Marcha do Boné, na cidade argentina de Córdoba, denunciando a arbitrariedade policial contra os jovens, segundo sua aparência e condição. Foto: Cortesia do coletivo de Jovens por Nossos Direitos

Córdoba, Argentina, 19/3/2014 – Na província argentina de Córdoba, basta ser jovem, moreno, pobre e usar boné para ser detido como suspeito. A arbitrariedade policial se ampara no crime de “merodeo” (vadiagem), um instrumento de prevenção do crime que viola direitos constitucionais. José María Luque, conhecido como Bichi, perdeu a conta de quantas vezes foi detido pela polícia por essas características, em Córdoba, capital da província de mesmo nome. Residente em um bairro humilde, Luque, de 28 anos, foi detido pela primeira vez quando tinha 13 anos e voltava da escola com um amigo, vestido com uniforme escolar. Ficou detido por uma semana.

“Eles nos pararam, pediram documentos e nos levaram presos. Assim, sem mais nem menos. Inventaram uma acusação contra mim: tentativa de roubo qualificado e porte de arma de fogo. Saí por falta de provas”, contou Luque à IPS. Agora ele integra o Coletivo de Jovens por Nossos Direitos, que luta contra o abuso policial. Afirma que teve sorte porque sua família conseguiu pagar um advogado e não lhe restou antecedentes.

Porém, essa não é a realidade de muitos jovens detidos com base no Código de Faltas, de Córdoba, aplicado desde 1994 e reformado em 2007. Um estudo da Universidade Nacional de Córdoba e da espanhola Universidade de La Rioja revela que 95% dos detidos por esse Código não têm acesso a advogados. “Com uma falta em seu prontuário não se tem acesso ao atestado de boa conduta, um dos requisitos mais solicitados pelas empresas na hora de contratar”, ressaltou Luque.

O código pune condutas que supostamente prejudicam a convivência social, como escândalo em via pública, omissão de identificação, resistência à autoridade, alcoolismo, mendicância e ócio. Segundo o estudo, quase 70% dos infratores são acusados de vadiagem, uma falta muito polêmica que permite à polícia deter suspeitos de vadiar, o

que o dicionário da língua espanhola define como “vagar pelas imediações de algum lugar, em geral, com maus objetivos”.

O Artigo 98 do Código pune com multas e até cinco dias de detenção quem permanecer perto de veículos ou instalações urbanas ou rurais “em atitude suspeita, sem uma razão plausível, provocando intranquilidade entre seus proprietários, moradores, transeuntes ou vizinhos”. “É uma figura totalmente subjetiva e arbitrária. Não é explicada qual é a atitude que se deve ter para não ser detido”, apontou Luque, que trabalha desde adolescente e agora é pizzaiolo.

Bichi e outros jovens de semelhante extrato social costumam apresentar um padrão que os identifica: bonés coloridos, calças esportivas e sapatos vistosos. Mas a polícia equipara esse hábito cultural com a presunção de culpabilidade. “Muitos detidos usam boné. O boné é suspeito”, destacou Luque, um dos organizadores da Marcha do Boné, que a cada mês de novembro, há sete anos, pede a revogação do Código de Faltas e que, em 2013, reuniu 15 mil pessoas.

“Digam o que disserem, a acusação de vadiagem é aplicada para que, quando houver morenos com boné nos bairros da periferia, dando voltas por algum lugar, a polícia os detenha”, disse à IPS o advogado Claudio Orosz, representante em Córdoba da organização humanitária Centro de Estudos Legais e Sociais. Orosz atribui o Código a uma sociedade “conservadora e moralista”, herdeira da “repressão e do genocídio” da última ditadura argentina (1976-1983). Para este advogado de casos de crimes de lesa humanidade, por causa dessa cultura, os pobres sofrem o “labirinto kafkiano” da vadiagem.

Segundo um estudo universitário, os detidos nesse contexto são majoritariamente jovens entre 18 e 25 anos dos setores desfavorecidos. Durante 2011, foram detidas 73 mil pessoas na província, 43 mil delas na capital. “Acontece sempre o mesmo: se vem de um lugar pobre, é pobre, tem certa forma de se vestir, tem certos traços físicos, uma determinada cor de pele, e já se é perigoso para a sociedade”, explicou Luque.

Um dos pontos mais questionados do Código é que outorga atribuição de juiz ao delegado de polícia. Isso é uma ironia porque a polícia cordobesa é a que “estrutura e mantém os grandes problemas criminais, os que geram maior dano à sociedade, como tráfico de pessoas, narcotráfico, roubo de peças de carros e venda de armas”, disse Agustín Sposato, também integrante do coletivo juvenil.

Outro agravante, segundo Orosz, são os precários sistemas de impressão digital e investigação de antecedentes nas delegacias de Córdoba. “Às vezes, demora-se três dias para saber se alguém tem antecedentes para depois ser solto, o que constitui verdadeiras privações ilegítimas de liberdade”, ressaltou. “É um sistema de controle social, formalizado pela polícia, que fere os controles básicos de constitucionalidade”, afirmou.

Para Orosz, “o Código de Faltas entrega enorme poder de seletividade e de controle social às forças policiais, sem o controle judicial”. Luque sabe bem. “Nas vezes em que me detiveram, vivi essa sensação de privação ilegítima da liberdade, de sequestro, de não saber quando vai sair, não saber como avisar a família e os amigos que você está ali. A impotência é muito grande, muito obscura, muito feia”, enfatizou.

O governador de Códoba, José Manuel De la Sota, apresentou, em 1º de fevereiro, um projeto de reforma do Código de Faltas, que o parlamento provincial está analisando.

Sergio Busso, presidente do bloco legislativo da governante União por Córdoba, considera necessário manter a figura da vadiagem, porque é importante no combate à crescente insegurança da população na província. Ele disse à IPS que o Código “é um instrumento que regula e pune as condutas antijurídicas, que afetam o direito das pessoas ou da sociedade em seu conjunto e que, por serem leves, não chegam a configurar crime”.

No entanto, Busso admitiu que são necessárias reformas, para que “a prisão e a multa só sejam aplicadas em situações especiais e em seu lugar sejam utilizadas mais as penas substitutivas e acessórias, como trabalho comunitário”. Além disso, para o parlamentar, deve mudar quem pune. O projeto propõe que a falta seja dirimida por promotores ou juízes específicos, e não policiais, “para separar quem julga de quem executa o procedimento” e para garantir “um olhar independente”.

Segundo Orosz, isso já foi tentado e não se pôde aplicar porque o sistema judicial sofreu um colapso com a avalanche de casos. Busso explicou que a reforma contempla que a falta de vadiagem exija a denúncia prévia de um morador identificado. Mas Orosz criticou que esse denunciante é “igualmente subjetivo”. O advogado considera que se deve revogar o Código de Faltas e substituí-lo por outro de convivência, que estabeleça “quais são as condutas desejadas e mecanismos de resolução de conflitos que não sejam necessariamente a prisão”, como a mediação vicinal.

Para o jovem Sposato, as reformas propostas “são uma maquiagem, para acalmar o clima de conflito social” na província. “O que está em jogo é a vida, os direitos das pessoas, a possibilidade de todos na província serem iguais”, destacou.

Faltas versus direitos humanos

Os códigos de faltas e contravenções, para tratar condutas ilícitas que não chegam a ser delitos penais, existem nas 23 províncias da Argentina e na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Em 33% dos casos, é a polícia que detém, investiga e sanciona, o que propicia excessos e violações dos direitos humanos.

Em 2003, o Tribunal Interamericano de Direitos Humanos condenou o Estado argentino pela detenção ilegal, em 1991, de Walter Bulacio, de 17 anos, durante um show em Buenos Aires, pelo Código de Contravenções. O jovem morreu vítima da brutalidade policial. O tribunal ordenou ao país adequar o ordenamento jurídico interno à Convenção Americana sobre Direitos Humanos e outras normas internacionais.

Os códigos surgiram principalmente durante os regimes autoritários do século passado, mas foram atualizados pela democracia. Para muitas organizações humanitárias, um de seus problemas é que se introduzem dissimuladamente no âmbito penal, de competência nacional, criando de fato a figura de “delitos menores” provinciais.

Além disso, boa parte deles são difusos nas contravenções, o que colabora para sua discricionariedade, e negam o direito à defesa, à livre circulação, à liberdade pessoal, ao devido processo e ao juiz natural, entre outras anomalias jurisdicionais e humanitárias.

Fontes: Federação Argentina LGBT e Associação pelos Direitos Civis

Envolverde/IPS

Brasil se preocupa com invasão de barrabravas argentinos na Copa (OESP)

Autoridades dos dois países se reuniram na terça e selaram acordo de cooperação

20 de março de 2014

Ariel Palacios – O Estado de S. Paulo

BUENOS AIRES – Os barrabravas, os violentos torcedores argentinos, estão se preparando para assistir à Copa do Mundo. O planejamento da viagem ao Brasil é bastante detalhado – passa até por contatos com líderes de torcida do futebol gaúcho, pois a ideia é fazer Porto Alegre de quartel-general. Preocupados, os governos de Brasil e Argentina firmaram acordo de cooperação para tentar controlar esses torcedores.

Torcedores do Boca enfrentam a polícia - Marcos Brindicci/Reuters

Marcos Brindicci/Reuters. Torcedores do Boca enfrentam a polícia

O plano dos barrabravas prevê até o que farão aqueles que não conseguirem ingressos. Eles ficariam do lado de fora dos estádios, fazendo o que os argentinos chamam de “el aguante”, expressão usada para definir o apoio fanático e apaixonado de uma torcida por seu time.

No fim do mês, uma comitiva com dez torcedores argentinos viajará a Porto Alegre para se reunir com contatos locais – entre eles José Hierro Martins, da Guarda Popular, do Internacional – para preparar o desembarque das organizadas argentinas na capital gaúcha, de onde partiriam para o resto do País. O grupo está organizando o financiamento da viagem desde 2011.

A seleção argentina está no Grupo F da Copa do Mundo e jogará no Rio de Janeiro em 15 de junho, contra a Bósnia; em Belo Horizonte no dia 21, contra o Irã; e no dia 25 em Porto Alegre, contra a Nigéria.

Diversas estimativas indicam que ao redor de 650 barrabravas de 38 clubes argentinos viajarão ao Brasil, em dez ônibus, aumento de 150% em relação ao contingente que foi à África do Sul em 2010. São integrantes das Torcidas Unidas Argentinas, entidade conhecida pela sigla HUA, que se apresenta como uma ONG para divulgar a “cultura do futebol”.

Em 2010, os barrabravas contavam com lideranças fortes, que serviam de interlocutores com diversos integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner que lhes conseguiam financiamentos. Atualmente, eles não possuem um comando único e recebem apoio econômico tanto de aliados da Casa Rosada como da oposição.

Analistas esportivos consultados pelo Estado sustentam que esse cenário de “atomização’’ das lideranças e vínculos complicou nos últimos anos o controle da violência dos barrabravas por parte das forças de segurança. No entanto, as autoridades argentinas prometem fiscalizar estes grupos violentos que viajarão ao Brasil. Os críticos ironizam, afirmando que o governo Kirchner nem sequer consegue controlá-los dentro do próprio país.

O município de Quilmes, na Grande Buenos Aires, foi o cenário de confrontos de barrabravas na semana passada. Os torcedores do Quilmes, famosos por sua violência, espancaram os rivais do All Boys com pás, além de desferir punhaladas. Segundo o deputado Fernando Pérez, da União Cívica Radical (UCR), “a Copa acelera as disputas porque os barrabravas se desesperam por financiar suas viagens ao Brasil”. Estimativas das agências de turismo indicam que, no total, 15 mil argentinos viajarão ao Brasil para acompanhar a Copa.

ACORDO

Na terça-feira, autoridades dos dois países se reuniram na embaixada da Argentina, em Brasília, e selaram acordo de cooperação. Por ele, a Argentina vai fornecer ao Brasil todas as informações solicitadas nas área de segurança e migração. O acordo prevê o reforço na segurança nas fronteiras entre os dois países. A entrada de torcedores argentinos no território brasileiro vai merecer controle especial.

A reunião em Brasília teve a presença também de policiais dos dois países, dirigentes do futebol argentino e representantes dos comitês do Rio, de Belo Horizonte e Porto Alegre, as cidades que receberão a seleção de Messi na primeira fase da Copa do Mundo.

MORTES E NEGÓCIOS

Desde o primeiro ataque protagonizado por barrabravas com morte na Argentina, em 1924, até o ano passado haviam morrido 230 pessoas em confrontos violentos e milhares ficaram feridas. As brigas, que até os anos 80 eram resolvidas com socos e pontapés, nos últimos 30 anos foram definidas à base de armas de fogo. Nestes 90 anos a Justiça argentina foi costumeiramente omissa, já que somente pouco mais de três dezenas de pessoas foram condenadas por essas mortes entre 1924 e 2013.

Ao contrário de outros países, onde muitas torcidas organizadas mais violentas estão vinculadas a grupos extremistas, como skinheads e neonazistas, na Argentina os barrabravas possuem fortes laços políticos e econômicos com ministros, senadores, deputados, governadores, prefeitos e vereadores, para os quais trabalham organizando comícios, como cabos eleitorais e seguranças.

Negative effects of joining a gang last long after gang membership ends (Science Daily)

Date: March 13, 2014

Source: University of Washington

Summary: Joining a gang in adolescence has significant consequences in adulthood beyond criminal behavior, even after a person leaves the gang. Former gang members are more likely to be in poor health, receiving government assistance and struggling with drug abuse than someone who never joined a gang.

Imagine two children, both with the exact same risk factors for joining a gang. As teenagers, one joins a gang, the other doesn’t. Even though the first teen eventually leaves the gang, years later he or she is not only at significantly higher risk of being incarcerated and receiving illegal income, but is also less likely to have finished high school and more likely to be in poor health, receiving government assistance or struggling with drug abuse.

University of Washington researchers have found that joining a gang in adolescence has significant consequences in adulthood beyond criminal behavior, even after a person leaves the gang. The research is published in the American Journal of Public Health.

“It turns out that, like violence, gang membership is as much a public health problem as a criminal justice problem,” said Karl Hill, study co-author and research associate professor in the School of Social Work. “Joining a gang in the teens had enduring consequences on health and well-being.”

The Seattle Social Development Project, which was founded by study co-author J. David Hawkins, followed 808 fifth-grade students from 18 elementary schools serving high-crime neighborhoods in Seattle, beginning in 1985. More than half of the students came from low-income families. Participants were interviewed every year until the age of 18, then every three years until the age of 33.

According to lead author Amanda Gilman, a doctoral candidate in the School of Social Work, joining a gang served as a turning point, creating consequences that cascaded into other areas of life for years afterward.

“Very few of them reported still being in a gang at age 27. The vast majority had left a long time ago, but the consequences stuck with them long-term,” Gilman said. Researchers used 23 risk factors to calculate a child’s propensity for joining a gang, and then compared 173 youth who had joined a gang with 173 who did not but showed a similar propensity for doing so, so that the only difference between the two groups was gang membership. The average age of joining a gang was just under 15 years old. No one in this study reported joining a gang after the age of 19, and the majority (60 percent) were in a gang for three years or less.

The 23 variables used to match the groups included individual factors such as antisocial beliefs, alcohol and marijuana use, violent behavior and hyperactivity; family factors such as poverty, family structure, sibling behavior and parent pro-violent attitudes; school factors such as academic aspiration and achievement; neighborhood factors such as the availability of marijuana and neighborhood kids in trouble; and whether the child associated with friends who engaged in problem behaviors. Researchers measured three areas of adult functioning at age 33: illegal behavior, education and occupational attainment, and physical and mental health. Those who joined a gang in adolescence were nearly three times more likely between ages 27 and 33 to report committing a crime, more than three times more likely to receive income from illegal sources, and more than twice as likely to have been incarcerated in the previous year.

Former gang members also were nearly three times more likely to have drug-abuse issues, were almost twice as likely to say they were in poor health, and twice as likely to be receiving public assistance. They were also half as likely to graduate from high school.

Gilman hopes the study will motivate schools and communities to develop and implement research-based strategies to prevent children from joining gangs, in the hopes of not only reducing crime, but increasing graduation rates and reducing physical and mental health costs.

Hill said everyone can be involved in gang prevention in their own way, by reducing the 23 variables shown to be risk factors. “If you’re a parent, manage your family well. If you’re a community member, be involved in kids’ lives. If you’re a teacher, engage your kids and recognize good work. We can’t solve all of the risks kids are exposed to alone, but we can if we work together,” he said.

Journal Reference:

  1. Amanda B. Gilman, Karl G. Hill, J. David Hawkins. Long-Term Consequences of Adolescent Gang Membership for Adult FunctioningAmerican Journal of Public Health, 2014; e1 DOI: 10.2105/AJPH.2013.301821

O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade? (Portal Aprendiz)

22/1/2014 – 11h31

por Danilo Mekari e Pedro Ribeiro Nogueira, do Portal Aprendiz

Antes relegados à lugares invisíveis da cidade, onde não reuniam tanta gente e nem chamavam tanta atenção, os encontros de jovens da periferia de São Paulo tomaram outras proporções a partir do dia 7/12 do ano passado, quando ocorreu o primeiro rolezinho – encontro marcado via redes sociais – no Shopping Metrô Itaquera. Ao mesmo tempo, tramitava um projeto de lei que coibia os bailes funks de acontecerem nas ruas, posteriormente vetado pelo prefeito Fernando Haddad (PT).

Para quem participa está claro o motivo da reunião: se divertir, escutar música, fazer amizades e até mesmo paquerar – tudo isso dentro dos templos do consumo que esses mesmos jovens são tentados a fazer parte diariamente, através da publicidade intensa e da ostentação de outras classes mais abastadas.

Para os reais consumidores dos shoppings, porém, esses encontros são uma ameaça à tranquilidade com que fazem suas compras e, mais, devem ser devidamente contidos pelas forças de segurança e proibidos pela Justiça.

foto1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?

O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade? | Envolverde

Os rolezinhos, porém, não pararam de crescer. Se antes eram restritos à capital paulista, agora se espalham por vários estados. E, se antes também se restringiam a um encontro de jovens das camadas mais populares, hoje há rolês organizados por jovens de classe média, universitários e movimentos sociais que apoiam o direito de ir e vir desses adolescentes.

Também se tornaram pauta prioritária na agenda do governo federal, por receio de se tornarem o estopim de novas manifestações, inclusive com a participação de black blocs.

Instigado por esse debate e em busca de sentidos para esse fenômeno, o Portal Aprendiz perguntou para Leonardo Sakamoto, Ermínia Maricato, Douglas Belchior, Alexandre Barbosa Pereira e Pablo Ortellado o que os rolezinhos nos dizem sobre a segregação e o direito à cidade.

Confira as respostas!

sakamoto1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Leonardo Sakamoto – jornalista e doutor em Ciência Política, autor do Blog do Sakamoto

“A maior parte da molecada que vai aos rolezinhos não quer fazer nenhum protesto e sim curtir e ser curtido. Não são politizados, como também não era a maioria dos que foram às ruas nas jornadas de junho. Mas o cutucão, se não é o objetivo, acaba sendo o efeito colateral, pois a presença deles naquele espaço provoca uma reação violenta. Daí, há dois caminhos para analisar os rolês: quem são e o que querem esses jovens e o porquê da reação de determinados grupos sociais, sejam eles do centro ou da própria periferia.

Shoppings são bolhas, oferecem a garantia de que nada vai acontecer com você se estiver lá dentro comprando. Da mesma forma que cercas eletrificadas mentem sobre a proteção de casas, que carros blindados mentem sobre a proteção de famílias, que a presença de uma arma de fogo mente quando promete afastar qualquer risco real.

Quando centenas de “intrusos” ameaçam invadir essa realidade virtual, querendo fazer parte dela, seus usuários sentem que ela se desligou de repente e entram em pânico. Porque esse grupo de garotos e garotas talvez não entenda, mas é exatamente deles que parte do povo que se refugia em shoppings quer fugir. Fisicamente. Simbolicamente.”

erminia1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Ermínia Maricato – professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP

“Nas relações sociais, no Brasil, existe uma profunda distância entre discurso e prática ou entre o texto da lei e sua aplicação. Em consequência, grande parte da sociedade permanece sem direitos previstos na legislação. São ignorados, segregados e invisíveis apesar das dimensões dessa exclusão. Como essa espécie de apartheid não é clara e assumida, vive-se uma contradição, um faz de conta. Faz de conta que isso é uma democracia, faz de conta que a lei se aplica a todos da mesma forma, faz de conta que todos têm direitos iguais, como é o caso do direito à cidade.

O que a prática dos rolezinhos tem de notável, fantástico, extraordinário mesmo, é o desnudamento dessa contradição. Quando os exilados urbanos decidem andar pela cidade, esse apartheid explode na cara da sociedade ainda que não seja essa a intenção da maior parte da moçada. Essa atitude questiona, profundamente, a sociedade que aprendeu a ser cínica (especialmente o “partido da mídia”) para esconder a incrível desigualdade de um país que não é pobre mas tem um povo pobre.”

odug1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Douglas Belchior – professor de História e integrante da UneAfro Brasil, autor do blog Negro Belchior

“Por parte dos shoppings vemos temos uma contradição, já que se espalharam pelas periferias justamente atrás do poder aquisitivo desse público que eles agora recusam.

A medida em que o mundo, através de seus valores, convence a população de que para “ser” é preciso “ter”, de que “viver” é não apenas “consumir” mas também “ostentar”… e ao mesmo tempo não proporciona espaços de convivência, de lazer e educação que provoquem o interesse da juventude, os shoppings passam a ser a grande opção.

Criminalizado como um dia fora a capoeira, o futebol, o samba e o rap, o funk moderno é tão contraditório em seu conteúdo quanto o é a resistência em sua forma e estética e nesse momento está servindo também para fazer aflorar o racismo enraizado na alma das elites hipócritas – muito mais vinculadas aos valores da luxúria e ostentação que a turma do funk.

Os meninos e meninas do funk hoje afrontam os cara-pálidas com sua presença física, com o tom de sua pele, com sua roupa, com seu som. Tudo isso, intencional ou não, é profundamente político e contestador por sua própria natureza.”

pablo1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Pablo Ortellado – professor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH) e autor do livro “20 Centavos: A Luta Contra o Aumento” (Ed. Veneta)

“Ainda permanece um pouco obscuro os motivos que levaram os jovens da periferia a marcar encontros coletivos nos shoppings da cidade – queriam mesmo só se divertir ou estariam também desafiando as barreiras econômicas e raciais que dividem os que têm dos que não têm? Seja como for, a resposta dura e anticidadã dos shopping centers e da Justiça conferiu um caráter social e político ao fenômeno.

E é nessa resposta jurídica que busca garantir aos shoppings o direito de escolher quem pode frequentá-los que se formalizou e se evidenciou a segregação espacial implícita que rege a nossa sociedade. Seja qual for a motivação, a repercussão colocou em discussão a vergonhosa separação espacial que segrega os ricos dos pobres e os brancos dos negros.”

alexandre1 O que os rolezinhos dizem sobre o direito à cidade?Alexandre Barbosa Pereira – pesquisador do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana (LabNAU) da USP e autor da tese “A maior zoeira: experiências juvenis na periferia de São Paulo”

“Os rolezinhos demonstram a necessidade de lutarmos por espaços, físicos, sociais e subjetivos, de representação, expressão e reconhecimento para todos. O principal recado que os jovens dos rolezinhos nos dão é o de que querem o direito a se divertir na cidade.”

* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.