A magia do crachá (Combate Racismo Ambiental)

25/11/2013 11:34

Sitio Pimental visto do km 52 da Rodovia Transamazônica. Os buracos gigantes nas rochas vão abrigar as turbinas da casa de força principal de Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA)

Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA)

Por Antônio Claret Fernandes, para Combate Racismo Ambiental

O Camponês se tornara operário da noite para o dia. Essa metamorfose aparentemente repentina se deu num processo mais longo, pela conjunção de dois elementos. O primeiro é o abandono histórico dos colonos na transamazônica e, o segundo, a propaganda das benesses nos canteiros de obra de Belo Monte.

O camponês, agora operário, trabalhara em toda a sua vida no cacau. Sua família viera do Paraná e se fixara na Transamazônica. Conquistara um lote de 100 hectares, o que daria para tocar a sua sobrevivência, mas fora pego de surpresa pela doença da mãe, e venderam a terra, o gadinho, tudo.

Nos tempos áureos do cacau, a meia foi um bom negócio. O colono tirava até 15 mil reais por ano. É claro que um proprietário de cacau, que tinha 400 mil pés e várias famílias de colonos, em situação quase análoga à escravidão, tirava muito mais.

O trabalho de meia tem um fator psicológico que interfere diretamente na produtividade. O meeiro se sente, via de regra, dono dos serviço; ele suga o próprio sangue, trabalha desde madrugada até a noite, envolvendo toda a família. A produtividade maior se dá à custa de uma jornada excessiva de trabalho, em condições precárias. A meia camufla a relação empregado/patrão.

O Cacau se espalhou em grande parte do Oeste do Pará, na transamazônica. Na região de Medicilândia, ele entrou como uma opção ao gado e ao canavial que crescia, a partir da falida usina de Pacal, graças à força da mobilização popular. Ele era uma opção de resistência ao agronegócio. Hoje, nem tanto! Além do próprio cacau estar na pauta do agronegócio, ele só se viabiliza com um alto grau de exploração da mão de obra. Isso explica a pendenga atual entre proprietário de cacau e Ministério do Trabalho, que veio impondo multas pesadas na região, exigindo carteira assinada, e levou a uma mobilização que parou a Transamazônica. Os proprietários, juntamente com alguns meeiros manipulados, preferem o contrato, que não assegura nenhum direito ao colono e o coloca 24 horas no cuidado da lavoura.

Esse é contexto histórico, de sofrimento e falta de perspectiva, que levou o camponês a tornar-se um operário em belo Monte. Ele entrou nessa onda, seguindo os passos de centenas senão milhares de outros, na sua maioria jovem, que migram do campo para a cidade à busca de dias melhore. O êxodo rural é intenso em toda a região da Transamazônica e do Xingu. Há lugares onde o campo se esvazia por completo, muitas comunidades já fecharam as portas, não há gente para tocar a já fragilizada agricultura familiar. Os jovens, com toda a sua energia para o trabalho e animação do ambiente, são empurrados para a cidade, restando, na roça, os velhinhos aposentados. Na primeira oportunidade, arranjam uma casinha na cidade e se mudam para lá, também, a busca de políticas públicas básicas, em especial atendimento à saúde, abrindo caminho para o fortalecimento do agronegócio.

Essa canga histórica sobre o pescoço do camponês, obrigando-o a passar quase uma vida inteira na meia de cacau, ou como diarista em terra alheia, hoje, no Xingu, badalam as propagandas das glórias de Belo Monte. Assemelha-se aos Lusíadas, de Camões, cantando as glórias de Portugal. Esse contraste entre falta de perspectiva no campo e portas que se abrem com o ‘caráter redentor’ de Belo Monte acaba atraindo muita gente. Lá no canteiro de obra, se diz, há gente como em formigueiro. O número chega hoje perto de 30 mil pessoas. Isso a princípio agrada a quem está cansado do isolamento lá no fundo do Travessão, até hoje sem estrada, sem escola, sem assistência à saúde, sem luz. Aquele lufa-lufa é tudo que o jovem quer experimentar, induzido pela curiosidade. Para ele, aquilo tudo, coisa tão nova na região, é um sonho, e soa mesmo como um progresso. De quebra, além da oportunidade de convivência com tantas pessoas de vários lugares, e de trabalhar numa das maiores obras do mundo, badalada em cada canto, ele terá a ocasião de divertir-se, na quadra de esportes, no bilhar e poderá, ainda, frequenta os bordéis, que são muitos aos redores dos canteiros.

O que mais contagia o camponês metamorfoseado em operário é o crachá. Já tinha visto nele algo de muito especial quando ficara no hospital do Câncer em Muriaé – MG, como acompanhante de sua irmã, acometida da doença. Com aquele papel plastificado, ele tinha acesso ao prédio, ao apartamento, ao refeitório. No ambiente de trabalho, porém, é a primeira vez que experimentava a magia do crachá. Muito cedo o percebeu, e passou a tratar o crachá como uma relíquia.

Antes, enquanto camponês, costumava persignar-se na hora de colocar a cabeça no travesseiro par dormir. Quando acordava, antes mesmo de descer os pés e firmá-los no chão, pensava no novo dia pela frente e, e, com o corpo ainda doído, respirava a esperança de um novo tempo, e orava. Agora, não! A primeira e a última coisa que tomava conta do seu pensamento, desde o levantar-se ao deitar-se, e nos momentos mais íntimos, era o crachá. Nalgumas vezes era pego batendo no peito, como a penitenciar-se, para certificar-se de que o crachá estava ali, dependurado ao pescoço. Para não esquecê-lo, por nada dessa vida, dormia com ele pregado ao uniforme cinza, com um broche resistente, comprado especialmente para esse fim.

O operário morava a 70 km de Pimental, um dos canteiros de Belo Monte. Por isso era obrigado a sair de casa às quatro horas da madrugada e retornava às 8 da noite. O cansaço era grande. Mas nem parava para pensar nisso. Estava, de fato, maravilhado. Mostrava o crachá, e o ônibus parava, abrindo-lhe a porta. Tinha ainda, por cima, as horas entinas, coisa que nunca tinha visto antes.

Em pouco tempo de operário, com a força do crachá, pode comprar uma moto nova, a prestação. Que bacana!, pensava. Na meia do cacau, qualquer coisa que quisesse comprar era com dinheiro vivo. Agora ele chegava a uma loja, com o uniforme cinzento escrito CCBM, e o crachá dependurado, e levava um par de coisas! Sentia-se uma pessoa integrada ao sistema, um consumidor.

O operário notava, por diversas vezes, que muitos de seus colegas, inebriados com a magia do crachá, se incorporavam um ar arrogante. Eram empregados, comumente peões de obra – pensava o operário -, mas tinham assimilado a arrogância dos capitalistas, e sua ideologia. Como a história do menino empobrecido que sentia uma imensa alegria por lavar o carro de seu primo enricado. Gastavam o dinheiro do Mês todo em uma festa apenas, ou nos bares e bordéis,aos finais de semana, meio abobados naquela ritmo novo de vida, e mangavam de seus antigos conhecidos, fora da obra. Por vezes passavam na rua, de crachá á vista, com o nariz empinado. Quando desciam do ônibus, com o uniforme marcado do sal, do suor de um dia árduo, esbarravam nos transeuntes, como se fossem eles, os operários, os donos das ruas de Altamira.

O operário, porém, não tinha esse comportamento. É verdade que andava, agora, de cabeça erguida, o seu semblante não revelava mais aquelas marcas sóbrias da humilhação, pois o camponês é um corpo estranho na cidade; sua cabeça erguida era de altivez, não de arrogância.

Em cinco meses de trabalho, a Norte Energia corta as horas entinas e obriga o confinamento dos trabalhadores. Os de Brasil Novo, mais distantes, foram os primeiros a perder esse direito. No início, o operário estranhou. Mas não tinha outra opção. Era voltar à meia de cacau, coisa para a qual já não tinha disposição, ou aceitar aquela nova condição. No caso dele, como era jovem e solteiro, não era um absurdo ficar confinado no canteiro, pensava.

Ninguém escaparia ao confinamento. Decisão da empresa é decisão, pois ela tem a força, ao menos por enquanto, para impor o que lhe interessa. Além do corte dos ônibus que buscavam trabalhadores em Brasil Novo e Vitória do Xingu, a empresa está promovendo a mudança de dez famílias por dia dos hotéis de Altamira para a chamada Vila dos Operários. E ela só admite um novo trabalhador com a condição de alojar-se no canteiro de obra. Até o final de dezembro de 2013, estarão todos confinados, ou na vila dos operários ou nos alojamentos.

O sentimento inicial de insegurança por morar num canteiro de obra e a saudade da família caíram por terra em pouco tempo. O ritmo louco de vida ali quebra tudo: os princípios, os costumes. O camponês metamorfoseado em operário chegou mesmo a pensar que as benesses prometidas por Belo Monte, e intensamente alardeadas, fossem mesmo tudo verdade. Lá, no canteiro, era como uma cidade: alojamento com ar condicionado, quatro operários em cada quarto, quadra de esportes, academia, uma pequena biblioteca – esta montada com doações dos próprios trabalhadores, o que achou um pouco estranho -, um salão ecumênico, bordéis à vontade e para todos os gostos.

O operário, mais que antes, sentia a magia do crachá. A uma simples apresentação, em qualquer repartição, a porta se abre, com exceção de espaços terceirizados, como a academia e os bordéis. Aí é só dinheiro vivo! Na hora marcada, e no refeitório indicado, os operários chegam correndo quanto suportam por causa do cansaço, tiram o crachá do pescoço, passam o código de barra numa máquina, e podem almoçar à vontade, como uma ração balanceada que lhe restaura a força física para mai s meio período de trabalho intenso, quase forçado.

Aquele entusiasmo inicial, porém, veio tão rápido como tão rapidamente foi cedendo lugar a um sentimento de monotonia e desumanização. Mais do que cansaço, pois isso ele sentia na meia de cacau e quando ia todos os dias á casa, chegando às 8 da noite e saindo às quatro da madrugada. Era algo diferente. Era uma desumanização, um embrutecer-se, um sentir-se peça de uma imensa engrenagem, doida e maluca, que gira dia e noite engolindo tudo que encontre pela frente. Uma coisa totalmente sem sentido. Na hora que ia para o alojamento, apesar do corpo moído e tonto de tanto trabalho, o sono já não vinha tão rápido. Nos primeiros dias ele caía na cama como um morto. Passava um tempo, dez minutos que fossem, pensando. Como é bom pensar! Mais do que nunca, tão sem tempo andava, sentia o gosto de ser gente, refletindo. Imaginava aquelas máquinas imensas, centenas, milhares, roncando dia e noite canteiro de obras afora. A pá-carregadeira, trator de esteira, aqueles caminhões cujos pneus são agigantados, os guindastes lá nas alturas, toda aquela força bruta tinha o dedo, o suor, o sangue dos operários. A desolação, a raiva, e muita indignação iam tomando conta de sua consciência. Dentro de si, notava que o operário crescia e o camponês ia diminuindo, até, provavelmente, desaparecer por completo.

Na meia de cacau, ainda se lembrava, ele persignara-se tantas vezes pedindo a Deus que o livrasse dos bichos maus peçonhentos, e o abençoasse buscando forças, sei lá onde, para que ele mesmo sugasse a sua última gota de sangue, até esgotar-se. Depois descobrira a magia do crachá, que ocupara o lugar da reza, e lhe garantia, por milagre, o transporte, a comida, o crédito. Com o crachá começara a sentir-se gente. Agora era invadido por uma contradição terrível. Buscara a liberdade, experimentara-a, inicialmente, mas agora via sua vida, e de tantos, afundar-se numa escravidão terrível, mais sofisticada que na meia de casal, e, por isso, mais cruel. E nem tinha ânimo nem coragem de rezar a Deus e de livrá-lo da realidade terrível do ‘risco quatro’ que assinara no seu processo de admissão ao trabalho em Belo Monte. Risco quatro significa risco de morte! O grande deus era o império econômico bem à sua frente, ditando as regras do mundo.

Para além da magia do crachá, esse novo sentimento o ocupava por inteiro.  Na imaginação, no momento de insônia, ele olhava a máquina, lhe apertava o botão, movia-a, na leveza da tecnologia, da fina flor do capitalismo, empurrando de uma só vez dezenas de toneladas de pedra como se tivessem o peso de uma folha de papel, e sentia sua força agigantar-se no poder da máquina criada pela inteligência da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, sentia-se uma peça provisória, descartável, daquela máquina poderosa. A peça mais importante e, ao mesmo tempo, a mais depreciada, desgastada, lançada fora, com tanta oferta no mercado de Altamira, vinda maltrapilha de todas as regiões do Brasil.

O crachá continuava extremamente importante, pois lhe garantia o acesso ao ambiente de trabalho, ao alojamento, ao refeitório. Num acordo com a gerência, dentro de um Plus conquistado a partir das hidrelétricas do Madeira, o pagamento no bordel podia ser mensal, e sem crachá, para se evitarem problemas.

No dia 7 de setembro, quando soube que um colega seu ia celebrar no espaço ecumênico do Pimental, ascendeu-se uma luzinha no fundo de sua contradição. Conhecia-a o bem e não era possível que ele fosse ali para abençoar aquela máquina de moer gente. Que decepção! Quanta descoberta! Uma segurança, de uniforme azul e tarja amarela, rodou o tempo todo, com arma na cintura, em torno do espaço da celebração. Às vezes olhava da janela aberta. No bando da frente, num canto, um funcionário da Norte Energia ficou um tempo todo com um aparelho de comunicação á mão. Às vezes o levava ao ouvido e conversava com alguém. Um outro, com uma filmadora, não perdia nenhum detalhe. Quando o padre pediu aos participantes que orassem pelos mortos e acidentados no canteiro de obra, ninguém, absolutamente ninguém abriu o bico. Ao final, na ação de graças, equipe de Pastoral Operária recém-iniciada proclamou os Direitos Universais dos Atingidos por Barragens, um texto do militante Leandro escrito no Encontro Nacional do MAB, nos dias 5 a 7 de setembro, em São Paulo. Isso foi a gota de água! Cândido, funcionário da Norte Energia que contratara a missa, foi para o olho na rua. E o camponês, agora totalmente metamorfoseado em operário, passa a frequentar as reuniões do grupo que liderava as greves na luta pelos direitos.

Descobrira, entre outras coisas, que a magia do crachá estava diretamente associada à força do operário explorado, a serviço do capital. O que parecia uma benesse era como a senha da exploração. As portas se lhe abriam porque ele, o operário, era a peça mais importante e, ao mesmo tempo, a mais perigosa. Inicialmente teve raiva do crachá. Depois percebera que a questão ia para muito além de um pedaço de papel dependurado ao pescoço.

Seus conceitos iam mudando de forma galopante, quase no ritmo acelerado da construção de Belo Monte. Aprendera desde criança que o trabalho dignifica o homem. Agora, em Belo Monte, descobre que cruzar os braços dignifica mais do que o trabalho. Cruzar os braços pode libertar uma classe e um povo inteiro. Então, com a mesma disposição empenhada na meia de cacau, sugando o próprio sangue, garantindo seu ganha-pão e um grande lucro ao patrão, agora, como operário, divide seu tempo em jornada dupla: no movimento da máquina e nos bastidores da greve.

Belo Monte teria parado pelo poder da Justiça no dia tal. Montaram-se artimanhas par driblar a Justiça, esconderam o diretor da Norte Energia, que não foi encontrado para assinar a notificação, até que  a Liminar foi derrubada pela AGU – Advocacia Geral da União.  O operário sentia que o poder organizado da classe operária é mais forte que a Justiça e que o império econômico. Os operários, justamente os operários, intensamente explorados, são, ao mesmo tempo, um dos principais sujeitos da mudança. Ele sentiu isso na pele quando os trabalhadores, pela primeira vez com a sua participação, pararam o sítio do Pimental, entre os dias 9 a 14 de novembro.

O operário aprendeu outras coisas além da força da classe trabalhadora organizada. Ele sentiu, e se enraivou, com o papel do Sintrapav, o sindicato que representa a categoria. Há muito já desconfiava disso. Olhava aqueles sindicalistas, bem vestidos, de camisa de manga complica, de malas pretas na mão, e via neles muita semelhança com os chefes da empresa. A única diferença, pensava, é que o poder dos donos da barragem é maior que o deles. Mas a cabeça, a lógica capitalista, é a mesma: ambos vivem como sanguessuga, da exploração do trabalho do trabalhador.

Pois é! A Justiça quis para Belo Monte, e não conseguiu. A força da Justiça se torne e vira cinza frente ao império econômico. Pois os operários organizados podem parar e mudar os rumos de Belo Monte. O antigo camponês, agora operário, via isso e sentia orgulho da sua classe.

Num dia de manhã, na saída do refeitório, após o café, o Encarregado de Turma pedira o Crachá ao operário para fazer sei lá o quê. Como era seu dia de folga, o operário lhe entregou o crachá, e seguiu para uma reunião dos companheiros de luta. No almoço, não conseguiu entrar no refeitório, pois estava sem o crachá. À tarde procurou pelo encarregado por todos os cantos, mas não o encontrou. À noite, com a barriga roncando de fome, quis sair para comprar qualquer coisa numa vendinha no antigo povoado do Pimental – totalmente destruído por Belo Monte -, mas foi barrado pela Guarda Patrimonial, na guarita. ‘Se você sair sem o crachá, não pode voltar’, disse-lhe. Não havia nenhum autoritarismo em sua fala, apenas cumpria normas. E o orientou a pedir a um colega que lhe trouxesse um marmitex. Assim fez. E passou a noite, mas já meio desconfiado com tudo aquilo.

No outro dia, bem de madrugada, levantou-se, cuidou rapidamente os papéis da organização dos operários, guardados a sete chaves, e se dirigiu ao refeitório para o café da manhã. Foi novamente barrado. Um colega seu do lado de dentro, vendo-o naquela situação – com fome e sem poder entrar -, tentou trazer-lhe uma fruta no bolso, mas na saída a máquina apitou e o segurança veio logo. Mesmo sem nada no estômago, ele tentou tomar o ônibus para dirigir-se ao local do trabalho, a uma distância de três quilômetros. Foi para o ponto. O motorista, porém, não permitiu seu embarque por fala do crachá. ‘estou perdido e não encontro, por nada, o encarregado’, pensou.

Voltou então ao Alojamento, e lá dentro a fofoca já andava solta: vinte companheiros contaram que trabalharam o dia todo e tiveram que voltar a pé do trabalho ao alojamento por falta dos crachás, que foram recolhidos pelo encarregado. Não tinham mais dúvida! Tinha caído na armadilha do crachá.

Articularam-se, com toda discrição, em conversa miúda. A essas alturas os telefones, todos de uma única operadora permitida no canteiro, já poderiam estar grampeados. Dito e feito: pelos menos uma centena dos operários estava sem o crachá. Isso significa sem trabalho, sem comida, sem condições de permanecer ali dentro. Demitidos sem ao menos ser mandados embora.

Num último esforço, ainda tentaram procurar os superiores: os capacetes verdes, os camisas azuis, os sem identificação – chefes supremos, mas ninguém, absolutamente ninguém fora encontrado. A armadilha fora friamente montada.

No terceiro dia, próximo de 150 pessoas saíam a pé, com suas bolsas, e desciam o canteiro, passando pela guarita, até chegar à Transamazônica. Iam tentar a vida em outro lugar. A consciência lhes custara a cabeça.

Nessas bandas do Brasil e da Amazônia, onde cangaceiros e capatazes se juntam à fina flor do capitalismo, os mecanismos de desova de ‘persona non grata’, de pessoa perigosa ao sistema de exploração, não tem limite. Pode ser numa eliminação por encomenda, num sumiço no canteiro de obra, enterrado no concreto e sepultado como indigente. Pode ser colocado no carro da polícia à força e solta em Rurópolis, a 300 km de distância, com a recomendação de não voltar. Podem vários ônibus ser lotados de grevistas e soltos em Marabá, a 500 km de distância, longe de suas terras, e lá ficam rodados. Ou pode ser, simplesmente, tomar-lhe o crachá.

Assim se foram: sem crachá, sem emprego, mas com a semente da liberdade plantada no canteiro de obra. Novas greves, mais organizadas, mais fortes, virão a qualquer momento.

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