“Nobres Selvagens” na Ilustríssima (Folha de S.Paulo) de domingo, 22 de fevereiro de 2015

Antropólogos, índios e outros selvagens

RICARDO MIOTO
ilustração ANA PRATA

22/02/2015  03h05

RESUMO Livro do antropólogo Napoleon Chagnon que aborda suas pesquisas entre os ianomâmis é lançado no Brasil. Em entrevista, autor, que direcionou sua carreira para uma interpretação evolutiva do comportamento indígena, fala sobre suas conclusões e comenta a recepção, muitas vezes negativa, de sua obra entre seus pares.

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Sobre Napoleon Chagnon, 76, há só uma unanimidade: trata-se do pesquisador mais polêmico da antropologia contemporânea.É

Nesta entrevista, o americano –que lança agora no Brasil o livro “Nobres Selvagens: Minha Vida entre Duas Tribos Perigosas: os Ianomâmis e os Antropólogos” pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha– afirma que a antropologia brasileira representa o que há de mais atrasado no pensamento anticientífico nessa área.

Chagnon critica ainda alguns brasileiros ligados à temática indígena, como o líder ianomâmi Davi Kopenawa, “manipulado por antropólogos e ONGs”, e o cineasta José Padilha, autor do documentário “Segredos da Tribo”, que “deveria se limitar a filmar Robocop”.

Ana Prata

Chagnon estudou os ianomâmis do Brasil e, principalmente, da Venezuela a partir de 1964 e ao longo de 35 anos, em 25 viagens que totalizaram 5 anos entre os índios. Foi o pioneiro no contato com várias tribos isoladas, que acredita serem uma janela para as sociedades pré-históricas nas quais o gênero Homo viveu por milhões de anos.

Foi visto com antipatia por diversos colegas antropólogos por propor explicações darwinianas para o comportamento dos índios –e dos humanos em geral– e ao escrever, em 1968, um livro em que tratava amplamente da violência entre os índios e no qual, desde o título, “Yanomamö: The Fierce People” (sem tradução no Brasil), chamava os ianomâmis de “o povo feroz”. Despertou inimizades ao se afastar dos colegas antropólogos, que acreditava mais interessados em fazer política do que ciência, e se aproximar de geneticistas.

Foi em 1988, porém, que causou a fúria dos colegas, ao publicar na revista “Science” um estudo mostrando que os homens ianomâmis com assassinatos no currículo eram justamente os que tinham mais mulheres e descendentes. Em termos biológicos, a violência masculina e certo egoísmo humano seriam estratégias reprodutivas bem-sucedidas, ideia que desagradou fortemente seus colegas das humanidades.

O antropólogo sempre defendeu que os índios que estudou guerreavam movidos por uma insaciável vontade de capturar mulheres, enquanto os livros tradicionais de antropologia diziam que a guerra primitiva tinha motivos como a escassez de alimentos ou de terra.

Chagnon diz que seus críticos são marxistas movidos pela ideologia de que os conflitos humanos se explicam pela luta de classes ou por disputas materiais, e não por motivos mais animalescos, como a busca por sucesso sexual.

Ele afirma que nenhum colega pôde apontar falhas nos dados publicados na “Science”. No entanto, antropólogos questionam seu procedimento não só nesse caso como em outros trabalhos (leia ao lado).

Em 2000, o jornalista Patrick Tierney publicou o livro “Trevas no Eldorado” (lançado no Brasil em 2002, pela Ediouro), acusando Chagnon e colegas, entre outras coisas, de terem espalhado sarampo deliberadamente entre os índios. As acusações foram investigadas pela Associação Americana de Antropologia, que inocentou os pesquisadores da grave acusação.

Na entrevista abaixo, feita por telefone, Chagnon trata ainda de temas como a higiene dos índios e os riscos da selva.

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Folha – O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou na internet a publicação do seu livro no Brasil, dizendo que o sr. está ligado à “direita boçalmente cientificista”.

Napoleon Chagnon – A ideia de que o comportamento humano tem uma natureza biológica, moldada pela evolução, além da cultura, sofreu muita oposição nas últimas décadas de quem tem uma visão marxista. Está havendo uma mudança de paradigma, mas os antropólogos brasileiros são o último reduto dessa oposição e sempre tentaram impedir meu trabalho.

Marxistas não gostam de explicações que não envolvam a luta por recursos materiais. Para eles, isso explica tudo. Eles diziam, por exemplo, que a causa da guerra entre os ianomâmis era a escassez de proteína –uma tribo atacaria a outra em busca de carne. Nossas observações mostraram, porém, que não havia correlação. Eles tinham abundância de proteína; lutavam, na verdade, por mulheres.

Nos EUA, cientistas importantes, como meu grande amigo Steven Pinker e o professor Jared Diamond, escreveram recentemente livros demonstrando a relevância crescente da psicologia evolutiva.

Os antropólogos latino-americanos me atacam, mas não têm dados para rebater as conclusões que proponho, porque não gostam de trabalho de campo. Eles gostam de argumentos teóricos, de ficar sentados nas suas cadeiras na universidade fazendo ativismo. No entanto, para entender o mundo, você tem de coletar informações a fim de testar suas previsões e teorias. Essa é a base do método científico. A tendência pós-modernista é dizer que não há verdade, que tudo é social ou político. Isso é a morte da ciência.

Esses críticos dizem que sua visão dos ianomâmis é muito negativa. Citam trechos do seu livro em que o sr. descreve criticamente os hábitos de higiene dos índios, dizendo que eles espalhavam muco em tudo.

Tenho muitas críticas à minha própria civilização também, como o excesso de filas. Os ianomâmis não têm uma teoria da transmissão de doenças via germes. Então assoam o nariz na mão e passam no cabelo, nos outros, até na minha bermuda [risos]. A primeira coisa que quis aprender na língua deles foi “não encoste em mim, suas mãos estão sujas”, mas não adiantou. Você se acostuma.

Na verdade, você percebe que há coisas mais sérias com que se preocupar. A vida na tribo é perigosa. Há muitas cobras. Um bebê de uma tribo ianomâmi em que vivi sumiu, e os pais concluíram que a única explicação era que tivesse sido comido por uma anaconda. Há ainda muitos insetos, há onças, muitos outros incômodos.

Como é a sua relação com o líder ianomâmi Davi Kopenawa?

Ele é manipulado pelos seus mentores, seus conselheiros políticos, a maioria antropólogos e ONGs, que dizem a ele o que ele deve declarar. Ouço que muitos jornalistas brasileiros têm essa percepção, mas sabem que é impopular dizer isso em público.

As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos.

Pois é. Veja, em uma das minhas visitas aos ianomâmis no Brasil, Kopenawa proibiu o piloto do meu avião de utilizar o combustível que tinha guardado perto de uma das tribos em que ele tinha influência. Ele queria a todo custo que eu ficasse isolado na floresta, fez isso deliberadamente. O piloto teve de conseguir combustível com outros colegas. Essa é uma das razões que me levaram a não ter uma opinião muito positiva a respeito dele.

Kopenawa critica vocês por não devolverem amostras de sangue que coletaram entre os índios em 1967 para estudos científicos na área de genética e que foram parar em bancos de universidades dos EUA.

Sou simpático a esse pedido. Mas essas amostras são 99% de tribos venezuelanas, não brasileiras. Seria horrível se entregássemos tal sangue para os ianomâmis brasileiros, como Kopenawa. Uma tribo ficaria muito assustada de saber que seus vizinhos têm o sangue de seus ancestrais, eles acreditam que isso poderia ser utilizado para fazer magia negra, por exemplo.

É importante dizer que, influenciadas por antropólogos, lideranças ianomâmis tornaram impossível hoje, para qualquer pesquisador, ir a suas tribos e coletar amostras de sangue; foram convencidos de que isso foi um crime terrível que cometemos. Dessa forma, nenhum pesquisador da área biomédica pode agora fazer estudos que envolvam coleta de amostras. Os ianomâmis vetaram para sempre qualquer pesquisa que possa beneficiar a sua saúde e dependa de exames de sangue.

Eu gosto muito dos ianomâmis. Fiquei muitos anos com eles. Eles merecem ser mais bem representados. É nítido que eles precisam de instituições que permitam acesso à medicina moderna, por exemplo. Eles precisam de ajuda.

De qualquer forma, eu não coletei amostras de sangue. Eu só ajudei os médicos a fazê-lo. Eu sou antropólogo. Não estou nem aí para o que acontecerá com as amostras de sangue congeladas nos EUA. Mas seria irresponsável se fossem entregues aos índios errados.

O sr. assistiu ao documentário “Os Segredos da Tribo” (2010), do brasileiro José Padilha?

Padilha mentiu para mim, foi muito desonesto. Ele disse que faria um filme equilibrado, mas nunca mencionou que as acusações feitas contra mim foram completamente desmentidas [pela Associação Americana de Antropologia]. Ele contratou um missionário que falava a língua ianomâmi para fazer as entrevistas com os índios. Esse missionário, amigo meu, depois veio me avisar que Padilha direcionava as entrevistas contra mim, que tudo era feito para criar a impressão de que os ianomâmis me odiavam. O filme é ridículo.

Além disso, Padilha lançou o filme e desapareceu, nunca respondeu às minhas ligações. Na apresentação do filme no festival de Sundance, ele não só não me convidou como chamou três antropólogos inimigos meus para debater. Um deles, Terence Turner, que teve participação ativa na elaboração do filme, me acusava de ser o Mengele das tribos ianomâmis. É doentio. Padilha deveria se limitar a filmar “Robocop”.

Depois de trabalhar muitos anos nas universidades do Michigan e de Missouri, o sr. agora é professor aposentado. Aposentou-se também da pesquisa científica?

Não. Continuo trabalhando com os dados que coletei nas tribos ao longo desses anos todos. Estou para publicar vários artigos em revistas importantes, como a “Science”, mostrando o impacto de conceitos caros à biologia, como o parentesco, na organização das tribos ianomâmis. Se os antropólogos brasileiros não gostam do meu trabalho, ainda não viram nada [risos]. No caso do público brasileiro, espero que os leitores encontrem no meu livro agora publicado uma melhor compreensão da natureza humana, seja no comportamento dos povos indígenas ou no de um vizinho.

RICARDO MIOTO, 25, é editor de “Ciência” e “Saúde” da Folha.

ANA PRATA, 34, é artista plástica.

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Livro contribui para distanciar ciências humanas e biológicas

André Strauss

22/02/2015  03h09

Por sua alegada coragem em sustentar hipóteses fundamentadas em princípios darwinianos, o antropólogo americano Napoleon Chagnon, que dedicou sua carreira a estudar a violência entre os índios ianomâmis, apresenta-se em “Nobres Selvagens” [trad. Isa Mara Lando, Três Estrelas, 608 págs., R$ 89,90] como vítima dos mais diversos ataques e preconceitos por parte de seus pares.

Os antropólogos culturais, os religiosos salesianos, os ativistas políticos e os próprios ianomâmis são retratados como grupos ferozes ou biofóbicos. Já Chagnon seria apenas um inocente antropólogo de Michigan. A tese não convence.

Embora o antropólogo pretenda ser um expoente da síntese entre biologia e antropologia, suas proposições são bastante limitadas e, muitas vezes, equivocadas. Exemplo disso é partir do princípio de que uma sociedade não contatada é o mesmo que uma sociedade não impactada, atribuindo aos ianomâmis condição análoga à de sociedades paleolíticas. Propor um contratualismo hobbesiano baseado na luta por mulheres também soa ingênuo.

Em seu livro, Napoleon Chagnon insiste na noção anacrônica de “ciência pura”, desmerecendo a militância pró-indígena dos antropólogos brasileiros como um capricho do politicamente correto.

Mesmo reconhecendo-se que em diversas ocasiões seus detratores exageraram, esse tipo de postura maniqueísta do autor não contribui para a necessária superação dos conflitos epistemológicos e políticos que seguem existindo, ainda que ligeiramente mitigados, entre as chamadas ciências humanas e biológicas.

Um famoso filósofo darwiniano certa vez reconheceu que as teorias antropológicas de cunho biológico têm, inegavelmente, o péssimo hábito de atrair os mais indesejáveis colaboradores. Daí a importância da cada vez maior politização dos bioantropólogos e o movimento explícito por parte deles para impedir que esses associados participem de seus círculos.

Ainda assim, provavelmente Chagnon não é culpado das acusações mais graves que lhe foram imputadas, tal como a de disseminar propositalmente uma epidemia de sarampo entre os indígenas ou a de incentivar, por escambo, que eles declarassem guerras uns contra os outros a fim de que ele pudesse incluir as cenas de violência em um documentário que estava produzindo.

Por outro lado –e isso não se pode negar a Chagnon–, é verdade que as humanidades muitas vezes parecem apresentar aquilo que se convencionou chamar de um “desejo irresistível para a incompreensão”, resultando em acusações injustas e de caráter persecutório.

Algumas décadas atrás, ainda era possível negar a relevância de campos como a genética comportamental, a ecologia humana, a neurociência cognitiva ou a etologia de grandes símios. Atualmente, entretanto, qualquer tentativa de mantê-los fora da esfera antropológica é um exercício vão.

Mais importante, a estratégia comumente utilizada no passado de atrelar os desdobramentos oriundos dessas áreas a implicações nefastas para a dignidade humana, torna-se, além de injusta, muito perigosa.

Juntos, antropólogos e biólogos precisam elaborar uma narrativa capaz de ressignificar esses novos elementos através de uma ótica benigna. Afinal, eles passarão, inevitavelmente, a fazer parte do arcabouço teórico de ambas as disciplinas.

ANDRÉ STRAUSS, 30, é antropólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha.

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Trajetória do pesquisador é marcada por querelas

Marcelo Leite

22/02/2015  03h13

Não é trivial resumir as objeções que a antropologia cultural levanta contra Napoleon Chagnon. A controvérsia tem quase meio século, e a tarefa fica mais complicada quando muitos dos antropólogos relevantes do Brasil se recusam a dar entrevistas sobre o caso.

O panorama se turvou de vez em 2000, com o livro “Trevas no Eldorado”. Nele o jornalista Patrick Tierney acusava Chagnon e o médico James Neel de, em 1968, terem causado uma epidemia de sarampo entre os ianomâmis da Venezuela e experimentado nos índios um tipo perigoso de vacina, além de negar-lhes socorro médico.

Chagnon e Neel foram depois inocentados dessas acusações graves. Bruce Albert, antropólogo e crítico de Chagnon que trabalha há 36 anos com os ianomâmis, já escreveu sobre a ausência de fundamento das alegações de Tierney.

Ana Prata

Nem por isso Albert deixa de assinalar sérios erros éticos da dupla. Para ele, os ianomâmis foram usados, sem saber, como grupo de controle para estudos sobre efeitos de radiação nuclear no sangue de sobreviventes de bombardeios em Hiroshima e Nagasaki.

Chagnon, capataz de Neel na expedição, obtinha amostras de sangue em troca de machados, facões e panelas. Embora essa prática perdurasse nos anos 1960-70, Albert ressalva que regras exigindo consentimento informado já vigiam desde 1947 (Código de Nuremberg) e 1964 (Declaração de Helsinque).

Os reparos ao trabalho de Chagnon abarcam também a própria ciência. Ele se diz superior aos antropólogos tradicionais, que acusa de relativistas pós-modernos, xingamento comum nos setores cientificistas da academia americana.

A polêmica teve início com o livro “Yanomamö: The Fierce People”, em que Chagnon apresentou sua tese de que ianomâmis são uma relíquia ancestral da espécie humana: selvagens com compulsão pela guerra como forma de obter mulheres, escassas devido à prática do infanticídio feminino.

Os críticos da etnografia de Chagnon afirmam que ele nunca comprovou o infanticídio seletivo. Com efeito, a explicação foi abandonada em outros estudos, como um famigerado artigo de 1988 no periódico científico “Science”.

O trabalho recorre a dados demográficos coletados por Chagnon para corroborar sua noção, bem ao gosto da sociobiologia, de que os homens mais violentos eram os que tinham mais mulheres e filhos. Esses seriam os que os ianomâmis chamam “unokai” –segundo o autor, os mais temidos no grupo (e, por isso, mais prolíficos).

Albert, Jacques Lizot e outros antropólogos consideram que ele misturou alhos com bugalhos. “Unokai” não seria um atributo individual, mas o estado de impureza (simbólica) daquele que mata alguém com armas ou feitiçaria, ou mesmo só entra em contato com o sangue de cadáveres de inimigos.

Além disso, em incursões contra outras aldeias, os guerreiros muitas vezes dão golpes e flechadas em adversários já mortos. Isso os tornaria “unokai”, não homicidas.

Os mais admirados não seriam esses, mas os “waitheri”, algo como “valorosos”, que se distinguem não só pela valentia, mas também pela capacidade de liderar, de falar bem, até pelo humor.

Não bastasse isso, os críticos apontam manipulação de números. Para inflar seus dados e chegar a 44% de homens que teriam participado de mortes e tinham até o triplo de filhos na comparação com os não “unokai”, Chagnon teria excluído da amostra jovens de 20 a 25 anos e homens mortos –violentos ou não, com ou sem filhos.

Em fevereiro de 2013, o antropólogo Marshall Sahlins renunciou à Academia Nacional de Ciências dos EUA após o ingresso de Chagnon. Num artigo em que explicava o ato, defendeu que um antropólogo alcança entendimento superior de outros povos quando toma seus integrantes como semelhantes –e não objetos naturais, “selvagens”, ao modo de Chagnon.

“É claro que esse não é o único meio de conhecer os outros. Podemos também utilizar nossa capacidade simbólica para tratá-los como objetos físicos”, escreveu. “Mas não obteremos o mesmo conhecimento dos modos simbolicamente ordenados da vida humana, do que é a cultura, ou até a mesma certeza empírica.”

MARCELO LEITE, 57, é repórter especial e colunista da Folha.

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Morte sistemática de Ianomâmis é um tabu

Leão Serva

23/02/2015  02h00

Folha publicou com grande destaque na edição de domingo (22) a notícia do lançamento do livro “Nobres Selvagens” (pela Três Estrelas, selo do Grupo Folha), de autoria do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon. Títulos na capa e no caderno da Ilustríssima chamaram a obra de “livro tabu”.

Trata-se de um exagero baseado no discurso persecutório do autor, que sempre responde às críticas a seu trabalho com alegações de perseguição pessoal ou boicote. Uma pesquisa no Google News apresenta 872 respostas com notícias sobre o antropólogo e 64 referências ao livro, incluindo veículos de grande prestígio internacional como “The New York Times” e “Washington Post”.

No Brasil, certamente a obra não foi tema de reportagens simplesmente porque não havia sido lançada.

Na edição, textos de Marcelo Leite e André Strauss compilam as principais fragilidades apontadas pelos críticos da obra de Chagnon.

Uma bem importante, no entanto, não foi mencionada: o antropólogo dá pouca importância ao caráter simbólico das expressões da cultura que aparecem nos depoimentos de índios (e de brancos também, é bom que se diga), o que o leva a tomar o que ouve literalmente. Assim, em sua entrevista, é quase infantil a descrição dos perigos de uma aldeia Ianomâmi. Os medos que Chagnon menciona que concentrariam a atenção dos índios para longe dos cuidados médicos (risco de onças e cobras) são próprios de um alienígena. Já os índios criam cobras em casa para comer ratos; sabem que onças têm medo dos homens e, em situações raras, quando se aproximam furtivamente da periferia da aldeia para tocaiar uma criança, logo são capturadas pelos índios, como eu mesmo testemunhei. Não quer dizer que não haja medo, mas o antropólogo o amplifica para reforçar o estereótipo de atraso.

A história de que um casal ianomâmi teria atribuído o desaparecimento de seu filhinho a uma anaconda esfomeada é bizarra: o bebê na aldeia não fica um minuto longe dos outros e uma sucuri no lento processo de engolir uma criança seria vista por dúzias de pessoas e morta. Chagnon certamente não entendeu o que lhe foi dito ou tomou por verdade uma mentira (vale lembrar que um “civilizado” banqueiro suíço também mente).

Em texto mais antigo, Chagnon apontava o gesto de bater no peito, comum em festas de ianomâmis como expressão da violência da cultura desses grupos. Ora, o mesmo movimento pode ser encontrado diariamente em culturas mais “evoluídas”, segundo seu critério, das grandes cidades da Europa e dos EUA (nas missas católicas quando se diz “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”) à Mesopotâmia, berço das civilizações (onde soldados contemporâneos reproduzem o gesto antes de ataques de infantaria). Chagnon não leva em conta o alicerce básico do estudo da antropologia, que as culturas humanas são simultâneas, embora diferentes na expressão material.

Por fim, para desfazer as críticas feitas pelo líder Davi Kopenawa, criou a história de que ele é manipulado por antropólogos. A Folha parte dessa premissa para questionar Chagnon: “As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos”, ao que o autor diz: “Pois é”, e segue sua catilinária.

Trata-se de uma inverdade que qualquer repórter que fale bem português ou ianomâmi pode comprovar. Eu entrevistei Kopenawa três vezes em épocas e lugares diferentes, duas delas sem aviso prévio. Me aproximei, pedi para falar e conversamos sem mediação. Uma vez, em seu escritório em Boa Vista, ele pediu que outras pessoas (que eu não conhecia, índios e brancos) saíssem da sala para ser entrevistado. Fala fluentemente um português simples (de brasileiro não universitário) com forte sotaque. É preciso ter calma e prestar atenção, por vezes pedir que repita para entender a pronúncia de algumas palavras.

A última vez que o encontrei foi numa entrevista para a revista Serafina, com hora marcada. Também ficou só, enquanto eu estava acompanhado da jovem fotógrafa Helena Wolfenson, da Folha. É possível que estrangeiros que falem mal ou não falem português precisem de tradutor. E são certamente raras as pessoas que falam português, ianomâmi e línguas estrangeiras. Talvez daí a história de que ele se faça acompanhar de “antropólogos” ou gente de ONG.

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O que de fato é um “tabu” (aquilo de que não se fala) na imprensa brasileira é o lento processo de abandono dos Ianomâmi à morte, em curso por incompetência ou (depois de tanto tempo) decisão do governo federal.

Como noticiei nesta coluna em maio do ano passado, as mortes de Ianomâmi por problemas de saúde cresceram nos dois governos do PT (Lula e Dilma). Muitas das doenças são simples de evitar, como provam as estatísticas da segunda metade dos anos 1990.

O aumento se deve em grande medida à interrupção dos trabalhos de medicina preventiva nas aldeias e ao crescimento dos gastos com transporte dos doentes das aldeias para a capital de Roraima, Boa Vista.

A maior parte dos custos do Ministério da Saúde com a saúde indígena em Roraima tem sido despejada em frete de aviões para levar índios a Boa Vista. São poucas as empresas de táxi aéreo, as mesmas que levam políticos locais em seus deslocamentos.

Em janeiro do ano passado, quando a entrevistei, a coordenadora do Ministério da Saúde para as áreas indígenas de Roraima, Maria de Jesus do Nascimento, explicou o aumento das mortes dizendo: “Não, dinheiro não falta… Foi problema de gestão, mesmo”.

Na área Ianomâmi, uma médica cubana do programa Mais Médicos se desesperava: “Não tenho antibióticos, não tenho oxigênio, não tenho equipamentos”. Eu perguntei o que fazia: “Não quero mas sou forçada a mandar os índios de avião para Boa Vista”. O meio se tornou o fim. A saúde dos índios se tornou desculpa para enriquecer as empresas de táxi aéreo.

Quem procura no mesmo Google News notícias sobre as mortes de Ianomâmi pela improbidade dos órgãos de saúde local só encontra quatro notícias, uma delas do espanhol El País, as demais noticiando os protestos dos índios e um debate no Congresso.

Esse genocídio lento e discreto é o verdadeiro tabu.

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