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De ministra a candidato ao STF: os indígenas estão fazendo história no Brasil (Terra)

terra.com.br

Erisvan Guajajara


O ano de 2023 será profundamente marcado pelo protagonismo dos povos indígenas

4 jan 2023 – 16h19

(atualizado às 18h03)

Uma reparação histórica acontece nesse momento. Pela primeira vez depois de 522 anos, teremos indígenas no alto escalão do governo e nos espaços de poder. 

O inédito Ministério dos Povos Indígenas tem à frente uma mulher indígena, Sônia Guajajara, que desde que assumiu seu cargo já recebeu várias lideranças indígenas para o diálogo e para a construção coletiva de lutar por direitos. Uma conquista do movimento indígena e a certeza de que a luta coletiva sempre trás boas conquistas. 

Presidente Lula e a ministra Sônia Guajajara: nesse início de ano, povos indígenas contabilizam vitórias importantes para a luta coletiva dos povos
Presidente Lula e a ministra Sônia Guajajara: nesse início de ano, povos indígenas contabilizam vitórias importantes para a luta coletiva dos povos. Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Outro marco na história é ter uma mulher indígena na Presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). Joenia Wapichana é a nossa presidenta, a Funai terá a cara dos nossos povos e a força de uma guerreira indígena. Ela foi a primeira mulher advogada indígena e deputada federal do Brasil. A Funai faz parte do nosso Ministério dos Povos Indígenas (MPI). Com os dois órgãos e as duas lideranças construiremos para nossos povos proteção e segurança. E para nosso território, demarcação. 

E a luta não para por aqui. Essa semana saiu a nomeação do vereador Weibe Tapeba para a Secretaria Especial de Saúde Indígena, que será o primeiro indígena a comandar o órgão que cuida da saúde dos povos indígenas do Brasil. Weibe Tapeba é Líder do povo indígena Tapeba, do município de Caucaia. Foi coordenador da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará, é integrante do departamento jurídico da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Vale ressaltar que assim como à Joenia, Weibe foi um dos três nomes sugeridos pela Apib (Associação de Povos Indígenas do Brasil) para ser indicado ministro dos Povos Indígenas, que teve Sônia Guajajara como nomeada. 

As conquistas continuam: o advogado Eloy Terena será o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas. O anúncio oficial aconteceu nesta quarta-feira (4). Terena é integrante da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e defende a pauta indígena em diversos processos no Supremo Tribunal Federal (STF), como o caso do marco temporal e de demarcação das terras indígenas. A convite da ministra, ele aceitou o cargo e irá compor o ministério.

O movimento indígena, inclusive, vê o nome dele como uma possível indicação para o Supremo. A ideia da direção da Apib é articular para que ele seja um dos cotados nas vagas que serão abertas na corte durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O petista fará ao menos duas indicações. 

Para reforçar mais ainda a presença de indígenas nos espaços de poder, Célia Xacriabá será a nossa voz no congresso. Eleita deputada federal por Minas Gerais, já começou suas articulações para defender os direitos dos povos indígenas do Brasil. Que os encantados guiem nossos parentes e que a luta democrática traga bons frutos de esperança de dias melhores para os povos indígenas.

Posse de Lula: Cacique Cobra Coral diz que foi chamado para garantir que não chova na cerimônia (O Globo)

oglobo.globo.com

Por Luiz Ernesto Magalhães

01/01/2023 11h18


Menos de 24 horas depois de trabalhar por um réveillon sem chuvas no Rio de Janeiro, a médium Adelaide Scritori, que diz incorporar o espírito do Cacique Cobra Coral, capaz de manipular o clima, se movimenta agora para que não caia um pingo d’água na cerimônia de posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. O porta-voz da instituição, Osmar Santos, chegou há pouco à capital em uma ”missão de reconhecimento”’ e diz que foram chamados a pedido de uma pessoa ligada à Janja, futura primeira-dama do país.

— Fomos convocados por uma pessoa ligada à primeira-dama, Janja. O tempo já melhorou em Brasília. Na hora da posse, o céu pode até ficar nublado. Mas não vai chover. Para isso, a intervenção atingirá todo Centro-Oeste. Por isso, antes de voltar ainda hoje para o Rio, vou ter que passar em Goiás para passar informações para Adelaide — disse Osmar.

O porta-voz contou que, em 2019, a Fundação também foi chamada para agir na posse de Jair Bolsonaro que deixa o cargo neste domingo. Mas na ocasião, o combinado era garantir que não chovesse enquanto o Rolls-Royce que tradicionalmente transporta os presidentes eleitos passasse pela Esplanada dos Ministérios.

— Não atendemos a um determinado governo. Mas instituições públicas: Presidência da República, governos dos Estados e prefeituras — explicou Osmar.

A médium já atuou em dezenas de situações com governos. O GLOBO, por exemplo, registrou a presença do cacique e o porta-voz em Copenhague, em 2009, quando o Rio era finalista para organizar a Olimpíada de 2016. Nos Jogos Olímpicos de Londres (2012), a Fundação Cacique Cobra Coral também atuou. Coincidência ou não, os jogos foram disputados em um ambiente mais quente que o normal para os padrões britânicos.

Nos próximos meses, a médium deve passar uma temporada na Europa. A ideia é tentar ”esquentar” o inverno da região, para evitar uma crise energética países não dependam tanto do gás russo.

— Ainda vamos avaliar se essa intervenção será a partir do Reino Unido, Espanha, Alemanha ou Itália — acrescentou o porta-voz.

‘Para mim, o termo mudança climática significa vingança da Terra’ (Sumaúna)

O líder político Davi Kopenawa. Foto: Victor Moriyama/ISA

Voz da Floresta

Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o líder político Davi Kopenawa conta de sua esperança de que Lula tenha se tornado mais sábio para ser capaz de proteger a Amazônia: “Antes, ele errou. Não quero que nos engane novamente”

Sumaúma

22 novembro 2022

O nome de Davi Kopenawa foi anunciado para compor a equipe de transição que discutirá a criação do Ministério dos Povos Originários, promessa de campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Grande liderança política dos Yanomami, que ocupam há milênios a floresta amazônica entre o Brasil e a Venezuela, Davi é uma referências dos povos originários no planeta. Em sua trajetória de enfrentamento dos invasores de suas terras, não há notícia de que tenha jamais se corrompido. Nem por riqueza material nem por vaidade, mal que acomete alguns líderes ao penetrar no insidioso mundo dos brancos – ou napëpë, na língua Yanomam, palavra traduzida também como “inimigo”. Davi se manteve fiel a sua ancestralidade, aos seus mais velhos, à cosmopolítica xamânica, o que faz dele uma árvore muito sólida no complexo mundo que une numa palavra impingida pelos colonizadores – “indígenas” – mais de 300 povos no Brasil com culturas muito diversas. O xamã chega à equipe de transição com esperanças, mas também com memória: “Antes, Lula errou. Ele está mais velho, talvez tenha ficado mais sábio. Talvez Lula tenha aberto o seu pensamento, mas ninguém sabe o que ele esconde em seu coração. Não quero que nos engane novamente”.

Radical no seu compromisso com a palavra, que na política que aprendeu não pode ser sacrificada em nome de interesses, a verdade para Davi Kopenawa é inegociável. Dessa retidão que não admite uma “boca que fala mentiras” vêm as respostas do intelectual da Amazônia nesta entrevista feita na língua Yanomam pela indigenista e antropóloga Ana Maria Machado (e traduzida por ela) a pedido de SUMAÚMA. Autor, com o antropólogo francês Bruce Albert, de A queda do céu (Companhia das Letras, 2015), livro que representa uma inflexão na antropologia, Davi sabe que fala para aqueles que chama de “povo da mercadoria”. Observador atento dos debates climáticos que frequenta pelos palcos do mundo, ele acredita que Lula só irá se mover se houver forte pressão e financiamento da proteção da Amazônia pelos países monetariamente mais ricos, em especial os europeus.

Davi Kopenawa é também um competente tradutor de mundos. Consegue traduzir o universo dos brancos para os Yanomami e também traz até nós, nesta entrevista, recados que lhes são passados pelos xapiripë [espíritos auxiliares dos xamãs]. Traduz ainda o pedido de socorro de uma velha liderança, que não conhece o mundo dos brancos para além do horror da destruição do garimpo que devora toda vida em sua aldeia. Com o território invadido por milhares de garimpeiros, hoje o contexto é pior do que qualquer outro na trajetória de brutalidades vivida pelos Yanomami desde o primeiro contato com os brancos, na primeira metade do século 20: há envolvimento do crime organizado, com armas pesadas, e aliciamento dos indígenas mais jovens.

O líder Yanomami espera que a expulsão dos invasores do território de seu povo seja o primeiro ato do presidente após a posse, em 1º de janeiro. Para que a vitória de Lula se tornasse possível em uma disputa tão apertada com o extremista de direita Jair Bolsonaro, ele conta ter sido necessário um esforço conjunto dos xamãs em 30 de outubro, data do segundo turno da eleição. Faz ainda um apelo aos leitores, para que deixem de comprar ouro, esse ouro com sangue Yanomami e também de outros povos originários, esse ouro que destrói a verdadeira riqueza, a floresta, para colocar valor no metal convertido em mercadoria ordinária.

A seguir, a palavra de Davi Kopenawa.


ANA MARIA MACHADO: Agora que Lula venceu a eleição, o que você espera do novo presidente?

DAVI KOPENAWA: Eu vou explicar para os napëpë [napë = branco, inimigo, estrangeiro + = plural] o que nós, da comunidade do Watorikɨ, estamos pensando. Nós ficamos sabendo que aquele que já foi presidente voltará ao poder, então dissemos assim: “Dessa vez, ele talvez tenha se tornado mais sábio. Antes, ele errou, mas agora talvez esteja pensando corretamente, e por isso quero que ele se torne um presidente de verdade. Não quero que nos engane novamente. Ele vai voltar a ser o presidente e ficará de fato atento às nossas terras. Ele irá olhar para nós e pensar sobre nós. Se ele nos defender, ficaremos contentes com ele”.

O que está acontecendo hoje na Terra Indígena Yanomami que Lula precisa resolver com mais urgência?

Hoje, a fala dos velhos, dos líderes Yanomami, é cheia de sofrimento. Apenas eu frequento a cidade, e por isso consigo espalhar essas palavras. Tudo está muito ruim em nossas terras, os garimpeiros levam o horror. Agora que Lula virou presidente, em primeiro lugar precisa expulsá-los, retirá-los de verdade. Eu não estou dizendo isso sem razão, mas sim porque estamos vivendo o caos. E por quê? Porque eles assorearam os rios, porque poluem as águas e porque as águas se tornaram muito turvas nos lugares onde só tem um rio correndo. Eles estragaram as cabeceiras dos rios que nascem em nossas serras. Aqueles de nós que vivem perto do garimpo estão sofrendo, passando fome. Os garimpeiros não param de chegar. Nós [Yanomami] conversamos entre os diferentes lugares da nossa terra, temos a radiofonia para nos comunicar. Um parente mais velho da região do Xitei, que me trata como filho, disse que a situação ali está calamitosa. Ele disse que as pessoas mais velhas como ele estão cansadas de ver os garimpeiros sempre chegando, sempre trabalhando nas águas, sempre sujando as águas. E não é só isso: estão muito bravos por causa das armas. Aqueles Yanomami mais ignorantes disseram que os garimpeiros poderiam chegar lá levando armas. Porém, aquelas pessoas que destroem a floresta têm armas pesadas. Essas armas não são como as flechas, os garimpeiros distribuem revólveres. Eles tratam os mais novos como se fossem lideranças, iludem os Yanomami mais jovens dizendo: “Pegue uma arma! Se você tiver uma arma, será nosso amigo. Se você ficar contra nós, não irá receber uma arma”. Ao falarem assim com os jovens, aumentaram a quantidade de armas entre os Yanomami, e os garimpeiros fazem que nos matemos entre nós. Esse meu pai lá do Xitei explicou: “Se não estivéssemos nos matando entre nós, eu não precisaria estar aqui explicando. Meu filho, vá e diga isso para aquele que se tornou o líder [presidente]. Que afaste os garimpeiros que trabalham em nossa terra. Diga isso a ele. Você conhece os líderes dos napëpë, cobre que façam isso, que acabem com essas pessoas que estão em nossas terras, que as levem para longe”. Foi isso que meu pai me disse, e estou passando para a frente. É por tudo isso que eu estou reivindicando: Lula, não comece trabalhando nas terras dos brancos primeiro. Antes, retire os garimpeiros da nossa terra. Agora, Lula, você se tornou o presidente e, no mês de janeiro, vai se sentar no Palácio do Planalto. Nesse dia, comece a mandar os garimpeiros embora.

Era isso que eu queria dizer para vocês, brancos. E não estou dizendo isso à toa. Não quero ficar aqui sofrendo enquanto tiram minha imagem [filmam], o que estou reivindicando é verdadeiro, a terra adoecida está se espalhando por todos os cantos. É porque tem malária demais e porque o descontrole da malária chegou com o garimpo, é porque as nossas mulheres estão sofrendo demais, é porque nos lugares das terras altas onde não tem mais caça o espírito da fome, Ohinari, se aproximou. Já que eu conheço o novo presidente, vou cobrar, dizendo: “Quando você discursou, eu o escutei. Todos nós guardamos suas palavras em nossos ouvidos. Nós indígenas e também os napëpë, todos ouvimos suas palavras pelo celular. Não queremos ficar com nosso pensamento em sofrimento caso você esteja mentindo. Que seja verdade o que você disse em reunião, que caso se tornasse presidente novamente iria proteger os povos indígenas, que estão sofrendo no Brasil. Eu não quero que continuem destruindo a floresta que vocês brancos chamam de Amazônia. Portanto, Lula, é isso que estou te cobrando, que você faça isso primeiro”.

É verdade. Lula disse que não irá aceitar garimpo em terra indígena. Mas, nos anos 1990, quando seus parentes mais velhos morreram na primeira invasão garimpeira [1986-1993], quando aconteceu a operação Selva Livre, que tirou 40 mil garimpeiros, naquele tempo não havia crime organizado e milícias envolvidos nem os jovens Yanomami eram aliciados como agora. Hoje em dia o tráfico de drogas está misturado ali, assim como pessoas que fugiram da prisão. Eles têm armas pesadas e bombas. Será que não vai ser mais difícil tirar os garimpeiros hoje? Será que os jovens Yanomami que estão envolvidos vão opor alguma resistência? Apesar de termos Lula agora no governo, será possível acabar com o garimpo?

É verdade que hoje em dia a situação está muito ruim, tem muitas coisas misturadas. Os napëpë têm trazido drogas, cachaça e até cocaína. Com tudo isso misturado, os garimpeiros ficam alterados. Eles trabalham drogados. Os homens cheiram cocaína e ficam sentindo tesão pelas nossas mulheres. Como eles não vêm acompanhados de suas mulheres, eles cheiram cocaína e o pensamento deles fica alterado, eles ficam destemidos e pensam assim: “Já que eu estou drogado, estou sem medo. Já que estou sem medo, eu chamo as mulheres Yanomami, como suas vaginas e faço filhos nelas”. Hoje em dia essas pessoas também têm metralhadoras, bombas, e os garimpeiros dizem: “Se quiserem nos expulsar, mesmo sendo a Polícia Federal, nós vamos matá-los”. Além disso, tem também o mercúrio usado para separar o ouro, que está no meio de tudo. Tudo isso é terrível. O presidente Lula vai mandá-los sair, mas talvez não o escutem. Eu também fico pensando sobre isso. Se o escutarem, todas as pessoas do Brasil e da Europa, aqueles outros que querem que ele mantenha a floresta amazônica em pé e saudável, para mim está certo se eles o mandarem cuidar da floresta e lhe derem dinheiro para que retire os garimpeiros. Se for criada uma frente mundial em que todos nós conversemos juntos, unindo as autoridades dos napëpë e nós, indígenas, então conseguiremos nos defender, pois nós, indígenas, já sabemos lutar. Essa não é a terra dos garimpeiros, e já que eles têm causado o horror em nossas terras, levando muita desgraça misturada, já que eles têm feito as crianças sofrerem, magras e desnutridas, já que o garimpo mata os Yanomami pelo mal das epidemias, pelo mal da fome nos rios Uraricoera, Mucajaí, nas cabeceiras do rio Catrimani, e também em Homoxi, Xitei, Parafuri e Parima, nós temos que lutar.

Mas, para curar a Terra-floresta, vocês precisam também baixar o preço do ouro, precisam cortar isso. Vocês, napëpë, que pedem ouro, que compram ouro, precisam parar. Vocês das lojas de ouro, precisam baixar o preço. Como o ouro é muito caro, os garimpeiros estão sempre invadindo minha terra. Você, mulher que entende nossa língua Yanomam, vai escrever e traduzir, e para aqueles que captam minha imagem, quando eu aparecer, quando vocês ouvirem minhas palavras, me levem a sério, concordem comigo, e digam: “Sim, é verdade! Nós erramos. Nós não sabemos respeitar. Até falamos em respeito, mas estamos enganando, nossas bocas não dizem a verdade”. Era isso que eu queria dizer a vocês.

Quando Lula se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, ele mudou a regulação das ONGs, o que levou ao fim da Urihi-Saúde Yanomami. A Urihi fez um excelente trabalho de atendimento de saúde para os Yanomami [entre 1999 e 2004] e conseguiu erradicar a malária em sua terra. Hoje, estamos vendo a malária fora de controle. O que o governo deve fazer com relação à saúde indígena?

Foi o seguinte: no início, Lula errou. Ele não sabia pensar direito. E, por ter errado no início, aconteceu isso. Ele também fez [a Usina Hidrelétrica de] Belo Monte, e esse foi um grande erro. Estragou um grande rio sem razão. Também errou com a saúde indígena. Lula errou na saúde, no assunto de viver bem e saudável, e tudo enfraqueceu. Os remédios pararam de chegar, os funcionários napëpë que trabalham em nossas terras, como técnico de enfermagem, médico e dentista, passaram a trabalhar de forma precária, já que não enviavam material. Então eu sei um pouco sobre isso, mas escondo essas palavras. Quando Lula se tornar mesmo o presidente, eu quero falar de perto com ele. “Lula, você me conhece, você precisa melhorar a saúde indígena. Precisa limpar novamente a saúde indígena, fazer os técnicos e profissionais de saúde trabalharem de verdade”. No governo de Bolsonaro, são os políticos que escolhem os coordenadores de saúde; [com Lula] eu e os conselheiros locais [representantes de toda a Terra Indígena Yanomami] vamos sentar para indicar alguém que a gente conheça, que seja nosso amigo e que trabalhe bem com a gente, só assim a saúde vai melhorar. É isso que quero dizer a Lula. Já que a saúde é prioridade para podermos viver bem, para nossos filhos crescerem bem, e considerando que estamos em uma situação lastimável, vou reivindicar isso. O presidente Jair Bolsonaro acabou com a nossa saúde. Ele nos matou como se fôssemos peixes.

Lula disse que vai criar o Ministério dos Povos Originários. O que você pensa disso?

É verdade. Ele disse que faria isso caso se tornasse presidente. E, já que ele disse, agora temos mulheres indígenas jovens que possuem o conhecimento dos napëpë, sabem agir como napëpë. Existem também jovens que sabem agir como os napëpë, sabem usar as máquinas, os celulares. E, já que temos essas pessoas que sabem trabalhar assim, eu penso o seguinte: “Awei, presidente Lula, já que você disse com clareza, eu deixei isso fixado no meu pensamento”. Acho que a dra. Joenia [Wapichana] já tem experiência, pois ela trabalhou como deputada federal por 4 anos, ela já sabe lutar. Como ela é advogada, já sabe escutar os políticos, e por isso eu gostaria que Lula a indicasse para ministra. Se Joenia disser que deseja se tornar ministra dos Povos Originários, nós vamos apoiá-la, faremos ela assentar naquela cadeira. Ter uma mulher indígena assentada ali nos trará mais sabedoria. Temos outras, como Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, que acabaram de se eleger deputadas. A dra. Joenia não foi eleita, por isso estou pensando nela, que é muito inteligente e já sabe lutar. Então, foi isso que os meus sonhos disseram, e por isso fiz aparecer essa ideia.

Nós, napëpë, somos o povo da mercadoria e estamos acabando com as florestas e com o planeta. Por isso o mundo está preocupado com a crise climática, e para contê-la é preciso conservar as florestas. Sabemos que vocês têm sabedoria para isso. Que recado você teria a dar sobre esse assunto?

Todos os napëpë ficam falando de proteger as florestas. Falam de mudanças climáticas, desmatamento, poluição dos rios, mercúrio, doenças, mineração. Assim, Lula atentou para essas questões. Outras pessoas, os europeus, falam sobre as mudanças climáticas, fazem reuniões. Mas as pessoas não resolvem isso, não resolveram nada. Esse termo, “mudanças climáticas”, para mim é outra coisa. Eu chamo mesmo de “vingança da Terra”, de “vingança do mundo”, é assim que eu digo. Os napëpë chamam de “mudanças climáticas”, mas nós, Yanomami, quando fazemos xamanismo, chamamos de “transformação do mundo, tornar o mundo ruim já que os napëpë causam a revolta da Terra”. Os napëpë incendeiam as árvores; a Terra-floresta está com raiva, está se vingando, está fazendo chover muito, ter grandes ondas de calor, em alguns lugares está faltando água e em outros está chovendo demais, e outros ainda estão frios. Foi pelo fato de as pessoas dizerem isso, por termos ficado falando sobre isso, que Lula abriu seu pensamento. Ou melhor: talvez tenha aberto seu pensamento. Nós não sabemos o que ele esconde em seu coração. O que eu escondo em meu coração e em meu pensamento, o que nós escondemos das pessoas, é um segredo. Por isso talvez Lula esteja ainda nos enganando. Se o pensamento dele estiver nos enganando, ele vai resolver os pequenos problemas, mas não os grandes. Mas se outros napëpë, aqueles que vivem na outra margem do oceano [Europa], se eles forem ajudar e oferecerem um grande financiamento, talvez o pensamento de Lula mude. É assim que eu penso. Lula não cresceu sozinho. O povo levantou as palavras de Lula, vocês fizeram ele assentar naquela cadeira [da presidência]. Hoje em dia ele está mais velho, talvez tenha se tornado mais sábio.

Davi, você me disse que vocês, xamãs, ajudaram Lula a se eleger. Conte como foi isso, por favor.

Nós, xamãs que vivemos no Watorikɨ e também os outros xamãs de outras casas, como o Maxokapi, eu os mandei fazer isso [xamanismo para apoiar Lula]. Nós ajudamos Lula, nós o levantamos: eu, Carlos, os xamãs mais jovens, Tenose, Valmir, Dinarte, Geremias, Pernaldo, Manoel. Lula ficou apoiado na hutukara [céu]. Então os xamãs pediram para eu dizer a Lula: “Awei! Você quase perdeu. Se os espíritos xapiripë [xapiri = espírito auxiliar dos xamãs + = plural] não tivessem chegado ali, você não teria se tornado presidente outra vez. Você não os viu, eles estavam no Watorikɨ, e no dia 30 chegaram [até você]. Já que eles conhecem Brasília, já que Davi conhece aquela terra, nós, xapiripë, também conhecemos, nós olhamos no mapa e, pelo fato de termos chegado lá, nós tivemos vitória”.

Nós, xamãs de duas comunidades, trabalhamos por isso. Nós inalamos yakoana [pó da árvore virola sp, usado pelos xamãs para ver os xapiripë]. Chegamos até o grande xapiri, Omama, e dissemos a ele: “Awei! Você que é grande xapiri, que conhece o mundo inteiro, conhece todas as terras, já que seus olhos enxergam essas coisas por dentro e também pela superfície, já que seus olhos estão atentos a tudo o que ocorre no mundo, nós queremos elevar Lula para que ele se torne presidente outra vez, nós iremos apoiar o pensamento dele. Vamos manter nosso pensamento primeiro no céu, na hutukara, e assim ele vai se levantar [ter chances de ganhar a eleição]. O outro, Bolsonaro, aquele que tem a boca cheia de ignorância, se o povo dele o apoiar e o levantar, iremos sofrer muito. O presidente Jair Bolsonaro é terrível, e, se ele ganhar as eleições, aí sim ficaremos sofrendo. Ele é um apoiador da ditadura militar, portanto não faz amizade com a floresta. Não cuida dos rios e não sente tristeza por nós, povos da floresta”. Então, como Omama fez a nossa terra nos primeiros tempos, ele escreveu em um papel a expressão “defensor da floresta”, e foi isso que nós, xamãs, decidimos e dissemos: “Vamos escolher aquele que quer nos manter vivendo com saúde, vamos negar o papel onde está escrito o nome daquele que não quer o nosso bem-viver”.

Por causa disso, nós, do Watorikɨ, chegamos até Lula, chegamos a Brasília. Ao chegarmos lá, os napëpë não nos viram, pois chegamos bem suavemente. Com calma e devagar, chegamos até o pensamento dele. “Awei! Você, Lula, já que quer se tornar presidente outra vez, se apoie aqui onde Omama apoiou o nosso pensamento. Se você se apoiar aqui, vai se tornar o presidente. E, caso você se torne o presidente, queremos que você pense em nós em primeiro lugar. Diminua aqueles que estão sempre fazendo coisas ruins, torne-os pequenos. Feche esse buraco da maldade.”

Análise: Com ‘mutirão’ na COP, Lula abre primeiro governo climático do Brasil (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Mudanças sociais e globais levam terceiro mandato a ver na política do clima uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas

Mathias Alencastro

1 de novembro de 2022


A ascensão da COP do Egito a primeiro palco da nova diplomacia do governo eleito se deve a duas dinâmicas interdependentes. A eleição de Lula encerra um ano terrível, porém transformador, para a política climática.

Por um lado, a Guerra da Ucrânia deu ímpeto às indústrias fósseis, que atravessavam um raro período de declínio, enquanto as divisões crescentes entre o Ocidente e o Oriente, mas também entre o Norte e o Sul Global, agravaram a crise da governança climática.

Por outro, a transição energética se tornou uma questão de segurança nacional para os países desenvolvidos, com implicações extraordinárias para a diplomacia e os investimentos internacionais.

Em seguida, a sociedade civil brasileira se fortaleceu através da emergência de uma geração de cientistas, ativistas e políticos de excelência e da multiplicação de organizações que estabeleceram a relação entre democracia, clima e justiça social. Essas mudanças tornaram inevitável a metamorfose do terceiro mandato de Lula em primeiro governo climático do Brasil.

Na América Latina, a onda rosa tem sido quase sempre acompanhada por uma onda verde. A plataforma climática do chileno Gabriel Boric era uma exigência do movimento de contestação popular, enquanto a do colombiano Gustavo Petro veio junto com a renovação da esquerda depois do acordo de paz.

O caso brasileiro, todavia, é excepcional, porque a política climática transformou de fora para dentro o Partido dos Trabalhadores, que tem na luta sindical e nacionalista das energias fósseis uma das suas principais referências históricas. O PT segue o caminho de outros partidos de centro-esquerda que viram na política climática uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas.

Em agosto deste ano, o governo de Joe Biden foi salvo pelos ativistas climáticos que obrigaram o Senado a aprovar um novo pacote econômico. O governo de coalizão do social-democrata Olaf Scholz depende mais do que nunca do seu vice Robert Habeck, o líder dos Verdes.

Se a COP27 virar um mutirão de lideranças brasileiras, ela será o palco de Lula e de toda a frente ampla que derrotou a extrema direita.

Além dos símbolos e dos discursos, o governo Lula será avaliado pela sua capacidade de superar o enfrentamento com os movimentos populistas que acomete tantas outras democracias.

A política climática do governo de Emmanuel Macron jamais se reergueu do choque provocado pelos coletes amarelos, um protesto desencadeado por causa de uma taxa de carbono.

Na Europa e nos Estados Unidos, os oportunistas que encabeçaram os movimentos antivacinas se converteram em expoentes dos protestos contra a alta dos preços de energia. O próprio movimento de caminhoneiros golpistas a favor de Jair Bolsonaro também é uma manifestação da hiperdependência do Brasil do sistema rodoviário e da indústria de carbono.

A partir de agora, toda a política é política climática.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.

Lo que dicen las fotos de Lula con cáncer (BBC Mundo)

Gerardo Lissardy

BBC Mundo, Rio de Janeiro
Viernes, 25 de noviembre de 2011

Lula siendo afeitado por su esposa Leticia

Para ningún político debe ser fácil mostrar públicamente una lucha personal contra el cáncer, pero el modo en que lo ha hecho el ex presidente brasileño Luiz Inácio Lula da Silva tiene significados concretos, según sus allegados y expertos.

La noticia del cáncer de laringe que afecta a Lula fue conocida por los brasileños el 29 de octubre, apenas unas horas después que el propio ex presidente fuera diagnosticado con la enfermedad.

Desde entonces, el equipo de comunicación del instituto que encabeza Lula ha enviado regularmente a la prensa mensajes con información del tratamiento de quimioterapia que recibe y hasta de momentos íntimos que vive.

Por ejemplo, hubo fotos de Lula con médicos cuando inició el tratamiento en un hospital de Sao Paulo, fotos en una cama del nosocomio tomado de la mano de su sucesora, la presidenta Dilma Rousseff, y hasta fotos de su esposa Marisa Letícia cortándole a cero su cabello y su barba.

Todas estas imágenes han sido ofrecidas a los medios, libres de reproducción, por el Instituto Lula.

Algunas, en especial las del momento en que perdía su distintiva barba, recorrieron el mundo y se publicaron en las portadas de varios diarios locales y latinoamericanos.

Hay expertos que creen que todo esto responde a una estrategia definida, con valoraciones políticas.

José Chrispiniano, asesor de prensa del Instituto Lula, acepta que el modo de comunicar sobre la enfermedad del ex presidente tiene ciertos objetivos, pero descarta que se trate de vender algo en particular.

“No es de ninguna forma marketing”, dijo en diálogo con BBC Mundo.

“Cuestión muy simbólica”

Lula sin barbaLa oficina del expresidente ha presentado decenas de fotos que documentan la enfermedad de Lula.

Chrispiniano explicó que fue el propio Lula quien tomó la decisión de informar abiertamente sobre su cáncer y tratamiento, desde el momento en que conoció el diagnóstico.

“Aunque no tenga ningún cargo público ahora, es una persona de interés público, entonces el objetivo es divulgar claramente: es una enfermedad tratable y un tratamiento con perspectivas bastante positivas de cura”, señaló.

Además, dijo, se ha buscado evitar una dramatización de la enfermedad (de hecho, en muchas de las fotos divulgadas Lula aparece sonriente) o evitar que parezca “que se están escondiendo cosas”.

La difusión de las fotos de Lula siendo afeitado y mostrando su nuevo aspecto con bigote también fue iniciativa del ex presidente, relató Chrispiniano.

“Era una cuestión muy simbólica de su imagen y quisimos mostrar que pasó ese momento tranquilo, porque (para) muchas personas que tienen esta enfermedad es un momento de mucho estigma”, dijo.

Dos días después del corte de pelo de Lula, su instituto divulgó el viernes 18 fotos del ex presidente recibiendo la visita del director técnico de la selección brasileña de fútbol, Mano Menezes.

“Fuerza, eterno ‘presidente Lula’. Contamos contigo para 2014”, escribió Menezes en la casaca número 10 del combinado nacional que le obsequió a Lula, y que también aparecía en las fotos.

Se trataba de una referencia al Mundial de fútbol que Brasil va a organizar ese año, precisó el comunicado.

“Una estrategia”

Lula con el equipo del hospital de Sao Paolo que lo atiendePara muchos el padecimiento de Lula con el cáncer podría aumentar su ya alta popularidad.

Rousiley Maia, una investigadora de la Universidad Federal de Minas Gerais experta en comunicación y política, cree que la decisión de informar de esta forma sobre el cáncer de Lula “fue deliberadamente una estrategia”.

“En vez de poner sombras (o) tratar con medias palabras (la enfermedad), la estrategia es apelar por el lado humano, ordinario y mortal de la figura”, dijo Maia a BBC Mundo.

Sin embargo, sostuvo que esa decisión es coherente con la “construcción de imagen pública de Lula por varios años”, de un hombre de pueblo que se convirtió en un líder nacional reconocido mundialmente.

“Más allá de la empatía, es una forma de sustentar el carisma y respeto que construyó durante estos años”, opinó. “Este momento de enfermedad personal es una forma de volver a la escena pública de forma central”.

Renzo Taddei, un antropólogo profesor de comunicación, ciudadanía y política en la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ), dijo que el manejo público del cáncer de Lula muestra probables aspiraciones políticas a futuro.

“El cáncer es un tema ya clásico de superación y heroísmo en Brasil”, indicó a BBC Mundo.

“Era todo lo que faltaba a Lula: vencer el cáncer. Si lo hace, ya no hay nada más que no pueda hacer (aunque no haya hecho la reforma agraria que Brasil aguarda hace tanto ni las reformas fiscales y políticas)”, agregó.

Cáncer y elecciones

Presidenta Rousseff vista a Lula tras su operaciónLa presidenta Dilma Rousseff también es sobreviviente de un cáncer

Hasta que le fue diagnosticado el cáncer, muchos brasileños se preguntaban si Lula buscaría regresar a la presidencia en las elecciones de 2014, pero él decía que corresponde a Rousseff buscar la reelección.

Cuando Rousseff fue tratada con éxito de un cáncer linfático en 2009, algunos miembros del gobierno de Lula llegaron a especular con que podía salir fortalecida para buscar la presidencia al año siguiente.

Sin embargo, Lula descartó públicamente que ambas cosas pudieran vincularse.

“No puedo imaginar cómo es que alguien sale fortalecido porque tuvo un cáncer”, declaró entonces. “Sólo deseo la recuperación de Dilma”.

Rousseff se recuperó y fue electa presidenta al año siguiente, con el respaldo de Lula.