Chuvas atrasadas, secas intensas, rios sem água — em diversas partes da Amazônia, comunidades indígenas vêm testemunhando as transformações decorrentes das alterações no clima. O resultado: mais incêndios, menos alimento disponível.
Os indígenas acreditam que as mudanças climáticas têm afetado inclusive sua saúde corporal: doenças antes controladas como sarampo e febre amarela ressurgiram na floresta e até a menstruação das mulheres tem chegado mais cedo.
Como forma de minimizar os danos, os indígenas se mobilizam de várias maneiras. Entre elas, a aposta em sementes mais resistentes à seca e ao calor, a linha de frente nas brigadas de incêndio e até um aplicativo de celular para compartilhar informações sobre variações no clima.
Na região do Bico do Papagaio, norte de Tocantins, Antonio Veríssimo Apinajé recorda seus tempos de menino na aldeia Taquari, na década de 1970. “Chovia sem parar, por três, quatro dias seguidos, de janeiro a junho. Os rios e as nascentes ficavam cheios. A estação chuvosa começava em outubro, quando minha família plantava mandioca, milho e arroz. Em junho vinha a estação seca, e durava até setembro.”
Não mais, diz o líder do povo Apinajé. “Tem anos que as chuvas demoram para chegar, só em novembro, dezembro, até janeiro, e só então podemos plantar. Em abril a chuva já está parando. Se falta água, não temos como irrigar [a roça]. A mandioca fica pequena, o milho ‘não enche’. As chuvas diminuíram bem nos últimos dez anos.”
Assim como Antonio, boa parte dos indígenas brasileiros vem testemunhando, no dia a dia, as transformações decorrentes das mudanças climáticas. Segundo eles, a natureza vem dando sinais de alteração há pelo menos 15 anos, e com mais rapidez nos últimos tempos.
Área destruída pelo fogo em Rondônia, registrada pela Operação Verde Brasil, do Prevfogo. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama
“Falta de água é o primeiro sinal”, diz Antonio. É indício de que as chuvas estão chegando com atraso — fator que, alternado com secas intensas e prolongadas, termina por prejudicar as colheitas e reduzir a variedade de alimentos disponíveis nas aldeias.
Maria Leonice Tupari, coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (Agir), relata que na TI onde vive, a Sete de Setembro, “o rio seca com frequência e a água que sobra forma uma espécie de baía, onde os peixes tentam sobreviver. Quando volta a chover, a água morna do leito mistura-se com a água fria que cai e o choque [de temperaturas] mata os peixes pequenos.”
Não bastasse a diminuição de recursos naturais, Maria Leonice tem se inquietado também ao ver ressurgir enfermidades nas aldeias. “Doenças que já tinham sido controladas estão voltando: sarampo, febre amarela… Acredito que isso tem a ver com o clima, a destruição da natureza. E veio um vírus para mostrar nossa fragilidade, trazer reflexão”, diz ela, referindo-se à chegada da covid-19 às aldeias, que até o início de maio já havia infectado mais de 200 indígenas no país.
O clima cada vez mais quente pode estar também alterando o organismo das mulheres Kiriri, no nordeste da Bahia, segundo as próprias relataram a Sineia do Vale, coordenadora do Departamento Ambiental do Conselho Indígena de Roraima (CIR). “As cacicas acreditam que o calor extremo fez com que a tensão pré-menstrual de jovens indígenas chegasse mais cedo.”
Não bastasse a diminuição de recursos naturais, Maria Leonice tem se inquietado também ao ver ressurgir enfermidades nas aldeias. “Doenças que já tinham sido controladas estão voltando: sarampo, febre amarela… Acredito que isso tem a ver com o clima, a destruição da natureza. E veio um vírus para mostrar nossa fragilidade, trazer reflexão”, diz ela, referindo-se à chegada da covid-19 às aldeias, que até o início de maio já havia infectado mais de 200 indígenas no país.
O clima cada vez mais quente pode estar também alterando o organismo das mulheres Kiriri, no nordeste da Bahia, segundo as próprias relataram a Sineia do Vale, coordenadora do Departamento Ambiental do Conselho Indígena de Roraima (CIR). “As cacicas acreditam que o calor extremo fez com que a tensão pré-menstrual de jovens indígenas chegasse mais cedo.”
Atendimento a indígenas em Assunção do Içana, Alto Rio Negro (AM). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Fumaça afeta as aldeias
A combinação de um clima cada vez mais seco com o avanço das queimadas também produz a intensificação de incêndios, que pode ser potencialmente desastrosa em algumas áreas, sobretudo nas terras indígenas situadas na fronteira do desmatamento.
É o caso da mesma TI Sete de Setembro onde vive Maria Leonice Tupari, território ancestral dos Suruí Paiter na divisa de Rondônia e Mato Grosso, hoje cercado de fazendas de gado. “Os fazendeiros gostam de queimar grandes áreas de terra para limpar o pasto. No ano passado, qualquer coisinha dava incêndio, de bitucas de cigarro a garrafas de vidro. Era lixo jogado por caminhões nas margens de capim seco das estradas”, diz ela.
Segundo a líder das mulheres guerreiras de Rondônia, o fogo causou outro grave problema em 2019, ano recorde de queimadas: “A fumaça gerada fez com que muitos de nós passassem mal, com fortes dores de cabeça, irritação nos olhos e problemas respiratórios. A fumaça era terrível. Crianças e idosos especialmente tiveram de ir aos hospitais da região, que estavam lotados com pessoas das cidades, também intoxicados”.
Antonio Apinajé, a mil quilômetros dali, na beira do Rio Tocantins, tem o mesmo temor: “Ficamos preocupados quando há focos de incêndio na região porque, dependendo do horário e da força do vento, o fogo voa. Vivemos perto da floresta e da vegetação de Cerrado; dá até angústia só de pensar, aquela fumaça pesada fica no ar por dois, três meses,” diz o líder Apinajé.
Como forma de reduzir os danos às vegetação dos biomas, o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama (Prevfogo) contrata indígenas, na temporada das queimadas, para atuarem como brigadistas nas TIs onde vivem. “Eles conhecem os territórios melhor do que ninguém, sabem onde está a vegetação mais suscetível ao fogo, onde os incêndios costumam começar e se espalhar,” diz Gabriel Constantino Zacharias, chefe do Prevfogo.
A iniciativa começou em 2013 com 400 indígenas — um terço do total de brigadistas — e foi crescendo ao longo dos anos. Em 2019, porém, caiu pela primeira vez: foram 760 indígenas em campo, vinte a menos do que no ano anterior.
O primeiro ano de um governo é normalmente de restrições orçamentárias”, justifica Zacharias, ao falar da gestão Bolsonaro. Em agosto passado, Alemanha e Noruega suspenderam suas contribuições ao Fundo Amazônia em face do desmatamento crescente no país. Parte desses recursos financiava as roupas e botas dos brigadistas — entre 2014 e 2018, o fundo investiu R$ 14,7 milhões em atividades do Prevfogo nos nove estados amazônicos.
Brigadistas indígenas do PrevFogo em ação de combate a incêndio no Parque Indígena do Xingu. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.
Casa de sementes
Em Tocantins, os Apinajé tem se dedicado a pesquisar sementes mais resistentes à seca e ao calor.
“Em vez de usar sementes de arroz, que levam cinco a seis meses para amadurecer, agora só plantamos o arroz ‘ligeiro’, que demora três meses”, diz Antonio Apinajé. “Conseguimos também uma espécie de mandioca que cresce em sete meses, enquanto a que plantávamos antes levava normalmente um ano.”
A oferta de água igualmente influencia o que vai ser cultivado, segundo ele: “Mandioca e feijão não pedem muita chuva, mas arroz, abóbora, milho e banana sim, por isso estamos plantando menos deles”.
Há pouco mais de um ano, o povo Apinajé, formado por 2,8 mil habitantes espalhados em 42 aldeias da TI homônima, criou uma “casa de sementes”, como assim a batizaram, que armazena as espécies mais produtivas e resistentes ao calor. A ideia é ampliar a variedade desse acervo, fazendo intercâmbio de sementes e de experiências agrobiológicas com outros povos, além de agricultores familiares e quilombolas.
Essa proposta vem se difundindo em outros estados amazônicos: em Roraima, por exemplo, lideranças coordenam a formação de uma rede de bancos de sementes entre as regiões do estado onde vivem indígenas. “O projeto parou por causa do coronavírus, mas vamos retomá-lo assim que possível,” diz Sineia do Vale, do CIR, representante do povo Wapichana.
Em agosto passado, o CIR promoveu a organização de um banco de sementes na TI Raimundão, no município de Alto Alegre, e o cultivo de uma área de dois hectares com sementes mais resistentes de milho, mandioca e pimenta, principais alimentos das comunidades locais.
As ações são parte de um plano pioneiro de gestão ambiental que inclui o fator climático, concebido a partir de consultas junto a habitantes das TIs Malacacheta, Jacamim e Manoá-Pium.
Inimaginável até poucos anos atrás, “os conhecimentos ancestrais estão sendo discutidos por cientistas em diversas partes do mundo para ajudar no entendimento das questões climáticas,” diz a líder Wapichana.
Ação de troca de sementes organizada pelo Conselho Indígena de Roraima. Foto: CIR.
Celulares contra o fogo
A colaboração entre ciência e saberes indígenas também se dá por meio da criação de ferramentas tecnológicas, como o Alerta Clima Indígena. Desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o aplicativo fornece dados sobre focos de calor, riscos de seca e desmatamento para ajudar os indígenas a monitorar seus territórios e o entorno. As informações podem ser acessadas mesmo quando os celulares estão sem conexão.
Além disso, por meio do aplicativo, os próprios indígenas podem inserir e compartilhar alertas de fogo e de atividades ilegais em suas terras, como desmatamento, pesca predatória e extração de madeira.
“Os povos indígenas são, por um lado, grandes figuras em mitigar as alterações climáticas, mas, por outro, vivem diretamente com elas e por isso são os mais afetados”, diz Martha Fellows Dourado, pesquisadora do Ipam. “O ACI surgiu como uma ferramenta para apoiar a gestão territorial das TIs na ponta final — as próprias comunidades.”
Usado atualmente em Roraima, Maranhão e Mato Grosso, a meta é que o aplicativo seja empregado em todas as TIs demarcadas do país. E, nos próximos meses, o Alerta Clima Indígena irá ganhar uma função ligada ao coronavírus, de modo que os usuários possam acompanhar a disseminação da covid-19 nas aldeias e cidades.
Para além da tecnologia, Leonice Tupari invoca a espiritualidade dos povos da floresta como forma de reverter o futuro que se anuncia: “Precisamos respeitar a natureza e nos conectar com ela. Somos espíritos aqui na Terra, encarnados na matéria, ligados ao fogo, ao solo, ao vento, a tudo que existe. As pessoas se afastaram dela. Não pisam no solo, não sentem a brisa. É preciso sentir a água, e não falo da água do chuveiro. Nossa espiritualidade está conectada com a natureza.”
O aplicativo Alerta Clima Indígena (ACI), desenvolvido pelo Ipam com apoio do governo da Noruega, permite monitorar focos de calor, desmatamento e dados climáticos nas terras indígenas da Amazônia brasileira. Foto: Ipam.
Imagem do banner: Incêndio em comunidade Huni Kuin, no Acre, em agosto de 2019. Foto: Centro de Cultura Indígena Huwã Karu Yuxibu.
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The tensions we now face between science, politics and economics also arose before the country’s most destructive volcanic eruption.
Mr. Roberts is a former editor at ProPublica and The Washington Post.
United Press International
When I met David A. Johnston, it was on a spring evening, about a month before he would be erased from existence by a gigantic cloud of volcanic ash boiling over him at 300 miles per hour. He was coming through the door of a makeshift command center in Vancouver, Wash., the closest city to the graceful snow-capped dome of Mount St. Helens, a volcano that had been dormant for 123 years. This was April 1980, and Mr. Johnston, a 30-year-old geologist, was one of the first scientists summoned to monitor new warning signs from the mountain — shallow earthquakes and periodic bursts of ash and steam.
As a young reporter I had talked my way into the command center. At first Mr. Johnston was wary; he wasn’t supposed to meet the press anymore. His supervisors had played down the chance that the smoking mountain was about to explode, and they had already reprimanded him for suggesting otherwise. But on this night he’d just been setting measuring equipment deep in the surrounding forest, and his runner-thin frame vibrated with excitement, his face flushed under his blond beard, and Mr. Johnston couldn’t help riffing on the likelihood of a cataclysmic event.
“My feeling is when it goes, it’s going to go just like that,” he told me, snapping his fingers. “Bang!” At best, he said, we’d have a couple of hours of warning.
Mr. Johnston was mostly right. Early on a Sunday morning several weeks later, the mountain did blow, in the most destructive eruption in U.S. history. But there was no warning. At his instrument outpost, on a ridge more than five miles from the summit, Mr. Johnston had only seconds to radio in a last message: “Vancouver! Vancouver! This is it!”
Chris Sweda/Daily Southtown, via Associated Press
Monday, May 18, marks the 40th anniversary of the 1980 Mount St. Helens eruption, and as we now face our own struggle to gauge the uncertain risks presented by nature, to predict how bad things will get and how much and how long to protect ourselves, it may be useful to revisit the tension back then between science, politics and economics.
The drama played out on a much smaller stage — one region of one state, instead of the whole planet — but many of the same elements were present: Scientists provided a range of educated guesses, and public officials split on how to respond. Business owners and residents chafed at the restrictions put in place, many flouted them, and a few even threatened armed rebellion. In the end, the government mostly accepted the analyses of Mr. Johnston and his fellow geologists. As a result, while the eruption killed 57 people and flattened hundreds of square miles of dense Pacific Northwest forestland, the lives of hundreds, perhaps thousands, were spared.
At the first warning signs, state and federal officials moved to distance people from the mountain. They sought to block nonessential visitors from nearby Spirit Lake, ringed with scout camps and tourist lodges. Other than loggers, few people hung around the peak year-round, but the population surged in late spring and summer, when thousands hiked, camped and moved into vacation homes. Many regulars dismissed the risk. Slipping past roadblocks became a popular activity. Locals sold maps to sightseers and amateur photographers that showed how to take old logging roads up the mountain. The owner of a nearby general store shared a common opinion of the threat: “It’s just plain bull. I lived here 26 years, and nothing like this happened before.”
Like the probability of a pandemic, though, it was well-established that one of the dozen or so volcanoes in the 800-mile Cascade Range might soon turn active. Averaging two eruptions a century, they were overdue. A 1978 report by the U.S. Geological Survey, where Mr. Johnston worked, identified Mount St. Helens as most likely to blow next. Yet forecasting how big the event could be was a matter of art as well as science. Geologists could model only previous explosions and list the possible outcomes. (“That position was difficult for many to accept, because they believed we could and should make predictions,” a U.S.G.S. report said later.)
Some scientists suggested a much larger evacuation, but uncertainty, a hallmark of their discipline, can be difficult for those making real-time public policy. The guidelines from federal and state representatives camped out in Vancouver, and from Washington’s governor, Dixy Lee Ray, often seemed in conflict. Moreover, the Weyerhaeuser Company, which owned tens of thousands of acres of timber, opposed logging restrictions, even as some crews got nervous about working near the rumbling dome.
By mid-April, a bulge grew on the north flank, a clue that highly pressurized magma was trapped and expanding. If it burst, a landslide might bury Spirit Lake. The governor, a conservative Democrat who was a biologist by training, finally agreed to stronger measures. She ordered an inner “red zone” where only scientists and law enforcement personnel could enter, and a “blue zone” open to loggers and property owners with day passes. If the zones didn’t extend as far as many geologists hoped, they were certainly an improvement.
Then the mountain got deceptively quiet. The curve of seismic activity flattened and turned downward. Many grew complacent, and restless. On Saturday, May 17, people with property inside the red zone massed in cars and pickup trucks at the roadblock on State Highway 504. Hearing rumors that some carried rifles, the governor relented, allowing them through, with a police escort, to check on their homes and leave again. The state patrol chief, Robert Landon, told them, “We hope the good Lord will keep that mountain from giving us any trouble.” The property owners vowed to return the next day.
The next day was Sunday. At 8:32 a.m., a powerful quake shook loose the snow-covered north face of Mount St. Helens, releasing the superheated magma, which roared out of the mountain in a lateral blast faster than a bullet train, over the spot where Mr. Johnston stood, mowing down 230 square miles of trees, hurling trunks into the air like twigs. It rained down a suffocating storm of thick gray ash, “a burning sky-river wind of searing lava droplet hail,” as the poet Gary Snyder described it. Mudflows clogged the river valleys, setting off deadly floods. A column of ash soared 15 miles high and bloomed into a mushroom cloud 35 miles wide. Over two weeks, ash would circle the globe. Among the 57 dead were three aspiring geologists besides Mr. Johnston, as well as loggers, sightseers and photographers.
About a week later, the Forest Service took reporters up in a helicopter. I had seen the mountain from the air before the eruption. Now the sprawling green wilderness that appeared endless and permanent had disappeared in a blink. We flew for an hour over nothing but moonscape. The scientists had done their best, but nature flexed a power far more deadly than even they had imagined.
Lawrence Roberts, a former editor at ProPublica and The Washington Post, is the author of the forthcoming “Mayday 1971: A White House at War, a Revolt in the Streets, and the Untold History of America’s Biggest Mass Arrest.”
Em companhia de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres, em 2018. Arquivo pessoal
O biólogo Carlos Guerra Schrago, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz extensas análises de dados no computador, usa estatística e sequências genéticas. Assentado na teoria evolutiva, seu trabalho ajuda a entender aspectos da realidade, como os caminhos da disseminação de uma doença (a epidemia de zika a partir de 2015) e a diversificação de mamíferos, especialmente roedores e primatas.
A variedade de objetos de estudo é reveladora de como a mesma teoria pode ser aplicada a todos os organismos, com uma diferença importante: com uma vida efêmera enquanto indivíduos, microrganismos são capazes de perpetuar-se por meio de uma rápida multiplicação. Aos olhos de um evolucionista, reconstituir a trilha de modificações genéticas resultante dessa replicação se transforma praticamente em um filme que relata sua história.
Graduado em biologia na UFRJ com especialização em bioinformática no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, Guerra concluiu seu doutorado na UFRJ em 2004 e, entre 2018 e 2019, fez estágio de pós-doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Na entrevista a seguir, concedida por videoconferência, ele fala de mudanças pelas quais a teoria evolutiva vem passando e de como reage quando estudantes contestam a disciplina. Para ele, os pesquisadores caem em uma armadilha quando reagem como se houvesse um embate entre religião e ciência.
Seu campo de estudo é a evolução viral. Como você vê a pandemia do novo coronavírus? Ainda não analisei o material bruto do coronavírus, mas chamou a minha atenção que talvez tenha sido a primeira vez que a biologia evolutiva lidou com um problema prático novo, que é avaliar se uma sequência, seja um genoma de vírus ou de bactéria, foi manipulada em laboratório ou não. O trabalho que mostrou que o vírus Sars-CoV-2 não passou por manipulação, publicado em março na revista Nature Medicine, foi assinado por um grupo de virologistas moleculares que trabalham com evolução e teve uma repercussão considerável. É inclusive um problema geopolítico, porque saber se uma sequência teve ou não origem natural implica avaliar se foi objeto de bioterrorismo.
Esse tipo de trabalho também permite analisar a evolução molecular do vírus para traçar como ele está circulando e tentar fazer previsões… Certamente para a vigilância epidemiológica de qualquer país é relevante saber o ritmo, a taxa de crescimento e de expansão das infecções e tentar traçar de onde esses vírus e sequências vieram. Mas o trabalho feito até agora carece de uma amostragem de sequências maior. É difícil fazer inferências sobre a dinâmica espacial e temporal de uma epidemia quando a amostragem é incompleta. Em relação ao Sars-CoV-2 circulante no Brasil, mostrou-se que são sequências de vírus originadas da Europa e EUA, mas o esforço de obter amostras não foi homogêneo em todos os países.
Talvez a seleção natural não seja a única explicação, mas ainda é a melhor que temos para entender a complexidade dos seres vivos
Seu laboratório trabalha com zika. Qual o alvo dos estudos? Nossos questionamentos são teóricos e relacionados à epidemia de zika, e o que se aplica à zika vale para qualquer epidemia. As metodologias de bioinformática ou de evolução molecular são as mesmas. Nosso interesse era saber como se comportam parâmetros relevantes para quem trabalha com saúde pública, como a idade da epidemia, de onde ela veio, sua taxa de crescimento. Há uma quantidade enorme de pressupostos teóricos que queríamos avaliar e isso requer simulações computacionais bastante realistas. Nosso trabalho tem sido desenhar simuladores de crescimento e de dinâmica da epidemia, tentando aproximá-los da realidade do vírus no espaço e no tempo. Isso para avaliar a robustez de métodos tradicionalmente usados, por exemplo, para a reconstrução da história evolutiva do vírus ou cálculos da dinâmica espacial. Concluímos que alguns desses métodos têm problemas. Obtivemos valores mais precisos quando usamos as mudanças silenciosas no genoma, ou seja, mudanças no nível do DNA que não são passadas para o que é aparente, o fenótipo. As mudanças não silenciosas, aquelas que acarretam mudança de fato em alguma proteína que afeta um fenótipo, estão submetidas a regimes de seleção e são mais suscetíveis.
O trabalho envolve estatística e bioinformática. É possível explicar para um leigo como isso funciona? Em publicações de divulgação científica ou mesmo em filmes de ficção científica, sempre aparecem sequências de DNA com aquelas letrinhas: A, C, T e G. São as bases nitrogenadas que se combinam para formar o DNA. Um dos desafios de quem trabalha com evolução molecular e genética é olhar essas letras, com diversas combinações e possibilidades, e tentar desvendar a história por trás delas. É como chegar na sua casa, olhar os cômodos e tentar descobrir o que aconteceu enquanto você estava ausente. Às vezes, é simples. Se você tem um cachorro e encontra tudo rasgado na sala, conclui: foi o cachorro. Mas em muitos casos requer a aplicação de modelos avançados. É algo comum do pensamento humano fazer inferências históricas. Entretanto, em biologia evolutiva é preciso estar respaldado por algo mais quantitativo. Na busca por uma comunicação objetiva, recorremos a inferências estatísticas que permitem quantificar mudanças na natureza. Nessa história, tratamos de tudo, de tempo, de quem é parente de quem, de onde veio, como chegou até aqui. Essas perguntas podem ser aplicadas a vírus, plantas, animais.
Como tem sido a evolução dessa metodologia? Como ela contribui para avançar o conhecimento? A disciplina evolução molecular e filogenética surgiu na década de 1960, embora os conceitos com que trabalhamos sejam mais antigos – de uma história evolutiva compartilhada, de como a diversidade genética responde a regimes de seleção. Mas eles careciam de métodos mais algorítmicos para serem estudados e só foi possível chegar a esse patamar com o crescimento da utilização de computadores nas ciências naturais. Isso também dependeu do conhecimento sobre as sequências de nucleotídeos – e a estrutura do DNA só foi desvendada nos anos 1950. Até o aparecimento da disciplina, não se tinha ideia de como os genomas evoluíam. Com ela, o tema se tornou objeto de pesquisa e, utilizando dados moleculares, tornou-se possível reconstruir relações evolutivas entre várias espécies e ampliar o conhecimento sobre a árvore da vida, presente nos livros técnicos de ecologia, zoologia, botânica ou qualquer área da biologia. Temos hoje uma biologia bastante unificada pelo discurso evolutivo.
Quando se fala de evolução e seleção natural, as pessoas costumam pensar em animais ou plantas. Você estuda evolução molecular de vírus. O objeto de estudo faz diferença? Faz diferença porque, no caso dos vírus, a taxa de evolução é muito acelerada e é possível enxergar o processo evolutivo com mais detalhes. Nos grandes mamíferos, é possível enxergar fotografias espalhadas por milhões de anos e fazer inferências sobre o que aconteceu entre uma imagem e outra. No caso dos vírus o espaçamento é menor, mas há algumas complexidades também. O pesquisador precisa estar atento e escolher ferramentas apropriadas para não fazer uma análise enviesada, pois há metodologias para enxergar quadros muito afastados no tempo e outras para quadros muito próximos.
Os vírus usam as células do hospedeiro para se multiplicar e deixam partes de seu material genético inseridos no genoma dos animais. Como os vírus se entrelaçam em nossa história evolutiva? O que temos até agora são estudos de caso, alguns deles interessantíssimos, mostrando que o papel desses seres é muito mais complexo do que se imaginava. Não há como ponderar se ao longo da história dos mamíferos ou de qualquer outro grupo a contribuição dos vírus tenha sido mais positiva ou mais negativa. Tendemos a achar que é negativa, pois eles são parasitas celulares que utilizam a maquinaria da célula para se replicar e depois a célula morre. Mas nem sempre isso é verdade, e eles podem trazer novidades evolutivas. Isso era inimaginável até algum tempo atrás.
Quanto tempo? Essas ideias começaram a aparecer por volta dos anos 1990. Depois do entendimento da natureza química do material genético, em 1953, criou-se um conceito de indivíduo muito associado a um único genoma. Entendia-se que, nas células de uma pessoa, o genoma poderia ter pequenas modificações criadas durante o processo de divisão celular. Assim, o genoma de uma célula do fígado poderia ser um pouco diferente do genoma de uma célula do pulmão. Mas ninguém admitiria que outros genomas presentes no organismo, originados de seres tão diferentes quanto bactérias e vírus, poderiam alterar fenótipos e chegar ao ponto de influenciar o comportamento de uma pessoa, como ansiedade e depressão. Chegamos a uma pergunta: afinal de contas, o que é um indivíduo? É apenas o seu genoma ou é o seu genoma e toda essa comunidade de genomas que está presente nesses microrganismos, incluindo os vírus?
Qual será a resposta, na sua avaliação? O desenvolvimento das técnicas de sequenciamento permite uma análise muito mais detalhada do problema e acho que vamos nos surpreender nos próximos anos. É um desafio considerável inclusive para a bioinformática. A complexidade da informação é gigantesca, porque a variação não é apenas entre pessoas, mas também de uma mesma pessoa ao longo de sua vida. É impossível dar sentido a isso sem o auxílio de computadores. Minha impressão é de que, nos próximos anos, os cursos de biologia terão obrigatoriamente conteúdos de programação de computador para seus estudantes.
O discurso científico é limitado pelo naturalismo metodológico a agentes que devem ter relação mecânica de causa e efeito
Como essa contribuição da microbiologia influencia o conhecimento sobre a teoria da evolução? O impacto está em andamento. A complexidade do genoma e de sua interação com os genomas de todos esses microrganismos não foi assimilada. Existe uma parcela de pesquisadores que considera a seleção natural a única explicação para a organização surpreendente que vemos nos seres vivos, enquanto outros acham que fenômenos além da seleção natural podem contribuir e defendem que a biologia evolutiva deveria ser reformulada para incorporar essas novidades, abandonando a concepção clássica que vem dos anos 1920. Talvez a seleção natural não seja a única explicação, mas ainda é a melhor que temos para entender a complexidade impressionante dos seres vivos.
Ainda se discute se os vírus são ou não vivos? A pandemia do coronavírus mostrou que uma molécula de RNA consegue parar o mundo. Dentro das células, essas moléculas levam a uma rede hierárquica de reações em cadeia. Acaba sendo irrelevante perguntar se o vírus é vivo ou não. Esse debate quase virou uma disputa futebolística.
Estamos em um momento no qual se tornou frequente negar a evolução. Como você vive isso na docência? É um problema real. Com frequência alunos fazem questionamentos de conteúdo religioso, mas raramente é um questionamento filosófico. O que chega em sala de aula é essa interpretação literal, simplista, em que o estudante argumenta: “Ah, não é isso que o capítulo tal do livro tal, do Gênesis, diz”. Acho que isso é bom tema de análise para os sociólogos. Devemos nos perguntar por que isso está aparecendo agora, pois é algo que eu não via 10 anos atrás. É preciso contextualizar o problema. Não se trata de uma disputa entre ciência e religião.
Por que não? Muitos pesquisadores caem na armadilha e transformam algo que é local e específico em um problema filosófico que não tem solução. Na verdade, estamos lidando com algo muito menos sofisticado. O estudante nunca vem com um discurso teológico avançado. Tenho a impressão de que alguns estudantes entram na aula de evolução achando que é uma disciplina para ensinar ateísmo. Então, é natural que atuem de maneira hostil, porque cresceram em um ambiente familiar religioso e seu entendimento de moral está associado a princípios religiosos.
Como lidar com isso? Combatendo a percepção de que o discurso científico é pregação ateísta. O professor precisa contextualizar quais são os limites e os agentes do discurso científico. Para o estudante tem que estar claro que o discurso científico é limitado pelo naturalismo metodológico a agentes que devem ter relação mecânica de causa e efeito. Qualquer tipo de agente não natural é incompatível com o universo que caracteriza o discurso científico. Uma vez eu tive de explicar: “Isto aqui é aula de biologia evolutiva, não de apologética ateísta. Eu não sou apologista de matérias do divino, sou biólogo”. Com isso, o aluno fica mais tranquilo e entende que, a partir daqui, fazer qualquer tipo de pulo metafísico é complicado. E isso inclui a aceitação ou rejeição de interpretações metafísicas do naturalismo. Quando alguém diz que hipóteses pseudocientíficas como a do “design inteligente” deveriam entrar nos livros de biologia evolutiva, deve-se indagar o seguinte: o que se propõe está envolto em naturalismo metodológico? Os agentes que estão atuando têm relação mecânica de causa e efeito? Não têm. Então, ótimo, pode-se fazer o que quiser com isso, mas no livro de evolução não entra. Criar essa proteção para o discurso científico evita o problema, mas também tem uma consequência que desagrada a alguns cientistas.
Qual? A consequência de apresentar o discurso da ciência como apenas um dos discursos possíveis do intelecto humano. Para o cientista, é muito complicado dissociar a relação de igualdade entre ciência e conhecimento. Quando se afirma que existem outras formas de conhecimento fora da proteção do naturalismo metodológico, o cientista tem dificuldade em compreender. Para ele, o mundo só é cognoscível pelo naturalismo metodológico.
Por mais grave que seja a atual pandemia, ela acabará passando, como aconteceu com outras no passado. Nenhuma, porém – nos tempos modernos –, atingiu tantos países e levou a uma paralisação econômica tão profunda, decorrente da imposição de quarentena, que é indispensável para evitar a propagação da doença.
Uma das muitas consequências desta quarentena é a redução do consumo de energia, principalmente no setor de transporte, que representa mais de 25% de toda a energia consumida no mundo.
O que aconteceu no setor do petróleo foi o que se chama “tempestade perfeita”. A demanda diminuiu justamente na ocasião em que havia excesso de produção. O cartel dos grandes produtores – principalmente a Arábia Saudita e a Rússia – não conseguiu fixar cotas de produção, que mantinham o resto do mundo refém do petróleo que produzia. O preço do petróleo não decorria dos custos de produção, era fixado arbitrariamente para suportar a economia dos regimes políticos e sociais dos países-membros do cartel.
Como consequência da falta de acordo dos produtores, o preço do barril de petróleo caiu de cerca de US$ 80 o barril para menos de US$ 20. No mundo pós covid-19 ele dificilmente voltará aos níveis anteriores, pois grande número de empresas e pessoas descobriram que home office funciona e o mesmo aconteceu com o ensino a distância, além do comércio eletrônico.
A necessidade de deslocamentos vai se reduzir permanentemente, com claros benefícios para a qualidade do ar nos grandes centros urbanos, como as fotografias dos satélites nos mostram. Os benefícios para a saúde, com a diminuição das doenças respiratórias, não foram quantificados ainda, mas certamente ocorrerão. Além disso, as emissões de gases de efeito estufa, cuja redução já se está verificando, não voltarão aos níveis anteriores, o que dará mais tempo para a adoção de medidas de adaptação ao aquecimento global.
O sonho dos ambientalistas de reduzir o consumo de petróleo parece tornar-se realidade graças à covid-19.
O que não vai se reduzir, provavelmente, é o consumo de eletricidade, porque as atividades domésticas (incluindo o home office) requerem mais eletricidade. Daí os grandes planos, já propostos nos Estados Unidos, para aumentar a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis. Nos pacotes de recuperação econômica que estão sendo adotados naquele país, esse é um ingrediente importante.
No Brasil, perderão prioridade as ideias de que o País poderia ser um grande exportador de petróleo, uma vez que produzi-lo do pré-sal custa muito mais do que na Arábia Saudita. Esperar que os royalties da produção de petróleo “salvem” a economia de vários Estados, como o Rio de Janeiro, provavelmente será em vão.
Mais grave ainda, a produção de etanol da cana-de-açúcar – com todas as vantagens ambientais que tem – vai ser afetada seriamente, mas talvez force o setor a fazer duas coisas que deveria ter feito no passado e não fez:
• Instalar grandes reservatórios para estocar etanol, que seria, então, disponível o ano todo, o que permitiria fazer contratos para exportação de longo prazo, o que o setor nunca fez, preferindo vender o álcool no mercado spot.
• Investir pesadamente em pesquisa para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar, que deixou de crescer há vários anos. Essa seria a única forma de baixar os custos do etanol, que poderia, então, competir melhor com a gasolina a preços baixos.
O movimento ambiental pós-covid-19 enfrentará também dilemas sérios, pois a urgência de atacar problemas ligados à saúde, como saneamento básico, vai aumentar. As preocupações com mudanças climáticas – que só se concretizarão a logo prazo – parecerão menos prioritárias.
Diante da tragédia causada pela covid-19 há, contudo, expectativas de importantes modificações nas percepções das sociedades atingidas, com reflexos culturais e políticos positivos.
Essas expectativas se baseiam na condução exemplar da crise por governantes como Angela Merkel, na Alemanha, que adotou políticas públicas que reduziram consideravelmente o número de vítimas, em contraste com outros dirigentes, como o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos – e seus seguidores, como o presidente do nosso país –, que minimizaram a gravidade do problema do isolamento social. Angela Merkel percebeu o vulto do problema antes dos outros e preparou seu país para enfrentar a crise, seguindo rigorosamente as estratégias recomendadas por seus cientistas.
É notório que, ao enfrentar problemas complexos, há incertezas e pode haver divergências entre os cientistas, mas a própria natureza do método científico corrige esses problemas. A experiência acaba eliminando as teorias incorretas. Por essa razão, desqualificar o trabalho dos cientistas e o método científico é o pior que dirigentes obscurantistas poderiam fazer no caso da covid-19.
Um maior respeito pela ciência e pelos cientistas poderá ser uma das consequências mais positivas da tragédia humanitária da crise atual.
PROFESSOR EMÉRITO E EX-REITOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)
Com mais de 300 mil mortes confirmadas no mundo, espalhadas por todos os continentes, a covid-19 já é mais letal que desastres naturais, atentados terroristas e guerras
Renato Vasconcelos e Paulo Beraldo
15 de maio de 2020 | 05h00
Apandemia do novo coronavírus já tem envergadura de desastre. Com mais de 300 mil mortes confirmadas até esta quinta-feira, 14, a covid-19 já matou mais pessoas do que guerras, desastres naturais e atentados terroristas que marcaram a história. Apesar da letalidade da doença, uma grande quantidade de pessoas, incluindo líderes mundiais, continuam a minimizar ou negar a pandemia – que continua a fazer vítimas diárias em todos os continentes.
Para o professor de história da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Malaia, o quanto um evento trágico impressiona alguém depende de fatores como a duração, a proximidade de quem morre e a distância física do fenômeno em si. “Muitas mortes em um período curto também tendem a impressionar mais. No caso de uma pandemia, as mortes diárias vão diluindo o sentimento da tragédia, a não ser para aqueles que perdem pessoas próximas”, explica o pesquisador, que coordena um projeto de pesquisa sobre a gripe espanhola no Brasil, o ‘Mais História, por favor!’.
Segundo Malaia, a normalização da morte nos discursos de autoridades como o presidente da República acaba reforçando o sentimento de conformação de parte da população. Olhando para o passado, vê semelhanças na forma como o Brasil lidou com a gripe espanhola. “O governo brasileiro foi muito criticado na época por setores da imprensa por demorar a tomar medidas, principalmente no Rio de Janeiro, então capital federal, quando já se sabia dos casos”, diz.
Imagem aérea mostra o dano causado pelo tsunami na cidade turística de Phuket, na Tailândia, em 26 de dezembro de 2004Reuters
O número de mortes pelo mundo já ultrapassou qualquer desastre natural da história recente. O tsunami de 2004, que varreu países banhados pelo Oceano Índico e considerado o mais mortal da história, vitimou cerca de 230 mil pessoas. O cenário não é muito diferente se observados os contextos regionais e nacionais.
MAIS BAIXAS QUE OS CIVIS DO IRAQUE
Soldado americano observa a derrubada da estátua de Saddam Hussein no centro de Bagdá, em 9 de abril de 2003Goran Tomasevic/Reuters
Na Europa, continente com mais mortos até o momento, somados os quatro países mais afetados pela pandemia – Reino Unido, Itália, França e Espanha – o número de vítimas é maior do que o total de civis mortos nos últimos dez anos da Guerra do Iraque (2009-2019).
EUA
PIOR QUE O VIETNÃ
Corpos de soldados americanos mortos na Batalha do vale Ia Drang, primeira grande derrota do país no Vietnã, em 15 de novembro de 1965Neil Sheehan/The New York Times
Nos Estados Unidos, o número de vítimas do novo coronavírus entre fevereiro e maio – menos de 120 dias – já é maior do que o de militares americanos mortos na Guerra do Vietña (58 mil), que durou 20 anos.
QUASE 30 VEZES O 11 DE SETEMBRO
Equipe de resgate retira homem de uma das torres do World Trade Center, em Nova York, logo após o atentado de 11 de setembro de 2001Shannon Stapleton/Reuters
Seriam necessários mais de 28 atentados iguais aos de 11 de setembro de 2001, que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, para igualar o número de mortos pela covid-19 nos EUA. Já o Estado de Nova York, palco da catástrofe, precisaria presenciar mais de 9 atentados para igualar o número de mortos pela pandemia.
MAIS DE 100 GUERRAS
Parentes de soldados argentinos mortos na Guerra das Malvinas visitam cemitério na ilha pela primeira vez, em 19 de março de 1991Reuters
O Reino Unido, que tomou o posto da Itália de país mais afetado pela pandemia no continente, teria que lutar mais de 130 Guerras das Malvinas para ter o mesmo número de baixas provocadas pelo coronavírus. Se contarmos o número total de mortos na guerra (britânicos e argentinos), seriam necessários mais de 36 conflitos idênticos ao disputado no Atlântico sul.
CUSTO MAIOR QUE A INDEPENDÊNCIA
Quadro retrata a Batalha de San MartinoLuigi Norfini
A Segunda Guerra de Independência da Itália, iniciada em 1859, foi o último episódio no processo de unificação do país. Estima-se que mais de 12 mil vidas foram perdidas durante o conflito, o que equivale a menos da metade das vítimas da pandemia.
1500 ANOS DE TERRORISMO
Mascarados, guerrilheiros do ETA leem anúncio ao vivo na televisão espanhola em 18 de fevereiro de 2004Vincent West/Reuters
Na Espanha, as vítimas da covid-19 somam um número 30 vezes maior do que os mortos em atentados promovidos pela Pátria Basca e Liberdade (ETA). Em 50 anos de atividade, as ações do grupo terrorista vitimaram 584 pessoas. Caso ainda existisse e mantivesse a mesma média de letalidade, o ETA só conseguiria igualar o número de mortes provocadas pela pandemia em 1.586 anos de terrorismo.
ATENTADOS DO ISIS EM PARIS
Brigadistas prestam socorro a feridos perto da boate Bataclan, em 13 de novembro de 2015Christian Hartmann/Reuters
Comparativamente, os mortos pela covid-19 na França correspondem a, aproximadamente, 300 ataques terroristas iguais ao que ocorreu na boate Bataclan, em 25 de novembro de 2015, quando o grupo jihadista Estado Islâmico (ISIS) fez um de seus mais famosos atentados até então.
BRASIL E SÃO PAULO
No caso brasileiro, os mais de 13 mil mortos fazem desastres como o de Brumadinho ficarem pequenos. Teriam que ter ocorrido 52 acidentes iguais ao da cidade mineira para alcançar a mortalidade. O mesmo pode ser dito do massacre do Carandiru. Seriam precisas 122 chacinas para que o número de mortos se igualasse ao do país. Já São Paulo teria que lutar quatro Revoluções Constitucionalistas para igualar as baixas.
REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932
Soldados paulistas combateram, com armamento precário, as poderosas colunas inimigas. Reprodução feita no dia 02 de junho de 2013, dos originais publicados pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo’ durante a cobertura da Revolução Constitucionalista de 1932ARQUIVO/AE
Os corpos dos detentos mortos há dois dias são acondicionados de salas e corredores do IML (Instituto Médico Legal)EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO
Helicóptero do Corpo de Bombeiros e agentes da defesa civil trabalham no resgate dos corpos das vítimas encontrados em um ônibus de funcionários da VALE na região onde ficavam os escritórios da empresa em BrumadinhoWILTON JUNIOR/ ESTADÃO
REVOLUÇÃO TEOCRÁTICA DO IRÃ
Apoiadores do aiatolá Khomeini mostra sua imagem em Teerã, no Irã, durante a revolução islâmica de 1979REUTERS
Na Ásia, onde a pandemia começou, a mortalidade também alcançou níveis históricos. O número de mortos no Irã é duas vezes superior ao número de mortos da Revolução Teocrática que mudou o regime do país em 1979.
EXÉRCITO DE TERRACOTA
Imagem de parte do Exército de Soldados de Terracota de Xian, na ChinaLudovic Marin/ AFP
Na China, o número de mortos sepultados no país já é o equivalente a metade das estátuas do Exército de Terracota, enterradas no túmulo do imperador Qin Shi Huang.
Expediente
Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Editor de Internacional Cristiano Dias / Reportagem Renato Vasconcelos, Rodrigo Turrer e Paulo Beraldo / Edição de fotografia Sérgio Neves / Foto da capa Juan Carlos Ulate/Reuters / SEO Brenda Zacharias / Designer multimídia Lucas Almeida
O ano de 2020 será lembrado como o ano em que a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 precipitou uma ruptura maior no funcionamento das sociedades contemporâneas. Será provavelmente lembrado também como o momento de uma ruptura da qual nossas sociedades não mais se recuperaram completamente. Isso porque a atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química.i Os impactos cada vez mais avassaladores decorrentes da sinergia entre essas três crises sistêmicas deixarão doravante as sociedades, mesmo as mais ricas, ainda mais desiguais e mais vulneráveis, menos aptas, portanto, a recuperar seu desempenho anterior. São justamente tais perdas parciais, cada vez mais frequentes, de funcionalidade na relação das sociedades com o meio ambiente que caracterizam essencialmente o processo de colapso socioambiental em curso (Homer-Dixon et al. 2015; Steffen et al. 2018; Marques 2015/2018 e 2020).
O ano da pandemia é o do mais crucial ponto de inflexão da história humana
Por sua extensão global e pelo rastro de mortes deixadas em sua passagem, superior a 250 mil vítimas (oficialmente notificadas) em pouco mais de quatro meses, a atual pandemia é um fato cuja gravidade seria difícil exagerar, tanto mais porque novos surtos podem ainda ocorrer nos próximos dois anos, segundo um relatório do Center for Infectious Disease Research and Policy (CIDRAP), da Universidade de Minnesota (Moore, Lipsitch, Barry & Osterholm 2020).
Mas ainda mais grave que o saldo imenso de mortes, é o momento da incidência da pandemia na história humana. Outras pandemias, algumas muito mais letais, ocorreram no século XX, sem afetar profundamente a capacidade de recuperação das sociedades. O que singulariza a atual pandemia é o fato de se somar a diversas crises sistêmicas que ameaçam a humanidade, e isso justamente no momento em que não é mais possível postergar decisões que afetarão crucialmente, e muito em breve, a habitabilidade do planeta. A ciência condiciona a possibilidade de estabilizar o aquecimento médio global dentro, ou não muito além, dos limites almejados pelo Acordo de Paris a um fato incontornável: as emissões de CO2 devem atingir seu pico em 2020 e começar a declinar fortemente em seguida. O IPCC traçou 196 cenários através dos quais podemos limitar o aquecimento médio global a cerca de 0,5oC acima do aquecimento médio atual em relação ao período pré-industrial (1,2oC em 2019). Nenhum deles, lembram Tom Rivett-Carnac e Christiana Figueres, admite que o pico de emissões de gases de efeito estufa (GEE) seja protelado para além de 2020 (Hooper 2020). Ninguém exprime o significado dessa data-limite de modo mais peremptório que Thomas Stocker, co-diretor do IPCC entre 2008 e 2015:ii
“Mitigação retardada ou insuficiente impossibilita limitar o aquecimento global permanentemente. O ano de 2020 é crucial para a definição das ambições globais sobre a redução das emissões. Se as emissões de CO2 continuarem a aumentar além dessa data, as metas mais ambiciosas de mitigação tornar-se-ão inatingíveis”.
Já em 2017, Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, advertia que “para manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2oC é necessário que o pico das emissões seja atingido no mais tardar em 2020” (Le Hir 2017). Em outubro do ano seguinte, comentando o lançamento do relatório especial do IPCC, intitulado Global Warming 1.5oC, Debra Roberts, co-diretora do Grupo de Trabalho 2 desse relatório, reforçava essa percepção: “Os próximos poucos anos serão provavelmente os mais importantes de nossa história”. E Amjad Abdulla, representante dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) nas negociações climáticas, acrescentava: “Não tenho dúvidas de que os historiadores olharão retrospectivamente para esses resultados [do relatório especial do IPCC de 2018] como um dos momentos definidores no curso da história humana” (Mathiesen & Sauer 2018). Em The Second Warning: A Documentary Film (2018), divulgação do manifesto The Scientist’s Warning to Humanity: A Second Notice, lançado por William Ripple e colegas em 2017 e endossado por cerca de 20 mil cientistas, a filósofa Kathleen Dean Moore faz suas as declarações acima mencionadas: “Estamos vivendo um ponto de inflexão. Os próximos poucos anos serão os mais importantes da história da humanidade”.
Em abril de 2017, um grupo de cientistas, coordenados por Stephan Rahmstorf, lançava The Climate Turning Point, em cujo Prefácio se reafirma a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris (“manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2oC em relação ao período pré-industrial”), esclarecendo que: “essa meta é considerada necessária para evitar riscos incalculáveis à humanidade, e é factível – mas, realisticamente, apenas se as emissões globais atingirem um pico até o ano de 2020, no mais tardar”. Esse documento norteou então a criação, por diversas lideranças científicas e diplomáticas, da Missão 2020 (https://mission2020.global/). Ela definia metas básicas em energia, transporte, uso da terra, indústria, infraestrutura e finanças, de modo a tornar declinante, a partir de 2020, a curva das emissões de gases de efeito estufa e colocar o planeta numa trajetória consistente com o Acordo de Paris. “Com radical colaboração e teimoso otimismo”, escreve Christiana Figueres e colegas da Missão 2020, “dobraremos a curva das emissões de gases de efeito estufa até 2020, possibilitando à humanidade florescer.” De seu lado, António Guterres, cumprindo sua missão de incentivar e coordenar os esforços de governança global, alertava em setembro de 2018: “Se não mudarmos nossa rota até 2020, corremos o risco de deixar passar o momento em que é ainda possível evitar uma mudança climática desenfreada (arunaway climate change), com consequências desastrosas para a humanidade e para os sistemas naturais que nos sustentam”.
Pois bem, 2020, enfim, chegou. Fazendo em 2019 um balanço dos progressos realizados em direção às metas da Missão 2020, o World Resources Institute (Ge et al., 2019) escreve que “na maioria dos casos, a ação foi insuficiente ou o progresso foi nulo” (in most cases action is insufficient or progress is off track). Nenhuma das metas, em suma, foi alcançada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Japão, Austrália e Brasil (Irfan 2019), as últimas esperanças de uma diminuição iminente das emissões globais de GEE.
A pandemia entra em cena
Mas eis que a Covid-19 irrompe, deslocando, paralisando e adiando tudo, inclusive a COP26. E em pouco mais de três meses resolveu pelo caos e pelo sofrimento o que mais de três décadas de fatos, de ciência, de campanhas e de esforços diplomáticos para diminuir as emissões de GEE mostraram-se incapazes de realizar (já a Conferência de Toronto, de 1988, recomendava “ações específicas” nesse sentido). Ao invés de um decrescimento econômico racional, gradual e democraticamente planejado, o decrescimento econômico abrupto imposto pela pandemia afigura-se já, segundo Kenneth S. Rogoff, como “a mais profunda queda da economia global em 100 anos” (Goodman 2020). Em 15 de abril, o Carbon Brief estimou que a crise econômica deve provocar uma diminuição estimada em cerca de 5,5% nas emissões globais de CO2 em 2020. Em 30 de abril, a Global Energy Review 2020 – The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO2 emissions, da Agência Internacional de Energia (AIE), vai mais longe e estima que “as emissões globais de CO2 devem cair ainda mais rapidamente ao longo dos nove meses restantes do ano, atingindo 30,6 Gt [bilhões de toneladas] em 2020, quase 8% mais baixas que em 2019. Este seria o nível mais baixo desde 2010. Tal redução seria a maior de todos os tempos, seis vezes maior que a redução precedente de 0,4 Gt em 2009, devido à crise financeira e duas vezes maior que todas as reduções anteriores desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. (https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2020/global-energy-and-co2-emissions-in-2020). A Figura 1 indica como essa redução das emissões globais de CO2 reflete a queda na demanda de consumo global de energia primária, comparada com as quedas anteriores.
Figura 1 – Taxas de mudança (%) na demanda global de energia primária, 1900 – 2020
Fonte: AIE, Global Energy Review 2020 The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO emissions, Abril 2020, p. 11
A redução das emissões globais de CO2 projetada pela AIE para 2020 equivale ou é até pouco maior que os 7,6% de redução anual até 2030 que o IPCC considera imprescindível para conter o aquecimento aquém de níveis catastróficos (Evans 2020). O relatório da AIE apressa-se, contudo, em advertir que, “tal como nas crises precedentes, (…) o repique das emissões pode ser maior que o declínio, a menos que a onda de investimentos para retomar a economia seja dirigido a uma infraestrutura energética mais limpa e resiliente”. Salvo raras exceções, os fatos até agora não autorizam a expectativa de uma ruptura com os paradigmas energéticos e socioeconômicos anteriores. Malgrado o colapso do preço do petróleo, ou justamente por isso, as petroleiras estão se movendo com vertiginosa velocidade para tirar partido desse momento, obtendo, por exemplo, investimentos de USD 1,1 bilhão para financiar a conclusão do famigerado oleoduto Keystone XL, que ligará o petróleo canadense ao Golfo do México (McKibben 2020). Os exemplos desse tipo de oportunismo são inúmeros, inclusive no Brasil, onde os ruralistas se aproveitam da situação para fazer aprovar da Medida Provisória 910, que anistia a grilagem e eleva ainda mais as ameaças aos indígenas. Como bem afirma Laurent Joffrin, em sua Lettre politique de 30 de abril para o jornal Libération (Le monde d’avant, en pire?), o mundo pós-pandemia “corre o risco de parecer furiosamente, a curto prazo ao menos, com o mundo de antes, mas em versão piorada”. E Joffrin emenda: “o ‘mundo de após’ não mudará sozinho. Como para o ‘mundo de antes’, seu futuro dependerá de um combate político, paciente e árduo”. Político e árduo, sem dúvida, mas definitivamente não há mais tempo para paciência.
De qualquer modo, uma redução de quase 8% nas emissões globais de CO2 num ano apenas não abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentrações atmosféricas desse gás, medidas em Mauna Loa (Havaí). Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milhão (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o início de suas mensurações em 1958. Não se trata apenas de um número a mais na selva de indicadores climáticos convergentes. É o número decisivo. Como lembra Petteri Taalas, Secretário-Geral da Organização Meteorológica Mundial: “A última vez que a Terra apresentou concentrações atmosféricas de CO2 comparáveis às atuais foi há 3 a 5 milhões de anos. Nessa época, a temperatura estava 2oC a 3oC [acima do período pré-industrial] e o nível do mar estava 10 a 20 metros mais alto que hoje” (McGrath 2019). Faltam agora menos de 35 ppm para atingir 450 ppm, um nível de concentração atmosférica de CO2 largamente associado a um aquecimento médio global de 2oC acima do período pré-industrial, nível que pode ser atingido, mantida a trajetória atual, em pouco mais de 10 anos. O que nos aguarda por volta de 2030, mantida a engrenagem do sistema econômico capitalista globalizado e existencialmente dependente de sua própria reprodução ampliada, é nada menos que um desastre para a humanidade como um todo, bem como para inúmeras outras espécies. A palavra desastre não é uma hipérbole. O já mencionado Relatório do IPCC de 2018 (Global Warming 1.5oC) projeta que o mundo a 2oC em média acima do período pré-industrial terá quase 6 bilhões de pessoas expostas a ondas de calor extremo e mais de 3,5 bilhões de pessoas sujeitas à escassez hídrica, entre outras muitas adversidades. Desastre é a palavra que melhor define o mundo para o qual rumamos no horizonte dos próximos 10 anos (ou 20, pouco importa), e é exatamente o vocábulo empregado por Sir Brian Hoskins, diretor do Grantham Institute for Climate Change, do Imperial College em Londres: “Não temos evidência de que um aquecimento de 1,9oC é algo com que se possa lidar facilmente, e 2,1oC é um desastre” (Simms 2017).
Em consequência dessas altíssimas concentrações atmosféricas de CO2, o ano passado já foi o mais quente dos registros históricos na Europa (1,2oC acima do período 1981 – 2010!) e, mesmo sem El Niño, há agora, segundo o NOAA, 74,67% de chances de que 2020 venha a ser o ano mais quente em um século e meio de registros históricos na média global,iii batendo o recorde precedente de 2016 (1,24oC acima do período pré-industrial, segundo a NASA). Não é no espaço deste artigo que se podem elencar os muitos indícios de que 2020 será o primeiro ou segundo (após 2016) ano mais quente entre os sete mais quentes (2014-2020) da história da civilização humana desde a última deglaciação, cerca de 11.700 anos antes do presente. Baste aqui ter em mente que, se março de 2020 for representativo do ano, já perdemos a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, pois a temperatura média desse mês cravou globalmente 1,51oC acima do período 1880-1920, conforme mostra a Figura 2.
Figura 2 – Anomalias de temperatura em março de 2020 (1,51C na média global), em relação ao período 1880-1920. Fonte: GISS Surface Temperature Analysis (v4), NASA. <https://data.giss.nasa.gov/gistemp/maps/index_v4.html>.
O aquecimento global é uma arma apontada contra a saúde global. Como mostra Sara Goudarzi (2020), temperaturas mais elevadas favorecem a adaptação de micro-organismos a um mundo mais quente, diminuindo a eficácia de duas defesas básicas dos mamíferos contra os patógenos: (1) muitos micro-organismos não sobrevivem ainda a temperaturas superiores a 37oC, mas podem vir a se adaptar rapidamente a elas; (2) o sistema imune dos mamíferos, pois este perde eficiência em temperaturas mais elevadas. Além disso, o aquecimento global amplia o raio de ação de vetores de epidemias, como a dengue, zika e chikungunya, e altera a distribuição geográfica das plantas e animais, levando espécies animais terrestres a se deslocarem em direção a latitudes mais altas a uma taxa média de 17 km por década (Pecl et al. 2017). Aaron Bernstein, diretor do Harvard University’s Center of Climate, Health and the Global Environment, sintetiza bem a interação entre aquecimento global e desmatamento em suas múltiplas relações com novos surtos epidêmicos:iv
“À medida que o planeta se aquece (…) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais estão entrando em contato com animais com os quais eles normalmente não interagiriam, e isso cria uma oportunidade para patógenos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas primárias das mudanças climáticas também aumentam o risco de pandemias. O desmatamento, causado em geral pela agropecuária é a causa maior da perda de habitat no mundo todo. E essa perda força os animais a migrarem e potencialmente a entrar em contato com outros animais ou pessoas e compartilhar seus germes. Grandes fazendas de gado também servem como uma fonte para a passagem de infecções de animais para pessoas”.
Sem perder de vista as relações entre a emergência climática e essas novas ameaças sanitárias, foquemos em duas questões bem circunscritas e diretamente ligadas à pandemia atual.
A pandemia foi prevista e será, doravante, mais frequente
A primeira questão refere-se ao caráter, por assim dizer, antropogênico da pandemia. Bem longe de ser adventícia, ela é uma consequência, reiteradamente prevista, de um sistema socioeconômico crescentemente disfuncional e destrutivo. Josef Settele, Sandra Díaz, Eduardo Brondizio e Peter Daszak escreveram um artigo, a convite do IPBES, de leitura obrigatória e que me permito citar longamente:
“Há uma única espécie responsável pela pandemia Covid-19: nós. Assim como com as crises climáticas e o declínio da biodiversidade, as pandemias recentes são uma consequência direta da atividade humana – particularmente de nosso sistema financeiro e econômico global baseado num paradigma limitado, que preza o crescimento econômico a qualquer custo. (…) Desmatamento crescente, expansão descontrolada da agropecuária, cultivo e criação intensivos, mineração e aumento da infraestrutura, assim como a exploração de espécies silvestres criaram uma ‘tempestade perfeita’ para o salto de doenças da vida selvagem para as pessoas. (…) E, contudo, isso pode ser apenas o começo. Embora se estime que doenças transmitidas de outros animais para humanos já causem 700 mil mortes por ano, é vasto o potencial para pandemias futuras. Acredita-se que 1,7 milhão de vírus não identificados, dentre os que sabidamente infectam pessoas, ainda existem em mamíferos e pássaros aquáticos. Qualquer um deles pode ser a ‘Doença X’ – potencialmente ainda mais perturbadora e letal que a Covid-19. É provável que pandemias futuras ocorram mais frequentemente, propaguem-se mais rapidamente, tenham maior impacto econômico e matem mais pessoas, se não formos extremamente cuidadosos acerca dos impactos das escolhas que fazemos hoje” (https://ipbes.net/covid19stimulus).
Cada frase dessa citação encerra uma lição de ciência e de lucidez política. A maior frequência recente de epidemias e pandemias tem por causas centrais o desmatamento e a agropecuária, algo bem estabelecido também por Christian Drosten, atual coordenador do combate à Covid-19 na Alemanha, além de diretor do Instituto de Virologia do Hospital Charité de Berlim e um dos cientistas que identificou a pandemia SARS em 2003 (Spinney 2020).
“Desde que tenha oportunidade, o coronavírus está pronto para mudar de hospedeiro e nós criamos essa oportunidade através de nosso uso não natural de animais – a pecuária (livestock). Essa expõe os animais de criação à vida silvestre, mantém esses animais em grandes grupos que podem amplificar o vírus, e os humanos têm intenso contato com eles – por exemplo, através do consumo de carne –, de modo que tais animais certamente representam uma possível trajetória de emergência para o coronavírus. Camelos são animais de criação no Oriente Médio e são os hospedeiros do vírus MERS, assim como do coronavírus 229E – que é uma causa da gripe comum em humanos –, já o gado bovino foi o hospedeiro original do coronavírus OC43, outra causa de gripe”.
Nada disso é novidade para a ciência. Sabemos que a maioria das pandemias emergentes são zoonoses, isto é, doenças infecciosas causadas por bactérias, vírus, parasitas ou príons, que saltaram de hospedeiros não humanos, usualmente vertebrados, para os humanos. Como afirma Ana Lúcia Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o desmatamento é uma causa central e uma bomba-relógio em termos de zoonoses: “quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo, é o caos” (Pontes 2020). Esse risco, repita-se, é crescente. Basta ter em mente que “mamíferos domesticados hospedam 50% dos vírus zoonóticos, mas representam apenas 12 espécies” (Johnson et al. 2020). Esse grupo inclui porcos, vacas e carneiros. Em resumo, o aquecimento global, o desmatamento, a destruição dos habitats selvagens, a domesticação e a criação de aves e mamíferos em escala industrial destroem o equilíbrio evolutivo entre as espécies, facilitando as condições para saltos desses vírus de uma espécie a outra, inclusive a nossa.
4.As próximas zoonoses serão gestadas no Brasil?
O segundo ponto, com o qual concluo este artigo, são as consequências especificamente sanitárias da destruição em curso da Amazônia e do Cerrado. Entre as mais funestas está a crescente probabilidade de que o país se torne o foco das próximas pandemias zoonóticas. Na última década, as megacidades da Ásia do leste, principalmente na China, têm sido o principal “hotspot” de infecções zoonóticas (Zhang et al. 2019). Não por acaso. Esses países estão entre os que mais perderam cobertura florestal no mundo em benefício do sistema alimentar carnívoro e globalizado. O caso da China é exemplar. De 2001 a 2018, o país perdeu 94,2 mil km2 de cobertura arbórea, equivalente a uma diminuição de 5,8% em sua cobertura arbórea no período. “Extração de madeira e agropecuária consomem até 5 mil km2 de florestas virgens todo ano. Na China setentrional e central a cobertura florestal foi reduzida pela metade nas últimas duas décadas”.v Em paralelo com a destruição dos habitats selvagens, o crescimento econômico chinês desencadeou uma demanda por proteínas animais, incluindo as provenientes de animais exóticos (Cheng et al. 2007). Entre 1980 e 2015, o consumo de carne na China cresceu sete vezes e 4,7 vezes per capita (de 15 kg para 70 kg per capita por ano ao longo deste período). Com cerca de 18% da população mundial, a China era em 2018 responsável por 28% do consumo de carne no planeta (Rossi 2018). Segundo um relatório de 2017 do Rabobank, intitulado China’s Animal Protein Outlook to 2020: Growth in Demand, Supply and Trade, a demanda adicional por carne a cada ano na China será de cerca de um milhão de toneladas. “A produção local de carne bovina não consegue acompanhar o crescimento da demanda. Na realidade, a China tem uma escassez estrutural de oferta de carne bovina, que necessita ser satisfeita por importações crescentes”.
A cobertura vegetal dos trópicos tem sido destruída para sustentar essa dieta crescentemente carnívora, não apenas na China, mas em vários países do mundo e particularmente entre nós. No Brasil, a remoção de mais de 1,8 milhão de km2 da cobertura vegetal da Amazônia e do Cerrado nos últimos cinquenta anos, para converter suas magníficas paisagens naturais em zonas fornecedoras de carne e ração animal, em escala nacional e global, representa o mais fulminante ecocídio jamais perpetrado pela espécie humana. Nunca, de fato, em nenhuma latitude e em nenhum momento da história humana, destruiu-se tanta vida animal e vegetal em tão pouco tempo, para a degradação de tantos e para o benefício econômico de tão poucos. E nunca, mesmo para os pouquíssimos que enriqueceram com a devastação, esse enriquecimento terá sido tão efêmero, pois a destruição da cobertura vegetal já começa a gerar erosão dos solos e secas recorrentes, solapando as bases de qualquer agricultura nessa região (na realidade, no Brasil, como um todo).
Em decorrência dessa guerra de extermínio contra a natureza deflagrada pela insanidade dos ditadores militares e continuada pelos civis, atualmente o rebanho bovino brasileiro é de aproximadamente 215 milhões de cabeças, sendo que 80% de seu consumo é absorvido pelo mercado interno, que cresceu 14% nos últimos dez anos (Macedo 2019). Além disso, o Brasil tornou-se líder das exportações mundiais de carne bovina (20% dessas exportações) e de soja (56%), basicamente destinada à alimentação animal. A maior parte do rebanho bovino brasileiro concentra-se hoje nas regiões Norte e Centro-Oeste, com crescente participação da Amazônia. Em 2010, 14% do rebanho brasileiro já se encontrava na região norte do país. Em 2016, essa participação saltou para 22%. Juntas, a região norte e centro-oeste abrigam 56% do rebanho bovino brasileiro (Zaia 2018). Em 2017, apenas 19,8% da cobertura vegetal remanescente do Cerrado permanecia ainda intocada. A continuar a devastação, a pecuária e a agricultura de soja levarão em breve à extinção quase 500 espécies de plantas endêmicas – três vezes mais que todas as extinções documentadas desde 1500 (Strassburg et al. 2017). A Amazônia, que perdeu cerca de 800 mil km2 de cobertura florestal em 50 anos e perderá outras muitas dezenas de milhares sob a sanha ecocida de Bolsonaro, tornou-se, em sua porção sul e leste, uma paisagem desolada de pastos em vias de degradação. O caos ecológico produzido pelo desmatamento por corte raso de cerca de 20% da área original da floresta, pela degradação do tecido florestal de pelo menos outros 20% e pela grande concentração de bovinos na região cria as condições para tornar o Brasil um “hotspot” das próximas zoonoses. Em primeiro lugar porque os morcegos são um grande reservatório de vírus e, entre os morcegos brasileiros, cujo habitat são sobretudo as florestas (ou o que resta delas), circulam pelo menos 3.204 tipos de coronavírus (Maxman 2017). Em segundo lugar porque, como mostraram Nardus Mollentze e Daniel Streicker (2020), o grupo taxonômico dos Artiodactyla (de casco fendido), ao qual pertencem os bois, hospedam, juntamente com os primatas, mais vírus, potencialmente zoonóticos, do que seria de se esperar entre os grupos de mamíferos, incluindo os morcegos. Na realidade, a Amazônia já é um “hotspot” de epidemias não virais, como a leishmaniose e a malária, doenças tropicais negligenciadas, mas com alto índice de letalidade. Como afirma a OMS, “a leishmaniose está associada a mudanças ambientais, tais como o desmatamento, o represamento de rios, a esquemas de irrigação e à urbanização”,vi todos eles fatores que concorrem para a destruição da Amazônia e para o aumento do risco de pandemias. A relação entre desmatamento amazônico e a malária foi bem estabelecida em 2015 por uma equipe do IPEA: para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentam 23% (Pontes 2020).
A curva novamente ascendente desde 2013 da destruição da Amazônia e do Cerrado resultou da execrável aliança de Dilma Rousseff com o que há de mais retrógrado na economia brasileira. Já para a necropolítica de Bolsonaro, a destruição da vida, do que resta do patrimônio natural brasileiro, tornou-se um programa de governo e uma verdadeira obsessão. Bolsonaro está levando o país a dar um salto sem retorno no caos ecológico, de onde a necessidade inadiável de neutralizá-lo por impeachment ou qualquer outro mecanismo constitucional. Não há mais tempo a perder. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento amazônico atingiu 9.762 km2, quase 30% acima dos 12 meses anteriores e o pior resultado dos últimos dez anos, segundo o INPE. No primeiro trimestre de 2020, que apresenta tipicamente os níveis mais baixos de desmatamento em cada ano, o sistema Deter, do INPE, detectou um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2019, o nível mais alto para esse período desde o início da série, em 2016. Segundo Tasso Azevedo, coordenador-geral do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), “o mais preocupante é que no acumulado de agosto de 2019 até março de 2020, o nível do desmatamento mais do que dobrou” (Menegassi 2020). Ao monopolizar todas as atenções, a pandemia oferece a Bolsonaro uma oportunidade inesperada para acelerar sua obra de destruição da floresta e de seus povos (Barifouse 2020).
Recapitulemos. O que importa aqui, sobretudo, é entender que a pandemia intervém no momento em que o aquecimento global e todos os demais processos de degradação ambiental estão em aceleração. A pandemia pode acelerá-los ainda mais, na ausência de uma reação política vigorosa da sociedade. Ela acrescenta, em todo o caso, mais uma dimensão a esse feixe convergente de crises socioambientais que impõe à humanidade uma situação radicalmente nova. Pode-se assim formular essa novidade: não é mais plausível esperar, passada a pandemia, um novo ciclo de crescimento econômico global e ainda menos nacional. Se algum crescimento voltar a ocorrer, ele será conjuntural e logo truncado pelo caos climático, ecológico e sanitário. O próximo decênio evoluirá sob o signo de regressões socioeconômicas, pois mesmo a se admitir que a economia globalizada tenha trazido benefícios sociais, eles foram parcos e vêm sendo de há muito superados por seus malefícios. A pandemia é apenas um entre esses malefícios, mas certamente não o pior. Não são mais atuais, portanto, em 2020, as variadas agendas desenvolvimentistas, típicas dos embates ideológicos do século XX. É claro que a exigência de justiça social, bandeira histórica da esquerda, permanece mais que nunca atual. Além de ser um valor perene e irrenunciável, a luta pela diminuição da desigualdade social significa, antes de mais nada, retirar das corporações o poder decisório sobre os investimentos estratégicos (energia, alimentação, mobilidade etc.), assumir o controle democrático e sustentável desses investimentos e, assim, atenuar os impactos do colapso socioambiental em curso. É do aprofundamento da democracia que depende crucialmente, hoje, a sobrevivência de qualquer sociedade organizada num mundo que está se tornando sempre mais quente, mais empobrecido biologicamente, mais poluído e, por todas essas razões, mais enfermo. Sobreviver, no contexto de um processo de colapso socioambiental, não é um programa mínimo. Sobreviver requer, hoje, lutar por algo muito mais ambicioso que os programas socialdemocratas ou revolucionários do século XX. Supõe redefinir o próprio sentido e finalidade da atividade econômica, vale dizer, em última instância, redefinir nossa posição como sociedade e como espécie no âmbito da biosfera.
Referências
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i Segundo a Chemical Data Reporting (CDR) da EPA, nos EUA, em 2016 havia 8.707 substâncias ou compostos químicos largamente comercializados, aos quais somos cotidianamente expostos, ignorando na maior parte dos casos seus efeitos e os de suas interações sobre a saúde humana e demais espécies. <https://www.chemicalsafetyfacts.org/chemistry-context/debunking-myth-chemicals-testing-safety/>.
*** Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 3a edição, 2018. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).
Radioactive period following nuclear bomb tests changed rainfall patterns thousands of miles from the detonation sites
Date: May 13, 2020
Source: University of Reading
Summary: Historic records from weather stations show that rainfall patterns in Scotland were affected by charge in the atmosphere released by radiation from nuclear bomb tests carried out in the 1950s and ’60s.
Nuclear bomb tests during the Cold War may have changed rainfall patterns thousands of miles from the detonation sites, new research has revealed.
Scientists at the University of Reading have researched how the electric charge released by radiation from the test detonations, carried out predominantly by the US and Soviet Union in the 1950s and 1960s, affected rainclouds at the time.
The study, published in Physical Review Letters, used historic records between 1962-64 from a research station in Scotland. Scientists compared days with high and low radioactively-generated charge, finding that clouds were visibly thicker, and there was 24% more rain on average on the days with more radioactivity.
Professor Giles Harrison, lead author and Professor of Atmospheric Physics at the University of Reading, said: “By studying the radioactivity released from Cold War weapons tests, scientists at the time learnt about atmospheric circulation patterns. We have now reused this data to examine the effect on rainfall.
“The politically charged atmosphere of the Cold War led to a nuclear arms race and worldwide anxiety. Decades later, that global cloud has yielded a silver lining, in giving us a unique way to study how electric charge affects rain.”
It has long been thought that electric charge modifies how water droplets in clouds collide and combine, potentially affecting the size of droplets and influencing rainfall, but this is difficult to observe in the atmosphere. By combining the bomb test data with weather records, the scientists were able to retrospectively investigate this.
Through learning more about how charge affects non-thunderstorm clouds, it is thought that scientists will now have a better understanding of important weather processes.
The race to develop nuclear weapons was a key feature of the Cold War, as the world’s superpowers sought to demonstrate their military capabilities during heightened tensions following the Second World War.
Although detonations were carried out in remote parts of the world, such as the Nevada Desert in the US, and on Pacific and Arctic islands, radioactive pollution spread widely throughout the atmosphere. Radioactivity ionises the air, releasing electric charge.
The researchers, from the Universities of Reading, Bath and Bristol, studied records from well-equipped Met Office research weather stations at Kew near London and Lerwick in the Shetland Isles.
Located 300 miles north west of Scotland, the Shetland site was relatively unaffected by other sources of anthropogenic pollution. This made it well suited as a test site to observe rainfall effects which, although likely to have occurred elsewhere too, would be much more difficult to detect.
Atmospheric electricity is most easily measured on fine days, so the Kew measurements were used to identify nearly 150 days where there was high or low charge generation over the UK while it was cloudy in Lerwick. The Shetland rainfall on these days showed differences which vanished after the major radioactivity episode was over.
The findings may be helpful for cloud-related geoengineering research, which is exploring how electric charge could influence rain, relieve droughts or prevent floods, without the use of chemicals.
Professor Harrison is leading a project investigating electrical effects on dusts and clouds in the United Arab Emirates, as part of their national programme in Rain Enhancement Science. These new findings will help to show the typical charges possible in natural non-thunderstorm clouds.
Summary: Psychologists find that we are less likely to amplify fears in social exchange if we are stressed.
New psychology research from the University of Konstanz reveals that stress changes the way we deal with risky information — results that shed light on how stressful events, such as a global crisis, can influence how information and misinformation about health risks spreads in social networks.
“The global coronavirus crisis, and the pandemic of misinformation that has spread in its wake, underscores the importance of understanding how people process and share information about health risks under stressful times,” says Professor Wolfgang Gaissmaier, Professor in Social Psychology at the University of Konstanz, and senior author on the study. “Our results uncovered a complex web in which various strands of endocrine stress, subjective stress, risk perception, and the sharing of information are interwoven.”
The study, which appears in the journal Scientific Reports, brings together psychologists from the DFG Cluster of Excellence “Centre for the Advanced Study of Collective Behaviour” at the University of Konstanz: Gaissmaier, an expert in risk dynamics, and Professor Jens Pruessner, who studies the effects of stress on the brain. The study also includes Nathalie Popovic, first author on the study and a former graduate student at the University of Konstanz, Ulrike Bentele, also a Konstanz graduate student, and Mehdi Moussaïd from the Max Planck Institute for Human Development in Berlin.
In our hyper-connected world, information flows rapidly from person to person. The COVID-19 pandemic has demonstrated how risk information — such as about dangers to our health — can spread through social networks and influence people’s perception of the threat, with severe repercussions on public health efforts. However, whether or not stress influences this has never been studied.
“Since we are often under acute stress even in normal times and particularly so during the current health pandemic, it seems highly relevant not only to understand how sober minds process this kind of information and share it in their social networks, but also how stressed minds do,” says Pruessner, a Professor in Clinical Neuropsychology working at the Reichenau Centre of Psychiatry, which is also an academic teaching hospital of the University of Konstanz.
To do this, researchers had participants read articles about a controversial chemical substance, then report their risk perception of the substance before and after reading the articles, and say what information they would pass on to others. Just prior to this task, half of the group was exposed to acute social stress, which involved public speaking and mental arithmetic in front of an audience, while the other half completed a control task.
The results showed that experiencing a stressful event drastically changes how we process and share risk information. Stressed participants were less influenced by the articles and chose to share concerning information to a significantly smaller degree. Notably, this dampened amplification of risk was a direct function of elevated cortisol levels indicative of an endocrine-level stress response. In contrast, participants who reported subjective feelings of stress did show higher concern and more alarming risk communication.
“On the one hand, the endocrine stress reaction may thus contribute to underestimating risks when risk information is exchanged in social contexts, whereas feeling stressed may contribute to overestimating risks, and both effects can be harmful,” says Popovic. “Underestimating risks can increase incautious actions such as risky driving or practising unsafe sex. Overestimating risks can lead to unnecessary anxieties and dangerous behaviours, such as not getting vaccinated.”
By revealing the differential effects of stress on the social dynamics of risk perception, the Konstanz study shines light on the relevance of such work not only from an individual, but also from a policy perspective. “Coming back to the ongoing COVID-19 pandemic, it highlights that we do not only need to understand its virology and epidemiology, but also the psychological mechanisms that determine how we feel and think about the virus, and how we spread those feelings and thoughts in our social networks,” says Gaissmaier.
Covid-19 isn’t going away soon. Two recent studies mapped out the possible shapes of its trajectory.
Circles at Gare du Nord train station in Paris marked safe social distances on Wednesday.Credit…Ian Langsdon/EPA, via Shutterstock
By Siobhan Roberts – May 8, 2020
By now we know — contrary to false predictions — that the novel coronavirus will be with us for a rather long time.
“Exactly how long remains to be seen,” said Marc Lipsitch, an infectious disease epidemiologist at Harvard’s T.H. Chan School of Public Health. “It’s going to be a matter of managing it over months to a couple of years. It’s not a matter of getting past the peak, as some people seem to believe.”
A single round of social distancing — closing schools and workplaces, limiting the sizes of gatherings, lockdowns of varying intensities and durations — will not be sufficient in the long term.
In the interest of managing our expectations and governing ourselves accordingly, it might be helpful, for our pandemic state of mind, to envision this predicament — existentially, at least — as a soliton wave: a wave that just keeps rolling and rolling, carrying on under its own power for a great distance.
The Scottish engineer and naval architect John Scott Russell first spotted a soliton in 1834 as it traveled along the Union Canal. He followed on horseback and, as he wrote in his “Report on Waves,” overtook it rolling along at about eight miles an hour, at thirty feet long and a foot or so in height. “Its height gradually diminished, and after a chase of one or two miles I lost it in the windings of the channel.”
The pandemic wave, similarly, will be with us for the foreseeable future before it diminishes. But, depending on one’s geographic location and the policies in place, it will exhibit variegated dimensions and dynamics traveling through time and space.
“There is an analogy between weather forecasting and disease modeling,” Dr. Lipsitch said. Both, he noted, are simple mathematical descriptions of how a system works: drawing upon physics and chemistry in the case of meteorology; and on behavior, virology and epidemiology in the case of infectious-disease modeling. Of course, he said, “we can’t change the weather.” But we can change the course of the pandemic — with our behavior, by balancing and coordinating psychological, sociological, economic and political factors.
Dr. Lipsitch is a co-author of two recent analyses — one from the Center for Infectious Disease Research and Policy at the University of Minnesota, the other from the Chan School published in Science — that describe a variety of shapes the pandemic wave might take in the coming months.
The Minnesota study describes three possibilities:
Scenario No. 1 depicts an initial wave of cases — the current one — followed by a consistently bumpy ride of “peaks and valleys” that will gradually diminish over a year or two.
Scenario No. 2 supposes that the current wave will be followed by a larger “fall peak,” or perhaps a winter peak, with subsequent smaller waves thereafter, similar to what transpired during the 1918-1919 flu pandemic.
Scenario No. 3 shows an intense spring peak followed by a “slow burn” with less-pronounced ups and downs.
The authors conclude that whichever reality materializes (assuming ongoing mitigation measures, as we await a vaccine), “we must be prepared for at least another 18 to 24 months of significant Covid-19 activity, with hot spots popping up periodically in diverse geographic areas.”
In the Science paper, the Harvard team — infectious-disease epidemiologist Yonatan Grad, his postdoctoral fellow Stephen Kissler, Dr. Lipsitch, his doctoral student Christine Tedijanto and their colleague Edward Goldstein — took a closer look at various scenarios by simulating the transmission dynamics using the latest Covid-19 data and data from related viruses.
The authors conveyed the results in a series of graphs — composed by Dr. Kissler and Ms. Tedijanto — that project a similarly wavy future characterized by peaks and valleys.
One figure from the paper, reinterpreted below, depicts possible scenarios (the details would differ geographically) and shows the red trajectory of Covid-19 infections in response to “intermittent social distancing” regimes represented by the blue bands.
Social distancing is turned “on” when the number of Covid-19 cases reaches a certain prevalence in the population — for instance, 35 cases per 10,000, although the thresholds would be set locally, monitored with widespread testing. It is turned “off” when cases drop to a lower threshold, perhaps 5 cases per 10,000. Because critical cases that require hospitalization lag behind the general prevalence, this strategy aims to prevent the health care system from being overwhelmed.
The green graph represents the corresponding, if very gradual, increase in population immunity.
“The ‘herd immunity threshold’ in the model is 55 percent of the population, or the level of immunity that would be needed for the disease to stop spreading in the population without other measures,” Dr. Kissler said.
Another iteration shows the effects of seasonality — a slower spread of the virus during warmer months. Theoretically, seasonal effects allow for larger intervals between periods of social distancing.
This year, however, the seasonal effects will likely be minimal, since a large proportion of the population will still be susceptible to the virus come summer. And there are other unknowns, since the underlying mechanisms of seasonality — such as temperature, humidity and school schedules — have been studied for some respiratory infections, like influenza, but not for coronaviruses. So, alas, we cannot depend on seasonality alone to stave off another outbreak over the coming summer months.
Yet another scenario takes into account not only seasonality but also a doubling of the critical-care capacity in hospitals. This, in turn, allows for social distancing to kick in at a higher threshold — say, at a prevalence of 70 cases per 10,000 — and for even longer breaks between social distancing periods:
What is clear overall is that a one-time social distancing effort will not be sufficient to control the epidemic in the long term, and that it will take a long time to reach herd immunity.
“This is because when we are successful in doing social distancing — so that we don’t overwhelm the health care system — fewer people get the infection, which is exactly the goal,” said Ms. Tedijanto. “But if infection leads to immunity, successful social distancing also means that more people remain susceptible to the disease. As a result, once we lift the social distancing measures, the virus will quite possibly spread again as easily as it did before the lockdowns.”
So, lacking a vaccine, our pandemic state of mind may persist well into 2021 or 2022 — which surprised even the experts.
“We anticipated a prolonged period of social distancing would be necessary, but didn’t initially realize that it could be this long,” Dr. Kissler said.
Joined by Senators Bernie Sanders and Ed Markey, Kamala Harris is pushing new legislation that would provide up to $2,000 a month for every U.S. resident. There’s another term for that: a universal basic income.
While UBIs are usually associated with the magical thinking that we’ll at some point reach a fully-automated post-work economy, the closest America came to instituting one was arguably through vast expansions of unemployment benefits during the Great Depression. We’re certainly headed for similar territory now, with a current unemployment rate of nearly 15-percent, and an estimated 20,500,000 jobs lost so far.
The proposal builds on an idea Harris has been kicking around for some years, but which was previously a more modest tax credit of up to $500. This new bill—and we can hypothesize if these unusual times, or the input of considerably more left-leaning Senators Sanders and Markey was a deciding factor—calls for direct cash payments of $2,000 per individual, $2,000 per child, and would apply retroactively to the months of March and April. This could be a life-saving infusion for many Americans who are out of work, especially as no major city has yet instituted any form of rent cancellation.
To be clear, what Harris proposes isn’t a UBI exactly, as it’s not intended to be universal. Those with an income of $100,000 would see decreased payments, while anyone making $120,000 or more would be ineligible to receive the stimulus.
Is it even worth contrasting a proposal to consistently float struggling Americans through this pandemic with an unserious, one-time, $1,200 payment approved by the Trump administration which some people still have not received? No, it most definitely is not—especially since the White House has announced it wouldn’t consider additional stimulus for the rest of the month. Unlike that ridiculous PR scheme, this bill would make funds available, even to those without social security numbers, and also stipulates that the monthly payments cannot be garnished by debt collectors.
All that said, Republicans—led by a majority leader who thought allowing states to propose bankruptcy was a smart idea—control the Senate currently, and are unlikely to vote favorably on any social welfare program. If and when this bill dies on the Senate floor, you’ll know who to blame.
The seventh contribution to our growing collection of writings on Covid-19 and this moment of crisis. Federica Caso is currently a teaching assistant at the University of Queensland, where she also completed her PhD in 2019. Her expertise is on militarisation and war memory in liberal societies. She also works on the politics of culture, art, and gender. Her most recent publication is titled “The Political Aesthetics of the Body of the Soldier in Pain” which features in Catherine Baker’s edited volume Making War on Bodies.
In this pandemic, the war rhetoric has spread as fast as the coronavirus itself. Recently, US President Donald Trump has characterised himself as a wartime president. Hospitals are preparing for war and healthcare workers are heralded as the frontline soldiers in the war against COVID-19. Economists ask how the coronavirus war economy will change the world. Wartime terms such as shelter-in-place, panic-buying, and lockdown have entered our daily and most mundane conversations.
The language of war is so normalised that in a recent episode of the New York Times’ podcast The Daily, a medical doctor answers questions from US American children about the coronavirus using war metaphors. We have come to believe that these children, aged no more than 6 and raised in ‘peacetime’ and prosperity, naturally know about invasion, bombing, weapons, and strategic warfare. We have come to believe that this is the best language to teach them about life processes.
It is important to pay attention to the language that we use to describe the coronavirus pandemic because it determines how we respond to it.
The War Metaphor
This is not the first time that the language of war is stretched to contexts that are not legalistically wartimes. In the last fifty years, we have heard of the war of drugs, the war on poverty, the war on crime, and the war on plastic.
War is a powerful metaphor. It is an effective, immediate, and emotive tool to communicate urgency to the general public. It also conveys a sense of struggle and righteousness that can justify exceptional measures.
The power of the war metaphor is derived from the role that war played in crafting the modern nation-state and the European model of the international system. Modern warfare is codified as an instrument of policy to protect the political community. In this dominant depiction, war is a measure that states take in the name of the nation to defend their citizens against a threatening foreign enemy. This is largely how we have memorialised war, and this is the type of war that we invoke when we deploy the metaphor of war.
The Power of the War Rhetoric in the Coronavirus Pandemic
The coronavirus pandemic is not only invoking metaphors from war, it is also unleashing war rhetoric. To clarify the distinction between war metaphor and war rhetoric consider the difference between the doctor hosted by The Daily that I mentioned before who uses examples from warfare to explain children how viruses work, and President Trump characterising himself as a war president. One assumes that children are familiar with the language of war more than the language of life, and therefore draws from the former to explain the latter. President Trump characterising himself as a war president is asking Americans to trust his abilities to deal with this difficult situation.
The war rhetoric presumes that we are at war when we are not to construct the realities of war. These war realities are invoked as a means of interrupting normalcy and call for exceptional measures. This strategy in the coronavirus pandemic has some merits.
The first invocation of the war rhetoric comes from doctors and health workers. For example, Italian doctors cry that the situation in the hospitals “is like a war”, and Australian health workers are preparing themselves for war. Here the war rhetoric functions to raise awareness about the challenges that the health system faces during this pandemic and the need for preparedness. The influx of patients and the shortage of supply and medical equipment are likened to wartime situations as a way of warning about the coming challenges to health systems worldwide.
The rhetoric of war is also invoked by politicians to compel compliance with orders designed to slow the spread of the virus. We are now all familiar with the expression “shelter-in-place,” which has its origin in the Cold War. Shelter-in-place evokes bunkers and nuclear fallout, and Governor of New York Andrew Cuomo has raised concerns that the expression fuels panic among the public. He is right and this is why the expression works. The language of war is imbued with fear, which makes it a compelling way to communicate when seeking obedience.
Finally, the rhetoric of war is enabling economic changes and flexibility that are much needed to face the challenges posed by the coronavirus pandemic. Economists are comparing the current unemployment rates, drops in market shares, and goods shortages to wartime scenarios. They are calling for wartime economic thinking to stimulate the economy and nationalise key services and industries. For example, in the US, the war rhetoric has tabled the need for the Defence Production Act, first introduced in 1950 during the Korean War, to support the production and distribution of medical materials such as ventilators and face masks. Given the fear around the nationalisation of industry and the spread of socialism in the US, the rhetoric of war might be a strategy to persuade the sceptical in the political class that the State must intervene in the economy.
We are not at War and We Should Stop Using the War Rhetoric
While the war rhetoric is effective to communicate urgency and implement special measures, we are not at war. The coronavirus is not an enemy. It is a parasitic agent that attaches to living organisms to generate new viral particles. There is no war to be waged against such a thing, and we should consider carefully before continuing to use the war rhetoric.
The first reason why we should stop using the rhetoric of war is that it fuels hatred, antagonism, and nationalism. For example, tapping into the war mentality, US President Trump antagonised China when he labelled the coronavirus “the Chinese virus.” We are also witnessing the mushrooming of conspiracy theories that incite mistrust. Furthermore, cases of racism towards Asians in the West are also testament of the divisive attitude brought by the war rhetoric.
Secondly, the rhetoric of war breeds and legitimises authoritarianism. Fear is a tool of control. Frightened people are more likely to accept exceptional measures and limitations to their freedoms. For example, in Hungary, Prime Minister Viktor Orbán has used emergency powers to extend his rule indefinitely. Several states around the world are implementing curfews with an increased deployment of police in the streets and ensuing police brutality. China is rolling out a new surveillance system that tells people when they should quarantine. Germany is developing an app that uses geolocation to do contact tracing. We will soon be confronted with the implications of this enhanced surveillance.
Third, as the war on terror taught us, a war with an elusive enemy is an endless war. A war against the coronavirus begs the question of how far are we willing to go to win, what counts as victory, and what are we ready to relinquish to win. After 9/11, the US introduced The Patriot Act which stripped Americans of many civil rights and freedoms in the name of security. The elusive enemy of war on terror has bred widespread wars in the Middle East and justified authoritarian measures in other parts of the world. There are lessons to be learnt from the post-9/11 rush to the war rhetoric that are instructive to avoid repeating another two decades of global violence.
Finally, the language of war authorises war behaviours and psychology. We are living in anxious times: people fear disease and death; many have lost their job and their business; we are keeping physically away from each other; services including mental health facilities and abortion clinics are closed; and we are watching the news as if it were the scariest TV series. When we embellish all of this with the language of war either to compel obedience or to give ourselves a boost of excitement, we also justify and encourage the fight or flight mentality and muscular, selfish behaviours such as hoarding toilet paper, face masks, hand sanitiser, and even guns.
Rhetorical Revelations
An analysis of the use of the war rhetoric during the coronavirus pandemic brings two revelations.
First, the rhetoric of a war against the coronavirus externalises responsibilities for the fact that our system is ill-equipped to protect people. For minority groups and poor people this is not news. But for the middle class and wealthy white people it is. The coronavirus is magnifying the deficiencies of our political, social, and economic system. It is forcing on us some of the questions that have long been at the fringes of leftist activism such as unemployment, prisons’ overpopulation, access to health care, mutual aid and community support, and funding for the arts. These were questions that before affected mostly minority groups and the poorer segments of society. Now, they affect most of us.
A case in point of how the war rhetoric externalises responsibilities is the crisis that the health system is facing today. We are speaking of medical workers as soldiers and of hospitals as battlefields. This conceals that the present crisis is mostly the product of our trust in neoliberal economic logics and in technological progress.
The coronavirus pandemic is revealing that our hospitals are highly technological but cannot accommodate large numbers of sick people. Since the 1980s, the development of medical technology and treatments for diseases that previously kept patients in hospitals, prompted a reduction in hospital beds. Empty beds are not cost-efficient. And even if now we can source beds from hotels and private hospitals, we still face the problem of the shortage of medical equipment such as face masks and hand sanitiser. The political economy of these shortages is rather common: many countries in the West have outsourced the production of medical equipment such as face masks and ventilators to reduce costs (the political economy of ventilators in the US is even more disturbing). It is no surprise that China, the largest world producer of face masks, is keeping them in the country to protect its own people and medical workers in the face of its own pandemic challenges.
The language of war conceals that the economic model on which we run hospitals and health care is deficient, if not sick. It implies instead that it is under attack by an external enemy. Viruses are an occurrence of life, they are not enemies. We can speculate that the coronavirus is here to stay, that it can come back, or than another virus like it will eventually emerge. We cannot declare a war every time. We must be prepared with policies and equipment such that life does not have to stop every time. The recognition that our health system is diseased from the capitalist logics of efficiency, cost reduction, and profit maximisation is the starting point to build resilient hospitals and medical workforce. Health workers should not be considered frontline soldiers. Life is not a battle.
The language of war devolves our own responsibilities further through discourse around the need to protect the vulnerable. We know that the coronavirus is more likely to kill the vulnerable. The elderly immediately come to mind. Initially, this information inspired the confidence that we could have kept running business as usual if we avoided contact with the vulnerable. This was the early strategy of the UK, for example. Soon we have realised that the extent of the category of the vulnerable is much larger than we could have ever imagined. Emerging data reveal that the vulnerable to the coronavirus also include those with weak immune systems, those suffering from hypertension, diabetes, cardiac ischemia, and chronic renal and lung conditions. We have been confronted with the fact that conditions such as diabetes, obesity, and depression, which are widespread in today’s world but are generally not considered life-threatening, make us vulnerable to death when compounded with a disease such as that caused by the coronavirus.
There is a connection between poor health and socio-economic conditions. Most cases of vulnerability are bred by social policies, which means that the coronavirus will hit some communities harder than others. For example, in Australia, this disparity is revealed by the health directives which indicate that while the cut-off of vulnerability for non-Indigenous Australians is 60 years old for those with pre-existing conditions, and 70 for those without, it is 50 for First Nations people. As Chelsea Bond explains, poor health in Aboriginal communities is the product of 200 years of neglect. While the health agenda focused on finding cures for diseases that were endemic in Europe and that were affecting the settlers, Indigenous people were denied access to medical treatment and control over their health agenda.
The rhetoric of war against the coronavirus puts the blame for sickness and death onto an external invisible enemy, while masking that in fact our current political and economic system is at the basis of many of the health conditions that make us vulnerable to this virus. The number of those vulnerable to the coronavirus due to underlying conditions suggests that the health agenda has failed us because of the politics of class, race, and sexuality. We are not at war with an invisible enemy, the head and lymph of our health system is sick.
The second revelation is that we are ill-equipped to deal with death. Charles Einstein suggests that we are not at war with the virus, we are at war with death. The triumph over death has been considered to be the ultimate sign of civilisation. Medical technologies that make us live longer are heralded as symbol of progress and make us believe that we have control over death. The coronavirus is challenging our triumph over death and we are fighting to reclaim it.
We are in denial of death and we cannot accept it as part of life. We are so possessed by the belief that we have to defeat death that when it presents itself, we do anything we can to avoid it, even if the price is human life itself.
This pandemic has presented us with death. To avoid it, we are asked to forgo human contact: no handshakes, no hugs, no sex, no gatherings, and no public life. We are living secluded in our homes, desperately attempting to make technology a viable substitute for our previous life. We Facetime our friends and family, use Zoom to teach, learn, and exercise, and invent new ways to date remotely. This works enough to avoid total isolation, but not to sustain human life in the long term. Indeed, this is a small and temporary price to pay to save lives. But how long can this go on? And what are the implications of this lifestyle? As hospitals prepare themselves for the worse, we are facing a surge of isolation, depression, domestic abuse, and alcoholism, all problems that we have to live with to avoid death.
The coronavirus is shaking the ground of our civilizational triumph over death. To be sure, people die every day and they died even before the coronavirus. Many people die of preventable diseases, domestic and intimate partner violence, and of hunger. While there are organisations, campaigns, and activities of mutual aid that operate every day to save lives, there are also structures of power that cause, benefit, or cannot care for the many who die of preventable death. This pandemic is begging the question of whose life matter – once again.
Coronavirus deaths were unforeseen and are threatening the legitimacy and efficacy of our structures of power. They are putting people out of work, affecting oil price, changing patterns of capitalist consumption, and prompting government to subsidise citizens and workers around the world. They are undermining confidence in the robustness of the medical, social, economic, and political system. This is why we cannot be in denial of coronavirus deaths like we are for other types of deaths caused by power imbalances and structural inequality.
A critical look at death worldwide reveals that many die from perverse operations of power. But we are all dying from these power imbalances. We can see this if we consider the bigger picture of the unfolding climate disaster. We are all slowing but surely dying. Life in the Pacific Islands is under serious and immediate threat from raising sea levels. Australia has witnessed a long and unprecedented summer of bushfires that is likely to come back. Draughts and famine are threating life in many African states. Levels of pollution and industrial urbanisation in Asia are alarming. The fluctuating temperature of the last few winters in Europe are affecting summer crop production. Scientists keep predicting how many years human life on Earth can continue as is unless we reverse the trends, 20, 30, 13, 50 years. And yet, we remain in denial of our own mortality.
The rhetoric of war about the coronavirus reveals that despite (or possibly because of) the scientific progress that we have made, we are clinging onto anything that keeps life going, no matter what kind of life. And with the war rhetoric in place, if we die, at least we die heroically, as if in war. Our rejection of death is making us blind to the question about what kind of life is worth living and what is worth living for.
Like war, the coronavirus pandemic is a collective trauma. The ways in which we have dealt with war traumas have instantiated various forms of structural violence: nationalism, state borders, toxic (militaristic) masculinity, muscular politics, economic competition, expansionism, and settler colonialism. And this is another reason why we must avoid the language of war to describe the coronavirus pandemic, for we don’t want another collective trauma to turn into an opportunity to instantiate more structural violence. In the face of collective trauma, Emma Hutchison invites us to consider the politics of grief to reshape our sense of collectivity. This demands that we name and face our injuries, negative emotions, and their sources as a way of integrating the experience in our narratives of communal life and adapt accordingly. Through the politics of grief, we do not re-enact the past over and over again; we empower ourselves to write a different future. We need to come to terms with the limitations of our systems of politics, economy, society, and beliefs that the coronavirus pandemic is showing us. These limitations are the source of our collective trauma and the items that we need to address to grieve and integrate the traumatic experience of this pandemic.
Modern day internet wisdom suggests that
If you are in conflict with someone and they are unaware, then you are in conflict within yourself.
This quote captures our so-called war with the coronavirus. We are not at war against the virus. As Annamaria Testa remarks, we cannot be at war with the coronavirus because it is not an enemy. It does not hate us and does not want our destruction. The virus is not even aware of us, and knows nothing of us or of itself.
Instead, we are at war with ourselves and the systems that we have created. We hate that the virus is stripping naked in front us the limitations of our systems, political, economic, social, and of beliefs. We hate that our health system cannot save us as we wanted and expected. We hate that, after all, screen time is not a very good substitute for human touch and company. We hate that once again we have to trust untrustworthy politicians to get us through this. We hate that the dreams that we built on the shaky grounds of our sick systems are becoming perverse fantasies. We hate that we have to relinquish again our freedoms and liberties for the fantasy of security. We hate to feel that the ground under our feet is crumbling fast and inexorably. If anything, we are at war with ourselves, just like a cancer patient might be at war with their own cancer.
But the language of war is no good either for the cancer patient or for the demise of the Anthropocene. This is not a war. This is a lesson and an opportunity to change ourselves and our systems and structures. The virus made visible the deficiencies of the status quo. It has made us hit pause. And it is demanding that we make changes. Going back to “normal” is going back to the same system that led us here. And this “new normal” of shelter-in-place, no human contact, and enhanced digital and police surveillance is a perverse fantasy of safety.
Leading US biologist Thomas Lovejoy says to stop future outbreaks we need more respect for natural world
Caged civet cats in a wildlife market in Guangzhou, China. Photograph: Liu Dawei/AP
Phoebe Weston – Published on Sat 25 Apr 2020 06.00 BST
The vast illegal wildlife trade and humanity’s excessive intrusion into nature is to blame for the coronavirus pandemic, according to a leading US scientist who says “this is not nature’s revenge, we did it to ourselves”.
Scientists are discovering two to four new viruses are created every year as a result of human infringement on the natural world, and any one of those could turn into a pandemic, according to Thomas Lovejoy, who coined the term “biological diversity” in 1980 and is often referred to as the godfather of biodiversity.
“This pandemic is the consequence of our persistent and excessive intrusion in nature and the vast illegal wildlife trade, and in particular, the wildlife markets, the wet markets, of south Asia and bush meat markets of Africa… It’s pretty obvious, it was just a matter of time before something like this was going to happen,” said Lovejoy, a senior fellow at the United Nations Foundation and professor of environment science at George Mason University.
His comments were made to mark the release of a report by the Center for American Progress arguing that the US should step up efforts to combat the wildlife trade to help confront pandemics.
Wet markets are traditional markets selling live animals (farmed and wild) as well as fresh fruit, vegetables and fish, often in unhygienic conditions. They are found all over Africa and Asia, providing sustenance for hundreds of millions of people. The wet market in Wuhan believed to be the source of Covid-19 contained a number of wild animals, including foxes, rats, squirrels, wolf pups and salamanders.
Lovejoy said separating wild animals from farmed animals in markets would significantly lower the risk of disease transmission. This is because there would be fewer new species for viruses to latch on to. “[Domesticated animals] can acquire these viruses, but if that’s all there was in the market, it would really lower the probability of a leak from a wild animal to a domesticated animal.”
He told the Guardian: “The name of the game is reducing certain amounts of activity so the probability of that kind of leap becomes small enough that it’s inconsequential. The big difficulty is that if you just shut them down – which in many ways would be the ideal thing – they will be topped up with black markets, and that’s even harder to deal with because it’s clandestine.”
The pandemic will cost the global economy $1tn this year, according to the World Economic Forum, with vulnerable communities impacted the most, and nearly half of all jobs in Africa could be lost. “This is not nature’s revenge, we did it to ourselves. The solution is to have a much more respectful approach to nature, which includes dealing with climate change and all the rest,” Lovejoy said.
Experts are divided about how to regulate the vast trade in animals, with many concerned the poorest are most at risk from a crackdown. Urgent action on the wildlife trade is clearly needed, said Dr Amy Dickman, a conservation biologist from the University of Oxford, but she was “alarmed” by calls for indiscriminate bans on the wildlife trade.
She is one of more than 250 signatories of an open letter to the World Health Organization and United Nations Environment Programme saying any transition must contribute to – and not detract from – the livelihoods of the world’s most vulnerable people, many of whom depend on wild resources for survival. Other signatories include representatives from the African Wildlife Foundation, the Frankfurt Zoological Society and IUCN (International Union for Conservation of Nature).
The letter reads: “Covid-19 is inflicting unprecedented social and economic costs on countries and communities, with the poor and vulnerable hardest hit. The virus’s suspected links with a Chinese ‘wet market’ has led to calls to ban wet markets and restrict or end the trade, medicinal use and consumption of wildlife. However, indiscriminate bans and restrictions risk being inequitable and ineffective.”
Scientists and NGOs are concerned that over-simplistic and indiscriminate restrictions will exacerbate poverty and inequality, resulting in an increase in criminality. This could accelerate the exploitation and extinction of species in the wild, authors of the letter warn.
“People often seem more willing to point the finger at markets far away, as bans there will not affect their everyday lives – although they will often affect the rights of extremely vulnerable people,” said Dickman.
There are also concerns about the impacts of an outright ban on a number of indigenous populations, such as tribes in Orinoquia and Amazonia, with representatives describing it as an “attack” on their livelihoods.
Mama Mouamfon, who is based in Cameroon and directs an NGO called Fondation Camerounaise de la Terre Vivante (FCTV), said banning the trade would damage livelihoods: “Bush meat is very important for people in the forest because it’s one of the best ways to get animal protein. With this issue of poverty and people living in remote areas, it’s not easy for them to look for good meat,” he said.
“Sometimes people take decisions because they are sitting in an office and are very far from reality. If they knew our reality they would not take that [same] decision.”
Throughout the Covid crisis, the use of the war metaphor, as means of persuasion and matrix of explanation, has become pervasive in politics and the popular media.
Both practices have been able to make use of such rhetoric because the discourse on war, attrition and the destruction of enemies is so deeply embedded in the structure of public discourse, from ubiquitous and seemingly benign tropes valorising competition, to the outright eulogising of violence as the natural mediator between individuals, groups, classes, ethnicities, cultures, and nation-states.
Moreover, it seems entirely plausible to extend the metaphor of war and struggle to our relation with the natural world, enabling a discourse in which natural processes, set in motion by bio-molecular mechanisms, are capable of being mastered by science.
Science just is, from this perspective, a series of feed-back loops in which the accumulation of knowledge and experimental know-how leads to mastery over nature and mastery over nature leads to more knowledge and know how, ad infinitum.
This is a version of the Baconian trope in which nature is put to the wrack and interrogated for it’s secrets but one in which cybernetics, systems theory and big data allow for an expansion of the field of knowable objects to include the system of the interrogator and his acts of interrogation.
Defeated, abased, nature must yield.
In this war on nature, in which the war on Coronavirus is but one “theatre of operations”, the techno-scientific industrialised exploitation and extermination of non-human and human animals is it’s quintessential modus operandi.
What is good and true for science just is, necessarily, good and true for the human as such. But human here is an image abstracted from and other than the human-animal and it’s symbiotic connection with the ecology of living entities. It is, rather, an excess of the human animal carried over after an operation in which experience is subsumed under a system of bifurcations. This excess is an illusory mode of transcendence.
…
The Covid crisis is most probably a dry run for what awaits us down the road as the climate crisis intensifies.
During the unfolding of the pandemic, it was notable that scientists and doctors remained, for the most part, wary of presumption in the face of the unknown, choosing to concentrate instead on the behaviour of the virus in particular human environments before attempting generalised pronouncements.
Grounded in observation, this was good science, a science in which anthropomorphic presumptions played only a small part. It was made possible by wide-scale testing and the correlation and analysis of data on the actual unfolding of the pandemic, which, for all science knew, could have included the annihilation of the species.
Here, for all to see, was an example of the difference between the actual practice of science, always localised contingent and rather anarchic in it’s evolution, and the ideology of mastery, control and expertise; an ideology enabled on a philosophical structure in which the real is bifurcated, producing a thought-complex of human subject-agents and a field of objects and processes subjected to a regime of mastery.
One productive way of looking at the ideology of mastery is as the explicit expression of an implicit or philosophically esoteric sufficiency in which science becomes the arbitrator of what is known and knowable and what is known and knowable just is scientific, in all but name.
Science, taken up into the ideology of mastery, arbitrarily sets it’s compass and draws, godlike, the arc of the world.
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As with Covid, the evolution of the climate crisis will most probably unfold unevenly across geographical regions as a series of local emergencies, each set on its own trajectory by the generation and replication of feedback loops in which human agency is only one strand in a complex of becomings.
As with Covid this “dance of agency” between human and non human entities will unfold inclusive of the decisions, actions and reactions of the presumed primary actors – those who are supposed to exercise control over outcomes by “managing” the crisis on our behalf.
The ideology of management and eventual mastery is a doubling in thought of the always and already immanent unfolding of the real, inclusive of the subject-object dichotomy which enables the illusion of transcendent knowing and techno-mastery.
Such a real never enters into the realm of the scientific or philosophical subject and it’s field of knowable objects and systems of objects.
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Recent climate discourse has taken on board talk of the “Anthropocene” as evidence for the emergence of an epoch of human dominance over nature in which the human “footprint” is literally inscribed on geological strata.
The inscription of the human onto planetary geology is often accompanied by speculations about an acceleration in human technological prowess leading to a “singularity” at some time in the near future; at which point technological civilization will make a qualitative leap, establishing the dominance of the human over the planetary system and it’s myriad life forms as an accomplished fact.
Thus, a positivist rhetoric of acceleration, mastery and control sees the human take charge of the contingent, variable and complex earth-system to impose a consciously interested anthropomorphic regime on what is perceived as a complex of “mechanical” and therefore “manageable” processes.
Such rhetoric almost always includes a naturalization of capitalism in which acceleration is a spontaneous result of the free reign of market forces, an unruly energy domesticated by a corporate or state structure, more often than not presided over by a charismatic individual.
Under such a scenario democracy is optional at best, at worst a hindrance to the generation of what is conceived as the proper management and eventual mastery of the eco/social system.
It is still unclear how such a planetary wide consensus among ruling elites could be achieved, taking into account the resurgence of the ideology of the nation state and the discrediting of the idea of inter-state unions, international bodies and structures of trans-national governance.
The Covid crisis has intensified the contradiction between a strong version of nation-statehood and a neo-liberal valorisation of free markets, deregulation, free flow of labour and capital, international supply chains and minimal state interference.
The axioms of neo-liberal ideological orthodoxy have been, almost universally, unceremoniously abandoned, if only for the present.
More importantly Covid has driven an even bigger wedge between liberal, democratic and rights based ideologies of reform, “new deal” regeneration and green transition and the more authoritarian forms of “new nationalism”.
As we emerge from the first phase of the pandemic, the struggle between these two tendencies will probably intensify. Already, international bodies such as the U.N are aligning themselves with those who see the transition from lock-down as an opportunity to establish the structural changes necessary for a more ecologically sustainable economy.
Capitalism has, of course, always had to negotiate a balance between the model advocating for a strong public sector, fiscal and regulatory intervention, forward planning and a welfare state and the neo-liberal free market, anti-state and anti-regulatory model we have endured for the last thirty years.
In reality this ideological difference masks periodic shifts from one one extreme to the other as cycles of boom and bust override ideological preferences. Both the climate crisis and the Covid pandemic underscore the limitations of all existing capitalist models to adequately account for the real cost of the consumption driven economy.
The real cost has always been borne by the human and non human animal, that is by the ecological community of life forms.
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As the pandemic has made clear, even something as unvarying in its constitution as a virus will have varied consequences as it interacts with local economies, social systems and cultures.
This “uneven development” is equally applicable to the spread of capital, which must negotiate local conditions as it expands and contracts, mutates and recalibrates according to the complex of human affordances of which it is a particular expression.
This network of relation extends beyond the economic, the social and the cultural and includes, ultimately, all of the extended complexities of the planetary eco-system. As a species we are dependent on a complex of ecological checks and balances all of which have been progressively undermined by human activity.
At a more fundamental level we are subject to entirely arbitrary events beyond our present understanding and indifferent to our interests.
The ideology of techno-mastery, management and expertise is based on a vision of control over the variable and the contingent. This fallacy is exposed time and again, even within the supposed confines of the social and economic system. Indeed, it is this very act of conceptual enclosure which makes possible the belief in some future state of absolute control over the social/ecological/planetary system.
Paradoxically, this very ideology of control, more often than not, acts as a top-down hindrance to the bottom-up exercise of a plurality of collective and individual responses. It is out of this anarchic mech of knowings and doings that forms of relative control arise as a collective orientation around workable solutions.
In a network of contingencies, in which our own agency forms only one strand in a myriad of becomings, it is this diversity of response which enables the sort of open-ended social, political, administrative and scientific plasticity necessary for our continued existence as a species.
The ideology of mastery, management and control, despite it’s claim to have transcended the particular and the local, is itself enabled on contingent processes and diverse responses. It’s claim is a reworking of the religious impulse on the secular plane, in which knowing has ascended to a level of sufficiency akin to godlike omniscience.
It’s undoing, likewise, will most likely proceed from the ground up, inclusive of the political, ethical and philosophical practices of those who consciously set themselves against the existing state of the situation.
This, of course, excludes the possibility of sheer bad luck and the unfolding of an unexpected disaster, against which our life would be seen to have been bracketed as a moment of contingent grace.
The struggle against Covid could have been our swan song. That possibility is the simple and absolute refutation of the theory and practice (the ideology) of mastery.
Addendum:
I use the term animal, human animal, becoming and the real interchangeably, as free floating placeholders, in the spirit expressed below by Deleuze and Guattari:
“Becoming is certainly not imitating, or identifying with something; neither is it regressing-progressing; neither is it corresponding, establishing corresponding relations; neither is it producing, producing a filiation or producing through filiation. Becoming is a verb with a consistency all its own; it does not reduce to, or lead back to, “appearing,” “being,” “equaling,” or “producing.””
This puts the series of terms in some sort of relation with Laruelle’s use of “The Real” or “Man-in-person” and distinguishes it from the forms of empirical knowledge which are taken up into ecological or systems theorising of a strictly scientific nature or into loose scientific/philosophical combinations.
Perda total ou em parte da renda mensal já atingiu 40% dos brasileiros. Foto: AFP.
Pesquisa da CNI mostra que a maioria da população brasileira continua favorável ao isolamento social, apesar das possíveis perdas econômicas
Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta quinta-feira 07, mostra que a perda do poder de compra já atingiu quatro em cada dez brasileiros desde o início da pandemia. Do total de entrevistados, 23% perderam totalmente a renda e 17% tiveram redução no ganho mensal, atingindo o percentual de 40%.
Quase metade dos trabalhadores (48%) tem medo grande de perder o emprego. Somado ao percentual daqueles que têm medo médio (19%) ou pequeno (10%), o índice chega a 77% de pessoas que estão no mercado de trabalho e têm medo de perder o emprego. De modo geral, nove em cada dez entrevistados consideram grandes os impactos da pandemia de coronavírus na economia brasileira.
A pesquisa mostra também que o impacto na renda e o medo do desemprego levaram 77% dos consumidores a reduzir, durante o período de isolamento social, o consumo de pelo menos um de 15 produtos testados. Ou seja, de cada quatro brasileiros, três reduziram seus gastos. Apenas 23% dos entrevistados não reduziram em nada suas compras, na comparação com o hábito anterior ao período da pandemia.
Questionada sobre como pretende se comportar no futuro, a maioria dos brasileiros planeja manter no período pós-pandemia o nível de consumo adotado durante o isolamento, sendo que os percentuais variam de 50% a 72% dos entrevistados, dependendo do produto. Essa tendência, segundo a CNI, pode indicar que as pessoas não estão dispostas a retomar o mesmo patamar de compras que tinham antes.
Apenas 1% dos entrevistados respondeu que vai aumentar o consumo de todos os 15 itens testados pela pesquisa após o fim do isolamento social. Para 46%, a pretensão é aumentar o consumo de até cinco produtos; 8% vão aumentar o consumo de seis a dez produtos; e 2% de 11 a 14 produtos. Para 44% dos entrevistados, não haverá aumento no consumo de nenhum dos itens.
Isolamento social
Os dados revelam que a população brasileira continua favorável ao isolamento social (86%), apesar das possíveis perdas econômicas, e quase todo mundo (93%) mudou sua rotina durante o período de isolamento, em diferentes graus.
No cenário pós-pandemia, três em cada dez brasileiros falam em voltar a uma rotina igual à que tinham antes. Em relação ao retorno para o trabalho depois de terminado o isolamento social, 43% dos trabalhadores formais e informais afirmaram que se sentem seguros, enquanto 39% se dizem mais ou menos seguros e 18%, inseguros.
“As atenções dos governos, das empresas e da sociedade devem estar voltadas, prioritariamente, para preservar vidas. Entretanto, é crucial que nos preocupemos também com a sobrevivência das empresas e com a manutenção dos empregos. É preciso estabelecer uma estratégia consistente para que, no momento oportuno, seja possível promover uma retomada segura e gradativa das atividades empresariais”, disse o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.
A maior parte dos entrevistados (96%) considera importante que as empresas adotem medidas de segurança, como a distribuição de máscaras e a adoção de uma distância mínima entre os colaboradores. Para 82% dos trabalhadores, essas medidas serão eficientes para proteger os empregados.
Dívidas
Um dado apontado pela pesquisa e considerado preocupante pela CNI é o endividamento, que atinge mais da metade da população (53%). O percentual é a soma dos 38% que já estavam endividados antes da pandemia e os 15% que contraíram dívidas nos últimos 40 dias, período que coincide com o começo do isolamento social.
Entre aqueles que têm dívida, 40% afirmam que já estão com algum pagamento em atraso em alguma dessas dívidas. A maioria dos endividados em atraso (57%) passou a atrasar suas parcelas nos últimos 40 dias, ou seja, período que coincide com o isolamento social.
O levantamento, realizado pelo Instituto FSB Pesquisa, contou com 2.005 entrevistados, a partir de 16 anos, de todas as unidades da Federação, entre os dias 2 e 4 de maio e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Democrats are seeking to raise benefits as research shows a rise in food insecurity without modern precedent amid the pandemic. But Republicans have balked at a long-term expansion of the program.
Credit…Bryan Anselm for The New York Times
WASHINGTON — As a padlocked economy leaves millions of Americans without paychecks, lines outside food banks have stretched for miles, prompting some of the overwhelmed charities to seek help from the National Guard.
New research shows a rise in food insecurity without modern precedent. Among mothers with young children, nearly one-fifth say their children are not getting enough to eat, according to a survey by the Brookings Institution, a rate three times as high as in 2008, during the worst of the Great Recession.
The reality of so many Americans running out of food is an alarming reminder of the economic hardship the pandemic has inflicted. But despite their support for spending trillions on other programs to mitigate those hardships, Republicans have balked at a long-term expansion of food stamps — a core feature of the safety net that once enjoyed broad support but is now a source of a highly partisan divide.
Democrats want to raise food stamp benefits by 15 percent for the duration of the economic crisis, arguing that a similar move during the Great Recession reduced hunger and helped the economy. But Republicans have fought for years to shrink the program, saying that the earlier liberalization led to enduring caseload growth and a backdoor expansion of the welfare state.
For President Trump, a personal rivalry may also be in play: In his State of the Union address in February, he boasted that falling caseloads showed him besting his predecessor, Barack Obama, whom Newt Gingrich, the former Republican House speaker, had derided as “the food stamp president.” Even as the pandemic unfolded, the Trump administration tried to push forward with new work rules projected to remove more people from aid.
Mr. Trump and his congressional allies have agreed to only a short-term increase in food stamp benefits that omits the poorest recipients, including five million children. Those calling for a broader increase say Congress has spent an unprecedented amount on programs invented on the fly while rejecting a proven way to keep hungry people fed.
“This program is the single most powerful anti-hunger tool that we have and one of the most important economic development tools,” said Kate Maehr, the head of the Chicago food bank. “Not to use it when we have so many people who are in such great need is heartbreaking. This is not a war that charity can win.”
The debate in Congress is about the size of benefits, not the numbers on the rolls. The Supplemental Nutrition Assistance Program, or SNAP, as food stamps are also known, expands automatically to accommodate need.
“SNAP is working, SNAP will increase,” said Representative K. Michael Conaway of Texas, the top Republican on the House Agriculture Committee, which oversees the program. “Anyone who qualifies is going to get those benefits. We do not need new legislation.”
Mr. Conaway noted that Republicans have supported huge spending on other programs to temper the economic distress, and increased benefits for some SNAP recipients (for the duration of the health emergency, not the economic downturn). Democrats, he said, want to leverage the pandemic into a permanent food stamp expansion.
Credit…Erin Schaff/The New York Times
“I’m a little bit jaded,” he said. “The last time we did this, those changes were sold as being temporary — when unemployment improved, the rolls would revert back. That didn’t happen.”
Rejecting what he called the Democrats’ narrative of “hardhearted Republicans,” he warned against tempting people to become dependent on government aid. “I don’t want to create a moral hazard for people to be on welfare.”
Food stamp supporters say the program is well suited for the crisis because it targets the poor and benefits can be easily adjusted since recipients get them on a debit card. The money gets quickly spent and supplies a basic need.
During the Great Recession, Congress increased maximum benefits by about 14 percent and let states suspend work rules. Caseloads soared. By the time the rolls peaked in 2013, nearly 20 million people had joined the program, an increase of nearly 70 percent, and one in seven Americans received food stamps, including millions with no other income.
Supporters saw a model response. The share of families suffering “very low food security” — essentially, hunger — fell after the benefit expanded (and rose once the increase expired). Analysts at the left-leaning Center on Budget and Policy Priorities, Arloc Sherman and Danilo Trisi, found that in 2012 the program lifted 10 million people out of poverty.
“This is what you want a safety net to do — expand in times of crisis,” said Diane Schanzenbach, an economist at Northwestern University.
But a backlash quickly followed, as a weak recovery and efforts to increase participation kept the rolls much higher than they had been before the recession.
Republican governors reinstated work rules for childless adults, and one of them, Sam Brownback of Kansas, succeeded in pushing three-quarters of that population from the rolls. A new conservative think tank, the Foundation for Government Accountability, said the policy “freed” the poor and urged others to follow. By the time Mr. Trump introduced his brand of conservative populism, skepticism of food stamps was part of the movement’s genome.
In a history that spans more than a half-century, the program has alternately been celebrated as “nutritional aid” and attacked as “welfare.”
Its current form dates to a 1977 compromise between two Senate lions, the liberal George McGovern and the conservative Bob Dole. But almost simultaneously Ronald Reagan added to a stream of racialized attacks on the program, invoking the image of a “strapping young buck” who used food stamps to buy steaks. As president, Reagan went on to enact large cuts.
Credit…Juan Arredondo for The New York Times
After President Bill Clinton pledged to “end welfare” in the 1990s by restricting cash aid, conservatives sought to include big cuts in food stamps, which he resisted. The law he signed subjected cash aid to time limits and work requirements but allowed similar constraints on just one group of food stamp recipients — adults without minor children, roughly 10 percent of the caseload. (Other provisions disqualified many immigrants.)
His Republican successor, George W. Bush, called himself a “compassionate conservative” and promoted food stamps — partly to help people leaving cash welfare to work — and the caseloads grew by nearly two-thirds.
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“I don’t see it as a welfare program,” said Eric M. Bost, Mr. Bush’s first food stamp administrator. “I see it as a nutritional assistance program. You can only use it to buy food.”
Food stamps remain central to the American safety net — costing much more ($60 billion) than cash aid and covering many more people (38 million). To qualify, a household must have an income of 130 percent of the poverty line or less, about $28,000 for three people. Before the pandemic, the average household had a total income of just over $10,000 and received a benefit of about $239 a month.
But Mr. Trump has done all he can to shrink the program. He sought budget cuts of 30 percent. He tried to replace part of the benefit with “Harvest Boxes” of cheaper commodities. He tried to reduce eligibility and expand work rules to a much larger share of the caseload. When Congress balked, he pursued his goals through regulations. His chief of staff, Mark Meadows, called last year for using erroneous food stamp payments to fund the border wall.
“Under the last administration, more than 10 million people were added to the food stamp rolls,” Mr. Trump said in his State of Union speech (understating the growth). “Under my administration, seven million Americans have come off food stamps.”
In December, Mr. Trump issued a rule that made it harder for states to waive work mandates in areas of high unemployment. Conservatives say liberal states have abused waivers to gut the work rules — only six of California’s 58 counties, for example, enforced the requirement at the start of the year.
“Millions of able-bodied, working-age adults continue to collect food stamps without working or even looking for work,” Mr. Trump said.
But opponents of the Trump work rule, which applies to able-bodied adults, say it will punish indigents willing to work but unable to find jobs. Before the pandemic, the administration predicted nearly 700,000 people would lose benefits. They have average cash incomes of about $367 a month.
Credit…Al Drago for The New York Times
“This rule would take a group of people who are already incredibly poor, and make them worse off,” said Stacy Dean, vice president of the Center on Budget and Policy Priorities, which favors broad access to benefits.
Even as the pandemic unfolded in mid-March, Agriculture Secretary Sonny Perdue vowed to implement the work rule on April 1 as scheduled. A federal judge halted the move, and Congress deferred the rule until the pandemic ends.
A second target of administration ire is a policy that lets states expand eligibility by waiving certain limits on income and assets. About 40 states do so, although the budget center found more than 99 percent of benefits go to households with net incomes below the poverty line ($21,700 for a family of three).
Critics of the policy — “broad-based categorical eligibility” — say it encourages abuse by allowing people with significant savings to collect benefits. The Trump administration is seeking to eliminate it and has predicted that 3.1 million people would lose benefits, 8 percent of the caseload.
The Republican distrust of food stamps has now collided with a monumental crisis. Cars outside food banks have lined up for miles in places as different as San Antonio, Pittsburgh and Miami Beach.
Among those seeking food bank help for the first time was Andrew Schuster, 22, a long-distance trucker who contracted Covid-19 and returned home to recover outside Cleveland.
Unable to get unemployment benefits as the state’s website crashed, he exhausted his $1,200 stimulus check on rent and watched his food shelves empty. He was down to ramen noodles when he learned the Second Harvest Food Bank of North Central Ohio was distributing food at his high school.
“I felt kind of embarrassed, really, because of the stigma of it,” Mr. Schuster said. But a box of milk, corn and pork loin “lifted a weight off my shoulders — I was almost in tears.”
Mr. Schuster, who voted for Mr. Trump, said that he used to think people abused food stamps, but that he may need to apply. “I never thought I would need it.”
While Mr. Schuster’s income fell, others have seen expenses rise. Jami Clinkscale of Columbus, Ohio, who lives on a disability check of $580 a month, has gone from feeding two people to six after taking in grandchildren when their mother was evicted. She feeds them on $170 of food stamps and frequents food pantries. “I’ve eaten a lot less just to make sure they get what they need,” she said.
The new research by the Brookings Institution underscores the rising need. Analyzing data from the Covid Impact Survey, a nationally representative sample, Lauren Bauer, a Brookings fellow in economic studies, found that nearly 23 percent of households said they lacked money to get enough food, compared with about 16 percent during the worst of the Great Recession. Among households with children, the share without enough food was nearly 35 percent, up from about 21 percent in the previous downturn.
When food runs short, parents often skip meals to keep children fed. But Ms. Bauer’s own survey of households with children 12 and younger found that more than 17.4 percent reported the children themselves not eating enough, compared with 5.7 percent in the Great Recession. (Her survey is called the Survey of Mothers With Young Children.) Inadequate nutrition can leave young children with permanent developmental damage.
Credit…Charlie Riedel/Associated Press
“This is alarming,” she said. “These are households cutting back on portion sizes, having kids skip meals. The numbers are much higher than I expected.”
Ms. Bauer said disruptions in school meal programs may be part of the problem, with some families unable to reach distribution sites and older siblings at home competing for limited food.
Republicans say the government is spending trillions to meet such needs. In addition to the stimulus checks, Congress has added $600 a week to jobless benefits through July and raised food stamp benefits during the pandemic for about 60 percent of the caseload, at a cost of nearly $2 billion a month. They note that Democrats have not only pushed a longer benefit increase but proposed to permanently block Mr. Trump’s work rules and asset limitations.
“This is a backdoor way to get permanent changes,” Mr. Conaway said.
Democrats say the emergency help will end before the economy recovers and mostly bypasses the neediest families, few of whom qualify for jobless benefits. About 40 percent of food stamp households — the poorest — were left out of the benefit expansion. (The increase gives all households the maximum benefit, $509 for a family of three, though the poorest 40 percent already received it.)
Prospects for a congressional deal remain unclear and may depend on horse-trading in a larger coronavirus bill. But Speaker Nancy Pelosi is adamant that it should contain a broader food stamp expansion.
“First of all, it’s a moral thing to do,” she said in an interview with MSNBC. “Second of all, the people need it. And third of all, it’s a stimulus to the economy.”
Claudio Maierovitch Pessanha Henriques – 6 de maio de 2020
Desde o início da epidemia de doença causada pelo novo coronavírus (Covid-19), a grande pergunta tem sido “quando acaba?” Frequentemente, são divulgadas na mídia e nas redes sociais projeções as mais variadas sobre a famosa curva da doença em vários países e no mundo, algumas recentes, mostrando a tendência de que os casos deixem de surgir no início do segundo semestre deste ano.
Tais modelos partem do pressuposto de que há uma história, uma curva natural da doença, que começa, sobe, atinge um pico e começa a cair. Vamos analisar o sentido de tal raciocínio. Muitas doenças transmissíveis agudas, quando atingem uma população nova, expandem-se rapidamente, numa velocidade que depende de seu chamado número reprodutivo básico, ou R0 (“R zero”, que estima para quantas pessoas o portador de um agente infeccioso o transmite).
Quando uma quantidade grande de pessoas tiver adoecido ou se infectado mesmo sem sintomas, os contatos entre portadores e pessoas que não tiveram a doença começam a se tornar raros. Num cenário em que pessoas sobreviventes da infecção fiquem imunes àquele agente, sua proporção cresce e a transmissão se torna cada vez mais rara. Assim, a curva, que vinha subindo, fica horizontal e começa a cair, podendo até mesmo chegar a zero, situação em que o agente deixa de circular.
Em populações grandes, é muito raro que uma doença seja completamente eliminada desta forma, por isso a incidência cresce novamente de tempos em tempos. Quando a quantidade de pessoas que não se infectaram, somada à dos bebês que nascem e pessoas sem imunidade que vieram de outros lugares é suficientemente grande, então a curva sobe novamente.
É assim, de forma simplificada, que a ciência entende a ocorrência periódica de epidemias de doenças infecciosas agudas. A história nos ilustra com numerosos exemplos, como varíola, sarampo, gripe, rubéola, poliomielite, caxumba, entre muitos outros. Dependendo das características da doença e da sociedade, são ciclos ilustrados por sofrimento, sequelas e mortes. Realmente, nesses casos, é possível estimar a duração das epidemias e, em alguns casos, até mesmo prever as próximas.
A saúde pública tem diversas ferramentas para interferir em muitos desses casos, indicados para diferentes mecanismos de transmissão, como saneamento, medidas de higiene, isolamento, combate a vetores, uso de preservativos, extinção de fontes de contaminação, vacinas e tratamentos capazes de eliminar os microrganismos. A vacinação, ação específica de saúde considerada mais efetiva, simula o que acontece naturalmente, ao aumentar a quantidade de pessoas imunes na população até que a doença deixe de circular, sem que para isso pessoas precisem adoecer.
No caso da Covid-19, há estimativas de que para a doença deixar de circular intensamente será preciso que cerca de 70% da população seja infectada. Isso se chama imunidade coletiva (também se adota a desagradável denominação “imunidade de rebanho”). Quanto à situação atual de disseminação do coronavírus Sars-CoV-2, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que até a metade de abril apenas de 2% a 3% da população mundial terá sido infectada. Estimativas para o Brasil são um pouco inferiores a essa média.
Trocando em miúdos, para que a doença atinja naturalmente seu pico no país e comece a cair, será preciso esperar que 140 milhões de pessoas se infectem. A mais conservadora (menor) taxa de letalidade encontrada nas publicações sobre a Covid-19 é de 0,36%, mais ou menos um vigésimo daquela que os números oficiais de casos e mortes revelam. Isso significa que até o Brasil atingir o pico, contaremos 500 mil mortes se o sistema de saúde não ultrapassar seus limites —e, caso isso aconteça, um número muito maior.
Atingir o pico é sinônimo de catástrofe, não é uma aposta admissível, sobretudo quando constatamos que já está esgotada a capacidade de atendimento hospitalar em várias cidades, como Manaus, Rio de Janeiro e Fortaleza —outras seguem o mesmo caminho.
A única perspectiva aceitável é evitar o pico, e a única forma de fazê-lo é com medidas rigorosas de afastamento físico. A cota de contatos entre as pessoas deve ficar reservada às atividades essenciais, entre elas saúde, segurança, cadeias de suprimento de combustíveis, alimentos, produtos de limpeza, materiais e equipamentos de uso em saúde, limpeza, manutenção e mais um ou outro setor. Alguma dose de criatividade pode permitir ampliar um pouco esse leque, desde que os meios de transporte e vias públicas permaneçam vazios o suficiente para que seja mantida a distância mínima entre as pessoas.
O monitoramento do número de casos e mortes, que revela a transmissão com duas a três semanas de defasagem, deverá ser aprimorado e utilizado em conjunto com estudos baseados em testes laboratoriais para indicar o rigor das medidas de isolamento.
Se conseguirmos evitar a tragédia maior, vamos conviver com um longo período de restrição de atividades, mais de um ano, e teremos que aprender a organizar a vida e a economia de outras formas, além de passar por alguns períodos de “lockdown” —cerca de duas semanas cada, se a curva apontar novamente para o pico.
Hoje, a situação é grave e tende a se tornar crítica. O Brasil é o país com a maior taxa de transmissão da doença; é hora de ficar em casa e, se for imprescindível sair, fazer da máscara uma parte inseparável da vestimenta e manter rigorosamente todos os cuidados indicados.
Há uma postagem circulando no Facebook que conta a seguinte história: certa vez alguém perguntou à famosa antropóloga norte-americana Margaret Mead o que ela considerava a primeira evidência da civilização humana. Esse era um debate acalorado em meados do século 20 na antropologia. Alguns autores diziam que a marca de surgimento da civilização era o surgimento da linguagem simbólica (a capacidade do uso de metáforas, por exemplo). Outros diziam que o ponto inicial era o surgimento da percepção de que algumas formas de comportamento – como o incesto – eram inaceitáveis. Outros, a invenção de ferramentas de caça. Outros ainda, a criação de artefatos religiosos. A resposta de Margaret Mead foi surpreendente: ela disse que o início da humanidade estava representado em um fêmur, encontrado em um sítio arqueológico datado em 15 mil anos. O referido osso possuía marca de uma fratura que havia sido curada (esta história está narrada no livro The Best Care Possible: A Physician’s Quest to Transform Care Through the End of Life, Avery, 2012).
A explicação de Mead era a seguinte: nenhum animal, em condições selvagens, é capaz de sobreviver com um osso de fêmur fraturado. Tal animal seria morto por outro animal, ou por provável infecção, antes de que o osso pudesse se refazer. Desta forma, a existência de um fêmur de 15 mil anos curado significa que o indivíduo a quem o osso pertenceu foi ajudado por seus pares, que dele cuidaram, protegeram, e forneceram alimento por um período longo de tempo, de modo que a calcificação do osso fosse possível. O argumento de Mead era, desta forma, que a marca que define a civilização humana é o cuidado para com os que estão doentes ou em situação de vulnerabilidade. Ser humano é ter empatia para com seus pares.
Ocorre, no entanto, que o caminhar da civilização ocidental – a mais materialmente rica e poderosa de toda a história da humanidade – acabou por produzir, a partir do século 19, modos de vida pautados pelo individualismo e pelo hedonismo (que é o pensamento de que a finalidade da existência humana é gozar a vida, ter prazer). Individualismo e hedonismo juntos produzem formas egoístas de entender o mundo e a vida.
Em meio à crise do COVID-19, vemos o mundo ocidental dividido entre tendências egoístas e a capacidade de ter empatia para com quem está em situação de risco. As tendências egoístas se fazem visíveis quando, por exemplo, alguém corre ao supermercado e compra todos os frascos de álcool gel disponíveis, antes que outra pessoa possa fazê-lo; ou quando a pessoa jovem pensa que, por ter altíssima probabilidade de recuperação, caso infectada, não precisa se preocupar tanto se contrai o vírus ou não. O comportamento empático se faz visível quando alguém se oferece para fazer compras para o casal de velhinhos que mora no condomínio, de modo a que estes não precisem sair de casa; ou quando o jovem, em geral saudável, fica em casa quando percebe que tem os sintomas do vírus, de modo que a atenção médica e os kits de exames para a detecção da doença sejam usados em quem realmente está em estado grave. Ou ainda quando alguém percebe que muitas crianças das escolas públicas necessitam da alimentação que ali recebem, e se ficarem em casa irão passar fome, e organiza coleta e distribuição de alimentos para as famílias de tais crianças.
Historicamente falando, as grandes epidemias têm a tendência de virar a balança para o lado da empatia (mesmo que grande parte das pessoas se mantenha em um estado de pânico egoísta). Um artigo publicado em 2018 no jornal britânico The Guardian (https://bit.ly/39Y7L2p) descreveu como a gripe espanhola que matou mais de 10 milhões de pessoas em 1918 foi importante na criação do estado de bem-estar social na Suécia, e resultou no fato de que o país, um dos mais ricos do planeta, tenha desigualdade social muito baixa. A alta mortalidade da gripe espanhola desorganizou a sociedade de tal maneira que injustiças e desigualdades que existiam mas eram invisíveis vieram à tona.
No caso do Brasil contemporâneo, podemos dizer que a crise epidemiológica pode ser entendida, dentro muitas outras coisas mais dramáticas, como um grande experimento sociológico. Ou seja, é possível observar coisas e comportamentos que, em situações mais “normais”, não seriam visíveis. Nesse experimento, podemos observar este embate entre egoísmo individualista e comportamentos empáticos. Há uma virada para o lado da empatia, ou o que caracteriza mais os comportamentos coletivos é o egoísmo individualista? Será que as pessoas que se sentem mais estimuladas a serem solidárias e comportarem-se de forma empática continuarão se comportando desta forma depois do final da crise? Ou seja, a epidemia produzirá mudanças reais na sociedade, como ocorreu na Suécia em 1918?
Outra coisa interessante que nos ajuda a entender o contexto atual em uma chave diferente é o fato de que as epidemias tiveram papéis importante na formação da civilização contemporânea. Yuval Harari menciona isso no capítulo 5 (“A maior fraude de história”) do seu livro Sapiens. As epidemias começaram a fazer parte da vida humana no momento em que as plantas e animais foram domesticados, e a maioria dos agrupamentos humanos passou a viver na mesma terra, praticando agricultura. Surgiram as cidades, ao longo da história sem conhecimento nem infraestrutura sanitária, e isso favoreceu que microrganismos que viviam de forma mais ou menos equilibrada com a ecologia local começassem a causar epidemias. Da invenção da agricultura no oriente médio até a invasão das Américas pelos europeus, passaram-se 10 mil anos. Nestes 10 mil anos, epidemias de todos os tipos avassalaram as populações da Eurásia (Europa+Ásia). Qual o resultado disso? Seleção natural: o ser humano europeu do século 15 possuía imunidade a uma grande quantidade de microrganismos para os quais as populações indígenas das Américas não era imunes. Essa é uma das razões (não a única) pela qual foi a Europa que invadiu as Américas, e não as Américas que invadiram a Europa. Mais de 90% de toda população indígena das Américas morreu nos 150 anos seguintes, quase toda em razão de epidemias trazidas pelos europeus. Há autores que sugerem que a carnificina que vitimou os povos originários foi tão intensa que, quando as florestas cresceram sobre os escombros das civilizações dizimadas, elas sequestraram tanto carbono da atmosfera que isso provocou o resfriamento do planeta (evento que ficou conhecido como pequena era do gelo medieval – ver https://bit.ly/38TeoBC).
O ponto interessante e delicado, aqui, é a ideia de que as epidemias podem ter outros efeitos sobre as populações além de simplesmente fazer com que uma parte dela morra. Aliás, essa é uma questão pouco entendida da seleção natural de Darwin: o “avanço” de uma espécie, através da adaptação a um ecossistema, depende da morte de um grande número de indivíduos. Harari coloca a questão de forma brusca, no seu livro: a evolução trabalha em favor da espécie, e não do indivíduo. Naturalmente, quase todos os esforços da humanidade desde que esta surgiu se concentraram em desativar os mecanismos da seleção natural. Se voltarmos àquele nosso ancestral de 15 mil anos, com o fêmur partido, cujo colega decidiu que, ao invés de deixar o amigo morrer e ficar com a sua comida, ele iria doar sua energia, tempo e recursos (comida, água, fogo) para que o companheiro pudesse se recuperar, veremos que, naquele exato momento, a humanidade começava a caminhar para longe da seleção natural pura e simples, em direção à empatia. Na verdade, o próprio Darwin afirmou que a empatia é qualidade humana que maximiza a sobrevivência da espécie (hoje sabemos que muitos animais também experimentam sentimentos de empatia).
Há muitas coisas interessantes a serem debatidas aqui. Uma delas é que, mesmo para que se entenda as coisas de forma científica, não se pode abordar o mundo pelo ponto de vista do umbigo dos humanos preocupados apenas com eles mesmos.
Estão todas e todos fazendo os arranjos necessários para o período difícil que começou. Uma sugestão é que, na lista de coisas a serem providenciadas, entre o álcool gel e o papel higiênico, seja inserido algo que, parece-me, é extremamente importante, mas pouca gente tem pensado nisso: é hora de resolver aquela briga que fez com que parentes estejam há tempos sem se falar; é hora de deixar o orgulho de lado e perdoar o pai, a mãe, a avó, o avô, a irmã, o irmão, o filho, a filha, amigos, vizinhos, e quem mais for, com quem houve desentendimento, não importa qual seja a causa da questão.
Não sei se as pessoas deram-se conta do que vem por aí. Vou colocar em números, e você faça a sua conta. Hoje eu tenho 2600 amizades no Facebook. Se as projeções das autoridades médicas estiverem corretas, 80% serão contaminados: 2080 amizades. Se repetirmos a história da Itália, cerca de 8% irá morrer: 166 amizades. Talvez eu tenha relação efetivamente pessoal com cerca de 1/3 deste grupo: 55 pessoas. Adicione-se a isso que a maioria das pessoas com mais de 60 anos que eu conheço não possuem conta do Facebook. Estimando de forma grosseira, talvez sejam mais umas 100 pessoas. Os dados chineses sugerem que para a faixa etária de 60 a 69 anos, a mortalidade média é 4,6%; 70 a 79, 9,8%, 80 e acima, 18%. Estimando uma média de 10%, das cem pessoas que mencionei, provavelmente 10 irão morrer. Somando com as 55 que mencionei acima, o resultado é 65.
A questão que se impõe é: estou preparado para que 65 pessoas do meu círculo afetivo morram nos próximos dois meses?
Não se trata do número, dos percentuais. Há um grupo bem menor de pessoas com quem estou afetivamente vinculado de forma visceral, e onde alguém certamente irá morrer.
Infelizmente nosso mundo passou os últimos século e meio pregando o produtivismo e a meritocracia, transformando nossa percepção do corpo e da vida de modo que passássemos a vê-los como recursos produtivos. O ocidente e seus satélites (como o Brasil) ficaram mais afluentes, e ao mesmo tempo imensamente menos capazes de dar sentido à experiência da morte. Olhe pra dentro da universidade e veja onde, ali, há algo que prepare alguém para a morte. Talvez a única coisa que se encontre é, na antropologia, a informação que praticamente todos os povos não ocidentalizados do planeta tem filosofias, éticas e pedagogias para a morte. São menos afluentes, mas seu contexto cultural os dá ferramentas para que possam, se souberem usá-las bem, ter uma boa morte. A própria estranheza causada pela expressão “boa morte” nos mostra o quão despreparados estamos para o que vem aí.
Não há tempo para grandes revoluções filosófico-existenciais agora. O que há é tempo para que o indivíduo pegue o telefone, ligue para o pai, mãe, filho, etc. com quem não fala mais ou de quem guarda emoções apodrecidas, e resolva a questão. E a resolução não passa por reascender a briga, mas pelo perdão. É preciso fazer isso, por atacado, antes que seja tarde demais. Não sabemos morrer, mas pelo menos podemos presentear-nos, uns aos outros, com a possibilidade de que se morra em paz.
Hoje, pela manhã, em conversa por WhatsApp com parentes quarentenados, ao falarmos sobre o pronunciamento do Bolsonaro da noite de ontem, um adolescente da família postou um emoticon de careta e disparou: “qual o problema desse cara?” Mais tarde, encontrei nas redes sociais vídeo postado por um grande amigo argentino, Hugo Partucci, em que ele toca, ao violão, canção composta por seu grupo artístico há alguns anos, e que fala de um adulto que, vivendo a perseguição política da ditadura argentina, coloca uma criança para dormir e deseja a ela que tenha bons sonhos. De repente, numa dessas associações de ideias que aparecem de forma espontânea na mente, ocorreu-me que, se nós, adultos, não estragarmos as coisas, o COVID-19 pode melhorar tremendamente a vida política do Brasil.
A ideia, algo contra intuitiva, reconheço, é a seguinte: as pessoas da minha geração (tenho 47), com margem de variação de menos ou mais quinze anos, viram as coisas darem mais ou menos certo da forma bastante errada na política brasileira, e com isso desenvolveram uma atitude cínica com relação ao processo político, de maneira geral. Este cinismo se manifesta, de forma explícita ou nas profundezas do subconsciente, no pensamento algo recorrente que diz que eleições não servem pra nada, que são um imenso teatro para manter as mesmas elites de sempre no poder. Com o Bolsonaro no Planalto, se a juventude entender o que está acontecendo sem herdar nossos vícios de pensamento e nossas emoções apodrecidas, as coisas podem mudar. Que criança ou jovem que tenha memória, no futuro, do que está acontecendo agora vai pensar que as eleições não são importantes? Ocorre, no entanto, que podemos estragar tudo se não tivermos cuidado.
Quando digo que as coisas deram certo da forma errada, refiro-me especificamente ao fato de que no Brasil, desde o fim da ditadura, as coisas caminham mas nunca segundo as aspirações da população. O país se redemocratizou, mas o movimentos Diretas Já não teve sucesso; posteriormente, o processo democrático se estruturou de forma lenta e insegura, com Sarney, Collor, Itamar e FHC, sem que as elites que defendem políticas excludentes tivessem arredado pé do governo por um segundo sequer. O consolo vinha sempre na forma do mantra “O Brasil é uma democracia jovem”. Com o PT no governo, as ânsias e desejos do passado se reascenderam; houve um período de êxtase na juventude progressista, enquanto o Lula distribuía o excedente do dinheiro do pré-sal, associava-se aos banqueiros e não fazia as reformas necessárias nem uma distribuição de renda estrutural e efetiva. Quando a coisa toda desmoronou, veio junto o que restava de esperança naquela geração de jovens no processo político. Sobrou desesperança e amargura, mesmo que em um país mais rico, mais educado e menos desigual do que há 30 anos.
Tenho amigos e parentes que, antilulisticamente, ajudaram a colocar o Bolsonaro no poder. A grande maioria parou de dizer “ah, mais no tempo do PT…” quando o governo Bolsonaro começou a patinar no seu tratamento da epidemia. Depois do pronunciamento de ontem, praticamente todos eles estão gritando “impeachment” nas redes sociais. E o que está fazendo a maioria dos que sempre foram mais politicamente alinhados comigo? Está postando mensagens de ódio, do tipo “deixa eu avisar que eu lembro de cada pessoa da minha lista de contatos que votou no Bolsonaro”, ou inserindo a expressão “eu avisei” nos seus nomes, em seus perfis de redes sociais. Até ontem, isso não me espantava. Hoje de manhã ocorreu-me que podemos estrar estragando a única oportunidade que nos resta de ver o processo político melhorar.
Em que contexto político um grupo vê o rival mudar para o seu lado, e ao invés de congratular-se, reage com ódio? Nossa geração está destruindo o pouco que sobrou da política – com ajuda dos algoritmos das redes sociais, sem dúvida. Em algum momento paramos de fazer política, aquela estruturada ao redor da ideia de que os outros têm direito de pensar diferente e a melhor forma de lidar com isso é exatamente que eles venham dizer isso na nossa cara, e escutem o que temos a dizer a respeito. O processo político virou a válvula de escape de nossas frustrações e da nossa raiva. No processo eleitoral, parecia que os antipestistas eram os que estavam votando com o sistema digestivo. Depois das eleições, aparentemente todo o país passou a viver a política de forma gástrica, e nada mais. A reação mais natural, por ser espontânea e porque já a naturalizamos, é insultar o Bolsonaro quando temos que mencionar o seu nome.
Ocorre, no entanto, que isso pode ter consequências terríveis a longo prazo. Mudemos um pouco a perspectiva da cena: saia dos teus olhos e entre nos da criança que te observa, enquanto você, aos brados, diz que o presidente é um jumento, um palhaço, um imbecil, um retardado, uma pilha de esterco, um psicopata, um monstro, um assassino, um genocida. O que você acha que está acontecendo no pensamento desta criança?
Se há lições a serem aprendidas com o COVID-19, acredito que uma das mais importantes não seja para a nossa geração, mas para a das crianças e jovens. Se eles entenderem que o que causou isso, de forma mais imediata, foi o voto, e que é pelo voto que isso pode ser evitado, jamais terão atitude cínica como a nossa. O processo democrático no futuro será mais maduro e verdadeiro.
Só não vai acontecer se contaminarmos a percepção que os jovens têm da política, com tanto refluxo verbal, de modo que eles não sejam capazes de perceber que o momento atual mostra, com clareza que minha geração nunca teve, o valor que o voto tem. É preciso que admitamos, então, nossas limitações, para que possamos ajudar as crianças e jovens a construírem realidade melhor do que a nossa.
Para tanto, é preciso tratar dos sentimentos que temos dentro de nós, sobre o governo, sobre o papel que o estado-nação tem em nossas vidas, sobre a forma como nos fizemos dependentes e vulneráveis a coisas que não controlamos; precisamos tentar aprender com quem vive de forma mais autônoma, livre e em paz, e precisamos trabalhar para que a relação entre o estado e as pessoas seja mais saudável no futuro. É possível que não sejamos mais capazes de consertar isso; o que estou argumentando aqui é que talvez nossos filhos o sejam, e não devemos atrapalhá-los com nossas limitações. O elemento mais inconveniente do fato de que nossa reação às ações do Bolsonaro é gastrointestinal é não conseguirmos fazer efetivamente nada que mude as coisas com isso. Há, inclusive, a possibilidade de que isso seja estratégia bolsonarista. Quem consegue pensar de forma politicamente estratégica, hoje, não está dando chilique.
Isso tudo passa, a meu ver, por não alienar os jovens do que está acontecendo, no sentido de “protegê-los”. Quando fazemos isso, estamos apenas materializando o pensamento de que eles não poderão ser melhores do que somos e fomos. Quem pensa assim não está colocando a devida atenção em quem são as crianças e jovens de hoje. Ao invés de pautar sua compreensão da realidade pelo programa do Datena ou do Ratinho, olhe ao seu redor, escute as conversas das crianças e jovens, e compare com o que éramos a três ou quatro décadas. Tenho a impressão forte de que muita gente nesta geração nova é mais capaz de empatia, de colaboração, de amor e de perdão do que éramos (e somos).
É preciso encontrar formas de fazer os jovens entenderem o que está acontecendo sem repetir neles nossas limitações emocionais, nossa incapacidade de manter a serenidade, nossos traumas. Por isso, antes de falar aos jovens sobre o que deveria estar acontecendo e não está, tomemos o tempo de tentar analisar o que se passa com nossas emoções, com nossa necessidade de descarregar as emoções negativas através da política (o que aniquila a capacidade da política ser tudo o que poderia). E trata-se mais de postura afetiva do que de ação: podemos e devemos bater panela, assinar petições pedindo o impeachment, participar de manifestações de rua quando o perigo do COVID-19 estiver controlado, e estarmos preparados para a desobediência civil. Mas agindo com a cabeça, e não com os intestinos. Crianças e jovens são imensamente capazes de perceber o que nos move, e isso pode deixar neles marca profunda, positiva ou negativa.
Se fizermos isso tudo – o que vai tomar algum tempo e não vai ser fácil -, podemos pelo menos contribuir para a formação de uma nova geração que será imensamente mais capaz de viver em comunidade e resolver seus problemas de forma pacífica e colaborativa. O ponto central do meu pensamento, entenda-se bem, não é transferir aos jovens a responsabilidade de resolver algo que não fomos capazes. É apenas aproveitar a intervenção drástica e em escala planetária do COVID-19 para que tratemos nossas feridas politico-emocionais, e sejamos capazes de deixar que a crise seja uma lição de crescimento civilizacional para crianças e jovens. Se isso vai ser amargo ou sereno para eles, depende muito de como nossas emoções embotadas afetarão a mensagem.
Uildéia Galvão, médica de Manaus que atende paciente da covid-19.Divulgação
“Os pacientes que têm covid sentem muita sede. Tem momento que eles querem muita água. E aí você vê o paciente pedindo água e… você não pode, você não consegue, você está entubando alguém, vendo um outro paciente mais grave. E você não tem ninguém para dar essa assistência para esse paciente”. A médica Uildéia Galvão trabalha 12 horas por dia, todos os dias. Às vezes, 20 horas por dia, para dar conta dos pacientes que chegam ao Pronto Socorro 28 de agosto, em Manaus. A capital do Amazonas é uma das mais afetadas no Brasil pela crise do coronavírus e tem sido palco das histórias mais tristes da pandemia no Brasil. Superlotação em hospitais, avalanche de corpos nos cemitérios, centenas de mortos que não conseguem chegar ao hospital e morrem em casa.
Galvão atende os 120 leitos da Sala Rosa do PS, para onde são encaminhados os doentes graves de covid-19. Médica há 25 anos, ela não consegue aceitar essa nova modalidade de ‘hora da morte’ trazida pelo coronavírus: “É difícil você ver pessoas morrerem sozinhas. Sozinhas, sozinhas, sozinhas. Sozinhas”. Sim, ela repete o “sozinhas” cinco vezes como quem não acredita nas próprias palavras que saem da sua boca.
No 28 de agosto, não dá tempo de fazer uma teleconferência por celular na hora da despedida. No 28 de agosto, não dá tempo para nada. “Você vê pacientes quatro dias sem tomar banho, sem ter o asseio, porque você não tem o recurso humano ali para fazer isso”. O colapso do sistema de saúde de Manaus parece que estava para acontecer a qualquer momento, mas o coronavírus apressou as coisas. A doutora Galvão diz que é verdade que muitos profissionais de saúde pegaram o vírus e foram afastados, mas a bem da verdade, segundo ela, é que não havia recursos humanos suficientes há muito tempo.
Em plena pandemia, os profissionais de saúde dos pronto-socorros de Manaus estavam ainda para receber o salário de fevereiro. Em plena pandemia, os profissionais de saúde dos PSs de Manaus precisam comprar seus próprios equipamentos de proteção. Em plena pandemia, muitos dias sem que o laboratório de saúde pública do Amazonas não recolhesse material para fazer os testes de covid-19. E não é atraso em divulgar resultados. Não há coleta de material para produzir resultados mesmo. “E olha que só estamos atendendo pacientes realmente graves”, diz Uildeia.
Oficialmente, o Estado somava 476 mortes por covid-19 até sexta, e 5.723 infectados. Mas as imagens nos noticiários de cemitérios lotados e o choro na TV de famílias desesperadas deixam claro que a subnotificação ali é enorme. A distorção de dados parece mesmo gritante. Ao longo das semanas, o Brasil viu as imagens tenebrosas de enterros em valas comuns na cidade de Manaus até de madrugada. Pergunto à doutora Galvão se ela viu as imagens. “Não sei nem se é tocante, não sei se é trágica. Mas reflete realmente o nosso dia a dia. Tem sido bem difícil mesmo”.
Há duas semanas, o prefeito Arthur Vírgilio foi para as redes sociais dizer que a média diária de sepultamentos triplicou na cidade. Agora, quadruplicaram. No último domingo, houve um pico de 140 mortos. A média diária tem sido de 100. Em outros anos, os dias com maior pico de mortos não ultrapassava a 35 sepultamentos. No entanto, os dados informados ao Ministério da Saúde davam conta de apenas 17 mortos.
O prefeito ainda fez um outro alerta: o alto percentual de pessoas que morrem em casa, sem atendimento médico. Na segunda, mais de um terço das pessoas morreu em casa. A tempestade perfeita chegou em Manaus. Juntou um sistema de saúde já fragilizado, uma pandemia que levou uma avalanche de pacientes aos hospitais, uma população envelhecida aos 60 anos com uma série de doenças, propícias ao coronavírus e para coroar um completo desrespeito ao isolamento.
De acordo com os dados da start up In Loco, que tem feito um acompanhamento do movimento de celulares pelo país, desde o início do distanciamento social, em meados de março, o Amazonas foi o Estado que registrou os menores percentuais de adesão ao #fiqueemcasa. Durante a semana, bateu menos de 50%.
Mas ainda tem um outro ingrediente: o governador do Estado, Wilson Lima, do PSC. O pessoal não parece muito feliz com o governador, não. Na segunda, a assembleia legislativa do estado aprovou um pedido de intervenção federal na saúde do Amazonas. O pedido já foi encaminhado ao governo federal. Também o Sindicato dos Médicos entrou com um pedido de impeachment do governador na Assembleia Legislativa. O pedido foi aceito.
Além disso, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado dizem que o governador não está sendo transparente nos gastos com a pandemia. Uma ação foi ajuizada pedindo que o governador divulgue como gastou cada tostão que recebeu do governo federal para o combate ao coronavírus. E os profissionais da saúde fazem coro. O governo do Estado não respondeu aos diversos questionamentos feitos pela reportagem.
Desde que falamos com a doutora Galvão pela primeira vez, ela diz que algumas coisas melhoraram. Os equipamentos de proteção passaram a ser entregues, mesmo que em sistema de racionamento. “Mas é até bom que sejam racionados para não faltar”. Foram abertos mais leitos de retaguarda, o que ajudou a desafogar os prontos-socorros. E o Governo do Estado abriu uma linha de comunicação direta com os médicos, além de prometer organizar um cronograma para atualizar os pagamentos de 2020, para que os salários não atrasem mais.
Enquanto tudo isso acontece ao seu redor, a doutora Galvão, mesmo que sutilmente, demonstra seu ressentimento com os governantes do Estado. Ela fala daqueles que vão à mídia dizer que as pessoas estão morrendo porque falta atendimento. Isso recai sobre o pessoal que está na linha de frente, trabalhando quatro vezes mais do que trabalhavam e enfrentando a revolta da população. “A população tem dificuldade imensa de entender que não é o profissional de saúde que é responsável por criar estrutura de atendimento razoável para que a probabilidade de sucesso seja a melhor. Entendeu? E a gente não consegue desmistificar isso.”
— Qual é seu medo?, pergunto.
Do outro lado do telefone, um segundo de silêncio e a resposta:
— Meu medo é que isso demore muito. É exaustão. É muito cansativo. É exaustão mesmo.
— Você já está há quantos dias nesse ritmo?
— (um suspiro ainda maior que o primeiro). Nesse ritmo? Desde o dia 20 de março… por aí.
— Já faz 30 dias.
— É… já faz 30 dias.
Conversamos mais um pouco. Ela acha que o pico será na próxima semana. E conta sua desesperança com o descaso aos profissionais que não têm um líder que elabore um plano de ação. Ela acha que nem dá mais tempo. Sofre ao constatar que famílias largam seus velhinhos no hospital. “Eu disse para a minha filha que nem sempre é só problema do sistema de saúde. Existe uma crise humanitária também”.
Faço uma última pergunta:
— Se você pudesse falar em rede nacional, qual recado você daria?
A doutora responde, sem pestanejar:
— Fiquem em casa. Fiquem em casa o tempo que for possível e necessário. Deem atenção aos seus velhinhos, aos seus pais… A gente tem que aprender alguma coisa com isso. A gente vê hoje uma polaridade não só de política, de tudo, de ideia, de sentimento, ou você é isso ou você é aquilo. Eu acho que a gente tem que repensar tudo isso e ver para onde a gente quer andar com o nosso país, com nossa política. Não é possível que a gente não vai aprender que tem que ser mais humano, mais gentil e mais educado e saber escolher melhor quem são as pessoas que vão definir o futuro dos nossos netos, bisnetos. A gente tem hoje o que a gente tem, vai ter que aprender a conviver com isso fazendo o nosso melhor. Mas, no futuro, não é possível não ter algum mecanismo de mudança.
Josette Goulart é fundadora e editora da Lagartixa Diária, @lagartixadiaria
O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto defendeu a instituição de uma fila única para o atendimento de pacientes de Covid-19 em hospitais públicos e privados. Nas suas palavras: “Dói, mas tem que fazer. Porque se não brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar. Não tem cabimento isso”.
Ex-diretor da Agência de Vigilância Sanitária e ex-superintendente do hospital Sírio Libanês, Vecina tem autoridade para dizer o que disse. A fila única não é uma ideia só dele. Foi proposta no início de abril por grupos de estudo das universidades de São Paulo e Federal do Rio.
Na quarta-feira (29), o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Zasso Pigatto, enviou ao ministro Nelson Teich e aos secretários estaduais de Saúde sua Recomendação 26, para que assumam a coordenação “da alocação dos recursos assistenciais existentes, incluindo leitos hospitalares de propriedade de particulares, requisitando seu uso quando necessário, e regulando o acesso segundo as prioridades sanitárias de cada caso”.
Por quê? Porque a rede privada tem 15.898 leitos de UTIs, com ociosidade de 50%, e a rede pública tem 14.876 e está a um passo do colapso.
O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (ex-diretor de uma Unimed) jamais tocou no assunto. Seu sucessor, Nelson Teich (cuja indicação para a pasta foi cabalada por agentes do baronato) também não. Depois da recomendação do conselho, quatro guildas da medicina privada saíram do silêncio, condenaram a ideia e apresentaram quatro propostas alternativas. Uma delas, a testagem da população, é risível e duas são dilatórias (a construção de hospitais de campanha e a publicação de editais para a contratação de leitos e serviços). A quarta vem a ser boa ideia: a revitalização de leitos públicos. Poderia ter sido oferecida em março.
Desde o início da epidemia os barões da medicina privada mantiveram-se em virótico silêncio. Eles viviam no mundo encantado da saúde de grife, contratando médicos renomados como se fossem jogadores de futebol, inaugurando hospitais com hotelarias estreladas e atendendo clientes de planos de saúde bilionários. Veio a Covid-19, e descobriram-se num país com 40 milhões de invisíveis e 12 milhões de desempregados.
Se o vírus tivesse sido enfrentado com a energia da Nova Zelândia, o silêncio teria sido eficaz. Como isso era impossível, acordaram no Brasil, com 90 mil infectados e mais de 6.000 mortos.
A Agência Nacional de Saúde ofereceu aos planos de saúde acesso ao recursos de um fundo se elas aceitassem atender (até julho) clientes inadimplentes. Nem pensar. Dos 780 planos só 9 aderiram.
O silêncio virótico provocou-lhes uma tosse com a recomendação do Conselho Nacional de Saúde. A fila única é um remédio com efeitos laterais tóxicos. Se a burocracia ficar encarregada de organizá-la, arrisca só ficar pronta em 2021. Ademais é discutível se uma pessoa que pagou caro pelo acesso a um hospital deve ficar atrás de alguém que não pagou. Na outra ponta dessa discussão, fica a frase de Vecina: “Brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar”. Os números da epidemia mostram que o baronato precisa sair da toca.
A Covid-19 jogou o sistema de saúde brasileiro na arapuca daquele navio cujo nome não deve ser pronunciado (com Leonardo DiCaprio estrelando o filme). O transatlântico tinha 2.200 passageiros, mas nos seus botes salva-vidas só cabiam 1.200 pessoas. 34% dos homens da primeira classe salvaram-se.
Possibly, in a few months, we’ll return to some version of the old normal. But this spring won’t be forgotten.Photograph by Antoine d’Agata / Magnum
The critic Raymond Williams once wrote that every historical period has its own “structure of feeling.” How everything seemed in the nineteen-sixties, the way the Victorians understood one another, the chivalry of the Middle Ages, the world view of Tang-dynasty China: each period, Williams thought, had a distinct way of organizing basic human emotions into an overarching cultural system. Each had its own way of experiencing being alive.
In mid-March, in a prior age, I spent a week rafting down the Grand Canyon. When I left for the trip, the United States was still beginning to grapple with the reality of the coronavirus pandemic. Italy was suffering; the N.B.A. had just suspended its season; Tom Hanks had been reported ill. When I hiked back up, on March 19th, it was into a different world. I’ve spent my life writing science-fiction novels that try to convey some of the strangeness of the future. But I was still shocked by how much had changed, and how quickly.
Schools and borders had closed; the governor of California, like governors elsewhere, had asked residents to begin staying at home. But the change that struck me seemed more abstract and internal. It was a change in the way we were looking at things, and it is still ongoing. The virus is rewriting our imaginations. What felt impossible has become thinkable. We’re getting a different sense of our place in history. We know we’re entering a new world, a new era. We seem to be learning our way into a new structure of feeling.
In many ways, we’ve been overdue for such a shift. In our feelings, we’ve been lagging behind the times in which we live. The Anthropocene, the Great Acceleration, the age of climate change—whatever you want to call it, we’ve been out of synch with the biosphere, wasting our children’s hopes for a normal life, burning our ecological capital as if it were disposable income, wrecking our one and only home in ways that soon will be beyond our descendants’ ability to repair. And yet we’ve been acting as though it were 2000, or 1990—as though the neoliberal arrangements built back then still made sense. We’ve been paralyzed, living in the world without feeling it.
Now, all of a sudden, we’re acting fast as a civilization. We’re trying, despite many obstacles, to flatten the curve—to avoid mass death. Doing this, we know that we’re living in a moment of historic importance. We realize that what we do now, well or badly, will be remembered later on. This sense of enacting history matters. For some of us, it partly compensates for the disruption of our lives.
Actually, we’ve already been living in a historic moment. For the past few decades, we’ve been called upon to act, and have been acting in a way that will be scrutinized by our descendants. Now we feel it. The shift has to do with the concentration and intensity of what’s happening. September 11th was a single day, and everyone felt the shock of it, but our daily habits didn’t shift, except at airports; the President even urged us to keep shopping. This crisis is different. It’s a biological threat, and it’s global. Everyone has to change together to deal with it. That’s really history.
It seems as though science has been mobilized to a dramatic new degree, but that impression is just another way in which we’re lagging behind. There are 7.8 billion people alive on this planet—a stupendous social and technological achievement that’s unnatural and unstable. It’s made possible by science, which has already been saving us. Now, though, when disaster strikes, we grasp the complexity of our civilization—we feel the reality, which is that the whole system is a technical improvisation that science keeps from crashing down.
On a personal level, most of us have accepted that we live in a scientific age. If you feel sick, you go to a doctor, who is really a scientist; that scientist tests you, then sometimes tells you to take a poison so that you can heal—and you take the poison. It’s on a societal level that we’ve been lagging. Today, in theory, everyone knows everything. We know that our accidental alteration of the atmosphere is leading us into a mass-extinction event, and that we need to move fast to dodge it. But we don’t act on what we know. We don’t want to change our habits. This knowing-but-not-acting is part of the old structure of feeling.
Now comes this disease that can kill anyone on the planet. It’s invisible; it spreads because of the way we move and congregate. Instantly, we’ve changed. As a society, we’re watching the statistics, following the recommendations, listening to the scientists. Do we believe in science? Go outside and you’ll see the proof that we do everywhere you look. We’re learning to trust our science as a society. That’s another part of the new structure of feeling.
Possibly, in a few months, we’ll return to some version of the old normal. But this spring won’t be forgotten. When later shocks strike global civilization, we’ll remember how we behaved this time, and how it worked. It’s not that the coronavirus is a dress rehearsal—it’s too deadly for that. But it is the first of many calamities that will likely unfold throughout this century. Now, when they come, we’ll be familiar with how they feel.
What shocks might be coming? Everyone knows everything. Remember when Cape Town almost ran out of water? It’s very likely that there will be more water shortages. And food shortages, electricity outages, devastating storms, droughts, floods. These are easy calls. They’re baked into the situation we’ve already created, in part by ignoring warnings that scientists have been issuing since the nineteen-sixties. Some shocks will be local, others regional, but many will be global, because, as this crisis shows, we are interconnected as a biosphere and a civilization.
Imagine what a food scare would do. Imagine a heat wave hot enough to kill anyone not in an air-conditioned space, then imagine power failures happening during such a heat wave. (The novel I’ve just finished begins with this scenario, so it scares me most of all.) Imagine pandemics deadlier than the coronavirus. These events, and others like them, are easier to imagine now than they were back in January, when they were the stuff of dystopian science fiction. But science fiction is the realism of our time. The sense that we are all now stuck in a science-fiction novel that we’re writing together—that’s another sign of the emerging structure of feeling.
Science-fiction writers don’t know anything more about the future than anyone else. Human history is too unpredictable; from this moment, we could descend into a mass-extinction event or rise into an age of general prosperity. Still, if you read science fiction, you may be a little less surprised by whatever does happen. Often, science fiction traces the ramifications of a single postulated change; readers co-create, judging the writers’ plausibility and ingenuity, interrogating their theories of history. Doing this repeatedly is a kind of training. It can help you feel more oriented in the history we’re making now. This radical spread of possibilities, good to bad, which creates such a profound disorientation; this tentative awareness of the emerging next stage—these are also new feelings in our time.
Memento mori: remember that you must die. Older people are sometimes better at keeping this in mind than younger people. Still, we’re all prone to forgetting death. It never seems quite real until the end, and even then it’s hard to believe. The reality of death is another thing we know about but don’t feel.Video From The New Yorker Throwing Shade Through Crosswords
So this epidemic brings with it a sense of panic: we’re all going to die, yes, always true, but now perhaps this month! That’s different. Sometimes, when hiking in the Sierra, my friends and I get caught in a lightning storm, and, completely exposed to it, we hurry over the rocky highlands, watching lightning bolts crack out of nowhere and connect nearby, thunder exploding less than a second later. That gets your attention: death, all too possible! But to have that feeling in your ordinary, daily life, at home, stretched out over weeks—that’s too strange to hold on to. You partly get used to it, but not entirely. This mixture of dread and apprehension and normality is the sensation of plague on the loose. It could be part of our new structure of feeling, too.
Just as there are charismatic megafauna, there are charismatic mega-ideas. “Flatten the curve” could be one of them. Immediately, we get it. There’s an infectious, deadly plague that spreads easily, and, although we can’t avoid it entirely, we can try to avoid a big spike in infections, so that hospitals won’t be overwhelmed and fewer people will die. It makes sense, and it’s something all of us can help to do. When we do it—if we do it—it will be a civilizational achievement: a new thing that our scientific, educated, high-tech species is capable of doing. Knowing that we can act in concert when necessary is another thing that will change us.
People who study climate change talk about “the tragedy of the horizon.” The tragedy is that we don’t care enough about those future people, our descendants, who will have to fix, or just survive on, the planet we’re now wrecking. We like to think that they’ll be richer and smarter than we are and so able to handle their own problems in their own time. But we’re creating problems that they’ll be unable to solve. You can’t fix extinctions, or ocean acidification, or melted permafrost, no matter how rich or smart you are. The fact that these problems will occur in the future lets us take a magical view of them. We go on exacerbating them, thinking—not that we think this, but the notion seems to underlie our thinking—that we will be dead before it gets too serious. The tragedy of the horizon is often something we encounter, without knowing it, when we buy and sell. The market is wrong; the prices are too low. Our way of life has environmental costs that aren’t included in what we pay, and those costs will be borne by our descendents. We are operating a multigenerational Ponzi scheme.
And yet: “Flatten the curve.” We’re now confronting a miniature version of the tragedy of the time horizon. We’ve decided to sacrifice over these months so that, in the future, people won’t suffer as much as they would otherwise. In this case, the time horizon is so short that we are the future people. It’s harder to come to grips with the fact that we’re living in a long-term crisis that will not end in our lifetimes. But it’s meaningful to notice that, all together, we are capable of learning to extend our care further along the time horizon. Amid the tragedy and death, this is one source of pleasure. Even though our economic system ignores reality, we can act when we have to. At the very least, we are all freaking out together. To my mind, this new sense of solidarity is one of the few reassuring things to have happened in this century. If we can find it in this crisis, to save ourselves, then maybe we can find it in the big crisis, to save our children and theirs.
Margaret Thatcher said that “there is no such thing as society,” and Ronald Reagan said that “government is not the solution to our problem; government is the problem.” These stupid slogans marked the turn away from the postwar period of reconstruction and underpin much of the bullshit of the past forty years.
We are individuals first, yes, just as bees are, but we exist in a larger social body. Society is not only real; it’s fundamental. We can’t live without it. And now we’re beginning to understand that this “we” includes many other creatures and societies in our biosphere and even in ourselves. Even as an individual, you are a biome, an ecosystem, much like a forest or a swamp or a coral reef. Your skin holds inside it all kinds of unlikely coöperations, and to survive you depend on any number of interspecies operations going on within you all at once. We are societies made of societies; there are nothing but societies. This is shocking news—it demands a whole new world view. And now, when those of us who are sheltering in place venture out and see everyone in masks, sharing looks with strangers is a different thing. It’s eye to eye, this knowledge that, although we are practicing social distancing as we need to, we want to be social—we not only want to be social, we’ve got to be social, if we are to survive. It’s a new feeling, this alienation and solidarity at once. It’s the reality of the social; it’s seeing the tangible existence of a society of strangers, all of whom depend on one another to survive. It’s as if the reality of citizenship has smacked us in the face.
As for government: it’s government that listens to science and responds by taking action to save us. Stop to ponder what is now obstructing the performance of that government. Who opposes it? Right now we’re hearing two statements being made. One, from the President and his circle: we have to save money even if it costs lives. The other, from the Centers for Disease Control and similar organizations: we have to save lives even if it costs money. Which is more important, money or lives? Money, of course! says capital and its spokespersons. Really? people reply, uncertainly. Seems like that’s maybe going too far? Even if it’s the common wisdom? Or was.
Some people can’t stay isolated and still do their jobs. If their jobs are important enough, they have to expose themselves to the disease. My younger son works in a grocery store and is now one of the front-line workers who keep civilization running.
My son is now my hero: this is a good feeling. I think the same of all the people still working now for the sake of the rest of us. If we all keep thinking this way, the new structure of feeling will be better than the one that’s dominated for the past forty years.
The neoliberal structure of feeling totters. What might a post-capitalist response to this crisis include? Maybe rent and debt relief; unemployment aid for all those laid off; government hiring for contact tracing and the manufacture of necessary health equipment; the world’s militaries used to support health care; the rapid construction of hospitals.Advertisement
What about afterward, when this crisis recedes and the larger crisis looms? If the project of civilization—including science, economics, politics, and all the rest of it—were to bring all eight billion of us into a long-term balance with Earth’s biosphere, we could do it. By contrast, when the project of civilization is to create profit—which, by definition, goes to only a few—much of what we do is actively harmful to the long-term prospects of our species. Everyone knows everything. Right now pursuing profit as the ultimate goal of all our activities will lead to a mass-extinction event. Humanity might survive, but traumatized, interrupted, angry, ashamed, sad. A science-fiction story too painful to write, too obvious. It would be better to adapt to reality.
Economics is a system for optimizing resources, and, if it were trying to calculate ways to optimize a sustainable civilization in balance with the biosphere, it could be a helpful tool. When it’s used to optimize profit, however, it encourages us to live within a system of destructive falsehoods. We need a new political economy by which to make our calculations. Now, acutely, we feel that need.
It could happen, but it might not. There will be enormous pressure to forget this spring and go back to the old ways of experiencing life. And yet forgetting something this big never works. We’ll remember this even if we pretend not to. History is happening now, and it will have happened. So what will we do with that?
A structure of feeling is not a free-floating thing. It’s tightly coupled with its corresponding political economy. How we feel is shaped by what we value, and vice versa. Food, water, shelter, clothing, education, health care: maybe now we value these things more, along with the people whose work creates them. To survive the next century, we need to start valuing the planet more, too, since it’s our only home.
It will be hard to make these values durable. Valuing the right things and wanting to keep on valuing them—maybe that’s also part of our new structure of feeling. As is knowing how much work there is to be done. But the spring of 2020 is suggestive of how much, and how quickly, we can change. It’s like a bell ringing to start a race. Off we go—into a new time.
A Guide to the Coronavirus
Twenty-four hours at the epicenter of the pandemic: nearly fifty New Yorker writers and photographers fanned out to document life in New York City on April 15th.
Seattle leaders let scientists take the lead in responding to the coronavirus. New York leaders did not.
Ser um pioneiro em um dos ramos de uma área do conhecimento que possui milênios de existência, a filosofia, é para poucos. E esse é o caso do italiano Luciano Floridi, 55, professor da Universidade de Oxford.
Ele é um dos primeiros, e mais proeminentes, nomes nos campos de filosofia e ética da informação. Esses ramos estudam tópicos ligados à computação e tecnologia. É conselheiro da área para o governo britânico e trabalhou para empresas gigantes da área, como Google e a chinesa Tencent.
Ele também se destaca quando o assunto é especificamente IA (inteligência artificial). Floridi foi um dos 52 autores das “Orientações éticas para uma IA de confiança”, da União Europeia.
À Folha, falou sobre temas que foram desde o elementar na sua área, como a definição de inteligência artificial, a discussões mais complexas acerca de como pensar nossa relação com a tecnologia.
Para ele, a discussão moral cresce em importância na era digital. “Temos menos religião. As pessoas tendem a associar ética à religião um pouco menos do que no passado”, diz. “Ela precisa se sustentar sozinha.”
A conversa por videochamada durou aproximadamente uma hora e foi interrompida apenas uma vez: quando a mulher de Floridi, brasileira, foi embarcar num avião para visitar o país natal e ele quis desejar uma boa viagem.
A fala paciente e educada deu lugar a irritação quando o assunto se tornou pensamento de Nick Bostrom, também filósofo da Universidade de Oxford, que versa sobre os riscos de a IA destruir a humanidade.
“A IA descrita na singularidade e na superinteligência de Nick Bostrom não é impossível”, diz. “Da mesma forma que é possível que uma civilização extraterrestre chegue aqui, domine e escravize a humanidade. Impossível? Não. Vamos nos planejar para o caso de isso acontecer? Só pode ser piada.”
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Como definir IA? São artefatos construídos pelo homem capazes de fazer coisas no nosso lugar, para nós e, às vezes, melhor do que nós, com uma habilidade especial que não encontramos em outros artefatos mecânicos: aprender a partir de sua performance e melhorar. Uma forma de descrever IA é como uma espécie de reservatório de operações para fazer coisas que podemos aplicar em contextos diferentes. Podemos aplicar para economizar eletricidade em casa, para encontrar informações interessantes sobre pessoas que visitam minha loja, para melhorar a câmera do meu celular, para recomendar em um site outros produtos dos quais o consumidor gostaria.
Na academia há muitas opiniões contrastantes sobre o que é IA. A definição de IA é importante? Uma definição diz “isso é aquilo” e “aquilo é isso”, como “água é H2O” e “H2O é água” e não tem erro. Não temos uma definição sobre IA dessa forma, mas também não temos definição de muitas coisas importantes na vida como amor, inteligência e por aí vai. Muitas vezes temos um bom entendimento, conseguimos reconhecer essas coisas ao vê-las. É crucial ter um bom entendimento da tecnologia porque aí temos as regras e a governança de algo que compreendemos.
Qual a importância da ética hoje, uma era digital? Ela se tornou mais e mais importante porque nós temos algo mais e algo menos. Temos menos religião, então ela precisa se sustentar sozinha. Não se pode justificar algo dizendo “porque a Igreja diz isso” ou porque “Deus mandou”. Um pouco menos de religião tornou o debate ético mais difícil, mas mais urgente. E temos algo mais: falamos muito mais uns com os outros do que em qualquer momento no passado. Estou falando de globalização. De repente, diferentes visões sobre o que está certo e errado estão colidindo de uma forma que nunca aconteceu. Quanto mais tecnologia, ciência e poder tivermos sobre qualquer coisa –sociedade, o ambiente, nossas próprias vidas–, mais urgentes ficam as questões éticas.
E por que discutir ética em IA? Até recentemente, entendíamos em termos de “intervenções divinas” (para as pessoas do passado que acreditavam em Deus), “intervenções humanas” ou “intervenções animais”. Essas eram as forças possíveis. É como se tivéssemos um tabuleiro de xadrez em que, de repente, surge uma peça nova. Claramente, essa peça muda o jogo todo. É IA. Se você tem algo que pode fazer coisas no mundo de forma autônoma e aprendendo, de modo que podem mudar seus próprios programas, sua atividade requer entendimento de certo e errado: ética.
Como respondemos essas perguntas e definimos os limites? No último ano tivemos um florescer de códigos éticos para IA. Dois em particular são bem importantes pelo alcance. Um é o da União Europeia. Fizemos um bom trabalho, penso, e temos uma boa estrutura na Europa para entender IA boa e não tão boa. O outro é da OCDE, uma estrutura semelhante.
Críticos dizem que esses documentos não são específicos o suficiente. O sr. vê eles como um primeiro passo? Mostra que, pelo menos, algumas pessoas em algum lugar se importam o suficiente para produzir um documento sobre essa história toda. Isso é melhor do que nada, mas é só isso: melhor que nada. Alguns deles são completamente inúteis. O que acontece agora é que toda empresa, toda instituição, todo governo sente que não pode ser deixado para trás. Se 100 empresas têm um documento com suas estruturas e regras para IA, se sou a empresa 102 também preciso ter. Não posso ser o único sem. Precisamos fazer muito mais. Por isso, as diretrizes verdadeiras são feitas por governos, organizações ou instituições internacionais. Se você tem instituições internacionais, como a OECD, União Europeia, Unesco, intervindo, já estamos em um novo passo na direção certa. Olhe, por exemplo, a IA aplicada a reconhecimento facial. Já tivemos esse debate. Uso reconhecimento facial na minha loja? No aeroporto? Esse buraco tem que ser tapado e as pessoas o estão tapando. Eu tendo a ser um pouco otimista.
E como estamos nessa tradução de diretrizes em políticas práticas? Num contexto geral, vejo grandes empresas desenvolvendo serviços de consultoria para seus clientes e ajudando a verificar se estão de acordo com as regras e regulações, bem como se levaram em consideração questões éticas. Há lacunas e mais precisa ser feito, mas algo já está disponível. As pessoas estão se mexendo em termos de legislação, autorregulação, políticas ou ferramentas digitais para traduzir princípios em práticas. O que se pode fazer é se certificar que os erros aconteçam o mais raramente possível e que, quando acontecerem, haja uma forma de retificar.
Com diferentes entidades, governos, instituições e empresas criando suas regras para uso de IA, não corremos o risco de ficar perdidos em termos de qual documento seguir? Um pouco, sim. No começo pode ter discordância, ou visões diferentes, mas isso é algo que já vivemos no passado. Toda a história de padrões industriais e de negócios é cheia desses desacordos e, depois, reconciliação e encontrar uma plataforma comum para todos estarem em concordância.
As grandes empresas de tecnologia estão pedindo por regulação, o que é estranho, visto que elas normalmente tentam autoregulação. O sr. esteve com uma delas, a Google. Por que esse interesse das empresas de tecnologia agora? Há alguns motivos para isso. O primeiro é certeza: eles querem ter certeza do que é certo e errado. Empresas gostam de certeza, mais até do que de regras boas. Melhor ter regras ruins do que regra nenhuma. A segunda coisa é que entendem que a opinião pública pede por uma boa aplicação de IA. Dado que é opinião pública, tem que vir da sociedade o que é aceitável e o que não é. Empresas gostam de regulações desde que elas ajudem.
Há diferença ao pensar em regulações para sistemas com finalidades diferentes? Por exemplo, é diferente pensar em regulação em IA para carros automatizados e IA para sugestão de músicas? Sim e não. Há regulações que são comuns para muitas áreas. Pense nas regulações de segurança envolvendo eletricidade. Não importa se é uma furadeira elétrica, um forno elétrico ou um carro elétrico. É eletricidade e, portanto, tem regulações de segurança. Isso se aplicaria igualmente à IA. Mas aí você tem algo específico: você tem segurança ligada aos freios para o carro, não para o micro-ondas. Isso é bem específico. Penso, então, numa combinação dos dois: princípios que cubram várias áreas diferentes, diretrizes que se espalhem horizontalmente, mas também verticalmente pensando em setor por setor.
Quão longe estamos de ter essas diretrizes estabelecidas? Falamos de meses, anos, uma geração? Alguns anos. Eu não me surpreenderia se tivéssemos essa conversa em cinco anos e o que dissemos hoje fosse história.
E como funciona esse processo de pensamento na prática? Por exemplo, no caso de carros autônomos, como se chega a uma conclusão em relação à responsabilidade do caso de acidente: é do motorista, da fabricante, de quem? Tínhamos isso em muitos outros contextos antes da IA. A recomendação é distribuir a responsabilidade entre todos os agentes envolvidos, a menos que eles consigam provar que não tiveram nada a ver com acidente. Um exemplo bem concreto: na Holanda, se você andar de bicicleta ao lado de alguém, sem problemas. Você pode andar na rua, lado a lado com alguém e tudo bem. Se uma terceira pessoa se junta a vocês, é ilegal. Não se pode ir com três pessoas lado a lado numa rua pública. Quem recebe a multa? Todos os três, porque quando A e B estavam lado a lado e o C chega até eles, A e B poderiam reduzir a velocidade ou parar totalmente para que o C passasse. Agora, na mesma Holanda, outro exemplo, se dois barcos estão parados na margem do rio lado a lado, é legal. Se um terceiro barco chegar e parar ao lado deles, é ilegal. Nesse caso, somente o terceiro barco tomaria uma multa. Por quê? Porque os outros dois barcos não podem ir para lugar algum. Não é culpa deles. Pode ver que são dois exemplos bastante elementares, bem claros, com três agentes. Em um caso igualmente responsáveis e a responsabilidade é distribuída, no outro caso apenas um responsável. Com IA é o mesmo. Em contextos nos quais tivermos uma pessoa, doida, usando IA para algo mal, a culpa é dessa pessoa. Não tem muito debate. Em muitos outros contextos, com muitos agentes, quem será culpado? Todos, a menos que provem que não fizeram nada de errado. Então o fabricante do carro, do software, o motorista, até mesmo a pessoa que atravessou a rua no lugar errado. Talvez haja corresponsabilidade que precise ser distribuída entre eles.
Seria sempre uma análise caso a caso? Acho que é mais tipos de casos. Não só um caso isolado, mas uma família de casos. Façamos um exemplo realista. Se uma pessoa dirigindo em um carro autônomo não tem como dirigir, usar um volante, nada. É como eu em um trem, tenho zero controle. Aí o carro se envolve num acidente. De quem é a culpa? Você culparia um passageiro pelo acidente que o trem teve? Claro que não. Num caso em que haja um volante, em que haja um grande botão vermelho dizendo “se algo der errado, aperte o botão”… Quem é responsável? O fabricante do carro e o motorista que não apertou o botão. Precisamos ser bastante concretos e nos certificar de que existem tipologias e, não exatamente caso a caso, mas compreendendo que caso tal pertence a tal tipologia. Aí teremos um senso claro do que está acontecendo.
Em suas palestras, o sr. menciona um uso em excesso e a subutilização de IA. Quais os problemas nessas situações? O excesso de uso, com um exemplo concreto, é como o debate que temos hoje sobre reconhecimento facial. Não precisamos disso em todos os cantos. É como matar mosquitos com uma granada. A subutilização é típica, por exemplo, no setor de saúde. Não usamos porque a regulação não é muito clara, as pessoas têm medo das consequências.
A IA vai criar o futuro, estar em tudo? Temos uma grande oportunidade de fazer muito trabalho bom, tanto para nossos problemas sociais, desigualdade em particular, e para o ambiente, particularmente aquecimento global. É uma tecnologia muito poderosa que, nas mãos certas e com a governança correta, poderia fazer coisas fantásticas. Me preocupa um pouco o fato de que não estamos fazendo isso, estamos perdendo a oportunidade. O motivo de a ética ser tão importante é exatamente porque a aplicação correta dessa tecnologia precisará de um projeto geral sobre a nossa sociedade. Gosto de chamá-lo de “projeto humano”. O que a sociedade irá querer. Qual futuro queremos deixar para as próximas gerações? Estamos preocupados com outras coisas, como usar IA para gerar mais dinheiro, basicamente.
E os direitos dos robôs? Deveríamos estar pensando nisso? [Risos]. Não, isso é uma piada. Você daria direitos à sua lavadora de louças? É uma peça de engenharia. É um bom entretenimento [falar de direito dos robôs], podemos brincar sobre isso, mas não falemos de Star Wars.
O sr. é crítico em relação à ficção científica que trata do fim do mundo por meio de IA ou superinteligência. Não vê a ideia de Nick Bostrom como uma possibilidade? Acho que as pessoas têm jogado com alguns truques. Esses são truques que ensinamos a alunos de filosofia no primeiro ano. O truque é falar sobre “possibilidade” e é exatamente essa a palavra que usam. Deixe-me dar um exemplo: imagine que eu compre um bilhete de loteria. É possível que eu ganhe? Claro. Compro outro bilhete de outra loteria. É possível que eu ganhe da segunda vez? Sim, mas não vai acontecer. É improvável, é insignificantemente possível. Esse é o tipo de racionalização feita por Nick Bostrom. “Ah! Mas você não pode excluir a possibilidade…” Não, não posso. A IA descrita na singularidade e na superinteligência de Nick Bostrom não é impossível. Concordo. Significa que é possível? Não. Da mesma forma que é possível que uma civilização extraterrestre chegue aqui, domine e escravize a humanidade. Impossível? Hmmm. Não. Vamos nos planejar para o caso de isso acontecer? Só pode ser piada.
A IA é uma força para o bem? Acho que sim. Como a maioria das tecnologias que já desenvolvemos são. Quando falamos da roda, alfabeto, computadores, eletricidade… São todas coisas boas. A internet. É tudo coisa boa. Podemos usar para algo ruim? Absolutamente. Sou mais otimista em relação à tecnologia e menos em relação à humanidade. Acho que faremos uma bagunça com ela. Por isso, discussões como a do Nick Bostrom, singularidade, etc. não são simplesmente engraçadas. Elas distraem, e isso é sério. Conforme falamos, temos 700 milhões de pessoas sem acesso a água limpa que poderiam usar IA para ter uma chance. E você realmente quer se preocupar com algum Exterminador do Futuro? Skynet? Eticamente falando, é irresponsável. Pare de ver Netflix e caia na real.
Reportagem: Raphael Hernandes/ Edição: Camila Marques, Eduardo Sodré, Roberto Dias / Ilustrações e infografia: Carolina Daffara
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