Qual o tamanho da pandemia do novo coronavírus? (Estadão)

estadao.com.br

Com mais de 300 mil mortes confirmadas no mundo, espalhadas por todos os continentes, a covid-19 já é mais letal que desastres naturais, atentados terroristas e guerras

Renato Vasconcelos e Paulo Beraldo

15 de maio de 2020 | 05h00

Apandemia do novo coronavírus já tem envergadura de desastre. Com mais de 300 mil mortes confirmadas até esta quinta-feira, 14, a covid-19 já matou mais pessoas do que guerras, desastres naturais e atentados terroristas que marcaram a história. Apesar da letalidade da doença, uma grande quantidade de pessoas, incluindo líderes mundiais, continuam a minimizar ou negar a pandemia – que continua a fazer vítimas diárias em todos os continentes.

Para o professor de história da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Malaia, o quanto um evento trágico impressiona alguém depende de fatores como a duração, a proximidade de quem morre e a distância física do fenômeno em si. “Muitas mortes em um período curto também tendem a impressionar mais. No caso de uma pandemia, as mortes diárias vão diluindo o sentimento da tragédia, a não ser para aqueles que perdem pessoas próximas”, explica o pesquisador, que coordena um projeto de pesquisa sobre a gripe espanhola no Brasil, o ‘Mais História, por favor!’.

Segundo Malaia, a normalização da morte nos discursos de autoridades como o presidente da República acaba reforçando o sentimento de conformação de parte da população. Olhando para o passado, vê semelhanças na forma como o Brasil lidou com a gripe espanhola. “O governo brasileiro foi muito criticado na época por setores da imprensa por demorar a tomar medidas, principalmente no Rio de Janeiro, então capital federal, quando já se sabia dos casos”, diz.

Imagem aérea mostra o dano causado pelo tsunami na cidade turística de Phuket, na Tailândia, em 26 de dezembro de 2004Reuters

O número de mortes pelo mundo já ultrapassou qualquer desastre natural da história recente. O tsunami de 2004, que varreu países banhados pelo Oceano Índico e considerado o mais mortal da história, vitimou cerca de 230 mil pessoas. O cenário não é muito diferente se observados os contextos regionais e nacionais.


MAIS BAIXAS QUE OS CIVIS DO IRAQUE

Soldado americano observa a derrubada da estátua de Saddam Hussein no centro de Bagdá, em 9 de abril de 2003Goran Tomasevic/Reuters

Na Europa, continente com mais mortos até o momento, somados os quatro países mais afetados pela pandemia – Reino Unido, Itália, França e Espanha – o número de vítimas é maior do que o total de civis mortos nos últimos dez anos da Guerra do Iraque (2009-2019).


EUA

PIOR QUE O VIETNÃ

Corpos de soldados americanos mortos na Batalha do vale Ia Drang, primeira grande derrota do país no Vietnã, em 15 de novembro de 1965Neil Sheehan/The New York Times

Nos Estados Unidos, o número de vítimas do novo coronavírus entre fevereiro e maio – menos de 120 dias – já é maior do que o de militares americanos mortos na Guerra do Vietña (58 mil), que durou 20 anos.

QUASE 30 VEZES O 11 DE SETEMBRO

Equipe de resgate retira homem de uma das torres do World Trade Center, em Nova York, logo após o atentado de 11 de setembro de 2001Shannon Stapleton/Reuters

Seriam necessários mais de 28 atentados iguais aos de 11 de setembro de 2001, que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, para igualar o número de mortos pela covid-19 nos EUA. Já o Estado de Nova York, palco da catástrofe, precisaria presenciar mais de 9 atentados para igualar o número de mortos pela pandemia.


MAIS DE 100 GUERRAS

Parentes de soldados argentinos mortos na Guerra das Malvinas visitam cemitério na ilha pela primeira vez, em 19 de março de 1991Reuters

O Reino Unido, que tomou o posto da Itália de país mais afetado pela pandemia no continente, teria que lutar mais de 130 Guerras das Malvinas para ter o mesmo número de baixas provocadas pelo coronavírus. Se contarmos o número total de mortos na guerra (britânicos e argentinos), seriam necessários mais de 36 conflitos idênticos ao disputado no Atlântico sul.


CUSTO MAIOR QUE A INDEPENDÊNCIA

Quadro retrata a Batalha de San MartinoLuigi Norfini

A Segunda Guerra de Independência da Itália, iniciada em 1859, foi o último episódio no processo de unificação do país. Estima-se que mais de 12 mil vidas foram perdidas durante o conflito, o que equivale a menos da metade das vítimas da pandemia.


1500 ANOS DE TERRORISMO

Mascarados, guerrilheiros do ETA leem anúncio ao vivo na televisão espanhola em 18 de fevereiro de 2004Vincent West/Reuters

Na Espanha, as vítimas da covid-19 somam um número 30 vezes maior do que os mortos em atentados promovidos pela Pátria Basca e Liberdade (ETA). Em 50 anos de atividade, as ações do grupo terrorista vitimaram 584 pessoas. Caso ainda existisse e mantivesse a mesma média de letalidade, o ETA só conseguiria igualar o número de mortes provocadas pela pandemia em 1.586 anos de terrorismo.


ATENTADOS DO ISIS EM PARIS

Brigadistas prestam socorro a feridos perto da boate Bataclan, em 13 de novembro de 2015Christian Hartmann/Reuters

Comparativamente, os mortos pela covid-19 na França correspondem a, aproximadamente, 300 ataques terroristas iguais ao que ocorreu na boate Bataclan, em 25 de novembro de 2015, quando o grupo jihadista Estado Islâmico (ISIS) fez um de seus mais famosos atentados até então.


BRASIL E SÃO PAULO

No caso brasileiro, os mais de 13 mil mortos fazem desastres como o de Brumadinho ficarem pequenos. Teriam que ter ocorrido 52 acidentes iguais ao da cidade mineira para alcançar a mortalidade. O mesmo pode ser dito do massacre do Carandiru. Seriam precisas 122 chacinas para que o número de mortos se igualasse ao do país. Já São Paulo teria que lutar quatro Revoluções Constitucionalistas para igualar as baixas.

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

Soldados paulistas combateram, com armamento precário, as poderosas colunas inimigas. Reprodução feita no dia 02 de junho de 2013, dos originais publicados pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo’ durante a cobertura da Revolução Constitucionalista de 1932ARQUIVO/AE
Os corpos dos detentos mortos há dois dias são acondicionados de salas e corredores do IML (Instituto Médico Legal)EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO
Helicóptero do Corpo de Bombeiros  e agentes da defesa civil trabalham no resgate dos corpos das vítimas encontrados em um ônibus de funcionários da VALE na região onde ficavam os escritórios da empresa em BrumadinhoWILTON JUNIOR/ ESTADÃO

REVOLUÇÃO TEOCRÁTICA DO IRÃ

Apoiadores do aiatolá Khomeini mostra sua imagem em Teerã, no Irã, durante a revolução islâmica de 1979REUTERS

Na Ásia, onde a pandemia começou, a mortalidade também alcançou níveis históricos. O número de mortos no Irã é duas vezes superior ao número de mortos da Revolução Teocrática que mudou o regime do país em 1979.


EXÉRCITO DE TERRACOTA

Imagem de parte do Exército de Soldados de Terracota de Xian, na ChinaLudovic Marin/ AFP

Na China, o número de mortos sepultados no país já é o equivalente a metade das estátuas do Exército de Terracota, enterradas no túmulo do imperador Qin Shi Huang.


Expediente

Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Editor de Internacional Cristiano Dias / Reportagem Renato Vasconcelos, Rodrigo Turrer e Paulo Beraldo / Edição de fotografia Sérgio Neves / Foto da capa Juan Carlos Ulate/Reuters / SEO Brenda Zacharias / Designer multimídia Lucas Almeida

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