Perdão e reconciliação devem fazer parte de nossos kits de sobrevivência

Renzo Taddei – 19 de março de 2020

Estão todas e todos fazendo os arranjos necessários para o período difícil que começou. Uma sugestão é que, na lista de coisas a serem providenciadas, entre o álcool gel e o papel higiênico, seja inserido algo que, parece-me, é extremamente importante, mas pouca gente tem pensado nisso: é hora de resolver aquela briga que fez com que parentes estejam há tempos sem se falar; é hora de deixar o orgulho de lado e perdoar o pai, a mãe, a avó, o avô, a irmã, o irmão, o filho, a filha, amigos, vizinhos, e quem mais for, com quem houve desentendimento, não importa qual seja a causa da questão.    

Não sei se as pessoas deram-se conta do que vem por aí. Vou colocar em números, e você faça a sua conta. Hoje eu tenho 2600 amizades no Facebook. Se as projeções das autoridades médicas estiverem corretas, 80% serão contaminados: 2080 amizades. Se repetirmos a história da Itália, cerca de 8% irá morrer: 166 amizades. Talvez eu tenha relação efetivamente pessoal com cerca de 1/3 deste grupo: 55 pessoas. Adicione-se a isso que a maioria das pessoas com mais de 60 anos que eu conheço não possuem conta do Facebook. Estimando de forma grosseira, talvez sejam mais umas 100 pessoas. Os dados chineses sugerem que para a faixa etária de 60 a 69 anos, a mortalidade média é 4,6%; 70 a 79, 9,8%, 80 e acima, 18%. Estimando uma média de 10%, das cem pessoas que mencionei, provavelmente 10 irão morrer. Somando com as 55 que mencionei acima, o resultado é 65.

A questão que se impõe é: estou preparado para que 65 pessoas do meu círculo afetivo morram nos próximos dois meses?

Não se trata do número, dos percentuais. Há um grupo bem menor de pessoas com quem estou afetivamente vinculado de forma visceral, e onde alguém certamente irá morrer.

Infelizmente nosso mundo passou os últimos século e meio pregando o produtivismo e a meritocracia, transformando nossa percepção do corpo e da vida de modo que passássemos a vê-los como recursos produtivos. O ocidente e seus satélites (como o Brasil) ficaram mais afluentes, e ao mesmo tempo imensamente menos capazes de dar sentido à experiência da morte. Olhe pra dentro da universidade e veja onde, ali, há algo que prepare alguém para a morte. Talvez a única coisa que se encontre é, na antropologia, a informação que praticamente todos os povos não ocidentalizados do planeta tem filosofias, éticas e pedagogias para a morte. São menos afluentes, mas seu contexto cultural os dá ferramentas para que possam, se souberem usá-las bem, ter uma boa morte. A própria estranheza causada pela expressão “boa morte” nos mostra o quão despreparados estamos para o que vem aí. 

Não há tempo para grandes revoluções filosófico-existenciais agora. O que há é tempo para que o indivíduo pegue o telefone, ligue para o pai, mãe, filho, etc. com quem não fala mais ou de quem guarda emoções apodrecidas, e resolva a questão. E a resolução não passa por reascender a briga, mas pelo perdão. É preciso fazer isso, por atacado, antes que seja tarde demais. Não sabemos morrer, mas pelo menos podemos presentear-nos, uns aos outros, com a possibilidade de que se morra em paz.

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