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Brazil police push into slums in Rio (Washington Post)

By Associated PressPublished: March 30

RIO DE JANEIRO — About 1,000 Brazilian police officers have begun invading a massive complex of slums near Rio de Janeiro’s international airport, the latest impoverished area to be targeted for the government’s “pacification” program.

The security effort began in 2008 and is meant to help secure Rio before this year’s World Cup and the 2016 Olympics.

Armored personnel carriers on loan from the Navy were used during the push into the Mare complex of shantytowns before dawn Sunday. Army soldiers are expected to start patrolling the area in the coming days.
Mare has been dominated by drug gangs for decades. In recent months, they have attacked police outposts in other slums, a direct challenge to security ahead of Brazil’s big events.

To date, there have been 37 police “pacification” outposts created in Rio.

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Entrevista sobre empreendedorismo e pacificação (Cirandas.net)

11 de Março de 2013, por Celso Alexandre Souza de Alvear

No início de março a jornalista Bruna Cerdeira do portal das UPPs me pediu uma entrevista sobre empreendedorismo e pacificação, devido a nosso projeto RioEcoSol. Quando liguei para saber se ela tinha recebido minha resposta, ela disse que não teve como usá-la, pois demorei muito (acho que demorei uns 3 dias pra responder) e que já tinha feito a matéria. Mas acho que minha resposta não agradou muito ela não… Pedi para ela me informar quando entrasse no ar, porém até hoje não tive resposta e não vi nada no site da upps. Assim, estou publicando minha resposta. Acho importante desmistificar um pouco essa visão acrítica que depois da pacificação aumentou o empreendedorismo nas favelas. Abaixo minhas respostas:

Repórter: Fui informada que o senhor foi o responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas: Cidade de Deus, Complexo do Alemão, Manguinhos e Santa Marta.

Na verdade, não fui responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas, mas sim pelo livro  resultante da pesquisa sobre economia solidária e economia popular nas 4 favelas (conhecida como RioEcoSol). Diferentemente da maior parte das abordagem de empreendedorismo, que prezam pela competição e pela individualidade dos empreendimentos (sob uma ótica capitalista de quanto mais lucro melhor), a economia solidária preza por uma relação de trabalho sem chefes e empregados (numa cooperativa todos os trabalhadores são donos do empreendimento) e numa lógica de cooperação e solidariedade entre os empreendimentos e entre esses e seu território.

De qualquer jeito, espero que possa te ajudar com sua pesquisa. Seguem minhas respostas.

1) Como a pacificação está ajudando a transformar as comunidades em ambientes favoráveis ao empreendedorismo e a fomentar o consumo dos produtos dos negócios locais pelos moradores?

O programa de pacificação ajudou na vida dos moradores e dos empreendimentos dessas favelas com a possibilidade de um transito mais livre no território e com uma diminuição de uma estigmatização negativa dessas favelas e dos empreendimentos localizados nelas (principalmente aqueles que vendem para pessoas de fora de suas favelas). Porém, com a repressão da polícia a diversas atividades culturais na favela (como no caso dos bailes funks), muitos empreendimentos relatam uma grande diminuição de suas vendas, pois essas atividades culturais geravam uma dinâmica econômica endógena. Outro problema é que muitos empreendimentos relatam que, com o programa de pacificação, muitos empreendimentos familiares vêm sofrendo coerção para se formalizarem (alguns empreendimentos populares, familiares, ou coletivos não tem capacidade para se formalizarem no momento).

Por fim, com o livre transito nesses territórios, a tendência é que os grandes empresários entrem nesses territórios acabando com todo o comércio local (assim como os de Barra/Jacarepaguá tem feito na Cidade de Deus, de botafogo e da zona sul estão fazendo no Santa Marta etc.). Existem vários exemplos de rádios comunitárias que foram fechadas depois da pacificação e de tvs comunitárias que fecharam pois as teves a cabo não tiveram interessem em colocar na grade. No alemão, também temos o exemplo de um empreendedor que comercializava internet (de forma regular e legal) antes da pacificação, mas que agora, com a entrada de velox, tem dificuldades para competir com essas grandes empresas. A pergunta seria então quais estratégias podem evitar a morte desses empreendimentos locais? Consideramos que só com políticas públicas e investimento do Estado pode-se evitar isso (e não com programas como pretendem casar a demanda desses territórios com o que o mercado pode ofertar). Uma política que deveria ser mais estimulado são os bancos comunitários e as moedas sociais. Isso porque, com a moeda social, por exemplo, você favorece a que se compre no comércio local, por conta do desconto.

2) Qual faixa etária (jovens, adultos) está se tornando a principal característica do empreendedorismo nas comunidades?

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

3) Que tipo de empreendimento mais cresce nessas 4 comunidades pacificadas e qual o perfil do empreendedor? (se tiver um dado mais geral, que englobe outras comunidades pacificadas)

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

4) Que cursos e/ou oficinas podem contribuir para a formação empresarial dos moradores com vocação para abrir seus próprios negócios?

Além de formações técnicas que possibilitem melhorar seus produtos e gerirem melhor seus empreendimentos, consideramos fundamental formações que desenvolvam a consciência crítica desses empreendedores, sob uma ótica de economia solidária, que permitam refletir seu empreendimento em relação a seu território. Sobre formação empresarial, não fizemos nenhuma pesquisa.

UPP: o poder simplesmente mudou de mãos? (Le Monde Diplomatique Brasil)

REESTRUTURAÇÃO URBANA NO RIO DE JANEIRO

O coronel Robson Rodrigues, da Polícia Militar do Rio, uma das cabeças pensantes do projeto de pacificação, reconhece de bom grado: “Realmente são as Olimpíadas que ditam nossa escolha. Eu diria até que, sem esse evento, a pacificação nunca teria acontecido”

Por Anne Vigna – 07 de Janeiro de 2013

06845668(Helicóptero da Polícia Militar do Rio de Janeiro durante a operação para instalação de UPP na favela da Rocinha. Ilustração: Rafael Andrade / Folhapress)

A cena poderia acontecer em qualquer bairro da cidade: uma patrulha da polícia que desembarca com estrondo e piora ainda mais o engarrafamento. Mas é preciso estar numa favela do Rio de Janeiro para observar uma jovem tentando acalmar a polícia e ouvindo como resposta, aos gritos, que era melhor “não insistir” porque, afinal de contas, “quem manda aqui somos nós”. Desde 2009, os moradores da favela do Pavão dizem: “O dono do morro mudou”. Os traficantes deram lugar à polícia; as armas e o poder simplesmente mudaram de mãos. Trata-se aqui do resultado mais flagrante de um programa que data de 2008: a “pacificação” das favelas. Mas seu impacto nem sempre é negativo.

Os donos do morroé o título que a equipe do Laboratório de Análise da Violência, dirigido pelo sociólogo Ignácio Cano, escolheu para seu estudo (publicado em julho de 2012) sobre a pacificação no Rio.1 Os trabalhos mostram que, mesmo incompleto e imperfeito, o dispositivo ofereceria resultados incontestáveis em matéria de segurança. “Nas treze primeiras favelas pacificadas no Rio, o número de mortes violentas diminuiu em 70% e as que eram provocadas por intervenções policiais estão agora próximas de zero”, explica o sociólogo. Crítico de longa data da violência das forças da ordem, Cano não poderia ser acusado de idolatria securitária. E seu relatório não poupa os excessos policiais e as escolhas estratégicas duvidosas: “Teria sido bem mais inteligente pacificar em primeiro lugar as favelas mais violentas. Mas a escolha foi feita em função dos grandes eventos esportivos, não da realidade da criminalidade”. O coronel Robson Rodrigues, da Polícia Militar do Rio, uma das cabeças pensantes do projeto de pacificação, reconhece isso de bom grado: “Realmente são as Olimpíadas que ditam nossa escolha. Eu diria até que, sem esse evento, a pacificação nunca teria acontecido”.

A pacificação nasceu do que se chama no Rio uma “conjuntura excepcional”: a cidade ganhou a organização das Olimpíadas e, pela primeira vez, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do estado, Sérgio Cabral, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, selaram uma aliança política. Há muito tempo a luta contra as facções criminosas do Rio não produzia quase nenhum resultado, apenas um número cada vez mais elevado de mortos, particularmente jovens negros. Um pequeno grupo de policiais foi então enviado a Boston, em 2005, para analisar a operação Cease fire (“Cessar fogo”), que acontecia nos bairros pobres (e portanto negros) da cidade. A ideia: criar uma unidade de polícia próxima, ao contrário das ideias que tinham sido defendidas pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, e sua “tolerância zero” entre 1994 e 2001. Em Boston e no Rio, a polícia concentrou seus esforços contra as armas e renunciou a interferir no tráfico de drogas, mesmo que a tarefa se revelasse muito mais árdua no Brasil, onde era preciso também recuperar o acesso aos territórios onde a polícia só se aventurava esporadicamente numa efusão de violência.

A primeira operação ocorreu em 2008: foi uma agência de comunicação que criou o termo “pacificação” (que não era utilizado em Boston). Depois disso, alguns símbolos permaneceram: a polícia de elite do Batalhão de Operações Especiais (Bope) – que se tornou célebre pelo filme Tropa de elite (2007) – fincou sua bandeira no meio do território, antes que uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) fosse instalada. Uma maneira de deixar bem clara a “mudança de proprietários”. Com a preocupação de evitar a violência, as operações eram comunicadas com antecedência a fim de que os traficantes e as armas pudessem desaparecer. A maioria das pacificações aconteceu, então, sem que se atirasse uma só bala.

Uma vez que a UPP é estabelecida, entra em ação a segunda fase da pacificação: a UPP social, “um componente essencial sem o qual a política de segurança não pode funcionar”, insiste o coronel Rodrigues. O objetivo é instalar serviços públicos e criar equipamentos destinados a dinamizar a economia local. “No papel, o projeto é maravilhoso, mas na prática há poucos meios e nenhuma democracia”, deplora a urbanista Neiva Vieira da Cunha. Censuram a cidade por construir teleféricos custosos nos morros, ao passo que os moradores pedem em primeiro lugar hospitais e serviços de saneamento básico.

No entanto, algumas mudanças sociais e econômicas já são visíveis. Para Cano, esse é inclusive um dos efeitos mais positivos da pacificação: “A diminuição da estigmatização das favelas é real; os moradores não sentem mais a necessidade de omitir seu endereço no momento de procurar emprego”. Os moradores das favelas pacificadas finalmente obtêm empregos formais. Será o suficiente para afastar os jovens do tráfico de drogas? “O tráfico não é apenas questão de dinheiro, mas também de poder. Ao tirar as armas, a pacificação derrubou os bastiões e o tráfico perdeu muito de seu atrativo”, estima Rubem César, diretor da ONG Viva Rio, que trabalha há vinte anos nas favelas. Um atrativo que a polícia ainda não possui, principalmente quando ela se comporta, como é por vezes o caso, num “terreno conquistado” e exerce a mesma forma de controle social autoritário.

Anne Vigna é jornalista.

1 . Laboratório de Ánalise da Violência, “Os donos do morro: uma avaliação exploratória do impacto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro”. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012