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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

Algoritmos das rede sociais promovem preconceito e desigualdade, diz matemática de Harvard (BBC Brasil)

AlgoritmosPara Cathy O’Neil, por trás da aparente imparcialidade ddos algoritmos escondem-se critérios nebulosos que agravam injustiças. GETTY IMAGES

Eles estão por toda parte. Nos formulários que preenchemos para vagas de emprego. Nas análises de risco a que somos submetidos em contratos com bancos e seguradoras. Nos serviços que solicitamos pelos nossos smartphones. Nas propagandas e nas notícias personalizadas que abarrotam nossas redes sociais. E estão aprofundando o fosso da desigualdade social e colocando em risco as democracias.

Definitivamente, não é com entusiasmo que a americana Cathy O’Neil enxerga a revolução dos algoritmos, sistemas capazes de organizar uma quantidade cada vez mais impressionante de informações disponíveis na internet, o chamado Big Data.

Matemática com formação em Harvard e Massachussetts Institute of Technology (MIT), duas das mais prestigiadas universidades do mundo, ela abandonou em 2012 uma bem-sucedida carreira no mercado financeiro e na cena das startups de tecnologia para estudar o assunto a fundo.

Quatro anos depois, publicou o livro Weapons of Math Destruction (Armas de Destruição em Cálculos, em tradução livre, um trocadilho com a expressão “armas de destruição em massa” em inglês) e tornou-se uma das vozes mais respeitadas no país sobre os efeitos colaterais da economia do Big Data.

A obra é recheada de exemplos de modelos matemáticos atuais que ranqueiam o potencial de seres humanos como estudantes, trabalhadores, criminosos, eleitores e consumidores. Segundo a autora, por trás da aparente imparcialidade desses sistemas, escondem-se critérios nebulosos que agravam injustiças.

É o caso dos seguros de automóveis nos Estados Unidos. Motoristas que nunca tomaram uma multa sequer, mas que tinham restrições de crédito por morarem em bairros pobres, pagavam valores consideravelmente mais altos do que aqueles com facilidade de crédito, mas já condenados por dirigirem embriagados. “Para a seguradora, é um ganha-ganha. Um bom motorista com restrição de crédito representa um risco baixo e um retorno altíssimo”, exemplifica.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Há séculos pesquisadores analisam dados para entender padrões de comportamento e prever acontecimentos. Qual é novidade trazida pelo Big Data?

Cathy O’Neil – O diferencial do Big Data é a quantidade de dados disponíveis. Há uma montanha gigantesca de dados que se correlacionam e que podem ser garimpados para produzir a chamada “informação incidental”. É incidental no sentido de que uma determinada informação não é fornecida diretamente – é uma informação indireta. É por isso que as pessoas que analisam os dados do Twitter podem descobrir em qual político eu votaria. Ou descobrir se eu sou gay apenas pela análise dos posts que curto no Facebook, mesmo que eu não diga que sou gay.

Ambiente de trabalho automatizado‘Essa ideia de que os robôs vão substituir o trabalho humano é muito fatalista. É preciso reagir e mostrar que essa é uma batalha política’, diz autora. GETTY IMAGES

A questão é que esse processo é cumulativo. Agora que é possível descobrir a orientação sexual de uma pessoa a partir de seu comportamento nas redes sociais, isso não vai ser “desaprendido”. Então, uma das coisas que mais me preocupam é que essas tecnologias só vão ficar melhores com o passar do tempo. Mesmo que as informações venham a ser limitadas – o que eu acho que não vai acontecer – esse acúmulo de conhecimento não vai se perder.

BBC Brasil – O principal alerta do seu livro é de que os algoritmos não são ferramentas neutras e objetivas. Pelo contrário: eles são enviesados pelas visões de mundo de seus programadores e, de forma geral, reforçam preconceitos e prejudicam os mais pobres. O sonho de que a internet pudesse tornar o mundo um lugar melhor acabou?

O’Neil – É verdade que a internet fez do mundo um lugar melhor em alguns contextos. Mas, se colocarmos numa balança os prós e os contras, o saldo é positivo? É difícil dizer. Depende de quem é a pessoa que vai responder. É evidente que há vários problemas. Só que muitos exemplos citados no meu livro, é importante ressaltar, não têm nada a ver com a internet. As prisões feitas pela polícia ou as avaliações de personalidade aplicadas em professores não têm a ver estritamente com a internet. Não há como evitar que isso seja feito, mesmo que as pessoas evitem usar a internet. Mas isso foi alimentado pela tecnologia de Big Data.

Por exemplo: os testes de personalidade em entrevistas de emprego. Antes, as pessoas se candidatavam a uma vaga indo até uma determinada loja que precisava de um funcionário. Mas hoje todo mundo se candidata pela internet. É isso que gera os testes de personalidade. Existe uma quantidade tão grande de pessoas se candidatando a vagas que é necessário haver algum filtro.

BBC Brasil – Qual é o futuro do trabalho sob os algoritmos?

O’Neil – Testes de personalidade e programas que filtram currículos são alguns exemplos de como os algoritmos estão afetando o mundo do trabalho. Isso sem mencionar os algoritmos que ficam vigiando as pessoas enquanto elas trabalham, como é o caso de professores e caminhoneiros. Há um avanço da vigilância. Se as coisas continuarem indo do jeito como estão, isso vai nos transformar em robôs.

Reprodução de propaganda no Facebook usada para influenciar as eleições nos EUAReprodução de propaganda no Facebook usada para influenciar as eleições nos EUA: ‘não deveriam ser permitidos anúncios personalizados, customizados’, opina autora

Mas eu não quero pensar nisso como um fato inevitável – que os algoritmos vão transformar as pessoas em robôs ou que os robôs vão substituir o trabalho dos seres humanos. Eu não quero admitir isso. Isso é algo que podemos decidir que não vai acontecer. É uma decisão política. Essa ideia de que os robôs vão substituir o trabalho humano é muito fatalista. É preciso reagir e mostrar que essa é uma batalha política. O problema é que estamos tão intimidados pelo avanço dessas tecnologias que sentimos que não há como lutar contra.

BBC Brasil – E no caso das companhias de tecnologia como a Uber? Alguns estudiosos usam o termo “gig economy” (economia de “bicos”) para se referir à organização do trabalho feita por empresas que utilizam algoritmos.

O’Neil – Esse é um ótimo exemplo de como entregamos o poder a essas empresas da gig economy, como se fosse um processo inevitável. Certamente, elas estão se saindo muito bem na tarefa de burlar legislações trabalhistas, mas isso não quer dizer que elas deveriam ter permissão para agir dessa maneira. Essas companhias deveriam pagar melhores remunerações e garantir melhores condições de trabalho.

No entanto, os movimentos que representam os trabalhadores ainda não conseguiram assimilar as mudanças que estão ocorrendo. Mas essa não é uma questão essencialmente algorítmica. O que deveríamos estar perguntando é: como essas pessoas estão sendo tratadas? E, se elas não estão sendo bem tratadas, deveríamos criar leis para garantir isso.

Eu não estou dizendo que os algoritmos não têm nada a ver com isso – eles têm, sim. É uma forma que essas companhias usam para dizer que elas não podem ser consideradas “chefes” desses trabalhadores. A Uber, por exemplo, diz que os motoristas são autônomos e que o algoritmo é o chefe. Esse é um ótimo exemplo de como nós ainda não entendemos o que se entende por “responsabilidade” no mundo dos algoritmos. Essa é uma questão em que venho trabalhando há algum tempo: que pessoas vão ser responsabilizadas pelos erros dos algoritmos?

BBC Brasil – No livro você argumenta que é possível criar algoritmos para o bem – o principal desafio é garantir transparência. Porém, o segredo do sucesso de muitas empresas é justamente manter em segredo o funcionamento dos algoritmos. Como resolver a contradição?

O’Neil – Eu não acho que seja necessária transparência para que um algoritmo seja bom. O que eu preciso saber é se ele funciona bem. Eu preciso de indicadores de que ele funciona bem, mas isso não quer dizer que eu necessite conhecer os códigos de programação desse algoritmo. Os indicadores podem ser de outro tipo – é mais uma questão de auditoria do que de abertura dos códigos.

A melhor maneira de resolver isso é fazer com que os algoritmos sejam auditados por terceiros. Não é recomendável confiar nas próprias empresas que criaram os algoritmos. Precisaria ser um terceiro, com legitimidade, para determinar se elas estão operando de maneira justa – a partir da definição de alguns critérios de justiça – e procedendo dentro da lei.

Cathy O'NeilPara Cathy O’Neil, polarização política e fake news só vão parar se “fecharmos o Facebook”. DIVULGAÇÃO

BBC Brasil – Recentemente, você escreveu um artigo para o jornal New York Times defendendo que a comunidade acadêmica participe mais dessa discussão. As universidades poderiam ser esse terceiro de que você está falando?

O’Neil – Sim, com certeza. Eu defendo que as universidades sejam o espaço para refletir sobre como construir confiabilidade, sobre como requerer informações para determinar se os algoritmos estão funcionando.

BBC Brasil – Quando vieram a público as revelações de Edward Snowden de que o governo americano espionava a vida das pessoas através da internet, muita gente não se surpreendeu. As pessoas parecem dispostas a abrir mão da sua privacidade em nome da eficiência da vida virtual?

O’Neil – Eu acho que só agora estamos percebendo quais são os verdadeiros custos dessa troca. Com dez anos de atraso, estamos percebendo que os serviços gratuitos na internet não são gratuitos de maneira alguma, porque nós fornecemos nossos dados pessoais. Há quem argumente que existe uma troca consentida de dados por serviços, mas ninguém faz essa troca de forma realmente consciente – nós fazemos isso sem prestar muita atenção. Além disso, nunca fica claro para nós o que realmente estamos perdendo.

Mas não é pelo fato de a NSA (sigla em inglês para a Agência de Segurança Nacional) nos espionar que estamos entendendo os custos dessa troca. Isso tem mais a ver com os empregos que nós arrumamos ou deixamos de arrumar. Ou com os benefícios de seguros e de cartões de crédito que nós conseguimos ou deixamos de conseguir. Mas eu gostaria que isso estivesse muito mais claro.

No nível individual ainda hoje, dez anos depois, as pessoas não se dão conta do que está acontecendo. Mas, como sociedade, estamos começando a entender que fomos enganados por essa troca. E vai ser necessário um tempo para saber como alterar os termos desse acordo.

Aplicativo do Uber‘A Uber, por exemplo, diz que os motoristas são autônomos e que o algoritmo é o chefe. Esse é um ótimo exemplo de como nós ainda não entendemos o que se entende por “responsabilidade” no mundo dos algoritmos’, diz O’Neil. EPA

BBC Brasil – O último capítulo do seu livro fala sobre a vitória eleitoral de Donald Trump e avalia como as pesquisas de opinião e as redes sociais influenciaram na corrida à Casa Branca. No ano que vem, as eleições no Brasil devem ser as mais agitadas das últimas três décadas. Que conselho você daria aos brasileiros?

O’Neil – Meu Deus, isso é muito difícil! Está acontecendo em todas as partes do mundo. E eu não sei se isso vai parar, a não ser que fechem o Facebook – o que, a propósito, eu sugiro que façamos. Agora, falando sério: as campanhas políticas na internet devem ser permitidas, mas não deveriam ser permitidos anúncios personalizados, customizados – ou seja, todo mundo deveria receber os mesmos anúncios. Eu sei que essa ainda não é uma proposta realista, mas acho que deveríamos pensar grande porque esse problema é grande. E eu não consigo pensar em outra maneira de resolver essa questão.

É claro que isso seria um elemento de um conjunto maior de medidas porque nada vai impedir pessoas idiotas de acreditar no que elas querem acreditar – e de postar sobre isso. Ou seja, nem sempre é um problema do algoritmo. Às vezes, é um problema das pessoas mesmo. O fenômeno das fake news é um exemplo. Os algoritmos pioram a situação, personalizando as propagandas e amplificando o alcance, porém, mesmo que não existisse o algoritmo do Facebook e que as propagandas políticas fossem proibidas na internet, ainda haveria idiotas disseminando fake news que acabariam viralizando nas redes sociais. E eu não sei o que fazer a respeito disso, a não ser fechar as redes sociais.

Eu tenho três filhos, eles têm 17, 15 e 9 anos. Eles não usam redes sociais porque acham que são bobas e eles não acreditam em nada do que veem nas redes sociais. Na verdade, eles não acreditam em mais nada – o que também não é bom. Mas o lado positivo é que eles estão aprendendo a checar informações por conta própria. Então, eles são consumidores muito mais conscientes do que os da minha geração. Eu tenho 45 anos, a minha geração é a pior. As coisas que eu vi as pessoas da minha idade compartilhando após a eleição de Trump eram ridículas. Pessoas postando ideias sobre como colocar Hilary Clinton na presidência mesmo sabendo que Trump tinha vencido. Foi ridículo. A esperança é ter uma geração de pessoas mais espertas.

Inventário de fauna e flora em São Paulo surpreende pela alta biodiversidade (Pesquisa Fapesp)

08 de maio de 2017

Inventário de fauna e flora em São Paulo surpreende pela alta biodiversidadeSeis novas espécies de plantas foram descobertas, uma onça-pintada foi observada no limite sul do município e espécies típicas do Cerrado são intensificadas (foto:Rhamphasto toco/Anelisa Magalhães)

Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP – Em uma determinada área, do tamanho de 140 mil campos de futebol, é possível encontrar tucanos-toco (Ramphastos toco) do Cerrado, o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) – o maior primata brasileiro – e o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), animal endêmico da Mata Atlântica e em risco de extinção.

Há ainda seis espécies de plantas até então desconhecidas pela ciência, além de carismáticas capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), suçuaranas (Puma concolor capricornensis) e até mesmo uma onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas, contabilizando um total de 1.113 espécies da fauna e 4.768 da flora.

Os números são surpreendentes, principalmente se for levado em conta que a área em questão está no município de São Paulo. Há uma biodiversidade latente entre o cimento, o asfalto e as poucas áreas verdes, sobretudo nos cinturões verdes do Norte e do Sul da cidade. É o que concluiu o mais recente inventário de fauna e flora do município, divulgado pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA).

O esforço de fazer um inventário da biodiversidade da capital paulista reuniu servidores da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, instituição parceira do Programa BIOTA-FAPESP com o Projeto Atlas Ambiental.

O levantamento da fauna silvestre é feito desde 1993 e em 2016 foram incluídos dados sobre a flora pela primeira vez. A equipe obtém os dados a partir do levantamento primário em mais de 100 localidades (136 localidades em 2016) e por meio do atendimento de animais silvestres entregues à Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre da prefeitura. Os resultados incluem ainda registros cumulativos de mais de 20 anos de trabalho e alguns estudos realizados por pesquisadores parceiros.

No caso das plantas, foi feita uma compilação de diferentes fontes de dados, incluindo amostras de plantas herborizadas documentadas no Herbário Municipal, relatórios de vistorias técnicas do Herbário Municipal e referências bibliográficas como levantamentos florísticos ou fitossociológicos realizados no município desde 1911.

O que impressiona é a possibilidade de encontrar espécies novas e a resistência não só de espécies pouco exigentes ecologicamente, como as capivaras do rio Pinheiros, como daquelas que precisam de um ecossistema equilibrado para sobreviver.

É o caso de uma onça-pintada de quase 100 quilos que teve tranquilo andar captado, em janeiro de 2016, enquanto passeava pelo Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, limite sul da capital paulista. O flagrante foi feito por armadilhas fotográficas do Instituto Pró-Carnívoros, um parceiro do trabalho.

“Tanto o muriqui-do-sul, que ainda não tinha registro recente no município de São Paulo, quanto o sagui e a onça-pintada são espécies exigentes ecologicamente. A presença deles indica uma cadeia preservada, já que não suportam alterações ambientais. É surpreendente e, sem dúvida, uma boa notícia”, disse Anelisa Magalhães, servidora da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente que coordenou a parte de fauna do Inventário da Biodiversidade do Município de São Paulo – 2016, à Agência FAPESP.

Logo na estreia da pesquisa de flora no inventário foram registradas seis espécies desconhecidas pelos pesquisadores. Há ainda mais uma – árvore da família Lauraceae – sendo analisada como provavelmente nova. Todas elas estão relacionadas aos esforços de coleta realizados durante o projeto “Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo”, financiado pela FAPESP.

“A Leandra lapae D’El Rei Souza & Baumgratz, um arbusto da família Melastomataceae, só foi registrada até o presente momento a partir de uma coleta realizada em uma mata ao lado de Parelheiros”, disse Ricardo Garcia, curador do Herbário Municipal e responsável pela parte de flora do inventário.

Cerrado na metrópole

Fazer o levantamento da biodiversidade de uma megalópole como São Paulo de forma periódica tem justamente a função de acompanhar a evolução e alteração das espécies no município, assim como para servir de embasamento científico de políticas públicas.

“Com esse trabalho, ficamos sabendo tanto de espécies que eram documentadas historicamente em alguns locais da cidade e que desapareceram, como aquelas que surgiram. Isso ocorre por causa das intensas mudanças ambientais promovidas pela urbanização”, disse Magalhães.

O inventário mostra que tanto a flora como a fauna do Cerrado estão se tornando mais presentes. “O tucano-toco, por exemplo, é uma espécie comum no Cerrado e que está sendo registrada agora com maior frequência aqui”, disse.

Até mesmo a pomba asa-branca (Patagioenas picazuro) é um exemplo de colonização do ambiente urbano. Na década de 1990, ela era vista poucas vezes e em poucas épocas do ano, atualmente o animal se estabeleceu em toda a cidade. “Quando os habitatssão reduzidos pela urbanização e atividades humanas muitas espécies vão desaparecer enquanto outras vão se adaptar e aumentar suas populações”, disse Magalhães.

Com a flora não é diferente. Do total, 47 espécies foram registradas pela primeira vez na cidade depois de mais de 50 anos sem coletas. São, portanto, espécies que poderiam ser consideradas extintas, mas que foram reencontradas.

“Isto pode indicar tanto falta de coletas nesse intervalo de tempo como, também, que porções do território estão sendo reocupadas por espécies campestres, dadas as atuais condições ambientais. Dentre estas, 20 espécies ocorrem nos biomas Mata Atlântica e Cerrado”, disse Garcia.

Originalmente, os campos cerrados, matas, vegetação de várzea e campos alto-montanos eram os tipos de vegetação que cobriam o município de São Paulo. Apenas na área do Centro Histórico é que predominavam os campos mais secos (nos morros) e vegetação de várzea nas baixadas. Hoje, essas vegetações originais foram quase extintas por completo. Porém, observou-se uma intensificação também da flora típica do Cerrado nos últimos anos. No conjunto das 3.474 espécies vasculares nativas no município, 18 são consideradas como exclusivas do bioma Cerrado, sendo que cinco delas possuem registros recentes em ambientes naturais (não foram cultivadas).

O levantamento possibilitou outra constatação importante: os parques da cidade de São Paulo têm função essencial ao servirem como ponto de parada para aves. “Eles dão suporte para alimentação e descanso durante os deslocamentos das aves entre os fragmentos de mata. É o caso do Parque Ibirapuera, do Parque da Aclimação e do Parque Buenos Aires, que recebem a visita da araponga [Procnias nudicolis] durante a primavera, por exemplo. A malha de parques municipais, com sua miscelânea de vegetação nativa e exótica, tem maior relevância ecológica para as aves florestais e migratórias do que se supunha”, disse Magalhães.

A bióloga explica que, além da importância dos parques ser confirmada, há ainda necessidade de acompanhar a arborização urbana. “O que você escolhe para plantar na sua cidade vai influenciar na biodiversidade”, disse.

Ao longo dos 20 anos de realização do inventário, ele já serviu de base para compensação ambiental de grandes obras. “ No fim, isso tudo depende de decisões políticas, mas com o inventário podemos instrumentalizar as decisões”, disse.

Magalhães conta que nas obras do Rodoanel, trecho sul, por exemplo, foram criados por compensação ambiental quatro parques naturais, com base nas informações do inventário de fauna e flora. O mesmo ocorreu com a alteração da fiação elétrica da Eletropaulo, em áreas rurais, para um menor risco para a fauna, baseado nos casos de eletrocussão relatados pela Divisão de Fauna.

“Isso porque conseguimos provar que havia impacto e que animais estavam morrendo eletrocutados. Caso contrário, poderiam sempre falar que em São Paulo não tem bicho nem planta”, disse.

O Inventário da Biodiversidade do Município de São Paulo – 2016 está disponível em: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/pubbiodiversidademunsp2016.pdf.

Onde se escondem as poucas onças-pintadas que sobraram (Pesquisa Fapesp)

03 de março de 2017

Pesquisadores compõem retrato dos padrões de deslocamento do maior felino das Américas nos grandes biomas brasileiros. Na Mata Atlântica, restam apenas cerca de 300 indivíduos (foto: Eduardo Cesar/Revista Pesquisa FAPESP)

Peter Moon | Agência FAPESP – Restam apenas cerca de 300 onças-pintadas (Panthera onca) na Mata Atlântica. É muito, muito pouco. São inúmeras as razões para o desaparecimento eminente do maior felino das Américas ao longo do bioma que um dia se estendia desde o norte da Argentina, passando pelo Paraguai e Uruguai, até o Nordeste brasileiro.

A primeira e mais óbvia razão é que só restam 7% da Mata Atlântica original. A segunda, uma consequência direta, é que o pouco que sobrou é composto por áreas muito fragmentadas. Ou seja, as onças remanescentes precisam percorrer áreas muito maiores do que suas congêneres da Amazônia ou do Pantanal, por exemplo, para encontrar caça ou achar parceiros para cruzamento.

E como as áreas são muito fragmentadas, as andanças das onças na Mata Atlântica envolvem riscos cada vez mais frequentes de contato com humanos – o que envolve todo um leque de consequências letais para os grandes felinos. Elas viram alvo de caçadores, são atropeladas, são vítima da retaliação por parte de fazendeiros e pecuaristas ou perseguidas pela população em geral, que tem medo desses bichos.

Todas essas conclusões foram publicadas em novembro em um grande estudo internacional na Scientific Reports, da Nature. Entre os pesquisadores envolvidos no trabalho está o conservacionista Ronaldo Gonçalves Morato, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Atibaia (SP).

Em outro artigo, publicado no fim de dezembro, Morato e colaboradores vão além das conclusões do trabalho sobre as onças da Mata Atlântica para começar a compor um retrato dos padrões de deslocamento das onças-pintadas em cinco grandes biomas brasileiros – e os riscos que elas correm em cada um deles. O artigo foi publicado na revista PLoS ONE. A pesquisa teve apoio da FAPESP, por meio de uma bolsa de pesquisa, me nível de pós-doutorado no exterior, concedida a Morato para a realização no Smithsonian Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos.

“O objetivo da pesquisa foi verificar as condições de deslocamento e o tamanho da área de vida das onças-pintadas em cada um desses biomas brasileiros: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia, e também no norte da Argentina”, disse Morato.

Para a obtenção dos dados de deslocamento, entre 1998 e 2016 foram monitorados 44 indivíduos que haviam sido previamente capturados, sedados e neles colocado um colar especial dotado de localizador por satélite (GPS).

Foram estudados 21 indivíduos no Pantanal, 12 na Mata Atlântica, oito na Amazônia, um no Cerrado e dois na Caatinga. Foram amostrados 22 machos e 22 fêmeas. As idades estimadas variaram de 18 meses até 10 anos, sendo que a maioria das onças (41) era adulta, com mais de três anos.

O GPS dos colares foi programado para informar a localização dos animais a cada uma hora, 24 horas por dia. Os períodos de monitoramento variaram de 11 até 1.749 dias (média de 183 dias), enquanto que o número de localizações registradas por indivíduo variou de 53 até 11 mil (média de 2.264). O total de registros somou 81 mil localizações, a maior já realizada no estudo de onças.

“Os colares tinham baterias capazes de durar cerca de 500 dias de uso. Mas bem antes disso, geralmente com 400 dias de monitoramento, acionamos um dispositivo que permite a soltura automática do colar do pescoço do animal. A seguir, tentamos recuperar o colar para seu reúso, o que nem sempre é possível”, disse Morato. Em certos casos, mesmo que o colar seja encontrado, nem sempre continua em condições de uso.

“Sabemos se o animal morreu quando o sinal do GPS permanece na mesma localização por 24 horas. Neste caso, dispara um sinal automático. Foi o que aconteceu no Pantanal Norte em 2010, quando uma onça atacou e matou um pescador. Houve retaliação e algumas onças foram mortas na região. Suspeitamos que um dos animais mortos em nosso projeto tenha sofrido retaliação”, disse.

De acordo com Morato, cerca de 80% dos animais residiam na região de monitoramento. Os demais apresentaram padrões de deslocamento nômades ou estavam em dispersão.

Os machos exibiram as maiores áreas de vida – o território ocupado durante a vida de cada animal. É um resultado compatível com a hipótese de que a necessidade de maiores áreas por parte dos machos de espécies carnívoras está ligada à distribuição das fêmeas e à necessidade de maximizar as oportunidades reprodutivas.

“As onças com a maior área de vida foram as da Mata Atlântica, que muitas vezes precisam se aventurar por pastagens e campos cultivados para passar de um fragmento de floresta ao outro, correndo o risco de contato com humanos”, disse Morato.

Mobilidade limitada

Entre todos os animais, o do Cerrado mostrou necessidade de maior área de vida (1.268 km2). No Brasil, a onça com menor área de vida (36 km2) estava no Pantanal. Para efeito de comparação, a ilha de Santa Catarina tem 424 km2.

“Pela primeira vez conseguimos comparar os deslocamentos das onças nos diversos biomas. O próximo passo envolve saber como os animais se comportam nas diferentes estruturas e paisagens. Queremos verificar quais são os fatores que limitam a mobilidade das onças em cada bioma”, disse Morato.

Segundo o pesquisador, é importante saber o que limita os deslocamentos das onças, uma vez que a saúde do animal depende da sua variabilidade genética, que por sua vez depende da capacidade de os indivíduos encontrarem parceiros sexuais de outros grupos que não os familiares. É a mesma lógica que não indica o casamento entre primos, por exemplo.

O artigo Space Use and Movement of a Neotropical Top Predator: The Endangered Jaguar(http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0168176), de Ronaldo G. Morato e outros, publicado na PLoS One, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0168176.

O artigo A biodiversity hotspot losing its top predator: The challenge of jaguar conservation in the Atlantic Forest of South America(doi:10.1038/srep37147), publicado na Scientific Reports, pode ser lido em: www.nature.com/articles/srep37147.

Nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas (Pesquisa Fapesp)

05 de junho de 2017

Elton Alisson | Agência FAPESP – O nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas. No Brasil, contudo, onde mais de 60% da população vive em cidades costeiras, não há um estudo integrado da vulnerabilidade dos municípios litorâneos a este e a outros impactos decorrentes das mudanças climáticas, como o aumento da frequência e da intensidade de chuvas. Um estudo desse gênero possibilitaria estimar os danos sociais, econômicos e ambientais e elaborar um plano de ação com o intuito de implementar medidas adaptativas.

As conclusões são do relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sobre “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, lançado nesta segunda-feira (05/06) durante um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A publicação tem apoio da FAPESP e parte dos estudos nos quais se baseia são resultado do Projeto Metrópole e de outros projetos apoiados pela Fundação no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas, financiado pela Fundação e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A ideia do relatório foi mostrar o estado da arte sobre mudanças de clima e cidades costeiras, baseado em uma exaustiva revisão de publicações internacionais e nacionais sobre o tema, e também identificar lacunas no conhecimento para que os formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão no Brasil possam propor e implementar medidas de adaptação”, disse José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos autores e editores do relatório, à Agência FAPESP.

De acordo com dados do documento, entre 1901 e 2010 o nível médio do mar globalmente aumentou 19 centímetros – com variação entre 17 e 21 centímetros.

Entre 1993 e 2010, a taxa de elevação correspondeu a mais de 3,2 milímetros (mm) por ano – com variação entre 2,8 e 3,6 mm por ano.

No Brasil também há uma tendência de aumento do nível do mar nas regiões costeiras com algum grau de incerteza porque não há registros históricos contínuos e confiáveis, ponderam os autores.

“Ainda não conseguimos detectar o aumento do nível do mar no Brasil por conta das poucas observações existentes e de estudos de modelagem para avaliar os impactos. Mas já identificamos por meio de estudos regionais diversas cidades de médio e grande porte que apresentam alta exposição à elevação do nível relativo do mar e já têm sofrido os impactos desse fenômeno, particularmente na forma de ressacas e inundações”, disse Marengo.

Entre essas cidades, onde 60% da população reside na faixa de 60 quilômetros da costa, estão Rio Grande (RS), Laguna e Florianópolis (SC), Paranaguá (PR), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE), São Luís (MA), Fortaleza (CE) e Belém (PA).

Nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, têm sido registradas taxas de aumento do nível médio do mar de 1,8 a 4,2 mm por ano desde a década de 1950.

Na cidade de Santos, no litoral sul paulista, onde está situado o maior porto da América Latina, o nível do mar tem aumentado 1,2 mm por ano, em média, desde a década de 1940. Além disso, ocorreu um aumento significativo na altura das ondas – que alcançava 1 metro em 1957 e passou a atingir 1,3 m, em 2002 – e na frequência de ressacas no município.

Já no Rio de Janeiro, a análise dos dados da estação maregráfica da Ilha Fiscal – que tem a série histórica mais antiga do Brasil e fica no meio da Baía da Guanabara – indica uma tendência média de aumento do nível do mar de mais ou menos 1,3 mm por ano, com base nos dados mensais do nível do mar do período de 1963 a 2011 e com um índice de confiança de 95%.

Por sua vez, em Recife o nível do mar aumentou 5,6 mm entre 1946 e 1988 – o que corresponde a uma elevação de 24 centímetros em 42 anos. A erosão costeira e a ocupação do pós-praia provocaram uma redução da linha de praia em mais de 20 metros na Praia de Boa Viagem – a área da orla mais valorizada da cidade –, apontam os autores do relatório.

“Existem poucas observações como essas em outras regiões do país. Quando tentamos levantar dados dos últimos 40 ou 100 anos sobre o aumento do nível do mar em outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, por exemplo, é difícil encontrar”, disse Marengo.

Impactos socioeconômicos

De acordo com os autores do relatório, as mudanças climáticas e um acelerado ritmo de elevação do nível do mar podem causar sérios impactos nas áreas costeiras do Brasil.

Os impactos socioeconômicos seriam mais restritos às vizinhanças das 15 maiores cidades litorâneas, que ocupam uma extensão de 1,3 mil quilômetros da linha costeira – correspondente a 17% da linha costeira do Brasil.

Entre as principais consequências da elevação do nível do mar, entre diversas outras, estão o aumento da erosão costeira, da frequência, intensidade e magnitude das inundações, da vulnerabilidade de pessoas e bens e a redução dos espaços habitáveis.

“Os impactos mais evidentes da elevação do nível do mar são o aumento da frequência das inundações costeiras e a redução da linha de praia. Mas há outros não tão perceptíveis, como a intrusão marinha, em que a água salgada do mar começa a penetrar aquíferos e ecossistemas de água doce”, ressaltou Marengo.

As projeções do quinto relatório (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são que a elevação do nível do mar globalmente varie entre 0,26 e 0,98 metro até 2100 – em um cenário mais pessimista. O relatório apresenta estimativas similares para a costa brasileira.

Considerando que a probabilidade de inundações aumenta com a elevação do nível do mar pode ser esperada uma maior probabilidade de inundações em áreas que apresentam mais de 40% de mudanças no nível do mar observadas nos últimos 60 anos – como é o caso de várias metrópoles costeiras brasileiras, ressaltam os autores.

As inundações costeiras serão mais preocupantes no litoral do Nordeste, Sul e Sudeste, e também podem afetar o litoral sul e sudoeste da cidade do Rio de Janeiro. Os seis municípios fluminenses mais vulneráveis à elevação do nível do mar, de acordo com estudos apresentados no relatório, são Parati, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé e Campos dos Goytacazes.

“A combinação do aumento do nível do mar com tempestades e ventos mais fortes pode provocar danos bastante altos na infraestrutura dessas cidades”, estimou Marengo.

Exemplo de plano

O documento destaca o Plano Municipal de Adaptação à Mudança de Clima (PMAMC) da cidade de Santos como exemplo de plano de ação para adaptação às mudanças de clima e os seus impactos nas cidades [Leia mais sobre o assunto em http://agencia.fapesp.br/21997/].

A elaboração do plano foi baseada nos resultados do Projeto Metrópole, coordenado por Marengo.

O estudo internacional estimou que a inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.

O estudo é realizado por pesquisadores do Cemaden, dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.

“Nossa intenção é aplicar essa metodologia utilizada em Santos em outras cidades litorâneas brasileiras para termos pelo menos uma estimativa inicial do custo de adaptação à elevação do nível do mar”, disse Marengo.

Universidades não têm diagnóstico da saúde mental de seus alunos de pós (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

As principais universidades brasileiras não sabem o que se passa com a saúde mental de seus estudantes de pós-graduação.

É o que se depreende das respostas que 19 instituições de ensino superior deram ao questionário enviado pela reportagem sobre o assunto. Foram procuradas as 20 primeiras colocadas do Ranking Universitário Folha (RUF ) além da melhor da região Norte, a UFPA. Juntas, elas abrigam mais de 70% dos alunos de mestrado e doutorado do país. Apenas PUC-Rio e UnB não responderam.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Na última segunda (18), a Folhapublicou reportagem com parte dos quase 300 depoimentos enviados ao jornal por alunos de mestrado e doutorado de todo o Brasil em que eles contam suas agruras e dificuldades durante a pós.

À pergunta “Qual é o diagnóstico da instituição sobre a saúde mental de seus alunos de pós-graduação?”, sete universidades afirmaram que não possuíam um; seis não responderam à questão e seis manifestaram algum tipo de preocupação com o assunto, sem, porém, apresentarem qualquer resposta concreta acerca do tema.

“Ainda não há a percepção, dentro da universidade, de que essas questões são ligadas ao ensino e à vida acadêmica. Em geral, considera-se que é um problema do aluno”, diz Tânia de Mello, coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Unicamp.

“Como a universidade poderá ter um diagnóstico de algo que ela nem considera um problema?”, questiona.

Para o psicólogo Robson Cruz, professor da PUC-MG e pesquisador da saúde mental de estudantes de pós, outra razão para a falta de atenção das universidades a essa questão é a dificuldade de lidar com ela, já que os problemas variam de acordo com a área.

Nas humanas, por exemplo, a relação com a escrita –como elaboração da tese e artigos– pode ser a parte mais penosa. Já nas áreas experimentais, a maior questão é a carga excessiva de trabalho dentro de um laboratório, explica Cruz.

ATENDIMENTO

Todas as instituições procuradas possuem algum tipo de assistência psicológica e psiquiátrica, seja em serviços voltados ao corpo discente ou a toda a comunidade universitária. Nenhuma, porém, possui uma assistência específica para a pós-graduação.

“Existe um certo entendimento de que o pós-graduando, por já ter passado pela graduação e em geral ter bolsa, é alguém que possui autonomia e independência, quase um pesquisador, e que, portanto, não precisaria receber muito apoio. É um engano”, diz Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientação Psicológica da USP de Ribeirão Preto.

Na visão de Cruz, diante das especificidades da pós, seria necessário um treinamento especializado de profissionais para lidar com esses estudantes.

Já Tânia de Mello acredita não ser necessária tal especialização. “Claro que ajuda quando você entende esse universo, mas uma boa rede de acolhimento deve conseguir dar conta dessas questões.”

O mais importante, diz, é haver uma boa estrutura de acolhimento no momento de crise. “Teria de ser algo acessível. A continuidade do tratamento pode até ser feita em outro lugar. É como funciona a maior parte dos serviços nos EUA e no Reino Unido”, diz Mello.

Ressaltando que se trata de uma realidade diversa da brasileira, Mello cita como exemplo a Universidade de Berkeley, nos EUA, que disponibiliza uma linha direta para que os estudantes em crise possam ligar, com divisão por língua, origem étnica e orientação sexual. “Não há nada similar por aqui.”

PREVENÇÃO

No campo da prevenção e da educação, o quadro parece ainda pior. Nove das 19 universidades ou não possuem ou não informaram a existência de ações nesse sentido. As dez restantes ou promovem iniciativas esporádicas (não vinculados a programas específicos), reduzidas, ou ainda estão implantando ações mais robustas.

Nenhuma, no entanto, implementou medidas que visem preparar o docente para para lidar com seus alunos, sobretudo orientandos, algo considerado fundamental pelos especialistas ouvidos.

“Temos de preparar os orientadores para ter uma visão mais humana da orientação”, afirma Eduardo Benedicto.

Mello lembra que “em geral, o docente não tem subsídios para lidar com a questão, pois não recebe qualquer treinamento das universidades para identificar e ajudar o aluno que enfrenta um transtorno mental.”
Cruz, por sua vez, aponta que o problema é mais embaixo e deveria ser objeto da própria formação dos docentes. “Eles simplesmente não são preparados para serem orientadores. Não há nenhuma ênfase, durante o mestrado e o doutorado, em ensino, didática, relação interpessoal, processo de orientação etc.”

Além de ações voltadas aos docentes, os especialistas sugerem a criação de “espaços de segurança” em que os alunos possam confidenciar suas angústias e fazer denúncias de assédio moral e sexual.

“Seriam espaços onde as pessoas pudessem falar com mais naturalidade sobre o tema e desmistificá-lo, ou seja, deixar claro que esse sofrimento existe, que tem a ver com a pós e que se pode falar disso”, afirma Tânia de Mello.

Universidades que enviaram respostas: Ufscar, UFRJ, UFPA, Univ. Fed. de Santa Maria, UFF, UFMG, UFC, UFBA, UFPR, Univ. Fed. de Viçosa, Unicamp, USP, Unesp, PUC-RS, Unifesp, Uerj, UFPE, UFSC, UFRGS

Orientadores de pós-graduação impõem dificuldades a alunos (Folha de S.Paulo)

ANÁLISE

Diego Padgurschi – 26.fev.2016/Folhapress

GABRIEL ALVES
DE SÃO PAULO

Uma das características mais marcantes da pós-graduação “stricto sensu” –mestrado e doutorado– é aquilo que podemos definir como o mito da forja.

Muitos orientadores (que mandam e desmandam na vida do aluno), pensam que quanto mais dificuldades eles impuserem, mais bem preparados –forjados– sairão os futuros mestres e doutores. E os fracos que fiquem pelo caminho.

Deixar discípulos quebrarem a cara não seria abandono, e sim lição de vida. No fim das contas eles não vão ter de se virar sozinhos?

A verdade é que muitas vezes dedicar um tempinho para os estudantes de pós fica lá no finzinho da lista de obrigações do pesquisador.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Antes ele tem que garantir sua própria biografia, publicando artigos e capítulos de livros, viajar para dar palestras, registrar suas patentes, cuidar de suas empresas…

É nesse contexto que se revela o feudal sistema de poder acadêmico. Não raro o professor delega parte de suas obrigações, como orientações e aulas, para pós-doutorandos, doutorandos e mestrandos.

Não é por acaso nem é tão raro que os elos mais fracos da cadeia acabem rompendo, como mostraram as reportagens sobre saúde mental na pós recentemente veiculadas por esta Folha.

Nesse contexto ainda há outras questões: o país tem de perseguir uma meta numérica na formação de doutores? Que tipo de doutor temos de formar? A que custo e em que prazo? Faz falta um jeito inteligente de lidar com a questão.

Já se foi o tempo em que o papel da pós-graduação era abastecer a academia com pesquisadores e docentes.

Muitos orientadores, por sua vez, se queixam de alunos despreparados, mas não têm como rejeitá-los: sem reposição na base da pirâmide, a produção fica estagnada.

Trocando em miúdos, o orientador ganha o direito de explorar por alguns anos uma força de trabalho barata (ou gratuita) em troca de atestar a formação de um novo mestre ou doutor, por mais que o título seja imerecido. Conscientemente ou não, alguns não veem aí um mau negócio.

E pode ser até mais grave. Em ciências experimentais, às vezes é adotado o “estágio probatório”, período que o futuro pós-graduando se dedica a aprender as técnicas usadas em um laboratório, a se inserir na rotina –sem receber nada por isso. Só depois é que vem a matrícula e, quem sabe, a bolsa. Desacompanhada de vários benefícios trabalhistas, vale notar.

Human societies evolve along similar paths (University of Exeter)

PUBLIC RELEASE: 

Societies ranging from ancient Rome and the Inca empire to modern Britain and China have evolved along similar paths, a huge new study shows.

Despite their many differences, societies tend to become more complex in “highly predictable” ways, researchers said.

These processes of development – often happening in societies with no knowledge of each other – include the emergence of writing systems and “specialised” government workers such as soldiers, judges and bureaucrats.The international research team, including researchers from the University of Exeter, created a new database of historical and archaeological information using data on 414 societies spanning the last 10,000 years. The database is larger and more systematic than anything that has gone before it.

“Societies evolve along a bumpy path – sometimes breaking apart – but the trend is towards larger, more complex arrangements,” said corresponding author Dr Thomas Currie, of the Human Behaviour and Cultural Evolution Group at the University of Exeter’s Penryn Campus in Cornwall.

“Researchers have long debated whether social complexity can be meaningfully compared across different parts of the world. Our research suggests that, despite surface differences, there are fundamental similarities in the way societies evolve.

“Although societies in places as distant as Mississippi and China evolved independently and followed their own trajectories, the structure of social organisation is broadly shared across all continents and historical eras.”

The measures of complexity examined by the researchers were divided into nine categories. These included:

  • Population size and territory
  • Number of control/decision levels in administrative, religious and military hierarchies
  • Information systems such as writing and record keeping
  • Literature on specialised topics such as history, philosophy and fiction
  • Economic development

The researchers found that these different features showed strong statistical relationships, meaning that variation in societies across space and time could be captured by a single measure of social complexity.

This measure can be thought of as “a composite measure of the various roles, institutions, and technologies that enable the coordination of large numbers of people to act in a politically unified manner”.

Dr Currie said learning lessons from human history could have practical uses.

“Understanding the ways in which societies evolve over time and in particular how humans are able to create large, cohesive groups is important when we think about state building and development,” he said.

“This study shows how the sciences and humanities, which have not always seen eye-to-eye, can actually work together effectively to uncover general rules that have shaped human history.”

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The new database of historical and archaeological information is known as “Seshat: Global History Databank” and its construction was led by researchers from the University of Exeter, the University of Connecticut, the University of Oxford, Trinity College Dublin and the Evolution Institute. More than 70 expert historians and archaeologists have helped in the data collection process.

The paper, published in Proceedings of the National Academy of Sciences, is entitled: “Quantitative historical analysis uncovers a single dimension of complexity that structures global variation in human social organisation.”

Michael Shermer: A favor da razão (Pesquisa Fapesp)

Divulgador de ciência norte-americano combate irracionalismos e fundamentalismos em voga

MARCOS PIVETTA | ED. 261 | NOVEMBRO 2017

Escritor se dedica a divulgar explicações científicas para fenômenos supostamente extraordinários ou sobrenaturais. © LÉO RAMOS CHAVES

Colunista desde 2001 da edição norte-americana da revista Scientific American, o californiano Michael Shermer, 63 anos, dedica-se a divulgar explicações científicas que refutam a existência de fenômenos supostamente extraordinários ou sobrenaturais, como a possibilidade de ressurreição, e a combater ideias pseudocientíficas. Formado em psicologia, com doutorado em história da ciência, é autor de livros sobre ciência, moral e religião e editor da revista Skeptic. Também leciona um curso básico sobre ceticismo na Universidade Chapman, uma instituição regional de ensino superior do sul da Califórnia mantida pela denominação protestante Discípulos de Cristo. Shermer, que já foi religioso e hoje é ateu, esteve em São Paulo no início de outubro para participar de um evento sobre divulgação da ciência.

O senhor acredita que ser religioso e fazer ciência é incompatível?
Muitos cientistas profissionais são pessoas religiosas. Então, aparentemente, isso é possível. Mas é lógico proceder assim? Acho que na maioria das vezes não. Os cientistas que são religiosos adotam uma estratégia para lidar com ciência e religião: colocam esses temas em diferentes categorias mentais e não os deixam se sobrepor. A maioria das afirmações religiosas pode ser testada pela ciência. Se os religiosos dizem que a Terra tem 10 mil anos de idade e os geólogos, que ela tem 4,5 bilhões de anos, não se pode somar essas duas idades e dividir por dois para encontrar a verdade. Uma dessas afirmações está simplesmente errada. No caso, a dos religiosos. Mas, quando se trata de determinar valores morais, a espiritualidade, o sentido da vida, o que é certo e o que é errado, a maioria das pessoas acha que isso só pode ser obtido por meio da religião. Não concordo com isso. Acho que podemos usar o método científico para abordar esses temas. Devemos trabalhar e nos esforçar mais para proceder assim.

Como o método científico pode ajudar nesse tipo de questão?
Vou dar um exemplo. Podemos usar a ciência para determinar qual é o melhor sistema político para se viver. Há muitos dados sobre isso, acumulados ao longo de uns 500 anos. A democracia é melhor do que teocracias, ditaduras, monarquias e estados comunistas. Estes últimos são estados falidos. É possível medir as consequências dos sistemas políticos em termos dos níveis de sobrevivência da população e do desenvolvimento. Esse é um argumento utilitário. As sociedades em que foram implantados esses sistemas políticos são experimentos naturais que foram conduzidos pelo homem. Quando houve o desmembramento da Coreia em dois países [em 1948], o norte e o sul eram iguais. Hoje os dois países não são nem remotamente parecidos. Cada um tem um sistema político, legal e econômico diferente. Por que a antiga Alemanha Ocidental era mais desenvolvida do que a Oriental? Essas perguntas podem e devem ser respondidas por cientistas políticos e econômicos. Isso é ciência.

O senhor acha que a ciência social deve ser encarada da mesma forma que as chamadas ciências duras? Não é mais difícil fazer previsões no campo da ciência social do que em química ou na matemática?
Sim. Mas, na verdade, acho que as ciências duras, no sentido de que são mais difíceis de fazer, são as sociais. Nelas, há muito mais variáveis envolvidas. Átomos, moléculas, gases, rochas, planetas e estrelas, todos esses objetos de estudo apresentam um número limitado de variáveis. São sistemas mais previsíveis. Como disse, o comportamento dos seres humanos, da economia, envolve muito mais variáveis. Mas essa ciência pode ser feita. Aliás, tem sido feita há séculos. Adam Smith [1723-1790] fez isso no seu livro Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. Ele é o Newton [1643-1727] da economia. Mas essa minha posição é minoritária entre os cientistas. Eles não sabem nada das “ciências moles”.

Por que as pessoas acreditam em poderes sobrenaturais e explicações religiosas para fenômenos naturais?
O cérebro humano está biologicamente preparado para acreditar nessas coisas. As pessoas podem encontrar padrões em certos eventos e tentam estabelecer causas e conexões entre eles. As pessoas acham que esses padrões não são aleatórios, inanimados. Os eventos ocorreriam por uma razão. Elas acreditam que há uma entidade por trás deles, um espírito, uma força, alguém manipulando as cordinhas. Daí é um passo para chamar essa força de Deus, espírito, fantasma, alienígena, anjo ou demônio. O mundo sempre viveu assim até o momento em que a ciência desbancou essas ideias. Não é que as pessoas sejam ignorantes ou pouco instruídas. Apenas é mais fácil seguir esse caminho. As teorias sobre conspirações modernas também se alimentam dessa lógica.

Por que o criacionismo é tão forte nos Estados Unidos?
Vejo duas razões. Somos, de longe, a nação mais religiosa entre as industrializadas do Ocidente. Nenhum país da Europa chega nem mesmo perto. E não se trata de qualquer tipo de religião. Os Estados Unidos são protestantes, batistas. A maioria dos católicos, até o papa, fez as pazes com Darwin [1809-1882] e a teoria da evolução. Para eles, a evolução foi a forma que Deus encontrou para criar as espécies. Newton também achava que a gravidade era o jeito de Deus criar planetas. Já os protestantes, sobretudo os fundamentalistas, precisam crer que a Bíblia está certa. Eles fazem uma leitura literal, não de forma metafórica, da Bíblia. Se a Bíblia fala em dias, entendem que se trata literalmente de dias – não de uma figura de linguagem que se refere a uma noção de tempo. Outra razão diz respeito a uma tensão entre religião e política na arena pública, a despeito da existência da divisão entre Igreja e Estado. Não há, por exemplo, um conselho geral que dite o currículo para todas as escolas públicas do país. Cada estado, cada condado, às vezes cada distrito, tem os seus próprios conselhos. Às vezes, há uma maioria de religiosos fundamentalistas nesses conselhos e eles decidem ensinar criacionismo ao lado da teoria da evolução, ou até no lugar dela.

Estudantes de mestrado e doutorado relatam suas dores na pós-graduação (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

Após a publicação da reportagem ‘Suicídio levanta questões sobre saúde mental na pós’, no final de outubro, a Folha recebeu 272 depoimentos de alunos de pós-graduação de todo o país, dos quais uma parcela está reproduzida abaixo. Eles permitem traçar um retrato das principais agruras e dificuldades enfrentadas por estudantes de mestrado e doutorado no Brasil –e das consequências em sua saúde mental.

Vistos em conjunto, os relatos chamam a atenção, em primeiro lugar, pelo fato de terem sido escritos por estudantes dos mais diversos cursos, instituições e regiões do país.

A maioria dos depoimentos, como seria de esperar, provém de discentes de grandes universidades públicas, como USP, Unicamp, Unesp, e as federais do Rio e de Minas Gerais, que concentram a maior parte dos estudantes de pós-graduação.

Não são poucos, porém, aqueles redigidos por alunos de instituições de menor porte, como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ou particulares, como a PUC-PR e a Universidade Metodista de SP.

Os relatos vieram ainda das cinco regiões do país e de estudantes de toda a sorte de áreas e carreiras: de letras a matemática, de biologia a engenharia.

Vídeo: dores da pós

 

O ORIENTADOR

Na intersecção da maioria das dificuldades descritas pelos estudantes –pressão exagerada, carga de trabalho frequentemente excessiva, solidão, assédio moral, entre outras– encontra-se a figura do orientador, o professor responsável por ajudá-los a realizar a tese e prepará-los para a pesquisa acadêmica.

Ele não apenas possui um papel central na formação intelectual do estudante como, pela maneira como a pós-graduação é organizada no país, detém poder considerável sobre a sua rotina.

Assim, a maneira como se desenvolve o relacionamento entre mestre e discípulo acaba sendo determinante para o sucesso ou o fracasso deste durante o mestrado ou o doutorado. Não raro, como atestam os relatos, orientadores se mostram despreparados para lidar com os alunos e exercer o papel esperado na formação deles.

Parte desse problema talvez advenha da falta de regras claras acerca do que separa cobranças normais de exigências descabidas.

Diante disso, e dada a importância dessa relação, uma das providências possíveis de serem tomadas por universidades e institutos de pesquisa que abrigam alunos de pós é preparar seus docentes para lidar com os orientandos. Também poderia ser estabelecido alguma espécie de código de conduta que esclarecesse aos orientadores o limite a partir do qual suas atitudes se tornam humilhações, maus-tratos e abusos.

AMBIENTE

Outro fator que colabora para esse quadro, embora seja costumeiramente negligenciado, é o ambiente estressante onde habitam os professores universitários. Em alguma medida, essa carga acaba se transferindo para os alunos.

Docentes, em seu dia a dia, precisam lidar com prazos apertados, obter financiamentos para seus projetos de pesquisa, dar aulas, orientar alunos, corrigir provas e teses, preparar relatórios para agências de fomento, além de sofrerem pressão para produzir artigos de alto impacto.

Além das pressões e dificuldades próprias da pós-graduação, os estudantes precisam ainda lidar com a estigmatização dos transtornos mentais dentro do ambiente acadêmico, onde ansiedade, depressão e pânico são frequentemente associados à fraqueza, incapacidade e despreparo.
Tal estigmatização -que não difere da maneira como tais enfermidades são vistas na sociedade- debilita ainda mais o aluno que já passa por dificuldades, e pode, ao ser introjetada, desestimulá-lo a buscar a ajuda necessária nos serviços de saúde.

Também nessa linha educativa, ações simples, como campanhas ou grupos de discussão, podem compor uma estratégia no combate ao preconceito que ronda a questão.

VALOR DAS BOLSAS

Diversos estudantes contam, em seus depoimentos, a situação de precariedade econômica em que vivem devido ao valor das bolsas de estudo pagas pelo governo federal. De fato, R$ 1.500 (para o mestrado) e R$ 2.200 (para o doutorado) –montantes que não são reajustados desde 2013– não constituem valores atrativos nem suficientes para exercer uma função altamente especializada e que, em grande parte dos casos, demanda dedicação exclusiva.

De outro lado, a Capes, ligada ao MEC e maior financiadora do país, paga 90 mil bolsas a mestrandos e doutorandos. Se numa época de grave restrição econômica já é difícil manter esse número estável, é pouco provável que esse valor aumente de maneira significativa.

Nesse cenário surge uma discussão sobre qual seria o modelo de financiamento mais adequado para esse sistema, debate que vem acompanhado da discussão de que tipo de pós-graduação o país deseja ter. É melhor investir em mais bolsas, ainda que pagando somas menores, ou deve-se buscar um valor maior para elas, quiçá competitivo com o que é pago pela iniciativa privada, mas numa quantidade reduzida?

Essas são apenas algumas das questões trazidas à luz pelos depoimentos enviados por pós-graduandos.

Não se deve, por certo, generalizar para todos os alunos de mestrado e doutorado os dramas expostos nesses relatos; tampouco se deve menosprezá-los, como se refletissem apenas situações isoladas ou queixas de alunos problemáticos.

Tais problemas resultam da maneira como o sistema de pós-graduação é organizado no país e, portanto, precisam ser enfrentados por todos os atores que o constituem.

Afinal, o aluno que tem a sua saúde mental afetada, embora seja o mais prejudicado, também gera custos para toda a cadeia: o grupo de pesquisa ao qual pertence, o programa de pós ao qual está vinculado, a universidade em que estuda e a agência de fomento que financia a sua bolsa.

DEPOIMENTOS ENVIADOS À FOLHA

A sensação de ser uma impostora é diária em um meio onde há pressão o tempo todo, de todas as formas possíveis. No mês que antecedeu minha defesa [conclusão do curso], chorei todos os dias. Esquecia de comer, me sentia culpada ao sair com os amigos no fim de semana, pois deveria estar terminando minha dissertação, mesmo que estivesse esgotada.

Além disso, minha orientadora sumia por meses. Faltando algumas semanas, para a defesa, ela viajou para o exterior. Escrevi tudo sozinha, sem direcionamento, até a sua volta, quando precisei virar noites para terminar a tempo.Acordei diversas vezes sem querer acordar. Levantar da cama e encarar o dia era um desafio que eu não conseguia enfrentar sem derramar lágrimas.

Fiz terapia durante quase todo o processo, mas precisei parar no final, pois a minha bolsa terminou; o programa de pós nunca ofereceu auxílio psicológico.

Neurociências, Universidade Federal de Minas Gerais


O mestrado significou longos meses de tortura e sofrimento. Minha orientadora me tratava com pouco caso, atribuindo o fracasso a mim mesmo quando não tinha a ver comigo.

Ela era sempre impositiva, me mantinha sempre sob sujeição e nunca me deu sequer um elogio; só fui elogiado no dia da defesa. Como morava numa república, longe de casa e não tinha com quem conversar, foram várias as situações que, mesmo sabendo que não cometeria suicídio, pensava “até que não seria má ideia”. Foram os dois anos mais trágicos da minha vida.

Ciências Sociais, Universidade Federal de Juiz de Fora


No meu mestrado, tive síndrome do pânico e achei que não ia conseguir terminar.

Com apoio psicológico da universidade consegui concluir, apesar do péssimo relacionamento com minha orientadora, que me cobrava muito e não entendia que estava doente.

Cinco anos depois da defesa a minha tese continua jogada na estante e não consigo sequer olhar para ela. Entrei no doutorado, mas acabei desistindo. Hoje estou bem com essa escolha, pois o meio acadêmico não é para pessoas sensíveis.

Linguística, Unicamp


Nunca consegui terminar o doutorado. Estava prestes a qualificar [exame crucial que precede a defesa da tese] quando o meu orientador simplesmente me agarrou no laboratório.

Denunciei o assédio, mas nunca deu em nada. Eu fui a quinta aluna atacada por ele. Nunca houve punição por parte do programa de pós ou da universidade.

Tive que trocar de orientador, e então, para me atrapalhar, ele me excluiu do sistema antes que eu pudesse concluir a transferência. Tive que recomeçar tudo do zero: disciplinas, projeto, experimentos. Eu não me conformava de ter sido a vítima e também a pessoa que estava sendo punida.

Todo mundo sabia da história, mas ninguém fez nada. Ele andava solto falando que eu era “a menininha não sabia ser cantada sem ficar bravinha”. Tentei por mais um ano, até que perdeu o sentido. Eu não aguentava mais.

Microbiologia, USP


No doutorado, minha pesquisa parecia travada. Nada dava certo, faltava orientação adequada. Eu estava tentando produzir algo muito novo e meu orientador não conseguia ajudar. Tive que desenvolver uma nova metodologia, o que deu muito trabalho.

Gastei quase três anos do meu doutorado nessa etapa, algo que não era para ser nem 25% da minha tese.

Estava, obviamente, muito atrasado. Em vez de receber algum mérito pelo desenvolvimento do método praticamente sem ajuda de colaboradores, fui muito criticado por estar atrasado e acabei sendo reprovado na minha qualificação.

Existe uma segunda chance de se qualificar, mas uma nova reprovação te desliga da pós. Nesse ponto comecei a dar sinais de depressão. Não conseguia dormir porque ficava pensando muito nisso. Passava noites em claro.

Comecei a ter fortes crises de ansiedade. Meu peito doía sem parar, meu coração acelerava loucamente. Fui parar no hospital universitário duas vezes achando que estava tendo um infarto.

Fizeram exames, mas nada foi constatado. O médico perguntou todo o meu histórico. No fim, só restou um diagnóstico: crise de ansiedade. O tratamento parece ser simples: parar de se preocupar. Só parece, porque obviamente não é.

Biologia, USP


Logo que entrei senti que seria mais complicado do que imaginei. Meu orientador não orientava, ele desorientava todos os seus alunos. Para completar, o (des)orientador passou em um concurso em outra universidade e foi embora.

Aí ele me abandonou de vez. Quando vinha ao laboratório, os orientandos que estavam mais próximos de defender ou de qualificar tinham prioridade e nunca sobrava tempo pra me atender. Meus e-mails raramente eram respondidos. Pedi para ter uma co-orientadora e fui informada de que “não havia necessidade”. Entrei no mestrado com 64 quilos, saí com 84. Ganhei 20 quilos em dois anos.

Descontava minha ansiedade, minhas frustrações, minha raiva e minha tristeza na comida. Quando comia, tinha o meu único momento de prazer.

Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Minas Gerais


Meu orientador cobrava presença diária nas atividades do laboratório, mas nunca me orientou. Fiz tudo sozinha. Além do professor não orientar, o ambiente era extremamente hostil.

Minha defesa de projeto, no meio do curso, foi traumática. Meus familiares não aguentaram assistir a tanta humilhação. Eu mesma não aguentei e chorei o tempo todo.

Na minha defesa final não foi diferente: humilhação em cima de humilhação. Para não me despedaçar eu foquei no diploma do mestrado que eu estava prestes a receber.

Agronomia, Universidade Federal de Lavras


Tive uma orientadora autoritária, “workaholic”, estressada e que gostava de humilhar seus alunos. Abandonei o projeto, para o qual tinha bolsa de estudos, e fui em busca de um orientador mais justo.

Concluí o mestrado com esse orientador e atualmente faço doutorado. As coisas estão um pouco melhores, mas atualmente sofremos com o corte de verbas. Conheço muitas outros alunos que foram humilhados e passaram por situações difíceis; é algo comum. No fundo, é um ciclo. Os orientadores, quando alunos, passaram pelas mesmas coisas e replicam isso, achando normal.

Tecnologia em Processos Químicos e Bioquímicos, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Eu deveria seguir uma carga horária de quatro a seis horas diárias, de acordo com o regulamento da bolsa. Mas não há fiscalização e ninguém sabe o que se passa dentro de um laboratório.

Quem manda é o orientador, que não se apossa apenas do seu trabalho, mas também da sua vida pessoal a depender de seu temperamento.
Tem dias que passo 12h na universidade, mais precisamente num laboratório que não deve ter mais que cinco metros quadrados.

E não é porque tenho muito trabalho a fazer, mas por capricho do chefe. Não me permitiram sequer arrumar um emprego à noite para somar a uma ultrapassada bolsa de R$ 1.500.

Quanto ao meu projeto, meu orientador faz questão de me lembrar com esses termos: “Você está fodida”.

Doenças Tropicais, Universidade Federal do Pará


É triste quando o que você ama se volta contra você. Finalizei o mestrado há dois anos e não consigo abrir a minha dissertação.

Minha ex-orientadora se tornou um pesadelo, ainda ando nas ruas conferindo todas as placas dos carros do mesmo modelo que ela tinha.

Ela sempre trabalhou com o esquema de hierarquia, em que ela, que estava no topo, podia fazer tudo, e nós deveríamos aceitar calados.

Com relação à dissertação, lembro que ela me cobrou com três meses de antecedência, e eu perguntava a ela sobre as correções até que um dia ela me disse que a única pessoa que havia olhado a minha dissertação foi a filha dela de dois anos e me mostrou vários desenhos que a criança havia feito.

Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa


Ao entrar no mestrado sofri com as cobranças exageradas; fiquei doente, precisei de ajuda de psicólogo e neurologista, tive crises de ansiedade, não conseguia dormir. Pensava em suicídio, sim.

No doutorado tentamos retirar a medicação, pois parecia que havia me adaptando à rotina. Não deu certo. Em um mês, a ansiedade e a insônia tinham voltado.

É como se você tivesse que ser mil e uma utilidades, os orientadores exigem que o pós-graduando realize, além da sua pesquisa, outras demandas do laboratório, dê aulas em seu lugar… a jornada chega a doze horas diárias. Além disso, temos de produzir artigos e escrever inúmeros relatórios para as agências de fomento.

Biologia, Unesp


Dentro do laboratório nem sempre as coisas funcionam bem. Às vezes o experimento dá certo, e mil outras vezes, não. Era duro escutar que talvez eu não tivesse capacidade suficiente para fazer o básico, quando muitas vezes o erro era do acaso…

Sim, as coisas podem dar errado, mas dentro da ciência o erro era sempre meu, e também dos meus colegas, mas nunca dos orientadores.

O aluno de pós não é um trabalhador: não há salário, há bolsa; não há férias; não há função específica; é uma espécie de escravidão.

Que pós-graduando nunca entrou no laboratório às 7h e saiu às 23h? Qual nunca ficou até o dia 24/12 no laboratório? Qual nunca teve que repetir o mesmo experimento 200 vezes só para mostrar ao orientador que a hipótese dele estava errada?

Tudo isso machuca muito. Quantos professores não abrem a boca só para ferir o aluno? Poucos são aqueles que protegem e ensinam.

Fisiologia Humana, USP


O medo e a vergonha de ser rotulado de fraco, de louco, de exagerado são maiores do que a vontade de gritar. Como ser indiferente a jornadas cansativas, professores semideuses, orientadores abusivos?

Nunca me senti tratado como gente enquanto estive na pós, pois colocar família, saúde ou lazer, mesmo que poucas vezes, à frente das atividades acadêmicas é visto como crime. Não foram poucos os amigos que desistiram. Pior ainda, outros permaneceram, vivendo a base de remédio para dar conta.

Eu já acordei assustada depois de sonhar com meu orientador me questionando por estar dormindo. Isso quando eu conseguia dormir. Tive que me encher de ansiolíticos e antidepressivos para dar conta de continuar viva.

No último semestre do mestrado, os remédios perderam o efeito. Eu não dormia, não descansava, não conseguia escrever a dissertação. Com ajuda médica consegui defender. No doutorado tudo piorou, pois a relação com meu orientador foi se desgastando e eu tomei aversão ao trabalho e ao laboratório.

Minha depressão piorou muito e eu desenvolvi síndrome do pânico e fobia social. Cheguei ao fundo do poço e o suicídio passou a ser encarado como uma alternativa na minha vida.

Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco


Estou no meu primeiro ano de mestrado e tenho passado por muitas dificuldades. A pós-graduação já me causou muita perturbação, começando pelo ambiente de trabalho, onde as pessoas fazem você se sentir absolutamente um nada.

Além disso, o orientador te pressiona, te desmerece, quer te humilhar, muitas vezes por coisas pequenas.

A pior coisa do mundo é ter de fingir que tudo isso é normal, pois, caso contrário, vou ser tachada de fraca, imatura, burra, aquela que não aguenta. Está sendo a pior coisa do mundo.

Eu gostava muito da ideia de fazer o mestrado, mas depois que entrei eu sinto que foi uma das piores escolhas da minha vida. Já pensei em me matar e sumir. Estou fazendo acompanhamento com psiquiatra e psicólogo.

Na instituição onde estudo, depressão é vista como frescura, ou desculpa do aluno que não quer entregar um trabalho digno.

Entomologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia


Enquanto estive no Brasil, sofri com depressão e crises de pânico. Foi só na Suécia, onde fui fazer o período sanduíche do doutorado, que eu me senti pela primeira vez respeitada como pessoa dentro do ambiente acadêmico. Lá, cada aluno tem ao menos uma cadeira e mesa individual.

Aqui, nós sentamos no meio do laboratório junto com as bactérias que cultivamos, ou próximo a reagentes cancerígenos. O salário dos meus colegas na Suécia é similar ao de um emprego regular.

Também há pressão por lá, mas o orientador é responsável para com os alunos. Não se espera que o doutorando desempenhe algo se não forem dados recursos e condições adequadas para isso. Os colegas são cooperativos, não competitivos. Existe um ambiente de ganha-ganha.

Ciência de Alimentos, Unicamp


Estou no meu segundo ano de doutorado e já fiz planos de suicídio mais de uma vez. O meu departamento ameaça quem não produz com cortes de bolsa e devolução das que já recebeu e outras coisas.

As exigências aumentam, mas as condições para cumprir o que eles pedem não melhoram. Minha orientadora (uma santa) sugeriu que eu procurasse um psiquiatra depois de perceber que eu não estava bem. Meus colegas, por estarem disputando materiais comigo, me tratam mal.

As fofocas e bullying são algo assustador, e atingem todos aqueles que mostram fragilidade. Quem fica deprimido, é covarde, alguém que não deveria ter entrado no programa.

As meninas que querem se casar ou ter filhos são ameaçadas de perder a bolsa por “não prestigiarem suas carreiras”.

No mestrado, eu tinha alucinações. Trabalhava de segunda a segunda. Mal dormia e comia. Quase perdi parte do pulmão por um descolamento da pleura num incidente de bicicleta que causei porque queria morrer.

Microbiologia, Universidade Federal do Paraná


Tive um sério problema de melancolia durante o mestrado. Não cheguei a ir a um médico, mas o choro antes de dormir denunciava meu estado.
Cheguei a travar diante da sala de aula, devido à pressão que sentia. Estudávamos de 12 a 14 horas por dia. Resenhávamos 500 páginas por semana.

Os professores riam das nossas caras quando tentávamos apresentar novas ideias e interpretações. A bolsa não pagava nem o aluguel. O terrorismo acadêmico é verdadeiro.

Até agora, escrevendo esse texto, sinto meu sangue ferver de raiva e ódio pelo que me fizeram passar. Ainda bem que fui consciente: posterguei meu sonho de ser acadêmico, mas ganhei minha vida de volta.

Relações Internacionais, PUC-Rio


No mestrado, a frieza no laboratório, a cobrança por resultados que não dependiam de mim, e sim de equipamentos, e as longas horas de trabalho me fizeram desenvolver crises insuportáveis de fibromialgia, perda de apetite a ponto de ficar com o peso corporal incompatível com a saúde e uma tristeza tão profunda que ia chorando no caminho de casa até o laboratório.

Terminei e resolvi mudar de área de pesquisa. Estava contente por iniciar um novo ciclo no doutorado. E não demorou para eu passar pelas mesmas humilhações públicas, pressões e desamparo anteriores, além de ter tido insônia, ansiedade, sensação de impotência

Educação em Ciência e Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado no mesmo laboratório. O mais comum são estudantes sem perspectivas, desanimados, sem conseguir ver a luz no fim do túnel. Vários amigos e colegas tiveram depressão.

Duas pessoas do meu laboratório tiveram paralisia facial. Uma amiga, também do laboratório, teve um surto psicótico no ano passado. Foi horrível. E nossa chefa nem queria avisar a família, que vive em Recife. Me chamou de alarmista e imatura.

Mesmo após de ter concluído a pós, um certo trauma ficou. Eu ainda não consigo passar um final de semana sem sentir culpa por não estar trabalhando, lendo um artigo, escrevendo um “paper”. É uma loucura que só entende quem passa.

Fisiologia e Biofísica, USP


No meio do doutorado tive problemas com a minha pesquisa, o que levou a uma carga maior de trabalho e a muito estresse. Isso se somou à precariedade financeira, ao medo do futuro e aos questionamentos que sempre aparecem na mente dos pós-graduandos: o que eu estou fazendo? Onde vou chegar fazendo isso?

Comecei a ter crises de refluxo gastroesofágico combinados com crises de pânico.

Não há glamour na pesquisa científica. Ao contrário, ficamos isolados, com pouco contato social e trabalhamos incessantemente em projetos e publicações de artigos, além de vivermos sob prazos apertados. Isso é pouco discutido porque somos vistos como “privilegiados”, que são remunerados para estudar.

Ciências Florestais, Universidade de Brasília


No mestrado, as preocupações com relação a prazos me fizeram entrar em um estado no qual não conseguia fazer mais nada da vida que não fosse estudar. Se saía num sábado para me divertir, me sentia como se estivesse fazendo algo muito errado. Fiz uma viagem num feriado com a família e, nesses poucos dias, a consciência pesada por não estar estudando era tanta que cheguei a ter taquicardia. Já no doutorado, comecei a apresentar um quadro depressivo.

A pós-graduação é um ambiente de muita incerteza e não existe acolhimento para alunos que passam por problemas assim. Cheguei a um ponto no qual não queria mais levantar da cama. Viver doía. Não cheguei a pensar em suicídio especificamente, mas pensava que morrer não seria ruim.

Economia, Universidade Federal Fluminense


Uma relação bastante conturbada resultou na troca de orientador e de projeto. Na prática, fiquei com pouco tempo para desenvolver a pesquisa. Pressão, prazos apertados e vida pessoal e familiar problemáticas me renderam uma depressão.

Eis algumas frases que ouvi durante a doença: “Depressão é frescura”, “Isso é preguiça mesmo”, “mãe de família não deveria cogitar a ideia de pós graduação, nunca irá acompanhar o ritmo”.

Será que a pós é um contrato de escravidão? Não temos direitos, apenas deveres?

Botânica, Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

As mudanças climáticas sob o olhar indígena (Blogue Cidadãos do Mundo)

02/11/2017 18:15

Por Sucena Shkrada Resk

Subestimar os conhecimentos tradicionais que se perpetuam por gerações é um ato de ignorância que tem se repetido por décadas. No contexto das mudanças climáticas, essa constatação se torna mais evidente, pois a vivência dos povos indígenas e suas relações cosmológicas ancestrais são experiências que dialogam de forma concreta com a Ciência e trazem aprendizados a um campo político e econômico controverso, cujos interesses conflitam com o que a sabedoria e a razão científica expõem. Por meio das analogias e inferências, da relação entre o comportamento das estrelas e constelações ou das aves com o uso da terra e o ecossistema, os efeitos das ações antrópicas emergem nesta transcendência cadenciada.

Em tempos de Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-23), que acontece em Bonn, na Alemanha, entre 6 e 17 de novembro, abrir a escuta, sem ranços, para esses olhares transversais pode dar mais respostas para a inovação de paradigmas de desenvolvimento em um palco político antagônico, que tem impedido reais avanços localmente e de forma global e podem emperrar acordos já firmados, desde a COP-21, em Paris.  Um desenvolvimento ainda calcado em um mundo tratado como mercadoria.

O vídeo-documentário “Vozes Indígenas Num Clima em Mudança”, produzido pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), traz uma escuta interessante de diferentes representantes de etnias sobre o tema. O sensível documentário “Para onde foram as Andorinhas?”, do Instituto Socioambiental e Instituto Catitu, é outro canal de comunicação audiovisual que possibilita reflexões, como também a publicação “Mudanças Climáticas e a Percepção Indígena”, da Operação Amazônia Nativa (OPAN). As falas de todos os indígenas, da Amazônia ao Xingu, entoam um grito de alerta sobre a relação conflitante do homem branco com a terra, as águas, ou seja, com todo o planeta Terra (Pachamama).

Esses povos têm diferenças culturais, que traduzem suas histórias e identidades, entretanto, não impõem fronteiras em seus discursos ao tratar do “bem-viver”, do respeito entre os mundos material e imaterial, e reverberam o propósito de bem coletivo aos parentes, aos povos tradicionais e à toda sociedade.  São Baniwa, Guajajara, Idioriê, Kayabi, Krenak, Manoki, Mehinako, Munduruku, Wará, Xavante, entre outros.

Com a lente de aumento sobre todo o país, trata-se de um universo de 305 etnias e de pelo menos, 896,9 mil indígenas, de acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Hoje também existe o Comitê Indígena de Mudanças Climáticas, com representantes das cinco regiões do país. Um espaço de incidência política que merece mais reverberação.

Em outubro, ao ouvir a narrativa da liderança indígena André Baniwa, da Amazônia, em evento do Observatório do Clima (OC), realizado em São Paulo, sobre os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), essa gama de significativas leituras foi reforçada.

Por meio da construção de uma cartografia que tem a contribuição estratégica dos mais idosos nas aldeias, com o subsídio de calendários do uso da terra indígenas, que usam elementos de sinalização como os animais, os processos de mudanças em duas décadas reportam a um estado de apreensão. Esses dados resultam, segundo ele, na reação atual do seu povo para buscar caminhos para a sustentabilidade e bem-viver em seus territórios. Para isso, há reuniões coletivas para discutir o assunto.

“…O calendário indígena de cada povo Baniwa (de acordo com o território que vivem) é diferente. Acompanha estrelas e constelações, cada período da fase importante para a agricultura, para a pesca. Algum sinal de passarinho, andorinha antes da pesca, por exemplo, significa fartura de peixe. Hoje não existe mais este movimento, são sinais práticos…O tucunaré diminuiu de tamanho nos últimos 20 anos”.

Segundo ele, as piracemas não existem mais de forma organizada… “Agora tem muita chuva no Rio Negro e não tem peixe. Observamos, desde 2002, esse processo de cheias frequentes. Cobriram pedras antigas (lugares sagrados), que temos sobre o entendimento do mundo…”.

Nesse diálogo entre a Terra e o mundo espiritual, André sinaliza que a natureza está dando alertas. “…Atualmente há trovejadas constantes na região das aldeias, o que não ocorria. Estamos procurando entender o que isso significa. Isso nos preocupa, porque (no campo das relações sociais e políticas) nossos direitos estão sendo ameaçados e é consequência de decisões políticas, nos grandes centros do mundo…Se não houver mudança de atitude…”, deixa este alerta.

O indígena já havia levado a sua mensagem ao Espaço do Clima da Sociedade Civil, na COP-21, ao lado de outros parentes, sobre a questão climática, em evento realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), quando destacou: “Os xamãs do povo Baniwa dizem que esse mundo vai parar daqui a algum tempo e não haverá sinal de vida. Será um período silencioso, na nossa previsão…”.

André ainda destaca o importante trabalho de pesquisa que está sendo realizado por outros parentes, como os Tukano e de outras etnias. Uma amostra dessa interação dos povos indígenas com o processo das mudanças climáticas é o levantamento Ciclos Anuais dos Povos Indígenas do Rio Tiquié. com apoio do ISA.

Leia mais: http://cidadaosdomundo.webnode.com/news/as-mudancas-climaticas-sob-o-olhar-indigena/

The new astrology (Aeon)

By fetishising mathematical models, economists turned economics into a highly paid pseudoscience

04 April, 2016

Alan Jay Levinovitz is an assistant professor of philosophy and religion at James Madison University in Virginia. His most recent book is The Gluten Lie: And Other Myths About What You Eat (2015).Edited by Sam Haselby

 

What would make economics a better discipline?

Since the 2008 financial crisis, colleges and universities have faced increased pressure to identify essential disciplines, and cut the rest. In 2009, Washington State University announced it would eliminate the department of theatre and dance, the department of community and rural sociology, and the German major – the same year that the University of Louisiana at Lafayette ended its philosophy major. In 2012, Emory University in Atlanta did away with the visual arts department and its journalism programme. The cutbacks aren’t restricted to the humanities: in 2011, the state of Texas announced it would eliminate nearly half of its public undergraduate physics programmes. Even when there’s no downsizing, faculty salaries have been frozen and departmental budgets have shrunk.

But despite the funding crunch, it’s a bull market for academic economists. According to a 2015 sociological study in the Journal of Economic Perspectives, the median salary of economics teachers in 2012 increased to $103,000 – nearly $30,000 more than sociologists. For the top 10 per cent of economists, that figure jumps to $160,000, higher than the next most lucrative academic discipline – engineering. These figures, stress the study’s authors, do not include other sources of income such as consulting fees for banks and hedge funds, which, as many learned from the documentary Inside Job (2010), are often substantial. (Ben Bernanke, a former academic economist and ex-chairman of the Federal Reserve, earns $200,000-$400,000 for a single appearance.)

Unlike engineers and chemists, economists cannot point to concrete objects – cell phones, plastic – to justify the high valuation of their discipline. Nor, in the case of financial economics and macroeconomics, can they point to the predictive power of their theories. Hedge funds employ cutting-edge economists who command princely fees, but routinely underperform index funds. Eight years ago, Warren Buffet made a 10-year, $1 million bet that a portfolio of hedge funds would lose to the S&P 500, and it looks like he’s going to collect. In 1998, a fund that boasted two Nobel Laureates as advisors collapsed, nearly causing a global financial crisis.

The failure of the field to predict the 2008 crisis has also been well-documented. In 2003, for example, only five years before the Great Recession, the Nobel Laureate Robert E Lucas Jr told the American Economic Association that ‘macroeconomics […] has succeeded: its central problem of depression prevention has been solved’. Short-term predictions fair little better – in April 2014, for instance, a survey of 67 economists yielded 100 per cent consensus: interest rates would rise over the next six months. Instead, they fell. A lot.

Nonetheless, surveys indicate that economists see their discipline as ‘the most scientific of the social sciences’. What is the basis of this collective faith, shared by universities, presidents and billionaires? Shouldn’t successful and powerful people be the first to spot the exaggerated worth of a discipline, and the least likely to pay for it?

In the hypothetical worlds of rational markets, where much of economic theory is set, perhaps. But real-world history tells a different story, of mathematical models masquerading as science and a public eager to buy them, mistaking elegant equations for empirical accuracy.

As an extreme example, take the extraordinary success of Evangeline Adams, a turn-of-the-20th-century astrologer whose clients included the president of Prudential Insurance, two presidents of the New York Stock Exchange, the steel magnate Charles M Schwab, and the banker J P Morgan. To understand why titans of finance would consult Adams about the market, it is essential to recall that astrology used to be a technical discipline, requiring reams of astronomical data and mastery of specialised mathematical formulas. ‘An astrologer’ is, in fact, the Oxford English Dictionary’s second definition of ‘mathematician’. For centuries, mapping stars was the job of mathematicians, a job motivated and funded by the widespread belief that star-maps were good guides to earthly affairs. The best astrology required the best astronomy, and the best astronomy was done by mathematicians – exactly the kind of person whose authority might appeal to bankers and financiers.

In fact, when Adams was arrested in 1914 for violating a New York law against astrology, it was mathematics that eventually exonerated her. During the trial, her lawyer Clark L Jordan emphasised mathematics in order to distinguish his client’s practice from superstition, calling astrology ‘a mathematical or exact science’. Adams herself demonstrated this ‘scientific’ method by reading the astrological chart of the judge’s son. The judge was impressed: the plaintiff, he observed, went through a ‘mathematical process to get at her conclusions… I am satisfied that the element of fraud… is absent here.’

Romer compares debates among economists to those between 16th-century advocates of heliocentrism and geocentrism

The enchanting force of mathematics blinded the judge – and Adams’s prestigious clients – to the fact that astrology relies upon a highly unscientific premise, that the position of stars predicts personality traits and human affairs such as the economy. It is this enchanting force that explains the enduring popularity of financial astrology, even today. The historian Caley Horan at the Massachusetts Institute of Technology described to me how computing technology made financial astrology explode in the 1970s and ’80s. ‘Within the world of finance, there’s always a superstitious, quasi-spiritual trend to find meaning in markets,’ said Horan. ‘Technical analysts at big banks, they’re trying to find patterns in past market behaviour, so it’s not a leap for them to go to astrology.’ In 2000, USA Today quoted Robin Griffiths, the chief technical analyst at HSBC, the world’s third largest bank, saying that ‘most astrology stuff doesn’t check out, but some of it does’.

Ultimately, the problem isn’t with worshipping models of the stars, but rather with uncritical worship of the language used to model them, and nowhere is this more prevalent than in economics. The economist Paul Romer at New York University has recently begun calling attention to an issue he dubs ‘mathiness’ – first in the paper ‘Mathiness in the Theory of Economic Growth’ (2015) and then in a series of blog posts. Romer believes that macroeconomics, plagued by mathiness, is failing to progress as a true science should, and compares debates among economists to those between 16th-century advocates of heliocentrism and geocentrism. Mathematics, he acknowledges, can help economists to clarify their thinking and reasoning. But the ubiquity of mathematical theory in economics also has serious downsides: it creates a high barrier to entry for those who want to participate in the professional dialogue, and makes checking someone’s work excessively laborious. Worst of all, it imbues economic theory with unearned empirical authority.

‘I’ve come to the position that there should be a stronger bias against the use of math,’ Romer explained to me. ‘If somebody came and said: “Look, I have this Earth-changing insight about economics, but the only way I can express it is by making use of the quirks of the Latin language”, we’d say go to hell, unless they could convince us it was really essential. The burden of proof is on them.’

Right now, however, there is widespread bias in favour of using mathematics. The success of math-heavy disciplines such as physics and chemistry has granted mathematical formulas with decisive authoritative force. Lord Kelvin, the 19th-century mathematical physicist, expressed this quantitative obsession:

When you can measure what you are speaking about and express it in numbers you know something about it; but when you cannot measure it… in numbers, your knowledge is of a meagre and unsatisfactory kind.

The trouble with Kelvin’s statement is that measurement and mathematics do not guarantee the status of science – they guarantee only the semblance of science. When the presumptions or conclusions of a scientific theory are absurd or simply false, the theory ought to be questioned and, eventually, rejected. The discipline of economics, however, is presently so blinkered by the talismanic authority of mathematics that theories go overvalued and unchecked.

Romer is not the first to elaborate the mathiness critique. In 1886, an article in Science accused economics of misusing the language of the physical sciences to conceal ‘emptiness behind a breastwork of mathematical formulas’. More recently, Deirdre N McCloskey’s The Rhetoric of Economics(1998) and Robert H Nelson’s Economics as Religion (2001) both argued that mathematics in economic theory serves, in McCloskey’s words, primarily to deliver the message ‘Look at how very scientific I am.’

After the Great Recession, the failure of economic science to protect our economy was once again impossible to ignore. In 2009, the Nobel Laureate Paul Krugman tried to explain it in The New York Times with a version of the mathiness diagnosis. ‘As I see it,’ he wrote, ‘the economics profession went astray because economists, as a group, mistook beauty, clad in impressive-looking mathematics, for truth.’ Krugman named economists’ ‘desire… to show off their mathematical prowess’ as the ‘central cause of the profession’s failure’.

The mathiness critique isn’t limited to macroeconomics. In 2014, the Stanford financial economist Paul Pfleiderer published the paper‘Chameleons: The Misuse of Theoretical Models in Finance and Economics’, which helped to inspire Romer’s understanding of mathiness. Pfleiderer called attention to the prevalence of ‘chameleons’ – economic models ‘with dubious connections to the real world’ that substitute ‘mathematical elegance’ for empirical accuracy. Like Romer, Pfleiderer wants economists to be transparent about this sleight of hand. ‘Modelling,’ he told me, ‘is now elevated to the point where things have validity just because you can come up with a model.’

The notion that an entire culture – not just a few eccentric financiers – could be bewitched by empty, extravagant theories might seem absurd. How could all those people, all that math, be mistaken? This was my own feeling as I began investigating mathiness and the shaky foundations of modern economic science. Yet, as a scholar of Chinese religion, it struck me that I’d seen this kind of mistake before, in ancient Chinese attitudes towards the astral sciences. Back then, governments invested incredible amounts of money in mathematical models of the stars. To evaluate those models, government officials had to rely on a small cadre of experts who actually understood the mathematics – experts riven by ideological differences, who couldn’t even agree on how to test their models. And, of course, despite collective faith that these models would improve the fate of the Chinese people, they did not.

Astral Science in Early Imperial China, a forthcoming book by the historian Daniel P Morgan, shows that in ancient China, as in the Western world, the most valuable type of mathematics was devoted to the realm of divinity – to the sky, in their case (and to the market, in ours). Just as astrology and mathematics were once synonymous in the West, the Chinese spoke of li, the science of calendrics, which early dictionaries also glossed as ‘calculation’, ‘numbers’ and ‘order’. Li models, like macroeconomic theories, were considered essential to good governance. In the classic Book of Documents, the legendary sage king Yao transfers the throne to his successor with mention of a single duty: ‘Yao said: “Oh thou, Shun! The li numbers of heaven rest in thy person.”’

China’s oldest mathematical text invokes astronomy and divine kingship in its very title – The Arithmetical Classic of the Gnomon of the Zhou. The title’s inclusion of ‘Zhou’ recalls the mythic Eden of the Western Zhou dynasty (1045–771 BCE), implying that paradise on Earth can be realised through proper calculation. The book’s introduction to the Pythagorean theorem asserts that ‘the methods used by Yu the Great in governing the world were derived from these numbers’. It was an unquestioned article of faith: the mathematical patterns that govern the stars also govern the world. Faith in a divine, invisible hand, made visible by mathematics. No wonder that a newly discovered text fragment from 200 BCE extolls the virtues of mathematics over the humanities. In it, a student asks his teacher whether he should spend more time learning speech or numbers. His teacher replies: ‘If my good sir cannot fathom both at once, then abandon speech and fathom numbers, [for] numbers can speak, [but] speech cannot number.’

Modern governments, universities and businesses underwrite the production of economic theory with huge amounts of capital. The same was true for li production in ancient China. The emperor – the ‘Son of Heaven’ – spent astronomical sums refining mathematical models of the stars. Take the armillary sphere, such as the two-metre cage of graduated bronze rings in Nanjing, made to represent the celestial sphere and used to visualise data in three-dimensions. As Morgan emphasises, the sphere was literally made of money. Bronze being the basis of the currency, governments were smelting cash by the metric ton to pour it into li. A divine, mathematical world-engine, built of cash, sanctifying the powers that be.

The enormous investment in li depended on a huge assumption: that good government, successful rituals and agricultural productivity all depended upon the accuracy of li. But there were, in fact, no practical advantages to the continued refinement of li models. The calendar rounded off decimal points such that the difference between two models, hotly contested in theory, didn’t matter to the final product. The work of selecting auspicious days for imperial ceremonies thus benefited only in appearance from mathematical rigour. And of course the comets, plagues and earthquakes that these ceremonies promised to avert kept on coming. Farmers, for their part, went about business as usual. Occasional governmental efforts to scientifically micromanage farm life in different climes using li ended in famine and mass migration.

Like many economic models today, li models were less important to practical affairs than their creators (and consumers) thought them to be. And, like today, only a few people could understand them. In 101 BCE, Emperor Wudi tasked high-level bureaucrats – including the Great Director of the Stars – with creating a new li that would glorify the beginning of his path to immortality. The bureaucrats refused the task because ‘they couldn’t do the math’, and recommended the emperor outsource it to experts.

The equivalent in economic theory might be to grant a model high points for success in predicting short-term markets, while failing to deduct for missing the Great Recession

The debates of these ancient li experts bear a striking resemblance to those of present-day economists. In 223 CE, a petition was submitted to the emperor asking him to approve tests of a new li model developed by the assistant director of the astronomical office, a man named Han Yi.

At the time of the petition, Han Yi’s model, and its competitor, the so-called Supernal Icon, had already been subjected to three years of ‘reference’, ‘comparison’ and ‘exchange’. Still, no one could agree which one was better. Nor, for that matter, was there any agreement on how they should be tested.

In the end, a live trial involving the prediction of eclipses and heliacal risings was used to settle the debate. With the benefit of hindsight, we can see this trial was seriously flawed. The helical rising (first visibility) of planets depends on non-mathematical factors such as eyesight and atmospheric conditions. That’s not to mention the scoring of the trial, which was modelled on archery competitions. Archers scored points for proximity to the bullseye, with no consideration for overall accuracy. The equivalent in economic theory might be to grant a model high points for success in predicting short-term markets, while failing to deduct for missing the Great Recession.

None of this is to say that li models were useless or inherently unscientific. For the most part, li experts were genuine mathematical virtuosos who valued the integrity of their discipline. Despite being based on inaccurate assumptions – that the Earth was at the centre of the cosmos – their models really did work to predict celestial motions. Imperfect though the live trial might have been, it indicates that superior predictive power was a theory’s most important virtue. All of this is consistent with real science, and Chinese astronomy progressed as a science, until it reached the limits imposed by its assumptions.

However, there was no science to the belief that accurate li would improve the outcome of rituals, agriculture or government policy. No science to the Hall of Light, a temple for the emperor built on the model of a magic square. There, by numeric ritual gesture, the Son of Heaven was thought to channel the invisible order of heaven for the prosperity of man. This was quasi-theology, the belief that heavenly patterns – mathematical patterns – could be used to model every event in the natural world, in politics, even the body. Macro- and microcosm were scaled reflections of one another, yin and yang in a unifying, salvific mathematical vision. The expensive gadgets, the personnel, the bureaucracy, the debates, the competition – all of this testified to the divinely authoritative power of mathematics. The result, then as now, was overvaluation of mathematical models based on unscientific exaggerations of their utility.

In ancient China it would have been unfair to blame li experts for the pseudoscientific exploitation of their theories. These men had no way to evaluate the scientific merits of assumptions and theories – ‘science’, in a formalised, post-Enlightenment sense, didn’t really exist. But today it is possible to distinguish, albeit roughly, science from pseudoscience, astronomy from astrology. Hypothetical theories, whether those of economists or conspiracists, aren’t inherently pseudoscientific. Conspiracy theories can be diverting – even instructive – flights of fancy. They become pseudoscience only when promoted from fiction to fact without sufficient evidence.

Romer believes that fellow economists know the truth about their discipline, but don’t want to admit it. ‘If you get people to lower their shield, they’ll tell you it’s a big game they’re playing,’ he told me. ‘They’ll say: “Paul, you may be right, but this makes us look really bad, and it’s going to make it hard for us to recruit young people.”’

Demanding more honesty seems reasonable, but it presumes that economists understand the tenuous relationship between mathematical models and scientific legitimacy. In fact, many assume the connection is obvious – just as in ancient China, the connection between li and the world was taken for granted. When reflecting in 1999 on what makes economics more scientific than the other social sciences, the Harvard economist Richard B Freeman explained that economics ‘attracts stronger students than [political science or sociology], and our courses are more mathematically demanding’. In Lives of the Laureates (2004), Robert E Lucas Jr writes rhapsodically about the importance of mathematics: ‘Economic theory is mathematical analysis. Everything else is just pictures and talk.’ Lucas’s veneration of mathematics leads him to adopt a method that can only be described as a subversion of empirical science:

The construction of theoretical models is our way to bring order to the way we think about the world, but the process necessarily involves ignoring some evidence or alternative theories – setting them aside. That can be hard to do – facts are facts – and sometimes my unconscious mind carries out the abstraction for me: I simply fail to see some of the data or some alternative theory.

Even for those who agree with Romer, conflict of interest still poses a problem. Why would skeptical astronomers question the emperor’s faith in their models? In a phone conversation, Daniel Hausman, a philosopher of economics at the University of Wisconsin, put it bluntly: ‘If you reject the power of theory, you demote economists from their thrones. They don’t want to become like sociologists.’

George F DeMartino, an economist and an ethicist at the University of Denver, frames the issue in economic terms. ‘The interest of the profession is in pursuing its analysis in a language that’s inaccessible to laypeople and even some economists,’ he explained to me. ‘What we’ve done is monopolise this kind of expertise, and we of all people know how that gives us power.’

Every economist I interviewed agreed that conflicts of interest were highly problematic for the scientific integrity of their field – but only tenured ones were willing to go on the record. ‘In economics and finance, if I’m trying to decide whether I’m going to write something favourable or unfavourable to bankers, well, if it’s favourable that might get me a dinner in Manhattan with movers and shakers,’ Pfleiderer said to me. ‘I’ve written articles that wouldn’t curry favour with bankers but I did that when I had tenure.’

When mathematical theory is the ultimate arbiter of truth, it becomes difficult to see the difference between science and pseudoscience

Then there’s the additional problem of sunk-cost bias. If you’ve invested in an armillary sphere, it’s painful to admit that it doesn’t perform as advertised. When confronted with their profession’s lack of predictive accuracy, some economists find it difficult to admit the truth. Easier, instead, to double down, like the economist John H Cochrane at the University of Chicago. The problem isn’t too much mathematics, he writes in response to Krugman’s 2009 post-Great-Recession mea culpa for the field, but rather ‘that we don’t have enough math’. Astrology doesn’t work, sure, but only because the armillary sphere isn’t big enough and the equations aren’t good enough.

If overhauling economics depended solely on economists, then mathiness, conflict of interest and sunk-cost bias could easily prove insurmountable. Fortunately, non-experts also participate in the market for economic theory. If people remain enchanted by PhDs and Nobel Prizes awarded for the production of complicated mathematical theories, those theories will remain valuable. If they become disenchanted, the value will drop.

Economists who rationalise their discipline’s value can be convincing, especially with prestige and mathiness on their side. But there’s no reason to keep believing them. The pejorative verb ‘rationalise’ itself warns of mathiness, reminding us that we often deceive each other by making prior convictions, biases and ideological positions look ‘rational’, a word that confuses truth with mathematical reasoning. To be rational is, simply, to think in ratios, like the ratios that govern the geometry of the stars. Yet when mathematical theory is the ultimate arbiter of truth, it becomes difficult to see the difference between science and pseudoscience. The result is people like the judge in Evangeline Adams’s trial, or the Son of Heaven in ancient China, who trust the mathematical exactitude of theories without considering their performance – that is, who confuse math with science, rationality with reality.

There is no longer any excuse for making the same mistake with economic theory. For more than a century, the public has been warned, and the way forward is clear. It’s time to stop wasting our money and recognise the high priests for what they really are: gifted social scientists who excel at producing mathematical explanations of economies, but who fail, like astrologers before them, at prophecy.

Estamos todos doentes? (JC)

JC, 5707, 25 de julho de 2017

Pesquisadora da Unicamp alerta para influência da indústria farmacêutica no crescimento do número de diagnósticos de transtornos mentais

Dados do National Institute of Mental Health (NIMH, 2012) apontam que 46% dos norte-americanos preenchem os critérios de diagnóstico de um transtorno mental. Na Europa essa porcentagem corresponde a 38%. Nos Estados Unidos, o diagnóstico de transtorno bipolar em crianças e adolescentes aumentou 40 vezes, entre 1994 e 2003, e uma entre cinco crianças tem um surto de transtorno mental por ano, de acordo com dados do Centro de Controle de Doenças, daquele país (CDC, 2013).

Há pesquisas que indicam que 10% da população mundial teria algum tipo de transtorno, um número que segundo a médica pediatra, Maria Aparecida Affonso Moysés, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), inviabiliza qualquer esforço de política pública. “Temos que começar a questionar como esses números são construídos. Na verdade, mudanças nos critérios do diagnóstico se tornaram muito frouxos nos últimos anos”, afirmou a médica, em sua conferência na Reunião Anual da SBPC. “É muito difícil qualquer um de nós não se encaixar nos critérios. Os testes que detectam algumas dessas doenças são verdadeiras armadilhas”, alertou.

Ela refutou a ideia de que vivemos uma epidemia de doenças mentais. “O que temos é uma epidemia de diagnósticos de transtornos mentais”, disse. Na primeira vez em que foi publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, em 1952, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), tinha 106 categorias de transtornos mentais. Em sua última edição, em 2013, foram listadas 300 categorias. “Alterar as normas para caracterização de um transtorno e criar doenças novas contribuíram para essa epidemia amplamente patrocinada pela indústria farmacêutica”, declarou Moysés. “Antes de vender remédios, o departamento de marketing da indústria de fármacos trabalha para vender doenças”, diz. Déficit de atenção, transtorno de descontrole de humor, transtorno de aprendizagem, depressão, transtorno opositor desafiante, hiperatividade, são algumas dessas doenças fabricadas para vender medicamentos. “Onde está a ciência e ética nesse campo?”, questionou a médica. Segundo ela, esses medicamentos são largamente receitados para crianças e adultos, como se fossem 100% seguros, mas boa parte deles provoca dependência química.

Um exemplo é o metilfenidato, base de uma classe de estimulantes do sistema nervoso central, vendido entre outras, com a marca “Ritalina”. O medicamento age inibindo a receptação de dopamina na sinapse, o que teria como resultado o aumento do nível de concentração. Conforme explicou Moysés, ele é receitado para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), não pelo seu efeito terapêutico, mas pelas reações adversas. No sistema nervoso central o metilfenidato provoca o efeito “zombie like”, quando a pessoa fica contida em si mesma. “Eu comparo esse fármaco a uma droga da obediência porque o indivíduo perde a capacidade de questionar, de sentir. É um tipo de contenção química. O aumento de concentração, tão propagado, é, na verdade, uma redução do foco da atenção, isto é, a pessoa presta atenção em uma coisa de cada vez”, afirmou. “Não existe uma pílula que nos faça prestar atenção. Para isso, precisamos de bons professores com boas condições de trabalho”.

Na opinião da pesquisadora da Unicamp, vivemos em um projeto de sociedade que estimula e premia comportamentos homogêneos, punindo as singularidades. “Não é à toa que assistimos cortes significativos nos orçamentos da ciência e da educação. Temos que ser iguais porque as diferenças incomodam cada vez mais. Entretanto, neutralizar os sonhadores, os que pensam diferente é um genocídio do futuro”, disse.

O combate ao que a médica chama de patologização da sociedade passa pelos campos da saúde, da educação e por uma revisão das políticas públicas para que elas não sejam submissas ao mercado. Outro setor é o da formação profissional. Nas escolas de medicina, a técnica não pode se sobrepor à ética e ao aspecto humano. Toda avaliação e diagnóstico têm que respeitar saberes, valores, história e a cultura porque “a vida não é mercadoria”, finalizou.

Por Patricia Mariuzzo para o Jornal da Ciência

Every Year, the Sky ‘Rains Fish.’ Explanations Vary. (N.Y.Times)

O casal que afirma incorporar índio para controlar a chuva (Veja SP)

Fundação Cacique Cobra Coral já foi chamada pela organização do Rock in Rio e até pela gestão José Serra

Na tarde do último dia 6 de abril, o empresário Osmar Santos, de 53 anos, e a médium e corretora de imóveis Adelaide Scritori, 55, receberam por e-mail uma preocupante previsão. Uma grande tempestade estava se aproximando da cidade. Poucas horas depois, os dois se instalaram no escritório do apartamento onde moram, nos Jardins.

É um cômodo branco, que abriga apenas uma escrivaninha, na qual um tampo de vidro protege um mapa-múndi com os continentes delineados em preto. Na parede, um desenho a lápis retrata um índio. A mulher começou a se concentrar, fechou os olhos e, em um minuto, sua voz ficou baixa, rouca e ganhou um timbre masculino.

Santos com o retrato do índio na sede da empresa: “Reduzimos os estragos” (Antonio Milena/Veja SP)

Segundo o casal, ela havia acabado de incorporar o cacique Cobra Coral. O marido, que acompanhava a cena de perto, ditou as condições climáticas. Ela o ouviu e, com giz de cera, desenhou símbolos meteorológicos sobre a mesa para redirecionar as nuvens a outros cantos. Naquela madrugada, a chuva caiu sobre a capital, mas, de acordo com eles, com menos intensidade que a prevista. “Somos como um airbag”, compara Santos. “Não eliminamos os desastres naturais, mas reduzimos os estragos.”

Essa é a descrição de uma típica cerimônia da Fundação Cacique Cobra Coral. Embora a dupla de criadores viva na metrópole, a organização umbandista é sediada em Guarulhos. Sua missão: controlar o clima por meio dos poderes de um índio. Segundo os fiéis, o espírito reencarnou em vários personagens da história, como o cientista Galileu Galilei e o presidente americano Abraham Lincoln.

Ninguém sabe ao certo de onde teria vindo seu poder de controlar o clima. “O povo indígena sempre teve uma relação estreita com o tempo”, arrisca Santos. Adelaide diz ter recebido a entidade pela primeira vez aos 7 anos, em um centro espírita. À época, seu pai, Ângelo Scritori, a ajudava nas sessões. A partir da década de 80, o marido se tornou o escudeiro.

Os alegados poderes do cacique levaram o casal a ser procurado por órgãos públicos e empresas particulares. Em 2005, durante a gestão de José Serra na prefeitura, um contrato firmado com a dupla chegou a ser publicado no Diário Oficial, segundo o qual Santos e Adelaide se comprometiam a colaborar para reduzir as enchentes na capital. Na ocasião, o secretário das subprefeituras, Andrea Matarazzo, justificava a parceria pela ausência de custos para os cofres públicos. “O convênio é inodoro, sem valor financeiro”, defendia.

Se em alguns locais há excesso de água, em outros o desafio é a falta dela. No início deste ano, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, convocou a fundação para combater a seca. As águas ainda não rolaram da forma como se esperava, mas a fé continua inabalável. “Como católico, tenho rezado muito para que chova bastante no Distrito Federal, e a fundação é mais uma energia que se junta a esse esforço”, afirmou Rollemberg nas redes sociais.

Na esfera privada, o Rock in Rio era um de seus clientes mais antigos. A parceria começou em 2008 e se estendeu nas edições seguintes do festival. Executivos da empresa organizadora não quiseram comentar o contrato, mas uma pessoa ligada à produção afirmou que o trabalho foi interrompido.

A gota d’água para o divórcio teria sido a tempestade que caiu em um show de Katy Perry em 2015. “O motorista estava sem a credencial e chegamos ao espaço após a entrada da frente fria”, diz Santos. “Mas, depois, continuamos sendo chamados por eles”, garante. No ano passado, durante a Olimpíada, ele e Adelaide circularam pelo Rio com credenciais.

A atuação do espírito se estende a outros países. Entre abril e maio, o casal esteve em Angola e na China para dar conta das forças naturais fora de controle.

Em seu celular, Santos carrega fotografias em que eles aparecem ao lado de personalidades como o prefeito João Doria e o escritor Paulo Coelho. O autor, inclusive, ajudou a popularizar a Cobra Coral ao ocupar o cargo de vice-presidente da fundação entre 2004 e 2006. Há até mesmo membros da comunidade científica entre os admiradores. “Verifiquei uma mudança no clima logo após presenciar um ritual, em 2000”, diz Rubens Villela, professor aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

Adelaide ao lado de Paulo Coelho (à dir.), ex-vice-presidente da fundação: grandes eventos e celebridades (Arquivo Pessoal/Veja SP)

Apesar de firmar contratos, o cacique não permite ser remunerado pelo trabalho. Santos e Adelaide mantêm-se com as atividades de suas empresas, como a Nostradamus Corretora de Seguros, a TWX Capas de Chuva e a OAS Empreendimentos Imobiliários, que negocia imóveis acima de 5 milhões de reais.

Caseiros, os dois só costumam deixar o apartamento de 120 metros quadrados próximo à Avenida Paulista para frequentar salas de cinema. “Gostamos de filmes-catástrofe”, diz Santos. Juntos desde 1977, eles têm dois filhos — o coach Jorge, de 38 anos, e a terapeuta floral Barbara, de 22. A caçula, inclusive, pode levar os dotes da Cobra Coral à próxima geração. “Percebemos nela um talento para a tarefa”, afirma o pai.

Why did humans evolve such large brains? Because smarter people have more friends (The Conversation)

June 19, 2017 10.01am EDT

Humans are the only ultrasocial creature on the planet. We have outcompeted, interbred or even killed off all other hominin species. We cohabit in cities of tens of millions of people and, despite what the media tell us, violence between individuals is extremely rare. This is because we have an extremely large, flexible and complex “social brain”.

To truly understand how the brain maintains our human intellect, we would need to know about the state of all 86 billion neurons and their 100 trillion interconnections, as well as the varying strengths with which they are connected, and the state of more than 1,000 proteins that exist at each connection point. Neurobiologist Steven Rose suggests that even this is not enough – we would still need know how these connections have evolved over a person’s lifetime and even the social context in which they had occurred. It may take centuries just to figure out basic neuronal connectivity.

Many people assume that our brain operates like a powerful computer. But Robert Epstein, a psychologist at the American Institute for Behavioural Research and Technology, says this is just shoddy thinking and is holding back our understanding of the human brain. Because, while humans start with senses, reflexes and learning mechanisms, we are not born with any of the information, rules, algorithms or other key design elements that allow computers to behave somewhat intelligently. For instance, computers store exact copies of data that persist for long periods of time, even when the power is switched off. Our brains, meanwhile, are capable of creating false data or false memories, and they only maintain our intellect as long as we remain alive.

We are organisms, not computers

Of course, we can see many advantages in having a large brain. In my recent book on human evolution I suggest it firstly allows humans to exist in a group size of about 150. This builds resilience to environmental changes by increasing and diversifying food production and sharing.

 

As our ancestors got smarter, they became capable of living in larger and larger groups. Mark Maslin, Author provided

A social brain also allows specialisation of skills so individuals can concentrate on supporting childbirth, tool-making, fire setting, hunting or resource allocation. Humans have no natural weapons, but working in large groups and having tools allowed us to become the apex predator, hunting animals as large as mammoths to extinction.

Our social groups are large and complex, but this creates high stress levels for individuals because the rewards in terms of food, safety and reproduction are so great. Hence, Oxford anthropologist Robin Dunbar argues our huge brain is primarily developed to keep track of rapidly changing relationships. It takes a huge amount of cognitive ability to exist in large social groups, and if you fall out of the group you lose access to food and mates and are unlikely to reproduce and pass on your genes.

 

Great. But what about your soap opera knowledge? ronstik / shutterstock

My undergraduates come to university thinking they are extremely smart as they can do differential equations and understand the use of split infinitives. But I point out to them that almost anyone walking down the street has the capacity to hold the moral and ethical dilemmas of at least five soap operas in their head at any one time. And that is what being smart really means. It is the detailed knowledge of society and the need to track and control the ever changing relationship between people around us that has created our huge complex brain.

It seems our brains could be even more flexible that we previously thought. Recent genetic evidence suggests the modern human brain is more malleable and is modelled more by the surrounding environment than that of chimpanzees. The anatomy of the chimpanzee brain is strongly controlled by their genes, whereas the modern human brain is extensively shaped by the environment, no matter what the genetics.

This means the human brain is pre-programmed to be extremely flexible; its cerebral organisation is adjusted by the environment and society in which it is raised. So each new generation’s brain structure can adapt to the new environmental and social challenges without the need to physically evolve.

 

Evolution at work. OtmarW / shutterstock

This may also explain why we all complain that we do not understand the next generation as their brains are wired differently, having grown up in a different physical and social environment. An example of this is the ease with which the latest generation interacts with technology almost if they had co-evolved with it.

So next time you turn on a computer just remember how big and complex your brain is – to keep a track of your friends and enemies.

Groups are often smarter without ‘opinion leaders’ (Futurity)

Equality may counteract the tendency toward groupthink, research suggests.

The classic “wisdom of crowds” theory goes like this: If we ask a group of people to guess an outcome, the group’s guess will be better than any individual expert. So, when a group tries to make a decision, in this case, predicting the outcome of an election, the group does a better job than experts. For market predictions, geopolitical forecasting, and crowdsourcing product ideas, the wisdom of crowds has been shown to even outperform industry experts.

“On average, opinion leaders were more likely to lead the group astray than to improve it.”

That is true—as long as people don’t talk to each other. When people start sharing their opinions, their conversations can lead to social influences that produce “groupthink” and destroy the wisdom of the crowd. So says the classic theory.

But Damon Centola, an associate professor in the University of Pennsylvania’s Annenberg School for Communication and School of Engineering and Applied Science and director of the Network Dynamics Group, discovered the opposite.

When people talk to each other, the crowd can get smarter, report Centola, PhD candidate Joshua Becker, and recent PhD graduate Devon Brackbill in Proceedings of the National Academy of Sciences.

Equal influence

“The classic theory says that if you let people talk to each other groups go astray. But,” says Centola, “we find that even if people are not particularly accurate, when they talk to each other, they help to make each other smarter. Whether things get better or worse depends on the networks.

“In egalitarian networks,” he says, “where everyone has equal influence, we find a strong social-learning effect, which improves the quality of everyone’s judgments. When people exchange ideas, everyone gets smarter. But this can all go haywire if there are opinion leaders in the group.”

An influential opinion leader can hijack the process, leading the entire group astray. While opinion leaders may be knowledgeable on some topics, Centola found that, when the conversation moved away from their expertise, they still remained just as influential. As a result, they ruined the group’s judgment.

“On average,” he says, “opinion leaders were more likely to lead the group astray than to improve it.”

Gut responses

The online study included more than 1,300 participants, who went into one of three experimental conditions. Some were placed into one of the “egalitarian” networks, where everyone had an equal number of contacts and everyone had equal influence. Others were placed into one of the “centralized” networks, in which a single opinion leader was connected to everyone, giving that person much more influence in the group. Each of the networks contained 40 participants. Finally, Centola had several hundred subjects participate in a “control” group, without any social networks.

In the study, all of the participants were given a series of estimation challenges, such as guessing the number of calories in a plate of food. They were given three tries to get the right answer. Everyone first gave a gut response.

Then, participants who were in social networks could see the guesses made by their social contacts and could use that information to revise an answer. They could then see their contacts’ revisions and revise their answers again. But this time it was their final answer. Participants were awarded as much as $10 based on the accuracy of their final guess. In the control group, participants did the same thing, but they were not given any social information between each revision.

“Everyone’s goal was to make a good guess. They weren’t paid for showing up,” Centola says, “only for being accurate.”

Patterns began to emerge. The control groups initially showed the classic wisdom of the crowd but did not improve as people revised their answers. Indeed, if anything, they got slightly worse. By contrast, the egalitarian networks also showed the classic wisdom of the crowd but then saw a dramatic increase in accuracy. Across the board, in network after network, the final answers in these groups were consistently far more accurate than the initial “wisdom of the crowd.”

“In a situation where everyone is equally influential,” Centola says, “people can help to correct each other’s mistakes. This makes each person a little more accurate than they were initially. Overall, this creates a striking improvement in the intelligence of the group. The result is even better than the traditional wisdom of the crowd! But, as soon as you have opinion leaders, social influence becomes really dangerous.”

In the centralized networks, Centola found that, when the opinion leaders were very accurate, they could improve the performance of the group. But even the most accurate opinion leaders were consistently wrong some of the time.

“Thus,” Centola says, “while opinion leaders can sometimes improve things, they were statistically more likely to make the group worse off than to help it.

“The egalitarian network was reliable because the people who were more accurate tended to make smaller revisions, while people who were less accurate revised their answers more. The result is that the entire crowd moved toward the more accurate people, while, at the same time, the more accurate people also made small adjustments that improved their score.”

Engineers and doctors

These findings on the wisdom of crowds have startling real-world implications in areas such as climate-change science, financial forecasting, medical decision-making, and organizational design.

For example, while engineers have been trying to design ways to keep people from talking to each other when making important decisions in an attempt to avoid groupthink, Centola’s findings suggest that what matters most is the network. A group of equally influential scientists talking to one another will likely lead to smarter judgments than might arise from keeping them independent.

He is currently working on implementing these findings to improve physicians’ decision-making. By designing a social network technology for use in hospital settings, it may be possible to reduce implicit bias in physicians’ clinical judgments and to improve the quality of care that they can offer.

Whether new technologies are needed to improve the way the groups talk to each other, or whether we just need to be cautious about the danger of opinion leaders, Centola says it’s time to rethink the idea of the wisdom of crowds.

“It’s much better to have people talk to each other and argue for their points of view than to have opinion leaders rule the crowd,” he says. “By designing informational systems where everyone’s voices can be heard, we can improve the judgment of the entire group. It’s as important for science as it is for democracy.”

Partial support for the work came from the Robert Wood Johnson Foundation.

Source: University of Pennsylvania

Ouvir o cacique (O Globo)

POR JORGE BASTOS MORENO

12/03/2010 10:14

LUIZ GARCIA

É muito simples entender o que é a Fundação Cacique Cobra Coral. Trata-se de organização que se declara beneficente — e não há qualquer prova em contrário — que se atribuiu a missão de “minimizar catástrofes” avisando as autoridades com antecedência. Claro, entender é uma coisa, acreditar é outra. Mas também não falta quem acredite, e, parece, com boas razões.

A fundação foi criada por um certo Angelo Scritori, que morreu em 2002, com alegados 104 anos. Ele recebia os avisos da iminência de desastres naturais do Padre Cícero. Pouco antes de morrer, avisou à praça que seria sucedido pela filha, Adelaide, cujo contato com o outro lado passaria a ser o Cacique Cobra Coral.

Este se comunica com ela falando com sotaque de caboclo brasileiro, embora seja um índio americano Ao avisar sobre a substituição, Padre Cícero informou que o cacique também teria sido, em outras encarnações (se essa é a palavra certa, tratando-se de um espírito), Abraham Lincoln e Galileu Galilei. O leitor não deve ver esse dado com estranheza — até mesmo porque, se é cidadão de pouca fé, francamente, não tem qualquer razão para continuar lendo este artigo.

Mas parece que gente de muita fé não falta. O governo de São Paulo, por exemplo, tem contrato — sem valor financeiro — com a fundação desde 2005. Recebe aviso sobre catástrofes naturais a caminho, com tempo de tomar providências. Se as toma, não se sabe, mas isso não é problema para d. Adelaide.

Ela é bem-sucedida corretora de imóveis, moradora na região próspera dos Jardins de São Paulo. Há algum tempo, definiu com clareza o seu próprio papel como anunciadora de catástrofes: “Funcionamos como uma espécie de air bag. Reduzimos os danos, mas as autoridades têm de fazer a parte delas. O cacique não pode servir de muleta para os homens.”

Talvez como prova disso, a fundação já teve convênio com a Prefeitura de São Paulo, mas o rompeu na gestão do prefeito Gilberto Kassab, porque ele acabara com uma verba destinada a combater causas de desastres climáticos.

Seja como for, o prestígio da Cobra Coral vai além de São Paulo. Em novembro de 2008, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um convite a Adelaide para ir até lá discutir o apagão em 18 estados. Não sei se chegou a ir, não me lembro de notícia disso, mas o convite existiu.

Aqui no Rio, a fundação está discutindo com a Prefeitura a renovação de um convênio — que não envolve qualquer pagamento — pelo qual a fundação profetiza tempestades e assim ajuda a diminuir os seus efeitos. Sendo de graça, por que não ouvir o cacique?

Texto publicado no Globo de hoje.

Antropólogo cria primeiro Centro de Medicina Indígena em Manaus (G1)

Pesquisador idealizou projeto após uma parente se curar de uma picada de cobra com tratamento que uniu saber científico e indígena. 


Indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, no Amazonas (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, no Amazonas (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

A sabedoria herdada de seus avós a longo de 85 anos fez o indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, pajé do povo Tuyuka, no Amazonas. Ele é um dos indígenas que, junto com um dos membros do Colegiado Indígena, do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), criaram o Bahserikowi´i”, ou Centro de Medicina Indígena da Amazônia. O espaço abre as portas para o público em Manaus nesta terça-feira (6). O local não conta com apoio ou interferência das secretarias de saúde do governo e prefeitura.

“Não é para abandonar a indicação dos médicos [tradicionais] mas para agregar”, disse o antropólogo João Paulo Tukano que idealizou o projeto após uma parente se curar de uma picada de cobra com um tratamento que uniu saber científico e indígena.

De acordo com o idealizador do centro, o espaço busca aliar tratamento milenares utilizados nas aldeias para ajudar a pessoas doentes, indígenas ou não, sem esquecer da medicina tradicional.

“Aqui é mais uma opção de tratamento de saúde, baseado em técnica e tecnologias indígenas usadas de geração em geração”, disse Tukano.

Nesta terça-feira, o kumu Tuyuka começa a oferecer serviços. Além dele, pajés das etnias Tikuna, Satere Mawé, Baniwa, Apurinã estarão disponíveis. No local, os tratamentos são feitos de duas formas, iniciando pelo Bahsesé – uma espécie de benzimento – seguido da indicação dos medicamentos.

“O Bahsesé não é ficar rezando. O Kumu aciona princípios curativos contidos nos vegetais e nos animais. É nessa hora, quando ele fica falando, que ele invoca os princípios dentro de um elemento para ver o que pode passar para a pessoa para curar”, disse

Apoio

O prédio foi cedido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A manutenção do local é feita pelos próprios indígenas e por amigos. A venda de artesanato e de medicamentos caseiros serão feitas no local para auxiliar na manutenção do Centro. Os atendimentos serão feitos de segunda a sexta-feira das 9h as 13h, na rua Bernardo Ramos, 97, Centro de Manaus. O valor de cada atendimento é R$ 10.

Kumu Manoel

Para ser um grande kumu da aldeia, Manoel Lima contou que foi treinado com os avós desde muito cedo, segundo conta.

“Aprendi com os meus avós, quando tinha seis anos de idade. Desde cedo fui treinado. Nós ficávamos 4 meses longe da aldeia, dentro do mato, onde não tem barulho para se dedicar só ao aprendizado da cura. Treinamos para ser grande Kumu”, disse.

Os Kumus vivem em São Gabriel da Cachoeira, nas comunidades de Taraque, Iauaritê e Paricachoeirinha. Por conta da dificuldade de acesso às aldeias e à falta de maiores investimentos na saúde, os indígenas reclamam que quase não têm acesso aos tratamentos da medicina “branca tradicional”. Por isso, as técnicas de cura herdada dos ancestrais ainda hoje são importantes e passadas de pai para filho dentro das aldeias.

Produtos feitos a base de ervas são vendidos no local, em Manaus (Foto: Iver Rylo/G1 AM)

Produtos feitos a base de ervas são vendidos no local, em Manaus (Foto: Iver Rylo/G1 AM) 

“Com essa novidade, eu estou muito feliz, é uma iniciativa inédita. Eu já oferecia os tratamentos em casa há muito tempo, não era divulgado e agora é uma coisa grande”, disse o kumu.

Ele garante que existem curas para todos os tipos de enfermidades, inclusive para o que os médicos estão chamando de “mal do século”: a ansiedade e depressão.

“Tratamos desde doenças da cabeça até problemas no útero e menstruação desregulada”, garantiu.

Motivação

A necessidade de agregar e respeitar variadas formas de tratamentos e saberes, dando visibilidade ao conhecimento indígena foi despertada em João Paulo há sete anos, quando a sobrinha dele quase teve a perna amputada.

“O médico decidiu amputar a perna dela. Meu pai disse que não precisava e poderíamos fazer [o tratamento] em conjunto, os médicos e nós indígenas. O médico não aceitou e disse ‘o senhor não estudou nenhum dia, eu estudei 8 anos’. Fiquei muito abatido, triste e nervoso. Pensei melhor e esta foi uma motivação para eu estudar e tratar ele de igual para igual. E caminhei mais para antropologia”, disse João Paulo.

O caso repercutiu, foi para a justiça, o governo entrou em cena e uma nova equipe de médicos foi formada no Hospital Universitário Getúlio Vargas. À época, No dia 15 de janeiro, Ministério Público Federal chegou a recomendar a um dos hospitais onde a menino foi levada que promovesse a articulação dos conhecimentos da medicina comum com o conhecimento e as práticas tradicionais de saúde dos índios tukano.

“Com a outra equipe pudemos dialogar. O médico quis ouvir meu pai e meu pai falou o que gostaria de fazer e eles respeitaram. Primeiro sugerimos tratamento com plantas, o médico disse que não aconselhava e listou os motivos, depois sugerimos com água mineral e foi acordado num diálogo”, disse.

O tratamento dos médicos em parceira com os pajés Tukano deu certo. A menina não teve a perna amputada e hoje, com 19 anos, tem muita história para contar. “Temos vários casos, meus parentes sofrem. Esse veio à tona porque eu briguei”, disse o antropólogo.

Além o desconhecimento da medicina tradicional aos tratamentos indígenas, a dificuldade dos povos indígenas em conseguir atendimento de saúde na capital também motivou a criação do centro.

“Um dos nossos objetivos é disponibilizar o acesso a tratamento para indígenas que estão em Manaus, porque muito reclamam da dificuldade de chegar as unidades de saúde. É muito comum acontecer do indígena não conseguir tratamento”, lamentou o antropólogo.

Centro fica em uma casa antiga no Centro de Manaus (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Centro fica em uma casa antiga no Centro de Manaus (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Climate Science Meets a Stubborn Obstacle: Students (New York Times)

“It’s his website,” she said.

 Mr. Sutter during his Advanced Placement environmental science class. He was hired from a program that recruits science professionals into teaching. Credit: Maddie McGarvey for The New York Times

For his part, Mr. Sutter occasionally fell short of his goal of providing Gwen — the most vocal of a raft of student climate skeptics — with calm, evidence-based responses. “Why would I lie to you?” he demanded one morning. “It’s not like I’m making a lot of money here.”

She was, he knew, a straight-A student. She would have had no trouble comprehending the evidence, embedded in ancient tree rings, ice, leaves and shells, as well as sophisticated computer models, that atmospheric carbon dioxide is the chief culprit when it comes to warming the world. Or the graph he showed of how sharply it has spiked since the Industrial Revolution, when humans began pumping vast quantities of it into the air.

Thinking it a useful soothing device, Mr. Sutter assented to Gwen’s request that she be allowed to sand the bark off the sections of wood he used to illustrate tree rings during class. When she did so with an energy that, classmates said, increased during discussion points with which she disagreed, he let it go.

When she insisted that teachers “are supposed to be open to opinions,” however, Mr. Sutter held his ground.

“It’s not about opinions,” he told her. “It’s about the evidence.”

“It’s like you can’t disagree with a scientist or you’re ‘denying science,”’ she sniffed to her friends.

Gwen, 17, could not put her finger on why she found Mr. Sutter, whose biology class she had enjoyed, suddenly so insufferable. Mr. Sutter, sensing that his facts and figures were not helping, was at a loss. And the day she grew so agitated by a documentary he was showing that she bolted out of the school left them both shaken.

“I have a runner,” Mr. Sutter called down to the office, switching off the video.

He had chosen the video, an episode from an Emmy-winning series that featured a Christian climate activist and high production values, as a counterpoint to another of Gwen’s objections, that a belief in climate change does not jibe with Christianity.

“It was just so biased toward saying climate change is real,” she said later, trying to explain her flight. “And that all these people that I pretty much am like are wrong and stupid.”

Classroom Culture Wars

As more of the nation’s teachers seek to integrate climate science into the curriculum, many of them are reckoning with students for whom suspicion of the subject is deeply rooted.

In rural Wellston, a former coal and manufacturing town seeking its next act, rejecting the key findings of climate science can seem like a matter of loyalty to a way of life already under siege. Originally tied, perhaps, to economic self-interest, climate skepticism has itself become a proxy for conservative ideals of hard work, small government and what people here call “self-sustainability.”

A tractor near Wellston, an area where coal and manufacturing were once the primary employment opportunities. Credit: Maddie McGarvey for The New York Times

Assiduously promoted by fossil fuel interests, that powerful link to a collective worldview largely explains why just 22 percent of Mr. Trump’s supporters in a 2016 poll said they believed that human activity is warming the planet, compared with half of all registered voters. And the prevailing outlook among his base may in turn have facilitated the president’s move to withdraw from the global agreement to battle rising temperatures.

“What people ‘believe’ about global warming doesn’t reflect what they know,” Dan Kahan, a Yale researcher who studies political polarization, has stressed in talks, papers and blog posts. “It expresses who they are.”

But public-school science classrooms are also proving to be a rare place where views on climate change may shift, research has found. There, in contrast with much of adult life, it can be hard to entirely tune out new information.

“Adolescents are still heavily influenced by their parents, but they’re also figuring themselves out,” said Kathryn Stevenson, a researcher at North Carolina State University who studies climate literacy.

Gwen’s father died when she was young, and her mother and uncle, both Trump supporters, doubt climate change as much as she does.

“If she was in math class and teacher told her two plus two equals four and she argued with him about that, I would say she’s wrong,” said her uncle, Mark Beatty. “But no one knows if she’s wrong.”

As Gwen clashed with her teacher over the notion of human-caused climate change, one of her best friends, Jacynda Patton, was still circling the taboo subject. “I learned some stuff, that’s all,’’ Jacynda told Gwen, on whom she often relied to supply the $2.40 for school lunch that she could not otherwise afford.

Jacynda Patton, right, during Mr. Sutter’s class. “I thought it would be an easy A,” she said. “It wasn’t.”Credit: Maddie McGarvey for The New York Times

Hired a year earlier, Mr. Sutter was the first science teacher at Wellston to emphasize climate science. He happened to do so at a time when the mounting evidence of the toll that global warming is likely to take, and the Trump administration’s considerable efforts to discredit those findings, are drawing new attention to the classroom from both sides of the nation’s culture war.

Since March, the Heartland Institute, a think tank that rejects the scientific consensus on climate change, has sent tens of thousands of science teachers a book of misinformation titled “Why Scientists Disagree About Global Warming,” in an effort to influence “the next generation of thought,” said Joseph Bast, the group’s chief executive.

The Alliance for Climate Education, which runs assemblies based on the consensus science for high schools across the country, received new funding from a donor who sees teenagers as the best means of reaching and influencing their parents.

Idaho, however, this year joined several other states that have declined to adopt new science standards that emphasize the role human activities play in climate change.

At Wellston, where most students live below the poverty line and the needle-strewn bike path that abuts the marching band’s practice field is known as “heroin highway,” climate change is not regarded as the most pressing issue. And since most Wellston graduates typically do not go on to obtain a four-year college degree, this may be the only chance many of them have to study the impact of global warming.

But Mr. Sutter’s classroom shows how curriculum can sometimes influence culture on a subject that stands to have a more profound impact on today’s high schoolers than their parents.

“I thought it would be an easy A,” said Jacynda, 16, an outspoken Trump supporter. “It wasn’t.”

God’s Gift to Wellston?

Mr. Sutter, who grew up three hours north of Wellston in the largely Democratic city of Akron, applied for the job at Wellston High straight from a program to recruit science professionals into teaching, a kind of science-focused Teach for America.

He already had a graduate-level certificate in environmental science from the University of Akron and a private sector job assessing environmental risk for corporations. But a series of personal crises that included his sister’s suicide, he said, had compelled him to look for a way to channel his knowledge to more meaningful use.

The fellowship gave him a degree in science education in exchange for a three-year commitment to teach in a high-needs Ohio school district. Megan Sowers, the principal, had been looking for someone qualified to teach an Advanced Placement course, which could help improve her financially challenged school’s poor performance ranking. She hired him on the spot.

Mr. Sutter walking with his students on a nature trail near the high school, where he pointed out evidence of climate change. Credit: Maddie McGarvey for The New York Times 

But at a school where most teachers were raised in the same southeastern corner of Appalachian Ohio as their students, Mr. Sutter’s credentials themselves could raise hackles.

“He says, ‘I left a higher-paying job to come teach in an area like this,’” Jacynda recalled. “We’re like, ‘What is that supposed to mean?”’

“He acts,” Gwen said with her patented eye roll, “like he’s God’s gift to Wellston.”

In truth, he was largely winging it.

Some 20 states, including a handful of red ones, have recently begun requiring students to learn that human activity is a major cause of climate change, but few, if any, have provided a road map for how to teach it, and most science teachers, according to one recent survey, spend at most two hours on the subject.

Chagrined to learn that none of his students could recall a school visit by a scientist, Mr. Sutter hosted several graduate students from nearby Ohio University.

On a field trip to a biology laboratory there, many of his students took their first ride on an escalator. To illustrate why some scientists in the 1970s believed the world was cooling rather than warming (“So why should we believe them now?” students sometimes asked), he brought in a 1968 push-button phone and a 1980s Nintendo game cartridge.

“Our data and our ability to process it is just so much better now,” he said.

In the A.P. class, Mr. Sutter took an informal poll midway through: In all, 14 of 17 students said their parents thought he was, at best, wasting their time. “My stepdad says they’re brainwashing me,” one said.

Jacynda’s father, for one, did not raise an eyebrow when his daughter stopped attending Mr. Sutter’s class for a period in the early winter. A former coal miner who had endured two years of unemployment before taking a construction job, he declined a request to talk about it.

“I think it’s that it’s taken a lot from him,” Jacynda said. “He sees it as the environmental people have taken his job.”

And having listened to Mr. Sutter reiterate the overwhelming agreement among scientists regarding humanity’s role in global warming in answer to another classmate’s questions — “What if we’re not the cause of it? What if this is something that’s natural?” — Jacynda texted the classmate one night using an expletive to refer to Mr. Sutter’s teaching approach.

But even the staunchest climate-change skeptics could not ignore the dearth of snow days last winter, the cap to a year that turned out to be the warmest Earth has experienced since 1880, according to NASA. The high mark eclipsed the record set just the year before, which had eclipsed the year before that.

In woods behind the school, where Mr. Sutter had his students scout out a nature trail, he showed them the preponderance of emerald ash borers, an invasive insect that, because of the warm weather, had not experienced the usual die-off that winter. There was flooding, too: Once, more than 5.5 inches of rain fell in 48 hours.

The field trip to a local stream where the water runs neon orange also made an impression. Mr. Sutter had the class collect water samples: The pH levels were as acidic as “the white vinegar you buy at a grocery store,” he told them. And the drainage, they could see, was from the mine.

It was the realization that she had failed to grasp the damage done to her immediate environment, Jacynda said, that made her begin to pay more attention. She did some reading. She also began thinking that she might enjoy a job working for the Environmental Protection Agency — until she learned that, under Mr. Trump, the agency would undergo huge layoffs.

“O.K., I’m not going to lie. I did a 180,” she said that afternoon in the library with Gwen, casting a guilty look at her friend. “This is happening, and we have to fix it.”

After fleeing Mr. Sutter’s classroom that day, Gwen never returned, a pragmatic decision about which he has regrets. “That’s one student I feel I failed a little bit,” he said.

As an alternative, Gwen took an online class for environmental science credit, which she does not recall ever mentioning climate change. She and Jacynda had other things to talk about, like planning a bonfire after prom.

As they tried on dresses last month, Jacynda mentioned that others in their circle, including the boys they had invited to prom, believed the world was dangerously warming, and that humans were to blame. By the last days of school, most of Mr. Sutter’s doubters, in fact, had come to that conclusion.

“I know,” Gwen said, pausing for a moment. “Now help me zip this up.”

Após Trump sair do Acordo de Paris, Cacique Cobra Coral deixa de atender pedidos dos EUA (UOL Notícias)

02/06/2017, 20h54

2.jun.2017 - Post da Fundação Cacique Cobra Coral no Instagram

2.jun.2017 – Post da Fundação Cacique Cobra Coral no Instagram. Instagram/Reprodução

Em nota publicada no Instagram nesta sexta-feira (2), a Fundação Cacique Cobra Coral afirmou que deixará de prestar atendimentos climáticos aos EUA. A medida será mantida “enquanto perdurar a falta de bom senso do presidente Donald Trump com relação a retirada dos EUA do Acordo de Paris, rompendo o acordo global firmado em dezembro de 2015 com mais de 190 países para reduzir a emissão de gases que produzem o efeito estufa”.

A entidade esotérica diz, em seu site, que sua missão é “minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Também diz ser orientada pelo Cacique Cobra Coral, “espírito que teria sido de Galileu Galilei e Abraham Lincoln”.

O presidente americano afirmou que pacto climático internacional é injusto, representa um enorme fardo econômico para os EUA e não seria eficaz o suficiente. Em seu discurso, a expressão “mudança climática” não foi mencionada sequer uma vez. Trump preferiu falar de mais dinheiro e empregos.

“O Acordo de Paris sobre o clima é simplesmente o mais recente exemplo de que Washington cedeu a uma resolução que penaliza os Estados Unidos para beneficiar outros países. Deixa os trabalhadores americanos, que eu amo, e o contribuintes absorverem o custo, em termos de perda de empregos, menores salários, fechamento de fábricas e enorme redução na produção econômica”, disse Trump.

Sente com as entranhas? Seu corpo tem um segundo cérebro dentro da barriga (UOL Saúde)

30/05/201704h00

Tem um segundo cérebro dentro da sua barriga

Tem um segundo cérebro dentro da sua barriga. Getty Images/iStockphoto

Sabe esse seu cérebro aí na cabeça? Ele não é tão único assim não como a gente imagina e conta com uma grande ajuda de um parceiro para controlar nossas emoções, nosso humor e nosso comportamento. Isso porque o corpo humano tem o que muitos chamam de um “segundo cérebro”. E em um lugar bem especial: na nossa barriga.

O “segundo cérebro”, como é chamado informalmente, está situado bem ao longo dos nove metros de seu intestino e reúne milhões de neurônios. Na verdade, faz parte de algo com uma nomenclatura um pouquinho mais complicada: o Sistema Nervoso Entérico.

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Dentro do nosso intestino há entre 200 e 600 milhões de neurônios

Funções que até o cérebro duvida

Uma das razões principais para ele ser considerado um cérebro é a grande e complexa rede de neurônios existentes nesse sistema. Para se ter uma ideia, nós temos ali entre 200 milhões e 600 milhões de neurônios, de acordo com pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, que trabalham em conjunto com o cérebro principal.

É como se tivéssemos o cérebro de um gato na nossa barriga. Ele tem 20 diferentes tipos de neurônios, a mesma diversidade encontrada no nosso cérebro grande, onde temos 100 bilhões de neurônios”

Heribert Watzke, cientista alimentar durante em uma palestra na TED Talks

As funções desse cérebro são várias e ocorrem de forma autônoma e integrada ao grande cérebro. Antes, imaginava-se que o cérebro maior enviava sinais para comandar esse outro cérebro, Mas, na verdade, é o contrário: o cérebro em nosso intestino envia sinais por meio de uma grande “rodovia” de neurônios para a cabeça, que pode aceitar ou não as indicações.

“O cérebro de cima pode interferir nesses sinais, modificando-os ou inibindo-os. Há sinais de fome, que nosso estômago vazio envia para o cérebro. Tem sinais que mandam a gente parar de comer quando estamos cheios. Se o sinal da fome é ignorado, pode gerar a doença anorexia, por exemplo. O mais comum é o de continuar comendo, mesmo depois que nossos sinais do estômago dizem ‘ok, pare, transferimos energia suficiente'”, complementa Watzke.

A quantidade de neurônios assusta, mas faz sentido se pensarmos nos perigos da alimentação. Assim como a pele, o intestino tem que parar imediatamente potenciais invasores perigosos em nosso organismo, como bactérias e vírus.

Esse segundo cérebro pode ativar uma diarreia ou alertar o seu “superior”, que pode decidir por acionar vômitos. É um trabalho em grupo e de vital importância.

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Muito além da digestão

É claro que uma das funções principais tem a ver com a nossa digestão e excreção – como se o cérebro maior não quisesse “sujar as mãos”, né? Ele inclusive controla contrações musculares, liberação de substâncias químicas e afins. O segundo cérebro não é usado em funções como pensamentos, religião, filosofia ou poesia, mas está ligado ao nosso humor.

O sistema entérico nervoso nos ajuda a “sentir” nosso mundo interior e seu conteúdo. Segundo a revista Scientific American, é provável que boa parte das nossas emoções sejam influenciadas por causa dos neurônios em nosso intestino.

Já ouviu a expressão “borboletas no estômago”? A sensação é um exemplo disso, como uma resposta a um estresse psicológico.

É por conta disso que algumas pesquisas tentam até tratamento de depressão atuando nos neurônios do intestino. O sistema nervoso entérico tem 95% de nossa serotonina (substância conhecida como uma das responsáveis pela felicidade). Ele pode até ter um papel no autismo.

Há ainda relatos de outras doenças que possam ter a ver com esse segundo cérebro. Um estudo da Nature em 2010 apontou que modificações no funcionamento do sistema podem evitar a osteoporose.

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Vida nas entranhas

O “segundo cérebro” tem como uma de suas principais funções a defesa do nosso corpo, já que é um dos grandes responsáveis por controlar nossos anticorpos. Um estudo de 2016 com apoio da Fapesp mostrou como os neurônios se comunicam com as células de defesa no intestino. Há até uma “conversa” com micróbios, já que o sistema nervoso ajuda a ditar quais deles podem habitar o intestino.

Pesquisas apontam que a importância do segundo cérebro é realmente enorme. Em uma delas, foi percebido que ratos recém-nascidos cujos estômagos foram expostos a um químico irritante são mais depressivos e ansiosos do que outros ratos, com os sintomas prosseguindo por um bom tempo depois do dano físico. O mesmo não ocorreu com outros danos, como uma irritação na pele.

Com tudo isso em vista, tenho certeza que você vai olhar para suas vísceras de uma maneira diferente agora, né? Pensa bem: na próxima vez que você estiver estressado ou triste e for comer aquela comida bem gorda para confortar, pode não ser culpa só da sua cabeça.

How Academia uses poverty, oppression, and pain for intelectual masturbation (RaceBaitR)

By Clelia O. Rodríguez

Published by RaceBaitR

The politics of decolonization are not the same as the act of decolonizing. How rapidly phrases like “decolonize the mind/heart” or simply “decolonize” are being consumed in academic spaces is worrisome. My grandfather was a decolonizer. He is dead now, and if he was alive he would probably scratch his head if these academics explained  the concept to him.

I am concerned about how the term is beginning to evoke a practice of getting rid of colonial practices by those operating fully under those practices. Decolonization sounds and means different things to me, a woman of color, than to a white person. And why does this matter? Why does my skin itch when I hear the term in academic white spaces where POC remain tokens? Why does my throat become a prison of words that cannot be digested into complete sentences? Is it because in these “decolonizing” practices we are being colonized once again?

I am not granted the same humanity as a white scholar or as someone who acts like one. The performance of those granted this humanity who claim to be creating space for people of color needs to be challenged. They promote Affirmative action, for instance, in laughable ways. During hiring practices, we’re demanded to specify if we’re “aliens” or not. Does a white person experience the nasty bitterness that comes when POC sees that word? Or the other derogatory terminology I am forced to endure while continuing in the race to become America’s Next Top Academic? And these same white colleagues who do not know these experiences graciously line up to present at conferences about decolonizing methodology to show their allyship with POC.

The effects of networking are another one of the ways decolonizing in this field of Humanities shows itself to be a farce. As far as I understand history, Christopher Columbus was really great at networking. He tangled people like me in chains, making us believe that it was all in the name of knitting a web to connect us all under the spell of kumbaya.

Academic spaces are not precisely adorned by safety, nor are they where freedom of speech is truly welcome. Not all of us have the luxury to speak freely without getting penalized by being called radicals, too emotional, angry or even not scholarly enough. In true decolonization work, one burns down bridges at the risk of not getting hired. Stating that we are in the field of decolonizing studies is not enough. It is no surprise that even those engaged in decolonizing methods replicate and polish the master’s tools, because we are implicated in colonialism in this corporatized environment.

I want to know what it is you little kids are doing here—that is to say, Why have you traveled to our Mapuche land? What have you come for? To ask us questions? To make us into an object of study? I want to you go home and I want you to address these concerns that I have carried in my heart for a long time.

Such was the response of Mapuche leader Ñana Raquel to a group of Human Rights students from the United States visiting the Curarrehue, Araucanía Region, Chile in April 2015. Her anger motivated me to reflect upon how to re-think, question, undo, and re-read perspectives of how I am experiencing the Humanities and how I am politicizing my ongoing shifts in my rhyzomatic system. Do we do that when we engage in research? Ñana Raquel’s questions, righteous anger, and reaction forced me to reconsider multiple perspectives on what really defines a territory, something my grandfather carefully taught me when I learned how to read ants and bees.

As politicized thinkers, we must reflect on these experiences if we are to engage in bigger discussions about solidarity, resistance and territories in the Humanities. How do we engage in work as scholars in the service of northern canons, and, in so doing, can we really admit what took us there? Many of us, operating in homogeneous academic spaces (with some hints of liberal tendencies), conform when that question is bluntly asked.

As someone who was herself observed and studied under the microscopes by ‘gringos’ in the 1980s, when pedagogues came to ask us what life was like in a war zone in El Salvador, Raquel’s questions especially resonate with me. Both of us have been dispossessed and situated in North American canons that serve particular research agendas. In this sense, we share similar experiences of being ‘read’ according to certain historical criteria.

Raquel’s voice was impassioned. On that day, we had congregated in the Ruka of Riholi. Facing center and in a circle, we were paying attention to the silence of the elders. Raquel taught us a priceless lesson.  After questioning the processes used to realize research projects in Nepal and Jordan, Raquel’s passionate demand introduced a final punch. She showed us that while we may have the outward face of political consciousness, we continued to use an academic discipline to study ‘exotic’ behaviors and, in so doing, were in fact undermining, denigrating and denying lessons of what constitutes cultural exchange from their perspective.

From these interactions in the field emerge questions that go to the heart of the matter: How do we deal with issues of social compromise in the Humanities? In unlearning? In many cases, academic circles resemble circuses rather than centres of higher learning, wherein a culture of competition based on external pressures to do well motivates the relationship between teacher and student.

One of the tragic consequences of a traditional system of higher education is working with colleagues who claim to have expertise on the topic of social activism, but who have never experienced any form of intervention. I am referring here to those academics who have made careers out of the pain of others by consuming knowledge obtained in marginalized communities. This same practice of “speaking about which you know little (or nothing)” is transmitted, whether acknowledged or not, to the students who we, as teachers and mentors, are preparing to undertake research studies about decolonizing.

Linda Smith speaks about the disdain she has for the word “research,” seeing it as one of the dirtiest words in the English language. I couldn’t agree more with her. When we sit down each semester to write a guide to “unlearning’,” or rather a syllabus, we must reflect upon how we can include content that will help to transmit a pre-defined discipline in the Humanities with current social realities. How can we create a space where a student can freely speak his/her mind without fear of receiving a bad grade?

Today, anything and everything is allowed if a postcolonial/decolonizing seal of approval accompanies it, even if it is devoid of any political urgency. These tendencies appear to be ornamental at best, and we must challenge the basis of those attempts. We can’t keep criticizing the neoliberal system while continuing to retain superficial visions of solidarity without striving for a more in-depth understanding. These are acts for which we pat ourselves on the back, but in the end just open up space for future consumers of prestige.

The corridors of the hallways in the institution where I currently work embodies this faux-solidarity in posters about conferences, colloquiums, and trips in the Global South or about the Global South that cost an arm and a leg. As long as you have money to pay for your airfare, hotel, meals and transportation, you too could add two lines in the CV and speak about the new social movement and their radical strategies to dismantle the system. You too can participate in academic dialogues about poverty and labor rights as you pass by an undocumented cleaner who will make your bed while you go to the main conference room to talk about her struggles.

We must do a better job at unpacking the intellectual masturbation we get out of poverty, horror, oppression, and pain–the essentials that stimulate us to have the orgasm. The “release” comes in the forms of discussions, proposing questions, writing grant proposals, etc. Then we move onto other forms of entertainment. Neoliberalism has turned everything into a product or experience. We must scrutinize the logic of power that is behind our syllabi, and our research work. We must listen to the silences, that which is not written, and pay attention to the internal dynamics of communities and how we label their experiences if we are truly committed to the work of decolonizing.


clelia rodriguezClelia O. Rodríguez is an educator, born and raised in El Salvador, Central America. She graduated from York University with a Specialized Honours BA, specializing in Spanish Literature. She earned her MA and PhD from The University of Toronto. Professor Rodríguez has taught undergraduate and graduate courses in Spanish language, literature and culture at the University of Toronto, Washington College, the University of Ghana and the University of Michigan, most recently. She was also a Human Rights Traveling Professor in the United States, Nepal, Jordan, and Chile as part of the International Honors Program (IHP) for the School of International Training (SIT). She taught Comparative Issues in Human Rights and Fieldwork Ethics and Comparative Research Methods. She is interested in decolonozing approaches to teaching and engaging in critical pedagogy methodologies in the classroom.