Arquivo da tag: Nordeste

Ciência climática é ferramenta no combate à seca no Nordeste, afirma Carlos Nobre (ABIPTI)

JC 5593, 7 de fevereiro de 2017

“O entendimento das causas subjacentes às secas do Nordeste tem permitido se prever com antecedência de alguns meses a probabilidade de uma particular estação de chuvas no semiárido do Nordeste”, afirmou

O relatório oriundo da última reunião do Grupo de Trabalho de Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) aponta para um cenário preocupante: até o início de 2018, é esperado que os grandes e médios reservatórios nordestinos sequem. Por isso, é preciso criar novas oportunidades para a população.

Reconhecido como um dos principais pesquisadores mundiais sobre clima, Carlos Nobre destacou o papel das ciências climáticas para mitigar os impactos econômicos e sociais da seca na Região Nordeste. O pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e professor de pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ressaltou que o conhecimento do clima cria alternativas econômicas e sociais para os moradores da região.

Na avaliação do pesquisador, a ciência climática evoluiu rapidamente nas últimas décadas, sendo uma ferramenta eficaz no combate à seca. “O entendimento das causas subjacentes às secas do Nordeste tem permitido se prever com antecedência de alguns meses a probabilidade de uma particular estação de chuvas no semiárido do Nordeste de fevereiro a maio ser deficiente, normal ou abundante. Estas previsões climáticas vêm sendo aperfeiçoadas ao longo do tempo e utilizadas para apoio ao planejamento agrícola, à gestão hídrica e à mitigação de desastres naturais”, afirmou Nobre.

Entre as ações propostas pelo cientista, está o investimento na criação de uma economia regional baseada em recursos naturais renováveis. Uma das alternativas sugeridas é a criação de parques de geração de energia eólica e solar fotovoltaica.

“O Nordeste tem um enorme potencial de energia eólica e solar, capaz de atender a todas suas necessidades e ainda exportar grandes volumes para o restante do Brasil. Estas formas de energia renovável distribuídas geram empregos permanentes localmente, mais numerosos do que aqueles gerados por hidrelétricas ou termelétricas e que poderiam beneficiar populações urbanas e rurais da região”, informou.

Carlos Nobre tem extensa atuação na área climática. Além de ocupar vários cargos no governo referentes ao setor climático, foi vencedor do Volvo Environment Prize – um dos principais prêmios internacionais sobre clima – e membro do Conselho Científico sobre Sustentabilidade Global da Organização das Nações Unidas (ONU).

Agência ABIPTI, com informações do MCTI e Valor Econômico

Anúncios

Força do El Niño deve agravar a seca que atinge o semiárido, diz Cemaden (Cemaden)

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) aponta para cenário de poucas chuvas no Nordeste entre fevereiro e maio de 2016. Seca atinge 910 municípios e um milhão de propriedades da agricultura familiar

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) aponta para um cenário de poucas chuvas na região Nordeste entre fevereiro e maio de 2016, o que deve agravar os impactos da seca que atinge a região.

Relatório da Situação Atual da Seca e Impactos no Semiárido do País também revela que choveu pouco nos últimos 90 dias, sobretudo, no Maranhão, sul da Bahia, e norte de Minas Gerais e Espírito Santo. Ainda que neste período sejam esperados índices pluviométricos mais baixos, nos últimos meses os acumulados foram abaixo da média. Segundo o Cemaden, a causa é o fenômeno El Niño, que está mais forte.

“A avaliação das condições climáticas de grande escala mostra que o fenômeno El Niño está presente, intenso e em franco desenvolvimento. Sob este condicionante, no trimestre novembro-dezembro de 2015 e janeiro de 2016, há chances mínimas de reverter o quadro crítico, apontado pelo indicador de risco agroclimático. Outra indicação decorrente deste cenário climático, altamente provável, é que já se pode inferir que a próxima estação chuvosa do norte do Nordeste (de fevereiro a maio de 2016) apresente condições de deficiência de precipitação”, diz o documento.

Cerca de um milhão de propriedades da agricultura familiar estão localizadas nas áreas afetadas pela seca, em 910 municípios. De acordo com o índice VSWI (sigla em inglês para Índice de Vegetação de Abastecimento de Água), indicador de seca agrícola, esses municípios apresentam pelo menos 50% de suas áreas agrícolas ou de pastagens em condições de déficit hídrico.

Monitoramento

De acordo com a Resolução Nº 13, de 22 de maio de 2014 do Ministério da Integração Nacional e, posteriormente, com o Decreto Presidencial Nº 8.472, de 22 de junho de 2015, o Cemaden/MCTI tem a responsabilidade de fornecer informações para as ações emergenciais adotadas pelo governo para mitigar os impactos da seca. Assim, além do monitoramento da seca, o Cemaden desenvolve um sistema de alerta de riscos de colapso de safras para a agricultura familiar do semiárido.

(Cemaden)

Dia mundial de combate à desertificação e à seca (CGEE)

JC, 5198, 17 de junho de 2015

No Dia de Combate à Desertificação e à Seca, hoje, 17 de junho, especialista do CGEE alerta sobre deterioração do Semiárido brasileiro. O Centro desenvolve trabalhos voltados ao tema, em preparação para a 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que ocorre no fim deste ano, em Paris, França

A velocidade em que as terras do Semiárido brasileiro se deterioram serve como um sinal de alerta para que o País invista cada vez mais em políticas públicas de pesquisa e ações afirmativas que possam encontrar soluções para o problema. As terras nordestinas são as mais castigadas com a seca, que já assola a região há quatro anos. Com os açudes esgotados, a situação, por lá, tende a ficar ainda mais grave, conforme analisa o assessor técnico do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), Antônio Magalhães.

Pautado nessa questão, o Centro, desenvolveu, com o apoio da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a pesquisa Estado da arte da desertificação, degradação da terra e seca no Semiárido brasileiro: mapeamento das áreas vulneráveis, tecnologias e experiências de recuperação. O relatório será lançado como livro.

Além de avaliar experiências e as tecnologias aplicáveis à recuperação dos solos, da biodiversidade e da conservação dos recursos hídricos, a publicação, que deve ser disponibilizada, em breve, para download, mostra o panorama atual acerca da DLDD (sigla em inglês para Desertificação, Degradação da Terra e Seca) nas áreas mais suscetíveis a secas e processos de desertificação.

“A falta de planejamento na ocupação do solo conduz à sobrecarga do meio ambiente, levando à degradação da terra e de outros recursos naturais, como a água e as florestas”, explica Magalhães. O economista aponta, ainda, que a desertificação ocorre, em grande parte, sem a utilização de tecnologias que reduzem a perda de terras aráveis. “Pastagens com mais gado do que poderiam suportar se encaminham ao sobrepastoreio, o que prejudica o local”, afirma.

Magalhães, que já presidiu o Comitê Científico da Convenção das Nações Unidas para Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos de Secas (STC/UNCCD – sigla em inglês), destaca que todos os continentes lidam com a questão. Nas nações da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), por exemplo, os mais sérios problemas de desertificação e seca são encontrados em Angola, Moçambique e Cabo Verde. Na Guiné-Bissau, a situação é mais amena.

(Bianca Torreão – Assessora de Comunicação – CGEE)

Mais informações sobre o assunto:

Correio Braziliense – O deserto à espreita

Piadas sobre falta de água reacendem rixa do Norte e Nordeste com o Sudeste (UOL)

Aliny Gama e Carlos Madeiro

Do UOL, em Maceió

17/02/201506h00

postagens-nas-redes-sociais-ironizam-a-falta-de-agua-no-sudeste-do-brasil-e-lembram-que-o-problema-nao-atinge-o-nordeste-do-pais-1423859662920_615x470

Reprodução/Redes sociais. Piadas e provocações nas redes sociais ironizam a falta de água no Sudeste do país

Em uma daquelas peças que o destino prega, os moradores do Sudeste são vítimas hoje de provocações parecidas com as que muitos costumavam fazer com os nordestinos. Tudo por conta da falta de água que atinge a região e serve de combustível para uma nova onda de piadas, agora voltadas principalmente contra os habitantes do Rio e de São Paulo.

Com humor, nordestinos e nortistas não perdoam a atual crise hídrica nos Estados do Sudeste e acirram o bairrismo entre as regiões. São muitas as postagens em redes sociais que fazem menção à situação.

Em um vídeo que viralizou na internet nesta semana, um garoto do Acre toma banho com o jato do cano ao retirar a torneira da pia. “Aqui é Acre, p… As meninas de São Paulo, sabem o que elas querem? Banho!”, diz o menino.

Em uma outra postagem, moradores de Maceió (AL) tomam banho com um caminhão-pipa durante as prévias carnavalescas e dizem que estão “ostentando” por terem água. “Enquanto vocês criticam nós, nordestinos, eu tomo banho de chuveiro. Claro que é com moderação”, diz, em outro vídeo, o promotor de eventos Galisteu Matias, que reside em Maceió.

Mas qual é o limite entre brincadeira e ofensa? O professor de direito e processo penal da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Welton Roberto, avalia que, nos exemplos citados, não ocorreu nenhum crime e, apesar do gosto duvidoso das piadas, estes casos não caracterizam injúria.

“Só existiria crime se fosse postada alguma agressão, como alguém chamando o outro de burro ou outro palavrão que fosse, caracterizando a injúria penal. Mas brincadeira, mesmo sendo de mal gosto, é brincadeira. Vejo que não atingiu de forma discriminatória ninguém, nem atingiu a dignidade de ninguém”, diz Roberto.

O advogado afirma que quem se sentir ofendido por ter a honra atingida em alguma postagem na internet deve salvar o material e contratar um advogado para que seja feita a queixa-crime. O crime de injúria é previsto no Código Penal e, em caso de condenação, a pena varia de acordo com o grau da ofensa.

Vingança

Para o doutor em história social pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Michel Zaidan Filho, a rixa entre moradores do Nordeste e do Sudeste é antiga e existe desde o início do século passado.

“Esse problema remonta desde que alguns Estados do Nordeste, da região sucroalcooleira, perderam importância no contexto econômico e social. Ainda na Primeira República (1889-1930), a região entrou em uma crise grande e se criou uma divisão do trabalho que até hoje persiste: o Nordeste comprador de mercadorias e insumos e fornecedor de mão-de-obra”, afirma o pesquisador.

Sobre as piadas que passaram a circular com provocações sobre a crise hídrica nos Estados do Sudeste, Zaidan Filho avalia que são uma consequência normal e uma espécie de vingança de quem sempre foi o alvo da gozação. Para ele, elas também fazem parte de uma herança cultural.

“Essa vingança faz parte deste contexto marcado por desigualdade e diferenciação cultural muito grande. Isso é um mecanismo psicológico muito comum, só que agora se inverteu, com a região mais forte e poderosa penalizada pelo racionamento de energia e água. Agora, fica muito conveniente ridicularizá-los”, afirma.

Apesar do clima ser de piadas, o professor aponta problemas de convivência que podem resultar da criação de grupos regionais. “O produto que existe é um apartheid, um separatismo que emerge sobretudo em períodos de crise, quando se demoniza os nordestinos. Na Europa, isso também existe com os imigrantes, que são responsabilizados pela crise econômica. É um pouco da situação que ocorre no Brasil”, conclui o pesquisador.

Banco Mundial diz que seca no nordeste brasileiro pode piorar (Rádio ONU)

09/12/2014 – 09h39

por Edgard Júnior, da Rádio ONU

seca Banco Mundial diz que seca no nordeste brasileiro pode piorar

Afirmação foi feita pela assessora sênior para a América Latina e o Caribe da instituição financeira; Karin Kemper afirmou também que aumento do nível dos mares pode ter impacto no Rio de Janeiro.

A assessora regional sênior do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, Karin Kemper, disse, em entrevista à Rádio ONU, que se a temperatura global continuar aumentando, a seca no nordeste do Brasil pode piorar.

“Sabemos que o nordeste sempre sofreu com as secas, mas poderia ter uma frequência mais intensa ou poderia ter secas mais prolongadas. Sabemos que isso tem efeitos econômicos tanto para a população do interior, mas também podemos imaginar que, por exemplo, as cidades grandes do nordeste podem sofrer mais impactos por insegurança hídrica.”

Investimentos

Citando o relatório lançado pelo Banco Mundial na semana passada, Kemper disse ainda que os impactos do aumento da temperatura serão maiores sobre as populações mais pobres, mais vulneráveis, mulheres, crianças, como também grupos indígenas.

A assessora para a América Latina e o Caribe alertou que investimentos que poderiam ser feitos em outros setores vão acabar sendo destinados para combater os efeitos climáticos.

“Se houver um aumento do nível dos mares, por exemplo, o cálculo que temos no relatório para o Rio de Janeiro varia de uma alta de, no mínimo, 62 cm até 1 metro, no máximo. Isso significa que se precisa fazer investimentos nas cidades costeiras. Esse dinheiro poderia ser utilizado em outras coisas como em hospitais, escolas e outros setores de desenvolvimento.”

O relatório do Banco Mundial disse que um novo padrão climático global pode reduzir em 70% a produção de soja no Brasil e a de trigo em 60%.

O documento mostra dois cenários futuros prevendo as consequências de aumentos médios da temperatura global de 2 e 4 graus centígrados, até 2050. Os especialistas calculam que os danos causados por enchentes costeiras devem chegar a US$ 22 bilhões, o equivalente a mais de R$ 56 bilhões.

* Publicado originalmente no site Rádio ONU.

(Rádio ONU)

Deputado critica em audiência descaso do governo com seca no Nordeste (Câmara dos Deputados)

JC e-mail 4935, de 16 de abril de 2014

A região sofre com uma seca que se prolonga pelo terceiro ano consecutivo, o que gera problemas sociais e dificulta o desenvolvimento da agricultura e a criação de animais

A Comissão de Integração Nacional debateu nesta terça-feira a atuação de órgãos federais na ajuda à população do Nordeste, que enfrenta estiagem pelo terceiro ano consecutivo.

Durante audiência pública da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia, nesta terça-feira (15), o deputado Wilson Filho (PTB-PB) criticou o descaso do governo federal com o que ele chamou de “caos total” no Nordeste.

A região sofre com uma seca que se prolonga pelo terceiro ano consecutivo, o que gera problemas sociais e dificulta o desenvolvimento da agricultura e a criação de animais. Além disso, provoca a falta de recursos econômicos, gerando fome e miséria no sertão.

“É muito visível, por exemplo, quando São Paulo entrou em uma realidade bem próxima. De forma rapidíssima o governo federal e os órgãos competentes deram essa resposta”, afirmou.

Contenção de gastos
A operação carro-pipa distribui água potável para a população das regiões afetadas pela estiagem. Ela é uma parceria do Ministério da Integração Nacional, por meio da Secretaria Nacional de Defesa Civil, com o Exército Brasileiro. A ação foi interrompida por parte do ministério no começo deste ano para a contenção de gastos.

(Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados)

Segue o Seco (Rolling Stone)

Edição 77 – Fevereiro de 2013

Enquanto a Bahia sofre com “a pior seca dos últimos 50 anos”, os habitantes do sertão se desdobram para superar os percalços. A esperança persiste, mas é minguada como a água da chuva

Segue o SecoFoto: Flavio Forner

Por MAÍRA KUBÍK MANO

“Para o carro! para o carro! olha ali, em cima das pedras! Tá vendo?” Não, eu não via nada. A paisagem parecia exatamente a mesma da última meia hora. Toda cor de terra, com uma ou outra catingueira no horizonte e os mandacarus, sempre em maior número, acompanhando o traçado da estrada de chão. “Lembra da cena em que o Fabiano vai tentar pegar um preá? Olha ali!”, o interlocutor insiste, apontando. Vidro abaixado, olhos a postos. Dois bichos pequenos, amarronzados e amendoados, de focinho pontudo, se mexem e se fazem notar. Pronto, lá estão os preás. Júlio César Santos fica satisfeito. Afinal, ele fora parar no sertão justamente depois de ler Vidas Secas.

“Eu sou da Zona da Mata, mas quando li Graciliano Ramos quis vir para cá”, conta Santos, um engenheiro agrônomo que se encantou pela caatinga quando ainda era estudante da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). Hoje, é chefe do escritório da EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola) em Ipirá, um dos 258 municípios da Bahia em situação de emergência por causa da seca. Junto com outros 17 órgãos e secretarias do governo de Jaques Wagner (PT), a EDBA faz parte do Comitê Estadual de Ações de Convivência com a Seca.

Estamos a caminho da cidade vizinha, Pintadas, onde a estiagem é ainda mais crítica. No percurso, cruzamos quatro rios. Três deles, secos. O céu nublado ao longe parece o prenúncio da mudança. Um chuvisco havia caído naquela madrugada, algo que não acontecia há muito tempo. As marcas ainda estavam na terra, em alguns sulcos rasos que provavelmente abrigaram fios de água corrente. Santos parece aliviado. “Agora precisa chover mais”, diz.

Em uma curva à esquerda surge a casa de Messias e Ginalva Jesus Pereira. A plantação de palmas logo se destaca da monocromia – é verde-escura, com nenhum tom de marrom. Na seca, o vegetal tem sido fonte de alimento imprescindível para garantir a sobrevivência dos animais, que já não têm mais pasto. “O povo vem, visita, admira. Outros ficam com usura”, fala Ginalva, sobrancelhas levantadas, há cerca de 20 anos vivendo naquele roçado.

Como era de se esperar, a conversa envereda para o clima e as gotas que caíram à noite. “Choveu em Ipirá, foi? Ah, aqui foi só uma neblina”, rebate o pequeno Matheus, filho do meio de Ginalva. “Aqui não chove mesmo há três anos. Perdemos dois bezerros e dois umbuzeiros para a seca. Painho está pedindo a Deus para esse resto de palma pegar”, diz, referindo-se a uma área mais distante da casa, plantada há pouco, onde o verde já está quase desbotando.

O cálculo de Matheus não é exagerado. Geralmente, chove na caatinga entre janeiro e maio, justamente a época do plantio. Em 2012, porém, a água não caiu e um período de estiagem emendou no outro, fazendo desta a maior seca dos últimos 50 anos, segundo a Coordenação de Defesa Civil da Bahia (Cordec). A previsão é que ela se estenda por mais um ou dois anos. “Agora, com a chuva, vai ser outra coisa. Vai mudar tudo”, avalia uma experiente Ginalva. Assim como o protagonista Fabiano da obra de Graciliano Ramos, ela sabe que a caatinga ressuscita.

Na casa dela, canos estrategicamente posicionados aguardam a próxima precipitação para recolher a água em cisternas. Enquanto isso não ocorre, Ginalva mantém, por meio de irrigação artificial, a produção – que inclui também feijão de corda, cebolinha, coentro, mamão, batata-doce e quiabo, além da criação de ovinos, caprinos e bovinos. O poço, recém-construído, foi financiado via Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) Emergencial.

Assim como Ginalva, outros 6 mil agricultores da região apresentaram projetos para acessar o Programa. Segundo o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), foram liberados R$ 10 milhões do Pronaf Emergencial até janeiro de 2013 para os 17 municípios do entorno de Feira de Santana, entre eles Pintadas e Ipirá. “São pequenos agricultores que você vê aqui, solicitando financiamento para plantar palmas ou fazer aguada para recuperar o pasto”, diz José Wilson Junqueira Queiroz, gerente de negócios do BNB. Em todo o Brasil, entre maio e dezembro de 2012, o governo federal autorizou R$ 656,2 milhões em linhas de crédito emergenciais para atender os atingidos pela seca.

“São essas políticas públicas que estão segurando as famílias no campo”, avalia Jeane de Almeida Santiago. Agrônoma que trabalha em uma ONG chamada Fundação Apaeba, ela presta assistência técnica para os produtores de Pintadas, Ipirá, Riachão do Jacuípe, Pé de Serra, Baixa Grande e Nova Fátima, todas na Bahia. “Antes, tinha muito mais gente que ia para São Paulo e outros estados para fazer migração.”

O relato é de alguém que conhece de perto a situação. Jeane nasceu em Pintadas. Estudou na escola agrícola e saiu para fazer curso técnico em Juazeiro e faculdade no Recôncavo Baiano. Voltou quando se formou, querendo transmitir os conhecimentos aprendidos. Olhos vivos e atentos, ela muda o tom e reavalia sua afirmação: “É, mas este ano muitos jovens estão indo. Com a seca, a rentabilidade das propriedades está zero. E as pessoas não vão ficar aqui sem ter dinheiro. Infelizmente, são obrigadas a sair, de coração partido, para São Paulo em busca de trabalho, ver se conseguem mandar dinheiro para a família que ficou aqui manter o rebanho vivo”.

De fato, o ponto de ônibus de Pintadas estava cheio naquela manhã. A cidade ainda não tem rodoviária e o asfalto que a conecta com o resto do mundo foi inaugurado há apenas um ano, como avisam as placas do governo do estado logo na entrada. Todos aguardavam na calçada o próximo transporte para a capital paulista, malas e parentes em pé, sol a pino. Há cerca de três semanas, Ginalva se despedia ali mesmo do filho mais velho, de 18 anos, que decidiu tentar a vida fora dali. “Me ligou ontem dizendo que já arrumou um emprego numa fábrica. É temporário, mas é um emprego”, ela conta. É a famosa ponte aérea Pintadas-São Paulo.

“O pior é que não temos previsão boa para este ano”, lamenta Jeane. Ela conta que até a palma e o mandacaru, também usados para alimentar o rebanho, começaram a desaparecer, e que a maioria das terras da região está na mão de pequenos agricultores de subsistência ou pecuaristas. “Já faz mais de um ano que o município está dando ração aos animais porque não tem mais pasto. Mas agora a ração esgotou. Você procura e não acha. Quando acha, é um valor que não dá para colocar no orçamento.”

Jeane preocupa-se: “Tem produtores que estão pagando três ou quatro projetos. Vai chegar uma hora que ninguém vai conseguir pegar mais [crédito], de tanto que devem. E aí, não sei como vai ser. Porque a propriedade não está tendo rentabilidade para pagar os empréstimos que já deve. Sem crédito, eu acredito que na zona rural fica impossível.”

“A causa desta seca é a destruição do meio ambiente”, ela sentencia, citando uma pesquisa recente que constata que 90% da mata nativa da região havia desaparecido. “A natureza está respondendo. O território está descoberto. E a partir daí vêm as queimadas. Muitos solos já se perderam ou estão enfraquecidos. O pessoal não tem a cultura de adubar e vão explorando e explorando. Os rios que tínhamos morreram. As nascentes estão desmatadas.”

Em Ipirá, logo ao lado, a realidade é semelhante. No lugar da caatinga, estão os bois. A cena mais comum é ver o gado ou os cavalos amontoados embaixo das poucas árvores que restam para escapar do sol escaldante – cabeça na sombra, lombo de fora. “Ipirá era um município cheio de minifúndios”, explica Orlando Cintra, gerente de Agricultura e Cooperativismo da Prefeitura. “Os grandes criadores começaram a chegar nos anos 1960. Este pessoal comprou a terra barata e empurrou o homem que produzia a batata, a mandioca e a mamona para a periferia daqui ou para São Paulo, Mato Grosso e Paraná.” Outros tantos foram trabalhar no corte da cana-de-açúcar. “Aqui não tinha boi e os pequenos produtores não desmatavam”, continua. “O que criávamos mais era o bode. Foi com a chegada dos grandes fazendeiros que o clima em Ipirá começou a mudar mais rapidamente. Desmataram para plantar capim.”

“A caatinga não é uma área para agropecuária. É para criação de caprinos, ovinos, animais de médio porte. Trouxeram a cultura do Sul, de pecuarista, e todo mundo quis ter fazenda de boi aqui”, completa Meire Oliveira, assessora da Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente de Ipirá.

Meire passou a infância na zona rural do município e ainda se lembra do cheiro dessa mata. Conta que, quando criança, fazia burros a partir de umbus: enfiava quatro pedaços de galhinhos na fruta, representando as quatro patas. “Pena que, muitas vezes, quando eu digo para não desmatar, nem meu pai me ouve”, lamenta. Ela parece conhecer todas as plantas da caatinga. Quando encontra um cacto coroa-de-frade, mostra que é possível comer seu fruto, pequenino e vermelho. Caminhando pelas propriedades da região, cruza as cercas de arame farpado com desenvoltura. Pega um punhado de maxixe ainda verde e explica como cozinhá-lo. “Igualzinho a quiabo, sabe?” No sertão, tudo pode ser aproveitado. “A caatinga tem um poder de regeneração incrível”, explica. “A solução seria deixá-la descansar. Algumas áreas no entorno do Rio do Peixe já estão em processo de desertificação.”

Um exemplo de preservação ambiental é o assentamento D. Mathias, que completou sete anos de existência. Ali, a caatinga aos poucos renasce entre bodes, cabras e ovelhas. As árvores são podadas apenas o suficiente para não machucarem os animais, que circulam livremente pelas aroeiras, xique-xiques e umbuzeiros. Organizado pelo Movimento Luta Camponesa (MLC), o símbolo do assentamento é uma família de retirantes desenhada em preto e vermelho. A fila é puxada por uma mulher com uma foice nas mãos. Em seguida vem um homem, com uma enxada nos ombros. Dois filhos, um menino e uma menina seguem-nos de mãos dadas. Por último, um cachorro que, quiçá, se chama Baleia.

Júlio César Santos, dirigente da EBDA, presta assistência aos assentados e explica que os camponeses estão muito atentos às políticas públicas e linhas de crédito oferecidas pelos governos estadual e federal. Com isso, já conseguiram construir casas, comprar uma resfriadeira de leite e ampliar a criação de ovelhas. Entre as últimas iniciativas no local está a plantação adensada de palmas, mais rentável do que a tradicional. Em um primeiro momento, os agricultores não confiaram na técnica e continuaram plantando os cactos distantes uns dos outros, como sempre fizeram. Para contornar as dificuldades, Santos utilizou o “método de Paulo Freire”. Plantou dois roçados: de um lado, as palmas, adensadas; de outro, as tradicionais. Agora, as duas estão crescendo e ele espera, em breve, provar sua teoria. “Tomara que a falta de chuva não queime elas”, diz.

O sucesso do assentamento motivou, há 11 meses, um acampamento no latifúndio vizinho. Leidinaura Souza Santana, ou simplesmente Leila, é uma das moradoras do acampamento Elenaldo Teixeira. “O problema maior aqui é a água para beber e cozinhar. Ficamos quase 15 dias sem água. O caminhão-pipa chegou só ontem”, reclama. “A Embasa [Empresa Baiana de Águas e Saneamento] suspendeu o pipa por causa do rio, que já estava muito baixo, e também porque deu um problema na bomba”, explica Meire, que acompanha a visita. “Tivemos que tomar uma água que não é boa para beber”, murmura Leila.

Leila nasceu em Coração de Maria, ao norte de Feira de Santana. O marido trabalhava como vaqueiro em Malhador, povoado no município de Ipirá, quando souberam dos boatos da ocupação. Vieram logo participar. “Estamos esperando chegar a hora para entrar dentro da fazenda e acabar com o sofrimento. A área já foi atestada como improdutiva. O assentamento aqui do lado é uma maravilha. Me animei de ver que esse pessoal era acampado como a gente. Não desisto, não”, afirma. Meire aproveita para dar uma injeção de ânimo: “Eu acompanhei o outro acampamento desde o começo e era igualzinho. Acho que era até mais quente que este. Este é mais fresco. E olha como estão hoje”.

A conversa acontece na escola do acampamento, onde jovens e adultos são alfabetizados. A pequena construção de palha e madeira da escola fica no início daquela que foi batizada de “Avenida Brasil”, uma sequência bem aprumada de cerca de 15 barracos de lona. Leila acabou de passar para a 4a série do ensino fundamental e soletra o nome para mim. “L-E-I-D-I-N-A-U-R-A.” “Não é com ‘l’, não?”, pergunta Meire. “Não, é com ‘u’ mesmo”, Leila responde.

Em Tamanduá, povoado do entorno de Ipirá, motos e jegues passam com gente e baldes na garupa. Tudo lembra a estiagem. Egecivaldo Oliveira Nunes está à beira da estrada, ao volante do caminhão-pipa estacionado em frente à casa azul e branca. “Só trabalho particular, não trabalho com Exército nem Prefeitura. Pegamos água das barragens porque os açudes estavam secos”, ele conta, afirmando que nos piores dias da seca não “acha tempo” para as entregas solicitadas. O pagamento é por distância, e a cada quilômetro rodado muda o valor: 5 quilômetros são equivalentes a 9 mil litros e custam R$ 80. Quem não puder pagar (como os acampados) pode esperar pela Defesa Civil estadual – que afirma ter investido R$ 4 milhões em caminhões-pipa – ou pelo Exército, que mensalmente abastece de água 137 municípios.

“A cada ano, a seca vem mais intensa e a tendência é sempre durar mais”, lamenta Orlando Cintra, gerente de Agricultura e Cooperativismo de Ipirá. “A perspectiva é a de que em cinco ou seis anos ninguém vá produzir mais nada aqui, na área da agricultura. O clima vem se transformando. A cada ano piora.”

“Já tivemos tantas previsões, e nada”, diz Jeane Santiago. “Passa a previsão de chuva no jornal e as pessoas dizem: ‘Não tenho mais fé, só acredito se eu vir’. O pessoal da zona rural tem simpatias, como ‘se a flor do mandacaru desabrochar é sinal de que vai chover’. Mas todas deram errado até agora. A fé está acabando.” Os mandacarus já florearam. O vermelho-forte chama atenção. Agora é esperar.