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Editorial: Pandemia e energia (Diário do Nordeste)

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Por Redação, 22 de Maio de 2020

Grave consequência da pandemia do novo coronavírus sobre o setor energético tem preocupado o Governo Federal: a queda do consumo de energia elétrica, que atinge diretamente as empresas distribuidoras, cujo caixa entrou no vermelho. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), sobra energia, e a redução do consumo, que já chegou aos 18%, poderá ser ampliada caso se alonguem ainda mais as interdições ao funcionamento de empresas de todos os tipos. Os prejuízos das companhias distribuidoras são tão elevados, que o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) calculam em R$ 17 bilhões o tamanho do pacote de socorro que lhes será concedido.

Quando eclodiu a pandemia, a Aneel adotou – por instrução do Ministério da Economia – uma providência emergencial e razoável: proibiu por 90 dias o corte de energia das residências para evitar uma consequência social ainda maior para as famílias já mantidas em isolamento. Mas notou-se um efeito colateral: a inadimplência aumentou – e esta já estava pelo recente acréscimo de dificuldades financeiras da população.

A reabertura da atividade da indústria, do comércio e do serviço será gradual – os economistas preveem que isso se dará em até dois anos, não menos. Cerca de 60% da energia gerada no Brasil são de fonte hidráulica. Neste momento, para sorte do setor, as barragens que movimentam as usinas hidrelétricas estão cheias, o que descarta a possibilidade de um aumento das tarifas de energia. Mas isto não afasta a certeza de que a injeção de R$ 17 bilhões – que sairão do Tesouro Nacional – no caixa das distribuidoras será cobrada, a partir ainda deste ano, dos consumidores pessoas físicas e jurídicas. A conta de luz ficará mais cara por conta da pandemia.

Teme-se que, diante das dificuldades acima relatadas, sejam reduzidos os investimentos que se fazem hoje na geração de energia de fontes renováveis – como a solar e a eólica, concentrada nos estados da região Nordeste, onde são robustos e estáveis os bancos de vento e a insolação. Como demorará a retomada da economia, o consumo de energia também levará pelo menos um ano – nos cálculos dos consultores – para alcançar os níveis do fim de 2019. Desenha-se agora um cenário complicado para todo o setor elétrico nacional. O governo imagina que, passada esta crise, por volta do terceiro trimestre deste ano, poderá atrair o interesse dos investidores para o projeto de privatização da Eletrobras e de algumas de suas empresas, como a Chesf. Mas isto também parece difícil, diante dos desencontros políticos do Governo e com o Congresso Nacional, onde as ideias privatistas enfrentam forte resistência.

Neste instante, além das crises sanitária, econômica, financeira e política, o Brasil convive com mais uma – a do excesso de oferta de energia elétrica. Isto gera um déficit que cresce como bola de neve e que, mais cedo ou mais tarde, cairá em forma de cobrança no colo de cada um dos brasileiros. Em 2001, por causa diferente – a falta de energia – conta semelhante foi cobrada do Governo e de cada cidadão.

A pandemia e os paradigmas energéticos – Opinião (Estadão)

opiniao.estadao.com.br

31 de março de 2020

Ante o impacto do novo coronavírus, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) vem revendo as perspectivas e estratégias para o setor. Numa série de artigos recém-publicados, a IEA aponta três aspectos críticos: a eletricidade é mais indispensável do que nuncaa energia limpa deve estar no coração dos pacotes de revitalização da economia; e a turbulência aprofunda os desafios para os produtores de gás e petróleo.

Neste momento, centenas de milhões de pessoas estão confinadas em suas casas, recorrendo à rede digital para fazer seu trabalho, abastecer sua família e se entreter. Os sistemas hospitalares tentam aumentar sua capacidade de atendimento e, sobretudo, a oferta de respiradores artificiais. Os governantes precisam garantir uma rápida comunicação com os cidadãos. Tudo isso depende do suprimento de eletricidade.

Apesar disso, a demanda de eletricidade declinou 15% em razão da pausa nas fábricas e serviços. Rupturas bruscas no equilíbrio entre a oferta e a demanda podem provocar blecautes. A crise serve para lembrar os governos da necessidade de investir na flexibilidade dos sistemas, garantindo a sua resiliência em condições extremas.

A combinação da pandemia com a volatilidade dos mercados tende a distrair a atenção dos gestores, empresários e investidores das tecnologias renováveis – solar, eólica, hidrogênio, baterias e sequestro de carbono. Mas elas devem ser centrais nos planos de governo porque podem trazer os “benefícios gêmeos” de estímulo às economias e aceleração da transição para energias limpas. O progresso na transformação da infraestrutura não será temporário e fará diferença para o futuro.

O maior choque ocorre no setor de petróleo e gás. A demanda está colapsando enquanto a oferta, já superabundante, cresce expressivamente. Em alguns países, esta é uma fonte vital para os orçamentos nacionais. A crise expõe os riscos associados a economias pouco diversificadas, baseadas nos preços voláteis das commodities.

O impacto da pandemia serve para lembrar que mudanças no setor de energia são parte fundamental no desenvolvimento de economias mais produtivas, inovadoras e sustentáveis. O processo é complexo, mas um setor de energia eficiente pode ser um ativo durável para a cadeia de produção, fornecendo parte do capital e do know-how necessária para um crescimento diversificado.