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Amid Climate-Fueled Food Crisis, Filipino Forces Open Fire on Starving Farmers (Common Dreams)

Published on Monday, April 04, 2016 by Common Dreams

Police and army forces in the Philippines unleashed bullets on a starving crowd, killing 10, for demonstrating for drought relief

by Nika Knight, staff writer

A wounded farmer is assisted by other demonstrators after Friday’s mass shooting by security forces in the Philippines. (Photo: Kilab Multimedia)

Police and army forces shot at about 6,000 starving farmers and Lumad Indigenous people demonstrating for drought relief in the Philippines on Friday, ultimately killing 10. Observers characterized the security forces’ action as “a strafing.”

“The government’s response to hunger is violence,” said Zeph Repollo, Southeast Asia campaign coordinator for 350.org, in an email to Common Dreams.

Three protesters were immediately killed, and by Monday the death toll had risen to 10 as more demonstrators succumbed to injuries.

“We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”
—Noralyn Laus, demonstrating farmer

The farmers and Indigenous people had been blockading a highway in the Cotabato province for four days in a desperate plea for government aid, after this winter’s record-breaking temperatures produced a three-months-long drought that has destroyed their crops and now threatens their lives.

The demonstrators were asking the government to provide 15,000 sacks of rice to ease the hunger crisis. Provincial governor Emmylou Mendoza has refused to engage the protesters.

“The government’s policy of  systematic land grabbing combined with the intensified El Nino pushed our farmers and indigenous peoples to heighten their struggles with sweat and blood in defense of their right to land and life,” wrote Repollo in a statement.

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

On Monday, local farmer Noralyn Laus gave Democracy Now! a firsthand account of the disaster:

“Why we came down here is not to make trouble. We just want to demand for rice, because of the situation of El Niño is leaving our tribes hungry. What happened yesterday, we didn’t start it. They started it by beating us. We wouldn’t be angry if we weren’t beaten up or attacked. We’re having a crisis. We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”

“Our farmers—the country’s food producers—are battered the hardest and are left in poverty and hunger,” Rapollo said. “Civil disobedience will continue to escalate until the government stops playing deaf and blind to the genuine cry of the people.”

Seventy-eight people were still under arrest on Monday, Rapollo said, and a local Methodist Church is sheltering many protesters who escaped the bullets. Rapollo also reported that no members of the armed forces have been relieved of duty or investigated for Friday’s shooting.

The state-sponsored violence in the Philippines portends what turmoil may come as the planet continues to warm, creating more disastrous, extreme weather events worldwide, environmental activists note.

“The conditions that prompted the 3-day blockade gives us a glimpse of what’s ahead if decisive and just actions in addressing climate change remain in the periphery,” said Repollo.

“This is not a distant reality to anywhere in the world,” Repollo wrote to Common Dreams, “unless we change the system that feeds [on] hunger, injustices, and climate catastrophe.”

Mudanças climáticas provocarão prejuízo de US$ 2,5 trilhões (O Globo)

05/04/2016, por O Globo

Colheita de cana de açúcar: rombo acontecerá mesmo se os países cumprirem as metas voluntárias apresentadas na conferência climática de Paris, em dezembro de 2015 – Paulo Fridman/Bloomberg/18-9-2014

RIO — As mudanças climáticas podem afetar investimentos equivalentes a US$ 2,5 trilhões da economia mundial até 2100, segundo um estudo publicado ontem na revista “Nature Climate Change”. O prejuízo seria resultado do aumento da temperatura em 2,5 graus Celsius até o fim do século, em relação aos níveis pré-industriais. Esta quantia é equivalente à metade do valor atual das empresas de combustíveis fósseis. Se os termômetros avançarem além de 2 graus Celsius — valor máximo admitido pelos climatologistas —, a economia mundial sofreria um rombo de US$ 1,7 trilhão.

Entre os meios de destruição mais comuns ligados às mudanças climáticas estão o aumento do nível do mar — que afeta principalmente setores da economia atuantes na zona costeira —, além de secas e tempestades, capazes de interromper atividades de diferentes ramos do mercado.

A pesquisa concentrou-se principalmente em investimentos ligados a petróleo, carvão e gás, recursos que serão perdidos se os países insistirem na adoção de combustíveis fósseis, em de vez de optar por energias sustentáveis.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Grantham sobre Mudanças Climáticas, que elaborou o estudo, seus cálculos são a primeira estimativa do impacto causado pelo aquecimento global sobre ativos financeiros.

As projeções, realizadas com o uso de modelos matemáticos, foram baseados em um valor estimado de US$ 143,3 trilhões em ativos não bancários globais em 2013, valor determinado por economistas.

Considerando as atuais emissões de gases-estufa, os climatologistas indicam que o planeta está a caminho de um aquecimento global equivalente ou superior a 4 graus Celsius. Se as nações cumprirem as metas que apresentaram na Conferência do Clima em Paris, no fim do ano passado, o aumento da temperatura global chegará a 3 graus Celsius.

As mudanças climáticas devem ser encaradas com preocupação para setores e investidores que exercem a atividade pensando a longo prazo, como os fundos de pensão e reguladores financeiros.

Diretor do programa de finanças sustentáveis da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Ben Caldecott ressalta que os impactos financeiros das mudanças climáticas são um risco de grande escala.

— Os investidores podem fazer muito para diferenciar entre as empresas mais ou menos expostas e, assim, conseguirem ajudar a reduzir os riscos para a economia global, apoiando ações ambientais sobre as mudanças climáticas.

MAIS GRAVE QUE POLIOMIELITE

Ontem, um relatório divulgado na Casa Branca alertou que as mudanças climáticas representam uma grave ameaça para a saúde pública — em muitos aspectos, pior do que a poliomielite — e atacará especialmente gestantes, crianças, pessoas de baixa renda, negros, asiáticos e hispânicos.

O documento “Os impactos das mudanças climáticas na saúde humana nos EUA: uma avaliação científica”, adverte sobre os riscos arrebatadores para a saúde pública do aumento da temperatura nas próximas décadas, que também levaria a mais mortes e doenças por insolação, insuficiência respiratória e doenças como o vírus do Nilo Ocidental.

Aumento do nível do mar ameaça inundar estação da Nasa (O Globo)

05/04/2016, por O Globo

Lançamento de foguete em Cano Canaveral: centro tecnológico é vulnerável a aumento do nível do mar– John Raoux/AP/18-11-2013

RIO — Um dos maiores e mais sofisticados centros de tecnologia do mundo, a base de lançamento de foguetes da Nasa em Cabo Canaveral, na Flórida, corre risco de ser inundada. O aumento do nível do mar, em consequência das mudanças climáticas, ameaça a infraestrutura da agência espacial ao longo da costa de 115 km. Os riscos já levaram a agência espacial americana a estudar a remoção das instalações.

Em todo o país, cerca de dois terços das instalações da Nasa estão em regiões de altitude inferior a 4,8 metros, e a maior parte se localiza em zonas costeiras, onde as agitadas correntes oceânicas já contribuem para a erosão dos equipamentos.

— Estamos tremendamente ligados à água — alerta Kim Toufectis, estrategista da agência espacial americana.

De acordo com um estudo publicado semana passada na revista “Nature”, o aquecimento global pode aumentar o nível do mar entre 1,5 metro e 1,8 metro até o fim do século. Um grupo de trabalho da Nasa estima que o aumento do nível do mar de 12 centímetros para mais de 60 centímetros até 2050 pode levar a problemas em cinco estações costeiras da agência:

“Os centros da Nasa que já estão sob risco de inundação devem se tornar mais vulneráveis no futuro”, previa o grupo em um relatório em 2014.

Com a ameaça do clima, a Nasa tem como alternativa a instalação de barreiras e outras estruturas que contenham o aumento do nível do mar e os efeitos de tempestades e inundações. Em locais onde a adaptação não for possível, uma alternativa será o “recuo estratégico” — uma medida bem mais cara, na casa dos bilhões de dólares.

Além de exigir muito dinheiro, a remoção das instalações envolve a construção de edifícios, traslado de equipamentos e deslocamento de equipes, e por isso ainda deve demorar.

O que vem depois do desastre? (Agência Pública)

23/03/2016

A Pública retoma três tragédias socioambientais e conta o que aconteceu depois que a poeira baixou. Impunidade e acordos lenientes são o resultado mais comum.

Por Jessica Mota, da Agência Pública –

Ednei de Souza comemorava seus 9 anos de idade no dia em que tudo pegou fogo. Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, a Vila São José, conhecida como Vila Socó, em Cubatão (SP), sofreu um incêndio de enormes proporções que matou pelo menos 508 pessoas, possivelmente 700, segundo o que estimou à época o Ministério Público de São Paulo. No Brasil da ditadura militar, foram identificados oficialmente 93 corpos.

O incêndio foi provocado por um vazamento no oleoduto Santos-São Paulo, que transportava gasolina da Refinaria de Capuava, em Mauá, para o Terminal da Alemoa, em Santos, de onde era exportado. A vila fica no caminho desse oleoduto. A maior parte de seus moradores eram migrantes nordestinos atraídos pelas possibilidades de trabalho no complexo industrial de Cubatão. O laudo do médico-legista-chefe do Instituto Médico-Legal estimava como número provável a morte de 300 crianças entre 0 e 3 anos.

O incêndio aconteceu na altura do km 58 da Via Anchieta, onde até hoje está a Vila São José, apelidada “Socó” pela presença dos pássaros no mangue sob as casas de palafita da favela. A gasolina se espalhou nas águas do mangue e da maré. Foi por isso que o fogo irrompeu de baixo para cima, com violência.

“Era uma sexta de Carnaval”, lembra Ednei, que continua, aos 41 anos, a morar na vila. “Nós corremos e depois do incêndio eu voltei pra ver como ficou. Passei aqui e eram muitos corpos perto, num lençol branco, outros não estavam cobertos. Cenário de destruição. Pessoas chorando. Bombeiros tentando pegar os corpos que estavam no meio da lama.”

Dirlene Camilo, a dona Didi, de 78 anos, conta que só teve tempo de acordar os filhos e sair correndo. “Eu só via o céu e fogo. Nós corremos. Meu marido ficou pra, sei lá, pegar documento, pra pegar dinheiro. Ele era pescador e naquele dia tinha vendido muito camarão. Ele queimou. Não morreu na hora. Quando soube, fui lá na Santa Casa e ele tinha morrido”, conta ela na sala da sua casa na Vila Natal, bairro vizinho da Vila Socó, onde foi reassentada depois da tragédia.

O inquérito policial foi instaurado no mesmo dia e a Procuradoria-Geral de São Paulo designou o promotor Marcos Ribeiro de Freitas para assumir a investigação e o processo criminal. Durante um mês, o promotor, hoje aposentado, e seu colega José Carlos Pedreira Passos reuniram documentos sobre vazamentos anteriores, laudos do Instituto Médico-Legal, documentos da prefeitura de Cubatão, plantas das instalações dos dutos e depoimentos – de sobreviventes, testemunhas e funcionários das instituições responsáveis, como a Petrobras e a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Finalmente, no dia 4 de junho de 1984, os promotores protocolaram a denúncia na Comarca de Cubatão.

Ednei de Souza completava 9 anos no dia do desastre de Cubatão. 'Eles [a Petrobrás] têm dívida eterna com a Vila'. José Cícero da Silva/Agência Pública

É essa peça jurídica, carregada de informações detalhadas e provas, que concluiu que o incêndio foi causado por falha humana, um “erro operacional”, mas que a tragédia só ocorreu pela negligência e omissão de 24 homens. À frente do rol de denunciados estava Shigeaki Ueki, então presidente da Petrobras e ex-ministro de Minas e Energia do governo Geisel (1974-1979). Havia outras autoridades, como o prefeito-interventor de Cubatão na época, José Oswaldo Passarelli, nomeado pelo governo militar. Ueki participou de diversos governos desde 1964 e foi o primeiro presidente civil da Petrobras.

“A nossa denúncia foi uma peça técnica, juridicamente falando. Promovendo responsabilidade, não só pela falha humana que houve, porque isso não elidia a responsabilidade da Petrobras”, relembra Marcos de Freitas. “Porque são culpas concorrentes. Uma coisa é falha humana, outra coisa é a responsabilidade da empresa, que tanto pode ser na área cível, como foi, como na área criminal, como também foi.”

A falha humana foi constatada em sindicância da própria Petrobras. As válvulas que ligavam as linhas de transporte da gasolina aos tanques não se abriram por “um erro operacional”, ocasionado por “problemas de comunicação”. Mas a “culpa consciente” pelo incêndio saltou aos olhos dos promotores ao examinarem um ofício encaminhado por Ueki ao então governador de São Paulo, Franco Montoro, dois meses antes da tragédia. Ueki alertava para o risco iminente de um incêndio e pedia que fossem tomadas providências para remover as pessoas que viviam na Vila Socó. “Só que ele mandou o ofício e não tomou nenhuma providência, vamos dizer, entrar com uma ação no Fórum pra botar todo mundo pra fora. Ele não fez nada, se omitiu completamente. Foi através de uma culpa consciente, através dessa omissão, por parte da Petrobras, que nós denunciamos a responsabilidade criminal”, explica o promotor. Segundo consta na denúncia, deveria haver uma faixa de pelo menos 30 metros que separasse casas e barracos da área do oleoduto e a atribuição legal de realocar as pessoas era da Petrobras, desde o momento em que assumiu a administração do oleoduto.

Não há registros da resposta de Montoro. Antes mesmo do ofício de Ueki, porém, em 1977, Araken de Oliveira, ex-presidente da Petrobras, havia enviado um ofício semelhante ao ex-governador Paulo Egídio Martins. O ex-governador respondia que a competência era do Serviço Social da prefeitura de Cubatão e que ela já havia elaborado um projeto de “desfavelamento” que tinha financiamento do Banco Nacional de Habitação para construção de 6 mil casas. Mas o projeto nunca chegou à Vila Socó.

O único monumento em homenagem às vítimas fica no fundo da Vila, num canteiro ao lado da rodovia Anchieta. José Cícero da Silva/Agência Pública

A denúncia – que obteve repercussão nacional e internacional – apontava também falhas de manutenção nos dutos. Entre 1971 e 1975, o oleoduto apresentou uma média de um vazamento a cada dez dias. Ele havia sido adquirido pela Petrobras em 1974 – operava desde 1951 – sem que fosse feita uma inspeção para avaliar o sistema. De 1977 até a investigação do Ministério Público, o oleoduto já havia se rompido 19 vezes – 18 por corrosão. A válvula de segurança, que poderia aliviar a pressão que causou o acidente, só foi instalada uma semana após o incêndio.

Ainda assim, ninguém foi preso. Uma semana depois de feita a denúncia, o juiz da Comarca de Cubatão descartou a responsabilidade de sete dos 24 denunciados: o então prefeito Passarelli e mais seis engenheiros. Os demais foram chamados para interrogatório, com exceção do presidente da Petrobras, que conseguiu um habeas corpus por dois votos a um e, depois, o trancamento da ação penal. Sete engenheiros e funcionários da Petrobras foram condenados em primeira instância a um ano e sete meses de prisão. Na mesma decisão, outros quatro foram absolvidos. Nenhuma das autoridades de alto escalão foi condenada. Em agosto de 1986, após recursos, os réus foram todos absolvidos em segunda instância. Passarelli seria prefeito por mais dois mandatos em Cubatão, de 1986 a 1988 e de 1993 a 1996.

No ano seguinte ao desastre, a Agência Estado noticiava a recorrência dos vazamentos nos dutos da Petrobras na Baixada Santista. Segundo o jornal, “houve indenizações irrisórias (só oito por morte), construiu-se apenas 28 casas para os desabrigados, e a Justiça ainda não apontou os culpados. As indenizações às vítimas não ultrapassaram Cr$ 3 bilhões, sendo que, por morte, os oito acordos não chegaram a Cr$ 75 milhões”.

Dona Didi conta que foi reassentada na Vila Natal, onde mora até hoje, dois meses depois do incêndio. Até a casa sair, ficou com os quatro filhos na residência do irmão, no Guarujá. Em dinheiro, recebeu Cr$ 1,5 milhão para ressarcir tudo o que perdeu no incêndio. O valor corresponde atualmente a R$ 10.652,54 (cálculo feito em plataforma do Banco Central, com correção monetária e índice de inflação reajustados). Ela não tem a escritura da casa, apenas a “permissão de morada”, e não escolheu ir para Vila Natal.

“Eu já tava acostumada lá na Vila Socó, tinha medo de mudar de lá”, conta. “Cedo eu ia fechando as portas pros meninos não saírem. Era um mato só, um lixão aí atrás”, lembra enquanto aponta para o fundo da casa na Vila Natal. Ela diz que se acostumou com o cheiro. “A gente que é pobre acostuma com tudo.”

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

A Vila Socó ainda existe no mesmo lugar, mas já não há mangue nem casas de palafita. Foi urbanizada a partir de 1985 por reivindicação dos moradores. Os dutos que transportam gasolina ainda estão ali, mas agora subterrâneos. Por toda a calçada da área de lazer do bairro existem estacas amarelas que sinalizam a passagem da tubulação.

Apesar de, na época, já existirem uma legislação estadual que normatiza a prevenção e controle de poluição, uma lei federal de 1980 que regula o zoneamento industrial e estabelece diretrizes para o licenciamento de indústrias e a Lei Federal 6.938, de 1981, que instituía a Política Nacional de Meio Ambiente, o desastre chamou atenção para a necessidade de cumprir com rigor a regulação ambiental. Em dezembro de 1984, dez meses depois do incêndio, o então gerente regional da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Luís Carlos Valdez, fez declarações alarmantes ao jornal A Tribuna. “Se as autoridades não ouvirem o clamor da Baixada Santista, teremos muitas outras tragédias como a da Vila Socó. Talvez piores”, afirmou. No mesmo ano, Passarelli determinou estudos para a criação de uma Secretaria de Meio Ambiente municipal. Em 1985, iniciou-se “um processo de conscientização sobre a vulnerabilidade da região do Pólo Petroquímico de Cubatão”, como aponta histórico da Cetesb. Foi então que a companhia começou a desenvolver um setor de Análise de Riscos.

Pouco se avançou, porém, para corrigir as injustiças cometidas em relação aos atingidos pela tragédia. “Eu lembro que na época o então vereador Dorivaldo Cajé, que era o presidente da Câmara, mediou esses acordos. Acordos em que foram definidas indenizações irrisórias. Só pra se ter uma ideia, e isso está no processo, crianças de até 12 anos não foram indenizadas porque não eram força produtiva”, conta Dojival Vieira, que era vereador eleito pelo Partido dos Trabalhadores no momento do desastre. Hoje, Dojival é jornalista e advogado e integra a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão.

“Naquela época, o povo era leigo. Não sabia dos direitos. O pessoal que vinha pra trabalhar, mas não conhecia de direito, na época não sabia nem contratar um advogado. Então, o poder público fez o que quis com o povo”, sublinha o morador Ednei, presidente da associação de bairro entre 2004 e 2008. “Eu trouxe de volta a história [do incêndio]. Eu resgatei essa memória viva do povo”, conta. “A Petrobras não gostou da lembrança. O gerente de comunicação da época falou pra não falar mais do assunto, que isso é coisa passada. Eu falei que não, que eles têm dívida eterna com a Vila São José”, diz.

Coluna no jornal A Tribuna, de Santos, em 08 de dezembro de 1984, levantava discussão sobre degradação ambiental

Em 2014, no aniversário de 30 anos da tragédia, a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão, em parceria com a Comissão da Verdade Rubens Paiva, instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), focou os trabalhos no desastre da Vila Socó. Como explica Adriano Diogo, ex-deputado estadual que presidiu a Comissão da Verdade em São Paulo, “a Petrobras sempre foi uma empresa militarizada”, e “Cubatão, que tinha o polo petroquímico, era uma área de segurança nacional”. Portanto, de responsabilidade dos militares [os prefeitos eram nomeados pelos militares], como lembrou o então governador Franco Montoro em entrevista aos jornalistas em Vila Socó, no dia da tragédia: “É preciso não esquecer que Cubatão está sendo considerada área de segurança nacional apenas como uma cidade que não deve escolher o seu governante. Se houvesse uma participação maior da população, nós teríamos uma participação maior na apreciação dos problemas e na solução”, disse o então governador.

A Comissão da Verdade da OAB de Cubatão pediu o desarquivamento do processo de Vila Socó. “Quando nós criamos essa comissão, tínhamos alguns objetivos”, explica o advogado Luiz Marcelo Moreira. “O primeiro era o resgate à memória. O segundo objetivo era traçar a real dimensão dessa tragédia. O terceiro é o porquê da impunidade dos entes envolvidos. Ninguém foi punido. E o quarto, se houve indenização, de que forma foi a indenização? E se existiria ainda direito a alguma indenização. Traçado isso, a primeira coisa que eu fiz foi pedir o desarquivamento desse processo.”

Foram feitas cinco audiências públicas sobre o caso, três em Cubatão e duas na Alesp. Shigeaki Ueki, hoje consultor internacional da área de energia, foi chamado para depor na Comissão da Verdade em São Paulo. Em seu depoimento, em julho de 2014, ele buscou dar o assunto por encerrado. “Nós admitimos logo de início, vamos aceitar a culpa, foi um erro operacional, falha humana, não interessa, e custou uma pequena fortuna para a Petrobras, e indenizamos todos, de acordo com a lei, com a expectativa de vida e tudo mais.”

Desde o fim da Comissão da Verdade, em 2014, a equipe de três advogados estuda como buscar reparação às vítimas. “Nós encerramos essa primeira etapa, e a próxima etapa é montar uma petição inicial com a documentação e levar à OEA [Organização dos Estados Americanos] para que lá seja julgada e analisada essa situação não só da Petrobras, mas do Estado brasileiro.” Moreira se refere à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que pode condenar o Estado brasileiro por violações de direitos humanos. “Se existir uma culpa, seja de qual forma for, que ele [o Estado] seja responsabilizado e indenize as vítimas e os parentes das vítimas. Nós queremos fazer isso ainda este ano”, conclui o advogado.

A Pública fez um pedido pela Lei de Acesso à Informação à Petrobras para obter documentos internos relativos ao desastre da Vila Socó. A Ouvidoria-Geral respondeu que as informações sobre o incêndio já haviam sido encaminhadas à Comissão da Verdade de São Paulo e que, na época em que a comissão requereu tais informações, a Petrobras não localizou a documentação relacionada. A reportagem questionou também a empresa, via assessoria de imprensa, sobre as indenizações, restaurações dos dutos e zona de segurança na Vila Socó. A assessoria informou por telefone que não iria comentar o caso.

Dutos da Petrobrás que transportam gasolina hoje têm sinalização e ainda passam pela Vila Socó. José Cícero da Silva/Agência Pública

12 anos antes, outra barragem em Minas

O estado de Minas Gerais tem 220 barragens de rejeitos minerais classificadas dentro da Política Nacional de Segurança de Barragens. Em 2003, 12 anos antes de romper a barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, também em Minas, outra se rompia na cidade de Cataguases, perto da divisa com o Rio de Janeiro.

Ela represava rejeitos gerados na produção de celulose (chamados de lixívia negra) e fora construída na década de 1980, de acordo com informações do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) de Minas Gerais, pela Indústria Matarazzo de Papéis, posteriormente adquirida pela Indústria Cataguases de Papel e pela Florestal Cataguases, pertencentes ao Grupo Iberpar.

Em resposta aos questionamentos da Pública, o Sisema informa que a Indústria Matarazzo de Papéis operou sempre irregularmente, de 1978 até seu fechamento, em 1993. A empresa se mantinha em atividade “celebrando vários acordos com a Comissão de Política Ambiental (Copam), com o objetivo de solucionar as irregularidades ambientais, porém nenhum dos acordos foi cumprido”. A Indústria Cataguases de Papel, que opera com reciclagem de papel e adquiriu a planta em 1993, só requereu Licença de Operação em 1997. Até 2003, ano do rompimento, a indústria protocolou quatro processos de licenciamento ambiental. “Todos indeferidos por estarem tecnicamente inadequados”, informou o Sisema. Durante 14 anos a empresa operou sem licença, obtida apenas em 2007.

No dia 29 de março de 2003, a “Barragem B”, localizada na fazenda Bom Destino, se rompeu, contaminando com a lixívia negra o ribeirão Cágado, o rio Pomba e o rio Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento de água do estado do Rio de Janeiro. Mais de 500 milhões de litros de lixívia vazaram nos rios, de acordo com o Ministério Público Federal. Os resíduos chegaram a Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, e, em menor proporção, até o litoral de Presidente Kennedy, no Espírito Santo. Durante 11 dias o noroeste fluminense ficou sem abastecimento de água.

O Sisema informou que testes laboratoriais indicaram que os resíduos da barragem não eram tóxicos. Entretanto, uma portaria do Ibama emitida quatro dias após o rompimento da barragem referia-se ao “vazamento de substâncias altamente tóxicas” e proibia a pesca nos rios Pomba e Paraíba do Sul durante 90 dias. As atividades rurais no entorno dos rios ficaram comprometidas. Animais como bois, cavalos e jacarés foram encontrados mortos ao longo do percurso dos rios contaminados, e cerca de 60 espécies de peixes – das 169 então existentes no rio Paraíba do Sul – foram dizimadas, de acordo com um artigo científico de autoria da professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro Verônica Bomfim de Souza Alves.

O procurador da república Eduardo Santos de Oliveira, que à época estava lotado na Procuradoria da República em Campos dos Goytacazes, foi o responsável pelas ações do MPF no caso da Cataguases. A experiência foi um dos fatores para que ele integrasse a força-tarefa de procuradores no caso do rompimento da barragem da Samarco em Mariana. “Um acidente dessa proporção jamais ocorre por conta dessa ou daquela causa. Como regra, é uma soma de omissões ou decisões equivocadas”, ensina. Um exemplo: na época da construção da barragem de Cataguases, já havia soluções melhores para gerenciar os dejetos da atividade industrial. Mas, segundo ele, a barragem seria uma opção economicamente mais barata.

O Ministério Público Federal (MPF) agiu contra a empresa, que teve suas atividades suspensas. Em ação civil pública, pediu indenização e compensação por danos ecológicos. Responsabilizou também o Grupo Matarazzo, dono anterior da propriedade e da indústria de papel e responsável pela construção da barragem. O Ibama e o estado de Minas Gerais foram apontados como responsáveis por omissão. Na denúncia consta ainda que, em 1990, a Indústria Matarazzo de Papéis já havia sido avisada da necessidade de a barragem ser desativada após abril de 1993 – ou seja, dez anos antes do rompimento.

Em 2007, a Justiça Federal no Rio de Janeiro determinou o pagamento conjunto de R$ 170 milhões de indenização por danos ambientais. Os réus entraram com recursos, mas de acordo com o procurador a expectativa é que a sentença saia ainda este ano e seja favorável ao pedido do MPF. Há uma execução provisória em andamento, com a penhora dos bens das empresas.

“A população ribeirinha, no caso os pescadores, na grande maioria foi assessorada pela Defensoria Pública ou por advogados. Houve centenas de ações individuais cobrando das empresas por eventuais danos, tanto em Cataguases quanto em Campos [dos Goytacazes]”, informa Oliveira. “Algumas já tiveram ganho de causa, outras ainda não.”

O MPF também denunciou criminalmente os sócios, ex-sócios e um ex-funcionário das empresas Florestal Cataguases, Indústria Cataguases de Papel, ambas do Grupo Iberpar, e das Indústrias Matarazzo de Papéis por crime de omissão, pela inundação, poluição e por não terem feito o esvaziamento da barragem após o desastre. A possibilidade de rompimento já tinha sido informada à Florestal Cataguases havia mais de três anos antes do acidente, segundo uma nota da assessoria do MPF publicada em seu site na época.

Dois dos então diretores da Indústria Cataguases de Papel, Félix Luis Santana Arencibia e João Gregório do Bem, tiveram prisão preventiva decretada. Arencibia chegou a ser preso, mas tanto ele como João Gregório tiveram liberdade provisória em seguida. A ação criminal referente aos sócios e ex-sócios da Indústria Cataguases de Papel e Florestal Cataguases ainda não teve sentença. O processo que acusava criminalmente a Indústria Matarazzo de Papéis e seus representantes foi trancado por ordem do Supremo Tribunal de Justiça, após recursos dos réus.

Em paralelo às ações judiciais, a Indústria Cataguases de Papel assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal. O acordo estabeleceu ações de recomposição da barragem, recuperação das margens do córrego do Cágado, proteção de nascentes, repovoamento de espécies de peixes nativas e remoção dos resíduos acumulados nas propriedades rurais. Segundo o Sisema, “as ações foram implementadas satisfatoriamente”.

“O TAC também contém uma série de medidas para tratamento dos resíduos remanescentes nos reservatórios das Barragens A e B da Fazenda Bom Destino, de forma a promover a completa desativação das estruturas e recuperação do passivo ambiental”, informa a nota do Sisema enviada à Pública. Segundo o procurador Eduardo Santos de Oliveira, hoje não há mais risco em Cataguases porque as barragens estão vazias.

Para o procurador, que acompanhou tanto Cataguases como Mariana, a postura das empresas continua “lamentável”. “O empreendedor sabe da potencialidade lesiva da obra que ele construiu e da qual ele é dono, sabe dos perigos que a obra que ele executou traz para a população e para o meio ambiente. O que é lamentável mesmo é que, no final das contas, eles não encaminham suas decisões de maneira a preservar a integridade tanto do meio ambiente e do patrimônio histórico, mas principalmente das pessoas”, analisa. “Se um décimo de qualquer medida das que são tomadas depois tivesse sido feito ao longo do tempo da barragem, o desastre nem teria acontecido. Independentemente das obrigações de indenizar, independentemente de eventual sentença criminal, o que é mesmo lamentável é a perda de 17 vidas inutilmente”, fala, ao refletir sobre o desastre da barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, em Mariana.

A Pública tentou localizar representantes da Florestal Cataguases e da Indústria Cataguases de Papel, sem sucesso. Em matéria do portal G1, publicada em novembro de 2015, a advogada da Indústria Cataguases de Papel, Kássia Silveira, afirmou que “a empresa foi multada no valor de R$ 50 milhões, aplicada pelo Ibama. Nós entramos na Justiça contra essa multa e o processo ainda não foi julgado, ainda está em curso. Para recuperar a área ainda gastamos aproximadamente R$ 1,5 milhão”.

Vazamento de petróleo em alto-mar

Foi no dia 8 de novembro de 2011 que a Petrobras notificou a Chevron do Brasil sobre uma imensa mancha de óleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, a uma distância de cerca de 120 km da costa do Rio de Janeiro. Há três meses, a Chevron explorava um poço de petróleo a 2.280 metros abaixo do fundo do mar, como parte de um consórcio em que tem participação majoritária (51,7%), seguida pela Petrobras (30%) e pela Frade Japão Petróleo Ltda. (18,3%).

Foram cerca de 3.700 barris de petróleo cru vazados no mar, ou aproximadamente 588 mil litros, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em laudo técnico, o Ibama e a Marinha classificaram o ocorrido como dano ambiental grave em zona de grande sensibilidade ambiental. Entre os meses de julho e novembro, quando ocorreu o vazamento, é grande a presença de baleias-jubarte e baleias-francas do sul na região da Bacia de Campos, que também é rota migratória de diversas aves marinhas. Além disso, mesmo quando não é visível, o vazamento de petróleo cru pode causar interferências em diversos níveis, de alterações celulares à morte de plânctons (organismos microscópicos que servem de alimento a peixes), peixes que nadam em cardumes, como as sardinhas, as anchovas e os atuns, além de mamíferos aquáticos e aves marinhas.

“Nós não tivemos nenhum animal visivelmente contaminado, mas você não pode comprovar que não houve [danos]. Você infere os danos a partir do momento em que existem vários estudos que demonstram que o óleo na água causa poluição. Poluição é dano”, explica Marcelo de Amorim, coordenador de Atendimento a Emergências Ambientais do Ibama. É ele que assina o laudo com a consultora da Gerência de Meio Ambiente da Marinha, Keity Ferraz. O laudo informa também que “os efeitos a longo prazo não são tão aparentes e alguns compostos podem ser bioacumulados ao longo da cadeia trófica podendo trazer efeitos nocivos ao homem”.

A ANP realizou uma investigação para apurar as causas do vazamento. Concluiu que ele havia sido provocado por erro no cálculo de pressão injetada no poço ao ser perfurado e agravado por falta de avaliação dos riscos da operação. No relatório final da apuração, a agência explicita: “O acidente poderia ter sido evitado, caso a Chevron Brasil Upstream Frade Ltda. tivesse conduzido suas operações em plena aderência à regulamentação, em conformidade com as boas práticas da indústria do petróleo e com seu próprio manual de procedimentos. De acordo com a ANP, a Chevron “dispunha de dados e informações suficientes para concluir que a classificação do risco das operações, na forma em que foram executadas, era intolerável”, diz o relatório. Ao todo, os fiscais da ANP apontaram 25 irregularidades (para toda a cronologia do vazamento, leia aqui).

Fernanda Pirillo, coordenadora de Emergências Ambientais do Ibama, explica que na etapa do licenciamento ambiental, antes de entrar em operação, as empresas que realizam produção de petróleo em alto-mar devem demonstrar ter capacidade de resposta. “O Ibama faz o simulado, como a gente chama a avaliação pré-operacional, com mobilização de recursos, e a empresa passando nesse exercício, obtém a licença [ambiental]. A legislação já obriga das empresas a se prepararem em caso de acidentes”, completa.

A Chevron confirmou o vazamento no dia seguinte à notificação da Petrobras, mas a empresa contratada para fazer o controle do poço, Wild Well Control, só foi informada no dia 10 de novembro. Isso deveria ter ocorrido imediatamente por causa do nível de gravidade da situação. O poço só foi controlado no dia 13 de novembro, o sexto dia de vazamento. Quatro meses depois, em março de 2012, foi identificado um novo ponto de vazamento a 3 km do poço. Dessa vez, a quantidade de petróleo foi menor: 25 barris ou aproximadamente 3.974 litros.

A Chevron pagou R$ 25,5 milhões à ANP por causa das irregularidades encontradas e R$ 48,2 milhões ao Ibama por danos ambientais. As multas tiveram um desconto de 30%, previsto em lei.

A Chevron Brasil, a Chevron Latin America, a Transocean Brasil – proprietária da sonda que explorava o poço – e os executivos que representavam as empresas (entre eles, o ex-presidente da Chevron no Brasil, George Buck) também foram alvo de ações do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro. Em virtude dos danos ambientais, o MPF pedia indenização de R$ 20 bilhões por cada um dos vazamentos de petróleo para as três empresas. Em 2013, porém, um acordo, feito pelo Termo de Ajustamento de Conduta, entre as três empresas, o MPF, o Ibama e a ANP encerrou o processo, determinando medidas de compensação equivalentes a R$ 95,1 milhões. Na audiência pública para discutir o acordo, em dezembro de 2012, apesar da avaliação do Ibama, uma apresentação da petrolífera mostra que “não houve dano ambiental relevante” e que “não houve danos relevantes à vida marinha”. Antes disso, as atividades das empresas envolvidas no desastre ambiental haviam sido suspensas pela Justiça. A ANP conseguiu reverter a decisão no Superior Tribunal de Justiça com a justificativa de que ela “poderia causar graves lesões à segurança e à economia públicas”. As empresas voltaram a operar no Brasil, com a ressalva de que não poderiam voltar às atividades no Campo de Frade.

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Dezessete gestores da Chevron e da Transocean foram denunciados por crime ambiental e dano ao patrimônio público. George Buck, então presidente da Chevron Brasil, e três funcionários da empresa também responderam por “dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público, se omitir em cumprir obrigação de interesse ambiental, apresentar um plano de emergência enganoso e por falsidade ideológica, ao alterarem documentos apresentados a autoridades públicas”, informou o MPF em seu site. Os acusados chegaram a ter seus passaportes retidos e foram impedidos de deixar o Brasil. As penas variavam de 21 a 31 anos de prisão. Hoje, o processo tramita no Superior Tribunal de Justiça e aguarda decisão.

O acordo das petrolíferas com o MPF, a ANP e o Ibama, assinado em setembro de 2013, prevê uma série de medidas de compensação ambiental e aperfeiçoamento das operações da Chevron em relação à resposta a incidentes como o do Campo de Frade e à avaliação de riscos. O dinheiro e os projetos serão administrados pelo Funbio, organização não governamental que presta serviços de recuperação ambiental, que já começou a receber os depósitos.

As medidas preventivas também começaram a ser executadas. “O monitoramento através de radares já foi instalado e já foi feito aperfeiçoamento dos estudos solicitados, de verificar todos os processos físicos e químicos do óleo até a superfície”, conta Marcelo de Amorim, do Ibama. Ele participou da última reunião sobre os projetos fruto do acordo, no fim do ano passado.

“Quanto aos projetos de natureza compensatória, depois de vários ofícios expedidos ao Ibama, ANP, e tendo inclusive passado pelo crivo técnico de nossa análise pericial da quarta câmara do MPF, dois deles começaram a ser executados há cerca de 4/5 meses”, informa, por e-mail, o procurador responsável por monitorar o cumprimento das medidas, Jaime Mitropoulos. Um dos pontos do acordo é a criação de um website que disponibilize relatórios sobre as ações compensatórias da Chevron, o que ainda não foi feito. “Estaremos cobrando também o cumprimento da cláusula que determina a disponibilização de relatórios na internet”, responde o procurador.

De acordo com Fernanda Pirillo, do Ibama, os projetos que têm editais abertos pelo Funbio para serem implementados são o de conservação da toninha, mamífero semelhante ao golfinho, e um projeto de apoio à pesquisa marinha e pesqueira no Rio de Janeiro. Outros quatro projetos ainda estão em análise pelo Ibama, são eles: conservação e uso sustentável da biodiversidade nas Unidades de Conservação Federais Costeiras e Estuarinas do Rio de Janeiro; implementação de projetos de educação ambiental e geração de renda para comunidades pesqueiras na região norte do Rio de Janeiro; um centro de reabilitação de animais silvestres no estado do Rio de Janeiro e o projeto Aqua Rio.

Procurada pela reportagem com uma série de indagações a respeito dos projetos de compensação ambiental e do cumprimento do acordo firmado judicialmente, a Chevron não quis comentar nada sobre o caso. Em nota, a petrolífera avalia que “agiu rapidamente e de forma responsável, quando aconteceu o incidente no Campo Frade, em novembro de 2011, controlando a exsudação dentro dos melhores padrões da indústria”.

Fernanda, que trabalha há dez anos no Ibama, avalia que desastres como esse têm influenciado a mudança na legislação ambiental. “A legislação foi ficando mais rigorosa e mais específica para os casos de vazamento de óleo. Também percebo que houve um entendimento das empresas de que esses não são mero cumprimento da legislação, e sim um item importante na gestão de seus negócios”, avalia.

A produção de petróleo pela Chevron no Campo de Frade voltou à ativa em abril de 2013 e foi aumentada em março de 2014. (Agência Pública/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

Fantasmas que pegaram táxi em Ishinomaki, depois do tsunami, são tema de monografia (IPC Digital)

Por Anna Shudo – 22/03/2016

Ishinomaki

Crédito: Divulgação

SENDAI (IPC Digital) – Yuka Kudo, 22 anos, natural da província de Akita, é uma jovem formanda do curso de Sociologia da Universidade Tohoku Gakuin, de Sendai (Miyagi). Seu grupo de 7 pessoas escolheu como tema da monografia para colação de grau, como as pessoas lidam com a morte após o Grande Terremoto ao Leste do Japão, em 11 de março de 2011. Até iniciar o trabalho de pesquisa, ela via as mortes provocadas pelo tsunami como “milhares de pessoas que perderam a vida”. Depois de iniciar as entrevistas, descobriu que muitos dos taxistas de Ishinomaki (Miyagi) tiveram a experiência de terem como clientes os fantasmas de pessoas que provavelmente perderam a vida na tragédia.

Ela conta as histórias que ouviu durante suas entrevistas. Um taxista, na faixa dos 50 anos, relatou que no começo do primeiro verão após o tsunami, uma senhora vestida de casaco, o que lhe chamou à atenção, pediu para ser conduzida até Minamihama. Ele teria feito uma pergunta para confirmar: “lá, praticamente, só tem terras vazias, pode ser?”.  Com a voz trêmula, a mulher lhe pergunta “eu morri?”. Assustado, quando olha para o assento traseiro a passageira que transportava não estava mais lá.

Outros taxistas contam histórias semelhantes, afirma a estudante. Um deles relata que um rapaz, também vestido de casaco, aponta sentido Hiyoriyama e pede para ir até lá. No destino final, não havia cliente dentro do carro. Segundo seu levantamento junto aos motoristas de táxi, a maioria desses passageiros fantasmas eram jovens, homens e mulheres, quase todos vestidos de casaco. “Os jovens costumam ter um forte sentimento de desgosto de ter deixado pessoas que amam. Devem ter escolhido um espaço reservado como o táxi para transmitir esse sentimento insustentável”, pensa a jovem formanda.

Com a voz trêmula, a mulher lhe pergunta “eu morri?”

Para ela e para os entrevistados, essas histórias não são uma viagem da mente, há realidade. Os motoristas lhe mostraram diários, com registros de perda de corrida e que tiveram que pagar do próprio bolso ou do taxímetro que foi ligado até o destino.

Ela conta que sentiu na pele a dor da perda das pessoas de Ishinomaki. Um outro motorista lhe contou que perdeu familiares no tsunami e declarou “não é nada surpreendente que aconteça esse tipo de coisa. Se aparecer mais alguém vou transportar sim”. Todos os entrevistados não contaram suas experiências com medo. Ficou impressionada com o sentimento de reverência, como uma experiência importante que guardavam dentro do peito.

Com essas entrevistas quase que diárias, revela que aprendeu o que é a dor da perda e do luto. “Quero transmitir o peso da morte de cada uma das pessoas que partiu, com respeito”, declarou.

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Yuka Kudo, a formanda que pesquisou sobre os fantasmas que pegaram táxi em Ishinomaki

Fonte e foto: Asahi Shimbun | Foto de Ishinomaki: http://blog.goo.ne.jp/

Leading Climate Scientists: ‘We Have A Global Emergency,’ Must Slash CO2 ASAP (Think Progress)

 MAR 22, 2016 2:38 PM

CREDIT: AP/DENNIS COOK

James Hansen and 18 leading climate experts have published a peer-reviewed version of their 2015 discussion paper on the dangers posed by unrestricted carbon pollution. The study adds to the growing body of evidence that the current global target or defense line embraced by the world — 2°C (3.6°F) total global warming — “could be dangerous” to humanity.

That 2°C warming should be avoided at all costs is not news to people who pay attention to climate science, though it may be news to people who only follow the popular media. The warning is, after all, very similar to the one found in an embarrassingly underreported report last year from 70 leading climate experts, who had been asked by the world’s leading nations to review the adequacy of the 2°C target.

Specifically, the new Hansen et al study — titled “Ice melt, sea level rise and superstorms: evidence from paleoclimate data, climate modeling, and modern observations that 2 C global warming could be dangerous” — warns that even stabilizing at 2°C warming might well lead to devastating glacial melt, multimeter sea level rise and other related catastrophic impacts. The study is significant not just because it is peer-reviewed, but because the collective knowledge about climate science in general and glaciology in particular among the co-authors is quite impressive.

Besides sea level rise, rapid glacial ice melt has many potentially disastrous consequences, including a slowdown and eventual shutdown of the key North Atlantic Ocean circulation and, relatedly, an increase in super-extreme weather. Indeed, that slowdown appears to have begun, and, equally worrisome, it appears to be supercharging both precipitation, storm surge, and superstorms along the U.S. East Coast (like Sandy and Jonas), as explained here.

It must be noted, however, that the title of the peer-reviewed paper is decidedly weaker than the discussion paper’s “Ice melt, sea level rise and superstorms: evidence from paleoclimate data, climate modeling, and modern observations that 2°C global warming is highly dangerous.” The switch to “could be dangerous” is reminiscent of the switch (in the opposite direction) from the inaugural 1965 warning required for cigarette packages, “Caution: Cigarette Smoking May Be Hazardous to Your Health” to the 1969 required label “Warning: The Surgeon General Has Determined that Cigarette Smoking Is Dangerous to Your Health.”

And yes I’m using the analogy to suggest readers should not be sanguine about the risks we face at 2°C warning. Based on both observations and analysis, the science is clearly moving in the direction that 2°C warming is not “safe” for humanity. But as Hansen himself acknowledged Monday on the press call, the record we now have of accelerating ice loss in both Greenland and West Antarctica is “too short to infer accurately” whether the current exponential trend will continue through the rest of the century.

Hansen himself explains the paper’s key conclusions and the science underlying them in a new video:

The fact that 2°C total warming is extremely likely to lock us in to sea level rise of 10 feet or more has been obvious for a while now. The National Science Foundation (NSF) itself issued a news release back in 2012 with the large-type headline, “Global Sea Level Likely to Rise as Much as 70 Feet in Future Generations.” The lead author explained, “The natural state of the Earth with present carbon dioxide levels is one with sea levels about 70 feet higher than now.” Heck, a 2009 paper in Science found the same thing.

What has changed is our understanding of just how fast sea levels could rise. In 2014 and 2015, a number of major studies revealed that large parts of the Antarctic and Greenland ice sheets are unstable and headed toward irreversible collapse — and some parts may have already passed the point of no return. Another 2015 study found that global sea level rise since 1990 has been speeding up even faster than we knew.

The key question is how fast sea levels can rise this century and beyond. In my piece last year on Hansen’s discussion draft, I examined the reasons the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) and scientific community have historically low-balled the plausible worst-case for possible sea level rise by 2100. I won’t repeat that all here.

The crux of the Hansen et al. forecast can be found in this chart on ice loss from the world’s biggest ice sheet:

Antarctic ice mass change

Antarctic ice mass change from GRACE satallite data (red) and surface mass balance method (MBM, blue). Via Hansen et al.

Hansen et al. ask the question: if the ice loss continues growing exponentially how much ice loss (and hence how much sea level rise) will there be by century’s end? If, for instance, the ice loss rate doubles every 10 years for the rest of the century (light green), then we would see multi-meter sea level rise before 2100? On the other hand, it is pretty clear just from looking at the chart that there isn’t enough data to make a certain projection for the next eight decades.

The authors write, “our conclusions suggest that a target of limiting global warming to 2°C … does not provide safety.” On the one hand, they note, “we cannot be certain that multi-meter sea level rise will occur if we allow global warming of 2 C.” But, on the other hand, they point out:

There is a possibility, a real danger, that we will hand young people and future generations a climate system that is practically out of their control.
We conclude that the message our climate science delivers to society, policymakers, and the public alike is this: we have a global emergency. Fossil fuel CO2 emissions should be reduced as rapidly as practical.

I have talked to many climate scientists who quibble with specific elements of this paper, in particular whether the kind of continued acceleration of ice sheet loss is physically plausible. But I don’t find any who disagree with the bold-faced conclusions.

Since there are a growing number of experts who consider that 10 feet of sea level rise this century is a possibility, it would be unwise to ignore the warning. That said, on our current emissions path we already appear to be headed toward the ballpark of four to six feet of sea level rise in 2100 — with seas rising up to one foot per decade after that. That should be more than enough of a “beyond adaptation” catastrophe to warrant strong action ASAP.

The world needs to understand the plausible worst-case scenario for climate change by 2100 and beyond — something that the media and the IPCC have failed to deliver. And the world needs to understand the “business as usual” set of multiple catastrophic dangers of 4°C if we don’t reverse course now. And the world needs to understand the dangers of even 2°C warming.

So kudos to all of these scientists for ringing the alarm bell: James Hansen, Makiko Sato, Paul Hearty, Reto Ruedy, Maxwell Kelley, Valerie Masson-Delmotte, Gary Russell, George Tselioudis, Junji Cao, Eric Rignot, Isabella Velicogna, Blair Tormey, Bailey Donovan, Evgeniya Kandiano, Karina von Schuckmann, Pushker Kharecha, Allegra N. Legrande, Michael Bauer, and Kwok-Wai Lo.

Risk of multiple tipping points should be triggering urgent action on climate change (Science Daily)

To avoid multiple climate tipping points, policy makers need to act now to stop global CO2 emissions by 2050 and meet the Paris Agreement’s goal of limiting global warming to 1.5 °C above pre-industrial levels, a new study has said

Date:
March 21, 2016
Source:
University of Exeter
Summary:
Pioneering new research shows that existing studies have massively under-valued the risk that ongoing carbon dioxide emissions pose of triggering damaging tipping points.

Detailed view of Earth from space. Credit: Elements of this image furnished by NASA; © timothyh / Fotolia

To avoid multiple climate tipping points, policy makers need to act now to stop global CO2 emissions by 2050 and meet the Paris Agreement’s goal of limiting global warming to 1.5 °C above pre-industrial levels, a new study has said.

Pioneering new research, carried out by the Universities of Exeter, Zurich, Stanford and Chicago, shows that existing studies have massively under-valued the risk that ongoing carbon dioxide emissions pose of triggering damaging tipping points.

The collaborative study suggests that multiple interacting climate tipping points could be triggered this century if climate change isn’t tackled — leading to irreversible economic damages worldwide.

Using a state-of-the-art model, the researchers studied the effects of five interacting tipping points on the global economy — including a collapse of the Atlantic overturning circulation, a shift to a more persistent El Nino regime, and a dieback of the Amazon rainforest.

The study showed that the possibility of triggering these future tipping points increased the present ‘social cost of carbon’ in the model by nearly eightfold — from US$15 per tonne of carbon dioxide emitted, to US$116/tCO2.

Furthermore, the model suggests that passing some tipping points increases the likelihood of other tipping points occurring to such an extent that the social cost of carbon would further increase abruptly.

The recommended policy therefore involves an immediate, massive effort to reduce CO2 emissions, stopping them completely by the middle of the century, in order to stabilize climate change at less than 1.5 °C above pre-industrial levels.

Professor Tim Lenton, from the University of Exeter and one of the authors of the study said: “Irreversible tipping points are one of the biggest risks we face if we carry on changing the climate. Our work shows that taking that risk seriously radically changes policy recommendations. We need to act urgently and globally to meet the most ambitious targets agreed in Paris last December and reduce the risk of future tipping points.”


Journal Reference:

  1. Yongyang Cai, Timothy M. Lenton, Thomas S. Lontzek. Risk of multiple interacting tipping points should encourage rapid CO2 emission reductionNature Climate Change, 2016; DOI: 10.1038/nclimate2964

On the anthropology of climate change (Eurozine)

Thomas Hylland EriksenDasa Licen

Original in English
First published in Razpotja 22 (2015)

Contributed by Razpotja
© Thomas Hylland Eriksen, Dasa Licen / Razpotja
© Eurozine

A conversation with Thomas Hylland Eriksen

Mainstream literature on globalization tends not to take the uniqueness of each locality seriously enough, says Thomas Hylland Eriksen. He explains how the anthropology of climate change is responding to the need for an analysis of the global situation seen from below.

Dasa Licen: You have a blog, a vlog where you report on your fieldwork, where you look a bit like Indiana Jones. On top of that, you write popular articles and essays. You seem to believe that media are very important for anthropology.

Thomas Hylland Eriksen: I think anthropologists should be more conscious about how they are perceived in the wider public. Unfortunately, for decades now, there has in many places been a certain withdrawal of anthropology from the public sphere. There are many burning issues, from climate change to identity politics to debates on human nature, where anthropologists are not present the way they could be. This was not always the case.

If you go back a few generations, there were many anthropologists who were also engaged public intellectuals. They were visible, well known, they wrote popular books, took part in political debates, and so on. Think of a scholar like Margaret Mead back in the 1960s: her research was controversial, but she succeeded in placing anthropology on the map by being engaged in important debates. Nowadays, there are important discussions where anthropologists would have a lot to offer, yet they are more or less absent.

An obvious example is identity politics, but you can also take the debates on human nature. In many western countries, these have been monopolized by evolutionary biologists or psychologists. The things anthropologists say about human nature are quite different, and while we are rather good at criticizing sociobiology and evolutionary perspectives amongst ourselves, we rarely go out and present our nuanced message to a wider public. It is a striking fact that the most famous anthropologists today is not an anthropologists. He is an ornithologist and physiologist called Jared Diamond who has written bestsellers about where we come from and where we are going. His latest book called The World until Yesterday is a sort of anthropological treatise about other cultures, traditional peoples, and about the kind of wisdom they contribute to the modern world. His book has not been very well received by anthropologists, because he gets a lot of things nearly right. Although he has not been trained as an anthropologist, he uses anthropological sources and asks the kind of questions we do. But he manages to do it in a way that makes people want to read his book. We should learn from these examples.

DL: We all know the case of the doctor who is walking down the street and sees an injured person: he must offer to help. Do you think something similar applies to anthropologists in the face of global crises?

THE: I do think so. In my own work, I try to address two big lumps of questions. One of them is the extent to which we can apply anthropology as a tool to understand the contemporary world. This is what my project “Overheating” is about. The second is a more general question: what is it to be human? There are two groups of answers, one of them says, well a human being is a small twig on a branch on the big tree of life: that’s the story of evolution and while it generates some important some insight, it leaves aside a different set of questions about human subjectivity and emotions. I am talking about the complexities of life, all the existential struggles that human beings are confronted with. This perspective generates an entirely different set or answers, which are at the basis of what we do as anthropologists. By addressing them, we can contribute to a more nuanced view to what it is to be a human.

We are not only homo economics, merely maximizing creatures, and although instincts can be important for understanding our behaviour, we are not driven by them but immersed in a network of additional aspects. We are also not just social animals… Clifford Geertz insisted that human beings are primarily self-defining animals. Such a perspective enables not only a better understanding of the realities of human lives, but it also has its moral implications.

DL: Which ones?

THE: Let me give you an example. One of my PhD students works in rural Sierra Leone. It is an overheated place, in the sense that the Chinese and other foreign investors are coming in, opening up mines, new roads are being built… For many people this means opportunities, for many others it means misery. My student asks a guy, “so how do you explain these changes taking place in your community in the last years?”, and this guy would just shrug and say, “well you know man, it’s the global”. We have to try to find out what exactly he means when he says “it’s the global”.

DL: Is this the aim of the Overheating project which you mentioned?

THE: What we are trying to do with Overheating is to fill a gap in the literature on globalization: we are trying to say something general about what I call the clash of scales, the dichotomy between the large and local. The large scale is the world of global capitalism, of the environment and of nation-states; on the other hand, there are the lives people live in their own communities. We are a group of researchers who’ve done fieldwork in lots of locations around the world and we try to produce ethnographic material that is comparable, so that we can use our material to create, if I can be a bit pretentious, an anthropological history of the early twenty-first century. So we are working very hard to create an analysis of the global situation seen from below.

DL: Your project seems so wide that it almost looks like the anthropology of everything…

THE: Not quite. It is the anthropology of global crisis as perceived locally. Say you live somewhere in Australia and all of a sudden a mining company arrives next door and disrupts the ecosystem, and you ask yourself, “who can I blame and what can I do”? It’s the kind of question that many people ask when confronted with changes on the large scale that affect their local community. Our informants do not distinguish between the environment, the economy, identity as they all interact and effect local life. What we are interested in is the anthropology of local responses to global changes.

DL: So, you are trying to advance an anthropological understanding of globalization?

THE: Yes. I think one of the shortcomings of the mainstream literature on globalization is that the uniqueness of each locality is not taken seriously enough: the local is present mostly in the form of anecdotes from people’s lives. The problem of anthropological studies of globalization has often been the opposite: you go really deeply into one place and you neglect the wider perspective. We are trying to feel the gap in both approaches. The metaphor I often use is that of a social scientist who sits in a helicopter with a pair of binoculars and looks at the world. This would be the case of authors like Anthony Giddens or Manuel Castells. On the other hand, you have the person who works with a magnifying glass. We are trying to bring these two levels closer.

DL: The seriousness of global warming has been neglected by anthropologists, indeed by all social sciences for a long time.

THE: This is changing. The anthropology of climate change has become one of the big growth industries in academia, just as ethnicity and nationalism were big in the 1970s and 1980s. You are from Slovenia, you know the breakup of Yugoslavia, which came as a shock to us and we needed to understand what was happening. The genocide in Rwanda happened around the same time, Hindu nationalists came to power in India, contradicting everything we thought we knew about the country, controversies emerged around migration, multiculturalism, diversity, Islam in western Europe. After the turn of the century, the issue of climate change came to be understood as another layer on top of these issues.

DL: When did you develop your interest in climate change?

THE: It must have been many years ago but it took a while before I got the opportunity to look at these interconnected issues more closely. We are not geophysicists, we do not know much about CO2, we cannot predict the temperature of the world. What we can do is study how people respond, how they react, how they talk about it and what they do.

Summit camp on top of the Austfonna Ice Cap in Svalbard (Norwegian Arctic). Photo: NASA Goddard Space Flight Center / Thorben Dunse, University of Oslo. Source: Flickr

The dangerous thing about climate changes is that it has deep consequences, and yet it is hard to find anybody to blame. Think about it: say you are in small town or village in the Andes in Peru and you notice there is something odd with the water. It is not the way it used to be, you notice the glaciers are melting, and then you know that mining company has opened an operation venue nearby. You think the mining company must be to blame, because they probably pumped out all the water and they destabilized the local climate, and so you march up to them telling them “look, you are taking away our water, we need compensation”, and they come out and they say “I’m sorry but it is not us, it is global climate change”. Where do you go to address that question? Do you write to Obama, do you write a letter to the Chinese?

The concern with climate change can be very serious in the sense that it creates a sense of powerlessness. We just have to let things happen. For this reason I have been interested in how environmental engagement begins with things that are within your reach. I probably can’t do anything about world climate, but maybe I can save some trees, or the dolphins in the harbour. That’s how engagement begins.

DL: Do you feel such helplessness when you talk about global warming and they ask you, “so what is your solution”?

THE: Good question. I guess we all have to find the best way of acting where we are. It is not as if you or I have the responsibility to save to planet, or that you will fail if you have not been able to save it. I remember that as a schoolboy I had a devout Christian teacher who was raised by missionaries in Japan. Being a Christian missionary in Japan can be very difficult because the people are generally not very interested in evangelization. She told us about a fellow Christian who had spend his entire life as a missionary in Japan and succeeded in converting one person, which made his life feel worthwhile. He felt saving one soul was well worth 50 years of hard work. We should not be overambitious regarding what we are able to achieve. We can take part in public debates, add one drop of complexity, a drop of doubt. Maybe sometimes it is enough or rather, it is all we can do.

DL: As an anthropologist you are not allowed to pass judgment on people, however sometimes it is extremely hard to avoid judgment, for example when we are confronted with obtuse forms of climate change denial.

THE: Traditionally, anthropologists have not been too good at thinking of themselves as engaged subjects, we have been taught not to pass judgment, to just lay out the facts and say, well this is what the world looks like and this is why this makes sense to those people and not to those people, and I believe that this paradigm, this kind of relative paradigm has collapsed. Such an approach can no longer function precisely for the reasons I was suggesting: we are now all in the same boat. So there is no good reason anymore to make sharp distinctions between scholarship and the wider public, because we are facing the same radical challenges. We are all part of the same moral space and sometimes we have to take an ethical or political stance, anything else would be irresponsible. But we have to strike a balance between that kind of engagement and our credibility as researchers.

Back to your question: when I study people who deny the reality of climate change I have to take their view of world seriously. Many of them really believe in the paradigm or progress, industrialism and so on. This to me is a key double bind in contemporary civilization: there is no easy way out, between economic growth and the ecological sustainability. There is no reason that anybody should have the answer. When people ask me what to do, I have to say: “Sorry, I am trying to work this out together with you. I do not have the answer.”

DL: You probably know Slavoj Zizek, he is more famous than Slovenia. He has had an ongoing dispute with Dipesh Chakrabarty on a related issue: should we first do something about global warming or engage in revolutionary struggle? Zizek believes climate change cannot be addressed outside the struggle for global emancipation, Chakrabarty on the other hand insists on the need to strike a historical compromise on a global level. What is your stance in this polemics?

THE: That is a very interesting question. On the one hand, I see the biggest tension in contemporary civilization is that between economic growth, which for two hundred years has been based on fossil fuels, and sustainability. Fossil fuels have been a blessing for humanity. They have created the foundations for modern life. Yet they are now becoming a damnation, a threat to civilization. This is hard to see from the viewpoint of a classical progressivist perspective.

This is strongly linked to another contradiction, the tension between a class based politics and green politics. What is more important, to do something about inequality or to save the world climate? Sometimes you just cannot pursue both aims. I worked in Australia, in a place where virtually everybody works directly or indirectly in industry. They have a huge power station, a cement factory, it is an industrial hub. Very few people have any environmental engagement to talk of. There is nothing about climate change in the local newspaper. It is all about industrial growth and job security. Being an environment activist in that place is very hard because your neighbours are not going to like it, but they have a very strong union-based socialist movement in that town. Those people see green politics as something that is a kind of a middle class thing. They associate it with cappuccino-sipping do-gooder students in Sydney and Melbourne, whereas us, the hard working industrial employees are the ones actually producing the cappuccino, the tablets, and they are not aware of where their wealth comes from. There is a widespread feeling of the hypocrisy of green politics.

Where do I stand? I think saving the climate is the main issue. But it should be pursued with concern for social justice. The first priority has to be to create sustainable jobs. If you take away a million jobs, you have to reproduce those jobs somewhere else. This leads me to what I think could have been an answer, had Zizek been aware of it, namely the anthropological school called human economy. There is a very creative English anthropologist who works in South Africa called Keith Hart who works from this perspective. David Graeber is sort of within the same world, looking at feasible economic alternatives to global neoliberalism. We are not talking about state socialism here: you are from Slovenia, you are too young to remember it, but state socialism did not make people too happy and it was not good for the environment either.

The point is that we need to talk about the economy in terms of human needs. The goal of economy is to satisfy human needs; not just material needs but also the need to something meaningful, to be useful for others, to see the results of what you are doing. The point of economy is not only to generate profits, but to try to fight alienation.

DL: You wrote somewhere that the Left lacks an understanding of multiculturalism and knowledge of the environment, and it tends to neglect these two fields that are extremely important right now. Isn’t that a surprising statement given that in the West, these issues have become almost synonymous with leftism?

THE: Things are indeed changing. That is probably one of the reasons Slavoj Zizek gets so angry sometimes, because he identifies with the Left, but the Left has abandoned his positions. I think many of us have the same feeling of being ideologically homeless. For 200 hundred years, the Left was quite good at promoting equality and social justice, presuming that economic growth will continue indefinitely. Then, in the 1980s multiculturalism emerged. The Left tried to appropriate it, tried to promote diversity, but it has not succeeded, because leftist movements have been good at promoting equality but not difference. Then environmental issues came as another factor complicating the picture. What do you do when you have to choose between class politics and green politics? You probably stick with class politics, but then you realize it is part of the problem, especially if you live in a rich country, as I do, where the working class flies to southern Europe all the time, going on holiday, driving cars, eating imported meat and so on. There is a big dilemma here. Again I must insist I don’t have the final answer, but at least if we identify the problem we make small steps in the right direction.

By the way, I very strongly disagree with what Zizek says about multiculturalism. Whenever he makes jokes about it, he produces a caricature of multiculturalism, rather than a parody which is arguably his aim. He does not really know what he is talking about. He knows a lot of things, but multiculturalism is not one of his strong points.

DL: Zizek has advanced a positive interpretation of the Judeo-Christian tradition from a leftist perspective. Do you think that this tradition, which sees the Earth as ultimately doomed, poses a problem for environmentalism?

THE: Good question. Probably there is something about the way in which many people talk about climate change that resembles these Judeo-Christian ideas about the end of time. We are approaching the end, we are approaching the final phase. Think about the popularity of post-apocalyptic films in science fiction. It started already in the early 1980s with Mad Max films, and there has been a series of Hollywood and other movies about the world after the apocalypse. There is a real thirst for this sort of narratives. In the text I am writing now I just quoted T. S. Eliot who writes famously that the world ends not with a bomb but with a whimper. There is no before and after. Many of the communist revolutionaries held similar chiliastic ideas: things are going to get worse and worse and worse, and then after the revolution everything is going to be fine. But we have some 200 years of experience with revolutions, and we know they tend to reproduce many of the problems they were meant to solve, and on top of that they create new ones. Take the Arab spring in North Africa and the Middle East. I think it is very dangerous to behave as if the history has a direction.

DL: This is somewhat connected to the wider issue of the role of human civilization in the environmental history of the planet. You use the term Anthropocene, yet some find it inappropriate as it puts humans in the centre, not only as the source of the trouble we are facing but also as more important than anything else on the planet. How do you feel about that?

THE: Some scientists want to have it both ways. Some think in terms of the changes that characterize the Anthropocene and at the same time they emphasize that humans and non-humans are really in a symbiotic relationship. I do not have a lot of patience for that kind of argument, especially if you think of the state of the world in times of climate change, with huge extractive industries, the global mining boom as the result of the growing Chinese and Indian economies, the upsurge of fracking which seems to have provided us with an almost indefinite supply of fossil fuels. I feel it is irresponsible to question the responsibility of humanity. And yet, however much I may love my cat and acknowledge that humans and domestic animals have coevolved, we must realize that human beings are special. There is no chimpanzee or the smartest of dolphins able to say, “well my dad was poor but at least he was honest”. Only human beings can create that sentence: our sense of moral responsibility is unique and we must live up to it.

DL: Speaking of moral responsibility: I understand you had an important role in the coming to terms with the Breivik tragedy…

THE: Yes, I spent about three weeks after the terrorist attack and doing little other than talking to foreign journalist and writing articles for foreign newspapers. They contacted me not only because I have been writing about identity politics and nationalism, but also because Breivik had a sort of soft spot for me. He sees me as a symbol of everything that has gone wrong in Norway, a sort of spineless effeminate cosmopolitan middle class multiculturalist Muslim lover. There has been a hardening; polarization is much more strong now than it was only 20 years.

In the 1990s, people who had said things like I do about cultural diversity would perhaps have been accused of being naive, whereas in the last few years we are increasingly being accused of being traitors – which is different. Breivik quoted me about 15 times in his manifesto and his YouTube film. You might say he had a mild obsession with me. Eventually, I was called in as a witness in the trial by the defence. Originally, the psychiatrists who examined Breivik concluded he was insane. He should have received psychiatric treatment, and thus could not be punished for what he did. Of course, at the certain level one has to be insane to kill so many innocent young people. But his ideas are not the result of mental illness, they are quite widely shared. We have websites in Norway, with 20,000 unique visits every week, that were among his favourite websites. The defence wanted to call me in as a witness to testify that although he may be a murderer, his ideas are very common, they are shared by thousands of others. Which is true, but in the end I did not have to go because they had a long list of witnesses and they only used some of them.

DL: Were you scared by this kind of exposure?

THE: Not really. But in the first few weeks after the terrorist attack when everybody in Norway was in a state of shock, I noticed that some people at the university whom I hardly knew would come over to me and were behaving unusually nicely. I realized they probably thought that was the last time they see of me because I was probably next on the dead list. Then things went back to normal. You can never feel entirely safe. Breivik reminds us that even a handful of people can do immense harm, just like the terrorist attack in United States in 2001. It has probably made society a little bit less trusting, a bit more worried. But I do not think about my own person security. About the security of my family, yes, but not mine. You cannot. That would be allowing the other people to win.

DL: Would you say that Norway has learnt anything from this tragedy?

THE: Unfortunately not. There was a chance that we could have, and many of us were hoping that an attack like that should make us understand that the idea of ethnic purity is absurd, crazy and not feasible in this century. We hoped that we could now get together to sit down and discuss these issues in a more measured, serious, balanced way, but it did not happen. It took only a couple of weeks for the usual political polarization to return. If anything, people who were against immigration became even more aggressive than before. We missed an opportunity there.

DL: You are coming to Ljubljana to a convention with the provocative title, Why the world needs anthropologists. But isn’t it a bit pretentious to suggest that the world needs us at all?

THE: That is an excellent question. I do not know whether the world needs novelists, but it probably does not does need poets. It can easily manage without them. And yet, the human need for meaning is just as powerful as the need for food and shelter. The kind of meaning sensitive and intelligent people can provide is especially important, when we need to reformulate the main questions.

I sometimes think about students of mine who are never going to work as anthropologist, they will find jobs elsewhere, but studying anthropology enables them to lead a better life because they understand more of themselves and of the world. I even think that doing anthropology makes you a better person: just like reading novels, it enables you to identify with others. When you then see the refugees in the Mediterranean, at least you know, it could have been me. You think that because you relate to people in all parts of the world. I think the main sort of moral message of anthropology perhaps is that all human lives have value, no matter how alien no matter how strange it might appear. So yes, I think world needs anthropologists, just as it needs novelists and poets.

Livro traz relato sóbrio e claro sobre aquecimento global (Folha de S.Paulo)

Denis Russo Burgierman

19/03/2016

Quer um conselho sobre o mercado imobiliário? Não compre terreno baixo em frente ao mar : você vai pagar caro hoje e ele vai deixar de existir qualquer dia desses. Mas a verdade é que o traçado da costa não é a única coisa que vai mudar profundamente no mundo nos próximos anos por causa do clima. Quase tudo vai mudar: nenhuma história é tão importante quanto essa para o nosso futuro. Daí a importância de ler “A Espiral da Morte”.

O livro é resultado de 15 anos de trabalho do jornalista Claudio Angelo, ao longo dos quais ele fez cinco viagens às regiões polares das duas pontas do mundo, andando no gelo com cientistas do clima, voando com pesquisadores da Nasa, navegando com militantes do Greenpeace, conversando com caçadores de urso-polar.

Claudio é um sujeito comprometido com os temas que cobre: é o único repórter que já conheci que julgou importante tomar aulas de tupi. E ele tem vocação trágica: se apaixona por esses assuntos terríveis, essas tragédias de aparência irremediável (índios, clima…).

Claro que o resto de nós está ocupado demais com nossos Facebooks, com as campanhas do nosso time na Libertadores, com os roteiros rocambolescos da disputa política. Não temos tempo de ficar nos preocupando com o destino dos índios, dos ursos polares, dos icebergs, das baleias.

Divulgação
Larsen B, geleira que se rompeu em 2002
Larsen B, geleira que se rompeu em 2002

O que a maioria de nós nem suspeita é que essa história que A Espiral da Morte conta vai afetar profundamente a nossa vida – já está afetando. E também a vida dos nossos filhos, e a dos tataranetos dos tataranetos dos nossos filhos, e a dos nossos descendentes 40 mil anos no futuro.

O livro não é um manifesto para que juntos salvemos a natureza, nem uma profecia sombria do apocalipse que nos aguarda. É um relato sóbrio, tranquilo, claro, e com algum humor (negro) de tudo o que sabemos sobre o que está acontecendo neste exato momento nos lugares mais frios da Terra.

Enquanto damos like nuns posts e bloqueamos outros, bilhões de toneladas de gelo socado acumulado ao longo de milênios lentamente derretem nos extremos norte e sul do planeta, e vão ficando a cada dia mais escorregadios.

Não é muito fácil prever exatamente como o gelo vai derreter, como qualquer um que já bebeu uma dose de uísque sabe, mas já está absolutamente claro que está derretendo. Claudio sabe bem disso: ele ouviu o barulho (o estrondo de cachoeira vindo de debaixo do chão de uma geleira).

Um dia desses, pedações do tamanho de países inteiros começarão a despencar no mar como pingões de chuva, na Groenlândia e na Antártida. E aí o oceano do mundo vai subir, talvez vários metros. Em muitos lugares o ar vai secar. Tufões e furacões vão ficar cada vez mais frequentes, assim como epidemias espalhadas por mosquitos.

Enfim, não é exatamente uma leitura leve para levantar o astral – como aliás Claudio cuidou de deixar bem claro já no título. Mas, ainda assim, espero que muita gente leia.

Afinal, é meio assustador que algo tão enormemente importante, que definirá tão profundamente o destino de nossa espécie, seja tão pouco compreendido por nós humanos vivendo sobre a Terra.

É assustador que todos os grandes partidos políticos do Brasil façam projetos de grandes obras ignorando completamente o fato consumado de que o clima está mudando. É assustador que o desenho de nossas cidades, nosso modelo produtivo e nossa matriz energética continuem extremamente desorganizados, despreparados para a crise ambiental que já começou a chegar.

Eu estava lendo o catatau de quase 500 páginas anteontem, quando minha filha de 3 anos, decidida a evitar que eu cumprisse o prazo desta resenha para a Folha, entrou no meu quarto e pediu para eu contar a história do livro para ela. Quando ela viu a capa – um massivo iceberg groenlandês flutuando na água verde-esmeralda –, comentou: “que lindo, papai”. Sorri e olhei para ela. Subitamente, me dei conta de algo que nunca havia me ocorrido: talvez chegue um dia na vida dela em que será muito difícil encontrar uma única praia para ela se deitar ao sol.
DENIS RUSSO BURGIERMAN é diretor de Redação da revista “Superinteressante”

*

A ESPIRAL DA MORTE
AUTOR Claudio Angelo
EDITORA Companhia das Letras
PREÇO R$ 59,90 (496 págs.)
AVALIAÇÃO Muito bom

Drought and rising temperatures ‘leaves 36m people across Africa facing hunger’ (The Guardian)

Unusually strong El Niño, coupled with record-high temperatures, has had a catastrophic effect on crops and rainfall across southern and eastern Africa

A maize plant among other dried maize in a field

A maize plant among other dried maize in a field in Hoopstad in the Free State province, South Africa. The country suffered its driest year on record in 2015. Photograph: Siphiwe Sibeko/Reuters 

The immediate cause of the drought which has crippled countries from Ethiopia to Zimbabwe is one of the strongest El Niño events ever recorded. It has turned normal weather patterns upside down around the globe, climate scientists say. 

But with the world still reeling from record-high temperatures in February, there are fears that the long-term impacts of climate change are also undermining the region’s ability to endure extremes in weather, leaving huge numbers of people vulnerable to hunger and disease.

The worst hit country in the current crisis is Ethiopia, where rains vital to four-fifths of the country’s crops have failed. Unicef has said it is making plans to treat more than 2 million children for malnutrition, and says more than 10 million people will need food aid.

“Ethiopia has been hit by a double blow, both from a change to the rainy seasons that have been linked to long-term climate change and now from El Niño, which has potentially led the country to one of the worst droughts in decades,” said Gillian Mellsop, Unicef representative to Ethiopia.

The crisis has been damaging even to Ethiopians not at immediate risk of going hungry. It has truncated the education of 3.9 million children and teenagers, who “are unable to access quality education opportunities because of the drought”, she said.

An boy walks through failed crops and farmland in Ethiopia.

An boy walks through failed crops and farmland in Afar, Ethiopia. Four-fifths of crops in the country have failed. Photograph: Mulugeta Ayene/AP

Neighbouring countries grappling with hunger after crops failed include Somalia, Sudan and Kenya, and altogether the failed rains have left more than 20 million people “food insecure” in the region.

The drought caught many officials by surprise, because although El Niño was forecast, the weather event normally brings more rain to the region, not less.

“The typical pattern that you would expect with El Niño is very dry weather in southern Africa, but slightly wetter than normal in eastern Africa,” said Dr Linda Hirons, a research scientist at the National Centre for Atmospheric Science.

“So the fact that we have had parts of eastern Africa experiencing drought is unusual … but every single El Niño event manifests itself differently.”

In southern Africa, the drought caused by El Niño was expected, but it has been even more severe than feared, with rains failing two years in a row.

Overall nearly 16 million people in southern Africa are already going hungry, and that number could rise fast. “More than 40 million rural and 9 million poor urban people are at risk due to the impacts of El Niño’s related drought and erratic rainfall,” the World Food Programme has warned.

Zimbabwe, once the region’s bread basket, is one of the worst hit countries. In February, the country’s president Robert Mugabe declared a state of disaster due to the drought, and in less than a month official estimates of people needing food aid has risen from 3 million to 4 million.

Neighbouring countries are also scrambling to find food aid, including South Africa, whose ports are the main entry point for relief across the region.

“We are seeing this as a regional crisis, a cross-country humanitarian crisis,” said Victor Chinyama. “In each country maybe the numbers [of hungry people] are nowhere near as much as Ethiopia, but if you put these numbers together as a whole region, you get a sense of how large a crisis this is.”

More than a third of households are now going hungry, he said. Families that used to eat two meals a day are cutting back to one, and those who could once provide a single meal for their dependents are now entirely reliant on food aid, he said.

Beyond the immediate scramble to get food to those who need it, aid workers in the region say the drought has served as reminder that communities vulnerable to changing weather patterns need longer-term help adapting.

“It’s becoming common knowledge now that we will experience droughts much more,” said Beatrice Mwangi, resilience and livelihoods director, southern Africa region, World Vision, who said she is focused on medium- and long-term responses.

“In the past it was one big drought every 10 years, then it came to one drought every five years, and now the trends are showing that it will be one every three to five years. So we are in a crisis alright, that is true.

“But it’s going to be the new norm. So our responses need to appreciate that … there is climate change, and it’s going to affect the people that we work with, the communities we serve.”

This article was amended on 17 March 2016 to remove a picture because it was an inaccurate illustration of the theme of the article and contained ambiguities in the caption.


El Niño is causing global food crisis, UN warns (The Guardian)

Severe droughts and floods have ruined harvests, and left nearly 100 million people in southern Africa, Asia and Latin America facing food and water shortages

A farmer surveys her maize fields in Dowa near the Malawi capital of Lilongwe, 3 February 2016.

A farmer surveys her maize fields in Dowa, near the Malawi capital of Lilongwe, earlier this month. The country is experiencing its first maize shortage in a decade, causing prices to soar. Photograph: Mike Hutchings/Reuters

Wednesday 17 February 2016 00.01 GMT / Last modified on Wednesday 17 February 2016 14.48 GMT

Severe droughts and floods triggered by one of the strongest El Niño weather events ever recorded have left nearly 100 million people in southern Africa, Asia and Latin America facing food and water shortages and vulnerable to diseases including Zika, UN bodies, international aid agencies and governments have said.

New figures from the UN’s World Food Programme say 40 million people in rural areas and 9 million in urban centres who live in the drought-affected parts of Zimbabwe, Mozambique, South Africa, Zambia, Malawi and Swaziland will need food assistance in the next year.

In addition, 10 million people are said by the UN’s Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (Ocha) to need food in Ethiopia (pdf), and 2.8 million need assistance in Guatemala and Honduras.

Millions more people in Asia and the Pacific regions have already been affected by heatwaves, water shortages and forest fires since El Niño conditions started in mid-2015, says Ocha in a new briefing paper, which forecasts that harvests will continue to be affected worldwide throughout 2016.

“Almost 1 million children are in need of treatment for severe acute malnutrition in eastern and southern Africa. Two years of erratic rain and drought have combined with one of the most powerful El Niño events in 50 years to wreak havoc on the lives of the most vulnerable children,” said Leila Gharagozloo-Pakkala, southern Africa regional director of the UN children’s agency, Unicef.

“Governments are responding with available resources, but this is an unprecedented situation. The situation is aggravated by rising food prices, forcing families to implement drastic coping mechanisms such as skipping meals and selling off assets.”

In a joint statement, the UN’s Food and Agriculture Organisation (FAO) and the Famine Early Warning Systems Network said: “El Niño will have a devastating effect on southern Africa’s harvests and food security in 2016. The current rainfall season has so far been the driest in the last 35 years.”

Britain’s Department for International Development (DfID) said in a briefing paper: “Even if it were to start raining today, the planting window for cereals has already closed in the southern part of the region [Africa] and is fast closing elsewhere. There has been a steep rise in market prices of imported staple goods. This is restricting access to food for the most vulnerable.”

According to the World Health Organisation, the heavy rains expected from El Niño in Peru, Ecuador, Paraguay and southern Brazil could increase the spread of the Zika virus. “The Aedes aegypti mosquito breeds in standing water. We could expect more mosquito vectors which can spread Zika virus because of expanding and favourable breeding sites [in El Niño-affected countries],” the organisation said.

El Niño conditions, which stem from a natural warming of Pacific Ocean waters, lead to droughts, floods and more frequent cyclones across the world every few years. This year’s event is said by meteorologists to be the worst in 35 years and is now peaking. Although it is expected to decline in strength over the next six months, its effects on farming, health and livelihoods in developing countries could last two years or more because of failed harvests and prolonged flooding.

“Insufficient rains since March 2015 have resulted in drought conditions. In Central America, El Niño conditions have led to a second consecutive year of drought – one of the region’s most severe in history,” said an Ocha spokesman.

“Mozambique and southern African countries face a disaster if the rains do not come within a few weeks,” said Abdoulaye Balde, WFP country director in Maputo. “South Africa is 6m tonnes short of food this year. But it is the usual provider of food reserves in the region. If they have to import 6m tonnes for themselves, there will be little left for other countries. The price of food will rise dramatically.”

Zimbabwe, which declared a national emergency this month, has seen harvests devastated and food prices soar, according to the WFP in Harare. It reports that food production has halved compared to last year and maize is 53% more expensive. It expects to need nearly $1.6bn in aid to help pay for grain and other food after the drought.

Malawi is experiencing its first maize deficit in a decade, pushing the price 73% higher than the December 2015 average. In Mozambique, prices were 50% higher than last year. The country depends on food imports from South Africa and Zimbabwe, and faces a disaster if rains do not arrive in the next few weeks, said Balde.

Fears are also growing that international donors have been preoccupied by Syriaand the Ebola crisis, and have not responded to food aid requests from affected countries.

“El Niño began wreaking havoc last year. The government has done its best to tackle the resultant drought on its own, by tapping into the national food reserves and allocating more than $300m [£210m] to buy wheat in the international market,” said Ethiopian foreign minister Tedros Ghebreyesus.

“But the number of people in need of food assistance has risen very quickly, making it difficult for Ethiopia to cope alone. For the 10.2 million people in need of aid, requirements stood at $1.4bn. The Ethiopian government has so far spent $300m and a similar sum has been pledged by donors. The gap is about $800m,” he said.

According to the Famine Early Warning Systems Network, set up by the US international development agency, USAID, in 1985, continued below-average rainfall and high temperatures are likely to persist in southern African well into 2016, with the food crisis lasting into 2017.

Brasil e Japão assinam acordo para aprimorar sistema de prevenção de desastres naturais (MCTI)

JC 5374, 15 de março de 2016

Objetivo é produzir alertas mais precisos e reduzir o tempo das respostas nas situações de risco. Projeto piloto será implementado nas cidades de Blumenau (SC), Nova Friburgo (RJ) e Petrópolis (RJ)

Brasil e Japão assinaram nesta segunda-feira (14) um acordo de cooperação na área de prevenção de desastres naturais para melhorar a precisão dos alertas e reduzir o tempo gasto nas respostas. O documento valida condutas e procedimentos definidos por técnicos dos dois países para a instalação de projetos piloto nas cidades de Blumenau (SC), Nova Friburgo (RJ) e Petrópolis (RJ) – todas sofreram com deslizamentos de terra nos últimos anos. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) participa da iniciativa, que faz parte do Projeto de Fortalecimento da Estratégia Nacional de Gestão Integrada de Riscos em Desastres Naturais (Gides).

“Isso vai ser um novo experimento em relação à coleta de informações e como se disponibiliza essas informações de forma rápida e integrada com vários órgãos do governo”, explicou o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI, Jailson de Andrade.

Segundo o pesquisador da área de geodinâmica do Cemaden Angelo Consoni, o aprimoramento do protocolo dos alertas é fundamental para que eles sejam emitidos com mais eficiência para a população. Quanto mais preciso e rápido, menor o risco de calamidades.

“A finalidade do piloto é, principalmente, a precisão dos alertas e o tempo gasto nessa atividade. Então, otimizando fluxos de elaboração de emissão de alertas, juntamente com os municípios e com os estados, nós podemos melhorar significativamente a qualidade dos alertas que disponibilizamos para a população em situações de risco”, afirmou.

O acordo de cooperação também foi assinado pelo Ministério das Cidades, Ministério da Integração Nacional, Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica, na sigla em inglês).

Parceria

A parceria entre Brasil e Japão é baseada na troca de experiências entre recursos humanos das duas nações. Desde 2014, duas turmas de brasileiros já receberam capacitação de especialistas japoneses. Além disso, os asiáticos também vêm ao País para o intercâmbio de informações sobre a prevenção de desastres naturais.

“O Japão é uma referência. E essa cooperação tem sido muito boa para nós no sentido de formação de pessoal”, destacou Consoni.

MCTI

Deslizamentos e enchentes: culpar as chuvas mais uma vez? (JC)

JC 5373, 14 de março de 2016

Artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo e consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

A cada novo período chuvoso voltam às manchetes as mortes e sinistros associados a deslizamentos de encostas e enchentes. Tragédias insistentemente anunciadas, mas anualmente recorrentes dado ao descompromisso com que a administração pública em seus três níveis tem lidado com a questão.

Todos estão fartos de saber que esses fenômenos decorrem diretamente das formas equivocadas com que se expandem nossas cidades, impermeabilizando seus territórios, canalizando e retificando seus rios, ocupando terrenos, como encostas de alta declividade e margens de córrego, que não poderiam nunca ser ocupados dada sua já altíssima suscetibilidade natural a riscos, mas também ocupando terrenos de média declividade, onde a ocupação urbana seria aceitável, com a utilização de técnicas construtivas e urbanísticas totalmente inadequadas, que acabam transformando mesmo essas áreas em um verdadeiro canteiro de situações de risco.

E com toda essa realidade, escancarada anualmente pelo meio técnico e repercutida pelos meios de comunicação, a pungente verdade é que nossas autoridades sequer tomaram a providência mínima e cristalina de parar de errar, ou seja, parar de cometer os erros que estão na exata origem causal dessas tragédias de cunho geológico, geotécnico e hidrológico. Por consequência, o que se vê é, ao invés da redução do número de áreas de risco, a sua contínua multiplicação.

Como resultado, uma perspectiva de futuro assustadora: as tragédias em áreas de risco tendem a crescer em frequência e letalidade, na exata proporção do crescimento de nossas cidades.

Dentro desse panorama é preciso que se compreenda que do ponto de vista técnico não há lacuna alguma nos conhecimentos básicos de geologia, geotecnia e hidrologia, necessários para a boa solução desses problemas. Os fenômenos de enchentes e deslizamentos nos mais variados contextos geológicos do País são já bastante estudados e conhecidos. Os instrumentos que permitirão um correto planejamento do uso e ocupação do solo urbano são dominados, como a essencial Carta Geotécnica, um mapa municipal que informa sobre os locais que não poderão nunca ser ocupados e as áreas que poderão ser ocupadas caso sejam utilizadas as técnicas adequadas para tanto. Por paradoxal que possa parecer, o Brasil é liderança internacional nesse campo tecnológico.

Vale registrar apenas que não possuímos no País uma cultura técnica arquitetônica e urbanística especialmente adequada à ocupação de terrenos com maior declividade. Isso se verifica tanto nas formas espontâneas utilizadas pela própria população de baixa renda na autoconstrução de suas moradias, como também em projetos privados ou públicos  de maior porte que contam com o suporte técnico de arquitetos e urbanistas e têm, apesar do erro básico e grave de concepção, sua implantação autorizada pelos órgãos municipais responsáveis para tanto.

Em ambos os casos, ou seja, no empirismo popular e nos projetos mais elaborados, prevalece infelizmente a cultura técnica da área plana. Isto é, através de cortes e aterros obtidos por operações de terraplenagem nas encostas obsessivamente se procura produzir platôs planos sobre os quais irá ser edificado o empreendimento. Um fatal erro técnico de concepção. Esse tem sido o cacoete técnico que está invariavelmente presente na maciça produção de áreas de risco nas cidades brasileiras que, de alguma forma, crescem sobre relevos mais acidentados.

Vale insistir, no entanto, a maior dificuldade para a boa solução desses problemas continua a residir na falta de vontade e no descompromisso das administrações públicas em finalmente decidir ordenar corretamente a expansão urbana de suas cidades. Nesse mister é fundamental perceber que as populações mais pobres somente deixarão de optar por áreas de risco para instalar suas moradias quando o poder público, através de ousados Programas Habitacionais, lhes oferecer alternativas dignas e seguras de moradia na mesma faixa de custos que ela hoje só encontra na ocupação das áreas de risco. Essa é a verdade nua e crua da questão. Ou essa equação básica é resolvida, ou a instalação de novas situações de risco sempre superarão, em muito, o esforço em desarmar as já instaladas.

Em resumo, é preciso que as autoridades públicas deixem de irresponsavelmente ver a questão das áreas de risco como um problema de Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, por mais heroicas que sejam essas corporações, e passem a entendê-la como um elemento próprio do campo das Políticas Habitacionais e de Planejamento Urbano. Somente sob essa ótica a administração pública passará ao comando ativo da situação, deixando de agir apenas a reboque das tragédias, situação em que lhes sobra apenas a descompostura esperta de, como sempre, culpar as chuvas pelos infortúnios.

Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”.
  • Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia 

* Esse artigo expressa apenas a opinião do autor.

Os desastres em uma perspectiva antropológica (ComCiência)

No. 176 – 10/03/2016

Renzo Taddei

Um traço peculiar do imaginário brasileiro, ou pelo menos daquele mais presente nos principais centros de produção midiática (Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília), é a ideia de que “no Brasil não tem desastre”. Uma piada muito difundida no passado, e ainda presente na memória das pessoas e na internet, diz que, frente à indagação do anjo Gabriel sobre a razão pela qual Deus teria poupado o Brasil dos desastres naturais, quando da criação do mundo, este teria respondido que desastroso seria o povo que ele colocaria aí. Racismo ou “complexo de vira-latas” (Rodrigues, 1993) à parte, a ideia de um Brasil sem desastres é tomada aí como senso comum, como elemento de obviedade na elaboração da anedota (Taddei, 2014a).

Ocorre, no entanto, que os desastres são parte da relação entre humanos e o meio ambiente no Brasil desde pelo menos os primeiros anos de colonização. De acordo com o historiador Raimundo Girão, Pero Coelho de Souza, o primeiro português a tentar estabelecer-se no Ceará, em 1603, foi obrigado a retirar-se, poucos anos depois, em função da estiagem. Os registros históricos dizem que, na empreitada, perdeu sua fortuna e filhos seus morreram de fome e sede (Girão, 1985, p. 69). Esse não era o primeiro desastre do continente: acredita-se que as secas foram fator fundamental para o colapso do império Maia (Webster, 2002), na região do sul do México, cinco séculos antes de espanhóis e portugueses cruzarem o Atlântico. E também não seria o último em solo brasileiro, como bem sabemos.

Frente a esse panorama, uma contribuição possível das ciências sociais ao estudos dos desastres é a tentativa de responder à pergunta: o que constitui um desastre, e como tal forma de pensamento está embutida na realidade social e política brasileira?

O que é um desastre

Uma definição de desastre bastante utilizada nas ciências sociais é aquela que sugere que o desastre é um acontecimento que desorganiza a ordem social, cultural, econômica e política de uma coletividade, a ponto de que esta não é capaz de reorganizar-se de forma espontânea e autônoma (Blakie et al apud Briones, 2010). Ainda que essa forma de entender o desastre seja instrutiva, não é incomum que ela seja entendida como sugerindo que o desastre sempre vem “de fora”, da natureza, e é exógeno ao meio sociocultural. Essa abordagem reproduz a ideia de que trata-se de uma questão de domínio humano sobre a natureza; quando as coisas saem do controle, evidenciam-se os limites de tal domínio, e a natureza mostra sua força.

Para entendermos por que esta conceituação é limitada (e limitante), tomemos o exemplo das secas, sem dúvida o desastre mais comum e recorrente em território brasileiro: o que exatamente vem de fora para desorganizar as coisas? Vejamos: a caatinga, ecossistema dominante no chamado “polígono das secas” do Nordeste, é formada sobretudo por vegetação xerófila, aquela capaz de sobreviver em situação de escassez extrema de água. Se indagarmos nossos colegas botânicos e biólogos qual o tempo necessário para que os organismos se adaptem a um ecossistema, através dos processos de geração de novas espécies e seleção natural – o mesmo que supostamente gerou a vegetação xerófila da caatinga –, eles nos responderão que trata-se de um processo longo, de milhares de anos. Ou seja, a existência de vegetação xerófila na caatinga evidencia que os períodos longos de estiagem ocorrem aí há milênios. Nessa perspectiva, um período longo sem chuvas não é novidade alguma na região.

E qual a forma mais universalmente disseminada de convivência dos seres vivos com ecossistemas áridos e semiáridos? O nomadismo, a migração sazonal, em todas as suas variações possíveis. Animais e populações indígenas moviam-se no território de modo a tentar adaptar-se à periódica escassez de chuvas. Uma novidade trazida pelos portugueses, no entanto, o conceito de propriedade privada, mostrou-se incompatível com tais práticas adaptativas. O estabelecimento das fazendas e dos núcleos permanentes de povoamento expôs a população a uma rigidez espacial inconciliável com os fluxos e variações climáticas da região. Adicionalmente, a fartura dos anos de chuvas regulares fez com que a densidade demográfica aumentasse para muito além dos níveis pré-coloniais. O resultado disso tudo: quatro séculos de epidemias recorrentes de fome e sofrimento no sertão nordestino (Taddei, 2014b).

No exemplo acima, qual foi, exatamente, o elemento desastroso? A estiagem não é uma anomalia climática na região semiárida; foi a forma de domínio e uso da terra trazida pelos europeus que mostrou-se uma verdadeira anomalia sociopolítica. O caso das secas evidencia que necessitamos de uma outra forma de entender os desastres, que não separe radicalmente os meios social e natural. De maneira geral e simplificada, podemos propor como alternativa a ideia de que quando as coletividades têm conhecimento das variações e calendários dos ecossistemas locais e se organizam tomando-os em consideração, acumulam certa quantidade de recursos como reserva que os proteja de imprevistos, e escolhem práticas produtivas, sociais e políticas comprovadamente compatíveis com o ecossistema local, são capazes de atravessar períodos extremos, ou de sobreviver a eventos críticos, sem que a situação se configure como um desastre. Um desastre é, então, fruto das formas como ecossistema e grupos sociais relacionam-se entre si. Por isso, um desastre jamais está “na” natureza, e sim na relação que se tem com ela (Oliver-Smith, 1999). Um exemplo disso é a constatação, fruto de uma pesquisa por mim coordenada durante o ano de 2005 – ano em que houve secas de grande porte e praticamente ao mesmo tempo no Nordeste, na Amazônia e no Rio Grande do Sul –, de que os efeitos da estiagem motivaram manifestações populares e a invasão de prédios públicos em diversas cidades cearenses, enquanto a falta de chuva em intensidade equivalente sequer foi notada por moradores de cidades das serras gaúchas (ver Taddei e Gamboggi, 2010).

Essa forma de entender desastre tem duas vantagens: a primeira é que o desastre deixa de ser um evento isolado no tempo e no espaço, e passa a ser entendido como um processo que se desdobra ao longo do tempo (Valencio, 2009), e que, em geral, afeta coletividades humanas e animais em uma dimensão espacial muito maior do que o local específico do evento crítico. A segunda é que podemos facilmente retirar a natureza da equação e substituí-la por ambientes e processos técnicos, e temos aí uma forma interessante de pensar os desastres ditos “tecnológicos”. A realidade é que não há desastre que não tenha, concomitantemente, componentes ecossistêmicos e componentes tecnológicos e, em razão disso, a diferenciação entre desastres naturais e tecnológicos é apenas o destaque, para fins operacionais ou jurídicos, do fator preponderante em cada caso.

Voltemos por um minuto à definição proposta acima, de modo a exemplificá-la melhor. Recorrentemente, o que chamamos de seca, no que tange à produção agrícola, ocorre em situações em que a terra é arrendada, de modo que as relações comerciais de curto prazo fazem com que o conhecimento sobre as variações de longo prazo do ecossistema local se percam de vista; a necessidade de se atingir níveis de lucratividade compatíveis com os praticados no mercado financeiro faz com que frequentemente os recursos sejam investidos de forma intensiva, o que aumenta os riscos envolvidos e coloca o produtor em situação de vulnerabilidade a variações climáticas; e a seleção das culturas, quase sempre, está ligada aos preços do mercado, e raramente às condições específicas do ecossistema onde se dará a produção (grande parte da qual é destruída para ceder espaço às áreas agricultáveis). Ou seja, o que estou dizendo aqui é que o modelo de produção agrícola vigente na atualidade está fundado em uma forma de relação entre o ecossistema e a atividade humana altamente vulnerável a variações naturais, o que produz um contexto propício ao desastre. Não é à toa que, em um ano “bom”, cerca de um quarto dos municípios do país declaram situação de emergência. Em um ano ruim, esse número sobe para mais de um terço. O desastre está praticamente embutido nas formas de organização econômica e política brasileiras (Taddei e Gamboggi, 2010).

Nem todas as declarações de situação de emergência se dão em função de secas. No entanto, a coisa não é diferente com as inundações, os deslizamentos de terra, ou as ressacas que destroem infra-estrutura pública e privada nas zonas costeiras. Os fluxos de água têm ciclos que se repetem, muitos dos quais, por razões distintas, desconhecemos. O curso de um rio nunca pode ser determinado com exatidão; um rio “pulsa”, isto é, tem seu ciclo natural de retração e expansão. Esse ciclo é, em geral, anual, mas há outros ciclos na natureza que afetam os cursos de água e que são mais longos. O fenômeno El Niño é um deles: tende a ocorrer duas vezes por década, em geral diminuindo as chuvas na região Nordeste e as aumentando na parte Sudeste e Sul do Brasil. Há ainda ciclos mais longos: existem evidências de que alguns ecossistemas podem alternar séries de duas ou três décadas com menos chuva com outras consideravelmente mais chuvosas (Marengo et al, 1998). Grande parte desses ciclos não são conhecidos. Desta forma, um empreendimento no entorno de um rio pode, sem que as pessoas envolvidas se dêem conta, estar na verdade dentro do curso histórico do rio.

Um rio, por sua vez, não se resume à calha onde a água corre em grande volume. Esta é apenas o resultado da relação entre a água da chuva e determinada configuração topológica e geológica. A água infiltrada no solo, escoando lentamente para baixo e ao longo de uma camada de solo impermeável, até finalmente avolumar-se na região mais baixa (formando o rio propriamente dito), já é o rio em atividade. Em uma cidade, a ideia de que um rio foi “canalizado” envolve um equívoco conceitual diretamente ligado às inundações urbanas. Não se pode canalizar um rio, mas apenas sua calha principal. Quando isso é feito e o solo é impermeabilizado com concreto e asfalto, separa-se duas partes do rio, a que escoa pela topografia do terreno, e que obviamente continuará escoando, e a que escoa na calha do rio. A calha do rio é uma solução geológica para o escoamento de água; a separação entre o escoamento nos terrenos inclinados e a calha – ou a limitação da conexão entre ambas – é a construção das condições para a ocorrência dos desastres. A ideia de que o poder público tem que “resolver a questão das inundações urbanas” é fruto daquela mesma visão de “controle sobre a natureza” que criticamos no início deste texto. Uma solução mais apropriada para essa questão é considerar que o rio tem direito a estar na cidade, de forma íntegra e com toda sua variabilidade espacial, e que a cidade deve ser construída tomando isso em conta. Caso contrário, as cidades serão, como são, aparatos produtores de inundações. Ou seja, a inundação não é resultado da chuva, mas de uma certa relação entre a forma como os humanos transformam o espaço e o ciclo natural das águas.

Em resumo, o que quero dizer aqui é que, no mundo contemporâneo, somos frequentemente levados a agir pautados por agendas que não apenas se mostram incompatíveis com ciclos naturais dos ecossistemas, mas também afetam nossa capacidade de perceber detalhes dos mesmos que são importantes para a redução dos riscos de desastres. Desta forma, muitas de nossas formas de organização econômica, social e política têm que encontrar maneiras de lidar com a pouca eficácia, ou mesmo com a inconveniência, de nossas formas estabelecidas de ocupação do mundo. Por isso, desenvolvemos coisas como seguros financeiros, um complexo sistema de defesa civil em todos os níveis políticos, tecnologias de monitoramento e previsão de características importantes do meio ambiente, legislação específica, agências reguladoras, e muito mais. Temos também práticas sociais pautadas em relações de clientelismo, nas quais o detentor de poder político ou recursos econômicos oferece a determinada coletividade proteção contra os efeitos das variações dos ecossistemas (e contra coisas não relacionadas ao meio ambiente) em troca de apoio político; e a chamada “indústria das secas” (Callado, 1960), estratégias econômicas e sociais que geram riqueza para as elites locais a partir dos mecanismos federais de mitigação dos impactos das secas (Albuquerque Jr, 1999).

Particularmente no que diz respeito à nossa incapacidade de perceber as variações e ciclos dos ecossistemas, nossa base científica de monitoramento dos ecossistemas e da atmosfera começou a operar efetivamente apenas na década de 1960, o que fornece uma base bastante limitada de dados históricos. Neste contexto, é digno de nota o fato de que, em geral, são as populações tradicionais – indígenas, caboclos, ribeirinhos, caiçaras – que habitam os ecossistemas por muitas gerações que possuem tais conhecimentos (Taddei, 2015). Ocorre, no entanto, que a forma de codificação e transmissão de conhecimento de tais populações, através de transmissão oral e sobre uma base narrativa que faz amplo uso do que chamamos de folclore e pensamento mítico, é não apenas incompreensível para as populações urbanas, mas ativamente desvalorizada como superstição e atraso, frente aos poderes do conhecimento científico. São muito poucas, ao redor do mundo, as iniciativas de transformação de conhecimento tradicional em material que possa engajar-se de forma significativa com as discussões técnicas e científicas a respeito de como entender o meio ambiente e os desastres a eles relacionados. Um dos exemplos mais interessantes sobre esse respeito são os estudos dos manuscritos pré-hispânicos (os códices) maias e aztecas no que tange à forma como tais populações entendiam e lidavam com terremotos (ver Acosta e Suarez, 1996).

Riscos e desastres tecnológicos

Como mencionei acima, posso trocar “natureza” por “tecnologia” e a frase continua fazendo sentido: no mundo contemporâneo, somos frequentemente levados a agir no mundo pautados por agendas que não apenas se mostram incompatíveis com certas características dos sistemas técnicos em que atuamos, mas igualmente afetam nossa capacidade de perceber detalhes importantes dos mesmos (Taddei, 2014c). Na década de 1980, o sociólogo alemão Ulrich Beck (1992) propôs a teoria da sociedade do risco, na qual argumentou que as sociedades modernas, através da inovação tecnológica, criam riscos inéditos e que não somos capazes de mensurar. O sociólogo americano Charles Perrow, por sua vez, criou o conceito de acidentes normais (1999), nos quais sistemas complexos podem assumir configurações indesejáveis sob o ponto de vista humano, mas que são apenas configurações “normais”, isto é, possíveis, do sistema. Ou seja, quando projetamos sistemas complexos, como computadores, por exemplo, não somos capazes de prever todas as suas configurações possíveis. No caso particular dos computadores, o “travamento” do sistema operacional, em geral, não representa qualquer dano ao aparato, em suas dimensões físicas ou lógicas. Por isso, reinicializamos a máquina e ela volta a funcionar perfeitamente. Uma possibilidade de entender o que houve é justamente a ideia de que a máquina pode ter assumido uma configuração que, apesar de ser uma das muitas possíveis para ela, é inconveniente para o usuário. O caso do computador pessoal pode ser inócuo; ocorre que, segundo Perrow, não há razão para imaginar que o mesmo não possa ocorrer com aviões em pleno vôo, com usinas nucleares, ou com barragens.

Essa constatação evidencia os imensos desafios que as coletividades têm no que diz respeito à governança dos riscos aos quais estão submetidas. O mercado em sociedades liberais mostrou, repetidamente, que não é um bom instrumento de gestão de riscos na perspectiva da coletividade – a crise mundial de 2008 foi apenas a última em uma sequência longa de crises associadas à incapacidade das corporações capitalistas em gerir riscos de modo benéfico, não apenas para seus interesses particulares, mas para a sociedade como um todo. Os governos dos países capitalistas em geral pautam-se por indicadores de mercado (como o PIB) para avaliar o sucesso e a eficácia de seus governantes e, por essa razão, tendem a ser ineficientes no que tange a usar seu poder regulatório coercitivo contra o próprio mercado. Desta forma, com exceção de setores historicamente marcados por desastres em larga escala, como a geração de energia nuclear e a prospecção de petróleo, em geral, o setor corporativo cria novas tecnologias e as coloca no mercado sem que os riscos a elas associados sejam conhecidos. Aliás, no que tange à questão nuclear, o Brasil tem a infelicidade de figurar no seleto grupo de países1 que foram palco de acidentes radioativos, devido ao evento do Césio 137 em Goiânia, no ano de 1987 (Da Silva, 2001; Vieira, 2013).

Os desastres em tempos de mudanças climáticas

Particularmente no Brasil, como demonstram os exemplos das secas no Nordeste, os deslizamentos da serra fluminense de 2011, ou o desastre de Mariana em 2015, o poder público age de forma notoriamente reativa, esperando a catástrofe e apenas posteriormente ajustando sua configuração institucional e suas formas de ação aos riscos envolvidos – e, ainda assim, com variados graus de eficácia. Neste contexto, a perspectiva de futuro trazida pelas mudanças climáticas é duplamente sombria: por um lado, as alterações ecossistêmicas previstas (bem como as não previstas) devem desestabilizar até mesmo os arranjos adaptativos mais efetivos entre ecossistemas e coletividades; por outro, como o exemplo das reuniões do clima da ONU (as chamadas “conferencias das partes” ou COPs) deixa evidente, os estados nacionais e seus aparatos institucionais se mostram ineficazes e despreparados para lidar com o desafio que se aproxima. A crise migratória europeia dos últimos anos é outro exemplo contundente: em quase todos os casos envolvidos (e particularmente nos casos dos conflitos do Sudão e da Síria), o componente climático é uma das variáveis mais importantes; os países europeus e a própria ONU, no entanto, evitam qualquer associação entre tais migrações e as secas dramáticas que assolaram tais países, uma vez que isso desorganizaria o arcabouço jurídico para lidar com questões migratórias desenvolvido pelos países ocidentais. Ou seja, não existe, até o momento, a figura jurídica do refugiado climático. E a principal razão para tanto é o fato evidente, já mencionado anteriormente neste texto, que limites territoriais fixos, como as fronteiras nacionais, são incompatíveis com a estratégia mais óbvia de sobrevivência a variações extremas do ambiente, justamente a migração. Desta forma, a crise migratória atual é apenas uma amostra do que está por vir, e não há razões para acreditar que os estados nacionais, que têm em suas configurações espaciais parte da causa da crise, sejam os atores que irão propor soluções sustentáveis ao problema. É mais provável que as soluções venham de fora do sistema e, desta forma, a pesquisa científica sobre ambiente e desastres deve estar aberta para o diálogo com outras formas de conhecimento e ação no mundo. Novamente, aqui as populações tradicionais talvez tenham um papel fundamental a desempenhar (Danowski e Viveiros de Castro, 2014); e não há campo mais apropriado, dentro do mundo acadêmico, para fazer tal interlocução do que as ciências sociais. Para isso, no entanto, a agenda de pesquisa em sociologia e antropologia dos desastres tem muito que avançar.

Renzo Taddei é professor de antropologia na Universidade Federal de São Paulo.

Referências bibliográficas

Acosta, V. G.; Suarez, G. Los sismos en la historia de México: el análisis social. Tlalpan, México: CIESAS, 1996.

Albuquerque Junior, D. M. de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.

Beck, U. Risk society. Towards a new modernityLondres: Sage Publications, 1992.

Briones, F. “¿Sequía natural o sequía hidrológica? Políticas públicas y respuestas sociales en el perímetro irrigado de Icó-Lima Campos, Ceará” In: Taddei, R.; Gamboggi, A. L. (orgs). Depois que a chuva não veio – respostas sociais às secas na Amazônia, no Nordeste e no Sul do Brasil. Fortaleza: Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos/Instituto Comitas para Estudos Antropológicos, 2010.

Callado, A. Os industriais da seca e os “Galileus” de Pernambuco. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.

Da Silva, T. C. “Bodily memory and the politics of remembrance: the aftermath of Goiânia radiological disaster”. High Plains Applied Anthropologist. v. 21, n. 1, p. 40–52, Spring 2001. 

Danowski, D.; Viveiros de Castro, E. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2014

Girão, R. Evolução histórica cearense. Fortaleza: BNB/Etene, 1985.

Marengo, J. Tomasella, J. Uvo, C. “Long-term stream ow and rainfall fluctuations in tropical South America: Amazonia, eastern Brazil and northwest Peru”. Journal of Geophysical Research, n. 103, p. 1775-1783, 1998.

Oliver-Smith, A. “What is a disaster? Anthropological perspectives on a persistent question”. In: Oliver-Smith, A; Hoffman, S. (orgs.), The angry Earth: disaster in anthropological perspective. New York: Routledge, 1999.

Perrow, C. Normal accidents: living with high-risk technologies. Princeton: Princeton University Press, 1999.

Rodrigues, N. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Taddei, R. “Sobre a invisibilidade dos desastres na antropologia brasileira”. WATERLAT-GOBACIT Network Working Papers, Thematic Area Series SATAD, TA8 – Water-related Disasters, vol. 1 no. 1, Newcastle upon Tyne and São Paulo, September 2014, pp. 30-42 2014a.

Taddei, R. “As secas como modos de enredamento”. ClimaCom Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte. Ano 01, No. 01 – “Redes”, 2014 2014b.

Taddei, R. “Alter geoengenharia”. Trabalho apresentado no colóquio internacional Os Mil Nomes de Gaia. Fundação Casa de Rui Barbosa, 16 de setembro de 2014, Rio de Janeiro. Disponível em https://goo.gl/5wUVHn; acessado em 8 de março de 2016 2014c.

Taddei, R. “O lugar do saber local (sobre ambiente e desastres)”. In: Siqueira, A.; Valencio, N.; Siena, M.; Malagoli, M. A. (Org.). Riscos de desastres relacionados à água: aplicabilidade de bases conceituais das ciências humanas e sociais para a análise de casos concretos. São Carlos: Rima Editora, 2015.

Taddei, R.; Gamboggi, A. L. (orgs). Depois que a chuva não veio – respostas sociais às secas na Amazônia, no Nordeste e no Sul do Brasil. Fortaleza: Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos/Instituto Comitas para Estudos Antropológicos, 2010.

Valencio, N. “Da morte da quimera à procura de Pégaso: a importância da interpretação sociológica na análise do fenômeno denominado desastre”. In: Valencio, N.; Siena, M.; Marchezini, V.; Gonçalves, J. C. (orgs), Sociologia dos desastres – construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: RiMa Editora, 2009.

Vieira, S. de A. “Césio-137, um drama recontado”. Estudos Avançados (USP. Impresso), v. 27, p. 217-236, 2013.

Webster, D. L. The fall of the ancient Maya: solving the mystery of the Maya collapse. London: Thames and Hudson, 2002.

1 Estes países são: Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, Costa Rica, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Ilhas Marshall, Índia, Japão, Panamá, Paquistão, Suíça, Rússia e Ucrânia.

Oxford’s Halley Professor on How the Climate Challenge Could Derail a Brilliant Human Destiny (Dot Earth/NYT)

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FEBRUARY 15, 2016 9:04 AM February 15, 2016 9:04 am

Updated, 11:51 p.m. | Sustained large investments in fundamental science paid off in a big way last week, as Dennis Overbye so beautifully reported in The Times’s package on confirmation of Einstein’s 1916 conclusion that massive moving objects cause ripples in spacetime — gravitational waves.

Raymond Pierrehumbert, a climate scientist and the Halley Professor of Physics at Oxford University.

Raymond Pierrehumbert, a climate scientist and the Halley Professor of Physics at Oxford University. Credit Eva Dalin, Stockholm University

This finding, and the patient investments and effort through which it was produced, came up in the context of humanity’s global warming challenge in an email exchange a few days ago with Raymond T. Pierrehumbert, a veteran climate scientist who was recently appointed the Halley Professor of Physics at Oxford University.*

The common context is the importance of sustained engagement on a big challenge — whether it is intellectual, as in revealing spacetime ripples, or potentially existential, as in pursuing ways to move beyond energy choices that are reshaping Earth for hundreds of generations to come.

I reached out to Pierrehumbert because he is one of many authors of “Consequences of twenty-first-century policy for multi-millennial climate and sea-level change,” an important new Nature Climate Change analysis reinforcing past work showing a very, very, very long impact (tens of millenniums) on the Earth system — climatic, coastal and otherwise — from the carbon dioxide buildup driven by the conversion, in our lifetimes, of vast amounts of fossil fuels into useful energy.

The core conclusion:

This long-term view shows that the next few decades offer a brief window of opportunity to minimize large-scale and potentially catastrophic climate change that will extend longer than the entire history of human civilization thus far. [Read the Boston College news release for even more.]**

summary from Columbia University’s Lamont-Doherty Earth Observatory captures the basic findings:

Humans have been burning fossil fuels for only about 150 years, yet that has started a cascade of profound changes that at their current pace will still be felt 10,000 years from now.

Here’s a snippet from a figure in the paper showing how arguments about the pace of coastal change between now and 2100 distract from a profoundly clear long-term reality — that there will be no new “normal” coastal for millenniums, even with aggressive action to curb emissions:

Photo

A detail from a figure in a new paper shows the projected possible rise in sea levels over the next 10,000 years from today under four levels of emissions of heat-trapping greenhouse gases. The highest blue line at right is 50 meters (164 feet) above today’s sea level. Even the lowest scenario eventually floods most of today’s coastal cities.<br /><br />The darker line to the left of today marks sea levels over the last 10,000 years — a geological epoch called the Holocene. The figures below show ice amounts on Greenland and Antarctica today and if humans burn most known fossil fuels. <a href="http://www.nature.com/nclimate/journal/vaop/ncurrent/fig_tab/nclimate2923_F2.html">The full figure and legend is here.</a>
A detail from a figure in a new paper shows the projected possible rise in sea levels over the next 10,000 years from today under four levels of emissions of heat-trapping greenhouse gases. The highest blue line at right is 50 meters (164 feet) above today’s sea level. Even the lowest scenario eventually floods most of today’s coastal cities.

The darker line to the left of today marks sea levels over the last 10,000 years — a geological epoch called the Holocene. The figures below show ice amounts on Greenland and Antarctica today and if humans burn most known fossil fuels. The full figure and legend is here.Credit Nature Climate Change

I’d asked Pierrrehumbert to reflect on the time-scale conundrum laid out in the Nature Climate Change paper in the context of another important and provocative proposal by Princeton’s Robert Socolow, published in the Bulletin of the Atomic Scientists in December, proposing a new field of inquiry — Destiny Studies — to examine the tough intersection of ethics, risk perception and science. His essay is titled, “Climate change and Destiny Studies: Creating our near and far futures.” Here’s the abstract:

Climate change makes stringent demands on thinking about our future. We need two-sided reasoning to contend equitably with the risks of climate change and the risks of “solutions.” We need to differentiate the future 500 years from now and 50 years from now. This essay explores three pressing climate change issues, using both the 500-year and the 50-year time frames: sea level rise, the nuclear power “solution,” and fossil carbon abundance.

Here’s Pierrehumbert’s “Your Dot” contribution, tying together these elements:

The day of the release of the spectacular LIGO gravitational wave discovery is a good time to be pondering human destiny, the great things we can achieve as a species if only we don’t do ourselves in, and the responsibility to provide a home for future generations to flourish in. It is beyond awesome that we little lumps of protoplasm squinting out at the Universe from our shaky platform in the outskirts of an insignificant galaxy can, after four decades of indefatigable effort, detect and characterize a black hole merger over a billion light years away.

This is just one of the most dramatic examples of what we are capable of, given the chance to be our best selves. In science, I’d rate the revolution in detecting and characterizing exoplanets way up there as well. There’s no limit to what we can accomplish as a species.

But we have to make it through the next two hundred years first, and this will be a crucial time for humanity. This is where Destiny Studies and our paper on the Anthropocene come together. The question of why we should care about the way we set the climate of the Anthropocene is far better answered in terms of our vision for the destiny of our species than it is in terms of the broken calculus of economics and discounting.

For all we know, we may be the only sentience in the Galaxy, maybe even in the Universe. We may be the only ones able to bear witness to the beauty of our Universe, and it may be our destiny to explore the miracle of sentience down through billions of years of the future, whatever we may have turned into by that time. Even if we are not alone, it is virtually certain that every sentient species will bring its own unique and irreplaceable perspectives to creativity and the understanding of the Universe around us.

Thinking big about our destiny, think of this: the ultimate habitability catastrophe for Earth is when the Sun leaves the main sequence and turns into a Red Giant. That happens in about 4 billion years. However, long before that — in only about 500 million years — the Sun gets bright enough to trigger a runaway greenhouse effect and turn us into Venus, sterilizing all life on Earth. We waste half the main sequence lifetime of the Sun.

However, if we last long enough, technology will make it easy to block enough sunlight to save the Earth from a runaway, buying us another 4 billion years of habitability. That’s the only kind of albedo-modification geoengineering I could countenance, and by the time that is needed, presumably we’ll have the wisdom to deploy it safely and the technology to make it robust.

But we have to make it through the next 200 years first.

If we do what humanity has always done in the past, we’re likely to burn all the fossil fuels, and then have a hard landing at a time of high population, with an unbearable climate posing existential risks, at just the time when we’re facing the crisis fossil fuels running out. That will hardly make for ideal conditions under which to decarbonize, and there is a severe risk civilization will collapse, leaving our descendants with few resources to deal with the unbearable environment we will have bequeathed them.

It’s been pointed out that fossil fuels came in just about when we had run out of whale oil, but the whales had been hunted to the brink of extinction when that happened. If we do the same with coal, it’s not going to make for a pretty transition. With regard to the Anthropocene, it’s true that given a thousand years or so — if technological civilization survives — it becomes likely that we would develop ways to remover CO2 from the atmosphere and accelerate the recovery to more livable conditions. But if things get bad enough in the next two hundred years, we may never have that chance.

The alternative future is one where we decide to make the transition to a carbon-free economy before we’re forced into it by the depletion of fossil fuels. We’re going to run out anyway, and will need to learn to do without fossil fuels, so why not get weaned early, before we’ve trashed the climate? If we do that, we might not just buy ourselves a world, but a whole Universe.

Shorthand summary: Can we do better than bacteria smeared on agar?

This passage from a 2011 post, “Confronting the Anthropocene,” conveys my sense of the core focus of “destiny studies”:

We’re essentially in a race between our potency, our awareness of the expressed and potential ramifications of our actions and our growing awareness of the deeply embedded perceptual and behavioral traits that shape how we do, or don’t, address certain kinds of risks [or time scales].

Another author of the Nature Climate Change paper, Daniel Schrag of Harvard, gave a highly relevant talk at the Garrison Institute a couple of years ago in which he raised, but did not answer, a question I hope you’ll all ponder:

Is there a moral argument for some threshold of environmental conditions that we must preserve for future generations?

This would be a cornerstone question in destiny studies. I moderated a conversation on this question and the rest of the lecture with Schrag and Elke U. Weber of Columbia University. I hope you can spare some time to watch.

There are plenty of efforts to build such a field, including Oxford’s Future of Humanity Institute, the Frederick S. Pardee Center for the Study of the Longer-Range Future at Boston University and the Arizona State University effort I described in this post: “Building Visions of Humanity’s Climate Future – in Fiction and on Campus.”

Here are other relevant past pieces:

2015 – “Avoiding a Climate Inferno

2013 – “Could Climate Campaigners’ Focus on Current Events be Counterproductive?

2011 – “Pedal to the Metal

2010 – “Which Comes First – Peak Everything or Peak Us?

2009 – “Puberty on the Scale of a Planet

Updated, 11:50 p.m. | David Roberts at Vox today put the Nature Climate Change paper in political context when he wrote: “The U.S. presidential election will matter for 10,000 years.” Read the rest here.

Footnotes |

** This excerpt from the paper was added at 1:36 p.m.

*Pierrehumbert has contributed valuable insights here in the past, writes on Slate on occasion and is a fine accordion player. He contributed sensitively wrought parts on a song on my first album.

Roraima registra 17 mil focos e cenário se parece com o de 1998 (Folha BV)

QUEIMADAS AVANÇAM

Situação do fogo caminha para uma situação muito semelhante ao grande incêndio de 1998, só que desta vez o Estado está melhor preparado

Por Luan Guilherme Correia

Em 27/01/2016 às 00:00

Estimativa da Defesa Civil é que o Estado receba R$ 50 milhões para o combate à estiagem e incêndios (Foto: Rodrigo Sales)

A situação crítica dos municípios de Roraima com a forte estiagem elevou para 17.567 o número de focos de calor registrados somente nos 26 primeiros dias do ano. Os dados são do Sistema de Informações Geográficas e Banco de Dados de todos os Focos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A situação é muito semelhante ao grande incêndio que atingiu o Estado no ano de 1998.

Os municípios mais afetados por queimadas são Caracaraí, com 4.029 focos; Rorainópolis, com 3.817; Caroebe, com 2.007; Mucajaí, com 1.772; e Iracema, com 1.173 registros. Os municípios de Bonfim, Cantá, São Luiz do Anauá, Pacaraima, Amajari, São João da Baliza, Normandia e Alto Alegre também registraram focos e decretaram situação de emergência por conta da estiagem.

No decreto, os municípios justificaram a emergência para ação imediata de socorro e assistência à população. A alegação é de que a malha viária do Estado é de 7.949 quilômetros, sendo muitas vezes o único meio de acesso às localidades que sofrem com a estiagem. Cada município solicitou do Governo do Estado veículos do tipo pick-up para transporte terrestre de material e pessoal, máquinas retroescavadeiras e escavadeiras para recuperação e escavação de bebedouros e cacimbas, além das pranchas para o transporte dos maquinários.

De acordo com a Defesa Civil Estadual, todos os municípios roraimenses enfrentam graves problemas com a escassez de água e os incêndios florestais. Para contornar a grave situação, o Corpo de Bombeiros mantém bases extras de combate a incêndios e queimadas.

As bases estão montadas em Alto Alegre, Amajari, na região de Samaúma (Mucajaí), no Repartimento (Iracema) e na Vila Felix Pinto (Cantá), além do reforço do efetivo na Capital e nas companhias de Caracaraí, Rorainópolis e Pacaraima. São Luiz do Anauá e Caroebe, na região de Campos Novos, Sul do Estado, onde há a maior incidência de incêndios, inclusive criminosos, devem receber bases nos próximos dias.

O secretário-executivo da Defesa Civil, coronel Claudimar Ferreira, destacou a necessidade de brigadistas para atuarem nas bases dos municípios. “Precisamos de reforço o quanto antes. Para isso, iremos contratar 150 brigadistas e vamos receber mais 100 homens do Exército. Além disso, pedimos mais efetivo da Secretaria Nacional da Defesa Civil para controlar a situação”, disse.

Conforme ele, apesar de os incêndios em áreas de pastagens estarem sendo controlados, a prática criminosa de produtores rurais e de anônimos têm dificultado o trabalho dos brigadistas. “Essa prática não conseguimos dar conta, porque enquanto os bombeiros trabalham, outras pessoas ateiam fogo”, lamentou.

A situação mais crítica, de acordo com Cleudiomar, está na região conhecida como “Arco de Fogo”, que abrange os municípios de Mucajaí, Cantá, Alto Alegre e Amajari. “Tivemos que deslocar para lá vários grupos de outras bases porque a situação saiu do controle. O caos foi total, mas com o reforço do efetivo essas áreas queimadas estão mais controladas”, explicou.

Para ele, Roraima está se encaminhando para um cenário caótico por conta da estiagem, pior do que o encontrado em 1998, quando o Estado ganhou destaque mundial pelos grandes incêndios. “Naquela época, quando demos as primeiras respostas, a situação já era incontrolável. Hoje, estamos muito mais tranquilos, porque estamos nos planejando a tempo de evitar grandes prejuízos”, afirmou.

Estimativa de recursos destinados ao combate à estiagem é de R$ 50 milhões

Somando os recursos necessários para combater a estiagem em Roraima, a estimativa é que o Estado receba R$ 50 milhões nos próximos meses. Conforme o coronel Cleudiomar Ferreira, o montante deverá ser enviado após a formalização de um documento que vai definir onde e em que será aplicado.

Os recursos devem ser empregados com a locação de veículos, máquinas, carretas, carros-pipa, além da contratação de brigadistas e reconstrução de pontes destruídas pela estiagem. “Após redimensionar toda essa estrutura, é provável que isso consiga atingir esse montante. Isso está sendo levantado entre a Defesa Civil e as Secretarias de Agricultura, Planejamento e Infraestrutura”, frisou o coronel. (L.G.C)

Medidas de adaptação às mudanças climáticas são anunciadas em Santos (Pesquisa Fapesp)

04 de dezembro de 2015

Samuel Antenor, de Santos | Agência FAPESP – Um estudo internacional sobre a elevação do nível do mar causada pelas mudanças climáticas na cidade de Santos, litoral sul do Estado de São Paulo, resultou em um conjunto de propostas de adaptação, apresentado na terça-feira (01/12) na Associação Comercial de Santos.

No encontro, pesquisadores e representantes da sociedade civil, da Marinha e do Exército  discutiram propostas de ações a serem executadas na cidade nos próximos anos, a fim de enfrentar a elevação do nível do mar e suas consequências na maior cidade portuária do Brasil, ante a perspectiva de aumento da temperatura global acima de 2°C até o final deste século.

As sugestões apresentadas pelo grupo fazem parte da segunda etapa do Projeto Uma estrutura integrada para analisar tomada de decisão local e capacidade adaptativa para mudança ambiental de grande escala: estudos de caso de comunidades no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos (Metropole, na sigla em inglês) que inclui pesquisas sobre a elevação da maré em outras duas cidades: Broward, nos Estados Unidos, e Selsey, na Inglaterra. Realizado por pesquisadores do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Geológico de São Paulo, o estudo, que contou com apoio de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos, foi feito em parceria com pesquisadores da University of South Florida, dos Estados Unidos, e do King’s College London, da Inglaterra é apoiado pela FAPESP, no âmbito de um acordo de cooperação com o Belmont Forum.

Santos foi escolhida não apenas por suas características geográficas e importância estratégica para o Brasil, mas por reunir os mais completos dados sobre elevação de marés no país, registrados desde 1945 por marégrafos e desde 1993 também por satélite (para saber mais sobre o projeto Metropole leia agencia.fapesp.br/21997/).

“Foi elaborada uma estimativa de tendências de nível médio do mar, com dados de marégrafo e de topografia dinâmica por altimetria de satélites, considerando a confiabilidade, estabilidade e consistência desses dados”, explicou Luci Hidalgo Nunes, pesquisadora da Unicamp e participante do projeto.

Os dados coletados pelos pesquisadores foram inseridos na plataforma COAST (Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), desenvolvida por uma empresa norte-americana, que ficou também responsável pelo armazenamento dos dados provenientes das três cidades integrantes do Projeto Metropole.

No caso de Santos, além dos dados espaciais georreferenciados e das variáveis relacionadas à elevação do nível do mar, foram consideradas variáveis socioeconômicas.

A partir disso, foram traçados dois níveis de impacto nas regiões sudeste e noroeste da cidade, englobando diferentes áreas do município, em um total de 13 km², onde vivem 117 mil pessoas, e cujas previsões de elevação do nível do mar ficam entre 18 cm e 23 cm em 2050, com projeções de 36 cm a 45 cm até 2100.

Medidas adaptativas

Considerando os cenários atuais, os dados indicam que o regime de chuvas e as ressacas na região de Santos tenderão a ser mais intensos e mais frequentes nas próximas décadas. Isso decorre do aumento de temperatura global e da consequente elevação do nível do mar, além da possibilidade de eventos extremos.

Em Santos, as sugestões para diminuir as vulnerabilidades costeiras, apresentadas após avaliação de diferentes formas de adaptação, incluem obras de infraestrutura.

Além da preservação e recuperação de manguezais, foram sugeridas a implantação de comportas para controle de marés em rios, a construção de canais de drenagem, o aumento da faixa de areia na Ponta da Praia e a construção de quebra-mar na orla leste do município.

Para a zona noroeste do município, as propostas de medidas adaptativas incluem a dragagem de canais, a criação de um sistema de comportas e estações de bombeamento e a recuperação de mangues. Na região da Ponta da Praia, no sudeste santista, a recomendação é que sejam adotadas medidas para engordamento/alimentação artificial da praia, a construção de um muro de proteção e de um sistema de bombeamento e de melhoria de comporta de canais.

Para mensurar os custos da adoção ou não dessas propostas, foram avaliados dois cenários, com e sem as medidas adaptativas. Para chegar a um custo aproximado das adaptações, foram projetados cenários de perdas baseados exclusivamente no valor dos imóveis nas duas regiões. Custos relacionados a outras variáveis, como saúde e mobilidade, não foram computados.

Com projeções de elevação das marés em 45 cm até 2100, os danos chegariam a R$ 236 milhões na zona noroeste e passariam de R$ 1 bilhão na região sudeste do município, caso não sejam adotadas as medidas adaptativas. Com a adoção das medidas, os custos dos danos seriam nulos na orla e cairiam para R$ 64 milhões na região noroeste.

Os cálculos foram feitos com base em projetos internacionais e na tomada de preços para a execução de projetos feita pela própria administração municipal.

“Buscamos fornecer aos tomadores de decisão a melhor informação possível para o planejamento urbano futuro, quais seriam as ações indicadas e seus benefícios”, explicou José Marengo, pesquisador titular do Cemaden e coordenador do projeto no Brasil.

Políticas públicas

Uma das propostas do projeto é utilizar o conhecimento resultante dessas pesquisas para subsidiar medidas de enfrentamento de problemas advindos das mudanças climáticas e ajudar na tomada de decisões e na formulação de políticas públicas. Nesse sentido, a prefeitura de Santos publicou, também no dia 1º de dezembro, um decreto criando uma comissão municipal de adaptação à mudança do clima.

Entre outros pontos, o texto do decreto sugere a criação de estrutura organizacional, envolvendo o poder público, o setor produtivo e representantes da sociedade civil, para a execução das possíveis medidas a serem adotadas com base nas pesquisas.

“Não se deve esperar por uma catástrofe para usar o conhecimento científico sobre as mudanças climáticas para formular políticas públicas, mas agir de forma preventiva”, afirmou Roberto Greco, do Instituto de Geociências da Unicamp e membro do projeto.

Durante o encontro, foram discutidas diferentes formas de financiamento das propostas, além de ações para conscientizar e sensibilizar a população para a urgência do tema. Uma das tônicas da discussão foi justamente a necessidade de encontrar meios de garantir a participação popular na questão.

Os participantes do encontro reforçaram o caráter público e participativo das ações, que precisariam envolver toda a sociedade, permitindo a atuação pública por meio da representação social, incluindo pessoas físicas, no Conselho proposto em decreto pela atual gestão municipal.

“Santos é precursora neste nível de informação no Brasil, e o projeto só pode ser realizado com a ajuda da prefeitura no fornecimento das informações e apoio técnico para utilização dos dados. Seria impossível fazer um projeto como esse sem esse apoio”, afirmou Nunes.

De acordo com os pesquisadores, considerando não apenas a avaliação do nível do mar mas também aspectos relacionados aos ventos e ao clima, é a primeira vez que se faz um estudo desse tipo no Brasil, com uma clara proposta de subsidiar políticas públicas e a tomada de decisão.

A próxima fase da pesquisa será a elaboração de comparativos entre aspectos relacionados nas três cidades pesquisadas, a fim de trocar informações que reforcem o caráter de urgência das medidas de adaptação. 

Inundações costeiras em Santos podem causar prejuízos bilionários

07 de outubro de 2015

Elton Alisson, de Santos | Agência FAPESP – A inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.

A estimativa é de um estudo internacional, realizado por pesquisadores do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.

Os resultados do estudo, que fazem parte do projeto “Uma estrutura integrada para analisar tomada de decisão local e capacidade adaptativa para mudança ambiental de grande escala: estudos de casos de comunidades no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos”, apoiado pela FAPESP, no âmbito de um acordo de cooperação com o Belmont Forum, foram apresentados na última quarta-feira (30/09) a representantes da sociedade civil de Santos.

Durante o encontro, os pesquisadores mostraram às lideranças locais projeções de elevação do nível do mar e de impactos econômicos até 2050 e 2100 nas regiões sudeste e noroeste de Santos – que já têm sido impactadas pelo aumento do nível do mar e atuação de eventos extremos – e discutiram possíveis medidas de adaptação para minimizar os riscos.

“Não é preciso esperar 20 ou 30 anos para sentir os efeitos da elevação do nível do mar. É possível implementar agora medidas de adaptação para minimizar os potenciais danos econômicos”, disse José Marengo, pesquisador titular do Cemaden e coordenador do projeto do lado do Brasil, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores constataram por meio de dados sobre mudanças no nível do mar em Santos – obtidos por marégrafos na região no período entre 1945 e 1990 e por altimetria de satélite entre 1993 e 2013 –, que ele aumentou, em média, 3 milímetros nos últimos anos na cidade.

Com base nessa constatação, eles estimaram que o nível do mar na cidade pode aumentar entre 18 e 30 centímetros até 2050 e entre 36 centímetros e 1 metro em 2100.

A combinação dessa elevação  com uma sobrelevação causada por uma ressaca forte (ondas elevadas e maré meteorológica) e numa fase de maré de sigízia (maré astronômica de maior amplitude, que ocorre durante as luas cheia e nova, quando o Sol e a Lua estão alinhados em relação à Terra e há maior atração gravitacional), pode resultar em um rápido aumento do nível do mar em Santos de 90 centímetros até 2050 e 95 cm até 2100.

Nessas condições, as regiões sudeste e noroeste de Santos seriam ainda mais inundadas pelo mar e haveria maior erosão da praia.

“A planície costeira de Santos apresenta declividades muito baixas [menores de 2%] e altimetrias inferiores a 3 metros. Além disso, o nível do lençol freático da cidade é muito raso, o que a torna muito suscetível a inundações provocadas pelo mar e alagamentos devido às chuvas intensas”, explicou Joseph Harari, professor do Instituto de Oceanografia (IO) da USP e participante do projeto.

Aumento de ressacas

Os impactos relacionados com a elevação do nível do mar, combinada com marés meteorológicas e astronômicas e eventos meteorológicos, já estão sendo sentidos em Santos há algumas décadas.

Um estudo realizado por Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico e participante do projeto, constatou que o número de ressacas registradas na cidade teve um salto a partir do final da década de 1990.

Em 2010, por exemplo, foram registrados na cidade 15 eventos de ressaca, contra um número máximo de 4 por ano entre 1960 e início dos anos de 1990.

A pior ressaca do mar na cidade foi registrada em 2005 e levou a prefeitura municipal a colocar um anteparo de pedra no final da Ponta da Praia – região que tem sofrido com erosão costeira acelerada (perda de faixa de praia) desde o começo da década de 1940, com a construção da avenida à beira-mar sobre a praia.

A ressaca do mar, segundo a pesquisadora, está associada com o desenvolvimento de ciclones extratropicais, formados no sul da América do Sul e que avançam pela região Sudeste do Brasil, gerando ondas de alta energia e sobrelevação do nível do mar (maré meteorológica positiva), além de frentes frias que podem trazer muita chuva nas regiões costeiras.

“A intensidade dos impactos gerados na orla pela conjugação dessas condições com a elevação atual do nível do mar está aumentando, mas ainda não sabemos se a magnitude dos eventos tem se modificado”, afirmou Gouveia.

A região noroeste da cidade, por exemplo – onde estão concentrados imóveis cujo valor venal é, em geral, inferior aos da Ponta da Praia e onde vivem cerca de 83 mil pessoas –, sofre periodicamente com inundações, provocadas por marés positivas e de sizígia, além de enchentes.

Já a região sudeste – onde estão situados os imóveis de padrão mais elevado na cidade e onde vivem cerca de 34 mil habitantes – é afetada por alagamentos, causados por chuvas fortes, mas principalmente pela erosão costeira, que vem se agravando muito na Ponta da Praia.

“Essas duas regiões têm padrões diferentes de uso e ocupação do solo, que geram vulnerabilidades e, portanto, danos e perdas também diferentes em relação às projeções de elevação do nível do mar”, explicou Souza.

Cálculo de perdas

Os pesquisadores estimaram os possíveis danos econômicos de inundações costeiras nas zonas sudeste e noroeste de Santos, causadas pela elevação do nível do mar nos diferentes cenários projetados para 2050 e 2100, combinadas com uma sobrelevação da maré em 1,6 metros em 2050 e 1,66 metro em 2100, provocada por um evento extremo com ocorrência de uma vez a cada 100 anos.

Para isso, eles usaram um software de geoprocessamento chamado COAST (sigla de Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), desenvolvido por uma empresa americana.

O software mensura os potenciais danos em ativos imobiliários provocados por inundação costeira a partir de dados da elevação do nível do mar, de marés astronômicas e meteorológicas e dados espaciais georreferenciados, cruzados com o valor venal do terreno (a soma do que foi gasto na construção do imóvel com o valor estimado do terreno), fornecidos pela prefeitura.

As projeções indicaram que a zona sudeste da cidade deverá ser a mais impactada nos três diferentes cenários de elevação do nível do mar projetados para 2050 e 2100.

Se não for adotada nenhuma medida de adaptação para uma elevação do nível do mar em um metro até 2100 – em um cenário mais extremo –, os danos econômicos podem ser de R$ 1,3 bilhão na região sudeste e de R$ 483,8 milhões na zona noroeste, estimam os pesquisadores.

“O COAST e outros modelos matemáticos ainda não são capazes de estimar a resiliência e a resistência dos ambientes, como por exemplo, como uma praia responde a uma elevação do nível do mar, ou como um manguezal consegue retardar o avanço do mar sobre áreas estuarinas”, afirmou Souza.

“De qualquer forma, é preciso estudar e adotar medidas de adaptação para minimizar os possíveis impactos socioeconômicos”, ponderou.

Algumas das medidas de adaptação que estão sendo adotadas no mundo para enfrentar as inundações e a erosão costeira causadas pelo aumento do nível do mar são barreiras naturais, como faixas de manguezais, implementadas em Palm Beach, na Flórida; engordamento de praia, como feito em Cuba e Miami; diques flutuantes, adotados em Veneza, na Itália; e readequações nos projetos de casas e prédios, para torná-los mais resilientes ao avanço do mar, como feito em Hamburgo, na Alemanha.

Em Santos, os participantes do workshop discutiram e indicaram algumas medidas de adaptação mais viáveis para a cidade.

As propostas serão incorporadas ao sistema COAST e avaliadas pelos pesquisadores nos próximos dois meses.

As propostas mais indicadas para serem implementadas, em termos de custo e prazo, serão apresentadas em um workshop previsto para ocorrer no dia 1º de dezembro.

“A adaptação é um processo caro. Mas é muito mais custoso se não for feito nada”, avaliou Marengo.

Leia mais sobre o projeto em agencia.fapesp.br/santos_pode_se_tornar_mais_suscetivel_a_inundacoes/21977/). 

Pesquisa internacional – Cientistas propõem saídas para evitar avanço do nível do mar em Santos (Assoc. Comercial de Santos)

Investimentos totais para impedir danos podem ultrapassar R$ 238,4 milhões

Encontro foi realizado nesta terça-feira (1) na Associação Comercial de Santos (ACS)


Após preverem que, até 2050, o nível do mar em Santos poderá subir 23 cm e causar prejuízos na área urbana da cidade, cientistas do Projeto Metropole – a mais detalhada pesquisa internacional sobre elevação do nível do mar – apresentaram nesta terça-feira (1) quais as saídas para evitar danos e prejuízos. Os investimentos podem ultrapassar R$ 238,4 milhões. Por outro lado, caso nada seja feito, os gastos podem passar de R$ 1,28 bilhão até 2100.

O grupo se reuniu na Associação Comercial de Santos (ACS), onde representantes da prefeitura anunciaram que, diante dos resultados, foi criado o Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima.

Conforme apontaram os estudos, na Zona Leste (do Embaré até a Ponta da Praia), com investimentos de R$ 36.514.212,00, seria possível realizar o engordamento das praias (alimentação artificial com areia), construir muros de proteção e um sistema de bombeamento (semelhante à dragagem), além de realizar a melhoria das comportas dos canais.

De acordo com a subcoordenadora do projeto e professora de geografia do Instituto de Geociências da Unicamp, Luci Hidalgo Nunes, a implantação dessas soluções evitaria um prejuízo de R$ 1.043.498.249,00. “O valor do investimento é baixo em relação aos benefícios”.

Já na Zona Noroeste, segundo ela, como não existem informações tão detalhadas quanto na Zona Leste, os resultados não são tão precisos. Mas, já foi possível mostrar que os danos, caso nada seja feito, podem causar o prejuízo de R$ 236.406.111,00 até o ano de 2100.

“As adaptações necessárias vão custar R$ 201.999.540,00 e incluem dragagem, colocação de um sistema de comportas e de estações de bombeamento, além da recuperação do mangue. Nesse caso, na área de mangue, que hoje é ocupada, precisaria ser feita a remoção da população, o que não é um processo simples. Mas, com certeza, o problema é muito mais complicado”.

Decreto

Diante da apresentação das soluções, foi publicado no Diário Oficial do Município o Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima.

De acordo com o engenheiro Eduardo Kimoto Hosokawa, da Coordenadoria de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Santos, isso demonstra uma iniciativa do governo municipal perante o tema. “Várias secretarias estarão envolvidas e, no prazo de um ano, será gerado o Plano”.

Início dos trabalhos

O primeiro encontro dos cientistas ocorreu em 30/09, também na ACS, quando foi divulgado, por exemplo, o que aconteceria em dias de tempestade no ano de 2050, caso nenhuma medida seja tomada até lá: ondas de até 1,80 m, somando-se a maré ao aumento do nível do mar.

Após divulgar todos esses dados, os cientistas, juntamente com integrantes da sociedade civil, fizeram uma nova reunião ontem (1) e apresentaram as soluções.

Os pesquisadores mostraram, ainda, como foi feito o mapeamento, com alto grau de precisão, em áreas na cidade que estarão mais sujeitas às mudanças climáticas até 2100. Além de Santos, outras duas cidades fazem parte do estudo: Broward (EUA) e Selsey (Inglaterra).

Sobre o Projeto Metropole

O Projeto Metropole busca alternativas para enfrentar a elevação da maré. No Brasil, o estudo é financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e surgiu a partir de uma chamada sobre vulnerabilidade costeira do Fórum Belmont, em 2012, cujo objetivo é articular esforços e direcionar a pesquisa ambiental para áreas que requerem avaliações mais aprofundadas. A iniciativa tem o apoio da Prefeitura de Santos.

Partindo de cenários de aumento do nível do mar no futuro, devido às mudanças climáticas, o estudo mostra os impactos por meio de ferramentas de visualização apresentadas a pessoas da comunidade, convidadas para opinar sobre quais medidas adaptativas deveriam ser tomadas diante das projeções, apresentadas para 50 e 100 anos.

Ou seja, o objetivo é responder a potenciais riscos ambientais, econômicos e de saúde locais, devido à larga mudança de escala.

Para cada cidade participante, são apresentados cenários utilizando ferramentas de visualização desenvolvidas pelas equipes técnicas do Brasil e dos Estados Unidos. Os dados incluem mudanças no nível do mar, temperatura, frequência de tempestades e ressacas e outras variáveis com projeções de alta resolução para cenários em 2050 e 2100.

 

 

 

Congresso pode votar projetos que fragilizam proteção ambiental a desastres como o de Mariana (ISA)

JC 5309, 25 de novembro de 2015

Proposta de “rito sumário” para licenciamento ambiental de empreendimentos “estratégicos” do governo pode ser votada nesta quarta (25/11). Novo Código de Mineração também pode ser votado nas próximas semanas sem garantir proteção ao meio ambiente e populações afetadas pela atividade minerária

Uma comissão do Senado pode votar, na tarde desta quarta (25/11), um projeto que fragiliza o principal instrumento para evitar desastres ambientais, o licenciamento ambiental. A Câmara também pode apreciar, nas próximas semanas, o novo Código de Mineração, que promete estimular como nunca a atividade no País, mas não traz salvaguardas que protejam efetivamente o meio ambiente e populações afetadas.

As duas votações podem acontecer poucos dias depois do rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco, que destruiu o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), afetou dezenas de outros municípios entre Minas Gerais e Espírito Santo, lançou uma onda de lama ao longo do Rio Doce, praticamente destruindo seus ecossistemas, e agora deverá causar impactos ambientais graves na costa capixaba, naquela que já é considerada a maior tragédia ambiental do País. Denúncias dão conta de que o licenciamento ambiental da barragem deveria ter sido mais rigoroso. A Samarco pertence à Vale e à mineradora anglo-australiana BHP Billiton.

Por enquanto, já foram registradas 12 mortes e 11 pessoas continuam desaparecidas. A onda de lama interrompeu o fornecimento de água de pelos menos 500 mil pessoas entre os dois estados. Ainda não se sabe toda a extensão dos danos, mas os custos de reparação devem passar do patamar de bilhões de reais. Não há previsão para a recuperação dos ecossistemas ao longo do rio.

A proposta que pode ser votada nesta quarta é o Projeto de Lei do Senado (PLS) 654/2015, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR). Ele cria um “rito sumário” para o licenciamento ambiental de empreendimentos que sejam considerados “estratégicos” pelo Poder Executivo federal ou estadual, por meio de decreto. A proposta estabelece uma licença ambiental única a ser concedida em torno de oito meses, sem previsão de audiências públicas. Poderiam ser classificados como “estratégicos” empreendimentos como extração de minério, estradas, ferrovias, aeroportos, hidrelétricas, portos e linhas de comunicação.

A tendência é que, se aprovado o projeto, teriam um licenciamento acelerado obras complexas com grandes impactos, justamente aquelas que especialistas e organizações da sociedade civil consideram que necessitam de processos de licenciamento mais cautelosos e eficazes.

“É um completo contrassenso que o Senado possa aprovar um projeto que pretende reduzir drasticamente a prevenção de danos socioambientais como os ocorridos após o rompimento da barragem da Samarco”, critica Maurício Guetta, advogado do ISA. “O caso de Mariana, a exemplo de outros tantos, deveria servir de lição para que o Congresso e o Poder Executivo aprimore o licenciamento ambiental, evitando a ocorrência de danos irreparáveis. Flexibilizá-lo será prejudicial a todos: meio ambiente, populações afetadas, governos e o próprio empresariado.”

O relator da matéria é o senador Blairo Maggi (PR-MT). O projeto está na Comissão Especial de Desenvolvimento Nacional em caráter terminativo, ou seja, se aprovado segue diretamente para a Câmara sem passar pelo plenário do Senado. Os parlamentares podem, porém, aprovar um recurso para levar a proposta ao plenário. Essa comissão recebeu as propostas da chamada “Agenda Brasil”, iniciativa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que supostamente visaria a enfrentar a crise econômica.

As assessorias do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-S), e de Maggi responderam que os parlamentares não poderiam conceder entrevistas até o fechamento desta reportagem.

Código de Mineração

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), manifestou, há alguns dias, a intenção de levar o Projeto de Lei 37/2011, o novo Código de Mineração, diretamente ao plenário, atalhando sua tramitação (saiba mais). O parecer sobre a proposta ainda não foi oficialmente apresentado e discutido pelos deputados na Comissão Especial que o analisava.

Sob a justificativa de simplificar e liberalizar a burocracia relacionada à mineração, o relator, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), apresentou um parecer preliminar que aprofunda retrocessos para o meio ambiente e os direitos de comunidades indígenas e tradicionais impactadas pela atividade. Segundo Quintão, esse relatório teria sido elaborado junto com técnicos do Ministério de Minas e Energia e teria apoio do Planalto (leia mais). A assessoria do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), informou que ele só vai se pronunciar sobre o projeto quando for apresentado um relatório final.

Quintão vem argumentando que sua proposta não reforça salvaguardas ambientais, sociais e trabalhistas porque já há legislações específicas que as garantiriam. Ele também afirma que o parecer assegura recursos para as comunidades afetadas por meio de verbas que serão destinadas aos municípios que abrigam empreendimentos de mineração. Sem explicitar e detalhar formas de compensação e proteção socioambientais, no entanto, o relatório não garante os direitos de populações específicas diretamente atingidas.

Depois do desastre de Mariana, ao invés de adiar a votação de seu parecer para reavaliá-la, Quintão vem empenhando esforços para acelerar a tramitação da matéria. O deputado limitou-se a prometer algumas mudanças em seu relatório. O site do parlamentar afirma que ele irá incluir na proposta um “seguro antidanos” obrigatório para “cobrir prejuízos ao meio ambiente, às pessoas, à infraestrutura urbana e à economia local em caso de catástrofes”. Também promete estabelecer a exigência de que as mineradoras apresentem planos para o tratamento de resíduos de barragem que permitam sua reutilização.

Para Maurício Guetta, essas medidas são insuficientes e deixam de contemplar ações preventivas para evitar tragédias como a de Mariana. “Faz mais de dois anos que cobramos do relator alterações substanciais no texto, para que sejam incluídas medidas de prevenção de danos decorrentes das atividades minerárias e para que sejam garantidos os direitos das populações afetadas e dos trabalhadores. Mesmo após o desastre de Mariana, ele continua a ignorar as demandas apresentadas”, denuncia Guetta.

(Instituto Socioambiental)

Video: Drought, Climate, Security, and Syria (Skeptical Science)

Posted on 13 November 2015 by greenman3610

This is a re-post from Yale Climate Connections

 

Drought, water, war, and climate change” is the title of this month’s Yale ClimateConnections video exploring expert assessments of the interconnections between and among those issues.

With historic 1988 BBC television footage featuring Princeton University scientist Syukuru (“Suki”) Manabe and recent news clips and interviews with MIT scientist Kerry Emanuel, Ohio State University scientist Lonnie Thompson, CNN reporter Christiane Amanpour, and New York Times columnist and book author Tom Friedman, the six-minute video plumbs the depths of growing climate change concerns among national security experts.

Friedman, in footage from the 2014 Showtime “Years of Living Dangerously” nine-episode documentary, points to a NOAA analysis that climate change has caused the Mediterranean region, in Friedman’s words, “to dry up . . . . leading to longer and more severe droughts.” Friedman in that piece pointed out that severe droughts struck Syria – “which is right at the epicenter” of the worst impacts — in the four years leading up to the Syrian revolution.

MIT scientist Kerry Emanuel points to increasing concerns among military experts over climate change. “These are not sandal-wearing, fruit juice-drinking hippies from the sixties,” he says. “These are serious folk” concerned about “significant geopolitical impacts around the world.”

CNN reporter Christiane Amanpour reports that climate change and dwindling water supplies “may have helped fuel Syria’s war.” She says drought in Syria from 2006 through 2010 “scorched 60 percent of Syria’s land, and it killed 80 percent of livestock in some regions, putting three-quarters of the farmers out of work, and ultimately displacing 1.5 million people.”

“While no one’s claiming a direct cause and effect” relationship, Amanpour says, “the drought did bring on the diaspora from dying farms and over-crowded cities, and thereby put enormous economic and social pressures on an already fractured society.”

The video ends with Lonnie Thompson pointing to Tibet’s numerous glaciers and the Indus River flowing through China, Pakistan, and India.  All, he says, are “nuclear-powered countries,” each of them dependent on the Indus for water supplies . . . “all geopolitical hot-spots in the future” with a big stake on the glaciers increasingly under stress in a warming climate.

Barragens de alto risco ameaçam 540 mil pessoas (O Globo)

por Mariana Sanches

Barragem da Imerys na cidade de Barcarena, no Pará: vazamento de cerca de 450 mil metros cúbicos de rejeitos de caulim já aconteceu em 2007 – Arquivo/“O Liberal”

SÃO PAULO – A análise de documentos do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão responsável pela fiscalização de barragens de mineração em todo o Brasil, revela que a tragédia que atingiu Mariana (MG) pode se repetir em pelo menos 16 outras barragens de quatro estados do país. O drama que matou 11 pessoas, desapareceu com outras 12 e atravessou Minas Gerais e Espírito Santo em direção ao mar ameaça mais meio milhão de pessoas. O Cadastro Nacional de Barragens de Mineração de abril de 2014 mostra que 16 reservatórios e uma cava de garimpo possuem categoria de risco alto — quando a estrutura não oferece condições ideais de segurança e pode colapsar — e alto dano potencial associado — quando pode afetar e matar populações, contaminar rios, destruir biomas e causar graves danos socioeconômicos.

De acordo com cálculos feitos pelo GLOBO, se essas barragens rompessem, os rejeitos potencialmente atingiriam 14 municípios, cuja população soma 540 mil habitantes. Incluindo-se na conta a cava de Serra Pelada, no Pará, são 780 mil pessoas em risco. As unidades possuem volume de 84 milhões de metros cúbicos para abrigar o material descartado no processo de mineração de ferro, estanho, manganês, caulim e ouro. O montante é 50% maior que a quantidade de lama que vazou da Samarco, que pertence à Vale e à australiana BHP.

Os rejeitos ameaçam três das maiores bacias hidrográficas brasileiras: a do Rio Paraguai, no coração do Pantanal sul-matogrossense; a do Rio Amazonas, que irriga a floresta amazônica; e a do Rio São Francisco, que banha o Nordeste.

EMPRESAS NÃO FORNECEM DOCUMENTOS

A estimativa foi feita a partir da localização das barragens, dos cursos d’água e da localização da jusante — o sentido da vazão dos rios. Foram considerados municípios em risco imediato aqueles que estão a menos de 50 quilômetros das barragens e no caminho da correnteza de igarapés, riachos e rios que banham a área.

Apenas para comparação, a lama que saiu de Mariana já percorreu cerca de dez vezes a distância de 50 quilômetros usada na estimativa e partiu do reservatório a uma velocidade de cerca de 70 km/h. Repetidas as condições da barragem de Fundão, vilarejos desses municípios seriam afetados em menos de uma hora.

Os dados usados são do DNPM e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nenhuma das empresas responsáveis pelas barragens de alto risco forneceu laudos técnicos sobre o que aconteceria com seus rejeitos se as estruturas colapsassem, o que permitiria traçar uma rota mais certeira do impacto nos municípios e até dos atingidos indiretamente, por falta d’água, por exemplo. Esses estudos compõem os Planos de Ações Emergenciais de Barragens de Mineração, que incluem também a lista de procedimentos para salvamento de pessoas e contenção de desastres em caso de emergência, cuja formulação é obrigatória por lei.

— Não há porque as empresas não tornarem esses documentos públicos, é uma informação importante para a população. O comportamento é estranho e preocupante. Sugere que o plano possa não existir ou que tenha sido feito de qualquer maneira — alertou o geólogo Álvaro dos Santos, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.

O plano de contingência da Samarco só foi apresentado mais de uma semana após o incidente e criticado pelo Ministério Público de Minas Gerais. O documento não previa alerta sonoro nem treinamento de pessoas que moravam na área de risco.

Entre as barragens listadas como potencialmente perigosas, há empresas reincidentes em acidentes. Uma delas, a Imerys Rio Capim Caulim S/A, é responsável pelo vazamento de cerca de 450 mil metros cúbicos de rejeitos de caulim — mistura de água e barro esbranquiçado — de uma das bacias, em 2007. Os rejeitos atingiram igarapés e rios do município de Barcarena (PA). Em 2014, o Ministério Público Federal investigou pelo menos outros dois vazamentos dos tanques da companhia. Agora, a empresa aparece como controladora de três barragens de classificação A: alto risco quanto à conservação e alto dano potencial. Ainda assim, sua produção não foi reduzida nem paralisada.

O Brasil está entre os dez maiores produtores mundiais de caulim, minério fundamental para a produção de papel. A Imerys afirmou, em nota, que não paralisou as atividades porque a lei não obriga, e negou que as estruturas estejam fora de controle. “Entre 2013 e 2015 foram investidos cerca de R$ 15 milhões na segurança de operações de barragem”, disse a nota, que ressaltou ainda que sistematicamente são tomadas “medidas como monitoramento do nível das bacias, acompanhamento do nível dos lençóis freáticos e estudos de estabilidade dos maciços das bacias”. A empresa reconheceu que “onde está a planta de beneficiamento da Imerys, existem pessoas” e disse ter plano de emergência voltada para elas, mas não apresentou documentos nem detalhes.

— É óbvio que as atividades deveriam ser suspensas nesses casos, mas a fiscalização não obriga. Aliás, não há nem prazo para que a empresa melhore suas estruturas, ela pode fazer quando quiser — diz a procuradora Zani Cajueiro, especialista no assunto.

Em Corumbá (MS), a Vale controla a Urucum Mineração, dona de dois reservatórios de classificação A, usados na extração de manganês. Esse tipo de atividade costuma produzir como rejeito quantidades de arsênio, substância altamente tóxica, de acordo com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Ministério da Tecnologia. A Vale negou que o rejeito seja perigoso e disse que manteve as operações a despeito do resultado negativo das condições das estruturas. Afirmou ainda que inspeções feitas em 2015 reenquadraram as bacias para baixo e médio risco, mas não apresentou documentos que comprovem isso.

Já a Gerdau AçoMinas, controladora da Barragem Bocaina em Ouro Preto (MG), disse que, em análise do fim de 2014, o reservatório foi considerado de baixo risco e que está fora de operação. Apresentou um documento do DNPM que mostra a mudança de classificação para nível C. No entanto, a página não tem data.

Dona de bacias de água barrenta encravadas no meio da floresta amazônica, a Taboca Mineração é a empresa com maior número de barragens na lista: são dez, usadas para mineração de estanho. A empresa admitiu que, em caso de rompimento, a maior delas poderia provocar uma onda de cinco metros de rejeitos, que atingiria áreas indígenas. Afirmou que nas bacias há água e areia de granito. As estruturas não estão em operação e passam por recuperação ambiental. A Taboca afirmou que adota criteriosos padrões de segurança, “inclusive com mais rigor que o exigido pela legislação”.

Especialistas, no entanto, questionam as condições das barragens, mesmo daquelas que não estão em situação de alto risco. Em Mariana, a barragem rompida era considerada de baixo risco.

— Quem produz os laudos são as próprias empresas ou consultorias contratadas por elas. A raposa cuida do galinheiro — disse Francisco Fernandes, pesquisador do Cetem.

O DNPM não respondeu à reportagem.

Menos de 3% das multas ambientais cobradas no Brasil são pagas (El País)

DESASTRE EM MARIANA »

Empresas poluidoras ou responsáveis por desastres protelam pagamento por meio judicial

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Brasília / São Paulo 21 NOV 2015 – 13:43 BRST

Localidade de Bento Rodrigues devastada após rompimento de barragem. / ROGÉRIO ALVES (FOTOS PÚBLICAS)

De cada 100 reais em multas aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) desde 2011 para quem infringiu regras ambientais, menos de três reais entraram nos caixas do Governo federal. Os dados constam de um relatório do órgão que é entregue ao Tribunal de Contas da União (TCU) anualmente. Entre janeiro 2011 e setembro de 2015, foram aplicados 16,5 bilhões de reais em punições, por exemplo, a empresas que emitiram gases poluidores acima do limite aceitável, petroleiras responsáveis por derramamento de óleo no mar ou madeireiras que desmataram áreas proibidas, entre outros. Desse valor, apenas 494,2 milhões acabaram sendo efetivamente pagos pelas empresas infratoras.

O assunto ganha fôlego depois do acidente de Mariana que matou aos menos 11 pessoas, número que pode subir para 23, uma vez que outras 12 estão desaparecidas. No cálculo do Ibama ainda não está relacionada a multa de 250 milhões de reais aplicada à mineradora Samarco, responsável pelo desastre na cidade mineira de Mariana e no rio Doce, que atinge os Estados de Minas Gerais e o Espírito Santo. O rompimento de uma barragem desta mineradora, que é controlada pela Vale, a maior mineradora do Brasil, e pela australiana BHP (a maior do mundo), resultou em um tsunami de lama que devastou ao menos três municípios mineiros e já alcançou o estado do Espírito Santo.

Entre os motivos para se ter uma arrecadação tão baixa, em comparação com os valores de multas aplicados, é o excesso de recursos judiciais a que tem direito as companhias. Quando uma empresa recebe um auto de infração ela tem ao menos duas instâncias administrativas para recorrer dentro do próprio Ibama. Além disso, pode buscar um aparo do Judiciário para evitar ou protelar o pagamento.

O baixo número de autoridades julgadoras das ações administrativas – hoje são sete servidores com essa função nas últimas instâncias, em Brasília, para analisar cerca de 14.000 casos anuais –, também colabora para a lentidão nos julgamentos. Conforme fontes do Ibama, na área administrativa, um processo leva até três anos para ser concluído. Ou seja, com mais recursos financeiros, as empresas colocam seus advogados para brecar as punições com mais velocidade que os fiscais podem empregar para cobrar respeito à legislação. Assim, o Governo fica atrás com um funil para lidar com as agressões ao meio ambiente, que podem desembocar em tragédias como a de Mariana. A lentidão levou a milhares de crimes prescritos entre 2012 e 2013, quando 8.580 processos perderam o prazo legal para condenar os autores das infrações, segundo o relatório de gestão entregue ao TCU.

O Ibama tem defendido mudanças nas regras ambientais para alterar o limite de 50 milhões de reais.

Há um esforço pela melhoria desse quadro há alguns anos. Em 2013, por exemplo, a média de tempo para a conclusão da análise de um auto de infração era de quatro anos e três meses. Em 2012, cinco anos e sete meses.

Os dados dos relatórios obtidos pelo EL PAÍS somados ao, em alguns casos, reduzido valor da multa em comparação com o tamanho do dano ambiental  – o teto das multas no Brasil é de 50 milhões de reais – implicam na precipitada sensação de impunidade. Ocorre que as multas não são o único instrumento para punir as empresas poluidoras ou responsáveis por desmatamentos. Para interferir no patrimônio das infratoras, o Ibama pode sugerir o embargo, a interdição ou a suspensão do registro de funcionamento. Sem poder funcionar, ela não consegue fazer o dinheiro circular e, algumas vezes, se vê forçada a pagar as multas e se adequar às regras ambientais. Isso tem ocorrido com frequência em relação às madeireiras que atuam principalmente na Amazônia.

Uma outra frente é inscrever as infratoras no Cadastro dos Inadimplentes do Governo Federal (Cadin). Uma vez com o nome sujo, as empresas não podem assinar contratos com a União nem obter uma série de benefícios como isenções fiscais ou créditos em bancos públicos.

Mas, quando se compara o valor da multa inicial da Samarco (250 milhões de reais, somando cinco infrações, que vão da poluição dos rios ao lançamento de resíduos danosos à biodiversidade) com a paga pela British Petroleum, por exemplo, de 20,7 bilhões de reais pelo vazamento de petróleo no Golfo do México em 2010, a impressão é que o Brasil precisa ser mais rigoroso no assunto.

O Ibama tem defendido mudanças nas regras ambientais para alterar o limite de 50 milhões de reais. Na última quarta-feira, em uma audiência na Câmara dos Deputados que discutiu o desastre de Mariana, o diretor de proteção ambiental do órgão, Luciano Evaristo, externou essa posição do instituto. “Quando se limita uma autuação a 50 milhões de reais, o empreendedor que tem um custo de 500 milhões de reais para segurança vai preferir deixar tudo cair, porque o valor da multa será menor. Temos que rever esse valor máximo”, afirmou.

Apesar do valor das multas aplicadas pelo Ibama parecer pequeno diante do dano causado pela tragédia, o presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB Minas, Mário Werneck, ressalta que não se pode confundir essa penalidade com a indenização total que a Samarco terá que pagar. “Só com a finalização da ação civil pública será possível mensurar o que terá que ser repassado pela empresa para a recuperação ambiental da região afetada e a reparação dos danos às vítimas”, explica Mário Werneck.

“O que acontece aqui é que temos apenas 4 fiscais, estamos em cima de uma bomba atômica em Minas Gerais”. – Presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB Minas, Mário Wernek

Nesta quarta-feira, a mineradora recebeu uma nova notificação de multa. Dessa vez ,ela foi notificada pela Subsecretaria Estadual de Fiscalização de Meio Ambiente de Minas, que penalizou a mineradora em 112, 69 milhões de reais pelos danos ambientais causados pelo rompimento da Barragem Fundão, no início do mês. A Samarco confirmou o recebimento da notificação e terá o prazo de até 20 dias do recebimento do auto de infração para pagar a multa ou apresentar a defesa.

A pressão sobre a mineradora deve crescer com uma ação conjunta que deve ser impetrada pelo Governo de Minas Gerais e Espírito Santo na Justiça, segundo informa o O Estado de S. Paulo deste sábado. O governador capixaba Paulo Hartung afirmou ao jornal que um processo do gênero foi adotado nos Estados Unidos pelos Estados atingidos pelo vazamento da BP em 2010. O desastre de Mariana ganhou a boca do povo no Brasil e a cobrança por uma punição tem sido crescente. Nesta sexta, o vocalista da banda Pearl Jam, Eddie Vedder, que se apresentava em Belo Horizonte, capital mineira, leu um texto em português para falar do desastre de Mariana. “Esperamos que eles sejam punidos, duramente punidos para que nunca esqueçam o triste desastre causado por eles”, disse ele, para delírio da plateia.

Multas anistiadas

Com um programa de concessões em infraestrutura lançado este ano, que prevê investimentos de até 200 bilhões de reais, o Governo brasileiro deve ser cada vez mais cobrado por uma legislação ambiental eficiente diante dos problemas que tendem a surgir nesses empreendimentos. Atualmente, além das multas ambientais não serem pagas pela maioria das empresas, algumas infrações são anistiadas por falta de recursos para bancar os custos dos processos judiciais. Em agosto, o governador mineiro, Fernando Pimentel (PT), sancionou uma lei que permite ao Sistema Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) anistiar multas ambientais de até 15.000 reais que foram emitidas até o fim de 2012. A medida também será aplicada para infrações de até 5.000 reais que foram notificadas em 2013 e 2014 e deve anistiar cerca de 120 mil multas.

“Um processo de cobrança judicial, hoje, para o Estado de Minas Gerais, custa em torno de 16 mil reais, segundo cálculos da Advocacia Geral do Estado. Qualquer cobrança de crédito abaixo desse valor significa que o Estado paga para receber”, explicou o secretário de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Sávio Souza Cruz por meio de nota enviada pelo Sisema.

Werneck é contra a medida já que, segundo ele, muitas empresas já deixam de pagar porque sabem que serão anistiadas. “Se eu aplico multas elas precisam ser cobradas, mas a verdade é que não há um corpo técnico para atuar. Se eles resgatassem essas multas poderiam inclusive aumentar o pessoal, a fiscalização. É um absurdo”, explica.

Para o presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB Minas, Mário Werneck, é preciso estudar um novo modelo de barragem e aplicar uma maior fiscalização da atividade já que, segundo ele, Minas Gerais possui 450 barragens de rejeitos e 45 delas estão com as licenças desatualizadas, à espera de revalidação. “Mas o que acontece aqui é que temos apenas quatro fiscais. Estamos em cima de uma bomba atômica em Minas Gerais”.

MAIS INFORMAÇÕES

Preventing famine with mobile phones (Science Daily)

Date: November 19, 2015

Source: Vienna University of Technology, TU Vienna

Summary: With a mobile data collection app and satellite data, scientists will be able to predict whether a certain region is vulnerable to food shortages and malnutrition, say experts. By scanning Earth’s surface with microwave beams, researchers can measure the water content in soil. Comparing these measurements with extensive data sets obtained over the last few decades, it is possible to calculate whether the soil is sufficiently moist or whether there is danger of droughts. The method has now been tested in the Central African Republic.


Does drought lead to famine? A mobile app helps to collect information. Credit: Image courtesy of Vienna University of Technology, TU Vienna

With a mobile data collection app and satellite data, scientists will be able to predict whether a certain region is vulnerable to food shortages and malnutrition. The method has now been tested in the Central African Republic.

There are different possible causes for famine and malnutrition — not all of which are easy to foresee. Drought and crop failure can often be predicted by monitoring the weather and measuring soil moisture. But other risk factors, such as socio-economic problems or violent conflicts, can endanger food security too. For organizations such as Doctors without Borders / Médecins Sans Frontières (MSF), it is crucial to obtain information about vulnerable regions as soon as possible, so that they have a chance to provide help before it is too late.

Scientists from TU Wien in Vienna, Austria and the International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) in Laxenburg, Austria have now developed a way to monitor food security using a smartphone app, which combines weather and soil moisture data from satellites with crowd-sourced data on the vulnerability of the population, e.g. malnutrition and other relevant socioeconomic data. Tests in the Central African Republic have yielded promising results, which have now been published in the journal PLOS ONE.

Step One: Satellite Data

“For years, we have been working on methods of measuring soil moisture using satellite data,” says Markus Enenkel (TU Wien). By scanning Earth’s surface with microwave beams, researchers can measure the water content in soil. Comparing these measurements with extensive data sets obtained over the last few decades, it is possible to calculate whether the soil is sufficiently moist or whether there is danger of droughts. “This method works well and it provides us with very important information, but information about soil moisture deficits is not enough to estimate the danger of malnutrition,” says IIASA researcher Linda See. “We also need information about other factors that can affect the local food supply.” For example, political unrest may prevent people from farming, even if weather conditions are fine. Such problems can of course not be monitored from satellites, so the researchers had to find a way of collecting data directly in the most vulnerable regions.

“Today, smartphones are available even in developing countries, and so we decided to develop an app, which we called SATIDA COLLECT, to help us collect the necessary data,” says IIASA-based app developer Mathias Karner. For a first test, the researchers chose the Central African Republic- one of the world’s most vulnerable countries, suffering from chronic poverty, violent conflicts, and weak disaster resilience. Local MSF staff was trained for a day and collected data, conducting hundreds of interviews.

“How often do people eat? What are the current rates of malnutrition? Have any family members left the region recently, has anybody died? — We use the answers to these questions to statistically determine whether the region is in danger,” says Candela Lanusse, nutrition advisor from Doctors without Borders. “Sometimes all that people have left to eat is unripe fruit or the seeds they had stored for next year. Sometimes they have to sell their cattle, which may increase the chance of nutritional problems. This kind of behavior may indicate future problems, months before a large-scale crisis breaks out.”

A Map of Malnutrition Danger

The digital questionnaire of SATIDA COLLECT can be adapted to local eating habits, as the answers and the GPS coordinates of every assessment are stored locally on the phone. When an internet connection is available, the collected data are uploaded to a server and can be analyzed along with satellite-derived information about drought risk. In the end a map could be created, highlighting areas where the danger of malnutrition is high. For Doctors without Borders, such maps are extremely valuable. They help to plan future activities and provide help as soon as it is needed.

“Testing this tool in the Central African Republic was not easy,” says Markus Enenkel. “The political situation there is complicated. However, even under these circumstances we could show that our technology works. We were able to gather valuable information.” SATIDA COLLECT has the potential to become a powerful early warning tool. It may not be able to prevent crises, but it will at least help NGOs to mitigate their impacts via early intervention.


Story Source:

The above post is reprinted from materials provided by Vienna University of Technology, TU ViennaNote: Materials may be edited for content and length.


Journal Reference:

  1. Markus Enenkel, Linda See, Mathias Karner, Mònica Álvarez, Edith Rogenhofer, Carme Baraldès-Vallverdú, Candela Lanusse, Núria Salse. Food Security Monitoring via Mobile Data Collection and Remote Sensing: Results from the Central African RepublicPLOS ONE, 2015; 10 (11): e0142030 DOI: 10.1371/journal.pone.0142030

Áreas de alto e muito alto risco (IPT)

Instituto de Pesquisas Tecnológicas assina contrato com Defesa Civil de SP para identificação de áreas de deslizamentos e inundações em 10 cidades

Um novo contrato assinado entre o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Coordenaria Estadual de Defesa Civil do Estado de São Paulo prevê o mapeamento das áreas de alto e muito alto risco a deslizamentos e inundações em 10 municípios. A relação contempla os municípios que apresentaram incidência e recorrência de eventos de ordem meteorológica, hidrológica e geológica, de acordo com dados estatísticos registrados no Sistema Integrado de Defesa Civil (SIDEC) e que ainda não possuem instrumentos de identificação de risco abrangidos no Plano Preventivo de Defesa Civil do estado.

O projeto de três meses será realizado pela Seção de Investigações, Riscos e Desastres Naturais do IPT por meio de visitas técnicas aos municípios e posterior organização das informações em mapas, imagens e documentação fotográfica em um Sistema de Informações Geográficas (SIG), a fim de subsidiar o gerenciamento das áreas e estabelecer parâmetros técnicos e sociais.

Os graus de risco considerados seguem o método desenvolvido em 2007 pelo Ministério das Cidades e IPT, o qual estabelece quatro condições potenciais de risco – “é importante ressaltar que o projeto tratará dos setores classificados como de risco alto (R3) e muito alto (R4) das 10 cidades”, afirma Marcelo Fischer Gramani, coordenador do projeto e pesquisador da Seção.

As cidades incluídas no projeto estão localizadas nas Regiões Administrativas de Presidente Prudente (Adamantina, Caiabu, Inúbia Paulista e Presidente Prudente), de Campinas (Caconde e Divinolândia), de Itapeva (Paranapanema e Tejupá), de Marília (Tupã) e de Barretos (Olímpia). Estes municípios foram indicados como prioritários por não terem informações atualizadas sobre riscos de deslizamento e/ou inundações.

As principais atividades desenvolvidas pelo IPT incluem a pesquisa bibliográfica dos levantamentos de áreas de riscos existentes, a consulta às equipes das Coordenadorias Municipais de Defesa Civil sobre o número de atendimentos efetuados nos locais que serão avaliados, a realização de vistorias de campo para levantamento de indicadores de risco e tipologias dos processos, e a elaboração de documentação fotográfica.

Os dados coletados serão analisados para fundamentar o relatório técnico, que irá conter informações como descrição da área avaliada, delimitação dos setores de risco identificados em imagem de sensores remotos, quantidade de imóveis em risco, quantidade de pessoas em risco, tipologia do processo (deslizamento, inundação, solapamento de margem) e sugestões de intervenções para minimizar ou eliminar os riscos identificados.

(IPT)

Força do El Niño deve agravar a seca que atinge o semiárido, diz Cemaden (Cemaden)

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) aponta para cenário de poucas chuvas no Nordeste entre fevereiro e maio de 2016. Seca atinge 910 municípios e um milhão de propriedades da agricultura familiar

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) aponta para um cenário de poucas chuvas na região Nordeste entre fevereiro e maio de 2016, o que deve agravar os impactos da seca que atinge a região.

Relatório da Situação Atual da Seca e Impactos no Semiárido do País também revela que choveu pouco nos últimos 90 dias, sobretudo, no Maranhão, sul da Bahia, e norte de Minas Gerais e Espírito Santo. Ainda que neste período sejam esperados índices pluviométricos mais baixos, nos últimos meses os acumulados foram abaixo da média. Segundo o Cemaden, a causa é o fenômeno El Niño, que está mais forte.

“A avaliação das condições climáticas de grande escala mostra que o fenômeno El Niño está presente, intenso e em franco desenvolvimento. Sob este condicionante, no trimestre novembro-dezembro de 2015 e janeiro de 2016, há chances mínimas de reverter o quadro crítico, apontado pelo indicador de risco agroclimático. Outra indicação decorrente deste cenário climático, altamente provável, é que já se pode inferir que a próxima estação chuvosa do norte do Nordeste (de fevereiro a maio de 2016) apresente condições de deficiência de precipitação”, diz o documento.

Cerca de um milhão de propriedades da agricultura familiar estão localizadas nas áreas afetadas pela seca, em 910 municípios. De acordo com o índice VSWI (sigla em inglês para Índice de Vegetação de Abastecimento de Água), indicador de seca agrícola, esses municípios apresentam pelo menos 50% de suas áreas agrícolas ou de pastagens em condições de déficit hídrico.

Monitoramento

De acordo com a Resolução Nº 13, de 22 de maio de 2014 do Ministério da Integração Nacional e, posteriormente, com o Decreto Presidencial Nº 8.472, de 22 de junho de 2015, o Cemaden/MCTI tem a responsabilidade de fornecer informações para as ações emergenciais adotadas pelo governo para mitigar os impactos da seca. Assim, além do monitoramento da seca, o Cemaden desenvolve um sistema de alerta de riscos de colapso de safras para a agricultura familiar do semiárido.

(Cemaden)