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NIH Decision Signals the Beginning of the End for Medical Research on Chimps (Wired)

By Brandon Keim

September 21, 2012

Henry, one of the chimps at Chimp Haven. Image: Steven Snodgrass/Flickr

With the retirement of 110 government-owned chimpanzees, the end of medical research on man’s closest living relative may be near.

Today, the National Institutes of Health announced that all of its chimps now living at the New Iberia Research Center would be permanently removed from the research population.

Long criticized by animal advocates for mistreating animals and illegally breeding chimps, New Iberia operates the largest research chimp colony in the United States and is a bastion of a practice abandoned in every other country.

“This is a major message from the NIH: that this era is coming to an end,” said John Pippin of the Physicians Committee for Responsible Medicine, an animal advocacy group. “This is huge.”

In December of last year, an expert panel convened by the Institute of Medicine, the nation’s medical science advisers, declared that medical research on chimpanzees was ethically problematic and, in most cases, scientifically unnecessary. The NIH announced a moratorium on new chimp research funding and agreed to review the status of its own animals. After years of fighting for an end to medical research on chimps, whose ability to think, feel and suffer is not far removed from our own, animal advocates greeted that news with cautious relief. The NIH’s intentions sounded good, but what they’d actually do remained to be seen.

With the decision to retire 110 chimps at New Iberia, the NIH leaves little doubt of its plans. “This is a significant step in winding down NIH’s investment in chimpanzee research based on the way science has evolved and our great sensitivity to the special nature of these remarkable animals, our closest relatives,” said NIH director Francis Collins to the Washington Post.

‘They do not have scientific or ethical justification to continue.’
Excluding the retired chimpanzees, the NIH still owns an estimated 475 chimps eligible for research. Another 500 or so are owned by pharmaceutical companies. The NIH’s decisions influence their fate as well, said Pippin.

“With this indication that the NIH is going to get out of chimp research, that’s going to drop the bottom out of the whole chimpanzee research enterprise,” Pippin said. “How are you going to justify your research in light of what the IOM and NIH have said? Even those not directly affected by this prohibition are going to give up. They do not have scientific or ethical justification to continue.”

Kathleen Conlee, animal research director with the Humane Society of the United States, was more measured in her response.

“They’re taking a step in the right direction by deeming these chimps ineligible for research,” she said. “But we’d rather see them go to sanctuary.” She noted that while 10 of the New Iberia retirees will be sent to the Chimp Haven sanctuary, the rest will go to the Texas Biomedical Institute’s Southwest National Primate Research Center.

Though the newly retired chimps won’t be used again in medical research, that type of research still occurs at Southwest. Indeed, it was an attempt to send retired chimps back into research at Southwestthat sparked the controversy that led to the IOM report and NIH review.

“Places like Southwest were built to be research labs. We’d urge the chimps to be sent somewhere where the mission is the well-being of chimps,” Conlee said. According to Conlee, housing animals at Chimp Haven costs the government $40 per day, compared to $60 per day at research laboratories.

Conlee said that some companies, including Abbott Labs and Idenix, have agreed to follow the IOM guidelines for chimp research or abandon it altogether. Others, including GlaxoSmithKline, have already given up.

Rather than relying on corporate goodwill, however, both Conlee and Pippin urged people to support the Great Ape Protection Act and Cost Savings Act. Now under Congressional consideration, the bill would end on medical research on chimps.

O esvaziamento da discussão ecológica atual que não questiona o modelo econômico e de desenvolvimento (EcoDebate)

Publicado em setembro 6, 2012 por 

“A pergunta passa a ser ‘o que eu devo fazer para ajudar?’ (…) enquanto a questão principal deveria ser ‘contra quem e contra o quê eu devo lutar?’”

 Vladimir Safatle faz parte de uma nova leva de intelectuais de esquerda que não se intimida diante da diversidade de questões trazidas pelo mundo contemporâneo. Nessa entrevista, o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a crise da democracia representativa pode ser a chave para compreender melhor fatos que à primeira vista não estão relacionados, desvelando mecanismos que ligam islandeses a pescadores brasileiros, ecologistas a jovens que voltam a reivindicar as ruas como espaço do fazer político. Um dos autores de ‘Occupy’ (Boitempo, 2012), Safatle defende que vivemos um momento em que a crítica da democracia, longe de balizar o totalitarismo, reacende a capacidade de reinvenção democrática na perspectiva da soberania popular. Com o lançamento de ‘A esquerda que não teme dizer seu nome’ (Três Estrelas, 2012), o filósofo propõe a urgência da saída do “cômodo e depressivo fatalismo”, que, desde a queda do muro de Berlim, alimenta a falsa impressão de que nenhuma ruptura radical está na pauta do campo político.

No seu livro, o senhor defende que falta à esquerda mostrar o que é inegociável. Abandonar o pragmatismo, superar os impasses da ‘governabilidade’, dentre outros elementos, seriam caminhos para isso. Em contrapartida, paira uma dúvida sobre os próprios partidos, sindicatos e estruturas semelhantes: será que serão capazes de se transformar? Os jovens que ocupam as ruas do mundo parecem não se identificar com esse tipo de organização da vida política. Por que isso acontece?

O que aconteceu com os partidos de esquerda?

Os partidos de esquerda passaram por duas fases. A primeira, muito marcada pela polaridade entre os partidos socialdemocratas e os partidos comunistas, sustentou o desenvolvimento dos Estados de bem-estar social na Europa nos anos 1950 e 1960. O segundo momento dos partidos de esquerda é resultado das ideias libertárias de maio de 1968, que vai gerar uma miríade de partidos libertários, sendo o mais importante deles o partido verde. Os partidos verdes vão conseguir impor uma pauta ecológica fundamental no debate político, mas este movimento também se esgotou. Talvez o último relance dele esteja acontecendo na Alemanha com o Partido Pirata. Só que falta uma terceira leva de partidos que sejam capazes de processar a situação fim de linha da crise de 2008, que ainda vai se perpetuar durante muito tempo.

Como esses partidos se caracterizariam?

Falta uma geração de partidos que tenha consciência de problemas vinculados à desigualdade econômica, coisa que esses partidos de segunda geração não têm. Diga-se de passagem, o Partido Verde alemão foi responsável pela lei que desregulamentou e flexibilizou o mercado de trabalho, votada na época do Gerhard Schröder [premier alemão de 1998 a 2005]. Falta uma geração de partidos com a coragem de radicalizar os processos de institucionalização da soberania popular. Partidos que não funcionem como partidos. Isso pode parecer uma coisa estranha, mas no fundo é muito importante. Partidos que não tenham essa estrutura centralizada, estrategicamente orientada, em que as discussões se submetem às estratégias político-partidárias eleitorais do dia. Por que os jovens não querem entrar em partidos hoje? Porque não querem ter a sua capacidade crítica instrumentalizada por cálculos eleitorais. Ninguém mais quer ficar fazendo uma aliança política com fulano para garantir a eleição de sicrano. Esse tipo de raciocínio de mercador, que conseguiu monopolizar a política em todos os seus níveis – inclusive no campo das esquerdas – é o que boa parte dos jovens de hoje se recusa veementemente a seguir, com todas as razões.

O que se coloca no lugar disso?

É fundamental encontrar um modelo de participação eleitoral em que esse tipo de posição não seja rifada. Ninguém aqui está fazendo a profissão de fé que vigorou nos anos 1990 de mudar o mundo sem tomar o poder. Isso não funcionou nem funcionará, o Egito é um exemplo. O grupo que realmente mobilizou o processo revolucionário chama-se Movimento 6 de abril. Eles decidiram não entrar no jogo eleitoral e estão cada vez mais isolados. Essa coisa da força que vem das ruas e vai pressionar o regime de fora tem limite. Então, não se trata de uma crítica abstrata do processo eleitoral, mas da constatação de que é necessário saber entrar nesse processo de uma maneira diferente da que vimos até hoje. Talvez a criação de alianças flexíveis para uma eleição que depois se dissolvem, como a Frente de Esquerda na França, coisas desse tipo. É difícil saber o que vai aparecer, mas uma coisa é certa: o que temos hoje não dá mais conta. Há uma fixação muito grande na democracia representativa. Desde os anos 1970 vivemos nas Ciências Políticas uma espécie de deleite em ficar discutindo como deve ser o jogo democrático, a estrutura dos partidos, dos poderes e blá, blá, blá. Esse tipo de perspectiva bloqueia radicalmente a ideia de que uma das questões centrais da democracia é fazer a crítica da democracia. Quando a democracia perde sua capacidade de reinvenção, ela morre. É o que está acontecendo agora.

O que contribuiu para a recomposição do espaço público das ruas e por que ele foi abandonado durante tanto tempo?

Para você ter crítica social e mobilização é necessário desencanto. Vários níveis de desencanto foram necessários para que as pessoas voltassem às ruas. Quando eu tinha vinte e poucos anos, o discurso era de que nunca mais veríamos grandes mobilizações populares. Poderia haver mobilizações pontuais sobre questões pontuais, mas nunca uma mobilização que colocasse em xeque o modelo de funcionamento e gestão da vida social no interior das sociedades capitalistas avançadas. Hoje vemos que quem fez essas previsões não só errou como tinha interesses ideológicos inconfessáveis. As pessoas que saíram às ruas em 2011 queriam discutir o modelo de funcionamento da estrutura econômica e social das nossas sociedades. No momento em que isso aconteceu, muitos, principalmente da imprensa, se deleitaram em dizer que eles não tinham propostas, o que é falso. Quem foi às ruas buscou o direito de colocar os problemas em questão. Muitas vezes, a pior maneira de se pensar em um problema é “solucioná-lo” muito rapidamente. Também houve quem não tenha ido às ruas e, diante da crise financeira, apareceu com soluções prontas. Essas ‘soluções’ só pioraram os problemas.

No que diz respeito à agenda ambiental, existem muitas ‘soluções’ que, na verdade, provocam um esvaziamento deliberado do potencial político das questões ecológicas. Vemos a individualização da responsabilidade pela poluição presente no discurso das sacolas plásticas, do tempo que as pessoas devem gastar tomando banho, etc. e também um esforço em afastar a população da discussão travestindo-a como eminentemente técnica. Como vê isso?

É uma tentativa de retirar a força política da questão ecológica transformando-a em uma questão moral. A discussão gira em torno dos atos dos indivíduos, que precisam ser modificados. Você precisa gastar menos tempo no banho, comprar produtos bio e coisas desse tipo. É uma maneira muita astuta de operar um deslocamento que é mortal para o problema ecológico, porque a pergunta passa a ser “o que eu devo fazer para ajudar?” – e, a princípio, parece legal todo mundo fazer alguma coisa para ajudar –, enquanto a questão principal deveria ser “contra quem e contra o quê eu devo lutar?”. Sem isso, a tendência é esvaziar completamente a dimensão da discussão ecológica, não se questiona o modelo econômico e de desenvolvimento. E o forte potencial político dessa discussão reside justamente nesse questionamento do modelo de desenvolvimento das sociedades capitalistas avançadas, colocando em xeque o modelo de organização e gestão das cidades, dos transportes, dos resíduos, da energia… Como resultado desse deslocamento da dimensão política para a moral, nada disso é colocado em questão, por mais que todo mundo defenda com a mão no coração “as florestas”, a questão que a ecologia trouxe está fora do debate.

A retórica do discurso técnico na qual as pessoas não conseguem ter acesso aos fatos sem a mediação de especialistas é um obstáculo para a reconstrução do campo político nas bases dessa democracia direta, estreitamente ligada aos reais interesses das populações, não?

Posso dar um exemplo sobre esse tipo de problema. A Islândia foi um dos primeiros países a entrar na crise financeira de 2008. Bancos islandeses venderam fundos de investimento na Holanda e na Inglaterra e quando esses bancos quebraram, os governos holandês e inglês exigiram que o governo da Islândia bancasse a dívida dos bancos. Diante disso, o parlamento islandês resolveu votar uma lei de ajuda aos bancos falidos e a lei passou. Mas o presidente da Islândia, que era um sujeito mais esclarecido, lembrou que a Constituição do país previa a convocação de um referendo popular em casos como aquele. Resumindo, ele lembrou que o princípio central da democracia é: quem paga a orquestra, escolhe a música. Quem pagaria aquela dívida não seria o parlamento, mas a população, que teria seus recursos e salários expropriados por uma série de impostos destinados ao pagamento da dívida dos bancos. A população islandesa decidiu que não queria isso. Depois do resultado do referendo, aconteceu a coisa mais fantástica, que é a essência da democracia parlamentar atual: o parlamento votou e aprovou mais uma vez a mesma lei de ajuda aos bancos. Então, novamente, o presidente acionou o mecanismo do referendo popular e, pela segunda vez, os islandeses disseram não. O que isso significa? Alguns podem questionar “como uma questão ‘técnica’ dessas vai parar em referendo popular?”, acusar o presidente de demagogia, etc., o que é absolutamente surreal. Não é possível que parlamentares que têm suas campanhas pagas por bancos definam o que vai acontecer com o dinheiro da população em relação ao pagamento ou não da dívida destes bancos. Não faltaram economistas prevendo que a Islândia iria quebrar. No entanto, de todos os países que entraram na crise, a Islândia é um dos que está em melhor situação atualmente. A tentativa de retirar a força política da decisão era simplesmente uma construção ideológica para legitimar os “técnicos”, que, no fundo, de técnicos não têm nada porque representantes do poder financeiro que conseguiu tomar conta de todas as instituições das democracias avançadas. Esse é o limite da democracia atual. O sistema financeiro é o grande inimigo da democracia.

Existe um tipo de agenda ambiental apoiada na entrada de bens comuns para o mercado que vem sendo denunciada como a solução encontrada pelo sistema financeiro para sair da crise ao mesmo tempo em que, também apoiada na retórica da crise, Angela Merkel lidera na zona do Euro políticas de austeridade que deslegitimam a vontade soberana dos povos, como no caso grego. Como ‘a esquerda que não teme dizer seu nome’ se coloca nesse processo?

Os problemas ligados à ecologia têm um forte potencial não só mobilizador como também transformador. No entanto, nós temos hoje duas ecologias. Uma tem um potencial transformador, mas a outra é conservadora. O capitalismo vê na ecologia um dos elementos de sua renovação. Hoje, qualquer liberal, qualquer analista de Wall Street vai admitir o discurso ecológico. Há alguns autores que falam que depois da bolha imobiliária, nós temos agora a bolha verde. Uma vez escrevi um pequeno texto sobre o filme Wall Street [2010], de Oliver Stone, que me impressionou pela agudez da metáfora. Um jovem analista do mercado aposta no potencial financeiro das energias renováveis. Ele era um visionário porque, de certa maneira, pregava uma reconciliação entre o setor mais rentista da economia e algumas exigências presentes na pauta ecológica. Isso só pode ser feito rifando completamente a dimensão em que a reflexão ecológica aparece como um elemento fundamental de afirmação da soberania popular. Existe uma tendência bizarra, mas muito concreta, de articulação entre um determinado setor de lutas ecológicas e o capital financeiro. Inclusive, do ponto de vista eleitoral, acontece muita coisa complicada. Os partidos verdes europeus preferem se aliar a partidos de centro do que aos partidos de esquerda. Por exemplo, na Alemanha, o Partido Verde prefere uma aliança com a CDU [partido democrata-cristão da primeira-ministra Angela Merkel] do que uma aliança com a Die LINK, que é um partido de esquerda mais dura. Na França foi a mesma coisa. Tudo isso me parece muito preocupante. É necessário livrar a agenda ecológica dessa tendência à justificativa de um liberalismo renovado para recolocá-la no lugar onde ela sempre esteve, ou seja, como elemento fundamental da reflexão da esquerda sobre o caráter deletério dos processos de desenvolvimento do capitalismo avançado.

Como o novo pensamento de esquerda pode articular uma mirada filosófica diferente para a questão do uso produtivista da natureza, característico do neodesenvolvimentismo aqui no Brasil?

Eu reconheço que esse produtivismo em relação à natureza também esteve muito presente em certos setores da esquerda que, durante muito tempo, entenderam a natureza como fonte de recursos e só. Basta lembrar que nos países comunistas a política ambiental foi catastrófica. Isso, inclusive, tem base teórica, vem de uma leitura do pensamento marxista em que a natureza era um discurso reificado, sem realidade ontológica em si. Em última instância, a natureza era o fruto do trabalho humano então a intervenção humana na natureza já estava justificada de antemão, sem maiores contradições. Mas acredito que do ponto de vista da esquerda hoje existe uma consciência tácita a respeito da centralidade da agenda ecológica. Não foram poucos os filósofos no século 20 que nos alertaram para o impacto negativo da redução da relação com a natureza a sua dimensão eminentemente técnica. Por mais que o desenvolvimento técnico pareça nos assegurar a dominação da natureza, o fato de compreender a relação humana com a natureza sob o signo da dominação já é um problema grave. Então, essa ideia de que, sim, vivemos em um país que tem necessidades de desenvolvimento maiores porque há urgências de inclusão social não invalida o fato de estarmos no interior de um processo de reflexão sobre o que significa riqueza social. Será que riqueza social significa ter um conjunto determinado de bens de consumo, ter transporte individual, ter uma relação extrativista da energia natural? Ou significa ser capaz de criar um modelo de relação com a natureza que garanta de maneira fundamental a qualidade de vida? Essa é uma bela questão que só o debate ecológico foi capaz de colocar.

Assim como em movimentos urbanos, a exemplo do Ocuppy, a pauta ecológica delineia um horizonte onde outro modelo de sociedade é possível, fazendo cada vez mais a crítica ao poder do sistema financeiro para bloqueá-lo?

A pauta ecológica atinge o modelo na sua esfera econômica mais clara ao afirmar que nós não queremos uma situação na qual todos os agentes econômicos estejam submetidos aos interesses de uma meia dúzia de multinacionais que detém não só a estrutura de produção, mas também o desenvolvimento da técnica. Quando se fala em agricultura familiar, o que isso quer dizer? Que, enquanto modelo econômico, não é possível estabelecer uma brutal concentração de terras, de tecnologia, de insumos. Insistir na agricultura familiar é, dentre outras coisas, insistir na pulverização radical da posse não só da terra, mas dos bens e das técnicas. Porque se isso não ocorrer, você tem não só consequências demográficas muito brutais, como o inchaço das periferias urbanas, mas também uma espécie de situação na qual a criatividade inerente à pulverização das técnicas é perdida. Milhares de produtores não vão produzir as mesmas coisas, nem sob as mesmas condições.

Por exemplo?

Por exemplo, quando essas questões ecológicas se vinculam ao problema da soberania alimentar. O fato de que você tem uma política agrícola que vai eliminando completamente a diversidade alimentar não é só uma questão de garantia das tradições – eu seria o último a fazer aqui a defesa abstrata da particularidade das tradições. Dentre outras coisas, é preciso reconhecer que a tradição tem uma dimensão de experiência que será muito importante para nós quando tivermos condições de compreender como os saberes alimentares se constituíram e o que eles garantem. Há uma tendência monopolista muito forte, nós vemos nas últimas décadas algo que está na base da tradição marxista, a ideia de que vai chegar um momento em que a própria noção de concorrência começa a desaparecer. Esse processo concentracionista toma a relação com a natureza de assalto, da maneira mais brutal possível. Todos esses movimentos camponeses, como a Via Campesina, insistem que há um risco não só econômico como social em se permitir a concentração das atividades agrícolas na mão de multinacionais. As sociedades pagarão caro se não conseguirem bloquear esse processo.

Pegando carona nesse exemplo da Via Campesina, cada vez mais surgem relatos de populações tradicionais emparedadas por esse modelo de desenvolvimento, mas, ainda sim, estes relatos bastante concretos e verificáveis são deslegitimados…

Tenta-se desqualificar essas resistências como uma espécie de arcaísmo. É como se dissessem “vocês precisam entender que têm uma visão absolutamente romântica do mundo”. É um discurso que condena “a crítica às luzes”, no final das contas. Diz muito a tentativa de retirar dessas lutas uma espécie de prova maior do conservadorismo de certas populações que no fundo são as populações mais vulneráveis, pois sabem que quando essas empresas chegam eles vão para o espaço simplesmente. Quando a Petrobrás chega para fazer a exploração de petróleo nas bacias, a vida dos pescadores é a última coisa na qual ela vai pensar. “Imagina você ficar preocupado com peixe quando o país quer se transformar em uma grande potência petrolífera?”. Ou seja, eles querem vender essa perspectiva, mas uma questão fundamental da esquerda é saber defender as alas mais vulneráveis da sociedade. Existe um modelo retórico que procura nos fazer acreditar que toda resistência seja, no fundo, uma recusa do progresso. Acho importante recolocar de maneira clara o que significa ‘progresso’ no interior desse contexto. O progresso procuraria dar conta de certas exigências fundamentais de bem-estar. O progresso científico não é simplesmente um processo de dominação da natureza, mas também um processo de otimização do bem-estar humano. Mas esse dito ‘progresso’ promete uma maior qualidade de vida para as populações e acaba produzindo o inverso. Para que essa inversão não ocorra, é necessária uma reconstituição brutal dos modelos de relação com a natureza. E, nesse processo, o interessante é que nasce outra consciência da organização social.

* Entrevista realizada por Maíra Mathias para a revista Poli n° 24, de julho e agosto de 2012

** Entrevista socializada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio(EPSJV/Fiocruz), publicada pelo EcoDebate, 06/09/2012

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Violência de torcidas organizadas ganha cada vez mais espaço na academia (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4577, de 05 de Setembro de 2012.

Clarissa Vasconcellos – Jornal da Ciência

Com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil em 2014, a violência das torcidas organizadas ganha foco e atrai o interesse de pesquisadores.

Nas últimas semanas, o noticiário voltou a se encher de notícias relacionadas a conflitos entre torcedores que vêm demonstrando pouco espírito esportivo dentro e fora dos estádios. A recente morte de um torcedor e as brigas entre as torcidas organizadas vêm sendo motivo de debates e sanções. Estudiosos que analisam o fenômeno há décadas, dentro e fora do País, trazem novos dados sobre o problema.

É o caso de Heloísa Reis, pesquisadora e professora da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, que investiga o tema há 17 anos. Uma de suas motivações foi uma experiência pessoal: ex-jogadora de futebol, ela sentiu na pele a hostilidade dos torcedores masculinos, algo muito comum na década de 80. “Minha indignação com aquela violência simbólica fez com que eu tivesse grande interesse em entender a atuação dos torcedores e o que leva eles a xingar os jogadores e brigar entre si”, conta Heloísa ao Jornal da Ciência.

Reconhecida internacionalmente – acaba de voltar de Londres, onde foi convidada para trabalhar com a polícia durante as Olimpíadas -, Heloísa conta que o assunto é um tema social muito relevante, já que, além de ter provocado um elevado número de mortos nos últimos anos, trata-se de uma situação que muitas vezes mobiliza a cidade, especialmente no grande raio que abrange os estádios. “Há uma tensão dos moradores, toda segurança pública fica envolvida e o transporte público é afetado”, enumera.

De acordo com dados divulgados, no dia 30 de agosto, pelo Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), de um ano para cá, mais de 370 torcedores foram presos no Rio de Janeiro – 83 apenas na semana passada. As causas foram promoção de tumulto, baderna e lesão corporal no caminho ou na volta dos estádios. Além disso, a Polícia Civil fluminense anunciou a criação do Núcleo de Apoio aos Grandes Eventos (Nage), para combater as ações criminosas promovidas por integrantes de torcidas organizadas de clubes de futebol.

Semelhanças e diferenças – Além de estudar a violência no futebol brasileiro, Heloísa já pesquisou o problema em outros países, como a Espanha e a Inglaterra. Em comum, ela afirma que os torcedores violentos de todos os países (incluindo os hooligans, considerados os mais violentos desse grupo de indivíduos) em geral são homens e jovens.

“A questão surge com mais evidência no Reino Unido na década de 80, mas já havia esse tipo de violência no Brasil e na Espanha. Dessa época para cá, podemos verificar também um aumento na idade dos homens, pois cada vez mais a ‘adolescência’ é estendida, para inclusive além dos 30 anos, por exemplo”, relata. Heloísa vê como traços comuns entre os hooligans estrangeiros e brasileiros o fato de serem homens jovens que se satisfazem brigando e correndo risco, utilizando o enfrentamento e o confronto (tanto com torcedores rivais quanto com a polícia) para terem prazer. “Também buscam uma autoafirmação masculina; não à toa guardam a vestimenta do time adversário como troféu de conquista”, completa.

Porém, os países guardam algumas diferenças significativas entre seus torcedores violentos. Uma das principais é que em diversas sociedades mais desenvolvidas o acesso a armas de fogo é difícil, o que diminui drasticamente o número de mortes. “Brasil e Argentina são os países com mais mortes no futebol na América do Sul pelo acesso a armas de fogo. A entrada delas, principalmente nos anos 80, fez com que aumentasse muito o numero de mortes aqui”, conta, lembrando que, em toda história do futebol francês, por exemplo, houve três mortes por violência de torcedores, enquanto no Brasil o número atual é de 69 falecimentos.

Ela também destaca uma diferença entre o “código de conduta” de torcedores europeus e latino-americanos. “Lá, a intenção não é levar o inimigo à morte e sim fazê-lo sofrer”, conta. Outro dado interessante apurado por Heloísa no Brasil, mais especificamente nas torcidas organizadas de São Paulo, é que 85% dos jovens de 15 a 24 anos pesquisados moram com a família, “o que contraria um discurso da mídia de que as famílias precisam voltar aos estádios”, afirma, já que lares estruturados não são garantia para se evitar esse tipo de conflito.

Álcool e violência – Heloísa explica que, como o futebol se tornou um “produto valiosíssimo na economia mundial”, “há um grande interesse de países mais desenvolvidos em ter uma política de prevenção para que se garanta o lazer seguro de qualidade”. Isso passa pelo controle de bebidas alcoólicas nos estádios, de acordo com a pesquisadora.

“Em todos os países onde se fez política de prevenção da violência relacionada a futebol, em algum momento o álcool foi proibido, já que todos esses países verificaram que a maioria das pessoas detidas estava sob efeito do álcool”, informa. Heloísa lamenta que tenha prevalecido, para a Copa de 2014, “o interesse econômico das cervejarias” na chamada Lei da Copa. “Acho temerário, estou muito preocupada”, alerta.

A pesquisadora também se inquieta com o fato de algumas autoridades pensarem que é um exagero se preocupar com torcedores violentos durante a Copa, diante da alegação que não estarão envolvidos torcedores de grandes clubes. Ela relembra os conflitos que aconteceram durante a Copa da Alemanha, em 2006, que geraram inclusive um documentário da rede inglesa BBC.

No dia 30 de agosto, o governo brasileiro divulgou o planejamento estratégico de segurança que será aplicado na Copa do Mundo de 2014, no qual considera os torcedores violentos, tanto nacionais como estrangeiros, como um dos fatores de risco. O plano, publicado no Diário Oficial (http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=30/08/2012&jornal=1&pagina=45&totalArquivos=120), foi elaborado pela Secretaria Extraordinária para a Segurança de Grandes Eventos e inclui todas as ações que serão implementadas para garantir a segurança da competição.

O texto detalha, por exemplo, os responsáveis pela segurança do evento, as medidas já pensadas, os objetivos perseguidos, os recursos investidos, os preparativos, a cooperação com outros países e a interação com as firmas privadas contratadas pela Fifa para a segurança. A instalação de circuitos internos de televisão e a identificação dos torcedores são vistas como algumas medidas de sucesso utilizadas nas competições europeias.

“Por aqui existe um grande risco, especialmente entre embates de Inglaterra e Argentina ou Brasil e Argentina”, pontua Heloísa. Ela acredita que, no caso de jogo entre esses países, o ideal seria deslocar a partida para o Norte ou Nordeste do Brasil, dificultando o acesso. Outra medida de prevenção, observada in loco por ela nas Olimpíadas de Londres, seria realizar um trabalho conjunto com todos os órgãos de segurança nacionais. “Todas as organizações que deveriam prestar algum socorro ou assistência estavam concentradas da mesma sala. Os comandos saíam do mesmo lugar; foi tudo muito orquestrado”, relembra.

“Virão hooligans para o Brasil com certeza. Podem vir menos devido à distância em que se encontra o Brasil, mas virão. Eles se aproveitam do dia do jogo, seja do seu time ou de seu país, para brigar. A competição deles é paralela ao jogo do campo”, conclui.

Deadly Witch Hunts Targeted by Grassroots Women’s Groups (Science Daily)

ScienceDaily (Sep. 4, 2012) — Witch hunts are common and sometimes deadly in the tea plantations of Jalpaiguri, India. But a surprising source — small groups of women who meet through a government loan program — has achieved some success in preventing the longstanding practice, a Michigan State University sociologist found.

Basanti, shown here with children in her family, survived a witch hunt in India’s tea plantations. (Credit: Photo by Soma Chaudhuri)

Soma Chaudhuri spent seven months studying witch hunts in her native India and discovered that the economic self-help groups have made it part of their agenda to defend their fellow plantation workers against the hunts.

“It’s a grassroots movement and it’s helping provide a voice to women who wouldn’t otherwise have one,” said Chaudhuri, assistant professor of sociology and criminal justice. “I can see the potential for this developing into a social movement, but it’s not going to happen in a day because an entire culture needs to be changed.”

Witch hunts, she explained, are fueled by the tribal workers’ belief in the existence of witches and the desperate need of this poor, illiterate population to make sense of rampant diseases in villages with no doctors or medical facilities. There are some 84 million tribal people in India, representing about 8 percent of the country’s population.

In 2003, at a tea plantation in Jalpaiguri, five women were tied up, tortured and killed after being falsely accused of witchcraft in the death of a male villager who had suffered from a stomach illness.

Chaudhuri interviewed the villagers at length and found that such attacks are often impulsive and that the “witch” is often killed immediately. Widespread alcoholism is also a factor, she found.

But the study also documents examples of the women’s groups stopping potential attacks. In one case, a woman was accused of causing disease in livestock and an attack was planned. Members of the self-help groups gathered in a vigil around the woman’s home and surrounded the accuser’s home as well, stating their case to the accuser’s wife. Eventually the wife intervened and her husband recanted and “begged for forgiveness.”

Through the loan program, each woman is issued a low-interest, collateral-free “microcredit” loan of about 750 rupees ($18) to start her own business such as basket weaving, tailoring or selling chicken eggs. Participants meet in groups of about eight to 10 to support one another.

Chaudhuri said the loan program is run by nongovernmental activists who have been successful in encouraging the groups to look beyond the economic aspects and mobilize against domestic abuse, alcoholism and the practice of witch hunts.

Through the bonds of trust and friendship, group members have established the necessary social capital to collectively resist the deep-seated tradition of witch hunts, Chaudhuri said.

“Why would they go against something so risky, something that breaks tradition?” she said. “They do it because they believe in the ideals of the microcredit group — in women’s development, family development and gender equality.”

The study, which Chaudhuri co-authored with Anuradha Chakravarty of the University of South Carolina, appears in Mobilization, an international research journal.

Journal Reference:

  1. Anuradha Chakravarty, Soma Chaudhuri. Strategic Framing Work(s): How Microcredit Loans Facilitate Anti-Witch-Hunt MovementsMobilization, 2012; 17 (2)

Violent Video Games Not So Bad When Players Cooperate (Science Daily)

ScienceDaily (Sep. 4, 2012) — New research suggests that violent video games may not make players more aggressive — if they play cooperatively with other people.

In two studies, researchers found that college students who teamed up to play violent video games later showed more cooperative behavior, and sometimes less signs of aggression, than students who played the games competitively.

The results suggest that it is too simplistic to say violent video games are always bad for players, said David Ewoldsen, co-author of the studies and professor of communication at Ohio State University.

“Clearly, research has established there are links between playing violent video games and aggression, but that’s an incomplete picture,” Ewoldsen said.

“Most of the studies finding links between violent games and aggression were done with people playing alone. The social aspect of today’s video games can change things quite a bit.”

The new research suggests playing a violent game with a teammate changes how people react to the violence.

“You’re still being very aggressive, you’re still killing people in the game — but when you cooperate, that overrides any of the negative effects of the extreme aggression,” said co-author John Velez, a graduate student in communication at Ohio State.

One study was recently published online in the journalCommunication Research, and will appear in a future print edition. The second related study was published recently in the journal Cyberpsychology, Behavior and Social Networking.

The CBSN study involved 119 college students who were placed into four groups to play the violent video game Halo II with a partner. The groups differed in whether they competed or cooperated in playing the game.

First, all participants filled out a survey about their video game history and a measure of their aggressiveness.

Those in direct competition played in multiplayer mode and were told that their task was to kill their opponent more times than they were killed.

Those in indirect competition played in single-player mode, but were told their task was to beat their opponent by getting further in the game.

In the cooperative condition, participants were told to get as far as they could through the game by working with their partner in Halo II’s cooperative campaign mode. In this case, the pair worked together to defeat computer-controlled enemies.

The final group simply filled out the measures and played the game at the end of the study. Their game playing was not recorded.

After playing the violent video game, the same pairs of participants who played with or against each other took part in a real-life game where they had the opportunity to cooperate or compete with each other.

In this game, they played multiple rounds where they were given dimes which they could keep or share with their partner. The researchers were looking to see if they engaged in “tit for tat” behavior, in which the players mirrored the behaviors of their partner. In other words, if your partner acts cooperatively towards you, you do the same for him. Tit for tat behavior is seen by researchers as a precursor to cooperation.

The results showed that participants who played the video game cooperatively were more likely than those who competed to show cooperative tendencies in this later real-life game.

“These findings suggest video game research needs to consider not only the content of the game but also how video game players are playing the game,” Velez said.

The second study, published in Communication Research, extended the findings by showing that cooperating in playing a violent video game can even unite people from rival groups — in this case, fans of Ohio State and those of their bitter rival, the University of Michigan.

This study involved 80 Ohio State students who, when they came to the lab for the experiment, were paired with a person who they thought was another student participant. In fact, it was one of the experimenters who was wearing an Ohio State t-shirt — or one from the rival University of Michigan.

One of the researchers made sure to point out the t-shirt to the student participant.

The student and confederate then played the highly realistic and violent first-person-shooter video game Unreal Tournament III together — either as teammates or as rivals.

After playing the video game, the participants played the same real-life game used in the previous study with their supposed partner, who was really one of the researchers.

They also completed tasks that measured how aggressive they felt, and their aggressive tendencies.

The results showed the power of cooperatively playing violent video games in reducing aggressive thoughts — and even overcoming group differences.

As in the first study, players who cooperated in playing the video game later showed more cooperation than did those who competed against each other.

It even worked when Ohio State participants thought they were playing with a rival from the University of Michigan.

“The cooperative play just wiped out any effect of who you were playing with,” Velez said. “Ohio State students happily cooperated with Michigan fans.”

Also, those participants who played cooperatively showed less aggressive tendencies afterwards than those who played competitively, at least at first. In fact, those who played competitively with a rival actually showed less aggression than those who played with a supporter of their own team.

“If you’re playing with a rival, and that rival is cooperating with you, that violates your expectations — you’re surprised by their cooperation and that makes you even more willing to cooperate,” Ewoldsen said.

Eventually, even those who competed with each other in the video games started cooperating with each other in the real-life games afterwards.

“The point is that the way you act in the real world very quickly overrides anything that is going on in the video games,” Ewoldsen said. “Video games aren’t controlling who we are.”

These results should encourage researchers to study not only how the content of violent video games affects players, but also how the style of play has an impact.

“What is more important: cooperating with another human being, or killing a digital creature?” Ewoldsen said.

“We think that cooperating with another human overrides the effects of playing a violent video game.”

Other authors of the CBSN paper were Cassie Eno of Waldorf College; Bradley Okdie of Ohio State’s Newark campus; Rosanna Guadagno of the University of Alabama; and James DeCoster of the University of Virginia.

Other authors of the Communication Research paper were Chad Mahood and Emily Moyer-Guse, both of Ohio State.

Journal References:

  1. J. A. Velez, C. Mahood, D. R. Ewoldsen, E. Moyer-Guse.Ingroup Versus Outgroup Conflict in the Context of Violent Video Game Play: The Effect of Cooperation on Increased Helping and Decreased Aggression.Communication Research, 2012; DOI:10.1177/0093650212456202
  2. David R. Ewoldsen, Cassie A. Eno, Bradley M. Okdie, John A. Velez, Rosanna E. Guadagno, Jamie DeCoster. Effect of Playing Violent Video Games Cooperatively or Competitively on Subsequent Cooperative Behavior.Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 2012; 15 (5): 277 DOI: 10.1089/cyber.2011.0308

Livros sobre a violência e as torcidas de futebol

Gol, guerra e gozo: o prazer pode golear a violênciaGol, Guerra E Gozo – o Prazer Pode Golear a Violência

Por Joaquim Z. B. Motta

Casa do Psicólogo, 2005

 

 

 

 

 

A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje

Por Maurício Murad

FGV Editora, 2007

Violência nos estádios de futebol: um olhar sobre quem faz a segurança (Universidade do Futebol)

Um estudo consistente sobre a relação entre os organismos de segurança e os eventos esportivos no Brasil

Felipe Leivas Alves* e Méri Rosane Santos da Silva

Resumo

Violência e futebol se confundem enquanto produções relevantes dentro de uma sociedade que vem ganhando noções de complexidade. Esta análise buscou uma abordagem da questão da violência nos estádios, partindo da ideia de se verificar a atuação dos órgãos de segurança pública em tais espetáculos e a relação estabelecida entre esses e os torcedores envolvidos em tal processo. Na busca por elementos contribuintes no debate, foram utilizados diários de campo e entrevistas com sujeitos responsáveis pela segurança nos estádios. Diante dos elementos emergentes da pesquisa, foi possível perceber a relação existente entre os órgãos públicos de segurança e os espetáculos de futebol, suas formas de lidar com o fenômeno da violência, bem como se dá a noção de violência com a qual trabalham esses organismos.

 

Introdução

Pensar o fenômeno do futebol atual é analisá-lo diante de diversas possibilidades. A partir das temáticas que emergiram com o decorrer do desenvolvimento desse esporte, a questão da violência nos estádios surge como elemento constituinte nesse processo. Como não encontramos nas referências pesquisadas nenhum estudo que discutisse a questão da violência no futebol na perspectiva dos organismos de segurança, essa temática se fez importante de ser analisada.

Sendo assim, propõe-se um estudo que possa contribuir no sentido de acrescentar informações, acredita-se, incomuns quando o assunto da violência em estádios de futebol é debatido. Para isso, se pretendeu analisar a temática, tomando como objeto de análise os organismos de segurança pública envolvidos no processo, invertendo a lógica presente na maioria dos estudos que tratam sobre esse tema, os quais apresentam as torcidas como foco de pesquisas que abordam a violência no futebol.

Para isso, se apresenta uma análise que tem como objetivo norteador verificar a relação dos órgãos de segurança pública com a temática da violência nos estádios de futebol, buscando elementos que indiquem como se dá a organização de tais organismos, a forma como atuam e a partir de que pressupostos trabalham no sentido de abordar essa questão.

Trabalhar com a ideia de analisar a violência nos estádio de futebol nem sempre apareceu como uma de minhas prioridades na abordagem que possuo com o esporte. Intencionado a desenvolver um trabalho mais voltado para questões técnicas do desporto, a temática do trabalho apareceu como uma oportunidade de desenvolver questões pertinentes ao campo de atuação ao qual pertenço, mas que nem sempre surgem como relevantes, mesmo que possuam relação com as atividades presentes no meu cotidiano.

Interessante foi perceber que, no decorrer da pesquisa, acaba-se deparando com o surgimento de diversos elementos, antes nunca imaginados, em uma partida de futebol. Quando apresentado ao campo de estudo, percebeu-se que elementos imaginados previamente, os quais havia suspeitas que fossem surgir, acabaram por não brotar ou tomaram outras proporções, da mesma forma que outros surgiram de forma surpreendente no decorrer da análise. Nesse sentido, foi importante a realização deste estudo no momento em que se pode confrontar ideias que pareciam estar em um completo estado de conformidade, mas no instante em que se procurou uma abordagem de suas aplicações, surgiram discussões relevantes com relação aos organismos de segurança nos jogos de futebol.

Para que se pudessem buscar elementos contribuintes no debate sobre a questão, alguns procedimentos metodológicos foram tomados. Como se tratou de uma análise qualitativa, que se interessou na busca por dados para posterior análise, foram utilizados dois instrumentos principais de coleta dos dados obtidos. Com o objetivo de levantar as informações relevantes presentes nos ambientes investigados, utilizou-se a ferramenta do Diário de Campo, onde foram feitos os registros de 11 partidas do Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão de 2009, que aconteceram no estádio Aldo Dapuzzo, pertencente ao Sport Club São Paulo e no estádio Arthur Lawson, de propriedade do Sport Club Rio Grande. Tais observações e registros preocuparam-se, em suma, em relatar a organização dos órgãos de segurança envolvidos nos jogos, sua atuação no espetáculo, bem como nos fatos que pudessem contribuir na análise da pesquisa.

Além da confecção do Diário de Campo, foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas com representantes dos organismos de segurança envolvidos nos jogos de futebol, sendo um entrevistado por parte da Brigada Militar e outro do Corpo de Bombeiros. A definição das pessoas para a realização das entrevistas foi realizada pelos próprios órgãos de segurança, tendo sido apenas solicitada a entrevista com os organismos e não com determinados sujeitos de tais instituições.

Ainda sobre o Diário de Campo, como atividade inédita para esse pesquisador, algumas dificuldades foram enfrentadas na realização de tal tarefa. Como o estádio de futebol é um ambiente rico, que proporciona uma gama grande de elementos que acontecem a todo instante, foi difícil estar presente nos quatro cantos ao mesmo tempo. Se fosse possível, convidaria um auxiliar, para que não se perdesse tudo o que acontece nos 90 minutos de cada jogo.

Cabe salientar que, no decorrer da análise dos dados obtidos, aqueles referentes ao Diário de Campo acabaram por não serem utilizados na discussão dos elementos alcançados. Isso ocorreu pelo fato de não haverem nos registros em campo, pontos que pudessem demonstrar relevância nas discussões apresentadas no texto.

Portanto, com o intuito de verificar essa relação existente entre organismos de segurança e espetáculos de futebol, foi necessária a verificação de diversas questões envolvidas nesse processo. Nesse sentido, é que se propõe um debate de três temáticas presentes no tema proposto: a primeira se refere ao futebol moderno e seu envolvimento com as questões da violência, bem como um panorama sobre o futebol brasileiro, aproximando as questões estudadas com o objeto de análise; a segunda dirá respeito aos órgãos de segurança envolvidos na realização de uma partida oficial de futebol, buscando desenvolver uma visão histórica e conceitual dessas instituições e, por fim, far-se-á a discussão dos dados coletados diante do que foi apreendido no decorrer da pesquisa.

Localizando o futebol profissional moderno

Falar sobre o fenômeno futebol nos tempos atuais é pensar em uma atividade com ares de complexidade. Deixar de associar esse desporto com outras questões presentes em nossa sociedade já não é algo distante de nosso cotidiano. Portanto, discutiremos o futebol profissional moderno visto sob o ângulo da atuação dos organismos de segurança nos espetáculos de futebol.

É sabido, que a origem do futebol moderno remonta à Inglaterra do século XIX. O processo de transformação do jogo em esporte culminou em uma série de mudanças na maneira de se praticar o agora desporto, como a criação de regras mais rígidas, a sistematização das funções dentro do campo de jogo etc. Mas, passando a discussão para o foco principal deste trabalho, apontamos a criação da Fifa (Federation Internationale de Football Association) como um marco importante nos rumos do futebol moderno.

Hoje, se sabe que a Fifa possui um papel centralizador nas mais variadas questões relativas à futebol profissional, estabelecendo padrões que são “adquiridos” em todos os lugares do globo em que se pratique futebol. Outra característica importante da instituição é a sua segmentação por todas as partes do globo por meio de federações nacionais, sendo que essas, por sua vez, apresentam atuação pautada sob as diretrizes da Fifa. Além disso, organiza eventos de grande visibilidade mundial, como a Copa do Mundo, que hoje é vista não só como um acontecimento reduzido somente à disputa esportiva, mas também como um tempo/espaço para oportunidades de negócio, como afirma Heloisa dos Reis Brunhs, em seu texto “Relação entre futebol moderno e Sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador”, em que diz:

Em torno não só do futebol, mas também da realização da Copa do Mundo de Futebol, criou-se um mundo do negócio milionário e que atrai os mais diferentes setores, como, por exemplo, o turismo, a indústria têxtil e de calçados, – particularmente de materiais esportivos, além da criação de novos profissionais, todos esportivos – os empresários, advogados, juízes, economistas, gestores e dirigentes (2005. p, 6).

Nesse sentido, buscando uma vinculação com o objeto de estudo deste artigo que trata das questões referentes à órgãos de segurança pública e espetáculos de futebol, vislumbro uma discussão em que se possa associar a unidade Fifa como mentora dos rumos de todo e qualquer campeonato de futebol profissional no mundo e mais precisamente aqui o Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão. Quem estabelece os dias dos jogos? Os horários? A organização do espetáculo? Se observarmos a relação macro e “micro” nos jogos pelo mundo, veremos semelhanças que parecem apresentar “padrões”. Jogos geralmente às quartas e quintas, ou aos sábados o domingos, nas tardes e noites, tudo isso “estabelecido” informalmente, mas que parece virar uma verdade para todos os “ramos” de futebol profissional no mundo.

Porém, pensar o futebol desvinculado da sociedade em que está inserido já não parece ser mais uma opção possível, e nesse sentido é que tais “designações” para os dias de jogos acabam por modificar o panorama de um lugar. Pela proporção dos espetáculos de futebol e por sua importância dentro do contexto social atual, as instituições de segurança pública passaram a ter papel importante nesse processo. E nesse contexto é que a centralidade das determinações da Fifa nem sempre vai de encontro às possibilidades dos locais em que se veja futebol profissional, pois não considera as peculiaridades de cada lugar e as possibilidades de cada ambiente. Com isso, pensar o futebol de hoje é vê-lo com um olhar de complexidade, pois além de tratar de questões técnicas de campo ele atinge também setores da vida social-cultural-econômica.

Outros pontos que pode contribuir nessa discussão é o papel da mídia na “venda” do futebol profissional como produto e espetáculo. Veículo cada vez mais dotado de legitimidade e confiança dentro de nossa sociedade possui força em promover qualquer fato que lhe pareça oportuno e rentável.

Aproximando nossa discussão sobre órgãos de segurança e futebol nos estádios, abordemos aqui como a mídia contribui na ideia de transformar um “simples jogos de bola” em algo monumental. A partir do momento em que ela percebeu o quanto pode ser favorável financeiramente esse fenômeno, os veículos de comunicação passaram a explorar diariamente tudo aquilo que “cheire” a futebol. A maioria dos canais de TV reserva nem que seja um comentário sobre futebol profissional, sem falar naqueles que o exploram 24 horas por dia.

Partindo dessa ideia é que percebemos o quanto a mídia tende a vender os jogos de futebol e criar uma necessidade no torcedor de que esse se sinta tentado a investir nesse produto. Ela promove e vende o espetáculo ao mesmo tempo, pois “convida” o torcedor a ir ao estádio, mas também oferece opções para aqueles que fiquem em casa.

Nesse sentido, é que, muitas vezes, na tentativa de engrandecer um jogo de futebol, as organizações midiáticas acabam promovendo algo que “teoricamente” não existe. Constantemente tratam o jogo com expressões de guerra, com ares de uma batalha e que assim o torcedor seria mais um guerreiro dentro do estádio a vencer esse “duelo”. Mas nem sempre esse discurso contribui em um estado de pacificação no ambiente de jogo, transformando um espetáculo em, aí sim, verdadeiros campos de batalha entre torcedores.
Ainda assim, a mídia possui papel “catalisador” na apreciação do espetáculo, promovendo e explorando-o, seja da maneira que for, mas vendendo a ideia ao torcedor da “importância” de ser um agente fundamental nesse processo.

Notas sobre o futebol profissional do Brasil

Falar sobre o futebol brasileiro sob o ponto de vista das diversidades culturais que um país continental como o nosso apresenta nem sempre parece uma das ideias mais fáceis de realizar, contudo, faz-se necessário abordar neste trabalho noções sobre o campo de pesquisa observado. Nesse caminho, será apresentado neste espaço um panorama daquilo que é vivenciado principalmente em termos de futebol profissional no Brasil, seus órgãos de comando, competições etc.

De maneira a iniciar a discussão, se faz necessário realizar uma abordagem de âmbito nacional a respeito do assunto referido anteriormente. Sobre esse aspecto, ressalta-se a presença da Confederação Brasileira de Futebol – CBF , como entidade encarregada pela grande maioria das ações referentes ao futebol profissional no Brasil. Entidade ligada e subordinada à Federação Internacional de Futebol e Associados – Fifa é ela quem, por exemplo, organiza os Campeonatos Brasileiros, desde a Série A até a D, como também a Copa do Brasil, essa constituída inclusive por sua versão feminina.

Mas, saindo um pouco da discussão sobre a CBF, passemos a direcionar a atenção em como funcionam essas competições de nível nacional, realizados no país. Conhecida por reunir os clubes de maior representatividade em cada época, a Série A do Campeonato Brasileiro conta com as grandes potências em termos de futebol no país. Atualmente, funciona com 20 clubes sob a forma de disputa de turno e returno, em que cada equipe joga 38 rodadas, 19 em seu estádio e mais 19 fora dele, alternadamente, e o campeão será aquele que somar o maior número de pontos no total. .O Campeonato Brasileiro da Série A apresenta em 2009 um calendário com início previsto em Maio e término em Dezembro. Algo similar pode também ser observado na disputa do Campeonato das Séries B e C também.

Entretanto, quando se observa os dias e horários dos jogos, nota-se uma alternância nos diferentes níveis. Enquanto, por exemplo, na Série A os jogos são realizados, usualmente, às quartas, quintas, sábados e domingos, os jogos da Série B apresentam dias de jogos nas terças, sábados e domingos. Com relação aos horários das partidas, tanto os da Série A, quanto os da Série B, apresentam horários que variam das 16h até jogos realizados às 20h50. Já os da Série C e D apresentam, em sua maioria, jogos entre 16h e 18h.

Já com relação à Copa do Brasil, como o próprio nome sugere, o torneio é disputado em forma de confrontos eliminatórios e não em turno e returno, sendo composto por 64 clubes, contando com a participação de equipes de todos os estados brasileiros. Os horários dos jogos se assemelham aos do Campeonato Brasileiro da Série A. Realizada no primeiro semestre de cada ano, é fortemente conhecida por também proporcionar ao campeão uma vaga para a disputa da Copa Libertadores, já que o Campeonato Brasileiro proporciona vagas para tal competição da mesma forma. Ainda cabe ressaltar a realização, desde 2007, da versão feminina do torneio, que, em 2009, contou com a participação de 32 clubes, sendo disputada no mesmo molde da masculina.

Saindo um pouco da apresentação sobre os campeonatos nacionais, vale comentar a existência de 26 federações estaduais de futebol, todas ligadas à CBF. Sobre essas, que são órgãos responsáveis, entre outras coisas, pelo suporte aos clubes de cada estado, se observa a tarefa principal de organização dos campeonatos estaduais. Esses, atualmente realizados no primeiro semestre de cada ano, normalmente com duração de Janeiro à Maio, salvo algumas exceções, representam uma das formas de disputa que dão a oportunidade de congregar o maior número de clubes profissionais em torno de uma competição regionalizada.

Trazendo a análise para o espaço e tempo de estudo deste trabalho, no estado do Rio Grande do Sul, verifica-se a presença da Federação Gaúcha de Futebol – FGF, como a entidade responsável em organizar tanto o Campeonato Gaúcho da Primeira Divisão quanto o da Segunda Divisão de Futebol Profissional.

Com relação ao Campeonato da Primeira Divisão, no ano de 2009, a competição contou com a presença de 16 clubes, dispostos em dois grupos. A disputa, realizada em dois turnos, promovendo a realização de jogos entre todas as equipes, obteve nessa edição como campeã a equipe do Sport Club Internacional, vencedora de ambos os turnos. No que diz respeito aos dias de jogos em que foram realizadas as partidas, os dias reservados foram quarta, quinta, sábado e domingo, com horários que variavam entre 16h e 22h. Resumidamente, tal campeonato representa uma disputa entre os clubes que, em anos anteriores, apresentaram os melhores desempenhos técnicos no campo de jogo, já que aqueles que não o obtiveram, se encontram disputando o Campeonato Gaúcho da Série B.

Sobre a disputa da Série B do Gaúcho, a mais relevante para este estudo, já que contempla alguns dos objetos de pesquisa deste trabalho, encontramos algumas diferenças se o compararmos ao da Primeira Divisão. No ano de 2009, a participação dos 23 clubes contrasta, por exemplo, com os 26 participantes do ano de 2008, algo não observado na Primeira Divisão, que conta sempre com o mesmo número de clubes. Tal situação se deve basicamente à falta de interesse ou de recursos econômicos de muitos clubes do estado, já que atualmente não existe uma Terceira Divisão, portanto, impossibilitando o acesso por promoção de divisão.
Em 2009, os tais 23 clubes, dentre eles o Sport Club Rio Grande e o Sport Club São Paulo, ambos objetos deste estudo, foram inicialmente distribuídos em três grupos, e por meio de qualificação e posteriores formações de outros grupos dentro da competição, renderam, ao final do campeonato, o acesso à Primeira Divisão do Campeonato Gaúcho para os clubes classificados em primeiro e segundo lugares.

No decorrer da competição, os jogos foram usualmente realizados as quartas, quintas, sábados e domingos, com horários dispostos entre e 20h30. Porém, por muitas vezes se observou mudanças imprevistas nos horários dos jogos. Muitas destas alterações visavam, entre outras razões, a diferenciação do horário de seus jogos em comparação com aqueles televisionados no mesmo momento, ocorrendo, por exemplo, jogos como o do Sport Club São Paulo e Grêmio Atlético Farroupilha, que foi realizado às 11h.

Transitando pelo debate sobre as torcidas

Hoje já não se percebe o fenômeno futebol sem a participação direta e/ou indireta do torcedor nesse processo. Aliada à noção mercadológica atribuída ao evento esportivo atual, criou-se um pensamento de que o papel do espectador nos jogos de futebol é tão vital para todo o espetáculo quanto para os profissionais envolvidos. Nesse panorama é que, principalmente nos períodos mais recentes, o foco dado às discussões sobre torcida/torcedor ganhou mais visibilidade. Diante disso, abordar-se-á, na discussão seguinte, questões presentes na relação torcida, espetáculo esportivo e órgãos de segurança.

Quando se fala em torcida/torcedor nos eventos de futebol, surge como carro chefe da discussão o conceito de torcida organizada. Altamente ligada à ideia de pertencimento ao clube, esses grupos se distinguem dos demais torcedores por possuírem, entre outras características, uma organização própria, geralmente de forma independente do clube; por sua fácil identificação em detrimento dos torcedores considerados “comuns”, no que diz respeito às suas vestimentas, uma vez que se utilizam de roupas próprias do seu grupo, “diferenciando-se” dos demais espectadores no estádio; por se utilizarem da criação de um espaço, dentro da vida urbana, que lhes possibilite uma visibilidade social enquanto grupo organizado, edificando a ideia em meio ao imaginário social de que devem ser vistos como uma categoria presente no futebol profissional, enfim, passaram a ser um dos mais importantes elementos envolvidos no fenômeno do futebol.

Sobre esses grupos, TOLEDO (1996), citando VELHO (1987), aponta para uma noção à cerca de tais organizações:

Estas organizações de torcedores são formadas por meio das paixões individuais que cada um traz consigo por um mesmo time, mas que, em torno de projetos coletivos, adquirem uma dimensão social pautada por interesses comuns. A organização de tais emoções, gostos e preferências, a priori subjetivos, norteia-se por estes projetos capazes de viabilizar, simbólica e materialmente, um sentido às emoções e expectativas individuais (p. 32).

Assumindo que as análises relacionadas às torcidas organizadas ganharam repercussão dentro das temáticas do futebol profissional atual, muito do que se pensa sobre violência nos estádios de futebol acaba por ser atribuído a tais grupos como forma de associar esses conjuntos a todo e qualquer episódio de confronto.

Sobre esse pensamento, podemos observar por meio do que pensa a Brigada Militar, como esses grupos são vistos por tal instituição: “principalmente nas torcidas organizadas (…) a gente se preocupa mais. Geralmente ali, o problema maior tá ali, do que as pessoas mais isoladas. (…) Geralmente sai dali, é uma preocupação com eles”.

Observa-se que independentemente do que aconteça, sempre se espera, por parte das torcidas organizadas, um episódio de conflito. Muito desta concepção emergiu do momento em que houve a associação entre as torcidas organizadas, típicas do Brasil, e os “hooligans”. Sobre esse assunto, TOLEDO (1996) aponta para uma diferenciação entre tais grupos, buscando um distanciamento entre tais:

A concepção de organização grupal das torcidas organizadas também difere daquela estrutura entre os hooligans que, de modo geral, prima pela transgressão deliberada e pelo anonimato (…) As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo (p,129).

Corroborando com a ideia de Toledo sobre torcida organizada e contrastando com o olhar dos órgãos de segurança sobre tal grupo, podemos observar que, esse grupo de torcedores tem obtido uma abordagem, por meio de exploração midiática e de discussões políticas, que procura problematizar a questão da violência nos jogos de futebol buscando nas torcidas organizadas o objeto fomentador de todo e qualquer tipo de transgressão que ocorra nos espetáculos de futebol. Contrastando com essa ideia, TOLEDO (1996), fala sobre a necessidade de uma reflexão sobre o tema da violência de forma mais ampla:

Longe de pertencerem ao universo estrito dos agrupamentos de torcedores, os fenômenos da transgressão e violência, veiculados de forma dramática por meio do futebol, fazem parte da própria experiência urbana mais ampla vivenciada nas cidades brasileiras: segregação espacial, desigualdades sociais, concepções sobre justiça e a polícia (p. 134).

Outra questão interessante a ser refletida é a percepção concebida pelos órgãos de segurança com relação ao trato com a torcida no estádio. Se analisarmos a fala da Brigada Militar que diz: “o nosso serviço no campo é a segurança da arbitragem e, depois, evitar que haja confronto entre torcedores assim né, qualquer tipo de confronto que haja lá dentro”, verificaremos que, no discurso, a principal função da Brigada Militar está na segurança do árbitro e não nas questões de torcida, contrastando com o que foi indicado anteriormente com relação, por exemplo, das torcidas organizadas, em que havia uma preocupação maior, mas que diante dessa fala já não se pode observar no mesmo sentido citado.

Assim, é que se observa por parte dos órgãos de segurança uma indefinição sobre a sua atuação dentro do espetáculo de futebol como também uma dificuldade em conceituar aquilo que é da torcida ou que papel que ela exerce, pois se nota uma dificuldade tanto em definir a sua preocupação principal dentro do estádio como órgão atuante, assim como definir em que “tipos” de torcedores é que os confrontos possam ocorrer.

Organismos de Segurança: pressupostos e ações

Em tempos atuais, quando se pensa futebol no Brasil, uma das principais preocupações referentes a esse espetáculo tem sido a questão da segurança dentro e fora dos estádios. Fruto de muita discussão científica e política, especialmente a partir da década de 1990, quando casos de conflitos entre torcedores obtiveram maior repercussão pública, esse assunto passou a ser tema da maioria dos debates que envolvem uma partida de futebol.

No âmbito político, inúmeras sansões visando à segurança já foram tomadas por meio de diversas leis e decretos, porém, uma em especial, ganhou maior destaque por sua “pretendida” reformulação no cenário esportivo, em especial no futebol. Tal medida, o Estatuto do Torcedor, surgiu trazendo consigo uma proposta de reestruturação dos locais esportivos, especialmente, os estádios de futebol, buscando uma “assepsia” desses locais, com fins preventivos e de combate à violência. Nesse sentido, analisando a aplicação de tal Estatuto dentro da realidade de nosso futebol, é apontada por RIGO et al (2006) com desconfiança, pois:

Sabemos também que em muitos casos algumas medidas preventivas por parte dos responsáveis pela organização do espetáculo podem evitar trágicos acidentes e muitas cenas de violência Nesse sentido consideramos que mais do que ocorreu durante a sua elaboração é importante que a implementação do EDT aconteça conectada a realidade do mundo futebolístico brasileiro, respeitando as peculiaridades dos clubes, dos jogadores e dos torcedores (p, 236).

Tratar de segurança no futebol é, antes de tudo, debater, analisar, verificar sobre qual espetáculo estamos falando, em qual realidade que ele é aplicado, para que se possa elaborar medidas que busquem, em meio às especificidades do ambiente ao qual elas serão aplicadas, um panorama de controle das atividades referentes ao espetáculo.

No caso do futebol da cidade de Rio Grande (RS), os órgãos de segurança pública envolvidos nos jogos, no campo da conceituação do que é segurança nesses ambientes, deixam entendidos, por meio de suas falas, uma tendência interessante: “a Polícia em geral trabalha em preventivo e ostensivo, ostensivo porque a gente trabalha fardado (…) nos mostrando ao máximo né? (…) e preventivo porque tu está ali para que não aconteça nada, para que a presença do policial faça com que as pessoas se desestimulem a fazer alguma coisa errada(…) para evitar que ocorra um tumulto, para evitar que daqui a pouco tu te estresse lá com um torcedor e queira partir para a paulada com ele. A gente ta lá nesse sentido, preventivo para que não ocorram esses fatos, essa é toda a finalidade do policiamento”.

“Prevenir”, “se mostrar”, essas palavras demonstram uma tendência clara dos órgãos de segurança, na qual a estabilidade nos estádios deve ser atingida por meio, primeiro, de ações concretas, do “corpo a corpo” e, em segundo, pela figura de autoridade que deve ser exposta e “temida” pelas pessoas presentes nas partidas. Diferentemente de como atuam os Bombeiros, que nesse processo se preocupam com as questões estruturais e de material nos estádios , como afirma uma representante desse órgão: “na verdade não há Lei ou Decreto Estadual que regulamente a atuação do Corpo de Bombeiros nos dias de jogos, a função é vistoriar a segurança do Estádio ou Ginásio para liberação do Alvará de Prevenção e Proteção contra incêndios”, o papel da Brigada está mais vinculado à ação de conter e combater as “agitações” presentes no estádio do que propriamente oferecer, atrelada às intenções do Estado, um espetáculo esportivo que ofereça um ambiente organizado e que respeite as pessoas envolvidas .

Sobre a Brigada Militar

Na tentativa de caracterizar essa instituição peculiar ao Estado do Rio Grande do Sul, primeiramente, abordaremos fatos referentes à sua criação e seu estabelecimento como órgão de segurança, para, então, falarmos sobre as questões pertinentes a sua linha de atuação sob uma perspectiva contemporânea.

A Brigada Militar tem sua origem ligada à Revolução Farroupilha, de 1835, que por meio da Lei Provincial nº 7, de 18 de novembro de 1837, instituiu a Força Policial, um órgão responsável por auxiliar na justiça, manter a ordem e a segurança na capital, nos subúrbios e comarcas. Exceto em caso de invasão inimiga, não poderiam deixar de cumprir essas obrigações.

Em 5 de maio de 1841, por meio da determinação do Dr. Saturnino de Souza Oliveira, então presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, ficou estabelecido a mudança da Força Policial para Corpo Policial, na qual se pode observar um destaque maior à tal companhia. Sua principal atuação inicial foi a de agir na tentativa de pacificação da província.

Passado alguns anos atuando como Corpo Policial, podendo ser observada sua participação na Guerra do Paraguai, em 1873, se deu a criação da Força Policial em seu lugar, que manteria algumas características militares anteriores, mas provocaria diversas mudanças em sua estrutura.

Posteriormente, com a Proclamação da República, o estado passou por diferentes adaptações ao novo panorama político e no campo dos órgãos de segurança não foi diferente. Em 1889, há novamente uma substituição na Força Policial, transformando-a em Guarda Cívica do Estado. Em um período curto de tempo, tal corporação obteve diferentes denominações, tais como Corpo Policial, Brigada Policial, Guarda Cívica, mas todas com pequena duração.

Já em 15 de outubro de 1892, a então Guarda Cívica, foi extinta e culminou com a criação da hoje conhecia Brigada Militar, que “nascia” com a função de “zelar pela segurança pública, manutenção da República e do Governo do Estado, fazendo respeitar a ordem e executar as leis” . Apresentando essa denominação, a Brigada esteve presente na Revolução Federalista, Campanha da Legalidade entre outras.

Com isso, por meio de uma busca histórica a respeito do surgimento da Brigada Militar e de suas primeiras ações, chegamos ao momento atual dessa instituição que hoje apresenta inúmeros desdobramentos dentro da sociedade gaúcha e que atua vinculado a estruturas administrativas que a regem dentro de leis, sendo essas capazes de organizar e legitimar a Brigada.

Sob o ponto de vista da Constituição Federal, o item relacionado à segurança Pública estabelece que a Polícia Militar, que, no caso do Rio Grande do Sul, é a Brigada Militar, deve ser vista como um dos órgãos do Estado destinados a preservar a ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (BRASIL, 1988). Ainda sobre o artigo, no parágrafo quinto, que trata especificamente sobre as polícias militares, em que se enquadra a Brigada, fica estabelecida uma outra função além daquelas vistas anteriormente, que é a de policiamento ostensivo.

Contudo, mesmo com as atribuições previstas na Constituição Federal, a Brigada Militar possui espaço dentro da Constituição Estadual do Rio Grande do Sul. Fica localizada mais precisamente dentro do Capítulo sobre Segurança Pública e aparece nos artigos 129 a 132. Nesses, pode se notar uma diferença com relação á disposição presente na Constituição Federal, que fala sobre as funções das polícias militares, sendo que agora fica incluída a função de policiamento externo de presídios e de polícia judiciária militar.

Pode ser citada ainda a Lei 10.991 do Estado do Rio Grande do Sul, em que são definidas as diretrizes que dispõem sobre a Organização Básica da Brigada, que entre muitas competências e cargos, vincula administrativa e operacionalmente esse órgão à Secretaria de Segurança Pública do estado do RS.

Um fato interessante sobre essa corporação atuante no Rio Grande do Sul é a sua denominação diferenciada com relação aos demais estados da União, mas como vimos em sua perspectiva histórica e como afirma o Regimento Interno da Brigada Militar, “a Brigada Militar, instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e na disciplina […] é a Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Sul”.

Sobre o Corpo de Bombeiros

Quando pensamos em Bombeiros, talvez uma das primeiras e principais funções das quais possamos atribuir a esse órgão seja a de combate aos incêndios, o que não nos induz a nenhuma inverdade, certamente, mas quando se faz uma análise mais minuciosa à respeito, é possível observar que outras incumbências também fazem parte das obrigações do Corpo de Bombeiros. É sobre essa perspectiva que trataremos a discussão a seguir, objetivando uma possível conceituação sobre o que é Corpo de Bombeiros (e aqui se entenda aqueles pertencentes ao Estado do Rio Grande do Sul), percorrendo um pouco de sua história e de sua legitimação enquanto órgão público.

Na Porto Alegre de 1895 era notável a expansão urbana do município, principalmente no que se tratava à questão de serviços, com destaque para os transportes, comércio e iluminação pública. Porém, a cidade em meio a tanto crescimento também via seus problemas aumentados. Incêndios eram cada vez mais difíceis de serem controlados em meio a ruas que se amontoavam umas por cima das outras, nascidas pelo aumento da cidade e também ainda pelo pouco aparato material que continham os corpos de voluntários, que mesmo desorganizados tentavam agir em meio aos acontecimentos, já que a cidade não possuía um serviço oficial para tal fim.

Diante desse panorama é que as Companhias de Seguros instaladas em Porto Alegre, sofrendo economicamente com as queimadas constantes, se organizaram e fundaram um Corpo de Bombeiros, administrando e estruturando-o. A iniciativa das Companhias oficializou o primeiro Corpo de Bombeiros da cidade, com aparelhamento semelhante ao das principais capitais do país na época. Foi então que em 1º de março de 1895 que a ideia de corpo de Bombeiros no Rio Grande do Sul surgiu, inicialmente com o efetivo de 17 funcionários, sendo 10 chamados de “soldados de fogo”, que contavam com um carro de bomba manual puxado por parelhas de cavalos usados no combate à incêndios na cidade de Porto Alegre.

Passados cerca de 40 anos, já era consenso nas Companhias que com os avanços nas exigências de serviços na cidade de Porto Alegre, o aumento de materiais mais modernos exigia mais recursos e, portanto, era vinculada a ideia de que esse serviço de Bombeiros fosse assumido pelo Governo ou Município, o que já era prática comum em grandes cidades. Nesse sentido, é que, em 27 de junho de 1935, o General Flores da Cunha, interventor no Governo do RS, emitiu um decreto transferindo a responsabilidade do corpo de Bombeiros, à época particular, de Porto Alegre à brigada Militar. Tal medida contribuiu no sentido de melhora estrutural dos Bombeiros, que agora usufruiriam dos recursos da Brigada Militar. Mas mesmo com o crescimento técnico obtido após a unificação do CCB (Comando do Corpo de Bombeiros) com a BM, por meio do Decreto 20.277 de 1970, a diretoria dos Bombeiros e seus órgãos foram desativados, transformados em Pelotões Especiais de Socorro, com subordinação às unidades de Policiamento. Durante o período de 1970 a meados de 1974, o que se pode observar foi um sucateamento do CCB.

Entre idas e vindas, depois de decretos e mais decretos, extinções e ressurgimentos dos Bombeiros, em 2002, o CCB foi novamente religado à Brigada Militar, com o objetivo de: “planejar, organizar, fiscalizar, controlar e instruir, é também responsável pelas atividades técnicas de bombeiro em todo o Estado, bem como pela orientação e instrução dos serviços auxiliares de combate a incêndio” . Cabe salientar que em 1997, com a reestruturação da Brigada Militar em 1997, foram criados 8 Comandos Regionais de Bombeiros, sendo que, em Rio Grande/RS (espaço desta pesquisa), se encontra atualmente o 3º Comando Regional de Bombeiros. Hoje, o CCB conta com três divisões principais que são: Divisão Técnica de Prevenção de Incêndio e Investigação, Divisão de Operações e Defesa Civil e Divisão Administrativa.

Agora, trazendo a discussão sob o ponto de vista legal, daquilo que organiza o Corpo de Bombeiros, temos em âmbito nacional, visto na constituição de 1989, uma pequena citação no art. 144, que trata sobre Segurança Pública que considera o Corpo de Bombeiros como um dos órgãos destinados a preservar a ordem social, como também cita no parágrafo 5º do mesmo artigo, ao determinar que cabe aos Bombeiros, além daquilo previsto na lei, a execução de atividades de defesa civil.

Considerando o que diz respeito ao Corpo de Bombeiros no estado do Rio Grande do Sul, observamos que no Decreto 42.871 de 2004, a localização do CCB dentro da Brigada Militar. No art. 3º, inciso II, nota-se que o Comando do Corpo de Bombeiros é compreendido como um órgão de apoio à BM, cabendo, de acordo com a seção II, do capítulo que trata dos comandos regionais e especiais, “administrar e executar as atividades de bombeiros, defesa civil e de segurança pública em seus respectivos espaços de responsabilidades territoriais, e também as atividades administrativo-operacionais dos OPM que lhes são subordinados” .

Futebol e organismos de segurança: uma relação a ser analisada

Aproximando essa discussão com o tópico tratado neste trabalho, que verifica a relação dos órgãos de segurança com os espetáculos de futebol, observar-se-á que surgem elementos interessantes que serão abordados a seguir.

Inicialmente, faz-se necessário discutir o envolvimento dos organismos de segurança em eventos como são os jogos de futebol.

Em termos organizacionais, a Brigada Militar, órgão presente nos dias de jogos, apresenta dois artifícios que norteiam sua atuação nos espetáculos. Um deles são as ordens de serviço, uma espécie de documento prévio que delega quais funções cada Brigada irá executar dentro do estádio, ou fora desse. Desde quem vai cuidar da segurança do árbitro até aqueles que trabalharão nas arquibancadas, tudo é estabelecido dentro desse documento, assim como são definidos, nas escalas, aqueles que serão incumbidos de participarem dos eventos, ou seja, uma forma de estabelecer aqueles brigadeanos que estarão presentes no estádio.

Basicamente, são esses os procedimentos utilizados pela Brigada Militar no que se refere à sua atuação e planejamento com relação aos jogos de futebol na cidade de Rio Grande(RS), como aponta um representante da BM: “todo o tipo de serviço da Brigada funciona assim, nada é feito ao “léu” assim, tem ordem de serviço para tudo, não só para o campo de futebol, qualquer operação”.

Já em termos conceituais, por parte da Brigada, o termo violência aparece vinculado a algo próprio das torcidas, uma tendência quase que “natural” desses grupos, uma vez que é apontado diante de uma fala da Brigada que:”já é diferente se eu sei que vai ter São Paulo e Brasil de Pelotas, aí eu sou obrigado a escalar um efetivo maior, porque eu sei que vai dar problema, porque é um jogo que dá problema, justamente por essa rivalidade que tem Rio Grande e Pelotas”.

Partindo do entendimento dessa fala, se percebe a noção de que a presença de policiamento nos estádios de futebol está mais relacionada à possibilidade de que ocorra algum episódio de violência do que propriamente da necessidade lógica de que esse serviço tenha que ser oferecido em tais ambientes. Interessante é pensar que não são só as partidas de futebol que produzem uma presença massiva de público, ou seja, outros eventos também a mesma perspectiva de concentração de pessoas, mas parece haver, nos estádios de futebol, uma tendência maior de que situações de conflito aconteçam. Sob essa questão, REIS (2005) contribui para essa discussão, afirmando que:

As formas de violência observadas em estádios de futebol são similares às presentes em eventos de multidões, o que respalda a análise de que a violência não é fruto do futebol em si, mas está associada aos eventos futebolísticos por vários fatores, e, em nosso país, podemos dizer que há uma cultura do vínculo de uma relação quase simbiótica entre futebol e violência (p. 117).

Partindo dessa suspeita com relação ao trato com as partidas de futebol e buscando uma análise com relação à atuação dos órgãos de segurança em tal evento, se percebe uma desvalorização de aspectos inerentes ao jogo de futebol, uma vez que esse ambiente produz situações próprias, o público envolvido gera momentos que são únicos daquele espaço/tempo, e que, normalmente são sufocados ou desprezados por quem é incumbido de realizar a segurança nesses lugares. Pensar uma partida de futebol e um show musical, por exemplo, é considerar que diferentes emoções estão envolvidas, das mais variadas motivações com relação ao evento podem ser esperadas, como também, que a configuração espacial também é, no mínimo, diferente.

No sentido de corroborar essas ideias apresentadas, são apresentadas algumas falas que indicam essas tendências: “só que no pequeno evento a gente vai tranquilo, menos efetivo, não é tão preocupante. (…) Tudo o que acontece aqui acontece em outros lugares (…) é a mesma coisa trabalhar aqui, lá no Olímpico, no Beira-Rio”.

Entretanto, do ponto de vista dos órgãos de segurança, independentemente do evento, a atuação deve ser a mesma. Elementos que possam caracterizar um lugar, um estádio, uma torcida não são levados em consideração na atuação da Brigada Militar. Para corroborar com esse pensamento, surge um depoimento do representante da Brigada Militar, afirmando que “a diferença é só em termos de efetivo O serviço é sempre o mesmo,o que nós temos que fazer em um grande evento, nós temos que fazer em um pequeno evento também”.

Não considerar as diferenças é acreditar na padronização de comportamentos. Nesse sentido, se pressupõe que, diante de uma unificação no modo de agir nos espetáculos de futebol por parte dos órgãos de segurança, estaria implícita uma intenção de criar no imaginário dos espectadores presentes nos estádios, uma uniformização no modo de torcer, modelando os sujeitos a um “jeito” de se portarem nas arquibancadas que fosse aceitável dentro de padrões esperados de um cidadão.

Contudo, ao analisarmos uma torcida de futebol, veremos que não há uma universalização no modo de torcer. Cada torcida apresenta configuração própria, influenciada por diferentes questões e locais, portanto, difícil é imaginar em uma uniformização no modo de portar-se e viver o futebol nas arquibancadas.

Ainda, cabe ressaltar uma discussão sobre a relação dos órgãos de segurança públicos em eventos, essencialmente, de cunho privado que são os jogos de futebol profissional. Se por um lado os jogos de futebol envolvem grandes massas, sendo locais com considerável aglomeração de pessoas, e que talvez seja uma justificativa para a presença dos órgãos de segurança nesses ambientes, não se pode conceber esses eventos como de interesse da vida pública, uma vez que possuem caráter privado por serem organizados por instituições particulares. Nesse sentido, considerando a Polícia um órgão de interesse do Estado, sob o ponto de vista lógico, qual a relação desses organismos com eventos produzidos de maneira privada? Sobre essa questão, uma fala retrata bem como os órgãos de segurança pública encaram esse assunto: “mas mesmo assim é missão nossa, é missão constitucional da Polícia Militar atuar em eventos esportivos (…) uma determinação que as Polícias Militares, elas estejam presentes onde haja qualquer tipo de aglomeração de pessoas, de qualquer evento que possa causar algum tumulto, que tenha necessidade, então é permissão constitucional”.

Conclusão

Vistas como umas das principais instituições públicas no nosso Estado, a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros apresentam, em termos históricos, um envolvimento nas questões sociais, que os proporcionaram um status de referência enquanto órgãos de segurança pública. Tanto o é que, somente no estado do Rio Grande do Sul, a Polícia Militar possui uma denominação diferenciada, sendo conhecida como Brigada Militar, visto sua importância dentro da sociedade gaúcha.

Tendo o futebol como um elemento produzido pela nossa sociedade, o qual, inclusive esses órgãos de segurança aparecem envolvidos, apresenta diversas ramificações no interior de nosso cotidiano, percebemos a importância desse desporto nos acontecimentos de nossa comunidade. Pensar que o futebol moderno determina, em meio a suas peculiaridades, como por exemplo, os horários de suas partidas, os funcionamentos de uma cidade, a organização espacial dessa, podemos pensá-lo em uma das atividades que, atualmente, fazem parte dos elementos constituintes de nossa sociedade.

Sobre esse futebol, alguns elementos aparecem como importantes em sua discussão, primeiro, a torcida, elemento, hoje visto como um das partes que constitui o espetáculo do jogo de futebol; em segundo lugar, a preocupação crescente com questões de segurança nos estádios de futebol, tema bastante debatido em tempos atuais; e a relação existente entre os organismos de segurança e os eventos esportivos, no caso, o futebol e seus desdobramentos.

Sob o ponto de vista das discussões sobre as partidas de futebol profissional, identifica-se que a presença da Brigada Militar, no caso do Rio Grande do Sul, e do Corpo de Bombeiros constitui um fato demarcador sobre os órgãos envolvidos nesse evento. Os Bombeiros, como órgão preocupado com questões estruturais e de combate a incêndios, possui uma atribuição mais relacionada à vistoria nos ambientes esportivos, do que propriamente de atuação nesses eventos, função essa, destinada à Brigada. Essa por sua vez, assume papel centralizador nas questões que dizem respeito a tudo que envolve futebol profissional.

No que diz respeito à Brigada, observa-se uma organização baseada em protocolos apenas voltados às questões de atuação, seja por ordem de serviço ou escala, mas que produzem a ideia de não haver uma preocupação em debater questões pertinentes a um jogo de futebol, no que diz respeito a elementos próprios de cada partida. Mesmo com essas intenções de protocolo, pareceu haver uma flexibilização diante de diferentes situações, uma vez que, o discurso apontava para uma organização-padrão diante de certas partidas, contrastando com o observado, já que, em algumas vezes, o número de efetivo não foi condizente com aquele apontado nas falas das pessoas entrevistadas.

Uma outra questão bastante importante nessa análise, centrou-se no papel estabelecido pela Brigada de se preocupar, prioritariamente, com a segurança da arbitragem, definido como função principal desse órgão nas partidas. Fato esse, não observado tanto nos jogos como nas entrevistas, já que, constantemente, foi veiculado uma obrigação da presença da Brigada quando se tratasse de eventos com multidão, bem como um discurso que apontavam as Torcidas Organizadas como o elemento causador de preocupação por parte da Brigada dentro do espetáculo. Enfim, muito do que se observou no discurso produzido por aqueles da Brigada Militar apontavam para uma realidade não observada no ambiente de atuação desse órgão, deixando claro que são várias as preocupações dentro de um jogo de futebol, mesmo que isso não apareça quando se observa o pensamento dos organismos de segurança.

Diante do que foi refletido, analisado, verificado, dois fatos surgiram como de necessidade para posteriores estudos. Primeiro, fica claro que os órgãos de segurança buscam, por meio de ações baseadas em um modelo pré-estabelecido, uma resposta padrão por parte dos espectadores nas arquibancadas, apontando para um comportamento definido do “torcer”.

Ainda, especula-se a necessidade de abrir um debate sobre a localização de um órgão de utilização pública dentro de um evento prioritariamente privado, sendo necessária a análise de quais argumentos co-relacionam ambos, buscando uma problematização do tema surgido a partir do estudo das questões de órgãos de segurança nas partidas de futebol.

Em suma, o estudo da violência nos espetáculos de futebol passa pela verificação de alguns aspectos constituintes de todo esse processo complexo que é uma partida de futebol. Como elementos incluídos nesse fenômeno, os organismos de segurança apresentam papel importante e decisivo na organização do espetáculo e das pessoas, entretanto, necessitariam de uma maior observação dos elementos presentes nas partidas, bem como de um debate que aproximasse a sua atuação com elementos conceituais, de forma a enxergar nos eventos de futebol algo mais complexo do que pode parecer.

Bibliografia

DAOLIO, Jocimar. Futebol, cultura e sociedade. Campinas, SP: Autores Associados, 2005.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 2002.

REIS, Heloisa H.B; ESCHER, Thiago A. A relação entre futebol e sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador. In: Simpósio Internacional do Processo Civilizador, IX, 2005, Ponta Grossa (PR).

RIGO, Luis C. et al. Estatuto de Defesa do Torcedor: um diálogo com o futebol pelotense. Revista Movimento, v.12, n.02, p. 223-239, maio/agosto, 2006.

TOLEDO, Luiz H. Torcidas organizadas de futebol. Campinas (SP): Autores Associados/Anpocs, 1996.

< http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/museubm/index.html&gt; Acesso em: 29/03/2010

< http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/ > Acesso em: 03/04/2010

< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/_ConstituiçaoCompilado.htm > Acesso em: 16/04/2010

< http://www.al.rs.gov.br/prop/legislacao/constituicao/constituicao.htm#T04C01 > Acesso em: 24/04/2010

*Acadêmico do Curso de Educação Física-Licenciatura da Universidade Federal de Rio Grande-FURG e Treinador da categoria sub-13 do Sport Club Rio Grande/RS. E-mail: felipzzz@hotmail.com

(1) Órgão maior responsável pelo futebol profissional no Brasil, que possui vinculação à FIFA.

(2) Seguindo a ideia de TOLEDO (1996), umas das características dos membros pertencentes às Torcidas Organizadas passa pela idéia existir, nesses grupos, uma congregação de paixões individuais em torno de uma mesma instituição, de maneira que emoções, gostos e preferências expressam-se de forma coletiva.

(3) Para mais acessar: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/museubm/index.html

(4) Aqui se refere a algo aparente ou aquilo para se mostrar.

(5) Para mais acessar em: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/hist-rs.html

(6) Para mais, ver no decreto 42.871, de 04 de fevereiro de 2004 do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que Regula a Lei de Disposição Básica da Brigada Militar.

Heloisa Reis, estudiosa da relação futebol x violência (Universidade do Futebol)

Na entrevista a pesquisadora trata do tema violência no futebol e seus reflexos sociais

Marcelo Iglesias

03/07/2009

Para os apaixonados por futebol, ir aos estádios assistir às partidas é uma experiência única de prazer. No entanto, por conta da violência que se observa em dias de jogos e pelas condições precárias de segurança, de conservação e de serviços que são oferecidas no Brasil, o momento genuíno do torcedor perde muito do seu valor.

Em alguns países em que a violência nos dias de jogos de futebol também era um problema grave, houve alterações nas leis para punir exemplarmente os causadores de episódios de tumulto. Além disso, foram realizadas melhorias nas condições dos estádios para que o público, agora visto como consumidor do espetáculo, pudesse desfrutar daquele momento da melhor maneira possível. Com isso, a própria população passou a enxergar o futebol de forma diferente, e a modalidade ganhou status de grande evento.

“Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas”, contou Heloisa Reis, professora assistente da Universidade Estadual de Campinas, graduada, mestra e doutora em Educação Física, atuando com ênfase em Sociologia do Esporte, Lazer e Pedagogia do Esporte, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Pensando no problema sério que se tornou a violência entre torcedores, dentro, no entorno e no caminho para os estádios, e na maneira como outros países fizeram para minimizar os casos de violência em dias de jogos, Heloisa Reis desenvolveu um estudo sobre o tema comparando o Brasil com a Espanha.

Durante a entrevista, ela falou sobre as conclusões dessa pesquisa, além de expor a sua opinião sobre algumas medidas governamentais brasileiras que visam a redução da violência nos estádios, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas. A pesquisadora também se posicionou em relação à preparação do Brasil para a Copa do Mundo de 2014.

Universidade do Futebol – Quais são as raízes da violência no futebol brasileiro?

Heloisa Reis – Elas estão centradas em dois focos: um macroestrutural e um microestrutural. Esse, eu chamo de ambiente do futebol e aquilo que está relacionado à infraestrutura dos estádios. Os países que montaram uma política de prevenção à violência com sucesso tomaram como principio básico a melhoria das estruturas dos locais de jogo e da organização do espetáculo.

Nessa atmosfera, alguns aspectos que mais têm relação com a violência são a venda dos ingressos, a maneira como os torcedores são conduzidos para dentro dos estádios e a sua abertura com grande antecedência. Seria interessante oferecer partidas preliminares para estimular os torcedores a entrarem antes, além da comercialização de ingressos de maneira mais eficiente.

Incluo nessas questões microestruturais, mas que também fazem parte das macroestruturais, um grupo de agentes de segurança especializados, que entendam mais a problemática da violência e conheçam o público de futebol, tratando-o como gente, e não como animais.

No entanto, quando se fala em raízes, temos que considerar mais a questão macroestrutural. Nós ainda vivemos em uma sociedade em que a violência é predominante em várias esferas. Sendo assim, tem-se o uso abusivo de armas de fogo, o que tem uma relação com o crescimento de homicídios no futebol.

Mais do que isso, as condições de moradia são precárias, a juventude está ociosa e a qualidade das escolas é muito baixa. Apesar de nos últimos anos ter-se aberto mais o acesso da população à escola, a qualidade do ensino caiu muito.

Essa questão da escolaridade de baixa qualidade desestimula os jovens ao estudo e faz com que eles não tenham projetos de vida em sociedade, o que os leva a procurar os seus iguais em grupos em que as maneiras de expressar, via de regra, são pela violência.

Outro ponto que deve ser destacado nessa questão das raízes é a exacerbação dos valores de masculinidade expressos por meio do futebol e por meio do esporte espetáculo, de modo geral, o que criou a cultura de que o esporte é para os homens, de maneira que, demonstrar nesses ambientes futebolísticos que se é agressivo, violento e forte, passa a ser uma marca distintiva de gênero, de masculinidade. Isso é uma questão mundial, não só brasileira, e que se atribui como a principal raiz da violência relacionada ao futebol.

Universidade do Futebol – Qual o melhor caminho para acabarmos com a violência entre as torcidas? Que medidas devem ser tomadas pelas autoridades?

Heloisa Reis – É importante que se coloque que o problema da violência é muito complexo e que abrange uma série de motivos, raízes e agentes que têm de ser modificados.

Então, a expressão que se poderia utilizar para sermos mais corretos sobre esse assunto é: como fazemos para minimizar os casos de violência que acontecem no futebol? É nessa perspectiva que se trabalha na Europa e que eu trabalho aqui no Brasil.

Acredito que para ocorrer a redução dessa violência, há que se diminuir, também, a impunidade no Brasil. A falta de punição, tanto nas questões relacionadas com a violência no futebol quanto no que se refere aos nossos políticos (a Câmara e o Senado), tem de mudar. Os governantes passam a ser modelos para a juventude. Muitas vezes eu ouvi torcedores dizendo que “os nossos exemplos, os políticos, são corruptos, não são sérios e não fazem o seu papel. Por que estão cobrando de mim que só quero ser respeitado e ter dignidade para assistir a um jogo de futebol?”.

Portanto, tem-se a impunidade como a grande inimiga da diminuição da violência na sociedade como um todo e, particularmente, no futebol. Por que particularmente no futebol? Porque é nesse ambiente que se concentra o maior número de jovens do sexo masculino, grande parte deles com a intenção de se auto-afirmarem, torcendo, sendo agressivos, alimentando a intolerância e as individualidades.

É preciso fazer modificações nas leis para que existam instrumentos legais de punição efetiva para aqueles que cometem crimes ou transgressões graves nos dias de jogos de futebol. Além disso, o Estado deve trabalhar junto às torcidas organizadas, tendo como intermediário a universidade, pois ela possui profissionais competentes e mecanismos para oferecer à população masculina jovem, que se concentra nessas entidades de torcedores, atividades de lazer esportivo de qualidade e oficinas as quais vão tratar das questões mais graves da juventude atual: o uso abusivo de álcool, responsável por parte da violência nos dias de jogos, e o uso de outras drogas não-lícitas, principalmente a maconha, a cocaína e o crack, os quais são usados dentro dos estádios com a permissividade da Polícia Militar.

Portanto, juntamente com as novas leis, há de se realizar campanhas educativas e projetos de desenvolvimento pessoal para esses jovens do sexo masculino, em parceria com as torcidas organizadas (todas elas). Essa é uma questão.

A outra, no âmbito do Estado, do governo, é a urgente retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência. Porque ela, que foi sugerida por mim e criada pelo presidente da República em 2004, tem como objetivo reunir os maiores especialistas sobre o tema para propor mudanças na lei, montar um arquivo nacional das ocorrências de violência e sugerir mudanças de curto, médio e longo prazos para prevenção e diminuição da violência nos dias de jogos.

Contudo, na época, essa comissão não foi constituída pelos melhores especialistas, mas sim pelos amigos do ex-ministro Agnelo Queiroz, responsável por indicar os seus membros. Mas, enfim…

Nos anos 2005 e 2006, a comissão foi coordenada por Marco Aurélio Klein, um sociólogo e especialista em marketing esportivo, e conseguiu elaborar um relatório com muitas qualidades, o qual ouviu os torcedores e vários especialistas. Só que esse trabalho está estagnado. Foi feita a primeira fase do projeto proposto e nunca mais a comissão se reuniu. É preciso que isso seja retomado.

Por outro lado, tenho sugerido trabalhos que propõem aos estados que possuem essa problemática mais agravada (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia) que criem comissões estaduais de prevenção da violência, reunindo os seus especialistas para proporem medidas, incluindo nessas discussões os representantes de torcidas organizadas, para que se possa tê-los como aliados na constituição de uma política de prevenção estadual e nacional de prevenção da violência.

Universidade do Futebol – Muitas pessoas acreditam que a extinção das torcidas organizadas resolveria esses problemas. Qual sua opinião sobre isso?

Heloisa Reis – Essa visão é completamente infundada e absurda, porque não são todos os torcedores organizados que brigam e aqueles que cometem os delitos nem sempre são torcedores organizados. Isso já justificaria a questão.

Conceituo as torcidas organizadas como agremiações de torcedores que se reúnem, inicialmente, para torcer por um clube. Essa associação se faz, principalmente, por membros do sexo masculino (93% dos componentes das principais torcidas organizadas de São Paulo são homens), os quais se juntam, em grande parte das vezes, não pura e simplesmente para torcer, mas para que se forme um grupo em que haja pessoas capazes de discutirem a política do clube, a política de esportes, e uma série de outras questões que, principalmente o jovem (entre 15 e 30 anos, os quais constituem o grosso dessas torcidas), não tem outro espaço para debater.

As escolas e as universidades não têm mais os centros acadêmicos desenvolvidos para a discussão dessas questões, e os ambientes de trabalho não são locais onde as pessoas congregam-se para debater sobre as políticas do país.

Acabar com as torcidas organizadas seria extinguir uma das poucas possibilidades de instituição social criada pela própria juventude. Acredito que seria matar uma juventude que está tentando participar do processo político. Além disso, existe o fato de que nem todos os membros são aqueles que brigam. Acho um tremendo equívoco.

Mais do que isso, o Estado perderia uma grande oportunidade de ter alguma influência sobre essas torcidas, as quais deixariam de ser instituições regularizadas. Outra questão que contribui para a minha posição contrária à extinção dessas agremiações é o fato de se saber que aquelas que não são legalizadas, que se auto-intitulam torcidas organizadas, com grupos pequenos de jovens, são, hoje, o maior problema da violência nos dias de jogos. Essas, normalmente, formam-se em bairros muito distantes, onde há enorme carência de políticas públicas de lazer, de educação, de moradia e de emprego. A partir daí, reúnem-se 10 ou 20 jovens que vão em direção aos estádios pelas estações de trem, de metrô e pela rua, intimidando e ameaçando as pessoas ou grupos de outros torcedores.

Esse fato demonstra que extinguir as torcidas organizadas e jogá-las na clandestinidade, junto de muitas outras, tornará o problema algo muito mais complicado para o Estado.

Porém, o meu posicionamento contrário à pura e simples extinção das torcidas organizadas não exclui a necessidade de punir aqueles grupos de torcedores que cometem crimes em dias de jogos ou mesmo as torcidas organizadas que não se prontificarem a colaborar com a política nacional, exigindo, por exemplo, os antecedentes criminais dos seus associados. Na medida em que se admitem pessoas em débito com a sociedade dentro dessas torcidas, elas também estão sendo coniventes com a violência e com a impunidade.

Universidade do Futebol – Você acredita que imprensa, jogadores e dirigentes também têm sua parcela de responsabilidade pela violência no futebol ao incitarem a rivalidade entre os times?

Heloisa Reis – Eles têm uma enorme responsabilidade. O que acontece nas análises da mídia, em geral, é responsabilizar de maneira rápida e leviana apenas as torcidas organizadas.

Eu penso que o coletivo formado pela imprensa, dirigentes, técnicos e demais agentes talvez seja mais responsável pela violência do que as próprias agremiações de torcedores, porque esses grupos pertencem a uma elite que pode até ser distinguida como intelectualizada. Grande parte deles frequentou a universidade, os dirigentes são parte de uma elite social, os próprios jogadores pertencem à elite econômica do país, e teriam que saber melhor a sua responsabilidade e o seu papel quando se dirigem ao público por meio da mídia.

Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas.

O que vivenciamos no Brasil nos últimos 12 meses em relação à declaração de dirigentes, certamente, na Espanha, teria resultado em cassações. Houve uma grande incitação da violência por parte dos dirigentes brasileiros, por exemplo, nos episódios em que se falou contra ou a favor da existência de 5% ou 10% de torcedores visitantes nos estádios.

De acordo com uma proposta do Ministério Público para tentar diminuir a violência, os dirigentes não poderiam insultar o outro público que recebeu apenas 10% dos ingressos. Esses dirigentes e representantes dos sindicatos dos técnicos e dos jogadores teriam que ser chamados para uma comissão nacional e outra estadual a fim de que se firmassem acordos e termos de ajustes de conduta com o Ministério Público, que é o instrumento legal adequado para que eles também se comprometam a não proferir declarações que incitem a violência. Por outro lado, a legislação também tem que prever multas e penas mais duras para dirigentes, técnicos, jogadores e imprensa quando um desses personagens incitar a violência.

A imprensa é um ator que merece ser responsabilizado em grande parte, porque poderia dar um foco diferente às entrevistas com dirigentes, não os provocando a declarações em que a intolerância ao outro aparece.

Realizei uma vasta pesquisa com os torcedores organizados do estado de São Paulo, e um percentual muito alto deles tem plena convicção de que são incitados à violência pela própria imprensa na maneira como são veiculadas as notícias durante a semana. Ou mesmo porque a principal emissora de TV do país, segundo os próprios torcedores, privilegia um determinado clube paulista na veiculação maior de jogos dessa equipe do que das demais.

As pesquisas inglesas, de Norbert Elias e Eric Dunning, que foram os principais estudos sobre violência nos anos 1980 e 1990, verificaram que a imprensa falada e a escrita têm grande responsabilidade sobre a violência no futebol, principalmente quando a televisão repete muitas vezes cenas de violência ou quando o jornal utiliza palavras bélicas para relatar os fatos ocorridos no futebol.

O que foi feito, em termos de legislação, na Espanha, para minimizar essa questão? O sindicato da imprensa foi chamado por uma comissão e foi elaborado um termo de ajuste de conduta para que não se repetissem cenas de violência em dias de jogos, ou mesmo de invasão de campo. As imagens de brigas não podem ser exibidas mais do que três vezes durante seis segundos por uma mesma emissora de TV, no mesmo dia. Já as invasões de campo não devem ser veiculadas para não incentivar outras pessoas a agirem da mesma maneira.

Na final da Copa do Mundo da Alemanha houve uma invasão de campo, e o Galvão Bueno comentou que nenhuma emissora do mundo estava transmitindo o acontecido, somente a “Globo”. Mal sabia ele que essa é uma política do Conselho da Europa para que não haja incentivo à invasão de campo.

Para quem gosta de ser o centro das atenções e nunca invadiu um campo, as imagens de invasões podem ser um chamariz. Como o principal motivo dessas pessoas é a aparição pelos meios de comunicação, essas mídias não estimulam as invasões dos campos, deixando de mostrar esse tipo de situação.

Universidade do Futebol – Em abril deste ano, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. No entanto, um contrato entre a Fifa e a Budweiser fará com que a comercialização seja liberada durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O que você pensa sobre a questão? 

Heloísa Reis – É um absurdo! Uma entidade do esporte ditar as regras do que deva e do que não deva ser mudado em um país para que ocorra um evento esportivo é ferir a soberania nacional.

Conseguiram isso com sucesso na Alemanha e estão impondo o mesmo para o Brasil. Encaro como uma questão de desrespeito à legislação e ao povo brasileiro, impondo isso como regra.

Além disso, essa situação demonstra claramente o poder do capital. A parceria da Fifa com uma empresa que só visa lucros e que está pouco preocupada com a saúde da população em qualquer país, porque vende bebida alcoólica e incentiva o seu consumo, acaba sobrepondo-se a uma legislação recém-criada, a qual foi feita a muito custo, com um trabalho enorme do Ministério Público junto à Confederação Brasileira de Futebol.

Na verdade, não foi uma lei que proibiu o consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas dentro e nas proximidades dos estádios, mas sim um protocolo de intenções celebrado, em 31 de agosto de 2007, pelo Conselho Nacional de Procuradores Gerais (CTNG) do Ministério Público dos estados e da União, e pela CBF, para jogos sob responsabilidade da confederação brasileira (Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro). Para os Estados de São Paulo e Minas Gerais, os respectivos Ministérios Públicos também formaram um termo de ajuste de conduta com as federações locais. O de São Paulo foi feito após a guerra do Pacaembu, em 1995, por iniciativa do promotor público Fernando Capez. Os termos nacional e de Minas Gerais tiveram como base as minhas pesquisas, as quais demonstram que existe forte relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a violência em dias de jogos.

De fato, ainda não existe uma lei proibindo, mas há um termo de ajuste de conduta que a CBF vai deixar de cumprir. Esse termo é recente e pode não ter desdobramentos. O meu grupo de pesquisas, por exemplo, está começando a elaborar um texto para enviar à grande mídia e para esse conselho de procuradores, mostrando que a intervenção da Fifa fere o direito de soberania nacional. Até que ponto um país tem que se curvar a uma instituição internacional?

Tenho plena convicção de que essa submissão se dá por conta do grande poder que o capital tem sobre qualquer outro valor humano em uma sociedade como a nossa, principalmente em relação ao capital periférico, que é o caso brasileiro.

Universidade do Futebol – Uma das medidas para reduzir a violência dentro dos estádios e nos dias de jogos seria termos clássicos com a presença apenas da torcida do time mandante. Qual é sua opinião sobre isso? Qual o impacto sociológico no curto, médio e longo prazos de uma medida como essa? 

Heloísa Reis – Primeiramente, uma medida como essa fere completamente a cultura do futebol. Sempre houve acesso aos ingressos por parte dos torcedores visitantes e, de repente, o Ministério Público vê como inviável garantir a segurança de uma quantidade grande de torcedores visitantes e impõe a restrição de 10% de público.

Isso é uma diminuição significativa na quantidade de pessoas, o que facilita o controle por parte dos agentes públicos de segurança. Só que quando se coloca esses 10% em números de espectadores, ainda é uma quantidade muito grande de torcedores visitantes, pois são entre 3.500 e sete mil lugares dos estádios brasileiros.

Existe uma experiência de sucesso na Espanha, onde se permite, em clássicos, nos maiores estádios do país, como, por exemplo, o do Barcelona, de 300 a 500 torcedores da equipe visitante. Funciona muito bem, porque a polícia nacional espanhola consegue dar proteção para esse número reduzido de torcedores. Então, por um lado, a diminuição do número de público visitante ou a sua inexistência pode facilitar o trabalho das autoridades públicas.

Por outro lado, quando essa iniciativa parte do Ministério Público é grave, pois as próprias autoridades estão decretando a falência da instituição que cuida da segurança pública no estado e no país, dizendo que não há condições de se dar segurança para a população em dias de jogos. Isso é muito grave!

Enquanto medida paliativa pode dar resultado. Deu certo na Espanha.

A mídia, de maneira geral, tem dito que isso acontece na Argentina. É mentira. Estive em contato com pesquisadores desse país há pouco tempo e eles disseram que essa experiência ocorreu em apenas um jogo entre River Plate e Boca Juniors, mas não se repetiu porque a população não admitiu esse tipo de mudança cultural no futebol. No entanto, isso é feito na terceira divisão do futebol argentino, na qual a medida foi bem vista.

Penso que, em vez de se proporem soluções mágicas para um problema complexo, já que isso não dá resultado, deve ser atacado em diversas frentes e por diferentes instituições governamentais. Deveria se tomar mais cuidado e agir com mais cautela ao realizar certos tipos de declarações e propostas, trabalhando mais as questões estruturais com projetos junto às torcidas organizadas para aproximá-las da universidade e mostrar que o Estado está preocupado com a juventude e, por isso, está auxiliando no desenvolvimento dos jovens por meio de propostas de lazer e de oficinas que vão ajudá-los no seu desenvolvimento humano, em um sentido mais positivo.

Isso surtiria muito mais efeito do que inflamar os torcedores, dizendo que eles não poderão mais assistir aos jogos como visitantes.

Universidade do Futebol – Você realizou um estudo comparativo entre a violência nos estádios no Brasil e na Espanha. Qual o resultado desse estudo? É possível traçar um paralelo com outros países, como Inglaterra, por exemplo?

Heloísa Reis – Realizei um estudo aprofundado sobre a Espanha, questionando por que diminuiu a violência por lá. Como houve essa redução? Quais eram as raízes dessa violência?

A pesquisa abordou a Europa de maneira geral, porque as ações tomadas na Espanha foram motivadas por um convênio feito no continente em 1985, o que também serviu de base para o que foi realizado na Inglaterra.

É gritante a diferença entre o que se observa no Brasil e o que se faz na Europa. Isso habita exatamente nas questões sobre as quais conversamos de maneira mais detalhada, que passam por uma legislação específica, muito bem elaborada e detalhada, que fez com que praticamente zerasse a impunidade nesses países. Realmente, as pessoas que cometem atos de violência são punidas e se tornam casos exemplares, o que desmotiva outras pessoas a fazerem o mesmo.

Simultaneamente a esses trâmites legais, houve a remodelação de todos os estádios, de maneira que se deu condições de conforto e segurança a todos os torcedores. Além disso, houve uma mudança radical no que se refere à venda de ingressos, motivando as pessoas a comprarem as entradas por temporada, o que minimizou muitos problemas de conflitos na busca por ingressos. Isso, no Brasil, é um dos fatores que mais gera conflitos: ninguém consegue comprar entradas nas bilheterias oficiais, para conseguir é preciso ficar de cinco a sete horas na fila, e ingressos de estudante acabam muito rápido, entre outros agravantes na situação.

Nesses países da Europa sobre os quais estamos falando, também há uma polícia especializada, altamente qualificada e competente para lidar com o público que vai aos estádios.

Resumidamente, essas mudanças, que são necessárias no Brasil, foram realizadas na Espanha e na Inglaterra, juntamente com campanhas educativas, que lá foram feitas em menor quantidade do que eu acredito que precise ser feito no Brasil, porque, nesses países europeus, a população tem educação pública de qualidade, tem, de fato, direitos de cidadão, o que ainda não conquistamos no Brasil, além de terem instituições públicas que protegem o cidadão. Ou seja: existe, verdadeiramente, cidadania nesses países-modelo; no Brasil, não.

Então, o paralelo que tem que se traçar é: o quanto estamos distantes de resolver esses tipos de problema? Porque, para minimizar a violência em dias de jogos temos que levar em conta pelo menos essas frentes que eu apontei, aliadas às questões estruturais de uma população com melhor nível de instrução, com moradia decente, que tenha projetos de vida, com condições familiares e de emprego adequadas. O que não se observa no Brasil.

Universidade do Futebol – Pela sua experiência no tema violência no futebol e na forma como ele é tratado pelas autoridades, seria possível projetar como o país estará na Copa do Mundo de 2014 nesse quesito?

Heloisa Reis – Se as coisas continuarem da maneira como estão, na Copa de 2014 vai estar tudo muito ruim nesse sentido. Isso me preocupa muito e parece que preocupa só a mim, talvez porque eu tenha uma dimensão maior do problema.

Por um lado, pode ser que não aconteçam grandes casos de violência, porque as cidades-sede poderão ser tomadas pelo Exército Brasileiro, como aconteceu no Pan de 2007, o que irá transmitir para as pessoas que estiverem no Brasil durante esses dias uma sensação de vigilância e de repressão que iniba casos de violência. Essa experiência do Pan do Rio de Janeiro mostrou que o governo brasileiro, quando quer colocar a tropa na rua, consegue inibir a violência.

Por outro lado, esse tipo de policiamento não é o melhor e põe em risco a população por não existir uma polícia especializada. Se houver a vinda dos hooligans ingleses e dos aguante (barra bravas) argentinos, será algo realmente preocupante. Existe um ódio muito grande entre a população desses dois países, em função da Guerra das Malvinas, e temo que elas tomem a Copa do Mundo do Brasil para continuar com um conflito político, que foi essa guerra. Acho muito provável que isso ocorra, porque um dos afazeres desses torcedores ingleses é viajar para outros países e causar tumultos que tomem espaço na mídia. Aliado a isso, os aguante também têm motivação de estar nos meios de comunicação. Acredito que esse encontro pode ser muito perigoso, principalmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde eles devem acontecer.

Por isso, se as nossas autoridades continuarem tratando o problema apenas com medidas paliativas, repressivas e autoritárias, não vamos chegar à Copa do Mundo de 2014 com uma política pública de qualidade como é necessário para se prevenir a violência nos estádios. Mas, no evento em si, como citei, pode ser que se coloque as tropas nas ruas, e isso seja uma tremenda intimidação para a população de um modo geral.

Essa questão também estará aliada ao tratamento que a mídia vai dar para a Copa, o que ainda não foi desenhado. É necessário conscientizar a população brasileira de que essa Copa não foi feita para nós. Esse evento vai ser, como sempre foi, para quem tem mais recursos financeiros, para os detentores do capital, que vão comprar os ingressos com muita antecedência.

Para o brasileiro vão sobrar os jogos que ninguém assiste, mas só para alguns brasileiros também. Não para as torcidas organizadas, não para os menos abastados. É importante deixar claro que esse é um macro-espetáculo esportivo que sempre foi das elites e não vai ser no Brasil que também não ficará nas mãos delas.

Universidade do Futebol – Como você acredita que o trabalho da imagem do atleta e a maneira que ele aparece na mídia podem influenciar a sociedade?

Heloísa Reis – A política da Espanha, por exemplo, demonstrou para o sindicato dos jogadores e para os clubes que é necessária a criação de uma imagem diferenciada do jogador. Não como um semideus, como um rei, como um ídolo intocável. É preciso que esses atletas tenham uma imagem de um ser comum que teve a oportunidade e se esforçou para se tornar um profissional bem-remunerado.

Então os jogadores, ao fazerem parte de um grande clube, precisam criar uma imagem exemplar, não ser uma figura que faça propaganda de bebidas alcoólicas ou de outras drogas lícitas. Uma imagem que está muito mais vinculada aos valores positivos do desenvolvimento humano, pessoas que não usam drogas. É inconcebível pensar um jogador fazendo campanha publicitária de uma marca de cerveja.

Além disso, na medida do possível, os jogadores têm que ficar mais próximos da torcida. Ao final do treino, os atletas dirigem-se aos torcedores que estão assistindo à preparação e, eventualmente, conversam com alguém que os procure. Quando estão em público, são atenciosos com as pessoas que se dirigem a eles de maneira educada para não criar a ilusão de que o atleta é uma estrela intangível, o que acaba fazendo com que as pessoas criem um fanatismo mais perigoso do que se for construída uma imagem de uma pessoa comum que, durante aquele momento da sua vida, está servindo a um grupo de torcedores que tem, nesse jogador, uma grande expectativa de despertar de emoções, de acordo com o que ele possa fazer dentro de campo.

É essencial que os jogadores não se envolvam em acidentes de carro estando bêbados. Na Europa, a pressão em relação a isso é muito grande, ao contrário do que acontece no Brasil. Aqui, o atleta envolve-se em acidentes, mata pessoas por estar dirigindo embriagado, e isso passa a ser uma questão privada, e não uma questão pública, como tem que ser. Ele tem que ser um exemplo, e não alguém que é beneficiado e vive a impunidade por ser uma figura pública.

Universidade do Futebol – Você acredita que a Sociologia pode ser uma ferramenta para que os brasileiros entendam a importância de receber uma Copa do Mundo e para que eles se preparem para acolher os turistas das diferentes partes do planeta? Como a universidade pode ajudar nessa conscientização e como ela pode dialogar com a população brasileira?

Heloisa Reis – A Sociologia é uma das áreas do conhecimento que mais podem contribuir para o entendimento da população sobre o que é esse esporte-espetáculo, o que é esse mega evento, e as razões pelas quais a Copa do Mundo acontecerá no Brasil.

A grande contribuição da universidade será como parte da construção de uma política nacional de prevenção da violência da maneira como tentamos fazer.

No entanto, participamos muito menos do que gostaríamos, pois existe uma resistência do Poder Público para que isso ocorra. Eventualmente, ele nos chama. Não falo só sobre mim, mas vários outros professores universitários já desenvolveram e desenvolvem pesquisas sobre o tema e, mesmo assim, são muito pouco acionados.

Acredito que o nosso papel é veicular, por meio da mídia ou por meio de artigos publicados nos meios de comunicação, os resultados obtidos com todas as pesquisas. Creio que não se pode negar entrevistas, não se pode eximir de falar com a imprensa e divulgar os resultados desses estudos.

A questão também passa pela falta de seriedade, pela falta de respeito com a universidade, o que vem até do próprio Poder Público. Ele poderia levar adiante mais sugestões dadas pelos pesquisadores. Isso é parte das instituições brasileiras, pois, na Espanha, por exemplo, a universidade era a voz mais ouvida na comissão em que se sugeriam propostas legislativas e de implementação de políticas educacionais.

Contudo, acredito que seja parte do caminho a ser seguido. Há pouco tempo, não existiam estudos, não havia o Estatuto do Torcedor, e não havia a comissão de prevenção da violência. Hoje, ela não funciona, mas já existe no papel. É um caminho muito lento, mas algumas coisas estão mudando para melhor. A própria cultura governamental ainda não reconheceu o papel que a universidade pode ter.

Por isso, confio que é super importante, por exemplo, o trabalho da Universidade do Futebol, que desempenha o seu real papel: divulgando novas pesquisas, novas tecnologias, novas visões, novas perspectivas e proporcionando várias coisas interessantes para o futebol e para a educação física, também.

Leia mais:
O cravo da violência
Na Europa, combate à violência ganhou força nos anos 1980
Estatuto do torcedor
A venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios e ginásios
Medidas tomadas pela Uefa para conter a violência
A infra-estrutura dos estádios e a gestão do espetáculo futebolístico
Visão psicológica da violência no esporte
Sociologia explica violência das torcidas
O perfil do torcedor brasileiro

Futebol – A gênese da estupidez (Portal Esportivo)

por http://www.portalesportivo.com.br (sem data; acessado em 4 de setembro de 2012)

Maurício Murad, sociólogo e autor do livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias hoje”

O sociólogo Maurício Murad, Coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj, é um dos pioneiros nos estudos do impacto que o futebol pode ter na sociedade – ou o contrário. Com vários artigos, capítulos de livros e cinco obras completas publicadas, Murad acaba de lançar pela Fundação Getúlio Vargas, o livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias de hoje. A obra traça um panorama da relação histórica entre violência e futebol.

Como se deu a relação entre violência e futebol ao longo dos anos?

Maurício Murad “O futebol acaba expressando a violência geral da sociedade. Então, aumentando a violência geral na sociedade, ela tende a aumentar também no futebol. É o que aconteceu no futebol brasileiro a partir dos anos 1980. Também há situações específicas da realidade brasileira que aumentaram a violência. Essas situações são basicamente duas: corrupção e impunidade. A corrupção principalmente policial e dos órgãos da Justiça, que nós temos acompanhado nos jornais. Outro fator que complementa a corrupção, porque um é irmão gêmeo do outro, é a impunidade. Também, à partir de 1996, aumentou o tráfico de drogas entre as torcidas. A polícia sabia, isso foi avisado e muito pouco foi feito para conter”.

Em que nível aumentou a violência no futebol brasileiro a partir dos anos 1980?

Maurício Murad – “As torcidas organizadas começaram no Brasil nos anos de 1940. A primeira é do São Paulo, em 1940, e no Rio de Janeiro é a “Charanga Rubro-Negra”, de 1942. Mas as torcidas entre o início dos anos 1940 e o final dos anos 1960 eram torcidas ‘carnavalizadas’. Famílias iam para o estádio fazer festa, cânticos, batucadas. Havia, inclusive, um concurso no qual a torcida mais animada ganhava uma geladeira, um eletrodoméstico raríssimo na época. No final dos anos 1960, no quadro da Ditadura Militar, começaram surgir essas torcidas organizadas violentas. Elas surgiram observando os padrões de autoritarismo e repressão, de militarismo que reinava naquela época. As torcidas se organizam em pelotões, tropas de choque, em destacamento. Curiosamente, não por coincidência, é época do governo Médici, o mais repressivo da Ditadura Militar.

Só que para essas torcidas, nascerem, crescerem, ganharem corpo e começarem a praticar atos de violência levou um tempo. Então, foi entre 1970 e 1985, que elas nasceram, saíram do papel, foram para a prática e começaram a aparecer nas páginas policiais, porque não houve contenção. Mas é importante frisar que são minorias dentro da organizadas, algo em torno de 5% ou 7%. Mas são minorias perigosas.

Banir as torcida organizadas ajuda a combater a violência?

Maurício Murad – “Houve uma tentativa por parte da Promotoria Pública do Estado de São Paulo – em 1995, após a morte de um torcedor – de acabar com as torcidas organizadas. Eles acabaram com a “Mancha Verde” do Palmeiras, que era considerada a torcida mais violenta do Brasil. A “Mancha Verde” não deixou de existir, ela mudou o nome, passou a se chamar “[Mancha] Alvi-Verde”, com os mesmos dirigentes, os mesmos grupos. Eles deram um drible na justiça.
Não é por aí. Se você tenta acabar com as torcidas você as empurra para a marginalidade, elas deixam de existir legalmente. Com isso se facilita a ação de grupos marginais, grupos infiltrados nas torcidas. Assim, se inibe a participação dos grupos legais, que estão ali para festa, para manifestar seu gosto pelo futebol”.

Como você avalia a cobertura da mídia com relação aos casos de violência nos futebol brasileiro?

Maurício Murad “A mídia acaba ajudando muito a violência. Ela vive como o país todo – e não é só o Brasil, esse é um traço da época contemporânea – a espetacularização. Tudo vira espetáculo, tudo vai para a televisão. A mídia não cria o fato, mas aumenta a sensação dele. Ela tinha que tomar cuidado, ter critérios éticos claros sobre o que publicar e como publicar.

O que as pesquisas provam é que os torcedores que vão para as primeiras páginas dos jornais, ou para a televisão no horário nobre, adoram isso. Eles viram heróis, ficam glamourizados. No entanto, os torcedores que querem defender a pacificação das torcidas sempre reclamam que não tem espaço. A mídia é uma situação dúbia: por um lado, ela aumenta a sensação de violência, mas por outro, ela é um instrumento fundamental de parceria que a gente tem para melhorar as coisa, porque na sociedade da imagem ela é essencial para educar”.

Qual a diferença entre a violência praticada por torcedores europeus para a praticada por torcedores brasileiros?

Maurício Murad – “Eu passei um período na Europa estudando isso e participei de um grupo de discussão da UEFA [entidade máxima do futebol europeu]. Na Europa tem grupos neo-nazistas, grupos contra imigrantes, grupos racistas, o que não tem muito aqui.

Lá tem tráfico de drogas e armas, coisa que aqui no Brasil é muito menor e mais recente. Na Europa tem violência de forma organizada muito maior do que aqui. Em compensação a punição é maior também, a ação dos órgãos de segurança é muito mais rápida e ágil do que aqui. Lá as práticas de violência são maiores e mais graves, mas em compensação a ação da sociedade estruturalmente organizada pela lei e pelos critérios da democracia é muito mais forte, então ocorre mais ou menos um equilíbrio.

O que me surpreende no Brasil é como não acontece uma grande tragédia a cada jogo. A inoperância policial, a falta de planejamento e a ineficácia é tão grande que o difícil não é entender quando acontece um fenômeno da violência, e sim como não acontece sempre esse fenômeno em cada grande jogo”.

Violência das torcidas de futebol na mídia

Cadastro de torcedores: solução para a violência nos estádios? (Universidade do Futebol)

Gustavo Lopes

06/07/2012

Autoridade e entidades organizadoras de eventos não devem aumentar exigência, mas tratar fãs com respeito

A segurança corresponde a um direito individual e social do cidadão brasileiro previsto nos artigos 5º e 6º da Constituição Federal. Sendo assim, de fato, é um dever de todos assegurá-la, impedindo a violência.

A violência no esporte é uma das faces da ausência de segurança cotidiana na sociedade e justamente na atividade esportiva onde deveria haver sua sublimação. Famílias por diversas vezes evitam os estádios, pois os vêem mais como espaço violento, que palco de acontecimentos esportivos.

Neste esteio, a união de todos os envolvidos com a atividade esportiva é essencial para que o desporto brasileiro não faça mais vítimas como o jovem Alex Fornan de Santana, de 29 anos, torcedor do Palmeiras, morto em 21 de fevereiro de 2010 após partida entre Palmeiras e São Paulo válida pelo campeonato paulista, em confronto de torcidas. Este caso recente é apenas um dentre centenas de outros ocorridos pelo mundo.

Muitas medidas são aventadas, propostas e estudadas. O Estatuto do Torcedor, após as alterações introduzidas pela Lei 12.299/2010, passou a exigir o cadastro de torcedores por parte das torcidas organizadas e, ainda, criminalizou uma série de atos dos torcedores. Há quem defenda que o cadastro de torcedores não deve se restringir às “Organizadas”, mas que deve se estender à totalidade de torcedores.

É imprescindível destacar que a violência nos estádios não é característica exclusiva dos desportos brasileiros, cujo nascedouro é atribuído às torcidas organizadas.

Na América Latina, especialmente na Argentina, os torcedores violentos são conhecidos como Barra Brava que correspondem a um tipo de movimento de torcedores que incentivam suas equipes com cantos intermináveis e fogos de artifício que, ao contrário das torcidas organizadas não possuem uniformes próprios, estrutura hierárquica e muitas vezes nem mesmo associados.

Na Europa, os torcedores violentos são conhecidos como hooligans, em especial a partir da década de 1960 no Reino Unido com o hooliganismo no futebol.

A maior demonstração de violência dos hooligans foi a tragédia do Estádio do Heysel, na Bélgica, durante a final da Taça dos Campeões Europeus de 1985, entre o Liverpool da Inglaterra e a Juventus da Itália. Esse episódio resultou em 39 mortos e um elevado número de feridos.

Os hooligans ingleses foram responsabilizados pelo incidente, o que resultou na proibição das equipes britânicas participarem em competições européias por um período de cinco anos.

A escalada de violência nos estádios do Reino Unido foi tamanha que começou a afetar não apenas os residentes locais, mas também a ter consequências para a Europa continental.

Por este motivo, o hooliganismo arranhou a imagem internacional do Reino Unido, que passou a ser visto por todos como um país de violentos arruaceiros, cujo ápice se deu com a tragédia de Heysel.

Insuflada por esse acontecimento, a então primeira-ministra britânica Margareth Thatcher entendeu que o hooliganismo havia se tornado problema crônico e que alguma providência deveria ser tomada.

Entendendo que o aumento do controle estatal minimizaria a violência, a “Dama de Ferro” sugeriu a criação da carteira de identidade dos torcedores de futebol (National Membership Scheme) no Football Spectators Act (FSA), em 1989.

Alguns meses após a divulgação do FSA, ocorreu a maior tragédia do futebol britânico. Na partida válida pelas semifinais da FA Cup entre Liverpool e Nottingham Forest, no estádio de Hillsborough, do Sheffield Wednesday, 96 torcedores do Liverpool morreram, massacrados contra as grades que separavam a arquibancada do campo.

A fim de apurar os motivos da tragédia, o governo britânico iniciou investigação cuja conclusão foi de que o problema não seria os torcedores, mas as estruturas que os atendiam. Muito pior que os hooligans, era a situação dos estádios britânicos naquela época. Não seria possível exigir que as pessoas se comportassem de maneira civilizada em um ambiente que não oferecia as menores condições de higiene e segurança.

Para evitar que novas tragédias se repetissem a investigação realizada, em sua conclusão, estabeleceu uma série de recomendações como, por exemplo a obrigação da colocação de assentos para todos os lugares do estádio, a derrubada das barreiras entre a torcida e o gramado e a diminuição da capacidade dos estádios. Dentre as recomendações estava o cancelamento do projeto da carteira de identificação dos torcedores, eis que havia o receio de que o cadastramento aumentasse o problema da violência, e não o contrário.

Além dos questionamentos sobre a real capacidade dos clubes conseguirem colocar em prática um sistema confiável de cadastro, controle e seleção de torcedores e, ainda, sobre a confiança na tecnologia que seria utilizada, o argumento se baseava na ideia de que a carteira de identidade para torcedores não seria uma ação focada na segurança, mas na violência e as tragédias nos estádios não seriam questão de violência, mas de segurança. Inclusive, a polícia inglesa, que poderia ser beneficiada com a carteira, rejeitou o projeto, que, acabou sendo abandonado.

Em razão das novas exigências, os clubes ingleses se organizaram e na temporada 1992/1993 criaram a “Premier League” que atualmente é o campeonato de futebol mais valioso do mundo.

Além do índice técnico, um dos requisitos para que um clube inglês dispute a “Premier League” é a existência de estádio com boa infra-estrutura aos torcedores.

É fato que no Brasil o problema da violência é grande, mas muito pior é o problema da insegurança. Muitas tragédias como o buraco nas arquibancadas da Fonte Nova, só aconteceu porque o estádio estava em condições ruins, caso em que a carteirinha de identificação não teria salvado as vítimas, mas melhor fiscalização nas reais condições do espaço e o fornecimento de uma estrutura apropriada para o público, certamente teria evitado a tragédia.

Destarte, apesar dos avanços conquistados, especialmente com o advento do Estatuto do Torcedor, o consumidor dos eventos esportivos no Brasil ainda não é respeitado.

Estádios com infraestrutura precária, venda de ingressos e acesso a estádios tumultuados são alguns dos problemas enfrentados rotineiramente pelos torcedores brasileiros.

O fato é que as autoridade e as entidades organizadoras de eventos esportivos ao invés de aumentar a exigência dos torcedores, devem passar a tratá-los com respeito atentando-se ao estabelecido no Estatuto do Torcedor e nos direitos básicos como segurança e organização dos eventos esportivos.
Referências bibliográficas

http://www.cidadedofutebol.com.br/Jornal/Colunas/Detalhe.aspx?id=10782, acessado em 13 de novembro de 2010.

http://www.universidadedofutebol.com.br/2010/10/1,14853,A+IMPORTANCIA+DO+DIREITO+DESPORTIVO.aspx?p=4, acessado em 13 de novembro de 2010.

http://esporte.ig.com.br/futebol/2010/02/22/confrontos+entre+torcidas+deixam+1+morto+e+20+feridos+9404363.html, acessado em 13 de novembro de 2010.

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A violência nos estádios de futebol (Universidade do Futebol)

Gustavo Lopes

15/06/2012

Colunista trabalha em dissertação de mestrado para analisar o tema e divide a questão em três partes

Nas últimas semanas, estive envolvido na conclusão da minha dissertação de mestrado que trata das causas e soluções para a violência nos estádios de futebol da América do Sul.

O trabalho desenvolveu a memória de algumas correntes existentes sobre a violência no futebol, a intenção de obter uma interpretação a partir das mais diversas teorias, como as de Eric Dunning, Norbert Elías, Heloisa Helena Bady dos Reis e outros para tentar esclarecer esse fenômeno esse fenômeno tão complexo que é a violência nos espetáculos esportivos, focando-se nos países da América do Sul filiados à Conmebol.

Os países sulamericanos filiados à entidade foram divididos em três grupos. O primeiro denominado América Andina é composto por Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. O segundo, a América Platina, é composta por Argentina, Paraguai e Uruguai.

Finalmente, por suas peculiaridades e importância futebolística, política e econômica, o Brasil é apresentado separadamente. Cada país é descrito geopolítica e futebolisticamente analisando-se a legislação antiviolência.

No capítulo seguinte, faz-se um histórico dos principais casos de violência na América do Sul para, no tópico seguinte, apontar as suas causas.

Dentre as causas da violência, busca-se a doutrina internacional para enumerar as que melhor se aplicam à América do Sul, com destaque para a falta de respeito para com os direitos dos torcedores, a precariedade da infraestrutura dos estádios de futebol, a situação sócio-econômica da população do país, a impunidade e a falta de atuação governamental.

Após, apontam-se medidas adotadas na legislação alienígena, especialmente na Inglaterra, Portugal, Espanha, Estados Unidos, dentre outros.

Por fim, na conclusão, apontam-se as causas investigadas com as respectivas soluções legislativas e/ou governamentais. Ante todo o estudado, pesquisado e avaliado, constata-se que é possível combater a violência nos estádios de futebol com medidas eficientes. Desenvolveremos algumas conclusões em colunas futuras.

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Violência das torcidas organizadas: um desafio para a Copa do Mundo de 2014

Setores radicais desses grupos precisam abandonar a violência como prática. Com isso, ganharão legitimidade e terão um longo caminho a percorrer na história do nosso esporte

Rodrigo Monteiro*

03/04/2012

A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro têm mobilizado autoridades e a sociedade brasileira em discussões acerca do legado que esses megaeventos deixarão para o país e, sobretudo, para as cidades-sede desses eventos.

Uma dessas heranças é o novo Estatuto do Torcedor, sancionado em julho de 2011. Seu principal objetivo é coibir a violência nos estádios.

Em pesquisa realizada pelo Ibope e pelo jornal Lance!, publicada em agosto de 2010, 60% dos entrevistados disseram-se a favor da extinção das torcidas organizadas. Por um motivo simples: depois de já terem ocorrido tantos conflitos violentos envolvendo torcedores, a sociedade enxerga esses grupos como uma ameaça.

Masculinidade exacerbada e disputa territorial constituem práticas comuns de alguns grupos de torcedores organizados e revelam o que o sociólogo alemão Norbert Elias chamou de ethos guerreiro (entendido como vontade e disposição para agredir e destruir fisicamente o rival) que constrói uma das muitas identidades masculinas.

A esperança é que a reforma do estatuto ajude a combater o problema. Uma das novas punições previstas para torcedores violentos exige que eles se apresentem em delegacias durante os jogos. A norma é inspirada na legislação inglesa que cuida dos famosos hooligans. O texto também proíbe e pune cambistas, exige maior transparência dos organizadores dos campeonatos e prevê penas severas para os árbitros desonestos. Não há, no entanto, qualquer menção a policiais que abusem de seus poderes ou desviem-se de suas funções contra torcedores.

Alguns pontos do estatuto, porém, são polêmicos. Ele determina, por exemplo, que as torcidas organizadas se tornem juridicamente responsáveis pelos atos de seus membros. Mas será justo condenar, social e legalmente, o todo pela parte? Isso pode criminalizar as organizadas e ameaçar o direito à livre associação, uma das garantias constitucionais básicas de qualquer democracia.

O estatuto também mantém a proibição da venda de bebidas alcoólicas. No entanto, é sabido que os únicos produtos que podem ser vendidos nos estádios e em seus arredores são os licenciados pela Fifa. Entre esses produtos, estão bebidas alcoólicas de empresas patrocinadoras da entidade. Ao que parece, essa questão já foi superada e a favor dos interesses da Fifa e de suas associadas.

Cabe, então, a pergunta: de quem será a soberania nos dias de Copa? Do Estado brasileiro ou da Fifa?

É evidente que os setores radicais das organizadas precisam abandonar a violência como prática. Com isso, ganharão legitimidade e terão um longo caminho a percorrer na história do nosso esporte. Para que isso ocorra, algumas medidas simples podem ser eficazes.

Bandeiras (em duplo sentido) legítimas para as organizadas não faltam: questionar o comando da CBF; bem como os mandos e desmandos das federações estaduais; a relação promíscua entre técnicos, empresários e dirigentes; o elevado preço dos ingressos; os bizarros e contraproducentes horários de transmissões esportivas; transparência nos gastos públicos para a construção de equipamentos esportivos para a Copa e as Olimpíadas, etc.

Caso nenhum desses argumentos sensibilize as organizadas, ao menos que critiquem e incentivem seus clubes amados de forma civilizada. Já terá sido válido.

*Rodrigo Monteiro é sociólogo, pós-doutorando (FAPERJ), pesquisador do NUPEVI/IMS/UERJ e autor do livro “Torcer, lutar, ao inimigo massacrar: Raça Rubro Negra!”, pela Editora FGV.

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Maurício Murad diz que impunidade motiva violência das torcidas (03:14)

Redação SportTV – 28/03/2012

Sociólogo explica problema tem níveis nacionais e exige soluções.

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Isto É – N° Edição:  2212 |  30.Mar.12 – 21:00 |  Atualizado em 04.Set.12 – 05:06

COMPORTAMENTO

Como acabar com as gangues do futebol

As torcidas organizadas agem como quadrilhas, matam e aterrorizam cidades por todo o país. A repressão a esses baderneiros se tornou um desafio nacional

Rodrigo Cardoso

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APÓS A BRIGA
Torcida do Palmeiras na quarta-feira 28: calmaria depois da batalha campal do domingo

A polícia de São Paulo tomou um drible desconcertante de gangues uniformizadas que usam as cores de times de futebol para espalhar medo e matar. No domingo 25, 300 palmeirenses e corintianos, membros de torcidas organizadas, se encontraram na avenida Inajar de Souza, zona norte de São Paulo, para brigar. Dois jovens morreram após uma batalha campal às 10 horas em uma via pública movimentada, a dez quilômetros do estádio do Pacaembu, onde Corinthians e Palmeiras disputariam uma partida seis horas depois. O confronto havia sido agendado pela internet na semana anterior. Diante de tanta gente enfurecida, armada e com sede de sangue, os quatro policiais presentes em duas viaturas não tiveram como evitar a tragédia anunciada. “Eles estavam usando fogos de artifício e bombas. E a polícia não teve outra saída a não ser recuar e praticamente assistiu ao conflito”, admitiu o cabo Adriano Lopomo.

A ação das torcidas organizadas há muito ultrapassou o limite da civilidade. A situação de São Paulo é mais grave, até pelo tamanho das torcidas. Por isso, mesmo regiões distantes dos estádios ficam reféns dessas gangues. Trechos de várias cidades brasileiras estão sujeitos à violência desses baderneiros em dia de futebol e a população fica sitiada. No mesmo domingo 25, na capital cearense, o clássico Ceará e Fortaleza foi marcado por ocorrências antes, durante e depois do jogo. Guardas municipais foram baleados por torcedores em um terminal de ônibus, pessoas consumindo drogas, praticando furtos e brigando na arquibancada acabaram na delegacia. Objetos foram lançados contra os carros na BR-116. Uma semana antes, em Campinas, um jovem de 28 anos foi espancado e morreu em uma briga entre torcedores dos times rivais Guarani e Ponte Preta.

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BADERNA
Torcida do Corinthias a caminho do jogo no
domingo 25: armas, bombas e fogos de artifício

Esses encrenqueiros começaram a frequentar as páginas policiais em meados dos anos 1980. Depois, desceram das arquibancadas e passaram a se enfrentar nas proximidades dos estádios. Ultimamente, porém, candidatam-se para brigas pré-agendadas pela internet em locais distante dos jogos. Rastrear esses choques de torcidas – com a utilização de softwares modernos e pessoal treinado para esse tipo de trabalho – é obrigação da polícia. É a maneira mais inteligente de prevenir brigas que podem causar mortes. “Um monitoramento mais eficiente das redes sociais é algo a ser pensado”, admite o major Marcel Soffner, porta-voz da PM paulista.

O procurador de Justiça Fernando Capez, que combateu a violência das torcidas organizadas antes de se tornar deputado estadual pelo PSDB paulista, defende medidas mais radicais. “Policiais devem se infiltrar nas organizadas para identificar os baderneiros. É preciso fazer interceptações telefônicas para rastrear as comunicações de quem marca esses encontros pela internet, providencia as armas, as drogas e comete outros delitos”, diz ele. O promotor Paulo Castilho, diretor do Departamento de Defesa dos Direitos do Torcedor do Ministério do Esporte, reforça que é necessário promover uma prisão em massa por formação de quadrilha, tráfico de entorpecentes e espancamento. Tem de ser assim porque as torcidas organizadas estão se transformando em criminosos organizados.

Isso foi constatado no estudo “A violência e as mortes do torcedor de futebol no Brasil”, realizado entre 1999 e 2008 pelo professor Maurício Murad, titular de sociologia do esporte no mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Investigador do comportamento de torcidas organizadas há 20 anos, ele acompanhou integrantes dessas facções nos estádios, onde ouviu de alguns que não gostavam de futebol e ficavam de costas para o campo provocando outras pessoas simplesmente para brigar. “Falta ação, vontade política para tratar o problema”, diz o professor. Os clubes de futebol também devem ser cobrados, pois as organizadas têm regalias. Existem agremiações que distribuem ingressos de graça para as facções ou disponibilizam a venda para elas em guichês exclusivos. Além disso, há membros de torcidas organizadas que participam de conselhos deliberativos de times.

Diante da incapacidade do poder público de prevenir o problema e garantir a segurança de todos, alguns clubes estão partindo para medidas extremas. A repercussão negativa da morte do torcedor em Campinas na semana passada fez com que os presidentes do Guarani e da Ponte Preta optassem, até segunda ordem, pela disputa do clássico com apenas uma torcida. O mesmo aconteceu no mês passado no Paraná. Apenas os torcedores do Atlético Paranaense puderam assistir ao clássico contra o Coritiba no estádio da Vila Capanema. A medida, porém, fere o Estatuto do Torcedor. Com esse argumento, a procuradoria paranaense denunciou os clubes e, na quarta-feira 4, o Tribunal de Justiça Desportiva julgará o caso. Os times podem ser penalizados com multa de até R$ 100 mil. A torcida única não é novidade. Em Minas Gerais, a medida é adotada nos jogos entre Atlético e Cruzeiro desde 2010. Por causa da Copa, o Mineirão está em obras e a Arena do Jacaré, que tem capacidade para 18.850 pessoas e passou a abrigar os clássicos, não oferece segurança para comportar as duas torcidas juntas.

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PLACAR
Acima, André Lezo, que morreu na briga das duas
torcidas. Sete pessoas foram presas pela polícia

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Em São Paulo, providências mais concretas foram tomadas no dia seguinte às mortes na Inajar de Souza. Sete pessoas foram presas, policiais inspecionaram as quadras da Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde e apreenderam computadores nas duas sedes. Na casa de um dos presos, que é irmão de um dos torcedores mortos, a polícia encontrou munição, canivete e cassetete. Para a delegada que conduz o caso, Margarette Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, não há mocinhos nesse caso. “Todos os indícios mostram que eles também são brigadores. Não estamos falando de vítimas, não estamos falando de nenhum chapeuzinho vermelho passeando na floresta”, diz ela. E, por ora, a Federação Paulista de Futebol proibiu a entrada das duas facções nos jogos.

A experiência internacional pode ser útil ao Brasil. Segundo o sociólogo Murad, que por dois anos viajou por 16 países europeus como integrante do grupo de estudos e prevenção à violência da Uefa, a entidade que rege o futebol na Europa, ninguém conseguiu acabar com a violência das torcidas. Mas contê-la e colocá-la em níveis aceitáveis foi possível em vários lugares. Na Inglaterra, a Scotland Yard criou um gabinete só para vigiar e punir os hooligans, os torcedores violentos daquele país, que foram proibidos de viajar para outras localidades da Europa. “Lá, eles foram cadastrados; clubes perderam pontos quando a torcida deles provocou conflitos; e chefes de torcidas, que também fazem tráfico de drogas, foram responsabilizados criminalmente”, enumera o professor. Os hooligans não foram extintos, mas estão sob controle da polícia e da Justiça. Na Itália, a polícia fiscaliza e prende quem combina brigas pela internet. Há muito a ser feito no Brasil e os caminhos são conhecidos. Prevenir, reprimir, prender e condenar exemplarmente é o que se espera do poder público.

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IN LOCO
A polícia apreendeu computadores nas sedes
da Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde

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Hooliganismo e a sedução da violência (Universidade do Futebol)

Caráter lúdico desse tipo de ação e ineficiência da prevenção simplesmente policial remete à necessidade de estudos sobre o comportamento social e dos governos das cidades

Carlos Alberto de Camargo

25/02/2011

Uma das ameaças a ser consideradas no planejamento da segurança da Copa do Mundo é o hooliganismo, que não se confunde com a violência das torcidas organizadas brasileiras – esta última, em termos de Copa do Mundo, representa uma ameaça mais remota; mas o estudo do hooliganismo contribui para o entendimento da violência de nossas torcidas.

A capacidade de sedução da violência é a principal mensagem que o diretor Phillip Davis pretendeu passar no vídeo “Fúria nas Arquibancadas”, em que o personagem John Brandon, policial britânico infiltrado com três outros companheiros na torcida do Shadwell (um time fictício) a fim de conseguir informações necessárias ao controle da violência, acaba sendo cooptado por essa violência, absolutamente fascinado por ela, adotando o mesmo modo de vida dos hooligans, com suas inúmeras brigas e intermináveis bebedeiras.

É a mesma sedução que consta no testemunho pessoal do jornalista Bill Buford, em seu livro “Entre os Vândalos”, também infiltrado durante quatro anos na torcida do Manchester United a fim de descobrir por que os jovens ingleses do sexo masculino se envolviam em tumultos todos os sábados.

Na estação londrina de Marble Arch, retornando de um fim de semana violento em Turim, onde fora com a torcida acompanhar o Manchester, o jornalista surpreendeu-se com sua própria atitude. Irritado com um casal de idosos que caminhava lentamente à sua frente, amparados por suas bengalas, ele os ultrapassou, empurrando-os bruscamente e, já na dianteira, voltou-se para xingar.

Bill Buford descreve assim a violência: “Fiquei espantado com aquilo que descobri. Não esperava que violência fosse tão prazerosa. Poderia supor, caso me tivesse disposto a pensar a respeito, que a violência fosse provocante – no sentido em que um acidente de trânsito é provocante -, mas aquele prazer puro e elementar era de uma intensidade diferente de tudo que eu previra ou experimentara anteriormente. Não se tratava, contudo, de uma violência qualquer. Não se tratava de violência fortuita, ou violência de sábado à noite ou brigas de pub – era violência de massa, era essa que importava; os mecanismos muito particulares da violência das multidões”.

E o autor arrisca-se mesmo a apontar o principal combustível que movimenta esse comportamento: “a adrenalina, que pode ser tanto mais poderosa, porque é gerada pelo próprio corpo, contendo, fiquei convencido, muitas das mesmas propriedades viciantes que caracterizam as drogas sinteticamente produzidas”.

O personagem John Brandon entregou-se a essa mesma sedução, mergulhando de cabeça na espiral descendente que leva à total degradação, à negação da dignidade humana, à negação das mínimas regras necessárias a uma sadia convivência em sociedade. Entregou-se, iludido pela miragem assim descrita por Bill Buford:

“A violência apresenta uma das experiências vividas com mais intensidade e, para aqueles capazes de se entregar a ela, um dos mais intensos prazeres”. Mesmo advertido pelos seus companheiros de que essa ilusão o estava levando à autodestruição.

Tanto o livro como o filme apresentam uma impressionante sequência de escaramuças entre torcidas rivais; destacam a imagem desagradável e mesmo repulsiva do torcedor violento, acostumado a ingerir enorme quantidade de álcool, que sente tédio nos dias em que não vê futebol e que pratica delitos; e ainda procuram mostrar uma polícia inglesa às vezes omissa e à vezes excessivamente violenta.

As imagens que reproduzem a atuação da polícia nos estádios não resistem a uma análise técnica: revista pessoal falha e por amostragem, o que permite a introdução de armas, dardos e outros objetos perigosos; o policial que não mantém detidos os torcedores apreendidos por comportamento inconveniente; cenas de violência policial e a omissão da polícia em certos casos ou sua impotência quando algumas pessoas decidem desobedecer às leis.

O filme termina com nosso personagem participando de uma passeata neonazista. O livro também aborda o assunto, descrevendo como os rapazes de terno do National Front assediam as torcidas, que são o campo ideal para o recrutamento, já que se constituem em massas violentas ainda não politicamente dirigidas.

O repórter Bill Buford, ao contrário, termina sua narrativa confessando que em dado momento – quando preparava-se para viajar para Turim, nas eliminatórias para a Copa de 90 – entrou em depressão profunda: a simples ideia de um novo contato com a violência e as bebedeiras dos Hooligans o deixou doente.

Para melhor ilustrar o que pretendemos alertar, novamente nos socorremos de um exemplo inglês, desta vez narrado pelo jornalista Otávio Dias. Reportando a rebelião ocorrida na cidade de Luton, ao norte de Londres, em julho de 1995, quando durante vários dias grupos de jovens entraram em choque com a polícia, incendiando carros, apedrejando e saqueando lojas e casas, ele transcreveu depoimento de um deles: “enfrentar a polícia é a única maneira de conseguirmos um pouco de emoção”.

Todas essas observações nos fazem ficar preocupados com um dos aspectos da violência coletiva: o seu caráter eventualmente lúdico, que torna ineficaz a prevenção simplesmente policial, e que, por isso, recomenda seja objeto da preocupação de estudiosos do comportamento social e dos governos das cidades. A cuidadosa observação da forma como este problema tem sido enfrentado em todo mundo nos demonstra como eficazes: a rápida e rigorosa punição dos infratores, capaz de eliminar o sentimento de impunidade; a ocupação territorial inteligente e preventiva pela polícia, tomando o espaço dos violentos; e atuação sobre as causas da violência, como fenômeno social.

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Violência entre torcidas: respeito é a solução

(Universidade do Futebol)

Estatuto do Torcedor preocupa-se demasiadamente com a violência, sem ater-se à qualidade no trato com o torcedor, o verdadeiro destinatário do espetáculo esportivo

Gustavo Lopes Pires de Souza*

28/01/2011

No dia 27 de novembro de 2010, os amantes de futebol foram surpreendidos com um fato bárbaro: o assassinato de um torcedor do Cruzeiro Esporte Clube, em Belo Horizonte. Responsáveis foram identificados e indiciados, mas a pergunta que sobe à garganta é: “até quando?”.

Segundo pesquisa realizada pela professora Heloísa Reis, da Unicamp, o ponto de partida da violência em Minas Gerais teria sido a morte de um torcedor atleticano, que entrou em confronto direto com um cruzeirense, em Belo Horizonte, em 1967, após o Atlético perder para o Uberaba e ser eliminado da disputa pelo seu primeiro título mineiro na “era Mineirão”.

Desde então, foram vários incidentes entre atleticanos e cruzeirenses que nos últimos quinze anos contabilizam dez mortes e centenas de feridos.

Em julho de 2010, por meio da Lei 12.299, o Estatuto do Torcedor foi alterado passando a prever punição às torcidas organizadas e criminalização de atos violentos dos torcedores.

Sem embargo, o Estatuto do Torcedor fora criado em 2003 para assegurar os direitos do torcedor, e não para puni-lo. Causa estranheza haver alterações que não cuidem de algumas das principais necessidades dos torcedores, como o preço dos ingressos e o horário dos jogos.

O Estatuto do Torcedor preocupa-se demasiadamente com a violência, sem ater-se à qualidade no trato com o torcedor, o verdadeiro destinatário do espetáculo esportivo.

De fato, os responsáveis devem ser punidos exemplarmente, mas a punição após a tragédia não é capaz de trazer de volta a vida de inocentes. Aliás, o italiano Beccaria, no século XVIII, já defendia a intervenção mínima, em sua obra “Dos Delitos e das Penas”.

Para a tão almejada paz nos estádios é necessário planejamento, respeito e organização. É preciso que a sociedade civil reivindique os direitos insculpidos no Estatuto do Torcedor, que o Poder Público atenda aos anseios e que os clubes e entidades organizadoras de eventos esportivos passem a tratar os torcedores com respeito, atentando-se ao fato de que fazem parte do patrimônio do clube.

Medidas como venda organizada de ingressos, conforto nos estádios, trariam efeitos positivos na luta contra a violência, tal como comprova a eficiente experiência inglesa que em uma década retirou o futebol local do ostracismo e transformou a Premier League em exemplo de organização e lucratividade.

Portanto, a cada ato de violência torna-se mais necessária a aplicação do Estatuto do Torcedor em sua plenitude, pois somente a lhanheza no trato com os torcedores oportunizará a queda do índice de violência nos estádios. E não se trata de inovar, mas tão somente de espelhar experiências de sucesso.

Referências

Jornal “Hoje em Dia”, Belo Horizonte, Minas Gerais, dos dias 20, 21, 23 e 24 de agosto de 2010.

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. O respeito ao torcedor como investimento com retorno esportivo e financeiro. Derecho Deportivo em Linea, Madrid. Disponível em Acesso em 27 jul. 2010

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. Os Direitos do Torcedor Brasileiro. Cidade do Futebol, São Paulo. Disponível em . Acesso em 27 jul. 2010

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. Estatuto do Torcedor: a evolução dos direitos do consumidor do esporte (Lei 10.671/2003), Alfstudio: Belo Horizonte, 2009.

*Coordenador do Curso de Capacitação em Direito Desportivo da SATeducacional. Professor de Organização Jurídica do Esporte no MBA de Gestão em Eventos Esportivos das Faculdades Del Rey. Autor do livro: “Estatuto do Torcedor: A Evolução dos Direitos do Consumidor do Esporte” (Lei 10.671/2003) Formado em Direito pela PUC/MG, Pós Graduado em Direito Civil e Processual Civil pela Unipac, Membro e colunista do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, Membro do Instituto Mineiro de Direito Desportivo e da Associação Portuguesa de Adepstos Colunista do Instituto de Direito Desportivo da Bahia e do portal “Papo de Bola”.

Agraciado com a medalha ” Dom Serafim Fernandes de Araújo” pela eficiência na atuação jurídica. Jurista, Articulista, Advogado licenciado em razão de função pública no TJMG. Professor de matérias Jurídicas no MEGA CONCURSOS, FAMINAS e Arnaldo Jansen.

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I Fórum Permanente para Discussão sobre a Violência das Torcidas de Futebol (Universidade do Futebol)

15 de setembro de 2010

Visando discutir sobre as questões sociais relevantes na atualidade que envolvem os eventos nos espetáculos futebolísticos, será realizado, em setembro, o I Fórum Permanente para Discussão sobre a Violência das Torcidas de Futebol.

O evento terá como presidente da mesa e mediador os advogados Fábio Sá Filho e Expedito Bandeira. Além deles, também contribuem para a realização do fórum o palestrante José Luiz Ratton e o debatedor Ailton Alfredo.

Veja a programação e outras informações:

Organização: Instituto Pernambucano de Direito Desportivo (IPDD), Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco (TJ/PE), Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional de Pernambuco (OAB/PE) e Escola Superior de Advocacia de Pernambuco (ESA/PE).

19:00 – Abertura

19:10
Painel Violência das Torcidas de Futebol

Presidente de mesa: Fábio Sá Filho/PE (Advogado. Mestre em Direito. Professor da FBV, UNICAP e ESA/PE. Membro da AIDTSS, do IBDD, da Comissão de Direito Desportivo da OAB/PE e do INAMA/PE. Diretor Presidente e Associado fundador do IPDD)

Mediador: Expedito Bandeira/PE (Advogado militante da área de Direito Público. Conselheiro da OAB/PE. Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB/PE)

Tema: Torcidas organizadas, cultura e sociabilidade no Brasil

Palestrante: José Luiz Ratton/PE (Professor pesquisador do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Criminalidade, Violência e Políticas de Segurança – NEPS – da UFPE. Assessor Especial do Governador para a área de Segurança Pública)

Debatedor: Ailton Alfredo/PE (Juiz Coordenador do Juizado Especial Cível e Criminal do Torcedor de Pernambuco. Mestrando em Direito. Professor Universitário. Membro do IBDD e Associado fundador do IPDD)

20:50 Encerramento

Inscrições:

Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional de Pernambuco (OAB/PE)

Rua do Imperador Pedro II, 235, Santo Antônio

Junto às Sras. Ana da Hora e Ana Maristela (Setor de Comissões)

Das 9h às 12h e 14h às 18h

Telefone: (81) 3424-1012 Ramal 230

Doações:

Não será cobrada taxa alguma. Apenas quem quiser, poderá doar 1 kg de alimento não-perecível, água mineral, roupas e/ou cobertores para serem repassados às vítimas da enchente em Pernambuco.

Atenção: os donativos serão coletados a qualquer tempo na sede da OAB/PE (de preferência, o quanto antes).

Organização: IPDD, TJ/PE, OAB/PE e ESA/PE

Apoio: Sport Club do Recife, Clube Náutico Capibaribe e Santa Cruz Futebol Clube.
Local: Auditório da OAB, Recife/PE

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Especial: violência na esfera do futebol (Universidade do Futebol)

Acontecimentos do último fim de semana no Estado de São Paulo reacendem necessidade de debate pautado na técnica e na profundidade social

Equipe Universidade do Futebol

26/02/2010

O saldo do clássico do último fim de semana entre Palmeiras e São Paulo não foi apenas os três pontos na tabela de classificação do Campeonato Paulista à equipe alviverde comandada pela primeira vez por Antônio Carlos Zago. Fora de campo – ou melhor, fora do estádio -, diversas ocorrências envolvendo torcedores das duas equipes foram relatadas pelas câmeras e detectadas pela polícia. Mas ainda mais distante da esfera principal, o jogo no estádio Palestra Itália, que se deu o chamariz.

Na Rodovia dos Bandeirantes, região de Jundiaí, um palmeirense foi morto. Dois suspeitos pelo crime foram presos pela Polícia Civil, que efetuou uma busca em pelo menos seis cidades do interior. A vítima pertencia à Mancha Alviverde. Enquanto os suspeitos têm ligação com a torcida organizada Tricolor Independente.

Além de ter provocado a morte de Alex Furlan de Santana, 29, a briga entre os dois grupos deixou 12 feridos, entre eles um são-paulino que teve amputada parte da mão direita após a explosão de uma bomba caseira. Ele foi ouvido e negou que tenha atirado o artefato.

Para a polícia, a briga pode ter sido premeditada. Na terça-feira, foram presos em São Carlos dois suspeitos de participação no crime. Os membros da Independente confessaram ter participado da briga. Mas o empresário Evandro Magno Vicentini Júnior, 29, e um adolescente, de 17 anos, negaram o crime. Vicentini continua preso, e o adolescente está numa unidade para menores de idade de São Carlos.

O menor de idade admitiu ter feito dois disparos durante a briga. Segundo ele, ninguém foi atingido, pois um tiro foi dado para cima e o outro, para o chão. Na casa do empresário, a polícia apreendeu duas espingardas cartucheiras, que passarão por perícia.

Delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Jundiaí e responsável pelo caso, Antonio Dota Júnior, acredita que os membros da organizada são-paulina que participaram da briga viajaram para assistir ao jogo em ônibus e vans que partiram de São José do Rio Preto e apanharam torcedores em outras cidades, como Piracicaba, Limeira, Campinas e Araras.

 

O comando da Polícia Rodoviária Estadual informou que policiais fizeram quatro disparos durante a briga na tentativa de dispersar o confronto. Um dos tiros atingiu a perna de um torcedor ainda não identificado.

Para Heloisa Reis, socióloga de formação e estudiosa dessa relação, a violência urbana nos dias de jogos de futebol transformou-se em uma questão de segurança pública em diversos países. Inicialmente, parecia um problema localizado apenas na Inglaterra, sob o nome de hooliganismo. Atualmente, entretanto, é um problema quase planetário. E para pensar em prevenção desta violência, é necessário buscar suas raízes, suas causas diretas e indiretas.

Todos os levantamentos científicos realizados no Velho Continente especificamente concluíram que a falta de infraestrutura dos estádios é geradora de atos de vandalismo e de outras formas de violência. Muitas recomendações do tratado europeu, então, dizem respeito à modernização dos estádios: ambientes confortáveis e seguros inibiriam ocorrências.

“No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas, inclusive como forma de protesto e enfrentamento. Aqui, a gota d’água foi o confronto de torcedores no Pacaembu em 1995, na final da Copa SP de juniores. O episódio chocou a sociedade pela crueldade dos jovens agressores armados com entulhos encontrados no próprio estádio, o que é inadmissível”, relatou Heloisa, citando justamente um duelo envolvendo palmeirenses e são paulinos, há 15 anos, pela Supercopa de Juniores.

Para ela, uma das explicações das raízes da violência relacionada ao esporte pode ser encontrada na gênese e no desenvolvimento do futebol moderno, visto como ambiente de produção e reprodução de valores de masculinidade. E outra, no sistema de metabolismo social do capital.

“Se levarmos em conta a primeira, não é de se estranhar que a ‘linha dura’ dos grupos agressores seja formada basicamente por jovens do sexo masculino. Para eles, a valentia e a força são elementos necessários para o enfrentamento do inimigo, que pode ser os torcedores adversários, a polícia – que representa ali o Estado -, os árbitros e até os jogadores do próprio time”, completou a mestra e doutora em Educação Física, atuando com ênfase em Sociologia do Esporte, Lazer e Pedagogia do Esporte.

A seguir, além da entrevista na íntegra com Heloisa Reis, a Universidade do Futebol apresenta ao público uma série de artigos relacionados à temática. E convida a comunidade a debater no espaço de comentários.

Leia mais:
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Medidas tomadas pela Uefa para conter a violência
Na Europa, combate à violência ganhou força nos anos 1980
Os cegos do castelo e a violência das torcidas de futebol
O combate ao problema e não às causas da violência
O perfil do torcedor brasileiro
Sociologia explica violência das torcidas
Apontamentos sobre o protagonismo do torcedor no espetáculo de futebol
Torcedores de futebol: uma análise sociológica
Violência nos estádios
Violência no futebol: quando as causas vão ser investigadas?
O cravo da violência
Comportamento e infraestrutura para a segurança nos estádios
Estado de choque. De novo
A consequência da violência para os clubes de futebol
Civilização e barbárie
Simpatia a organizadas estabelece momento de comemoração no futebol

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Violência no futebol: quando as causas vão ser investigadas? (Universidade do Futebol)

A atuação dos meios de comunicação em relação ao tema no meio esportivo é um aspecto que deve ser repensado

GEF

16/08/2009

Mortes relacionadas ao futebol brasileiro reacendem a discussão em torno da violência no esporte. Normalmente declarações precipitadas de autoridades públicas, assim como informações desencontradas e incoerentes veiculadas pela imprensa contribuem para a formulação de “soluções mágicas”, mas que poderão comprovar-se ineficazes, dado que não consideram a amplitude e a importância do
fenômeno.

Em um primeiro momento, consideramos ser fundamental a retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência nos Espetáculos Esportivos pelos Ministérios do Esporte e da Justiça e a criação de colegiados similares nos estados, que tenham a atribuição de tratar o tema com o devido cuidado e de trazer o poder público para o cerne da discussão. Há a necessidade, também urgente, de atualização da legislação específica para o esporte, como o Estatuto do Torcedor. A tarefa é especialmente oportuna neste momento, dado que o tema está sendo discutido no Senado. Alguns pontos importantes foram acrescentados à lei, mas outros, como a melhoria da infraestrutura dos estádios, ainda não foram contemplados.

Para que as atividades sejam efetivas e contínuas, é preciso incentivar e assegurar a participação, nas referidas comissões, de representantes de diferentes esferas da sociedade (governo, entidades esportivas, torcidas organizadas, imprensa e estudiosos), de maneira a enriquecer e ampliar o enfoque das análises. Da mesma forma, ainda verificamos a urgência da criação de uma corporação de segurança especializada em eventos esportivos, pois é notório que o despreparo dos atuais agentes públicos, e o tratamento por eles conferido aos torcedores – organizados ou não -, estão entre as principais causas dos conflitos violentos.

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Brasil lidera ranking de mortes ligadas ao futebol (Universidade do Futebol)

20/07/2009

No início das pesquisas, em 1999, o país estava atrás da Itália e da Argentina. Porém, em 10 anos, o Brasil passou a liderar essa estatística

Equipe Universidade do Futebol

Um dos principais problemas a ser solucionado até a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, é a questão da violência ligada ao futebol. De acordo com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em dados fornecidos por jornais, revistas e rádios, nos últimos 10 anos, o país foi o que registrou o maior número de mortes de torcedores. Foram 42 casos.

“Quando começamos a fazer o levantamento, o Brasil estava em terceiro lugar na comparação com outros países no número de óbitos. A ordem era Itália, Argentina e Brasil. Hoje, 10 anos depois, o Brasil conquistou o primeiro lugar. É uma conquista trágica, perversa”, afirmou Maurício Murad, sociólogo e autor do estudo.

Ele afirmou a violência deveria ser um dos temas que mais deve receber atenção de governantes, e que deve ser solucionado, caso o Brasil queira ser sede da Copa de 2014.

“Essa violência é uma preocupação para a Copa porque, de todos os problemas que a Fifa acompanha, e de tudo o que o caderno de exigências determina, a segurança pública é um dos principais. O problema da segurança pública é da maior importância para o Mundial”, disse Murad, em entrevista publicada pela Agência Brasil.

De acordo com o pesquisador, ao contrário da Itália, que promoveu uma reforma na legislação para punir exemplarmente dirigentes ou torcedores que estimularem a violência, o Brasil ainda não adotou medidas efetivas.

Segundo o estudo, os números pioraram. Se no período de 10 anos a média é de 4,2 mortes a cada ano, no período entre 2004 e 2008 o número de mortos totaliza 28, dando uma média de 5,6 por ano. Apenas em 2007 e 2008, 14 pessoas morreram, o que dá uma média de sete por ano.

“Cresceu a violência no futebol porque cresceu a violência no país. E cresceu a violência no país porque a impunidade e a corrupção são cada vez maiores”, disse o sociólogo.

Conforme a pesquisa, a maior parte das vítimas fatais era composta por jovens entre 14 e 25 anos, de classe baixa ou média baixa, com escolaridade até o ensino fundamental e, em geral, desempregado. Também foi constatado que, em grande parte, esses torcedores não eram ligados a práticas de violência.

“Em quase 80% dos casos, as pessoas não tinham nenhuma ligação com setores violentos ou delinquentes de torcidas organizadas. Apenas em 20% é que os óbitos eram de pessoas ligadas a grupos de vândalos”, concluiu Murad.

*   *   *

O cravo da violência (Universidade do Futebol)

No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas

Heloisa Reis

03/07/2009

A violência urbana nos dias de jogos de futebol transformou-se em uma questão de segurança pública em diversos países. Inicialmente, parecia um problema localizado apenas na Inglaterra, onde recebeu o nome de hooliganismo. Hoje, no entanto, é um problema quase planetário. E para pensar em prevenção desta violência, é necessário buscar suas raízes, suas causas diretas e indiretas.

Quarenta e seis países europeus adotaram políticas nacionais de prevenção elaboradas a partir de um acordo firmado no Conselho da Europa. A gota d’água foi a tragédia do estádio Heysel, na Bélgica, em 1985, que deixou 39 mortos após tumulto na final da Copa dos Campeões.

Os primeiros participantes do Convênio Europeu sobre a violência e mau comportamento em eventos esportivos foram Inglaterra, Itália e Espanha. Hoje, países com o maior sucesso na promoção de espetáculos de futebol. Na Espanha, foram constituídas duas comissões para o estudo do problema: uma de senadores, com um período de trabalho de dois anos; e outra em âmbito interministerial. Tais trabalhos subsidiaram a elaboração da lei de esporte espanhola de 1990, que dedica um capítulo especificamente ao tema. A nova legislação tornou ágil o julgamento dos delitos e delimitou as penas impostas aos clubes em casos de violência de seus espectadores.

Todos os estudos realizados concluíram que a falta de infraestrutura dos estádios é geradora de atos de vandalismo e de outras formas de violência. Por isso, muitas recomendações do tratado europeu dizem respeito à modernização dos estádios. Ambientes confortáveis e seguros inibem a violência.

No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas, inclusive como forma de protesto e enfrentamento. Aqui, a gota d’água foi o confronto de torcedores no Pacaembu em 1995, na final da Copa SP de juniores. O episódio chocou a sociedade pela crueldade dos jovens agressores armados com entulhos encontrados no próprio estádio, o que é inadmissível.

Uma das explicações das raízes da violência relacionada ao esporte pode ser encontrada na gênese e no desenvolvimento do futebol moderno, visto como ambiente de produção e reprodução de valores de masculinidade. E outra, no sistema de metabolismo social do capital. Se levarmos em conta a primeira, não é de se estranhar que a “linha dura” dos grupos agressores seja formada basicamente por jovens do sexo masculino. Para eles, a valentia e a força são elementos necessários para o enfrentamento do inimigo, que pode ser os torcedores adversários, a polícia -que representa ali o Estado-, os árbitros e até os jogadores do próprio time.

A Europa vem enfrentando há alguns anos dificuldades com o racismo. Uma causa direta do problema é a intolerância dos integrantes de movimentos neonazistas que encontraram nos estádios um local para divulgar sua ideologia. Este cenário é mais um exemplo de que a violência pode se manifestar de diferentes formas. Lá, agora, a principal é o racismo. Aqui, ainda é o enfrentamento com os torcedores rivais e/ou com a polícia.

Leaders’ Emotional Cues May Predict Acts of Terror or Political Aggression (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 30, 2012) — Leaders often use rousing speeches to evoke powerful emotions, and those emotions may predict when a group will commit an act of violence or terrorism, according to new research published in the journal Behavioral Sciences of Terrorism and Political Aggression.Analysis of speeches delivered by government, activist and terrorist leaders found that leaders’ expressions of anger, contempt and disgust spiked immediately before their group committed an act of violence.

“When leaders express a combination of anger, contempt and disgust in their speeches, it seems to be instrumental in inciting a group to act violently,” said David Matsumoto, professor of psychology at San Francisco State University.

As part of a five-year project funded by the U.S. Department of Defense’s Minerva Initiative, Matsumoto and colleagues studied the transcripts of speeches delivered by the leaders of ideologically motivated groups over the past 100 years. The analysis included such speeches as Osama bin Laden’s remarks leading up to the bombings of embassies in Kenya and Tanzania.

The researchers analyzed the pattern of emotions conveyed when leaders spoke about their rival group and examined speeches given at three points in time before a specific act of aggression. They compared the results with the content of speeches delivered by leaders whose groups engaged in nonviolent acts of resistance such as rallies and protests.

Among leaders of groups that committed aggressive acts, there was a significant increase in expressions of anger, contempt and disgust from 3 to 6 months prior to the group committing an act of violence. For nonviolent groups, expressions of anger, contempt and disgust decreased from 3 to 6 months prior to the group staging an act of peaceful resistance.

Matsumoto says the findings suggest a leader’s emotional tone may cause the rest of the group to share those emotions, which then motivates the group to take part in violent actions.

“For groups that committed acts of violence, there seemed to be this saturation of anger, contempt and disgust. That combination seems to be a recipe for hatred that leads to violence,” Matsumoto said.

Anger, contempt and disgust may be particularly important drivers of violent behavior because they are often expressed in response to moral violations, says Matsumoto, and when an individual feels these emotions about a person or group, they often feel that their opponent is unchangeable and inherently bad.

“Understanding the preceding factors that lead to terrorist attacks and violent events may help predict these incidents or prevent them occurring in the first place,” Matsumoto said. “Studying the emotions expressed by leaders is just one piece of the puzzle but it could be a helpful predictor of terrorist attacks.”

This study was one of the first seven projects funded by the U.S. Department of Defense Minerva Initiative. The Initiative was established in 2008 to fund social science research on areas of strategic importance to U.S. national security policy.

Journal Reference:

  1. David Matsumoto, Hyisung C. Hwang, Mark G. Frank.Emotions expressed in speeches by leaders of ideologically motivated groups predict aggression.Behavioral Sciences of Terrorism and Political Aggression, 2012; : 1 DOI: 10.1080/19434472.2012.716449

Conflitos pela água surgem no horizonte (IPS)

Inter Press Service – Reportagens

31/8/2012 – 10h21

por Thalif Deen, da IPS

conflitos Conflitos pela água surgem no horizonte

Participantes das atividades da Semana Mundial da Água, em Estocolmo. Foto: Peter Tvärberg, SIWI/CC by 2.0

Estocolmo, Suécia, 31/8/2012 – Diante da provável escassez de água nas próximas décadas, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos já previu um cenário futuro cinza: conflitos étnicos, tensões regionais, instabilidade política e inclusive matanças. Nos próximos dez anos, “muitos países importantes para os Estados Unidos seguramente experimentarão problemas relacionados à água, como escassez, má qualidade ou inundações, que alimentarão riscos de instabilidade e de fracassos no funcionamento dos Estados, aumentando as tensões regionais”, alerta a Avaliação Nacional de Inteligência, publicada em março.

Em julho, o presidente do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos, Chris Kojm, previu que até 2030 cerca de metade da população mundial (atualmente mais de sete bilhões de pessoas) viverá em áreas com severos problemas de água, elevando a probabilidade de assassinatos em massa. No entanto, o jornal The New York Timescitou Timothy Snyder, professor de história na Universidade de Yale, afirmando em um simpósio que “o pânico ecológico levará a matanças nas próximas décadas”.

Por sua vez, o diretor do Centro da Água da Universidade de Columbia, Upmanu Lall, foi mais cauteloso. “Não estou certo de que seja possível prever assassinatos em massa como resultado” da falta de água, disse à IPS. Lall afirmou que não prevê guerras ou conflitos internacionais por recursos hídricos. “Contudo, creio que a competição dentro de alguns dos maiores países, como a Índia, poderia levar a uma luta interna e ao aumento do terrorismo e dos conflitos sectários”, opinou. Porém, “evitar este futuro é possível se trabalharmos nele hoje”, ressaltou.

Este é um dos temas analisados na conferência internacional realizada em Estocolmo por ocasião da Semana Mundial da Água, que termina hoje. Lall considera realista a projeção de que, se tudo continuar igual, quase metade da população mundial viverá em “forte tensão pela água” até 2030. “É um desafio urgente, especialmente se considerarmos a possibilidade de grandes secas, por exemplo, as deste ano nos Estados Unidos e na Índia”, afirmou.

Os impactos serão muito graves e duradouros, alertou Lall. Porém, “se pudermos traduzir esta preocupação em ação, especialmente sobre com melhorar o uso da água na agricultura, de longe o setor consumidor mais ineficiente, então poderemos evitar este desastre”, aponto o especialista. No momento, há conversações nessa direção, mas não existem mandatos nem metas internacionais. Lall acrescentou que “é importante que isto seja assumido nos mais altos níveis para evitar uma considerável angústia na população e nas economias do mundo”.

Gary White, chefe-executivo e cofundador da organização Water.Org, acredita que o acesso aos recursos hídricos poderia ser motivo de conflitos nos próximos anos. “Particularmente em áreas pressionadas pela falta de água e nas quais há grandes concentrações de população pobre”, disse à IPS. “Entretanto, também acredito que a maioria dos governos que virão atuarão e adotarão políticas, regulações e acordos transitórios corretos e necessários para impedir grandes conflitos”, ressaltou.

White alertou que podem ocorrer casos de escassez aguda que teriam como consequência grandes perdas humanas e econômicas, mas acrescentou acreditar que “um conflito declarado seria algo excepcional”. Em geral, as crises regionais da água são geradas de forma relativamente lenta em comparação com a maioria dos desastres naturais, e, portanto, pode-se aprender lições para evitar impactos semelhantes em outros lugares, acrescentou.

“No entanto, essas crises e esses conflitos terão um impacto muito maior nos pobres, porque as populações mais abastadas sempre têm opções de utilizar tecnologia para tratar os recursos hídricos locais (como a dessalinização) ou para transportar água por aquedutos ao longo de grandes distâncias”, pontuou White. “Sempre afirmei que o direito básico deve ser de todos poderem pagar para obter água potável”, disse à IPS, referindo-se à decisão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de, em 2010, declarar a água e o saneamento um direito humano.

Hoje os pobres pagam mais pela água do que os ricos, seja em dinheiro ou em trabalho investido para adquiri-la. Tampouco os primeiros têm assegurada uma qualidade decente do recurso, lamentou White. “Aqui, quando digo pobres me refiro aos desfavorecidos economicamente em uma sociedade particular, e também às nações que não são tão ricas”, explicou. A menos que sejam estendidos serviços a essas pessoas, elas sofrerão, advertiu. E, para fazer isso, é preciso investimentos para desenvolvê-los e mantê-los.

“De fato, todos deveriam pagar um preço pela água, mas segundo seus meios, assim fortaleceriam seu direito de acesso a uma oferta confiável e de qualidade”, observou Lall, acrescentando que essa deveria ser a grande meta, e não apenas a declaração da água como um direito humano. Envolverde/IPS

Affluent People Less Likely to Reach out to Others in Times of Trouble? (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 30, 2012) — Crises are said to bring people closer together. But a new study from UC Berkeley suggests that while the have-nots reach out to one another in times of trouble, the wealthy are more apt to find comfort in material possessions.

While chaos drives some to seek comfort in friends and family, others gravitate toward money and material possessions, a new study finds. (Credit: iStockphoto/Rob Friedman)

“In times of uncertainty, we see a dramatic polarization, with the rich more focused on holding onto and attaining wealth and the poor spending more time with friends and loved ones,” said Paul Piff, a post-doctoral scholar in psychology at UC Berkeley and lead author of the paper published online this month in the Journal of Personality and Social Psychology.

These new findings add to a growing body of scholarship at UC Berkeley on socio-economic class — defined by both household income and education — and social behavior.

Results from five separate experiments shed new light on how humans from varying socio-economic backgrounds may respond to both natural and human-made disasters, including economic recessions, political instability, earthquakes and hurricanes. They also help explain why, in times of turmoil, people can become more polarized in their responses to uncertainty and chaos.

For example, when asked if they would move across the country for a higher-paying job, study participants from the lower class responded that they would decline in favor of staying close to friends, family and colleagues. By contrast, upper class participants opted to take the job and cut ties with their community.

Although the study does not provide a definitive reason for why the upper class, when stressed, focuses more on worldly goods than relationships, it posits that “material wealth may be a particularly salient, accessible and preferred individual coping mechanism … when they are threatened by perceptions of chaos within the social environment.”

Each experiment was done with a different group of ethnically and socio-economically diverse participants, all of whom reported their social status (household income and education) as well as their level of community mindedness and/or preoccupation with money.

In a lab setting, researchers induced various psychological states in their subjects — such as uncertainty, helplessness or anxiety — so they could accurately assess how social class shapes the likelihood of people turning to others or to wealth in the face of perceived chaos.

Chaos is defined in the study as “the feeling that the world is unknown, unpredictable, seemingly random … a general sense that the world and one’s life have turned uncertain and topsy-turvy.” This uncertainty typically triggers either a fight-or-flight or a “tend-and-befriend” response, which researchers used to assess participants reactions to induced stress.

In the first experiment, a nationwide sample of 76 men and women ranging in age from 18 to 66 were tasked with selecting, online, a visual graph that best reflected the trajectory of economic ups and downs they believed they were likely to face in their lifetimes. The results showed that the upper class and, to a small degree, Caucasian participants, were less likely than the lower class and minorities to anticipate financial instability. Lower-class participants who expected more turmoil in their lives were more likely to turn to community to cope with perceived chaos, the study found.

In the second experiment, 72 college students were asked to write about positive and negative factors that could impact their educational experience. Potential threats that they cited included canceled classes, tuition hikes and academic failures. Again, worries about chaos and helplessness spurred lower class college students — but not the upper class ones — to say they would turn to their community for support. In the third experiment, 77 students were put through computerized tasks in which they rearranged into sentences words that either alluded to chaos or something negative. This exercise was designed to prime certain participants to see their environment as unpredictable and scary. When these participants were offered five minutes to take part in a community building task where they could develop friendships with a group of their peers, only lower class participants jumped at the opportunity.

The fourth experiment had 135 students unscramble similar words into sentences and then report on how much they agreed with such statements as “Money is the only thing I can really count on” and “Time spent not making money is time wasted.” When made to feel as if the world was chaotic, upper class participants consistently agreed more strongly with these statements.

In the fifth experiment, 115 students were given a hypothetical scenario in which an employer offered them a new job for a higher salary, with the caveat that they would need to move, and potentially lose touch with their current network of family, friends and colleagues. Again, when primed with feelings that the world was uncertain and chaotic, upper class participants were more amenable to cutting ties and taking the job, whereas lower class participants opted to stay close to their support networks.

“Given the very different forms of coping that we observe among the upper and lower classes, our research suggests that in times of economic uncertainty and social instability, disparities between the haves and the have-nots could grow ever wider,” Piff said.

Other coauthors of the study are UC Berkeley psychologist Dacher Keltner; Daniel Stancato, a psychologist in Seattle, Wash.; Andres Martinez of George Mason University and Michael Kraus of the University of Illinois, Urbana-Champaign. The research was funded in part by the National Science Foundation.

Journal Reference:

  1. Paul K. Piff, Daniel M. Stancato, Andres G. Martinez, Michael W. Kraus, Dacher Keltner. Class, Chaos, and the Construction of Community.Journal of Personality and Social Psychology, 2012; DOI: 10.1037/a0029673

Fear and Driving Opportunity Motivated Changes in Driving Behavior After 9/11 (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 31, 2012) — A catastrophic event — such as a terrorist attack, a natural disaster, or market collapse — often strikes twice. There is the damage caused by the event itself, as lives are lost or left in ruin. But there is also the second act, catalyzed by our response to the catastrophic event. This second act has the potential to cause just as much damage as the first.

In the year following the terrorist attacks of September 11, 2001, there were approximately 1,600 more traffic fatalities in the United States than expected. This figure suggests the possibility that fear may have been a strong motivator for many people, leading them to choose driving over flying. This change in behavior, motivated by fear, may have ultimately led to additional deaths through traffic fatalities.

But fear does not tell the whole story. As Wolfgang Gaissmaier and Gerd Gigerenzer of the Harding Center for Risk Literacy at the Max Planck Institute for Human Development in Berlin, Germany, observe, the changes in driving behavior observed after 9/11 varied widely across different regions of the United States and did not just occur in those states closest to the attacks where fear was presumably strongest.

Gaissmaier and Gigerenzer hypothesized that another factor might have played a central role: driving opportunity. While fear provides a motivational explanation, in order for people to substitute driving for flying there had to be an environmental structure that allowed fear to manifest in a behavior change.

The researchers explore this hypothesis in a new research article to be published in Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science.

They collected data on the number of miles driven and the number of traffic fatalities per month from each of the 50 states and the District of Columbia. They also gathered data on fear and driving opportunity. They used proximity to New York City to get an approximate measure of post-9/11 fear, as previous research had shown that proximity was linked with substantial stress reactions after the attacks. To measure driving opportunity, they assessed the length of nationally significant highways in each state in the National Highway System, divided by the number of state inhabitants and they also looked at the number of car registrations per inhabitant.

The results of the analyses show that people did in fact drive more following 9/11: Across all states, the average monthly increase in miles driven per inhabitant was 27.2 miles in the three months following the attacks. This increase was significantly greater than that observed in the same three-month period in the five years leading up to 2001.

Interestingly, people who were closer to New York City showed only a slight increase in driving. Increase in miles driven was strongly associated, however, with greater driving opportunity. Most importantly, increased driving was associated with an increase in traffic fatalities. These findings suggest that fear can lead people to engage in potentially dangerous behaviors, such as increased driving, but that understanding fear is not enough.

“To be able to foresee where the secondary effects of catastrophic events could have fatal consequences, we need to look at the environmental structures that allow fear to actually manifest in dangerous behaviors.”

According to Gaissmaier, understanding citizens’ behavior as a function of both the mind and the environment ultimately allows for two routes toward behavior change: altering people’s minds (through education or awareness campaigns) or altering people’s environments.

A quem serve negar o impacto PCC? (Caros Amigos)

Publicado em Sexta, 24 Agosto 2012 14:26

Por Daniel Hirata, Adalton Marques, Gabriel Feltran e Karina Biondi

“Ao ser citada em um relatório com uma redução que posiciona a cidade abaixo da linha imaginária do índice “epidêmico”, as políticas governamentais de segurança ganham enorme respaldo nacional e internacional”

As taxas de homicídios são atualmente o grande parâmetro de avaliação das políticas de segurança em todo o mundo. Assim como a cotação do dólar e a taxa de juros para a política monetária, as flutuações das taxas de homicídios vêm sendo parâmetro de avaliação da gestão pública: cidades que conseguem reduções expressivas são vistas como modelos de ”boas práticas” a replicar. São Paulo foi incluída recentemente, no relatório de 2011 do Onudoc (United Nations Office on Drugs and Crime), como um ‘case’ na redução da taxa de homicídios em comparação com outras cidades latino americanas e brasileiras. Ao ser citada em um relatório desse tipo, sobretudo com uma redução que posiciona a cidade abaixo da linha imaginária do que é considerado um índice “epidêmico”, as políticas governamentais de segurança ganham enorme respaldo nacional e internacional.

Crédito Eleitoral

Sabe-se bem como esse ganho foi capitalizado rapidamente pelo governo paulista durante a última década. Contudo, esse crédito eleitoral e, acima de tudo, político-administrativo, não foi usufruído sem que, bem longe das razões governamentais, se constituísse um lastro que sustenta outra história acerca da redução das taxas de homicídios.

Nossas pesquisas voltaram os olhos precisamente para esta versão, levando a sério aquilo que se insiste em considerar anômico: o que dizem presos e moradores das periferias de São Paulo sobre a violência, a segurança e os homicídios. Nessa mesma direção, desde 2005, temos registrado entre eles relatos da política de “paz” do PCC (Primeiro Comando da Capital) em prisões e “quebradas”, e a importância dos seus “debates” na redução dos homicídios por ali. Sabe-se que, nesses territórios, desde a primeira metade dos anos 2000, “não se pode mais matar” sem o aval do “Comando”.

“A emergência dessa forma de regulação torna complexa a deslegitimação da “segurança pública” nas periferias, onde a repressão é sua única face: seja pela política de encarceramento em massa, pela militarização da gestão pública ou pelos achaques a que seus moradores são constantemente submetidos”

A emergência dessa forma de regulação torna complexa a deslegitimação da “segurança pública” nas periferias, onde a repressão é sua única face: seja pela política de encarceramento em massa, pela militarização da gestão pública ou pelos achaques a que seus moradores são constantemente submetidos. O impacto dessas políticas nas estatísticas é evidente, embora silenciado ativamente e sistematicamente por governos e imprensa e rejeitado por ‘think tanks’ que disputam o tema segurança pública, assim como fora praticamente desconsiderado em nossas universidades há poucos anos.

Fator PCC

Há uma razoável concordância entre os especialistas de que a violência e o homicídio são fenômenos históricos e multidimensionais. Nesse sentido, é claro que o PCC não é a única causa dessa redução. Mas digamos francamente: é um absurdo fingir que o PCC não é central para compreender esse fenômeno. Em São Paulo, há muito mais mistérios por detrás da redução dos homicídios do que supõe nossa vã criminologia. Mas, principalmente, há muito mais evidências ofuscadas sob o holofote das suposições.

Afirmamos, portanto, que os sucessivos governos do PSDB em São Paulo não são os únicos fiadores da redução da taxa de homicídios no Estado, nem mesmo os majoritários. E, ao invés de atribuirmos a fiança majoritária ao PCC, preferimos falar de sua centralidade, da importância inegável de sua política de “paz entre os ladrões” para a queda dos homicídios em São Paulo.

Etnografia

Nossa aferição não é sociométrica; antes, se trata de uma problematização etnográfica. Além do que, sabe-se que os critérios de construção dessas medidas são polêmicos e cheios de controvérsias. No Rio de Janeiro, por exemplo, onde esse tipo de controvérsia emerge de forma mais visível publicamente, uma pesquisa recente do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) sobre os “autos de resistência” problematiza a leitura fácil sobre as taxas de homicídio justamente quando volta a atenção para onde os olhos dos governos insistem em não olhar: a atuação das polícias.

“Ao largo das condecorações fáceis dos responsáveis pela miraculosa queda dos homicídios, preferimos seguir os rastros das “guerras” que continuam a aterrorizar a periferia – ainda que suas manifestações mais espetaculares tenham se tornado cíclicas”

Ao largo das condecorações fáceis dos responsáveis pela miraculosa queda dos homicídios, preferimos seguir os rastros das “guerras” (categoria usada por “ladrões” e por policiais) que continuam a aterrorizar a periferia – ainda que suas manifestações mais espetaculares tenham se tornado cíclicas. É notório em nossas pesquisas que parte das dinâmicas que produzem mortes na cidade estão relacionadas aos jogos de poder entre coletivos criminais e corporações policiais, em suas atividades oficiais e extra oficiais. A atual intensificação do caráter repressivo e militar das políticas de segurança não apenas acentua a “lógica da guerra” no controle oficial do crime, como também aumenta os custos e os conflitos operantes nos mercados extra oficiais de proteção, cujos desfechos letais são muito frequentes no cotidiano dos alvos preferenciais desse controle.

Equilíbrios Instáveis

Neste momento, ao contrário do discurso oficial que insiste em negar a existência do PCC e exibe a polícia de São Paulo como a mais eficaz do Brasil, a cidade presencia diversos assassinatos em todas as regiões da Grande São Paulo. O fato é que tanto a atuação do PCC como a das polícias são feitas a partir de equilíbrios instáveis, construídos pelas suas heterogeneidades internas e pelas relações entre ambos. Quando algo desestabiliza esse encadeamento sensível os acordos se rompem e os ciclos de mortes são detonados sem que nem mesmo seus participantes consigam identificar os autores: guerras estancadas começam a correr subterraneamente, acertos adiados passam a acontecer entre grupos com interesses conflitantes sem declaração aberta, acordos são suspensos secretamente, de modo que sempre é possível culpar o “outro lado” pela morte que não se pode nomear o autor nem as razões.

Enquanto não escancararmos com pesquisa rigorosa a caixa de pandora dessas relações para ao menos dar início ao debate, continuaremos sem qualquer resposta pública, digna, para as dezenas de assassinatos que voltaram a marcar a Grande São Paulo, bem como sem uma explicação satisfatória que correlacione a política de “pacificação” do PCC com os surtos de combate entre Estado e crime.


Daniel Hirata é pesquisador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) da UFRJ; Adalton Marques é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSCar (PPGAS-UFSCar); Gabriel Feltran é sociólogo, docente da UFSCar e membro do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da universidade e Karina Biondi é doutoranda do PPGAS-UFSCar

 

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Piauí: chantagem eleitoral para entregar água (Outras Mídias)

30 DE AGOSTO DE 2012

Chefes políticos aproveitam-se da seca e condicionam chegada de caminhões-pipa a eleição de seus candidatos

Por Tânia Martins, no Piauí Sempre Verde

[Título original: “No interior do Piauí só tem água quem vota no político que está no poder”]

Neste momento em que cerca de um milhão de pessoas do semiárido do Piauí, estão atravessando uma das mais longas secas já vista por essas bandas, denúncias apontam que políticos das regiões atingidas estão aproveitando a dor das famílias para se beneficiarem através da troca de água por voto. Os exemplos são muitos e ocorrem desde a área da Chapada do Araripe, próximo a divisa com o Ceará, na região de Picos e de São Raimundo Nonato, no Sudeste do Estado.

No município de Simões, a 470 quilometros de Teresina as entidades Cáritas Brasileira e Movimento dos Pequenos Agricultores do Estado-MPA. Garantem que cabos eleitorais conseguem manipular a distribuição da água, entregando a metade do tanque do carro-pipa deixando a outra metade para distribuir em troca de voto ou vendendo a preços exorbitantes.

As denúncias assim também ocorrem no Sul e Sudeste, onde milhares de famílias estão sem água a pelos menos dez meses. Segundo o coordenador da Cárita no Piauí, Carlos Humberto, na zona rural dos municípios da região de São Raimundo Nonato, trabalhadores rurais denunciaram que famílias que não apoiam políticos que estão no comando, ficam sem água. Segundo ele, embora o sertanejo tema denunciar os chefes políticos, alguns relataram o crime para o Correio Brasiliense, que esteve na região e publicou a denúncia. “A publicação da reportagem foi o que motivou a Cárita lançar a campanha “Não Toque Seu Voto Por Água”, em todo o semiárido nordestino.

Carlos Humberto lembra que o Comitê Estadual de Combate a Seca não tem representantes da sociedade civil, apenas instituições governamentais. Já Afonso Galvão, representante do MPA sustenta que a troca de voto por água está ocorrendo na região de Picos, porém, os trabalhadores preferem não denunciar pois temem não receberem o pouco de água que têm direito. “Existem comunidades que ficam distantes da água mais de 30 quilometros, se não for o carro-pipa, elas morrem de sede, como vem acontecendo com os animais., essas pessoas nunca que vão querer denunciar os políticos”, diz.

Ele conta que o Exército tem conhecimento da troca e venda, porém, como vem ocorrendo em muitos municípios não tem como dar conta. Já na Seção Operação Pipa no 25° Batalhão, em Teresina, a informação é que o controle de distribuição é rigoroso. Segundo um dos militares envolvido no trabalho, o comandante responsável, coronel Humberto Silva Marques, encontra-se em viagem para as regiões, apurando denúncias como as relatadas nas áreas atingidas.

Ele adianta que nos 70 municípios onde o Exercíto atua no Piauí, chefes políticos não têm acesso a fichas que dão direito a água sendo as mesmas entregues direto em mãos dos beneficiários. Na região de Simões e Socorro do Piauí, que, segunda as entidades estão vendendo água do carro-pipa por R$ 250, o trabalho é coordenado pelo o Batalhão de Cratéus-CE e que vai passar para o controle do 25° em data posterior. Os demais municípios, mais de 80, ficam sob a responsabilidade da Defesa Civil do Estado.

A Defesa da Defesa Civil também nega que esteja havendo manipulação da água. Segundo o Diretor de Unidade da Defesa Civil do Estado, Jerry Hebert, a instituição é dotada de dez fiscais que estão regularmente em campo fiscalizando a operação e até o momento não há registro de desvio de água por políticos. “Sabemos que não existe sistema seguro totalmente, mas, na medida do possível estamos trabalhando para evitar que ocorra”, assegura e diz que as Comissões da Defesa Civil dos Municípios, também fiscalizam a distribuição.
Lançamento da Campanha

No próximo dia 5, a Articulação no Semi-Árido (ASA) vai lançar a campanha Não Troque Seu Voto por Água. O objetivo é alertar, fiscalizar e denunciar os abusos no uso eleitoreiro da água, conforme denúncias de trabalhadores rurais. O evento será na Praça Rio Branco, na oportunidade será lançado também o Grito dos Excluídos.

Tânia Martins é Jornalista Ambiental

Media Violence Consumption Increases the Relative Risk of Aggression, Analysis Shows (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 27, 2012) — As president of the International Society for Research on Aggression (IRSA) and with consent of the organization’s elected council, Craig Anderson appointed an international Media Violence Commission last December to prepare a public statement on the known effects of media violence exposure, based on the current state of scientific knowledge.

The Iowa State University Distinguished Professor of psychology appointed 12 IRSA researchers to the commission, including Douglas Gentile, an ISU associate professor of psychology.

The Media Violence Commission’s research-based report concludes that the research clearly shows that media violence consumption increases the relative risk of aggression, defined as intentional harm to another person that could be verbal, relational, or physical. The report is published in the September/October issue of the journal Aggressive Behavior.

“Basically, the commission looked at, ‘What does the research literature say?'” Anderson said. “In addition, we asked them to make some recommendations, if they chose to do so, about public policy. It really was kind of an open-ended charge.”

Members took a fair and balanced look at the research

A well-known researcher on the effects of media on children, Gentile says commission members took a fair and balanced look at all of the existing research to see if they could achieve consensus, and then summarized what they found.

In their report, the commission wrote that aside from being sources of imitation, violent images — such as scenes in movies, games or pictures in comic books — act as triggers for activating aggressive thoughts and feelings already stored in memory. If these aggressive thoughts and feelings are activated over and over again because of repeated exposure to media violence, they become chronically accessible, and thus more likely to influence behavior.

“One may also become more vigilant for hostility and aggression in the world, and therefore, begin to feel some ambiguous actions by others (such as being bumped in a crowded room) are deliberate acts of provocation,” the commission wrote in the report.

The commission recommends that parents know what media their children and adolescents are using. Rating systems often provide too little detail about media content to be helpful, and in any case, are not substitutes for parents’ watching, playing, or listening to the media their children use.

“Parents can also set limits on screen use (The American Academy of Pediatrics recommends no screen time for children under 2 and no more than one to two hours total screen time per day for children/youth 3-18), and should discuss media content with their children to promote critical thinking when viewing,” the researchers wrote. “Schools may help parents by teaching students from an early age to be critical consumers of the media and that, just like food, the ‘you are what you eat’ principle applies to healthy media consumption.”

The commission recommends improving media ratings

While most public policy has focused on restricting children’s access to violent media, the commission found that approach to have significant political and legal challenges in many countries. For that reason, it recommends putting efforts into improving media ratings, classifications, and public education about the effects of media on children.

“Improving media ratings really has two pieces. One is that the media ratings themselves need to be done by an independent entity — meaning, not by an industry-influenced or controlled system,” said Anderson, himself a leading researcher of the effects of violent media on children. “They need to be ratings that have some scientific validity to them.

“But the other piece is education, and if parents aren’t educated — not just about what the ratings system does, but also about why it’s important for them to take control of their child’s media diet — then it doesn’t matter how good the ratings system is, because they’re going to ignore it anyway,” he added.

Anderson hopes the final report will have value to child advocacy groups.

“Having such a clear statement by an unbiased, international scientific group should be very helpful to a number of child advocacy groups — such as parenting groups — in their efforts to improve the lives of children,” he said.

Journal Reference:

  1. Media Violence Commission, International Society for Research on Aggression (ISRA). Report of the Media Violence CommissionAggressive Behavior, Volume 38, Issue 5, September/October 2012, Pages: 335%u2013341 DOI: 10.1002/ab.21443

The Effects of Discrimination Could Last a Lifetime (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 27, 2012) — Increased levels of depression as a result of discrimination could contribute to low birth weight babies.

Given the well-documented relationship between low birth weight and the increased risk of health problems throughout one’s lifespan, it is vital to reduce any potential contributors to low birth weight.  A new study by Valerie Earnshaw and her colleagues from Yale University sheds light on one possible causal factor.  Their findings, published online in Springer’s journal, theAnnals of Behavioral Medicine, suggest that chronic, everyday instances of discrimination against pregnant, urban women of color may play a significant role in contributing to low birth weight babies.

Twice as many black women give birth to low birth weight babies than white or Latina women in the U.S.  Reasons for this disparity are, as yet, unclear. But initial evidence suggests a link may exist between discrimination experienced while pregnant and the incidence of low birth weight.  In addition, experiences of discrimination have also been linked to depression, which causes physiological changes that can have a negative effect on a pregnancy.

Earnshaw and her colleagues interviewed 420, 14- to 21-year-old black and Latina women at 14 community health centers and hospitals in New York, during the second and third trimesters of their pregnancies, and at six and 12 months after their babies had been born.  They measured their reported experiences of discrimination.  They also measured their depressive symptoms, pregnancy distress and pregnancy symptoms.

Levels of everyday discrimination reported were generally low.  However, the impact of discrimination was the same in all the participants regardless of age, ethnicity or type of discrimination reported.  Women reporting greater levels of discrimination were more prone to depressive symptoms, and ultimately went on to have babies with lower birth weights than those reporting lower levels of discrimination.  This has implications for healthcare providers who work with pregnant teens and young women during the pre-natal period, while they have the opportunity to try and reduce the potential impacts discrimination on the pregnancy.

The authors conclude that “Given the associations between birth weight and health across the life span, it is critical to reduce discrimination directed at urban youth of color so that all children are able to begin life with greater promise for health.  In doing so, we have the possibility to eliminate disparities not only in birth weight, but in health outcomes across the lifespan.”

Data for this study came from the Centering Pregnancy Plus project, funded by the National Institute of Mental Health, and conducted in collaboration with Clinical Directors’ Network and the Centering Healthcare Institute.

Journal Reference:

  1. Valerie A. Earnshaw, Lisa Rosenthal, Jessica B. Lewis, Emily C. Stasko, Jonathan N. Tobin, Tené T. Lewis, Allecia E. Reid, Jeannette R. Ickovics. Maternal Experiences with Everyday Discrimination and Infant Birth Weight: A Test of Mediators and Moderators Among Young, Urban Women of ColorAnnals of Behavioral Medicine, 2012; DOI: 10.1007/s12160-012-9404-3

Violência no futebol argentino – fim de semana de 25 e 26 de agosto de 2012

BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

Autopista al infierno

Autopista al infierno

Un detenido por la interna de La 12.

Gustavo Grabia – Jose Sacchi

La interna de La Doce estalló en Santa Fe. Hay siete heridos de bala, tres son capos y uno está grave: es Mauro Martín, al que un disparo le destrozó el intestino.

El 11/7/12, apenas el Tribunal Seis decidió absolver a La Doce de Di Zeo por asociación ilícita, más de 200 barras cortaron la calle y festejaron al grito de “es la barra de Rafa, la que vuelve de las vacaciones, vamos a matar a todos los traidores”. Un mes y medio después, decidieron cumplirlo. Pertrechados con un arsenal y favorecidos por un operativo policial tan negligente que podría considerarse connivencia, emboscaron al grupo de Mauro Martín en el kilómetro 21 de la autopista Rosario-Santa Fe, y armaron una balacera infernal que dejó siete heridos, dos de gravedad, entre ellos Mauro Martín, al que un tiro le perforó el intestino grueso y el colon, fue operado de urgencia en el Hospital Provincial de Rosario y al cierre de esta edición estaba en terapia intensiva con pronóstico reservado, como le confirmó a Olé el director del nosocomio, Pietro Belletich.

De los otros heridos, dos son del círculo íntimo de Martín y la barra. Uno es Cristian Debaus, 38 años, apodado Fido, que recibió un tiro en la garganta y estaba internado con pronóstico reservado, en este caso en el hospital de Granadero Baigorria. Otro fue Luis Arrieta, el Loco Luis, ex jugador de Huracán y Estudiantes de Buenos Aires, que maneja un grupo grande de barras de Caseros y recibió un tiro en una mano. Otro primera línea que sufrió consecuencias fue Juan González, 26 años, al que un balazo le fracturó la tibia y el peroné. El Negro Juan es al mismo tiempo barra de Boca y empleado del Servicio Penitenciario Bonaerense. Increíble. Además Brian Arroyo (19) recibió un tiro en el esternón y estaba con pronóstico reservado, lo mismo que Darío Cantero (35) con una herida en el abdomen. Y hubo otros tres heridos leves que tras ser atendidos pudieron volver a Baires.

El plan de ataque se venía gestando hace tres semanas. A comienzos de agosto, los grupos de Los Polvorines, Hurlingham, Dock Sud, Lomas de Zamora, Claypole y Lavallol que paraban hasta julio con Di Zeo, decidieron que iban a tomar como sea la conducción de La Doce. El primer intento fue ir a San Juan a la final de la Copa Argentina. Pero sin los líderes, se les hizo complicado conseguir el financiamiento. Entonces marcaron con fibrón rojo el primer partido fuera de Capital y Provincia, donde los de Mauro tienen mucho apoyo de su club y la Policía, y dio Santa Fe. No consiguieron tickets, pero sí dinero para mover 10 micros y 11 autos. Y se mandaron igual. Decidieron salir temprano para copar la tribuna y que se pudriera adentro. La táctica era que una pelea en la cancha con la otra facción obligaría a Boca a aplicarles el derecho de admisión a todos. Y así desarticularían al grupo de Mauro. Pero cuando llegaron a Santa Fe a las 10 de la mañana, la Policía los mandó de vuelta. Insólitamente, por el mismo camino que venían los de Mauro y con sólo dos patrulleros de custodia. Cuando vieron llegar los siete micros de la facción oficial, sacaron las armas. Los de Mauro pararon para pelear. No tuvieron tiempo de decir nada. Desde un Peugeot negro 206 se bajaron Alejandro Putruelli y Facundo Cáceres Aranda y empezaron a disparar. Otros que venían en los micros se subieron a un puente de la autopista y gatillaron a repetición. No hubo víctimas fatales, por ahora, de milagro.

Los heridos fueron trasladados a distintos hospitales. Martín logró mostrar un último gesto de impunidad: consiguió que el policía que estaba de guardia en el Hospital Provincial no avisara quién era el barra que había ingresado herido. Ese oficial fue pasado a disponibilidad. Y el juez de la causa ya actúa con premura: tiene dos handies de los detenidos que podrían dar pistas de los organizadores y otros protagonistas de una guerra que promete continuar.

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

Testán investigando

Quieren determinar si hubo fuego cruzado o sólo un ataque de un sector a otro.

Quieren determinar si hubo fuego cruzado o sólo un ataque de un sector a otro.

El Juzgado de San Lorenzo ordenó el dermotest, la prueba que determina si una persona disparó un arma de fuego, a los barras baleados, entre ellos Mauro Martín. La idea es esclarecer si hubo un ataque cruzado entre ambas facciones.

Las investigaciones sobre el tiroteo entre las facciones de La Doce, el último sábado en la autopista Rosario-Santa Fe, están a la orden del día. Mientras Mauro Martín se recupera favorablemente” del disparo en el abdomen (así lo informó el director del Hospital Provincial de Rosario), que le perforó colon e intestino grueso, desde el juzgado número 12 de la ciudad de San Lorenzo avanzan a pasos firmes para sumar datos concretos.

Este sábado ordenaron la prueba de dermotest a los barras baleados en dicho cruce entre la banda de Martín y la que hasta hace un mes respondía a los hermanos Di Zeo. Dicho test sirve para determinar si una persona efectuó un disparo con un arma de fuego.

La idea es esclarecer si existió un fuego cruzado entre ambas facciones o sólo un ataque de un sector a otro. Si sólo fueron víctimas, o también victimarios. La investigación recién comienza…

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

Se va de Rosario

Mauro Martín permanece en el Hospital Provincial de Rosario. (La Capital)

Mauro Martín permanece en el Hospital Provincial de Rosario. (La Capital)

“Los familiares de Martín pidieron llevárselo”, contó el director del Hospital Provincial.

Si bien en un principio había sido rechazado el pedido, finalmente autorizaron la familia de Mauro Martín a sacarlo del Hospital Provincial de Rosario para llevarlo a uno de Buenos Aires.

Apenas fue operado, la familia de Mauro Martín había solicitado el traslado desde el Hospital Provincial de Rosario, donde fue internado luego del enfrentamiento, a uno de Buenos Aires. Y el pedido había sido rechazado. Sin embargo, en la tarde del domingo le dieron el ok y el líder de la Doce abandonaría Santa Fe en las próximas horas. Lo hará en una ambulancia de alta complejidad que llegará a Rosario.

El último parte médico que había entregado Pietro Belletich, director del nosocomio rosarino hablaba de un estado estable: “Pasó la noche consciente, le estamos tratando el dolor y esperando la evolución. El cuadro es delicado pero estable”. Mauro fue operado de urgencia el sábado por la tarde por una bala en el intestino grueso: Mauro Martín. Belletich había contado que los familiares del herido, baleado en el cruce en la autopista Rosario-Santa Fe con la facción que hace un mes lideraban los hermanos Di Zeo, pidieron llevárselo apenas fue operado. “Después de que salió de cirugía preguntaron si podían trasladarlo a Buenos Aires, y les dijimos que una vez que esté hermodinámicamente compensado podrían solictarlo. No obstante, el paciente está bajo intervención del juzgado, serán ellos quienes determinen cuándo y dónde será trasladado”, aclaró. Sin embargo, finalmente Mauro Martín llegará a Buenos Aires luego de que el Juez Filocco le tomara declaración testimonial.

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

“Yo me bajé el día de Tribunales”

Fernando Di Zeo dice que él y Rafa ya no mandan.

Fernando Di Zeo dice que él y Rafa ya no mandan.

Fernando Di Zeo reconoce que los agresores eran del grupo que comandaba con su hermano, pero asegura que ellos dejaron la conducción hace un mes.

Diez micros y once autos cruzando la autopista y autoproclamándose la verdadera barra de Boca. Más de 700 violentos peleándose primero con la Policía y tiroteando después en plena autopista a la facción de Mauro Martín. La ecuación llevó directo al apellido Di Zeo. Si hasta el jefe del operativo en Santa Fe aseguró que los barras eran de los hermanos Fernando y Rafael.

Del otro lado de la línea, Fernando, el menor de quienes dirigieron a La Doce entre 1996 y 2007, toma aire y afirma: “Sí, es cierto, ésos que fueron a Santa Fe formaban parte del grupo nuestro. Pero nosotros, los pibes grandes, no tenemos nada que ver. Yo me bajé de la barra el mismo día que terminó el juicio. Ahí, en pleno Palacio de Tribunales, decidí alejarme cuando vi que todos los que nos acompañaban cantaban que a los traidores los íbamos a matar. Ellos quieren volver a la cancha a cualquier costo, y a mí me parecía que en cualquier momento podía pasar algo y yo no quiero tener más causas por mi apellido. Lo hablé con mi mujer y me fui. Y a la semana lo convencí a Rafael”.

-Conociendo la historia de ustedes y que ya intentaron copar la barra el año pasado en el partido contra Rafaela, parece difícil creerles.

-Yo sé que todos dicen los Di Zeo esto o los Di Zeo aquello. Yo me hago cargo de lo del partido con Rafaela porque fuimos. Y no pasó nada. Pero cuando vimos cómo venía ahora la mano, decidimos salir y que hagan lo que quieran. Pueden creerme o no, pero es la verdad. Yo estuve cuatro años preso, tengo una familia, ¿sabés lo que es que tus hijos tengan que venir a verte a un penal? Yo hoy le estoy festejando el cumpleaños a mi hijo en casa y ya no quiero comerme ningún garrón por una gilada. ¿Queríamos volver a la cancha? Sí. ¿Queríamos volver a la tribuna? Sí. Pero nunca así. Nosotros crecimos en la época en que la barra se ganaba a las trompadas. Y ahora se matan con armas. En esa historia, los Di Zeo no entramos. Que investiguen todo lo que quieran, pero ni nosotros ni los pibes grandes del grupo estuvimos allá o alentamos a alguien a hacer esa locura.

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

“Estaba preanunciado”

Angelici dijo que a Falcioni le van a respetar el contrato.

“Ni Ledesma ni Ustari están inhabilitados”, dijo Angelici.

Angelici habló sobre el cruce de barras y, molesto, responsabilizó al Gobierno por los hechos: “El Estado no nos garantiza la seguridad. Ésto se podría haber evitado”, disparó. También se quejó por la suspensión de la Bombonera, que decretó la Justicia.

“Parece increíble. El estado no nos puede garantizar la sgeuridad que corresponde a todos los que vamos a la cancha. Estaba preanunciado, ésto se podría haber evitado”. Daniel Angelici habló sobre el cruce de barras que se produjo este sábado en la ruta 9, y responsabilizó directamente al Estado sobre el tiroteo entre la facción de Mauro Martín y la que hasta hace un mes respondía a Rafael Di Zeo.

“A mí no me entra en la cabeza que vayan diez micros sin entrada y que los manden de vuelta en vez de retenerlos ahí hasta que entre la totalidad y después los manden bien custodiados”, bramó. Y aseguró: “Estamos preocupados. Es un hecho lamentable porque hay heridos de bala. Y por todo lo peor que podría haber pasado”.

En diálogo con Radio Mitre, también se quejó sobre la decisión que tomó la Juticia de suspender la Bombonera por una fecha, tras los incidentes de los plateístas con el cartel: “Boca tiene una responsabilidad, son socios nuestros. Pero me parece excesiva la medida. Nosotros ya los teníamos identificados”, explicó al respecto. “No estamos de acuerdo. Ni con los socios ni con el poco dinero que entra por esos carteles que nos pone la Conmebol”.

Por último, se refirió al caso de la AFIP, que involucra a dos jugadores xeneizes: Ledesma y Ustari. “Inhabilitado no está ninguno de los dos, nadie nos notificó eso. Hicimos todo dentro de lo legal. Los derechos federativos y económicos de Ledesma los tenía Unión San Felipe, y si ahora quieren cambiar las legislaciones me parece bien, pero de acá en adelante, no retroactivamente”, tiró. Una novela que, parece, recién empieza…

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BOCA  (Olé)

Tiros en la ruta

La Policía con uno de los detenidos en la ruta.

La Policía con uno de los detenidos en la ruta.

Cerca de 900 barras que hasta hace un mes respondían a los hermanos Di Zeo e iban a Santa Fe, fueron frenados en Rosario y a la vuelta se cruzaron con un grupo que forma parte de la banda de Mauro Martín. Se tirotearon y habría cinco heridos.

Cuando el tema de la AFIP se lleva el protagonismo, otra cuestión extradeportiva sigue empañando el fútbol. Y una vez más tiene que ver con la violencia. La interna de la barra de Boca está al rojo vivo y tuvo un capítulo en la ruta 9, donde alrededor de 900 barras que hasta hace un mes respondían a Rafael y Fernando Di Zeo se trasladaron a Santa Fe, fueron frenados por la Policía en Rosario, los mandaron de vuelta y allí se cruzaron con un grupo de Mauro Martín: hubo tiros y habría cinco heridos del lado de Martín. De nunca acabar.

De esto se viene hablando y en algún momento iba a explotar. Mientras gran la barra oficial ya estaba en Santa Fe sin tener inconvenientes en su traslado, la otra parte, la que espera volver al poder, fue frenada en Rosario. Estos 900 que “vuelven de las vacaciones” no están en la lista de derecho de admisión, pero iban sin entrada y en Santa Fe no había venta (el grupo de Mauro viajó con tickets desde Buenos Aires). Por ende, el conflicto estaba latente. En el regreso de esos diez colectivos y 11 autos pasó lo peor: a 100 kilómetros de la ciudad se cruzaron con una filial del oeste del Gran Buenos Aires que responde a La 12 que tiene el poder y se armó lo peor, con tiros a la orden del día.

Mientras se desató la furia en la ruta 9, los hermanos Di Zeo, que dicen estar afuera de todo, estaban en Buenos Aires. Y la mayor parte del grupo de Martín esperaba para ingresar al estadio de Unión. Los controles que no dejaron pasar a unos pero a otros sí, seguirán de cerca todos los movimientos en el regreso de ambos bandos.

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

Hace pip y saca fotos

Los handys de los detenidos y las cámaras de los peajes, claves en la investigación.

La causa por la batalla de la autopista recién está empezando. De hecho, los detenidos serán trasladados hoy ante el juez para su declaración indagatoria. Y si bien no se espera que den los nombres de quienes planearon y ejecutaron el macabro plan, la Justicia tiene dos vías para esclarecer el suceso: los handys de los que quedaron presos y las filmaciones de las cámaras. En el primer caso, en la agenda de los teléfonos están los nombres de los capos con quienes se comunicaron. El cruce de llamadas puede dar la ubicación casi exacta de cada uno. Este método se utilizó para esclarecer el asesinato de Gonzalo Acro en la interna de Los Borrachos del Tablón.

Por otro lado, los capos del grupo agresor eran quienes se movilizaban en los autos, no en los colectivos. Y hay cámaras de seguridad en los dos peajes que pasaron. Será cuestión de cotejar fotos y avanzar. Por lo pronto, el Peugeot 206 negro secuestrado está radicado en Capital y tiene 10 multas impagas.

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BASTA DE VIOLENCIA (Olé)

“No vi quién me tiró”

Mauro y Fido, jefe y ladero heridos en el tiroteo. No apuntaron contra sus atacantes.

Mauro y Fido, jefe y ladero heridos en el tiroteo. No apuntaron contra sus atacantes.

Gustavo Grabia Ggrabia@ole.com.ar – Jose Sacchi Jsacchi@ole.com.ar

Mauro Martín, quien era trasladado a Capital esta madrugada, declaró ante dos policías y no reconoció a sus agresores. “Se arregla de otra forma”, dice su gente.

No importa que por unas horas haya estado al borde de la muerte. En el código de los barras, la Justicia no existe. Todo se arregla con venganza. Sólo así puede entenderse la declaración informativa que brindó ayer Mauro Martín desde la camilla en la que estaba internado en el Hospital Provincial de Rosario. Por orden del juez Eduardo Filocco, dos policías fueron a tomarle la exposición. El trámite sumó 20 minutos en los que Mauro relató cómo sucedieron los hechos.

“Estábamos parados al costado de la ruta por orden de la seguridad, esperando que el otro grupo pasara por la ruta contraria y se alejara. Pero cuando nos vieron, bajaron y empezaron a disparar. Yo estaba fuera de la camioneta en la que viajé y sentí un pinchazo en la panza. Después quedé inconciente y cuando me desperté estaba en el hospital”, dijo Martín según le contó a Olé una alta fuente policial.

Pero los policías ya conocían la descripción de los hechos. Lo que ellos querían eran los nombres de los agresores. Pero Martín no aportó ni siquiera un apodo. “No vi quién tiró, no reconocí a nadie”, afirmó, aunque en su círculo íntimo dicen que la realidad es distinta y que entre los que dispararon a mansalva estaban Marcelo de Polvorines, Bolita con su gente de Ezeiza, los de Hurlingham que son cercanos a Feco, los de San Martín cuyo jefe es Pachu y los del Sur, que antes estaban con Marcelo de Lomas y ahora van con otra gente vieja de la época del Abuelo. Una palabra de Mauro hubiese enderezado la investigación, pero prefirió no hablar. Esto último fue lo mismo que hizo Cristian Debaus, apodado Fido, quien fue herido con un balazo en la garganta y también recibió la visita de auxiliares de justicia. Pero el pacto de la ormetá funcionó a pleno.

Ante esta situación, el juez Filocco mandó a hacerles el dermotest (prueba que busca restos de pólvora en las manos) a todos los heridos y detenidos. “En el caso de los heridos dio negativo. Hoy les tomaré declaración a los detenidos y después veré”, le dijo Filocco a Olé . La causa está caratulada lesiones en riña y portación de munición y armas de guerra. Por este delito hay tres detenidos del bando agresor (Alejandro Utruelli, Facundo Cáceres Aranda y Elías Meza) y otros dos demorados del grupo de Mauro, que fueron agarrados cuando dejaban Rosario con ropas ensangrentadas que serían de los heridos y podría caberles el delito de ocultamiento de prueba.

El domingo además fue un día de alivio para La Doce oficial. Porque sus máximos líderes fueron dados de alta (sólo quedan internados Darío Canteros con un balazo en el abdomen y Brian Arroyo con uno en el tórax) y Mauro había conseguido la autorización judicial y el traslado médico para ser internado en un nosocomio de la Capital Federal. Al cierre de esta edición, estaban esperando la ambulancia de alta complejidad que lo llevaría a Buenos Aires, custodiada en todo el trayecto por un patrullero, por si las moscas. Si bien su estado general era mejor, los médicos siguen esperando que la zona afectada (la bala le perforó el intestino grueso y el colon) no se infecte. “Lo cosieron y hay que esperar 48 horas más para ver si la evolución lo deja definitivamente fuera de peligro”, dijeron los médicos del Provincial a Olé .

Mientras ellos esperan, todo Boca desespera. Porque saben que esta guerra, está lejos de terminar.

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BOCA (Olé)

Ustedes no entran

El cartel que arrojaron los hinchas hacia el banco visitante.

El cartel que arrojaron los hinchas hacia el banco visitante.

[Copa Sudamericana, miércoles, 22 de agosto de 2012]

Boca, mediante un comunicado, informó que los cuatro plateistas que arrojaron el cartel contra el banco de Independiente no podrán asistir a la Bombonera. Y desmintieron que uno de ellos sea el hijo de Crespi.

Finalmente, Boca se expresó mediante un comunicado y aclaró cuál será el camino a seguir con los cuatro socios que tiraron el cartel publicitario sobre el banco de suplentes de Independiente. “Se decidió aplicar el derecho de exclusión”, se explicó en el mensaje.

De esta forma, los hinchas sufrirán momentáneamente el derecho de admisión, hasta que se acerquen al departamento legal del club para hacer su descargo. Después, el Tribunal de Disciplina evaluará la situación con la palabra de los acusados y definirá la sanción definitiva.

“Además desmiente categóricamente  que entre los involucrados se encuentre un hijo del vicepresidente 2° del club, Juan Carlos Crespi como algunos medios dejaron trascender”, agregó, clarísimo, el comunicado. Y el propio dirigente se encargó de aclararlo: “Mi hijo no estaba en esa platea, estaba justo en la de enfrente”.

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BOCA (Olé)

Si querés, apelá

El cartel que arrojaron los hinchas hacia el banco visitante.

El cartel que arrojaron los hinchas hacia el banco visitante.

Mariano Dayan – Mdayan@ole.com.ar

Boca hará un descargo por la clausura de su estadio, aunque la sanción de una fecha pinta irrevocable.

El mazazo fue el gol agónico de Farías y el que llegó después, rápido y furioso: la decisión del Gobierno de suspender la Bombonera por una fecha. Así, Boca deberá enfrentar a Atlético Rafaela (por la quinta jornada del Inicial) seguramente en el estadio de Vélez. ¿Ya está? Los dirigentes van a apelar la sanción, aunque sin muchas esperanzas. Saben que no se pueden quedar de brazos cruzados y deben evitar recriminaciones feroces de los hinchas. De hecho, ya son varios directivos los que admiten la equivocación de haber quitado el techo de acrílico que protegía el banco de suplentes para hacer los nuevos palcos en el campo de juego, sin autorización previa. “Asumimos lo que pasó como un error. Lo quisimos poner de nuevo, pero no llegó a tiempo el proveedor. Igual, creemos que se podría haber tomado otro tipo de medida y seguiremos insistiendo por los caminos legales para jugar en nuestra cancha”, le aseguró César Martucci, secretario general, a Olé.

El descargo que presentará Boca no parecería tener rebote en lo disciplinario. La sanción pinta irrevocable. Es más, el tema se judicializó: el fiscal Walter López, correspondiente a la jurisdicción de la Bombonera, pidió la clausura de la platea preferencial, pero el juez Durante lo negó.

El club envió ayer un comunicado en el que reiteró que aplicará el derecho de exclusión a los socios involucrados y además desmintió que el hijo del vicepresidente segundo Juan Carlos Crespi estuviera vinculado a la agresión al banco de Independiente (ver aparte). Según averiguó Olé , los involucrados son: Pablo Vanderruster, Pablo y Federico Blanco y Elías Fridman. La investigación del fiscal, igual, seguirá su curso. Le imputará a la dirigencia el delito contravencional de omisión de recaudos de seguridad, que prevé penas de hasta 30 días de arresto y $60.000 de multa. Podría haber una probation, pero Boca ya está cumpliendo otra por el uso de bengalas y cargadas contra River.

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BOCA (Olé)

“Todo mentira”

Crespi negó que su hijo estuviera involucrado en los incidentes que terminaron con la caída del cartel. “Va a otra platea”, dijo el dirigente.

Durante el transcurso del día corrieron rumores que indicaban que uno de los hijos de Juan Carlos Crespi habría estado involucrado en los incidentes del miércoles en la Bombonera. Sin embargo, el vicepresidente segundo habló con Olé y dio su punto de vista: “Es todo mentira. Desmiento totalmente eso. Uriel es mi hijo, tiene 30 años, pero va a la platea A. Mis tres hijos son terriblemente buena gente. El hecho de que haya salido en todos los medios, me da vergüenza. Es todo mentira”. Otro de los hijos de Crespi se llama Leandro y es Secretario de Actas de la Asamblea de Representantes.

Además, el club envió un comunicado en el que apoyó a Crespi: “Boca Juniors desmiente categóricamente que entre los involucrados se encuentre un hijo del vicepresidente 2° del club, Juan Carlos Crespi, como algunos medios dejaron trascender”.

La violencia en el fútbol desde todos lados (Mundo D)

http://mundod.lavoz.com.ar

Sábado 25 de Agosto, 12:26

Punto de vista. Para el sociólogo Pablo Alabarces, los actos vandálicos no son exclusivos de la barra brava. Sobre posibles soluciones, dijo: “Son parches. No existen medidas a largo plazo”.

Los hinchas de Belgrano en cancha de Colón. (Foto: Pedro Castillo)Los hinchas de Belgrano en cancha de Colón. (Foto: Pedro Castillo)

Por Joaquin Aguirre

“¡Me importa un pito que digan que fomentamos la violencia. Este pibe no es un barrabrava. Este es un salame!”. A los gritos y con una rabia un tanto impostada, un conocido presentador repasaba la secuencia televisiva en la que un plateísta de Boca arrojaba un cartel sobre el banco de suplentes de Independiente. “Que busquen al responsable en las villas. Ahí está la violencia”, decía.

Justamente lo contrario opina Pablo Alabarces, el sociólogo con más publicaciones referidas a la violencia en las canchas de fútbol. Según él, ésta es originada por “el hincha común”, la policía, los dirigentes y los medios de comunicación.

Para el reconocido autor de Crónicas del aguante, con lo ocurrido en Colón-Belgrano quedó demostrado “una vez más” que las agresiones que solemos ver domingo a domingo en las canchas no son patrimonio exclusivo de la barra brava.

Los plateístas de Colón tiran de todo y la culpa es de Olave. La policía reprime y la culpa es de Olave. Bueno… Olave también es culpable como todos los jugadores que desde su lugar también generan lo que generan. Pero se está equivocando el foco de la cuestión”, dice el profesional con creciente indignación.

Tratar estos incidentes como si fueran aislados no sirve para nada. Mi primer trabajo sobre violencia en el fútbol fue hace 12 años, así que imaginate que nada me sorprende a esta altura. Todo es previsible, esperable. Y también es esperable cómo se reacciona… Los medios dicen ‘los violentos, la culpa es de ellos’. Pero no dicen que entre ellos están los jugadores, la policía, los periodistas cordobeses… todos”.

Alabarces lidera un conjunto de intelectuales que hace unos meses presentó un polémico proyecto para erradicar la violencia aboliendo las actuales medidas (represión policial, mayores operativos, prohibición de público visitante, entre otras cosas) que a la luz de los hechos no han brindado soluciones. En lugar de ello, propone un trabajo conjunto de profesionales de distintas disciplinas para reeducar a los violentos. Reconocer la existencia de la barra. “No legalizarla, como malinterpretan algunos”, aclara. “Hasta ahora son todos parches. No existen medidas a largo plazo. Prohibir el ingreso de público visitante es un negocio televisivo”, agrega.

Días atrás, en una declaración para muchos desacertada, la presidenta Cristina Fernández sostuvo que “si el tema de la violencia lo circunscribimos únicamente a algunos grupitos vamos a equivocarnos y no vamos a darle una verdadera respuesta al problema, que tiene que ver más con cosas que pasan fuera de la cancha, que son las mas graves y no adentro”. Según Alabarces, la mandataria fue “demasiado liviana, hizo una alusión rápida y poco profunda del tema”.

–¿Cuál es la solución?

–La cultura futbolística argentina encierra una ética de la violencia llamada “el aguante”, reconocida y alentada desde los medios. En 10 años podemos solucionarlo. El responsable de la seguridad en Inglaterra me dijo que se “cura” en ese tiempo.

–¿Cómo se hace?

–Yo propongo una serie de medidas que van desde la intervención de la AFA a blanquear la guita que se maneja en el fútbol. A fines del año pasado empecé a analizar el “Fútbol para Todos”. Ahí hace tres años tenés publicidad gratis y no hay ni un aviso sobre la violencia.

–¿Qué más?

–Campañas. Sacar la policía y poner un batallón de antropólogos y trabajadores sociales. Trabajar con las comunidades, dialogar, convencerlos…

–Con progresismo…

–No es izquierdista, es lo más liberal… No prejuzgar a los barras, hacer al revés: darles un shock de confianza. Pero si exigís orden tenés que darles infraestructura. Los baños tienen que estar en condiciones y no como los ves en cualquier estadio. La gente tiene derecho a acceder a eso.

–Como en el “Primer Mundo”.

–Los ingleses decían “usted no puede tratar a los hinchas como animales y después quejarse porque se portan como animales”. Hubo casos en los que al comienzo cuando se encontraban con cosas nuevas en el estadio se las robaban, pero con el tiempo se sentían orgullosos de su nuevo estadio.

–¿Realmente creés que es posible un cambio?

–La idea de que el cambio cultural es posible lo demuestra que antes esa cultura no era así. La cultura cambió, y lo hizo en relación a cambios globales: el peso de los hinchas es mayor. Ellos se perciben a sí mismos como los únicos que garantizan la continuidad de esa cultura.

–Decís que los medios y los futbolistas también son responsables.

–Cuando Belgrano le empató a River en la promoción y el relator decía “River sale a matar o morir”, el hincha lo siente así. Y los jugadores son tribuneros, se besan el escudo, provocan… No sólo ellos, mirá a los árbitros cómo dirigen…

–¿Por qué creés que los dirigentes no le encontraron la vuelta a la violencia?

–Y… Mirá el mejor ejemplo es Cantero (presidente de Independiente). Venía bien enfrentándose con la barra. Pero en el partido que se suspendió por la lluvia contra Vélez, salió a quejarse y decir “el fútbol es para hombres”. Hasta el más sensato parece capturado por esa cultura del aguante.

–¿Te ofrecieron algún cargo público?

–No, y no lo aceptaría.

Manifesto de neurocientistas sobre a consciência animal

16/07/2012

Comportamento animal

Quase humanos (Veja)

Neurocientistas publicam manifesto afirmando que mamíferos, aves e até polvos têm consciência e esquentam debate sobre direitos dos animais

Marco Túlio Pires

Chimpanzé alimenta um filhote de tigre dourado, em mini zoológico na cidade de Samutprakan, Tailândia

Chimpanzé alimenta um filhote de tigre dourado, em mini zoológico na cidade de Samutprakan, Tailândia: percepção de sua própria existência e do mundo ao seu redor (Rungroj Yongrit/EFE)

Os seres humanos não são os únicos animais que têm consciência. A afirmação não é de ativistas radicais defensores dos direitos dos animais. Pelo contrário. Um grupo de neurocientistas — doutores de instituições de renome como Caltech, MIT e Instituto Max Planck — publicou um manifesto asseverando que o estudo da neurociência evoluiu de modo tal que não é mais possível excluir mamíferos, aves e até polvos do grupo de seres vivos que possuem consciência. O documento divulgado no último sábado (7), em Cambridge, esquenta uma discussão que divide cientistas, filósofos e legisladores há séculos sobre a natureza da consciência e sua implicação na vida dos humanos e de outros animais.

Leia mais: A íntegra, em inglês, do manifesto que afirma a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como polvos

Apresentado à Nasa nesta quinta-feira, o manifesto não traz novas descobertas da neurociência — é uma compilação das pesquisas da área. Representa, no entanto, um posicionamento inédito sobre a capacidade de outros seres perceberem sua própria existência e o mundo ao seu redor. Em entrevista ao site de VEJA, Philip Low, criador do iBrain, o aparelho que recentemente permitiu a leitura das ondas cerebrais do físico Stephen Hawking, e um dos articuladores do movimento, explica que nos últimos 16 anos a neurociência descobriu que as áreas do cérebro que distinguem seres humanos de outros animais não são as que produzem a consciência. “As estruturas cerebrais responsáveis pelos processos que geram a consciência nos humanos e outros animais são equivalentes”, diz. “Concluímos então que esses animais também possuem consciência.”

O que é consciência?

PARA A FILOSOFIA
Filosoficamente, é o entendimento que uma criatura tem sobre si e seu lugar na natureza. Alguns atributos definem a consciência, como ser senciente, ou seja, sentir o mundo à sua volta e reagir a ele; estar alerta ou acordado ou ter consciência sobre si mesmo (o que, para a filosofia já basta para incluir alguns animais “não-linguísticos” entre os seres com consciência).Fonte: Enciclopédia de Filosofia de Stanford

PARA A CIÊNCIA
A ciência considera como consciência as percepções sobre o mundo e as sensações corporais, junto com os pensamentos, memórias, ações e emoções. Ou seja, tudo o que escapa aos processos cerebrais automáticos e chega à nossa atenção. O conteúdo da consciência geralmente é estudado usando exames de imagens cerebrais para comparar quais estímulos chegam à nossa atenção e quais não. Como resumiu o neurocientista Bernard Baars, em 1987, o cérebro é como um teatro no qual a maioria dos eventos neurais são inconscientes, portanto acontecem “nos bastidores”, enquanto alguns poucos entram no processo consciente, ou seja, chegam ao “palco”.

Estudos recentes, como os da pesquisadora Diana Reiss (uma das cientistas que assinaram o manifesto), da Hunter College, nos Estados Unidos, mostram que golfinhos e elefantes também são capazes de se reconhecer no espelho. Essa capacidade é importante para definir se um ser está consciente. O mesmo vale para chimpanzés e pássaros. Outros tipos de comportamento foram analisados pelos neurocientistas. “Quando seu cachorro está sentindo dor ou feliz em vê-lo, há evidências de que no cérebro deles há estruturas semelhantes às que são ativadas quando exibimos medo e dor e prazer”, diz Low.

Personalidade animal – Dizer que os animais têm consciência pode trazer várias implicações para a sociedade e o modo como os animais são tratados. Steven Wise, advogado e especialista americano em direito dos animais, diz que o manifesto chega em boa hora. “O papel dos advogados e legisladores é transformar conclusões científicas como essa em legislação que ajudará a organizar a sociedade”, diz em entrevista ao site de VEJA. Wise é líder do Projeto dos Direitos de Animais não Humanos. O advogado coordena um grupo de 70 profissionais que organizam informações, casos e jurisprudência para entrar com o primeiro processo em favor de que alguns animais — como grandes primatas, papagaios africanos e golfinhos — tenham seu status equiparado ao dos humanos.

O manifesto de Cambridge dá mais munição ao grupo de Wise para vencer o caso. “Queremos que esses animais recebam direitos fundamentais, que a justiça as enxergue como pessoas, no sentido legal.” Isso, de acordo com o advogado, quer dizer que esses animais teriam direito à integridade física e à liberdade, por exemplo. “Temos que parar de pensar que esses animais existem para servir aos seres humanos”, defende Wise. “Eles têm um valor intrínseco, independente de como os avaliamos.”

Questão moral – O manifesto não decreta o fim dos zoológicos ou das churrascarias, muito menos das pesquisas médicas com animais. Contudo, já foi suficiente para provocar reflexão e mudança de comportamento em cientistas, como o próprio Low. “Estou considerando me tornar vegetariano”, diz. “Temos agora que apelar para nossa engenhosidade, para desenvolver tecnologias que nos permitam criar uma sociedade cada vez menos dependente dos animais.” Low se refere principalmente à pesquisa médica. Para estudar a vida, a ciência ainda precisa tirar muitas. De acordo com o neurocientista, o mundo gasta 20 bilhões por ano para matar 100 milhões de vertebrados. Das moléculas medicinais produzidas por esse amontoado de dinheiro e mortes, apenas 6% chega a ser testada em seres humanos. “É uma péssima contabilidade”, diz Low.

Contudo, a pesquisa com animais ainda é necessária. O endocrinologista americano Michael Conn, autor do livro The Animal Research War, sem edição no Brasil, argumenta que se trata de uma escolha priorizar a espécie humana. “Conceitos como os de consentimento e autonomia só fazem sentido dentro de um código moral que diz respeito aos homens, e não aos animais”, disse em entrevista ao site de VEJA. “Nossa obrigação com os animais é fazer com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam dor — e não tratá-los como se fossem humanos, o que seria uma ficção”, argumenta. “Se pudéssemos utilizar apenas um computador para fazer pesquisas médicas seria ótimo. Mas a verdade é que não é possível ainda.”

A inteligência dos polvos

O vídeo mostra diversas situações em que o polvo consegue resolver problemas. Desde a captura de presas em diferentes tipos de recipientes até escapar de locais extremamente difíceis. As situações mostram que o animal é capaz de formular soluções para problemas específicos, o que denota, na opinião dos neurocientistas, um estado de consciência inteligente.

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“Não é mais possível dizer que não sabíamos”, diz Philip Low (Veja)

Entrevista

Neurocientista explica por que pesquisadores se uniram para assinar manifesto que admite a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como o polvo, e como essa descoberta pode impactar a sociedade

Marco Túlio Pires

Epilepsia: especialistas estimam que 2% da população brasileira tenha a doença

Estruturas do cérebro responsáveis pela produção da consciência são análogas em humanos e outros animais, dizem neurocientistas (Thinkstock)

O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário científico depois deapresentar um projeto em parceria com o físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking, que está completamente paralisado há 40 anos por causa de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados da pesquisa foram revelados no último sábado (7) em uma conferência em Cambridge. Contudo, o principal objetivo do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado de honra.

Philip LowPhilip Low: “Todos os mamíferos e pássaros têm consciência”. Divulgação.

Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. “As áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência”, diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:

Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito?Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência.

Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência?Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.

Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

Argentine Invasion (Radiolab)

Monday, July 30, 2012 – 10:00 PM

From a suburban sidewalk in southern California, Jad and Robert witness the carnage of a gruesome turf war. Though the tiny warriors doing battle clock in at just a fraction of an inch, they have evolved a surprising, successful, and rather unsettling strategy of ironclad loyalty, absolute intolerance, and brutal violence.

Drawing of an Argentinte Ant

(Adam Cole/WNYC)

David Holway, an ecologist and evolutionary biologist from UC San Diego, takes us to a driveway in Escondido, California where a grisly battle rages. In this quiet suburban spot, two groups of ants are putting on a chilling display of dismemberment and death. According to David, this battle line marks the edge of an enormous super-colony of Argentine ants. Think of that anthill in your backyard, and stretch it out across five continents.

Argentine ants are not good neighbors. When they meet ants from another colony, any other colony, they fight to the death, and tear the other ants to pieces. While other kinds of ants sometimes take slaves or even have sex with ants from different colonies, the Argentine ants don’t fool around. If you’re not part of the colony, you’re dead.

According to evolutionary biologist Neil Tsutsui and ecologist Mark Moffett, the flood plains of northern Argentina offer a clue as to how these ants came to dominate the planet. Because of the frequent flooding, the homeland of Linepithema humile is basically a bootcamp for badass ants. One day, a couple ants from one of these families of Argentine ants made their way onto a boat and landed in New Orleans in the late 1800s. Over the last century, these Argentine ants wreaked havoc across the southern U.S. and a significant chunk of coastal California.

In fact, Melissa Thomas, an Australian entomologist, reveals that these Argentine ants are even more well-heeled than we expected – they’ve made to every continent except Antarctica. No matter how many thousands of miles separate individual ants, when researchers place two of them together – whether they’re plucked from Australia, Japan, Hawaii … even Easter Island – they recognize each other as belonging to the same super-colony.

But the really mind-blowing thing about these little guys is the surprising success of their us-versus-them death-dealing. Jad and Robert wrestle with what to make of this ant regime, whether it will last, and what, if anything, it might mean for other warlike organisms with global ambitions.

Violência no futebol brasileiro – fim de semana de 18 e 19 de agosto de 2012

19/08/2012 18h00 – Atualizado em 19/08/2012 23h33

Homem é morto durante confronto entre torcedores de Vasco e Flamengo (G1)

Confusão aconteceu em rua de Tomás Coelho, no subúrbio do Rio.
Segundo a Polícia Militar, um torcedor rubro-negro ficou ferido.

Do G1 RJ

Diego Martins Leal, de 29 anos, foi baleado e morto durante uma briga entre torcedores do Vasco e do Flamengo na tarde deste domingo (19), em Tomás Coelho, subúrbio do Rio de Janeiro.

De acordo com as primeiras informações da Polícia Militar, a confusão começou quando um ônibus com flamenguistas vindo de Resende, no Sul Fluminense, passou por um grupo de torcedores do Vasco concentrados num porto de gasolina localizado na Rua Silva Vale. Diego foi morto no interior de um bar, na Rua Itaquati. Um torcedor do Flamengo ficou ferido.

O primo de Diego presenciou o crime. “Deram cinco disparos, e ainda deram facada nele. É uma violência que não acaba, briga de torcida organizada. Tinham marcado pelo Fracebook”, destacou.

Cerca de 60 suspeitos de participarem da briga foram detidos e levados para a 44ª DP (Inhaúma). Ainda segundo a PM, o autor do disparo foi reconhecido por testemunhas e identificado. Também foram apreendidos fogos de artifício.

Flamengo e Vasco jogaram no Estádio do Engenhão, na Zona Norte, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro. O time rubro-negro venceu por um a zero, com gol de Wágner Love.

 

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19/08/2012 21h03 – Atualizado em 19/08/2012 21h13

Homem é baleado durante briga entre torcedores na Zona Oeste (G1)

Segundo hospital, ele foi atingido no abdômen e passa por cirurgia.
Outras seis pessoas ficaram feridas durante confronto em Jacarepaguá.

Do G1 RJ

Um homem foi baleado no abdômen durante uma briga entre torcedores de Vasco e Flamengo na ytarde deste domingo (19), próximo ao Largo da Tanque, na Estrada do Cafundá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Outros seis torcedores ficaram feridos na confusão.

Segundo informações da Secretaria municipal de Saúde, o torcedor, que ainda não foi identificado, deu entrada no Hospital Lourenço Jorge, também na Zona Oeste, onde foi submetido a uma cirurgia. Até as 20h40, ele permanceia no centro cirúrgico.

Ainda de acordo com a secretaria, outros dois feridos também deram entrada na mesma unidade: um levou um tiro de raspão na perna; o outro teve um trauma na face. Ambos passavam por avaliação médica até as 20h40.

Os outros quatro feridos foram atendidos no Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá. Um deles sofreu uma fratura no crânio, está em estado grave e foi transferido para o Hospital do Andaraí, na Zona Norte. Os outros três tiveram cortes e escoriações pelo corpo, e estão em observação.

Uma viatura do 18° BPM (Jacarepaguá) foi ao local da briga e prendeu sete torcedores, sendo três da torcida do Flamengo e quatro torcedores do Vasco, todos encaminhados para a 41ª DP (Tanque).

Também na tarde deste domingo, um vascaíno ainda não identificado foi baleado e morto durante uma briga entre torcedores dos mesmos times em Tomás Coelho, subúrbio do Rio de Janeiro.

Flamengo e Vasco se enfrentaram no Estádio do Engenhão, na Zona Norte, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro. O time rubro-negro venceu por um a zero, com gol de Wágner Love.

 

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Corpo de torcedor do Vasco morto na zona norte é liberado, mas permanece no IML (R7)

Dois suspeitos foram presos logo após crime; DH investiga caso

Isabele Rangel, do R7 | 20/08/2012 às 09h35 | Atualizado em: 20/08/2012 às 10h51

O corpo do torcedor do Vasco Diego Martins Leal, de 30 anos, morto em uma briga de torcida em Thomaz Coelho, na zona norte, já foi liberado do IML (Instituto Médico Legal).No entanto, segundo a Polícia Civil, a vítima ainda não foi removida para enterro.

Diego foi morto em uma confusão envolvendo 50 pessoas em um posto de gasolina entre as ruas Itaquati e Silva Vale, nas proximidades da avenida Pastor Martin Luter King Júnior, às margens da linha dois do metrô. Segundo a Polícia Civil, ele teria sido morto a tiros por dois homens identificados logo após o crime. O caso está sendo investigado pela DH (Divisão de Homicídios).

A confusão ocorreu por volta das 16h, quando três vascaínos, que estavam em um veículo Zafira, pararam para abastecer. Dentro do carro estavam Darlan Pereira da Silva e dois primos dele, que moram em Brasília, mas estavam na capital fluminense para ir ao clássico carioca no Estádio Olímpico João Havelange, no Engenho de Dentro.

Segundo a Polícia Militar, ao avistar o motorista com a camisa do Vasco, ocupantes do ônibus, que vinham de Resende, no sul do Estado, pararam o coletivo e seguiram em direção ao veículo com paus, pedras e bolas de sinuca.  Darlan ainda tentou tirar a camisa, mas ele os primos foram perseguidos e tiveram que se abrigar no interior do posto para fugir das agressões. De acordo com a PM, o carro dele foi totalmente depredado.

Em meio ao tumulto, dois homens, que não faziam parte do grupo de Resende, iniciaram uma perseguição a um torcedor do Vasco, que estava em um bar da região. A vítima, identificada como Diego Martins Leal, ainda tentou fugir, mas acabou sendo baleado. Em meio ao tumulto, um torcedor do Flamengo também ficou ferido e precisou ser atendido pelo SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Urgência).

A confusão só terminou com a chegada de policiais do Batalhão de Méier (3º BPM), que foram acionados pelo policial que ocupava uma cabine de observação no viaduto de Thomaz Coelho, que dá acesso à estrada Adhemar Bebiano.

Dois homens foram apontados por moradores como suspeitos de terem matado o vascaíno. Eles foram presos pela PM, levados para a Delegacia de Inhaúma (44º DP), mas transferidos para a DH (Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro), na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. De acordo com a polícia, os dois podem ser indiciados por homicídio doloso (com intenção de matar).

Todos os ocupantes do ônibus, que é da empresa Transtaxi, foram detidos e levados para a 44º DP, para checagem de documentos e verificação de ficha criminal. No ônibus, foram encontrados cabos de enxada, pedras, bolas de sinuca, bandeiras e camisas do Flamengo.Outros sete presos em Jacarepaguá

Em Jacarepaguá, na zona oeste, outros sete torcedores foram presos próximo ao Largo da Tanque, na Estrada do Cafundá. Uma viatura do Batalhão de Jacarepaguá (18° BPM)  foi ao local após receber denúncias de moradores por telefone.

Entre os presos, três eram torcedores do Flamengo e quatro eram vascaínos. Todos os presos foram encaminhados para a Delegacia do Tanque (41ª DP).

Assista ao vídeo

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20/08/2012 16h35 – Atualizado em 20/08/2012 17h20

Corpo de torcedor do Vasco morto em briga é enterrado no Rio (G1)

O publicitário Diego Martins Leal, de 30 anos, foi sepultado em Inhaúma.
Dois suspeitos do crime, torcedores do Flamengo, foram presos nesta manhã.

Tássia Thum – Do G1 RJ

O corpo do torcedor do Vasco Diego Martins Leal, de 30 anos, morto durante uma briga de torcidas, foi enterrado por volta das 16h20 desta segunda-feira (20) no Cemitério de Inhaúma, no subúrbio do Rio de Janeiro. O crime aconteceu no domingo (19), antes do clássico entre Flamengo e Vasco, no estádio do Engenhão.

Cerca de 200 pessoas acompanharam a cerimônia de sepultamento do torcedor vascaíno, que era publicitário. Segundo amigos e parentes, Diego fazia parte de uma torcida organizada do Vasco, mas não utilizava a camisa do time na rua para evitar confusões com torcedores de times rivais.

Segundo o tio de Diego e professor de matemática Luiz Fernando Leal, Diego foi enterrado com a camisa do Vasco. Cerca de 20 integrantes da Torcida Força Jovem Vasco, todos descaracterizados, estiveram no enterro, mas preferiram não falar com a imprensa. “Ele era um cara que gostava do samba, namorava havia oito anos e pensava em casar. Mas, infelizmente, ele foi vítima de vândalos que saíram dispostos a matar. Ele era um cara da paz, nunca brigou ou sofreu ameaças”, disse o amigo de infância do jovem, Hugo Rodrigues, que é torcedor do Flamengo.

Cerca de 200 pessoas acompanharam o sepultamento do torcedor Diego Leal, no Cemitério de Inhaúma, no subúrbio do Rio, nesta segunda-feira (20) (Foto: Tássia Thum/G1)

Cerca de 200 pessoas acompanharam o sepultamento do torcedor Diego Leal, no Cemitério de Inhaúma, no subúrbio do Rio, nesta segunda-feira (20) (Foto: Tássia Thum/G1)

O tio disse que o rapaz não usava a camisa do time na rua e nem em fotos de redes sociais a pedido dos pais, que temiam a violência nos estádios. O primo da vítima, o farmacêutico Felipe Leal, disse que Diego não ia aos jogos do Vasco havia cerca de um ano. No domingo, segundo o primo, Diego estava em um churrasco com amigos próximo de casa, no bairro de Tomás Coelho, quando houve o conflito. Felipe Leal afirma que Diego não ia ao Engenhão, já que havia combinado de ver a partida em um bar próximo de sua residência.

Nesta manhã, a Polícia Civil apresentou dois suspeitos de assassinar o torcedor do Vasco.  Alessanderson Piedade Motta, de 28 anos, e Daniel Monteiro Abreu, 27, estão presos da Divisão de Homicídios (DH), na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, e vão responder por homicídio qualificado por motivo fútil. Segundo o delegado Rivaldo Barbosa, se condenados, eles podem pegar de 20 a 30 anos de prisão.

De acordo com o delegado, das cinco testemunhas ouvidas, duas reconheceram os suspeitos como responsáveis pela morte de Diego. O delegado informou que as investigações apontam Alessanderson, que já tinha passagem pela polícia por lesão corporal, como autor dos quatro tiros que atingiram a vítima e Daniel como o autor das facadas.

A confusão começou quando um ônibus com flamenguistas vindo de Resende, no Sul Fluminense, passou por um grupo de torcedores do Vasco concentrados num bar localizado na Rua Silva Vale.

Ao tentar se esconder, Diego entrou em um outro bar, na Rua Itaquati. No interior do estabelecimento, ele foi morto pela dupla.

Na delegacia, Daniel confirmou que é comum o enfrentamento de torcidas rivais. “Torcida organizada funciona desta forma. É eles contra a gente e a gente contra eles. Uma vez mataram um amigo nosso e ninguém foi preso”, afirmou Daniel.

Outras testemunhas serão ouvidas

Daniel tem tatuagem do Flamengo nas costas (Foto: Renata Soares/G1)

Daniel tem escudo do Flamengo tatuado nas costas (Foto: Renata Soares/G1)

Ainda segundo o delegado, outros torcedores serão chamados para prestar depoimento novamente. “Isso é lamentável, é algo inaceitável. Vamos continuar a investigação e tentar identificar outras pessoas que tenham participado do crime”, afirmou Rivaldo, que acrescentou também que não há indícios de que a torcida tenha marcado este encontro pela internet:

“Não temos essa informação sobre o encontro marcado. Mas vamos continuar investigando”, concluiu o delegado Rivaldo Barbosa.

Flamengo e Vasco jogaram no Estádio do Engenhão, na Zona Norte, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro 2012. O time rubro-negro venceu por um a zero, com gol de Vagner Love.