Violência de torcidas organizadas ganha cada vez mais espaço na academia (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4577, de 05 de Setembro de 2012.

Clarissa Vasconcellos – Jornal da Ciência

Com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil em 2014, a violência das torcidas organizadas ganha foco e atrai o interesse de pesquisadores.

Nas últimas semanas, o noticiário voltou a se encher de notícias relacionadas a conflitos entre torcedores que vêm demonstrando pouco espírito esportivo dentro e fora dos estádios. A recente morte de um torcedor e as brigas entre as torcidas organizadas vêm sendo motivo de debates e sanções. Estudiosos que analisam o fenômeno há décadas, dentro e fora do País, trazem novos dados sobre o problema.

É o caso de Heloísa Reis, pesquisadora e professora da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, que investiga o tema há 17 anos. Uma de suas motivações foi uma experiência pessoal: ex-jogadora de futebol, ela sentiu na pele a hostilidade dos torcedores masculinos, algo muito comum na década de 80. “Minha indignação com aquela violência simbólica fez com que eu tivesse grande interesse em entender a atuação dos torcedores e o que leva eles a xingar os jogadores e brigar entre si”, conta Heloísa ao Jornal da Ciência.

Reconhecida internacionalmente – acaba de voltar de Londres, onde foi convidada para trabalhar com a polícia durante as Olimpíadas -, Heloísa conta que o assunto é um tema social muito relevante, já que, além de ter provocado um elevado número de mortos nos últimos anos, trata-se de uma situação que muitas vezes mobiliza a cidade, especialmente no grande raio que abrange os estádios. “Há uma tensão dos moradores, toda segurança pública fica envolvida e o transporte público é afetado”, enumera.

De acordo com dados divulgados, no dia 30 de agosto, pelo Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), de um ano para cá, mais de 370 torcedores foram presos no Rio de Janeiro – 83 apenas na semana passada. As causas foram promoção de tumulto, baderna e lesão corporal no caminho ou na volta dos estádios. Além disso, a Polícia Civil fluminense anunciou a criação do Núcleo de Apoio aos Grandes Eventos (Nage), para combater as ações criminosas promovidas por integrantes de torcidas organizadas de clubes de futebol.

Semelhanças e diferenças – Além de estudar a violência no futebol brasileiro, Heloísa já pesquisou o problema em outros países, como a Espanha e a Inglaterra. Em comum, ela afirma que os torcedores violentos de todos os países (incluindo os hooligans, considerados os mais violentos desse grupo de indivíduos) em geral são homens e jovens.

“A questão surge com mais evidência no Reino Unido na década de 80, mas já havia esse tipo de violência no Brasil e na Espanha. Dessa época para cá, podemos verificar também um aumento na idade dos homens, pois cada vez mais a ‘adolescência’ é estendida, para inclusive além dos 30 anos, por exemplo”, relata. Heloísa vê como traços comuns entre os hooligans estrangeiros e brasileiros o fato de serem homens jovens que se satisfazem brigando e correndo risco, utilizando o enfrentamento e o confronto (tanto com torcedores rivais quanto com a polícia) para terem prazer. “Também buscam uma autoafirmação masculina; não à toa guardam a vestimenta do time adversário como troféu de conquista”, completa.

Porém, os países guardam algumas diferenças significativas entre seus torcedores violentos. Uma das principais é que em diversas sociedades mais desenvolvidas o acesso a armas de fogo é difícil, o que diminui drasticamente o número de mortes. “Brasil e Argentina são os países com mais mortes no futebol na América do Sul pelo acesso a armas de fogo. A entrada delas, principalmente nos anos 80, fez com que aumentasse muito o numero de mortes aqui”, conta, lembrando que, em toda história do futebol francês, por exemplo, houve três mortes por violência de torcedores, enquanto no Brasil o número atual é de 69 falecimentos.

Ela também destaca uma diferença entre o “código de conduta” de torcedores europeus e latino-americanos. “Lá, a intenção não é levar o inimigo à morte e sim fazê-lo sofrer”, conta. Outro dado interessante apurado por Heloísa no Brasil, mais especificamente nas torcidas organizadas de São Paulo, é que 85% dos jovens de 15 a 24 anos pesquisados moram com a família, “o que contraria um discurso da mídia de que as famílias precisam voltar aos estádios”, afirma, já que lares estruturados não são garantia para se evitar esse tipo de conflito.

Álcool e violência – Heloísa explica que, como o futebol se tornou um “produto valiosíssimo na economia mundial”, “há um grande interesse de países mais desenvolvidos em ter uma política de prevenção para que se garanta o lazer seguro de qualidade”. Isso passa pelo controle de bebidas alcoólicas nos estádios, de acordo com a pesquisadora.

“Em todos os países onde se fez política de prevenção da violência relacionada a futebol, em algum momento o álcool foi proibido, já que todos esses países verificaram que a maioria das pessoas detidas estava sob efeito do álcool”, informa. Heloísa lamenta que tenha prevalecido, para a Copa de 2014, “o interesse econômico das cervejarias” na chamada Lei da Copa. “Acho temerário, estou muito preocupada”, alerta.

A pesquisadora também se inquieta com o fato de algumas autoridades pensarem que é um exagero se preocupar com torcedores violentos durante a Copa, diante da alegação que não estarão envolvidos torcedores de grandes clubes. Ela relembra os conflitos que aconteceram durante a Copa da Alemanha, em 2006, que geraram inclusive um documentário da rede inglesa BBC.

No dia 30 de agosto, o governo brasileiro divulgou o planejamento estratégico de segurança que será aplicado na Copa do Mundo de 2014, no qual considera os torcedores violentos, tanto nacionais como estrangeiros, como um dos fatores de risco. O plano, publicado no Diário Oficial (http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=30/08/2012&jornal=1&pagina=45&totalArquivos=120), foi elaborado pela Secretaria Extraordinária para a Segurança de Grandes Eventos e inclui todas as ações que serão implementadas para garantir a segurança da competição.

O texto detalha, por exemplo, os responsáveis pela segurança do evento, as medidas já pensadas, os objetivos perseguidos, os recursos investidos, os preparativos, a cooperação com outros países e a interação com as firmas privadas contratadas pela Fifa para a segurança. A instalação de circuitos internos de televisão e a identificação dos torcedores são vistas como algumas medidas de sucesso utilizadas nas competições europeias.

“Por aqui existe um grande risco, especialmente entre embates de Inglaterra e Argentina ou Brasil e Argentina”, pontua Heloísa. Ela acredita que, no caso de jogo entre esses países, o ideal seria deslocar a partida para o Norte ou Nordeste do Brasil, dificultando o acesso. Outra medida de prevenção, observada in loco por ela nas Olimpíadas de Londres, seria realizar um trabalho conjunto com todos os órgãos de segurança nacionais. “Todas as organizações que deveriam prestar algum socorro ou assistência estavam concentradas da mesma sala. Os comandos saíam do mesmo lugar; foi tudo muito orquestrado”, relembra.

“Virão hooligans para o Brasil com certeza. Podem vir menos devido à distância em que se encontra o Brasil, mas virão. Eles se aproveitam do dia do jogo, seja do seu time ou de seu país, para brigar. A competição deles é paralela ao jogo do campo”, conclui.

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