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Entrevista sobre empreendedorismo e pacificação (Cirandas.net)

11 de Março de 2013, por Celso Alexandre Souza de Alvear

No início de março a jornalista Bruna Cerdeira do portal das UPPs me pediu uma entrevista sobre empreendedorismo e pacificação, devido a nosso projeto RioEcoSol. Quando liguei para saber se ela tinha recebido minha resposta, ela disse que não teve como usá-la, pois demorei muito (acho que demorei uns 3 dias pra responder) e que já tinha feito a matéria. Mas acho que minha resposta não agradou muito ela não… Pedi para ela me informar quando entrasse no ar, porém até hoje não tive resposta e não vi nada no site da upps. Assim, estou publicando minha resposta. Acho importante desmistificar um pouco essa visão acrítica que depois da pacificação aumentou o empreendedorismo nas favelas. Abaixo minhas respostas:

Repórter: Fui informada que o senhor foi o responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas: Cidade de Deus, Complexo do Alemão, Manguinhos e Santa Marta.

Na verdade, não fui responsável por uma pesquisa sobre empreendedorismo em 4 comunidades pacificadas, mas sim pelo livro  resultante da pesquisa sobre economia solidária e economia popular nas 4 favelas (conhecida como RioEcoSol). Diferentemente da maior parte das abordagem de empreendedorismo, que prezam pela competição e pela individualidade dos empreendimentos (sob uma ótica capitalista de quanto mais lucro melhor), a economia solidária preza por uma relação de trabalho sem chefes e empregados (numa cooperativa todos os trabalhadores são donos do empreendimento) e numa lógica de cooperação e solidariedade entre os empreendimentos e entre esses e seu território.

De qualquer jeito, espero que possa te ajudar com sua pesquisa. Seguem minhas respostas.

1) Como a pacificação está ajudando a transformar as comunidades em ambientes favoráveis ao empreendedorismo e a fomentar o consumo dos produtos dos negócios locais pelos moradores?

O programa de pacificação ajudou na vida dos moradores e dos empreendimentos dessas favelas com a possibilidade de um transito mais livre no território e com uma diminuição de uma estigmatização negativa dessas favelas e dos empreendimentos localizados nelas (principalmente aqueles que vendem para pessoas de fora de suas favelas). Porém, com a repressão da polícia a diversas atividades culturais na favela (como no caso dos bailes funks), muitos empreendimentos relatam uma grande diminuição de suas vendas, pois essas atividades culturais geravam uma dinâmica econômica endógena. Outro problema é que muitos empreendimentos relatam que, com o programa de pacificação, muitos empreendimentos familiares vêm sofrendo coerção para se formalizarem (alguns empreendimentos populares, familiares, ou coletivos não tem capacidade para se formalizarem no momento).

Por fim, com o livre transito nesses territórios, a tendência é que os grandes empresários entrem nesses territórios acabando com todo o comércio local (assim como os de Barra/Jacarepaguá tem feito na Cidade de Deus, de botafogo e da zona sul estão fazendo no Santa Marta etc.). Existem vários exemplos de rádios comunitárias que foram fechadas depois da pacificação e de tvs comunitárias que fecharam pois as teves a cabo não tiveram interessem em colocar na grade. No alemão, também temos o exemplo de um empreendedor que comercializava internet (de forma regular e legal) antes da pacificação, mas que agora, com a entrada de velox, tem dificuldades para competir com essas grandes empresas. A pergunta seria então quais estratégias podem evitar a morte desses empreendimentos locais? Consideramos que só com políticas públicas e investimento do Estado pode-se evitar isso (e não com programas como pretendem casar a demanda desses territórios com o que o mercado pode ofertar). Uma política que deveria ser mais estimulado são os bancos comunitários e as moedas sociais. Isso porque, com a moeda social, por exemplo, você favorece a que se compre no comércio local, por conta do desconto.

2) Qual faixa etária (jovens, adultos) está se tornando a principal característica do empreendedorismo nas comunidades?

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

3) Que tipo de empreendimento mais cresce nessas 4 comunidades pacificadas e qual o perfil do empreendedor? (se tiver um dado mais geral, que englobe outras comunidades pacificadas)

Todos os dados de nossa pesquisa são estáticos, então não podemos afirmar que é algo de agora ou uma tendência. Os dados detalhados estão no arquivo em anexo.

4) Que cursos e/ou oficinas podem contribuir para a formação empresarial dos moradores com vocação para abrir seus próprios negócios?

Além de formações técnicas que possibilitem melhorar seus produtos e gerirem melhor seus empreendimentos, consideramos fundamental formações que desenvolvam a consciência crítica desses empreendedores, sob uma ótica de economia solidária, que permitam refletir seu empreendimento em relação a seu território. Sobre formação empresarial, não fizemos nenhuma pesquisa.

A Scientist’s Misguided Crusade (N.Y.Times)

OP-ED COLUMNIST

By JOE NOCERA

Published: March 4, 2013 

Last Friday, at 3:40 p.m., the State Department released its “Draft Supplemental Environmental Impact Statement” for the highly contentious Keystone XL pipeline, which Canada hopes to build to move its tar sands oil to refineries in the United States. In effect, the statement said there were no environmental impediments that would prevent President Obama from approving the pipeline.

Two hours and 20 minutes later, I received a blast e-mail containing a statement by James Hansen, the head of the Goddard Institute for Space Studies at NASA — i.e., NASA’s chief climate scientist. “Keystone XL, if the public were to allow our well-oiled government to shepherd it into existence, would be the first step down the wrong road, perpetuating our addiction to dirty fossil fuels, moving to ever dirtier ones,” it began. After claiming that the carbon in the tar sands “exceeds that in all oil burned in human history,” Hansen’s statement concluded: “The public must demand that the government begin serving the public’s interest, not the fossil fuel industry’s interest.”

As a private citizen, Hansen, 71, has the same First Amendment rights as everyone else. He can publicly oppose the Keystone XL pipeline if he so chooses, just as he can be as politically active as he wants to be in the anti-Keystone movement, and even be arrested during protests, something he managed to do recently in front of the White House.

But the blast e-mail didn’t come from James Hansen, private citizen. It specifically identified Hansen as the head of the Goddard Institute, and went on to describe him as someone who “has drawn attention to the danger of passing climate tipping points, producing irreversible climate impacts that would yield a different planet from the one on which civilization developed.” All of which made me wonder whether such apocalyptic pronouncements were the sort of statements a government scientist should be making — and whether they were really helping the cause of reversing climate change.

Let’s acknowledge right here that the morphing of scientists into activists is nothing new. Linus Pauling, the great chemist, was a peace activist who pushed hard for a nuclear test ban treaty. Albert Einstein also became a public opponent of nuclear weapons.

It is also important to acknowledge that Hansen has been a crucial figure in developing modern climate science. In 2009, Eileen Claussen, now the president of the Center for Climate and Energy Solutions, told The New Yorker that Hansen was a “heroic” scientist who “faced all kinds of pressures politically.” Today, his body of work is one of the foundations upon which much climate science is built.

Yet what people hear from Hansen today is not so much his science but his broad, unscientific views on, say, the evils of oil companies. In 2008, he wrote a paper, the thesis of which was that runaway climate change would occur when carbon in the atmosphere reached 350 parts per million — a point it had already exceeded — unless it were quickly reduced. There are many climate change experts who disagree with this judgment — who believe that the 350 number is arbitrary and even meaningless. Yet an entire movement,350.org, has been built around Hansen’s line in the sand.

Meanwhile, he has a department to run. For a midlevel scientist at the Goddard Institute, what signal is Hansen sending when he takes the day off to get arrested at the White House? Do his colleagues feel unfettered in their own work? There is, in fact, enormous resentment toward Hansen inside NASA, where many officials feel that their solid, analytical work on climate science is being lost in what many of them describe as “the Hansen sideshow.” His activism is not really doing any favors for the science his own subordinates are producing.

Finally, and most important, Hansen has placed all his credibility on one battle: the fight to persuade President Obama to block the Keystone XL pipeline. It is the wrong place for him to make a stand. Even in the unlikely event the pipeline is stopped, the tar sands oil will still be extracted and shipped. It might be harder to do without a pipeline, but it is already happening. And in the grand scheme, as I’ve written before, the tar sands oil is not a game changer. The oil we import from Venezuela today is dirtier than that from the tar sands. Not that the anti-pipeline activists seem to care.

What is particularly depressing is that Hansen has some genuinely important ideas, starting with placing a graduated carbon tax on fossil fuels. Such a tax would undoubtedly do far more to reduce carbon emissions and save the planet than stopping the Keystone XL pipeline.

A carbon tax might be worth getting arrested over. But by allowing himself to be distracted by Keystone, Hansen is hurting the very cause he claims to care so much about.

Anthropology Inc. (The Atlantic)

MARCH 2013 – ATLANTIC MAGAZINE

Forget online surveys and dinnertime robo-calls. A consulting firm called ReD is at the forefront of a new trend in market research, treating the everyday lives of consumers as a subject worthy of social-science scrutiny. On behalf of its corporate clients, ReD will uncover your deepest needs, fears, and desires.

By GRAEME WOOD

Viktor Koen

On a hot Austin night last summer, 60 natives convened for a social rite involving stick-on mustaches, paella, and a healthy flow of spirits. Young lesbians formed the core of the crowd. The two organizers, who had been lovers for a couple months, were celebrating their birthdays with a Spanish-themed party, decorated in bullfighting chic. It was a classic hipster affair, and everyone was loose and at ease, except for one black-haired interloper with a digital camera and a tiny notepad.

This interloper was Min Lieskovsky, a 31-year-old straight New Yorker who mingled freely and occasionally ducked into a bathroom to scribble notes. She’d left a Ph.D. program in sociocultural anthropology at Yale two years earlier, impatient with academia but still eager to use the ethnographic skills she’d mastered. Tonight, that meant she partied gamely and watched her subjects with a practiced eye, noting everything: when the party got started and when it reached its peak, who stuck mustaches on whom—and above all, what, when, and how people drank.

For Lieskovsky, it was all about the booze. The consulting firm she worked for, ReD Associates, is at the forefront of a movement to deploy social scientists on field research for corporate clients. The vodka giant Absolut had contracted with ReD to infiltrate American drinking cultures and report back on the elusive phenomenon known as the “home party.” This corrida de lesbianas was the latest in a series of home parties that Lieskovsky and her colleagues had joined in order to write an extended ethnographic survey of drinking practices, attempting to figure out the rules and rituals—spoken and unspoken—that govern Americans’ drinking lives, and by extension their vodka-buying habits.

“There’s a huge amount of vodka that’s sold for drinking at home,” Lieskovsky says. “But no one knew where it was really goingapart from down someone’s throat eventually, and on a bad night perhaps back up again. Was it treated as a sacred fluid, not to be polluted or adulterated except by an expert mixologist? Some Absolut advertising and iconography suggested exactly this, assuming understandably that buyers of a “premium” vodka would want laboratory precision for their cocktails. Another possibility was that the drinkers might not care much about the purity of the product, and that bringing it to a party merely lubricated social interaction. “We wanted to know what they are seeking,” Lieskovsky says. “Do they want the ‘perfect’ cocktail party? Is it all about how they present themselves to their friends, for status? Is it collaboration, friendship, fun?”

Over the course of the company’s research, the rituals gradually emerged. “One after another, you see the same thing,” Lieskovsky told me. “Someone comes with a bottle. She gives it to the host, then the host puts it in the freezer and listens to the story of where the bottle came from, and why it’s important.” And then, when the bottle is served, it goes right out onto the table with all the other booze, the premium spirits and the bottom-shelf hooch mixed together, in a vision of alcoholic egalitarianism that would make a pro bartender or a cocktail snob cringe.

What mattered most, to the partygoers and their hosts, were the narratives that accompanied the drinks. “We found that there is this general shift away from premium alcohol, at least as it’s defined by price point, toward something that has a story behind it,” Lieskovsky says. “They told anecdotes from their own lives in which a product played a central role—humorous, self-deprecating stories about first encountering a vodka, or discovering a liqueur while traveling in Costa Rica or Mexico.” The stories were a way to let people show humor, or to declare that they’re, for instance, the kind of Austin lesbians who, upon finding exotic elixirs in far-off lands, are brave enough to try them.

ReD consultants fanned out and shadowed drinkers at about 18 different parties, trying to see which drinking practices held constant, whether in Austin, New York, or Columbus. This is one that did. Which meant that if a premium vodka brand tried to market itself solely as a product with chemistry-lab purity, it risked misunderstanding the home-party market and leaving money on the table.

The corporate anthropology that ReD and a few others are pioneering is the most intense form of market research yet devised, a set of techniques that make surveys and dinnertime robo-calls (“This will take only 10 minutes of your time”) seem superficial by comparison. ReD is one of just a handful of consultancies that treat everyday life—and everyday consumerism—as a subject worthy of the scrutiny normally reserved for academic social science. In many cases, the consultants in question have trained at the graduate level in anthropology but have forsaken academia—and some of its ethical strictures—for work that frees them to do field research more or less full-time, with huge budgets and agendas driven by corporate masters.

The world of management consulting consists overwhelmingly of quantitative consultants, a group well known from the successes of McKinsey & Company, the Boston Consulting Group, and Bain & Company. ReD’s entry into consulting represents an attempt to match the results of these titans without relying heavily on math and spreadsheets, and instead focusing on what anthropologists call “participant observation.” This method consists, generally, of living among one’s research subjects, at least briefly. Such immersive experiences lead not only to greater intimacy and trust, but also to a slowly emerging picture of the subjects’ everyday lives and thoughts, complete with truths about them that they themselves might not know.

Absolut, which paid ReD to observe home parties, is using both quantitative analysis and this new form of ethnographic research. “We are intensive consumers of market research,” Maxime Kouchnir, the vice president of vodka marketing for Pernod Ricard USA, which distributes Absolut, told me. “The McKinseys and BCGs of the world will bring you heavy data. And I think those guys sometimes lack the human factor. What ReD brings is a deep understanding of consumers and the dynamics you find in a society.” That means finding out not only what consumers say they want in a liquor, but also what their actions reveal about the social effect they crave from bringing it to a party. “If you observe them, they will be humans, exposed with all their contradictions and complexities,” Kouchnir says. “At the end of the day, we manufacture a spirit, but we have to sell an experience.”

The method dates back nearly a century in academic anthropology, though its pedigree in the business world is somewhat more recent. Xerox PARC, the legendary Palo Alto think tank that birthed many of the ideas that made the personal-computing revolution possible, employed anthropologists as early as 1979. Leslie Perlow, a Harvard Business School professor who has applied participant observation in corporate environments, says, “There is a long history of doing this in the study of organization—taking the ethnographic method from anthropology and, instead of taking it to faraway places, trying to understand the culture of our own work worlds.”

Now a handful of consultancies specialize in ethnographic research, and many companies (including General Motors and Dell) retain their own ethnographers on staff. Microsoft is said to be the second-largest employer of anthropologists in the world, behind only the U.S. government.

Tech firms, certainly, appear to be major consumers of ethnographic research. “Technology companies as a whole are in danger of being more disconnected from their customers than other companies,” says Ken Anderson, an ethnographer at Intel. Tech designers succumb to the illusion that their users are all engineers. “Our mind-set is that people are really just like us, and they’re really not,” Anderson says. Ethnography helps teach the techie types to understand those consumers who “aren’t living and breathing the technology” the way an Intel engineer might. (A curious exception to this cautious embrace of ethnographic methods is Apple, whose late co-founder, Steve Jobs, trusted his designers—and especially himself—more than he trusted consumers or researchers. “It isn’t the consumers’ job to know what they want,” he famously said.)

Min Lieskovsky, the ReD consultant on the Absolut project, has been a friendly acquaintance of mine for nearly a decade. Christian Madsbjerg, a co-founder of ReD, gave me access to ReD consultants on two other projects, one on home appliances and the other on health care, and allowed me to tag along while they did their research. I agreed not to disclose the clients behind these two projects, and to change the names of the two women whose households the company was studying. In each case, ReD paid the households a nominal amount to answer its consultants’ questions.

Microsoft is said to be the second-largest employer of anthropologists in the world.

Both interviews I attended felt unusually intrusive. As a journalist, I’ve interviewed people about sensitive topics, such as their murderous past, or their fondness for sex with children. But a six-hour ethnographic interview felt in many ways even more intimate. After all, the corporate clients who commissioned these studies already knew the type of consumer information they could get through phone or Internet surveys. They knew everything except their customers’ naked, innermost selves, and now they wanted ReD’s ethnographers to get them those, too.

The first ReD anthropologist I went into the field with was Esra Ozkan, an MIT Ph.D. who had joined the company less than a year earlier. She wrote her dissertation on the study of corporate culture in the U.S., but she was a trained ethnographer, and spoke fluently about how Michael Fischer, a cultural anthropologist at MIT, and Joseph Dumit, an anthropologist at the University of California at Davis, had influenced her work. By birth a Muslim from eastern Turkey, Ozkan is married to an American Jew, whose family provided the connection to the woman she’d be interviewing.

The household we were about to visit was in Forest Hills, New York, and Ozkan said it was a home kept so strictly kosher that it had two kitchens, one for daily use and another, ultraclean one for Passover. The plan, she said, was to ask the ranking female, a 50‑something working mother I’ll call Rebecca, how she and her family used their living space—how they negotiated the kitchens, the bedrooms, the living rooms; what rules they followed and, more important, which ones they sometimes broke. “We want to hear them describe their homes, both for functionality, but also to hear what emotion they use to describe places,” Ozkan said.

She said much of her method involves noting which objects are assigned special importance. Interviewees carefully select the parts of their lives they exhibit to an ethnographer, and sometimes they will pause over a certain item—say, a kitchen utensil that cost $5 at Walmart, but that carries with it the memories of 30 Passovers—indicating that the object’s meaning is greater than its utility. “Those moments, when something is more than itself, are the ones I pay attention to,” Ozkan told me.

We drove to the house, a detached two-story Tudor in a quiet wooded neighborhood, and parked on the street. Upon exiting the car, Ozkan immediately whipped out an iPhone and began photographing everything, from the front lawn to the windows to the mezuzah on the doorjamb. Rebecca answered the door before we had a chance to knock, and introduced her poodle—a little yapper named Sir Paul—before introducing herself.

We walked into the house, where the children’s photos and religious decorations—every room in the “public” areas of the house showed signs of Jewish practice—gave a clear sense of self-presentation and values. Upstairs, away from the area most visitors would see, she showed us her room-size shrine to the Beatles, packed floor-to-ceiling with concert posters, guitars, and other memorabilia.

Rebecca sat us down in a slightly messy dining room adjoining a large and well-used kitchen, and Ozkan set up a camera to record everything. Our host dove right in, pointing to various appliances and explaining what each one meant to her, and where it fit in with kosher law. For every note I made, Ozkan made two. Although she knew Jewish practice well through her husband and past research, Ozkan asked Rebecca to explain the holidays and purity laws, just to see how she talked about them.

Rebecca confessed without any prompting that she would occasionally let her kosher vigilance slip slightly when she ate out, and that her husband, also Jewish, would drop the kosher thing entirely without her. “He’d eat a bacon cheeseburger if I weren’t around,” she said, perhaps half-joking. But Rebecca also said that inside the house itself, and especially around the inner-sanctum Passover kitchen, she never considered defying kosher law. “It’s like breathing, for us,” she said.

Over lunch the next day, I asked Ozkan what she had concluded from the visit. She noted all the things that Rebecca had never stated explicitly, but that were clearly what mattered most in her life. “She treats the kitchen as a holy place,” Ozkan said. That made three holy places in the house, if you count the two kitchens separately, and the Beatles shrine upstairs. Her deviance on the outside was, Ozkan said, a point well worth noting. “If you listen really carefully, you’ll find some things that don’t quite match the super-ideal framework of kosher,” she said. “And it’s always great to see that. It’s a way to see how people deal with practicalities and challenges in life, and how they choose to break that ideal image.” Listen to people talk about how they break the rules, in other words, and you’ll figure out what they consider the important rules in the first place.

Ozkan’s questions had hinted at product ideas that ReD’s client, a home-appliance maker, was considering. Would Rebecca contemplate buying an automated fridge that would advise her when she was running short on orange juice? And as Rebecca responded, her implicit consecration of her kitchen became evident. She seemed to care less about whether her kitchen remained well stocked or running smoothly than whether it remained her sacred space, controlled by her for her family, and not by, say, a talking robot. As with the vodka drinkers, the key elements were emotional ownership and connection.

The client’s goals were, in this case, never made fully clear to me. But Rebecca’s was only one of 21 homes the consultants would visit, and the only kosher one on the list. The visit would, however, begin to tell a story about Americans who love and hate their own kitchens, fetishizing some gadgets while simultaneously viewing them as instruments of their own enslavement.

If you’re selling a personal computer in China, the whole concept of “personal” is culturally wrong.

If the lessons were indistinct, they were deliberately so. ReD is gleefully defiant of those who want clear answers to simple questions, and prefers to inhabit a space where answers tend not to come in yes/no formats, or in pie charts and bar graphs. “We know numbers get you only so far,” the company’s Web site announces. “Standard techniques work for standard problems because there’s a clear benefit from being measured and systematic. But when companies are on the verge of something new or uncertain … those existing formulas aren’t easily applied.”

Jun Lee, a ReD partner, says that when clients are confronted with the company’s anthropological research, they often discover fundamental differences between the businesses they thought they were in, and the businesses they actually are in. For example, the Korean electronics giant Samsung had a major conceptual breakthrough when it realized that its televisions are best thought of not as large electronic appliances, measurable by screen size and resolution, but as home furniture. It matters less how thoroughly a speaker system rattles the bones and eardrums of its listeners than how these big screens occupy the physical space alongside one’s tables, chairs, and sofas. The company’s project engineers reframed their products accordingly, paying more attention to how they fit into living spaces, rather than how they perform on their technical spec sheets.

Christian Madsbjerg co-founded ReD almost a decade ago, after a brief stint in journalism. He dresses the part of the Nordic intellectual, alternating slick minimalist threads (think Dieter fromSaturday Night Live’s “Sprockets”) with modish Western wear that no American could really pull off. After more than 30 years in London and his native Denmark, he fled for New York, where ReD operates out of a wood-paneled Battery Park office once occupied by John D. Rockefeller.

The founding story of ReD sounds more like the genesis of a doctoral dissertation than of a multimillion-dollar company. Madsbjerg says he became enamored first with post-structural theory, and then with the 20th-century German philosopher Martin Heidegger, who argued that the distinction between objects and their beholders needed to be effaced. When we consider a hammer, we might naturally think of its objective scientific properties: a certain weight and balance, a hardness, a handle with a rubber grip that has a particular coefficient of friction. What Heidegger posited is that these objective attributes are in fact secondary to the hammer’s subjective relationship with the person wielding it. The hammer has uses (a weapon, a tool), meanings (a symbol on the Soviet flag), and other characteristics that do not exist independently of the meeting of subject and object. A common mistake of philosophers, he claimed, is to think of the object as distinct from the subject. If all of this sounds opaque, I can assure you that in the original German it is much, much worse.


NowThisNews explores how Heidegger’s philosophy helps drive American marketing.


But before long, Madsbjerg had a list of clients desperate for Heideggerian readings of their businesses. The service he provides sounds even more improbable to a scholar who knows his Heidegger than to a layperson who does not. Many philosophers spend their lives trying and failing to understand what Heidegger was talking about. To interest a typical ReD client—usually a corporate vice president who is, Madsbjerg says, “the least laid-back person you can imagine, with every minute of their day divided into 15-minute blocks”—in the philosopher’s turgid, impenetrable post-structural theory is as unlikely a pitch as could be imagined.

But it’s the pitch Madsbjerg has been making. The fundamental blindness in the sorts of consulting that dominate the market, he says, is that they are Cartesian in their outlook: they view objects as the sum of their performance and physical properties. “If you are selling personal computers, you look at the machine and say it’s this many gigahertz, this many pixels,” he says. And you then determine whether a potential new market needs computers that perform faster than the ones currently on offer, and how big that market will be.

These specs, as well as data about how many households in, say, China will reach income levels that will allow a personal-computer purchase, fit nicely into spreadsheets and graphs. But they overlook human elements that exist in plain sight, the things the Anglo-Polish founder of the ethnographic method, Bronisław Malinowski, called “the imponderabilia of actual life.” These are, he wrote, “small incidents, characteristic forms of taking food, of conversing, of doing work, [that] are found occurring over and over again.”

These imponderabilia turn out to have huge consequences if you want to sell a personal computer in China. “We find that these objects have meanings, not just facts,” Madsbjerg says, “and that the meaning is often what matters.” So to sell a personal computer in China, for example, what matters is the whole concept of a “personal” computer, which is culturally wrong from the start. “Household objects don’t have the same personal attachment [in China as they do in America]. It has to be ashared thing.” So if the device isn’t designed and marketed as a shared household object, but instead as one customized for a single user, it probably won’t sell, no matter how many gigahertz it has.

China is a huge potential market, and every corporation with any ambition wants its piece of that pie, on the idea that if you make a dollar off each man, woman, and child in China, you’ve just made $1 billion. A source told me, for instance, that Coca-Cola approached ReD after years of trying and failing to sell bottled tea in China. (ReD would not confirm that the client in question was Coca-Cola.) The beverage company had imagined that this would be a simple variant on the fizzy-sugared-water business that had made it a global icon. Instead, it failed to seize a respectable market share, even though it was competing with lightweight local competitors.

Long-term observation revealed that when it comes to tea in China, what is for sale isn’t merely a tasty beverage. Instead, the consumption of tea takes place in a highly specific web of cultural rules, some of them explicit but many others not. For instance, you might serve strong tea to close friends, or to people you want to draw closer. But you would never serve strong tea to new acquaintances. That meant that no tea, however tasty, would sell if its strength was uniform. Let the consumer choose the strength, however, and you may be able to sell the product within the culture. Coca-Cola’s Chinese tea products are now on course to change accordingly.

To sell the ReD idea—that products and objects are inevitably encrusted with cultural meaning, and that a company that neglects to explore social theory is bound to leave profits on the table—Madsbjerg has evangelized with great success, giving what are surely the only successful corporate sales pitches salted with words like hermeneutics and phenomenology. Most of his consultants don’t have the usual business pedigree; M.B.A.s are very scarce (“tend not to fit in,” he says). Rather, many employees come from academia, and some from another interview- and observation-based realm: journalism. (I came to know the firm first through Lieskovsky—the former anthropology student on the Absolut project—and through another employee, who is a former editor at GQ.)

The second consultant I followed, Rachel Singh, also came from academia. A native of Manitoba, she’d joined ReD a year and a half earlier, after doing ethnographic work for Intel’s Ireland office and attending graduate school in digital anthropology at University College London.

We met a few blocks from the apartment of the day’s interview subject, at a café in the Los Angeles suburb of Tarzana—a concrete jungle named after the principal literary creation of Edgar Rice Burroughs, an early celebrity resident of the area. It occurred to me that in a previous era, before anthropologists discovered that their own societies were as irrationally rule-bound as so-called primitive ones, Singh might have aspired to perform fieldwork in actual jungles, and to study actual Tarzans.

The view of anthropologists as tourists in exotic lands is old and tired, which is not to say dead. Singh surprised me with her candor several times over the course of the day, but the first occasion was when she described her entry into the world of anthropology, which sounded to me like exactly that sort of romantic vision. “I came to university as a premed, and one day I just wandered into a lecture hall and heard a guy giving a lecture about his fieldwork with the Kwakiutl of British Columbia. He went on a ‘vision quest,’ and after falling asleep on a secluded beach, he woke up surrounded by seals. He returned to the village and was told by an elder that he had found his guardian animal.” Then, she said, the lecturer hiked up his sleeve to reveal a seal tattoo. Singh was hooked on the study of culture. She changed her major, and she sees continuity between her academic work and what she does now as an ethnographic hired gun.

In Tarzana, Singh was scheduled to meet, on behalf of a ReD client in the health-care field, a woman I’ll call Elsie. It was 10 a.m. on a beautiful Southern California Sunday—a perfectly awful time to sit inside and discuss the day’s topic, the visible precancerous skin lesions from which Elsie suffers. “It makes me feel like a leper,” Elsie confided after we began, and Singh nodded sympathetically, like an old friend. “It makes me feel like hiding.”

The interview started much the same way the previous one had, with the anthropologist documenting the setting in minute detail. With her iPhone, Singh snapped shots of the street, the parking garage, the squares of grass and the tropical trees in the neighborhood. Once inside, her eyes darted over every surface, and she noted the vacuum track marks on the floor; the drawers full of tubes of prescription creams; the European posters. Singh set up a video camera to record every minute of the six-hour interview—the better to capture the moments when Elsie’s responses revealed traces of unexpected emotion or meaning. Singh asked Elsie, a hefty, sun-spotted redhead of 52, about her medical regimen, then about the basic details of her life—what her childhood had been like, where she had lived, when she woke up every morning, what she ate, and whom she spoke with.

Singh unpacked Elsie’s responses methodically, adding an occasional compassionate or sympathetic word. When Singh asked about Elsie’s lesions, she phrased the questions carefully, suggesting that she could feel Elsie’s pain. “How would get this condition?” she asked. “What would be the symptoms?”

Elsie’s was the first of perhaps two dozen similarly in-depth interviews, Singh told me later. The client had created a product to treat one of Elsie’s conditions. The company knew very well what would happen to a lesion if it were frozen, zapped, or rubbed with cream. But what about the person attached to the lesion? A simplistic model of patient behavior might say that patients want whatever the most effective treatment is. But the conversation with Elsie revealed a much more fraught human experience. She had her taboos, such as being forced to even say the word lesion. She wanted to escape not just her lesions, but the shame they brought on.

Once Singh had completed the interview, before we parted ways, she made clear that there was at least one argument within anthropology that she was tired of hearing about: “Just don’t make this another story about the clash between practicing anthropologists and academics.”

The politics of anthropologists in academia tends to the Marxist left, even more so than the politics of academics in general. And to many of them, the defection of young scholars to the corporate world looks like a betrayal at best, and a devil’s bargain at worst. I told Singh that academic anthropologists had already shared some harsh words for their applied-anthropology brothers and sisters. “Well, they’re endangered,” she said of the academics, a little snootily. “We’re doing work that’s needed. We’re dealing with human issues.”

ReD offers businesses Heideggerian analysis, which sounds even more improbable to a scholar than to a layperson.

The corporate anthropologists I met generally come across as people who acknowledge the limits of what they do. Ken Anderson, the Intel ethnographer, co-founded a conference called EPIC for corporate ethnographers. Over the phone, he was warm and jokey, seemingly without rancor when he told me about his failed quest for an academic job out of graduate school (“At the time, the employment opportunities for white guys in academic anthropology were pretty darn slim”). He found instead a corporate career that has encouraged anthropological work—as long as it could hold relevance to the corporation at some point. He has spent weeks in London hanging out with bike messengers for Intel, and hunkered down in the Azores as digital technology reached remote settlements. Sure enough, his research sounds very blue-sky, and on a recognizable continuum with the anthropological research cultivated in the groves of academe.

A few years ago, he conducted an ethnographic study of “temporality,” about the perception of the passage and scarcity of time—noting how Americans he studied had come to perceive busy-ness and lack of time as a marker of well-being. “We found that in social interaction, virtually everyone would claim to be ‘busy,’ and that everyone close to them would be ‘busy’ too,” he told me. But in fact, coordinated studies of how these people used technology suggested that when they used their computers, they tended to do work only in short bursts of a few minutes at a time, with the rest of the time devoted to something other than what we might identify as work. “We were designing computers, and the spec at the time was to use the computer to the max for two hours,” Anderson says. “We had to make chips that would perform at that level. You don’t want them to overheat. But when we came back, we figured that we needed to rethink this, because people’s time is not quite what we imagine.” For a company that makes microchip processors, this discovery has had important consequences for how to engineer products—not only for users who constantly need high-powered computing for long durations, but for people who just think they do.

Among the luxuries of working for a corporate master is, of course, deliverance from the endless hustle to find funding. My partner is an academic anthropologist, and she goes from year to year having to pull together funding for trips to field sites in the Central African Republic—which, unlike China, is not a hotbed of corporate interest. (By contrast, Madsbjerg told me, “Our resources are not infinite. But almost.”)

But the bigger issue for academics is the fear that corporate anthropology is an ethical free-fire zone. “If there isn’t an IRB [institutional review board], a sort of neutral third party that watches out for the interests of those who are being researched, then obviously there is cause for concern,” says Hugh Gusterson, a George Mason University professor who has led anthropologists in opposing cooperation with certain U.S. military projects. He pointed to fury among his colleagues a few years ago, when it became known that Disney had paid ethnographers to study teenagers’ spending habits, the better to sell them Disney products. “They were learning about people—and not just any people, but minors—so they could exploit them, for profit.”

To get a research project approved at a modern university, a researcher faces a review board of professors commissioned to scrutinize the proposal and check for ethical sticking points—ways the project could hurt the people it studied, disrupt their lives, or take advantage of them. ReD, meanwhile, is bound only by the sense of decency of its senior partners. Luckily, they are Danish. I asked Madsbjerg if he had ever turned away a contract on account of scruples, and he told me the military of a South American country had approached him to discuss an ethnographic project on weapons design. He refused, on the grounds that helping people shoot other people wasn’t what ReD was about. Nor would he do work for a company that wanted to sell junk food to children. On the other hand, even contracts that are less obviously perilous, ethically speaking, could raise the hackles of an academic review board. Helping Coca-Cola feed sweetened beverages to 1.3 billion Chinese, for example, will probably not have a healthy impact on that country’s incidence of diabetes.

Roberto González, a cultural anthropologist who teaches at San Jose State University, goes so far as to argue that those who don’t follow the American Anthropological Association’s code of ethics should no longer be considered anthropologists at all. “Part of being an anthropologist is following a code of ethics, and if you don’t do that, you’re not an anthropologist”—just as you’re no longer fit to call yourself a doctor if you do unauthorized experiments on your patients. “Of course,” Hugh Gusterson adds, “we don’t license anthropologists, so we can’t un-license them either.”

Some anthropologists caution against assuming that the work done by ReD consultants and their corporate brethren is really ethnography at all. During the U.S. invasions of Iraq and Afghanistan, the U.S. Army convened a team of purported ethnographers to staff a group called the Human Terrain System, which was tasked with producing militarily significant ethnographic reports and providing cultural advice. Professional anthropologists raised hell, condemning the participants for using their training inappropriately, but in time it became clear that there weren’t many anthropologists on the HTS staff at all. (One team member I knew had a doctorate in Russian literature.) The civilians on the staff were, for the most part, just a bunch of well-educated people reading up on Iraqi and Afghan tribes and writing reports that were quasi-anthropological at best.

That, it seems to me, is probably the best way to view much of what ReD does as well. The value the firm brings to clients comes partly from anthropology, practiced in a way that may or may not please those still in academia. But the value is also just an effect of putting an impressive ethnographic sheen on the work of many smart, right-brained individuals in a sector that overvalues quantitative research. Much of what I encountered while shadowing ReD’s consultants seemed like the type of insight that any observant interviewer might have produced, with or without an anthropology degree or a working knowledge of Heidegger.

Madsbjerg’s admiration for Heidegger does, however, show something of his genius for self-marketing. Many consulting firms plot growth curves and recommend efficiency strategies, but few offer the kind of research ReD does. Still fewer firms immerse themselves so happily in academic language, and only Madsbjerg has the cojones to walk into a corporate boardroom and tell his audience that the impenetrable works of a long-dead German philosopher hold the keys to financial success.

I asked Madsbjerg how he would sell his firm to a potential employee currently teaching at a university, and he leaned toward me with a smile, slipping comfortably into the Marxist lingo of academia. “Do you want to sit and write about the world,” he asked, “or do you want to do something in it?”

I couldn’t help but think of Steve Jobs’s famous entreaty to John Sculley, then the president of PepsiCo, asking him to join Apple in 1983 as CEO. “Do you want to sell sugared water for the rest of your life?,” Jobs asked. “Or do you want to come with me and change the world?”

The irony, of course, is that ReD is changing the world in part by helping a global beverage company sell more sugared water.

Graeme Wood is an Atlantic contributing editor.

Indígenas ameaçam guerra para barrar hidrelétricas no rio Tapajós (Valor Econômico)

JC e-mail 4671, de 25 de Fevereiro de 2013.

Um grupo de líderes de aldeias localizadas no Pará e no norte do Mato Grosso esteve em Brasília para protestar contra ações de empresas na região

Não houve acordo. O governo teve uma pequena amostra, na semana passada, da resistência que enfrentará para levar adiante seu projeto de construção de hidrelétricas ao longo do rio Tapajós, uma região isolada da Amazônia onde vivem hoje cerca de 8 mil índios da etnia munduruku. Um grupo de líderes de aldeias localizadas no Pará e no norte do Mato Grosso, Estados que são cortados pelo rio, esteve em Brasília para protestar contra ações de empresas na região, que realizam levantamento de informações para preparar o licenciamento ambiental das usinas.

Os índios tiveram uma reunião com o ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão. Na mesa, os projetos da hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e de Jatobá, dois dos maiores projetos de geração previstos pelo governo. Lobão foi firme. Disse aos índios que o governo não vai abrir mãos das duas usinas e que eles precisam entender isso. Valter Cardeal, diretor da Eletrobras que também participou da discussão, tentou convencer os índios de que o negócio é viável e de que eles serão devidamente compensados pelos impactos. Os índios deixaram a sala.

Para o cacique Arnaldo Koba Munduruku, que lidera todos os povos indígenas da região do Tapajós, o resultado do encontro foi negativo. “Nosso povo não quer indenização, nem quer o dinheiro de usina. Nosso povo quer o rio como ele é”, disse Koba ao Valor. “Não vamos permitir que usinas ou até mesmo que estudos sejam feitos. Vamos unir nossa gente e vamos para o enfrentamento. O Tapajós não vai sofrer como sofre hoje o rio Xingu”, afirmou o líder indígena, referindo-se às complicações indígenas que envolvem o licenciamento e a construção da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA).

Numa carta que foi entregue nas mãos do secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, os índios pediram “que o governo brasileiro respeite a decisão do povo munduruku e desista de construir essas hidrelétricas”. No mesmo documento, os índios cobram agilidade na investigação da morte de Adenilson Kirixi Munduruku, que foi assassinado com três tiros em novembro do ano passado, na região do Teles Pires, rio localizado no norte do Mato Grosso e que forma o Tapajós, em sua confluência com o rio Juruena.

Os índios se negaram a assinar um documento apresentado pela Presidência, que previa compromissos a serem assumidos pelo governo, por entenderem que se tratava de uma consulta prévia já atrelada ao licenciamento das usinas do Tapajós. “Viemos até aqui para cobrar a punição pelo assassinato de nosso irmão, mas vimos que a intenção do governo era outra. Ele queria mesmo era tratar das usinas, mas não permitimos isso”, disse o líder indígena Waldelirio Manhuary Munduruku. “Não vamos nos ajoelhar. Não haverá usinas, nem estudos de usinas. Iremos até o fim nessa guerra.”

No balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) divulgado na semana passada, o cronograma de São Luiz do Tapajós e de Jatobá estabelece o mês de setembro para conclusão dos estudos ambientais das usinas. O levantamento de informações na região começou a ser feito pela Eletrobras há pelo menos um ano e meio. Analistas ambientais e técnicos da estatal têm enfrentado resistências na região para colher informações dos moradores.

O grupo de empresas que o governo reuniu em agosto do ano passado para participar da elaboração dos estudos dá uma ideia do interesse energético que a União tem no Tapajós. Com a Eletrobras estão Cemig Geração e Transmissão, Copel Geração e Transmissão, GDF Suez Energy Latin America Participações, Endesa do Brasil e Neoenergia Investimentos.

Com as usinas de São Luiz e Jatobá, o governo quer adicionar 8.471 megawatts de potência à sua matriz energética. O custo ambiental disso seria a inundação de 1.368 quilômetros quadrados de floresta virgem, duas vezes e meia a inundação que será causada pela hidrelétrica de Belo Monte. O governo diz que é pouco e que, se forem implementadas todas as usinas previstas para a Amazônia, menos de 1% da floresta ficaria embaixo d”água.

(André Borges – Valor Econômico)

The Politics of Disimagination and the Pathologies of Power (Truth Out)

Wednesday, 27 February 2013 00:00

By Henry A GirouxTruthout | News Analysis

Eye reflecitng TV(Photo: tryingmyhardest). You write in order to change the world knowing perfectly well that you probably can’t, but also knowing that [writing] is indispensable to the world. The world changes according to the way people see it, and if you alter even by a millimeter the way people look at reality, then you can change it.” – James Baldwin

The Violence of Neoliberalism

We live in a time of deep foreboding, one that haunts any discourse about justice, democracy and the future. Not only have the points of reference that provided a sense of certainty and collective hope in the past largely evaporated, but the only referents available are increasingly supplied by a hyper-market-driven society, megacorporations and a corrupt financial service industry. The commanding economic and cultural institutions of American society have taken on what David Theo Goldberg calls a “militarizing social logic.”[1] Market discipline now regulates all aspects of social life, and the regressive economic rationality that drives it sacrifices the public good, public values and social responsibility to a tawdry consumerist dream while simultaneously creating a throwaway society of goods, resources and individuals now considered disposable.[2] This militarizing logic is also creeping into public schools and colleges with the former increasingly resembling the culture of prison and the latter opening their classrooms to the national intelligence agencies.[3] In one glaring instance of universities endorsing the basic institutions of the punishing state, Florida Atlantic University in Boca Raton, concluded a deal to rename its football stadium after the GEO Group, a private prison corporation “whose record is marred by human rights abuses, by lawsuits, by unnecessary deaths of people in their custody and a whole series of incidents.” [3A] Armed guards are now joined by armed knowledge.  Corruption, commodification and repressive state apparatuses have become the central features of a predatory society in which it is presumed irrationally “that market should dominate and determine all choices and outcomes to the occlusion of any other considerations.”[4]

The political, economic, and social consequences have done more than destroy any viable vision of a good society. They undermine the modern public’s capacity to think critically, celebrate a narcissistic hyperindividualism that borders on the pathological, destroy social protections and promote a massive shift towards a punitive state that criminalizes the behavior of those bearing the hardships imposed by a survival-of-the-fittest society that takes delight in the suffering of others. How else to account for a criminal justice stacked overwhelmingly against poor minorities, a prison system in which “prisoners can be held in solitary confinement for years in small, windowless cells in which they are kept for twenty-three hours of every day,”[5] or a police state that puts handcuffs on a 5-year old and puts him in jail because he violated a dress code by wearing sneakers that were the wrong color.[6] Why does the American public put up with a society in which “the top 1 percent of households owned 35.6 percent of net wealth (net worth) and a whopping 42.4 percent of net financial assets” in 2009, while many young people today represent the “new face of a national homeless population?”[7] American society is awash in a culture of civic illiteracy, cruelty and corruption. For example, major banks such as Barclays and HSBC swindle billions from clients and increase their profit margins by laundering money for terrorist organizations, and no one goes to jail. At the same time, we have the return of debtor prisons for the poor who cannot pay something as trivial as a parking fine. President Obama arbitrarily decides that he can ignore due process and kill American citizens through drone strikes and the American public barely blinks. Civic life collapses into a war zone and yet the dominant media is upset only because it was not invited to witness the golf match between Obama and Tiger Woods.

The celebration of violence in both virtual culture and real life now feed each other. The spectacle of carnage celebrated in movies such as A Good Day to Die Hard is now matched by the deadly violence now playing out in cities such as Chicago and New Orleans. Young people are particularly vulnerable to such violence, with 561 children age 12 and under killed by firearms between 2006 and 2010.[8] Corporate power, along with its shameless lobbyists and intellectual pundits, unabashedly argue for more guns in order to feed the bottom line, even as the senseless carnage continues tragically in places like Newtown, Connecticut, Tustin, California, and other American cities. In the meantime, the mainstream media treats the insane rambling of National Rifle Association’s (NRA) Executive Vice President Wayne LaPierre as a legitimate point of view among many voices. This is the same guy who, after the killing of 20 young children and six adults at Sandy Hook Elementary School, claimed the only way to stop more tragedies was to flood the market with more guns and provide schools with more armed guards. The American public was largely silent on the issue in spite of the fact that an increase of police in schools does nothing to prevent such massacres but does increase the number of children, particularly poor black youth, who are pulled out of class, booked and arrested for trivial behavioral infractions.

At the same time, America’s obsession with violence is reinforced by a market society that is Darwinian in its pursuit of profit and personal gain at almost any cost. Within this scenario, a social and economic order has emerged that combines the attributes and values of films such as the classics Mad Max and American Psycho. Material deprivation, galloping inequality, the weakening of public supports, the elimination of viable jobs, the mindless embrace of rabid competition and consumption, and the willful destruction of the environment speak to a society in which militarized violence finds its counterpart, if not legitimating credo, in a set of atomizing and selfish values that disdain shared social bonds and any notion of the public good. In this case, American society now mimics a market-driven culture that celebrates a narcissistic hyperindividualism that radiates with a new sociopathic lack of interest in others and a strong tendency towards violence and criminal behavior. As John le Carré once stated, “America has entered into one of its periods of historical madness.”[9] While le Carré wrote this acerbic attack on American politics in 2003, I think it is fair to say that things have gotten worse, and that the United States is further plunging into madness because of a deadening form of historical and social amnesia that has taken over the country, further reproducing a mass flight from memory and social responsibility. The politics of disimagination includes, in this instance, what Mumia Abu-Jamal labeled “mentacide,” a form of historical amnesia “inflicted on Black youth by the system’s systematic campaign to eradicate and deny them their people’s revolutionary history.”[10]

America’s Plunge Into Militarized Madness

How does one account for the lack of public outcry over millions of Americans losing their homes because of corrupt banking practices and millions more becoming unemployed because of the lack of an adequate jobs program in the United States, while at the same time stories abound of colossal greed and corruption on Wall Street? [11] For example, in 2009 alone, hedge fund manager David Tepper made approximately 4 billion dollars.[12] As Michael Yates points out: “This income, spent at a rate of $10,000 a day and exclusive of any interest, would last him and his heirs 1,096 years! If we were to suppose that Mr. Tepper worked 2,000 hours in 2009 (fifty weeks at forty hours per week), he took in $2,000,000 per hour and $30,000 a minute.”[13] This juxtaposition of robber-baron power and greed is rarely mentioned in the mainstream media in conjunction with the deep suffering and misery now experienced by millions of families, workers, children, jobless public servants and young people. This is especially true of a generation of youth who have become the new precariat[14] – a zero generation relegated to zones of social and economic abandonment and marked by zero jobs, zero future, zero hope and what Zygmunt Bauman has defined as a societal condition which is more “liquid,”less defined, punitive, and, in the end, more death dealing.[15]

Narcissism and unchecked greed have morphed into more than a psychological category that points to a character flaw among a marginal few. Such registers are now symptomatic of a market-driven society in which extremes of violence, militarization, cruelty and inequality are hardly noticed and have become normalized. Avarice and narcissism are not new. What is new is the unprecedented social sanction of the ethos of greed that has emerged since the 1980s.[16] What is also new is that military force and values have become a source of pride rather than alarm in American society. Not only has the war on terror violated a host of civil liberties, it has further sanctioned a military that has assumed a central role in American society, influencing everything from markets and education to popular culture and fashion. President Dwight D. Eisenhower left office warning about the rise of the military-industrial complex, with its pernicious alignment of the defense industry, the military and political power.[17] What he underestimated was the transition from a militarized economy to a militarized society in which the culture itself was shaped by military power, values and interests. What has become clear in contemporary America is that the organization of civil society for the production of violence is about more than producing militarized technologies and weapons; it is also about producing militarized subjects and a permanent war economy. As Aaron B. O’Connell points outs:

Our culture has militarized considerably since Eisenhower’s era, and civilians, not the armed services, have been the principal cause. From lawmakers’ constant use of “support our troops” to justify defense spending, to TV programs and video games like “NCIS,” “Homeland”and “Call of Duty,” to NBC’s shameful and unreal reality show “Stars Earn Stripes,” Americans are subjected to a daily diet of stories that valorize the military while the storytellers pursue their own opportunistic political and commercial agendas.[18]

The imaginary of war and violence informs every aspect of American society and extends from the celebration of a warrior culture in mainstream media to the use of universities to educate students in the logic of the national security state. Military deployments now protect “free trade” arrangements, provide job programs and drain revenue from public coffers. For instance, Lockheed Martin stands to gain billions of dollars in profits as Washington prepares to buy 2,443 F-35 fighter planes at a cost of $90 million each from the company. The overall cost of the project for a plane that has been called a “one trillion dollar boondoggle” is expected to cost more “than Australia’s entire GDP ($924 billion).”[19] Yet, the American government has no qualms about cutting food programs for the poor, early childhood programs for low-income students and food stamps for those who exist below the poverty line. Such misplaced priorities represent more than a military-industrial complex that is out of control. They also suggest the plunge of American society into the dark abyss of a state that is increasingly punitive, organized around the production of violence and unethical in its policies, priorities and values.

John Hinkson argues that such institutionalized violence is far from a short-lived and aberrant historical moment. In fact, he rightfully asserts that: “we have a new world economy, one crucially that lacks all substantial points of reference and is by implication nihilistic. The point is that this is not a temporary situation because of the imperatives, say, of war: it is a structural break with the past.”[20] Evidence of such a shift is obvious in the massive transfer upward in wealth and income that have not only resulted in the concentration of power in relatively few hands, but have promoted both unprecedented degrees of human suffering and hardship along with what can be called a politics of disimagination.

The Rise of the “Disimagination Machine”

Borrowing from Georges Didi-Huberman’s use of the term, “disimagination machine,” I argue that the politics of disimagination refers to images, and I would argue institutions, discourses, and other modes of representation, that undermine the capacity of individuals to bear witness to a different and critical sense of remembering, agency, ethics and collective resistance.[21] The “disimagination machine” is both a set of cultural apparatuses extending from schools and mainstream media to the new sites of screen culture, and a public pedagogy that functions primarily to undermine the ability of individuals to think critically, imagine the unimaginable, and engage in thoughtful and critical dialogue: put simply, to become critically informed citizens of the world.

Examples of the “disimagination machine” abound. A few will suffice. For instance, the Texas State Board of Education and other conservative boards of education throughout the United States are rewriting American textbooks to promote and impose on America’s public school students what Katherine Stewart calls “a Christian nationalist version of US history” in which Jesus is implored to “invade” public schools.[22] In this version of history, the term “slavery” is removed from textbooks and replaced with “Atlantic triangular trade,” the earth is 6,000 years old, and the Enlightenment is the enemy of education. Historical figures such as Jefferson, Thomas Paine and Benjamin Franklin, considered to have suspect religious views, “are ruthlessly demoted or purged altogether from the study program.”[23] Currently, 46 percent of the American population believes in the creationist view of evolution and increasingly rejects scientific evidence, research and rationality as either ‘academic’ or irreligious.[24]

The rise of the Tea Party and the renewal of the culture wars have resulted in a Republican Party which is now considered the party of anti-science. Similarly, right-wing politicians, media, talk show hosts and other conservative pundits loudly and widely spread the message that a culture of questioning is antithetical to the American way of life. Moreover, this message is also promoted by conservative groups such as The American Legislative Exchange Council, (ALEC) which has “hit the ground running in 2013, pushing ‘model bills’ mandating the teaching of climate change denial in public school systems.”[25] The climate-change-denial machine is also promoted by powerful conservative groups such as the Heartland Institute. Ignorance is never too far from repression, as was recently demonstrated in Arizona, where State Rep. Bob Thorpe, a Republican freshman Tea Party member, introduced a new bill requiring students to take a loyalty oath in order to receive a graduation diploma.[26]

The “disimagination machine” is more powerful than ever as conservative think tanks provide ample funds for training and promoting anti-public pseudo-intellectuals and religious fundamentalists while simultaneously offering policy statements and talking points to conservative media such as FOX News, Christian news networks, right-wing talk radio, and partisan social media and blogs. This ever growing information/illiteracy bubble has become a powerful force of public pedagogy in the larger culture and is responsible for not only the war on science, reason and critical thought, but also the war on women’s reproductive rights, poor minority youth, immigrants, public schooling, and any other marginalized group or institution that challenges the anti-intellectual, anti-democratic worldviews of the new extremists and the narrative supporting Christian nationalism. Liberal Democrats, of course, contribute to this “disimagination machine” through educational policies that substitute critical thinking and critical pedagogy for paralyzing pedagogies of memorization and rote learning tied to high-stakes testing in the service of creating a neoliberal, dumbed-down workforce.

As John Atcheson has pointed out, we are “witnessing an epochal shift in our socio-political world. We are de-evolving, hurtling headlong into a past that was defined by serfs and lords; by necromancy and superstition; by policies based on fiat, not facts.”[27] We are also plunging into a dark world of anti-intellectualism, civic illiteracy and a formative culture supportive of an authoritarian state. The embrace of ignorance is at the center of political life today, and a reactionary form of public pedagogy has become the most powerful element of the politics of authoritarianism. Civic illiteracy is the modus operandi for creating depoliticized subjects who believe that consumerism is the only obligation of citizenship, who privilege opinions over reasoned arguments, and who are led to believe that ignorance is a virtue rather than a political and civic liability. In any educated democracy, much of the debate that occupies political life today, extending from creationism and climate change denial to “birther” arguments, would be speedily dismissed as magical thinking, superstition and an obvious form of ignorance. Mark Slouka is right in arguing that, “Ignorance gives us a sense of community; it confers citizenship; our representatives either share it or bow down to it or risk our wrath…. Communicate intelligently in America and you’re immediately suspect.”[28] The politics and machinery of disimagination and its production of ever-deepening ignorance dominates American society because it produces, to a large degree, uninformed customers, hapless clients, depoliticized subjects and illiterate citizens incapable of holding corporate and political power accountable. At stake here is more than the dangerous concentration of economic, political and cultural power in the hands of the ultrarich, megacorporations and elite financial services industries. Also at issue is the widespread perversion of the social, critical education, the public good, and democracy itself.

Toward a Radical Imagination

Against the politics of disimagination, progressives, workers, educators, young people and others need to develop a a new language of radical reform and create new public spheres that provide the pedagogical conditions for critical thought, dialogue and thoughtful deliberation. At stake here is a notion of pedagogy that both informs the mind and creates the conditions for modes of agency that are critical, informed, engaged and socially responsible. The radical imagination can be nurtured around the merging of critique and hope, the capacity to connect private troubles with broader social considerations, and the production of alternative formative cultures that provide the precondition for political engagement and for energizing democratic movements for social change – movements willing to think beyond isolated struggles and the limits of a savage global capitalism. Stanley Aronowitz and Peter Bratsis point to such a project in their manifesto on the radical imagination. They write:

This Manifesto looks forward to the creation of a new political Left formation that can overcome fragmentation, and provide a solid basis for many-side interventions in the current economic, political and social crises that afflict people in all walks of life. The Left must once again offer to young people, people of color, women, workers, activists, intellectuals and newly-arrived immigrants places to learn how the capitalist system works in all of its forms of exploitation whether personal, political, or economic. We need to reconstruct a platform to oppose Capital. It must ask in this moment of US global hegemony what are the alternatives to its cruel power over our lives, and those of large portions of the world’s peoples. And the Left formation is needed to offer proposals on how to rebuild a militant, democratic labor movement, strengthen and transform the social movements; and, more generally, provide the opportunity to obtain a broad education that is denied to them by official institutions. We need a political formation dedicated to the proposition that radical theory and practice are inextricably linked, that knowledge without action is impotent, but action without knowledge is blind.[29]

Matters of justice, equality, and political participation are foundational to any functioning democracy, but it is important to recognize that they have to be rooted in a vibrant formative culture in which democracy is understood not just as a political and economic structure but also as a civic force enabling justice, equality and freedom to flourish. While the institutions and practices of a civil society and an aspiring democracy are essential in this project, what must also be present are the principles and modes of civic education and critical engagement that support the very foundations of democratic culture. Central to such a project is the development of a new radical imagination both through the pedagogies and projects of public intellectuals in the academy and through work that can be done in other educational sites, such as the new media. Utilizing the Internet, social media, and other elements of the digital and screen culture, public intellectuals, cultural workers, young people and others can address larger audiences and present the task of challenging diverse forms of oppression, exploitation and exclusion as part of a broader effort to create a radical democracy.

There is a need to invent modes of pedagogy that release the imagination, connect learning to social change and create social relations in which people assume responsibility for each other. Such a pedagogy is not about methods or prepping students to learn how to take tests. Nor is such an education about imposing harsh disciplinary behaviors in the service of a pedagogy of oppression. On the contrary, it is about a moral and political practice capable of enabling students and others to become more knowledgeable while creating the conditions for generating a new vision of the future in which people can recognize themselves, a vision that connects with and speaks to the desires, dreams and hopes of those who are willing to fight for a radical democracy. Americans need to develop a new understanding of civic literacy, education and engagement, one capable of developing a new conversation and a new political project about democracy, inequality, and the redistribution of wealth and power, and how such a discourse can offer the conditions for democratically inspired visions, modes of governance and policymaking. Americans need to embrace and develop modes of civic literacy, critical education and democratic social movements that view the public good as a utopian imaginary, one that harbors a trace and vision of what it means to defend old and new public spheres that offer spaces where dissent can be produced, public values asserted, dialogue made meaningful and critical thought embraced as a noble ideal.

Elements of such a utopian imaginary can be found in James Baldwin’s “Open Letter to My Sister, Angela Davis,” in which he points out that “we live in an age in which silence is not only criminal but suicidal.”[30] The utopian imaginary is also on full display in Martin Luther King Jr.’s “Letter from Birmingham City Jail,” where King states under the weight and harshness of incarceration that an “injustice anywhere is a threat to justice everywhere … [and asks whether we will] be extremists for the preservation of injustice – or will we be extremists for the cause of justice?”[31] According to King, “we must use time creatively, and forever realize that the time is always ripe to do right. Now is the time to make real the promise of democracy.”[32] We hear it in the words of former Harvard University President James B. Conant, who makes an impassioned call for “the need for the American radical – the missing political link between the past and future of this great democratic land.” [33] We hear it in the voices of young people all across the United States – the new American radicals – who are fighting for a society in which justice matters, social protections are guaranteed, equality is insured, and education becomes a right and not an entitlement. The radical imagination waits to be unleashed through social movements in which injustice is put on the run and civic literacy, economic justice, and collective struggle once again become the precondition for agency, hope and the struggle over democracy.

Endnotes

1.
David Theo Goldberg, “Mission Accomplished: Militarizing Social Logic,”in Enrique Jezik: Obstruct, destroy, conceal, ed. Cuauhtémoc Medina (Mexico: Universidad Nacional Autónoma de México, 2011), 183-198.

2.
See, for example, Colin Leys, Market Driven Politics (London: Verso, 2001); Randy Martin, Financialization of Daily Life (Philadelphia: Temple University Press, 2002); Pierre Bourdieu, Firing Back: Against the Tyranny of the Market 2. Trans. Loic Wacquant (New York: The New Press, 2003); Alfredo Saad-Filho and Deborah Johnston, Neoliberalism: A Critical Reader (London: Pluto Press, 2005); Henry A. Giroux, Against the Terror of Neoliberalism (Boulder: Paradigm, 2008); David Harvey, A Brief History of Neoliberalism (New York: Oxford University Press, 2007); Manfred B. Steger and Ravi K. Roy, Neoliberalism: A Very Short Introduction (New York: Oxford University Press, 2010); Gerad Dumenil and Dominique Levy, The Crisis of Neoliberalism (Cambridge: Harvard University Press, 2011). Henry A. Giroux, Twilight of the Social (Boulder: Paradigm, 2013); Stuart Hall, “The March of the Neoliberals,” The Guardian, (September 12, 2011). online at:http://www.guardian.co.uk/politics/2011/sep/12/march-of-the-neoliberals

3.
See most recently  Kelly V. Vlahos, “Boots on Campus,” Anti War.com (February 26, 2013). On line: http://original.antiwar.com/vlahos/2013/02/25/boots-on-campus/ and David H. Price, Weaponizing Anthropology (Oakland, CA: AK Press, 2011).

3A. Greg Bishop, “A Company that Runs Prisons Will Have its Name on a Stadium,”New York Times (February 19, 2013). Online:http://www.nytimes.com/2013/02/20/sports/ncaafootball/a-company-that-runs-prisons-will-have-its-name-on-a-stadium.html?_r=0

4.
Ibid. Goldberg, pp. 197-198.

5.
Jonathan Schell, “Cruel America”, The Nation, (September 28, 2011) online:http://www.thenation.com/article/163690/cruel-america

6.
Suzi Parker, “Cops Nab 5-Year-Old for Wearing Wrong Color Shoes to School,” Take Part, (January 18, 2013). Online:http://www.takepart.com/article/2013/01/18/cops-nab-five-year-old-wearing-wrong-color-shoes-school

7.
Susan Saulny, “After Recession, More Young Adults Are Living on Street,” The New York Times, (December 18, 2012). Online: http://www.nytimes.com/2012/12/19/us/since-recession-more-young-americans-are-homeless.html?pagewanted=all&_r=0

8.
Suzanne Gamboa and Monika Mathur, “Guns Kill Young Children Daily In The U.S.,” Huffington Post (December 24, 2012). Online:http://www.huffingtonpost.com/2012/12/24/guns-children_n_2359661.html

9.
John le Carre, “The United States of America Has Gone Mad,” CommonDreams (January 15, 2003). Online: http://www.commondreams.org/views03/0115-01.htm

10.
Eric Mann Interviews Mumbia Abu Jamal, “Mumia Abu Jamal: On his biggest political influences and the political ‘mentacide’ of today’s youth.” Voices from the Frontlines Radio (April 9, 2012).

11.
See, for example, Charles Ferguson, Predator Nation: Corporate Criminals, Political Corruption, and the Hijacking of America (New York: Random House, 2012).

12.
Michael Yates, “The Great Inequality,” Monthly Review, (March 1, 2012).

13.
Ibid.

14.
Guy Standing, The New Precariat: The New Dangerous Class (New York: Bloomsbury, 2011).

15.
Zygmunt Bauman, Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty, (Cambridge: Polity Press, 2007).

16.
This issue is taken up brilliantly in Irving Howe, “Reaganism: The Spirit of the Times,” Selected Writings 1950-1990 (New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1990), pp. 410-423.

17.
I take up this issue in detail in Henry A. Giroux, The University in Chains: Challenging the Military-Industrial-Academic Complex (Boulder: Paradigm, 2007).

18.
Aaron B. O’Connell, “The Permanent Militarization of America,” The New York Times, (November 4, 2012). Online:http://www.nytimes.com/2012/11/05/opinion/the-permanent-militarization-of-america.html?pagewanted=all&_r=0

19.
Dominic Tierney, “The F-35: A Weapon that Costs More Than Australia,” The Atlantic (February 13, 2013). Online:http://www.theatlantic.com/national/archive/2011/03/the-f-35-a-weapon-that-costs-more-than-australia/72454/

20.
John Hinkson, “The GFC Has Just Begun,”Arena Magazine 122 (March 2013), p. 51.

21.
Georges Didi-Huberman, Images in Spite of All: Four Photographs from Auschwitz, trans. Shane B. Lillis (Chicago: University of Chicago Press, 2008), pp. 1-2.

22.
Katherine Stewart, “Is Texas Waging War on History?”AlterNet (May 21, 2012). Online: http://www.alternet.org/story/155515/is_texas_waging_war_on_history

23.
Ibid.

24.
See, for instance, Chris Mooney, The Republican Brain: The Science of Why They Deny Science – and Reality (New York: Wiley, 2012).

25.
Steve Horn, “Three States Pushing ALEC Bill to Require Teachng Climate Change Denial in Schools,”Desmogblog.com (January 31, 2013). Online:www.desmogblog.com/2013/01/31/three-states-pushing-alec-bill-climate-change-denial-schools

26.
Igor Volsky, “Arizona Bill to Force Students to Take a Loyalty Oath,” AlterNet (January 26, 2013).

27.
John Atcheson, “Dark ages Redux: American Politics and the End of the Enlightenment,” CommonDreams (June 18, 2012). Online:https://www.commondreams.org/view/2012/06/18-2

28.
Mark Slouka, “A Quibble,” Harper’s Magazine (February 2009).

29.
Manifesto, Left Turn: An Open Letter to U.S. Radicals, (N.Y.: The Fifteenth Street Manifesto Group, March 2008), pp. 4-5.

30.
James Baldwin, “An Open Letter to My Sister, Miss Angela Davis,” The New York Review of Books, (January 7, 1971). Online: http://www.nybooks.com/articles/archives/1971/jan/07/an-open-letter-to-my-sister-miss-angela-davis/?pagination=false

31.
Martin Luther King, Jr., “Letter from Birmingham City Jail” (1963), in James M. Washington, The Essential Writings and Speeches of Martin Luther King, Jr. (New York: Harper Collins, 1991), pp.290, 298.

32.
Ibid, 296.

33.
James B. Conant, “Wanted: American Radicals”, The Atlantic, May 1943.

Copyright, Truthout. May not be reprinted without permission of the author.

A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street (Boitempo)

http://www.comunistas.spruz.com/pt/A-tinta-vermelha-discurso-de-Slavoj-Zizek-aos-manifestantes-do-Occupy-Wall-Street/blog.htm

Oct 9, 2011

Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.

*   *   *

Slavoj Žižek speaks at Occupy Wall Street: Transcript (Impose)

BY SARAHANA » Don’t fall in love with yourselves

Posted on October 10, 2011

slavoj zizek speaking at occupy wall street

Yesterday at noon, this blog’s trusty mentor, the Slovenian philosopher-scholar Slavoj Žižek, spoke at Zuccotti Park, where Occupy Wall Street protests are being held. Here is a full transcript of his speech. Update: Transcript of the Q&A portion of the talk has been posted as well.

Made some corrections, Oct 25, 6:30PM EST

— TRANSCRIPT —

They are saying we are all losers, but the true losers are down there on Wall Street. They were bailed out by billions of our money. We are called socialists, but here there is always socialism for the rich. They say we don’t respect private property, but in the 2008 financial crash-down more hard-earned private property was destroyed than if all of us here were to be destroying it night and day for weeks. They tell you we are dreamers. The true dreamers are those who think things can go on indefinitely the way they are. We are not dreamers. We are the awakening from a dream that is turning into a nightmare.

We are not destroying anything. We are only witnessing how the system is destroying itself. We all know the classic scene from cartoons. The cat reaches a precipice but it goes on walking, ignoring the fact that there is nothing beneath this ground. Only when it looks down and notices it, it falls down. This is what we are doing here. We are telling the guys there on Wall Street, “Hey, look down!”

In mid-April 2011, the Chinese government prohibited on TV, films, and novels all stories that contain alternate reality or time travel. This is a good sign for China. These people still dream about alternatives, so you have to prohibit this dreaming. Here, we don’t need a prohibition because the ruling system has even oppressed our capacity to dream. Look at the movies that we see all the time. It’s easy to imagine the end of the world. An asteroid destroying all life and so on. But you cannot imagine the end of capitalism.

So what are we doing here? Let me tell you a wonderful, old joke from Communist times. A guy was sent from East Germany to work in Siberia. He knew his mail would be read by censors, so he told his friends: “Let’s establish a code. If a letter you get from me is written in blue ink, it is true what I say. If it is written in red ink, it is false.” After a month, his friends get the first letter. Everything is in blue. It says, this letter: “Everything is wonderful here. Stores are full of good food. Movie theatres show good films from the west. Apartments are large and luxurious. The only thing you cannot buy is red ink.” This is how we live. We have all the freedoms we want. But what we are missing is red ink: the language to articulate our non-freedom. The way we are taught to speak about freedom— war on terror and so on—falsifies freedom. And this is what you are doing here. You are giving all of us red ink.

There is a danger. Don’t fall in love with yourselves. We have a nice time here. But remember, carnivals come cheap. What matters is the day after, when we will have to return to normal lives. Will there be any changes then? I don’t want you to remember these days, you know, like “Oh. we were young and it was beautiful.” Remember that our basic message is “We are allowed to think about alternatives.” If the taboo is broken, we do not live in the best possible world. But there is a long road ahead. There are truly difficult questions that confront us. We know what we do not want. But what do we want? What social organization can replace capitalism? What type of new leaders do we want?

Remember. The problem is not corruption or greed. The problem is the system. It forces you to be corrupt. Beware not only of the enemies, but also of false friends who are already working to dilute this process. In the same way you get coffee without caffeine, beer without alcohol, ice cream without fat, they will try to make this into a harmless, moral protest. A decaffienated protest. But the reason we are here is that we have had enough of a world where, to recycle Coke cans, to give a couple of dollars for charity, or to buy a Starbucks cappuccino where 1% goes to third world starving children is enough to make us feel good. After outsourcing work and torture, after marriage agencies are now outsourcing our love life, we can see that for a long time, we allow our political engagement also to be outsourced. We want it back.

We are not Communists if Communism means a system which collapsed in 1990. Remember that today those Communists are the most efficient, ruthless Capitalists. In China today, we have Capitalism which is even more dynamic than your American Capitalism, but doesn’t need democracy. Which means when you criticize Capitalism, don’t allow yourself to be blackmailed that you are against democracy. The marriage between democracy and Capitalism is over. The change is possible.

What do we perceive today as possible? Just follow the media. On the one hand, in technology and sexuality, everything seems to be possible. You can travel to the moon, you can become immortal by biogenetics, you can have sex with animals or whatever, but look at the field of society and economy. There, almost everything is considered impossible. You want to raise taxes by little bit for the rich. They tell you it’s impossible. We lose competitivity. You want more money for health care, they tell you, “Impossible, this means totalitarian state.” There’s something wrong in the world, where you are promised to be immortal but cannot spend a little bit more for healthcare. Maybe we need to set our priorities straight here. We don’t want higher standard of living. We want a better standard of living. The only sense in which we are Communists is that we care for the commons. The commons of nature. The commons of privatized by intellectual property. The commons of biogenetics. For this, and only for this, we should fight.

Communism failed absolutely, but the problems of the commons are here. They are telling you we are not American here. But the conservatives fundamentalists who claim they really are American have to be reminded of something: What is Christianity? It’s the holy spirit. What is the holy spirit? It’s an egalitarian community of believers who are linked by love for each other, and who only have their own freedom and responsibility to do it. In this sense, the holy spirit is here now. And down there on Wall Street, there are pagans who are worshipping blasphemous idols. So all we need is patience. The only thing I’m afraid of is that we will someday just go home and then we will meet once a year, drinking beer, and nostaligically remembering “What a nice time we had here.” Promise yourselves that this will not be the case. We know that people often desire something but do not really want it. Don’t be afraid to really want what you desire. Thank you very much.

— END OF TRANSCRIPT —

Here’s Astra Taylor, who made the documentaries Zizek! and An Examined Life. (She also happens to be married to Jeff Mangum, who performed earlier in the week for the protestors.)

Free training included how to undo a handcuff:

– See more at: http://www.imposemagazine.com/bytes/slavoj-zizek-at-occupy-wall-street-transcript#sthash.XOa1Suzj.dpuf

Ao menos 70% das espécies da Terra são desconhecidas (Fapesp)

Dando início ao Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA-FAPESP Educação, Thomas Lewinsohn (Unicamp) falou sobre o tempo e o custo estimado para descrever todas as espécies do planeta (foto:Léo Ramos)

25/02/2013

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Embora o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta ainda esteja muito fragmentado, estima-se que já tenham sido descritos aproximadamente 1,75 milhão de espécies diferentes de seres vivos – incluindo microrganismos, plantas e animais. O número pode impressionar os mais desavisados, mas representa, nas hipóteses mais otimistas, apenas 30% das formas de vida existentes na Terra.

“Estima-se que existam outros 12 milhões de espécies ainda por serem descobertas”, disse Thomas Lewinsohn, professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante a apresentação que deu início ao Ciclo de Conferências 2013 organizado pelo programa BIOTA-FAPESP com o intuito de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência.

Mas como avaliar o tamanho do desconhecimento sobre a biodiversidade? “Para isso, fazemos extrapolações, tomando como base os grupos de organismos mais bem estudados para avaliar os menos estudados. Regiões ou países em que a biota é bem conhecida para avaliar onde é menos conhecida. Por regra de três chegamos a essas estimativas”, explicou.

Técnicas mais recentes, segundo Lewinsohn, usam fórmulas estatísticas sofisticadas e se baseiam nas taxas de descobertas e de descrição de novas espécies. Os valores são ajustados de acordo com a força de trabalho existente, ou seja, o número de taxonomistas em atividade.

“No entanto, o mais importante a dizer é: não há consenso. As estimativas podem chegar a mais de 100 milhões de espécies desconhecidas. Não sabemos nem a ordem de grandeza e isso é espantoso”, disse.

Lewinsohn avalia que, para descrever todas as espécies que se estima haver no Brasil, seriam necessários cerca de 2 mil anos. “Para descrever todas as espécies do mundo o número seria parecido. Mas não temos esse tempo”, disse.

Algumas técnicas recentes de taxonomia molecular, como código de barras de DNA, podem ajudar a acelerar o trabalho, pois permitem identificar organismos por meio da análise de seu material genético. Por esse método, cadeias diferentes de DNA diferenciam as espécies, enquanto na taxonomia clássica a classificação é baseada na morfologia dos seres vivos, o que é bem mais trabalhoso.

“Dá para fazer? Sim, mas qual é o custo?”, questionou Lewinsohn. Um artigo publicado recentemente na revista Science apontou que seriam necessários de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão por ano, durante 50 anos, para descrever a maioria das espécies do planeta.

Novamente, o número pode assustar os desavisados, mas, de acordo com Lewinsohn, o montante corresponde ao que se gasta no mundo com armamento em apenas cinco dias. “Somente em 2011 foram gastos US$ 1,7 trilhão com a compra de armas. É preciso colocar as coisas em perspectiva”, defendeu.

Definindo prioridades

Muitas dessas espécies desconhecidas, porém, podem desaparecer do planeta antes mesmo que o homem tenha tempo e dinheiro suficiente para estudá-las. Segundo dados apresentados por Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), mais de 50% da superfície terrestre já foi transformada pelo homem.

Essa alteração na paisagem tem muitas consequências e Metzger abordou duas delas na segunda apresentação do dia: a perda de habitat e a fragmentação.

“São conceitos diferentes, que muitas vezes se confundem. Fragmentação é a subdivisão de um habitat e pode não ocorrer quando o processo de degradação ocorre nas bordas da mata. Já a construção de uma estrada, por exemplo, cria fragmentos isolados dentro do habitat”, explicou.

Para Metzger, a fragmentação é a principal ameaça à biodiversidade, pois altera o equilíbrio entre os processos naturais de extinção de espécies e de colonização. Quanto menor e mais isolado é o fragmento, maior é a taxa de extinção e menor é a de colonização.

“Cada espécie tem uma quantidade mínima de habitat que precisa para sobreviver e se reproduzir. Não conhecemos bem esses limiares de extinção”, alertou.

Metzger acredita que esse limiar pode variar de acordo com a configuração da paisagem, ou seja, quanto mais fragmentado estiver o habitat, maior o risco de extinção de espécies. Como exemplo, ele citou as áreas remanescentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, onde 95% dos fragmentos têm menos de 100 hectares.

“Estima-se que ao perder 90% do habitat, deveríamos perder 50% das espécies endêmicas. Na Mata Atlântica, há cerca de 16% de floresta remanescente. O esperado seria uma extinção em massa, mas nosso registro tem poucos casos. Ou nossa teoria está errada, ou não estamos detectando as extinções, pois as espécies nem sequer eram conhecidas”, afirmou Metzger.

Há, no entanto, um fator complicador: o período de latência entre a mudança na estrutura paisagem e mudança na estrutura da comunidade. Enquanto as espécies com ciclo curto de vida podem desaparecer rapidamente, aquelas com ciclo de vida longo podem responder à perda de habitat em escala centenária.

“Cria-se um débito de extinção e, mesmo que a alteração na paisagem seja interrompida, algumas espécies ficam fadadas a desaparecer com o tempo”, disse Metzger.

Mas a boa notícia é que as paisagens também se regeneram naturalmente e além do débito de extinção existe o crédito de recuperação. O período de latência representa, portanto, uma oportunidade de conservação.

“Hoje, temos evidências de que não adianta restaurar em qualquer lugar. É preciso definir áreas prioritárias para restauração que otimizem a conectividade e facilitem o fluxo biológico entre os fragmentos”, defendeu Metzger.

Colhendo frutos

Ao longo dos 13 anos de existência do BIOTA-FAPESP, a definição de áreas prioritárias de conservação e de recuperação no Estado de São Paulo foi uma das principais preocupações dos pesquisadores.

Os resultados desses estudos foram usados pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente para embasar políticas públicas, como lembrou o coordenador do programa e professor do Instituto de Biologia da Unicamp, Carlos Alfredo Joly, na terceira e última apresentação do dia.

“Atualmente, pelo menos 20 instrumentos legais, entre leis, decretos e resoluções, citam nominalmente os resultados do BIOTA-FAPESP”, disse Joly.

Entre 1999 e 2009, disse o coordenador, houve um investimento anual de R$ 8 milhões no programa. Isso ajudou a financiar 94 projetos de pesquisa e resultou em mais de 700 artigos publicados em 181 periódicos, entre eles Nature e Science.

A equipe do programa também publicou 16 livros e dois atlas, descreveu mais de 2 mil novas espécies, produziu e armazenou informações sobre 12 mil espécies, disponibilizou e conectou digitalmente 35 coleções biológicas paulistas.

“Desde que foi renovado o apoio da FAPESP ao programa, em 2009, a questão da educação se tornou prioridade em nosso plano estratégico. O objetivo deste ciclo de conferências é justamente ampliar a comunicação com públicos além do meio científico, especialmente professores e estudantes”, disse Joly.

A segunda etapa do ciclo de palestras está marcada para 21 de março e terá como tema o “Bioma Pampa”. No dia 18 de abril, será a vez do “Bioma Pantanal”. Em 16 de maio, o tema será “Bioma Cerrado”. Em 20 de junho, será abordado o “Bioma Caatinga”.

Em 22 de agosto, será o “Bioma Mata Atlântica”. Em 19 de setembro, é a vez do “Bioma Amazônia”. Em 24 de outubro, o tema será “Ambientes Marinhos e Costeiros”. Finalizando o ciclo, em 21 de novembro, o tema será “Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais”.

Programação do ciclo: www.fapesp.br/7487

Power of Suggestion (The Chronicle of Higher Education)

January 30, 2013

The amazing influence of unconscious cues is among the most fascinating discoveries of our time­—that is, if it’s true

By Tom Bartlett

New Haven, Conn.

Power of SuggestionMark Abramson for The Chronicle Review. John Bargh rocked the world of social psychology with experiments that showed the power of unconscious cues over our behavior.

Aframed print of “The Garden of Earthly Delights” hangs above the moss-green, L-shaped sectional in John Bargh’s office on the third floor of Yale University’s Kirtland Hall. Hieronymus Bosch’s famous triptych imagines a natural environment that is like ours (water, flowers) yet not (enormous spiked and translucent orbs). What precisely the 15th-century Dutch master had in mind is still a mystery, though theories abound. On the left is presumably paradise, in the middle is the world, and on the right is hell, complete with knife-faced monster and human-devouring bird devil.

By Bosch’s standard, it’s too much to say the past year has been hellish for Bargh, but it hasn’t been paradise either. Along with personal upheaval, including a lengthy child-custody battle, he has coped with what amounts to an assault on his life’s work, the research that pushed him into prominence, the studies that Malcolm Gladwell called “fascinating” and Daniel Kahneman deemed “classic.” What was once widely praised is now being pilloried in some quarters as emblematic of the shoddiness and shallowness of social psychology. When Bargh responded to one such salvo with a couple of sarcastic blog posts, he was ridiculed as going on a “one-man rampage.” He took the posts down and regrets writing them, but his frustration and sadness at how he’s been treated remain.

Psychology may be simultaneously at the highest and lowest point in its history. Right now its niftiest findings are routinely simplified and repackaged for a mass audience; if you wish to publish a best seller sans bloodsucking or light bondage, you would be well advised to match a few dozen psychological papers with relatable anecdotes and a grabby, one-word title. That isn’t true across the board. Researchers engaged in more technical work on, say, the role of grapheme units in word recognition must comfort themselves with the knowledge that science is, by its nature, incremental. But a social psychologist with a sexy theory has star potential. In the last decade or so, researchers have made astonishing discoveries about the role of consciousness, the reasons for human behavior, the motivations for why we do what we do. This stuff is anything but incremental.

At the same time, psychology has been beset with scandal and doubt. Formerly high-flying researchers like Diederik Stapel, Marc Hauser, and Dirk Smeesters saw their careers implode after allegations that they had cooked their results and managed to slip them past the supposedly watchful eyes of peer reviewers. Psychology isn’t the only field with fakers, but it has its share. Plus there’s the so-called file-drawer problem, that is, the tendency for researchers to publish their singular successes and ignore their multiple failures, making a fluke look like a breakthrough. Fairly or not, social psychologists are perceived to be less rigorous in their methods, generally not replicating their own or one another’s work, instead pressing on toward the next headline-making outcome.

Much of the criticism has been directed at priming. The definitions get dicey here because the term can refer to a range of phenomena, some of which are grounded in decades of solid evidence—like the “anchoring effect,” which happens, for instance, when a store lists a competitor’s inflated price next to its own to make you think you’re getting a bargain. That works. The studies that raise eyebrows are mostly in an area known as behavioral or goal priming, research that demonstrates how subliminal prompts can make you do all manner of crazy things. A warm mug makes you friendlier. The American flag makes you vote Republican. Fast-food logos make you impatient. A small group of skeptical psychologists—let’s call them the Replicators—have been trying to reproduce some of the most popular priming effects in their own labs.

What have they found? Mostly that they can’t get those results. The studies don’t check out. Something is wrong. And because he is undoubtedly the biggest name in the field, the Replicators have paid special attention to John Bargh and the study that started it all.

As in so many other famous psychological experiments, the researcher lies to the subject. After rearranging lists of words into sensible sentences, the subject—a New York University undergraduate—is told that the experiment is about language ability. It is not. In fact, the real test doesn’t begin until the subject exits the room. In the hallway is a graduate student with a stopwatch hidden beneath her coat. She’s pretending to wait for a meeting but really she’s working with the researchers. She times how long it takes the subject to walk from the doorway to a strip of silver tape a little more than 30 feet down the corridor. The experiment hinges on that stopwatch.

The words the subject was asked to rearrange were not random, though they seemed that way (this was confirmed in postexperiment interviews with each subject). They were words like “bingo” and “Florida,” “knits” and “wrinkles,” “bitter” and “alone.” Reading the list, you can almost picture a stooped senior padding around a condo, complaining at the television. A control group unscrambled words that evoked no theme. When the walking times of the two groups were compared, the Florida-knits-alone subjects walked, on average, more slowly than the control group. Words on a page made them act old.

It’s a cute finding. But the more you think about it, the more serious it starts to seem. What if we are constantly being influenced by subtle, unnoticed cues? If “Florida” makes you sluggish, could “cheetah” make you fleet of foot? Forget walking speeds. Is our environment making us meaner or more creative or stupider without our realizing it? We like to think we’re steering the ship of self, but what if we’re actually getting blown about by ghostly gusts?

John Bargh and his co-authors, Mark Chen and Lara Burrows, performed that experiment in 1990 or 1991. They didn’t publish it until 1996. Why sit on such a fascinating result? For starters, they wanted to do it again, which they did. They also wanted to perform similar experiments with different cues. One of those other experiments tested subjects to see if they were more hostile when primed with an African-American face. They were. (The subjects were not African-American.) In the other experiment, the subjects were primed with rude words to see if that would make them more likely to interrupt a conversation. It did.

The researchers waited to publish until other labs had found the same type of results. They knew their finding would be controversial. They knew many people wouldn’t believe it. They were willing to stick their necks out, but they didn’t want to be the only ones.

Since that study was published in the Journal of Personality and Social Psychology,it has been cited more than 2,000 times. Though other researchers did similar work at around the same time, and even before, it was that paper that sparked the priming era. Its authors knew, even before it was published, that the paper was likely to catch fire. They wrote: “The implications for many social psychological phenomena … would appear to be considerable.” Translation: This is a huge deal.

When he was 9 or 10, Bargh decided to become a psychologist. He was in the kitchen of his family’s house in Champaign, Ill., when this revelation came to him. He didn’t know everything that would entail, of course, or what exactly a psychologist did, but he wanted to understand more about human emotion because it was this “mysterious powerful influence on everything.” His dad was an administrator at the University of Illinois, and so he was familiar with university campuses. He liked them. He still does. When he was in high school, he remembers arguing about B.F. Skinner. Everyone else in the class thought Skinner’s ideas were ridiculous. Bargh took the other side, not so much because he embraced the philosophy of radical behaviorism or enjoyed Skinner’s popular writings. It was more because he reveled in contrarianism. “This guy is thinking something nobody else agrees with,” he says now. “Let’s consider that he might be right.”

I met Bargh on a Thursday morning a couple of weeks before Christmas. He was dressed in cable-knit and worn jeans with hiking boots. At 58 he still has a full head of dark, appropriately mussed-up hair. Bargh was reclining on the previously mentioned moss-green sectional while downing coffee to stay alert as he whittled away at a thick stack of finals papers. He rose to greet me, sat back down, and sighed.

The last year has been tough for Bargh. Professionally, the nadir probably came in January, when a failed replication of the famous elderly-walking study was published in the journal PLoS ONE. It was not the first failed replication, but this one stung. In the experiment, the researchers had tried to mirror Bargh’s methods with an important exception: Rather than stopwatches, they used automatic timing devices with infrared sensors to eliminate any potential bias. The words didn’t make subjects act old. They tried the experiment again with stopwatches and added a twist: They told those operating the stopwatches which subjects were expected to walk slowly. Then it worked. The title of their paper tells the story: “Behavioral Priming: It’s All in the Mind, but Whose Mind?”

The paper annoyed Bargh. He thought the researchers didn’t faithfully follow his methods section, despite their claims that they did. But what really set him off was a blog post that explained the results. The post, on the blog Not Exactly Rocket Science, compared what happened in the experiment to the notorious case of Clever Hans, the horse that could supposedly count. It was thought that Hans was a whiz with figures, stomping a hoof in response to mathematical queries. In reality, the horse was picking up on body language from its handler. Bargh was the deluded horse handler in this scenario. That didn’t sit well with him. If the PLoS ONE paper is correct, the significance of his experiment largely dissipates. What’s more, he looks like a fool, tricked by a fairly obvious flaw in the setup.

Bargh responded in two long, detailed posts on his rarely updated Psychology Todayblog. He spelled out the errors he believed were made in the PLoS ONE paper. Most crucially, he wrote, in the original experiment there was no way for the graduate student with the stopwatch to know who was supposed to walk slowly and who wasn’t. The posts were less temperate than most public discourse in science, but they were hardly mouth-foaming rants. He referred to “incompetent or ill-informed researchers,” clearly a shot at the paper’s authors. He mocked the journal where the replication was published as “pay to play” and lacking the oversight of traditional journals. The title of the post, “Nothing in Their Heads,” while perhaps a reference to unconscious behavior, seemed less than collegial.

He also expressed concern for readers who count on “supposedly reputable online media sources for accurate information on psychological science.” This was a dig at the blog post’s author, Ed Yong, who Bargh believes had written an unfair piece. “I was hurt by the things that were said, not just in the article, but in Ed Yong’s coverage of it,” Bargh says now. Yong’s post was more, though, than a credulous summary of the study. He interviewed researchers and provided context. The headline, “Why a classic psychology experiment isn’t what it seemed,” might benefit from softening, but if you’re looking for an example of sloppy journalism, this ain’t it.

While Bargh was dismayed by the paper and the publicity, the authors of the replication were equally taken aback by the severity of Bargh’s reaction. “That really threw us off, that response,” says Axel Cleeremans, a professor of cognitive science at the Université Libre de Bruxelles. “It was obvious that he was so dismissive, it was close to frankly insulting. He described us as amateur experimentalists, which everyone knows we are not.” Nor did they feel that his critique of their methods was valid. Even so, they tried the experiment again, taking into account Bargh’s concerns. It still didn’t work.

Bargh took his blog posts down after they were criticized. Though his views haven’t changed, he feels bad about his tone. In our conversations over the last month or so, Bargh has at times vigorously defended his work, pointing to a review he published recently in Trends in Cognitive Sciences that marshals recent priming studies into a kind of state-of-the-field address. Short version: Science marches on, priming’s doing great.

He complains that he has been a victim of scientific bullying (and some sympathetic toward Bargh use that phrase, too). There are other times, though, when he just seems crushed. “You invest your whole career and life in something, and to have this happen near the end of it—it’s very hard to take,” he says. Priming is what Bargh is known for. When he says “my name is a symbol that stands for these kinds of effects,” he’s not being arrogant. That’s a fact. Before the 1996 paper, he had already published respected and much-cited work on unconscious, automatic mental processes, but priming has defined him. In an interview on the Web site Edge a few years ago, back before the onslaught, he explained his research goals: “We have a trajectory downward, always downward, trying to find simple, basic causes and with big effects. We’re looking for simple things—not anything complicated—simple processes or concepts that then have profound effects.” The article labeled him “the simplifier.”

When I ask if he still believes in these effects, he says yes. They have been replicated in multiple labs. Some of those replications have been exact: stopwatch, the same set of words, and so on. Others have been conceptual. While they explore the same idea, maybe the study is about handwriting rather than walking. Maybe it’s about obesity rather than elderly stereotypes. But the gist is the same. “It’s not just my work that’s under attack here,” Bargh says. “It’s lots of people’s research being attacked and dismissed.” He has moments of doubt. How could he not? It’s deeply unsettling to have someone scrutinizing your old papers, looking for inconsistencies, even if you’re fairly confident about what you’ve accomplished. “Maybe there’s something we were doing that I didn’t realize,” he says, explaining the thoughts that have gone through his head. “You start doing that examination.”

So why not do an actual examination? Set up the same experiments again, with additional safeguards. It wouldn’t be terribly costly. No need for a grant to get undergraduates to unscramble sentences and stroll down a hallway. Bargh says he wouldn’t want to force his graduate students, already worried about their job prospects, to spend time on research that carries a stigma. Also, he is aware that some critics believe he’s been pulling tricks, that he has a “special touch” when it comes to priming, a comment that sounds like a compliment but isn’t. “I don’t think anyone would believe me,” he says.

Harold Pashler wouldn’t. Pashler, a professor of psychology at the University of California at San Diego, is the most prolific of the Replicators. He started trying priming experiments about four years ago because, he says, “I wanted to see these effects for myself.” That’s a diplomatic way of saying he thought they were fishy. He’s tried more than a dozen so far, including the elderly-walking study. He’s never been able to achieve the same results. Not once.

This fall, Daniel Kahneman, the Nobel Prize-winning psychologist, sent an e-mail to a small group of psychologists, including Bargh, warning of a “train wreck looming” in the field because of doubts surrounding priming research. He was blunt: “I believe that you should collectively do something about this mess. To deal effectively with the doubts you should acknowledge their existence and confront them straight on, because a posture of defiant denial is self-defeating,” he wrote.

Strongly worded e-mails from Nobel laureates tend to get noticed, and this one did. He sent it after conversations with Bargh about the relentless attacks on priming research. Kahneman cast himself as a mediator, a sort of senior statesman, endeavoring to bring together believers and skeptics. He does have a dog in the fight, though: Kahneman believes in these effects and has written admiringly of Bargh, including in his best seller Thinking, Fast and Slow.

On the heels of that message from on high, an e-mail dialogue began between the two camps. The vibe was more conciliatory than what you hear when researchers are speaking off the cuff and off the record. There was talk of the type of collaboration that Kahneman had floated, researchers from opposing sides combining their efforts in the name of truth. It was very civil, and it didn’t lead anywhere.

In one of those e-mails, Pashler issued a challenge masquerading as a gentle query: “Would you be able to suggest one or two goal priming effects that you think are especially strong and robust, even if they are not particularly well-known?” In other words, put up or shut up. Point me to the stuff you’re certain of and I’ll try to replicate it. This was intended to counter the charge that he and others were cherry-picking the weakest work and then doing a victory dance after demolishing it. He didn’t get the straightforward answer he wanted. “Some suggestions emerged but none were pointing to a concrete example,” he says.

One possible explanation for why these studies continually and bewilderingly fail to replicate is that they have hidden moderators, sensitive conditions that make them a challenge to pull off. Pashler argues that the studies never suggest that. He wrote in that same e-mail: “So from our reading of the literature, it is not clear why the results should be subtle or fragile.”

Bargh contends that we know more about these effects than we did in the 1990s, that they’re more complicated than researchers had originally assumed. That’s not a problem, it’s progress. And if you aren’t familiar with the literature in social psychology, with the numerous experiments that have modified and sharpened those early conclusions, you’re unlikely to successfully replicate them. Then you will trot out your failure as evidence that the study is bogus when really what you’ve proved is that you’re no good at social psychology.

Pashler can’t quite disguise his disdain for such a defense. “That doesn’t make sense to me,” he says. “You published it. That must mean you think it is a repeatable piece of work. Why can’t we do it just the way you did it?”

That’s how David Shanks sees things. He, too, has been trying to replicate well-known priming studies, and he, too, has been unable to do so. In a forthcoming paper, Shanks, a professor of psychology at University College London, recounts his and his several co-authors’ attempts to replicate one of the most intriguing effects, the so-called professor prime. In the study, one group was told to imagine a professor’s life and then list the traits that brought to mind. Another group was told to do the same except with a soccer hooligan rather than a professor.

The groups were then asked questions selected from the board game Trivial Pursuit, questions like “Who painted ‘Guernica’?” and “What is the capital of Bangladesh?” (Picasso and Dhaka, for those playing at home.) Their scores were then tallied. The subjects who imagined the professor scored above a control group that wasn’t primed. The subjects who imagined soccer hooligans scored below the professor group and below the control. Thinking about a professor makes you smart while thinking about a hooligan makes you dumb. The study has been replicated a number of times, including once on Dutch television.

Shanks can’t get the result. And, boy, has he tried. Not once or twice, but nine times.

The skepticism about priming, says Shanks, isn’t limited to those who have committed themselves to reperforming these experiments. It’s not only the Replicators. “I think more people in academic psychology than you would imagine appreciate the historical implausibility of these findings, and it’s just that those are the opinions that they have over the water fountain,” he says. “They’re not the opinions that get into the journalism.”

Like all the skeptics I spoke with, Shanks believes the worst is yet to come for priming, predicting that “over the next two or three years you’re going to see an avalanche of failed replications published.” The avalanche may come sooner than that. There are failed replications in press at the moment and many more that have been completed (Shanks’s paper on the professor prime is in press at PLoS ONE). A couple of researchers I spoke with didn’t want to talk about their results until they had been peer reviewed, but their preliminary results are not encouraging.

Ap Dijksterhuis is the author of the professor-prime paper. At first, Dijksterhuis, a professor of psychology at Radboud University Nij­megen, in the Netherlands, wasn’t sure he wanted to be interviewed for this article. That study is ancient news—it was published in 1998, and he’s moved away from studying unconscious processes in the last couple of years, in part because he wanted to move on to new research on happiness and in part because of the rancor and suspicion that now accompany such work. He’s tired of it.

The outing of Diederik Stapel made the atmosphere worse. Stapel was a social psychologist at Tilburg University, also in the Netherlands, who was found to have committed scientific misconduct in scores of papers. The scope and the depth of the fraud were jaw-dropping, and it changed the conversation. “It wasn’t about research practices that could have been better. It was about fraud,” Dijksterhuis says of the Stapel scandal. “I think that’s playing in the background. It now almost feels as if people who do find significant data are making mistakes, are doing bad research, and maybe even doing fraudulent things.”

In the e-mail discussion spurred by Kahneman’s call to action, Dijk­sterhuis laid out a number of possible explanations for why skeptics were coming up empty when they attempted priming studies. Cultural differences, for example. Studying prejudice in the Netherlands is different from studying it in the United States. Certain subjects are not susceptible to certain primes, particularly a subject who is unusually self-aware. In an interview, he offered another, less charitable possibility. “It could be that they are bad experimenters,” he says. “They may turn out failures to replicate that have been shown by 15 or 20 people already. It basically shows that it’s something with them, and it’s something going on in their labs.”

Joseph Cesario is somewhere between a believer and a skeptic, though these days he’s leaning more skeptic. Cesario is a social psychologist at Michigan State University, and he’s successfully replicated Bargh’s elderly-walking study, discovering in the course of the experiment that the attitude of a subject toward the elderly determined whether the effect worked or not. If you hate old people, you won’t slow down. He is sympathetic to the argument that moderators exist that make these studies hard to replicate, lots of little monkey wrenches ready to ruin the works. But that argument only goes so far. “At some point, it becomes excuse-making,” he says. “We have to have some threshold where we say that it doesn’t exist. It can’t be the case that some small group of people keep hitting on the right moderators over and over again.”

Cesario has been trying to replicate a recent finding of Bargh’s. In that study, published last year in the journal Emotion, Bargh and his co-author, Idit Shalev, asked subjects about their personal hygiene habits—how often they showered and bathed, for how long, how warm they liked the water. They also had subjects take a standard test to determine their degree of social isolation, whether they were lonely or not. What they found is that lonely people took longer and warmer baths and showers, perhaps substituting the warmth of the water for the warmth of regular human interaction.

That isn’t priming, exactly, though it is a related unconscious phenomenon often called embodied cognition. As in the elderly-walking study, the subjects didn’t realize what they were doing, didn’t know they were bathing longer because they were lonely. Can warm water alleviate feelings of isolation? This was a result with real-world applications, and reporters jumped on it. “Wash the loneliness away with a long, hot bath,” read an NBC News headline.

Bargh’s study had 92 subjects. So far Cesario has run more than 2,500 through the same experiment. He’s found absolutely no relationship between bathing and loneliness. Zero. “It’s very worrisome if you have people thinking they can take a shower and they can cure their depression,” he says. And he says Bargh’s data are troublesome. “Extremely small samples, extremely large effects—that’s a red flag,” he says. “It’s not a red flag for people publishing those studies, but it should be.”

Even though he is, in a sense, taking aim at Bargh, Cesario thinks it’s a shame that the debate over priming has become so personal, as if it’s a referendum on one man. “He has the most eye-catching findings. He always has,” Cesario says. “To the extent that some of his effects don’t replicate, because he’s identified as priming, it casts doubt on the entire body of research. He is priming.”

That has been the narrative. Bargh’s research is crumbling under scrutiny and, along with it, perhaps priming as a whole. Maybe the most exciting aspect of social psychology over the last couple of decades, these almost magical experiments in which people are prompted to be smarter or slower without them even knowing it, will end up as an embarrassing footnote rather than a landmark achievement.

Then along comes Gary Latham.

Latham, an organizational psychologist in the management school at the University of Toronto, thought the research Bargh and others did was crap. That’s the word he used. He told one of his graduate students, Amanda Shantz, that if she tried to apply Bargh’s principles it would be a win-win. If it failed, they could publish a useful takedown. If it succeeded … well, that would be interesting.

They performed a pilot study, which involved showing subjects a photo of a woman winning a race before the subjects took part in a brainstorming task. As Bargh’s research would predict, the photo made them perform better at the brainstorming task. Or seemed to. Latham performed the experiment again in cooperation with another lab. This time the study involved employees in a university fund-raising call center. They were divided into three groups. Each group was given a fact sheet that would be visible while they made phone calls. In the upper left-hand corner of the fact sheet was either a photo of a woman winning a race, a generic photo of employees at a call center, or no photo. Again, consistent with Bargh, the subjects who were primed raised more money. Those with the photo of call-center employees raised the most, while those with the race-winner photo came in second, both outpacing the photo-less control. This was true even though, when questioned afterward, the subjects said they had been too busy to notice the photos.

Latham didn’t want Bargh to be right. “I couldn’t have been more skeptical or more disbelieving when I started the research,” he says. “I nearly fell off my chair when my data” supported Bargh’s findings.

That experiment has changed Latham’s opinion of priming and has him wondering now about the applications for unconscious primes in our daily lives. Are there photos that would make people be safer at work? Are there photos that undermine performance? How should we be fine-tuning the images that surround us? “It’s almost scary in lots of ways that these primes in these environments can affect us without us being aware,” he says. Latham hasn’t stopped there. He’s continued to try experiments using Bargh’s ideas, and those results have only strengthened his confidence in priming. “I’ve got two more that are just mind-blowing,” he says. “And I know John Bargh doesn’t know about them, but he’ll be a happy guy when he sees them.”

Latham doesn’t know why others have had trouble. He only knows what he’s found, and he’s certain about his own data. In the end, Latham thinks Bargh will be vindicated as a pioneer in understanding unconscious motivations. “I’m like a converted Christian,” he says. “I started out as a devout atheist, and now I’m a believer.”

Following his come-to-Jesus transformation, Latham sent an e-mail to Bargh to let him know about the call-center experiment. When I brought this up with Bargh, his face brightened slightly for the first time in our conversation. “You can imagine how that helped me,” he says. He had been feeling isolated, under siege, worried that his legacy was becoming a cautionary tale. “You feel like you’re on an island,” he says.

Though Latham is now a believer, he remains the exception. With more failed replications in the pipeline, Dijksterhuis believes that Kahneman’s looming-train-wreck letter, though well meaning, may become a self-fulfilling prophecy, helping to sink the field rather than save it. Perhaps the perception has already become so negative that further replications, regardless of what they find, won’t matter much. For his part, Bargh is trying to take the long view. “We have to think about 50 or 100 years from now—are people going to believe the same theories?” he says. “Maybe it’s not true. Let’s see if it is or isn’t.”

Tom Bartlett is a senior writer at The Chronicle.

O recorde de Dilma (Brasileiros)

3 de fevereiro de 2013 – 10:37

Metade dos impostos arrecadados pelo governo são destinados a programas sociais

50,4%. Essa é a porcentagem do que o governo federal gasta de sua arrecadação com programas sociais e verbas destinadas diretamente a famílias registradas em políticas de auxílio. As informações são da Folha de S. Paulo.

O número, um recorde nacional, mostra que entre regime geral de previdência, amparo ao trabalhador e assistência, o governo da presidenta Dilma Rousseff distribuí R$ 405,2 bilhões. O valor representa 9,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

O aumento das despesas do governo com medidas sociais podem ser creditados ao aumento do salário mínimo, que subiu 7,5% acima da inflação, maior guinada desde o ano de 2006. Assim como as aposentadorias, pensões e benefícios trabalhistas, os programas assistências seguem o salário mínimo como referência.

A política social explica a carga de impostos nacional, que hoje representa 35% da arrecadação do governo. Em outros países emergentes da América Latina e da Ásia, a carga tributária representa entre 20% e 25% da arrecadação. Recentemente, a Argentina subiu seus impostos e se aproximou dos valores tributados arrecadados pelo Brasil.

Queda da taxa de desemprego

Os valores investidos pelo governo federal parecem estar surtindo efeito junto à população. Na última quinta-feira, dia 31, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no país em 2012 foi de 5,5%, a menor da série histórica iniciada no ano de 2003.

Em relação ao seguro-desemprego, um novo decreto editado recentemente apresenta mudanças para quem deseja usufruir do benefício. Agora, trabalhadores que ingressarem no programa pela terceira vez terão que participar de curso profissionalizante para garantir o direito.

Programa símbolo do governo de Lula, o Bolsa Família representa a maior despesa entre os programas sociais mantidos pelo governo federal. Criado há quase dez anos, o programa passou por significativa reformulação sob a tutela de Dilma Rousseff.

A linha de ação da presidenta busca beneficiar famílias que estão abaixo da linha da miséria. Enquadram-se nessa categoria famílias cujo rendimento é inferior ao valor de R$ 70 por pessoa. Em virtude dessa meta, a despesa com o programa saltou de R$ 13,6 bilhões no fim do governo Lula para R$ 20,5 bilhões em 2012. O Bolsa Família beneficia 13,9 milhões de famílias em todo o Brasil.

Dez anos de Fome Zero ajuda Guaribas (PI) a elevar IDH (Agência Brasil)

Da Agência Brasil – 03/02/2013

Lucas Rodrigues
Enviado Especial da EBC

Guaribas (PI) – Lançado no dia 3 de fevereiro de 2003, no município com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, o Programa Fome Zero foi criado com o objetivo de erradicar a miséria, com a transferência de renda e garantindo o alimento para as famílias que viviam na extrema pobreza. Hoje, o Brasil ainda tem pelo menos 5,3 milhões de pessoas sobrevivendo com menos de R$ 70 por mês, diferentemente do início dos anos 2000, quando eram 28 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Nos último dez anos, esse número vem diminuindo. Em parte, por causa de políticas públicas de ampliação do trabalho formal, do apoio à agricultura e da transferência de renda. Hoje, a iniciativa, que ganhou o nome de Bolsa Família, chega a quase 14 milhões de lares. Ela nasceu do Programa Fome Zero, criado para garantir no mínimo três refeições por dia a todos os brasileiros. E foi do interior do Nordeste que essa iniciativa partiu para o restante do país.

Depois de dez anos, a Agência Brasil voltou a Guaribas, no sul do Piauí, escolhida como a primeira beneficiária do programa de transferência de renda. Localizada a 600 quilômetros ao sul da capital, Teresina, Guaribas não oferecia condições básicas para uma vida digna de sua população: faltava comida no prato das famílias, que, na maioria das vezes, só tinham feijão para comer. Não havia rede elétrica e poucas casas tinham fogão a gás.

Mulheres e crianças andavam quilômetros para conseguir um pouco de água e essa busca, às vezes, durava o dia inteiro. A dona de casa Gilsa Alves lembra que, naquela época, “era difícil encontrar água para lavar roupa”, no período de seca. “Às vezes, até para tomar banho era com dificuldade”.

O aposentado Eurípedes Correa da Silva não se esquece daquele tempo, quando chegou a trabalhar até de vigia das poucas fontes que eram verdadeiros tesouros durante os longos períodos de seca, com água racionada. Hoje, a água chega, encanada, à casa dele.

Pai de sete filhos, Eurípedes tem televisão e geladeira. Além do dinheiro da lavoura e da aposentadoria, ele recebia o benefício do Fome Zero e agora conta com o Bolsa Família. O benefício chega a 1,5 mil lares e a meta é alcançar 2 mil neste ano, o que representa oito em cada dez moradores da cidade. A coordenadora do programa em Guaribas, Raimunda Correia Maia, diz que “o dinheiro que gira no município, das compras, da sustentação dos filhos, gera desenvolvimento”.

A energia elétrica também chegou a Guaribas e trouxe com ela internet e os telefones celulares. No centro da cidade, há uma praça com ruas calçadas e uma delegacia, além de agências bancárias, dos Correios e escolas. A frota de veículos cresceu e, hoje, o que se vê são motos, em vez de jegues.

O município conquistou o principal objetivo: acabar com a miséria. Mesmo assim, ainda está entre os mais pobres do país e enfrenta o êxodo dos jovens em busca de emprego em grandes cidades. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2007, quase 10% dos moradores deixaram Guaribas.

Alan e Rosângela podem ser os próximos. O Bolsa Família e as melhorias na cidade não foram suficientes para manter o casal no município, já que ali os dois não encontram trabalho. Os irmãos já foram para São Paulo e é impossível sustentar a família de oito pessoas com um cartão (do Bolsa Família) de R$ 130.

Quem escolheu ficar na cidade sabe que muita coisa tem que melhorar. O esgoto ainda não é tratado; algumas obras não saíram do lugar, como a do mercado municipal. Até o memorial erguido em homenagem ao Fome Zero está abandonado há anos. Longe de Teresina, os moradores se sentem isolados, principalmente por causa da dificuldade de chegar à cidade mais próxima: são 54 quilômetros de estrada de terra, em péssimo estado, até Caracol.

Isso torna difícil escoar a produção de feijão e milho e faz com que todos os produtos cheguem mais caros. A dificuldade de acesso também prejudica uma das conquistas da região: a unidade de saúde. A doméstica Betânia Andrade Dias Silva levou o filho de 5 anos para uma consulta e não encontrou médicos.

Há mais de um mês, o atendimento é feito apenas por enfermeiras e por um dentista. Mesmo oferecendo um salário que chega a R$ 20 mil, a prefeitura diz que não consegue contratar médicos. O jeito é mandar os pacientes mais graves para as cidades vizinhas.co. Ela desabafa: “É ruim né?! Principalmente numa cidade pequena, na qual você precisa de um atendimento melhor, tem que sair para ir para outra cidade, Caracol, São Raimundo, que fica longe daqui. Por exemplo, caso de urgência, se você estiver à beira da morte, acaba morrendo na estrada… Então, é difícil”.

Mas essa situação pode começar a mudar ainda neste ano. Segundo informou a Secretaria de Transportes do Piauí, o trecho da BR-235 que liga Guaribas a Caracol deve começar a ser asfaltado em outubro. Por enquanto, está sendo asfaltado outro trecho da rodovia, entre Gilbués e Santa Filomena.

O casal Irineu e Eldiene saiu de Guaribas para procurar trabalho em outras cidades, mas voltou. Agora eles levantam, pouco a pouco, uma pousada no centro da cidade. Irineu diz que a obra que está fazendo não é “nem tanto pensando no agora”, é para o futuro. “Estou vendo que a cada ano que está passando, Guaribas está desenvolvendo mais”.

A expectativa de Irineu e Edilene é resultado da mudança dessa que já foi a cidade mais pobre do país. Mesmo com dificuldades, os moradores de Guaribas, agora, olham para o futuro com mais esperança e otimismo. Eldiene garante que vai ficar e ver a pousada cheia de clientes.

Veja aqui galeria de fotos de Guaribas na época do laçamento do Fome Zero.

Edição: Tereza Barbosa

Flap Over Study Linking Poverty to Biology Exposes Gulfs Among Disciplines (Chronicle of Higher Education)

February 1, 2013

Flap Over Study Linking Poverty to Biology Exposes Gulfs Among Disciplines 1

 Photo: iStock.

A study by two economists that used genetic diversity as a proxy for ethnic and cultural diversity has drawn fierce rebuttals from anthropologists and geneticists.

By Paul Voosen

Oded Galor and Quamrul Ashraf once thought their research into the causes of societal wealth would be seen as a celebration of diversity. However it has been described, though, it has certainly not been celebrated. Instead, it has sparked a dispute among scholars in several disciplines, many of whom are dubious of any work linking societal behavior to genetics. In the latest installment of the debate, 18 Harvard University scientists have called their work “seriously flawed on both factual and methodological grounds.”

Mr. Galor and Mr. Ashraf, economists at Brown University and Williams College, respectively, have long been fascinated by the historical roots of poverty. Six years ago, they began to wonder if a society’s diversity, in any way, could explain its wealth. They probed tracts of interdisciplinary data and decided they could use records of genetic diversity as a proxy for ethnic and cultural diversity. And after doing so, they found that, yes, a bit of genetic diversity did seem to help a society’s economic growth.

Since last fall, when the pair’s work began to filter out into the broader scientific world, their study has exposed deep rifts in how economists, anthropologists, and geneticists talk—and think. It has provoked calls for caution in how economists use genetic data, and calls of persecution in response. And all of this happened before the study was finally published, in the American Economic Review this month.

“Through this analysis, we’re getting a better understanding of how the world operates in order to alleviate poverty,” Mr. Ashraf said. Any other characterization, he added, is a “gross misunderstanding.”

‘Ethical Quagmires’

A barrage of criticism has been aimed at the study since last fall by a team of anthropologists and geneticists at Harvard. The critique began with a short, stern letter, followed by a rejoinder from the economists; now an expanded version of the Harvard critique will appear in February inCurrent Anthropology.

Fundamentally, the dispute comes down to issues of data selection and statistical power. The paper is a case of “garbage in, garbage out,” the Harvard group says. The indicators of genetic diversity that the economists use stem from only four or five independent points. All the regression analysis in the world can’t change that, said Nick Patterson, a computational biologist at Harvard and MIT’s Broad Institute.

“The data just won’t stand for what you’re claiming,” Mr. Patterson said. “Technical statistical analysis can only do so much for you. … I will bet you that they can’t find a single geneticist in the world who will tell them what they did was right.”

In some respects, the study has become an exemplar for how the nascent field of “genoeconomics,” a discipline that seeks to twin the power of gene sequencing and economics, can go awry. Connections between behavior and genetics rightly need to clear high bars of evidence, said Daniel Benjamin, an economist at Cornell University and a leader in the field who has frequently called for improved rigor.

“It’s an area that’s fraught with an unfortunate history and ethical quagmires,” he said. Mr. Galor and Mr. Ashraf had a creative idea, he added, even if all their analysis doesn’t pass muster.

“I’d like to see more data before I’m convinced that their [theory] is true,” said Mr. Benjamin, who was not affiliated with the study or the critique. The Harvard critics make all sorts of complaints, many of which are valid, he said. “But fundamentally the issue is that there’s just not that much independent data.”

Claims of ‘Outsiders’

The dispute also exposes issues inside anthropology, added Carl Lipo, an anthropologist at California State University at Long Beach who is known for his study of Easter Island. “Anthropologists have long tried to walk the line whereby we argue that there are biological origins to much of what makes us human, without putting much weight that any particular attribute has its origins in genetics [or] biology,” he said.

The debate often erupts in lower-profile ways and ends with a flurry of anthropologists’ putting down claims by “outsiders,” Mr. Lipo said. (Mr. Ashraf and Mr. Galor are “out on a limb” with their conclusions, he added.) The angry reaction speaks to the limits of anthropology, which has been unable to delineate how genetics reaches up through the idiosyncratic circumstances of culture and history to influence human behavior, he said.

Certainly, that reaction has been painful for the newest pair of outsiders.

Mr. Galor is well known for studying the connections between history and economic development. And like much scientific work, his recent research began in reaction to claims made by Jared Diamond, the famed geographer at the University of California at Los Angeles, that the development of agriculture gave some societies a head start. What other factors could help explain that distribution of wealth? Mr. Galor wondered.

Since records of ethnic or cultural diversity do not exist for the distant past, they chose to use genetic diversity as a proxy. (There is little evidence that it can, or can’t, serve as such a proxy, however.) Teasing out the connection to economics was difficult—diversity could follow growth, or vice versa—but they gave it a shot, Mr. Galor said.

“We had to find some root causes of the [economic] diversity we see across the globe,” he said.

They were acquainted with the “Out of Africa” hypothesis, which explains how modern human beings migrated from Africa in several waves to Asia and, eventually, the Americas. Due to simple genetic laws, those serial waves meant that people in Africa have a higher genetic diversity than those in the Americas. It’s an idea that found support in genetic sequencing of native populations, if only at the continental scale.

Combining the genetics with population-density estimates—data the Harvard group says are outdated—along with deep statistical analysis, the economists found that the low and high diversity found among Native Americans and Africans, respectively, was detrimental to development. Meanwhile, they found a sweet spot of diversity in Europe and Asia. And they stated the link in sometimes strong, causal language, prompting another bitter discussion with the Harvard group over correlation and causation.

An ‘Artifact’ of the Data?

The list of flaws found by the Harvard group is long, but it boils down to the fact that no one has ever made a solid connection between genes and poverty before, even if genetics are used only as a proxy, said Jade d’Alpoim Guedes, a graduate student in anthropology at Harvard and the critique’s lead author.

“If my research comes up with findings that change everything we know,” Ms. d’Alpoim Guedes said, “I’d really check all of my input sources. … Can I honestly say that this pattern that I see is true and not an artifact of the input data?”

Mr. Ashraf and Mr. Galor found the response to their study, which they had previewed many times over the years to other economists, to be puzzling and emotionally charged. Their critics refused to engage, they said. They would have loved to present their work to a lecture hall full of anthropologists at Harvard. (Mr. Ashraf, who’s married to an anthropologist, is a visiting scholar this year at Harvard’s Kennedy School.) Their gestures were spurned, they said.

“We really felt like it was an inquisition,” Mr. Galor said. “The tone and level of these arguments were really so unscientific.”

Mr. Patterson, the computational biologist, doesn’t quite agree. The conflict has many roots but derives in large part from differing standards for publication. Submit the same paper to a leading genetics journal, he said, and it would not have even reached review.

“They’d laugh at you,” Mr. Patterson said. “This doesn’t even remotely meet the cut.”

In the end, it’s unfortunate the economists chose genetic diversity as their proxy for ethnic diversity, added Mr. Benjamin, the Cornell economist. They’re trying to get at an interesting point. “The genetics is really secondary, and not really that important,” he said. “It’s just something that they’re using as a measure of the amount of ethnic diversity.”

Mr. Benjamin also wishes they had used more care in their language and presentation.

“It’s not enough to be careful in the way we use genetic data,” he said. “We need to bend over backwards being careful in the way we talk about what the data means; how we interpret findings that relate to genetic data; and how we communicate those findings to readers and the public.”

Mr. Ashraf and Mr. Galor have not decided whether to respond to the Harvard critique. They say they can, point by point, but that ultimately, the American Economic Review’s decision to publish the paper as its lead study validates their work. They want to push forward on their research. They’ve just released a draft study that probes deeper into the connections between genetic diversity and cultural fragmentation, Mr. Ashraf said.

“There is much more to learn from this data,” he said. “It is certainly not the final word.”

Brazil’s ‘Poor’ Middle Class, And The Poor That No Longer Serve Them (Forbes)

By Kenneth Rapoza – 1/22/2013 @ 11:41AM |8.546 views

Let me preface this by saying that this is not a jab at Brazil. This is actually a story that shows how Brazil’s rising tide is lifting all boats. The poor have more opportunities than ever before. They are earning more money (for some, how’s 56 percent sound?). And for the middle class that used to depend on them to wash their dishes and make their lunch, those days of luxury are over.

Bemvindo a vida Americana, meu bem!

*       *       *

My “house.” Edificio Bretagne. How I miss it. Right in the fold, top floor, all three windows were mine all mine. And a maid cleaned them for me.

Ask an expat what they love most about living overseas and they will inevitably tell you this: the taxes and the maid service. That’s right. Maids. And not for the rich, mind you, but for middle-of-the-road, beer-from-a-can drinking, 2.5 GPA achieving riff-raff professionals. Whether they’re living in Dubai, Mumbai or Brazil, they all love their maids. It’s a luxury they cannot afford back home.

I lived in Brazil for 10 years. I left in March 2010. Maids cooked my lunch, always a three courser. Rice. Beans, sometimes black, sometimes Carioca-style, which meant brown. Meat. Salad. Desert. Fresh squeezed orange juice or Swiss lemonade. Passion fruit. Guarana. Then, she did my dishes. Afterwards, she washed my clothes and pressed them.

As time went on, maintaining a daily maid became too costly. I cut back. I had a maid just twice a week. She cleaned. She did laundry. I cooked. I paid her R$80 a day, or R$140 a week, which was around $78 for two full days of work. Her name was Hélia. Me and my girls loved Hélia. I hope she is doing well. Anyway…

We lived in this beautiful building pictured here in São Paulo, in the Higienopolis neighborhood. A colleague of mine from one of the big U.S. newswires lived there, too. Our children hung out together a lot, especially in the swimming pool, which was surrounded by palm trees that housed these small green parrots that blended in with the palm leaves. He too had a maid, only his maid was there every day and sometimes on the weekends. A female columnist from Folha de São Paulo newspaper lived in the building, too. She also had a daughter. Only her daughter had a maid and a nanny, seven days a week. This was an early 40-something year old newspaper columnist, not a rock star.

Like me, my colleague was an American living a life we could never afford in the States. Ever. We were both scum sucking reporters waiting for the ax to fall on our necks. He, a little richer and hopeful; me, a little younger and angrier. One thing we all appreciated was being able to afford the extra help.

My swimming pool. We even had a barman. Though he was a grump. Me, my daughter and the daughter of an American reporter colleague called him Mr. Grumpy Pumpkin Man during our Halloween parties. Ahhh, the life…

Over the last 8 years, the income of Brazil’s domestic workers has risen by an estimated 56 percent, according to the Brazilian Institute for Geography and Statistics, IBGE. It’s a hard number to quantify because every single maid in Brazil is paid under the table in cash. By comparison, the average income in general rose by 29 percent. Nationwide, the average salary paid to domestic servants runs around R$721 a month, or around $360. However, that figure is double or triple in big cities like São Paulo and Rio de Janeiro. The income of Brazilian maids has risen by an average of 6.7 percent in just one year in real terms. Adding to the price tag is a steady decline in the number of domestic workers in the market.

Quite frankly, Brazil’s economy is getting richer. The poor have better things to do than clean up after middle class teenagers who still haven’t learned to fold and put away their own  T-shirts.

Short supply, high prices. Many Brazilians cannot afford the help. Welcome to your American Dream, Brazil!

Carol Campos is an administrator at Banco do Brasil in São Paulo. It’s a nice, full-time middle class gig. She lives in Higienopolis. I’ve been to her house many times. Our kids are friends. They went to school together. She used to have a maid every day when her first child was born, then down to a couple days a week and now — because of the rising cost of living — she tells me, “We are now down to just one day per week. It’s too expensive.” She pays her maid R$90 ($45) a day.

A host of new labor laws designed to protect informal workers drove up costs. The government wanted the working poor, most of them women, to have enough money to save for retirement and, of course, healthcare. That started driving up prices around the year 2000.

“About four years ago, when me and my sister were in college and working, my family all decided to just hire a ‘diarista’,” says , Leoberto José Preuss, a systems analyst at Brazilian IT firm TOTVS in Joinville, Santa Catarina, one of the more middle class states in the country.  Back then he says, a diarista, a maid that just comes once in a while and charges a flat day rate, charged just R$60 a day to cook and clean a house. “You’re lucky if you find anyone for less than 90,” he says. “We have someone come three days a week. It’s difficult to find anyone available these days.”

It will get harder. And as time goes on, it will definitely get more costly. So costly, in fact, that the majority of middle class Brazilians will no longer have a maid.

The government recently required full time domestic workers to receive the coveted “thirteenth salary”, a whole month’s work of pay in December, plus workman’s comp through the FGTS tax.  Brazilian maid service is becoming professionalized, and that has pulled the rug out from the middle class that has come to depend on them to keep their house in order.

A poll from Folha de São Paulo this month asked respondents if they would be able to afford a maid given the new labor laws. Out of the 1,177 on line respondents, 44 percent said no, 26 percent said they’d have to cut back on hours. So a total 70 percent are starting to get used to the fact that the good ole “Banana Republic” days are gone.

*       *       *

Sarah Castro, 28, is also from Santa Catarina. She is one of the Brazilian middle class that grew up with a live-in maid, her very own Mary Poppins. For Americans, this is an imperial wet dream.  All that’s missing is Tinkerbell. In the dream, you’re from the rich nation before the days of labor rights, and your family can afford to hire your neighbors wife to clean the house, while he cleans your chimney.  Those days are gone in London. They are ending in Florianopolis, Santa Catarina, where Sarah was raised and now works as a reporter.

“Our maid was named Nice. She lived with us and was part of our family. I miss her. There was no one like her,” she says. “Nowadays, we only have a maid once a week.  A good maid is hard to find.”

Let’s rephrase that. Barring a dystopian future, by the time Sarah is in her 40s, an affordable maid will be impossible to find.

I was in my early 20s when I first came to Brazil in 1995, I lived with a family in a city called Londrina, population around 500,000.  It’s in the center of Parana state, an agribusiness boom town.  The father was a professor at the local university.  The mother owned a small business, operating a clothing company out of what was once their garage. They had one weaving machine that made fabric 24 hours a day, 7 days a week. I can still hear that thing moving back and force, swish-swoosh; swish-swoosh, swish-swoosh. They were Brazil’s middle class. By my standards, they were rich because six days a week they had a maid who cooked and cleaned for them so both parents could work. The maid served them. She picked up after the four children. She cleaned up the dog’s mess in the yard.

Here’s the rub, I was raised by a maid. My mother didn’t graduate from high school. But she grew up in America. A maid that didn’t go to school in Brazil doesn’t live like one that grew up in the U.S.  The Brazilians couldn’t believe that a maid’s son had a basketball pole in his yard, an above ground pool and that my family had three cars. Their car ran on ethanol, and that thing was a piece of junk; a jalopy is more like it. Damn, meu filho; I had aCamaro Berlinetta!

Inequality in Brazil allowed the middle class to enjoy a life of luxury their American peers envied.

I never saw a messy Brazilian house in the decade I lived there. Everything was in its place.  Two-income households in São Paulo, as busy as a two-income household in New York, never had a dish in the sink, an unmade bed, or a laundry basket overflowing onto the bathroom floor.

Embrace the mess, Brazil. (And pick up those socks!)

“I have a maid come once every 15 days and that’s it,” says Keli Bergamo, a lawyer in Parana state. “The cooking, the clothes washing, I have to do myself. But I live alone. I know a lot of people who are cutting back. Brazilians will get crafty with the labor laws, though,” she says, adding that many wealthy Brazilians will avoid the full time labor rules by getting rid of full time maids and hiring part-timers in their place.

“These new laws make it more costly to maintain domestic help in Brazil,” she says. “A lot of people are going to give up this comfort and will have to divide the labor between the members of their household from now on.”

Digestão bloqueada, praga controlada (Revista Fapesp)

[Curioso que tanto receio exista com relação à geoengenharia, e tão pouco direcionado a esse tipo de zooengenharia.]
Pesquisa da função intestinal de insetos aumenta o conhecimento da fisiologia desses animais e pode ajudar a criar métodos inovadores de combater doenças e controlar pragas da lavoura (estrutura 3D da catepsina L2)

30/01/2013

Por Fábio Reynol

Agência FAPESP – Diversas enfermidades humanas, como dengue, doença de chagas e leishmaniose, e pragas que destroem lavouras de algodão, cana-de-açúcar e bananeira são problemas que têm como ponto comum o fato de serem provocadas por insetos.

Uma extensa pesquisa feita no Instituto de Química (IQ) da Universidade de São Paulo (USP) ampliou o conhecimento sobre diferentes insetos por meio de uma abordagem peculiar: a investigação da função intestinal. Com isso, abriu espaço para métodos inovadores de controle.

O trabalho compôs o projeto “A digestão dos insetos: uma abordagem molecular, celular, fisiológica e evolutiva”, conduzido de 2008 a 2012 e apoiado pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático.

O projeto, coordenado por Walter Ribeiro Terra, professor titular do IQ-USP – com a professora Clelia Ferreira como investigadora principal e vice-coordenadora –, é uma continuação de Temáticos sobre o mesmo tema desenvolvidos desde 1991. O novo projeto teve início em 2012 com conclusão prevista para 2017.

Entre as principais descobertas do projeto concluído este ano foi a de que mosquitos hematófagos da ordem Díptera têm em comum tripsinas especiais, fundamentais para a digestão de proteínas. “Essa informação torna esse tipo de tripsina um possível alvo de controle para todos os mosquitos desse grupo”, disse Terra.

Trata-se de um alvo bastante relevante, uma vez que a ordem Díptera engloba os gênerosAnophelesAedes e Culex, os quais agrupam insetos vetores de importantes doenças como malária, febre amarela, dengue e filariose.

Segundo Terra, inibir a tripsina poderia ser um método eficaz de controle dessas doenças, uma vez que bloquearia o processo de digestão dos insetos. Para isso, o trabalho também envolveu a busca por inibidores químicos das enzimas encontradas.

O método utilizado foi o da modelagem computacional a partir de imagens tridimensionais dessas moléculas. Em um modelo digital em 3D da enzima a ser inibida são testadas virtualmente moléculas inibidoras que se encaixam no maior número possível de reentrâncias, ou sítios funcionais.

“Em quanto mais sítios funcionais o reagente atracar, mais forte será a ligação e mais eficiente será o inibidor”, disse Terra à Agência FAPESP, explicando que a modelagem molecular 3D é amplamente usada na indústria farmacêutica.

A enzima bloqueada não consegue se recombinar e cumprir sua função no processo de digestão, o de quebrar outras moléculas. Sem conseguir absorver os nutrientes de que precisam, os mosquitos morrem.

O estudo da fisiologia do barbeiro Rhodnius prolixus, vetor da doença de chagas, sempre foi difícil e a observação de sua função intestinal um obstáculo para os pesquisadores.

A equipe de Terra contornou o problema encontrando um inseto similar, o Dysdercus peruvianus, percevejo que ataca o algodão. Transcriptomas (partes do genoma que codificam proteínas) desse inseto mostraram detalhes que podem ser válidos também para o barbeiro, podendo gerar alvos de controle naquele inseto.

O agronegócio da cana-de-açúcar também poderá se beneficiar do estudo. A catepsina L, enzima digestiva típica de muitos besouros, foi isolada no Sphenophorus levis, besouro cuja fase larval ataca o sistema radicular da cana. Essa enzima foi clonada, expressa e caracterizada com substratos sintéticos e inibidores. A mesma enzima encontrada no Tenebrio molitor, besouro conhecido como bicho-da-farinha, teve sua estrutura tridimensional resolvida.

“O maior desafio em identificar a estrutura tridimensional é a cristalização da proteína, porque se ela não cristaliza não conseguimos obter o modelo”, disse Terra, esclarecendo que várias proteínas não conseguem formar cristais, inviabilizando a sua visualização tridimensional.

Estrutura do desenvolvimento

Uma estrutura particular do sistema intestinal dos insetos recebeu atenção especial no Projeto Temático conduzido no IQ-USP: a membrana peritrófica.

Em formato de um minúsculo tubo, sabe-se que seu papel está ligado à eficiência digestiva, porém suas funções ainda não são totalmente conhecidas pela ciência. Algumas dessas funções hipotéticas foram testadas em insetos modelos e descobriu-se que ela possui participação preponderante no desenvolvimento dos insetos.

Insetos cujas membranas peritróficas foram inibidas tiveram o seu desenvolvimento prejudicado. Ao mesmo tempo, algumas plantas possuem reagentes naturais que atacam essa membrana, o que as protege de serem devoradas por insetos. “Essas informações tornam essa estrutura um importante alvo para processos inovadores de controle”, observou Terra.

O Projeto Temático também promoveu avanços consideráveis no conhecimento da evolução das espécies. Além de possível alvo de controle das moscas domésticas, a enzima catepsina D também está presente em humanos e em outros animais que possuem sistemas digestivos muito ácidos voltados a processar alimentos ricos em bactérias.

“O interessante dessa descoberta foi constatar que a mesma adaptação evolutiva ocorreu duas vezes e de maneira independente na mosca e na espécie humana”, disse Terra.

Outro avanço importante foi sobre a morfofisiologia dos insetos. Um estudo com o percevejoPodisus nigrispinus, predador de outros insetos, mostrou que a então chamada digestão extraoral daquele inseto é uma dispersão dos tecidos da presa por ação de uma substância salivar. A digestão propriamente dita ocorre no interior do intestino do inseto.

A descoberta, publicada no Journal of Insect Physiology, provocou uma menção especial de um parecerista da revista. “Ele escreveu que a partir desse trabalho deve-se repensar os conceitos de digestão fora do corpo”, disse Terra, salientando que a equipe recebeu com muito orgulho esse reconhecimento.

O projeto ainda identificou a lisozima como uma enzima crítica na digestão de moscas que atacam frutas, a trealase é crucial para lagartas pragas de lavouras e as beta-glucanases, ausentes nos mamíferos, estão relacionadas à digestão e ao sistema imunológico de insetos. Todas elas são potenciais alvos de controle dos insetos envolvidos.

Mais de 1,3 mil citações

Os resultados dos quatro anos de estudos estão registrados em 20 publicações e quatro capítulos de livros e os trabalhos de laboratório do projeto foram citados 1.357 vezes na literatura científica mundial nesse período.

No âmbito do Projeto Temático foram desenvolvidas três dissertações de mestrado, seis teses de doutorado e duas de pós-doutorado. O projeto contou com cinco Bolsas FAPESP de Iniciação Científica, uma de Doutorado e as duas de Pós-Doutorado.

O Temático ainda promoveu trabalhos em parcerias com diversas instituições nacionais como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal de Lavras (UFL), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Entomologia Molecular do qual o IQ-USP faz parte e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) também da USP.

O grupo ainda participa de um consórcio internacional para o sequenciamento do genoma do barbeiro Rhodnius prolixus cujos resultados ainda estão em análise e, de acordo com Terra, ainda devem gerar diversas aplicações práticas.

Make climate change a priority (Washington Post)

Graphic: A new report prepared for the World Bank finds that the planet is on a path to warming 4 degrees by the end of the century, with devastating consequences. Click on the infographic to go to the World Bank for more information.

By Jim Yong Kim, Published: January 24

Jim Yong Kim is president of the World Bank.

The weather in Washington has been like a roller coaster this January. Yes, there has been a deep freeze this week, but it was the sudden warmth earlier in the month that was truly alarming. Flocks of birds — robins, wrens, cardinals and even blue jays – swarmed bushes with berries, eating as much as they could. Runners and bikers wore shorts and T-shirts. People worked in their gardens as if it were spring.

The signs of global warming are becoming more obvious and more frequent. A glut of extreme weather conditions is appearing globally. And the average temperature in the United States last year was the highest ever recorded.

As economic leaders gathered in Davos this week for the World Economic Forum, much of the conversation was about finances. But climate change should also be at the top of our agendas, because global warming imperils all of the development gains we have made.If there is no action soon, the future will become bleak. The World Bank Groupreleased a reportin November that concluded that the world could warm by 7.2 degrees Fahrenheit (4 degrees Celsius) by the end of this century if concerted action is not taken now.

A world that warm means seas would rise 1.5 to 3 feet, putting at risk hundreds of millions of city dwellers globally. It would mean that storms once dubbed “once in a century” would become common, perhaps occurring every year. And it would mean that much of the United States, from Los Angeles to Kansas to the nation’s capital, would feel like an unbearable oven in the summer.

My wife and I have two sons, ages 12 and 3. When they grow old, this could be the world they inherit. That thought alone makes me want to be part of a global movement that acts now.

Even as global climate negotiations continue, there is a need for urgent action outside the conventions. People everywhere must focus on where we will get the most impact to reduce emissions and build resilience in cities, communities and countries.

Strong leadership must come from the six big economies that account for two-thirds of the energy sector’s global carbon dioxide emissions. President Obama’s reference in his inaugural address this week to addressing climate and energy could help reignite this critical conversation domestically and abroad.

The world’s top priority must be to get finance flowing and get prices right on all aspects of energy costs to support low-carbon growth. Achieving a predictable price on carbon that accurately reflects real environmental costs is key to delivering emission reductions at scale. Correct energy pricing can also provide incentives for investments in energy efficiency and cleaner energy technologies.

A second immediate step is to end harmful fuel subsidies globally, which could lead to a 5 percent fall in emissions by 2020. Countries spend more than $500 billion annually in fossil-fuel subsidies and an additional $500 billion in other subsidies, often related to agriculture and water, that are, ultimately, environmentally harmful. That trillion dollars could be put to better use for the jobs of the future, social safety nets or vaccines.

A third focus is on cities. The largest 100 cities that contribute 67 percent of energy-related emissions are both the center of innovation for green growth and the most vulnerable to climate change. We have seen great leadership, for example, in New York and Rio de Janeiro on low-carbon growth and tackling practices that fuel climate change.

At the World Bank Group, through the $7 billion-plus Climate Investment Funds, we are managing forests, spreading solar energy and promoting green expansion for cities, all with a goal of stopping global warming. We also are in the midst of a major reexamination of our own practices and policies.

Just as the Bretton Woods institutions were created to prevent a third world war, the world needs a bold global approach to help avoid the climate catastrophe it faces today. The World Bank Group is ready to work with others to meet this challenge. With every investment we make and every action we take, we should have in mind the threat of an even warmer world and the opportunity of inclusive green growth.

After the hottest year on record in the United States, a year in which Hurricane Sandycaused billions of dollars in damagerecord droughts scorched farmland in the Midwest and our organization reported that the planet could become more than 7 degrees warmer, what are we waiting for? We need to get serious fast. The planet, our home, can’t wait.

Belo Monte é um absurdo e termelétricas são desnecessárias [((o))eco]

Daniele Bragança

22 de Janeiro de 2013

Para Célio Bermann, eletricidade produzida com excedente de bagaço de cana equivaleria a duas Belo Montes.

O setor de energia ganhou as primeiras páginas dos jornais no início de 2013 com o baixo nível dos reservatórios e a possibilidade de manter as termelétricas ligadas ao longo de todo o ano para compensar a falta de chuvas. Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, é um crítico severo dessa solução. Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, trabalhou como assessor da então Ministra Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia, entre 2003 e 2004. “Saí quando verifiquei que o Ministério de Minas e Energia estava fazendo o contrário do que eu pensava que seria possível”, diz ele. Severo crítico da hidrelétrica de Belo Monte, fez parte do painel de especialistasque concluíram que o projeto da usina não deveria ter seguimento.

Bermann conversou com ((o))eco sobre os caminhos do setor energético e possíveis soluções para evitar o uso intensivo das termoelétricas como complementação das hidrelétricas.

((o))eco: O Ministério de Minas e Energia estuda usar as termelétricas de forma permanente, para poupar os reservatórios. O que o senhor acha disso?
Utilizar termelétricas para complementar o sistema hidrelétrico é uma solução equivocada. Em primeiro lugar, estamos falando de um sistema elétrico que prioriza a geração de energia a partir da água, o que o torna dependente do regime hidrológico. É preciso com urgência diversificar a matriz de eletricidade do Brasil, utilizando fontes que, ao mesmo tempo, possam complementar o regime da falta de água e que sejam viáveis do ponto de vista econômico e ambiental.

((o))eco: Por quê?
Primeiro, porque a termoeletricidade pode custar 4 vezes mais do que a hidroeletricidade. Além disso, utiliza três fontes fósseis derivados de petróleo: óleo combustível, carvão mineral e gás natural. O principal problema na utilização das fontes fósseis, ao meu entender, não são as emissões de gases de efeito estufa. No caso brasileiro, o problema maior das termoelétricas é serem emissoras de hidrocarbonetos, de dióxido de nitrogênio, de dióxido de enxofre, de material particulado e de fumaça.

((o))eco: Quais são as consequências?
O impacto ambiental dessas fontes é sobre a saúde pública. A vizinhança dessas usinas fica suscetível a doenças crônicas causadas por esse coquetel de poluição.

((o))eco: Há termelétricas que utilizam água na sua refrigeração. Isso causa impactos negativos?
Em geral, essas usinas utilizam água dos rios próximos. Existem regiões no Brasil em que o comprometimento hídrico impede a construção de termelétricas. No estado de São Paulo, no rio Piracicaba, por exemplo, não foi possível construir usinas a gás natural porque elas demandavam um volume de água além das possibilidades da bacia deste rio.

((o)) eco: Qual é o custo das termelétricas?

A partir do bagaço da cana de açúcar, resíduo da produção sucroalcooleira, pode-se produzir 10 mil megawatts excedentes, o que equivale a mais de 2 vezes a energia média produzida por Belo Monte.

A energia das termelétricas pode custar até 4 vezes mais do que a hidroeletricidade. Ao mesmo tempo, com a Medida Provisória 579, o governo quer reduzir a tarifa de energia usando recursos do Tesouro Nacional. É um absurdo, pois esta medida afeta indiretamente o bolso dos consumidores. Somos nós que vamos pagar por essa redução da tarifa. É uma forma fictícia de fazer algo desejável: reduzir a tarifa. Temos uma das tarifas de energia elétrica mais cara do mundo, algo absurdo porque nossa matriz com ênfase em hidrelétricas produz energia que deveria ser barata.

((o))eco: E quais seriam essas alternativas?
São três: a conservação da energia, o uso da biomassa e da energia eólica. A primeira alternativa é pensar na conservação e no uso eficiente da energia. É preciso uma ampla campanha nas mídias para ensinar à população a reduzir o desperdício. O governo está fazendo o contrário, quando diz que não há risco de racionamento.

Quando o governo prefere a termoeletricidade como base, está dizendo: vamos usar a termoeletricidade de forma que não se tenha riscos durante o período em que a hidrologia é desfavorável, que é o período entre junho e outubro. Essa solução, como já pontuei antes, é completamente inadequada.

A campanha por redução do consumo de energia deve abranger também grandes consumidores industriais. Estou falando de 6 setores: cimento, siderurgia, alumínio, química, ferro-liga e papel/celulose. Em conjunto, eles respondem pelo consumo de 30% da energia no Brasil. Não estou falando em fechar essas fábricas, mas que um esforço desses setores na redução da sua escala de produção aumentaria a disponibilidade de energia para a economia e para a população. É uma questão de interesse público.

((o))eco: E a segunda alternativa?

No mês de outubro, por causa do regime hidrológico, a capacidade de geração ficará reduzida a 1mil megawatts, ou seja, 10 % da capacidade instalada.

A segunda alternativa é a utilização do potencial do setor sucroalcooleiro como fonte de complementação de energia. O Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP recentemente constatou que, a partir do bagaço da cana de açúcar, resíduo da produção sucroalcooleira, pode-se produzir 10 mil megawatts excedentes, o que equivale a mais de 2 vezes a energia média produzida por Belo Monte. Essa energia pode chegar ao sistema elétrico em 3 ou 4 meses e a custo baixo.

Hoje, o bagaço é utilizado para complementar a própria necessidade de eletricidade das usinas. Mas elas também poderiam comercializar o excedente que é dessa ordem que eu falei, de 10 mil megawatts. Elas já comercializam 1.230 megawatts de energia elétrica excedente.

((o))eco: Por que essa energia não está disponível?
Uma resolução da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) determina que cabe à usina o investimento para construir as linhas de transmissão de energia que levem esse excedente da usina até uma subestação ou uma rede de distribuição de energia elétrica. Nosso levantamento, feito para algumas regiões, mostra que a distância entre as usinas e a rede varia de 10 a 30 km, percurso relativamente curto.

((o)) eco: E o que poderia ser feito para viabilizar estas pequenas linhas?
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) poderia financiar a construção dessas linhas. Com crédito, esse excedente poderia estar disponível já na próxima safra, em abril de 2013. Com investimento na troca de equipamentos de cogeração ─ caldeiras de maior pressão ─ esses 10 mil megawatts potenciais da biomassa podem dobrar para 20 mil megawatts. De novo, em nome do interesse público, o BNDES poderia ser o financiador.

Infelizmente, o BNDES está usando 22,5 bilhões de reais para financiar a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Quando ficar pronta, em 2019, ela acrescentará apenas 4.400 megawatts médios ao sistema elétrico. Veja o absurdo, a política do governo prioriza megaobras de hidrelétricas, quando existem soluções de energia complementar às hidros, que funcionam justamente na época das secas. A safra da cana de açúcar ocorre no período de menos chuvas, que vai de maio até novembro.

((o))eco: Belo Monte deveria ser descartado, então?

Conforme dados oficiais, o sistema de transmissão e distribuição nacional tem uma perda técnica (excluindo os gatos) da ordem de 15,4%.

Belo Monte deveria ser descartada. O custo é enorme: 30 bilhões de reais para uma capacidade instalada de 11.233 megawatts. Essa capacidade estará disponível durante 3 ou 4 meses por ano, no período das chuvas. No mês de outubro, por causa do regime hidrológico, a capacidade de geração ficará reduzida a 1mil megawatts, ou seja, 10 % da capacidade instalada. A média ao longo do ano é de 4400 megawatts. A contribuição do rio Xingu e da Usina de Belo Monte é uma fração do que está sendo alegado para justificar a construção da usina. Eu afirmo, Belo Monte atende ao interesse das empreiteiras e empresas ligadas à sua construção, e não à população e a economia brasileira.

((o))eco: E a terceira alternativa?
A terceira alternativa é a energia eólica. No nordeste, o regime de ventos é maior justamente na época da estiagem. Os reservatórios do rio São Francisco podem acumular água durante o período mais crítico, enquanto a energia eólica abasteceria a região nordeste. Ouve-se a alegação de que a biomassa, a eólica, são fontes intermitentes. Ora, a hidroeletricidade também é intermitente, pois depende do regime hidrológico.

((o))eco: E quanto a eficiência, qual é o percentual de perda nas linhas de transmissão?
Conforme dados oficiais, o sistema de transmissão e distribuição nacional tem uma perda técnica (excluindo os gatos) da ordem de 15,4%. É impossível eliminar todas as perdas, mas cortar 5 pontos percentuais é tecnologicamente viável e traz grandes benefícios econômicos. Basta investir na manutenção do sistema: isolar melhor os fios de transmissão e trocar transformadores que já esgotaram sua vida útil. O número crescente de apagões é uma evidência de má manutenção. Por exemplo, parafusos velhos levam à queda de torres de transmissão.

Dessa forma, a perda poderia ser reduzida para cerca de 10% e acrescentariam ao sistema elétrico o equivalente a uma usina hidrelétrica de 6.100 megawatts ─ 150% mais da média de Belo Monte ─ de acordo com cálculo recente que fiz com estudantes da Pós-Graduação em Energia do IEE. Isso poderia ser alcançado a um terço do custo de produzir um novo megawatt.

A Aneel é leniente em relação às perdas. É fundamental que ela defina, em nome do interesse público, metas de redução de perdas técnicas nas empresas de distribuição e concessionárias de distribuição de energia. O alcance dessas metas deveria ser associado à redução tarifária.

((o))eco: É caro construir novas linhas de transmissão?
Sim, principalmente para levar energia distante dos centros de consumo, como é o caso dos projetos de hidrelétricas que estão sendo construídas na Amazônia.

((o))eco: E a energia nuclear? O Brasil deve pensar em investir nesta alternativa de energia?
A energia nuclear é uma fonte cara, desnecessária e com um risco de ocorrência de acidentes severos. Além das usinas de Angra 1 e 2, estamos construindo Angra 3. Todas elas numa região que é imprópria para a implantação de usinas nucleares. Angra dos Reis é uma região suscetível a grandes chuvas no verão. Não é impensável a possibilidade que uma chuva mais severa derrube as linhas que transmitem energia elétrica do sistema até as usinas.

O resultado da interrupção de fornecimento de energia elétrica pode fazer as bombas de refrigeração de água dos reatores pararem, provocando o superaquecimento e a explosão do reator, que foi o que aconteceu, em fevereiro de 2011, nos 4 reatores de Fukushima, no Japão. Com um agravante: a única via de escoamento da população é a Rio-Santos, absolutamente incapaz de evacuar toda a população local. A empresa Eletronuclear considera, hoje, uma população da ordem de 200 mil habitantes. Essa população dobra na época das férias, que coincide com a época das chuvas.

Chimpanzees Successfully Play the Ultimatum Game: Apes’ Sense of Fairness Confirmed (Science Daily)

Jan. 14, 2013 — Researchers at the Yerkes National Primate Research Center, Emory University, are the first to show chimpanzees possess a sense of fairness that has previously been attributed as uniquely human. Working with colleagues from Georgia State University, the researchers played the Ultimatum Game with the chimpanzees to determine how sensitive the animals are to the reward distribution between two individuals if both need to agree on the outcome.

Researchers have shown that chimpanzees possess a sense of fairness that has previously been attributed as uniquely human. (Credit: © Sunshine Pics / Fotolia)

The researchers say the findings, available in an early online edition of the Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) available this week, suggest a long evolutionary history of the human aversion to inequity as well as a shared preference for fair outcomes by the common ancestor of humans and apes.

According to first author Darby Proctor, PhD, “We used the Ultimatum Game because it is the gold standard to determine the human sense of fairness. In the game, one individual needs to propose a reward division to another individual and then have that individual accept the proposition before both can obtain the rewards. Humans typically offer generous portions, such as 50 percent of the reward, to their partners, and that’s exactly what we recorded in our study with chimpanzees.”

Co-author Frans de Waal, PhD, adds, “Until our study, the behavioral economics community assumed the Ultimatum Game could not be played with animals or that animals would choose only the most selfish option while playing. We’ve concluded that chimpanzees not only get very close to the human sense of fairness, but the animals may actually have exactly the same preferences as our own species.” For purposes of direct comparison, the study was also conducted separately with human children.

In the study, researchers tested six adult chimpanzees (Pan troglodytes) and 20 human children (ages 2 — 7 years) on a modified Ultimatum Game. One individual chose between two differently colored tokens that, with his or her partner’s cooperation, could be exchanged for rewards (small food rewards for chimpanzees and stickers for children). One token offered equal rewards to both players, whereas the other token favored the individual making the choice at the expense of his or her partner. The chooser then needed to hand the token to the partner, who needed to exchange it with the experimenter for food. This way, both individuals needed to be in agreement.

Both the chimpanzees and the children responded like adult humans typically do. If the partner’s cooperation was required, the chimpanzees and children split the rewards equally. However, with a passive partner, who had no chance to reject the offer, chimpanzees and children chose the selfish option.

Chimpanzees, who are highly cooperative in the wild, likely need to be sensitive to reward distributions in order to reap the benefits of cooperation. Thus, this study opens the door for further explorations into the mechanisms behind this human-like behavior.

For eight decades, the Yerkes National Primate Research Center, Emory University, has been dedicated to conducting essential basic science and translational research to advance scientific understanding and to improve the health and well-being of humans and nonhuman primates. Today, the center, as one of only eight National Institutes of Health-funded national primate research centers, provides leadership, training and resources to foster scientific creativity, collaboration and discoveries. Yerkes-based research is grounded in scientific integrity, expert knowledge, respect for colleagues, an open exchange of ideas and compassionate quality animal care.

Within the fields of microbiology and immunology, neurologic diseases, neuropharmacology, behavioral, cognitive and developmental neuroscience, and psychiatric disorders, the center’s research programs are seeking ways to: develop vaccines for infectious and noninfectious diseases; treat drug addiction; interpret brain activity through imaging; increase understanding of progressive illnesses such as Alzheimer’s and Parkinson’s diseases; unlock the secrets of memory; determine how the interaction between genetics and society shape who we are; and advance knowledge about the evolutionary links between biology and behavior.

Journal Reference:

  1. Darby Proctor, Rebecca A. Williamson, Frans B. M. de Waal, and Sarah F. Brosnan. Chimpanzees play the ultimatum gamePNAS, January 14, 2013 DOI:10.1073/pnas.1220806110

Medo e tensão no Oeste (Rolling Stone)

Edição 49 – Outubro de 2010

Paraíso perdido na Amazônia, a região de Nova Olinda vive em conflito: de um lado, comunidades a favor da extração da madeira; de outro, aquelas que querem manter suas terras. O impasse continua

Medo e tensão no Oeste

Foto: GREENPEACE

por POR FELIPE MILANEZ

O excesso de céu e águas que se abre à minha frente a partir da proa do barco é deslumbrante. A floresta é uma linha verdejante suave no horizonte, que marca a distinção entre o azul cósmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderança indígena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele aponta para uma dessas margens paradisíacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: “Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram”.

É apenas uma ponta de areia, chamada São Pedro, que marca uma confluência. A partir daqui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapajós, se fecha, até culminar em uma bifurcação. De um lado, o Maró. Do outro, o Aruã. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligação política entre a insurgência presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposição estariam os empresários que comercializam madeira da região, as comunidades que são ligadas a esses empresários e os agentes econômicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospecção em toda a área, e os produtores de soja.

Não apenas pelo significado político, mas também pela dimensão social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira marcou definitivamente essa curva do Arapiuns.

O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comunidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestação, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indícios de extração irregular da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira continuaria saindo. “Sendo saqueada”, pensaram as lideranças que estavam no local. Não houve ordem de ninguém para dar início ao fogo, mas uma reação coletiva, em assembleias. “O motivador maior da queima foi a conivência do Estado com a exploração madeireira. O Estado não quis discutir com as comunidades, mandou apenas um técnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestantes, que esperaram por um mês”, afirmou uma liderança que não quis ser identificada.

Quase um ano atrás, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestação que já durava um mês, a multidão queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhões. Se a região vivia tempos de medo e tensão, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresários perceberam que poderiam se insurgir.

Neste último ano, sem a demarcação da terra indígena pretendida pelos índios borari, sem a regularização dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizações de corte de madeira na área e o patrimônio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda está tomado de medo e tensão.

“O medo sempre existiu. Mas eu não fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar”, diz Odair José Alves de Sousa, o Dadá, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique é seu tio Higino, mais velho e experiente). À noite, a água do rio é ainda mais escura. Reflete as estrelas tão nitidamente que a sensação é a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. Há calma no ar. Nessa hora, Dadá pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde então faz parte do programa de proteção à testemunha e anda com seguranças. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiança na capacidade de luta aumentou. “O movimento está forte. Nossa luta é justa”, afirma.

Antes do episódio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras. Cada uma com uma média de dois mil metros cúbicos de madeira. Agora, diz Dadá, se passarem três balsas por mês é muito. Foi o fogo? “Questão de amedrontamento”, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o “outro lado”. “A gente está falando no canal de rádio que não tem hora nem momento para ter outra manifestação, para pegar outra balsa. Então eles reduziram a quantidade”, explica. O foco da pressão é a empacada regularização fundiária da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audiências públicas e lobbies políticos.

Nova Olinda se divide em duas posições antagônicas. Para entrar na Gleba, é preciso estar de um lado. “A gente vai ter que discutir com a comunidade.” Minha recepção na aldeia Novo Lugar é permeada de desconfiança. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jornalista que se mostrou envolvida com o tal “outro lado”. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presença não implicava em vínculos diretos com o “lado de lá”, os empresários madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como Fé em Deus, Repartimento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como iniciei a viagem pelo lado da resistência aos empresários, que se encontrava antes pela logística do rio, as comunidades opostas fecharam as portas.

Um daqueles paraísos perdidos na Amazônia, lugar de floresta altamente preservada, onde um sonho de éden ainda parece persistir, a região de Nova Olinda é banhada por rios de águas escuras, que escorrem de forma sinuosa, de difícil acesso, praticamente isolando a área na seca do acesso de barcos maiores – com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco até Santarém, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

Com 182 mil hectares, a Gleba integra um mosaico de terras, no Oeste do Pará, parte em Santarém e outra em Juriti, que está em lento processo de regularização fundiária: o conjunto de glebas Mamuru-Arapiuns, com 1,2 milhão de hectares. Seria a primeira de cinco glebas de terras públicas nessa região a ter o problema de destinação do uso resolvido – para exploração, preservação ou uso tradicional. O processo, assim que concluído, poderia servir de modelo de resolução para as demais terras. Algumas áreas de assentamento já foram regularizadas. Falta definir a situação dos assentamentos de duas comunidades, Prainha e Vista Alegre, e a demarcação da terra indígena. A conclusão estacionou, e a tensão cresceu.

Há cerca de 15 comunidades na área. Pela lei, elas devem ser ouvidas sobre sua ocupação e o uso que fazem da terra, e as necessidades devem ser respeitadas na hora da concessão do título, seja na forma de projeto de assentamento, que pode ser coletivo ou em lotes individuais, seja na forma de uma reserva indígena. Mas as interferências externas, ou seja, dos novos migrantes, mudaram a relação pacífica que existia entre as comunidades, que hoje não se comunicam.

Seria natural imaginar que todas demandariam direitos semelhantes. Mas há aquelas que querem a presença dos empresários, e as que refutam. Permeada por essa disputa, surge uma batalha por identidades: para marcar suas diferenças e posições políticas assumem cada uma suas raízes. A grande batalha acontece entre as que reivindicam a identidade indígena, do povo Borari, e aquelas que querem se ver brasileiras e modernas.

Foram os gaúchos (termo genérico para forasteiros) que trouxeram o sonho do progresso e os conflitos. Empresários madeireiros transferidos pelo governo do Pará, eles ocupavam uma área pública que havia sido transformada em terra indígena de ocupação dos índios caiapós no Sul do Estado. O governo paraense decidiu, à época, fazer uma espécie de permuta com os empresários, transferindo-os para outra área administrada pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Com a transferência dos títulos, veio junto a grilagem da terra. A partir de 2002, começaram a surgir “laranjas” e milhares de novos madeireiros permutados. Na floresta, cortes de lotes sobrepunham-se, enquanto as populações locais observavam tudo cada vez mais esmagadas nas margens.

Para as comunidades a favor da chegada dos madeireiros, da pesquisa mineral de bauxita ou da instalação da agricultura mecanizada de soja, deixar a vida dura da exclusão em que vivem tornou-se um objetivo urgente. Ainda que tenham se dividido entre grupos que passaram a apoiar a entrada dos empresários, recebendo benfeitorias para isso, e os que os enfrentaram, recebendo ameaças, mas mantendo o sonho da autonomia. A comunidade Repartimento, no rio Aruã, foi a primeira a ceder. No rio Maró, o povoado de Fé em Deus tomou a frente, liderado por Manoel Benezildo Sousa, que passou a agrupar lideranças com ações financiadas pelos empresários. Os benefícios imediatos como um gerador mais potente, alguns salários e alguns empregos na extração da madeira, são de grande importância para quem vive na área. Mas podem ser considerados baixos se comparados ao valor em potencial das terras que estão em jogo. A contrapartida exigida para a chegada do progresso é a demanda por terras menores no processo fundiário em curso.

Contrárias aos madeireiros, as outras comunidades se organizaram com o sindicato dos trabalhadores rurais e os movimentos sociais da região. Decidiram lutar para garantir a terra de uso tradicional. Pelo menos, a maior fatia possível do bolo que estava sendo dividido. Esse é o lado do chamado Movimento no conflito instaurado na Nova Olinda.

Em uma terça-feira pela manhã, estive em Fé em Deus, para conhecer as reivindicações, demandas e os benefícios que têm sido distribuídos. Chovia, ventava, e o dia tinha um aspecto antipático. Eu havia sido informado de que poderia não ser recebido quando o barco que faz a linha de transporte até Santarém, o Crê em Deus, que levava as lideranças aliadas aos madeireiros para uma audiência pública na cidade, atracou junto ao que eu estava para me avisar: a minha presença na área não estava autorizada.

Não souberam informar do que se tratava a audiência pública para a qual haviam sido convocados – no caso, era para discutir a situação ambiental de um porto construído em Santarém, pela Cargill, para o escoamento da soja. Mas o transporte era pago.

Chegando em Fé em Deus, percebi um clima de tensão. Pessoas assustadas, conversas em voz baixa sobre a presença do forasteiro, olhares preocupados. Até que jovens líderes vieram informar que não seria realmente possível o diálogo na ausência de Benezildo de Souza e outras lideranças políticas. No pátio da escola vi tremularem bandeirinhas coloridas que anunciam a festa junina, marcada para o sábado seguinte. A comunidade borari Novo Lugar não vai ser convidada. Na festa deles tampouco alguém de Fé em Deus foi chamado. Sequer fui convidado para entrar na comunidade. A justificativa: eu estaria comprometido com o “outro lado”. Nova Olinda, dividida, vive uma guerra fria.

“Não queremos conversa. Vocês vieram aqui criar índio. Nós queremos ficar em paz e resolver os problemas”, disse um dos líderes da Fé em Deus. Atrás da roda de homens, gritou uma senhora: “A gente fala com vocês, depois vocês vão embora e a gente fica aqui, correndo perigo”. O temor que ela expressa representa alguma repressão interna que aquele povo vive e sobre a qual não quiseram falar.

Em Fé em Deus e nas demais comunidades que se comportam como se tivessem sido pressionadas, também se desconfia de jornalistas. Quando têm interesse de que algo seja publicado, convidam aqueles vistos como pertencentes a “seu lado”. Assim foi com um jornal local, de Santarém, o Impacto, e a revista Veja, que publicaram reportagens sob a égide de progresso e desenvolvimento. Ambos veículos de imprensa deixaram naquelas terras um rastro de desconforto que atinge qualquer jornalista que for para a Gleba, tornando infrutíferas qualquer tentativa de contato com os produtores rurais e os empresários.

Acompanhando um antropólogo de um instituto federal de pesquisa, interessado em compreender a relação das populações tradicionais com o Estado e sem nenhuma relação com questões étnicas, eu não havia sido levado por quaisquer dos dois lados do conflito por terras na região. Da mesma forma que os que desejam o progresso consideram terem “seus” jornalistas, também pensam disporem de antropólogos que os defendem. Nesse caso, eles contrataram Edward Luz, um antropólogo missionário, cuja missão é provar que nessa área não existem índios. Engajado de corpo e alma em acabar com o assunto, jovem líder evangélico na faixa de 30 anos, casado e pai de família, filho do pastor e presidente da Missão Novas Tribos do Brasil e formado em antropologia pela Universidade de Brasília, Edward Luz “nasceu e cresceu em berço missionário”, o próprio me diz numa linda manhã de sol em São Paulo. Era o primeiro dia da primavera de 2009, a mesma época em que tinham início as revoltas no Arapiuns. Estávamos em uma sala confortável na Universidade Mackenzie, junto de uns 15 alunos. Ele ministrava um curso para ensinar outros missionários a traduzirem a Bíblia para línguas indígenas. A missão, aqui, é levar a palavra da religião protestante para povos indígenas de pouco contato ou mesmo isolados. Um caso de proselitismo, que causou ao pai de Edward Luz (os dois têm o mesmo nome) a expulsão do território dos índios Zo’é, quando o filho ainda era criança. Além do proselitismo, também foram acusados de genocídio pela Funai, em razão de epidemias que podem ter provocado. Os Luz, desde então, foram proibidos de entrar em terras indígenas na posição de missionários.

Contratado pela Associação Comunitária dos Trabalhadores Rurais do Aruã e Maró (Acutarm), que é ligada aos empresários, foi solicitado a Luz, segundo ele escreveu em uma carta à qual tive acesso, “que se inteirasse dos fatos que vinham transcorrendo na região da mesopotâmia do Maró e o Aruan” para orientar a associação. Ele esteve nas três comunidades que “se autointitulam indígenas”, mas o acesso lhe foi negado. Ele quer analisar a situação étnica dos borari, que vivem em Cachoeira do Maró, Novo Lugar e São José. Essa demanda fundiária dos indígenas, dependendo dos cálculos da Funai, pode ficar entre 35 e 80 mil hectares. Edward sabe como funciona a Funai – ele já foi contratado pela própria para identificar terras indígenas do povo Kokama, na região do rio Solimões. Mas ele derrubou as pretensões da própria Funai e hoje responde a um processo.

A mais recente disputa de antropólogos sobre o tema ocorreu em meados de agosto, em Santarém, numa audiência pública. De um lado estavam Edward e Inácio Regis – intelectual local que também se apresenta como pesquisador e que também quer provar que aqueles índios, na verdade, não são índios, e que a terra deve ser destinada ao desenvolvimento. Em oposição estavam a antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, professora aposentada da Universidade de Chicago, e Maria Rosário Carvalho, da Universidade Federal da Bahia.

Régis, que, procurado por e-mail, não respondeu a tentativas de entrevista, afirmou que os índios do Tapajós estão sendo induzidos a se assumirem indígenas. Luz disse que os vizinhos e parentes dos índios do Maró afirmam que eles não são índios. As duas mulheres foram polidas, e disseram que não estavam na área fazendo pesquisas de campo e, portanto, não poderiam opinar sobre o caso específico. Deixaram no ar, no entanto, que consideram essas comunidades indígenas sem colocar em questão a legitimidade da identidade.

Assim como minha presença na área foi notada com rapidez, o mesmo ocorre quando os órgãos públicos aportam para debates fundiários. De acordo com o relatório de um funcionário do Ibama que participou de uma fiscalização em 2007, a embarcação da equipe foi interceptada por uma lancha conduzida por Edson Taparello, na qual também estava Fernando Belusso, dono e gerente, respectivamente, da empresa Rondobel: “Indagaram para onde ia a equipe”, escreveu o funcionário.

Os empresários estavam acompanhados de Manoel Benezildo e da repórter Gerciene Belo, do jornal Impacto. Convocaram uma reunião-surpresa, sem programação oficial – burocracia que se faz necessária para ter a presença de representantes públicos. A equipe do Iterpa cedeu à pressão e deslocou-se na lancha do empresário. O técnico do Ibama preferiu não comparecer, pois, segundo ele, tratava-se de transporte oferecido por uma empresa que tinha interesse direto no problema e isso poderia causar interferência na fiscalização.

O relatório do Ibama, cujo integrante não compareceu à reunião, descreve o que a funcionária do Iterpa lhe contou: “Os participantes decidiram pela regularização fundiária dos lotes comunitários na modalidade individual, conforme era desejo, também, dos empresários”. A Terra Indígena Cachoeira do Maró está em processo de demarcação pela Funai. A última visita de funcionários do órgão ocorreu em setembro deste ano e buscava identificar fisicamente o local de ocupação. Para a Funai, não está em questão a autenticidade da reivindicação dos índios. “Não cabe ao Estado, ou à Funai, dizer quem é índio e quem não é”, afirma Márcio Meira, presidente da entidade

A lei e a antropologia, segundo Meira, definem a legitimidade da afirmação étnica pela autodeclaração. “Índio é qualquer membro de uma comunidade indígena, que se reconhece como tal e é reconhecido pela comunidade como um membro”, explica. É questão de afirmação social, histórica, econômica e cultural.

Na complexa teia de demandas por terras da Gleba Nova Olinda, a bola da vez é a criação do Projeto de Assentamento Estadual Agroextrativista (Peaex), que envolve as comunidades Vista Alegre e Prainha. Os títulos podem ser regularizados em cinco ou 25 mil hectares, em lotes individuais ou coletivos. E, para cada possibilidade, surge uma pressão contrária. É onde ocorrem os maiores achaques, já que a demanda dos boraris está nas mãos da Funai. Em Vista Alegre e Prainha também há divisão. Um lado, liderado por Márcio Crispim, na Prainha, e Sidiclei Fernandes dos Santos, na Vista Alegre, presidentes de associações locais montadas pelos empresários, pede ao Iterpa uma pequena área de cinco mil hectares e lotes individuais, de forma que vão poder seguir vendendo madeira para os empresários. A maioria se mostra contra esse posicionamento, mas não sabe como se manifestar oficialmente. Pedem um assentamento de lote coletivo, com cerca de 25 mil hectares – número próximo ao definido por uma pesquisa realizada pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, e que identifica a área realmente ocupada pelo uso tradicional, incluindo reservas de caça e terras para plantações de mandioca, como entre 15 e 20 mil hectares.

Algumas associações comunitárias, como a Acutarm, estão unidas para a luta por uma terra menor. No dia 18 de junho ocorreu uma reunião com os empresários, os presidentes das associações, equipes do Iterpa e da Sema. “Os funcionários públicos não estavam capacitados juridicamente para a discussão fundiária. Estavam ali apenas para fazer vistorias dos planos de manejo de madeira”, relatou um funcionário do Ministério Público que não quis se identificar. Isso não foi um empecilho, pois a reunião ocorreu, de acordo com um relatório do MP, inclusive com a presença dos madeireiros Rosenil Vaz, Francisco Souza e Alfredo Sippert.

Laurimar dos santos, o guariba, 63 anos, vive na Prainha e mostrou-se revoltado com a situação que está vivendo quando nos encontramos. Simpático, ele afirmou que não gosta de ir à cidade: “Lá nos tratam que nem bicho, nos chamam de índio”. Santos não aceita um terreno de cinco mil hectares para toda sua família e comunidade. “Estão nos espremendo, vamos comer areia”, esbraveja.

Contrário à posição de Santos está o desejo de Márcio Crispim, que me recebeu de uma forma também simpática, ainda que um tanto desconfiada. Crispim é presidente da associação da sua comunidade, mas ele não se lembra do nome. Diz que não precisam dessa terra toda. Sobre a associação que preside (mais tarde descobri que se trata da Ainorma), Crispim afirmou que nunca houve uma reunião ou assembleia, assumiu sem desconforto que é ligado aos madeireiros, e que por isso recebe um salário com carteira assinada. Está certo de estar contribuindo para o desenvolvimento da região. Mas em outra roda de conversa comentaram que ele deseja partir para Manaus com o dinheiro que tem recebido.

Crispim é amigo de Sidiclei, pastor evangélico da Vista Alegre, que por sua vez é amigo de Edward Luz, o antropólogo missionário. Sidiclei também luta para convencer sua comunidade a aceitar um território menor, ajudar os empresários e receber benefícios e investimentos em troca. Só que Sidiclei deu uma derrapada no terreno da ética, logo após o episódio do fogo no Arapiuns. E foi obrigado a retratar-se publicamente de seus atos, acusado de achacar sua própria comunidade. Ele havia escrito uma carta, “impulsionado pela raiva da informação que foi repassada para nós”, em suas palavras, e resolveu escrever outra em seguida, para as autoridades, desmentindo-se da primeira. As duas cartas estão com o Ministério Público do Estado. A primeira é um abaixo-assinado organizado por ele, no qual a comunidade abria mão de 20 mil hectares em favor das empresas madeireiras e do desenvolvimento regional. Mas a história não foi bem assim, segundo Sidiclei. Em 7 de dezembro passado, ele assinou a segunda carta, direcionada ao Iterpa, na qual constava: “A lista foi feita como um abaixo-assinado das pessoas que queriam um gerador e não dos que queriam a ampliação da área da comunidade… quem foi coletar essas assinaturas fui eu… quando conversava com os moradores, explicava que era uma lista para conseguir o gerador”. Resumo: o abaixo-assinado que ele mesmo organizou foi feito para pedir a diminuição de terras, e não para ganhar um gerador elétrico.

Sidiclei abriu para o Iterpa o jogo para reduzir o território comunitário. Mas seguiu lutando ao lado daqueles que ofereciam o gerador em troca de madeira de lei. As doações têm sido feitas, e a comunidade tem se mostrado receptiva com as benfeitorias. De acordo com o que se ouviu numa recente visita do MP à Vista Alegre, disseram que “receberam doações de seu Francisco Souza, ganharam um grupo gerador, fiação elétrica, vão construir um templo”. Eles “preferem ficar com os cinco mil hectares e ter certeza de que terão os empregos com os empresários madeireiros”. A promotora de justiça também os ouviu dizer que “há pessoas empregadas de carteira assinada e que recebem direitinho e que a vida melhorou bastante e acham que pode melhorar ainda mais”.

Desde que a indústria madeireira passou a sofrer com a repressão à extração ilegal, a partir de 2008, o Oeste paraense foi alçado à posição de um dos grandes fornecedores do mercado. No último ano houve um crescimento de 76% das autorizações de manejo florestal, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Operações de fiscalização têm sido realizadas – inclusive, contando com apoio logístico dos madeireiros. Por vezes são distribuídas multas. Os bens apreendidos, como carretas, motosserras, tratores, quando pegos em flagrante, têm sido liberados pela Justiça Federal de Santarém. E, por mais que os fiscais do Ibama percebam que há algo estranho no ar, eles não têm conseguido comprovar. E, em ano eleitoral, um dos setores mais importantes da economia do estado, o setor madeireiro passou a ter ainda mais influência política. “A gente sabe que tem coisa errada, que extraem madeira fora do plano. O problema é que é difícil provar”, afirma um ex-funcionário do Ibama local que também não quer se identificar.

No caso do incêndio das balsas, como nem o IBAMA nem a Sema conseguiam provar as ações ilegais na região, e a demanda fundiária não foi resolvida, surgiu a revolta. Para reagir contra a retirada da madeira e a falta de definição dos títulos de terras, os moradores da Gleba Nova Olinda se juntaram com os ribeirinhos e indígenas do Arapiuns e apreenderam as duas balsas.

Diversas lideranças comunitárias estavam presentes. Agiam de forma coletiva. Mas uma personalidade, já de destaque no movimento social de resistência, foi acusada de ser uma das responsáveis e responde judicialmente pelo ato, junto de um grupo de líderes. É Dadá, do Novo Lugar. “Sou perseguido”, ele diz. Tem sido assim desde que ele fez um curso de agente ambiental do Ibama, em 2003, época em que teria iniciado sua luta política.

Foi nos tempos do Ibama que Dadá, com acesso a relatórios de fiscalização e autorizações de manejo de madeira, descobriu a chegada dos madeireiros na área e passou a organizar a resistência. Com ele estavam Edil e Valnei, líderes de suas respectivas comunidades (Novo Lugar, Cachoeira do Maró e Sociedade dos Parentes). Esses dois tiveram de fugir da região, sob escolta do programa de proteção, para não serem mortos. Dadá ficou: “O que adianta eu ter uma proteção fora, se na aldeia vão ficar meus filhos, minha esposa, minha mãe, meus tios? Se querem me proteger, que seja na minha casa, na aldeia”.

José Heder Benatti, presidente do Iterpa, diz que está informado das negociações por terra que estão ocorrendo sob pressão e achaque. Justifica que o Estado está tomando providências para regularizar a região e consertar os erros anteriores. “As comunidades estão sendo ouvidas, com prioridade, sobre o uso tradicional da terra”, afirma, lembrando que isso não ocorreu quando transferiram os madeireiros.

Se insistirem em trocar um gerador por 20 mil hectares, Benatti diz que o instituto vai negar a titulação. “Essa pressão vai ser inócua”, garante. “A área vai ser formalizada, junto ao Ministério Público, com referência ao estudo do Museu Goeldi. Eles vão ter direito à área que ocupam e usufruem.” Se a programação correr da maneira que ele espera, em três anos o Oeste do Pará, que era uma área esquecida, terá regularizado 1,3 milhão de hectares. No entanto, “período eleitoral não é muito favorável para esse tipo de conversa”, pondera o presidente do Iterpa. Outro problema é que, enquanto isso, a valiosa madeira que pertence em parte às comunidades, e em parte ao patrimônio público, terá sido escoada por mãos privadas.

“Eu tenho medo”, relata a mãe de dadá. Dona Edite assistiu seu filho chegar em casa ferido após o espancamento, a casa dele ser queimada na aldeia, e, neste ano, o outro filho, Poró, também chegar em casa espancado, em maio último. “Dizem por aí que não tem conflito”, ela diz, em alusão a declarações de lideranças de Fé em Deus e Vista Alegre. “Isso é mentira! Aqui tem conflito, e temo por meus filhos. Eu fico muito preocupada. Tem noite que não durmo. Fico tensa quando vão à cidade. Sonho que meu filho pode estar sendo morto”, desabafa a senhora. “Eu tenho muito medo.”

Magaly Pazello: “A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores” (viomundo)

Publicado em 14 de janeiro de 2013 às 12:04

Criador do RSS, Reddit e Creative Commons suicida-se aos 26 anos, sob os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos EUA

por Magaly Pazello, especial para o Viomundo

Este foi um final de semana muito triste, perdemos Selarón no Rio de Janeiro e, em Nova York, aos 26 anos, Aaron Swartz se suicidou.

A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores, ativista, prodígio da computação, escritor. Essa perda trágica repercute intensamente pela internet, como uma onda de dor, espanto e indignação. Mais e mais sites publicam relatos, declarações, notícias.

Esse rapaz, os quais os sites de notícia não se cansam de sublinhar que sofria de depressão, sofreu os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acusado de “roubar” milhões de artigos científicos ele enfrentava um processo judicial que poderia resultar em 35 anos de prisão caso fosse considerado culpado. No centro desse processo se instalou uma séria controvérsia que deixa uma marca indelével sobre o direito de todas as pessoas ao acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Aaron Swartz, aos 13 anos foi o ganhador do ArsDigita Prize, uma competição para jovens criadores de websites não-comerciais que fossem úteis, colaborativos e voltados para atividades educacionais. O prêmio incluiu uma visita ao famoso Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mais tarde seria protagonista dos eventos que o levaram ao suicídio.

Aos 14 anos, Aaron integrou a equipe de criadores do RSS 1.0, um recurso bacana de leitura de sites através de atualizações em tempo real, os famosos feeds. Eu adoro!

Aos 15 anos, integrou a equipe que desenhou as licenças Creative Commons.

Na sequência, fundou uma start-up, que depois se fundiu à rede social Reddit, onde ele desenvolveu a plataforma que a levaria ao sucesso. E cujo desenho também resultou na base de sites Open Library, ou seja, bibliotecas abertas, e no Archive.org, uma espécie de máquina do tempo da internet. E esta seria sua vida e sua bandeira a partir de então: o acesso ao conhecimento e à informação, sua disponibilização online gratuita através de plataformas abertas, o desenvolvimento técnico dessas plataformas. Especialmente o acesso ao conhecimento e à informação públicas e geradas a partir de recursos públicos. Suas atividades profissionais nunca visaram à obtenção de lucro e promoção pessoal. Sua genialidade está presente em dezenas de projetos semelhantes.

Crítico de filmes e pesquisador, seu blog tinha um enorme público. Entre 2010 e 2011, foi bolsista do Laboratório de Ética Edmond J. Safra na Harvard University, onde pesquisava sobre corrupção institucional. Fundou e era líder do DemandProgress.org, uma plataforma inteligente de ciberativismo.

Aaron foi uma das vozes fortes contra o SOPA-Stop Online Piracy Act, um projeto de lei contra a pirataria online proposto pelo poderoso setor de propriedade intelectual e direitos de autor, a indústria fonográfica e de cinema. Mas o projeto de lei, de fato, iria endurecer as leis a tal ponto que sequer mencionar um texto num blog seria considerado um ato ilegal, estrangulando o direito à liberdade de expressão.

Aaron, junto com Shireen Barday, “baixou” e analisou por volta de 440 mil artigos acadêmicos da área de Direito para determinar o tipo de financiamento que os autores receberam. Os resultados, publicados noStanford Law Review, levaram a trilhar os caminhos dos fundos públicos para pesquisa. Por causa de sua capacidade de processar grandes quantidades de dados era requisitado para colaborar com vários outros pesquisadores. Disto resultou o projeto theinfo.org, que chamou a atenção do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

theinfo.org tornou livre e aberto o acesso a uma imensa base de dados públicos somente disponível gratuitamente através de máquinas instaladas em 17 bibliotecas em todo o país, o que obrigava as pessoas interessadas a se deslocar até os pontos de acesso ou, então, pagar 10 centavos por peça. Foram aproximadamente 20 milhões de páginas da Corte Federal, algo de tirar o fôlego. Ele deixou muita gente brava com essa façanha, a tal ponto que começou a ser investigado pelo FBI, contudo sem consequências.

Mas a história foi bem diferente com o MIT. Ainda no Laboratório de Ética de Harvard, em 2011, Aaron se utilizou do acesso aberto do MIT para coletar por volta de 4,8 milhões de artigos científicos, incluindo arquivos  da base JSTOR muito conhecida no mundo acadêmico. O caso veio a público, creio, quando ele foi preso em julho de 2011.

A controvérsia sobre se seria roubo ou não foi substituída pelo debate sobre se era correto a cobrança por artigos científicos cujas pesquisas são financiadas com dinheiro público. Sobre a mercantilização e privatização do conhecimento científico, direitos de autor e os custos para tornar esses materiais disponíveis. Uma campanha de apoio a Aaron e o manifesto Guerrilla Open Access, escrito por ele em 2008, ganhou outra vez visibilidade (uma tradução pode ser encontrada aqui).

Segundo a ONG Electronic Frontier Foundation, embora os métodos de Aaron fossem provocativos, os seus objetivos eram justos. Ele lutava para libertar a literatura científica de um sistema de publicação que tornava inacessível essa produção para a maior parte das pessoas que realmente pagaram por isso, quer dizer, todas as pessoas que pagam impostos. Essa luta deveria ser apoiada por todos.

As coisas começaram a tomar outros rumos com o declínio do debate. Após a devolução das cópias digitais dos artigos, a JSTOR decidiu não apresentar queixa contra Aaron. Mas a façanha desta vez resultou num processo por crime cibernético por parte do governo dos Estados Unidos munido pelo MIT. Em seu desabafo ao saber do suicídio, Lawrence Lessig escreveu:

Logo no início, para seu grande mérito, JSTOR compreendeu que era “apropriado” desistir: eles declinaram de dar prosseguimento à sua própria ação contra Aaron e pediram ao governo para fazer o mesmo. O MIT, para sua grande vergonha, não foi limpo, e então o promotor teve a desculpa que ele precisava para continuar sua guerra contra o “criminoso” que nós amamos e conhecemos como Aaron.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos interpretou a ação de Aaron como crime de roubo e a demanda foi levada ao grande júri que decidiu que ele deveria ir a julgamento. Então, a máquina de fazer moer do governo começou a funcionar.

Primeiramente, Aaron foi acusado de quatro crimes todos relativos à violação de sistema informático. Mas depois o Departamento de Justiça, numa atitude de “exemplaridade”, acrescentou mais nove acusações, todas contidas na Lei de Abuso e Fraude Informática, e atos de conspiração.

Além disto, familiares e amigos, como Lawrence Lessig, relatam situações de intimidação por parte do Departamento de Justiça. Alex Stamos, especialista em crimes cibernéticosalém de inúmeras outras vozes, desmontam item por item o exagero forçado na perseguição a Aaron, a verdade sobre o “crime”.

O efeito cascata dessas acusações resultaram na possibilidade real de Aaron Swartz ser condenadoa 35 anos de prisão e multa de 1 milhão de dólares!!!

Lawrence Lessig diz:

Aqui, é onde nós precisamos de um melhor sentido de justiça e de vergonha. O que é ultrajante nesta história não é apenas [o que aconteceu com] Aaron. É também o absurdo do comportamento do promotor. Bem desde o início, o governo trabalhou tão  duro quanto pode para caracterizar o que Aaron fez da forma mais extrema e absurda. A “propriedade” que Aaron “roubou”,  nós fomos informados, valia “milhão de dólares” — com a dica, e então a sugestão, que o seu objetivo de obter lucro com o seu crime. Mas qualquer um que diga que se pode ganhar dinheiro com um estoque de ARTIGOS ACADÊMICOS é idiota ou mentiroso. Estava claro o que disto não se tratava, mas o nosso governo continuou a pressionar como se tivesse agarrado terroristas do 11/09  com a boca na botija.

Não consigo imaginar o que passou com esse rapaz de personalidade introvertida, apresentando um quadro de depressão, à medida que a data do julgamento se aproximava. Sua solidão, seu medo diante deste quadro kafkiano. Sua morte me pareceu daqui de longe uma forma de exílio. Como o exílio do protagonista das tragédias gregas. A morte é a condenação ao exílio da República que não permite a existência dos poetas.

No sábado, ainda sob o impacto do acontecimento, sua família fez um comunicado público, culpando as autoridades judiciais e o MIT. O documento afirma que essa morte não é apenas uma tragédia pessoal, mas sim um produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações, o qual iria punir uma pessoa por um alegado crime que não fez vítimas.

Essa última parte é a chave de todo o enredo, pois para a aplicabilidade da lei com a qual Aaron seria julgado era necessário uma série de aspectos todos ausentes dos atos cometidos.

Um memorial online está sendo construído em homenagem a Aaron.

O funeral será realizado nessa terça-feira, 15 de janeiro, em Illinois.

Como tributo a comunidade ciberativista criou uma página com o objetivo de ser um grande e espontâneo repositório de produção acadêmica colocada a disposição  de todas as pessoas de forma gratuita e aberta.

Todas as pessoas estão convidadas a disponibilizar seus trabalhos em qualquer idioma. No twitter acompanhe pela hashtag #pdftribute.

JSTOR publicou suas condolências imediatamente e o MIT anunciou que vai investigar sua responsabilidade na morte de Aaron, mas  para mim este anúncio beira o cinismo.

E o que nós aqui no Brasil temos com isso?

Bom, a internet foi concebida como uma plataforma sem fronteiras físicas e territoriais. E quando ocorre um evento, triste ou alegre, seja onde for, que está relacionado ao âmago do funcionamento desse incrível sistema isso nos interessa.

O aperfeiçoamento técnico da internet e seu sistema regulatório é, também, de grande interesse de todos, sobretudo quando este aperfeiçoamento está relacionado com o acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Em relação à produção científica vale lembrar que o governo brasileiro tem tido uma participação importante na formação de uma cultura de acesso aberto e gratuito. Embora de maneira, por vezes, contraditória.

Mas deixando as idiossincrasias de lado… a área de saúde é um belo exemplo de acesso compartilhado ao conhecimento com a instalação, no Brasil, da BIREME, em 1967, cujo objetivo é contribuir com o desenvolvimento da saúde fortalecendo e ampliando o fluxo de informação em ciências da Saúde.  Dela, em 2002, surgiu o projeto Scielo, uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros que se expande pela América Latina.

No início dos anos 2000, em consonância com a o debate global, é lançado o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica com vários setores e órgãos do governo brasileiro entre os apoiadores da inicitiava (leia aqui e aqui).

Contudo, a sucessão de eventos desde a cópia dos milhares de artigos científicos até o processo judicial e o incremento da pena — resultando na absurda possibilidade de Aaron ser condenado a 35 anos de prisão mais multa — serve de alerta para a necessidade de nós mesmos repensarmos e revisarmos estrategicamente as recentes leis aprovadas no nosso Congresso Nacional sobre cibercrime, além da debilidade política e conceitual a que chegou o Marco Civil.

Nós não estamos distantes de absurdos como o caso de Aaron! Em terras tupiniquins outros absurdos já acontecem por causa do uso excessivo das leis de difamação e persistência das leis de desacato.

Magaly Pazello é pesquisadora do Emerge — Centro de Pesquisa e Produção em Comunicação e Emergência da Universidade Federal Fluminense (UFF), sendo responsável pela área de pesquisa de governança na internet. É ciberativista e feminista.

Humanidade deve começar a se preocupar com descoberta de vida alienígena, diz relatório (O Globo)

Fórum Econômico Mundial listou cinco fatores X, problemas sérios e ainda remotos que devem ter impacto na vida na Terra

RENATA CABRAL

Publicado:9/01/13 – 12h09 / Atualizado:9/01/13 – 15h27

RIO – Enquanto o mundo concentra suas preocupações na crise nos países desenvolvidos e no aquecimento global, o Fórum Econômico Mundial alerta para os chamados “fatores X”, que, segundo a organização, já deveriam estar na pauta de discussão de países e organizações internacionais por terem consequências incertas e, por isso, poder de desestabilizar a atual ordem mundial — entre eles, a descoberta de vida alienígena. O abuso da tecnologia para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos também é citado.

Com o ritmo da exploração do espaço nas últimas décadas, diz o documento, é possível considerar que a humanidade pode descobrir vida em outros planetas. A maior preocupação seria sobre os efeitos nos investimentos em ciência e sobre a própria imagem do ser humano. Supondo que seja encontrado um novo lar em potencial para a humanidade ou a existência de vida em nosso sistema solar, a pesquisa científica teria deslocados grandes investimentos para robótica e missões espaciais. Além disso, as implicações filosóficas e psicológicas da descoberta de vida extraterrestre seriam profundas, desafiando crenças das religiões e da filosofia humana. Por meio de educação e campanhas de alerta, o público poderia se preparar melhor para as consequências desse processo, indica o fórum.

O relatório anual sobre os riscos globais, publicado duas semanas antes do encontro anual que ocorrerá em Davos, teve colaboração da revista científica “Nature” considerando cinco fatores X: além da descoberta de vida em outros planetas, o avanço cognitivo do cérebro humano pelo uso de estimulantes, o uso descontrolado de tecnologias para conter as mudanças climáticas, os custos de se viver mais e as próprias mudanças climáticas em curso. De acordo com o relatório, antecipando-se a essas questões, seria mais fácil agir preventivamente e não ser pego de surpresa quando eles emergirem.

Apesar de as ameaças das mudanças climáticas serem conhecidas, o relatório também indaga se já passamos de um ponto dramático de não retorno. Por isso, para além do tema que guiou os debates na última década — se os seres humanos seriam ou não responsáveis por alterar o clima da Terra —, poderíamos ter de caminhar para discussões forçadas sobre como fortalecer a resiliência e a capacidade de adaptação para lidar com um novo ambiente que pode nos levar a um novo e ainda desconhecido equilíbrio.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, outra preocupação de hoje sobre problemas ainda remotos deve ser o avanço cognitivo do ser humano. Há o temor de que no futuro as pessoas abusem da tecnologia que permite turbinar a performance no trabalho e nos estudos. O esforço dos cientistas para tratar doenças como Alzheimer ou esquizofrenia leva a crer que num futuro não muito distante pesquisadores vão identificar substâncias que permitam melhorar os estimulantes de hoje, como a Ritalina. Apesar de serem prescritos para pessoas com doenças neurológicas, esses remédios seriam usados no dia a dia como já ocorre hoje.

O avanço poderia também vir de hardwares, diz o relatório. Estudos mostram que a estimulação elétrica pode favorecer a memória. Diante disso, seria ético aceitar que o mundo se dividisse entre os que tiveram oportunidade de ter a parte cognitiva reforçada ou não?, indaga o documento. Haveria, ainda, o risco de esse avanço dar errado. O impacto dessas novas tecnologias é esperado para dentro de 20 ou 50 anos.

A utilização descontrolada de tecnologias de geoengenharia também é vista como um problema pelo Fórum Econômico Mundial. Apesar de ter diferentes aplicações, espera-se usar a tecnologia para controlar as mudanças climáticas. A ideia básica é que poderiam ser jogadas pequenas partículas na estratosfera para bloquear a energia solar e refleti-la de volta ao espaço. Mas os efeitos colaterais poderiam ser custosos demais, diz o documento. Poderia haver alterações significativas em todo o sistema climático, com redução da luz solar, o que alteraria a forma como a energia e a água se movimentam no planeta. Essa opção não é considerada no curto prazo. Muitos estudiosos já chamaram atenção para os riscos dessa tecnologia. Por isso, poderia surgir um espaço para que experimentações sem regulação ocorressem, alerta o relatório.

Os custos de viver mais seriam outro fator X de preocupação, uma vez que os países não têm se preparado para viver com os altos custos que a terceira idade implica e com uma massa de pessoas que sofrerão de doenças como artrite e demências. Isso porque a medicina do século 20 avançou muito nas descobertas relativas às doenças genéticas, decifrando o genoma humano. São esperados ainda mais avanços em doenças do coração e do câncer. O relatório preocupa-se com o impacto na sociedade de uma camada da população que consegue prever, logo evitar, as causas mais comuns de morte hoje, mas com uma deterioração da qualidade de vida. Mais pesquisas seriam necessárias para encontrar soluções para essas condições, hoje consideradas crônicas.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/humanidade-deve-comecar-se-preocupar-com-descoberta-de-vida-alienigena-diz-relatorio-7239466#ixzz2HZQ0ax47 
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Direitos humanos: um estorvo para as esquerdas? (Le Monde Diplomatique Brasil)

Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos

por Deisy Ventura, Rossana Rocha Reis
07 de Janeiro de 2013

01181761(1)Mãe e filho dormem na rua em São Paulo ao lado do operário que opera britadeira. Renato Stockler/ Reuters

Entre os anos 1960 e 1980, numa América Latina esmagada por regimes ditatoriais, grande parte das esquerdas abraçou o discurso e a pauta dos direitos humanos. Em incontáveis casos, os direitos humanos foram o fulcro de movimentos e ações autoproclamadas esquerdistas. Retomada a democracia, o gozo dos direitos civis e políticos tornou possível que personagens, grupos e partidos identificados com esse campo chegassem ao governo em diversos Estados latino-americanos. Atualmente, o exercício do poder suscita questões sobre a concepção de direitos humanos tanto da esquerda que governacomo da esquerda que defende incondicionalmente esses governos, embora amiúde obnubilada em larguíssimas coalizões.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a interação entre os direitos humanos e a política no Brasil de hoje. As críticas ao governo pautadas pelos direitos humanos têm merecido uma virulenta reação. Pululam as contradições não apenas entre discurso e prática, mas também dentro dos próprios discursos, e entre certas práticas. É como se um projeto de transformação social prescindisse ou, em alguns casos, fosse considerado até mesmo incompatível com a garantia de certos direitos, paulatinamente convertidos em estorvos. Quem cobra do governo federal o respeito aos direitos humanos é acusado de fazer o jogo da oposição, supostamente pondo em risco um “projeto maior”. Argumentos conjunturais como os de que faltam os meios ou o momento não é oportuno para sua efetivação, confundem-se, a cada dia mais, com a minimização da importância dos direitos humanos.

Em resposta a mobilizações como as relacionadas à hidrelétrica de Belo Monte e aos índios Guarani-Kaiowá, entre outros episódios recentes, um número inquietante de autoridades governamentais não tem hesitado em difundir argumentos gravemente equivocados sobre direitos humanos, com efeitos nefastos não apenas sobre a agenda política, mas também sobre a opinião pública. Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos.

Os direitos humanos são burgueses. A relação entre a esquerda e os direitos humanos foi marcada pela interpretação oferecida por Karl Marx, principalmente em Sobre a questão judaica (1843),a propósito dos processos de construção da cidadania moderna. Para Marx, o reconhecimento da igualdade formal (jurídico-política) do indivíduo não é suficiente para a realização do ideal de emancipação humana almejado pelo socialismo. A afirmação de um direito natural tal qual expresso nas Declarações de Direitos Humanos seria, assim, a consagração do homem egoísta e do interesse privado. No entanto, avaliar a conjuntura atual pinçando da obra de Marx apenas sua concepção de direitos humanos, sem levar em conta sua crítica ao direito em geral, à política em si e, sobretudo, à existência do Estado, configura um reducionismo imperdoável, se não uma espécie de marxismo à la carte. Por outro lado, a emancipação humana, tal como imaginada por Marx, depende de mudanças estruturais, certamente inalcançáveis por meio de uma pauta adstrita aos direitos humanos. Contudo, essa constatação não diminui a importância histórica e tangível dos direitos humanos em processos emancipatórios. Se “o homem é um ser que esquece”, como diz um antigo provérbio, é preciso reiterar o que a história recente do Brasil e da América Latina nos ensina: a importância da emancipação civil e política na luta pela transformação da sociedade e da economia. É claro que os direitos humanos não são, nem devem ser, o objetivo final das esquerdas. Entretanto, nenhum sistema político pelo qual vale a pena lutar pode prescindir do respeito à dignidade humana e do feixe de direitos que dela deriva. Ademais, desafiada pela complexidade do presente, a esquerda não pode ser condenada a uma percepção de direitos humanos do século XIX.

Os direitos humanos são uma invenção ocidental, e a política de direitos humanos no plano internacional é uma forma de imperialismo. Embora a perspectiva do respeito à dignidade humana exista em diversas culturas e épocas, é indiscutível que a noção moderna de direitos humanos, base das normas internacionais nessa matéria, tem suas raízes intelectuais no Iluminismo, na Revolução Francesa e na independência norte-americana. Porém, o sentido de um conjunto de ideias não pode ser limitado ao contexto no qual ele foi produzido. Ao longo dos séculos, o conceito da igual dignidade dos indivíduos em liberdades e direitos mobilizou, no mundo inteiro, grupos e agendas muito diversificados. A revolução que levou à independência haitiana, por exemplo, não apenas reproduziu, mas reinterpretou e acrescentou direitos à Carta de Direitos do Homem e do Cidadão. Da mesma maneira, o movimento feminista, execrado pelos revolucionários franceses, valeu-se dos termos da Carta para formular suas demandas; e a Constituição mexicana de 1917 e os movimentos de libertação nacional e de reconhecimento de direitos coletivos apropriaram-se da ideia de direitos humanos e expandiram seu significado. Portanto, sua origem histórica e cultural não deve ser vista como um pecado original, já que não impediu a emergência de direitos que podem fundamentar a própria resistência às diferentes formas de imperialismo.

Incorporar a agenda de direitos humanos na política externa seria fazer o jogo dos Estados Unidos nas relações internacionais. Os Estados Unidos são grandes objetores e violadores do direito internacional. Por exemplo, lutaram contra a aprovação do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional; e, descumprindo promessas, mantêm aberta a base de Guantánamo, em Cuba. A instrumentalização do discurso dos direitos humanos por Washington, uma das marcas da Guerra Fria, confirmou sua atualidade, entre outros, nos casos das intervenções no Iraque e no Afeganistão. Na Líbia, em 2011, “a comunidade internacional” teria recorrido à intervenção militar a fim de “evitar o massacre” da população civil por um cruel ditador, um aliado do Ocidente frescamente descartado. O uso da força foi então autorizado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com base no princípio da “responsabilidade de proteger”. Trata-se de uma nova forma jurídica do antigo direito de ingerência, ampla o suficiente para derrubar o governo da Líbia e omitir-se diante do linchamento de Muamar Kadafi, ao mesmo tempo que dá guarida a graves violações de direitos humanos no Barein, na Síria e no Iêmen. Segundo o presidente Barack Obama, os Estados Unidos devem intervir, coletiva ou unilateralmente, quando seus “interesses e valores” forem ameaçados, sem preocupação com a coerência. O que prevalece é o interesse na preservação das zonas de influência, em detrimento de qualquer concepção de direitos humanos. Logo, para o Brasil, descartar o respeito aos direitos humanos como critério de sua política externa jamais constituiria uma forma de oposição à hegemonia dos Estados Unidos. É preciso opor-se aos atos, não aos pretextos.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) praticou uma ingerência inaceitável nos assuntos internos brasileiros no caso Belo Monte. A oposição à construção da usina é promovida pelos Estados Unidos. O recente ataque do governo federal ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos foi um desserviço às gerações futuras. Não se pode confundir a OEA com a Comissão ou a Corte interamericanas, e ainda menos com os Estados Unidos, que jamais aceitaram a Convenção Americana dos Direitos do Homem. A oposição à hidrelétrica de Belo Monte é legítima e genuinamente brasileira, vinculada à luta histórica pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação do meio ambiente. Ainda que imperfeitos, os mecanismos regionais de proteção aos direitos humanos são uma grande conquista dos povos, salvaguarda indispensável diante do autoritarismo que segue assombrando nosso continente. Os recentes golpes impunes em Honduras e no Paraguai, ambos avalizados pelos Estados Unidos, demonstram que os mecanismos regionais precisam ser valorizados.

Impor condicionalidades em termos de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente nos empréstimos concedidos pelo governo brasileiro a outros países é um tipo insuportável de interferência e uma forma de imperialismo. Na década de 1970, uma importante conquista da sociedade norte-americana foi a exigência de que os países beneficiados por empréstimos respeitassem determinados padrões de cumprimento de direitos humanos. Essa medida teve um impacto importante nas relações entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas, corroendo a sustentação interna da política norte-americana de apoio aos regimes autoritários e impondo constrangimentos ao Executivo. No contexto atual, em que bancos e agências do Estado brasileiro se tornam importantes fontes de financiamento de obras de infraestrutura na América Latina, é importante que os empréstimos concedidos e os acordos de cooperação incorporem a exigência de respeito aos direitos humanos. Longe de ser uma forma de ingerência, trata-se de garantir que o dinheiro dos contribuintes brasileiros não seja utilizado para financiar intervenções que comprometam a dignidade das populações envolvidas. Conceder financiamentos sem compromisso com a promoção de direitos é uma característica fundamental do mercado, não do Estado, necessariamente submetido ao interesse público.

Direitos civis e políticos são de direita, direitos econômicos e sociais são de esquerda. Os direitos humanos são, na verdade, indivisíveis. Longe de ser uma formalidade vazia, a afirmação da indivisibilidade é uma forma de proteção dos indivíduos contra a seletividade dos Estados. A identificação de alguns direitos com a direita e de outros com a esquerda, embora guarde relação com a geopolítica da Guerra Fria, aproxima-se perigosamente da justificativa apresentada pelos generais-presidentes brasileiros aos organismos internacionais, quando interpelados sobre as frequentes violações cometidas em nome da segurança nacional. Para eles, os avanços na área de saneamento básico, habitação e saúde constituíam a política brasileira de direitos humanos, enquanto as denúncias sobre torturas, prisões arbitrárias, assassinatos e desaparecimentos faziam parte de um complô comunista mundial.

O desenvolvimento é mais importante para as pessoas do que o respeito aos direitos humanos. Em um mundo com recursos materiais e humanos limitados, existem muitas escolhas difíceis a fazer. As exigências em relação a um governo vão muito além daquelas colocada pela pauta dos direitos humanos. No atual contexto de crise econômica mundial, com perspectivas de agravamento, o tema do desenvolvimento adquire importância renovada, e é natural que assim seja. Entretanto, o contexto econômico não pode servir de justificativa para o atropelamento de direitos humanos, sob pena de produzir, mais uma vez, um crescimento econômico que não se traduz em uma melhora real e equitativa do panorama social brasileiro. Nós já tivemos, no Brasil, desenvolvimento sem respeito aos direitos humanos. Não foi bom para as esquerdas.

O combate à miséria é a forma mais efetiva de combater a violação dos direitos humanos. O combate à miséria é parte fundamental de uma política de direitos humanos. Mais do que isso, podemos afirmar que, sem uma política de erradicação da miséria, a promoção dos direitos humanos está fadada ao fracasso. No entanto, ela não é suficiente para garantir a observância dos direitos humanos. Infelizmente, o conjunto de desigualdades que afetam a dignidade dos indivíduos em nosso país é muito mais amplo. Iniquidades e discriminações que envolvem questões de gênero, cor, orientação sexual, regionalismo e xenofobia exigem ações específicas. Uma sociedade menos desigual em termos econômicos não é sinônimo de uma sociedade que respeita igualmente os direitos humanos de todos os seus cidadãos. Quando a inclusão social se opera essencialmente pelo aumento do consumo, toda sorte de egoísmo pode ser favorecida.

O respeito aos direitos humanos é uma etapa já conquistada no Brasil. Atualmente, nosso problema seria a falta de meios, não a falta de consenso em relação aos princípios. Esperava-se que os direitos humanos alcançassem lugar de destaque na agenda política pós-redemocratização. Seria o momento de generalizar o acesso a esses direitos (prioridade de investimento em políticas sociais) e de afirmar a cultura dos direitos (os bens da vida não constituem privilégios de alguns, nem assistencialismo). Porém, grande parte da população brasileira acredita piamente que os direitos humanos são o maior obstáculo à sua segurança. A vulnerabilidade fala mais alto do que a cidadania. A erosão da perspectiva dos direitos é evidente em nosso tempo, e não apenas no Brasil. Cresce o respaldo eleitoral de grupos e partidos que militam abertamente contra direitos fundamentais já consagrados por lei. É chocante a maneira leviana com que temas como a tortura, o aborto ou a sexualidade, entre tantos outros, têm sido discutidos nos períodos eleitorais. Cresce também a estapafúrdia naturalização das alianças com esses grupos. É preciso reconhecer que a defesa incondicional dos direitos humanos está ameaçada nas campanhas e nos programas de governos de candidatos das esquerdas, mas, sobretudo, em suas gestões.

Por fim, um projeto de transformação da sociedade brasileira com vista à emancipação humana não pode prescindir da luta pelos direitos humanos. Há valores e parâmetros éticos – como o reconhecimento e o respeito pelas especificidades e pelas diferenças étnicas, de gênero e orientação sexual – que não podem ser negociados ou plebiscitados, seja em nome da democracia, do desenvolvimento ou de um suposto anti-imperialismo. Uma agenda positiva de direitos humanos deve estabelecer mínimos denominadores para a ação política. No momento em que os valores de mercado avançam sobre todos os governos, este talvez seja, ainda que temporariamente, nosso “projeto maior”.

Deisy Ventura
Professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, IRI-USP

Rossana Rocha Reis
Professora do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Disease Burden Links Ecology to Economic Growth (Science Direct)

Dec. 27, 2012 — A new study, published Dec. 27 in the open access journal PLOS Biology, finds that vector-borne and parasitic diseases have substantial effects on economic development across the globe, and are major drivers of differences in income between tropical and temperate countries. The burden of these diseases is, in turn, determined by underlying ecological factors: it is predicted to rise as biodiversity falls. This has significant implications for the economics of health care policy in developing countries, and advances our understanding of how ecological conditions can affect economic growth.

According to conventional economic wisdom, the foundation of economic growth is in political and economic institutions. “This is largely Cold War Economics about how to allocate property rights — with the government or with the private sector,” says Dr Matthew Bonds, an economist at Harvard Medical School, and the lead author of the new study. However, Dr Bonds and colleagues were interested instead in biological processes that transcend such institutions, and which might form a more fundamental economic foundation.

The team was intrigued by the fact that tropical countries are generally composed of poor agrarian populations while countries in temperate regions are wealthier and more industrialized. This distribution of income is inversely related to the burden of disease, which peaks at the equator and falls along a latitudinal gradient. Although it is common to conclude that economics drives the pattern of disease, the authors point out that most of the diseases that afflict the poor spend much of their life-cycle outside the human host. Many cannot even survive outside the tropics. Their distribution is largely determined by ecological factors, such as temperature, rainfall, and soil quality.

Because of the high correlations between poverty and disease, determining the effects of one on the other was the central challenge of their statistical analysis. Most previous attempts to address this topic ignored disease ecology, argue Bonds and colleagues. The team assembled a large data set for all of the world’s nations on economics, parasitic and infectious vector-borne diseases, biodiversity (mammals, birds and plants) and other factors. Knowing that diseases are partly determined by ecology, they used a powerful set of statistical methods, new to macroecology, that allowed variables that may have underlying relationships with each other to be teased apart.

The results of the analysis suggest that infectious disease has as powerful an effect on a nation’s economic health as governance, say the authors. “The main asset of the poor is their own labor,” says Dr Bonds. “Infectious diseases, which are regulated by the environment, systematically steal human resources. Economically speaking, the effect is similar to that of crime or government corruption on undermining economic growth.”

This result has important significance for international aid organizations, as it suggests that money spent on combating disease would also stimulate economic growth. Moreover, although diversity of human diseases is highly correlated with diversity of surrounding species, the study indicates that the burden of such human disease actually drops when biodiversity rises. The analysis is inconclusive about why this effect is so strong. The authors suggest that competition and predation limit the survival of disease vectors and free-living parasites where biodiversity is high. The research sets the stage for a number of future analyses that need to lay bare the relationship between health care funding and economic development.

Journal Reference:

  1. Matthew H. Bonds, Andrew P. Dobson, Donald C. Keenan.Disease Ecology, Biodiversity, and the Latitudinal Gradient in IncomePLoS Biology, 2012; 10 (12): e1001456 DOI: 10.1371/journal.pbio.1001456

Devir-pobre, devir-índio (Quadrado dos Loucos)

4 de agosto de 2012

Por Bruno Cava

Em 15 de junho, aconteceu o seminário terraTerra, na Casa de Rui Barbosa, no Rio. Inscrito como evento da Cúpula dos Povos, o encontro de grupos militantes e intelectuais tinha por objetivo aprofundar a crítica ao modelo de desenvolvimento. No contexto da crise socioambiental, aterrar a discussão nas lutas, nas alternativas, nas ocupações e formas de resistir e reexistir. Na ocasião, o cadinho de falas, textos e debates resultou em bons e maus encontros. Uma fratura que repercute a própria atividade prática dos grupos que participavam da dinâmica. Foi a “trama da sapucaia”, para pegar emprestado de um texto de Cléber Lambert. Como toda fratura em ambientes de rico pensamento e debate aberto, tiveram basicamente dois efeitos. Um efeito narcísico, improdutivo, edipiano, neurótico. Quando o desejo volta contra si mesmo como planta venenosa, com piadinhas, pulsões e muito espírito de rebanho, o que acaba por reunir o ressentimento dos súditos em projeto de vingança. Mas também o outro lado, produtivo, prometeico, fabulador. Quando o desejo se liga ao real sem recalques, gera diferenças qualitativas e propicia que se continue pensando e continue lutando. Esses dois efeitos atravessaram as pessoas em várias intensidades e sentidos, nos dois pólos do debate. Eu particularmente prefiro Prometeu a Narciso e não renuncio à agressividade da diferença.

No final do seminário, um dos palestrantes (não lembro exatamente quem), do alto de seu poder de síntese, resumiu as posições. De um lado, aqueles que defendem que “o índio vire pobre”. Do outro, aqueles que defendem que “o pobre vire índio”. Os primeiros representariam o projeto desenvolvimentista. Fazer do índio mais um trabalhador e consumidor do novo Brasil, o país do futuro que chegou. Inclui-lo na sociedade forjada pela modernidade. Uma monocultura inteiramente pautada pelo quantitativo, o extensivo e o pacto diabólico da produção pela produção. Em última instância, aqueles que defendem Dilma (pela via economicista). Os segundos, defensores que “o pobre vire índio”, pensam a cosmologia indígena como alteridade radical à sociedade colonizada. Opõem o intensivo ao extensivo e a qualidade à quantidade. Para eles, a solução está em combater para que o índio não vire pobre, ao mesmo tempo em que os pobres se indianizem, e assim possam vencer a assimetria fundamental de uma antropologia que os assujeita e que se manifesta em todos os lugares e discursos por onde passam. Em vez disso, o pobre é que deve se reconstruir pelo índio. “Todo mundo é índio, menos quem não é” (Eduardo Viveiros de Castro). Disseminar o índio no corpo da população, como na retomada cabocla das terras, ou na campanha indigenista dos zapatistas. Em vez de concretar o Xingu, mostrar que a cidade jamais deixou de ser indígena. Que a floresta como saturação de relações jamais deixou de ser a nossa verdadeira riqueza cultural. Em última instância, aqueles que promovem Marina (por essa via antropológica).

Com o recorte, esse palestrante tentou sintetizar as múltiplas incidências da questão num simples fla-flu. Uma operação legítima do ponto de vista das estratégias político-teóricas envolvidas, mas que terminou por colocar o problema de maneira desfocada e, no fundo, simplória. É que o problema começa no verbo. Nem tanto o pobre virar índio, ou o índio virar pobre, mas pôr em questão o virar mesmo. A questão está no processo de passagem, mais no trânsito que nos pontos de partida e chegada, a imanência da reexistência às transcendências das culturas existentes. O palestrante confundiu o devir com o sujeito. É preciso antes de tudo examinar a travessia, a transformação mesma, que é primeira em relação ao que se transforma. Isto significa assumir uma perspectiva em que as coisas se sustentam instáveis, enquanto cristalizações de processos inacabados e precários; e em que a relação entre as coisas existe como uma relação entre transformações de transformações, relações de relações em ação cruzada. As coisas ficam mais abertas à mudança. E ensejam ser desdobradas em múltiplas perspectivas.

A pobreza, por exemplo, contém um paradoxo. Na mesma medida que é privação, também é potência. Por óbvio, privação e potência não acontecem ao mesmo tempo. Mas o pobre é aquela força que caminha nesse campo instável, onde pode transitar por todo o espectro de grau entre uma e outra. Porque a pobreza tem uma dimensão afirmativa, inventa novos usos, constrói o máximo do mínimo, a favela do lixo, a poesia das expressões doridas e tensionadas das ruas. Gatos nascem livres e pobres e recusam a ser chamados pelo nome. Qualquer prescrição de imobilidade não serve para quem tem de se mover todos os dias para reinventar o mundo, em cuja crise o pobre vive e se relaciona. Devir pobre ativa a potência insofismável dessa classe inscrita como agente de produção do capitalismo.

Por que não se trata tanto de virar isto ou aquilo, mas de devir. Pode ser ridículo eu, homem branco, querer ser negro, mas nada impede aconteça uma negritude em mim. Devir-onça não significa tornar-se uma onça. Nesse sentido, sucedem processos de transformações que podem ser apresados subjetivamente, e o conjunto galgar novos horizontes éticos e políticos. Devir pobre, índio, mulher, criança, planta, mundo. Nos devires, está em jogo a construção de um comum de reexistências e lutas, no interior das culturas e identidades disponíveis. No interior e para além, e mesmo contra. Um comum diferenciante em que as diferentes forças de existir podem se enredar e se maquinar na própria distância entre elas, no dissenso constituinte; sem redução a uma identidade comum,  ao consenso, ao denominador comum, a um “em comum”. É se recompor no amor pelo outro, sem reduzi-lo a si, nem se submeter a ele. Isto é, partilha desmedida de afetos ativos, no bom encontro em que se multiplicam e produzem o real, jamais na subjugação entre seres comensuráveis entre si, na redução ao “consenso mínimo do relacionamento”.

Com essa forma de pôr o problema, é possível se concentrar antes nas estratégias e táticas de ação, nos agenciamentos do desejo, nas formas de criar e se deslocar, — em tudo que isso que favorece uma fuga reexistente das identidades, e assim favorece a diferença por si mesma — do que ficar idealizando e descrevendo outras identidades possíveis, lutando pelas existentes ou combatendo outras que possam vir a existir, como faria um inventariante dos elementos culturais por aí. Posso irromper dentro de mim, — mesmo que eu me constitua de forças majoritárias e dominantes da cultura estabelecida, — irromper o meu avesso, o meu avesso simétrico, o meu índio e o meu subdesenvolvimento, um intensivo pelo qual tudo o que passa resulta diferente. Essa diferença ameaça o poder constituído. Uma força que vem, acontece, e me arrasta pra outro lugar e outro tempo.

O primado da diferença implica que o problema de índio-virar-pobre ou pobre-virar-índio embute uma dicotomia infernal. Já se trata, desde o início, de um falso problema.

Portanto, é preciso recolocar o problema. Preocupar-se em ser pobre ou índio é muito pouco. Faz-se necessário mobilizar os substantivos em verbos, molecularizar os adjetivos em advérbios. O caso não está na transformação de A a B ou de B a A. E sim no diferencial C que faz com que A e B possam coexistir no mesmo plano de composição política. Então é caso do pobre devir índio e o índio devir pobre. E mais. Seguindo a lógica, igualmente sucede um diferencial entre A e A´, e entre B e B´. Ou seja, o pobre devir pobre e o índio devir índio. Se o projeto do novo Brasil consiste em fazer da “Classe C” o modelo de cidadão, trabalhador e consumidor, esta figura antropológica pode devir pobre-potência. O trabalhador recusa o trabalho, o consumidor consome o consumo e o cidadão se revolta. De maneira simétrica, o índio devém índio ao impregnar as forças que o constrangem na maior comunidade de todos os tempos: o mercado capitalista global. Menos para ser reconhecido como indígena do que para indianizar o poder. Institui outras formas de medir, se relacionar e escapar dos aparelhos de captura. Contra Belo Monte, o Xingu em São Paulo.

Muitas vezes, sofisticados esforços de desmontagem da metafísica ocidental perdem de vista o essencial. Todo o esforço por desarranjar a violência e o intolerável, inscritos na estrutura produtiva deste mundo, só é eficaz levado a um sentido material. Isto é, animado pelos processos de transformação e afirmação de diferença já em andamento, pela proliferação de lutas socioambientais que se debatem no dia a dia. A política precede o ser. E política sem transitividade com a crítica do sistema produtivo se torna cega à máquina capitalista, arriscando nivelar-se a uma apologia (embora requintada e elitista) ao que de pior há na modernidade européia: a economia política clássica e neoclássica.

A agressão e destruição dos aparelhos de captura só acontecem quando imediatamente ligadas à montagem de uma máquina revolucionária.

Devo parte do conteúdo deste artigo à palestra proferida por Cléber Lambert no seminário de anteontem à Casa de Rui Barbosa, co-organizado pela Universidade Nômade, bem como ao encontro produtivo entre dois pensadores de primeiro time do Brasil contemporâneo, Eduardo Viveiros de Castro e Giuseppe Cocco.

Favelas: preservar o quê? (riorealblog.com)

By Julia Michaels

Posted on December 23, 2012

Um mundo na van

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Não existe ônibus direto para Copacabana, vindo da avenida Brasil, altura da passarela nove, Parque União.  Então, o jeito é andar de van. Só que o caminho até o ponto é um desafio mortal.

“Há cracudos,” avisa Jailson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas, “e eles avançam. Conhecem as caras das pessoas, e avançam em quem tem cara de gringo.” Ele pede para uma funcionária fazer o papel de guardacostas. No caminho, a acompanhante opina que o governo devia colocar os viciados para trabalhar. “Podiam estampar camisetas,” sugere.

thinktank Observatório de Favelas é localizado na beirada do Complexo da Maré, uma coleção de 16 favelas e conjuntos habitacionais espremidos entre a avenida Brasil e a baía de Guanabara. A pacificação não chegou ainda à Maré. Souza e  Silva morou lá sete anos, e mais onze numa favela perto da Penha.

O interior da van, quase totalmente ocupada, é escuro, fresco, sonorizado de samba. O ar está ligado e os vidros estão abertos, para aproveitar a brisa de uma das últimas tardes de primavera carioca. Não se demora muito para sair, mas na hora da partida aparece uma mulher negra, repleta de curvas e megahair. O motorista, rapaz sólido de olhos doces e redondos, para, desce, e deixa-a subir para se sentar na metade de um lugar na frente, junto a ele e mais duas mulheres.

Mas nem se andou meio metro e alguém lembra que a polícia está por aí na avenida, entre os viciados, de moto, sirene, e revólver, feita pastor de zumbi– espalhando fieis. O motorista para novamente, a bonitona desce, dá volta, e sobe na parte traseira da van, para ficar em pé junto ao cobrador.

Ponto de van e de mototáxi

Ponto de van e de mototáxi

Co-autor do recém-lançado livro O Novo Carioca, Souza e Silva faz parte de um grupo de pensadores e agitadores no Rio de Janeiro, que observa e encoraja o surgimento do tal “Novo Carioca”. Trata-se de pessoas, na sua maioria jovens, que aproveitam cada vez mais a cidade. Aventuram-se por bairros e morros, fazendo conexões e amizades, criando e participando em uma gama de manifestações culturais. A integração urbana– e a cara futura da cidade– dizem os autores do livro, dependem muito do novo carioca.

De acordo com Souza e Silva, “[…] não existe uma identidade carioca independente das favelas […] a cidade tornou-se uma referência nacional e internacional também em função do peso arquitetônico, cultural e social de seus espaços favelados. A garantia dessa riqueza paisagística e dessa pluralidade cultural é central para o Rio de Janeiro”, conforme ele escreve no livro.

Jailson de Souza e Silva

Dali a alguns metros, passados vários cracudos solitários e em grupo, alguns no meio fio,  depois da polícia, a van encosta. O motorista e a moça descem, ela dá volta,  e sobe para ficar novamente no meio, ao lado dele, na frente. E o samba brada. A viagem recomeça, a van entrando numa passarela de retorno ao outro lado da avenida. Do alto, mais cracudos a vista.

“Vamos parar pro diesel,” avisa o cobrador. Ninguém diz nada, mas ele– saradão, de tênis, regata e bermuda, cabeça raspada menos um topete aloirado e encaracolado, de tatuagens, pede desculpas. O motorista queria encher o tanque antes, mas não deu. O cobrador desliza a porta e desce para cuidar do combustível. O posto também vende empadas, e pela porta aberta o motorista e o frentista trocam comentários engraçadinhos porém herméticos para quem é de fora, sobre empadões.

Passa uma mulher negra de soutien roxo e micro saia de material elástico e barato, descalça, pedindo esmola no balcāo das empadas. Passa um rapaz de muletas, faltando uma perna.

Há pouco, Souza e Silva disse que nunca quis sair da favela. “Não é verdade que as pessoas queiram sair da favela,” falou. “Eu sou o exemplo mais concreto. Eu só me mudei da favela– eu fiz uma ótima casa na favela– porque a guerra tornou impossível criar meu filho na favela […] se fóssemos só eu e minha mulher não sairíamos, mas criar um filho com isso, com bala perdida o tempo inteiro, sem poder andar na rua, porque tem jovens com fuzis, e a policia desrespeitando o morador– foi isso que me fez sair da favela. Onde eu morava tinha coleta de esgoto, calçamento, comercio imenso, grau de solidariedade com as pessoas, grau de intensidade de vida, de festa muito forte, de envolvimento, pertencimento grande, e cada vez mais criando opções [culturais].”

Para o americano nascido num subúrbio de casas com quintal para brincar, grama para cortar, e folhas para juntar, soa familiar a descrição de vida comunitária de favela. No subúrbio americano, os vizinhos sabem quem está doente, quem precisa de canja de galinha, carona, uma visita. Lá, o estado é mais eficaz do que no Brasil– as escolas públicas geralmente são boas, por exemplo– mas fora das grandes cidades as pessoas vivem espalhadas, precisando de apoio, e dando apoio, nas horas de dificuldade. Vizinhos limpam a neve da entrada da casa dos mais velhos, andam de porta em porta distribuindo panfletos de candidatos, dão carona para a igreja, fazem babysitting, passeiam cachorros, regam plantas, distribuem balas às crianças no Halloween.

Pit stop

Pit stop

O carioca do asfalto conhece e cumprimenta vizinhos, porteiros, entregadores, feirantes, comerciantes do bairro. Brinca, zoa o time do outro. Participa de bloco de carnaval, e de festa junina na praça. Compartilha praia, cerveja, galeto, pelada de futebol. Mas raramente se junta aos vizinhos para providenciar algo necessário e de utilidade geral: água, luz, casa. No Brasil, quem mora no asfalto paga imposto, paga porteiro, paga pedreiro, passeador e empregada– e assim resolve a vida.

No Brasil, o nivel de confiança no outro é baixo, sobretudo quando o outro não é parente ou colega. Mas na favela a confiança é maior do que em geral, porque há menos desigualdade. O outro é mais parecido, menos assustador, disse Souza e Silva. E a vida é mais pública.

A van tem termometro. No painel acima da cabeça da moça de megahair, marca mais de 36 graus. Mas a brisa é fresca, o samba incita, e Mara, a moça do lado, está negociando com o motorista o transporte de um grupo em janeiro, para Jacarepaguá. Haverá um casamento. “Seu?” pergunta o cobrador, com um sorriso malicioso. Pelo tom de voz e a plenitude de expressões faciais, mais a roupa, conclui-se que ele é homossexual.

“É ruim, hein!” exclama Mara. “Eu casar em Jacarepaguá? Vou casar no Copacabana Palace!” Ela pede um preço do motorista. Ele diz que está pensando.  E para num ponto de ônibus. Sobe um rapaz de pele enrugado pelo sol, que fica em pé ao lado do cobrador. No próximo ponto, o cobrador abre a porta para revelar uma loira, segurando uma grande sacola. Ela faz não com a cabeça. O motorista diz que tem lugar. “Vem, sim!” ele exorta, dobrando-se por cima das três moças no banco de frente para que sua voz chegue aos ouvidos da cliente em potencial. Mas ela se recusa.

“Agora mete o pé!” diz um passageiro, ao passo que a van engrena na avenida Brasil.

“Vou meter,” responde o motorista. “Tem que estar em Copacabana às duas horas.”

As vans surgiram nos anos 90 no Rio de Janeiro, como resposta informal à falta de transporte entre bairros afastados e áreas centrais da cidade. “Sem a van Copacanana-Maré, nao sei o que seria da gente, galera que circula dia e noite construindo novas formas de viver a cidade,” comentou Souza e Silva.

Hoje, milicianos controlam grande parte do negócio e o prefeito Eduardo Paes tenta racionalizar o transporte urbano. Para reduzir o número de veículos nas ruas, fariam muito mais sentido linhas de ônibus ou de metrô. A questão não é tāo diferente da de ocupaçāo do solo. Já existem prédios em favelas.

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“Quanto, então?” pergunta a Mara. “Vinte,” diz o motorista.

“Por pessoa? Isso sai do meu bolso!” Ela mexe com o celular e mostra alguma coisa, uma foto talvez, à moça do lado dela.

Neste momento, quatro anos após o início da pacificação no Rio de Janeiro, com vários reflexos economicos e imobiliarios dela em curso, fala-se muito na preservação da favela, sobretudo das na Zona Sul. Sabe-se que um número crescente de jovens estrangeiros brinca de casinha no Vidigal, na Rocinha, no Pavão-Pavãozinho e no Cantagalo. Uma breve caminhada em qualquer um desses morros revela sacas de cimento, tijolos recém-colocados. A vida ficou mais segura em muitas favelas pacificadas. As pessoas investem, a cidade se transforma. A barreira entre morro e asfalto fica um tanto menos nítida.

O que deveria ser preservado, nestas áreas da cidade tão longamente negligenciadas? “Uma grande confusão que se faz,” disse mais cedo Souza e Silva na sala dele no Observatório, “é de considerar, quando se fala em preservar a favela como habitat, [que trata-se de] preservar  paisagem.”

A paisagem, mesmo nas favelas mais cinematográficas, mesmo onde as crianças hoje brincam tranquilamente na rua e faz-se churrasco de Reveillon para turista, ainda é frequentemente feia e malcheirosa.

“Tem que garantir todas as condições básicas: saneamento, luz, água, esgoto, coleta de lixo, crêche, educação, equipamentos culturais,” acrescentou Souza e Silva. “Tudo que se tem para viver com dignidade num centro urbano tem que ter na favela. Só que isso não quer dizer eliminar a favela,” explicou. “Significa reconhecer que a favela tem uma geografia particular, que pode ser preservada como as cidades medievais foram preservadas […] podemos ter vários tipos de habitat, de estrutura urbana, sem perder a dignidade.”

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E, supondo que a favela ganhe essa dimensão toda nos próximos anos– pois o programa Morar Carioca, financiado pelo BID, pretende justamente urbanizar todas as favelas cariocas até 2020– o que Souza Silva e outros representantes das regiões populares da cidade querem preservar é um estilo de vida.

O cobrador manda a Mara tomar nota do celular dele, no dela. “Agora liga para mim,” ele diz. ” Para eu ter teu número também.” A negociação será demorada.

“Alguém vai para o Aterro?” pergunta o motorista. “Eu,” diz a moça do outro lado da Mara.

“Serve o Largo do Machado?”

“Serve.”

“Você que vai casar?” pergunta o cobrador novamente, como se fosse policial tentando desvendar mentiras. “So no Copa Palace,” reitera a Mara.

“Faz tempo que não vejo sua namorada,” provoca a amiga da Mara ao motorista.

“Que namorada!” ele corrige. “Sou casado.”

O próximo é próximo: cobrador e passageiro

A van passa pela estação de trem Leopoldina, pelo Sambódromo, e finalmente encosta no Largo do Machado. A temperatura já baixou um grau. O samba ameniza, e a brisa idem. A amiga da Mara desce. Mara diz que vai para São Conrado, mas para chegar lá terá que descer antes do Shopping Rio Sul e pegar outro transporte.

O passageiro de pele enrugado quer pagar seus três reais ao cobrador. “Na saída,” afirma este.

Cariocas do asfalto criam e mantém vínculos no bairro, na cidade. Os vínculos entre moradores de favela, disse Souza e Silva, precisam ser preservados. Muitas vezes, advêm de fortes experiências de vida.

Não devem ser muito diferentes dos vínculos comunitários evidentes na pequena cidade de Sandy Hook, por exemplo, cidade norte americana recentemente atingida por uma tragédia terrível. Vizinhos lá estranharam nunca terem entrado na casa da māe do matador, de acordo com reportagens. Pois lá, entra-se na casa de vizinho, mesmo que não seja amigo. Tomar essa liberdade, e sentir a confiança embutida no ato, fazem parte da democracia americana.

No Brasil, tal comportamento pode ser considerado uma intrusão. Na Zona Sul do Rio de Janeiro, pede-se licença, cheio de dedos, para conferir a criatividade de um decorador ou arquiteto, num apartamento de layout igual.

“Reconhecer que a favela é mais do que paisagem é reconhecer esses vínculos,” finalizou Souza e Silva.

O passageiro de rugas chegou no destino. A van para, o cobrador desce, o passageiro paga na calçada. “Não quer receber antes,” lamenta o motorista. “Só viado, mesmo.”

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Não casa em Jacarepaguá

A van chega na praia do Flamengo, e descem vários passageiros, criando mais espaço. “Onde você trabalha em São Conrado?” pergunta o motorista, agora sozinho no banco da frente, para Mara.

“No Fashion Mall?” aposta o cobrador. É o shopping mais chique do Rio de Janeiro. Ela diz que sim. “Qual loja?” ele pergunta. Agora resolve receber de todo mundo. O dinheiro é passado adiante, troco feito.

“Armani,” responde a Mara. A van passa por um túnel pequeno. Na saída, Mara está colocando um óculos de sol com um AX no haste. Logo a van para no ponto, ela desce, e daí aparece no vão da porta aberta um jovem de topete e sobrancelha feita, mão sugestivamente na cintura, um pé esticado à frente do outro para ressaltar um quadril amplo.

“Seu irmão?” pergunta o motorista ao cobrador. O rapaz sobe requebrando para o assento de carona agora vazio, e o cobrador, de sorriso maroto, desce para comprar água gelada para ele e o colega de trabalho.

Enquanto os dois bebem das garrafinhas suadas de plástico azul, a van chega em Copacabana, o bairro mais denso do Rio de Janeiro. A brisa do mar adentra os vidros; o samba flui para fora. Fazem 33 graus, de acordo com os números vermelhos do painel. Os últimos descem na altura da Francisco Sá, e lá vai a dupla Copacabana-Maré pelo retorno, pela praia, de volta ao Parque União.

AL aprova lei que institui Sistema Estadual de REDD+ em MT (ICV)

André Alves – Especial para o Institutto Centro de Vida – ICV

21/12/2012

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou nesta quarta-feira (19/12) projeto de lei que cria o Sistema Estadual de REDD+ em Mato Grosso. O projeto, de autoria do poder executivo, segue agora para a sanção do governador Silval Barbosa (PMDB) e não deverá sofrer alterações no texto. O sistema tem como objetivo promover a redução das emissões dos gases de efeito estufa com origem no desmatamento e degradação florestal e também estimular o manejo florestal sustentável, além do aumento de estoques de carbono no estado.

“A aprovação desta lei representa um marco regulatório para o estado, pois vamos compartilhar os benefícios da conservação ambiental”, declarou o secretário estadual de Meio Ambiente Vicente Falcão. “É uma conquista do governo, mas também da sociedade civil que durante dois anos discutiu uma proposta que veio na maturidade certa”, complementou.

O texto aprovado na Assembleia prevê ainda a participação efetiva dos diferentes grupos sociais envolvidos ou afetados pelas ações de REDD. Ou seja, os projetos e programas de desmatamento evitado em áreas de assentamentos ou terras indígenas, por exemplo, terão que atender as demandas dessas comunidades, além de prever um mecanismo de distribuição justa de benefícios.

Para o secretário a implantação de um sistema de REDD+ consolida as políticas ambientais e significa um passo importante para cumprir a meta de reduzir o desmatamento no estado em 89% até o ano de 2020. “Agora há uma nova leitura, pois além do comando e controle vamos ter instrumentos de incentivo para inibir o desmatamento”, concluiu.

Laurent Micol, coordenador executivo do Instituto Centro de Vida – ICV, entidade que coordena o GT REDD no Fórum Mato-grossense de Mudanças Climáticas, explica que com a aprovação da lei, Mato Grosso assume um protagonismo nacional em relação a instrumentos de desmatamento evitado. “Os futuros projetos e programas de redução de desmatamento em andamento poderão se enquadrar na lei assim como os futuros projetos terão que assegurar as questões sociais e ambientais previstas na lei”, explicou. “Há também uma maior segurança para os investidores e doadores para estes projetos e programas”, completou. Micol usou como exemplo a recente doação do banco alemão KFW que repassou 8 milhões de reais ao governo do Acre, o primeiro estado na Amazônia a ter uma legislação com esta finalidade, como pagamento por serviços ambientais.

A discussão da proposta da lei começou com a instituição do Grupo de Trabalho REDD, em março de 2009, no âmbito do Fórum Mato-grossense de Mudanças Climáticas. O grupo trabalhou durante dois anos na elaboração da proposta, que foi debatida em consultas públicas e recebeu propostas de modificações pela internet. Ao todo foram 171 proposições que foram analisadas até a versão final da minuta ser validada pelo Fórum.

Assim que sancionada a lei, o governo deverá instituir o Conselho Gestor do Sistema Estadual de REDD+, que terá função deliberativa. O conselho terá 12 representantes e será paritário entre governo estadual e federal com a sociedade civil. Enquanto isso, o GT REDD está trabalhando na proposta de um programa setorial para o manejo florestal para ser apresentado a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

Sobre o GT REDD

O GT REDD MT conta com 78 membros, incluindo a Sema e outras secretarias estaduais, a Procuradoria do Estado, a Assembleia Legislativa, representações de organizações dos setores agropecuário, florestal, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Universidade Federal de Mato Grosso. O ICV foi eleito para coordenar e facilitar os trabalhos do grupo.

REDD+

REDD+ é a sigla em inglês para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, incluindo a conservação e ao manejo das florestas e o aumento dos estoques de carbono.

Outras informações ICV: 65 3621-3148