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A ‘regra dos 3,5%’: como uma pequena minoria pode mudar o mundo (BBC)

Por David Robson, 13 de maio de 2019; traduzido por Google Translator e revisado por Renzo Taddei em 3 de junho de 2020

BBC Future

Protestos não-violentos têm duas vezes mais chances de sucesso do que conflitos armados – e aqueles que atingem um limiar de 3,5% da população nunca falharam em provocar mudanças.

Em 1986, milhões de filipinos tomaram as ruas de Manila em protesto pacífico e oração no movimento People Power. O regime de Marcos caiu no quarto dia.

Em 2003, o povo da Geórgia expulsou Eduard Shevardnadze através da Revolução das Rosas, sem derramamento de sangue, na qual manifestantes invadiram o prédio do parlamento segurando flores.

No início deste ano, os presidentes do Sudão e da Argélia anunciaram que se afastariam depois de décadas no cargo, graças a campanhas pacíficas de protesto.

Em cada caso, a resistência civil de membros comuns do público superou a elite política na obtenção de mudanças radicais.

Obviamente, existem muitas razões éticas para usar estratégias não violentas. Mas uma pesquisa convincente de Erica Chenoweth, cientista política da Universidade de Harvard, confirma que a desobediência civil não é apenas a escolha moral; é também a maneira mais poderosa de moldar a política mundial – por larga vantagem.

Olhando para centenas de campanhas no século passado, Chenoweth descobriu que as campanhas não-violentas têm duas vezes mais chances de atingir seus objetivos do que as campanhas violentas. E embora a dinâmica exata dependa de muitos fatores, ela demonstrou que são necessários cerca de 3,5% da população participando ativamente dos protestos para a garantia de mudanças políticas efetivas.

A influência de Chenoweth pode ser vista nos protestos recentes do movimento Extinction Rebellion, cujos fundadores dizem terem sido diretamente inspirados por suas descobertas. Como ela chegou a essas conclusões?

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth's work inspired their campaign (Credit: Getty Images)
Os organizadores da Extinction Rebellion declararam que o trabalho de Chenoweth inspirou sua campanha (Crédito: Getty Images)

É desnecessário dizer que a pesquisa de Chenoweth se baseia nas filosofias de muitas figuras influentes ao longo da história. O abolicionista afro-americano Sojourner Truth, a sufragista Susan B Anthony, o ativista da independência indiana Mahatma Gandhi e o defensor dos direitos civis dos EUA Martin Luther King, todos defenderam, de forma convincente, o poder dos protestos pacíficos.

No entanto, Chenoweth admite que, quando começou sua pesquisa em meados dos anos 2000, ela era inicialmente bastante cética a respeito da ideia de que ações não violentas poderiam ser mais poderosas que conflitos armados, na maioria das situações. Como estudante de doutorado na Universidade do Colorado, ela passou anos estudando os fatores que contribuem para o aumento do terrorismo quando foi convidada a participar de um workshop acadêmico organizado pelo Centro Internacional de Conflitos Não-Violentos (ICNC), uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington, D.C. O workshop apresentou muitos exemplos convincentes de protestos pacíficos que provocam mudanças políticas duradouras – incluindo, por exemplo, os protestos do Poder Popular, nas Filipinas.

Chenoweth, porém, ficou surpresa ao descobrir que ninguém havia comparado de maneira abrangente as taxas de sucesso de protestos não-violentos com o dos violentos; talvez os estudos de caso tenham sido simplesmente escolhidos por algum tipo de viés de confirmação. “O ceticismo frente à ideia de que a resistência não-violenta poderia ser um método eficaz para alcançar grandes transformações na sociedade serviu de motivação para a pesquisa”, diz ela.

Trabalhando com Maria Stephan, pesquisadora do ICNC, Chenoweth realizou uma extensa revisão da literatura sobre resistência civil e movimentos sociais de 1900 a 2006 – uma base de dados que foi corroborada por outros especialistas da área. Elas consideraram principalmente tentativas de provocar mudanças de regime. Um movimento era considerado como tendo obtido sucesso se atingisse plenamente suas metas, no prazo de um ano após o pico de engajamento e como resultado direto de suas atividades. Uma mudança de regime resultante de intervenção militar estrangeira não seria considerada um sucesso, por exemplo. Enquanto isso, uma campanha era considerada violenta se envolvesse bombardeios, sequestros, destruição de infraestrutura – ou qualquer outro dano físico a pessoas ou propriedades.

“Estávamos tentando aplicar um teste bastante difícil à resistência não-violenta como estratégia”, diz Chenoweth. (Os critérios eram tão rigorosos que o movimento de independência da Índia não foi considerado evidência a favor de protestos não-violentos, nas análises de Chenoweth e Stephan – uma vez que os recursos militares em decadência da Grã-Bretanha foram considerados um fator decisivo, mesmo que os próprios protestos também tenham tido enorme influência).

Ao final desse processo, eles coletaram dados de 323 campanhas violentas e não violentas. E seus resultados – que foram publicados em seu livro Por que a resistência civil funciona: a lógica estratégica do conflito não-violento – foram impressionantes.

A força está nos números

No geral, as campanhas não violentas tiveram duas vezes mais chances de sucesso do que as campanhas violentas: elas provocaram mudanças políticas em 53% das vezes, em comparação com 26% nos protestos violentos.

Isso foi em parte resultado do fator demográfico. Chenoweth argumenta que as campanhas não-violentas têm maior probabilidade de sucesso porque podem recrutar mais participantes, de uma população muito mais ampla, aumentando a possibilidade de que os protestos causem a paralisia da vida urbana normal e no funcionamento da sociedade.

De fato, das 25 maiores campanhas que elas analisaram, 20 foram não-violentas, e destas 14 obtiveram sucesso estrondoso. No geral, as campanhas não violentas atraíram cerca de quatro vezes mais participantes (200 mil pessoas em média) do que as campanha violentas (média de 50 mil pessoas).

A campanha do Poder Popular contra o regime de Marcos, nas Filipinas, por exemplo, atraiu dois milhões de participantes no seu auge, enquanto os protestos brasileiros em 1984 e 1985 atraíram um milhão, e a Revolução de Veludo, na Tchecoslováquia, em 1989, atraiu 500 mil participantes.

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)
Tendo atraído milhões de apoiadores, as manifestações do Poder Popular removeram o regime de Marcos nas Filipinas (Crédito: Getty Images)

“Os números realmente fazem a diferença para a construção da força dos movimentos que efetivamente representam ameaça para autoridades ou ocupações entrincheiradas”, diz Chenoweth – e protestos não-violentos parecem ser a melhor maneira de obter esse amplo apoio.

Uma vez que cerca de 3,5% de toda a população começa a participar ativamente, o sucesso parece ser inevitável.

Além do movimento Poder Popular, a Revolução do Canto na Estônia e a Revolução das Rosas na Geórgia atingiram a participação de 3,5% da população

“Não houve campanhas que fracassaram depois de atingirem 3,5% de participação durante um evento de pico”, diz Chenoweth – um fenômeno que ela chamou de “regra dos 3,5%”. Além do movimento Poder Popular, o mesmo foi observado na Revolução do Canto na Estônia, no final dos anos 80, e na Revolução das Rosas, na Geórgia, no início de 2003.

Chenoweth admite que inicialmente ficou surpresa com seus resultados. Mas ela agora cita diversas razões pelas quais protestos não-violentos podem obter níveis tão altos de apoio. Talvez, obviamente, os protestos violentos excluam necessariamente as pessoas que têm aversão ou medo ao derramamento de sangue, enquanto manifestantes pacíficos mantêm o movimento com alto nível moral.

Chenoweth ressalta que os protestos não-violentos também têm menos barreiras físicas à participação. Você não precisa estar em forma e saudável para se envolver em uma greve, enquanto campanhas violentas tendem depender do apoio de homens jovens e em boa forma física. E embora muitas formas de protestos não-violentos também apresentem sérios riscos – basta lembrar da Praça da Paz Celestial, na China, em 1989 – Chenoweth argumenta que as campanhas não-violentas são geralmente mais fáceis de discutir abertamente, o que significa que as notícias de sua ocorrência podem atingir um público mais amplo. Movimentos violentos, por outro lado, exigem um suprimento de armas e tendem a depender de operações subterrâneas mais secretas, e podem ter dificuldades em conectar-se à população em geral.

Uma mulher idosa fala às forças de segurança da Argélia durante protestos recentes (Crédito: Getty Images)

Ao envolver amplo apoio em toda a população, as campanhas não-violentas também têm maior probabilidade de obter apoio entre a polícia e as forças armadas – os mesmos grupos em que os governo se apoiam para promover a ordem.

Durante um protesto pacífico de milhões de pessoas nas ruas, os membros das forças de segurança também podem ter mais medo de que seus familiares ou amigos estejam na multidão – o que os induz a não reprimir o movimento. “Ou quando estão olhando para o grande número de pessoas envolvidas, podem chegar à conclusão de que o navio está afundando e não querem afundar com ele”, diz Chenoweth.

Em termos das estratégias específicas usadas, as greves gerais “provavelmente são um dos métodos mais poderosos, se não o mais poderoso, de resistência não-violenta”, diz Chenoweth. Mas eles têm um custo pessoal, enquanto outras formas de protesto podem ser completamente anônimas. Ela aponta os boicotes dos consumidores na África do Sul na era do apartheid, nos quais muitos cidadãos negros se recusavam a comprar produtos de empresas de proprietários brancos. O resultado foi uma crise econômica que afetou a elite branca do país e que contribuiu para o fim da segregação, no início dos anos 90.

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)
Protestos não-violentos têm mais probabilidade de atrair apoio de toda a sociedade. Aqui, uma manifestante pró-reforma frente às forças de segurança no Marrocos, em 2011 (Crédito: Getty Images)

“Existem mais opções de resistência não-violenta que não colocam as pessoas em perigo físico, principalmente à medida que o número aumenta, em comparação à atividade armada”, diz Chenoweth. “E as técnicas de resistência não-violenta costumam ser mais visíveis, de modo que é mais fácil para as pessoas descobrir como participar diretamente e como coordenar suas atividades para a interrupção máxima”.

Número mágico?

Esses são padrões muito genéricos, naturalmente, e apesar de serem duas vezes mais bem-sucedidos do que os conflitos violentos, a resistência pacífica ainda falha 47% das vezes. Como Chenoweth e Stephan apontaram em seu livro, isso ocorre em alguns casos porque os movimentos nunca obtiveram apoio ou impulso suficientes para “erodir a base de poder do adversário e manter a resiliência diante da repressão”. Mas alguns protestos não-violentos relativamente grandes também falharam, como os protestos contra o partido comunista na Alemanha Oriental, na década de 1950, que atraíram 400 mil membros (cerca de 2% da população) no seu auge, e ainda assim não atingiram seus objetivos.

A base de dados de Chenoweth demonstra que é apenas quando os protestos não-violentos atingem o limiar de 3,5% de engajamento ativo que o sucesso está garantido – e chegar a esse nível de apoio não é uma tarefa fácil. No Reino Unido, isso representaria 2,3 milhões de pessoas ativamente envolvidas em um movimento (aproximadamente o dobro do tamanho de Birmingham, a segunda maior cidade do Reino Unido); nos EUA, envolveria 11 milhões de cidadãos – mais do que a população total da cidade de Nova York.

Contudo, permanece o fato de que campanhas não violentas são a única maneira confiável de manter esse tipo de envolvimento.

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia - another example of Chenoweth's "3.5% rule" (Credit: Getty Images)
Um casal comemora a Revolução de Veludo de 1989, que ajudou a derrubar o regime comunista na Tchecoslováquia – outro exemplo da “regras dos 3,5%” de Chenoweth (Crédito: Getty Images)

O estudo inicial de Chenoweth e Stephan foi publicado pela primeira vez em 2011 e suas descobertas atraíram muita atenção desde então. “A influência delas sobre esse campo de pesquisa têm sido imensa”, diz Matthew Chandler, que pesquisa resistência civil na Universidade de Notre Dame, em Indiana.

Isabel Bramsen, estudiosa de conflitos internacionais na Universidade de Copenhague, concorda que os resultados de Chenoweth e Stephan são convincentes. “[Agora] é uma verdade estabelecida dentro do campo de analise que as abordagens não-violentas têm muito mais chances de sucesso do que as violentas”, diz ela.

Com relação à “regra dos 3,5%”, ela ressalta que, enquanto 3,5% é uma pequena minoria, esse nível de participação ativa provavelmente significa que muito mais pessoas concordam tacitamente com a causa.

Estes pesquisadores estão agora tentando desvendar os fatores que podem levar ao sucesso ou fracasso de um movimento. Bramsen e Chandler, por exemplo, enfatizam a importância da unidade entre os manifestantes.

Como exemplo, Bramsen aponta para o levante fracassado no Bahrein, em 2011. A campanha inicialmente envolveu muitos manifestantes, mas rapidamente se dividiu em facções concorrentes. A perda de coesão resultante, pensa Bramsen, impediu o movimento de ganhar impulso suficiente para provocar mudanças.

O interesse de Chenoweth recentemente se concentrou em protestos mais próximos de casa – como o movimento Black Lives Matter e a Marcha das Mulheres em 2017. Ela também está interessada na Extinction Rebellion, recentemente popularizada pelo envolvimento da ativista sueca Greta Thunberg. “Eles confrontam-se com muita inércia”, diz ela. “Mas acho que eles têm um grupo central incrivelmente inteligente e estratégico. E eles parecem ter todos os instintos certos sobre como se desenvolver e ensinar por meio de campanhas de resistência não violentas”.

Por fim, ela gostaria que nossos livros de história prestassem mais atenção às campanhas não violentas, em vez de se concentrarem tanto nas guerras. “Muitas das histórias que contamos uns aos outros se concentram na violência – e mesmo que se trate de desastres horríveis, ainda encontramos uma maneira de encontrar vitórias nela”, diz ela. No entanto, tendemos a ignorar o sucesso dos protestos pacíficos.

“Há pessoas comuns que o tempo todo estão envolvidas em atividades heroicas que estão realmente mudando o mundo – e elas também merecem atenção e comemoração”.

David Robson é jornalista sênior da BBC Future.

The ‘3.5% rule’: How a small minority can change the world (BBC)

Protestors in Sudan (Credit: Getty Images)

By David Robson – 13th May 2019

Nonviolent protests are twice as likely to succeed as armed conflicts – and those engaging a threshold of 3.5% of the population have never failed to bring about change.

In 1986, millions of Filipinos took to the streets of Manila in peaceful protest and prayer in the People Power movement. The Marcos regime folded on the fourth day.

In 2003, the people of Georgia ousted Eduard Shevardnadze through the bloodless Rose Revolution, in which protestors stormed the parliament building holding the flowers in their hands.

Earlier this year, the presidents of Sudan and Algeria both announced they would step aside after decades in office, thanks to peaceful campaigns of resistance.  

In each case, civil resistance by ordinary members of the public trumped the political elite to achieve radical change.

There are, of course, many ethical reasons to use nonviolent strategies. But compelling research by Erica Chenoweth, a political scientist at Harvard University, confirms that civil disobedience is not only the moral choice; it is also the most powerful way of shaping world politics – by a long way.

Looking at hundreds of campaigns over the last century, Chenoweth found that nonviolent campaigns are twice as likely to achieve their goals as violent campaigns. And although the exact dynamics will depend on many factors, she has shown it takes around 3.5% of the population actively participating in the protests to ensure serious political change.

Chenoweth’s influence can be seen in the recent Extinction Rebellion protests, whose founders say they have been directly inspired by her findings. So just how did she come to these conclusions?

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth's work inspired their campaign (Credit: Getty Images)

The organisers of Extinction Rebellion have stated that Chenoweth’s work inspired their campaign (Credit: Getty Images)

Needless to say, Chenoweth’s research builds on the philosophies of many influential figures throughout history. The African-American abolitionist Sojourner Truth, the suffrage campaigner Susan B Anthony, the Indian independence activist Mahatma Gandhi and the US civil rights campaigner Martin Luther King have all convincingly argued for the power of peaceful protest.

Yet Chenoweth admits that when she first began her research in the mid-2000s, she was initially rather cynical of the idea that nonviolent actions could be more powerful than armed conflict in most situations. As a PhD student at the University of Colorado, she had spent years studying the factors contributing to the rise of terrorism when she was asked to attend an academic workshop organised by the International Center of Nonviolent Conflict (ICNC), a non-profit organisation based in Washington DC. The workshop presented many compelling examples of peaceful protests bringing about lasting political change – including, for instance, the People Power protests in the Philippines.

But Chenoweth was surprised to find that no-one had comprehensively compared the success rates of nonviolent versus violent protests; perhaps the case studies were simply chosen through some kind of confirmation bias. “I was really motivated by some scepticism that nonviolent resistance could be an effective method for achieving major transformations in society,” she says

Working with Maria Stephan, a researcher at the ICNC, Chenoweth performed an extensive review of the literature on civil resistance and social movements from 1900 to 2006 – a data set then corroborated with other experts in the field. They primarily considered attempts to bring about regime change. A movement was considered a success if it fully achieved its goals both within a year of its peak engagement and as a direct result of its activities. A regime change resulting from foreign military intervention would not be considered a success, for instance. A campaign was considered violent, meanwhile, if it involved bombings, kidnappings, the destruction of infrastructure – or any other physical harm to people or property.

“We were trying to apply a pretty hard test to nonviolent resistance as a strategy,” Chenoweth says. (The criteria were so strict that India’s independence movement was not considered as evidence in favour of nonviolent protest in Chenoweth and Stephan’s analysis – since Britain’s dwindling military resources were considered to have been a deciding factor, even if the protests themselves were also a huge influence.)

By the end of this process, they had collected data from 323 violent and nonviolent campaigns. And their results – which were published in their book Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict – were striking.

Strength in numbers

Overall, nonviolent campaigns were twice as likely to succeed as violent campaigns: they led to political change 53% of the time compared to 26% for the violent protests.

This was partly the result of strength in numbers. Chenoweth argues that nonviolent campaigns are more likely to succeed because they can recruit many more participants from a much broader demographic, which can cause severe disruption that paralyses normal urban life and the functioning of society.

In fact, of the 25 largest campaigns that they studied, 20 were nonviolent, and 14 of these were outright successes. Overall, the nonviolent campaigns attracted around four times as many participants (200,000) as the average violent campaign (50,000).

The People Power campaign against the Marcos regime in the Philippines, for instance, attracted two million participants at its height, while the Brazilian uprising in 1984 and 1985 attracted one million, and the Velvet Revolution in Czechoslovakia in 1989 attracted 500,000 participants.

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)

Having attracted millions of supporters, the People Power demonstrations removed the Marcos regime in the Phillipines (Credit: Getty Images)

“Numbers really matter for building power in ways that can really pose a serious challenge or threat to entrenched authorities or occupations,” Chenoweth says – and nonviolent protest seems to be the best way to get that widespread support.

Once around 3.5% of the whole population has begun to participate actively, success appears to be inevitable.

Besides the People Power movement, the Singing Revolution in Estonia and the Rose Revolution in Georgia all reached the 3.5% threshold

“There weren’t any campaigns that had failed after they had achieved 3.5% participation during a peak event,” says Chenoweth – a phenomenon she has called the “3.5% rule”. Besides the People Power movement, that included the Singing Revolution in Estonia in the late 1980s and the Rose Revolution in Georgia in the early 2003.

Chenoweth admits that she was initially surprised by her results. But she now cites many reasons that nonviolent protests can garner such high levels of support. Perhaps most obviously, violent protests necessarily exclude people who abhor and fear bloodshed, whereas peaceful protesters maintain the moral high ground.

Chenoweth points out that nonviolent protests also have fewer physical barriers to participation. You do not need to be fit and healthy to engage in a strike, whereas violent campaigns tend to lean on the support of physically fit young men. And while many forms of nonviolent protests also carry serious risks – just think of China’s response in Tiananmen Square in 1989 – Chenoweth argues that nonviolent campaigns are generally easier to discuss openly, which means that news of their occurrence can reach a wider audience. Violent movements, on the other hand, require a supply of weapons, and tend to rely on more secretive underground operations that might struggle to reach the general population.

An elderly woman talks to the Algerian security forces during the recent protests (Credit: Getty Images)

An elderly woman talks to the Algerian security forces during the recent protests (Credit: Getty Images)

By engaging broad support across the population, nonviolent campaigns are also more likely to win support among the police and the military – the very groups that the government should be leaning on to bring about order.

During a peaceful street protest of millions of people, the members of the security forces may also be more likely to fear that their family members or friends are in the crowd – meaning that they fail to crack down on the movement. “Or when they’re looking at the [sheer] numbers of people involved, they may just come to the conclusion the ship has sailed, and they don’t want to go down with the ship,” Chenoweth says.

In terms of the specific strategies that are used, general strikes “are probably one of the most powerful, if not the most powerful, single method of nonviolent resistance”, Chenoweth says. But they do come at a personal cost, whereas other forms of protest can be completely anonymous. She points to the consumer boycotts in apartheid-era South Africa, in which many black citizens refused to buy products from companies with white owners. The result was an economic crisis among the country’s white elite that contributed to the end of segregation in the early 1990s.

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)

Nonviolent protests are more likely to attract support from across society. Here a pro-reform protestor faces security forces in Morocco in 2011 (Credit: Getty Images)

“There are more options for engaging and nonviolent resistance that don’t place people in as much physical danger, particularly as the numbers grow, compared to armed activity,” Chenoweth says. “And the techniques of nonviolent resistance are often more visible, so that it’s easier for people to find out how to participate directly, and how to coordinate their activities for maximum disruption.”

A magic number?

These are very general patterns, of course, and despite being twice as successful as the violent conflicts, peaceful resistance still failed 47% of the time. As Chenoweth and Stephan pointed out in their book, that’s sometimes because they never really gained enough support or momentum to “erode the power base of the adversary and maintain resilience in the face of repression”. But some relatively large nonviolent protests also failed, such as the protests against the communist party in East Germany in the 1950s, which attracted 400,000 members (around 2% of the population) at their peak, but still failed to bring about change.

In Chenoweth’s data set, it was only once the nonviolent protests had achieved that 3.5% threshold of active engagement that success seemed to be guaranteed – and raising even that level of support is no mean feat. In the UK it would amount to 2.3 million people actively engaging in a movement (roughly twice the size of Birmingham, the UK’s second largest city); in the US, it would involve 11 million citizens – more than the total population of New York City.

The fact remains, however, that nonviolent campaigns are the only reliable way of maintaining that kind of engagement.

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia - another example of Chenoweth's "3.5% rule" (Credit: Getty Images)

A couple commemorate the Velvet Revolution of 1989, which helped bring down Communist rule in Czechoslovakia – another example of Chenoweth’s “3.5% rule” (Credit: Getty Images)

Chenoweth and Stephan’s initial study was first published in 2011 and their findings have attracted a lot of attention since. “It’s hard to overstate how influential they have been to this body of research,” says Matthew Chandler, who researches civil resistance at the University of Notre Dame in Indiana.

Isabel Bramsen, who studies international conflict at the University of Copenhagen agrees that Chenoweth and Stephan’s results are compelling. “It’s [now] an established truth within the field that the nonviolent approaches are much more likely to succeed than violent ones,” she says.

Regarding the “3.5% rule”, she points out that while 3.5% is a small minority, such a level of active participation probably means many more people tacitly agree with the cause.

These researchers are now looking to further untangle the factors that may lead to a movement’s success or failure. Bramsen and Chandler, for instance, both emphasise the importance of unity among demonstrators.

As an example, Bramsen points to the failed uprising in Bahrain in 2011. The campaign initially engaged many protestors, but quickly split into competing factions. The resulting loss of cohesion, Bramsen thinks, ultimately prevented the movement from gaining enough momentum to bring about change.

Chenoweth’s interest has recently focused on protests closer to home – like the Black Lives Matter movement and the Women’s March in 2017. She is also interested in Extinction Rebellion, recently popularised by the involvement of the Swedish activist Greta Thunberg. “They are up against a lot of inertia,” she says. “But I think that they have an incredibly thoughtful and strategic core. And they seem to have all the right instincts about how to develop and teach through a nonviolent resistance campaigns.”

Ultimately, she would like our history books to pay greater attention to nonviolent campaigns rather than concentrating so heavily on warfare. “So many of the histories that we tell one another focus on violence – and even if it is a total disaster, we still find a way to find victories within it,” she says. Yet we tend to ignore the success of peaceful protest, she says.

“Ordinary people, all the time, are engaging in pretty heroic activities that are actually changing the way the world – and those deserve some notice and celebration as well.”

David Robson is a senior journalist at BBC Future. Follow him on Twitter: @d_a_robson.

Viveiros de Castro: A escravidão venceu no Brasil. Nunca foi abolida (Público)

16 de março de 2014

ALEXANDRA LUCAS COELHO (no Rio de Janeiro)

Fome, secas, epidemias, matanças: a Terra aproxima-se do apocalipse. Talvez daqui a 50 anos nem faça sentido falar em Brasil, como Estado-nação. Entretanto, há que resistir ao avanço do capitalismo. As redes sociais são uma nova hipótese de insurreição. Presente, passado e futuro, segundo um dos maiores pensadores brasileiros

Eduardo Viveiros de Castro, 62 anos, é o mais reconhecido e discutido antropólogo do Brasil. Acha que “a ditadura brasileira não acabou”, evoluiu para uma “democracia consentida”. Vê nas redes sociais, onde tem milhares de seguidores, a hipótese de uma nova espécie de guerrilha, ou resistência. Não perdoa a Lula da Silva ter optado pela via capitalista e acha que Dilma Rousseff tem uma relação “quase patológica” com a Amazônia e os índios. Não votará nela “nem sob pelotão de fuzilamento”.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é autor de uma obra influente, que inclui “A Inconstância da Alma Selvagem” e “Araweté — O Povo do Ipixuna” DÉBORAH DANOWSKI

Professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, autor de uma obra influente (destaque para A Inconstância da Alma Selvagem ou Araweté — O Povo do Ipixuna, este último editado em Portugal pela Assírio & Alvim), Viveiros de Castro é o criador do perspectivismo ameríndio, segundo a qual a humanidade é um ponto de vista: a onça vê-se como humana e vê o homem como animal; o porco vê-se como humano e vê a onça como animal. Humano é sempre quem olha.

Nesta longa entrevista, feita há um mês no seu apartamento da Baía de Botafogo — antes ainda da greve dos garis (homens e mulheres do lixo), um exemplo de revolta bem sucedida — Viveiros foi da Copa do Mundo ao fim do mundo. Acredita que estamos à beira do apocalipse.

Vê sinais de uma revolta nas ruas brasileiras? Aquilo que aconteceu em 2013 foi um levantamento mas não uma revolta generalizada. Acha que isso pode acontecer antes da Copa, ou durante?

É muito difícil separar o que você imagina que vai acontecer daquilo que você deseja que vá acontecer.

Vamos separar. O que desejaria que acontecesse?

Revolta popular durante a Copa.

E isso significa o quê, exactamente?

Manifestação. Não estou imaginando a queda da Bastilha nem a explosão de nada, mas gostaria que a população carioca o deixasse muito claro. Embora a Copa vá acontecer em várias cidades, creio que o Rio se tornou o epicentro do problema da Copa, em parte porque o jogo final será no Maracanã.

Mesmo nas manifestações, o Rio foi a cidade mais forte.

São Paulo também teve manifestações muito importantes, mais conectadas com o Movimento Passe Livre [MPL, estudantes que em Junho de 2013 iniciaram os protestos contra o aumento dos transportes]. Voltando ao que eu desejaria: que a população carioca manifestasse a sua insatisfação em relação à forma como a cidade está sendo transformada numa espécie de empresa, numa vitrine turística, colonizada pelo grande capital, com a construção de grandes hotéis, oferecendo oportunidades às grandes empreiteiras, um balcão de negócios, sob a desculpa de que a Copa iria trazer dinheiro, visibilidade, para o Brasil.

O problema é que vai trazer má visibilidade. Vai ser uma péssima propaganda para o Brasil. Primeiro, porque, se estou bem entendendo, vários compromissos contratuais com a FIFA não estão sendo honrados, atrasos muito grandes, etc. Segundo, porque essa ideia de que os brasileiros estão achando uma maravilha que a Copa se realize no Brasil pode ser desmentida de maneira escandalosa se os turistas, tão cobiçados, chegarem aqui e baterem de frente com povo nas ruas, brigando com a polícia, uma polícia despreparada, brutal, violenta, assassina. Tenho a impressão de que não vai fazer muito bem à imagem do Brasil.

Outra coisa importante é que a Copa foi vendida à opinião pública como algo que ia ser praticamente financiado pela iniciativa privada, que o dinheiro do povo, do contribuinte, ia ser pouco gasto. O que está se vendo é o contrário, o governo brasileiro investindo maciçamente, gastando dinheiro para essas reformas de estádios, dinheiro dos impostos. Então, nós estamos pagando para que a FIFA lucre. Porque quem lucra com as copas é a FIFA.

Desejaria que essa revolta impedisse mesmo a Copa?

Impedir a Copa é impossível, não adianta nem desejar. Não sei também se seria bom, poderia produzir alguma complicação diplomática, ou uma repressão muito violenta dentro do país. Existe uma campanha: Não Vai Ter Copa. O nome completo é: Sem Respeito aos Direitos Não Vai Ter Copa. No sentido desiderativo: não deveria haver, desejamos que não haja.

O que se está dizendo é que os direitos de várias camadas da população estão sendo brutalmente desrespeitados, com remoções forçadas de comunidades, desapropriando sem indemnização, modificando aspectos fundamentais da paisagem carioca sem nenhuma consulta. Isso tudo está irritando a população.

Mas não é só isso: a insatisfação com a Copa foi catalisada por várias outras que vieram surgindo nos últimos anos, que envolvem categorias sociais diversas, e não estão sendo organizadas nem controladas pelos partidos. Essas manifestações têm de tudo, uma quantidade imensa de pautas [reivindicações]. Tem gente que quer só fazer bagunça, tem gente de direita, infiltrados da polícia, neonazistas, anarquistas. Um conjunto complexo de fenómenos com uma combinação de causas. Uma coisa importante é que são transversais: tem gente pobre e de classe média misturada na rua. É a primeira vez que isso acontece. O que talvez tenha em comum é que são todos jovens. Da classe média alta à [favela da] Rocinha.

Mas agora não são muito expressivas em termos de números. E não são as favelas que estão em massa na rua.

As famosas massas ainda não desceram, e provavelmente não vão descer durante a Copa. Nem sei se vão descer em alguma momento, se existe isso no Brasil. Mas acho que vai haver uma quantidade de pequenas manifestações. Por exemplo, a Aldeia Maracanã [pequena comunidade de índios pressionada a sair, por causa das obras do estádio] produziu uma confusão muito grande, se você pensar no tamanho da população envolvida. Os moradores daquela casa eram 14 pessoas e não obstante mobilizaram destacamentos do Bope [tropa de elite], bombas, etc. Quem está, em grande parte, criando a movimentação popular é o estado, com a sua reacção desproporcional. O Movimento Passe Livre ganhou aquela explosão em São Paulo por causa da brutalidade da reacção policial. O Brasil nunca teve esse tipo de confronto entre a polícia e jovens manifestantes. A polícia não sabe como reagir, não tem um método, então reage de maneira brutal. Os próprios manifestantes não têm experiência de organização. O que estão chamando de black bloc não é a mesma coisa que black bloc na Dinamarca, na Alemanha ou nos Estados Unidos.

Mais volátil.

Ideologicamente pouco consistente. Sabemos que o black bloc europeu é essencialmente uma táctica de protecção contra a polícia. Noutros países, como os Estados Unidos, tem uma certa táctica de agressão a símbolos do capitalismo. Aqui no Rio está uma coisa meio misturada, ainda não se consolidou uma identidade, um perfil táctico claro para o que se chama de black bloc. E eles estão sendo demonizados. Acho até que, no caso do Brasil, o facto de que sejam black coloca uma pequena ponta de racismo nessa indignação. Não duvido de que no imaginário da classe média por trás da máscara negra esteja também um rosto negro. Pobres, bandidos, etc.

Mas isso está acontecendo ao mesmo tempo que a polícia continua invadindo as favelas, matando 10, 12, 15 jovens por semana. Até recentemente esse comportamento clássico do estado diante da população muito pobre, isto é, mandar a polícia entrar e arrebentar, era algo que a classe média tomava como… [sinal de longínquo].

Porque se passava lá nos morros.

Quando a violência começou a atingir a classe média — ainda que uma bala de borracha não seja uma bala de fuzil, porque o que eles usam na favela é bala de verdade e o que eles usam na rua é bala de borracha, ainda assim você pode matar com bala de borracha, pode cegar, etc —, à medida que a polícia começou a atacar tanto a rua quanto o morro houve um aumento da percepção da classe média em relação à violência da polícia nas favelas, o que é novidade. A imprensa fez uma imensa campanha para santificar a polícia com a coisa das UPP [Unidade de Polícia Pacificadora, programa para acabar com o poder armado paralelo nas favelas, instalando a polícia lá dentro], mas todo o mundo está percebendo que essas UPP são no mínimo ambíguas. Basta ver o caso do [ajudante de pedreiro] Amarildo, que foi sequestrado, torturado e morto pela polícia [em Junho de 2013, na Rocinha], e sumiu da imprensa.

Vinte e cinco policiais foram indiciados.

Quero ver o que vai acontecer. Quem deu visibilidade à morte do Amarildo não foi a grande imprensa. Foram as redes sociais, os movimentos sociais. Essa morte é absolutamente banal, acontece toda a semana nas favelas, mas calhou de acontecer na altura das manifestações, então foi capturada pelos manifestantes, o que produziu uma solidariedade entre o morro e a rua que foi inédita.

Num país como este, em que a desigualdade, a violência, continuam, porque é que as massas não saem?

Quem dera que eu soubesse a resposta. Essa é a pergunta que a esquerda faz desde que existe no Brasil. Acho que há várias razões. O Brasil é um país muito diferente de todos os outros da América Latina, por exemplo da Argentina. Basta comparar a história para ver a diferença em termos de participação política, mobilização popular. Tenho impressão de que isso se deve em larga medida à herança da escravidão no Brasil. O Brasil é um país muito mais racista do que os Estados Unidos. Claro que é um racismo diferente. O racismo americano é protestante. Mas no Brasil há um racismo político muito forte, não só ideológico como o americano, interpessoal. O Brasil é um país escravocrata, continua sendo. O imaginário profundo é escravocrata. Você vê o caso do menino [mulato] amarrado no poste [no bairro do Flamengo, por uma milícia de classe média que o suspeitava assaltante] e que respondeu de uma maneira absolutamente trágica quando foi pego: mas meu senhor, eu não estava fazendo nada. Só essa expressão, “meu senhor”… O trágico foi essa expressão. Continuamos num mundo de senhores. Porque o outro era branco.

Como um DNA, algo que não acabou.

Não acabou, pois é. É o mito de que no Brasil todas as coisas se resolvem sem violência. Sem violência, entenda-se, sem revolta popular. Com muita violência mas sem revolta. A violência é a da polícia, do estado, do exército, mas não é a violência no sentido clássico, francês, revolucionário.

E toda a vez que acontecem coisas como essas manifestações de Junho, por exemplo, há aquela sensação: dessa vez o morro vai descer. O morro não desceu. Em parte porque já não é mais o morro, boa parte do morro é de classe média. Evidentemente, houve um crescimento económico. As favelas da minha infância, nos anos 50, eram completamente diferente, como essas vilas da Amazônia, feitas de lona preta. Hoje são casas de alvenaria, feitas de tijolos. Ainda assim a miséria continua. Quero dizer apenas que a distância entre a classe média e o morro diminuiu do ponto de vista económico.

Ao fazer ascender esses milhões da miséria, o PT neutralizou a revolução?

Em parte pode ser isso. Houve uma espécie de opção política forçada do PT, segundo a qual a única maneira de melhorar a renda dos pobres é não mexer na renda dos ricos. Ou seja, vamos ter que tirar o dinheiro de outro lugar. E de onde é que eles estão tirando? Do chão, literalmente. Destruindo o meio ambiente para poder vender soja, carne, para a China. Não está havendo redistribuição de renda, o que está havendo é aumento da renda produzida pela queima dos móveis da casa para aquecer a população, digamos. Está um pouquinho mais quente, não estamos morrendo de frio, mas estamos destruindo o Brasil central, devastando a Amazônia. Tudo foi feito para não botar a mão no bolso dos ricos. E não provocar os militares.

A ditadura brasileira não acabou. Nós vivemos numa democracia consentida pelos militares. Compare com a Argentina: porque é que no Brasil não houve julgamento dos militares envolvidos na tortura?  Porque os militares não deixam. Vamos ver o que vai acontecer agora, no dia 1 de Abril.

Com o aniversário do golpe militar.

Já existe uma campanha aí, subterrânea, para que no dia 31 de Março apaguem-se as luzes, toquem-se buzinas, para comemorar o 50º aniversário do golpe. Ou seja, existe uma campanha da direita para mostrar que a população ainda apoia a direita. Não sei que sucesso vai ter, mas não duvido que haja uma manifestação, oculta, pessoas que vão apagar as luzes das suas casas ou piscar as luzes à meia-noite, alguma coisa assim.

Mas nenhuma possibilidade de viragem à direita.

Não creio.

O actual regime não é uma democracia?

O Brasil é uma democracia formal, claro, mas consentida pelo status quo. A abertura foi permitida pelos militares. A Lei da Amnistia foi imposta tal qual pelo governo militar. Eles não foram destronados, presos, criminalizados. Simplesmente foram amnistiados. E boa parte do projecto de desenvolvimento nacional gestado durante a ditadura militar está sendo aplicado com a maior eficiência.

Pela esquerda.

Pela chamada esquerda, pela coalisão que está no poder, na qual a esquerda é uma parte mínima, porque tem os grandes proprietários de terra, os grandes empresários.

Está cumprindo um ideário que vem da ditadura?

O PT é um partido operário do século XIX. Eles têm um modelo que é indústria, crescimento, como se o Brasil fosse os Estados Unidos do século XXI. Com grande consumo de energia. Uma concepção antiga, fora de sintonia com o mundo actual. Agora está começando a mudar um pouco, mas a falta de sensibilidade do governo para o facto de que o Brasil é um país que está localizado no planeta Terra, e não no céu, é muito grande. Eles não percebem. Acham que o Brasil é um mundo em si mesmo.

Ou seja, que não vai ser afectado pelo aquecimento global, etc.

É, que todas essas coisas são com os outros. Um pouco como acontece nos Estados Unidos, em países muito grandes.

A única visão global que o Brasil tem é de se tornar uma potência geopolítica. O Brasil, hoje, é um actor maior, de primeira linha, em Moçambique, em Angola, nos países latino-americanos. Está disputando com a China pedaços de Moçambique. A Odebrecht está construindo hidroeléctricas [barragens] em Angola e assim por diante. O Brasil se imagina como potência que vai oprimir. Agora é a vez de sermos opressores, deixarmos de ser os oprimidos. Agora os brasileiros da vez vão ser os haitianos, os bolivianos, os paraguaios, que trabalham nas “sweetshops” de São Paulo, nas terras em que plantamos soja e etc. O PT nunca foi um partido de esquerda. É um partido que procurava transformar a classe operária numa classe operária americana.

E nunca o Brasil foi um país tão capitalista.

Minha mulher me contou que, conversando com um desconhecido, operador da bolsa de valores, isto em 2007, 2008, ele dizia: se eu soubesse que ia ser tão bom para nós jamais teria votado contra o Lula.

Onde está a esquerda? Qual é a sua opção de voto? Ou a opção deixou de ser votar?

Tanto a esquerda como a direita são posições políticas que você encontra dentro da classe média. A classe dominante é de direita de maneira genética, a grande burguesia, o grande capital. E os pobres, a classe trabalhadora… se eu fosse fazer um juízo de valor um pouco irresponsável diria que 60 a 70 por cento do Brasil estaria muito feliz com um governo autoritário, que desse dinheiro para comprar geladeira, televisão, carro, etc. Uma população que tem uma profunda desconfiança em relação a esses jovens quebradores de coisas na rua, que seria a favor da pena de morte, que é violentamente homofóbica.

Iapii-hi, índia Araweté, prepara doce de milho (fotografia de 1982) EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO

Depois do garoto do Flamengo ter sido amarrado por aquela milícia, ouvi trabalhadores negros pobres dizerem: tem mais é que botar bandido na cadeia, fizeram foi pouco com ele.

Ou seja, é um país conservador, reaccionário, em que os pobres colaboram com a sua opressão. Não todos, mas existe isso. A escravidão venceu no Brasil, ela nunca foi abolida. Sou muito pessimista em relação ao Brasil, digo francamente. Em relação ao passado e ao futuro. Em relação ao passado no sentido de que é um país que jamais se libertou do ethos, do imaginário profundo da escravidão, em que o sonho de todo o escravo é ser senhor de escravos, o sonho de todo o oprimido é ser o opressor. Daí essa reacção: tem mais é que botar esses caras na cadeia. Em vez de se solidarizar. E podia ser o filho dele facilmente. E às vezes é o filho dele.

Oswald de Andrade, o poeta, dizia: “O Brasil nunca declarou a sua independência.” Em certo sentido é verdade, porque quem declarou a independência do Brasil foi Portugal, um rei português. Eu diria: e tão pouco aboliu a escravidão. Porque quem aboliu a escravidão foi a própria classe escravocrata. Não foi nenhuma revolta popular, nenhuma guerra civil.

E em relação ao futuro sou pessimista porque… talvez ainda tenha um pouco de esperança, mas acho que o Brasil já perdeu a oportunidade de inventar uma nova forma de civilização. Um país que teria todas as condições para isso: ecológicas, geográficas.

Uma espécie de terceira via do mundo?

É, outra civilização. Porque civilização não é necessariamente transformar um país tropical numa cópia de segunda classe dos Estados Unidos ou da Europa, ou seja, de um país do hemisfério norte que tem características geográficas e culturais completamente diferentes.

Lembremos que houve um projecto explícito no Brasil, e que deu certo, que está dando certo, por isso é que sou pessimista, que é o projecto iniciado com Pedro II, em parte inspirado pelo célebre teórico racista Gobineau, que era uma grande admiração de D. Pedro: o Brasil só teria saída mediante o braqueamento da população, porque a escravidão tinha trazido uma tara, uma raça inferior.

Havia que lavar o sangue.

É uma ideia antiga, que já vem dos cristãos-novos que vieram de Portugal, que tinham de limpar o sangue. A gente sabe que quase toda a população portuguesa que se instalou no Brasil é de cristãos-novos, Diria que 70 por cento desses brancos orgulhosos de serem brasileiros são judeus, marranos, convertidos a ferro e fogo pela Inquisição. Então, havia essa ideia de que o Brasil era um país racialmente inferior porque era composto de negros, índios, portugueses com essa origem um pouco duvidosa. E já Portugal em si não é…

A Holanda.

Exacto. Não é a coisa mais branca que podemos encontrar na Europa. A Península Ibérica é um pouco africana, foi dominada 800 anos pelos árabes. Então o Brasil só ia melhorar com branqueamento. Isso foi uma política de estado que durou décadas e trouxe para o Brasil milhões de imigrantes alemães, italianos, mais tarde japoneses. Com o propósito explícito de branquear, não só geneticamente, mas culturalmente e economicamente. E eles foram para o Sul, de São Paulo até ao Rio Grande. Mas, esse que é o ponto curioso, a partir do governo militar para cá essa população branca invadiu o Brasil, a Amazônia. A colonização da Amazônia a partir da década de 70 foi feita pelos gaúchos, muitos deles pobres, que foram expulsos, alemães pobres, italianos pobres, cujas pequenas propriedades fundiárias foram absorvidas pelos grandes proprietários, também gaúchos, também brancos, e que foram estimulados pelo governo, com subsídios, promessas mirabolantes, a irem para a Amazônia. Hoje, tem um cinturão de cidades no sul da Amazônia com nomes como Porto dos Gaúchos, Querência, que é um lugar onde se guarda o gado, típico do Rio Grande do Sul. Os gaúchos [de origem europeia] chegaram numa região temperada, subtropical [sul do Brasil] em que você podia mais ou menos copiar um tipo de estrutura agrícola, de produção alimentar do país de origem. Só que na Amazônia isso é uma abominação. É um preconceito muito difundido essa ideia de que pessoal do Norte não sabe trabalhar, é preguiçoso. Você ouve muito isto no Paraná, no Rio Grande do Sul. Quem sabe trabalhar é o colono alemão, italiano.

Hoje o Brasil foi branqueado. Essa cultura country aí é uma mistura de cultura europeia com cultura americana, de grande carrão, 4×4, pick ups, rodeos, chapéus americanos, botas. Existe um projecto de transformar o Brasil num país culturalmente do hemisfério norte, seja Estados Unidos, seja essa Europa mais reaccionária. Porque estamos falando de colonos alemães que vieram do campesinato reaccionário, bávaro, pomerano, e dos camponeses italianos, que eram entusiastas do nazismo e do fascismo na II Guerra. Continuam sendo. O que tem de grupo de extrema-direita no sul do Brasil é muito. O foco da direita fascista, nazista é o Paraná e o Rio Grande do Sul. Então o Brasil é um país dividido entre um sul branco e o resto não branco, português, negro no litoral, índio no interior.

O censo da população dá por uma unha uma maioria não-branca.

O agronegócio é na verdade o modelo gaúcho, desenvolvido no pampa, nos campos do Rio Grande. Plantação extensa de monocultura, de soja, de arroz, de cana. Então o Brasil está perdendo a oportunidade de se constituir como um novo modelo de civilização propriamente tropical, com uma nova relação entre as raças, que fosse efectivamente multinacional. Um país que se constituiu em cima do genocídio indígena, da escravidão, da monocultura. Que continua fazendo o que fez desde que foi criado, exportando produtos agrícolas. Que continua a alimentar os países industrializados. Primeiro a Europa, depois os Estados Unidos, agora a China. Continua sendo o celeiro do capitalismo.

E o matadouro.

O segundo maior rebanho bovino do mundo, depois da Austrália. Um país que se está destruindo a si mesmo para se transformar numa caricatura dos países que lhe servem de modelo cultural. Em vez de, ao contrário, saber utilizar a sua situação geográfica altamente privilegiada, a sua situação demográfica, uma população imensa, para construir um novo estilo de civilização.

O senhor está descrevendo a derrota do “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade [visão de um Brasil que se torna forte por comer, absorver o outro]

É, acho que sim. Bom, nenhuma derrota é definitiva. O meu pessimismo nem passa tanto pelo facto de que o Brasil não tem jeito, porque acho que ainda poderia haver uma revolução antropofágica no Brasil. Mas hoje isso é uma questão que já não teria mais sentido colocar pelo simples facto de que estamos numa situação planetária em que a catástrofe já se iniciou. O mundo está entrando, num sentido físico, termodinâmico, num outro regime ambiental que vai produzir catástrofes humanas jamais vistas, no meu entender: fome, epidemias, secas, mudança de regime hidrológico, tudo. Nessas circunstâncias, é possível que cheguemos a um momento em que noções como Brasil, Estados Unidos, países, comecem a perder a sua nitidez. Pode ser que daqui a 50 anos a palavra Brasil não tenha mais nenhum sentido. Que tenhamos que falar em Terra.

É um pré-apocalipse?

Dira que sim. Isabelle Stengers, filósofa belga, diz que a palavra crise não é adequada porque supõe que você pode superá-la, quando o que estamos vivendo é uma situação que não tem um voltar atrás. Vamos ter que conviver com ela para sempre. Um novo regime do mundo, de climas, de águas, não haverá mais peixes, os estoques estão acabando no mundo, a quantidade de refugiados que vão invadir a Europa vai ser brutal nas próximas décadas. Se a temperatura subir quatro graus, que é o que todos os climatologistas estão imaginando, isso vai produzir uma mudança total no que é viver na Terra. E a quantidade de africanos que vai invadir a Europa vai ser um pouco maior do que aqueles pobres que morrem afogados ali em Lampedusa. E como os países ricos vão reagir? É uma questão interessante. Vai ser com armas atómicas? Vão bombardear quem? O meu pessimismo passa mais por aí.

No Brasil as crises são estritamente políticas. Faz reforma política? Vai ter revolta da população? Será que há Copa? Tudo isso é verdade, fundamental, mas a gente não pode perder de vista o cenário mais amplo.

Não vê ninguém no Brasil, politicamente, que tenha uma visão ampla? O senhor votou na Marina Silva [nas últimas presidenciais].

Votei na Marina em 2010, com certeza. Não tenho certeza nenhuma de que votaria nela em 2014, talvez não.

Eduardo Campos [candidato pernambucano que fez uma aliança com Marina]?

De forma nenhuma. A Dilma, nem sob pelotão de fuzilamento voto nela. Esses idiotas do PSDB nem pensar. Então talvez eu não vote. Talvez vote nulo.

Qual é a missão, o papel, a hipótese para alguém como o senhor? Virar uma espécie de guerrilheiro nas redes sociais?

É. Eu diria que a revolução antropofágica do Oswald de Andrade só é possível sob o modo da guerrilha. Estamos falando de uma coisa que foi pensada em 1928…

Mas que foi revivendo, anos 60, agora.

O Oswald, um homem da classe dominante, pensava no Brasil como uma coisa sobre a qual você podia pôr e dispôr. Nesse sentido, ele pertence à geração dos teóricos do Brasil, que eram todos da elite dominante paulistana ou pernambucana: Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Eduardo Prado. Os modernistas eram uma teoria do Brasil, de como o Brasil deve ser organizado, governado.

Talvez os muitos povos brasileiros que compõem esse país só tenham chance de ganhar uma certa emancipação cultural, política, metafísica, no contexto do declínio geral do planeta. Nessas condições é possível que haja esperança para os negros, os índios, os quilombolas [descendentes de escravos], os gays, os pobres desse planeta favela. Não esqueçamos que o mundo tem três bilhões e meio de habitantes vivendo em cidade, metade da população mundial. Desses, no mínimo um bilhão vive em favelas. Ou seja, um sétimo da população mundial vive em favelas. O Brasil deve ter uma proporção maior que a Alemanha, Estados Unidos. Diria que deve andar na casa dos 30 milhões. [A população de] um bom país europeu.

Seria uma guerrilha nas redes sociais? Admite o uso de violência ou uma guerrilha virtual apenas?

Nem uma coisa nem outra. A existência da Internet mudou as condições da guerra, em geral, sim. O maior acto de guerra recente, no bom sentido, de que me consigo lembrar foi o Edward Snowden. Não mais os Estados Unidos espionando a Rússia, nem a Rússia espionando os Estados Unidos, mas o vazamento de informações secretas dos estados. Isso é muito significativo. Um jornalista morando aqui no Rio de Janeiro, que trabalha para um jornal inglês, que recebeu informações de um analista americano, que estava escondido em Hong Kong: isso só é possível com Internet. As redes sociais mudaram completamente as condições de resistência ao capitalismo.

Uma nova forma de guerrilha?

Que não é nececessariamente violenta, embora exista o problema do hacker, do bombardeio de sistema electrónico. Mas o que penso não é bem por aí. Quando penso em guerrilha, é no sentido de combates locais, ponto a ponto. Não estou falando de quebrar a porta do banco ou bater na polícia. Falo em combates em que você seja capaz de conectar combates locais através do mundo inteiro.

Existem formas novas de resistência e aliança entre as minorias étnicas, culturais, económicas do planeta que passam pela conectividade universal da rede, que é frágil, ao contrário do que se imagina, com pontos fracos, nós, gargalos, em que os Estados Unidos têm um poder muito grande. Mas eu diria que é muito difícil controlá-la até porque essa rede é indispensável para o capitalismo. Difícil o capitalismo danificá-la demais, senão vai perder seu principal instrumento hoje. Ainda que haja várias tentativas, no Brasil inclusive, de vigilância.

É possível que a gente passe para um estado de vigilância à la George Orwell. Tudo isso é possível. Mas acho também que a situação actual permite o desenvolvimento de uma guerrilha de informação, muito mais que de acção física, porque a informação hoje é uma mercadoria fundamental, estamos na economia do conhecimento, então a guerra é uma guerra também pela informação. É por aí que tenho alguma esperança, muito mais que numa saída nas ruas, com ancinhos, forcados, machetes.

Parar de imaginar uma luta de classes e imaginar uma guerrilha de classes. Classe definida, agora, não só de maneira classicamente económica mas no contexto da nova economia, que mudou a composição de classes. Vários intelectuais hoje pertencem à classe dominada, operária. Então, vejo mais uma guerrilha do que uma guerra, com a vantagem de que as guerras em geral terminam na constituição de um novo poder totalitário, um novo terror. O “Manifesto Antropófago” pode acabar se realizando mais por esse lado. O sonho clássico da revolução, como transformação de um estado A em estado B é um sonho pouco interessante.

Não há desfecho.

Não há desfecho. Prefiro falar em insurreição do que em revolução, hoje. Um estado de insurreição permanente como resistência. A palavra talvez seja mais resistência, insurreição, do que revolução e guerra. Guerrilha é sempre de resistência. O modelo da resistência francesa [na ocupação alemã], criar redes subterrâneas de comunicação. Estamos nessa posição, somos um planeta invadido por alienígenas, digamos, que é o grande capital, a TV Globo, o agronegócio, a hegemonia norte-americana sobre os sistemas de entretenimento; como é que você cria uma rede de resistência a esses “alemães”?

Sou um activista das redes, de facto. Mas não convoco para manifestações, não pertenço a nenhuma organização, estou um pouco velho para sair na rua.

Está com 62 anos.

É, mas para sair na rua como black bloc [sorriso]… Posso ir atrás do black bloc, na frente não dá.

Começou tarde a ser um activista/guerrilheiro. Porquê?

É uma questão interessante. A minha relação com o activismo na ditadura não foi receio físico. Não que eu não tivesse medo de enfrentar a repressão. Vi vários amigos presos, torturados, todo o mundo tinha medo. Mas não foi por isso que não entrei na luta contra a ditadura. Foi porque não acreditava nela, em tomar o poder para instituir uma nova ordem não muito diferente. Eu achava que era uma briga entre duas fracções da classe média alta para saber quem ia mandar no país. E eu não tinha a menor simpatia pela ideia de mandar no país. Tinha uma desconfiança, que infelizmente se confirmou, quando a gente vê que uma das pessoas que fez a luta armada está mandando no país. E ela está fazendo coisas muito parecidas com o que os militares queriam fazer, pelo menos na Amazônia. O projecto da Dilma na Amazônia é idêntico ao do Médici [terceiro presidente da ditadura, no período 1969-74].

O senhor se configura como um anarquista?

Talvez…

Fora do estado.

Digamos que sim. Mas não sou um anarquista daqueles que acham que a sociedade actual pode prescindir do estado. Acho isso um sonho um pouco infantil.

Acha que não pode prescindir do estado mas que é importante cultivar…

Uma oposição, sim. A ideia de uma abolição do estado nas presentes condições é fantasia. Existem algumas contradições que não podemos evitar. Por exemplo, o maior inimigo dos índios brasileiros, num certo plano, é o estado, que representa uma sociedade que os invadiu, exterminou, escravizou, expropriou de suas terras. Ao mesmo tempo, o estado brasileiro é a única protecção que os índios têm contra a sociedade brasileira. Se não fosse o estado, os fazendeiros já teriam aniquilado todos os índios. Mas é uma quimioterapia, como se o Brasil fosse o câncer e o estado fosse aquele remédio. Faz um mal horrível mas você tem de tomar, é o único jeito de ter esperança de se curar. Portanto, não posso ir contra o estado.

Tenho simpatia pela tese do [antropólogo francês Pierre] Clastres, “A Sociedade Contra o Estado”, um tipo de sociedade como ele entendia que era o caso de várias sociedades indígenas, mas não imagino que isso possa ser transferido para as nossas dimensões demográficas. Isto dito, não sei por quanto tempo vamos ter essas dimensões no planeta, estados-nação com milhões de habitantes. Precisamos guardar os anti-corpos contra o estado porque podemos precisar deles no futuro.

Defende que toda a lógica do que o Brasil poderia ser, oferecer, passaria por se tornar mais índio. Não os índios tornarem-se brasileiros mas o Brasil tornar-se índio, o que significaria uma outra forma de vida, não para produzir, não para consumir. Que significa isso na guerrilha das cidades e das redes? Como os índios podem estar presentes aí? O que podem dar à tal insurreição contínua?

Vou juntar isso com o final da pergunta anterior. Fui-me tornando mais activo nas redes porque apareceram, antes não existiam, e em função da minha enorme decepção com o final da ditadura, o facto de que continuamos reféns do grande capital, dos grandes clãs, dos capitães hereditários que continuam mandando no Brasil, José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros. Essa aliança entre o mais arcaico, que é Sarney, e o mais moderno do capitalismo, que são esses agronegociantes de alta tecnologia do Mato Grosso do Sul, todos eles combinados para manter a tranquilidade política: não deixemos as massas virem atrapalhar.

Então, a minha decepção com a trajectória depois da ditadura; a minha decepção maior ainda com a trajectória do PT, a partir da eleição do Lula, na qual ele escreveu uma carta aos brasileiros dizendo que não ia tocar no bolso dos ricos; a minha decepção ainda maior com a performance do governo Dilma em relação ao meio ambiente, à Amazônia, aos índios, a total incapacidade política da presidente para ter o mínimo de diálogo, por mais fictício que seja com as populações indígenas, ao contrário, ela demonstra um desprezo, um ódio mesmo, que me parece quase patológico; tudo isso me levou ao activismo.

Todo o mundo tem uma imagem do Brasil como país preguiçoso, relaxado, laid back, onde tudo é mais devagar. E existe uma grande ambiguidade nossa em relação a essa imagem. Por um lado achamos interessante a imagem de um país easy going, por outro lado temos uma grande vergonha disso, nos queremos transformar num país performante, que vai para a frente, produtivo. A gente quer ao mesmo tempo ser sambista e grande potência mundial. Eu acho que devia continuar sendo sambista. Que a gente devia saber explorar as virtudes do não-produtivismo. A ética protestante, que nos deu o espírito do capitalismo, para falar como Weber, nunca esteve inscrita no DNA do Brasil, graças a vocês portugueses, que também não a tinham [risos]. Tiveram durante século e meio, mas depois… Então, por um milagre histórico fomos preservados dessa maldição que é a ética produtivista do capitalismo. Fomos capturados pelo capitalismo porque nos invadiu, domou. O capitalismo foi possível porque a Europa invadiu a América. Se não fosse a America, a Europa não teria deixado de ser o que era na Idade Média, um fundo de quintal. Na Idade Média, as sociedades desenvolvidas eram o Islã, a India e a China. Os europeus eram um bando de bárbaros, sujos, mal vestidos, católicos. Mas por acaso os portugueses e os espanhóis deram de cara com o novo mundo e o capitalismo tornou-se possível. Porque foi o ouro do Novo Mundo, milhares de toneladas, e tudo o que saiu da América, novas plantas, novos recursos alimentares, que permitiu a expansão do capitalismo e  depois a revolução industrial. Se não tivesse havido invasão da América, destruição da América não teria havido Europa moderna. Hoje, no mundo, as principais plantas que servem de alimentação mundial são de origem ameríndia: o milho, que se planta em toda a parte, a batata, que permitu a revolução industrial inglesa, a mandioca, da qual toda a África do Oeste hoje vive. Só que a América já era, não tem mais Novo Mundo para descobrir, a terra fechou, arredondou, além de que o pólo dinâmico do capitalismo foi para a China.

Voltando aos índios.

O Brasil tem muito poucos índios comparado com os países andinos ou mezo-americanos. Estão na casa de um milhão, num país de 200 milhões. Mas têm um poder simbólico muito grande, até porque têm uma base muito grande, 12 por cento do território brasileiro. Está tudo invadido [por obras ou fazendeiros] mas oficialmente é terra indígena. Além de que têm um poder de sedução no imaginário ocidental. A Amazônia tem um poder simbólico imenso. Embora, ao contrário do que os brasileiros pensam, não seja só brasileira, a maior parte da Amazônia está no Brasil. E é um objecto transcendente, uma espécie de última chance, último lugar da terra. O que dá ao Brasil um poder simbólico que ele não sabe usar, ao contrário, a Amazônia tem servido para atacar o Brasil por não saber cuidar da Amazônia. E sabe uma coisa? Não sabe mesmo. E não está sabendo se valer da Amazônia como um trunfo mundial. Nem como um lugar onde poderia se desenvolver uma civilização menos estúpida, do ponto de vista tecnológico e social. Os índios aí servem como exemplo. Estão na Amazônia há pelo menos 15 mil anos. Boa parte da floresta amazónica foi criada pela actividade indígena. Boa parte do solo foi criado com cinza de fogueira, detritos humanos. A Amazônia é essa floresta luxuriante em parte por causa da acção humana, dos índios.

Perante isto, o modelo sulino, gaúcho, europeu, de ocupação da Amazônia, é um plano liso que você possa encher de fertilizante, para poder plantar plantas transgénicas, resistentes a herbicidas, para produzir soja para vender para China, para em seguida pegar esse dinheiro e dar Bolsa Família. Não seria mais simples fazer com que essas pessoas não precisassem de Bolsa Família dando para elas terra para plantar, fazendo a célebre reforma agrária que jamais foi feita no Brasil?

Estamos exportando terra, solo e água na forma de carne, de soja. Um quilo de carne precisa de 15 mil litros de água para ser produzido, um quilo de soja, 7500 litros. Essa água toda, que poderia estar sendo usada para plantar comida para nós, está sendo usada para produzir soja para alimentar gado europeu, ou em tofu e miso na China.

O Brasil destruiu mais de metade da sua cobertura vegetal, a Mata Atlântica, que era igual à Amazônia do ponto de vista ambiental, para plantar cana e café durante a colonização. E ficámos mais ricos? Agora estão devastando a Amazônia para produzir soja e gado. Estamos ficando mais ricos? Os pobres estão melhores porque está caindo mais migalha da mesa dos ricos, não porque vieram sentar na mesa.

Meninos a pescar no rio Xingu (1982) EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO

Isso também afectou os índios, não? Em São Gabriel da Cachoeira, o município mais indígena do Brasil [estado do Amazonas], um dos grandes problemas é o alcoolismo. Impressionante ver o estado em que muitos índios vivem em São Gabriel. É um resultado desse erro de tentar converter o índio em brasileiro nesse modelo que está a descrever?

O alcoolismo é uma praga da população indígena das três Américas. Tem a ver com várias coisas. Uma delas é genética, mesmo. Os índios têm, por razões de evolução, muito menos resistência ao metabolismo do açúcar no organismo. Por isso que eles têm essa tendência à obesidade e à diabetes. Segundo, os índios sempre tiveram álcool, na América do Norte menos, mas todos os índios da Amazônia preparavam bebidas fermentadas, etc. É a mesma coisa com o tabaco, só que ao contrário. O tabaco é indígena. Os índios fumavam, mas não tinham câncer, ou a taxa devia ser muito pequena, assim como o alcoolismo existe entre nós mas é muito menos violento. Porquê? Os índios, para fazerem o tabaco deles e a bebida deles, tinham que produzir à mão. Tabaco tinham de plantar, de enrolar, de fazer um charuto, levava cinco dias para fumar, eram objectos custosos. A cerveja que faziam levava semanas. Aí, chega de repente a cachaça, seis meses de trabalho indígena concentrado numa garrafa que custa dois reais. A mesma coisa com a gente: quando você pega num maço de cigarro que tem concentrado seis meses de trabalho indígena, você fuma um atrás do outro. Você morre de câncer aqui e os índios morrem de cirrose lá.

O capitalismo apresenta aos índios uma coisa que eles nunca tiveram: o infinito mercantil. Os objectos não acabam nunca. Você tem uma quantidade infinita de cachaça. É como se chegassem aqui marcianos que nos dessem soro da vida eterna. Os índios não entendem e consomem, consomem, consomem. Eles produziam pouco para ter tempo livre. O que acontece agora é que continuam produzindo pouco mas os produtos chegam em quantidade infinita. E eles não têm estrutura social, política, institucional. Vai levar séculos para que desenvolvam resistências. Todo o ser humano gosta de se drogar, alterar a consciência, desde o café até ao LSD, então nos índios o álcool entrou destruindo tudo. É certamente a coisa mais destrutiva em todos os índios das Américas.

Não há sociedades perfeitas. É preciso distinguir entre modelo e exemplo. Os índios são um exemplo, não um modelo. Jamais poderemos viver como os índios, por todas as razões. Não só porque não podemos como não é desejável. Ninguém está querendo parar de usar computador ou usar antibiótico, ou coisa parecida. Mas eles podem ser um exemplo na relação entre trabalho e lazer. Basicamente trabalham três horas por dia. O tempo de trabalho médio dos povos primitivos é de três, quatro horas no máximo. Só precisam para caçar, comer, plantar mandioca. Nós precisamos de oito, 12, 16. O que eles fazem o resto do tempo? Inventam histórias, dançam. O que é melhor ou pior? Sempre achei estranho esse modelo americano, trabalha 12 horas por dia, 11 meses e meio por ano, para tirar 15 dias de férias. A quem isso beneficia?

A única vantagem indiscutível que a civilização moderna produziu em relação às civilizações indígenas foram os avanços na medicina. Se você fosse viver o resto da vida no mato o que levaria? Penicilina. Foi de facto um avanço. Mesmo assim nossos avanços sempre avançam demais. Hoje preferimos manter uma pessoa de 90 anos sofrendo horrivelmente, tem de viver, tem de viver, a família vai à falência. Ou seja, não sabemos mais morrer. Todo o mundo antes do século XX sabia morrer.

Um perfil histórico dos black blocs (Ilustríssima, Folha de São Paulo)

FRANCIS DUPUIS-DÉRI
tradução GUILHERME MIRANDA
ilustração RAFAEL COUTINHO

09/03/2014 03h13

RESUMO A série em que a “Ilustríssima” adianta lançamentos editoriais traz excerto de “Black Blocs”, a sair pela editora Veneta no fim do mês. No livro, cientista político aborda as origens e o desenvolvimento da tática e enceta traçar um perfil de seus participantes, com base em pesquisa histórica e entrevistas com ativistas.

O que distingue a tática dos black blocs não é o recurso à força, tampouco o uso de equipamentos defensivos e ofensivos em passeatas e manifestações -ainda mais porque muitos black blocs já protestaram pacificamente sem qualquer equipamento. Na verdade, o que diferencia essa tática de outras unidades de choque é sobretudo sua caracterização visual -a roupa inteiramente preta da tradição anarcopunk- e suas raízes históricas e políticas nos Autonomen, o movimento “autonomista” em Berlim Ocidental, onde a tática do black bloc foi empregada pela primeira vez, no início dos anos 1980.

Esse autonomismo 1 surgiu na Alemanha e depois se espalhou para a Dinamarca e a Noruega. As origens ideológicas dos Autonomen são variadas -marxismo, feminismo radical, ambientalismo, anarquismo- e essa diversidade ideológica era vista em geral como garantia de liberdade.

Na Alemanha Ocidental, as feministas radicais tiveram um impacto profundo nos Autonomen, injetando um espírito mais anarquista no movimento, que, no resto da Europa Ocidental, era mais marcado pela influência marxista-leninista.

Ilustração de Rafael CoutinhoIlustração de Rafael Coutinho

As feministas buscavam redefinir a política, estimulando a autonomia em várias esferas: a individual por meio da rejeição à representação, de modo que as pessoas falassem por si mesmas, e não em nome do “movimento” ou de todas as mulheres; a de gênero, por meio da criação de coletivos exclusivamente de mulheres; a decisória, por meio da adoção de tomadas de decisões consensuais; e a política, por meio da independência de órgãos institucionalizados (partidos, sindicatos etc.), por mais progressistas que fossem.

Os Autonomen praticavam uma política igualitária e participativa “aqui e agora”, sem líderes ou representantes; a autonomia individual e a autonomia coletiva eram, em princípio, complementares e igualmente importantes.

Os grupos autônomos alemães expressavam-se politicamente por meio de campanhas contra o pagamento de aluguéis e reapropriações de centenas de edifícios, que eram transformados em lares e espaço para atividades políticas.

Muitas dessas ocupações davam comida e roupa de graça e abrigavam bibliotecas, cafés, salas de reunião e centros de informações conhecidos como “infoshops”, assim como espaços para shows e galerias de arte onde músicos e artistas socialmente engajados podiam apresentar seu trabalho. O mesmo movimento ocupou universidades e enfrentou neonazistas que perseguiam imigrantes, assim como policiais que protegiam usinas nucleares. Nessas ocasiões, os Autonomen usavam capacetes, escudos improvisados, bastões e projéteis.

REPÚBLICA LIVRE

Não se sabe ao certo quando o termo “black bloc” foi utilizado pela primeira vez. Alguns afirmam que foi em 1980, quando um chamado pela mobilização anarquista de Primeiro de Maio em Frankfurt pedia às pessoas que “[se juntassem] ao Black Bloc”. Outra história localiza o surgimento do termo meses depois, quando a polícia avançou para desmontar a República Livre de Wendland, um acampamento em protesto contra a abertura de um depósito de lixo radiativo em Gorbelen, Baixa Saxônia.

Nos dias seguintes, foram organizadas manifestações em solidariedade, sendo a mais famosa a “Black Friday”, na qual, segundo consta, todas as pessoas estavam vestidas com jaquetas de couro preto e um capacete de moto, com os rostos cobertos por bandanas pretas. As reportagens sobre o evento faziam referência ao Schwarzer Block (isto é, black bloc).

Outros ainda defendem que o termo foi cunhado em dezembro de 1980 pela polícia de Berlim Oriental. Tendo decidido pôr fim às ocupações, as autoridades municipais haviam autorizado a polícia a conduzir uma série de despejos extremamente violentos. Diante da ameaça iminente de uma ação brutal da polícia, diversos Autonomen com máscaras e roupas pretas foram às ruas para defender suas ocupações.

Nesse cenário, chegou a haver ação jurídica contra a “organização criminosa” conhecida como “o Black Bloc”. Mas a ação da procuradoria perdeu, e as autoridades admitiram que a organização nunca existira. Depois, em 1981, foi impresso um panfleto intitulado “Schwarzer Block”, com a seguinte explicação: “Não existem programas, estatutos ou membros do Black Bloc. Existem, porém, ideias e utopias políticas, que determinam nossas vidas e nossa resistência. Essa resistência tem muitos nomes, e um deles é Black Bloc”.

Um grande black bloc se formou em Hamburgo em 1986 para defender as ocupações da rua Hafenstrasse. Cerca de 1.500 black blockers, apoiados por outros 10.000 manifestantes, enfrentaram a polícia e salvaram a ocupação. “Foi uma grande vitória”, afirmou um ativista do movimento autônomo, “provando que era possível evitar despejos”.2

A mobilização na rua aconteceu em colaboração com ações clandestinas contra as ameaças de despejo e ataques da polícia: pequenos grupos incendiaram mais de dez lojas, casas de políticos e prédios municipais.

Black blocs também apareceram em manifestações contra a visita do presidente norte-americano Ronald Reagan a Berlim Ocidental em junho de 1987. E, quando o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) se encontraram em setembro de 1988, também em Berlim Ocidental, um black bloc participou dos protestos. Em algumas manifestações, Autonomen usando capuzes pretos caminhavam nus nas ruas – o espetáculo paradoxal de um black bloc altamente vulnerável.

Hoje, a Alemanha tem os maiores black blocs (muitas vezes chamados de blocos autônomos). O serviço de segurança do país, Bundesamt für Verfassungsschutz [Escritório Federal para a Proteção da Constituição], estima -talvez com demasiada precisão- que os black blockers do país cheguem a 5.800.

Nas manifestações anticapitalistas anuais de Primeiro de Maio em Berlim, os black blocs reúnem de 2.000 a 4.000 pessoas vestidas inteiramente de preto, envoltas por faixas e vestindo jaquetas de moletom com capuzes (jaquetas de couro saíram de moda) e óculos escuros (agora que as máscaras foram proibidas na Alemanha).

TURISTAS

Essas manifestações se tornaram tão famosas entre as redes militantes europeias que muitos Autonomen se queixam de “turistas ativistas”, que buscam protestos como oportunidades para farrear, são indiferentes à realidade local e, pior de tudo, saem da cidade com a mesma rapidez com que chegaram a ela.

Não é raro que essas pessoas comprem cerveja ao longo da manifestação e atirem os vasilhames vazios na polícia, sendo repreendidas ou até mesmo tratadas com violência por Autonomen “straight edge” (que defendem a abstinência de tabaco, álcool e drogas em geral). Mesmo assim, no ano passado, viam-se em Kreuzberg, bairro de Berlim, pôsteres em inglês -voltados, portanto, para turistas ativistas- convidando as pessoas a entrar em um “bloco anarquista/autônomo”.

Surgiram muitas outras ocasiões para a formação de black blocs, como os chamados para enfrentar os neonazistas reunidos em Dresden a fim de lembrar, em 11 de fevereiro, o bombardeio da cidade durante a 2ª Guerra Mundial.

Em razão do tamanho e do dinamismo do movimento autônomo alemão, várias redes podem enviar chamados simultâneos para a formação de blocos autônomos. Os blocos nascidos na rede de ação antifascista são compostos principalmente por homens cuja atitude é mais belicosa. As mulheres são a maioria nas redes antirracistas, nas quais questões de diversidade e inclusão têm mais importância.

COLORIDOS

Nos últimos anos, foram convocados blocos multicoloridos, com o argumento de que pode ser insensível, do ponto de vista cultural, associar o negro a anonimato e uso da força.

Um desses comunicados foi feito em 1º de abril de 2012, para uma manifestação em Eisenach contra o encontro de fraternidades nacionalistas xenofóbicas. O pôster mostrava dois personagens vestidos ao estilo dos black blocs, mas um estava de roxo e o outro, de rosa. Apesar disso, a maioria dos participantes apareceu de preto, e alguns dos antifascistas chegaram a fazer comentários homofóbicos e sexistas contra companheiros que usavam cores mais extravagantes.

No acampamento No Border, realizado em Estocolmo em junho de 20 da política de imigração europeia, foi emitida outra convocação para um bloco colorido -atendida porém só por pouquíssimos ativistas suecos e alemães.

Também é importante mencionar que, nos anos 2000, surgiram grupos autônomos-nacionalistas ou de ação antiantifascista de extrema-direita, que, em marchas neonazistas, se apropriaram do estilo dos black blocs: óculos escuros, capuzes, muitas faixas, música eletrônica. Blocos como esses chegaram a reunir cerca de mil fascistas em grandes manifestações.

TÁTICA

Como a tática dos black blocs migrou da Berlim Ocidental dos anos 1980 para a Seattle de 1999? Os sociólogos Charles Tilly, Doug McAdam e Dieter Rucht, especialistas em movimentos sociais, mostram como repertórios de ações coletivas consideradas eficazes e legítimas para a defesa e a promoção de uma causa circulam entre períodos e lugares diferentes. Eles são transformados e disseminados ao longo do tempo e entre fronteiras, de um movimento social para outro, segundo as experiências dos militantes e as mudanças na esfera política.

A tática dos black blocs se disseminou nos anos 1990, sobretudo através da contracultura punk e de extrema-esquerda ou ultraesquerda, via fanzines, turnês de bandas punks e contatos pessoais entre ativistas em viagens.

Acredita-se que tenha surgido pela primeira vez na América do Norte em janeiro de 1991, durante uma manifestação contra a primeira Guerra do Iraque. O prédio do Banco Mundial foi alvejado, e janelas foram quebradas. Um black bloc foi organizado depois, no mesmo ano, em San Francisco, em uma manifestação no dia do Descobrimento da América, denunciando os 500 anos de genocídio perpetrado contra as nações indígenas, e outro surgiu numa marcha, em Washington, pelo direito das mulheres de mandar em seus corpos. Jornais anarquistas como o “Love and Rage” ajudaram a tornar a tática black bloc conhecida em toda a comunidade anarquista norte-americana.

A tática também foi usada no início dos anos 1990 por membros da Anti-Racist Action (ARA), movimento antiautoritário e antirracista nos Estados Unidos e no Canadá, dedicado ao confronto direto com neonazistas e seguidores da Supremacia Branca.

Ativistas da seção de Toronto da ARA foram a Montreal em 22 de setembro de 1993, onde se reuniram em um pequeno black bloc em protesto contra a reunião (posteriormente cancelada), que teria dois prefeitos franceses direitistas, da Frente Nacional, como oradores convidados.

O resultado foi um confronto violento com a polícia, uma torrente de bombas de tinta contra o restaurante que havia recebido os “frontistes” e uma perseguição pelas ruas em que os manifestantes foram atrás dos cerca de 30 skinheads neonazistas que haviam vindo proteger o lugar.

Em 24 de abril de 1999, um black bloc de aproximadamente 1.500 pessoas participou de uma passeata na Filadélfia exigindo a liberação de Mumia Abu-Jamal, um dos fundadores da divisão local dos Panteras Negras, que havia sido acusado de matar um policial em 1981 e condenado à morte.

MÍDIA

Mas foi em 30 de novembro de 1999, durante as manifestações contra a reunião da OMC em Seattle, que a mídia exibiu a imagem do black bloc para o mundo.

Nos EUA, ao longo da década, a polícia vinha usando spray de pimenta contra manifestantes não violentos e fazendo prisões em massa, durante ações de desobediência civil realizadas por ambientalistas radicais da Costa Oeste. Imaginando que a atitude se repetiria, os black blockers optaram por uma tática móvel que evitaria prisões em grande escala e ataques de spray de pimenta e gás lacrimogêneo.

Na manhã de 30 de novembro de 1999, a polícia atacou os grupos de ativistas não violentos que vinham bloqueando a entrada do centro de convenções desde as 7 horas, e os estoques de gás estavam acabando. Às 11 horas, o black bloc entrou em ação em uma área distante do centro de convenções. O bloco estilhaçou as janelas de alguns bancos e empresas internacionais e desapareceu antes que a polícia pudesse reagir.

A mídia cobriu extensamente a aparição dos black blocs em Seattle, ajudando a difundir suas características distintivas: roupas pretas, máscaras nos rostos e ataques contra alvos econômicos e políticos. Os principais meios de comunicação apresentaram uma visão bastante negativa dos black blocs; a discussão sobre suas ações foi mais equilibrada na mídia alternativa, especialmente na rede on-line independente Indymedia, na qual se podiam ler comunicados dos black blocs e ver fotos e vídeos de suas ações.3

Fascinadas por essas imagens e convencidas pelos argumentos a favor da legitimidade e da eficácia da tática, algumas pessoas passaram a se identificar com essa forma de ação e decidiram organizar seus black blocs na primeira oportunidade -por exemplo, caso fosse anunciada a realização de uma grande cúpula econômica internacional em sua cidade.

Na realidade, o protesto em Seattle foi parte de um grande movimento transnacional -conhecido por diversos nomes, entre eles movimento antiglobalização ou “alterglobalização”, ou “movimento dos movimentos” -que aproveita cúpulas feitas pela OMC, pelo FMI, pelo G8, pelo G20, pela UE, e assim por diante, para organizar vários dias de conferências e ações perto da cidade anfitriã.

Esse movimento amplo e heterogêneo se expressa por meio de diversas ações nas ruas. As principais organizações sociais democráticas (sindicatos trabalhistas, sindicatos rurais, federações feministas, partidos políticos de esquerda, entre outras) fazem uma passeata “unitária” supervisionada por unidades policiais vigorosas. Enquanto isso, diversos grupos militantes conduzem ações violentas. Os black blocs se organizam nessas ocasiões, às vezes marchando pacificamente, mas dispostos a recorrer à força física, dependendo do contexto e da sua força relativa.

Os black blocs também se envolveram em mobilizações não diretamente relacionadas ao movimento alterglobalização; foi o caso das cúpulas da Otan de 2003 e 2009 em Praga e Estrasburgo, respectivamente, e da Convenção do Partido Republicano em Nova York, em agosto e setembro de 2004.

A tática dos black blocs pode adquirir um sentido especial que varia dependendo do contexto local. Por exemplo, no México dos anos 1990, os anarcopunks se interessavam especialmente pelo visual dos black blocs, sobretudo pelo uso das máscaras, uma vez que essa também era uma característica do Exército Zapatista de Libertação Nacional -embora a relação dos anarcopunks com os zapatistas fosse ambivalente.

PERFIL

É difícil fazer um perfil sociológico preciso dos homens e mulheres que participam de black blocs: não só porque eles usam disfarces mas porque cada black bloc é diferente do outro. Ainda assim, minhas observações sugerem que eles são compostos sobretudo por jovens (embora alguns membros tenham mais de 50 anos) e homens (em alguns casos, apenas 5% dos black blockers são mulheres).

Mesmo nas redes antifascistas e antirracistas do Ocidente, os membros do black bloc são majoritariamente de origem europeia, quase não havendo negros ou hispânicos. É claro que também se pode dizer o mesmo de outras redes políticas da esquerda do Primeiro Mundo, mas as ações diretas específicas dos black blocs são mais arriscadas para imigrantes e negros, porque a repressão contra eles pode ser bem maior.

O sociólogo francês Geoffrey Pleyers identificou entre os participantes de black blocs tanto jovens com baixos níveis de consciência política em busca de emoção como ativistas altamente politizados.

É fato que algumas pessoas entram em black blocs sob a influência de amigos ou pelo simples desejo de extravasar a raiva reprimida, mas ninguém pode forçar outra pessoa a adotar essa tática, que se baseia no respeito à autonomia de todos que dela participam.

Nem todos os participantes de black blocs são anarquistas autodeclarados. No Egito, por exemplo, podem ser ativistas políticos, torcedores de futebol ou fãs de bandas de heavy metal.

Entretanto, como diz o professor Mark LeVine, a Tahrir [praça no Cairo que concentrou os protestos que levaram à derrubada de Hosni Mubarak, em 2011, e continuou a receber protestos contra o governo da Irmandade Muçulmana] “continua sendo em muitos aspectos o símbolo das ideias de horizontalismo e auto-organização que estão no centro da teoria e da prática do anarquismo moderno”.

Em seus comunicados, manifestos e entrevistas, muitos black blocs ressaltaram a diversidade de seus membros. Em “Letter From Inside the Black Bloc” (carta de dentro do black bloc), por exemplo, publicada alguns dias após as manifestações contra a Cúpula do G8 de 2001, em Gênova, Mary Black escreve:

“A maioria das pessoas que usaram as táticas black bloc tem trabalhos diurnos voluntários. Alguns são professores, sindicalistas ou estudantes. Alguns não têm empregos em tempo integral, mas passam a maior parte do tempo trabalhando para mudar suas comunidades. Eles começam projetos de jardins urbanos e bibliotecas móveis; cozinham para grupos como Food Not Bombs. São pessoas pensantes e atenciosas que, se não tivessem ideias políticas e sociais radicais, seriam comparadas a freiras, monges e outros que levam a vida servindo”.

“Existe uma grande diversidade no que somos e no que acreditamos. Conheço pessoas de black blocs que vêm da Cidade do México mas também de Montreal. Acredito que o estereótipo está certo ao dizer que a maioria de nós é jovem e branca, embora eu não concorde com a ideia de que somos uma maioria de homens. Quando estou vestida de preto da cabeça aos pés, com roupas pretas largas, com o rosto coberto, a maioria das pessoas pensa que sou homem. O comportamento dos ativistas dos black blocs não é associado a mulheres, por isso repórteres costumam supor que somos todos homens.”

Esses relatos parecem ser motivados por um desejo sincero de retratar os black blocs de maneira correta e, ao fazer isso, rebater acusações de que eles não passam de jovens delinquentes sem qualquer consciência política.

Autorrepresentações como essa procuram desmentir uma crítica muito frequente contra os black blocs: a de que é impossível para um ativista fazer duas coisas ao mesmo tempo ou até uma depois da outra -ou seja, tomar parte em protestos violentos e também se organizar em movimentos globais ou locais que ajudem as pessoas exploradas e marginalizadas.

LEGITIMAÇÃO

Afirmações como a de Mary Black também são ações de legitimação. Em 2011, após protestos contra medidas de austeridade em Londres, quando um participante do black bloc, identificando-se como um “trabalhador mal pago do setor público”, disse a um repórter do “Guardian”: “Vimos muitos enfermeiros, trabalhadores da área de educação, tecnologia, desempregados, estudantes e assistentes sociais no bloco”. Outro afirmou:

“Você teria uma surpresa incrível com as pessoas que usam as táticas do black bloc, em termos de idade, gênero, profissão. A mídia gosta de pintar um quadro de hooligans e bandidos, homens irracionais em fúria. Simplesmente não é verdade. Existem mulheres e provavelmente transgêneros também. Alguns dos anarquistas assustadores trabalham em empregos de assistência social e saúde mental. Isso não vem da bandidagem”.

O retrato inesperado que surge desses relatos é o de um grupo de cidadãos responsáveis e sensatos, de ambos os sexos.

Durante a greve estudantil no Quebec de 2012, os principais meios de comunicação denunciaram a suposta infiltração de black blocs em manifestações estudantis. Aqui está o que um grupo de “anarquistas entre muitos” respondeu a essa afirmação em seu “Manifeste du Carré Noir” (manifesto do quadrado negro):

“Somos homens e mulheres. Somos estudantes. Somos trabalhadores. Somos desempregados. Estamos furiosos. Não estamos cooptando uma greve. Fazemos parte do movimento desde o começo, uma de suas facetas, junto com todos os outros [] Não nos infiltramos em manifestações; ajudamos a organizá-las, fazemos com que elas nasçam. Não estamos sabotando a greve; somos parte integral dela, ajudamos a organizá-la, fazemos seu coração pulsar”.

Muitas das pessoas que entrevistei eram ou haviam sido estudantes de ciências sociais (no entanto, tais encontros tem relação natural com o fato de eu mesmo fazer parte do mundo acadêmico). Em várias ocasiões, seus projetos de pesquisa tratavam da importância política e das consequências de manifestações e ações diretas, o que sugere que seu envolvimento político se baseava em pensamentos políticos mais profundos.

Segundo o comunicado divulgado pelo black bloc de Seattle em 1999, a maioria dos membros “estuda os efeitos da economia global, da engenharia genética, da extração de recursos, do transporte, das práticas trabalhistas, da eliminação da autonomia indígena, dos direitos animais e dos direitos humanos, e há anos praticamos ativismo nessas áreas. Não somos mal informados nem inexperientes”.

Em sua maioria, as pessoas que entrevistei a respeito dos black blocs eram ativistas experientes ou que atuavam em diversas comunidades ou organizações políticas (contra os neonazistas, o racismo, a brutalidade policial e assim por diante), ou que ajudavam a produzir jornais políticos.

Vale repetir, porém, que não existe um perfil homogêneo dos militantes por trás das máscaras. Ser fã de música punk não é suficiente para fazer de alguém um candidato óbvio a black blocker. Por outro lado, um black blocker pode não gostar de música punk ou estudar em uma universidade.

Muitos black blockers dizem que o uso da força resulta de uma avaliação política baseada em frustrantes experiências pessoais com ações não violentas, que passaram a ver como, no mínimo, inadequadas. Um militante veterano que havia se juntado a muitos black blocs me disse:

“Todos os homens e mulheres que conheço que participaram de black blocs são ativistas, alguns muito experientes. Eles ficaram um tanto desiludidos porque chegaram à conclusão de que os métodos pacíficos são muito limitados e jogam a favor dos poderes no comando. Então, para deixarem de ser vítimas, eles acharam melhor usar a violência”.4

As notas a seguir foram editadas pela Redação, sendo suprimidas aquelas essencialmente bibliográficas e mantidas as necessárias à contextualização:

1. Não confundir com movimentos autonomistas, pró-reconhecimento de culturas nacionais ou regionais distintas.
2. BB4, entrevistado pelo autor em Montreal em 26.nov.03. Morador de Amsterdam, ele tinha 42 anos na época e havia participado de black blocs durante a década de 1980 e no movimento de ocupação na Alemanha e na Holanda.
3. O primeiro centro da Indymedia foi fundado durante a Batalha de Seattle. Ele reuniu estudantes, trabalhadores comunitários e ativistas. Desde então, inúmeras cidades passaram a ter sites ligados à Indymedia. Qualquer pessoa pode publicar textos e imagens diretamente neles. Embora não seja inteiramente dedicada ao tema, a rede Indymedia continua sendo uma das fontes mais úteis para obter detalhes sobre os protestos alterglobalização.
4. BB2, entrevistado pelo autor. Tradução nossa. A mesma observação foi feita por militantes franceses em Clément Barette, “La Pratique de la Violence Politique par l’Émeute: le Cas de la Violence Exercée lors des Contre-sommets” (Universidade de Paris I- Panthéon-Sorbonne, 2002), 93.

FRANCIS DUPUIS-DÉRI, 46, pesquisador canadense, é professor do departamento de ciência política da Universidade do Québec em Montréal. Publica no Brasil “Black Blocs” (Veneta).

GUILHERME MIRANDA, 26, é tradutor.

RAFAEL COUTINHO, 33, é quadrinista e artista plástico.

Endereço da página:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/03/1422098-um-perfil-historico-dos-black-blocs.shtml

Black Bloc: “Fazemos o que os outros não têm coragem de fazer” (Fórum)

Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

Por Paulo Cezar Monteiro

20/08/2013 7:20 pm

“Os ativistas Black Bloc não são manifestantes, eles não estão lá para protestar. Eles estão lá para promover uma intervenção direta contra os mecanismos de opressão, suas ações são concebidas para causar danos às instituições opressivas.” É dessa forma que a estratégia de ação do grupo que vem ganhando notoriedade devido às manifestações no País é definida por um vídeo, divulgado pela página do Facebook “Black Bloc Brasil”, que explica parte das motivações e forma de pensar dos seus adeptos.

A ação, ou estratégia de luta, pode ser reconhecida em grupos de pessoas vestidas de preto, com máscaras ou faixas cobrindo os rostos. Durante os protestos, eles andam sempre juntos e, usualmente, atacam de maneira agressiva bancos, grandes corporações ou qualquer outro símbolo das instituições Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil “capitalistas e opressoras”, além de, caso julguem necessário, resistirem ou contra-atacarem intervenções policiais.

Devido ao atual ciclo de protestos de rua, o Black Bloc entrou no centro do debate político nacional. Parte das análises e opiniões classifica as suas ações como “vandalismo” ou “violência gratuita”, e também são recorrentes as críticas ao anonimato produzido pelas máscaras ou panos cobrindo a face dos adeptos. Mas o Black Bloc não é uma organização ou entidade. Leo Vinicius, autor do livro Urgência das ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global, da Conrad, (sob o pseudônimo Ned Ludd), a define o como uma forma de agir, orientada por procedimentos e táticas, que podem ser usados para defesa ou ataque em uma manifestação pública.

(Flickr.com/nofutureface)

Zuleide Silva (nome fictício), anarquista e adepta do Black Bloc no Ceará, frisa que eles têm como alvo as “instituições corporativas” e tentam defender os manifestantes fora do alcance das ações repressoras da polícia. “Fazemos o que os manifestantes não têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”, afirma.

O jornalista e estudioso de movimentos anarquistas, Jairo Costa, no artigo “A tática Black Bloc”, publicado na Revista Mortal, lembra que o Black Bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como uma forma utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (ocupações) e as universidades de ações da polícia e ataques de grupos nazistas e fascistas. “O Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc não é um tipo de organização anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma ação de guerrilha urbana”, contextualiza Costa.

De acordo com um dos “documentos informativos” disponíveis na página do Facebook, alguns dos elementos que os caracterizam são a horizontalidade interna, a ausência de lideranças, a autonomia para decidir onde e como agir, além da solidariedade entre os integrantes. Atualmente, há registros, por exemplo, de forças de ação Black Bloc nas recentes manifestações e levantes populares no Egito.

Manifestantes se reúnem em rua do Leblon, no Rio de Janeiro, próximos à casa do governador Sérgio Cabral (Foto: Mídia Ninja)

Black Bloc no Brasil

Para Leo Vinicius, é um “pouco surpreendente” que essa estratégia de manifestação urbana, bastante difundida ao redor do mundo, tenha demorado a chegar por aqui. “Essa forma de agir em protestos e manifestações ganhou muito destaque dentro dos movimentos antiglobalização, na virada da década de 1990 para 2000. Não é uma forma de ação política realmente nova”. No Brasil, existem páginas do movimento de quase todas as capitais e grandes cidades, a maior parte delas criadas durante o período de proliferação dos protestos. A maior é a Black Bloc Brasil, com quase 35 mil seguidores, seguida pela Black Bloc–RJ, com quase 20 mil membros.

A respeito da relação com o anarquismo, Vinicius faz uma ressalva. É preciso deixar claro que a noção de que “toda ação Black Bloc é feita por anarquistas e que todos anarquistas fazem Black Bloc” é falsa. “A história do Black Bloc tem uma ligação com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operação, pode ser utilizado até por movimentos da direita”, explica o escritor.

Para alguns ativistas, o processo de aceitação das manifestações de rua, feito pela grande mídia e por parte do público, de certa forma impôs que, para serem considerados legítimos, os protestos deveriam seguir um padrão: pacífico, organizado, com cartazes e faixas bem feitas e em perfeito acordo com as leis. Vinicius demonstra certa preocupação com a possibilidade do fortalecimento da ideia de que essa forma “pacífica” seja vista como o único meio possível ou legítimo de protestar. Ele afirma que não entende como violenta a ação Black Bloc de quebrar uma vidraça ou se defender de uma ação policial excessiva. “A violência é um conceito bastante subjetivo. Por isso, não dá pra taxar qualquer ato como violento, é preciso contextualizá-lo, entender as motivações por trás de cada gesto”, avalia.

Para ele, a eficácia de uma manifestação está em saber articular bem formas de ação “pacíficas” e “não pacíficas”. Foi esse equilíbrio, analisa, que fez com que o Movimento Passe Livre – São Paulo (MPL-SP) barrasse o aumento da tarifa na capital paulista. “Só com faixas e cartazes a tarifa não teria caído”, atesta. “Quem tem o poder político nas mãos só cede a uma reivindicação pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado”, sentencia.

Por outro lado, Vinicius alerta que é preciso perceber os limites para evitar que as ações mais “radicais” façam com que o movimento seja criminalizado ou se isole da sociedade e, com isso, perca o potencial de realizar qualquer mudança. Em sua obra, faz a seguinte definição daqueles que adotam a estratégia Black Bloc: “Eles praticam uma desobediência civil ativa e ação direta, afastando assim a política do teatro virtual perfeitamente doméstico, dentro do qual [a manifestação política tradicional] permanece encerrada. Os BB não se contentam com simples desfiles contestatórios, certamente importantes pela sua carga simbólica, mas incapazes de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas”, aponta.

Outra crítica recorrente é o fato de os BB usarem máscaras ou panos para cobrirem os rostos. Os adeptos da ação explicam que as máscaras são um meio de proteger suas identidades para “evitar a perseguição policial” e outras formas de criminalização, como também criar um “sentimento de unidade” e impedir o surgimento de um “líder carismático”.

Luta antiglobalização

Com o passar do tempo, segundo Jairo Costa, as táticas Black Bloc passaram a ser reconhecidas como um meio de expressar a ira anticapitalista. Ele explica que geralmente as ações são planejadas para acontecer durante grandes manifestações de movimentos de esquerda.

O estudioso destaca como um dos momentos mais significativos da história Black Bloc a chamada “Batalha de Seattle”, em 1999, contra uma rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 30 de novembro daquele ano, após uma tarde de confrontos com as forças policiais, uma frente móvel de black blockers conseguiu quebrar o isolamento criado entre os manifestantes e o centro comercial da cidade. Após vencer o cerco policial, os manifestantes promoveram a destruição de várias propriedades, limusines e viaturas policiais, e fizeram várias pichações com a mensagem “Zona Autônoma Temporária”. Estimativas apontam prejuízos de 10 milhões de dólares, além de centenas de feridos e 68 prisões.

Para Costa, um dos episódios mais impactantes – e duros – da história Black Bloc foi o assassinato de Carlo Giuliani, jovem anarquista de 23 anos, durante a realização simultânea do Fórum Social de Gênova e a reunião do G8 (Grupo dos oito países mais ricos), na Itália, em julho de 2001. Ele lembra que, após vários confrontos violentos – alguns deles vencidos pelos manifestantes, que chegaram a provocar a fuga dos policiais, que deixaram carros blindados para trás –, ocorreu o episódio que levou à morte de Giuliani.

“Ele partiu para cima de um carro de polícia tentando atirar nele um extintor de incêndio. Muitos fotógrafos estavam por lá e seus registros falam por si. Ao se aproximar do carro, Giuliani é atingido por dois tiros, um na cabeça. E, numa cena macabra, o carro da polícia dá marcha a ré e atropela-o várias vezes”, narra. Os assassinos de Carlo Giuliani não foram condenados. Dois anos após o fato, a Justiça italiana considerou que a ação policial se deu como “reação legítima” ao comportamento do militante.

Alvos capitalistas

Entre as formas de ação direta do Black Bloc destacam-se os ataques aos chamados “alvos simbólicos do capital”, que incluem joalherias, lanchonetes norte-americanas ou ainda a depredação de instituições oficiais e empresas multinacionais. Costa explica que essas ações “não têm como objetivo atingir pessoas, mas bens de capital”.

Zuleide justifica a destruição praticada contra multinacionais ou outros símbolos capitalistas, porque elas seriam mecanismo de “exploração e exclusão das pessoas”. “Queremos que esses meios que oprimem e desrespeitam um ser humano se explodam, vão embora, morram. Trabalhar dez horas por dia para não ganhar nada, isso é o que nos enfurece. Por isso, nossas ações diretas a eles, porque queremos causar prejuízos, para que percebam que há pessoas que rejeitam aquilo e que lutam pela população”, explica.

Ela reconhece que essas ações diretas podem deixá-los “mal vistos” na sociedade, já que há pessoas que pensam: “Droga, não vou poder mais comer no ***** porque destruíram tudo”. Porém, Zuleide afirma que o trabalhador, explorado por essas corporações, “adoraria fazer o que nós fazemos”, mas, por ter família para sustentar e contas a pagar, não faz. “Esse é mais um dos motivos que nos fazem do jeito que somos”, pontua.

Vinicius explica que, nas “ações diretas”, os black blockers atacam bens particulares por considerarem que “a propriedade privada – principalmente a propriedade privada corporativa – é em si própria muito mais violenta do que qualquer ação que possa ser tomada contra ela”. Quebrar vitrines de lojas, por exemplo, teria como função destruir “feitiços” criados pela ideologia capitalista. Esses “feitiços” seriam meios de “embalar o esquecimento” de todas as violências cometidas “em nome do direito de propriedade privada” e de “todo o potencial de uma sociedade sem ela [as vitrines]”.

Sem violência?

Em praticamente todas as manifestações, independentemente das causas e dos organizadores, tornou-se comum o grito: “Sem violência! Sem violência!”, que tinha como destinatários os policiais que, teoricamente, entenderiam o caráter “pacifista” do ato. Também seria uma tentativa de coibir a ação de “vândalos” ou “baderneiros”, que perceberiam não contar com o apoio do restante da massa.

Zuleide reconhece que, inicialmente, a ação Black Bloc era alvo desses gritos, mas, segundo ela, quando as pessoas entendem a forma como eles atuam, isso muda. “Os manifestantes perceberam que o Estado não iria nos deixar falar, nos deixar reivindicar algo, e começaram a nos reprimir. Quando há confronto [com a polícia], nós os ajudamos retardando a movimentação policial ou tirando eles de situações que ofereçam perigo, e alguns perceberam isso”, afirma.

Apesar de os confrontos com policiais não serem uma novidade durante as suas ações, os adeptos afirmam não ter como objetivo atacar policiais. Contudo, outro documento intitulado “Manifesto Black Bloc” deixa claro que, caso a polícia assuma um caráter “opressor ou repressor”, ela se torna, automaticamente, uma “inimiga”.

No “Manual de Ação Direta – Black Bloc”, também disponível na internet, a desobediência civil é definida como “a não aceitação” de uma regra, lei ou decisão imposta, “que não faça sentido e para não se curvar a quem a impõe. É este o princípio da desobediência civil, violenta ou não”. Entre as possibilidades de desobediência civil são citadas, por exemplo, a não aceitação da proibição da polícia que a manifestação siga por determinado caminho, a resistência à captura de algum manifestante ou, ainda, a tentativa de resgatar alguém detido pelos policiais.

Também são ensinadas táticas para resistir a gás lacrimogêneo, sprays de pimenta e outras formas de ação policial, além de dicas de primeiros socorros e direitos legais dos manifestantes. De acordo com o documento, as orientações desse manual tratam apenas da desobediência civil “não violenta”.

Outra orientação é que seja definido, antes da manifestação, se a desobediência civil será “violenta” ou “não violenta”. Caso se opte pela ação ‘não violenta’, essa decisão deve ser respeitada por todos, visto que não cumprir o combinado pode pôr “em risco” outros companheiros, além de ser um sinal de “desrespeito”.

Contudo, o mesmo manual deixa claro que o que “eles fazem conosco” todos os dias é uma violência, sendo assim, “a desobediência violenta é uma reação a isso e, portanto, não é gratuita, como eles tentam fazer parecer”.

Uma breve história

1980: O termo Black Bloc (Schwarzer Block) é usado pela primeira vez pela polícia alemã, como
forma de identificar grupos de esquerda na época denominados “autônomos, ou autonomistas”, que lutavam contra a repressão policial aos squats (ocupações).

1986: Fundada, em Hamburgo (Alemanha), a liga autonomista Black Bloc 1500, para defender o Hafenstrasse Squat.

1987: Anarquistas vestidos com roupas pretas protestam em Berlim Ocidental, por ocasião da presença de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, na cidade.

1988: Em Berlim Ocidental, o Black Bloc confronta-se com a polícia durante uma manifestação
contra a reunião do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

1992: Em São Francisco (EUA), na ocasião do 500º aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo, o Black Bloc manifesta-se contra o genocídio de povos nativos das Américas.

1999: Seattle contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Estima-se em 500 o número de integrantes do Black Bloc que destruíram o centro econômico da cidade.

2000: Em Washington, durante reunião do FMI e Banco Mundial, cerca de mil black blockers anticapitalistas saíram às ruas e enfrentaram a polícia.

2000: Em Praga (República Tcheca), forma-se um dos maiores Black Blocs que se tem notícia, durante a reunião do FMI. Cerca de 3 mil anarquistas lutam contra a polícia tcheca.

2001: Quebec (Canadá). Membros do Black Bloc
são acusados de agredir um policial durante uma marcha pela paz nas ruas de Quebec. Após esse evento, a população local e vários manifestantes de esquerda distanciaram-se da tática Black Bloc e de seus métodos extremos.

2001: A cidade de Gênova (Itália), ao mesmo tempo, recebeu a cúpula do G8 e realizou o Fórum Social de Gênova, com um grande número de Black blockers, além de aproximadamente de 200 mil ativistas. A ação ficou marcada pela violenta morte do jovem Carlo Giuliani, de 23 anos.

2007: Em Heiligendamm (Alemanha), reunião do G8 foi alvo de uma ação com a participação de cerca de 5 mil blackblockers . Mobilização Black Bloc de cerca de 5.000 pessoas

2010: Toronto (Canadá), na reunião do G20. Neste confronto, mais de 500 manifestantes foram presos e dezenas de outros ativistas foram parar em hospitais com inúmeras fraturas.

2013: Cairo (Egito). O Black Bloc aparece com forte atuação nos protestos da Praça Tahir, no combate e resistência ao exército do então presidente Hosni Mubarak.

Fonte: Artigo “A Tática Black Bloc”, escrito por Jairo Costa, na Revista Mortal, 2010

“Não existe resposta única para a cracolândia” (Brasil de Fato)

Por: Mariana Desidério, De São Paulo

Brasil de Fato

24/01/2014

Para padre Julio Lancellotti, ação da prefeitura na região da Luz tem avanços, mas não olha para as necessidades das pessoas

A atual operação promovida pela prefeitura na cracolândia tem sido vista como um avanço em relação à ação deflagrada há dois anos, quando policiais usaram bombas de gás e tiros de borracha para dispersar os dependentes de crack que circulam pela região, no centro de São Paulo.

Porém, não é hora para muito otimismo na opinião do padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral da População de Rua em São Paulo e defensor histórico dos direitos humanos. Segundo ele, também há outro tipo de violência na ação que ocorre agora. “Há sofisticação, mas o resultado que se busca é o mesmo: as ruas da cracolândia limpas”, afirma.

Aos 65 anos, além de coordenar a pastoral, Lancellotti é responsável pela paróquia de São Miguel Arcanjo, na região da Mooca.  Nesta entrevista ao Brasil de Fato SP, ele critica a forma como nossa sociedade trata os grupos mais vulneráveis e defende atuações políticas mais enérgicas, inclusive não pacíficas. “Jesus era mais para Black Bloc”, dispara.  Leia a entrevista:

Como avalia a operação Braços Abertos, da prefeitura, que está colocando os moradores de rua da cracolândia para viver em hotéis e trabalhar na varrição?
Ainda não dá para fazer uma avaliação completa. O fundamental é saber como será feito o acompanhamento. Mas algumas coisas chamam a atenção: hotel não é moradia definitiva. Quanto tempo eles vão ficar no hotel? Depois: por que todos têm que trabalhar na varrição? Eu acho que pode ter uma diversificação.

Acha que isso acaba padronizando demais?
Acho que é uma resposta institucional, e, portanto, planejada dentro de um modelo. Não é construída a partir das necessidades das pessoas. A operação pode ter seu aspecto de redução de danos e está tendo agora muita visibilidade. Mas a gente tem que ver como isso vai se dar no cotidiano. Há uma preocupação política de querer se diferenciar de outros. Mas também há um pragmatismo. Pensa-se que tem que ter um resultado. Não se foi à causa das questões, está se trabalhando por enquanto com os efeitos.

Essa medida tem sido vista como um avanço em relação àquela tomada dois anos atrás, quando houve forte repressão policial. O que o senhor acha?
Eu considero que os métodos de controle se sofisticam. Uns são mais trogloditas, outros menos. Acredito que a violência não é só a cassetada, o spray de pimenta, a bomba de gás, a polícia andando atrás. A violência também é simbólica. É violento colocar para trabalhar sem ter direitos trabalhistas, ou ainda não respeitar a subjetividade humana. O que a gente vê é que há uma sofisticação. O resultado que se busca é o mesmo: as ruas da cracolândia limpas.

Mas qual seria a forma correta de lidar com essa questão?
O que temos que ter em mente é o seguinte: como a cidade vai ser mais humana e vai cuidar daqueles que são mais vulneráveis? Essa é a questão fundamental. A população de rua não é a única vulnerabilizada da cidade. Também existem os que não têm moradia, os que têm transtornos mentais, as pessoas com necessidades especiais, os idosos. Nossa cidade é um lugar em que tudo é para quem é esperto, para quem tem mais força, mais autonomia. Ela está inserida dentro de um modelo de competição, de premiação por consumo, não é uma cidade voltada para agregar.

Os idosos não são cuidados na nossa sociedade?
Outro dia perguntei na igreja: Quem leva o cachorro para passear? Todos levam. E quem leva a vovó para passear? Muito poucos. É mais fácil pegar o cocô do cachorro do que trocar a fralda do vovô. Nós estamos vivendo uma sociedade do individualismo. Aumenta o número das pessoas que vivem sozinhas. As pessoas querem pensar só no seu próprio bem-estar, não o bem-estar do coletivo, o bem-estar dos mais fracos. A grande mudança seria pensar o bem-estar dos mais fracos.

Qual o cenário dos albergues para a população de rua em São Paulo hoje?
Em algum momento, os albergues podem ser necessários. Qual o nosso problema? Nós tornamos os albergues a única resposta. A mesma lógica que coloca todo mundo pra ser varredor. A população de rua é bastante heterogênea. Não se pode ter uma mesma resposta para todos.

E as condições desses albergues? No final de 2013 houve protesto por causa disso.
Sim, porque eles estão precarizados, por falta de manutenção, falta capacitação das pessoas que lá trabalham, e porque os albergues não estão seguindo a própria diretriz nacional da política para a população de rua, que prevê que tenham um número reduzido de pessoas, não passando de cem. E hoje nós temos albergues com 200 pessoas que só têm dois chuveiros.

Mas querendo ou não é um abrigo para eles, não?
Nós temos uma ideia muito assim: para o pobre qualquer coisa está bom. Pensamos assim: “Você não tem o que comer, eu estou te dando essa comida aqui. Você está achando ruim por quê? Estou te dando essa calça velha, só está um pouco apertada…” Muitas vezes nós somos uma sociedade que nivela tudo por baixo.

Quais soluções deveriam ser pensadas, além dos albergues?
Nós temos sugerido muito a locação social, que hoje é um programa pequeno, mas ajuda. Hoje, já há legislação no sentido que o programa federal Minha Casa, Minha Vida tenha uma porcentagem para população em situação de rua. Que eles possam ingressar nas políticas habitacionais como pessoas que não têm capacidade de endividamento.

Quatro moradores de rua foram presos na manifestação em dezembro contra as condições do albergue. Falou-se que eles eram presos políticos. Por quê?
Porque lendo o boletim de ocorrência e vendo tudo o que aconteceu com eles, nós percebemos que a motivação não foi técnica. A grande questão é que há uma palavra-chave hoje: manifestação. Esse ano será de grande repressão por causa da Copa. Todas as manifestações serão duramente reprimidas, e essa manifestação das pessoas em situação de rua mostra que há um peso político muito forte nesse sentido. Há uma ideia no poder público de que é preciso coibir qualquer forma de expressão. Nos atos que nós fizemos contra a prisão deles, a quantidade de polícia que nos acompanhou era o triplo da de manifestantes.

Quem são as pessoas que vivem na rua na cidade de São Paulo?
Em São Paulo há o Censo da População em Situação de Rua. Há um perfil de maioria masculina, mas há o aumento de mulheres e famílias na rua. Há muitas pessoas que passaram pela escola. A maior parte é do Sudeste. Como essa população é muito heterogênea, você encontra na rua pessoas com nível universitário, com nível médio. A maior parte é alfabetizada, ou passou pelo mundo do trabalho e viveu com a família, não nasceram na rua. Boa parte está na rua por causa de desavenças familiares, pessoas com problema de transtorno mental e que a família não aguenta mais. Ou pessoas que usam álcool e a família não sabe mais como lidar. Como não há uma assistência, essas pessoas acabam indo para a rua.

Como a cidade trata essas pessoas?
É uma população muito estigmatizada e muito associada à criminalidade. De fato há vários egressos do sistema penitenciário na rua, mas nós não podemos lidar com essa intolerância tão grande. Uma pessoa em situação de rua não entra num shopping. Eles são impedidos do convívio social. Mas a pessoa que está na rua tem uma história. Por isso, várias práticas vêm sendo discutidas para garantir que essas pessoas tenham direito ao SUS, a possibilidades de educação, de cultura, de lazer.

Como o senhor avalia a atuação do novo Papa?  
O Papa Francisco é um presente, mostrando para nós que a igreja está no meio do mundo, enlameada e suja. Ele mesmo diz: “eu prefiro uma igreja ferida e enlameada do que doente e fechada”. É o caminho para uma igreja sem luxo, uma igreja servidora que caminha no meio do povo, que não tem medo de sentar na rua e partilhar a vida com o povo.

O papado dele caminha então nessa direção mais humana?
Sem dúvida. O Papa Francisco está buscando mostrar um caminho muito mais humano, muito mais próximo de Jesus. Jesus não era nenhum moralista, não impunha nada, ele era aquele que queria uma vida mais humana, que as pessoas fossem felizes. Jesus não veio impor uma religião, ele veio salvar e libertar as pessoas de toda a opressão.

O senhor acha que religião tem a ver com política?
Jesus foi condenado como preso político, foi executado, condenado à pena de morte. Ele tinha mais a ver com a vida do povo do que com qualquer outra coisa. As coisas são interligadas entre si, não são separadas. Sabe um grupo que eu gosto muito? Os Black Bloc. Eles são muito humanos, são jovens com vontade de lutar, acho impressionante.

O que acha do uso que eles fazem da violência?
É uma resposta à violência que está aí. Eles destroem os símbolos do poder. Você acha que eles dão prejuízo para os bancos por quebrar uma agência? Os jovens se expressam de muitas maneiras. Não adianta só combatê-los, é preciso entendê-los. O Papa Francisco disse algo interessante nesse sentido: “Eu não gosto de uma juventude que não se manifesta, apática, amorfa.” É preciso agitar. Jesus era mais para Black Bloc.