Arquivo mensal: janeiro 2013

Medo e tensão no Oeste (Rolling Stone)

Edição 49 – Outubro de 2010

Paraíso perdido na Amazônia, a região de Nova Olinda vive em conflito: de um lado, comunidades a favor da extração da madeira; de outro, aquelas que querem manter suas terras. O impasse continua

Medo e tensão no Oeste

Foto: GREENPEACE

por POR FELIPE MILANEZ

O excesso de céu e águas que se abre à minha frente a partir da proa do barco é deslumbrante. A floresta é uma linha verdejante suave no horizonte, que marca a distinção entre o azul cósmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderança indígena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele aponta para uma dessas margens paradisíacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: “Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram”.

É apenas uma ponta de areia, chamada São Pedro, que marca uma confluência. A partir daqui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapajós, se fecha, até culminar em uma bifurcação. De um lado, o Maró. Do outro, o Aruã. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligação política entre a insurgência presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposição estariam os empresários que comercializam madeira da região, as comunidades que são ligadas a esses empresários e os agentes econômicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospecção em toda a área, e os produtores de soja.

Não apenas pelo significado político, mas também pela dimensão social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira marcou definitivamente essa curva do Arapiuns.

O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comunidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestação, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indícios de extração irregular da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira continuaria saindo. “Sendo saqueada”, pensaram as lideranças que estavam no local. Não houve ordem de ninguém para dar início ao fogo, mas uma reação coletiva, em assembleias. “O motivador maior da queima foi a conivência do Estado com a exploração madeireira. O Estado não quis discutir com as comunidades, mandou apenas um técnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestantes, que esperaram por um mês”, afirmou uma liderança que não quis ser identificada.

Quase um ano atrás, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestação que já durava um mês, a multidão queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhões. Se a região vivia tempos de medo e tensão, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresários perceberam que poderiam se insurgir.

Neste último ano, sem a demarcação da terra indígena pretendida pelos índios borari, sem a regularização dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizações de corte de madeira na área e o patrimônio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda está tomado de medo e tensão.

“O medo sempre existiu. Mas eu não fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar”, diz Odair José Alves de Sousa, o Dadá, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique é seu tio Higino, mais velho e experiente). À noite, a água do rio é ainda mais escura. Reflete as estrelas tão nitidamente que a sensação é a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. Há calma no ar. Nessa hora, Dadá pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde então faz parte do programa de proteção à testemunha e anda com seguranças. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiança na capacidade de luta aumentou. “O movimento está forte. Nossa luta é justa”, afirma.

Antes do episódio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras. Cada uma com uma média de dois mil metros cúbicos de madeira. Agora, diz Dadá, se passarem três balsas por mês é muito. Foi o fogo? “Questão de amedrontamento”, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o “outro lado”. “A gente está falando no canal de rádio que não tem hora nem momento para ter outra manifestação, para pegar outra balsa. Então eles reduziram a quantidade”, explica. O foco da pressão é a empacada regularização fundiária da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audiências públicas e lobbies políticos.

Nova Olinda se divide em duas posições antagônicas. Para entrar na Gleba, é preciso estar de um lado. “A gente vai ter que discutir com a comunidade.” Minha recepção na aldeia Novo Lugar é permeada de desconfiança. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jornalista que se mostrou envolvida com o tal “outro lado”. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presença não implicava em vínculos diretos com o “lado de lá”, os empresários madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como Fé em Deus, Repartimento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como iniciei a viagem pelo lado da resistência aos empresários, que se encontrava antes pela logística do rio, as comunidades opostas fecharam as portas.

Um daqueles paraísos perdidos na Amazônia, lugar de floresta altamente preservada, onde um sonho de éden ainda parece persistir, a região de Nova Olinda é banhada por rios de águas escuras, que escorrem de forma sinuosa, de difícil acesso, praticamente isolando a área na seca do acesso de barcos maiores – com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco até Santarém, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

Com 182 mil hectares, a Gleba integra um mosaico de terras, no Oeste do Pará, parte em Santarém e outra em Juriti, que está em lento processo de regularização fundiária: o conjunto de glebas Mamuru-Arapiuns, com 1,2 milhão de hectares. Seria a primeira de cinco glebas de terras públicas nessa região a ter o problema de destinação do uso resolvido – para exploração, preservação ou uso tradicional. O processo, assim que concluído, poderia servir de modelo de resolução para as demais terras. Algumas áreas de assentamento já foram regularizadas. Falta definir a situação dos assentamentos de duas comunidades, Prainha e Vista Alegre, e a demarcação da terra indígena. A conclusão estacionou, e a tensão cresceu.

Há cerca de 15 comunidades na área. Pela lei, elas devem ser ouvidas sobre sua ocupação e o uso que fazem da terra, e as necessidades devem ser respeitadas na hora da concessão do título, seja na forma de projeto de assentamento, que pode ser coletivo ou em lotes individuais, seja na forma de uma reserva indígena. Mas as interferências externas, ou seja, dos novos migrantes, mudaram a relação pacífica que existia entre as comunidades, que hoje não se comunicam.

Seria natural imaginar que todas demandariam direitos semelhantes. Mas há aquelas que querem a presença dos empresários, e as que refutam. Permeada por essa disputa, surge uma batalha por identidades: para marcar suas diferenças e posições políticas assumem cada uma suas raízes. A grande batalha acontece entre as que reivindicam a identidade indígena, do povo Borari, e aquelas que querem se ver brasileiras e modernas.

Foram os gaúchos (termo genérico para forasteiros) que trouxeram o sonho do progresso e os conflitos. Empresários madeireiros transferidos pelo governo do Pará, eles ocupavam uma área pública que havia sido transformada em terra indígena de ocupação dos índios caiapós no Sul do Estado. O governo paraense decidiu, à época, fazer uma espécie de permuta com os empresários, transferindo-os para outra área administrada pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Com a transferência dos títulos, veio junto a grilagem da terra. A partir de 2002, começaram a surgir “laranjas” e milhares de novos madeireiros permutados. Na floresta, cortes de lotes sobrepunham-se, enquanto as populações locais observavam tudo cada vez mais esmagadas nas margens.

Para as comunidades a favor da chegada dos madeireiros, da pesquisa mineral de bauxita ou da instalação da agricultura mecanizada de soja, deixar a vida dura da exclusão em que vivem tornou-se um objetivo urgente. Ainda que tenham se dividido entre grupos que passaram a apoiar a entrada dos empresários, recebendo benfeitorias para isso, e os que os enfrentaram, recebendo ameaças, mas mantendo o sonho da autonomia. A comunidade Repartimento, no rio Aruã, foi a primeira a ceder. No rio Maró, o povoado de Fé em Deus tomou a frente, liderado por Manoel Benezildo Sousa, que passou a agrupar lideranças com ações financiadas pelos empresários. Os benefícios imediatos como um gerador mais potente, alguns salários e alguns empregos na extração da madeira, são de grande importância para quem vive na área. Mas podem ser considerados baixos se comparados ao valor em potencial das terras que estão em jogo. A contrapartida exigida para a chegada do progresso é a demanda por terras menores no processo fundiário em curso.

Contrárias aos madeireiros, as outras comunidades se organizaram com o sindicato dos trabalhadores rurais e os movimentos sociais da região. Decidiram lutar para garantir a terra de uso tradicional. Pelo menos, a maior fatia possível do bolo que estava sendo dividido. Esse é o lado do chamado Movimento no conflito instaurado na Nova Olinda.

Em uma terça-feira pela manhã, estive em Fé em Deus, para conhecer as reivindicações, demandas e os benefícios que têm sido distribuídos. Chovia, ventava, e o dia tinha um aspecto antipático. Eu havia sido informado de que poderia não ser recebido quando o barco que faz a linha de transporte até Santarém, o Crê em Deus, que levava as lideranças aliadas aos madeireiros para uma audiência pública na cidade, atracou junto ao que eu estava para me avisar: a minha presença na área não estava autorizada.

Não souberam informar do que se tratava a audiência pública para a qual haviam sido convocados – no caso, era para discutir a situação ambiental de um porto construído em Santarém, pela Cargill, para o escoamento da soja. Mas o transporte era pago.

Chegando em Fé em Deus, percebi um clima de tensão. Pessoas assustadas, conversas em voz baixa sobre a presença do forasteiro, olhares preocupados. Até que jovens líderes vieram informar que não seria realmente possível o diálogo na ausência de Benezildo de Souza e outras lideranças políticas. No pátio da escola vi tremularem bandeirinhas coloridas que anunciam a festa junina, marcada para o sábado seguinte. A comunidade borari Novo Lugar não vai ser convidada. Na festa deles tampouco alguém de Fé em Deus foi chamado. Sequer fui convidado para entrar na comunidade. A justificativa: eu estaria comprometido com o “outro lado”. Nova Olinda, dividida, vive uma guerra fria.

“Não queremos conversa. Vocês vieram aqui criar índio. Nós queremos ficar em paz e resolver os problemas”, disse um dos líderes da Fé em Deus. Atrás da roda de homens, gritou uma senhora: “A gente fala com vocês, depois vocês vão embora e a gente fica aqui, correndo perigo”. O temor que ela expressa representa alguma repressão interna que aquele povo vive e sobre a qual não quiseram falar.

Em Fé em Deus e nas demais comunidades que se comportam como se tivessem sido pressionadas, também se desconfia de jornalistas. Quando têm interesse de que algo seja publicado, convidam aqueles vistos como pertencentes a “seu lado”. Assim foi com um jornal local, de Santarém, o Impacto, e a revista Veja, que publicaram reportagens sob a égide de progresso e desenvolvimento. Ambos veículos de imprensa deixaram naquelas terras um rastro de desconforto que atinge qualquer jornalista que for para a Gleba, tornando infrutíferas qualquer tentativa de contato com os produtores rurais e os empresários.

Acompanhando um antropólogo de um instituto federal de pesquisa, interessado em compreender a relação das populações tradicionais com o Estado e sem nenhuma relação com questões étnicas, eu não havia sido levado por quaisquer dos dois lados do conflito por terras na região. Da mesma forma que os que desejam o progresso consideram terem “seus” jornalistas, também pensam disporem de antropólogos que os defendem. Nesse caso, eles contrataram Edward Luz, um antropólogo missionário, cuja missão é provar que nessa área não existem índios. Engajado de corpo e alma em acabar com o assunto, jovem líder evangélico na faixa de 30 anos, casado e pai de família, filho do pastor e presidente da Missão Novas Tribos do Brasil e formado em antropologia pela Universidade de Brasília, Edward Luz “nasceu e cresceu em berço missionário”, o próprio me diz numa linda manhã de sol em São Paulo. Era o primeiro dia da primavera de 2009, a mesma época em que tinham início as revoltas no Arapiuns. Estávamos em uma sala confortável na Universidade Mackenzie, junto de uns 15 alunos. Ele ministrava um curso para ensinar outros missionários a traduzirem a Bíblia para línguas indígenas. A missão, aqui, é levar a palavra da religião protestante para povos indígenas de pouco contato ou mesmo isolados. Um caso de proselitismo, que causou ao pai de Edward Luz (os dois têm o mesmo nome) a expulsão do território dos índios Zo’é, quando o filho ainda era criança. Além do proselitismo, também foram acusados de genocídio pela Funai, em razão de epidemias que podem ter provocado. Os Luz, desde então, foram proibidos de entrar em terras indígenas na posição de missionários.

Contratado pela Associação Comunitária dos Trabalhadores Rurais do Aruã e Maró (Acutarm), que é ligada aos empresários, foi solicitado a Luz, segundo ele escreveu em uma carta à qual tive acesso, “que se inteirasse dos fatos que vinham transcorrendo na região da mesopotâmia do Maró e o Aruan” para orientar a associação. Ele esteve nas três comunidades que “se autointitulam indígenas”, mas o acesso lhe foi negado. Ele quer analisar a situação étnica dos borari, que vivem em Cachoeira do Maró, Novo Lugar e São José. Essa demanda fundiária dos indígenas, dependendo dos cálculos da Funai, pode ficar entre 35 e 80 mil hectares. Edward sabe como funciona a Funai – ele já foi contratado pela própria para identificar terras indígenas do povo Kokama, na região do rio Solimões. Mas ele derrubou as pretensões da própria Funai e hoje responde a um processo.

A mais recente disputa de antropólogos sobre o tema ocorreu em meados de agosto, em Santarém, numa audiência pública. De um lado estavam Edward e Inácio Regis – intelectual local que também se apresenta como pesquisador e que também quer provar que aqueles índios, na verdade, não são índios, e que a terra deve ser destinada ao desenvolvimento. Em oposição estavam a antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, professora aposentada da Universidade de Chicago, e Maria Rosário Carvalho, da Universidade Federal da Bahia.

Régis, que, procurado por e-mail, não respondeu a tentativas de entrevista, afirmou que os índios do Tapajós estão sendo induzidos a se assumirem indígenas. Luz disse que os vizinhos e parentes dos índios do Maró afirmam que eles não são índios. As duas mulheres foram polidas, e disseram que não estavam na área fazendo pesquisas de campo e, portanto, não poderiam opinar sobre o caso específico. Deixaram no ar, no entanto, que consideram essas comunidades indígenas sem colocar em questão a legitimidade da identidade.

Assim como minha presença na área foi notada com rapidez, o mesmo ocorre quando os órgãos públicos aportam para debates fundiários. De acordo com o relatório de um funcionário do Ibama que participou de uma fiscalização em 2007, a embarcação da equipe foi interceptada por uma lancha conduzida por Edson Taparello, na qual também estava Fernando Belusso, dono e gerente, respectivamente, da empresa Rondobel: “Indagaram para onde ia a equipe”, escreveu o funcionário.

Os empresários estavam acompanhados de Manoel Benezildo e da repórter Gerciene Belo, do jornal Impacto. Convocaram uma reunião-surpresa, sem programação oficial – burocracia que se faz necessária para ter a presença de representantes públicos. A equipe do Iterpa cedeu à pressão e deslocou-se na lancha do empresário. O técnico do Ibama preferiu não comparecer, pois, segundo ele, tratava-se de transporte oferecido por uma empresa que tinha interesse direto no problema e isso poderia causar interferência na fiscalização.

O relatório do Ibama, cujo integrante não compareceu à reunião, descreve o que a funcionária do Iterpa lhe contou: “Os participantes decidiram pela regularização fundiária dos lotes comunitários na modalidade individual, conforme era desejo, também, dos empresários”. A Terra Indígena Cachoeira do Maró está em processo de demarcação pela Funai. A última visita de funcionários do órgão ocorreu em setembro deste ano e buscava identificar fisicamente o local de ocupação. Para a Funai, não está em questão a autenticidade da reivindicação dos índios. “Não cabe ao Estado, ou à Funai, dizer quem é índio e quem não é”, afirma Márcio Meira, presidente da entidade

A lei e a antropologia, segundo Meira, definem a legitimidade da afirmação étnica pela autodeclaração. “Índio é qualquer membro de uma comunidade indígena, que se reconhece como tal e é reconhecido pela comunidade como um membro”, explica. É questão de afirmação social, histórica, econômica e cultural.

Na complexa teia de demandas por terras da Gleba Nova Olinda, a bola da vez é a criação do Projeto de Assentamento Estadual Agroextrativista (Peaex), que envolve as comunidades Vista Alegre e Prainha. Os títulos podem ser regularizados em cinco ou 25 mil hectares, em lotes individuais ou coletivos. E, para cada possibilidade, surge uma pressão contrária. É onde ocorrem os maiores achaques, já que a demanda dos boraris está nas mãos da Funai. Em Vista Alegre e Prainha também há divisão. Um lado, liderado por Márcio Crispim, na Prainha, e Sidiclei Fernandes dos Santos, na Vista Alegre, presidentes de associações locais montadas pelos empresários, pede ao Iterpa uma pequena área de cinco mil hectares e lotes individuais, de forma que vão poder seguir vendendo madeira para os empresários. A maioria se mostra contra esse posicionamento, mas não sabe como se manifestar oficialmente. Pedem um assentamento de lote coletivo, com cerca de 25 mil hectares – número próximo ao definido por uma pesquisa realizada pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, e que identifica a área realmente ocupada pelo uso tradicional, incluindo reservas de caça e terras para plantações de mandioca, como entre 15 e 20 mil hectares.

Algumas associações comunitárias, como a Acutarm, estão unidas para a luta por uma terra menor. No dia 18 de junho ocorreu uma reunião com os empresários, os presidentes das associações, equipes do Iterpa e da Sema. “Os funcionários públicos não estavam capacitados juridicamente para a discussão fundiária. Estavam ali apenas para fazer vistorias dos planos de manejo de madeira”, relatou um funcionário do Ministério Público que não quis se identificar. Isso não foi um empecilho, pois a reunião ocorreu, de acordo com um relatório do MP, inclusive com a presença dos madeireiros Rosenil Vaz, Francisco Souza e Alfredo Sippert.

Laurimar dos santos, o guariba, 63 anos, vive na Prainha e mostrou-se revoltado com a situação que está vivendo quando nos encontramos. Simpático, ele afirmou que não gosta de ir à cidade: “Lá nos tratam que nem bicho, nos chamam de índio”. Santos não aceita um terreno de cinco mil hectares para toda sua família e comunidade. “Estão nos espremendo, vamos comer areia”, esbraveja.

Contrário à posição de Santos está o desejo de Márcio Crispim, que me recebeu de uma forma também simpática, ainda que um tanto desconfiada. Crispim é presidente da associação da sua comunidade, mas ele não se lembra do nome. Diz que não precisam dessa terra toda. Sobre a associação que preside (mais tarde descobri que se trata da Ainorma), Crispim afirmou que nunca houve uma reunião ou assembleia, assumiu sem desconforto que é ligado aos madeireiros, e que por isso recebe um salário com carteira assinada. Está certo de estar contribuindo para o desenvolvimento da região. Mas em outra roda de conversa comentaram que ele deseja partir para Manaus com o dinheiro que tem recebido.

Crispim é amigo de Sidiclei, pastor evangélico da Vista Alegre, que por sua vez é amigo de Edward Luz, o antropólogo missionário. Sidiclei também luta para convencer sua comunidade a aceitar um território menor, ajudar os empresários e receber benefícios e investimentos em troca. Só que Sidiclei deu uma derrapada no terreno da ética, logo após o episódio do fogo no Arapiuns. E foi obrigado a retratar-se publicamente de seus atos, acusado de achacar sua própria comunidade. Ele havia escrito uma carta, “impulsionado pela raiva da informação que foi repassada para nós”, em suas palavras, e resolveu escrever outra em seguida, para as autoridades, desmentindo-se da primeira. As duas cartas estão com o Ministério Público do Estado. A primeira é um abaixo-assinado organizado por ele, no qual a comunidade abria mão de 20 mil hectares em favor das empresas madeireiras e do desenvolvimento regional. Mas a história não foi bem assim, segundo Sidiclei. Em 7 de dezembro passado, ele assinou a segunda carta, direcionada ao Iterpa, na qual constava: “A lista foi feita como um abaixo-assinado das pessoas que queriam um gerador e não dos que queriam a ampliação da área da comunidade… quem foi coletar essas assinaturas fui eu… quando conversava com os moradores, explicava que era uma lista para conseguir o gerador”. Resumo: o abaixo-assinado que ele mesmo organizou foi feito para pedir a diminuição de terras, e não para ganhar um gerador elétrico.

Sidiclei abriu para o Iterpa o jogo para reduzir o território comunitário. Mas seguiu lutando ao lado daqueles que ofereciam o gerador em troca de madeira de lei. As doações têm sido feitas, e a comunidade tem se mostrado receptiva com as benfeitorias. De acordo com o que se ouviu numa recente visita do MP à Vista Alegre, disseram que “receberam doações de seu Francisco Souza, ganharam um grupo gerador, fiação elétrica, vão construir um templo”. Eles “preferem ficar com os cinco mil hectares e ter certeza de que terão os empregos com os empresários madeireiros”. A promotora de justiça também os ouviu dizer que “há pessoas empregadas de carteira assinada e que recebem direitinho e que a vida melhorou bastante e acham que pode melhorar ainda mais”.

Desde que a indústria madeireira passou a sofrer com a repressão à extração ilegal, a partir de 2008, o Oeste paraense foi alçado à posição de um dos grandes fornecedores do mercado. No último ano houve um crescimento de 76% das autorizações de manejo florestal, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Operações de fiscalização têm sido realizadas – inclusive, contando com apoio logístico dos madeireiros. Por vezes são distribuídas multas. Os bens apreendidos, como carretas, motosserras, tratores, quando pegos em flagrante, têm sido liberados pela Justiça Federal de Santarém. E, por mais que os fiscais do Ibama percebam que há algo estranho no ar, eles não têm conseguido comprovar. E, em ano eleitoral, um dos setores mais importantes da economia do estado, o setor madeireiro passou a ter ainda mais influência política. “A gente sabe que tem coisa errada, que extraem madeira fora do plano. O problema é que é difícil provar”, afirma um ex-funcionário do Ibama local que também não quer se identificar.

No caso do incêndio das balsas, como nem o IBAMA nem a Sema conseguiam provar as ações ilegais na região, e a demanda fundiária não foi resolvida, surgiu a revolta. Para reagir contra a retirada da madeira e a falta de definição dos títulos de terras, os moradores da Gleba Nova Olinda se juntaram com os ribeirinhos e indígenas do Arapiuns e apreenderam as duas balsas.

Diversas lideranças comunitárias estavam presentes. Agiam de forma coletiva. Mas uma personalidade, já de destaque no movimento social de resistência, foi acusada de ser uma das responsáveis e responde judicialmente pelo ato, junto de um grupo de líderes. É Dadá, do Novo Lugar. “Sou perseguido”, ele diz. Tem sido assim desde que ele fez um curso de agente ambiental do Ibama, em 2003, época em que teria iniciado sua luta política.

Foi nos tempos do Ibama que Dadá, com acesso a relatórios de fiscalização e autorizações de manejo de madeira, descobriu a chegada dos madeireiros na área e passou a organizar a resistência. Com ele estavam Edil e Valnei, líderes de suas respectivas comunidades (Novo Lugar, Cachoeira do Maró e Sociedade dos Parentes). Esses dois tiveram de fugir da região, sob escolta do programa de proteção, para não serem mortos. Dadá ficou: “O que adianta eu ter uma proteção fora, se na aldeia vão ficar meus filhos, minha esposa, minha mãe, meus tios? Se querem me proteger, que seja na minha casa, na aldeia”.

José Heder Benatti, presidente do Iterpa, diz que está informado das negociações por terra que estão ocorrendo sob pressão e achaque. Justifica que o Estado está tomando providências para regularizar a região e consertar os erros anteriores. “As comunidades estão sendo ouvidas, com prioridade, sobre o uso tradicional da terra”, afirma, lembrando que isso não ocorreu quando transferiram os madeireiros.

Se insistirem em trocar um gerador por 20 mil hectares, Benatti diz que o instituto vai negar a titulação. “Essa pressão vai ser inócua”, garante. “A área vai ser formalizada, junto ao Ministério Público, com referência ao estudo do Museu Goeldi. Eles vão ter direito à área que ocupam e usufruem.” Se a programação correr da maneira que ele espera, em três anos o Oeste do Pará, que era uma área esquecida, terá regularizado 1,3 milhão de hectares. No entanto, “período eleitoral não é muito favorável para esse tipo de conversa”, pondera o presidente do Iterpa. Outro problema é que, enquanto isso, a valiosa madeira que pertence em parte às comunidades, e em parte ao patrimônio público, terá sido escoada por mãos privadas.

“Eu tenho medo”, relata a mãe de dadá. Dona Edite assistiu seu filho chegar em casa ferido após o espancamento, a casa dele ser queimada na aldeia, e, neste ano, o outro filho, Poró, também chegar em casa espancado, em maio último. “Dizem por aí que não tem conflito”, ela diz, em alusão a declarações de lideranças de Fé em Deus e Vista Alegre. “Isso é mentira! Aqui tem conflito, e temo por meus filhos. Eu fico muito preocupada. Tem noite que não durmo. Fico tensa quando vão à cidade. Sonho que meu filho pode estar sendo morto”, desabafa a senhora. “Eu tenho muito medo.”

Common nonsense: a review of certain recent reviews of the “ontological turn” (Anthropology of this Century)

By Morten Axel Pedersen

http://aotcpress.com/articles/common_nonsense/

If the success of a new theoretical approach can be measured by the intensity of the passion and the amount of critique it generates, then surely the so-called “ontological turn” within anthropology and cognate disciplines qualifies as one. As still more scholars and perhaps especially students express sympathy with some or all of its analytical aspirations, the larger and the louder becomes the chorus of anthropological sceptics expressing reservations about the project and its implications. But what is this “turn” really about, and how fair – and thus also how damaging – are the various critiques raised against it? With a view to addressing these and related questions, my aim in this essay is to review certain recent reviews of the ontological turn with special emphasis on whether or not this theoretical method and some of the most common critiques of it may themselves be said to rest on implicit meta-ontologies.

Let me begin by describing what I consider the ontological turn to be all about. I shall be relatively brief, for a lot has already been written about this question, notably by my friend and sometimes partner in crime Martin Holbraad, partly in relation to critiques of the book Thinking Through Things, which he co-edited with Amira Henare and Sari Wastell (and to which I myself contributed) in 2007.

In a recent paper about the oftentimes implicit linguistic conventions underpinning anthropological descriptions of Amerindian cosmologies, Magnus Course correctly observes ‘that what people have meant by ontology has been diverse’ and that the ontological turn therefore comprises ‘neither a “school” nor even a “movement”, but rather a particular commitment to recalibrate the level at which analysis takes place’ (2010: 248). Nevertheless, Course goes on to define it as the ‘dual movement towards, on the one hand, exploring the basis of the Western social and intellectual project and, on the other, of exploring and describing the terms in which non-Western understandings of the world are grounded’ (ibid). This characterization seems to me basically right, for the ontological turn has always above all been a theoretically reflexive project, which is concerned with how anthropologists might get their ethnographic descriptions right. The ambition is to devise a new analytical method from which classic ethnographic questions may be posed afresh. For that is what the ontological turn was always meant to be, in my understanding: a technology of description, which allows anthropologists to make sense of their ethnographic material in new and experimental ways.

So, why all the fuss? Leaving aside the already hotly debated proposition that ‘ontology is just another word for culture’ (Venkatesan 2010) and other claims that the ontological turn is simply an anachronistic icing on the obsolete culturalist cake, one of the most common objections centres on the very word ontology itself. For just how – many students and scholars ask themselves and others with varying degrees of incredulity and shock (for a good example, see Keane 2009) – can this term, with its heavy load of philosophical baggage and its metaphysical, essentialist, and absolutist connotations, be of any use to the anthropological project? One of the best examples of this critique can be found in a recent essay by Paolo Heywood (2012). Inspired by Quine’s (mocking) concept of “bloated universes” in which ‘”existence” covers everything both actual and potential’ (2012: 148), Heywood argues that the ontological turn has failed to live up to its own mission of always allowing ethnographic specificity to trump theoretical generality by operating with a tacit meta-ontology of its own. ‘At some point or another along the path traced by the “ontological turn”‘, Heywood asserts, ‘we will have to start deciding what is, and what is not. Holbraad and others use the word “ontology” precisely because of the connotations of “reality” and “being” it brings with it; yet they neglect to acknowledge that insisting on the “reality” of multiple worlds commits you to a meta-ontology in which such worlds exist: what Quine would call “a bloated universe”‘ (2012: 146).

Of the different critiques of the ontological turn that I have come across over the years, this is one of the subtlest. For, even if one does not necessarily share Heywood’s concern that ‘there is a difference of usage in the concept [of ontology] as it is employed by anthropologists and by analytical philosophers’ (after all, why should this constitute a problem at all – surely this is a sign of growing disciplinary confidence and maturity?), Heywood is evidently touching upon a rather delicate question, namely whether the ontological turn amounts to a big theory (or “meta-ontology”, in Heywood’s terms) or not? To be sure, Holbraad in particular has gone to great lengths to stress that the ontological turn (or the “recursive move”, as he calls it in more recent writings) is a heuristic analytical device as opposed to a fixed theoretical framework. In a characteristically mind-boggling line of reasoning, he explains:

At issue … are not the categories of those we purport to describe, but rather our own when our attempts to do so fail … Rather than containing [contingency] at the level of ethnographic description, the recursive move allows the contingency of ethnographic alterity to transmute itself to the level of analysis … [R]ecursive anthropology … render[s] all analytical forms contingent upon the vagaries of ethnographically driven aporia … This, then, is also why such a recursive argument could hardly pretend to set the conditions of possibility of all knowledge, anthropological or otherwise … [T]he recursive move is just that: a move – as contingent, time-bound, and subjunctive as any (Holbraad 2012: 263-264).

It is hard to imagine a more logically compelling response to Heywood’s critique. No, goes Holbraad’s reply, the ontological turn has no covert meta-ontological ground, for its only “ground” is precisely its radically contingent attitude expressed not only in its open-ended attitude to its object of study, but also in its relative lack of commitment to the heuristic concepts that it creates and deploys to make sense of “ethnographically driven aporia”. To claim, as Heywood and several others have done, that variants of the ontological turn have ‘moved too far from the call to “take seriously” other worlds, and started positing world of their own’ (2012: 144) is to fail to recognise the limited degree to which the ontological turn takes itselfseriously. Indeed, seen from its own radically contingent perspective, ‘…a future non- or even anti-recursive turn cannot be excluded, just as they cannot yet, in their constitutive ethnographic contingency, be conceived. What we have, in effect, is a machine for thinking in perpetual motion – an excessive motion, ever capable of setting the conditions of possibility for its own undoing’ (Holbraad 2012: 264-65).

Yet, compelling as Holbraad’s argument is, I am not entirely sure that it lets him and other self-proclaimed “ontographers” (myself included) fully off the hook. For the question is whether the analytic ideal of a radically heuristic “ethnographic theory” (Da Col & Graeber 2011) is actually synthetically possible, to adopt Kant’s old distinction. A perfectly recursive anthropology of the sort sketched by Holbraad above may well be logically conceivable as a pure abstract possibility. But, to my knowledge, all of the “ontographic” studies published to date have been wedded to a particular theoretical ground captured by concepts such as “relational” (Strathern 1988), “fractal” (Wagner 1991), and “intensive” (Deleuze 1994). Certainly, some of my own work is guilty of this – if that is what it is to analyse from a set of theoretical assumptions: a sin for which one can be charged and found guilty in the Cambridge court. As far as I am concerned, the meta-ontological critique made by Heywood does not refer to an ethnographic crime but an anthropological necessity of which one can, as long as one maintains a high level of theoretical reflexivity, consider oneself proud. Indeed, as I am going to suggest in what remains of this essay, this is the main weakness of Heywood’s and other recent critiques of the ontological turn: they are curiously blind to their own theoretical ground. For, no matter whether they want this or not, they too are meta-ontological sinners.

Nowhere is this more clear than in James Laidlaw’s recent review in this journal of my book on Mongolian shamanism, Not Quite Shamans, or, put differently – in keeping with Laidlaw’s own jesting spirit – his review of a single footnote in the book’s Introduction, where I summarise my take on the term “ontology”. The problem, Laidlaw argues (closely echoing Heywood’s critique of Holbraad), is that my position involves a tacit ‘oscillat[ation] between two different uses of “ontology”‘, which are mutually incompatible. On the one hand, Laidlaw asserts, I use this term in the same sense as he himself appears to subscribe to, namely with reference to ‘the study of, or reflection on, the question of what there is – what are the fundamental entities or kinds of stuff that exist?’ And, on the other hand, I also deploy ontology in what Laidlaw considers to be a more radical and dubious sense of a purported ‘”radical alterity” of certain societies … [which] consists not in them having different “socially constructed” viewpoints on the same (natural) world, but in them living in actually different worlds. The differences between them and Euro-America are not therefore epistemological (different ways of knowing the same reality) but ontological (fundamentally different realities)’. This, Laidlaw maintains, is a contradiction, for if in the first sense, ‘”ontologies” … refer to views about what exists rather than … a claim about what exists’, then, in the second and what he calls “original” sense, people in ‘Melanesia, the Amazon, and northern Mongolia live in different worlds, [and] enjoy ontological auto-determination’. Accordingly, Laidlaw concludes, my concept of ontology and therefore my theoretical position more generally, ‘delivers not new post-plural multi-naturalism, but merely the familiar old idea that different peoples have different theories about the world’ (Laidlaw 2012).

Now, I am happy to admit that my use of the term ontology “oscillates” between two different and apparently contradictory meanings, namely ontology in the sense of “essence” (what there is) and ontology in the sense of “theory” or “model” (of what there is). But I am less inclined to agree that this poses any real anthropological problem; in fact, I would like to think of this seeming slippage from essence to theory/model as one of the greatest methodological advantages of the ontological turn. For Laidlaw, there is a qualitative difference between ‘refer[ing] to views about what exists’ as opposed to ‘putting forward a claim about what exists’, and it is precisely because what he refers to as the “original” ontological turn is concerned with the latter project (“ontology”) and not the former (“epistemology”) that it disqualifies itself as (good) anthropology and turns into (bad) philosophy. However, is this a fair depiction of the ontological turn, be that in its “original” form or not? And further, does not the distinction between describing ontologies and making ontologies hinge on a tacit meta-ontology of its own? It seems to me that Laidlaw’s critique of the ontological turn contains a boomerang-effect, in that the more or less implicit premises underwriting his identification of internal contradictions in my usage of the term “ontology” may be turned back on Laidlaw himself to the effect of exposing otherwise hidden theoretical grounds in his own anthropological project.

To flesh out this point, it is instructive to look at a concrete example of what Laidlaw refers to as my ontological “possession” or “challenge”. He sums up my attempt to describe what a Darhad Mongolian shamanic spirit (and a shaman) is in the following way:

Instead of being unchanging entities of which people’s diverse fleeting impressions are imperfect representations, the unseen entities of shamanism are labile, as it were, “all the way up” … The confusing, fragmentary manifestations people encounter in a shamanic séance just is what there is. On this account, “genuine shamans”, those who are able to some degree to pin their spirits down and control them are, Pedersen argues, less shamanic than the not-quite shamans whose unpredictable behaviour more fully manifests the “fluid ontology of spirits”: “ontology” here meaning merely “composition” (Laidlaw 2012).

This is a stellar gloss of one of the central arguments of my book, with which I have no difficulty. Indeed, note that Laidlaw and I here seem to agree about how “ontology” might be used in an anthropologically meaningful sense, namely as “composition”. But what interests me for our present purposes is the seemingly insignificant “merely” in Laidlaw’s formulation. For what he presents us with here, I think, is the tip of a conceptual iceberg that extends right down to the edifice of his own meta-ontology. After all, what invisible referent could this “merely” have other than the essentialist notion of “the really real” with which Laidlaw (unjustifiably, in my view) accuses the ontological turn of operating? It would appear that, in his eagerness to expose the contradictions of my argument, Laidlaw inadvertently brings to the fore some pretty serious ontological challenges of his own.

But of course, this does not let me off the hook, either. The fact that Laidlaw performs the same meta-ontological sleight of hand that he associates with me does not make his critique of the ontological turn less pertinent. But then again, perhaps it does in one way. For what happens, we may ask, the moment we omit the word “merely” from Laidlaw’s depiction of the Northern Mongolian shamanic cosmos ? We are left with an anthropological concept of ontology that does not confuse “essence” and “model”, or “reality” and its “representations”, but that denotes a single yet infinitely differentiated object of ethnographic study, which spans ‘everything both actual and potential’ (Heywood in op cit). This anthropological ontology contains everything one encounters during fieldwork – spirit beliefs and doubts about these, propositions about the nature of reality, and descriptions of such propositions, and then some – for the whole point is to never ‘start deciding what is, and what is not’ (ibid). This is what the talk about “multiple worlds” is all about: not the (epistemologically and politically) dubious reduction of each “culture” or “people” to a encapsulated reality, but, on the contrary, the explosion of potential concepts and “worlds” in a given ethnographic material, or combination (comparison) of such materials. There are still too many things that do not yet exist, to paraphrase a memorable expression by Eduardo Viveiros de Castro (1998).

Still – and here my position may be seen to differ somewhat from Holbraad’s – although the ontological turn offers an unusually open-ended and creative technology of ethnographic description, it does, nevertheless, rest on a certain set of theoretical premises, which may or may not (depending on how strictly one defines this term) be deemed meta-ontological. Methodological monism, we might call this heuristic anthropological ontology: the strategic bracketing of any assumption – on behalf of the ethnographer and the people studied – that the object of anthropological analysis is comprised by separate, bounded and extensive units. The ontological turn amounts to a sustained theoretical experiment, which involves a strategic decision to treat all ethnographic realities as if they were “relationally” composed, and, in keeping with its “recursive” ambitions, seeks to conduct this experiment in a manner that is equally “intensive” itself. This is why the ontological turn contains within its conceptual make-up the means for its own undoing: it is nothing more, and nothing less, than a particular mode of anthropological play designed with the all too serious aim of posing ethnographic questions anew, which already appear to have been answered by existing approaches. To claim, as Laidlaw for instance does in his review of my book (Pedersen 2012), that I overlook what appears to be the most obvious interpretation in my analysis of a Mongolian hunter’s uncertainty about the spirits not as doubt about their existence but as doubt about their whereabouts at a particular time and place is therefore not entirely off the mark. But the point is that this “least obvious” interpretation (see Holbraad & Pedersen 2009) is done entirely deliberately and with a very particular purpose, namely, in the case at hand, to account for peoples’ “apparently irrational beliefs” and their distancing towards such beliefs in a new and ethnographically more satisfactory way.

For the same reason, the ontological turn does not, as I would like to see it, automatically mean taking people, animals, artefacts, or whatever “more seriously” than other anthropologists do, as if there were a vantage-point imbued with the authority to pass such normative judgements. But it does involve adopting a certain, and theoretically highly self-reflexive, stance towards what ethnographic data might be, what concepts they might evince, as well as what such data and their conceptual yield might do to common senses of what reality is. It is, above all, this theoretical reflexivity which Holbraad and I try to “take seriously”, and for which we may justly be criticized, albeit not, I think, necessarily for the reasons laid out by Heywood, Laidlaw, and others.

The ontological turn, then, does indeed involve a concept of a “bloated universe”, but this does not mean that it celebrates itself as the holy grail of anthropological theory. Rather, it represents a certain (and thus unavoidably fading) moment in the recent history of the discipline, where a vaguely defined cohort of mostly Cambridge-associated scholars found it exciting to experiment with the nature of ethnographic description and anthropological theorizing in a certain way. Certainly, no one is pretending that the ontological turn is particularly new anymore, let alone that it will last forever. Indeed, the time may well have come to put the ontological turn to rest, or at least to transform it beyond recognition by distorting its core assumptions from within. So, by all means, let us all look for ways to puncture the inflated ontological balloon, insofar as it is fair to say that such a thing ever existed beyond the artificial confines of the monster created by its critics to shoot it down.

Still, there are different ways of deflating the ontological bubble. Some of these critiques may be deemed more productive than others in that they seek to push forward the limits of anthropological theory and the riddles that good ethnography poses, as opposed to trying to defend an imagined status quo or, even, reverting to ossified positions. As I have suggested elsewhere (2012), such a productive unsettling of the ontological turn (and of “relational anthropology” more generally) would seem necessarily to entail a further radicalization or distortion of its “intensive” ground to the point where it ceases being “relational” anymore. Possibly, this differs from Holbraad’s attempt to construct a ‘machine for thinking in perpetual motion’ (cf. op. cit), for whereas he takes “alterity” to constitute an ethnographic fact that only a recursive anthropology can take fully seriously, I wonder whether the notion of ‘ethnographic alterity’ itself might not be inseparable from the very ‘relational anthropology’ that we might now imagine leaving behind. Be that as it may, whether a creative destruction or distortion of the ontological turn can occur from within its own recursive logic (as Holbraad seems to suggest) or – as I rather tend to think – not, is, in the larger scheme of things, beside the point. What matters is the commitment to an anthropological vision, which insists that a viable answer can only be found through still more ethnographic explorations and experimentations. To be sure, it is hard to imagine Laidlaw or any other critic of the ontological turn disagreeing with this (again: show me an anthropologist who does not aspire to take his ethnography seriously!) But I do think that he and other “default sceptics” may be criticized for a certain lack of reflexivity about their own theoretical grounds. After all, scepticism – along with its favourite rhetorical trope, sarcasm – rests on a certain ontology, too.

In his classic essay, “Common sense as a cultural system” (1975), Clifford Geertz writes:

There are a number of reasons why treating common sense as a relatively organized body of considered thought, rather than just what anyone clothed and in his right mind knows, should lead on to some useful conclusions; but perhaps the most important is that it is an inherent characteristic of common sense thought precisely to deny this and to affirm that its tenets are immediate deliverances of experience not deliberated reflections upon it … Common sense is not what the mind … spontaneously apprehends; it is what the mind filled with presuppositions … concludes … [N]o religion is more dogmatic, no science more ambitious, no philosophy more general. Its tonalities are different, and so are the arguments to which it appeals, but … it pretends to reach past illusion to truth, to, as we say, things as they are (1975: 7, 16-17)

This, it seems to me, is a rather precise depiction of the more or less conscious meta-ontological ground inhabited by Laidlaw, Heywood, and, coming to think of it, what seems to be most other recent critiques of the ontological turn (see e.g. Geismar 2011): common sense, in its various guises. Or, could we say, provocatively, common nonsense, as a way of conveying what in my own (and it would appear also Geertz’s) opinion represents the basic flaw of this approach, namely its striking unwillingness to reflect on its own theoretical presuppositions. Common nonsense, that is to say, as a term for denoting the all too common anthropological problem of not recognising the intrinsic and inescapable theoretical ground of all ethnographic description and anthropological analysis, including – and perhaps especially so – those descriptions and analyses that claim “to not be overly theoretical” or, worse, to “not be theoretical” at all, as if “theory” was the name of a spirit that could be exorcized by denying its presence and not talking about it. And, not for the first time, we can thank an old anthropological master like Geertz for reminding us that common (non)sense, along with other meta-ontologies in our discipline, is associated with certain particular ‘stylistic features, the marks of attitude that give it its peculiar stamp’ (1975: 17). For is that not how the otherwise tacit ontology of anthropological skepticism shows its face: through a telling ‘air of “of-courseness,” a sense of “it figures” [that] is cast over … some selected, underscored things’ (1975: 18)?

It should be amply clear by now that, from the perspective of the critiques of the ontological turn, the question (indeed, the mere mention) of the word “ontology” is better left to the philosophers to deal with (as if philosophers were especially well equipped to address “big” questions about the reality of things, leaving the “smaller” question of how different people see and know these things to anthropologists and other mortals). But, as I have tried to show, this is, for a number of reasons, an untenable position. The time has come to challenge the commonsensical sceptics to stand up and make explicit their own theoretical ground.

REFERENCES

Course, Magnus. 2010. Of Words and Fog. Linguistic relativity and Amerindian ontology. Anthropological Theory 10(3): 247–263.

Da Col, Giovanni & David Graeber. 2011. Foreword: The return of ethnographic theory. HAU: Journal of Ethnographic Theory 1 (1): vi–xxxv.

Deleuze, Gilles. 1994. Difference and Repetition. London: Athlone.

Geismar, Haidy. 2011. Material Culture Studies and other Ways to Theorize Objects: A Primer to a Regional Debate. Comparative Studies in Society and History 53(1): 210–218.

Geertz, Clifford. 1975. Common Sense as a Cultural System. The Antioch Review 33 (1), pp. 5-26.

Henare, Amira, Martin Holbraad and Sari Wastell. 2007. Thinking Through Things. Theorizing Artefacts Ethnographically. London: Routledge.

Heywood, Paolo. 2012. Anthropology and What There Is: Reflections on “Ontology”. Cambridge Anthropology 30 (1): 143-151.

Holbraad, Martin. 2012. Truth in Motion. The Recursive Anthropology of Cuban Divination. Chicago: Chicago University Press.

Holbraad, Martin and Morten Axel Pedersen. 2009. “Planet M : The intense abstraction of Marilyn Strathern.” Anthropological Theory 9 (4): 371-394.

Keane, Webb. 2009. On Multiple Ontologies and the Temporality of Things. Material World blog, 7 July 2009. URL: http://www.materialworldblog.com/2009/07/on-multiple-ontologies-and-the-temporality-of-things/. Accessed 15 Sept. 2012.

Laidlaw, James. 2012. Ontologically Challenged. Anthropology of This Century, vol. 4, London, May 2012. URL: http://aotcpress.com/articles/ontologically-challenged/.

Pedersen, Morten Axel. 2011. Not Quite Shamans. Spirit Worlds and Political Lives in Northern Mongolia. Cornell University Press.

Pedersen, Morten Axel. 2012. The Task of Anthropology is to Invent Relations: For the Motion. Critique of Anthropology 32 (1): 59-65.

Strathern, Marilyn. 1988. The Gender of the Gift. Berkeley: University of California Press.

Venkatesan, Soumhya et al. 2010. Ontology Is Just Another Word for Culture: Motion Tabled at the 2008 Meeting of the Group for Debates in Anthropological Theory, University of Manchester. Critique of Anthropology 30 (2) pp 152-200.

Viveiros de Castro, Eduardo. 1998a. Cosmological deixis and Amerindian perspectivism. Journal of the Royal Anthropological Institute 4 (3): 469-88.

Wagner, Roy. 1991. The Fractal Person. In Big Men and Great Men. Personifications of power in Melanisia. M. Godelier & M. Strathern (eds.), pp.159-173. Cambridge University Press.

Magaly Pazello: “A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores” (viomundo)

Publicado em 14 de janeiro de 2013 às 12:04

Criador do RSS, Reddit e Creative Commons suicida-se aos 26 anos, sob os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos EUA

por Magaly Pazello, especial para o Viomundo

Este foi um final de semana muito triste, perdemos Selarón no Rio de Janeiro e, em Nova York, aos 26 anos, Aaron Swartz se suicidou.

A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores, ativista, prodígio da computação, escritor. Essa perda trágica repercute intensamente pela internet, como uma onda de dor, espanto e indignação. Mais e mais sites publicam relatos, declarações, notícias.

Esse rapaz, os quais os sites de notícia não se cansam de sublinhar que sofria de depressão, sofreu os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acusado de “roubar” milhões de artigos científicos ele enfrentava um processo judicial que poderia resultar em 35 anos de prisão caso fosse considerado culpado. No centro desse processo se instalou uma séria controvérsia que deixa uma marca indelével sobre o direito de todas as pessoas ao acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Aaron Swartz, aos 13 anos foi o ganhador do ArsDigita Prize, uma competição para jovens criadores de websites não-comerciais que fossem úteis, colaborativos e voltados para atividades educacionais. O prêmio incluiu uma visita ao famoso Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mais tarde seria protagonista dos eventos que o levaram ao suicídio.

Aos 14 anos, Aaron integrou a equipe de criadores do RSS 1.0, um recurso bacana de leitura de sites através de atualizações em tempo real, os famosos feeds. Eu adoro!

Aos 15 anos, integrou a equipe que desenhou as licenças Creative Commons.

Na sequência, fundou uma start-up, que depois se fundiu à rede social Reddit, onde ele desenvolveu a plataforma que a levaria ao sucesso. E cujo desenho também resultou na base de sites Open Library, ou seja, bibliotecas abertas, e no Archive.org, uma espécie de máquina do tempo da internet. E esta seria sua vida e sua bandeira a partir de então: o acesso ao conhecimento e à informação, sua disponibilização online gratuita através de plataformas abertas, o desenvolvimento técnico dessas plataformas. Especialmente o acesso ao conhecimento e à informação públicas e geradas a partir de recursos públicos. Suas atividades profissionais nunca visaram à obtenção de lucro e promoção pessoal. Sua genialidade está presente em dezenas de projetos semelhantes.

Crítico de filmes e pesquisador, seu blog tinha um enorme público. Entre 2010 e 2011, foi bolsista do Laboratório de Ética Edmond J. Safra na Harvard University, onde pesquisava sobre corrupção institucional. Fundou e era líder do DemandProgress.org, uma plataforma inteligente de ciberativismo.

Aaron foi uma das vozes fortes contra o SOPA-Stop Online Piracy Act, um projeto de lei contra a pirataria online proposto pelo poderoso setor de propriedade intelectual e direitos de autor, a indústria fonográfica e de cinema. Mas o projeto de lei, de fato, iria endurecer as leis a tal ponto que sequer mencionar um texto num blog seria considerado um ato ilegal, estrangulando o direito à liberdade de expressão.

Aaron, junto com Shireen Barday, “baixou” e analisou por volta de 440 mil artigos acadêmicos da área de Direito para determinar o tipo de financiamento que os autores receberam. Os resultados, publicados noStanford Law Review, levaram a trilhar os caminhos dos fundos públicos para pesquisa. Por causa de sua capacidade de processar grandes quantidades de dados era requisitado para colaborar com vários outros pesquisadores. Disto resultou o projeto theinfo.org, que chamou a atenção do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

theinfo.org tornou livre e aberto o acesso a uma imensa base de dados públicos somente disponível gratuitamente através de máquinas instaladas em 17 bibliotecas em todo o país, o que obrigava as pessoas interessadas a se deslocar até os pontos de acesso ou, então, pagar 10 centavos por peça. Foram aproximadamente 20 milhões de páginas da Corte Federal, algo de tirar o fôlego. Ele deixou muita gente brava com essa façanha, a tal ponto que começou a ser investigado pelo FBI, contudo sem consequências.

Mas a história foi bem diferente com o MIT. Ainda no Laboratório de Ética de Harvard, em 2011, Aaron se utilizou do acesso aberto do MIT para coletar por volta de 4,8 milhões de artigos científicos, incluindo arquivos  da base JSTOR muito conhecida no mundo acadêmico. O caso veio a público, creio, quando ele foi preso em julho de 2011.

A controvérsia sobre se seria roubo ou não foi substituída pelo debate sobre se era correto a cobrança por artigos científicos cujas pesquisas são financiadas com dinheiro público. Sobre a mercantilização e privatização do conhecimento científico, direitos de autor e os custos para tornar esses materiais disponíveis. Uma campanha de apoio a Aaron e o manifesto Guerrilla Open Access, escrito por ele em 2008, ganhou outra vez visibilidade (uma tradução pode ser encontrada aqui).

Segundo a ONG Electronic Frontier Foundation, embora os métodos de Aaron fossem provocativos, os seus objetivos eram justos. Ele lutava para libertar a literatura científica de um sistema de publicação que tornava inacessível essa produção para a maior parte das pessoas que realmente pagaram por isso, quer dizer, todas as pessoas que pagam impostos. Essa luta deveria ser apoiada por todos.

As coisas começaram a tomar outros rumos com o declínio do debate. Após a devolução das cópias digitais dos artigos, a JSTOR decidiu não apresentar queixa contra Aaron. Mas a façanha desta vez resultou num processo por crime cibernético por parte do governo dos Estados Unidos munido pelo MIT. Em seu desabafo ao saber do suicídio, Lawrence Lessig escreveu:

Logo no início, para seu grande mérito, JSTOR compreendeu que era “apropriado” desistir: eles declinaram de dar prosseguimento à sua própria ação contra Aaron e pediram ao governo para fazer o mesmo. O MIT, para sua grande vergonha, não foi limpo, e então o promotor teve a desculpa que ele precisava para continuar sua guerra contra o “criminoso” que nós amamos e conhecemos como Aaron.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos interpretou a ação de Aaron como crime de roubo e a demanda foi levada ao grande júri que decidiu que ele deveria ir a julgamento. Então, a máquina de fazer moer do governo começou a funcionar.

Primeiramente, Aaron foi acusado de quatro crimes todos relativos à violação de sistema informático. Mas depois o Departamento de Justiça, numa atitude de “exemplaridade”, acrescentou mais nove acusações, todas contidas na Lei de Abuso e Fraude Informática, e atos de conspiração.

Além disto, familiares e amigos, como Lawrence Lessig, relatam situações de intimidação por parte do Departamento de Justiça. Alex Stamos, especialista em crimes cibernéticosalém de inúmeras outras vozes, desmontam item por item o exagero forçado na perseguição a Aaron, a verdade sobre o “crime”.

O efeito cascata dessas acusações resultaram na possibilidade real de Aaron Swartz ser condenadoa 35 anos de prisão e multa de 1 milhão de dólares!!!

Lawrence Lessig diz:

Aqui, é onde nós precisamos de um melhor sentido de justiça e de vergonha. O que é ultrajante nesta história não é apenas [o que aconteceu com] Aaron. É também o absurdo do comportamento do promotor. Bem desde o início, o governo trabalhou tão  duro quanto pode para caracterizar o que Aaron fez da forma mais extrema e absurda. A “propriedade” que Aaron “roubou”,  nós fomos informados, valia “milhão de dólares” — com a dica, e então a sugestão, que o seu objetivo de obter lucro com o seu crime. Mas qualquer um que diga que se pode ganhar dinheiro com um estoque de ARTIGOS ACADÊMICOS é idiota ou mentiroso. Estava claro o que disto não se tratava, mas o nosso governo continuou a pressionar como se tivesse agarrado terroristas do 11/09  com a boca na botija.

Não consigo imaginar o que passou com esse rapaz de personalidade introvertida, apresentando um quadro de depressão, à medida que a data do julgamento se aproximava. Sua solidão, seu medo diante deste quadro kafkiano. Sua morte me pareceu daqui de longe uma forma de exílio. Como o exílio do protagonista das tragédias gregas. A morte é a condenação ao exílio da República que não permite a existência dos poetas.

No sábado, ainda sob o impacto do acontecimento, sua família fez um comunicado público, culpando as autoridades judiciais e o MIT. O documento afirma que essa morte não é apenas uma tragédia pessoal, mas sim um produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações, o qual iria punir uma pessoa por um alegado crime que não fez vítimas.

Essa última parte é a chave de todo o enredo, pois para a aplicabilidade da lei com a qual Aaron seria julgado era necessário uma série de aspectos todos ausentes dos atos cometidos.

Um memorial online está sendo construído em homenagem a Aaron.

O funeral será realizado nessa terça-feira, 15 de janeiro, em Illinois.

Como tributo a comunidade ciberativista criou uma página com o objetivo de ser um grande e espontâneo repositório de produção acadêmica colocada a disposição  de todas as pessoas de forma gratuita e aberta.

Todas as pessoas estão convidadas a disponibilizar seus trabalhos em qualquer idioma. No twitter acompanhe pela hashtag #pdftribute.

JSTOR publicou suas condolências imediatamente e o MIT anunciou que vai investigar sua responsabilidade na morte de Aaron, mas  para mim este anúncio beira o cinismo.

E o que nós aqui no Brasil temos com isso?

Bom, a internet foi concebida como uma plataforma sem fronteiras físicas e territoriais. E quando ocorre um evento, triste ou alegre, seja onde for, que está relacionado ao âmago do funcionamento desse incrível sistema isso nos interessa.

O aperfeiçoamento técnico da internet e seu sistema regulatório é, também, de grande interesse de todos, sobretudo quando este aperfeiçoamento está relacionado com o acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Em relação à produção científica vale lembrar que o governo brasileiro tem tido uma participação importante na formação de uma cultura de acesso aberto e gratuito. Embora de maneira, por vezes, contraditória.

Mas deixando as idiossincrasias de lado… a área de saúde é um belo exemplo de acesso compartilhado ao conhecimento com a instalação, no Brasil, da BIREME, em 1967, cujo objetivo é contribuir com o desenvolvimento da saúde fortalecendo e ampliando o fluxo de informação em ciências da Saúde.  Dela, em 2002, surgiu o projeto Scielo, uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros que se expande pela América Latina.

No início dos anos 2000, em consonância com a o debate global, é lançado o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica com vários setores e órgãos do governo brasileiro entre os apoiadores da inicitiava (leia aqui e aqui).

Contudo, a sucessão de eventos desde a cópia dos milhares de artigos científicos até o processo judicial e o incremento da pena — resultando na absurda possibilidade de Aaron ser condenado a 35 anos de prisão mais multa — serve de alerta para a necessidade de nós mesmos repensarmos e revisarmos estrategicamente as recentes leis aprovadas no nosso Congresso Nacional sobre cibercrime, além da debilidade política e conceitual a que chegou o Marco Civil.

Nós não estamos distantes de absurdos como o caso de Aaron! Em terras tupiniquins outros absurdos já acontecem por causa do uso excessivo das leis de difamação e persistência das leis de desacato.

Magaly Pazello é pesquisadora do Emerge — Centro de Pesquisa e Produção em Comunicação e Emergência da Universidade Federal Fluminense (UFF), sendo responsável pela área de pesquisa de governança na internet. É ciberativista e feminista.

Partido del futuro (LaVanguardia.com)

Su proyecto es cambiar la forma de hacer política mediante democracia directa instrumentada a través de internet

12/01/2013 – 00:00h

Por Manuel Castells

El 8 de enero se anunció en internet la creación del “partido del futuro”, un método experimental para construir una democracia sin intermediarios que sustituya a las actuales instituciones deslegitimadas en la mente de los ciudadanos. La repercusión ciudadana y mediática ha sido considerable. En tan sólo el primer día del lanzamiento, y a pesar de que se colapsó el servidor tras recibir 600 peticiones por segundo, hubo 13.000 seguidores en Twitter, 7.000 en Facebook y 100.000 visitas en YouTube. Medios extranjeros y españoles, incluyendo este diario, se han hecho eco de una conferencia de prensa desde el futuro que anuncia el triunfo electoral de su programa: democracia y punto (http://partidodelfuturo.net).

Señal de que ya no se puede ignorar lo que surge del 15-M. Porque este partido emerge del caldo de cultivo creado por el movimiento aunque en ningún caso pueda asimilarse al mismo. Porque no hay “el movimiento” con estructura organizativa ni representantes, sino personas en movimiento que comparten una denuncia básica de las formas de representación política que han dejado inermes a la gente ante los efectos de una crisis que no han causado pero que sufren cada día. El 15-M es una práctica colectiva e individual cambiante y diversificada, que vive en la red y en las calles, y cuyos componentes toman iniciativas de todo tipo, desde la defensa contra el escándalo de las hipotecas a la propuesta de ley electoral que democratice la política.

Pero hasta ahora, muchas de estas iniciativas parecen abocadas a un callejón sin salida. Por un lado, las encuestas reflejan que una gran mayoría de ciudadanos (en torno a un 70%) están de acuerdo con las críticas del 15-M y con muchas de sus propuestas. Por otro lado, toda esta movilización no se traduce en medidas concretas que alivien a las personas porque hay un bloqueo institucional a la adopción de dichas propuestas. Los dos grandes partidos españoles son corresponsables de la sumisión de la política a los poderes financieros en el tratamiento de la crisis, compartiendo, por ejemplo, la gestión irresponsable de los directivos del Banco de España, con un gobernador socialista, en el caso de Bankia y del sistema de cajas, que ha conducido a la ruina a miles de familias. De ahí que el 15-M se expresó en el espacio público, en acampadas, en manifestaciones, en asambleas de barrio y en acciones puntuales de denuncia. Pero aunque esta intervención es esencial para crear conciencia, se agota en si misma cuando se confronta a una represión policial cada vez más violenta.

Afortunadamente, el 15-M ha frenado cualquier impulso de protesta violenta, jugando de hecho un papel de canalizador pacífico de la rabia popular. El dilema es cómo superar las barreras actuales sin dejar de ser movimiento espontáneo, autoorganizado, con múltiples iniciativas que no son programa y por eso pueden congregar potencialmente al 99% que saben lo que no quieren, es decir lo que hay, y que se acuerdan en buscar en conjunto nuevas vías políticas de gestión de la vida.

Para avanzar en ese sentido, ha surgido una iniciativa espontánea de ir ocupando el único espacio en el que el movimiento apenas esta presente: las instituciones. Pero no en lo inmediato, porque su proyecto no es el de ser una minoría parlamentaria, sino de cambiar la forma de hacer política, mediante democracia directa instrumentada mediante internet, proponiendo referéndums sobre temas clave, coelaborando propuestas legislativas mediante consultas y debates en el espacio público, urbano y cibernético, planteando medidas concretas a debatir entre la ciudadanía y sirviendo a la vez de plataforma para propuestas que salgan de la gente.

En realidad, no es un partido, aunque esté inscrito en el registro de partidos, sino un experimento político, que se va reinventando conforme avanza. En el horizonte sí se vislumbra un momento en que el apoyo de la ciudadanía a votar contra todos los políticos a la vez y en favor de una plataforma electoral que tenga ese solo punto en el programa permita una ocupación legal del Parlamento y el desmantelamiento del sistema tradicional de representación desde dentro del mismo. No es tan descabellado. Es en gran medida lo sucedido en Islandia, referente explícito del partido que nos habla desde el futuro.

Pero ¿cómo evitar reproducir el esquema de partido en el proceso de conquistar la mayoría electoral? Aquí es donde se plantea la decisión, criticada desde la clase política y algunos medios, de las personas que han tomado esta iniciativa de mantenerse en el anonimato. Porque si no hay nombres, no hay líderes, ni cargos, ni comités federales, ni portavoces que dicen hablar por los demás pero que acaban representándose a si mismos. Si no hay rostros, lo que queda son ideas, son prácticas, son iniciativas. De hecho, es la práctica de la máscara como forma de creación de un sujeto colectivo compuesto de miles de individuos enmascarados, como hicieron los zapatistas en su momento, o como hace Anonymous con su famosa máscara reconocible en todo el mundo pero con múltiples portadores. Incluso el anonimato de la protesta se encuentra en nuestros clásicos: “Fuenteovejuna, todos a una”. Tal vez llegue un momento en que las listas electorales requieran nombres, pero incluso entonces no necesariamente serían líderes, porque se pueden sortear los nombres entre miles de personas que estén de acuerdo con una plataforma de ideas. En el fondo, se trata de poner en primer plano la política de las ideas con la que se llenan la boca los políticos mientras se hacen su carrera a codazos entre ellos. La personalización de la política es la mayor lacra del liderazgo a lo largo de la historia, la base de la demagogia, de la dictadura del jefe y de la política del escándalo basada en destruir a personas representativas. La X del partido del futuro no es para esconderse, sino para que su contenido lo vayan rellenando las personas que proyecten en este experimento su sueño personal de un sueño colectivo: democracia y punto. A codefinir.

Leer más: http://www.lavanguardia.com/opinion/articulos/20130112/54361811362/manuel-castells-partido-del-futuro.html#ixzz2Hmhz1wZo

UPP: o poder simplesmente mudou de mãos? (Le Monde Diplomatique Brasil)

REESTRUTURAÇÃO URBANA NO RIO DE JANEIRO

O coronel Robson Rodrigues, da Polícia Militar do Rio, uma das cabeças pensantes do projeto de pacificação, reconhece de bom grado: “Realmente são as Olimpíadas que ditam nossa escolha. Eu diria até que, sem esse evento, a pacificação nunca teria acontecido”

Por Anne Vigna – 07 de Janeiro de 2013

06845668(Helicóptero da Polícia Militar do Rio de Janeiro durante a operação para instalação de UPP na favela da Rocinha. Ilustração: Rafael Andrade / Folhapress)

A cena poderia acontecer em qualquer bairro da cidade: uma patrulha da polícia que desembarca com estrondo e piora ainda mais o engarrafamento. Mas é preciso estar numa favela do Rio de Janeiro para observar uma jovem tentando acalmar a polícia e ouvindo como resposta, aos gritos, que era melhor “não insistir” porque, afinal de contas, “quem manda aqui somos nós”. Desde 2009, os moradores da favela do Pavão dizem: “O dono do morro mudou”. Os traficantes deram lugar à polícia; as armas e o poder simplesmente mudaram de mãos. Trata-se aqui do resultado mais flagrante de um programa que data de 2008: a “pacificação” das favelas. Mas seu impacto nem sempre é negativo.

Os donos do morroé o título que a equipe do Laboratório de Análise da Violência, dirigido pelo sociólogo Ignácio Cano, escolheu para seu estudo (publicado em julho de 2012) sobre a pacificação no Rio.1 Os trabalhos mostram que, mesmo incompleto e imperfeito, o dispositivo ofereceria resultados incontestáveis em matéria de segurança. “Nas treze primeiras favelas pacificadas no Rio, o número de mortes violentas diminuiu em 70% e as que eram provocadas por intervenções policiais estão agora próximas de zero”, explica o sociólogo. Crítico de longa data da violência das forças da ordem, Cano não poderia ser acusado de idolatria securitária. E seu relatório não poupa os excessos policiais e as escolhas estratégicas duvidosas: “Teria sido bem mais inteligente pacificar em primeiro lugar as favelas mais violentas. Mas a escolha foi feita em função dos grandes eventos esportivos, não da realidade da criminalidade”. O coronel Robson Rodrigues, da Polícia Militar do Rio, uma das cabeças pensantes do projeto de pacificação, reconhece isso de bom grado: “Realmente são as Olimpíadas que ditam nossa escolha. Eu diria até que, sem esse evento, a pacificação nunca teria acontecido”.

A pacificação nasceu do que se chama no Rio uma “conjuntura excepcional”: a cidade ganhou a organização das Olimpíadas e, pela primeira vez, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do estado, Sérgio Cabral, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, selaram uma aliança política. Há muito tempo a luta contra as facções criminosas do Rio não produzia quase nenhum resultado, apenas um número cada vez mais elevado de mortos, particularmente jovens negros. Um pequeno grupo de policiais foi então enviado a Boston, em 2005, para analisar a operação Cease fire (“Cessar fogo”), que acontecia nos bairros pobres (e portanto negros) da cidade. A ideia: criar uma unidade de polícia próxima, ao contrário das ideias que tinham sido defendidas pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, e sua “tolerância zero” entre 1994 e 2001. Em Boston e no Rio, a polícia concentrou seus esforços contra as armas e renunciou a interferir no tráfico de drogas, mesmo que a tarefa se revelasse muito mais árdua no Brasil, onde era preciso também recuperar o acesso aos territórios onde a polícia só se aventurava esporadicamente numa efusão de violência.

A primeira operação ocorreu em 2008: foi uma agência de comunicação que criou o termo “pacificação” (que não era utilizado em Boston). Depois disso, alguns símbolos permaneceram: a polícia de elite do Batalhão de Operações Especiais (Bope) – que se tornou célebre pelo filme Tropa de elite (2007) – fincou sua bandeira no meio do território, antes que uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) fosse instalada. Uma maneira de deixar bem clara a “mudança de proprietários”. Com a preocupação de evitar a violência, as operações eram comunicadas com antecedência a fim de que os traficantes e as armas pudessem desaparecer. A maioria das pacificações aconteceu, então, sem que se atirasse uma só bala.

Uma vez que a UPP é estabelecida, entra em ação a segunda fase da pacificação: a UPP social, “um componente essencial sem o qual a política de segurança não pode funcionar”, insiste o coronel Rodrigues. O objetivo é instalar serviços públicos e criar equipamentos destinados a dinamizar a economia local. “No papel, o projeto é maravilhoso, mas na prática há poucos meios e nenhuma democracia”, deplora a urbanista Neiva Vieira da Cunha. Censuram a cidade por construir teleféricos custosos nos morros, ao passo que os moradores pedem em primeiro lugar hospitais e serviços de saneamento básico.

No entanto, algumas mudanças sociais e econômicas já são visíveis. Para Cano, esse é inclusive um dos efeitos mais positivos da pacificação: “A diminuição da estigmatização das favelas é real; os moradores não sentem mais a necessidade de omitir seu endereço no momento de procurar emprego”. Os moradores das favelas pacificadas finalmente obtêm empregos formais. Será o suficiente para afastar os jovens do tráfico de drogas? “O tráfico não é apenas questão de dinheiro, mas também de poder. Ao tirar as armas, a pacificação derrubou os bastiões e o tráfico perdeu muito de seu atrativo”, estima Rubem César, diretor da ONG Viva Rio, que trabalha há vinte anos nas favelas. Um atrativo que a polícia ainda não possui, principalmente quando ela se comporta, como é por vezes o caso, num “terreno conquistado” e exerce a mesma forma de controle social autoritário.

Anne Vigna é jornalista.

1 . Laboratório de Ánalise da Violência, “Os donos do morro: uma avaliação exploratória do impacto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro”. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2012

Heat, Flood or Icy Cold, Extreme Weather Rages Worldwide (N.Y.Times)

NY Times

January 10, 2013

By SARAH LYALL

WORCESTER, England — Britons may remember 2012 as the year the weather spun off its rails in a chaotic concoction of drought, deluge and flooding, but the unpredictability of it all turns out to have been all too predictable: Around the world, extreme has become the new commonplace.

Especially lately. China is enduring its coldest winter in nearly 30 years. Brazil is in the grip of a dreadful heat spell. Eastern Russia is so freezing — minus 50 degrees Fahrenheit, and counting — that the traffic lights recently stopped working in the city of Yakutsk.

Bush fires are raging across Australia, fueled by a record-shattering heat wave. Pakistan was inundated by unexpected flooding in September. A vicious storm bringing rain, snow and floods just struck the Middle East. And in the United States, scientists confirmed this week what people could have figured out simply by going outside: last year was the hottest since records began.

“Each year we have extreme weather, but it’s unusual to have so many extreme events around the world at once,” said Omar Baddour, chief of the data management applications division at the World Meteorological Organization, in Geneva. “The heat wave in Australia; the flooding in the U.K., and most recently the flooding and extensive snowstorm in the Middle East — it’s already a big year in terms of extreme weather calamity.”

Such events are increasing in intensity as well as frequency, Mr. Baddour said, a sign that climate change is not just about rising temperatures, but also about intense, unpleasant, anomalous weather of all kinds.

Here in Britain, people are used to thinking of rain as the wallpaper on life’s computer screen — an omnipresent, almost comforting background presence. But even the hardiest citizen was rattled by the near-biblical fierceness of the rains that bucketed down, and the floods that followed, three different times in 2012.

Rescuers plucked people by boat from their swamped homes in St. Asaph, North Wales. Whole areas of the country were cut off when roads and train tracks were inundated at Christmas. In Megavissey, Cornwall, a pub owner closed his business for good after it flooded 11 times in two months.

It was no anomaly: the floods of 2012 followed the floods of 2007 and also the floods of 2009, which all told have resulted in nearly $6.5 billion in insurance payouts. The Met Office, Britain’s weather service, declared 2012 the wettest year in England, and the second-wettest in Britain as a whole, since records began more than 100 years ago. Four of the five wettest years in the last century have come in the past decade (the fifth was in 1954).

The biggest change, said Charles Powell, a spokesman for the Met Office, is the frequency in Britain of “extreme weather events” — defined as rainfall reaching the top 1 percent of the average amount for that time of year. Fifty years ago, such episodes used to happen every 100 days; now they happen every 70 days, he said.

The same thing is true in Australia, where bush fires are raging across Tasmania and the current heat wave has come after two of the country’s wettest years ever. On Tuesday, Sydney experienced its fifth-hottest day since records began in 1910, with the temperature climbing to 108.1 degrees. The first eight days of 2013 were among the 20 hottest on record.

Every decade since the 1950s has been hotter in Australia than the one before, said Mark Stafford Smith, science director of the Climate Adaptation Flagship at the Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization.

To the north, the extremes have swung the other way, with a band of cold settling across Russia and Northern Europe, bringing thick snow and howling winds to Stockholm, Helsinki and Moscow. (Incongruously, there were also severe snowstorms in Sicily and southern Italy for the first time since World War II; in December, tornadoes and waterspouts struck the Italian coast.)

In Siberia, thousands of people were left without heat when natural gas liquefied in its pipes and water mains burst. Officials canceled bus transportation between cities for fear that roadside breakdowns could lead to deaths from exposure, and motorists were advised not to venture far afield except in columns of two or three cars. In Altai, to the east, traffic officials warned drivers not to use poor-quality diesel, saying that it could become viscous in the cold and clog fuel lines.

Meanwhile, China is enduring its worst winter in recent memory, with frigid temperatures recorded in Harbin, in the northeast. In the western region of Xinjiang, more than 1,000 houses collapsed under a relentless onslaught of snow, while in Inner Mongolia, 180,000 livestock froze to death. The cold has wreaked havoc with crops, sending the price of vegetables soaring.

Way down in South America, energy analysts say that Brazil may face electricity rationing for the first time since 2002, as a heat wave and a lack of rain deplete the reservoirs for hydroelectric plants. The summer has been punishingly hot. The temperature in Rio de Janeiro climbed to 109.8 degrees on Dec. 26, the city’s highest temperature since official records began in 1915.

At the same time, in the Middle East, Jordan is battling a storm packing torrential rain, snow, hail and floods that are cascading through tunnels, sweeping away cars and spreading misery in Syrian refugee camps. Amman has been virtually paralyzed, with cars abandoned, roads impassable and government offices closed.

Israel and the Palestinian territories are grappling with similar conditions, after a week of intense rain and cold winds ushered in a snowstorm that dumped eight inches in Jerusalem alone.

Amir Givati, head of the surface water department at the Israel Hydrological Service, said the storm was truly unusual because of its duration, its intensity and its breadth. Snow and hail fell not just in the north, but as far south as the desert city of Dimona, best known for its nuclear reactor.

In Beirut on Wednesday night, towering waves crashed against the Corniche, the seaside promenade downtown, flinging water and foam dozens of feet in the air as lightning flickered across the dark sea at multiple points along the horizon. Many roads were flooded as hail pounded the city.

Several people died, including a baby boy in a family of shepherds who was swept out of his mother’s arms by floodwaters. The greatest concern was for the 160,000 Syrian refugees who have fled to Lebanon, taking shelter in schools, sheds and, where possible, with local families. Some refugees are living in farm outbuildings, which are particularly vulnerable to cold and rain.

Barry Lynn, who runs a forecasting business and is a lecturer at the Hebrew University’s department of earth science, said a striking aspect of the whole thing was the severe and prolonged cold in the upper atmosphere, a big-picture shift that indicated the Atlantic Ocean was no longer having the moderating effect on weather in the Middle East and Europe that it has historically.

“The intensity of the cold is unusual,” Mr. Lynn said. “It seems the weather is going to become more intense; there’s going to be more extremes.”

In Britain, where changes to the positioning of the jet stream — a ribbon of air high up in the atmosphere that helps steer weather systems — may be contributing to the topsy-turvy weather, people are still recovering from the December floods. In Worcester last week, the river Severn remained flooded after three weeks, with playing fields buried under water.

In the shop at the Worcester Cathedral, Julie Smith, 54, was struggling, she said, to adjust to the new uncertainty.

“For the past seven or eight years, there’s been a serious incident in a different part of the country,” Mrs. Smith said. “We don’t expect extremes. We don’t expect it to be like this.”

Reporting was contributed by Jodi Rudoren from Jerusalem; Irit Pazner Garshowitz from Tzur Hadassah, Israel; Fares Akram from Gaza City, Gaza; Ellen Barry and Andrew Roth from Moscow; Ranya Kadri from Amman, Jordan; Dan Levin from Harbin, China; Jim Yardley from New Delhi; Anne Barnard from Beirut, Lebanon; Matt Siegel from Sydney, Australia; Scott Sayare from Paris; and Simon Romero from Rio de Janeiro.

*   *   *

 It’s Official: 2012 Was Hottest Year Ever in U.S.

By JUSTIN GILLIS

NY Times, January 8, 2012

http://www.nytimes.com/2013/01/09/science/earth/2012-was-hottest-year-ever-in-us.html?hp&_r=0

The numbers are in: 2012, the year of a surreal March heat wave, a severe drought in the corn belt and a massive storm that caused broad devastation in the mid-Atlantic states, turns out to have been the hottest year ever recorded in the contiguous United States.

How hot was it? The temperature differences between years are usually measured in fractions of a degree, but last year blew away the previous record, set in 1998, by a full degree Fahrenheit.

If that does not sound sufficiently impressive, consider that 34,008 new daily high records were set at weather stations across the country, compared with only 6,664 new record lows, according to a count maintained by the Weather Channel meteorologist Guy Walton, using federal temperature records.

That ratio, which was roughly in balance as recently as the 1970s, has been out of whack for decades as the country has warmed, but never by as much as it was last year.

“The heat was remarkable,” said Jake Crouch, a scientist with the National Climatic Data Center in Asheville, N.C., which released the official climate compilation on Tuesday. “It was prolonged. That we beat the record by one degree is quite a big deal.”

Scientists said that natural variability almost certainly played a role in last year’s extreme heat and drought. But many of them expressed doubt that such a striking new record would have been set without the backdrop of global warming caused by the human release of greenhouse gases. And they warned that 2012 was likely a foretaste of things to come, as continuing warming makes heat extremes more likely.

Even so, the last year’s record for the United States is not expected to translate into a global temperature record when figures are released in coming weeks. The year featured a La Niña weather pattern, which tends to cool the global climate over all, and scientists expect it to be the world’s eighth or ninth warmest year on record.

Assuming that prediction holds up, it will mean that the 10 warmest years on record all fell within the past 15 years, a measure of how much the planet has warmed. Nobody who is under 28 has lived through a month of global temperatures that fell below the 20th-century average, because the last such month was February 1985.

Last year’s weather in the United States began with an unusually warm winter, with relatively little snow across much of the country, followed by a March that was so hot that trees burst into bloom and swimming pools opened early. The soil dried out in the March heat, helping to set the stage for a drought that peaked during the warmest July on record.

The drought engulfed 61 percent of the nation, killed corn and soybean crops and sent prices spiraling. It was comparable to a severe drought in the 1950s, Mr. Crouch said, but not quite as severe as the legendary Dust Bowl drought of the 1930s, which was exacerbated by poor farming practices that allowed topsoil to blow away.

Extensive records covering the lower 48 states go back to 1895; Alaska and Hawaii have shorter records and are generally not included in long-term climate comparisons for that reason.

Mr. Crouch pointed out that until last year, the coldest year in the historical record for the lower 48 states, 1917, was separated from the warmest year, 1998, by only 4.2 degrees Fahrenheit. That is why the 2012 record, and its one degree increase over 1998, strikes climatologists as so unusual.

“We’re taking quite a large step above what the period of record has shown for the contiguous United States,” he said.

In addition to being the nation’s warmest year, 2012 turned out to be the second-worst on a measure called the Climate Extremes Index, surpassed only by 1998.

Experts are still counting, but so far 11 disasters in 2012 have exceeded a threshold of $1 billion in damages, including several tornado outbreaks; Hurricane Isaac, which hit the Gulf Coast in August; and, late in the year, Hurricane Sandy, which caused damage likely to exceed $60 billion in nearly half the states, primarily in the mid-Atlantic region.

Among those big disasters was one bearing a label many people had never heard before: the derecho, a line of severe, fast-moving thunderstorms that struck central and eastern parts of the country starting on June 29, killing more than 20 people, toppling trees and knocking out power for millions of households.

For people who escaped both the derecho and Hurricane Sandy relatively unscathed, the year may be remembered most for the sheer breadth and oppressiveness of the summer heat wave. By the calculations of the climatic data center, a third of the nation’s population experienced 10 or more days of summer temperatures exceeding 100 degrees Fahrenheit.

Among the cities that set temperature records in 2012 were Nashville; Athens, Ga.; and Cairo, Ill., all of which hit 109 degrees on June 29; Greenville, S.C., which hit 107 degrees on July 1; and Lamar, Colo., which hit 112 degrees on June 27.

With the end of the growing season, coverage of the drought has waned, but the drought itself has not. Mr. Crouch pointed out that at the beginning of January, 61 percent of the country was still in moderate to severe drought conditions. “I foresee that it’s going to be a big story moving forward in 2013,” he said.

Your weatherman probably denies global warming (Salon)

FRIDAY, JAN 11, 2013 08:00 AM -0200

The good news: People can be persuaded climate change is real. The bad news: TV experts can’t

BY 

Your weatherman probably denies global warming

There’s a big reason climate change differs from so many public policy challenges: unlike other crises, addressing the planet’s major environmental crisis truly requires mass consensus. Indeed, because fixing the problem involves so many different societal changes — reducing carbon emissions, conserving energy, retrofitting infrastructure, altering a meat-centric diet, to name a few — we all need to at least agree on the basic fact that we are facing an emergency. This is especially the case in a nation where, thanks to the U.S. Senate filibuster, lawmakers representing just 11 percent of the population can kill almost any national legislation.

That’s why, as encouraging as it is to see a new Associated Press-GfK poll showing that 4 in 5 Americans now see climate change as a serious problem, it is also not so encouraging to see that after the hottest year on record, 1 in 5 still somehow do not acknowledge the crisis. Unfortunately, that 1 in 5 may be enough to prevent us from forging the all-hands-on-deck attitude necessary to halt a planetary disaster.

What, if anything, can be done? Short of eliminating the filibuster so that lawmakers representing this 20 percent don’t retain veto power over climate change legislation, America desperately needs a serious public education campaign.

The good news is that with such education, many of those who don’t yet believe climate change is a serious problem can, in fact, be reached — and convinced to accept obvious reality.

This is the conclusion of a new study by researchers at George Mason University and Yale University. It found that those with a “low engagement on the issue of global warming … are more likely to be influenced by their perceived personal experience of global warming than by their prior beliefs.” Summarizing the findings, Grist.org reporter David Roberts writes that “people who have made up their mind have made up their mind,” but for those in the “mushy middle,” personally facing severe weather — and being exposed to facts about what that weather really represents — “can make a real difference.”

The bad news is that this “mushy” group probably cannot be reached by the real experts, as 1 in 3 of those surveyed in the AP poll say they simply do not trust scientists. That leaves local television weather forecasters (many of whom are not actual scientists), national news outlets and Washington political leaders to the task — and up to this point, many of them have played the opposite of a constructive role in climate education.

For instance, when it comes to weather forecasters, a recent Rolling Stone magazine assessment of the local news scene found that “there’s a shockingly high chance that your friendly TV weatherman is a full-blown climate denier.” The report cited a 2010 survey finding that in the vast wasteland of Ron Burgundys, only half of all local weather forecasters believe climate change is even happening, and fewer than a third acknowledge the scientific evidence proving that it is “caused mostly by human activities.” Not surprisingly, their forecasts often omit any discussion of climate change’s effect on the weather systems, thus forfeiting a chance to properly contextualize severe weather events.

Similarly, an analysis in 2012 from the watchdog group Media Matters found that “the amount of climate coverage on both the Sunday shows and the nightly news has declined tremendously.” Meanwhile, the Columbia Journalism Review points out that the “presidential campaign was silent on the issue.”

In a nation that comprises just 5 percent of the world’s population but a whopping 18 percent of its carbon emissions, this situation is unacceptable.

If the first step toward solving a problem is getting past the denial stage, then it is long past time for news organizations and political leaders to end their climate denialism. Only then can we hope to reach the consensus on which our survival depends.

David Sirota is a nationally syndicated newspaper columnist, magazine journalist and the best-selling author of the books “Hostile Takeover,” “The Uprising” and “Back to Our Future.” E-mail him at ds@davidsirota.com, follow him on Twitter @davidsirota or visit his website at www.davidsirota.com.

Humanidade deve começar a se preocupar com descoberta de vida alienígena, diz relatório (O Globo)

Fórum Econômico Mundial listou cinco fatores X, problemas sérios e ainda remotos que devem ter impacto na vida na Terra

RENATA CABRAL

Publicado:9/01/13 – 12h09 / Atualizado:9/01/13 – 15h27

RIO – Enquanto o mundo concentra suas preocupações na crise nos países desenvolvidos e no aquecimento global, o Fórum Econômico Mundial alerta para os chamados “fatores X”, que, segundo a organização, já deveriam estar na pauta de discussão de países e organizações internacionais por terem consequências incertas e, por isso, poder de desestabilizar a atual ordem mundial — entre eles, a descoberta de vida alienígena. O abuso da tecnologia para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos também é citado.

Com o ritmo da exploração do espaço nas últimas décadas, diz o documento, é possível considerar que a humanidade pode descobrir vida em outros planetas. A maior preocupação seria sobre os efeitos nos investimentos em ciência e sobre a própria imagem do ser humano. Supondo que seja encontrado um novo lar em potencial para a humanidade ou a existência de vida em nosso sistema solar, a pesquisa científica teria deslocados grandes investimentos para robótica e missões espaciais. Além disso, as implicações filosóficas e psicológicas da descoberta de vida extraterrestre seriam profundas, desafiando crenças das religiões e da filosofia humana. Por meio de educação e campanhas de alerta, o público poderia se preparar melhor para as consequências desse processo, indica o fórum.

O relatório anual sobre os riscos globais, publicado duas semanas antes do encontro anual que ocorrerá em Davos, teve colaboração da revista científica “Nature” considerando cinco fatores X: além da descoberta de vida em outros planetas, o avanço cognitivo do cérebro humano pelo uso de estimulantes, o uso descontrolado de tecnologias para conter as mudanças climáticas, os custos de se viver mais e as próprias mudanças climáticas em curso. De acordo com o relatório, antecipando-se a essas questões, seria mais fácil agir preventivamente e não ser pego de surpresa quando eles emergirem.

Apesar de as ameaças das mudanças climáticas serem conhecidas, o relatório também indaga se já passamos de um ponto dramático de não retorno. Por isso, para além do tema que guiou os debates na última década — se os seres humanos seriam ou não responsáveis por alterar o clima da Terra —, poderíamos ter de caminhar para discussões forçadas sobre como fortalecer a resiliência e a capacidade de adaptação para lidar com um novo ambiente que pode nos levar a um novo e ainda desconhecido equilíbrio.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, outra preocupação de hoje sobre problemas ainda remotos deve ser o avanço cognitivo do ser humano. Há o temor de que no futuro as pessoas abusem da tecnologia que permite turbinar a performance no trabalho e nos estudos. O esforço dos cientistas para tratar doenças como Alzheimer ou esquizofrenia leva a crer que num futuro não muito distante pesquisadores vão identificar substâncias que permitam melhorar os estimulantes de hoje, como a Ritalina. Apesar de serem prescritos para pessoas com doenças neurológicas, esses remédios seriam usados no dia a dia como já ocorre hoje.

O avanço poderia também vir de hardwares, diz o relatório. Estudos mostram que a estimulação elétrica pode favorecer a memória. Diante disso, seria ético aceitar que o mundo se dividisse entre os que tiveram oportunidade de ter a parte cognitiva reforçada ou não?, indaga o documento. Haveria, ainda, o risco de esse avanço dar errado. O impacto dessas novas tecnologias é esperado para dentro de 20 ou 50 anos.

A utilização descontrolada de tecnologias de geoengenharia também é vista como um problema pelo Fórum Econômico Mundial. Apesar de ter diferentes aplicações, espera-se usar a tecnologia para controlar as mudanças climáticas. A ideia básica é que poderiam ser jogadas pequenas partículas na estratosfera para bloquear a energia solar e refleti-la de volta ao espaço. Mas os efeitos colaterais poderiam ser custosos demais, diz o documento. Poderia haver alterações significativas em todo o sistema climático, com redução da luz solar, o que alteraria a forma como a energia e a água se movimentam no planeta. Essa opção não é considerada no curto prazo. Muitos estudiosos já chamaram atenção para os riscos dessa tecnologia. Por isso, poderia surgir um espaço para que experimentações sem regulação ocorressem, alerta o relatório.

Os custos de viver mais seriam outro fator X de preocupação, uma vez que os países não têm se preparado para viver com os altos custos que a terceira idade implica e com uma massa de pessoas que sofrerão de doenças como artrite e demências. Isso porque a medicina do século 20 avançou muito nas descobertas relativas às doenças genéticas, decifrando o genoma humano. São esperados ainda mais avanços em doenças do coração e do câncer. O relatório preocupa-se com o impacto na sociedade de uma camada da população que consegue prever, logo evitar, as causas mais comuns de morte hoje, mas com uma deterioração da qualidade de vida. Mais pesquisas seriam necessárias para encontrar soluções para essas condições, hoje consideradas crônicas.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/humanidade-deve-comecar-se-preocupar-com-descoberta-de-vida-alienigena-diz-relatorio-7239466#ixzz2HZQ0ax47 
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Direitos humanos: um estorvo para as esquerdas? (Le Monde Diplomatique Brasil)

Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos

por Deisy Ventura, Rossana Rocha Reis
07 de Janeiro de 2013

01181761(1)Mãe e filho dormem na rua em São Paulo ao lado do operário que opera britadeira. Renato Stockler/ Reuters

Entre os anos 1960 e 1980, numa América Latina esmagada por regimes ditatoriais, grande parte das esquerdas abraçou o discurso e a pauta dos direitos humanos. Em incontáveis casos, os direitos humanos foram o fulcro de movimentos e ações autoproclamadas esquerdistas. Retomada a democracia, o gozo dos direitos civis e políticos tornou possível que personagens, grupos e partidos identificados com esse campo chegassem ao governo em diversos Estados latino-americanos. Atualmente, o exercício do poder suscita questões sobre a concepção de direitos humanos tanto da esquerda que governacomo da esquerda que defende incondicionalmente esses governos, embora amiúde obnubilada em larguíssimas coalizões.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a interação entre os direitos humanos e a política no Brasil de hoje. As críticas ao governo pautadas pelos direitos humanos têm merecido uma virulenta reação. Pululam as contradições não apenas entre discurso e prática, mas também dentro dos próprios discursos, e entre certas práticas. É como se um projeto de transformação social prescindisse ou, em alguns casos, fosse considerado até mesmo incompatível com a garantia de certos direitos, paulatinamente convertidos em estorvos. Quem cobra do governo federal o respeito aos direitos humanos é acusado de fazer o jogo da oposição, supostamente pondo em risco um “projeto maior”. Argumentos conjunturais como os de que faltam os meios ou o momento não é oportuno para sua efetivação, confundem-se, a cada dia mais, com a minimização da importância dos direitos humanos.

Em resposta a mobilizações como as relacionadas à hidrelétrica de Belo Monte e aos índios Guarani-Kaiowá, entre outros episódios recentes, um número inquietante de autoridades governamentais não tem hesitado em difundir argumentos gravemente equivocados sobre direitos humanos, com efeitos nefastos não apenas sobre a agenda política, mas também sobre a opinião pública. Sob a perspectiva da urgente retomada de um projeto de profunda e efetiva transformação social no Brasil, gostaríamos de discutir algumas interpretações e as principais objeções que uma parte das esquerdas brasileiras tem feito às reivindicações baseadas nos direitos humanos.

Os direitos humanos são burgueses. A relação entre a esquerda e os direitos humanos foi marcada pela interpretação oferecida por Karl Marx, principalmente em Sobre a questão judaica (1843),a propósito dos processos de construção da cidadania moderna. Para Marx, o reconhecimento da igualdade formal (jurídico-política) do indivíduo não é suficiente para a realização do ideal de emancipação humana almejado pelo socialismo. A afirmação de um direito natural tal qual expresso nas Declarações de Direitos Humanos seria, assim, a consagração do homem egoísta e do interesse privado. No entanto, avaliar a conjuntura atual pinçando da obra de Marx apenas sua concepção de direitos humanos, sem levar em conta sua crítica ao direito em geral, à política em si e, sobretudo, à existência do Estado, configura um reducionismo imperdoável, se não uma espécie de marxismo à la carte. Por outro lado, a emancipação humana, tal como imaginada por Marx, depende de mudanças estruturais, certamente inalcançáveis por meio de uma pauta adstrita aos direitos humanos. Contudo, essa constatação não diminui a importância histórica e tangível dos direitos humanos em processos emancipatórios. Se “o homem é um ser que esquece”, como diz um antigo provérbio, é preciso reiterar o que a história recente do Brasil e da América Latina nos ensina: a importância da emancipação civil e política na luta pela transformação da sociedade e da economia. É claro que os direitos humanos não são, nem devem ser, o objetivo final das esquerdas. Entretanto, nenhum sistema político pelo qual vale a pena lutar pode prescindir do respeito à dignidade humana e do feixe de direitos que dela deriva. Ademais, desafiada pela complexidade do presente, a esquerda não pode ser condenada a uma percepção de direitos humanos do século XIX.

Os direitos humanos são uma invenção ocidental, e a política de direitos humanos no plano internacional é uma forma de imperialismo. Embora a perspectiva do respeito à dignidade humana exista em diversas culturas e épocas, é indiscutível que a noção moderna de direitos humanos, base das normas internacionais nessa matéria, tem suas raízes intelectuais no Iluminismo, na Revolução Francesa e na independência norte-americana. Porém, o sentido de um conjunto de ideias não pode ser limitado ao contexto no qual ele foi produzido. Ao longo dos séculos, o conceito da igual dignidade dos indivíduos em liberdades e direitos mobilizou, no mundo inteiro, grupos e agendas muito diversificados. A revolução que levou à independência haitiana, por exemplo, não apenas reproduziu, mas reinterpretou e acrescentou direitos à Carta de Direitos do Homem e do Cidadão. Da mesma maneira, o movimento feminista, execrado pelos revolucionários franceses, valeu-se dos termos da Carta para formular suas demandas; e a Constituição mexicana de 1917 e os movimentos de libertação nacional e de reconhecimento de direitos coletivos apropriaram-se da ideia de direitos humanos e expandiram seu significado. Portanto, sua origem histórica e cultural não deve ser vista como um pecado original, já que não impediu a emergência de direitos que podem fundamentar a própria resistência às diferentes formas de imperialismo.

Incorporar a agenda de direitos humanos na política externa seria fazer o jogo dos Estados Unidos nas relações internacionais. Os Estados Unidos são grandes objetores e violadores do direito internacional. Por exemplo, lutaram contra a aprovação do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional; e, descumprindo promessas, mantêm aberta a base de Guantánamo, em Cuba. A instrumentalização do discurso dos direitos humanos por Washington, uma das marcas da Guerra Fria, confirmou sua atualidade, entre outros, nos casos das intervenções no Iraque e no Afeganistão. Na Líbia, em 2011, “a comunidade internacional” teria recorrido à intervenção militar a fim de “evitar o massacre” da população civil por um cruel ditador, um aliado do Ocidente frescamente descartado. O uso da força foi então autorizado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com base no princípio da “responsabilidade de proteger”. Trata-se de uma nova forma jurídica do antigo direito de ingerência, ampla o suficiente para derrubar o governo da Líbia e omitir-se diante do linchamento de Muamar Kadafi, ao mesmo tempo que dá guarida a graves violações de direitos humanos no Barein, na Síria e no Iêmen. Segundo o presidente Barack Obama, os Estados Unidos devem intervir, coletiva ou unilateralmente, quando seus “interesses e valores” forem ameaçados, sem preocupação com a coerência. O que prevalece é o interesse na preservação das zonas de influência, em detrimento de qualquer concepção de direitos humanos. Logo, para o Brasil, descartar o respeito aos direitos humanos como critério de sua política externa jamais constituiria uma forma de oposição à hegemonia dos Estados Unidos. É preciso opor-se aos atos, não aos pretextos.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) praticou uma ingerência inaceitável nos assuntos internos brasileiros no caso Belo Monte. A oposição à construção da usina é promovida pelos Estados Unidos. O recente ataque do governo federal ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos foi um desserviço às gerações futuras. Não se pode confundir a OEA com a Comissão ou a Corte interamericanas, e ainda menos com os Estados Unidos, que jamais aceitaram a Convenção Americana dos Direitos do Homem. A oposição à hidrelétrica de Belo Monte é legítima e genuinamente brasileira, vinculada à luta histórica pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação do meio ambiente. Ainda que imperfeitos, os mecanismos regionais de proteção aos direitos humanos são uma grande conquista dos povos, salvaguarda indispensável diante do autoritarismo que segue assombrando nosso continente. Os recentes golpes impunes em Honduras e no Paraguai, ambos avalizados pelos Estados Unidos, demonstram que os mecanismos regionais precisam ser valorizados.

Impor condicionalidades em termos de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente nos empréstimos concedidos pelo governo brasileiro a outros países é um tipo insuportável de interferência e uma forma de imperialismo. Na década de 1970, uma importante conquista da sociedade norte-americana foi a exigência de que os países beneficiados por empréstimos respeitassem determinados padrões de cumprimento de direitos humanos. Essa medida teve um impacto importante nas relações entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas, corroendo a sustentação interna da política norte-americana de apoio aos regimes autoritários e impondo constrangimentos ao Executivo. No contexto atual, em que bancos e agências do Estado brasileiro se tornam importantes fontes de financiamento de obras de infraestrutura na América Latina, é importante que os empréstimos concedidos e os acordos de cooperação incorporem a exigência de respeito aos direitos humanos. Longe de ser uma forma de ingerência, trata-se de garantir que o dinheiro dos contribuintes brasileiros não seja utilizado para financiar intervenções que comprometam a dignidade das populações envolvidas. Conceder financiamentos sem compromisso com a promoção de direitos é uma característica fundamental do mercado, não do Estado, necessariamente submetido ao interesse público.

Direitos civis e políticos são de direita, direitos econômicos e sociais são de esquerda. Os direitos humanos são, na verdade, indivisíveis. Longe de ser uma formalidade vazia, a afirmação da indivisibilidade é uma forma de proteção dos indivíduos contra a seletividade dos Estados. A identificação de alguns direitos com a direita e de outros com a esquerda, embora guarde relação com a geopolítica da Guerra Fria, aproxima-se perigosamente da justificativa apresentada pelos generais-presidentes brasileiros aos organismos internacionais, quando interpelados sobre as frequentes violações cometidas em nome da segurança nacional. Para eles, os avanços na área de saneamento básico, habitação e saúde constituíam a política brasileira de direitos humanos, enquanto as denúncias sobre torturas, prisões arbitrárias, assassinatos e desaparecimentos faziam parte de um complô comunista mundial.

O desenvolvimento é mais importante para as pessoas do que o respeito aos direitos humanos. Em um mundo com recursos materiais e humanos limitados, existem muitas escolhas difíceis a fazer. As exigências em relação a um governo vão muito além daquelas colocada pela pauta dos direitos humanos. No atual contexto de crise econômica mundial, com perspectivas de agravamento, o tema do desenvolvimento adquire importância renovada, e é natural que assim seja. Entretanto, o contexto econômico não pode servir de justificativa para o atropelamento de direitos humanos, sob pena de produzir, mais uma vez, um crescimento econômico que não se traduz em uma melhora real e equitativa do panorama social brasileiro. Nós já tivemos, no Brasil, desenvolvimento sem respeito aos direitos humanos. Não foi bom para as esquerdas.

O combate à miséria é a forma mais efetiva de combater a violação dos direitos humanos. O combate à miséria é parte fundamental de uma política de direitos humanos. Mais do que isso, podemos afirmar que, sem uma política de erradicação da miséria, a promoção dos direitos humanos está fadada ao fracasso. No entanto, ela não é suficiente para garantir a observância dos direitos humanos. Infelizmente, o conjunto de desigualdades que afetam a dignidade dos indivíduos em nosso país é muito mais amplo. Iniquidades e discriminações que envolvem questões de gênero, cor, orientação sexual, regionalismo e xenofobia exigem ações específicas. Uma sociedade menos desigual em termos econômicos não é sinônimo de uma sociedade que respeita igualmente os direitos humanos de todos os seus cidadãos. Quando a inclusão social se opera essencialmente pelo aumento do consumo, toda sorte de egoísmo pode ser favorecida.

O respeito aos direitos humanos é uma etapa já conquistada no Brasil. Atualmente, nosso problema seria a falta de meios, não a falta de consenso em relação aos princípios. Esperava-se que os direitos humanos alcançassem lugar de destaque na agenda política pós-redemocratização. Seria o momento de generalizar o acesso a esses direitos (prioridade de investimento em políticas sociais) e de afirmar a cultura dos direitos (os bens da vida não constituem privilégios de alguns, nem assistencialismo). Porém, grande parte da população brasileira acredita piamente que os direitos humanos são o maior obstáculo à sua segurança. A vulnerabilidade fala mais alto do que a cidadania. A erosão da perspectiva dos direitos é evidente em nosso tempo, e não apenas no Brasil. Cresce o respaldo eleitoral de grupos e partidos que militam abertamente contra direitos fundamentais já consagrados por lei. É chocante a maneira leviana com que temas como a tortura, o aborto ou a sexualidade, entre tantos outros, têm sido discutidos nos períodos eleitorais. Cresce também a estapafúrdia naturalização das alianças com esses grupos. É preciso reconhecer que a defesa incondicional dos direitos humanos está ameaçada nas campanhas e nos programas de governos de candidatos das esquerdas, mas, sobretudo, em suas gestões.

Por fim, um projeto de transformação da sociedade brasileira com vista à emancipação humana não pode prescindir da luta pelos direitos humanos. Há valores e parâmetros éticos – como o reconhecimento e o respeito pelas especificidades e pelas diferenças étnicas, de gênero e orientação sexual – que não podem ser negociados ou plebiscitados, seja em nome da democracia, do desenvolvimento ou de um suposto anti-imperialismo. Uma agenda positiva de direitos humanos deve estabelecer mínimos denominadores para a ação política. No momento em que os valores de mercado avançam sobre todos os governos, este talvez seja, ainda que temporariamente, nosso “projeto maior”.

Deisy Ventura
Professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, IRI-USP

Rossana Rocha Reis
Professora do Departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Tim Ingold: La antropología en crisis (Clarin)

08/01/13

Con una visión crítica, el especialista británico denuncia que esta ciencia no forma parte de debates importantes, y sostiene que “debería mirar al futuro a Través de la lente del pasado”, ser “especulativa y no sólo una disciplina empírica”.

POR VIVIAN SCHEINSOHN

ANTIACADEMICA. Tim Ingold dice que su disciplina desafía el modo académico de producción de conocimiento. / Gustavo Castaing

ANTIACADEMICA. Tim Ingold dice que su disciplina desafía el modo académico de producción de conocimiento. / Gustavo Castaing

Mientras que en el ámbito de las ciencias sociales las escuelas y teorías se multiplican, el antropólogo británico Tim Ingold parece responder sólo a sí mismo. Difícilmente clasificable en una corriente en particular, sus aportes teóricos a la antropología lo convierten en una figura insoslayable. Profesor de Antropología Social en la Universidad de Aberdeen (Escocia), Ingold estuvo en Buenos Aires a fines de 2012, dictó una conferencia en la Universidad Nacional de General San Martín y también viajó a Córdoba donde dictó un curso en el Museo de Antropología de la Universidad de Córdoba.

Ambientes para la vida. Conversaciones sobre humanidad, conocimiento y antropología es el título de su único libro traducido al español.

Sobre el papel de la antropología en el presente y en el futuro, en Europa y en América Latina, dialogó con Ñ .

¿Qué definición le cabe a la antropología en esta época y en este contexto?

Tenemos que movernos más allá de la idea de que la antropología estudia las culturas. Necesitamos pensarla como una disciplina especulativa, que mira las posibilidades y potencialidades de los seres humanos. Por eso, según mi definición, es una filosofía que incluye a la gente. No es sólo pensar cómo fue o es la vida humana en ciertos lugares o momentos sino cómo podría ser, qué tipo de vida podríamos vivir. La antropología debería mirar al futuro a través de la lente del pasado. Debe ser especulativa y no sólo una disciplina empírica.

¿Y entonces qué distingue a la antropología del resto de las ciencias sociales?

Puede pensarse en las ciencias sociales como conformando un paisaje donde cada disciplina es definida por el lugar donde se ubica. Se puede ver entonces que la antropología está hablándole a los sociólogos, a los historiadores, a los lingüistas. Si se toma la sociología, los sociólogos le están hablando a los antropólogos, a los historiadores, pero también a los economistas o a los historiadores del derecho, a los cuales la antropología no les habla. Entonces vemos diferentes lazos con diferentes disciplinas. Todas están conectadas pero ocupan diferentes posiciones en este paisaje. El ambiente de la investigación puede definirse como ese paisaje, con diferentes colinas o montañas donde están la antropología, la sociología, etcétera. Se puede ir de una a la otra sin cruzar ningún límite en particular. El punto es que cada disciplina no es más que un grupo de gente haciendo cosas y conversando. A esa conversación se une mucha gente, cada uno con su propio campo de referencia, en términos de a quiénes leyeron, dónde estuvieron, en que país estudiaron. Por eso no creo que se pueda hablar de disciplinas como si fueran una suerte de supraorganismo. Las ciencias sociales sólo se distinguen entre sí por las conversaciones que tuvieron. Y eso es lo divertido: que todos traemos algo diferente a esa conversación. Y nunca se sabe qué va a salir de eso.

Sin embargo, esa conversación interdisciplinaria no parece funcionar del todo bien. A veces, ciertas disciplinas parecen jugar su propio juego y eso hace que ciertos temas que fueron largamente debatidos en una disciplina sean redescubiertos en otra.

Sí, y eso es extremadamente problemático. Los antropólogos del Reino Unido tenemos problemas para hablar con las ciencias políticas. También tenemos un problema similar con la psicología, donde hoy se dan por sentado supuestos que nosotros deconstruimos hace tiempo. Y esto no sólo afecta a las ciencias sociales. Por ejemplo los biólogos comenzaron a darse cuenta de que la teoría dar-winiana estándar no era suficiente como para explicar la cultura. Entonces ahora aparece la Teoría de la Construcción de Nicho, es decir, la idea de que los humanos son animales que continuamente están construyendo su nicho y que los efectos de esa construcción condicionan la forma en que las futuras generaciones viven. Pero están reinventando la pólvora. Esa idea está bien establecida en antropología desde hace tiempo. Lo único que agregaron es la formalización. Lo hacen de una manera matemática de modo que la gente del ámbito de las ciencias naturales pueda entender esa idea y respetarla. No están preparados para entender o respetar una teoría si no está planteada de esa forma. No es tanto una nueva teoría, entonces, sino una traducción a un nuevo lenguaje de algo que ya sabíamos hace tiempo. Por eso que pienso que una de las principales tareas de la antropología es demostrar que hay formas distintas de ver las cosas, diferentes a lo que hoy es corriente en economía o en psicología. En ese sentido la antropología es una disciplina antidisciplinaria ya que está contra la idea de que todo el terreno del conocimiento puede dividirse en diferentes países, que estudian diferentes disciplinas. Además, la antropología es totalmente antiacadémica. Nos apoyamos en el mundo académico para existir pero siempre desafiando el modelo académico de producción de conocimiento. La antropología nos dice todo el tiempo que la gente con la que trabajamos es la que conoce lo que pasa, que deberíamos aprender de ellos.

Usted fue uno de los primeros en criticar la separación que se hizo a lo largo de la historia entre naturaleza y cultura. Este es un debate que se está dando ahora en otras disciplinas, fuera de la antropología. Y si bien hay un acuerdo respecto de que hay que superar esa división no parece existir un acuerdo hacia dónde se dirige esa alternativa, ¿Cuál sería su propuesta?

Mi propuesta es procesual, relacional y vinculada con el desarrollo o crecimiento. Los conceptos de naturaleza y cultura son sustantivos. Tendemos a pensar en el mundo como algo que ya existe de entrada. Pero en vez de esto, supongamos que el mundo del que hablamos es un mundo que se está haciendo todo el tiempo, que no es nunca el mismo de un momento al otro. En cada momento este mundo se esta revelando, desarrollando. Tenemos entonces que pensar en términos de verbos, más que de sustantivos, como algo que se está convirtiendo en lo que es. Y entonces podemos pensar en las formas que vemos como surgiendo de ese proceso. Por ejemplo, el biólogo supone que la forma ya está prefigurada en el ADN de un organismo y la única cosa que hace la vida es revelar esa forma. La alternativa que propongo es pensar que esas formas de vida, de organismos, de artefactos, son patrones emergentes que surgen de un proceso de desarrollo o crecimiento que se está llevando a cabo de manera continua. Las formas surgen del proceso que les da lugar. Hay que empezar a hablar de desarrollo entonces.

¿Habla del desarrollo a nivel de los individuos o de los grupos?

No veo que haya individuos versus grupos. El organismo es un lugar en un campo de relaciones. Volvamos otra vez al paisaje: se puede tomar un lugar dentro de ese paisaje y ese lugar estará creciendo, se estará desarrollando: eso es el organismo. Tenemos que dejar de pensar en individuos y grupos y comenzar a pensar en posicionalidad, en lugares o puntos en un campo de relaciones. Eso es lo que me satisface de la Teoría de los Sistemas de Desarrollo, que permite pensar en esos términos. Por ejemplo, normalmente se piensa en las habilidades como transmitidas de una generación a la otra. Para mí, nada se transmite. Las habilidades crecen de nuevo, se recrean con cada generación. Lo que una generación contribuye a la siguiente son los contextos de aprendizaje en los cuales los novicios pueden redescubrir por ellos mismos lo que sus predecesores ya conocían. Vamos a un ejemplo: supongamos que hay un granjero que tiene una granja y que muchas generaciones después sus descendientes siguen cultivando esa granja. La gente que se enmarca dentro de la Teoría de Construcción de Nicho diría que ese es un ejemplo de herencia ecológica, ya que el primer granjero creó un nicho y se los pasó a sus descendientes. Pero la realidad es que esa tierra cambió. En un sentido legal se puede decir que el descendiente heredó la tierra pero en un sentido práctico el descendiente trabaja esa tierra y la mantiene productiva gracias a su trabajo. Así seguramente usó técnicas totalmente distintas a las que usaba su abuelo. Y descubrió las cosas que conocía su abuelo pero al mismo tiempo descubrió cosas nuevas. El trabajo de una generación armó las condiciones del trabajo de la siguiente. Y eso no es otra cosa que la historia. Lo cual nos lleva a que hay que romper la división entre historia y evolución. No podemos tener una teoría en historia y otra en evolución. Necesitamos una teoría general de la evolución que se enfrente al darwinismo, como hizo la teoría de Einstein respecto de la de Newton. La física newtoniana sirve, funciona, pero sabemos que no es del todo correcta y que el universo no funciona exactamente así. Lo mismo pasa con el paradigma darwiniano: funciona la mayor parte del tiempo pero en lo que respecta a la historia humana no es exactamente así. Necesitamos una teoría para la cual el darwinismo sea un caso especial.

En el mapa académico usted no parece una figura fácilmente clasificable. ¿Usted, cómo se definiría?

Bueno es gracioso porque yo siempre me pensé como un antropólogo. Siempre pensé que la antropología es la única disciplina que puede unir a las ciencias naturales y a las humanidades, de una forma que no sea reduccionista y sin sacarlas de la realidad, sino comprometida con ella. Pero fui en esa dirección y al hacerlo me alejé cada vez más de la antropología tal como se practica hoy. Creo que eso habla también de lo que le pasó a la antropología en estos últimos tiempos: por lo menos en Gran Bretaña: está fuera de los debates importantes. En los debates que se escuchan en los medios, uno ve historiadores, psicólogos, biólogos pero no se ven antropólogos. Están por fuera de todas las grandes preguntas: qué significa ser humano, los problemas ambientales, etcétera. Los antropólogos tienen cosas terriblemente importantes para decir sobre eso pero, en cambio, se escuchan a los economistas o psicólogos difundiendo malentendidos que nos llevará años corregir. Esto no es enteramente culpa de los antropólogos, porque la popularización de la ciencia en los medios depende de una fórmula particular. Si se trabaja en publicidad hay que ser muy consciente de lo que la gente quiere o piensa, darle un giro y venderlo bajo una nueva forma. La popularización de la ciencia hace exactamente eso. Toma lo que la gente piensa, le da un nuevo enfoque y se lo ofrece de nuevo al público diciéndole que es el último adelanto en investigación científica. Obviamente los antropólogos no están preparados para jugar ese juego. La antropología trabaja para poner todas las certezas en cuestión. Y eso a la gente no le gusta. Por eso a la antropología le resulta difícil venderse sin comprometer sus principios. Pero tampoco me parece bien que se hayan abandonado las grandes preguntas. Para despertar algún interés, la antropología debería hacerse esas preguntas. La disciplina está sufriendo una cierta crisis de confianza, posiblemente relacionada con un ambiente académico inseguro: no hay muchos puestos laborales y por eso los estudiosos se ocupan de los temas pequeños, tratando de sobrevivir enfatizando el tema que sienten que los hace diferentes. Y eso no es una buena estrategia si querés salir al ruedo público y hacer ruido.

¿Qué nota de distinto entre la antropología británica y la que se hace en los distintos países de Latinoamérica?

Durante esta visita me encontré con gente de la Universidad de San Martín y fue muy interesante porque, por un lado la antropología que ellos están enseñando es una antropología social muy tradicional, la que me era familiar en los sesenta, cuando era estudiante. Pero ellos me dicen que esa antropología significa algo muy diferente en la Argentina. Porque aquí la antropología política se compromete con las peleas que se están dando en el país mientras que en Gran Bretaña la antropología política está desconectada de la vida política de la nación. Otro es el caso de Brasil: están muy influenciados por Francia y Norteamérica pero son lo suficientemente fuertes, ingeniosos y poderosos como para desarrollar sus propias aproximaciones. Del resto de Latinoamérica no puedo hablar demasiado.

Finalmente, ¿cuál es el papel que tiene la antropología en esta época?

Todas las disciplinas tienen subidas y bajadas. Hay momentos en que algunas son muy poderosas y llevan la delantera a las demás. En los años 50 y principios de los 60 la antropología iba a la vanguardia. Los antropólogos británicos eran líderes entre los intelectuales: Edmond Leach, Evans Pritchard, Raymond Firth, estaban en la radio, escribían en los diarios, eran figuras públicas. Hoy en día eso no pasa y hay otras disciplinas que tomaron la delantera. Creo que ese es uno de los resultados de la tendencia contemporánea de la antropología a retrotraerse dentro de la etnografía y olvidarse las grandes preguntas.

Somos todos eles: o poema onomatotêmico de André Vallias (Folha de S.Paulo)

06/01/2013 – 03h00

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO – 

ESPECIAL PARA A FOLHA

Tudo começou quando uma porção de gente de outros lugares do Brasil incluiu “Guarani Kaiowá” em seu identificador pessoal nas redes sociais, afirmando assim sua solidariedade política e espiritual com este povo indígena do Mato Grosso do Sul.

Os Kaiowá são um dos três subgrupos em que se divide a grande nação Guarani, espalhada entre o Paraguai, o Brasil, a Argentina e a Bolívia. A situação dos Kaiowá, que habitam um estado arrasado pela monocultura de exportação, é uma das mais terríveis por que passam as minorias étnicas do planeta, implacavelmente ignoradas, quando não deliberadamente exterminadas, pelos entes soberanos nacionais e pelos interesses econômicos internacionais.

Os Kaiowá ganharam notoriedade com a divulgação de uma carta indignada, dirigida às autoridades pelos membros de um de seus “acampamentos” de beira de estrada ou fundo de pasto (a isto estão reduzidos).

Cansados de serem perseguidos, escorraçados e assassinados por fazendeiros, políticos e outros próceres de nossa brava nação brasileira, pediam que os matassem todos de uma vez antes que aos pouquinhos. Essa carta furou o muro de silêncio hipócrita que costuma impedir que as vozes indígenas sejam ouvidas pelos demais cidadãos do país, e, graças ao circuito informal das redes sociais da internet, acabou tendo que ser divulgada pela mídia convencional.

Quando todos -todos, isto é, todos aqueles que dizemos “todos” como um grito de raiva e de guerra- passaram a se assinar “Fulano Guarani Kaiowá”, era como se o Brasil tivesse descoberto outro Brasil. Um Brasil que sempre esteve lá, que estava e que continua lá. Ou melhor, que está aqui, que é daqui. Os Munduruku são daqui. Os Xavantes são nosso parentes. Os Kaiowá somos nós.

Os índios não são “nossos índios”. Eles não são “nossos”. Eles são nós. Nós somos eles. Todos nós somos todos eles. Somos outros, como todos. Somos deste outro país, esta terra vasta que se vai devastando, onde ainda ecoam centenas, milhares de gentílicos, etnônimos, nomes de povos, palavras estranhas, gramáticas misteriosas, sons inauditos, sílabas pedregosas mas também ditongos doces, palavras que escondem gentes e línguas de que sequer suspeitávamos os nomes.

Nomes que mal sabemos, nomes que nunca ouvimos, mas vamos descobrindo.

Totemismo

O narrador da “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago, observava: “Os homens só conseguem dizer o que são se puderem alegar que são outra coisa”. Definição perfeita do que a antropologia chamava de “totemismo”, forma de organização dos povos ditos primitivos caracterizada pela associação onomástica entre um subgrupo humano e uma espécie natural, frequentemente considerada como o antepassado mítico do grupo.

Os diferentes coletivos de parentesco ou de residência em que se divide a sociedade são assim distinguidos por nomes, emblemas e práticas ligadas a uma ou mais espécies animais ou vegetais, a astros, elementos da paisagem etc. Sem essas “outras coisas”, os homens não conseguiriam dizer “o que são”, isto é, como são diferentes uns dos outros, e por isso se ligam uns aos outros.

No fim das contas, todo nome é sempre isso, uma alegação que pede uma ligação, o apelo a uma outra coisa (do) que se é. Nomear é repetir o ser com uma diferença. Este é o método do totem. Não saia ao mato sem um.

Os índios do noroeste da América do Norte, artistas refinadíssimos, esculpiam mastros monumentais de madeira nobre, onde dispunham verticalmente as figuras de seus animais e espíritos totêmicos. Na linguagem corrente, costuma-se usar a palavra “totem” para designar estes mastros, que eram verdadeiras listas icônicas dos nomes do grupo.

O poema de Andre Vallias é isso -um totem. Um poema que diz o que somos, quem somos, nosso nomes, os nomes de nossos “antepassados” míticos que nos distinguem no desconcerto das nações. Uma lista sempre inacabada, nomes que surgem e nomes que desaparecem, nomes inventados, nomes sonhados, nomes equivocados, nomes dados por outrem, nomes de um na língua de outro, às vezes meros garranchos nos livros-registros do Estado, ganchos onde os brancos penduram sua ignorância e sua arrogância. Meros nomes.

Entretanto, como dizem os Daribi da Nova Guiné (apud Roy Wagner): “Um homem é uma coisa de nada. Mas quando se ouve seu nome, ele se torna algo grande”.

Nomes dos povos, nomes dos índios, nomes de nosso tios. Somos todos como Antônio de Jesus, aliás Tonho Tigreiro, aliás Macuncôzo, aliás Bacuriquepa, o onceiro de “Meu Tio, o Iauaretê”, o conto espantoso de Guimarães Rosa. O mestiço de branco com índia que, depois de passar a vida perseguindo o animal totêmico de seu povo, o Jaguar, volta para os seus, renega o pai branco, desvira branco e vira onça, isto é, revira índio. Assume assim o nome da mãe, o nome do tio materno.

Estamos no matriarcado antropofágico profetizado por Oswald de Andrade; mas aqui sob a forma de tragédia. A lição do conto de Rosa é sombria: mestiço que volta a ser índio, branco mata. E nem lembra o nome.

Todo povo é um nome. Todo nome é um meme. Uma memória sonora que não vai-se embora. Que este totem de Andre Vallias em forma de onomatopoema possa dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

Nota do editor
Este texto foi escrito como apresentação do poema “Totem”, de André Vallias, para a exposição realizada no Espaço Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro

06/01/2013 – 03h00

Totem

ANDRÉ VALLIAS

sou guarani kaiowá
munduruku, kadiwéu
arapium, pankará
xokó, tapuio, xeréu

yanomami, asurini
cinta larga, kayapó
waimiri atroari
tariana, pataxó

kalapalo, nambikwara
jenipapo-kanindé
amondawa, potiguara
kalabaça, araweté

migueleno, karajá
tabajara, bakairi
gavião, tupinambá
anacé, kanamari

deni, xavante, zoró
aranã, pankararé
palikur, ingarikó
makurap, apinayé

matsés, uru eu wau wau
pira-tapuya, akuntsu
kisêdjê, kinikinau
ashaninka, matipu

sou wari’, nadöb, terena
puyanawa, paumari,
wassu-cocal, warekena
puroborá, krikati
ka’apor, nahukuá
jiahui, baniwa, tembé
kuikuro, kaxinawá
naruvotu, tremembé

kuntanawa, aikanã
juma, torá, kaxixó
siriano, pipipã
rikbaktsá, karapotó

krepumkateyê, aruá
kaxuyana, arikapu
witoto, pankaiuká
tapeba, karuazu

desana, parakanã
jarawara, kaiabi
fulni-ô, apurinã
charrua, issé, nukini

aweti, nawa, korubo
miranha, kantaruré
karitiana, marubo
yawalapiti, zo’é

parintintin, katukina
wayana, xakriabá
yaminawá, umutina
avá-canoeiro, kwazá

sou enawenê-nawê
chiquitano, apiaká
manchineri, kanoê
pirahã, kamaiurá

jamamadi, guajajara
anambé, tingui-botó,
yudjá, kambeba, arara
aparai, jiripancó

krenak, xerente, ticuna
krahô, tukano, trumai
patamona, karipuna
hixkaryana, waiwai

katuenayana, baré
menky manoki, truká
kapinawá, javaé
karapanã, panará

sakurabiat, kaingang
kotiria, makuxi
maxakali, taurepang
aripuaná, paresi

iranxe, kamba, tuxá
tapirapé, wajuru
mehinako, kambiwá
ariken, pankararu

sou guajá, djeoromitxi
koiupanká, tunayana
ikolen, dow, wajãpi
amawáka, barasana

kubeo, kulina, ikpeng
ofaié, hupda, xipaya
suruí paiter, xokleng
tupiniquim, kuruaya

zuruahã, galibi
tsohom-dyapa, waujá
xukuru, kaxarari
tuyuka, tumbalalá

borari, amanayé
hi-merimã, aikewara
kujubim, arikosé
arapaço, turiwara

kalankó, pitaguary
shanenawa, tapayuna
coripaco, kiriri
kaimbé, kokama, makuna

matis, karo, banawá
chamacoco, tenharim
tupari, krenyê, bará
wapixana, oro win

sateré mawé, guató
xetá, bororo, atikum
ye’kuana, tiriyó
canela, mura, borum

 

Sobre o texto
“Totem” foi concebido pelo poeta André Vallias para ser reproduzido em 13 metros de comprimento, no chão do centro cultural Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro (rua Visconde de Pirajá, 54, de sábado, 12, a 31/3, de terça a domingo, das 13h às 21h. Grátis). Vallias criou uma tipologia especial para apresentar o poema na mostra, além de um totem multimídia e uma vitrine com informações sobre as 223 etnias citadas.

Quando o controle remoto não resolve (Carta Maior)

Durante muito tempo a crítica da mídia esteve restrita às universidades e a alguns sindicatos de jornalistas ou radialistas. Hoje a internet tem um papel importante na ampliação desse debate. Mas na academia houve um retrocesso.

Laurindo Lalo Leal Filho  – 14/12/2012

(*) Artigo publicado originalmente na Revista do Brasil, edição de dezembro de 2012.

Jornais, revistas, o rádio e a televisão tratam de inúmeros assuntos, quase sem restrição. Apenas um assunto é tabu: eles mesmos.

Durante muito tempo a crítica da mídia esteve restrita às universidades e a alguns sindicatos de jornalistas ou radialistas. Hoje a internet tem um papel importante na ampliação desse debate.

Mas na academia houve um retrocesso. O programa “Globo Universidade”, das Organizações Globo, tem parcela importante de responsabilidade nessa mudança. Surgiu com o objetivo de neutralizar aquela que era uma das poucas áreas onde se realizava uma análise crítica sistemática dos meios de comunicação.

Passou a financiar laboratórios de pesquisa e eventos científicos e, com isso, o objeto de investigação, no caso a própria Globo, tornou-se patrocinador do investigador, retirando da pesquisa a necessária isenção.

Fez na comunicação o que a indústria farmacêutica faz com a medicina há muito tempo, bancando viagens e congressos médicos para propagandear remédios.

O resultado prático pode ser visto no número crescente de trabalhos acadêmicos sobre o uso de novas tecnologias associadas à TV e as formas de aplicação dos seus resultados pelo mercado.

Enfatizam cada vez mais o papel do receptor como elemento capaz de selecionar, a seu critério, os conteúdos que lhe interessam.

Fazem, dessa forma, o jogo dos controladores dos meios, retirando deles a responsabilidade por aquilo que é veiculado. Fica tudo nas costas do pobre receptor, como se ele fosse dono de um livre-arbítrio midiático.

Esquecem o fenômeno da concentração dos meios que reduz o mundo a uma pauta única, com pouca diferenciação entre os veículos.

Dizem em linguagem empolada o que empresários de TV costumam expressar de modo simples: “o melhor controle é o controle remoto”. Como se ao mudar de canal fosse possível ver algo muito diferente.
Cresce também o número de empresas de comunicação oferecendo cursos até em universidades públicas retirando dessas instituições o espaço do debate e da critica.

Saem dos cursos de comunicação jovens adestrados para o mercado, capazes de se tornarem bons profissionais. No entanto, a débil formação geral recebida os impedirá de colocar os conhecimentos obtidos a serviço da cidadania e da transformação social.

O papel político desempenhado pelos meios de comunicação e a análise criteriosa dos conteúdos emitidos ficam em segundo plano, tanto na pesquisa como no ensino.

Foi-se o tempo em que, logo dos primeiros anos do curso, praticava-se a comunicação comparada com exercícios capazes de identificar as linhas político-editoriais adotadas pelos diferentes veículos.

Caso fosse aplicada hoje mostraria, com certeza, a uniformidade das pautas com jornais e telejornais reduzindo os acontecimentos a meia dúzia de fatos capazes de “render matéria”, no jargão das redações.

Mas poderia, em alguns momentos excepcionais, realçar diferenças significativas, imperceptíveis aos olhos do receptor comum.

Como no caso ocorrido logo após a condenação de José Dirceu pelo STF. Ao sair de uma reunião, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Jilmar Tatto foi abordado por vários repórteres.

Queriam saber sua opinião sobre o veredicto do Supremo. Claro que ele deu apenas uma resposta mas para quem viu os telejornais da Rede TV e da Globo foram respostas diferentes.

Na primeira Tatto dizia: “a Corte tem autonomia soberana e pagamos alto preço por isso. E só espero que esta jurisprudência usada pelo STF continue e que tenha o mesmo tratamento com os acusados do PSDB”. Na Globo a frase sobre o “mensalão tucano” desapareceu.

Em casa o telespectador, mesmo vendo os dois jornais, dificilmente perceberia a diferença entre ambos, dada a seqüência rápida das imagens.

Mas para a universidade seria um excelente mote de pesquisa cujos resultados teriam uma importância sócio-política muito maior do que longos discursos sobre transmídias e receptores.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.

New York Post Helps NYPD Slander Occupy Wall Street (Again) (Village Voice)

By Nick Pinto Thu., Jan. 3 2013 at 2:57 PM

morgangliedman.jpgFacebook – Morgan Gliedman was arrested with Aaron Greene, who the Post incorrectly linked to Occupy Wall Street.

When police raided the West Village apartment of Morgan Gliedman and Aaron Greene on Saturday, the New York Post was first to the story.

It was the sort of story that was right in the Post‘s wheelhouse. Gliedman, 27, nine months pregnant, the daughter of a prominent doctor and the product of a Park-Avenue-and-Dalton upbringing, and Greene, a Harvard alumnus, caught in a filthy den of drugs, decadence, and bomb-making materials just blocks from the townhouse where Weather Underground bomb-makers accidentally blew themselves up decades before.

The story also had another element that appears to becoming a Post signature: citing anonymous sources, apparently from within the NYPD, Post reporters Jamie Schram, Antonio Antenucci, and Matt McNulty reported that Greene had ties to Occupy Wall Street. The assertion was right up top in the story’s lead sentence:

“The privileged daughter of a prominent city doctor, and her boyfriend — a Harvard grad and Occupy Wall Street activist — have been busted for allegedly having a cache of weapons and a bombmaking explosive in their Greenwich Village apartment.”

The Occupy association was quickly picked up and rebroadcast by both Reuters and the Associated Press.

Needless to say, the Occupy angle was red meat to FBI-informant-turned-right-wing-bloviator Brandon Darby, who used the link to justify the recent revelation (dropped on the deadest Friday afternoon of the year) that the FBI had indeed been centrally involved in nationwide surveillance of the Occupy movement.

The thing is, the story didn’t hold up. People involved in Occupy Wall Street had no memory of ever encountering Greene. And by the first afternoon, the Occupy link was already being stepped back in the media. As the Associated Press reported, Police Commissioner Ray Kelly suggested that the question of radical affiliations was still open:

“No political writings were discovered, and Kelly said the investigation was continuing into whether the couple had any larger plans or ties to any radical groups.”

That evening, the Daily Beast called the whole scenario into question with a post entitled “NY Couple Not Terrorists, Say Cops, Just Rich Kids With Drug Habits

By the next day, the NYPD was in the Times fully contradicting the Post’s initial Occupy claims:

“But the police said they did not believe that Mr. Greene was active in any political movements.”

Even so, activists, say, the damage had already been done. None of the outlets ran corrections, and most of the initial stories are still online.

It’s worth noting that this isn’t the first time that the Post — and more specifically, Schram, one of its top cop reporters — has been a conduit for vaguely sourced and ultimately baseless police claims linking scary high-profile crimes to Occupy Wall Street.

In July, Schram co-authored a cover story for the Post under the screaming front-page headline “OWS Murder Link,” citing the claims of anonymous sources that the cold-case murder of a jogger in Inwood had been linked by DNA to a chain used to hold open subway doors during a fare strike by transit workers and Occupy activists last winter. The local NBC affiliate did the same.

That story too was quickly rolled back, as officials conceded that in fact the match was far more likely to have resulted from sloppy lab work, but not before the fabricated link had been picked up by media outlets far and wide.

Occupy Wall Street is now pushing back. An online petition decrying the Post story is approaching 1,000 signatures.

Some activists see a pattern emerging, in which the NYPD uses it’s cozy relationship with the Post to put out anonymous slanders of a nonviolent social-justice movement without having to get its hands dirty.

Whether or not that’s the case, the fact that his has happened twice now raises real questions about the Post’s policies governing the use of anonymous law-enforcement sources and its commitment to correcting factually inaccurate reporting.

Kelly McBride, the senior ethics faculty at the Poynter Institute, told the Voice the Post is definitely doing this wrong:

“In a case like this, the best practices would suggest that The Post is definitely obligated to correct their mistake, both by updating the online version of the story and noting the error, as well as printing a correction in the paper to inform people who saw the mistake there.”

We emailed both Schram and the Post’s PR office for comment, but haven’t heard back yet. We’ll update the post if we do.

UPDATEMore Misreporting On the West Village Explosives Arrests

Previous Coverage:

Biologists Unlock ‘Black Box’ to Underground World: How Tiny Microbes Make Life Easier for Humans (Science Direct)

Jan. 2, 2013 — A BYU biologist is part of a team of researchers that has unlocked the “black box” to the underground world home to billions of microscopic creatures.

That first peek inside, recently published in the Proceedings of the National Academy of Sciences, may well explain how the number of species in an ecosystem changes the way it functions.

“The organisms that live in soil do all kinds of important things for us — they decompose and decontaminate our waste and toxic chemicals, purify our water, prevent erosion, renew fertility,” said BYU biology professor Byron Adams, a study coauthor. “But we know very little about how they do this. What species need to be present? What are the different jobs that we need them to do?”

For their analysis, Adams and his colleagues took 16 soil samples from all reaches of the globe, from Antarctica to tropical forest locations, extracted the DNA out of all the organisms in each sample, and sequenced it.

With information about the genome (the complete set of its DNA and all of its genes) of each microbe in the soil, the researchers were able to see which organisms do what, and whether or not their functional roles are redundant or unique.

“People think you’re going to pick up a handful of dirt anywhere in the world and you’ll pretty much have the same bunch of microbes doing pretty much the same things,” Adams said. “That’s simply not true. They function very differently based on their environment. And when you have more species, you get more, and different functions.”

Having several different species that do the same job might mean that if one species goes extinct then the others can pick up the slack. On the other hand, in ecosystems like deserts, where there are few species and even fewer jobs, removing some species could result in collapse, or failure of the ecosystem to provide the services we need.

Understanding the relationship between biodiversity and the different jobs that soil microbes do is a first step towards understanding how to better harness these organisms in order to prevent the collapse of the very systems that provide critical ecosystem services, such as fertile soil and clean water.

“The most obvious applications of this understanding will probably be in agricultural ecosystems,” Adams said.

A better understanding of below-ground ecosystems can help humans predict how those systems will respond to things such as climate change or perturbations to the soil from mining, drilling or waste. And, hopefully, that understanding can help prevent agricultural or environmental catastrophes.

“We’ve been walking around on soil since the beginning of time and never really knew what was going on underneath us,” Adams said. “Now we will be able to make predictions of how ecosystems function, what causes them to collapse, and perhaps even predict, where collapses will take place and how we can prevent them.”

The lead author on the study was Noah Fierer, an associate professor of Ecology and Evolutionary Biology at the University of Colorado, Boulder.

The researchers’ data also may have something to say about how new species form. For centuries it was thought that geographic barriers (like mountains, peninsulas, rivers and deserts) were the primary engines of speciation. However, it could be that interactions with other species are just as important.

The authors believe this study will open up significant additional research addressing speciation and the evolution of microbial communities.

Journal Reference:

  1. N. Fierer, J. W. Leff, B. J. Adams, U. N. Nielsen, S. T. Bates, C. L. Lauber, S. Owens, J. A. Gilbert, D. H. Wall, J. G. Caporaso. Cross-biome metagenomic analyses of soil microbial communities and their functional attributesProceedings of the National Academy of Sciences, 2012; 109 (52): 21390 DOI:10.1073/pnas.1215210110

‘Universal’ Personality Traits Don’t Necessarily Apply to Isolated Indigenous People (Science Direct)

Jan. 3, 2013 — Five personality traits widely thought to be universal across cultures might not be, according to a study of an isolated Bolivian society.

Researchers who spent two years looking at 1,062 members of the Tsimane culture found that they didn’t necessarily exhibit the five broad dimensions of personality — openness, conscientiousness, extraversion, agreeableness and neuroticism — also known as the “Big Five.” The American Psychological Association’s Journal of Personality and Social Psychologypublished the study online Dec. 17.

While previous research has found strong support for the Big Five traits in more developed countries and across some cultures, these researchers discovered more evidence of a Tsimane “Big Two:” socially beneficial behavior, also known as prosociality, and industriousness. These Big Two combine elements of the traditional Big Five, and may represent unique aspects of highly social, subsistence societies.

“Similar to the conscientiousness portion of the Big Five, several traits that bundle together among the Tsimane included efficiency, perseverance and thoroughness. These traits reflect the industriousness of a society of subsistence farmers,” said the study’s lead author, Michael Gurven, PhD, of the University of California, Santa Barbara. “However, other industrious traits included being energetic, relaxed and helpful. In small-scale societies, individuals have fewer choices for social or sexual partners and limited domains of opportunities for cultural success and proficiency. This may require abilities that link aspects of different traits, resulting in a trait structure other than the Big Five.”

The Tsimane, who are forager-farmers, live in communities ranging from 30 to 500 people dispersed among approximately 90 villages. Since the mid-20th century, they have come into greater contact with the modern world but mortality rates remain high (approximately 20 percent of babies born never reach age 5) and the fertility rate is very high (approximately nine births per woman), the study said. Most Tsimane are not formally educated, with a literacy rate close to 25 percent. Some 40 percent speak Spanish in addition to their native language. They live in extended family clusters that share food and labor and they limit contact with outsiders unless absolutely necessary, according to the authors.

Researchers translated into the Tsimane language a standard questionnaire that assesses the Big Five personality traits. Between January 2009 and December 2010, they interviewed 632 adults from 28 villages. The sample was 48 percent female with an average age of 47 years (ranging from 20 to 88) and little more than a year of formal education.

Researchers also conducted a separate study between March 2011 and January 2012 to gauge the reliability of the model when answered by peers. They asked 430 Tsimane adults, including 66 people from the first study, to evaluate their spouse’s personality. The second study revealed that the subject’s personality as reported by his or her spouse also did not fit with the Big Five traits.

The researchers controlled for education level, Spanish fluency, gender and age. Previous research has suggested that formal schooling and greater interaction with others, such as when villagers venture to markets in other towns, can lead to more abstract reflection and may be one reason why the Big Five replicates in most places, according to the authors. However, there were no significant differences between the less educated, Tsimane-only speakers and the more educated bilingual participants.

Other recent research, some of which was outlined in an article in the American Psychologist, has shown the existence of Big Five personality traits may be lacking in some developing cultures, particularly in Asia and Africa, but this is the first study of a large sample of an exclusively indigenous population completed with rigorous methodological controls, according to Gurven. He suggested personality researchers expand beyond the limited scope of more Western, industrialized and educated populations. “The lifestyle and ecology typical of hunter-gatherers and horticulturalists are the crucible that shaped much of human psychology and behavior,” he said. “Despite its popularity, there is no good theory that explains why the Big Five takes the form it does, or why it is so commonly observed. Rather than just point out a case study where the Big Five fails, our goal should be to better understand the factors that shape personality more generally.”

The study was part of the University of California-Santa Barbara’s and University of New Mexico’s Tsimane Health and Life History Project, co-directed by Gurven and study co-author Hillard Kaplan, PhD, of the University of New Mexico, and was funded by the National Institute on Aging.

Journal Reference:

  1. Michael Gurven, Christopher von Rueden, Maxim Massenkoff, Hillard Kaplan, Marino Lero Vie. How Universal Is the Big Five? Testing the Five-Factor Model of Personality Variation Among Forager–Farmers in the Bolivian Amazon.Journal of Personality and Social Psychology, 2012; DOI: 10.1037/a0030841

Disease Burden Links Ecology to Economic Growth (Science Direct)

Dec. 27, 2012 — A new study, published Dec. 27 in the open access journal PLOS Biology, finds that vector-borne and parasitic diseases have substantial effects on economic development across the globe, and are major drivers of differences in income between tropical and temperate countries. The burden of these diseases is, in turn, determined by underlying ecological factors: it is predicted to rise as biodiversity falls. This has significant implications for the economics of health care policy in developing countries, and advances our understanding of how ecological conditions can affect economic growth.

According to conventional economic wisdom, the foundation of economic growth is in political and economic institutions. “This is largely Cold War Economics about how to allocate property rights — with the government or with the private sector,” says Dr Matthew Bonds, an economist at Harvard Medical School, and the lead author of the new study. However, Dr Bonds and colleagues were interested instead in biological processes that transcend such institutions, and which might form a more fundamental economic foundation.

The team was intrigued by the fact that tropical countries are generally composed of poor agrarian populations while countries in temperate regions are wealthier and more industrialized. This distribution of income is inversely related to the burden of disease, which peaks at the equator and falls along a latitudinal gradient. Although it is common to conclude that economics drives the pattern of disease, the authors point out that most of the diseases that afflict the poor spend much of their life-cycle outside the human host. Many cannot even survive outside the tropics. Their distribution is largely determined by ecological factors, such as temperature, rainfall, and soil quality.

Because of the high correlations between poverty and disease, determining the effects of one on the other was the central challenge of their statistical analysis. Most previous attempts to address this topic ignored disease ecology, argue Bonds and colleagues. The team assembled a large data set for all of the world’s nations on economics, parasitic and infectious vector-borne diseases, biodiversity (mammals, birds and plants) and other factors. Knowing that diseases are partly determined by ecology, they used a powerful set of statistical methods, new to macroecology, that allowed variables that may have underlying relationships with each other to be teased apart.

The results of the analysis suggest that infectious disease has as powerful an effect on a nation’s economic health as governance, say the authors. “The main asset of the poor is their own labor,” says Dr Bonds. “Infectious diseases, which are regulated by the environment, systematically steal human resources. Economically speaking, the effect is similar to that of crime or government corruption on undermining economic growth.”

This result has important significance for international aid organizations, as it suggests that money spent on combating disease would also stimulate economic growth. Moreover, although diversity of human diseases is highly correlated with diversity of surrounding species, the study indicates that the burden of such human disease actually drops when biodiversity rises. The analysis is inconclusive about why this effect is so strong. The authors suggest that competition and predation limit the survival of disease vectors and free-living parasites where biodiversity is high. The research sets the stage for a number of future analyses that need to lay bare the relationship between health care funding and economic development.

Journal Reference:

  1. Matthew H. Bonds, Andrew P. Dobson, Donald C. Keenan.Disease Ecology, Biodiversity, and the Latitudinal Gradient in IncomePLoS Biology, 2012; 10 (12): e1001456 DOI: 10.1371/journal.pbio.1001456

Bonobos Will Share With Strangers Before Acquaintances (Science Direct)

Jan. 2, 2013 — You’re standing in line somewhere and you decide to open a pack of gum. Do you share a piece with the coworker standing to one side of you, or with the stranger on the other?

This is an infant bonobo feeding on papaya. (Credit: Jingzhi Tan)

Most humans would choose the person they know first, if they shared at all.

But bonobos, those notoriously frisky, ardently social great apes of the Congo, prefer to share with a stranger before sharing with an animal they know. In fact, a bonobo will invite a stranger to share a snack while leaving an acquaintance watching helplessly from behind a barrier.

“It seems kind of crazy to us, but bonobos prefer to share with strangers,” said Brian Hare, a professor of evolutionary anthropology at Duke University. “They’re trying to extend their social network.” And they apparently value that more than maintaining the friendships they already have.

To measure this willingness to share, Hare and graduate student Jingzhi Tan ran a series of experiments with bonobos living in the Lola ya Bonobo sanctuary in Kinshasa, Democratic Republic of Congo. The experiments involved piles of food and enclosures that the test subjects were able to unlock and open. Tan and Hare describe their work in a paper in the Jan. 2, 2013 edition of PLOS ONE.

In the first series of experiments, a pile of food was placed in a central enclosure flanked by two enclosures, each of them holding another animal. The test subject had the knowledge and ability to open a door to either of the other chambers, or both. On one side was a bonobo they knew from their group (not necessarily a friend or family member) and in the other was a bonobo they had never really met, but had only seen at a distance.

Upon entering the chamber with the food, the test subjects could easily just sit down and consume it all themselves, or they could let in one or both of the other animals to share.

Nine of the 14 animals who went through this test released the stranger first. Two preferred their groupmates. Three showed no particular preference in repeated trials. The third animal was often let in on the treat as well, but more often it was the stranger, not the test subject, who opened the door for them.

Tan said that by letting the third animal into the enclosure, the stranger voluntarily outnumbered himself or herself with two bonobos who knew each other, which a chimpanzee would never do. In 51 trials of the experiment, there was never any aggression shown, although there was quite a bit of typical bonobo genital rubbing between the strangers.

To isolate how much motivation the animals receive from social interaction, the researchers ran a second set of experiments in which the subject animal wouldn’t receive any social contact with another animal. In the first of these experiments, the subjects couldn’t get any food for themselves regardless of whether they chose to open the door to allow the other animal to get some food. Nine out of ten animals shared with the stranger at least once.

In the final experiment without social contact, the subject animal was given access to the food in such a way that opening the door to share with the other animal would cost them some food. But they still wouldn’t have any social contact as a reward. In this instance, the animals chose not to share. “If they’re not going to see a social benefit, they won’t share,” Hare said.

This second test is similar to something called the dictator game in which humans are given the chance to share cash with a stranger, Hare said. Most people will share anonymously, but they share even more when they aren’t anonymous. Bonobos won’t share at all in the anonymous condition if it costs them food.

“They care about others,” Hare said, but only in a sort of selfish way. “They’ll share when it’s a low-cost/low-benefit kind of situation. But when it’s a no-benefit situation, they won’t share. That’s different from a human playing the dictator game. You really have to care about others to give anonymously.”

The findings, which Hare calls “one of the crazier things we’ve found” in more than a decade of bonobo research, form yet another distinction between bonobos and chimpanzees, our two closest relatives. “Chimps can’t do these tests, they’d be all over each other.”

The work was funded by the National Science Foundation and the European Research Council.

Journal Reference:

  1. Tan J, Hare B. Bonobos Share with StrangersPLOS ONE, 2013; 8 (1): e51922 DOI:10.1371/journal.pone.0051922

Idle No More: Hints of a Global Super-Movement (The Huffington Post)

Posted: 01/02/2013 4:34 pm

By Jacob Devaney

What started as a murmur in early October from First Nations People in Canada in response to Bill C45 has become a movement that echoes the sentiments of people all over the world, a battle cry of love for the planet, “Idle No More.” At first glance it might appear that this movement is isolated and doesn’t effect you if you are not native or if you don’t live in Canada, yet it does. It may appear that this resistance is not related to The Occupy Movement, The Arab Spring, The Unify Movement, Anonymous, or any of the other popular uprisings sparked by social unrest, but it is.

At its very core, all of these movements have very common threads and are born from common issues facing people everywhere. Those who represent financial interests that value money over life itself, that are devoid of basic respect for human decency, and for nature have dictated the future for too long and people everywhere are standing up to say, “No more.” This non-violent social uprising is viral in the minds and hearts of everyone across the planet determined to bring healing to our troubled communities, our planet, and the corruption that is eroding the highest places of governments around the world.

2013-01-02-idlenomorehuffpo.pngImage by Andy Everson

Flashmobs with dancing and drumming at a malls in Olympia, Wash. Tempe, Ariz., Denver, Colo., a giant circle dance blocking a large intersection in Winnipeg, rail blockades in Quebec, this movement is using cultural expression combined with modern activism to get attention, and it is working. From their website, “Idle No More calls on all people to join in a revolution which honors and fulfills Indigenous sovereignty which protects the land and water. Colonization continues through attacks to Indigenous rights and damage to the land and water.”

Idle No More was started in October by four ladies; Nina Wilson, Sylvia McAdam, Jessica Gordon & Sheelah McLean who felt it was “urgent to act on current and upcoming legislation that not only affects First Nations people but the rest of Canada’s citizens, lands and waters.” On December 11 Attawapiskat Chief, Theresa Spence, launched a hunger strike requesting a face-to-face meeting with Canadian Prime Minister Stephen Harper to discuss broken treaties and protection of natural resources. Spence is staying in a tipi on the frozen Ottawa River facing Parliament Hill and has gained the support from many natives and non-natives who are in solidarity with this movement.

Chief Arvol Lookinghorse from South Dakota recently expressed his support in a letter posted on Facebook that states, “As Keeper of our Sacred White Buffalo Calf Pipe, I would like to send out support for the efforts of Chief Theresa Spence of the Attawapiskat First Nation, for giving of herself through fasting with prayers for the protection of Mother Earth.” He goes on to say,

This effort to protect Mother Earth is all Humanity’s responsibility, not just Aboriginal People. Every human being has had Ancestors in their lineage that understood their umbilical cord to the Earth, understanding the need to always protect and thank her. Therefore, all Humanity has to re-connect to their own Indigenous Roots of their lineage — to heal their connection and responsibility with Mother Earth and become a united voice… All Nations, All Faiths, One Prayer.

Society and nature work in similar ways to our own body’s immune system. We are given a symptom that causes us to be aware that there is an illness that needs to be addressed. We can try to suppress the symptom, but that does not heal the illness. Popular uprisings with very core commonalities are spreading all over the planet. Exploitation of our environment, as well as the exploitation of people and cultures for the sake of financial gain is immoral and must be stopped at the highest levels of our governments. It is possible to have a thriving economy and environmental ethics.

Here in America, the response to Occupy is tucked into NDAA as Washington prepares ways to suppress the symptoms of social discord. Without addressing the illness at its root nothing will change. It is like the mythical Many-Headed Hydra, if you cut one head off, two more will grow back. Popular uprisings will continue here and all over the world until leaders understand that people want real fundamental change in policy. Governments should lead by example if they want to be respected.

With Twitter, Facebook and the internet, these separate movements are finding solidarity with each other and converging as a global super-movement for the planet and all people. The quote used at Unify is, “Everyone, Everywhere, Together” and it is beginning to resonate more than ever.

Each of these movements share a commitment to non-violent revolution in their call to end the exploitation of people and the exploitation of natural resources. Sustainability can be applied to all aspects of social rights, economics and the environment. Social, economic, cultural, and environmental movements, resistance, civil disobedience, flash mobs and more will continue until this is addressed at home and abroad. Whether it is Anonymous and Wikileaks exposing the corruption of governments, or Indians with drums dancing and chanting in a local mall, people everywhere are awakening, speaking up, and acting for the needed changes. It’s time for politicians and religious leaders to get the message everywhere.

It is a simple choice: continue to be part of the cancer that slowly destroys our water, our air and the resources that are the fabric of life by staying unconscious, or become the conscious antidote that slowly kills the cancerous disease which threatens the existence of life on the planet? Is the disease capitalism, corruption, ignorance, greed, The Illuminati, or some combination of all of these things spiralling out of control? It doesn’t matter because it is becoming obvious that there are people from all nationalities, religions, and cultural backgrounds who are determined to resist the progression of imminent destruction. A factory producing monkey wrenches for the gears of the machine which is at the center of our collective demise.

Will the leaders wake up to this in order to play the roles they have sworn to uphold or will they further discredit their position, their institutions, and help to destroy the very systems that they have been entrusted to maintain? Every time Congress represents the will of a few wealthy people over the interests and the well-being of the planet and the people, they do more to subvert and destroy the state than ten thousand people protesting in the streets. When leaders fail, they destroy the trust that holds society together.

Is Harper cold and callous enough to ignore a constituent on hunger strike a short distance from his office? Can he afford to ignore these issues? Can any of us afford to ignore this call to be idle no more?

Take a moment and listen to the eloquent words of an 11-year-old girl in the video below. If a child can understand this, how come world leaders are still silent on making real changes to address these urgent issues?

Please support Idle No More, learn more about the movement, how it effects all of us and get involved. All of our futures depend on it.

Revealed: how the FBI coordinated the crackdown on Occupy (The Guardian)

New documents prove what was once dismissed as paranoid fantasy: totally integrated corporate-state repression of dissent

Naomi Wolf – guardian.co.uk, Saturday 29 December 2012 14.58 GMT

Occupy Oakland clashes

Police used teargas to drive back protesters following an attempt by the Occupy supporters to shut down the city of Oakland. Photograph: Noah Berger/AP

It was more sophisticated than we had imagined: new documents show that the violent crackdown on Occupy last fall – so mystifying at the time – was not just coordinated at the level of the FBI, the Department of Homeland Security, and local police. The crackdown, which involved, as you may recall, violent arrests, group disruption, canister missiles to the skulls of protesters, people held in handcuffs so tight they were injured, people held in bondage till they were forced to wet or soil themselves –was coordinated with the big banks themselves.

The Partnership for Civil Justice Fund, in a groundbreaking scoop that should once more shame major US media outlets (why are nonprofits now some of the only entities in America left breaking major civil liberties news?), filed this request. The document – reproduced here in an easily searchable format – shows a terrifying network of coordinated DHS, FBI, police, regional fusion center, and private-sector activity so completely merged into one another that the monstrous whole is, in fact, one entity: in some cases, bearing a single name, the Domestic Security Alliance Council. And it reveals this merged entity to have one centrally planned, locally executed mission. The documents, in short, show the cops and DHS working for and with banks to target, arrest, and politically disable peaceful American citizens.

The documents, released after long delay in the week between Christmas and New Year, show a nationwide meta-plot unfolding in city after city in an Orwellian world: six American universities are sites where campus police funneled information about students involved with OWS to the FBI, with the administrations’ knowledge (p51); banks sat down with FBI officials to pool information about OWS protesters harvested by private security; plans to crush Occupy events, planned for a month down the road, were made by the FBI – and offered to the representatives of the same organizations that the protests would target; and even threats of the assassination of OWS leaders by sniper fire – by whom? Where? – now remain redacted and undisclosed to those American citizens in danger, contrary to standard FBI practice to inform the person concerned when there is a threat against a political leader (p61).

As Mara Verheyden-Hilliard, executive director of the PCJF, put it, the documents show that from the start, the FBI – though it acknowledgesOccupy movement as being, in fact, a peaceful organization – nonetheless designated OWS repeatedly as a “terrorist threat”:

“FBI documents just obtained by the Partnership for Civil Justice Fund (PCJF) … reveal that from its inception, the FBI treated the Occupy movement as a potential criminal and terrorist threat … The PCJF has obtained heavily redacted documents showing that FBI offices and agents around the country were in high gear conductingsurveillance against the movement even as early as August 2011, a month prior to the establishment of the OWS encampment in Zuccotti Park and other Occupy actions around the country.”

Verheyden-Hilliard points out the close partnering of banks, the New York Stock Exchange and at least one local Federal Reserve with the FBI and DHS, and calls it “police-statism”:

“This production [of documents], which we believe is just the tip of the iceberg, is a window into the nationwide scope of the FBI’s surveillance, monitoring, and reporting on peaceful protestors organizing with the Occupy movement … These documents also show these federal agencies functioning as a de facto intelligence arm of Wall Street and Corporate America.”

The documents show stunning range: in Denver, Colorado, that branch of the FBI and a “Bank Fraud Working Group” met in November 2011 – during the Occupy protests – to surveil the group. The Federal Reserve of Richmond, Virginia had its own private security surveilling Occupy Tampa and Tampa Veterans for Peace and passing privately-collected information on activists back to the Richmond FBI, which, in turn, categorized OWS activities under its “domestic terrorism” unit. The Anchorage, Alaska “terrorism task force” was watching Occupy Anchorage. The Jackson, Mississippi “joint terrorism task force” was issuing a “counterterrorism preparedness alert” about the ill-organized grandmas and college sophomores in Occupy there. Also in Jackson, Mississippi, the FBI and the “Bank Security Group” – multiple private banks – met to discuss the reaction to “National Bad Bank Sit-in Day” (the response was violent, as you may recall). The Virginia FBI sent that state’s Occupy members’ details to the Virginia terrorism fusion center. The Memphis FBI tracked OWS under its “joint terrorism task force” aegis, too. And so on, for over 100 pages.

Jason Leopold, at Truthout.org, who has sought similar documents for more than a year, reported that the FBI falsely asserted in response to his own FOIA requests that no documents related to its infiltration ofOccupy Wall Street existed at all. But the release may be strategic: if you are an Occupy activist and see how your information is being sent to terrorism task forces and fusion centers, not to mention the “longterm plans” of some redacted group to shoot you, this document is quite the deterrent.

There is a new twist: the merger of the private sector, DHS and the FBI means that any of us can become WikiLeaks, a point that Julian Assange was trying to make in explaining the argument behind his recent book. The fusion of the tracking of money and the suppression of dissent means that a huge area of vulnerability in civil society – people’s income streams and financial records – is now firmly in the hands of the banks, which are, in turn, now in the business of tracking your dissent.

Remember that only 10% of the money donated to WikiLeaks can be processed – because of financial sector and DHS-sponsored targeting of PayPal data. With this merger, that crushing of one’s personal or business financial freedom can happen to any of us. How messy, criminalizing and prosecuting dissent. How simple, by contrast, just to label an entity a “terrorist organization” and choke off, disrupt or indict its sources of financing.

Why the huge push for counterterrorism “fusion centers”, the DHS militarizing of police departments, and so on? It was never really about “the terrorists”. It was not even about civil unrest. It was always about this moment, when vast crimes might be uncovered by citizens – it was always, that is to say, meant to be about you.

• This article originally referred to a joint terrorism task force in Jackson, Michigan. This was amended to Jackson, Mississippi at 4pm ET on 2 January 2012

We Are All Mosaics (National Geographic)

by Virginia Hughes, 21 December 2012

Here’s something you probably learned once in a biology class, more or less. There’s this molecule called DNA. It contains a long code that created you and is unique to you. And faithful copies of the code live inside the nucleus of every one of the trillions of cells in your body.

In a later class you may have learned a few exceptions to that “faithful copies” bit. Sometimes, especially during development, when cells are dividing into more cells, a mutation pops up in the DNA of a daughter cell. This makes the daughter cell and all of its progeny genetically distinct. The phenomenon is called ‘somatic mosaicism’, and it tends to happen in sperm cells, egg cells, immune cells, and cancer cells. But it’s pretty infrequent and, for most healthy people, inconsequential.

That’s what the textbooks say, anyway, and it’s also a common assumption in medical research. For instance, genetic studies of living people almost always collect DNA from blood draws or cheek swabs, even if investigating the tangled roots of, say, heart disease or diabetes or autism. The assumption is that whatever genetic blips show up in blood or saliva will recapitulate what’s in the (far less accessible) cells of the heart, pancreas, or brain.

Two recent reports suggest that somatic mosaicism is far more common than anybody ever realized — and that might be a good thing.

 

Colored bars show the locations of genetic glitches in tissues from each of the six subjects (inner vertical numbers). The numbers on the outer edge of the circle correspond to each of our 23 chromosomes, and each color represents a different organ. Image courtesy of PNAS

In the first study Michael Snyder and colleagues looked at cells in 11 different organs and tissues obtained from routine autopsies of six unrelated people who had not died of cancer or any hereditary disease.

Then the scientists screened each tissue for small deletions or duplications of DNA, called copy number variations, or CNVs. These are fairly common in all of us.

In order to do genetic screens, researchers have to mash up a bunch of cells and pull DNA out of the aggregate. That makes research on somatic mutations tricky, because you can’t tell how some cells in the tissue might be different from others. The researchers got around that problem by doing side-by-side comparisons of the tissues from each person. If one tissue has a CNV and the other one doesn’t, they reasoned, then it must be a somatic glitch.

As they reported in October in the Proceedings of the National Academy of Sciences, Snyder’s team found a total of 73 somatic CNVs in the six people, cropping up in tissues all over the body, including the brain, liver, pancreas and small intestine. “Your genome is not static — it does change through development,” says Snyder, chair of the genetics department at Stanford. “People knew that, but it had never been systematically studied.”

OK, but do somatic mutations do anything? It’s hard to tell, particularly because postmortem studies offer no living person to observe. Still, the scientists showed that 79 percent of the somatic mutations fell inside of genes, and most of those genes play a role in the cell’s everyday regulatory processes, like metabolism, phosphorylation, and turning genes on. So the somatic mutations could very well have had an impact.

In the last paragraph of their paper the researchers mention that the findings could also have big implications for studies of induced pluripotent stem (iPS) cells. This line of research is getting increasingly popular, for good reason. With iPS technology, researchers start with a small piece of skin (or…) from a living person. They then expose those skin cells to a certain chemical concoction that reprograms them back into a primordial state. Once the stem cells are created, researchers can put them in yet another chemical soup that coaxes them to differentiate into whatever type of cell the scientists want to study. You can see why it’s cool: The technique allows scientists to create cells — each holding an individual’s unique DNA code, remember — in a Petri dish. Researchers can study neurons of children with autism, for example, without ever touching their brains.

Trouble is, several groups have reported that iPS cells carry mutations that the original skin cells don’t have. This suggests that something screwy is happening during the reprogramming process, defeating the whole purpose of making the cells. (Fellow Phenomena contributor Ed Yong wrote a fantastic post about the hoopla last year.)

But that last paragraph of Snyder’s study offers a bit of hope. What if the mutations that crop up in iPS cells actually were in the skin cells they came from, but just didn’t get picked up because those skin cells were mixed with other skin cells that didn’t have the mutations? In other words, what if skin cells, like all those other tissues they looked at in the paper, are mosaics?

The second new study, published last month in Naturefinds exactly that.

Flora Vaccarino‘s team at Yale sequenced the entire genome of 21 iPS cell lines, three each from seven people, as well as the skin cells that the iPS cells originated from. It turns out that each iPS line has an average of two CNVs and that at least half of these come from somatic mutations in the skin cells. (The researchers used special techniques for amplifying the DNA of the skin cells, so that they could detect CNVs that are present only in a fraction of the cells.)

That means two things. First, researchers using iPS cells can exhale. Their freaky reprogramming process doesn’t seem to create too much genetic havoc in the iPS cells. And second, somatic mosaicism happens a lot. Vaccarino’s study estimates that a full 30 percent of the skin cells carry somatic mutations.

Our widespread mosaicism may have implications for certain diseases. Somatic mutations have been strongly linked to tumors, for example, so it could be that people who have a lot of mosaicism are at a higher risk of cancer. But there’s also a positive way to spin it. Somatic mutations give our genomes an extra layer of flexibility, in a sense, that can come in handy. Snyder gives a good example in his study. If you have a group of cells that are constantly exposed to viruses, say, then it might be beneficial to have a somatic mutation pop up that damages receptors on the cell that viruses can latch on to.

But there’s likely a more parsimonious explanation for all of those genetic copying mistakes. “When you’re replicating DNA, there’s a certain expense to keep everything perfect,” Snyder says, meaning that it would cost the cell a lot of energy to ensure that every new cell was identical to the last. And in the end, he adds, that extra expense may not be worth it. “Having imperfections could just be an economically beneficial way for organisms to do things.”

Photos from Shannon O’Hara and James Diin, courtesy of National Geographic’s My Shot

Law against anorexic models goes into effect (The Jerusalem Post)

By JUDY SIEGEL-ITZKOVICH
01/01/2013

Print EditionPhoto by: Reuters/Amir Cohen

Models with body mass index below 18.5 may not be shown in Israeli media, on websites or go down catwalk at fashion shows.

Starting on Tuesday, female and male models who have a body mass index (BMI) of less than 18.5 may not be shown in the media or on Israeli websites or go down the catwalk at fashion shows.

The law, initiated by then-Kadima MK Rachel Adatto, aims to protect impressionable teens from eating disorders.

Every year, an average of 30 young adults and teens die of anorexia or bulimia.

The law, also sponsored by Likud-Beytenu MK Danny Danon and believed to be the first of its kind in the world, does make violations a criminal offense bearing a fine. But violators can be sued in court by interested citizens, including families whose relatives have suffered or died due to eating disorders encouraged by images of overly thin models.

While the media that publish or present illegal images are not liable, they will get a bad image for doing so; the company that produced the ad, ran the fashion show or used the overly skinny presenter can be taken to court.

In addition, any advertisement made to look with Photoshop or other graphics programs as if the model has a BMI under 18.5 has to be labeled with the warning that the image was distorted. The warning must be clear and prominent, covering at least 7 percent of the ad space.

BMI is defined as an individual’s weight in kilos divided by the square of his or her height in meters. Would-be models in campaigns and fashion shows must first obtain and show written statements from their physician stating that their BMI – up to a maximum of three months ago – was above 18.5.

If not, they can not appear.

Adatto, a gynecologist by profession who is not likely to return to the Knesset because since she joined The Tzipi Livni Party and was placed in a low position on the list, said that on January 1, a “revolution against the anorexic model of beauty begins. Overly skinny models who look as if they eat a biscuit a day and then serve as a model for our children” will no longer be visible.

Every year, some 1,500 teenagers develop an eating disorder, and 5% of those suffering from anorexia die each year. The problem even effects the ultra-Orthodox community because some haredi men increasingly demand very-thin brides.

Adi Barkan, a veteran fashion photographer and model agent who “repented” and is in the Israel Center for the Change in Eating Habits and a prime advocate for Adatto’s bill, said: “We are all affected. We wear black, do [drastic] diets and are obsessive about our looks. The time has come for the end of the era of skeletons on billboards and sickly thinness all over. The time has come to think about ourselves and our children and take responsibility for what we show them. Too thin is not sexy.”

The Second Authority for Television and Radio, which regulates commercially operated television and radio broadcasts, has already issued instructions to its employees to observe the new law.