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Macaco com coração de porco? Teste abre espaço para transplante com humanos (UOL)

Do UOL, em São Paulo

12/04/201606h00 

Charles Platiau/ Reuters

Um babuíno sobreviveu por dois anos e meio após ter um coração de porco transplantado em seu abdômen. Em pesquisas anteriores, primatas sobreviviam no máximo 500 dias. O recorde foi divulgado na última terça-feira (5) na revista Nature Communications e abre espaço para transplantes entre suínos e humanos no futuro.

O método utilizou uma combinação de modificação genética e drogas imunossupressoras em cinco babuínos. Os corações dos porcos não substituíam os dos primatas — que continuaram com a função de bombear o sangue, mas estavam ligados ao sistema circulatório por meio de dois grandes vasos sanguíneos no abdômen.

Muitas vezes, o sistema imunológico do receptor rejeita o coração do doador por reconhecê-lo como estranho e, portanto, uma ameaça. Na pesquisa com babuínos, os corações dos porcos foram geneticamente modificados para ter alta tolerância à resposta imune. Os cientistas norte-americanos e alemães também adicionaram uma assinatura genética humana para ajudar a prevenir a coagulação do sangue.

Apenas um dos babuínos atingiu a marca de 945 dias vivo. A média entre os cinco foi de 298 dias. A equipe pensa em estender a pesquisa para a substituição dos órgãos.

Transplantes em humanos

Os cientistas têm feito experiências com transplante de rins, coração e fígados de primatas em seres humanos desde a década de 1960. Nenhum sobreviveu por mais de alguns meses.

Por conta da proximidade genética, os primatas eram os melhores candidatos a doadores. Mas não há uma grande quantidade de macacos criados em cativeiro.

Os corações dos porcos são anatomicamente semelhantes aos corações humanos. Os suínos também crescem rápido e são amplamente domesticados.

Antigas listas de compras viram evidência sobre quando a Bíblia foi escrita (UOL/NYT)

Isabel Kershner
Em Tel Aviv (Israel)

13/04/201606h00 

Anotações feitas em tinta em cerâmica

Anotações feitas em tinta em cerâmica. Michael Cordonsky/Israel Antiquities Authority via The New York Times

Eliashib, o intendente da remota fortaleza no deserto, recebia suas instruções por escrito, anotações feitas em tinta em cerâmica pedindo que provisões fossem enviadas para as forças no antigo reino de Judá.

Os pedidos por vinho, farinha e óleo parecem listas de compras mundanas, apesar de antigas. Mas uma nova análise da caligrafia sugere que a capacidade de ler e escrever era bem mais disseminada do que antes se sabia na Terra Santa por volta de 600 a.C., perto do final do período do Primeiro Templo. As conclusões, segundo pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, pode ter alguma relevância para o debate de um século sobre quando o corpo principal dos textos bíblicos foi composto.

“Para Eliashib: agora, dê a Kittiyim 3 batos de vinho, e escreva o nome do dia”, diz um dos textos, compostos em hebraico antigo usando o alfabeto aramaico, e aparentemente referindo-se a uma unidade mercenária grega na área.

Outra dizia: “E um coro pleno de vinho, traga amanhã. Não atrase. E se tiver vinagre, dê a eles”.

O novo estudo, publicado na “Proceedings of the National Academy of Sciences”, combinou arqueologia, história judaica e matemática aplicada, assim como envolveu processamento de imagens por computador e o desenvolvimento de um algoritmo para distinguir entre os vários autores emitindo as ordens.

Com base na análise estatística dos resultados, e levando em consideração o conteúdo dos textos escolhidos como amostra, os pesquisadores concluíram que pelo menos seis mãos escreveram as 18 mensagens mais ou menos na mesma época. Até mesmo soldados das fileiras mais baixas do exército de Judá, ao que parece, sabiam ler e escrever.

“Há algo psicológico além das estatísticas”, disse o professor Israel Finkelstein, do Departamento de Arqueologia e Civilizações Antigas do Oriente Próximo da Universidade de Tel Aviv, um dos líderes do projeto. “Há um entendimento do poder da alfabetização. E eles escreviam bem, praticamente sem erros.”

O estudo se baseou em um conjunto de cerca de 100 cartas escritas com tinta em pedaços de cerâmica, conhecidos como óstracos, que foram descobertos perto do Mar Morto em escavações do forte Arad, décadas atrás, e datados de cerca de 600 a.C. Isso foi pouco antes da destruição de Jerusalém e do reino de Judá por Nabucodonosor, e o exílio de sua elite para a Babilônia, e antes de quando muitos acadêmicos acreditam que grande parte dos textos bíblicos, incluindo os cinco livros de Moisés também conhecidos como Pentateuco, foram escritos de forma coesa.

A cidadela de Arad era uma frente pequena, distante e ativa, próxima da fronteira com o reino rival de Edom. O forte em si tinha apenas cerca de 2.000 metros quadrados e provavelmente só acomodava cerca de 30 soldados. A riqueza dos textos encontrados ali, registrando movimentos de tropas, provisões e outras atividades diárias, foi criada em um período curto, o que os torna uma amostra valiosa para estudo de quantas mãos diferentes os escreveram.

“Para Eliashib: agora, forneça 3 batos de vinho”, ordenava outro óstraco, adicionando: “E Hananyahu ordena que envie a Beersheba 2 mulas carregadas e envie a massa de pão com elas”.

Um dos argumentos mais antigos para o corpo principal da literatura bíblica não ter sido escrito em nada parecido com sua presente forma até depois da destruição e exílio, em 586 a.C., é que antes não havia alfabetização suficiente e nem escribas suficientes para a realização de uma empreitada tão grande.

Mas se a taxa de alfabetização no forte Arad se repetir por todo o reino de Judá, que contava com cerca de 100 mil habitantes, haveria centenas de pessoas alfabetizadas, sugere a equipe de pesquisa de Tel Aviv.

Isso forneceria a infraestrutura para a composição das obras bíblicas que constituem a base da história e teologia de Judá, incluindo as primeiras versões dos livros do Deuteronômio ao Segundo Livro de Reis, segundo os pesquisadores.

Desde o século 19, os acadêmicos debatem “quando foi escrito?”, disse Finkelstein. “Na própria época ou depois”, ele acrescentou, referindo-se à destruição e exílio.

Nos séculos após a destruição e exílio, até 200 a.C., disse Finkelstein, praticamente não há evidência arqueológica de inscrições em hebraico. Ele disse que esperava que escavações revelassem selos gravados e escritos cotidianos em cerâmica, mesmo que textos mais importantes, como os bíblicos, fossem feitos em materiais perecíveis, como pergaminho e papiro.

Os textos bíblicos escritos nos séculos após 586 a.C., ele sugeriu, provavelmente foram compostos na Babilônia.

Outros acadêmicos alertaram contra extrair conclusões demais a respeito de quando a primeira grande parte da Bíblia foi escrita, com base em extrapolações a partir das taxas de alfabetização antigas.

“Não há um consenso atualmente nos estudos bíblicos”, disse o professor Edward Greenstein, da Universidade Bar-Ilan, perto de Tel Aviv. “O processo de transmissão era muito mais complicado do que os acadêmicos costumam pensar.”

O processo de composição da Torá, segundo Greenstein, parece ter envolvido camadas de reescrições, suplementos e revisões. Apontando para o saber recente da literatura bíblica, ele disse que os escribas podiam registrar os textos principalmente como auxílio à memória, em um mundo onde ainda eram transmitidos oralmente.

“Os textos bíblicos não precisavam ser escritos por muitas pessoas, ou lidos por muitas pessoas, para serem redigidos”, ele disse, acrescentando que os textos não circulavam amplamente.

Para deduzir as taxas de alfabetização, a equipe de pesquisa usou um método que Barak Sober, do Departamento de Matemática Aplicada da Universidade de Tel Aviv, comparou à análise forense de caligrafia adaptada aos tempos antigos.

Os matemáticos pegaram 16 cacos de cerâmica de Arad que eram mais ricos em conteúdo (dois apresentavam inscrições em ambos os lados). Dois dos textos lembravam uma chamada, apenas listando as pessoas presentes, e foram claramente escritos no posto avançado no deserto; outros foram compostos em outro lugar.

Muitas das cartas em aramaico não eram claras, de modo que não era possível dar simplesmente entrada dos dados em um computador. Em vez disso, os pesquisadores conceberam uma forma de reconstruí-las. Então as letras de pares de textos foram misturadas e o algoritmo as separou com base na caligrafia.

Se o algoritmo dividisse as letras em dois grupos claros, os textos eram contados como tendo sido escritos por dois autores. Quando o algoritmo não distinguia entre as letras e as deixava juntas em um grupo, nenhuma posição era tomada; elas podiam ter sido escritas pela mesma mão ou, possivelmente, por duas pessoas com estilo semelhante.

Um cálculo conservador revelou pelo menos quatro autores, e seis quando o conteúdo foi levado em consideração, como quem estava escrevendo para quem.

Outro óstraco foi endereçado a um homem chamado Nahum. Ele foi instruído a ir “até a casa de Eliashib, filho de Eshiyahu” para pegar um jarro de óleo, para enviá-lo a Ziph “rapidamente, o lacrando com seu selo”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

An Heir to a Tribe’s Culture Ensures Its Language Is Not Forgotten (New York Times)

Mr. Grant estimates that thousands of students have read the books and taken courses on the language, first through informal workshops held in the nation’s capital, Canberra, from the early 1990s. In December 2015, at a branch of Charles Sturt University in Wagga Wagga, New South Wales, students completed the first-ever course in Wiradjuri.

 To a great extent, Mr. Grant is carrying out a promise to his beloved grandfather, who singled him out as a youngster as his heir to Wiradjuri culture.

“My grandfather was a Wiradjuri elder,” he said, and was anxious to pass along the culture. “But he was arrested after he called to me in Wiradjuri to come home from the park. ‘Barray yanha, barray yanha,’ ‘Come quickly,’ he called out.”

Mr. Grant was probably 8 or 9 years old the night a local policeman heard his grandfather, Wilfred Johnson, and locked him up. But he does not recall a sense of alarm.

“He was an elegant man,” he said of Mr. Johnson. “He was beautifully dressed, usually in a coat and hat. But he was black. So it wasn’t the first time he had spent the night in jail.”

After the arrest, Mr. Johnson, who spoke seven languages, refused to speak Wiradjuri in public.

“He was a linguist with enormous respect for his own people and culture,” said Mr. Grant, who speaks three languages himself: Italian, which he picked up while working at the sawmill, as well as English and Wiradjuri. “But he told me, ‘Things are different now.’ He would only speak his language in the bush.”

It was during those expeditions into the backcountry that Mr. Grant learned Wiradjuri, as well as tracking and hunting skills. He knows that a echidna’s back feet turn inward, complicating tracking. He can describe how his grandfather made a lasso out of long grass to catch a stunned goanna, a type of lizard, for dinner, and he says a rope laid around a bush house will stop snakes from passing over the threshold.

Lloyd Dolan, a Wiradjuri lecturer who has worked with Mr. Grant, said elders took risks teaching Wiradjuri to their children. Mr. Dolan also learned Wiradjuri from his grandfather. His mother forbade him to speak it at home.

“There was a real fear that the children would be taken away if authorities heard kids speaking the language,” Mr. Dolan, 49, said from his office at Charles Sturt University. “The drive to assimilate Aboriginals into white society was systemic.”

Aboriginal people had no right to vote in elections before 1962, and they were counted as wildlife until a change to Australia’s Constitution in 1967.

Mr. Grant grew up in poverty, his family drifting from place to place: Redfern, a rough-and-tumble Sydney suburb; Griffith, a village 60 miles northwest of Narrandera, where he lives now, and Wagga Wagga, which is 62 miles southeast of that.

He recalls vividly moving from a “humpy,” a dirt-floored makeshift shack, consisting of just a few rooms, on the fringe of a country town, into a house with electricity. “It was the first time we had electricity at home, but it wasn’t on much because we had no money to pay for it,” he said with a laugh.

As a child, Mr. Grant said, he scorned his grandfather’s ways. He was embarrassed to be black. By the time he was 17, in 1957, his grandfather had died, and he had dropped out of school, left home and found a job on the railways.

Soon, he moved from a small town to Sydney, where he says he drank a lot, got a tattoo of a roughly drawn dagger and eventually found himself in jail.

“I cried and cried when that happened,” he said. “I had been drinking and probably brawling, and I didn’t want to be there.”

It was his wife, Betty, now 73, who helped turn his life around. After marrying in August 1962, they spent several weeks living out of a shell of a car on the Aboriginal Three Ways Mission on the fringe of Griffith, in central New South Wales.

Mr. Grant soon found a job at a sawmill, and although an accident mangled two fingers of his left hand, it was steady work. He and his wife started a family.

Around that time, Aboriginal activists began agitating for civil rights. In 1965, Charles Perkins, the first Aboriginal to attend the University of Sydney, led 35 student protesters on a Freedom Ride bus tour around outback country towns. They were pelted with gravel and harassed as they went from small town to small town, where they called for an end to segregated seating on buses and in theaters. They demanded equal service in shops and hotels, and they wanted Aboriginal children admitted to municipal swimming pools with white children.

Six years later, Neville Bonner, a leader from an Aboriginal rights organization, became the first Aboriginal to gain a seat in Australia’s Parliament, filling a Senate vacancy left by a Queenslander who had resigned.

With the help of these small civic changes, Mr. Grant, whose formal education ended at age 15, managed to navigate a way forward for himself and his family. He first found work in Canberra helping Aboriginal children who had skipped school.

Around the same time, there was a push to document Aboriginal culture and language, which was rarely written down. As one of the few who knew Wiradjuri language, he was approached about writing it down. That eventually led him to teaching his language and writing “A New Wiradjuri Dictionary,” published in 2005.

“I was told when you revive a lost language, you give it back to all mankind,” he said, sitting in his kitchen, not far from where the kingfishers darted across the Murrumbidgee.

“We were a nothing people for a long time. And it is a big movement now, learning Wiradjuri. I’ve done all that work. I’ve done all I can.”

Médium dá previsão de nuvens sombrias sobre a Esplanada (UOL)

Leandro Mazzini – Coluna Esplanada

04/04 01:10 

A médium Adelaide Scritori, da Fundação Cacique Cobra Coral, que há décadas diz controlar o tempo em trabalho mediúnico, avisou a expoentes dos três Poderes estar atenta.

E mandou um alerta: Ela também está sub judice, não vai poder ajudar muito, porque ninguém tem feito direito seu trabalho. A FCCC já manteve convênio por anos, sem custos, com o Ministério de Minas e Energia, para monitorar os reservatórios das usinas. Desde a Era José Sarney no Palácio.

Que os políticos reparem as nuvens sombrias que se forjam sobre a Esplanada, nas próximas semanas. A conferir.

Vidente do Poder envia e-mail para Cunha e pede renúncia: fatos novos virão (UOL)

Leandro Mazzini – Coluna Esplanada24/11 02:00

A conhecida médium Adelaide Scritori, criadora da Fundação Cacique Cobra Coral, teve visão de nuvens cinzentas que se forjam com “novos fatos” perturbadores para Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados.

Não titubeou em enviar-lhe um e-mail e sugeriu que ele renuncie, antes que seja tarde e vire alvo para valer do STF.

Adelaide é conhecida do circuito do Poder, no eixo Brasília-SP-Rio. Anuncia que sua fundação faz trabalhos espirituais de controle do tempo, e manteve parcerias (diz sem remuneração) com o Ministério de Minas e Energia e Prefeitura do Rio, entre outros clientes mundo afora.

Ficou famosa ao recomendar ao então presidente José Sarney que evitasse uma viagem programada no avião presidencial porque poderia sofrer um acidente. Cauteloso e supersticioso, Sarney acolheu a dica. A FAB teria descoberto depois uma falha numa peça da aeronave.

What I Learned From Tickling Apes (New York Times)

Laughter? Now wait a minute! A real scientist should avoid any and all anthropomorphism, which is why hard-nosed colleagues often ask us to change our terminology. Why not call the ape’s reaction something neutral, like, say, vocalized panting? That way we avoid confusion between the human and the animal.

The term anthropomorphism, which means “human form,” comes from the Greek philosopher Xenophanes, who protested in the fifth century B.C. against Homer’s poetry because it described the gods as though they looked human. Xenophanes mocked this assumption, reportedly saying that if horses had hands they would “draw their gods like horses.” Nowadays the term has a broader meaning. It is typically used to censure the attribution of humanlike traits and experiences to other species. Animals don’t have “sex,” but engage in breeding behavior. They don’t have “friends,” but favorite affiliation partners.

Given how partial our species is to intellectual distinctions, we apply such linguistic castrations even more vigorously in the cognitive domain. By explaining the smartness of animals either as a product of instinct or simple learning, we have kept human cognition on its pedestal under the guise of being scientific. Everything boiled down to genes and reinforcement. To think otherwise opened you up to ridicule, which is what happened to Wolfgang Köhler, the German psychologist who, a century ago, was the first to demonstrate flashes of insight in chimpanzees.

Köhler would put a banana outside the enclosure of his star performer, Sultan, while giving him sticks that were too short to reach the fruit through the bars. Or he would hang a banana high up and spread boxes around, none of which were tall enough to reach the fruit. At first, Sultan would jump or throw things at the banana or drag a human by the hand toward it, hoping to use him as a footstool. If this failed, he would sit around without doing anything, pondering the situation, until he might hit on a solution. He’d jump up suddenly to put one bamboo stick inside another, making a longer stick. He’d also stack boxes to build a tower tall enough to attain his reward. Köhler described this moment as the “aha! experience,” not unlike Archimedes running through the streets shouting “Eureka!”

According to Köhler, Sultan showed insight by combining what he knew about boxes and sticks to produce a brand-new action sequence to take care of his problem. It all took place in his head, without prior rewards for his eventual solution. That animals may show mental processes closer to thinking than learning was so unsettling, though, that still today Köhler’s name is hissed rather than spoken in some circles. Naturally, one of his critics argued that the attribution of reasoning to animals was an “overswing of the theoretical pendulum” back “toward anthropomorphism.”

We still hear this argument, not so much for tendencies that we consider animalistic (everyone is free to speak of aggression, violence and territoriality in animals) but rather for traits that we like in ourselves. Accusations of anthropomorphism are about as big a spoiler in cognitive science as suggestions of doping are of athletic success. The indiscriminate nature of these accusations has been detrimental to cognitive science, as it has kept us from developing a truly evolutionary view. In our haste to argue that animals are not people, we have forgotten that people are animals, too.

This doesn’t mean that anything goes. Humans are incredibly eager to project feelings and experiences onto animals, often doing so uncritically. We go to beach hotels to swim with dolphins, convinced that the animals must love it as much as we do. We think that our dog feels guilt or that our cat is embarrassed when she misses a jump. Lately, people have fallen for the suggestion that Koko, the signing gorilla in California, is worried about climate change, or that chimpanzees have religion. As soon as I hear such claims, I contract my corrugator muscles (causing a frown) and ask for the evidence. Yes, dolphins have smiley faces, but since this is an immutable part of their visage, it fails to tell us anything about how they feel. Yes, dogs hide under the table when they have done something wrong, yet the most likely explanation is that they fear trouble.

Gratuitous anthropomorphism is distinctly unhelpful. However, when experienced field workers who follow apes around in the tropical forest tell me about the concern chimpanzees show for an injured companion, bringing her food or slowing down their walking pace, or report how adult male orangutans in the treetops vocally announce which way they expect to travel the next morning, I am not averse to speculations about empathy or planning. Given everything we know from controlled experiments in captivity, such as the ones I conduct myself, these speculations are not far-fetched.

To understand the resistance to cognitive explanations, I need to mention a third ancient Greek: Aristotle. The great philosopher put all living creatures on a vertical Scala Naturae, which runs from humans (closest to the gods) down toward other mammals, with birds, fish, insects and mollusks near the bottom. Comparisons up and down this vast ladder have been a popular scientific pastime, but all we have learned from them is how to measure other species by our standards. Keeping Aristotle’s scale intact, with humans on top, has been the unfailing goal.

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But think about it: How likely is it that the immense richness of nature fits on a single dimension? Isn’t it more likely that each animal has its own cognition, adapted to its own senses and natural history? It makes no sense to compare our cognition with one that is distributed over eight independently moving arms, each with its own neural supply, or one that enables a flying organism to catch mobile prey by picking up the echoes of its own shrieks. Clark’s nutcrackers (members of the crow family) recall the location of thousands of seeds that they have hidden half a year before, while I can’t even remember where I parked my car a few hours ago. Anyone who knows animals can come up with a few more cognitive comparisons that are not in our favor. Instead of a ladder, we are facing an enormous plurality of cognitions with many peaks of specialization. Somewhat paradoxically, these peaks have been called “magic wells” because the more scientists learn about them, the deeper the mystery gets.

We now know, for example, that some crows excel at tool use. In an aviary at Oxford University in 2002, a New Caledonian crow named Betty tried to pull a little bucket with a piece of meat out of a transparent vertical pipe. All she had to work with was a straight metal wire, which didn’t do the trick. Undeterred, Betty used her beak to bend the straight wire into a hook to pull up the bucket. Since no one had taught Betty to do so, it was seen as an example of insight. Apart from dispelling the “birdbrain” notion with which birds are saddled, Betty achieved instant fame by offering proof of tool making outside the primate order. Since this capacity has by now been confirmed by other studies, including one on a cockatoo, we can safely do away with the 1949 book “Man the Tool-Maker” by the British anthropologist Kenneth Oakley, which declared tool fabrication humanity’s defining characteristic. Corvids are a technologically advanced branch on the tree of life with skills that often match those of primates like us.

Convergent evolution (when similar traits, like the wings of birds, bats and insects, appear independently in separate evolutionary branches) allows cognitive capacities to pop up at the most unexpected places, such as face recognition in paper wasps or deceptive tactics in cephalopods. When the males of some cuttlefish species are interrupted by a rival during courtship, they may trick the latter into thinking there is nothing to worry about. On the side of his body that faces his rival, the male adopts the coloring of a female, so that the other believes he is looking at two females. But the courting male keeps his original coloring on the female’s side of his body in order to keep her attention. This two-faced tactic, known as dual-gender signaling, suggests tactical skills of an order no one had ever suspected in a species so low on the natural scale. But of course, talk of “high” and “low” is anathema to biologists, who see every single organism as exquisitely adapted to its own environment.

Now let us return to the accusation of anthropomorphism that we hear every time a new discovery comes along. This accusation works only because of the premise of human exceptionalism. Rooted in religion but also permeating large areas of science, this premise is out of line with modern evolutionary biology and neuroscience. Our brains share the same basic structure with other mammals — no different parts, the same old neurotransmitters.

Brains are in fact so similar across the board that we study fear in the rat’s amygdala to treat human phobias. This doesn’t mean that the planning by an orangutan is of the same order as me announcing an exam in class and my students preparing for it, but deep down there is continuity between both processes. This applies even more to emotional traits.

This is why science nowadays often starts from the opposite end, assuming continuity between humans and animals, while shifting the burden of proof to those who insist on differences. Anyone who asks me to believe that a tickled ape, who almost chokes on his hoarse giggles, is in a different state of mind than a tickled human child has his work cut out for him.

In order to drive this point home, I invented the term “anthropodenial,” which refers to the a priori rejection of humanlike traits in other animals or animallike traits in us. Anthropomorphism and anthropodenial are inversely related: The closer another species is to us, the more anthropomorphism assists our understanding of this species and the greater will be the danger of anthropodenial. Conversely, the more distant a species is from us, the greater the risk that anthropomorphism proposes questionable similarities that have come about independently. Saying that ants have “queens,” “soldiers” and “slaves” is mere anthropomorphic shorthand without much of a connection to the way human societies create these roles.

THE key point is that anthropomorphism is not nearly as bad as people think. With species like the apes — aptly known as “anthropoids” (humanlike) — anthropomorphism is in fact a logical choice. After a lifetime of working with chimpanzees, bonobos and other primates, I feel that denial of the similarities is a greater problem than accepting them. Relabeling a chimpanzee kiss “mouth-to-mouth contact” obfuscates the meaning of a behavior that apes show under the same circumstances as humans, such as when they greet one another or reconcile after a fight. It would be like assigning Earth’s gravity a different name than the moon’s, just because we think Earth is special.

Unjustified linguistic barriers fragment the unity with which nature presents us. Apes and humans did not have enough time to independently evolve almost identical behavior under similar circumstances. Think about this the next time you read about ape planning, dog empathy or elephant self-awareness. Instead of denying these phenomena or ridiculing them, we would do better to ask “why not?”

One reason this whole debate is as heated as it is relates to its moral implications. When our ancestors moved from hunting to farming, they lost respect for animals and began to look at themselves as the rulers of nature. In order to justify how they treated other species, they had to play down their intelligence and deny them a soul. It is impossible to reverse this trend without raising questions about human attitudes and practices. We can see this process underway in the halting of biomedical research on chimpanzees and the opposition to the use of killer whales for entertainment.

Increased respect for animal intelligence also has consequences for cognitive science. For too long, we have left the human intellect dangling in empty evolutionary space. How could our species arrive at planning, empathy, consciousness and so on, if we are part of a natural world devoid of any and all steppingstones to such capacities? Wouldn’t this be about as unlikely as us being the only primates with wings?

Evolution is a gradual process of descent with modification, whether we are talking about physical or mental traits. The more we play down animal intelligence, the more we ask science to believe in miracles when it comes to the human mind. Instead of insisting on our superiority in every regard, let’s take pride in the connections.

There is nothing wrong with the recognition that we are apes — smart ones perhaps, but apes nonetheless. As an ape lover, I can’t see this comparison as insulting. We are endowed with the mental powers and imagination to get under the skin of other species. The more we succeed, the more we will realize that we are not the only intelligent life on earth.

Frans de Waal, a primatologist and professor of psychology at Emory University, is the author, most recently, of “Are We Smart Enough to Know How Smart Animals Are?” from which this essay is adapted.

A version of this op-ed appears in print on April 10, 2016, on page SR1 of the New York edition with the headline: What I Learned Tickling Apes. 

Despite being ‘the biggest threat facing humanity’ climate change and its impacts fail to make headlines, says study (Science Daily)

Date:
April 6, 2016
Source:
International Fund for Agricultural Development (IFAD)
Summary:
Even as 60 million people around the world face severe hunger because of El Niño and millions more because of climate change, top European and American media outlets are neglecting to cover the issues as a top news item, says a new research report.

Even as 60 million people around the world face severe hunger because of El Niño and millions more because of climate change, top European and American media outlets are neglecting to cover the issues as a top news item, says a new research report funded by the International Fund for Agricultural Development (IFAD) today.

“It’s incredible that in a year when we have had record temperatures, 32 major droughts, and historic crop losses that media are not positioning climate change on their front pages,” said IFAD President, Kanayo F. Nwanze. “Climate change is the biggest threat facing our world today and how the media shape the narrative remains vitally important in pre-empting future crises.”

The report, “The Untold Story: Climate change sinks below the headlines” provides an analysis of the depth of media reporting around climate change in two distinct periods: two months before the 21st session of the UNFCCC Conference of the Parties (COP21) in Paris, and two months after. Specifically, it explores whether issues connecting climate change, food security, agriculture and migration made headlines, and if so, how much prominence these stories were given.

Among some of its key findings: • Climate change stories were either completely absent or their numbers decreased in major media outlets in Europe and the United States before and after COP21. • Coverage on the consequences of climate change, such as migration, fell by half in the months after COP21 and people directly impacted by climate change rarely had a voice in stories or were not mentioned at all. • News consumers want climate change issues and solutions to be given more prominence in media outlets and, in particular, want more information on the connections between climate change, food insecurity, conflict and migration.

The release of the report comes just days before world leaders gather at the United Nations in New York to sign off on the Paris Agreement coming out of COP21. In December, the agreement made headlines and led news bulletins across the globe. But leading up to COP21 and in the months following it, coverage on climate change significantly fell off the radar of major media outlets across Europe and the United States.

“The research shows how the average news-consuming public want to hear constructive stories that highlight solutions to climate change, yet this is exactly what is missing from major news outlets,” said Sam Dubberley, a former journalist and Director of Kishnish Media Ltd, and the author of the report.

Building on initial research that was conducted on media in France and the United Kingdom in September 2015, the report is augmented by focus group surveys that look at what newsreaders understand about food and climate-related migration and their impression of media coverage provided. The report asks what expert voices were heard throughout the stories and whether farmers or migrants themselves had a voice.

The research findings are drawn from an analysis of the content of news stories across influential and popular media outlets: TF1 and France 2 in France, RAI and LA7 in Italy, BBC and Channel 4 in the United Kingdom and CBS and NBC in the United States, as well as the front pages of print editions of Le Monde and Libération in France, Corriere della Sera and La Repubblica in Italy, The Guardian and Daily Mail in the United Kingdom and the New York Times and USA Today in the United States.

In 2014, IFAD funded a research report that looked at how 19 large global and regional news organizations covered issues related to migration and, in particular, food security and agriculture and how it impacted on migration. It focused on two stories that made headlines over the summer of 2014 — the US/Mexico border crisis and the ongoing conflict in South Sudan, which created a large numbers of migrants. That report also found that the depth of coverage on the topics was lacking, and in particular that the voices of migrants were often left out of the stories.

Download the report: https://www.ifad.org/documents/10180/6173b0cf-3423-408c-aac6-e6da78f01239

Ministro da Defesa vai a CPI para constranger antropólogos e defensores de indígenas (Outras Palavras)

Blog do Alceu Castilho

Publicado em 3 de abril de 2016

Em ato voluntário, Aldo Rebelo voltou a se aliar com ruralistas para colecionar delírios que seriam inadequados para um deputado; quanto mais à sua função no governo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

No que se refere à questão agrária, tema que acompanho de perto, nenhuma vez fiquei tão constrangido ao ver a fala de um político quanto agora, ao assistir o vídeo de Aldo Rebelo na CPI da Funai, na quarta-feira. E olhem que ele tem sérios concorrentes. Tivemos o deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS) chamando índios, gays, quilombolas de “tudo que não presta”. E falas absurdas da ministra Kátia Abreu, principalmente do tempo em que era senadora; ou do líder da milícia UDR, hoje senador, Ronaldo Caiado (DEM-GO).

E por que a fala de Rebelo é pior?

Porque ele é ministro da Defesa. Suas curiosas concepções sobre “antropologia colonial” já seriam particularmente bizarras por ele se declarar comunista – ele é um dos líderes do PCdoB. Mas este é um assunto menor: que esses comunistas específicos se virem com sua consciência e com suas leituras, diante das diatribes do ex-deputado. Que se olhem no espelho e tentem encarar, depois disso, uma liderança indígena, um antropólogo sério, sem passar profunda vergonha. Agora, repito: Rebelo é ministro da Defesa. 

E, por isso, sua fala é indefensável. Vejamos.

“Dos três troncos, o indígena é o mais sofrido, o mais esquecido pelo Estado brasileiro. Enquanto os outros troncos alcançaram, de certa forma, seu espaço na construção da sociedade nacional, os índios foram ficando à margem desse processo, e carregando maior as penas e o sofrimento da construção da nossa pátria. Cabe, portanto, esse registro pra que essa injustiça possa ser reparada, para que nós possamos, de forma consequente, socorrer, amparar essa parcela da nossa população. Exatamente para que ela não fique à mercê [eleva a voz] da manipulação de demagogos, da manipulação de interesses espúrios internos e externos, como, lamentavelmente, vem acontecendo.

É preciso que o Estado brasileiro ampare a população indígena do Brasil, para que organizações não-governamentais interesseiras, muitas vezes agentes do próprio Estado, agindo contra o Estado, manipulem o sofrimento e o abandono das populações indígenas. Falo, senhoras e senhores, com a experiência de quem palmilhou, nas fronteiras do Brasil mais remotas da Amazônia, as terras indígenas e quem pôde dialogar com suas populações. E de quem pôde testemunhar, exatamente, aquilo que acabo de dizer. (…)

Nossa tradição, naturalmente, não nega as violências, não nega as brutalidades, não nega as injustiças, não nega tudo que de errado nós fizemos contra as populações indígenas. Mas isso também afirma a natureza da nossa civilização de buscar incorporar, não apenas no sangue, mas na cultura, na história, na literatura, na culinária, no imaginário e na psicologia do nosso povo a presença dos nossos queridos e das nossas queridas irmãs e irmãos indígenas.

Por essa razão, senhores, é inaceitável [eleva novamente a voz] a doutrina esposada por certos setores da antropologia, principalmente da antropologia colonial, antropologia criada na França e na Inglaterra exatamente para melhor realizar o trabalho de dominação das chamadas populações aborígenes. Antropologia que depois foi incorporada pelos exércitos coloniais como parte do esquema de dominação. Essa corrente antropológica neocolonial é que procura apartar da sociedade nacional e da integração à sociedade nacional as populações indígenas. E é preciso que se denuncie com vigor e com coragem, para que o Brasil não se ponha no papel de vítima dos crimes que, de fato, ele não cometeu. Basta aqueles que nós já cometemos.

Essa antropologia que influencia estruturas do próprio Estado brasileiro, que incorpora setores importantes da nossa mídia, que incorpora setores importantes de correntes religiosas trata de estabelecer um abismo entre a sociedade nacional, entre o Brasil e as populações indígenas, contrapondo ao esforço de integração a ideia de segregação. Como se na escala evolutiva da humanidade o índio pudesse ser contido e parado nos estágios anteriores à evolução de toda a humanidade.

Tenho amigos europeus que fazem estudos em populações tribais e que descobriram, aqui na região da Amazônia, como é óbvio, uma população indígena que não sabe contar, que não domina a aritmética como qualquer povo ágrafo. Eu dizia para ele: seus antepassados também não sabiam contar. Contam no máximo 1, 2, 3 e muito. (…) O que eu perguntava para esse amigo antropólogo era o seguinte: as crianças dessa tribo devem ter o direito de aprender matemática? Ou elas devem ter negado esse direito, para que a antropologia continue dispondo de estudo de caso para registrar nas suas teses de mestrado ou doutorado? (…)

A manipulação das causas nobres e justas, como é a causa da proteção dos índios, não é a única no mundo. Ela tem paralelo com a manipulação da causa do meio ambiente. É muito parecido. As potências usam o meio ambiente, as causas indígenas, os direitos humanos, a democracia, a liberdade como usaram o anticomunismo no passado. O que era o anticomunismo? Era o pretexto para se fazer golpes de Estado, para defender interesses econômicos em função da defesa da liberdade e da democracia. Depois que o comunismo deixou de ser o pretexto, porque não era de fato ameaça, eles procuraram outros pretextos: a causa indígena é um deles, o ambientalismo é outro”.   

E assim por diante, como se pode ver no vídeo. De forma voluntária, sem que o ministro Aldo Rebelo tivesse sido convidado ou convocado à CPI, instalada pelos ruralistas para combater direitos indígenas e a reforma agrária. Como porta-voz do governo, portanto?

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Note-se que ele chega a combater a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em determinado momento, pergunta: “Quem é índio e quem não é índio onde tudo já se misturou?” E cita um estudo de pedologia na Universidade Federal de Viçosa que considera não existir mais ali uma civilização indígena, “mas uma civilização miscigenada”.

E tem mais: ele se declarou à favor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215) que transfere ao Congresso o poder de demarcar terras indígenas e quilombolas: “Aldo diz à CPI que é a favor da PEC que muda regras de demarcação de terras“. Uma bandeira de quem? Dos ruralistas.

É como resume o antropólogo Henyo Barretto Filho, do Instituto Internacional de Educação do Brasil: “Se o governo não desautorizar de modo igualmente público e expresso tal depoimento, fica sendo essa a versão do governo sobre os povos indígenas, a política indigenista e o papel da antropologia no reconhecimento dos direitos territoriais”.

Review: In ‘Vita Activa: The Spirit of Hannah Arendt,’ a Thinker More Relevant Than Ever (New York Times)

Hannah Arendt, who died in 1975, was a prolific and unclassifiable thinker, a political theorist, moral philosopher and polemicist of unmatched range and rigor. At least outside academic circles, her posthumous fame — or notoriety — rests on “Eichmann in Jerusalem,” a piece of extended reportage she wrote for The New Yorker in 1963, and on a single phrase associated with it: the banality of evil.

Those words are evoked so often, and in so many contexts, that their specific and controversial original meaning is easily forgotten. Arendt, attending the war crimes trial of Adolf Eichmann, a high-ranking Nazi captured in Argentina by Israeli operatives, was struck by his ordinariness, the bland bureaucratic demeanor seemingly at odds with the enormity of his crimes. Though later research has suggested that Arendt misjudged Eichmann — who was, for one thing, a much more ardent anti-Semite than he seemed to be, sitting in the dock — the idea that great horror can spring from mundane roots has proved tenacious and perpetually relevant.

Vita Activa: The Spirit of Hannah Arendt,” a vigorous and thoughtful new documentary by Ada Ushpiz, frames its inquiry into Arendt’s career with her encounter with Eichmann. But its focus is much wider than the still-potent debate over “Eichmann in Jerusalem,” which was widely and fiercely attacked for what critics took to be its trivialization of Eichmann’s deeds and its lack of sympathy for his victims. Though both Arendt’s defenders and detractors are heard from, Ms. Ushpiz’s film situates the Eichmann episode within a broad and rich portrait of an intellectual determined to use the tools of rationality to comprehend historical events that seem to defy all reason.

The title insists, as Arendt herself always did, that thinking is a form of action. The “spirit” conjured — through Arendt’s own words, the recollections of students, disciples and friends, and carefully chosen archival images — is one of relentless and passionate mental activity. Ms. Ushpiz is determined to rescue her subject from the banality of biography. The details of Arendt’s childhood, education, romantic life and professional activity are not ignored, but they nearly always illuminate her ideas.

A photograph of Hannah Arendt in her youth, in the film “Vita Activa.” Credit: Zeitgeist Films 

Arendt was born into an assimilated German-Jewish family in 1906. Her early association with the philosopher Martin Heidegger — she was his lover as well as his student — has been another source of controversy, given his subsequent collaboration with the Nazis and their racial policies. Arendt herself fled Germany in 1933, and much of her subsequent writing wrestles with the lethal contradictions of a homeland that seemed by turns to represent the pinnacle of civilization and the depth of barbarism.

“The Origins of Totalitarianism,” her 1951 tour de force, represents her most sustained attempt to understand German fascism and Soviet Communism not as metaphysical catastrophes but as political developments, as aspects of modernity rather than as horrific exceptions to its progress. Recent scholarship has challenged some of her arguments, but the analytic framework of the book remains powerful and disconcertingly topical.

“Vita Activa,” while it will surely satisfy and provoke students of 20th-century intellectual history, feels more urgent than most documentaries of its kind. Some of Ms. Ushpiz’s methods are a little questionable — I was bothered by the way she slipped artificial, ambient sound into silent footage — but she shows impressive coherence and fair-mindedness in her approach to Arendt, succumbing neither to hagiography nor to facile skepticism. Instead, she subtly draws the viewer’s attention from the past to the present, using judiciously chosen passages from Arendt’s letters and published work.

Two insights stand out in painful relief. The first is Arendt’s contention that the lethally dehumanizing logic of totalitarianism originated partly in the massive displacement of populations after World War I. The refugees created by that conflict were not only stateless but “rightsless,” regarded by the nations of Europe not as citizens in need of protection but as a problem to be solved. A century after that war, Europe is again in the midst of a refugee crisis, the political consequences of which are not yet fully known.

Arendt was also concerned with the ways certain totalitarian tendencies and attitudes could persist in democratic societies, and “Vita Activa” includes some especially chilling implications for the current state of American politics. Totalitarianism rested, in Arendt’s view, above all on the systematic refusal to engage reality, on the substitution of ideological fantasy and outright fiction for reason and empiricism. To risk understatement, those tendencies have hardly disappeared from modern society, and may even be stronger than they were at the end of Arendt’s life.

“Vita Activa: The Spirit of Hannah Arendt” is not rated. It in English, Hebrew, German and French, with English subtitles. Running time: runs 2 hours 5 minutes.

As nuvens marcam as fronteiras dos ecossistemas (El País)

Padrões de nebulosidade desenham o mapa das paisagens bioclimáticas e a distribuição das espécies

MIGUEL ÁNGEL CRIADO

Clique na imagem para ver vídeo.

 

O geógrafo Adam Wilson e o ecologista Walter Jetz observaram as nuvens para saber a vida que existe sob elas. Os dois cientistas usaram imagens de satélites tiradas duas vezes ao dia durante os últimos 15 anos para criar um atlas das nuvens e relacionaram esse mapa com a biodiversidade do planeta, desenhando desde os limites dos grandes biomas (paisagens bioclimáticas) até a distribuição geográfica das diferentes espécies.

Suspensas lá em cima, as nuvens são um elemento fundamental da climatologia. Sua presença anuncia umidade, chuvas, água para as plantas, bosques e florestas, explosão de vida… Por outro lado, sua ausência caracteriza paisagens mais secas e desoladas, seja nos desertos ou no interior da Antártida. Foi essa conexão entre clima e biodiversidade que levou Wilson, professor da Universidade de Buffalo, e Jetz, pesquisador de Yale (ambas nos EUA), a buscar uma forma de detectar os padrões e dinâmica globais das nuvens mais eficiente do que os sistemas atuais.

Encontraram a solução nas fotografias da Terra tiradas há anos pela NASA. Concretamente, eles usaram os dados acumulados pela missão MODIS, siglas do espectroradiômetro de imagens de resolução média, um instrumento científico que vai a bordo de dois satélites chamados Terra e Aqua. O primeiro foi colocado em órbita em 1999, o segundo, quatro anos depois. Os dois circundam o planeta em uma órbita de polo a polo tirando fotografias sincronizadas para que Terra sobrevoe o equador de manhã e Aqua o faça pela tarde em sentido oposto. A cada dois dias fotografam todo o planeta em alta resolução.

As regiões equatoriais são as de maior concentração anual de nuvens e menor variação mensal

Com esse alcance global e uma resolução de até menos de um quilômetro, os dois pesquisadores criaram seu atlas das nuvens. Em sua versão online é possível observar a frequência anual de nebulosidade, entendida como a porcentagem de dias com mais nuvens do que claros, em cada latitude. Também se observa a variação mensal, por estação e anual.

Em um primeiro olhar (ver fotografia), é possível observar uma correlação entre a latitude e padrões de nebulosidade. Dessa forma, a América equatorial, a bacia do rio Congo na África e o sudeste da Ásia são as regiões com mais nuvens do planeta, até 80% dos dias são nublados. Mesmo que as espécies que habitam esses grandes biomas possam ser diferentes, são ecossistemas que possuem diversas características em comum.

O mapa permite observar também a variação inter-anual. Enquanto as selvas equatoriais apresentam poucas variações que nunca superam 5% de um mês ao outro, os biomas monçônicos da Índia e o sahel africano são os que sofrem maiores diferenças entre os meses nublados e os claros, o que corresponde à temporada de chuvas e a temporada seca.

“Quando visualizamos os dados, destacou-se a claridade com a qual pudemos ver os muitos e diferentes biomas da Terra tendo por base a frequência e o momento dos dias nublados dos últimos 15 anos”, diz Wilson. “Quando passamos de um ecossistema a outro, essas transições mostram-se muito claramente e o melhor é que esses dados permitem observar diretamente esses padrões com uma resolução de um quilômetro”, acrescenta.

O mapa mostra a distribuição das nuvens desde 1999. Em negro as áreas com maior nebulosidade anual. As diferentes cores e sua intensidade mostram as variações mensais.

O mapa mostra a distribuição das nuvens desde 1999. Em negro as áreas com maior nebulosidade anual. As diferentes cores e sua intensidade mostram as variações mensais. Adam Wilson

Essa resolução é uma das maiores contribuições da pesquisa. Pode ser óbvio que a bacia do Congo tenha muitos dias com nuvens, mas com as imagens de satélites é possível observar as diferenças locais, entre a margem norte e sul de um rio e as encostas leste e oeste de uma montanha, por exemplo. Era possível conseguir esse grau de detalhamento nas áreas mais desenvolvidas do planeta, mas não nas menos, que são exatamente as que possuem maior riqueza biológica.

Até agora, os estudos sobre biodiversidade eram baseados na observação direta dos pesquisadores (e, portanto, muito parcial) e as extrapolações de outros sistemas de coleta de dados. Um dos maiores são as estações meteorológicas que, com seus dados de umidade, vento, precipitações, desenham a paisagem climática nas quais vivem as diferentes espécies. Mas a rede de estações também não é suficientemente compacta, de modo que os cientistas precisam interpolar a partir de dados às vezes muito locais e dispersos.

O atlas das nuvens indicou a distribuição geográfica da protea real (sua flor na imagem), um arbusto da faixa de clima mediterrâneo da África do Sul.

O atlas das nuvens indicou a distribuição geográfica da protea real (sua flor na imagem), um arbusto da faixa de clima mediterrâneo da África do Sul. Adam Wilson

“Compreender os padrões espaciais da biodiversidade é fundamental se queremos tomar decisões balizadas sobre como proteger as espécies e gerir a biodiversidade e seus muitos serviços para o futuro”, diz Jetz. Mas acrescenta: “para as regiões que possuem mais diversidade biológica, existe uma escassez real de dados dos locais”.

Esse estudo original, publicado na PLoS Biology, mostra também a íntima e frágil relação entre as nuvens e os chamados bosques nublados. É que essas selvas com a presença constante ou pelo menos regular de nuvens baixas como nevoeiro também não escapam à detecção dos satélites. Essas regiões são ricas em endemismos, de modo que a alteração dos padrões de nebulosidade pela ação humana e a mudança climática pode ter consequências catastróficas.

Os pesquisadores, que não pretendem substituir os modelos existentes, mas acrescentar mais uma camada de conhecimento, quiseram comprovar a validade de seu atlas das nuvens para indicar não só os limites de um determinado ecossistema, mas a distribuição geográfica de duas espécies. Uma é o pequeno trepatroncos montano, um pássaro das selvas montanhosas do norte da América do Sul. A outra é a protea real, um arbusto da região de clima mediterrâneo da África do Sul. Nos dois casos, o que viram nas nuvens foi mais preciso do que os dados oferecidos pelos modelos baseados em registros de precipitações e temperatura.

The Stark Realities of Baked-In Catastrophes (Collapse of Industrial Civilization)

02 Apr 2016

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In a civilization gone mad with delusions of grandeur, we’re left with tatters of human sociability held together by rancid mythologies.

Despite human fossil fuel burning recently reported to be “flat”, CO2 levels have been on a tear for the last six months, reaching new worrying levels which have some wondering whether permafrost melt may be contributing to the unusually high spike if no decline happens soon. The giant holes in Siberia serve as an ominous sign. Considering that the current El Niño is contributing only 10% to what we are now seeing, runaway global warming may be accelerating worldwide. But don’t worry, Warren Buffett says climate change is no more of a problem than the Y2K bug and will be profitable through increased premiums and inflation.

Ever dire studies continue to reaffirm worst case scenarios, making clear to anyone paying attention that Earth in the next century will be unrecognizable from its current state. Basic planetary geography and atmospheric conditions will be altered through warming oceans and rising sea levels which are now increasing faster than at any time in the past 2800 years. On average, sea levels were between 50 and 82 feet higher the last time CO2 levels were at 400ppm. Glaciologist Jason Box expects ice melt from the West Antarctic to become the biggest contributor to sea level rise in the coming decades due to a feedback loop not in the climate models. CO2 levels have been increasing around 3ppm per year, a twentyfold increase since pre-industrial times when the highest recorded increase was 0.15 ppm per year. We’ve long since passed the tipping point of melting Arctic summer sea ice; 300-350 ppm of CO2 was the threshold for many parts of the climate. These changes are irreversible on a timescale of human civilizations. Even if all human industrial activity magically ceased today, the footprint man has already left will be felt for eons.

In our warming world, the hydrologic cycle is changing and creating extreme weather; crop-destroying droughts and floods are becoming more frequent. The Jet Stream is transforming into something different, becoming wavier with higher ridges and troughs prone to stagnating in the same region. As global temperatures rise over time, hotter air will be trapped under these layers of high pressure from a mangled Jet Stream, cooking everything to death. Rising winter temperatures are beginning to destroy the “winter chill” needed for many fruit and nut trees to properly blossom and produce maximally. Climate change is also disrupting flower pollination and pushing fish toward North/South poles, robbing poorer countries at Equator of crucial food resources. In a new study, marine scientists are surprised to find a disturbing trend in the increasing numbers of a specific type of phytoplankton, coccolithophores, which have been “typically more abundant during Earth’s warm interglacial and high CO2 periods.”

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Homo sapiens have only been on the planet for the equivalent of a few seconds in geologic time but have managed to overwhelm and foul up all of earth’s natural processes and interdependencies, leaving a distinct layer in the sedimentary record. There is nothing modern humans do that is truly sustainable. Here are a few glaring examples:

No amount of reafforestation or growing of new trees will ultimately off-set continuing CO2 emissions due to environmental constraints on plant growth and the large amounts of remaining fossil fuel reserves,” Mackey says. “Unfortunately there is no option but to cut fossil fuel emissions deeply as about a third of the CO2 stays in the atmosphere for 2 to 20 millennia.

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Relying on machines for answers to the existential problems of a species run amok with planet-destroying tools and weaponry is rather ironic and tragic. We’re locked-up inside a complexity trap of our own making. The human propensity for tool-building coupled with our discovery of fossil fuels has created a set of living arrangements in which we are now enslaved to those machines and tools. The globalized capitalist economy externalizes its destruction and atrocities, keeping the masses in a state of ignorance and denial. Our corporate overlords are not conscientious citizens, but mindless organizations whose sole purpose is to grow profits no matter the external damage done to society and the environment. Between the economic oil hitmen who ensure that profits flow smoothly and GOP politicians who openly espouse their science illiteracy, a hospitable climate for future humans seems remote. Hopeful delusions have given way to the stark reality of our predicament as scholars like Noam Chomsky who originally started his career fighting for a modicum of social justice have now set the bar at just the chance of human survival. Despite the best efforts of scientists, environmentalists, and activists, the wealthy countries most able to do something won’t “get it” until famine, disease, and war come to their country. All is being left for the almighty ‘free market’ to sort out at the same time that climate change, a conflict multiplier, ramps up.

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The sixth mass extinction gathers steam and climate inertia works to catch up to the catastrophic ecological collapse already baked-in. All the while, modern man engages in the spectacle of tribal politics(building walls, exuding military strength, recapturing past glories of their nation) and presidential candidates discuss the size of their penis.

For those who come to understand modern man’s predicament, it can either be the ultimate mind fuck or an epiphany that helps a person appreciate the fragility of life, the urgency of living in the here and now, and the grand cosmic joke of a global, hi-tech civilization that arose from the burning of ancient fossil remains only to have those fumes become a deadly curse, extinguishing any trace of our lofty accomplishments…

The fossil record, Plotnick points out, is much more durable than any human record.

As humanity has evolved, our methods of recording information have become ever more ephemeral,” he said. “Clay tablets last longer than books. And who today can read an 8-inch floppy?” he shrugged. “If we put everything on electronic media, will those records exist in a million years? The fossils will.
– Link

Amid Climate-Fueled Food Crisis, Filipino Forces Open Fire on Starving Farmers (Common Dreams)

Published on Monday, April 04, 2016 by Common Dreams

Police and army forces in the Philippines unleashed bullets on a starving crowd, killing 10, for demonstrating for drought relief

by Nika Knight, staff writer

A wounded farmer is assisted by other demonstrators after Friday’s mass shooting by security forces in the Philippines. (Photo: Kilab Multimedia)

Police and army forces shot at about 6,000 starving farmers and Lumad Indigenous people demonstrating for drought relief in the Philippines on Friday, ultimately killing 10. Observers characterized the security forces’ action as “a strafing.”

“The government’s response to hunger is violence,” said Zeph Repollo, Southeast Asia campaign coordinator for 350.org, in an email to Common Dreams.

Three protesters were immediately killed, and by Monday the death toll had risen to 10 as more demonstrators succumbed to injuries.

“We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”
—Noralyn Laus, demonstrating farmer

The farmers and Indigenous people had been blockading a highway in the Cotabato province for four days in a desperate plea for government aid, after this winter’s record-breaking temperatures produced a three-months-long drought that has destroyed their crops and now threatens their lives.

The demonstrators were asking the government to provide 15,000 sacks of rice to ease the hunger crisis. Provincial governor Emmylou Mendoza has refused to engage the protesters.

“The government’s policy of  systematic land grabbing combined with the intensified El Nino pushed our farmers and indigenous peoples to heighten their struggles with sweat and blood in defense of their right to land and life,” wrote Repollo in a statement.

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

On Monday, local farmer Noralyn Laus gave Democracy Now! a firsthand account of the disaster:

“Why we came down here is not to make trouble. We just want to demand for rice, because of the situation of El Niño is leaving our tribes hungry. What happened yesterday, we didn’t start it. They started it by beating us. We wouldn’t be angry if we weren’t beaten up or attacked. We’re having a crisis. We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”

“Our farmers—the country’s food producers—are battered the hardest and are left in poverty and hunger,” Rapollo said. “Civil disobedience will continue to escalate until the government stops playing deaf and blind to the genuine cry of the people.”

Seventy-eight people were still under arrest on Monday, Rapollo said, and a local Methodist Church is sheltering many protesters who escaped the bullets. Rapollo also reported that no members of the armed forces have been relieved of duty or investigated for Friday’s shooting.

The state-sponsored violence in the Philippines portends what turmoil may come as the planet continues to warm, creating more disastrous, extreme weather events worldwide, environmental activists note.

“The conditions that prompted the 3-day blockade gives us a glimpse of what’s ahead if decisive and just actions in addressing climate change remain in the periphery,” said Repollo.

“This is not a distant reality to anywhere in the world,” Repollo wrote to Common Dreams, “unless we change the system that feeds [on] hunger, injustices, and climate catastrophe.”

Crow Tribe Elder, Historian Joe Medicine Crow Dead at 102 (New York Times)


Agora a versão portuguesa:

Morreu o último chefe índio dos Estados Unidos (RTP)

[Esse título é uma piada. Não é de estranhar que o jornalista português não saiba o mínimo necessário para falar sobre indígenas sem cometer o erro absurdo de considera-lo o “último” chefe índio, uma vez que os jornalistas brasileiros, que estão tão próximos das populações indígenas, tampouco sejam capazes de evitar tais gafes.-RT]

RTP 04 Abr, 2016, 15:38 / atualizado em 04 Abr, 2016, 15:50 | Cultura

Morreu o último chefe índio dos Estados Unidos

O presidente Obama, ao condecorar Joe Medicine Crow em 2009, debatendo-se com uma pena que lhe entrou pelo nariz. Foto:  Jim Young, Reuters

Joseph Medicine Crow, último chefe da tribo Crow, morreu com 102 anos de idade. Embora tenha nascido em 1913, era considerado uma memória viva do século XIX.

 Joseph Medicine Crow foi educado para ser um guerreiro, absorveu na sua tribo as narrativas de feitos heróicos, em especial a batalha nas margens do rio Little Bighorn, em 1876. Ouviu essas narrativas de guerreiros índios que ainda tinham participado na batalha. Recordavam-na como rara vitória que fora, dos índios sobre as tropas brancas, ocasionada pela aliança entre cheyennes sioux, contra a prática do general George Armstrong Custer, que habitualmente massacrava aldeias índias inteiras.

Custer, retratado sem contemplações no filme Little Big Man, protagonizado por Dustin Hoffman, foi morto na batalha, juntamente com mais de duas centenas de militares norte-americanos.

Na reserva de Lodge Grass, Montana, Joseph Medicine Crow foi treinado desde os seis anos de idade pelo seu avô, Cauda Amarela, para continuar as proezas guerreiras de chefes como Touro Sentado e Cavalo Louco, os dois líderes das tribos coligadas para a vitória de Little Bighorn. O avô fazia-o correr descalço sobre a neve, para criar resistências.

Segundo a nota publicada no New York Times por ocasião da sua morte, Medicine Crow seguiu, contudo, um outro caminho, numa época em que a resistência à ocupação branca já tinha terminado. Foi um dos primeiros índios estudarem e licenciou-se em antropologia em 1939. Mas depois veio a Segunda Guerra Mundial e voltou a emergir Crow, o guerreiro índio.

Entre os seus feitos de guerra conta-se o de roubar cavalos num acampamento inimigo e o de vencer em combate corpo-a-corpo um soldado alemão, a quem finalmente decidiu poupar a vida. Num livro publicado em 2006, Medicine Crow explicava que “fazer a guerra é a nossa arte suprema; mas para os índios da planície fazer a guerra não consiste em matar. É tudo uma questão de inteligência, de liderança e de honra”.

Quando voltou da guerra na frente europeia, Joseph Medicine Crow foi nomeado pelo conselho tribal como historiador da tribo. Diz-se que era dotado de uma memória prodigiosa e que conseguia, muitos anos depois, reproduzir grande parte das conversas que tivera com seis batedores índios que chegara a conhecer e que estiveram ao serviço do general Custer na batalha de Little Bighorn.

O empenhamento de Medicine Crow em cultivar as tradições da sua tribo como parte integrante de uma nação americana resultante do extermínio da população indígena valeu-lhe numerosos louvores e condecorações, mais recentemente por parte do presidente Barack Obama. Entre os elogios fúnebres que lhe fizeram os seus conterrâneos conta-se o do senador Steve Daines, nestas palavras algo ambíguas: “O espírito de Medicine Crow, a sua humildade e as realizações da sua vida, deixam uma marca duradoura na história de Montana”.

Mudanças climáticas provocarão prejuízo de US$ 2,5 trilhões (O Globo)

05/04/2016, por O Globo

Colheita de cana de açúcar: rombo acontecerá mesmo se os países cumprirem as metas voluntárias apresentadas na conferência climática de Paris, em dezembro de 2015 – Paulo Fridman/Bloomberg/18-9-2014

RIO — As mudanças climáticas podem afetar investimentos equivalentes a US$ 2,5 trilhões da economia mundial até 2100, segundo um estudo publicado ontem na revista “Nature Climate Change”. O prejuízo seria resultado do aumento da temperatura em 2,5 graus Celsius até o fim do século, em relação aos níveis pré-industriais. Esta quantia é equivalente à metade do valor atual das empresas de combustíveis fósseis. Se os termômetros avançarem além de 2 graus Celsius — valor máximo admitido pelos climatologistas —, a economia mundial sofreria um rombo de US$ 1,7 trilhão.

Entre os meios de destruição mais comuns ligados às mudanças climáticas estão o aumento do nível do mar — que afeta principalmente setores da economia atuantes na zona costeira —, além de secas e tempestades, capazes de interromper atividades de diferentes ramos do mercado.

A pesquisa concentrou-se principalmente em investimentos ligados a petróleo, carvão e gás, recursos que serão perdidos se os países insistirem na adoção de combustíveis fósseis, em de vez de optar por energias sustentáveis.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Grantham sobre Mudanças Climáticas, que elaborou o estudo, seus cálculos são a primeira estimativa do impacto causado pelo aquecimento global sobre ativos financeiros.

As projeções, realizadas com o uso de modelos matemáticos, foram baseados em um valor estimado de US$ 143,3 trilhões em ativos não bancários globais em 2013, valor determinado por economistas.

Considerando as atuais emissões de gases-estufa, os climatologistas indicam que o planeta está a caminho de um aquecimento global equivalente ou superior a 4 graus Celsius. Se as nações cumprirem as metas que apresentaram na Conferência do Clima em Paris, no fim do ano passado, o aumento da temperatura global chegará a 3 graus Celsius.

As mudanças climáticas devem ser encaradas com preocupação para setores e investidores que exercem a atividade pensando a longo prazo, como os fundos de pensão e reguladores financeiros.

Diretor do programa de finanças sustentáveis da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Ben Caldecott ressalta que os impactos financeiros das mudanças climáticas são um risco de grande escala.

— Os investidores podem fazer muito para diferenciar entre as empresas mais ou menos expostas e, assim, conseguirem ajudar a reduzir os riscos para a economia global, apoiando ações ambientais sobre as mudanças climáticas.

MAIS GRAVE QUE POLIOMIELITE

Ontem, um relatório divulgado na Casa Branca alertou que as mudanças climáticas representam uma grave ameaça para a saúde pública — em muitos aspectos, pior do que a poliomielite — e atacará especialmente gestantes, crianças, pessoas de baixa renda, negros, asiáticos e hispânicos.

O documento “Os impactos das mudanças climáticas na saúde humana nos EUA: uma avaliação científica”, adverte sobre os riscos arrebatadores para a saúde pública do aumento da temperatura nas próximas décadas, que também levaria a mais mortes e doenças por insolação, insuficiência respiratória e doenças como o vírus do Nilo Ocidental.

Aumento do nível do mar ameaça inundar estação da Nasa (O Globo)

05/04/2016, por O Globo

Lançamento de foguete em Cano Canaveral: centro tecnológico é vulnerável a aumento do nível do mar– John Raoux/AP/18-11-2013

RIO — Um dos maiores e mais sofisticados centros de tecnologia do mundo, a base de lançamento de foguetes da Nasa em Cabo Canaveral, na Flórida, corre risco de ser inundada. O aumento do nível do mar, em consequência das mudanças climáticas, ameaça a infraestrutura da agência espacial ao longo da costa de 115 km. Os riscos já levaram a agência espacial americana a estudar a remoção das instalações.

Em todo o país, cerca de dois terços das instalações da Nasa estão em regiões de altitude inferior a 4,8 metros, e a maior parte se localiza em zonas costeiras, onde as agitadas correntes oceânicas já contribuem para a erosão dos equipamentos.

— Estamos tremendamente ligados à água — alerta Kim Toufectis, estrategista da agência espacial americana.

De acordo com um estudo publicado semana passada na revista “Nature”, o aquecimento global pode aumentar o nível do mar entre 1,5 metro e 1,8 metro até o fim do século. Um grupo de trabalho da Nasa estima que o aumento do nível do mar de 12 centímetros para mais de 60 centímetros até 2050 pode levar a problemas em cinco estações costeiras da agência:

“Os centros da Nasa que já estão sob risco de inundação devem se tornar mais vulneráveis no futuro”, previa o grupo em um relatório em 2014.

Com a ameaça do clima, a Nasa tem como alternativa a instalação de barreiras e outras estruturas que contenham o aumento do nível do mar e os efeitos de tempestades e inundações. Em locais onde a adaptação não for possível, uma alternativa será o “recuo estratégico” — uma medida bem mais cara, na casa dos bilhões de dólares.

Além de exigir muito dinheiro, a remoção das instalações envolve a construção de edifícios, traslado de equipamentos e deslocamento de equipes, e por isso ainda deve demorar.

Why Some Societies Practiced Ritual Human Sacrifice (New York Times)

Enough about Ethnography: An Interview with Tim Infold (Cultural Anthropology)

April 5, 2016

by Susan MacDougall

The Summer 2014 issue of HAU: Journal of Ethnographic Theory included the article “That’s Enough about Ethnography!”, by Tim Ingold, who is Chair in Social Anthropology at the University of Aberdeen. What follows is a lightly edited transcript of an interview that contributing editor Susan MacDougall conducted with Ingold about the article and reactions to it.

Susan MacDougall: In your HAU article, you identify the need for anthropology to “heal the rupture between imagination and everyday life.” When you talk about this rupture, you link it to a divorce of fact from theory. Can you expand on this notion and why it is important for the future of anthropology? 

Timothy Ingold: The problem here lies in the degree to which anthropology, as an academic discipline, remains compliant with the protocols of normal science. These protocols enforce a division between the real world, from which we are expected to gather “data,” and the world of theory, in which these data are to be interpreted and fashioned into authorized knowledge. This division is only reinforced by continual appeals to the idea of anthropological knowledge production. It is as though we go to the world for our material, but then turn our backs on it in working this material into the finely crafted, peer-reviewed artifacts that we recognize as books and articles. To my mind, this procedure fatally compromises the core mission of anthropology, which is to demonstrate—by precept and example—how to do our thinking in and with the world we inhabit: in response to its summons, rather than after the fact. This means giving due recognition to what we know full well from our inquiries, namely that what is given to us is not just there for the taking as data for collection, but is an offering, the acceptance of which carries a responsibility of care. Anthropology shows that curiosity and care, pried apart in mainstream science policy by a spurious and ethically indefensible division between research and impact, are inseparable aspects of our relations with those to whom we owe our education in the ways of the world.

SM: Timothy Jenkins (1994) referred to fieldwork as a series of apprenticeships, and pointed out that learning how to get along in the field involves quite a bit of un-learning one’s own assumptions. You also mention Kenelm Burridge’s metanoia: an ongoing series of transformations that alter the predicates of being. These are possible results of encounters, ethnographic or otherwise, and if those results lead to fruitful analysis, all the better. If this is such a commonplace thing to do, though, how can the aspiring anthropologist prepare to do it and do it well?

TI: Certainly, there is an element of unlearning in all fieldwork. What would be the point of it otherwise? Such unlearning, moreover, can be unsettling and does involve an element of existential risk. My point, however, is that unlearning is intrinsic to education, understood in its original sense as a leading out into the world that frees us from the limitations of standpoints or perspectives and causes us continually to question what previously we would have taken for granted. This is what we expect from our students in the classroom, as much as what we expect from ourselves in the field.

Two things follow from this. First, although only a tiny proportion of the students we teach—at least at introductory levels—will go on to become practicing anthropologists, our task is nevertheless to foster an anthropological attitude that all of them may take into whatever walks of life they subsequently follow. Preparation for anthropology is preparation for life, and it lies in the cultivation of a readiness to both listen to others and question ourselves. Second, whether this preparation and the results that flow therefrom yield to “fruitful analysis,” as you put it, depends on what we mean by analysis. If we mean the processing and interpretation of empirical data in the normal scientific sense, then the answer is no. But if analysis means a critical interrogation that opens simultaneously to the self and to the world, then the answer is a definite yes!

SM: Conversely, is it possible to do the encounter badly or incorrectly? Or do weaknesses and mistakes emerge later, in the note-taking and what follows? If anthropologists would like to maintain some claim to ethnography or to participant-observation, then is there a need to distinguish between the high- and low-quality conduct of both?

TI: The opposite of opening is, of course, closure. That is when we refuse to attend to the presence of others or to what they have to offer. I suppose a “bad” encounter would be one in which we see but do not observe, hear but do not listen, touch but do not feel. In such an encounter, we would pick up signals as data, but remain impervious to them. Our curiosity would be divorced from care. This, of course, is what is generally recommended by science in the name of objectivity. But as I have stressed, objectivity is one thing, observation quite another. Observers are bound to make mistakes, and our field notes are doubtless full of them. We can misunderstand what people say, jump to the wrong conclusions, or confuse one thing for another. There’s nothing intrinsically wrong with that: as in any situation of apprenticeship, we learn from our mistakes. But no amount of correction can make up for a failure to attend. Even if, objectively speaking, there were to be not a single error in our data, we could still fail to draw any lessons from them. We learn much from mistakes of observation grounded in attention, and nothing whatsoever from an objectively “correct” record that is nevertheless grounded in inattention.

SM: You point out in the article that anthropologists’ obsession with ethnography has a navel-gazing quality, turning “the project of anthropology into the study of its own ways of working.” Certainly anthropologists can be sentimental about their fieldwork experience and consider it formative for their characters as well as their scholarship. But, as you point out, this willingness to be changed by the fieldwork experience is what makes it an education as opposed to straightforward data collection. Do you see a way for this admission—that is, that participant observation can be personally transformative—to enhance anthropology’s impact in the world, rather than undermining it? 

TI: This is precisely why anthropology can potentially make such a difference in the world. But we should not have grudgingly to “admit” that fieldwork can personally transform the observer, as though we were offering an apology for anthropology’s inability to come up with accounts that more positivist disciplines would regard (in their terms) as suitably robust or evidence-based. Nor should our addiction to fieldwork be used to justify disciplinary introversion, affording an excuse to retreat into our own shells and to talk only to ourselves about the conditions and possibilities of anthropological knowledge production. On the contrary, we should be leading a campaign against the very idea that the world presents itself to human science as a standing reserve of data for collection. And to do this, we must stop pretending to believe in this idea ourselves.

For this reason I insist that participant-observation is not a research method but, more fundamentally, an ontological commitment: an acknowledgement of our debt to the world for what we are and what we know. This is a commitment, I believe, that should underwrite not just anthropology but every branch of scientific inquiry. Whatever our field of specialization, we should have the humility to recognize that understanding can only grow from within the world we seek to know, the world of which we are a part. This recognition, however, strikes at the core of the constitution of the academy. It is why anthropology’s campaign must also be a campaign for the heart and soul of the academy. The stakes could scarcely be higher.

SM: In a related vein, I’d like to bring up Amy Pollard’s (2009) piece “Field of Screams,” which took anthropology to task for sending vulnerable students off into the field to meet with traumatic and isolating experiences. It seems that a direct, convincing definition of ethnography will remain elusive if postfield graduate students are afraid to talk about what they actually did in the field. Do you see a way for anthropology to address the sometimes painful realities of fieldwork, without undue reliance on procedures that look like they were written by university risk management offices and not anthropologists? 

TI: Traumatic and isolating experiences are not exclusive to anthropological fieldwork. They are a part of life. In life in general, as in fieldwork in particular, painful realities are always hard to talk about. The absurdity of bureaucratic risk management, on which so many of our universities nowadays insist, is that they fail to understand this. Were we to follow their logic to the letter, then we would have a society in which no baby could be born without a divinely ordained risk management schedule that would anticipate every contingency of its future life. That institutions should have usurped such godlike powers for themselves—in the interests, it must be said, not of protecting their researchers but of protecting themselves against litigation should things go wrong—is an indication of the corporate dishonesty that now pervades the higher education sector. Anthropology should not participate in this dishonesty. I do not think, however, that this issue of risk management has any immediate bearing on the definition of ethnography, unless of course we were to include within our catalog of risks the isolations and traumas of writing up. As I have endeavored to show, ethnography and participant-observation are not the same, and their common identification has brought nothing but confusion.

SM: One of the reasons I was interested in discussing this article with you is that it clearly sparked a conversation. Rarely do journal articles show up in my Twitter feed or inspire threads on the Open Anthropology Cooperative, and this one certainly did. Have you had any particularly thought-provoking responses to this article? Have any of them prompted you to reevaluate your views?

TI: There is no doubt that my article touched a raw nerve in the discipline. It seems to have brought into the open a number of issues that have long been simmering beneath the surface, and that many would have preferred to have kept there. The responses I have received are roughly of two kinds. The first are supportive. They come principally from younger scholars who thank me for stating explicitly what they have long felt, but have been afraid to express for fear of rocking the boat. The second come from critics who accuse me of tilting against windmills. They complain that, in distinguishing ethnography from anthropology, I have resorted to a narrow, old-fashioned, and overly literal characterization of ethnography that bears little resemblance to what most scholars who would call themselves ethnographers actually do nowadays. Looking at the content of most mainstream anthropological journals, I am a little skeptical of this complaint.

Be that as it may, my response is that even if so-called ethnographers are already doing everything that I am calling for under the banner of anthropology, ethnography is nevertheless a singularly inappropriate term by which to describe it. Maybe among ourselves, with our common experience of having undertaken fieldwork of one kind or another, we can share an in-house understanding of what ethnography means without having to spell it out too precisely. This understanding, however, does not extend to realms beyond the bounds of the discipline, where fundamental misapprehensions remain about what anthropologists do and why it is important. Overuse of the term ethnography, I believe, only feeds these misapprehensions and makes it more difficult, not less, to explain what we do and what its value might be to others: whether they are students, academics in other disciplines, or the public at large. Anthropology is a noble calling and not one to be ashamed of. Why should we hide it under another term, ethnography, as if pretending to do something completely different?

References

Jenkins, Timothy. 1994. “Fieldwork and the Perception of Everyday Life.” Man 29, no. 2: 433–55.

Pollard, Amy. 2009. “Field of Screams: Difficulty and Ethnographic Fieldwork.” Anthropology Matters 11, no. 2.

Origins and Scope of Thick Ethnography

Avatar de Neil TurnerPerspectives in Anthropology

Cover Story_Thick Ethno
Within a historical context, ethnography attempts to be holistic in nature based in part on emic views. It is written, observational science that provides an account of a particular culture, community or society. Typically, it involves fieldwork or spending a year or more in another society, living among its people, and trying to understand them as much as possible. Further, it is a meeting ground for many disciplines that focus on human and social sciences. Principle among these are sociology, economics, education, religious studies, geography, history, linguistics, psychology and political science. Over time, ethnographic methods have developed other research frameworks such as anthropometry, cross-cultural comparisons, thick description, cultural relativism, emic-etic approaches, and holism.

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A guerra científica contra os gatos (El País)

Como a eliminação dos felinos em 83 ilhas do mundo todo beneficiou centenas de espécies

MANUEL ANSEDE

28 MAR 2016 – 17:06 CEST

Gato selvagem ataca uma ave na Austrália.

Gato selvagem ataca uma ave na Austrália. Brisbane City Council

Em 25 de abril de 2006, há quase dez anos, um gato de rua apareceu na praia do Inglês, nas Ilhas Canárias (Espanha), carregando na boca o cadáver de um lagarto gigante de La Gomera. Havia apenas 50 animais em liberdade dessa espécie, que sofre uma grave ameaça de extinção. E não se tratava de uma exceção. Os gatos que invadem as matas e vagueiam pelas ilhas no mundo todo têm levado ao desaparecimento de pelo menos 22 espécies de aves, nove de mamíferos e duas de répteis, representando 14% do total de extinções de animais vertebrados registradas pela União Internacional de Preservação da Natureza.

Autoridades de todo o planeta iniciaram uma guerra secreta aos gatos das ilhas. Eles são capturados com armadilhas, envenenados com ceva de peixe, caçados com cães adestrados ou até mesmos mortos com tiros de espingarda, como já ocorreu em algumas ilhas do arquipélago equatoriano dos Galápagos. Os gatos selvagens já foram extintos em pelo menos 83 ilhas, como Santa Catalina (México), Baltra (Equador), Trindade (Brasil), além das ilhotas espanholas de Lobos e Alegranza, segundo o relatório mais recente, produzido há cinco anos.

Agora, um novo estudo atesta a eficácia dessa estratégia, que não deixa de ser polêmica de certa forma. O trabalho, encabeçado pela bióloga norte-americana Holly Jones, mostra que a extinção de mamíferos invasores (principalmente ratos, cabras e gatos) beneficiou 236 espécies animais nativas de 181 ilhas em todo o mundo. Quatro delas tiveram o seu nível de risco de extinção diminuído na Lista Vermelha de espécies ameaçadas da IUCN (sigla em inglês para União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais), segundo o detalhado estudo publicado na revista científica PNAS.

Na ilha Natividad, no México, a eliminação dos gatos selvagens foi crucial para a recuperação da pardela-culinegra, uma ave de 80 centímetros existente em algumas poucas ilhas do Oceano Pacífico. “Essa intervenção foi importante para que a espécie passasse da classificação de vulnerável para quase ameaçada” na Lista Vermelha, como destaca Heath Packard, porta-voz da ONG norte-americana Island Conservation, que participa do estudo. O mesmo aconteceu na ilha britânica de Asunción, no Atlântico, onde a eliminação dos gatos permitiu que o rabiforcado-de-Ascensão, uma ave em ameaça crítica de extinção, reocupasse o seu território.

“Nós, biólogos da preservação, também amamos os animais. A maior parte de nós tem dedicado suas carreiras a proteger a biodiversidade, mas também avaliamos que aceitar a persistência de mamíferos invasores nas ilhas é uma decisão que permite que as espécies nativas sejam atacadas e, em alguns casos, levadas à extinção”, explica Jones, da Universidade do Norte de Illinois.

O comum é fazer a eutanásia dos gatos retirados das ilhas, mas no Japão os gatos capturados foram esterilizados e colocados para doação

A bióloga lembra o caso de uma gata de um homem que chegou em 1894 à ilha de Stephens, na Nova Zelândia, para cuidar de seu farol. A gata, prenhe, fugiu e a sua prole acabou em poucos meses com todos os exemplares de garrinchas de Stephens, uma ave arredondada e incapaz de voar, que era própria daquela ilha. Hoje em dia restam apenas exemplares empalhados dessa espécie extinta.

As ilhas são paraísos da biodiversidade. São a casa de 15% das espécies terrestres do planeta, e nelas sobrevivem 37% das espécies sob ameaça crítica de extinção, segundo destaca a equipe de Jones.

Uma garrincha de Stephens empalhado.

Uma garrincha de Stephens empalhado. Te Papa

 O biólogo espanhol Manuel Nogales, do Grupo de Ecologia e Evolução em Ilhas do Consejo Superior de Investigaciones Científicas, vem propondo há anos a erradicação total de gatos selvagens nas ilhas com menos de 200 quilômetros quadrados. Sua equipe, quando trabalhava na Universidade de la Laguna, na Espanha, capturou com ceva de sardinhas, há mais de dez anos, os dez gatos que tinham invadido a ilhota de Alegranza, um refúgio para aves marinhas como a águia pescadora e a pardela-de-bico-amarelo. Em Lobos, também na Espanha, o único gato do local foi retirado.

Os gatos têm levado ao desaparecimento de pelo menos 22 espécies de aves, nove de mamíferos e duas de répteis

“Na Espanha e na Europa de um modo geral, as autoridades resistem em organizar campanhas pela erradicação dos gatos. Em outros países, a conscientização está mais avançada”, lamenta. Nogales, que não participou do novo estudo, faz um chamamento à ação: “Não podemos ficar de braços cruzados”. Ele e seu colega Félix Medina estão envolvidos em um estudo inicial para avaliar a possível eliminação dos gatos de La Graciosa, uma ilha canária, onde se realizaria a maior eliminação de felinos na Espanha. La Graciosa tem uma área de 30 quilômetros quadrados, o triplo de Alegranza e seis vezes mais do que a superfície da ilhota de Lobos.

Nogales admite que o comum é fazer a eutanásia dos gatos retirados das ilhas, mas aponta outras possíveis alternativas. “No Japão, os gatos capturados na ilha de Okinawa foram levados a Tóquio, esterilizados e colocados para doação”, relata.

“Em muitas ilhas do mundo onde há esses gatos invasores é imprescindível eliminá-los, para que acabar com a pressão que eles fazem sobre muitas espécies nativas ameaçadas por esse predador. Em outras ilhas, seria praticamente impossível, mas é possível adotar outras medidas, como a esterilização, a marcação ou mesmo a reclusão em casa, o que é quase impossível”, acrescenta Medina.

O que vem depois do desastre? (Agência Pública)

23/03/2016

A Pública retoma três tragédias socioambientais e conta o que aconteceu depois que a poeira baixou. Impunidade e acordos lenientes são o resultado mais comum.

Por Jessica Mota, da Agência Pública –

Ednei de Souza comemorava seus 9 anos de idade no dia em que tudo pegou fogo. Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, a Vila São José, conhecida como Vila Socó, em Cubatão (SP), sofreu um incêndio de enormes proporções que matou pelo menos 508 pessoas, possivelmente 700, segundo o que estimou à época o Ministério Público de São Paulo. No Brasil da ditadura militar, foram identificados oficialmente 93 corpos.

O incêndio foi provocado por um vazamento no oleoduto Santos-São Paulo, que transportava gasolina da Refinaria de Capuava, em Mauá, para o Terminal da Alemoa, em Santos, de onde era exportado. A vila fica no caminho desse oleoduto. A maior parte de seus moradores eram migrantes nordestinos atraídos pelas possibilidades de trabalho no complexo industrial de Cubatão. O laudo do médico-legista-chefe do Instituto Médico-Legal estimava como número provável a morte de 300 crianças entre 0 e 3 anos.

O incêndio aconteceu na altura do km 58 da Via Anchieta, onde até hoje está a Vila São José, apelidada “Socó” pela presença dos pássaros no mangue sob as casas de palafita da favela. A gasolina se espalhou nas águas do mangue e da maré. Foi por isso que o fogo irrompeu de baixo para cima, com violência.

“Era uma sexta de Carnaval”, lembra Ednei, que continua, aos 41 anos, a morar na vila. “Nós corremos e depois do incêndio eu voltei pra ver como ficou. Passei aqui e eram muitos corpos perto, num lençol branco, outros não estavam cobertos. Cenário de destruição. Pessoas chorando. Bombeiros tentando pegar os corpos que estavam no meio da lama.”

Dirlene Camilo, a dona Didi, de 78 anos, conta que só teve tempo de acordar os filhos e sair correndo. “Eu só via o céu e fogo. Nós corremos. Meu marido ficou pra, sei lá, pegar documento, pra pegar dinheiro. Ele era pescador e naquele dia tinha vendido muito camarão. Ele queimou. Não morreu na hora. Quando soube, fui lá na Santa Casa e ele tinha morrido”, conta ela na sala da sua casa na Vila Natal, bairro vizinho da Vila Socó, onde foi reassentada depois da tragédia.

O inquérito policial foi instaurado no mesmo dia e a Procuradoria-Geral de São Paulo designou o promotor Marcos Ribeiro de Freitas para assumir a investigação e o processo criminal. Durante um mês, o promotor, hoje aposentado, e seu colega José Carlos Pedreira Passos reuniram documentos sobre vazamentos anteriores, laudos do Instituto Médico-Legal, documentos da prefeitura de Cubatão, plantas das instalações dos dutos e depoimentos – de sobreviventes, testemunhas e funcionários das instituições responsáveis, como a Petrobras e a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Finalmente, no dia 4 de junho de 1984, os promotores protocolaram a denúncia na Comarca de Cubatão.

Ednei de Souza completava 9 anos no dia do desastre de Cubatão. 'Eles [a Petrobrás] têm dívida eterna com a Vila'. José Cícero da Silva/Agência Pública

É essa peça jurídica, carregada de informações detalhadas e provas, que concluiu que o incêndio foi causado por falha humana, um “erro operacional”, mas que a tragédia só ocorreu pela negligência e omissão de 24 homens. À frente do rol de denunciados estava Shigeaki Ueki, então presidente da Petrobras e ex-ministro de Minas e Energia do governo Geisel (1974-1979). Havia outras autoridades, como o prefeito-interventor de Cubatão na época, José Oswaldo Passarelli, nomeado pelo governo militar. Ueki participou de diversos governos desde 1964 e foi o primeiro presidente civil da Petrobras.

“A nossa denúncia foi uma peça técnica, juridicamente falando. Promovendo responsabilidade, não só pela falha humana que houve, porque isso não elidia a responsabilidade da Petrobras”, relembra Marcos de Freitas. “Porque são culpas concorrentes. Uma coisa é falha humana, outra coisa é a responsabilidade da empresa, que tanto pode ser na área cível, como foi, como na área criminal, como também foi.”

A falha humana foi constatada em sindicância da própria Petrobras. As válvulas que ligavam as linhas de transporte da gasolina aos tanques não se abriram por “um erro operacional”, ocasionado por “problemas de comunicação”. Mas a “culpa consciente” pelo incêndio saltou aos olhos dos promotores ao examinarem um ofício encaminhado por Ueki ao então governador de São Paulo, Franco Montoro, dois meses antes da tragédia. Ueki alertava para o risco iminente de um incêndio e pedia que fossem tomadas providências para remover as pessoas que viviam na Vila Socó. “Só que ele mandou o ofício e não tomou nenhuma providência, vamos dizer, entrar com uma ação no Fórum pra botar todo mundo pra fora. Ele não fez nada, se omitiu completamente. Foi através de uma culpa consciente, através dessa omissão, por parte da Petrobras, que nós denunciamos a responsabilidade criminal”, explica o promotor. Segundo consta na denúncia, deveria haver uma faixa de pelo menos 30 metros que separasse casas e barracos da área do oleoduto e a atribuição legal de realocar as pessoas era da Petrobras, desde o momento em que assumiu a administração do oleoduto.

Não há registros da resposta de Montoro. Antes mesmo do ofício de Ueki, porém, em 1977, Araken de Oliveira, ex-presidente da Petrobras, havia enviado um ofício semelhante ao ex-governador Paulo Egídio Martins. O ex-governador respondia que a competência era do Serviço Social da prefeitura de Cubatão e que ela já havia elaborado um projeto de “desfavelamento” que tinha financiamento do Banco Nacional de Habitação para construção de 6 mil casas. Mas o projeto nunca chegou à Vila Socó.

O único monumento em homenagem às vítimas fica no fundo da Vila, num canteiro ao lado da rodovia Anchieta. José Cícero da Silva/Agência Pública

A denúncia – que obteve repercussão nacional e internacional – apontava também falhas de manutenção nos dutos. Entre 1971 e 1975, o oleoduto apresentou uma média de um vazamento a cada dez dias. Ele havia sido adquirido pela Petrobras em 1974 – operava desde 1951 – sem que fosse feita uma inspeção para avaliar o sistema. De 1977 até a investigação do Ministério Público, o oleoduto já havia se rompido 19 vezes – 18 por corrosão. A válvula de segurança, que poderia aliviar a pressão que causou o acidente, só foi instalada uma semana após o incêndio.

Ainda assim, ninguém foi preso. Uma semana depois de feita a denúncia, o juiz da Comarca de Cubatão descartou a responsabilidade de sete dos 24 denunciados: o então prefeito Passarelli e mais seis engenheiros. Os demais foram chamados para interrogatório, com exceção do presidente da Petrobras, que conseguiu um habeas corpus por dois votos a um e, depois, o trancamento da ação penal. Sete engenheiros e funcionários da Petrobras foram condenados em primeira instância a um ano e sete meses de prisão. Na mesma decisão, outros quatro foram absolvidos. Nenhuma das autoridades de alto escalão foi condenada. Em agosto de 1986, após recursos, os réus foram todos absolvidos em segunda instância. Passarelli seria prefeito por mais dois mandatos em Cubatão, de 1986 a 1988 e de 1993 a 1996.

No ano seguinte ao desastre, a Agência Estado noticiava a recorrência dos vazamentos nos dutos da Petrobras na Baixada Santista. Segundo o jornal, “houve indenizações irrisórias (só oito por morte), construiu-se apenas 28 casas para os desabrigados, e a Justiça ainda não apontou os culpados. As indenizações às vítimas não ultrapassaram Cr$ 3 bilhões, sendo que, por morte, os oito acordos não chegaram a Cr$ 75 milhões”.

Dona Didi conta que foi reassentada na Vila Natal, onde mora até hoje, dois meses depois do incêndio. Até a casa sair, ficou com os quatro filhos na residência do irmão, no Guarujá. Em dinheiro, recebeu Cr$ 1,5 milhão para ressarcir tudo o que perdeu no incêndio. O valor corresponde atualmente a R$ 10.652,54 (cálculo feito em plataforma do Banco Central, com correção monetária e índice de inflação reajustados). Ela não tem a escritura da casa, apenas a “permissão de morada”, e não escolheu ir para Vila Natal.

“Eu já tava acostumada lá na Vila Socó, tinha medo de mudar de lá”, conta. “Cedo eu ia fechando as portas pros meninos não saírem. Era um mato só, um lixão aí atrás”, lembra enquanto aponta para o fundo da casa na Vila Natal. Ela diz que se acostumou com o cheiro. “A gente que é pobre acostuma com tudo.”

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

A Vila Socó ainda existe no mesmo lugar, mas já não há mangue nem casas de palafita. Foi urbanizada a partir de 1985 por reivindicação dos moradores. Os dutos que transportam gasolina ainda estão ali, mas agora subterrâneos. Por toda a calçada da área de lazer do bairro existem estacas amarelas que sinalizam a passagem da tubulação.

Apesar de, na época, já existirem uma legislação estadual que normatiza a prevenção e controle de poluição, uma lei federal de 1980 que regula o zoneamento industrial e estabelece diretrizes para o licenciamento de indústrias e a Lei Federal 6.938, de 1981, que instituía a Política Nacional de Meio Ambiente, o desastre chamou atenção para a necessidade de cumprir com rigor a regulação ambiental. Em dezembro de 1984, dez meses depois do incêndio, o então gerente regional da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Luís Carlos Valdez, fez declarações alarmantes ao jornal A Tribuna. “Se as autoridades não ouvirem o clamor da Baixada Santista, teremos muitas outras tragédias como a da Vila Socó. Talvez piores”, afirmou. No mesmo ano, Passarelli determinou estudos para a criação de uma Secretaria de Meio Ambiente municipal. Em 1985, iniciou-se “um processo de conscientização sobre a vulnerabilidade da região do Pólo Petroquímico de Cubatão”, como aponta histórico da Cetesb. Foi então que a companhia começou a desenvolver um setor de Análise de Riscos.

Pouco se avançou, porém, para corrigir as injustiças cometidas em relação aos atingidos pela tragédia. “Eu lembro que na época o então vereador Dorivaldo Cajé, que era o presidente da Câmara, mediou esses acordos. Acordos em que foram definidas indenizações irrisórias. Só pra se ter uma ideia, e isso está no processo, crianças de até 12 anos não foram indenizadas porque não eram força produtiva”, conta Dojival Vieira, que era vereador eleito pelo Partido dos Trabalhadores no momento do desastre. Hoje, Dojival é jornalista e advogado e integra a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão.

“Naquela época, o povo era leigo. Não sabia dos direitos. O pessoal que vinha pra trabalhar, mas não conhecia de direito, na época não sabia nem contratar um advogado. Então, o poder público fez o que quis com o povo”, sublinha o morador Ednei, presidente da associação de bairro entre 2004 e 2008. “Eu trouxe de volta a história [do incêndio]. Eu resgatei essa memória viva do povo”, conta. “A Petrobras não gostou da lembrança. O gerente de comunicação da época falou pra não falar mais do assunto, que isso é coisa passada. Eu falei que não, que eles têm dívida eterna com a Vila São José”, diz.

Coluna no jornal A Tribuna, de Santos, em 08 de dezembro de 1984, levantava discussão sobre degradação ambiental

Em 2014, no aniversário de 30 anos da tragédia, a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão, em parceria com a Comissão da Verdade Rubens Paiva, instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), focou os trabalhos no desastre da Vila Socó. Como explica Adriano Diogo, ex-deputado estadual que presidiu a Comissão da Verdade em São Paulo, “a Petrobras sempre foi uma empresa militarizada”, e “Cubatão, que tinha o polo petroquímico, era uma área de segurança nacional”. Portanto, de responsabilidade dos militares [os prefeitos eram nomeados pelos militares], como lembrou o então governador Franco Montoro em entrevista aos jornalistas em Vila Socó, no dia da tragédia: “É preciso não esquecer que Cubatão está sendo considerada área de segurança nacional apenas como uma cidade que não deve escolher o seu governante. Se houvesse uma participação maior da população, nós teríamos uma participação maior na apreciação dos problemas e na solução”, disse o então governador.

A Comissão da Verdade da OAB de Cubatão pediu o desarquivamento do processo de Vila Socó. “Quando nós criamos essa comissão, tínhamos alguns objetivos”, explica o advogado Luiz Marcelo Moreira. “O primeiro era o resgate à memória. O segundo objetivo era traçar a real dimensão dessa tragédia. O terceiro é o porquê da impunidade dos entes envolvidos. Ninguém foi punido. E o quarto, se houve indenização, de que forma foi a indenização? E se existiria ainda direito a alguma indenização. Traçado isso, a primeira coisa que eu fiz foi pedir o desarquivamento desse processo.”

Foram feitas cinco audiências públicas sobre o caso, três em Cubatão e duas na Alesp. Shigeaki Ueki, hoje consultor internacional da área de energia, foi chamado para depor na Comissão da Verdade em São Paulo. Em seu depoimento, em julho de 2014, ele buscou dar o assunto por encerrado. “Nós admitimos logo de início, vamos aceitar a culpa, foi um erro operacional, falha humana, não interessa, e custou uma pequena fortuna para a Petrobras, e indenizamos todos, de acordo com a lei, com a expectativa de vida e tudo mais.”

Desde o fim da Comissão da Verdade, em 2014, a equipe de três advogados estuda como buscar reparação às vítimas. “Nós encerramos essa primeira etapa, e a próxima etapa é montar uma petição inicial com a documentação e levar à OEA [Organização dos Estados Americanos] para que lá seja julgada e analisada essa situação não só da Petrobras, mas do Estado brasileiro.” Moreira se refere à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que pode condenar o Estado brasileiro por violações de direitos humanos. “Se existir uma culpa, seja de qual forma for, que ele [o Estado] seja responsabilizado e indenize as vítimas e os parentes das vítimas. Nós queremos fazer isso ainda este ano”, conclui o advogado.

A Pública fez um pedido pela Lei de Acesso à Informação à Petrobras para obter documentos internos relativos ao desastre da Vila Socó. A Ouvidoria-Geral respondeu que as informações sobre o incêndio já haviam sido encaminhadas à Comissão da Verdade de São Paulo e que, na época em que a comissão requereu tais informações, a Petrobras não localizou a documentação relacionada. A reportagem questionou também a empresa, via assessoria de imprensa, sobre as indenizações, restaurações dos dutos e zona de segurança na Vila Socó. A assessoria informou por telefone que não iria comentar o caso.

Dutos da Petrobrás que transportam gasolina hoje têm sinalização e ainda passam pela Vila Socó. José Cícero da Silva/Agência Pública

12 anos antes, outra barragem em Minas

O estado de Minas Gerais tem 220 barragens de rejeitos minerais classificadas dentro da Política Nacional de Segurança de Barragens. Em 2003, 12 anos antes de romper a barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, também em Minas, outra se rompia na cidade de Cataguases, perto da divisa com o Rio de Janeiro.

Ela represava rejeitos gerados na produção de celulose (chamados de lixívia negra) e fora construída na década de 1980, de acordo com informações do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) de Minas Gerais, pela Indústria Matarazzo de Papéis, posteriormente adquirida pela Indústria Cataguases de Papel e pela Florestal Cataguases, pertencentes ao Grupo Iberpar.

Em resposta aos questionamentos da Pública, o Sisema informa que a Indústria Matarazzo de Papéis operou sempre irregularmente, de 1978 até seu fechamento, em 1993. A empresa se mantinha em atividade “celebrando vários acordos com a Comissão de Política Ambiental (Copam), com o objetivo de solucionar as irregularidades ambientais, porém nenhum dos acordos foi cumprido”. A Indústria Cataguases de Papel, que opera com reciclagem de papel e adquiriu a planta em 1993, só requereu Licença de Operação em 1997. Até 2003, ano do rompimento, a indústria protocolou quatro processos de licenciamento ambiental. “Todos indeferidos por estarem tecnicamente inadequados”, informou o Sisema. Durante 14 anos a empresa operou sem licença, obtida apenas em 2007.

No dia 29 de março de 2003, a “Barragem B”, localizada na fazenda Bom Destino, se rompeu, contaminando com a lixívia negra o ribeirão Cágado, o rio Pomba e o rio Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento de água do estado do Rio de Janeiro. Mais de 500 milhões de litros de lixívia vazaram nos rios, de acordo com o Ministério Público Federal. Os resíduos chegaram a Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, e, em menor proporção, até o litoral de Presidente Kennedy, no Espírito Santo. Durante 11 dias o noroeste fluminense ficou sem abastecimento de água.

O Sisema informou que testes laboratoriais indicaram que os resíduos da barragem não eram tóxicos. Entretanto, uma portaria do Ibama emitida quatro dias após o rompimento da barragem referia-se ao “vazamento de substâncias altamente tóxicas” e proibia a pesca nos rios Pomba e Paraíba do Sul durante 90 dias. As atividades rurais no entorno dos rios ficaram comprometidas. Animais como bois, cavalos e jacarés foram encontrados mortos ao longo do percurso dos rios contaminados, e cerca de 60 espécies de peixes – das 169 então existentes no rio Paraíba do Sul – foram dizimadas, de acordo com um artigo científico de autoria da professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro Verônica Bomfim de Souza Alves.

O procurador da república Eduardo Santos de Oliveira, que à época estava lotado na Procuradoria da República em Campos dos Goytacazes, foi o responsável pelas ações do MPF no caso da Cataguases. A experiência foi um dos fatores para que ele integrasse a força-tarefa de procuradores no caso do rompimento da barragem da Samarco em Mariana. “Um acidente dessa proporção jamais ocorre por conta dessa ou daquela causa. Como regra, é uma soma de omissões ou decisões equivocadas”, ensina. Um exemplo: na época da construção da barragem de Cataguases, já havia soluções melhores para gerenciar os dejetos da atividade industrial. Mas, segundo ele, a barragem seria uma opção economicamente mais barata.

O Ministério Público Federal (MPF) agiu contra a empresa, que teve suas atividades suspensas. Em ação civil pública, pediu indenização e compensação por danos ecológicos. Responsabilizou também o Grupo Matarazzo, dono anterior da propriedade e da indústria de papel e responsável pela construção da barragem. O Ibama e o estado de Minas Gerais foram apontados como responsáveis por omissão. Na denúncia consta ainda que, em 1990, a Indústria Matarazzo de Papéis já havia sido avisada da necessidade de a barragem ser desativada após abril de 1993 – ou seja, dez anos antes do rompimento.

Em 2007, a Justiça Federal no Rio de Janeiro determinou o pagamento conjunto de R$ 170 milhões de indenização por danos ambientais. Os réus entraram com recursos, mas de acordo com o procurador a expectativa é que a sentença saia ainda este ano e seja favorável ao pedido do MPF. Há uma execução provisória em andamento, com a penhora dos bens das empresas.

“A população ribeirinha, no caso os pescadores, na grande maioria foi assessorada pela Defensoria Pública ou por advogados. Houve centenas de ações individuais cobrando das empresas por eventuais danos, tanto em Cataguases quanto em Campos [dos Goytacazes]”, informa Oliveira. “Algumas já tiveram ganho de causa, outras ainda não.”

O MPF também denunciou criminalmente os sócios, ex-sócios e um ex-funcionário das empresas Florestal Cataguases, Indústria Cataguases de Papel, ambas do Grupo Iberpar, e das Indústrias Matarazzo de Papéis por crime de omissão, pela inundação, poluição e por não terem feito o esvaziamento da barragem após o desastre. A possibilidade de rompimento já tinha sido informada à Florestal Cataguases havia mais de três anos antes do acidente, segundo uma nota da assessoria do MPF publicada em seu site na época.

Dois dos então diretores da Indústria Cataguases de Papel, Félix Luis Santana Arencibia e João Gregório do Bem, tiveram prisão preventiva decretada. Arencibia chegou a ser preso, mas tanto ele como João Gregório tiveram liberdade provisória em seguida. A ação criminal referente aos sócios e ex-sócios da Indústria Cataguases de Papel e Florestal Cataguases ainda não teve sentença. O processo que acusava criminalmente a Indústria Matarazzo de Papéis e seus representantes foi trancado por ordem do Supremo Tribunal de Justiça, após recursos dos réus.

Em paralelo às ações judiciais, a Indústria Cataguases de Papel assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal. O acordo estabeleceu ações de recomposição da barragem, recuperação das margens do córrego do Cágado, proteção de nascentes, repovoamento de espécies de peixes nativas e remoção dos resíduos acumulados nas propriedades rurais. Segundo o Sisema, “as ações foram implementadas satisfatoriamente”.

“O TAC também contém uma série de medidas para tratamento dos resíduos remanescentes nos reservatórios das Barragens A e B da Fazenda Bom Destino, de forma a promover a completa desativação das estruturas e recuperação do passivo ambiental”, informa a nota do Sisema enviada à Pública. Segundo o procurador Eduardo Santos de Oliveira, hoje não há mais risco em Cataguases porque as barragens estão vazias.

Para o procurador, que acompanhou tanto Cataguases como Mariana, a postura das empresas continua “lamentável”. “O empreendedor sabe da potencialidade lesiva da obra que ele construiu e da qual ele é dono, sabe dos perigos que a obra que ele executou traz para a população e para o meio ambiente. O que é lamentável mesmo é que, no final das contas, eles não encaminham suas decisões de maneira a preservar a integridade tanto do meio ambiente e do patrimônio histórico, mas principalmente das pessoas”, analisa. “Se um décimo de qualquer medida das que são tomadas depois tivesse sido feito ao longo do tempo da barragem, o desastre nem teria acontecido. Independentemente das obrigações de indenizar, independentemente de eventual sentença criminal, o que é mesmo lamentável é a perda de 17 vidas inutilmente”, fala, ao refletir sobre o desastre da barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, em Mariana.

A Pública tentou localizar representantes da Florestal Cataguases e da Indústria Cataguases de Papel, sem sucesso. Em matéria do portal G1, publicada em novembro de 2015, a advogada da Indústria Cataguases de Papel, Kássia Silveira, afirmou que “a empresa foi multada no valor de R$ 50 milhões, aplicada pelo Ibama. Nós entramos na Justiça contra essa multa e o processo ainda não foi julgado, ainda está em curso. Para recuperar a área ainda gastamos aproximadamente R$ 1,5 milhão”.

Vazamento de petróleo em alto-mar

Foi no dia 8 de novembro de 2011 que a Petrobras notificou a Chevron do Brasil sobre uma imensa mancha de óleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, a uma distância de cerca de 120 km da costa do Rio de Janeiro. Há três meses, a Chevron explorava um poço de petróleo a 2.280 metros abaixo do fundo do mar, como parte de um consórcio em que tem participação majoritária (51,7%), seguida pela Petrobras (30%) e pela Frade Japão Petróleo Ltda. (18,3%).

Foram cerca de 3.700 barris de petróleo cru vazados no mar, ou aproximadamente 588 mil litros, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em laudo técnico, o Ibama e a Marinha classificaram o ocorrido como dano ambiental grave em zona de grande sensibilidade ambiental. Entre os meses de julho e novembro, quando ocorreu o vazamento, é grande a presença de baleias-jubarte e baleias-francas do sul na região da Bacia de Campos, que também é rota migratória de diversas aves marinhas. Além disso, mesmo quando não é visível, o vazamento de petróleo cru pode causar interferências em diversos níveis, de alterações celulares à morte de plânctons (organismos microscópicos que servem de alimento a peixes), peixes que nadam em cardumes, como as sardinhas, as anchovas e os atuns, além de mamíferos aquáticos e aves marinhas.

“Nós não tivemos nenhum animal visivelmente contaminado, mas você não pode comprovar que não houve [danos]. Você infere os danos a partir do momento em que existem vários estudos que demonstram que o óleo na água causa poluição. Poluição é dano”, explica Marcelo de Amorim, coordenador de Atendimento a Emergências Ambientais do Ibama. É ele que assina o laudo com a consultora da Gerência de Meio Ambiente da Marinha, Keity Ferraz. O laudo informa também que “os efeitos a longo prazo não são tão aparentes e alguns compostos podem ser bioacumulados ao longo da cadeia trófica podendo trazer efeitos nocivos ao homem”.

A ANP realizou uma investigação para apurar as causas do vazamento. Concluiu que ele havia sido provocado por erro no cálculo de pressão injetada no poço ao ser perfurado e agravado por falta de avaliação dos riscos da operação. No relatório final da apuração, a agência explicita: “O acidente poderia ter sido evitado, caso a Chevron Brasil Upstream Frade Ltda. tivesse conduzido suas operações em plena aderência à regulamentação, em conformidade com as boas práticas da indústria do petróleo e com seu próprio manual de procedimentos. De acordo com a ANP, a Chevron “dispunha de dados e informações suficientes para concluir que a classificação do risco das operações, na forma em que foram executadas, era intolerável”, diz o relatório. Ao todo, os fiscais da ANP apontaram 25 irregularidades (para toda a cronologia do vazamento, leia aqui).

Fernanda Pirillo, coordenadora de Emergências Ambientais do Ibama, explica que na etapa do licenciamento ambiental, antes de entrar em operação, as empresas que realizam produção de petróleo em alto-mar devem demonstrar ter capacidade de resposta. “O Ibama faz o simulado, como a gente chama a avaliação pré-operacional, com mobilização de recursos, e a empresa passando nesse exercício, obtém a licença [ambiental]. A legislação já obriga das empresas a se prepararem em caso de acidentes”, completa.

A Chevron confirmou o vazamento no dia seguinte à notificação da Petrobras, mas a empresa contratada para fazer o controle do poço, Wild Well Control, só foi informada no dia 10 de novembro. Isso deveria ter ocorrido imediatamente por causa do nível de gravidade da situação. O poço só foi controlado no dia 13 de novembro, o sexto dia de vazamento. Quatro meses depois, em março de 2012, foi identificado um novo ponto de vazamento a 3 km do poço. Dessa vez, a quantidade de petróleo foi menor: 25 barris ou aproximadamente 3.974 litros.

A Chevron pagou R$ 25,5 milhões à ANP por causa das irregularidades encontradas e R$ 48,2 milhões ao Ibama por danos ambientais. As multas tiveram um desconto de 30%, previsto em lei.

A Chevron Brasil, a Chevron Latin America, a Transocean Brasil – proprietária da sonda que explorava o poço – e os executivos que representavam as empresas (entre eles, o ex-presidente da Chevron no Brasil, George Buck) também foram alvo de ações do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro. Em virtude dos danos ambientais, o MPF pedia indenização de R$ 20 bilhões por cada um dos vazamentos de petróleo para as três empresas. Em 2013, porém, um acordo, feito pelo Termo de Ajustamento de Conduta, entre as três empresas, o MPF, o Ibama e a ANP encerrou o processo, determinando medidas de compensação equivalentes a R$ 95,1 milhões. Na audiência pública para discutir o acordo, em dezembro de 2012, apesar da avaliação do Ibama, uma apresentação da petrolífera mostra que “não houve dano ambiental relevante” e que “não houve danos relevantes à vida marinha”. Antes disso, as atividades das empresas envolvidas no desastre ambiental haviam sido suspensas pela Justiça. A ANP conseguiu reverter a decisão no Superior Tribunal de Justiça com a justificativa de que ela “poderia causar graves lesões à segurança e à economia públicas”. As empresas voltaram a operar no Brasil, com a ressalva de que não poderiam voltar às atividades no Campo de Frade.

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Dezessete gestores da Chevron e da Transocean foram denunciados por crime ambiental e dano ao patrimônio público. George Buck, então presidente da Chevron Brasil, e três funcionários da empresa também responderam por “dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público, se omitir em cumprir obrigação de interesse ambiental, apresentar um plano de emergência enganoso e por falsidade ideológica, ao alterarem documentos apresentados a autoridades públicas”, informou o MPF em seu site. Os acusados chegaram a ter seus passaportes retidos e foram impedidos de deixar o Brasil. As penas variavam de 21 a 31 anos de prisão. Hoje, o processo tramita no Superior Tribunal de Justiça e aguarda decisão.

O acordo das petrolíferas com o MPF, a ANP e o Ibama, assinado em setembro de 2013, prevê uma série de medidas de compensação ambiental e aperfeiçoamento das operações da Chevron em relação à resposta a incidentes como o do Campo de Frade e à avaliação de riscos. O dinheiro e os projetos serão administrados pelo Funbio, organização não governamental que presta serviços de recuperação ambiental, que já começou a receber os depósitos.

As medidas preventivas também começaram a ser executadas. “O monitoramento através de radares já foi instalado e já foi feito aperfeiçoamento dos estudos solicitados, de verificar todos os processos físicos e químicos do óleo até a superfície”, conta Marcelo de Amorim, do Ibama. Ele participou da última reunião sobre os projetos fruto do acordo, no fim do ano passado.

“Quanto aos projetos de natureza compensatória, depois de vários ofícios expedidos ao Ibama, ANP, e tendo inclusive passado pelo crivo técnico de nossa análise pericial da quarta câmara do MPF, dois deles começaram a ser executados há cerca de 4/5 meses”, informa, por e-mail, o procurador responsável por monitorar o cumprimento das medidas, Jaime Mitropoulos. Um dos pontos do acordo é a criação de um website que disponibilize relatórios sobre as ações compensatórias da Chevron, o que ainda não foi feito. “Estaremos cobrando também o cumprimento da cláusula que determina a disponibilização de relatórios na internet”, responde o procurador.

De acordo com Fernanda Pirillo, do Ibama, os projetos que têm editais abertos pelo Funbio para serem implementados são o de conservação da toninha, mamífero semelhante ao golfinho, e um projeto de apoio à pesquisa marinha e pesqueira no Rio de Janeiro. Outros quatro projetos ainda estão em análise pelo Ibama, são eles: conservação e uso sustentável da biodiversidade nas Unidades de Conservação Federais Costeiras e Estuarinas do Rio de Janeiro; implementação de projetos de educação ambiental e geração de renda para comunidades pesqueiras na região norte do Rio de Janeiro; um centro de reabilitação de animais silvestres no estado do Rio de Janeiro e o projeto Aqua Rio.

Procurada pela reportagem com uma série de indagações a respeito dos projetos de compensação ambiental e do cumprimento do acordo firmado judicialmente, a Chevron não quis comentar nada sobre o caso. Em nota, a petrolífera avalia que “agiu rapidamente e de forma responsável, quando aconteceu o incidente no Campo Frade, em novembro de 2011, controlando a exsudação dentro dos melhores padrões da indústria”.

Fernanda, que trabalha há dez anos no Ibama, avalia que desastres como esse têm influenciado a mudança na legislação ambiental. “A legislação foi ficando mais rigorosa e mais específica para os casos de vazamento de óleo. Também percebo que houve um entendimento das empresas de que esses não são mero cumprimento da legislação, e sim um item importante na gestão de seus negócios”, avalia.

A produção de petróleo pela Chevron no Campo de Frade voltou à ativa em abril de 2013 e foi aumentada em março de 2014. (Agência Pública/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

N.F.L.’s Flawed Concussion Research and Ties to Tobacco Industry (New York Times)

The National Football League was on the clock.

With several of its marquee players retiring early after a cascade of frightening concussions, the league formed a committee in 1994 that would ultimately issue a succession of research papers playing down the danger of head injuries. Amid criticism of the committee’s work, physicians brought in later to continue the research said the papers had relied on faulty analysis.

Now, an investigation by The New York Times has found that the N.F.L.’s concussion research was far more flawed than previously known.

For the last 13 years, the N.F.L. has stood by the research, which, the papers stated, was based on a full accounting of all concussions diagnosed by team physicians from 1996 through 2001. But confidential data obtained by The Times shows that more than 100 diagnosed concussions were omitted from the studies — including some severe injuries to stars like quarterbacks Steve Young and Troy Aikman. The committee then calculated the rates of concussions using the incomplete data, making them appear less frequent than they actually were.

After The Times asked the league about the missing diagnosed cases — more than 10 percent of the total — officials acknowledged that “the clubs were not required to submit their data and not every club did.” That should have been made clearer, the league said in a statement, adding that the missing cases were not part of an attempt “to alter or suppress the rate of concussions.”

One member of the concussion committee, Dr. Joseph Waeckerle, said he was unaware of the omissions. But he added: “If somebody made a human error or somebody assumed the data was absolutely correct and didn’t question it, well, we screwed up. If we found it wasn’t accurate and still used it, that’s not a screw-up; that’s a lie.”

These discoveries raise new questions about the validity of the committee’s findings, published in 13 peer-reviewed articles and held up by the league as scientific evidence that brain injuries did not cause long-term harm to its players. It is also unclear why the omissions went unchallenged by league officials, by the epidemiologist whose job it was to ensure accurate data collection and by the editor of the medical journal that published the studies.

In 2013, the N.F.L. agreed to a $765 million settlement of a lawsuit in which retired players accused league officials of covering up the risks of concussions. Some players have appealed the settlement, asking for an examination of the committee’s concussion research.

Dr. Joseph Waeckerle, speaking to quarterback Joe Montana in 1994, was the Chiefs’ team physician and a member of the N.F.L.’s concussion committee. CreditAssociated Press 

Some retired players have likened the N.F.L.’s handling of its health crisis to that of the tobacco industry, which was notorious for using questionable science to play down the dangers of cigarettes.

Concussions can hardly be equated with smoking, which kills 1,300 people a day in the United States, and The Times has found no direct evidence that the league took its strategy from Big Tobacco. But records show a long relationship between two businesses with little in common beyond the health risks associated with their products.

In a letter to The Times, a lawyer for the league said, “The N.F.L. is not the tobacco industry; it had no connection to the tobacco industry,” which he called “perhaps the most odious industry in American history.”

Still, the records show that the two businesses shared lobbyists, lawyers and consultants. Personal correspondence underscored their friendships, including dinner invitations and a request for lobbying advice.

In 1997, to provide legal oversight for the committee, the league assigned Dorothy C. Mitchell, a young lawyer who had earlier defended the Tobacco Institute, the industry trade group. She had earned the institute’s “highest praise” for her work.

A co-owner of the Giants, Preston R. Tisch, also partly owned a leading cigarette company, Lorillard, and was a board member of both the Tobacco Institute and the Council for Tobacco Research, two entities that played a central role in misusing science to hide the risks of cigarettes.

The N.F.L.’s concussion committee began publishing its findings in 2003 in the medical journal Neurosurgery. Although the database used in the studies contained numerical codes for teams and players, The Times decoded it by cross-referencing team schedules and public injury reports.

The N.F.L.’s concussion studies have faced questions since they were published, but even the league’s harshest critics have never suggested, and no evidence has ever arisen, that the underlying data set could be so faulty.

“One of the rules of science is that you need to have impeccable data collection procedures,” said Bill Barr, a neuropsychologist who once worked for the Jets and who has in the past criticized the committee’s work.

By excluding so many concussions, Mr. Barr said, “You’re not doing science here; you are putting forth some idea that you already have.”

The Work Begins

In an introduction to the first of the concussion committee’s papers, the league’s commissioner at the time, Paul Tagliabue, acknowledged the need for “independent scientific research” to better understand the risks of concussions.

“As we looked more deeply into the specific area of concussions, we realized that there were many more questions than answers,” Mr. Tagliabue wrote.

The committee’s chairman, Dr. Elliot Pellman, the team physician for the Jets, emphasized that his group aimed to produce research that was “independent” and “meticulous.”

In fact, most of the dozen committee members were associated with N.F.L. teams, as a physician, neurosurgeon or athletic trainer, which meant they made decisions about player care and then studied whether those decisions were proper. Still, the researchers stated unambiguously — in each of their first seven peer-reviewed papers — that their financial or business relationships had not compromised their work.

The committee said it analyzed all concussions diagnosed by team medical staffs from 1996 through 2001 — 887 in all. Concussions were recorded by position, type of play, time missed, even the brand of helmet.

The committee’s statements emphasized the completeness of the data.

“It was understood that any player with a recognized symptom of head injury, no matter how minor, should be included in the study,” one paper said.

And in confidential peer-review documents, the committee wrote that “all N.F.L. teams participated” and that “all players were therefore part of this study.”

Those statements are contradicted by the database.

The Times found that most teams failed to report all of their players’ concussions. Over all, at least 10 percent of head injuries diagnosed by team doctors were missing from the study, including two sustained by Jets receiver Wayne Chrebet, who retired several years later after more concussions. Dr. Pellman, the Jets’ physician, led the research and was the lead author on every paper.

Read the whole text here.

As vantagens evolutivas de termos feito sexo com os neandertais (El País)

Novos indícios de que antigos cruzamentos entre as três espécies tiveram consequências evolutivas

Localização geográfica das 159 populações estudadas.

Localização geográfica das 159 populações estudadas. SCIENCE

Estamos tão acostumados a ser os únicos humanos sobre a Terra que quase não podemos imaginar um passado em que, saindo da África para um mundo desconhecido, o mais fácil era encontrar pelo caminho gentes de outras espécies do gênero Homo que compartilhavam conosco um passado esquecido, e com as quais, conforme sabemos agora, não descartávamos compartilhar o sonho de uma noite de verão. Sem que nossa lógica mais profunda, a genética, considerasse isso algo inconveniente.

Segundo a última pesquisa de 1.523 genomas de pessoas de todo o mundo, incluindo pela primeira vez os de 35 melanésios, os neandertais se relacionaram não uma, mas três vezes (em três épocas diferentes), com diversas populações de humanos modernos. Só ficaram de fora os africanos, pela simples razão de que os neandertais não estavam ali. Os melanésios atuais carregam o DNA de outra espécie arcaica, os misteriosos denisovanos que viviam na Sibéria há 50.000 anos, mas nem por isso se livraram da promiscuidade neandertal: seus genomas atuais têm as marcas inconfundíveis tanto de neandertais como de denisovanos.

E um prêmio de consolação: os genes da evolução do córtex, a sede da mente humana, são inteiramente nossos, dos Homo sapiens. Os demais parecem ser adaptações ao clima local. São os resultados que 17 cientistas da Universidade de Washington em Seattle, a Universidade de Ferrara, o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig e o Instituto de Pesquisa Médica da Goroka, na Papua Nova Guiné, entre outros, apresentaram na revista Science.

Os genomas costumam ser medidos em megabases, ou milhões de bases (as letras do DNA, gatacca…). O genoma humano tem 3.235 megabases. Dessas, 51 megabases são arcaicas nos europeus, 55 nos asiáticos meridionais e 65 nos asiáticos orientais. Quase todas essas sequências arcaicas são de origem neandertal nessas populações. Em contraste, os melanésios apresentam uma média de 104 megabases arcaicas, das quais 49 são neandertais e 43 são denisovanas (as 12 restantes são ambíguas por enquanto). São só números, mas dão uma ideia do grau de precisão alcançado pela genômica humana.

Segundo a última pesquisa, os neandertais se cruzaram não uma, mas três vezes (em três épocas diferentes), com diversas populações de humanos modernos

Mas o diabo mora nos detalhes. As sequências arcaicas não estão distribuídas de maneira homogênea pelo genoma, muito pelo contrário. Há zonas onde estão muito pouco representadas, ou seja, onde há trechos de 8 megabases ou mais sem uma única letra neandertal ou denisovana. Estes trechos de puro DNA moderno, ou sapiens, são ricos em genes implicados no desenvolvimento do córtex cerebral – a sede da mente humana – e o corpo estriado (ou núcleo estriado), uma região interna do cérebro responsável pelos mecanismos de recompensa e, portanto, envolvida a fundo no planejamento de ações e na tomada de decisões.

Segundo as análise estatísticas dos autores, não é por mera casualidade que os genes envolvidos nessas altas funções mentais estão livres de sequências neandertais ou denisovanas. O fato implica, provavelmente, que a presença de DNA arcaico ali se revelou desvantajosa durante os últimos 50 milênios e, portanto, foi varrida pela seleção natural.

Entre os genes modernos se encontra o famoso gene da linguagem, FOXP2, o que volta a levantar dúvidas sobre a capacidade de linguagem dos neandertais. A sequência idêntica deste gene em neandertais e sapiens foi considerada uma prova de que os neandertais falavam, mas os genes são mais que sua sequência de código (a que se traduz em proteínas): existem ainda zonas reguladoras essenciais, as que dizem ao gene onde, quando e quanto se ativar. Outros genes puramente modernos são, quando em mutação, os responsáveis pelo autismo.

Entre os genes modernos se encontra o famoso gene da linguagem, FOXP2, o que volta a levantar dúvidas sobre a capacidade de linguagem dos neandertais

Também são interessantes as regiões genômicas contrárias, isto é, as particularmente ricas em genes neandertais ou denisovanos. Os genomas melanésios revelaram 21 regiões desse tipo que mostram evidências de terem sido favorecidas pela seleção natural. Muitas delas contêm genes implicados no metabolismo (a cozinha da célula), como o do hormônio GCG, que incrementa os níveis de glicose no sangue, ou o da proteína PLPP1, encarregada de processar as gorduras; também há cinco genes implicados na resposta imune inata, a primeira linha de defesa contra as infecções.

Tudo isso reforça os indícios anteriores de que os cruzamentos de nossos ancestrais sapiens com as espécies arcaicas que encontraram durante suas migrações fora do continente africano foram importantes para adaptar-se às condições locais: clima, dieta e infecções frequentes na região. Faz sentido, certamente.

Foram sonhos de uma noite do verão, mas voltam agora para nosso encontro, como em uma boa peça de teatro clássico.

IPEA: Estudo desfaz mitos sobre a violência no país (Boletim FPA)

Ano 4 – nº 289 – 22 de março de 2016 – FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO

Estudo lançado hoje pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) discute a violência letal no país, que tem evoluído de maneira bastante desigual nas unidades federativas e microrregiões, atingindo crescentemente os moradores de cidades menores no interior e no Nordeste. Segundo o estudo, naqueles estados em que se verificou queda dos homicídios, políticas públicas qualitativamente consistentes foram adotadas, como no caso de São Paulo, Pernambuco, Espírito Santo e Rio de Janeiro. O gráfico abaixo mostra a evolução das taxas de homicídio no país por regiões de 2004 a 2014.  

Segundo o estudo, os homicídios no Brasil em 2014 representam mais de 10% dos homicídios registrados no mundo e colocam o Brasil como o país com o maior número absoluto de homicídios. O Brasil apresentaria ainda uma das 12 maiores taxas de homicídios do mundo. Tal tragédia, segundo o estudo, traz implicações na saúde, na dinâmica demográfica e, por conseguinte, no processo de desenvolvimento econômico e social, uma vez que 53% dos óbitos de homens na faixa etária de 15 a 19 anos são ocasionados por homicídios.

Quanto à escolaridade, o estudo mostra que as chances de vitimização para os indivíduos com 21 anos de idade e menos de oito anos de estudo são 5,4 vezes maiores do que os do mesmo grupo etário e oito ou mais anos de estudo: a educação funciona como um escudo contra os homicídios. Ainda, o estudo mostra que, aos 21 anos de idade, quando há o pico das chances de uma pessoa sofrer homicídio no Brasil, negros possuem 147% a mais de chances de ser vitimados por homicídios, em relação a indivíduos brancos, amarelos e indígenas. Ocorreu também, de 2004 a 2014, um acirramento da diferença de letalidade entre negros e não negros na última década.

O estudo ainda chama a atenção para as especificidades da violência de gênero no país, que por vezes fica invisibilizada diante dos ainda maiores números da violência letal entre homens ou mesmo pela resistência em reconhecer este tema como um problema de política pública.

No caso de mortes causadas por agentes do Estado em serviço, o estudo aponta uma “evidente a subnotificação existente”. Argumenta-se que a letalidade policial é a expressão mais dramática da falta de democratização das instituições responsáveis pela segurança pública no país.

O estudo ainda aponta, por meio de um modelo estatístico, que, ao contrário do que deseja parcela do nosso congresso nacional, se a vitimização violenta assumiu contornos de uma tragédia social no Brasil, sem o Estatuto do Desarmamento a tragédia seria ainda pior.

O Atlas é uma rica fonte de informações sobre a violência no país, se contrapondo ao senso comum sobre o tema no país.

Fantasmas que pegaram táxi em Ishinomaki, depois do tsunami, são tema de monografia (IPC Digital)

Por Anna Shudo – 22/03/2016

Ishinomaki

Crédito: Divulgação

SENDAI (IPC Digital) – Yuka Kudo, 22 anos, natural da província de Akita, é uma jovem formanda do curso de Sociologia da Universidade Tohoku Gakuin, de Sendai (Miyagi). Seu grupo de 7 pessoas escolheu como tema da monografia para colação de grau, como as pessoas lidam com a morte após o Grande Terremoto ao Leste do Japão, em 11 de março de 2011. Até iniciar o trabalho de pesquisa, ela via as mortes provocadas pelo tsunami como “milhares de pessoas que perderam a vida”. Depois de iniciar as entrevistas, descobriu que muitos dos taxistas de Ishinomaki (Miyagi) tiveram a experiência de terem como clientes os fantasmas de pessoas que provavelmente perderam a vida na tragédia.

Ela conta as histórias que ouviu durante suas entrevistas. Um taxista, na faixa dos 50 anos, relatou que no começo do primeiro verão após o tsunami, uma senhora vestida de casaco, o que lhe chamou à atenção, pediu para ser conduzida até Minamihama. Ele teria feito uma pergunta para confirmar: “lá, praticamente, só tem terras vazias, pode ser?”.  Com a voz trêmula, a mulher lhe pergunta “eu morri?”. Assustado, quando olha para o assento traseiro a passageira que transportava não estava mais lá.

Outros taxistas contam histórias semelhantes, afirma a estudante. Um deles relata que um rapaz, também vestido de casaco, aponta sentido Hiyoriyama e pede para ir até lá. No destino final, não havia cliente dentro do carro. Segundo seu levantamento junto aos motoristas de táxi, a maioria desses passageiros fantasmas eram jovens, homens e mulheres, quase todos vestidos de casaco. “Os jovens costumam ter um forte sentimento de desgosto de ter deixado pessoas que amam. Devem ter escolhido um espaço reservado como o táxi para transmitir esse sentimento insustentável”, pensa a jovem formanda.

Com a voz trêmula, a mulher lhe pergunta “eu morri?”

Para ela e para os entrevistados, essas histórias não são uma viagem da mente, há realidade. Os motoristas lhe mostraram diários, com registros de perda de corrida e que tiveram que pagar do próprio bolso ou do taxímetro que foi ligado até o destino.

Ela conta que sentiu na pele a dor da perda das pessoas de Ishinomaki. Um outro motorista lhe contou que perdeu familiares no tsunami e declarou “não é nada surpreendente que aconteça esse tipo de coisa. Se aparecer mais alguém vou transportar sim”. Todos os entrevistados não contaram suas experiências com medo. Ficou impressionada com o sentimento de reverência, como uma experiência importante que guardavam dentro do peito.

Com essas entrevistas quase que diárias, revela que aprendeu o que é a dor da perda e do luto. “Quero transmitir o peso da morte de cada uma das pessoas que partiu, com respeito”, declarou.

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Yuka Kudo, a formanda que pesquisou sobre os fantasmas que pegaram táxi em Ishinomaki

Fonte e foto: Asahi Shimbun | Foto de Ishinomaki: http://blog.goo.ne.jp/