A presidente Dilma mostra a previsão do tempo tempestuosa na última semana no Brasil em charge de Aroeira
A presidente Dilma mostra a previsão do tempo tempestuosa na última semana no Brasil em charge de Aroeira
Por Giuseppe Cocco, no facebook
22/06/2013
Esquematicamente, faço um balanço depois das manifestações de quinta-feira, 20 de junho de 2013, a partir da experiência no Rio de Janeiro:
1) A partir de ontem o movimento pelo passe livre “passou” a ser outra coisa. Realmente monstruosa e o monstro é horrível e belo ao mesmo tempo.
2) Essa outra coisa ninguém sabe o que é e está totalmente em disputa.
O fato que as agremiações de esquerda tenham sido agredidas não significa que o movimento seja de direita. Foram agredidas por pequenos grupos, mas no meio de uma hostilidade geral à politica, ao mesmo tempo em que as organizações populares passeavam tranquilamente.
O que é certo é que o movimento coloca em crise todas as representações políticas e os planos de governo, político-partidários, eleitorais etc.
A grande mídia e a direita estão jogando pesado. Pra começar, é preciso entender quem agrediu.
O PT subavaliou e subavalia o custo de se manter em coalizões espúrias, de pensar que poderia resolver tudo desde cima, com base no neodesenvolvimentismo e nas técnicas gerenciais e de marketing eleitoral. O PT poderia perceber que tudo isso entrou em pane e se faz necessário inovar. Rapidamente! Dar sinais fortes disso.
3) O campo progressista passa – ele todo – inclusive a oposição de esquerda e o setores multitudinários do movimento, por três desafios e armadilhas:
a) O campo de governo (o PT) não tem um plano B. A atuação do Haddad admitindo um recuo junto ao Alckmin é desastrosa: amplifica a sensação: direita e esquerda são a mesma coisa. Uma sensação difusa, que não se materializava eleitoralmente, mas agora explodiu. Aí, o governo espera que “passe”, só que não passa e o monstro continua lá.
b) Diante do imobilismo do governo federal, o campo do PT está tentado (sobretudo depois de ontem) em polarizar em torno do golpismo e, ao invés de ira para dentro do movimento, com base no que deveria ser uma franca abertura — por exempo, colocando um Paulo Vannucchi no MJ, um Célio Turino no MinC, uma Ermínia Maricato nos Transportes e Cidade (ministerios unificados), — declarando moratória geral sobre preços dos transportes, aberturas de assembleias de participação em todos os territorios etc etc.
c) Decretar a idiotice que todo o movimento é direita, além de ser uma inverdade, é entregá-lo nas mãos do golpismo e da direita. Entre esses indigentes políticos do PT, há aqueles que pedem repressão. Não dá nem para acreditar. E não se trata apenas de um princípio, mas do óbvio que a repressão quem faz e quem se aproveita é a direita. É só ler O Globo do dia seguinte, depois que PM gazeou todo mundo ontem até a meia-noite.
Aqueles que “fazem multidão” dentro do movimento tem o desafio nada simples de se organizar para entender que a radicalização é democrática e passa também por dentro do movimento. Criticar – inclusive radicalmente – a Copa e as Olimpíadas de Cabral e Paes, os símbolos do poder e não estar preocupado com a proliferação de cartazes e comportamentos fascistas NAS manifestações está virando uma outra forma de idiotice.
Isto significa que é preciso passar a criticar a forma-manifestação e – com base no recuo geral dos preços das passagens – propor outras coisas que propiciem processos instituintes.
Agora, tudo isso passa hoje por dentro das manifestações. É ali que é preciso fazer essa batalha política, e está tudo muito complicado. Mas é aí, dentro do movimento, que a democracia precisa avançar.
The National Security Agency has obtained direct access to the systems of Google, Facebook, Apple and other US internet giants, according to a top secret document obtained by the Guardian.
The NSA access is part of a previously undisclosed program calledPrism, which allows officials to collect material including search history, the content of emails, file transfers and live chats, the document says.
The Guardian has verified the authenticity of the document, a 41-slide PowerPoint presentation – classified as top secret with no distribution to foreign allies – which was apparently used to train intelligence operatives on the capabilities of the program. The document claims “collection directly from the servers” of major US service providers.
Although the presentation claims the program is run with the assistance of the companies, all those who responded to a Guardian request for comment on Thursday denied knowledge of any such program.
In a statement, Google said: “Google cares deeply about the security of our users’ data. We disclose user data to government in accordance with the law, and we review all such requests carefully. From time to time, people allege that we have created a government ‘back door’ into our systems, but Google does not have a back door for the government to access private user data.”
Several senior tech executives insisted that they had no knowledge ofPrism or of any similar scheme. They said they would never have been involved in such a program. “If they are doing this, they are doing it without our knowledge,” one said.
An Apple spokesman said it had “never heard” of Prism.
The NSA access was enabled by changes to US surveillance law introduced under President Bush and renewed under Obama in December 2012.
The program facilitates extensive, in-depth surveillance on live communications and stored information. The law allows for the targeting of any customers of participating firms who live outside the US, or those Americans whose communications include people outside the US.
It also opens the possibility of communications made entirely within the US being collected without warrants.
Disclosure of the Prism program follows a leak to the Guardian on Wednesday of a top-secret court order compelling telecoms provider Verizon to turn over the telephone records of millions of US customers.
The participation of the internet companies in Prism will add to the debate, ignited by the Verizon revelation, about the scale of surveillance by the intelligence services. Unlike the collection of those call records, this surveillance can include the content of communications and not just the metadata.
Some of the world’s largest internet brands are claimed to be part of the information-sharing program since its introduction in 2007. Microsoft – which is currently running an advertising campaign with the slogan “Yourprivacy is our priority” – was the first, with collection beginning in December 2007.
It was followed by Yahoo in 2008; Google, Facebook and PalTalk in 2009; YouTube in 2010; Skype and AOL in 2011; and finally Apple, which joined the program in 2012. The program is continuing to expand, with other providers due to come online.
Collectively, the companies cover the vast majority of online email, search, video and communications networks.
The extent and nature of the data collected from each company varies.
Companies are legally obliged to comply with requests for users’ communications under US law, but the Prism program allows the intelligence services direct access to the companies’ servers. The NSAdocument notes the operations have “assistance of communications providers in the US”.
The revelation also supports concerns raised by several US senators during the renewal of the Fisa Amendments Act in December 2012, who warned about the scale of surveillance the law might enable, and shortcomings in the safeguards it introduces.
When the FAA was first enacted, defenders of the statute argued that a significant check on abuse would be the NSA’s inability to obtain electronic communications without the consent of the telecom and internet companies that control the data. But the Prism program renders that consent unnecessary, as it allows the agency to directly and unilaterally seize the communications off the companies’ servers.
A chart prepared by the NSA, contained within the top-secret document obtained by the Guardian, underscores the breadth of the data it is able to obtain: email, video and voice chat, videos, photos, voice-over-IP (Skype, for example) chats, file transfers, social networking details, and more.

The document is recent, dating to April 2013. Such a leak is extremely rare in the history of the NSA, which prides itself on maintaining a high level of secrecy.
The Prism program allows the NSA, the world’s largest surveillance organisation, to obtain targeted communications without having to request them from the service providers and without having to obtain individual court orders.
With this program, the NSA is able to reach directly into the servers of the participating companies and obtain both stored communications as well as perform real-time collection on targeted users.
The presentation claims Prism was introduced to overcome what the NSAregarded as shortcomings of Fisa warrants in tracking suspected foreign terrorists. It noted that the US has a “home-field advantage” due to housing much of the internet’s architecture. But the presentation claimed “Fisa constraints restricted our home-field advantage” because Fisa required individual warrants and confirmations that both the sender and receiver of a communication were outside the US.
“Fisa was broken because it provided privacy protections to people who were not entitled to them,” the presentation claimed. “It took a Fisa courtorder to collect on foreigners overseas who were communicating with other foreigners overseas simply because the government was collecting off a wire in the United States. There were too many email accounts to be practical to seek Fisas for all.”
The new measures introduced in the FAA redefines “electronic surveillance” to exclude anyone “reasonably believed” to be outside the USA – a technical change which reduces the bar to initiating surveillance.
The act also gives the director of national intelligence and the attorney general power to permit obtaining intelligence information, and indemnifies internet companies against any actions arising as a result of co-operating with authorities’ requests.
In short, where previously the NSA needed individual authorisations, and confirmation that all parties were outside the USA, they now need only reasonable suspicion that one of the parties was outside the country at the time of the records were collected by the NSA.
The document also shows the FBI acts as an intermediary between other agencies and the tech companies, and stresses its reliance on the participation of US internet firms, claiming “access is 100% dependent on ISP provisioning”.
In the document, the NSA hails the Prism program as “one of the most valuable, unique and productive accesses for NSA”.
It boasts of what it calls “strong growth” in its use of the Prism program to obtain communications. The document highlights the number of obtained communications increased in 2012 by 248% for Skype – leading the notes to remark there was “exponential growth in Skype reporting; looks like the word is getting out about our capability against Skype”. There was also a 131% increase in requests for Facebook data, and 63% for Google.
The NSA document indicates that it is planning to add Dropbox as aPRISM provider. The agency also seeks, in its words, to “expand collection services from existing providers”.
The revelations echo fears raised on the Senate floor last year during the expedited debate on the renewal of the FAA powers which underpin the PRISM program, which occurred just days before the act expired.
Senator Christopher Coons of Delaware specifically warned that the secrecy surrounding the various surveillance programs meant there was no way to know if safeguards within the act were working.
“The problem is: we here in the Senate and the citizens we represent don’t know how well any of these safeguards actually work,” he said.
“The law doesn’t forbid purely domestic information from being collected. We know that at least one Fisa court has ruled that the surveillance program violated the law. Why? Those who know can’t say and average Americans can’t know.”
Other senators also raised concerns. Senator Ron Wyden of Oregon attempted, without success, to find out any information on how many phone calls or emails had been intercepted under the program.
When the law was enacted, defenders of the FAA argued that a significant check on abuse would be the NSA’s inability to obtain electronic communications without the consent of the telecom and internet companies that control the data. But the Prism program renders that consent unnecessary, as it allows the agency to directly and unilaterally seize the communications off the companies’ servers.
When the NSA reviews a communication it believes merits further investigation, it issues what it calls a “report”. According to the NSA, “over 2,000 Prism-based reports” are now issued every month. There were 24,005 in 2012, a 27% increase on the previous year.
In total, more than 77,000 intelligence reports have cited the PRISMprogram.
Jameel Jaffer, director of the ACLU’s Center for Democracy, that it was astonishing the NSA would even ask technology companies to grant direct access to user data.
“It’s shocking enough just that the NSA is asking companies to do this,” he said. “The NSA is part of the military. The military has been granted unprecedented access to civilian communications.
“This is unprecedented militarisation of domestic communications infrastructure. That’s profoundly troubling to anyone who is concerned about that separation.”
A senior administration official said in a statement: “The Guardian and Washington Post articles refer to collection of communications pursuant to Section 702 of the Foreign Intelligence Surveillance Act. This law does not allow the targeting of any US citizen or of any person located within the United States.
“The program is subject to oversight by the Foreign Intelligence Surveillance Court, the Executive Branch, and Congress. It involves extensive procedures, specifically approved by the court, to ensure that only non-US persons outside the US are targeted, and that minimize the acquisition, retention and dissemination of incidentally acquired information about US persons.
“This program was recently reauthorized by Congress after extensive hearings and debate.
“Information collected under this program is among the most important and valuable intelligence information we collect, and is used to protect our nation from a wide variety of threats.
“The Government may only use Section 702 to acquire foreign intelligence information, which is specifically, and narrowly, defined in the Foreign Intelligence Surveillance Act. This requirement applies across the board, regardless of the nationality of the target.”
Additional reporting by James Ball and Dominic Rushe
17/6/2013 – 07h29
por Redação do IHU On-Line
Foto: racismoambiental.net.br
“O governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do desenvolvimento econômico a qualquer custo e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras”, diz o historiador.
“A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Ao citar o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, o historiador Jorge Eremites de Oliveira lembra que “este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses”.
Ao comentar os conflitos entre indígenas e ruralistas e as frequentes manifestações em todo o país, ele assegura que “na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da OIT”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, aponta ainda que a “política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes”. E dispara: “A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais”.
Jorge Eremites de Oliveira é professor de Antropologia Social e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. É licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, mestre e doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Foi pesquisador colaborador junto ao Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos e trabalhou como professor universitário em Mato Grosso do Sul.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Nos últimos anos, indígenas de várias regiões do país manifestam sua indignação com a política indigenista e com o modelo desenvolvimentista do governo federal. Trata-se de uma crise específica, conjuntural, ou não? Como descreve tais manifestações?
Foto: http://www.diarioliberdade.org
Jorge Eremites de Oliveira – O atual modelo desenvolvimentista adotado pelo governo brasileiro é baseado no paradigma do crescimento econômico a qualquer custo e isso, obviamente, tem reflexos negativos na política indigenista oficial. Trata-se de um modelo que sistematicamente viola os direitos elementares dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de classes sociais em situação de vulnerabilidade. O resultado disso é a existência de crises estruturais, com particularidades em cada região do país, dependendo da conjuntura local. Daí compreender a grande insatisfação e indignação dos povos indígenas para com o governo central e seus aliados, seja por conta da construção de hidrelétricas, seja por conta da não regularização de terras de ocupação tradicional ou outro motivo.
Conflitos no MS
O que estamos observando em Mato Grosso do Sul, onde há a segunda maior população indígena no país, assim como em outros estados, é uma espécie de Outono Indígena, em alusão à Primavera Árabe iniciada em fins de 2010. Refiro-me a um levante dos povos originários em defesa de seus direitos, sobretudo do direito às terras de ocupação tradicional. Assim o fazem como último recurso para garantir sua existência física e cultural, haja vista que não abandonaram seus territórios por livre e espontânea vontade, pelo contrário. Foram e têm sido vítimas de violentos processos de esbulho, não raramente com o uso da força e o assassinato de muitas de suas lideranças.
Na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, adotada em Genebra em 1989, da qual o Brasil é signatário e a ratificou internamente.
Demarcação de terras
Eis o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Lei Maior: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses. As consequências disso têm sido nefastas para muitos povos originários e afronta os artigos 231 e 232 da Carta Constitucional. Não é por menos que a bancada ruralista e seus aliados no Congresso Nacional querem mudar o texto constitucional com a PEC 215/2000, motivo de recentes protestos feitos naquela casa pelo movimento indígena. Se isso vier a acontecer, será um grande retrocesso.
No caso dos Terena de Buriti, e de tantas outras comunidades indígenas, quero explicar que eles tinham a posse da terra, mas não tinham o título de propriedade. A titulação da terra a favor de terceiros ocorreu em períodos mais recentes de nossa história, nos quais apenas as elites políticas e econômicas tinham seus direitos assegurados pelo Estado. Mas eram exatamente elas, claro, que controlavam a máquina estatal, inclusive, por exemplo, o departamento de terras do governo de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. De lá saíram muitos títulos de propriedade sobre terras indígenas não regularizadas, tidas como terras devolutas, localizadas no antigo sul do estado, atual Mato Grosso do Sul.
A expulsão das comunidades indígenas não se deu unicamente pela ação de fazendeiros e seus comandados. Esbulhos também foram perpetrados com a conivência e o apoio de agentes do próprio Estado, inclusive da agência indigenista oficial, conforme comprovado em muitos documentos disponíveis em seus arquivos. Na maioria das vezes, autoridades governamentais tomaram ciência do ocorrido e nada fizeram para intervir nos conflitos. Este é o caso do que ocorreu com os Kaiowá de Panambizinho, no município sul-mato-grossense de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), quando houve a Marcha para Oeste e a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados.
Situação semelhante também aconteceu com os Kaiowá de Ñande Ru Marangatu, no município de Antônio João, no mesmo estado, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Eles também foram expulsos de grande parte de seu território entre fins da década de 1940 e começo da de 1950, sendo que o órgão indigenista oficial recebeu denúncia formal sobre o ocorrido e nada vez para apurar os fatos e reverter a situação.
Por razões dessa natureza é que o Estado brasileiro culmina por ser coautor de muitos crimes cometidos no passado e no presente contra os povos originários. E não me refiro, bem entendido, aos tempos de Cabral ou dos portugueses que o sucederam no período colonial. Definitivamente não é isso. Refiro-me, principalmente, a processos de esbulho ocorridos a partir da primeira metade século XX, mas que ainda hoje são praticados no país. Esta questão precisa ficar cristalina porque o direito não foi feito para atender a demandas de povos abstratos e relegados a temporalidades coloniais ou pré-coloniais. Existe para atender a necessidades das sociedades contemporâneas, de seres humanos reais, de carne e osso, dentre os quais estão aqueles cujos antepassados chegaram a essas terras há pelo menos 12 mil anos.
Terra indígena de Buriti
Esta situação é muitíssimo bem conhecida para Mato Grosso do Sul e outros estados. Foi ali, precisamente no município de Sidrolândia, no dia 30-05- 2013, que o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi assassinado. Ele portava um pequeno arco e algumas flechas, e isso era mais um sinal diacrítico de sua indianidade e disposição de lutar pela terra do que uma arma. Por outro lado, policiais federais portavam armas de fogo com munição letal e as usaram contra os Terena. Os agentes estavam ali para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse, referente a uma propriedade existente dentro da Terra Indígena Buriti, já identificada, delimitada e periciada como tal.
A tragédia ocorreu porque os Terena resolveram fazer o que o próprio Estado não fez desde a década de 1920: regularizar aquela terra e garantir que seja de usufruto exclusivo e permanente da comunidade, segundo seus usos, costumes e tradições. Ocorre que no começo da década de 1930 uma comissão terena foi ao Rio de Janeiro, então a capital federal, denunciar o processo de esbulho que sofriam e solicitar providências para a garantia de seus direitos territoriais. De lá para cá já se passaram quase um século e nada foi feito de efetivo. Não é de se estranhar, portanto, que tenham decidido, como último recurso, retomar parte de suas terras devido à situação de vulnerabilidade dos cerca de 2.500 indígenas que ali vivem confinados em 2.090 hectares.
Até agora foram mais de duas centenas de lideranças indígenas mortas apenas em Mato Grosso do Sul. Muitos crimes não foram devidamente investigados, tampouco houve o julgamento e a condenação dos assassinos e seus mandantes. O que aconteceu em Sidrolândia com Oziel Gabriel foi, portanto, o mesmo que aconteceu no estado com Marçal de Souza, Guarani morto em 1983 na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, e com Marcos Verón, Kaiowá assassinado em 2003 na Terra Indígena Takuara. Naquela parte do Brasil, e em tantas outras, os índios são vistos e tratados pela maioria da população regional como estrangeiros não humanos e, por extensão, como um estorvo e um obstáculo ao progresso. A lei que ali impera ainda é, como aprendemos a dizer desde criança, a do 44, chamada “Justiça de Mato Grosso” (do Sul e do Norte). Não se trata de lei alguma, senão do calibre da arma de fogo com que se fazia justiça desde muito tempo na região, segundo é conhecido na historiografia regional. A violência é, com efeito, uma marca fortíssima na história de Mato Grosso do Sul.
Desenvolvimentismo
No que se refere ainda ao modelo desenvolvimentista atual, cumpre explicar que ele (re) surgiu após o fim da ditadura militar (1964-1985) e a promulgação da Constituição Federal de 1988. Saíamos de um regime de exceção, também marcado pelo fracasso do “milagre econômico brasileiro”, e testemunhávamos o reordenamento do papel do Estado nacional e as tentativas de retomada do crescimento do país. Isso ocorreu e tem ocorrido dentro de um contexto maior, ligado à mundialização do capital. Nesse cenário ocorrem concomitantemente o deslocamento de investimentos e atividades produtivas e a polarização da riqueza, conforme apontado pelo economista francês François Chesnais.
Por isso a maior parte da riqueza fica para países localizados no hemisfério Norte, onde o consumismo é enorme e precisa ser atendido, ao passo que para países do hemisfério Sul há a transferência dos impactos negativos desses investimentos e atividades produtivas. Nesta parte meridional do planeta, onde vivemos, estão países com jovens democracias, economias em crescimento e uma história marcada por ditaduras e políticas colonialistas, como é o caso do Brasil. É exatamente aqui onde existem classes sociais e minorias étnicas em situação de maior vulnerabilidade as que mais sofrem com tudo isso.
Esta situação é percebida no caso da construção de usinas hidrelétricas como a de Belo Monte, cuja existência é justificada pelo sofisma do desenvolvimento sustentável. Nesse caso específico, o que se viu até agora foi um conjunto de procedimentos irregulares ligados ao licenciamento ambiental de uma grande usina hidrelétrica. Exemplo disso é o fato de as comunidades indígenas afetadas direta e indiretamente pelo empreendimento não terem sido prévia e devidamente consultadas sobre o projeto. Essa é uma exigência legal, conforme determina a Convenção n. 169 da OIT. O paradoxal disso tudo é saber que este projeto foi concebido durante a ditadura militar e tem sido executado de maneira arbitrária e violadora de direitos humanos nos dias atuais.
Existem até projetos para construção de hidrelétricas no Pantanal, onde empreendimentos desse tipo causarão enormes e irreversíveis prejuízos socioambientais, tanto à bio quanto à sociodiversidade da região.
Para finalizar esta não muito curta explicação inicial, diria que para barrar o Outono Indígena será preciso cometer mais violência contra os indígenas. Mas representantes do movimento ruralista têm demonstrado disposição e ousadia para isso, inclusive com a possibilidade de contrabando de armas de fogo do Paraguai, conforme um fazendeiro de Paranhos, Mato Grosso do Sul, disse à imprensa em 2012. E foi no mesmo município que mais recentemente, no dia 12-05-2013, pistoleiros teriam feito emboscada e assassinado Celso Rodrigues, 42 anos, Kaiowá morador da Terra Indígena Paraguaçu, segundo noticiado pela imprensa.
Resolver esta situação conflituosa, assegurando aos povos indígenas seus direitos territoriais e outros garantidos em lei, é um dever do Estado e da sociedade nacional. Isso é necessário para corrigir erros do passado e consolidar um outro projeto de nação, onde também haja o devido respeito às diferenças étnico-raciais, religiosas, de gênero, orientação sexual etc. Ademais, o custo financeiro disso tudo será muitíssimo menor se comparado com a estimativa de 50,8 a 84,5 bilhões de reais correspondentes ao preço anual da corrupção no país. Isso sem falar no alto custo do legislativo brasileiro, um dos mais caros e menos eficientes do mundo.
IHU On-Line – Como a política indigenista foi construída e alterada ao longo da história brasileira?
Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, desde o período imperial até a promulgação da Constituição Federal de 1988, a política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes.
A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais. Parece não existir qualquer possibilidade de convivência com os Outros, os originários, senão acabando com eles ou deportando-os para algum lugar longínquo, lá no meio da Amazônia, distante da civilização e dos nossos olhares. É o que podemos concluir a partir das palavras de Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de direito e procurador do estado do Paraná: “O Estado e seu Direito não conseguem aceitar as diferenças sociais e as injustiças que elas engendram e, na maior parte das vezes, as omitem ou mascaram, ajudando sua perpetuação”. [1]
Entretanto, o fato é que a Constituição Federal de 1988 é um divisor de águas no reordenamento do papel do Estado em relação aos povos indígenas e a outros assuntos. Com o Capítulo VII (Dos Índios), Artigos 231 e 232, por exemplo, pôs-se fim ao paradigma integracionista que vigorava até então, embora ainda se faça presente em sentenças proferidas na Justiça Federal. Por esse motivo, julgo ser necessário citar o que diz o texto constitucional:
CAPÍTULO VII – “DOS ÍNDIOS”
Artigo 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
1. São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
2. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios, dos lagos nelas existentes.
3. O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivadas com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados das lavras, na forma de lei.
4. As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas são imprescritíveis.
5. É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso, garantindo em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
6. São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção do direito à indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
7. Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, 3 e 4.
8. Artigo 232 – Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo. [Destaques meus]
Embora a chamada Constituição Cidadã seja clara no que diz respeito a reconhecer as diferenças socioculturais e as terras das comunidades indígenas, torna-se contraditório qualquer ação unilateral do governo federal em querer integrá-las às economias regionais.
Por razões dessa natureza é que a Fundação Nacional do Índio – Funai é um dos piores e menos eficientes órgãos governamentais, pois sucessivos governos não deram a ela a devida atenção, exceto para ali colocar seus “afilhados” em cargos de confiança, desprestigiando funcionários de carreira. Isso explica o porquê da “questão indígena” nunca ter sido tratada como prioridades dentre as ações do Estado. Basta saber qual é o orçamento anual da Funai e entenderemos melhor o assunto.
IHU On-Line – Os dados acerca do território brasileiro destinado à ocupação indígena são controversos. É possível estimar que percentual das terras brasileiras é ocupado pelos indígenas e que percentual, por sua vez, deveria ser ocupado por eles?
Jorge Eremites de Oliveira – Seria leviano de minha parte querer apresentar um percentual sobre o tamanho das terras indígenas no país, mas o fato é que a maior parte delas está na região amazônica. Conforme recentemente explicou o antropólogo João Pacheco de Oliveira, em entrevista concedida ao Estadão, naquela região há terras da União que não são destinadas apenas aos indígenas, mas também servem como áreas de preservação ambiental, algo que por si só é importante.
No caso de Mato Grosso do Sul, e de muitos outros estados, o que se vê é uma situação exatamente diferente. Ali há milhares de indígenas confinados em pequeníssimas reservas, como se fossem “ilhas” cercadas por fazendas e cidades, conforme avaliou o historiador Antonio Jacó Brand, falecido recentemente. Na Terra Indígena Dourados, por exemplo, onde há duas aldeias, Jaguapiru e Bororó, vivem por volta de 13.500 pessoas em pouco mais de 3.400 hectares.
Situações assim possibilitam entender melhor os conflitos pela posse da terra em certas regiões do país. Além disso, faz-se necessário deixar claro que não se podem ceifar direitos das comunidades indígenas que vivem em Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por exemplo, sob o pretexto de que “há muita terra para pouco índio” na Amazônia.
IHU On-Line – Há uma crítica recorrente de parte da sociedade de que os indígenas não precisam de tantas terras para viver. Qual a importância da terra para eles?
Jorge Eremites de Oliveira – Mas aonde, afinal de contas, estariam tantas terras assim? Com certeza, faço questão de registrar amiúde que não seria em Mato Grosso do Sul. Diria mais: se não precisam de “tantas terras”, então o que muitos de nós desejariam é vê-los mortos? Aí, sim, talvez tivessem alguma terra, ao menos para serem enterrados. Talvez seja esta dedução a que podemos chegar diante de tanta contrainformação, preconceito e violência cometida contra os povos indígenas.
Portanto, não é de se estranhar que setores da imprensa sejam financiados com dinheiro dos cofres públicos e do agronegócio em certos estados brasileiros, especialmente onde os conflitos pela posse da terra são grandes e envolvem indígenas e ruralistas.
Para os povos indígenas a terra não é uma mera mercadoria e, por isso, não pode ser percebida pela lógica do agronegócio. Mesmo assim, não é verdade que nelas não se produz alimento algum. Na Terra Indígena Buriti, por exemplo, os Terena produzem alimentos em suas roças e quintais, criam diversos animais e fazem manejo agroflorestal, entre outras atividades produtivas.
Uma terra indígena pertence à União, e para os índios ela é de fundamental importância para sua reprodução física e cultural. Para sociedades como a dos Guarani e Kaiowá, a terra possui, ao mesmo tempo, um grande valor econômico e religioso, chegando a ser quase como um parente, conforme tem sido explicado pelo antropólogo kaiowá Tonico Benites. Sem ela não há como viver bem, segundo uma cosmologia particular, e para eles a luta pela terra também é a luta em defesa da família extensa, da qual a terra faz parte.
IHU On-Line – Como avalia a postura do Estado brasileiro em relação aos indígenas? Percebe uma tentativa de diálogo ou o governo cede a interesses econômicos?
Jorge Eremites de Oliveira – Em complementação ao que disse anteriormente, avalio que o governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do “desenvolvimento econômico a qualquer custo” e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras.
Nesta linha de raciocínio, diria que há poucas e tímidas tentativas de diálogo com o movimento indígena, haja vista que o governo tende a ceder a interesses econômicos pragmáticos e não a um planejamento estratégico de longo prazo, no qual os povos indígenas tenham seus direitos assegurados.
IHU On-Line – Quais foram os resultados da política de demarcações de terras indígenas e quais os desafios ainda presentes?
Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, temos avanços registrados após a promulgação da Constituição Federal de 1988, mas muito ainda precisa ser feito, especialmente em regiões onde o agronegócio é muito forte e o valor das terras, elevado. Este é o caso de Mato Grosso do Sul.
Ali um dos desafios colocados na pauta do dia diz respeito à indenização não apenas da benfeitoria, mas também da terra nua de propriedades que o Estado titulou a favor de terceiros. Isso garantirá a regularização mais rápida das terras indígenas, conforme tem sido apontado por lideranças do movimento ruralista e por indígenas. Como fazer sem mudar o Art. 231 da Lei Maior é que constituiu um desafio a ser enfrentando.
Após a regularização das terras indígenas, será necessário, aí sim, um conjunto de políticas públicas, concebidas para atender às particularidades de cada comunidade indígena visando, com isso, a construção de sua autonomia.
IHU On-Line – Entre as mudanças sugeridas recentemente pelo governo está a proposta, da ministra Gleisi Hoffmann, de que as demarcações das terras indígenas recebam pareceres da Embrapa. Como valia essa medida?
Jorge Eremites de Oliveira – Com o devido respeito, a referida ministra pouco ou nada conhece sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. Ela aderiu ao discurso e às propostas do movimento ruralista e isso sugere que tem a ver com suas pretensões de ganhar o governo do Paraná nas próximas eleições. Chega a ser um desserviço ao país e uma violência só conhecida nos tempos da ditadura militar. A Embrapa não tem competência formal para tratar do assunto, tampouco possui recursos humanos especializados para assim o fazer.
Salvo engano, a estratégia do governo federal, via Casa Civil, tem sido a de sistematicamente promover a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas, como se não houvesse clareza nesse processo. Neste último aspecto, vale registrar que, de um ponto de vista legal, a identificação e delimitação de terras indígenas tem que ser feito em observação ao Decreto n. 1.775 e à Portaria MJ n. 14, ambos de 1996. O primeiro “dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências”, e a segunda estabelece “regras sobre a elaboração do Relatório circunstanciado de identificação e delimitação de terras indígenas”.
Regularização de terras indígenas
Resumidamente, diria que no Brasil a regularização de terras indígenas passa por três processos, segundo alguns colegas já apontaram e escrevi em recente artigo: o político, o administrativo e o judicial.
O processo administrativo diz respeito à ação da Funai em constituir um Grupo Técnico (GT), sob a coordenação de um antropólogo, cujo estudo deve ser realizado em conformidade com o que determinam as leis citadas anteriormente. O resultado do estudo de identificação, quando aprovado técnica e politicamente pelo órgão, tem seu resumo circunstanciado publicado no Diário Oficial da União, o que garante a publicização dos atos.
O processo jurídico, por seu turno, está diretamente relacionado com o princípio do amplo direito de defesa, o qual assegura que as partes envolvidas no litígio (comunidades indígenas, fazendeiros, prefeituras etc.) apresentem, em caso de se sentirem prejudicadas, um contraditório ao estudo produzido pela agência indigenista oficial. Isso primeiramente deveria ser feito em um prazo de 90 dias e diretamente àquele órgão. No entanto, amiúde é feito em juízo e a partir daí é iniciado um processo judicial, no qual comumente os fazendeiros são autores e a União e Funai, rés. O mesmo princípio do contraditório, elementar para a garantia do Estado Democrático de Direito, garante a solicitação de outro estudo, independente do feito para a Funai. Trata-se de uma perícia judicial, solicitada pela Justiça Federal em atendimento às exigências do juízo ou ao pedido das partes. Durante a realização das perícias, as partes podem ter seus próprios experts, chamados de “assistentes técnicos”, os quais comumente atuam na elaboração de estudos (contralaudos) em defesa de quem os contratou.
O início e a conclusão do processo administrativo e, sobretudo, do processo judicial podem levar anos, às vezes décadas, sem que as comunidades consigam manter o usufruto exclusivo e a posse permanente das áreas reivindicadas, de onde normalmente foram expulsas em algum momento da história.
Por último, o processo político, em minha opinião o mais importante de todos, refere-se também às ações e estratégias políticas dos movimentos indígenas e seus eventuais aliados (ONGs indigenistas, Ministério Público Federal, pesquisadores, parlamentares etc.) para a completa regularização das terras de ocupação tradicional, inclusive nas instâncias do Judiciário.
Mas, enfim, o discurso oficial da Casa Civil é idêntico ao feito no regime militar para extinguir o antigo Serviço de Proteção ao Índio – SPI, em 1967, como se todo esse processo fosse algo desconhecido. E como disse o filósofo alemão Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. E é exatamente de uma farsa que estou falando.
IHU On-Line – Como avalia a declaração do secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, de, no futuro, a partir de uma mudança na legislação brasileira, ser possível a instalação de usinas hidrelétricas em terras indígenas, tendo como sócios do empreendimento os próprios índios, a exemplo do que já ocorre no Canadá?
Jorge Eremites de Oliveira – Esta é mais uma declaração que gera preocupação e insegurança jurídica aos povos indígenas, pois uma mudança na legislação brasileira, seguramente na Constituição Federal, será mais um retrocesso e uma forma de ceifar direitos conquistados recentemente.
IHU On-Line – Qual a melhor maneira de resolver os conflitos entre indígenas e não indígenas?
Jorge Eremites de Oliveira – Inexiste uma fórmula mágica para isso. Penso que tratar a “questão indígena” como uma das prioridades de Estado seria o primeiro passo. Se não for assim, os conflitos continuarão e, seguramente, mais vidas humanas serão ceifadas, em sua esmagadora maioria de indígenas. Quanto a isso não tenho dúvida alguma.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Jorge Eremites de Oliveira – Com a devida licença, registro aqui uma moção de apoio aos Terena e a outros povos indígenas no Brasil, aprovada pelo colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPel, onde trabalho.
MOÇÃO DE APOIO AOS TERENA DE BURITI E A TODOS OS POVOS INDÍGENAS QUE LUTAM POR SEUS DIREITOS TERRITORIAIS NO BRASIL
O colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, reunido no dia 7 de maio de 2012, considerando:
– que o Estado Brasileiro não cumpriu com o que determina o Art. 67 da Constituição Federal de 1988 [ADCT]: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Esta situação é conhecida para todo o território nacional e também explica o prolongamento e o acirramento de muitos conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses;
– que a política indigenista oficial tem sistematicamente violado os direitos dos povos indígenas, inclusive por meio do descumprimento de leis internacionais das quais o país é signatário. Este é o caso da Convenção nº 169 da OIT, de 1989, sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais, aprovada pelo Congresso Nacional em 2002 e promulgada pela Presidência da República em 2004. Exemplo disso é o que ocorreu durante o licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, quando os povos indígenas afetados pelo empreendimento não foram prévia e devidamente consultados sobre o projeto;
– que o Governo Federal, por meio da Casa Civil, tem sistematicamente promovido a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas. Esta postura é típica de regimes de exceção, gera insegurança jurídica aos povos indígenas e denota uma postura colonialista norteada pelos paradigmas da assimilação e do desenvolvimento econômico a qualquer custo, subordinando poderes constituídos na República a interesses do movimento ruralista e seus aliados;
– Que os estudos para a ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, localizada nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul, foram devidamente concluídos e publicados em 2001, constituindo-se em um ato administrativo perfeito. Além disso, respeitando o direito ao contraditório, a área foi objeto de perícia judicial que concluiu se tratar de terra de ocupação tradicional indígena, conforme estabelece o Art. 231 da Carta Constitucional;
– e que no dia 30 de maio de 2013 o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi morto por policiais enviados para a área de conflito para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse dentro da própria Terra Indígena Buriti. Naquele mesmo dia outros indígenas também foram feridos por policiais a servido do Estado Brasileiro. Posteriormente, no dia 04 de junho de 2013, o indígena Josiel Gabriel Alves, 34 anos, primo de Oziel Gabriel, foi baleado nas costas por pessoas identificadas pelos Terena como “pistoleiros” a serviço de fazendeiros da região, correndo o risco de ficar com sequelas neurológicas, vem a público manifestar seu apoio e solidariedade aos Terena da Terra Indígena Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil.
Nosso posicionamento se dá em defesa da vida humana, pela regularização das terras indígenas existentes no território nacional e em repúdio a qualquer tipo de violência cometida contra os povos e comunidades tradicionais no Brasil. Por este motivo, esperamos que a justiça haja com rigor na apuração dos crimes cometidos contra os Terena e defendemos o cumprimento dos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, bem como da Convenção 169 da OIT, sem os quais não é possível existir no país o Estado Democrático de Direito.
* Publicado originalmente no site IHU On-Line.
Por Bruno Cava, republicação do Quadrado dos loucos
14/06/2013
Ligo o rádio e ouço que o trânsito está um caos. Desconfio imediatamente. O trânsito me parece muito organizado. Vejo fluxos turbulentos de ônibus, carros, motos, trens, indo e vindo do subúrbio ao centro e então do centro ao subúrbio. Todos os dias, ininterruptamente. São milhões de veículos abarrotados de uma gente resignada, olhares perdidos, no tempo morto do transporte diário. Vamos sentadinhos ou de pé, em qualquer caso comprimidos na massa de semelhantes de cara fechada. Acordamos cedo para enfrentar essa via-crúcis e no final do dia só queremos que acabe logo para chegar em casa, tomar banho e no dia seguinte subir a pedra de novo. São milhões e milhões de horas humanas gastas, jamais remuneradas. Pelo contrário, taxadas a preços que não param de aumentar.
Todos os dias nos acotovelamos, nos estranhamos, nos empurramos, passamos à frente, ou somos sobrepujados pelos mais espertos ou fortes. Brigamos por lugares apertadíssimos, repelindo a carne alheia. De carro, buzinamos, fechamos, brigamos com o motorista vizinho, xingamos o motociclista. A culpa é sempre do outro mal educado. Ou então é nossa, por ainda não podermos comprar o conforto do carro particular, por não morarmos ou trabalharmos no lugar correto. No mais das vezes, nos refugiamos nas mentes, lamentando a condição miserável de passageiro. Que passe logo.
Enquanto isso, uma dinheirama à noite estará depositada nos caixas dos ônibus, ficará nas bilheterias do metrô, do trem, das barcas, ou então estará trocada nos postos de gasolina, por ainda mais crédito medido em quilômetros para rodar no purgatório de asfalto. Esse dinheiro irrigará empresários, dirigentes, burocratas, campanhas eleitorais. Será reaplicado para tirar ainda mais valor dos fluxos. Não. Sejamos realistas. O trânsito está bem organizado. Nós somos a maior prova disso. Como poderíamos aguentar ainda outro dia, amanhã mesmo, se não tivesse sido pensado de cabo a rabo para funcionar assim? Só pode ser por que é para funcionar assim.
A grande imprensa faz crer que bastaria ajustar a eficiência do sistema, melhorar a gestão, reduzir a corrupção etc. Detalhes de minúscula importância. Vejo a TV chamando o trânsito de caótico, mas nenhuma palavra sobre o completo alijamento das pessoas na decisão sobre as linhas, as empresas, as obras e os equipamentos. A ausência de caráter democrático nas macro ou micro decisões no plano dos transportes é absoluta. Tampouco alguma reportagem, notícia ou artigo a respeito da confusão de prefeitura e empresa de ônibus, unha e carne num projeto político que vai das eleições à governabilidade. Nenhum jornalista dá nome aos bois. Aí quando um ônibus cai do viaduto, a culpa foi de um passageiro agressivo. Quando a mulher é estuprada numa vã ou num ônibus, a culpa é de alguns marginais. Escondem o fato que, por trás dessas exceções, subsiste uma regra menos confessável. Atrás do que o sensacionalismo diverte, há razões estruturais. O capitalismo é um sistema de dominação indireta.
Como se a tensão entre passageiros e motoristas/cobradores não fosse causada pelo ódio que todos têm dos ônibus. O que, por sua vez, exprime vicariamente o ódio que se tem pelo sistema de transportes como um todo. Isto é, pela simbiose entre prefeitura e empresa, numa gestão que parece operar mediante algum inacessível plano divino. Como se não fôssemos desgastados e estressados diariamente, até a exaustão mental (não fossem os tarjas pretas!). Como se as mulheres não tivessem de encarar, até a neurose, um abuso sexual sistemático, quase naturalizado pela indiferença com que esse abuso é observado pelos outros ao redor. Porque muitos homens se esfregam nelas nos veículos lotados, passam-lhes o pau, e alguns fazem isso como um ritual diário. Várias são estupradas nos pontos mais isolados, de dia ou de noite.
Antigamente, os escravos eram gastos no engenho e tinham de ser trocados a cada 7 ou 8 anos. Revoltavam-se demasiado. Fugiam. Culpavam o senhor. Hoje, a carne é moída pelo menos duas vezes ao dia, de manhã cedo e à tardinha. Mas os músculos e nervos a gente dá sobrevida com os modernos tratamentos da medicina do trabalho. Principalmente a televisão, a nossa maior terapeuta. A culpa geralmente é atribuída a nós mesmos, muitas vezes autoatribuída: se estamos sofrendo é porque fracassamos. Por não nos esforçarmos o suficiente para sair dessa vida de merda, como fulana ou beltrano…
Em vez de admitir como seria muito mais fácil, muito mais prático, lutar coletivamente por um transporte para todos, achamos que o problema é individual, que no fundo teríamos uma parcela da culpa, e nos resignamos. Imagine contudo o efeito político, se as energias que despendemos para, num esforço individual inglório, sair dessa condição e “subir na vida” fossem aplicadas coletivamente na luta dos transportes? Como teríamos um transporte muito melhor e para todos, do que tentar subir sozinho somente mais um degrau na escala de degradação generalizada da vida na metrópole?
Os movimentos e lutas do passe livre são a melhor saída. Talvez a única. Arregaçam à força um rombo no beco sem saída, aonde nos coloca a falsa oposição entre “público” e “privado”. Rejeitam em bloco as narrativas da grande imprensa, seus opinólogos e especialistas, de que faltaria gestão ou eficiência (e que o povo é mal educado). O problema do transporte afinal não é ele ser público nem privado, como estas também não são suas soluções. Nem ser mal gerido. O problema é e sempre foi falta de democracia.
E democracia, inexoravelmente, significa tumulto. O tumulto é o pulmão das democracias. É nele que atua o poder constituinte, o que faz a constituição e a lei não serem apenas folhas de papel para a exegese das faculdades de direito. Não devemos confiar a constituição a capas-pretas, cortes supremas ou ao francamente conservador discurso do “ativismo judicial”. O tumulto é o momento em que nós a fazemos nossa, e de onde dimanam todos os direitos e todas as instâncias democráticas. O tumulto é um ato de dignidade, o que só acontece ao irresignar-se diante do intolerável. A dignidade não é humana: é o oposto da humilhação. Uma das maiores e mais disseminadas violências hoje está no sistema de transportes.
Por Rafael Zanatta, no E-mancipação
14/06/2013
Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.
De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.
O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.
O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.
Mas a dimensão da violência não é outra?
Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.
Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).
O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).
O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.
Qual a alternativa então?
Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).
Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.
Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.
De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.
O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.
O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.
Mas a dimensão da violência não é outra?
Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.
Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).
O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).
O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.
Qual a alternativa então?
Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).
Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.
20/06/2013 – 14h06
da Livraria da Folha
Dentre os fenômenos da mente examinados por Sigmund Freud (1856-1939), “o que mantém coesa uma massa de pessoas?” intrigou o pai da psicanálise por muito tempo. “Psicologia das Massas e Análise do Eu” apresenta as considerações de Freud sobre este tema.
“A psicologia das massas trata do indivíduo como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição ou como elemento de um grupo de pessoas que, em certo momento e com uma finalidade determinada, se organiza numa massa”, escreve Freud na introdução da obra.
Publicado originalmente em 1921, o ensaio é fruto de anos de pesquisas e observações. O título está inserido no contexto do período entreguerras, quando ideais nazistas e fascistas começam a ganhar força na Europa devastada pela Primeira Guerra (1914-18).
“O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche”, escreve o psicanalista e professor Edson Sousa no prefácio à edição.
Freud se detém no funcionamento e nos mecanismos inconscientes que fazem uma multidão obedecer e idolatrar a um líder. Segundo Sousa, o livro “traz elementos que nos permitem abordar fenômenos sociais como o racismo, a intolerância religiosa e o fanatismo político”.
Conhecido como um de seus textos sociais, a “Psicologia das Massas e Análise do Eu” debate as ideias de Gustave Le Bon (1841-1931) e usa conceitos como identificação, regressão, idealização, libido e recalque na investigação.
Nascido em 1856, na região da Morávia, Freud estudou medicina na Universidade de Viena e se demonstrava especialmente intrigado com a neurofisiologia. Já graduado, trabalhou no hospital da mesma cidade, quando conheceu Jean-Martin Charcot (1825-93) e o uso da hipnose.
Anos mais tarde, em 1895, publica “Estudo sobre Histeria” em parceria com o médico Joseph Breuer. “A Interpretação dos Sonhos”, considerada sua obra mais importante, chega quatro anos depois.
A edição de “Psicologia das Massas e Análise do Eu” publicada pela L&PM traz revisão técnica e prefácio de Edson Sousa e ensaio biobibliográfico de Paulo Endo e Edson Sousa. Leia trecho do livro (abaixo).
PREFÁCIO
Psicologia das massas:
Uma reflexão em contrafluxo
Quando o caminhante canta na escuridão.
recusa seu estado de angústia, mas nem por
isso pode ver mais claramente.
SIGMUND FREUD
Inibição, sintoma e angústia
Psicologia das massas e análise do eu surge de uma inquietação de Freud, a qual esteve presente em toda a sua vida e que pode ser resumida em uma tese explicitada logo na abertura do texto: “Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto, ajudante e adversário, e por isso, desde o princípio, a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social”. Assim, Freud responde, de forma contundente, aos críticos de ontem e de hoje que veem na psicanálise uma disciplina restrita aos conflitos individuais dos sujeitos, virando as costas para o que acontece no mundo. Os inúmeros textos escritos pelo pai da psicanálise sobre questões sociais, buscando sempre dialogar com outras disciplinas no campo da história, sociologia, antropologia, política, arte, arqueologia, biologia, filosofia e religião, mostram um pensador engajado e atento aos acontecimentos de seu tempo. Seus textos e sua extensa correspondência com dezenas de intelectuais das mais diversas áreas dão provas de seu posicionamento crítico sobre o que se passava no mundo em que vivia.
Psicologia das massas, publicado em 1921, foi gestado lentamente e não deixa de ser um esforço louvável de reflexão diante da barbárie que representou para o mundo, e especialmente para a Europa, a destruição provocada pela Primeira Grande Guerra. Freud sentira na própria pele seus efeitos. Três dos seus filhos estavam no front: Martin, Oliver e Ernst. Seu genro Max, assim como alguns colegas e muitos pacientes, também. Era uma época de incertezas e de muitas perguntas sobre o que levara a humanidade a tal grau de barbárie, de destruição e de violência. Escrevera na época: “Parece-nos como se nunca antes um acontecimento tivesse destruído tantos bens comuns preciosos da humanidade, confundido tantos dos mais lúcidos intelectos, degradado tão cabalmente os mais elevados”. Em algumas passagens de Psicologia das massas, Freud faz menção à guerra e escolhe o Exército como um dos fenômenos de massa que analisa. O outro coletivo que lhe aponta um horizonte de reflexão se refere aos grupos religiosos, entre os quais toma particularmente como objeto de estudo a Igreja Católica.
A cautela de Freud nesse campo de estudo se devia ao fato de ter que percorrer toda uma ampla bibliografia da nascente psicologia social no final do século XIX e início do século XX. Seu texto traz uma extensa análise crítica da obra de Gustave Le Bon, autor âncora de seu estudo, dialogando com o clássico livro do autor francês Psicologia das multidões, publicado pela primeira vez em Paris em 1895. Convida também para o debate William McDougall e seu livro The Group Mind [A mente grupal], Wilfred Trotter com Os instintos do rebanho na paz e na guerra e Gabriel Tarde com As leis da imitação. Muitos outros autores que se dedicaram a estudar os fenômenos de massa são evocados em um detalhe ou outro, de forma que Psicologia das massas acabou se tornando uma espécie de guia do estado da questão na época. O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche. Freud evoca também em seu texto um série de outros escritos seus, procurando situar o presente estudo em relação à sua obra. São inúmeras as referências a Três ensaios de teoria sexual, Totem e tabu, Luto e melancolia, Além do princípio do prazer e Introdução ao narcisismo.
Freud busca responder, em seu ensaio, a uma das perguntas que considerava um divisor de águas nos diversos estudos com os quais teve contato: o que mantém uma determinada massa coesa? A resposta terá muitas derivações, as quais o leitor terá a oportunidade de encontrar na leitura do presente texto. Ele responde a essa questão resumindo-a em uma palavra: Eros. Freud não se contenta com análises mais descritivas presentes nos textos nos quais se deteve, pois as considera insuficientes para entender uma série de fenômenos grupais. Falar em sugestão, hipnose, mecanismos de fascinação, sede de poder não lhe parecia responder ao fenômeno que liga os elementos de uma massa entre si e em relação a um líder. Para compreender esses mecanismos psíquicos, Freud ousou transferir alguns conceitos já clássicos em sua obra para a compreensão do funcionamento psíquico das massas, tais como identificação, regressão, idealização, circuitos de investimento libidinal e a lógica do recalque com suas derivações, manifestadas sobretudo na formação dos sintomas.
Psicologia das massas nos abre alguns caminhos de reflexão. Freud vinha concebendo esse texto há algum tempo, recolhendo notas, lendo as obras disponíveis sobre o tema. Já havia desenvolvido anos antes uma série de estudos sobre as razões da posição masoquista do ser humano bem como sobre o conceito de pulsão (ou impulso, conforme se preferiu na presente tradução) de morte, crucial no entendimento de sua metapsicologia. Este último foi amplamente desenvolvido em seu texto Além do princípio do prazer (1920). Nesse mesmo ano, em uma viagem de férias aos Alpes, preparava as primeiras notas de Psicologia das massas e parecia muito cauteloso e sem pressa em finalizar seu estudo. Do alto das montanhas e em meio às inúmeras anotações que vinha recolhendo, escreve a seu biógrafo oficial, Ernst Jones: “Trouxe comigo o material para a Psicologia das massas e análise do eu, mas minha cabeça até agora se recusa obstinadamente a se interessar por esses problemas profundos”.
CASSIANO ELEK MACHADO
GRACILIANO ROCHA
Olhem para paris, diz Teresa Caldeira. Mas não a de Maio de 68: para a antropóloga brasileira radicada nos EUA, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, a análise das manifestações que tomaram o país na semana passada deve se pautar pelos distúrbios que eclodiram nas periferias francesas em 2005, quando cidades suburbanas na região metropolitana de Paris (“banlieues”) explodiram em uma onda de protestos sociais.
Especialista em antropologia urbana, Caldeira, 58, pesquisa a cultura da periferia, em especial a de São Paulo, e diz que se vários cientistas sociais se declararam surpresos, para ela não há novidade.
“Todos comparam com Istambul ou com a Primavera Árabe, mas deveriam olhar para o que houve em Paris há oito anos”, diz Caldeira. “Dá muito bem para entender o que está acontecendo e isso vem sendo articulado há muito tempo”, acredita a antropóloga, autora do livro “Cidade de Muro: Crime, Segregação e Cidadania” (Editora 34).
Ela lembra que o Movimento Passe Livre (MPL) existe há muitos anos e afirma que ele “articula todo o imaginário da produção cultural da periferia”.
“A Folha fez uma foto em 2010 de um grafite feito pelo MPL no Minhocão, em São Paulo, que dizia ‘A cidade só existe para quem pode se movimentar por ela’.”
Caldeira reproduziu a imagem em um artigo dela na revista “Public Culture” (Duke University Press, 2012) e a frase do grafite como uma ideia fundamental do movimento cultural da periferia. “Rap, literatura marginal, pixação, saraus, todos se fazem na base e rede e de circulação. E circular por São Paulo é um caos para quem não tem dinheiro.”
Opinião diferente tem o sociólogo francês Sebastian Roché. Em seu livro “Le Frisson de l’Émeute”, (Seuil, sem tradução no Brasil), ele afirma que as revoltas que inflamaram a França -cujo estopim foi a morte de dois adolescentes eletrocutados em uma perseguição policial- foram protagonizadas por jovens que se consideram vítimas da xenofobia por não terem a pele branca e, na maioria, filhos de imigrantes e muçulmanos.
“Os jovens muçulmanos, muito numerosos nas ‘banlieues’, não se sentem aceitos nem respeitados em suas crenças. Além disso, essa juventude foi abandonada à própria sorte. Nas ‘banlieues’, a taxa de desemprego oscila entre 25% e 40% entre jovens com menos de 25 anos”, frisa Roché.
Professor da celebrada Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos), da Universidade de Grenoble e pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Social), Roché diz ter acompanhado com atenção a onda de protestos no Brasil, e não vê “muitos pontos de comparação” entre o que aconteceu aqui e lá. Na França, diz ele, “não foram pobres destruindo o meio de vida de outros pobres”.
“A burguesia ou o governo não foram os alvos. Nenhum espaço do poder foi sitiado ou tomado. Ninguém se aproximou, por exemplo, do parlamento nem da sede do governo [como ocorreu no Brasil]. Aqui, os grupos operavam durante a noite, escondiam o rosto em capuzes e muitas vezes buscavam o confronto com a polícia. Não houve qualquer manifestação de massa, nenhum líder ou palavra de ordem emergiu.”
Teresa Caldeira, que no ano passado ganhou a prestigiosa bolsa Guggenheim de pesquisa, nos EUA, aponta outra foto dos movimentos recentes, que ela diz ter visto nas redes sociais, como icônica do que está acontecendo. Dois rapazes seguravam cartazes: um dizendo “O Brasil acordou” e outro “A periferia nunca dormiu”.
Também chamaram a atenção dela as faixas que faziam referências ao trabalho da polícia. “A PM está fazendo na Paulista o que faz todo dia na periferia”, dizia uma delas. “Há uma tensão de classes latente. E não me surpreende que os protestos tenham chegado agora na periferia”, diz ela, citando como exemplo as manifestações dos últimos dias em regiões como a estrada do M’Boi Mirim (na zona sul de São Paulo).
Ela aposta que, “tal como em Paris, em 2005, veremos agora a explosão da periferia”. Ainda que, segundo ela, a presença de classes A e B tenha tido importante papel na eclosão dos movimentos, os protestos veiculam uma insatisfação que vem sendo cozinhada nas periferias. “Uma coisa é de onde vem o caldo e a outra é a forma que a manifestação adquire. Na forma, parece um pouco com a Primavera Árabe: a maneira como circularam as informações e a insatisfação com as instituições políticas tradicionais”, diz.
“No conteúdo, é muito significativo que tenha estourado pelos R$ 0,20. Ninguém aguenta mais os ônibus da cidade. Conheço muita gente da periferia, devido às pesquisas, que todos os dias posta algo em mídias sociais contra o transporte público.”
Para o francês Roché, “a melhoria das condições de vida faz com que aqueles que se sentem excluídos se mobilizem coletivamente para reivindicar, como é o caso do Brasil”. “Na França, a questão é de exclusão social em um período de estagnação econômica, e a revolta de 2005 não gerou um modelo coletivo de massas e organizado. Não houve protesto contestador, mas sim apropriações individuais, como roubos e saques, ou então confrontos e destruição para exprimir a raiva. Nas ‘banlieues’, não houve reivindicação explícita.”
Ele afirma que, embora “revoltas possam ensinar muito aos governantes”, isso depende de eles “serem capazes de olhá-las de frente”. “Na França, nós não aprendemos muito. Em novembro de 2005, a França estava a um ano e meio das eleições presidenciais. O então ministro do Interior [Nicolas Sarkozy, presidente entre 2007-2012] viu naquilo uma oportunidade de reafirmar sua autoridade e estigmatizar as ‘banlieues’ e seus habitantes com vistas à eleição de 2007” -que ele terminaria vencendo. “Nenhuma análise política foi feita pelo Parlamento e menos ainda pelo ministério do Interior, proibido de refletir sobre sua atuação pelo próprio ministro.”
Para o sociólogo, as revoltas urbanas podem, ainda, exprimir um desejo de participação direta nas decisões públicas, no caso de países como Brasil e Turquia. “Nesses dois países, muitos jovens com acesso à educação apresentam reivindicações sobre o direito à diferença e que sejam levadas em conta suas demandas sociais pelo poder central desses países.”
O estudioso considera que “há progressos econômicos tanto no Brasil quanto na Turquia, e esses movimentos de contestação se dão em um contexto bem diferente do que ocorreu na França, cujo crescimento econômico tem sido mínimo ou nulo nos últimos anos”.
Para o sociólogo “o que está acontecendo no Brasil se parece mais com o Maio de 68”. “Naquela época a França vivia em pleno Les Trente Glorieuses [como ficaram conhecidas as três décadas de crescimento e prosperidade no pós-Guerra], e a juventude, com trabalho ou diplomas, mergulhou numa luta para que seu modo de vida e aspirações fossem reconhecidos pelo governo”, recorda.

Here He Goes Again: Sam Harris’s Falsehoods (This View of Life)
Sam Harris posted a recent blog about my views on Jihadis that is unbecoming of serious intellectual debate, if not ugly. He claims that I told him following a “preening and delusional lecture” that “no one [connected with suicide bombing] believes in paradise.” What I actually said to him (as I have to many others) was exactly what every leader of a jihadi group I interviewed told me, namely, that anyone seeking to become a martyr in order to obtain virgins in paradise would be rejected outright. I also said (and have written several articles and a book laying out the evidence) that although ideology is important, the best predictor (in the sense of a regression analysis) of willingness to commit an act of jihadi violence is if one belongs to an action-oriented social network, such as a neighborhood help group or even a sports team (see Atran, TALKING TO THE ENEMY, Penguin, 2010).
Harris’s views on religion ignore the considerable progress in cognitive studies on the subject over the last two decades, which show that core religious beliefs do not have fixed propositional content (Atran & Norenzayan, “Religion’s Evolutionary Landscape,” BEHAVIORAL AND BRAIN SCIENCES, 2004). Indeed, religious beliefs, in being absurd (whether or not they are recognized as such), cannot even be processed as comprehensible because their semantic content is contradictory (for example, a bodiless but physically powerful and sentient being, a deity that is one in three, etc). It is precisely the ineffable nature of core religious beliefs that accounts, in part, for their social and political adaptability over time in helping to bond and sustain groups (Atran & Ginges, “Religious and Sacred Imperatives in Human Conflict,” SCIENCE, 2012). In fact, it is the ecstasy-provoking rituals that Harris describes as being associated with such beliefs which renders them immune to the logical and empirical scrutiny that ordinarily accompanies belief verification (see Atran & Henrich, “The Evolution of Religion,” BIOLOGICAL THEORY, 2010).
Harris’s generalizations of his own fMRIs on belief change among a few dozen college students as supportive of his views of religion as simply false beliefs are underwhelming. As Pat Churchland surmised: “There is not one single example in [Harris’s work] of what we have learned from neuroscience that should impact our moral judgments regarding a particular issue. There may EXIST examples, but he does not provide any.” (personal communication 2/24/11; see also the fMRI work by our neuroeconomics team lead by Greg Berns in the theme issue on “The Biology of Conflict,” PHILOSOPHICAL TRANSACTIONS OF THE ROYAL SOCIETY, 2012).
Context-free declarations about whether Islam, or any religion, is inherently compatible or incompatible with extreme political violence – or Democracy or any other contemporary political doctrine for that matter — is senseless. People make religious belief – whether Islam, Christianity, Judaism, Buddhism, and so forth – compatible with violence or non-violence according to how they interpret their religious beliefs. And how people interpret religious injunctions (e.g., the Ten Commandments), as well as transcendental aspects of political ideologies, almost invariably changes over time. For example, on the eve of the Second World War, political and Church leaders in Fascist Italy and Spain claimed that Catholicism and Democracy were inherently incompatible, and many Calvinist and Lutheran Protestants believed that God blessed the authoritarian regime. As Martin Luther proclaimed, “if the Emperor calls me, God calls me” – a sentiment that Luther, like many early Christians, believed was sanctified by Jesus’s injunction to “Render to Caesar the things that are Caesar’s, and to God the things that are God’s.” Nevertheless, the principles of modern liberal democracy first took root and grew to full strength in The European Christian and Colonial heartland. As Benjamin Franklin expressed it in his proposal for the motto of the new American Republic: “ Rebellion against Tyranny is Obedience to God.” Or, as the Coordinating Council of Yemeni Revolution for Change put it, an Islam of “basic human rights, equality, justice, freedom of speech, freedom of demonstration, and freedom of dreams!” (National Yemen, “The Facts As They Are,” Youth Revolutionary Council Addresses International Community, April 25, 2011).
That there is a cruel and repugnantly violent contemporary current in Islam, there is no doubt. Factions of the Christian identity movement, the Tamil Tiger interpretation of Hinduism as necessitating suicide attacks against Buddhist enemies, Imperial Japan’s interpretation of Zen Buddhism as a call to a war of extermination against the Chinese, all have produced cruel and barbarous behavior that has adversely affected millions of people. But Harris’s take on such matters is so scientifically uninformed and mendacious as to be a menace to those who seek a practical and reasoned way out of the morass of obscurantism.
As a final note, I should also mention that I am a lead investigator on several multiyear, multidisciplinary field-based science projects sponsored by the Department of Defense, including “Motivation, Ideology, and the Social Process in Radicalization,” aspects of which are taught to military personnel from general officers down. And I am recurrently asked to give briefings on these subjects to the White House, Congress and allied governments. I know of no comparable demands or operational interest among the political, defense or intelligence agencies of the U.S. and its allies for Harris’s musings on religious ecstasy. In Harris’s strange worldview, which is admittedly popular among many who believe that reason’s mission is to end religion to save the species, failure to apply those musings to stop religiously-directed violence across the globe may well be a another sign of the “crazy” ideas that he regularly ascribes to those who refuse his truth.
Here is what Harris wrote:
I have long struggled to understand how smart, well-educated liberals can fail to perceive the unique dangers of Islam. In The End of Faith, I argued that such people don’t know what it’s like to really believe in God or Paradise—and hence imagine that no one else actually does. The symptoms of this blindness can be quite shocking. For instance, I once ran into the anthropologist Scott Atran after he had delivered one of his preening and delusional lectures on the origins of jihadist terrorism. According to Atran, people who decapitate journalists, filmmakers, and aid workers to cries of “Alahu akbar!” or blow themselves up in crowds of innocents are led to misbehave this way not because of their deeply held beliefs about jihad and martyrdom but because of their experience of male bonding in soccer clubs and barbershops. (Really.) So I asked Atran directly:
“Are you saying that no Muslim suicide bomber has ever blown himself up with the expectation of getting into Paradise?”
“Yes,” he said, “that’s what I’m saying. No one believes in Paradise.”
At a moment like this, it is impossible to know whether one is in the presence of mental illness or a terminal case of intellectual dishonesty. Atran’s belief—apparently shared by many people—is so at odds with what can be reasonably understood from the statements and actions of jihadists that it admits of no response. The notion that no one believes in Paradise is far crazier than a belief in Paradise.
http://www.samharris.org/blog/item/islam-and-the-misuses-of-ecstasy
Scott Atran is an American and French anthropologist who is a Director of Research in Anthropology at the Centre National de la Recherche Scientifique in Paris, Senior Research Fellow at Oxford University in England, Presidential Scholar at John Jay College of Criminal Justice in New York, and also holds offices at the University of Michigan. He has studied and written about terrorism, violence and religion, and has done fieldwork with terrorists and Islamic fundamentalists, as well as political leaders.
10/6/2013
Bernardo Gutierrez | Tradução: Bruna Bernacchio
Taksim é nosso, Istambul é nossa!”. Os gritos não pertencem a algum dos jovens que ocuparam o Parque Taksim Gezi, da capital turca, na virada do mês. Tampouco é um mote que esteja correndo o mundo no Twitter, sob a tag #OccupyGezi. “Taksim é nosso” está sendo pronunciado por um cidadão anônimo no vídeo Tkasim Square (Istambul Commons), durante uma manifestação celebrada no outono passado. “Taksim é nosso” – continua a voz no megafone – “não importa as opções políticas que tenham as pessoas”.
O vídeo foi produzido no âmbito do projeto Mapeando o Comum [Mapping the Commons], idealizado pelo estúdio sevilhano Hacktitetura e desenvolvido pelo ativistaPablo de Soto, em Atenas e Istambul. E contextualiza com perfeição a vertiginosa insurreição que está vivendo Istambul e toda a Turquia. O centro comercial planejado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, que incendiou #OccupyGezi, é apenas a ponta de um iceberg maior: um duro plano neoliberal para privatizar bens comuns (águas, bosques) e espaço público. Até que ponto o ataque ao comu, e concretamente a privatização dos espaços urbanos deflagraram a Primavera Turca?
O projeto Mapeando o Comum — definido por seus próprios autores como uma performance que pode tornar-se reflexão, uma obra de arte ou uma ação social — é um verdadeiro passeio pelas raízes de #OccupyGezi. A cartografia, realizada na plataformaMeipi, organiza o comu de Istambul em quatro categorias: bens naturais, cultura, espaço público e digital. Os vídeos publicados, todos com falas parcialmente em inglês, resumem os ataques que o o espaço público sofre na era Erdogan.
“Communication space”, por exemplo, revela, por meio dos protestos dos estudantes universitários, a luta pelo conhecimento e comunicação livres. Em “Water as a commons”, o assunto central é a privatização da gestão da água na região. “For-rest”denuncia que a terceira ponte sobre o estreito de Bósforo, que o governo de Erdogan planeja, implicaria na desaparecimento do bosque Belgrado, pulmão verde da cidade. A repressão no espaço público de manifestações sócio-culturais como festas nas ruas ou o fim da única praça de pedestres (Galata Square) de Istambul são tema os vídeos Cultural expressions in public space e o Galata Tower Square.
Até que ponto a privatização selvagem dos bens comuns naturais e urbanos de Istambul incendiou a revolta de #OccupyGezi? O ativista Pablo de Soto, em declarações ao jornal espanhol El Diario, sustenta que os fatos estão intrinsecamente relacionados: “O corte das árvores para construir um centro comercial para a elite e os turistas foi o pavio de incêndio, o catalizador final dos protestos por justiça social e econômica”.
A arquiteta turca Pelin Tan, em seu artigo Um relato de Gezi Park reforma a tese: “Para o governo turco, as novas políticas urbanas são a desculpa para atos de segragação, para incentivar estilos de vida neoliberais, o progressivo endividamento dos seus cidadãos, exploração, racismo, corrupção, e a instalação de um estado de exceção que viola os direitos humanos”. Por sua vez, a prestigiosa plataforma Architizer também situa os bens comuns urbanos como claro estopim da revolta.
#OccupyGezi é muito mais que um grito ecologista para salvar os árvores de Taksim. Mas não exclusivamente é apenas uma revolta antagonista contra a arrogância macropolítica do governo turco ou a suposta tentativa de islamização da Turquia que, segundo a imprensa ocidental, Erdogan conduz.
Em A Catedral e o Bazar, o hacker Eric S. Raymond contrapunha dois modelos na elaboração de software. A Catedral representa o modelo de desenvolvimento hermético e vertical do software proprietário. O bazar, com sua dinâmica horizontal e barulhenta, representaria a Linux e outros projetos de software livre, baseados no trabalho comunitário. Nenhum lugar como Istambul, com seu barulhento Gran Bazar, encarna melhor a metáfora urbana da tese de Raymond. De um lado, a catedral de receitas top down e privatizantes, do Governo de Erdogan. Do outro, o grande bazar humano de Istambul, seu espaço público, a tradição comunal das comunidades da cidade. #OccupyGezi e sua convivência humana resumem o choque de trens da história, entre dois modelos incompatíveis.
Derya Calik, estudante e ativista, descreve em uma entrevista a estratégia da catedral neoliberal contra os manifestantes de Taksim. “Na Turquia, não temos uma boa conexão 3G. Quando muito usada, a rede entra em colapso. Além disso, muitas pessoas foram informadas do uso de inibidores de sinal, por parte da polícia. Por isso, começamos a utilizar uma conexão VPN (Rede Virtual Privada). E, além disso, as lojas, restaurantes, hotéis e os residentes da zona cederam Wi-Fi aos manifestantes, abrindo as senhas de suas redes”. O bazar colaborativo de Istambul, no momento, driblou a aprisionadora catedral de Erdogan.
É possível fazer alguma comparação entre #OccupyGezzi e a acampada da Porta do Sol de Madri do 15M ou do Occupy Wall Street em Zuccotti? Pelin Tan, no texto já citado, destaca que “a ocupação de Gezi é um símbolo de estar juntos no comum (a arquiteta emprega a quase intraduzível palavra commoning), apesar de nossas diferenças”. Em #OccupyGezi, continua ela, envolveu-se “gente de diferentes classes, bairros e movimentos culturais — mais que organizações políticas e grupos de oposição”. Uma auto-organização transversal do bazar colaborativo, que a violência policial multiplicou até limites não esperados. Da praça ao mundo. Do hiperlocal à geopolítica.
Já o ativista Orsan Selap, habitual nas listas de correios de TakeTheSquare.net criadas no início do 15M espanhol, ressalta a El Diario a importância das redes na incipiente Primavera Turca: “O pensamento peer-to-peer (P2P) e em favor do comum nos dá uma alternativa clara ao capitalismo. Nesses momentos, nas redes sociais, as ruas e as lutas de Istambul estão convertendo-se em algo com muitos vínculos internacionais”.
(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim
De Taksim ao mundo. Do hiperlocal ao global. Do urbano à geopolítica. Em seu aclamado livro Cidades rebeldes, o sociólogo David Harvey afirma que a “revolução será urbana ou não será”. E adapta ao século XXI “o direito à cidade”, um velho grito dos anos sessenta, título de um mítico livro de Henry Lefebvre. O direito à cidade seria um “espaço social com interações e práticas onde a produção social tem lugar”.
A metrópole moderna tem um papel importante na produção do comum. Curiosamente, os movimentos sociais de Istambul estão remesclando o grito de Lefebvre-Harvey. No texto “O movimento pelo Direito à Cidade e o verão turco”, a jornalista independente Jay Cassano faz um detalhado repasse dos ataques neoliberais que Istambul está sofrendo nos últimos tempos, além do projeto de centro comercial para Gezi Taksim.
Jay cita em seu artigo a conversão do histórico cine Emek em shopping center. Menciona a terceira ponte sobre o Bósforo. E destaca o forte processo de segragação que Istambul está sofrendo, especialmente nos “bairros históricos de Sulukule, Tarlabasi, Tophane e Fener-Balat, onde vivem os imigrantes e a minoria curda”. Precisamente, Mapeando os Comuns dedica um vídeo ao distrito de Fenet-Balat-Ayvansaray, onde os vizinhos resistem ao plano urbanístico do Ajuntamento pela Associação Febayder.
O coletivo Reclaim Istambul, inspirado no coletivo britânico Reclaim the streets, que lutava pelo espaço público, faz uma verdadeira lista dos horrores urbanísticos planejados para a capital turca: “Centenas de edifícios gradeados, torres de escritórios, centros comerciais e projetos multiusos crescendo como flechas em toda a cidade”. Entre a penca de projetos de corte neoliberal, destacam Via Port Venezia (“redesenhamos Veneza e a trouxemos a Istambul”) ou Mall of Istambul (“aproveite de perto de um dos maiores shoppings da Turquia”). Em certo sentido, #OccupyGezi nasceu como grito coletivo para evitar que a milenária Istambul acabe se convertendo em Las Vegas ou Dubai.
O Reclaim Istambul é responsável por um dos documentários mais polêmicos dos últimos tempo, Ekümenópolis. Com um verdadeiro coquetel de imagens, entrevistas, músicas, gráficos e animações, Ekümenópolis desenha o selvagem ataque ao comum urbano e natural que sofre a cidade. A contundência de sua sinopse dá uma ideia da dureza de seu conteúdo: “Há alguns anos, Istambul tinha 3,5 milhões de habitantes. Hoje somos 15 milhões e em 15 anos seremos 23. Foram ultrapassados os limites ecológicos e de população. Perdeu-se a coesão social. Aqui surgiu uma imagem do urbanismo neoliberal: Ekümenópolis”.
“É mais que uma revolução tecnológica: é uma revolução cultural. Os rígidos modelos verticais para intensificar os sistemas de produção de massa do século passado estão sendo substituídos por flexíveis redes peer-to-peer, que nos levam até uma nova estética de códigos”. A frase é do arquiteto Joseph Grima, diretor da última edição da Bienal de Desenho de Istambul, celebrada ao final de 2012. Adhocracy, o título da Bienal, não foi casual. A adocracia, outro termo recentemente ressuscitado, é um novo modelo de organização flexível, intuitiva, transversal. A adocracia é horizontal, rotativa. Por isso, Adhocracy foi muito mais que uma exposição. Foi um laboratório.
Uma de suas comissárias, Ethel Baraona (dPr-Barcelona), respondendo a um questionário sobre #OccupyGezi, destaca o vínculo da Bienal com o comum urbano: “Uma grande parte dos projetos estava relacionada com o ativismo urbano, com a intenção de chamar a atenção do espaço público como espaço de intercâmbio de conhecimentos e de ação”. A Bienal adocrata espalhou por Istambul o dinamismo de coletivos-projetos como Crafting Neigborhoods, Recetas Urbanas, Open Structures,Maker Faire Africa, Arduino ou Zuloark (representando o madrilenho El Campo de Cebada).
Especialmente metafórico foi o projeto Drone Shade, da artista James Bridle. Depois de polvilhar de sombras de “drones” (aviões não tripulados) a Faixa de Gaza ou Londres, James desenhou com linhas brancas, no coração urbano de Istambul, a suposta sombra dos drones que os Estados Unidos utilizam da Turquia. O espaço público como tabuleiro do mundo. Como metáfora geopolítica. A metralhadora top down e neoliberal de Erdogan, representada em uma forma de contornos brancos. A aliança militar estadounidense-turca, que persegue o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte da Turquia e no norte do Irã, como uma verdade ao rés do chão. A cidade como campo de batalha.
Será #OccupyGezi é a primeira revolução incendiada pelo comum urbano? Talvez a primeira, mas não a última. O modelo da catedral neoliberal de Istambul replica-se em todo o mundo. As remoções e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro pré-olímpico são um exemplo. O projeto EuroVegas de Madri, como destaca Pablo de Soto, “é um escândalo de privatização e exceção da legalidade com mesmo grau destrutivo do parque Gezi em Taksim”.
Chegou a era das Cidades Rebeldes de David Harvey? Veremos uma sequência de revoluções urbanas em um planeta que esgota seus recursos naturais a um ritmo assustador? Ainda que não haja respostas, existem intuições. O antropólogo e ativista do 15M Adolfo Estalella, em seu provocador texto El procomún no es un commons vaticina uma forte politização dos núcleos urbanos: “O pró-comum é a figura que permite politizar a cidade. Se há dez anos a globalização era o objetivo de ativismo, agora é a cidade. Por isso, o comum é, para o ativismo atual o que a globalização era para este há dez anos”.
http://outraspalavras.net/2013/06/10/a-primavera-do-direito-a-cidade/
fonte original: http://www.eldiario.es/turing/privatizacion-comunes-encendio-Primavera-Turca_0_139986455.html
FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE
Roseli Ruiz tem diploma de antropóloga e faz perícias em terras em litígio. Sua filha, Luana, dirige a ONG Recovê -“conviver”, em guarani. Mas ambas estão entre os mais ferrenhos defensores dos proprietários rurais de Mato Grosso do Sul na disputa de terras com indígenas.
“Fui invadida em 1998 e, no ano seguinte, fui fazer direito para entender esse desmando. No decorrer do curso detectei que o que estava fundamentando não era a legislação, e sim um relatório antropológico”, explica Roseli, que fez uma pós-graduação na Universidade Sagrado Coração, em Bauru (SP).
A propriedade fica em Antônio João (a 280 km ao sul de Campo Grande), na fronteira com o Paraguai, e tem 10 mil hectares. Uma parte minoritária está tomada por famílias guaranis-caiovás.
Com o tempo, conta Roseli, ela passou a fazer relatórios antropológicos em vários Estados, como Mato Grosso e Paraná. Seu próximo trabalho será na área da Raposa Serra do Sol, em Roraima.
A fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtores. Marlene Bergamo – 7.jun.2013/Folhapress.
Ela afirma que, em todos os estudos, não encontrou nenhuma terra indígena. Ela admite que algumas áreas indígenas precisam ser ampliadas, mas via indenização justa, “e não confisco”.
“Não é assunto para demarcação quando os índios foram retirados para colonização. Não se pode fundamentar em 1500. Senão, o prédio da Folha tem de ser desapropriado e entregue pra índio”, afirmou.
A antropóloga-fazendeira afirma que tem um bom relacionamento com os índios. “Na minha fazenda, do lado do Paraguai, temos uma aldeia. E, desde que nós mudamos, há 32 anos, quem socorre os índios sou eu. Quando ocorria uma picada de cobra, eles vinham na fazenda solicitar que fossemos buscar.”
Ao seu lado, a advogada Luana disse que a criação da ONG foi a solução encontrada para “nos legitimar e participar das reuniões e descobrir o que está acontecendo”.
A entrevista ocorreu durante uma carreata realizada pelos produtores rurais anteontem. Em certo momento, uma amiga cumprimentou Roseli brincando: “Não vai virar a casaca, hein?”.
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CARMEN RIAL
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA
DE FLORIANÓPOLIS (SC)
Esclarecemos que a mulher [Roseli Ruiz] objeto da reportagem “Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios” não é filiada à ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e que, conforme seu currículo Lattes, teria feito um curso “lato sensu” em antropologia, o que não equivale a um “diploma de antropóloga”.
Importa esclarecer que relatórios e laudos antropológicos são peças técnicas distintas, elaboradas por profissionais com formação acadêmica reconhecida e conhecimento etnográfico sobre o grupo ou a circunstância enfocados, impossíveis de serem elaborados em tempo exíguo e por profissionais sem a formação necessária. Sua atuação é incompatível com o nosso Código de Ética.
12 June 2013
Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon. © Fiona Watson/Survival
Survival International has launched a vigorous rebuttal of Harvard ‘evolutionary psychologist’ Steven Pinker’s claim that tribal people are more violent than state societies.
In articles published this week in US journal Truthout, and the UK-based OpenDemocracy, Survival International’s Director Stephen Corry accuses Pinker – once named by Time magazine as one of the world’s 100 most influential people – of ‘claiming scientific support for what is mere opinion by falsely charging contemporary tribal peoples with more or less unremitting villainy.’
Corry writes, ‘Pinker’s baldly stated facts shake and buckle under cross-examination’. He accuses Pinker of: omitting facts which don’t fit his argument; getting many of his facts wrong; citing only those experts who agree with him; and ignoring the many others who don’t.
Starting with the first example in Pinker’s recent book ‘The Better Angels of Our Nature’ – the 5,200-year-old ‘Iceman’ named Ötzi – Corry reveals how Pinker’s suggestion that he was killed in a clash with another tribe is implausible. Corry goes on to expose countless other errors in Pinker’s supposedly ‘scientific’ argument, which has close parallels with the recent book ‘The World Until Yesterday’ by Jared Diamond.
Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia’s armed forces. © Survival
‘The data presented by these authors [Steven Pinker and Jared Diamond] is at least contentious, where it’s not plain wrong. They go out of their way to portray tribes as ‘Brutal Savages’ … [For example], twenty percent of the data Pinker uses to categorize the violence of the entire planet’s tribal peoples (excluding ‘hunter-gatherers’) is derived from a single anthropologist, Napoleon Chagnon – whose data has been severely criticized for decades.’
Of Pinker’s principal declaration – that our ancestors (and today’s tribal peoples) were more violent than ‘civilized’ Western society – Corry concludes, ‘Pinker [believes] we are brutal savages until tamed by a nation state bringing peaceful civilization. As far as contemporary tribal peoples are concerned, it couldn’t be further from the truth: the arrival of the state unleashes a savagery second to none in its brutality.’
Read more about the myth of the ‘Brutal Savage’ and how some writers are pushing the view that tribal people are particularly violent.

Cuando el sociólogo Javier Auyero y la maestra María Fernanda Berti comenzaron su investigación en una escuela primaria de Ingeniero Budge, en la ribera del Riachuelo a metros de la Capital Federal, la intención era otra: replicar el trabajo en Villa Inflamable, estudiar el sufrimiento ambiental en otro barrio del Conurbano Bonaerense. Sin embargo, a semanas de haber empezado su trabajo de campo, surgió lo inesperado. Junto a los relatos “tóxicos” sobre los basurales a cielo abierto y el agua con sabor a aceite, los alumnos llevaban historias de asesinatos, violaciones, tiroteos y peleas domésticas. Retrataban una dimensión de la violencia invisible a los ojos de los investigadores; una violencia que permeaba y definía la vida de la gente.
“No estábamos equipados para estudiar este tema. Por eso, al principio decidimos no prestarle atención, pensábamos que nos distraía de nuestro objetivo. Pero la frecuencia en los registros y la insistencia de los relatos nos terminó forzando a indagar en esas violencias”, confiesa Auyero tres años después de ese punto de inflexión, y a una semana de que La violencia en los márgenes, publicado por la editorial Katz, llegue a las librerías.
No es la primera vez que el profesor de sociología de la Universidad de Texas, Austin, invita a reflexionar sobre temas que se creían saldados. Hace quince años, con La política de los pobres, Auyero derribó mitos en torno al clientelismo político y mostró que se trataba de una forma de sobrevivir a la pobreza y la desigualdad. Más tarde, reveló la trama en torno a los saqueos de 2001 con La zona gris y puso de manifiesto el complejo vínculo entre violencia colectiva, política partidaria y vida cotidiana. Ahora, Auyero y Berti se atrevieron a deconstruir el discurso sobre la seguridad para señalar que en la discusión pública no hay lugar para la violencia que sufren los pobres.
“Creo que si tomo como parámetro de comparación mi primer trabajo intensivo, en Villa Jardín, donde la gente hablaba de los pibes de la esquina que fumaban porro, a hoy, veinte años más tarde, el panorama es muy distinto. A diferencia de lo que sucedía un cuarto de siglo atrás, hoy la violencia permea y define la vida de los sectores populares. Tomando datos objetivos, estadísticos, y subjetivos, me quedan muy pocas dudas de que estos barrios son más violentos de lo que eran. Los chicos, adolescentes y adultos hablan casi compulsivamente de esta experiencia. No de un asalto, sino uno seguido de un tiro, de un cuchillazo, y muchas veces seguido de muerte”, reflexiona en diálogo con Tiempo Argentino.
–¿Los sectores populares no estuvieron desde siempre más expuestos a la violencia?
–Estamos hablando de más violencia, y en términos generales, de una nueva naturaleza de esta violencia. Antes, nos referíamos a la violencia del Estado, que hoy no ha desaparecido, pero que ahora vemos interactuando con otras formas que están concatenadas. Tenés violencia doméstica, con un marido que le pega a una mujer; sexual, con un tío que abusa de sus sobrinas; y una violencia que ocurre públicamente en asaltos, tiroteos y homicidios. Primero detectamos la frecuencia, y luego, comenzamos a hacer un trabajo de detectives, para ver cómo se conectaban entre sí. Porque veíamos que el dealer podía ser violento con un cliente, pero cuando iba a la casa, la mamá lo encadenaba y le pegaba para que no consuma. Esto quiere decir que este tipo de violencias que pensamos como fenómenos aislados, en algunos casos, están interconectadas.
–¿Cómo explica que, a pesar de una mayor presencia estatal y una mejor distribución de los ingresos, haya habido este retroceso en la calidad de vida de los sectores populares?
–Si uno toma dos fotos del mismo barrio, en los años setenta y hoy, lo que ve es un enorme proceso de informalización. Los sectores más afectados, los más pobres, experimentaron la desaparición de los modos formales de regulación del conflicto, las instituciones formales dejaron de regular la vida. Yo puedo estar o no de acuerdo en que se han recuperado ciertos derechos, que ha crecido la economía, que el Estado adquirió un rol más importante, pero también hay que remarcar la mayor presencia del Estado punitivo. Hoy hay más gente presa. Y a diferencia de hace 25 años, la cárcel se ha vuelto una institución de la vida cotidiana. Antes nadie hablaba de un familiar preso, o era muy raro. Hoy buena parte de las familias de los sectores populares están afectadas por el brazo punitivo. Si uno quiere entender el porqué puede decir que hay informalización, desproletarización, mayor degradación de las condiciones de vida, mayor presencia de un Estado contradictorio. Pero es imposible encontrar una causa.
–La etnografía es en Arquitecto Tucci, ¿a qué sector social es extensible esta conclusión?
–No estamos en posición de generalizar. No sé si esto ocurre en Moreno, en José C Paz. Pero sí esta es una invitación a mirar que si hay muchos casos de violencia, es posible que estén concatenados. Y me parece que hay que empezar a decir, aunque esto no va a tranquilizar a los lectores, que las víctimas de la violencia están sobre todo entre los más postergados.
–¿Qué tipos de efectos colectivos e individuales generan a mediano y largo plazo “la violencia como aprendizaje”?
–Ese es el tema más complicado para investigar y reflexionar. Porque creo que en la teoría social se tiende a pensar que, a mayor exposición, se está más “dispuesto a”. No se trata de que estos sectores valoran la violencia. No estamos argumentando sobre valores, pero sí estamos señalando que al estar expuestos, aprenden a defenderse, a pegar una trompada, a ser más efectivo, a disciplinar a sus hijos, a manejarse en zonas del barrio. Esos chicos aprenden a lidiar con situaciones para las cuales mis hijos no están equipados. Eso no quiere decir que valoren más la violencia, sino que es otro repertorio de acción, otro habitus. A diferencia de la clase media, cuando un chico de diez años ya vio un cadáver, sabe dónde conseguir una bala, distingue entre calibres, se relaciona con la violencia de otra manera.
–¿En Argentina hay conciencia de este problema?
–A mí no me gusta hablar de una conciencia colectiva. Pero es cierto que el tema de la violencia que sufren estos sectores no es un tema que aparece con frecuencia en la discusión pública. Sí, en cambio, la que estos sectores perpetran sobre otros. El pibe chorro es una figura emblemática de la violencia. Y la discusión ronda en torno a cómo controlar a ese perpetrador, sin dar un debate sobre las condiciones que lo produce. Como apuesta política e intelectual, el libro propone mirar lo que pasa en estos lados, porque se sabe poco, se habla poco y se habla mal.
–¿Es correcto hablar de ghetto?
–La noción de ghetto, en Ciencias Sociales, se usa para características que no están presentes acá, porque hace referencia a cuestiones raciales de la población o de mecanismos de dominación racial. Sí es pertinente hablar de territorios segregados. Porque esta gente está bastante poco integrada con otras zonas de la Capital, toman peor agua, no tienen pavimento, van a peores escuelas. En ese sentido, hablo de margen urbano.
–Mencionaba el peso de la informalización, ¿cuánto colabora con este panorama el mercado ilegal de drogas?
–La economía de las drogas ilícitas es siempre un arma de doble filo. Las drogas pueden mantener a los barrios económicamente, y por el otro lado, los puede destruir. Yo no diría que es un mito que en Argentina ha aumentado el tráfico. Si se ven los mapas de distribución, hoy Argentina aparece en la región como un lugar, no sólo de paso, sino también de consumo: el mercado interno se ha consolidado. Cualquiera que haya estudiado cómo funciona este mercado sabe que en el Conurbano efectivamente ha aumentado el tráfico de drogas ilícitas. Pero la conexión entre drogas y violencia no se da exclusivamente por el efecto psicofarmacológico que produce. La mayor frecuencia de situaciones violentas producidas por las drogas es porque el mercado es ilegal y por ende inherentemente violento. Si a estos elementos –informalización, intervención de la policía, expansión del mercado de las drogas y su transformación interna– le sumás el trabajo en la Salada, el mercado localizado en donde hicimos trabajo de campo, uno entiende por qué es tan violento Arquitecto Tucci. Son miles de personas que salen con cash dos veces por semana. Así se presentan oportunidades para el crimen. El libro no intenta atribuir causalidad, pero es cierto que estos factores explican bastante.
–¿Funcionan esta concatenación de violencias como formas de control social?
–Me cuesta pensar que hay un agente detrás. Un plan, una intención de control. Efectivamente funciona sometiendo, fragmentando, debilitando, destruyendo a la gente que allí vive. No puedo decir que es un ejercicio de control de parte de los sectores dominantes. Ahora, el hecho de que una mujer tenga que acudir a la policía, que la sabe delincuente, para disciplinar su hijo, me parece una forma de lo más paradójica de gobernamentalidad, en el sentido foucaultiano de gobierno sobre las mentes y los cuerpos. Porque es el propio sujeto gobernado quien demanda ser gobernado. Este orden social está creando sufrimiento. Esto no ocurre porque los sectores populares, los pobres, son así. Ocurre porque el propio orden social ha creado esta monstruosidad.
–¿Cómo, cuándo y produciendo qué efectos el Estado interviene en las disputas de los más pobres?
–El Estado aparece de muchas maneras, con la Asignación Universal por Hijo, con la escuela, el hospital, y aparece, con mayor frecuencia y clandestinidad, en la forma de la policía. Me parece que es erróneo hablar de que no está presente. El Estado produce parte de esa violencia: cualquiera sabe en el barrio que la policía pacta con los transas. Y después está el Estado que provee la AUH. No es una realidad monocromática.
–¿Cómo reinterpretar a la luz de esta evidencia la AUH? ¿Alcanza? ¿Es un modelo?
–A veces me resulta extraño cuando leo en los diarios la perspectiva del progresismo hablando de la AUH. No sé si se han tomado el trabajo de ver qué lugar ocupa en el presupuesto de una familia marginada. Es una ayuda, una asistencia. Pero atribuirle efectos mágicos o empoderadores es, para hablar mal y pronto, delirante: en el mejor de los tiempos, cubre una semana de los gastos de una familia tipo. La AUH, para tener los efectos que se le atribuyen desde ciertas posiciones políticas, se debería multiplicar por diez. Debería ser un ingreso que cubra en serio las necesidades de los más pobres. Creo que es tan erróneo decir que los pobres no van a trabajar porque reciben la asignación, como atribuirle el efecto contrario: que es igualador, que empodera a los signatarios, porque eso tampoco se basa en la experiencia de quien la recibe. La gente que la cobra la valora mucho, es cierto. Es un programa que funciona, eso no hay duda. Pero no hay que sobredimensionar la cosa… en el país de los ciegos, el tuerto puede ser rey para la política, pero no para las Ciencias Sociales que investigan de manera cuidadosa.
–¿Cuánto margen de maniobra tiene la escuela?
–Fernanda, la otra autora del libro, que es maestra, apuesta por la función de la escuela como integradora, como posible actor del ascenso social. Me cuesta pensar en cuánto pueden hacer estas escuelas en las que chicos y chicas tienen dos horas y diez minutos promedio por día de horas efectivas de clase.
–En el libro trabajan con tasas de criminalidad y mencionan que no es correcto comparar con las de otros países. ¿Este es un proceso regional o es síntoma de que nuestra “estructura social” está más latinoamericanizada?
–Yo creo que buena parte de América Latina está asistiendo al crecimiento y la diversificación de la violencia. En ese sentido, se puede pensar en países como Venezuela, en donde la violencia comunitaria o familiar, o la vinculada a las drogas ha aumentado. En su naturaleza y en su intensidad. Hay nuevas formas de violencia coexistiendo. Pero no tiene mucho sentido citar las tasas en Centroamérica o Sudáfrica para comparar con Argentina. Te lleva a decirle a la gente que vive esa violencia, que lo viva como un estadística, es pedirle a la gente que viva su temor como lo estudia un demógrafo o un sociólogo. Otra mención sobre el trabajo con las tasas de criminalidad es la dificultad para encontrar datos. El Indec no me pudo proporcionar ni siquiera la cantidad de habitantes del barrio. Yo tuve otra relación con el Indec hace unos años. Si bien me costó mucho producir mis propios datos sobre criminalidad y violencia, tengo la confianza necesaria para decir que es una tendencia que existe en la Argentina.
–¿Qué soluciones hay?
–Yo creo que uno debe destacar el elemento estructural. Hay que volver a señalar que la raíz última es la informalización de la economía, la degradación de las condiciones de vida, la manera de operar del estado patriarcal. Pero sería muy útil pensar qué se puede hacer. Integrar al mercado laboral y al educativo, es una opción, pero además, hay que pensar otros problemas. ¿Cómo le pedimos a una mamá de un chico adicto, a la que el marido le pega, que viaje una hora a la comisaría de la mujer, y otra hora y media para tratar de internar al hijo? ¿Por qué no pensamos en una oficina del Estado que, para confrontar la violencia encadenada, integre su manera de tratar los problemas? En ese sentido es razonable decir que los más marginados están abandonados.
–En el libro hablan de una balcanización de las Ciencias Sociales para abordar la violencia, ¿también se puede hablar de una balcanización de las políticas públicas?
–La violencia está encadenada y la solución tiene que ser integral. Eso es lo que se desprende del libro. No podemos seguir tratando la adicción como un problema y la violencia doméstica como otro. En los efectos, la política pública está balcanizada. -<dl
One anthropologist’s place in his field’s ongoing battle over questions of power, means and ends.
Peter C. Baker
May 15, 2013 | This article appeared in the June 3, 2013 edition of The Nation.
In December 1919, Franz Boas, the German-born academic widely recognized as the father of American anthropology, published a letter in this magazine accusing four of his American colleagues—whom he did not identify—of having used their research positions as cover for engaging in espionage in Central America during the recently concluded war. Ten days later, the governing council of the American Anthropological Association voted 20 to 10 to censure Boas, claiming that his highly public letter was unjustified and in no way represented the AAA’s position. Boas was a founding member and former president of the association, so the censure was doubly humiliating; it essentially forced him to resign from both the AAA’s governing body and the National Research Council.
The Boas incident was the prelude to a century in which anthropology has been haunted by questions of means and ends. What sorts of alliances with power are worth it? What responsibilities (if any) do anthropologists have to the populations they study? Above all, to what extent has Western anthropology been fatally compromised by its associations—direct and indirect, public and covert—with a violent and imperial foreign policy? In several books, the anthropologist David Price has cataloged the substantial sums of money funneled from the military and intelligence community to academic anthropology over the years, as well as the contribution of American anthropologists to every significant war effort in modern US history. Most recently, ethnographers have joined the Army’s Human Terrain System program, designed to aid military operations in Iraq and Afghanistan by decoding the nuances of local culture. Price notes that although the revelation of these collaborations has often sparked heated short-term controversy, the disputes have passed without prompting broad, discipline-wide reform—or even conversation. After all, what anthropologist wants to spend time discrediting anthropology, a discipline that relies on trust, most importantly the trust of foreign governments and the subject populations that are the source of the discipline’s prized product of local knowledge? At what point are the ethical costs of doing anthropology too high, for ethnographers as well as the people they study?
That last question applies equally to anthropologists who may not work directly for the military or do fieldwork in areas explicitly labeled war zones. There is no better example than the career of Napoleon Chagnon, author of the bestselling anthropological text of the twentieth century, a slim volume called Yanomamö. Published in 1968, when Chagnon was 30, the book describes his fieldwork among the eponymous group of about 20,000 people who lived (and still live) in rainforest villages on both sides of the Venezuela-Brazil border. (Chagnon called them the Yanomamö, but most people who study the group call them the Yanomami.) Chagnon claimed—and now claims again in his recently published memoir, Noble Savages—that he arrived at his first Yanomami village in 1964 expecting to meet egalitarian natives living in harmony with nature and each other. This, he says, was what his University of Michigan anthropology professors had prepared him for. Instead, he found a way of life more reminiscent of Thomas Hobbes’s notion of the “state of nature”: an aggressive people mired in a cycle of inter-village combat, revenge begetting revenge and deception begetting deception. Death by murder was strikingly common, as was brutality toward women.
For Chagnon, the shock was immediate. No sooner had he and his guide arrived than they found themselves surrounded by “a dozen burly, naked, filthy, hideous men staring at us down the shafts of their drawn arrows! Immense wads of green tobacco were stuck between their lower teeth and lips making them look even more hideous, and strands of dark-green slime dripped or hung from their noses.” Whatever else might be said about this type of writing, with its blend of the lurid and the exotic, it appealed to American undergrads—or at least their professors assumed it did, and they kept assigning Yanomamö in Anthro 101. Before long, the book was in its second edition, then its third; a sixth came out last year. Chagnon has claimed, not unreasonably, that it has been read by as many as 4 million people, and it has certainly sold over 1 million copies. Unlike most other academic anthropologists, especially those writing in the 1960s, Chagnon brought lucidity and flair to his descriptions of fieldwork’s trials: the impossibility of staying clean and avoiding insects, the Sisyphean ordeal of trying to make a cup of oatmeal, the deep frustration of miscommunication, the loneliness. But it is obvious from reading Yanomamö that he also found the fieldwork to be a thrilling adventure. Trekking through the rainforest, a shotgun in one hand and a machete in the other; shooting tapir to roast over an open fire; building dugout canoes; forging friendships; tagging along for raids—Chagnon made cultural anthropology look more exciting than any textbook or tweedy professor’s lecture on kinship rituals. The book’s popularity has also benefited from the stylish films about the Yanomami that Chagnon made with the renowned visual ethnographer Timothy Asch.
In both the book and the films, there is a lot of fighting: chest-pounding matches, club fights, ax fights, raids, counter-raids, ambushes. Chagnon decided that Yanomami warfare was in large part about women, and specifically the question of who got to have sex with them. Women were regularly abducted from other villages during raids, and success in combat boosted a man’s social status, increasing his odds of securing wives for himself and his relatives. In order to reach this conclusion, Chagnon first constructed elaborate genealogies, tracing family trees across generations and far-flung villages to observe the relationship between blood ties and war patterns. This required not just learning the Yanomami language, but also overcoming his hosts’ frequent reluctance to supply the information he wanted. The most significant obstacle was a system of name taboos, including a prohibition against speaking a person’s name in that person’s presence and another against uttering the names of the dead.
The book was controversial from the start. Chagnon presented the Yanomami as a people living in the “state of nature,” untouched by the influence of modern civilization and nation-states, and so providing something of an undiluted example of humankind’s evolutionary ancestry. The possibility that these “primitive,” “Stone Age” people were killing each other not in competition over strategic resources, but specifically to improve their “reproductive fitness”—their odds of passing on their genes, either by reproducing themselves or by boosting the reproductive prospects of their relatives—was irresistible to proponents of the emerging field of sociobiology, which looks to natural selection to explain human social behaviors like altruism, the emergence of nation-states and war. The discipline’s recognition skyrocketed after the publication of E.O. Wilson’s influentialSociobiology: The New Synthesis in 1975; in subsequent editions of Yanomamö, Chagnon placed more emphasis on the role of biology in explanations of human behavior. For sociobiologists and their descendants, especially so-called evolutionary psychologists, such thinking was nothing short of a scientific revolution; for their detractors, among them cultural anthropologists, it was reductionist mumbo-jumbo at best, and politically dangerous at worst—the squeezing of the Yanomami and similar groups into categories crafted from Western assumptions to serve Western interests. The battles were heated and inseparable from competition over funding. The Yanomami became something of a prize token: for Chagnon’s defenders and critics, the fighting that occurred among this small group of people in the Amazon simply could not be what the other camp claimed it was, nor mean what the other side said it meant. Allegations of bad faith, often tinged with personal hostility, were as thick in the air as insects in the Amazon rainforest.
* * *
Even if the Yanomami are, or were, our “contemporary ancestors,” they live on land that is claimed by modern nation-states and happens to be rich in precious minerals. When the miners arrive, the Yanomami die, mostly from disease or poisonous chemical runoff, but sometimes also from shotgun blasts. During the 1980s and ’90s, anthropologists and indigenous rights groups became concerned about the possible effect that Chagnon’s theories might have outside the academy. This concern escalated after 1988, when Chagnon published an article in Science claiming that, among the Yanomami, men who killed other men also had the most wives and children. In 1989, the Brazilian Anthropological Association wrote to the AAA’s newsletter, arguing that Chagnon’s characterization of the Yanomami as a fundamentally “fierce people” (the subtitle of his book’s first three editions) was exaggerated to the point of falsehood, and less than helpful at a time when the Yanomami were under attack by miners and their allies in the Brazilian government, who were citing this supposedly endemic Yanomami violence as one of the reasons they should be segregated on twenty-one separate micro-reservations. As similar accusations circulated, it became increasingly difficult for Chagnon to obtain the permits required to do his work. In 1999, citing this obstacle, he announced his early retirement from the University of California, Santa Barbara, and returned to his home state of Michigan.
Around a year later, controversy about Chagnon’s Yanomami work reached a new level of scrutiny and public visibility, prompted by the publication of Patrick Tierney’s Darkness in El Dorado: How Scientists and Journalists Devastated the Amazon. Where previous Yanomami debates had rarely strayed beyond specialized academic venues, Tierney’s attack on Chagnon was published by W.W. Norton, a respected trade house, and garnered the attention of reviewers around the world. Tierney was at the time a journalist and indigenous rights activist; in Darkness in El Dorado, he took all the old complaints against Chagnon and wove them into a dramatic narrative of white men and the ruin they’d brought to the rainforest. His rogues’ gallery includes the French anthropologist Jacques Lizot, who for years used his store of foreign goods to pay Yanomami men and boys for sex. There was also the public television documentary crew that paid the Yanomami to dress and act differently (more “primitively”) than they otherwise would have—and then sat by, cameras rolling, while a young woman and her child died, despite having a motorboat that could have taken them to a hospital. There are miners and soldiers and corrupt politicians—and there’s Chagnon himself, whom Tierney portrays as the monomaniacal, violence-obsessed Colonel Kurtz of sociobiology, so entranced by the possibility of making a vital contribution to a beautiful, voguish theory that he lost all sight of Yanomami reality, research ethics and human decency.
In addition to rehashing—and, more than once, overcooking—the old accusations about Chagnon’s flawed assumptions, suspect methodology, dubious interpretations and their effects on the Yanomami, Tierney raised a new charge, one that seemed to dwarf the others in terms of its horror. The allegation related to a central aspect of Chagnon’s research program, one that had hardly been mentioned in his writings to date. The funding for Chagnon’s first few trips to South America came from the National Institute of Mental Health; but by 1967, Chagnon was collaborating with James Neel, a titan of modern genetics. Neel worked for the Atomic Energy Commission, the post–World War II agency created to study nuclear technology and its effects (including the infamous experiments in which Americans were exposed to large doses of radiation without their consent). As a geneticist, Neel saw the Yanomami as the closest link to our “evolutionary ancestors” he would ever get a chance to sample, an isolated population unaffected by industrialization or global conflict. Neel and Chagnon were both then based at the University of Michigan, and it was on Neel’s recommendation that Chagnon went to live with the Yanomami in the first place. Chagnon got AEC money; in return, whenever one of Neel’s teams wanted to collect blood and tissue samples, he served as their guide and translator.
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Though Neel had little concern for the specifics of Yanomami life and (according to Chagnon) a disdain for anthropology in general, he sometimes went on the sample-gathering trips. On one, in 1968, a measles outbreak was erupting just as his team arrived. In the account presented in Darkness in El Dorado, Neel and his team—despite delivering a thousand vaccines—made the epidemic worse, causing many more Yanomami to fall ill and die than would have otherwise. This was not, Tierney insinuated in the pre-publication proofs of the book sent to reviewers, a matter of neglect; instead, Neel had knowingly made the epidemic worse because it gave him the perfect chance to observe the immune systems of a virgin-soil population in action. In this account, a founding figure of modern genetics comes across as little different from a Nazi scientist, with America’s bestselling anthropologist as his willing handmaiden.
After Norton sent out the proofs of Tierney’s book, his tale of killer anthropologists started circulating at great speed on academic listservs. It was a “nightmarish story,” wrote two of Chagnon’s longtime critics in August 2000, “a real anthropological heart of darkness beyond the imagining of even a Josef [sic] Conrad (though not, perhaps a Josef Mengele).” Chagnon’s partisans set in motion efforts to discredit Tierney’s book page by page, hoping to stem the inevitable tide of bad press. Allies like Richard Dawkins, Edward Wilson, Steven Pinker, Daniel Dennett and Marc Hauser e-mailed people covering the book, urging them to denounce it. In late 2000, an excerpt appeared in The New Yorker, and the book—though still not released—was nominated for a National Book Award. Meanwhile, Tierney and Norton continued editing it, softening some of its more incendiary claims about the measles epidemic; when released, it still claimed that Neel had made the epidemic worse, but allowed that it had not been intentional.
Sensing the possibility of a public relations disaster for the entire discipline, the AAA’s leadership convened a task force to evaluate Tierney’s charges. This was highly unusual: unlike a state medical or legal board, for example, the AAA is not a licensing body; you need not be a member of the association to practice anthropology. (Chagnon canceled his membership in the late 1980s.) It has little in the way of meaningful investigative authority, and its ethics guidelines are notoriously muddled and difficult to apply. The task force’s preliminary report, released in 2001 soon after the book’s publication, concluded that Tierney’s argument was shot through with flaws: the accusation that Neel had worsened the measles epidemic, as one example, was found to be baseless and not even possible. But many of Tierney’s less sensational, more complex charges against Chagnon were substantiated, and the task force declared that the book was of definite value to the field. This satisfied no one, not least because of an obvious procedural failing: two of the task force’s members admitted to not having read the whole report.
The final report, released a few months later, was considerably more critical of Chagnon. But for his detractors, it was at best an imperfect attempt to grapple with fundamental questions, and at worst a PR move designed to hurry the discipline past an ugly episode. For Chagnon’s supporters, it was a disgraceful hatchet job, one more sign of cultural anthropology’s resentment over the encroachment of “hard” science onto its turf. Three years later, a referendum was put forth to rescind the report, on the grounds that the original task force had been illegitimate, biased and sloppy. Roughly 10 percent of the AAA’s members voted: 846 for, 338 against. The report was removed from the organization’s website, and the question of which, if any, of its conclusions had been true was left for die-hards to debate in academic journals and on their personal websites. There is little agreement even about what the controversy is exactly, and most often the people involved—tenured professors—do little more than talk past each other, bemoan the quality of debate, and then continue talking past each other. Davi Kopenawa, a prominent Yanomami activist, put it well: “I want to know how much they are making each month. How much does an anthropologist earn?… This is a lot of money. They may be fighting but they are happy. They fight and this makes them happy. They make money and fight.”
There were two other referendums on the ballot when the AAA voted to rescind the El Dorado report. One expressed a strong preference for holding the annual meetings at facilities staffed by unions; it passed by a vote of 695 to 624. The other was a repudiation of the 1919 censure of Franz Boas, whose accusations about anthropologist-spies had since been confirmed by researchers—including the fact that some of the men who voted to censure him were the spies he had declined to name out of respect for their safety. The language of the 2005 repudiation implied that the original censure had been a regrettable error from another era, the sort of mistake anthropology didn’t make anymore and hadn’t made for a long time. It passed by an overwhelming margin: 1,245 to 73.
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Chagnon’s retirement was not what he’d hoped for. In 2000, overcome by the stress of working to clear his name, but nonetheless seeing his alleged complicity with genocide become headline news around the world, he collapsed and was hospitalized. In subsequent years, he found it impossible to put the affair behind him:
I did not travel much, did not fish much, did not hunt grouse and pheasants over my German short-haired pointers, did not go to many concerts, did not read much fiction for pleasure, and did not spend more time with members of my family.
Instead, he set to work on a memoir. But he repeatedly scrapped what he’d written “because of the anger that kept creeping into my writing, giving it a very depressive tone.”
In Secrets of the Tribe, a recent documentary about anthropologists and the Yanomami, Chagnon responds to his critics mostly by repeating simplified versions of their charges in a sanctimonious tone. Despite his attempts to expunge the anger from his memoir, much of Noble Savages has a similar quality. As Chagnon sees it, his critics are a coalition of anthropological “ayatollahs” scrambling to protect their own authority from scientific rigor, “Marxist”-style “Thought Police” guarding the “politically correct” conventional wisdom, “postmodernists” unqualified to make claims about his conduct because they can’t even decide if the world exists, Catholic missionaries who wanted the Yanomami for themselves, and “barefoot” “activist” types less interested in studying the people of the world than in leading a witch hunt for the bad guy in the “office down the hall.” (The long history of overlap between American anthropology and the American military-intelligence sector is not mentioned.) These are the sorts of people, we are given to understand, who don’t care about what is true or not—the sort willing to smear a man to keep an ideology alive.
But Chagnon is in a bind: he’s written a memoir to refute the charges against him, but he finds the charges so baseless, and their existence so revolting, that he can barely be bothered to address them, or even to characterize them accurately. (In this sense, Noble Savages mirrors Darkness in El Dorado, which might have been more rigorous if Tierney hadn’t been so furious.) A telling example is Chagnon’s response to criticism from his fellow anthropologist Brian Ferguson. In 1995, Ferguson published Yanomami Warfare: A Political History, a book centrally concerned with countering Chagnon’s analysis of Yanomami life and violence. He disputed Chagnon’s interpretations of his own data (convincingly, I think), but also advanced a more fundamental objection: that the Yanomami had been in contact, direct and otherwise, with the “outside” world at several points long before Chagnon’s arrival, and that these moments of contact had influenced everything from where their villages were established to how they related to each other. Warfare was not the Yanomami historical norm, Ferguson said, and when war did break out, it had at least as much to do with the effects of encroaching nation-states and empires as it did with women and revenge. One crucial result of these moments of contact was the Yanomami’s acquistion of steel. Steel tools are many times more efficient than stone ones; when some villages came to possess more than others, it tilted the scales toward conflict, especially in times of hardship and deprivation, such as those caused by disease outbreaks (which even by Chagnon’s calculations were a more common cause of Yanomami death than violence).
Whatever the soundness and validity of Ferguson’s complex argument, it deserves more of a response than the single sentence that Chagnon has buried in an endnote: “Ferguson also claimed that I caused animosity, jealousy, and conflicts by the way I gave metal tools to the Yanomamö.” You can almost hear Chagnon snorting in disbelief. Because the endnotes lack corresponding numbers in the main text, the path the reader must take to them is unmarked. No reader will learn from Chagnon what Ferguson actually thinks. It is true that, in Yanomamö, Chagnon admitted to intentionally exploiting local animosities and conflicts to gain information, especially in his efforts to work past the Yanomami’s pesky name taboos. It is also true that Ferguson discusses Chagnon and other anthropologists’ habit of handing out steels tools in exchange for information, labor and blood samples. But to make this the centerpiece of his critique is absurd. It is also a measure of Chagnon’s narcissism that he reduces an argument about hundreds of years of history, empires and culture to an argument about himself. (Tierney is guilty of a similar fixation: when he cites Ferguson’s arguments in Darkness in El Dorado, he is also seemingly obsessed with the possibility that Chagnon himself had caused Yanomami warfare.)
The irony is that in Noble Savages, a story of an allegedly Stone Age people, steel and its influence are ubiquitous. One village Chagnon visited exists where it does, a missionary tells him, because its residents wanted to be near the missionaries and the steel tools they brought with them. His hosts lie to him about other villages—how far away they are, the dangers he can expect en route—so that he won’t leave and share his steel gifts with others. When he’s not watching, they break into his supplies and make off with knives and fishhooks. “The very word madohe [trade goods] stirs people,” Chagnon says. If machetes or axes are present, he observes, club fights can escalate to machete fights, increasing the likelihood of their participants being crippled or killed. Even after pointing all this out, Chagnon takes a position worthy of the National Rifle Association: machetes don’t kill Yanomami, Yanomami do.
Elsewhere in his memoir, though, he insists that the introduction of new technology can alter—and has altered—the way people relate to each other, even by encouraging them to kill each other. Missionaries from the Salesians of Don Bosco, a Catholic charity, gave shotguns to the Yanomami, something Chagnon refused to do “as a matter of principle.” The results, he says, were disastrous. “Although the shotguns did not make the Yanomamö warlike, I believe that they probably caused an increase in mortality rates…. Shotguns may have even made the Yanomamö more willing to attack their enemies because the shotguns were more efficient killing weapons than their bows and arrows.” And: “The introduction of shotguns at Salesian missions would most likely change traditional Yanomamö warfare patterns.”
The Salesians might be the only people Chagnon dislikes more than cultural anthropologists. From his perspective, they were determined to make the rainforest into a theocracy, controlling who came and went (including anthropologists) and luring the heathen Yanomami to their settlements so as to render them dependent on the goods they supplied. It was the Salesians, Chagnon theorizes, who pulled strings to get Tierney the permits he needed to do his research in the Amazon for Darkness in El Dorado. In 2010, he even speculated that they paid Tierney to write his book. As with the postmodern barefoot ayatollahs of anthropology, the Salesians are presented to us as ruthless Machiavellians. Chagnon all but accuses them of turning a blind eye to the inevitable result of their largesse: if the guns were being used for raids, or even making the raids more common, so be it—this would make the guns more valuable, and the missionaries with the guns more powerful still. So shotguns, it seems, can influence warfare patterns, but never machetes—and anyway, Chagnon writes, the Yanomami (a supposedly untouched people) had “possessed steel tools many years prior to my first trip.
Now and then, Chagnon will recognize that, yes, war is complicated, a cumulative result of many intertwined factors. He even draws attention to the difference between motive, on the one hand, and human statements about motive, on the other. If a Yanomami was bitten by a snake and died, Chagnon recalls, his fellow villagers might decide that the snake had been sent by a rival village—therefore providing a pretext for revenge, which might involve seizing control of some strategic resources. Such behavior should sound familiar: quite recently, the leader of the most powerful nation on earth organized the invasion of another, oil-rich nation, claiming that he was acting on God’s personal instructions. The leader of the invaders also pointed out that, in addition to possessing terrible new weapons, the oil-rich country’s leader had once tried to kill his father. Oil was never mentioned: the history of war is a history of obfuscation about its motives. But whenever the Yanomami tell Chagnon that they’re fighting over women, he takes it as a direct expression of fact—one that, conveniently enough, supports the theory that for the Yanomami, as for all our ancestors, warfare was essentially about reproduction and its kissing cousin, revenge.
* * *
For all his claims to be working in opposition to the archetype of the noble savage, Chagnon is implicitly committed to the idea that the Yanomami he met were in some sense completely different from us—that they lived, to borrow a phrase from the pop science writer Jared Diamond, in a premodern sliver of the “world until yesterday” preserved in our midst. The Yanomami are, at different points in Chagnon’s book, “wild,” “primitive” and “Stone Age”—never mind all their steel, or the fact that they rely on farming, not hunting or gathering, for 70 percent of their diet. Never mind that none of their primary crops—bananas and plantains—are indigenous to the Amazon or even South America. No, the Yanomami are “pristine,” “pure,” “special,” even noble: “I have chosen to call this book Noble Savages,” Chagnon writes, “in part because the Yanomamö I lived among had a certain kind of nobility that most anthropologists rarely see in acculturated and depopulated tribes that have been defeated by and incorporated into the political states in whose jurisdiction they reside.”
When it comes to describing the definitively unpristine Yanomami—those who, even by his standard, have had extended contact with “civilization”—Chagnon vacillates between pity, disdain and (most often) disinterest. Readers of Noble Savages will learn almost nothing of contemporary Yanomami or their politics. They will certainly not learn about the assemblies at which representatives from different villages discuss the ongoing threats to their existence posed by mining interests, and the future of their relationships with Venezuela and Brazil. Yanomami have even traveled to the United States—not just to speak about the Chagnon controversy, but also to request the return of the blood samples gathered by research teams, including those led by James Neel. The Yanomami argue that they never consented to the indefinite storage of bodily materials in far-away freezers, a practice that violates their burial customs. (In 2010, several research facilities agreed to return the blood.) Chagnon says not one word about any of this; he’s too busy calling Yanomami leaders the puppets of Salesian missionaries, who are using them to advance their anti-Chagnon, anti-science agenda.
Chagnon’s fixation on those Yanomami he judged “pristine,” and his disinterest in any he’d determined to be “acculturated,” took its most explicit turn in 1990, when he was contacted by Cecilia Matos, the mistress of Venezuela’s then-president, Carlos Andrés Pérez. As Chagnon tells it, Pérez’s political career was winding down, and Matos wanted him to beef up his legacy by doing something to benefit people like the Yanomami. Though Chagnon had started a Yanomami Survival Fund in 1988, there is no evidence that he ever delivered any money to the people it was named for. The one time he was asked for advice about safeguarding the Yanomami’s living conditions, Chagnon recommended a rainforest biosphere project that would protect their land—but not all of it, just those parts whose inhabitants Chagnon deemed sufficiently untouched. About four-fifths of Yanomami lands in Venezuela would be unprotected, and so more open to mining concerns.
This aspect of the proposal goes unmentioned in Noble Savages; all Chagnon says, in his three-page account of the incident, is that before the project could be implemented, the usual network of detractors went to work spreading lies, which prompted hysterical protests, and so the project died. He doesn’t say that a similar project that included almost all Yanomami land was launched the following year. More damningly, he doesn’t tell his readers that in 1993 Pérez was impeached, removed from office and jailed after getting caught siphoning millions of dollars’ worth of public funds to private accounts he shared with his mistress. Matos was to be arrested too, but she fled the country; on her arrest order, she was accused of, among other things, misappropriating state resources to get a noble-sounding biosphere project running as a front for more profitable activities. Almost every commentator on the Chagnon saga, even among his army of vociferous allies, has agreed that his participation in this project, however tangential, was at the very least bad judgment. In a recent New York Times Magazine profile, Chagnon swatted away such accusations. In exchange for his help, Pérez had restored his research permit. “I got a year’s worth of data,” he said. “It was worth it for that reason.”
At the end of the Secrets of the Tribe documentary, Patrick Tierney says, “I don’t think that there’s any way [Chagnon’s defenders] can salvage [him] in the long run.” Time will tell, but I’d wager that Tierney is wrong: he is too enamored of the idea that scandal might lead to change, and too optimistic about facts trumping ideology (which is, of course, what Chagnon claims to hope for, too). Chagnon’s basic conclusions about the Yanomami were cited uncritically in Jared Diamond’s bestseller The World Until Yesterday, published in December [see Stephen Wertheim, “Hunter-Blatherer,” April 22]. Early reviews of Noble Savages were almost all positive. In a triumphant blurb, the anthropologist Robin Fox calls it the “final knockout punch in a fight [Chagnon] didn’t pick but has most assuredly won.” Chagnon was recently asked by the University of Michigan, his alma mater, to organize his life’s work into a digital archive for use by academics around the world. And last year, he was voted into the National Academy of Sciences.
In response, his old University of Michigan professor Marshall Sahlins resigned from the academy, citing not only Chagnon’s election but also the recruitment of NAS anthropologists by the US military. “The two are connected,” he told me recently. “Chagnon’s research and the imperial venture are both based on the same assumption, that pursuit of material self-interest is the natural human condition—the obvious, natural, best thing for the individual and the nation.”
Online, Chagnon’s fans have been selling T-shirts that caricature his critics’ positions as: Napoleon Chagnon kicked my dog! Word is the man himself thinks they’re hilarious and has ordered a bunch for friends and family. This semester, at age 74, Chagnon joined the anthropology department at the University of Missouri. “I feel like a battleship,” he told the campus newspaper, “shaking off the mothballs and taking to the high seas again.” Let’s christen it the USS Machete.
In “Library Man” (Feb. 7, 2011), Thomas Meaney reviewed Patrick Wilcken’s biography of Claude Lévi-Strauss, “a poet in the laboratory of anthropology.”
Read more: http://www.thenation.com/article/174369/fight-clubs-napoleon-chagnon#ixzz2VSi1oT30
29/5/2013
A situação é grave na Usina Hidrelétrica Belo Monte. Os indígenas que ocupam pelo terceiro dia e pela segunda vez no mês o principal canteiro da barragem temem que uma tragédia de grandes proporções aconteça, com a autorização judicial da entrada da polícia para efetuar o despejo. Para eles, o governo está ameaçando repetir o confronto ocorrido na aldeia Teles Pires em novembro do ano passado, onde a Polícia Federal assassinou um indígena Munduruku e deixou dezenas de outros feridos.
Em coletiva à imprensa, Candido Waro declarou que os indígenas ocupados não irão cumprir a reintegração de posse. “Nós não vamos sair. Nós vamos morrer aqui, o governo vai matar todo mundo”, afirmou a liderança munduruku em coletiva à imprensa. O indígena reafirmou que o governo não tem cumprido com as exigências constitucionais no processo de consulta.
“O governo está preparando uma tragédia”, afirma Paygomuyatpu Munduruku. “Nós não vamos sair daqui. O governo tem nos ignorado, ofendido, humilhado, assassinado”. Para ele, está claro que o governo está tentando sufocar o movimento. “Ele já matou uma vez e vai matar de novo. Eles mataram porque nós somos contra as barragens”, explica. Os indígenas se mostraram “ofendidos” com a declaração do ministro Gilberto Carvalho à rede Globo de que ele não teria sido “comunicado oficialmente” sobre a vontade dos Munduruku de se reunirem com o governo federal.
VIOLÊNCIA POLICIAL
Além da pressão do governo federal, os indígenas têm sofrido diariamente ameaças e intimidações dos policiais que residem no canteiro de obras, e daqueles que estão cercando o empreendimento. O vídeo abaixo, registrado por um indígena dentro da ocupação, mostra um policial intimidando e ameaçando os manifestantes, ao apontar armas e dizer que vai “quebrar” um indígena.
Para o grupo que ocupa o canteiro, a única saída é que o governo federal, na figura do ministro Gilberto Carvalho ou da presidente Dilma Rousseff, vão ao canteiro e se comprometam a cumprir a pauta dos indígenas. Eles exigem a suspensão de todos os estudos e obras de barragens que afetem seus territórios até que sejam consultados como previsto por lei.
14/05/2013 – 16h32
A tentativa de transformar homossexuais em héteros usando métodos “científicos” já tem mais de 150 anos. A medicina, segundo os pesquisadores James Naylor Green e Ronaldo Polito, já tentou de tudo para “curá-los”.
“Confinamento, choques elétricos, medicação pesada, tratamento psicológico ou psiquiátrico, psicanálise individual, de grupo e familiar, camisa de força, transplante de testículos, eis aí algumas das “técnicas” de intervenção no corpo e na mente dos homens que preferem se relacionar afetiva e sexualmente com outros homens”, contam em “Frescos Trópicos”.
O título faz parte da coleção “Baú de Histórias”, coordenada pela historiadora Mary Del Priore, autora “Histórias Íntimas”, “Ancestrais: Uma Introdução à História da África Atlântica”, “A Família no Brasil Colonial”, “500 Anos Brasil: Histórias e Reflexões, “Festas e Utopias no Brasil Colonial” e“Matar para Não Morrer” e do recém-lançado “O Castelo de Papel”.
No livro, os autores examinam o período entre as décadas de 1870 e 1980, fundamentados em informações publicadas nessa época. Abaixo, leia trecho de “Frescos Trópicos”.
“Pode-se dizer que a medicina, nos últimos 150 anos, já tentou ou propôs de tudo para a “cura” dos homossexuais. Confinamento, choques elétricos, medicação pesada, tratamento psicológico ou psiquiátrico, psicanálise individual, de grupo e familiar, camisa de força, transplante de testículos, eis aí algumas das “técnicas” de intervenção no corpo e na mente dos homens que preferem se relacionar afetiva e sexualmente com outros homens.
Entre inúmeros exemplos do passado, citemos Pires de Almeira, em “Homossexualismo”, de 1906, que propõe um tratamento específico para os invertidos. Mas, primeiro, vamos entender o que ele chama de “invertido”: “é aquele que, de nascença, é já invertivo, e que, em toda a associação sexual, representa o papel de macho: é, pois, um macho mais macho, se se trata de um homem”. “Invertidos”, portanto, nascem homossexuais, diferentemente dos “pervertidos” que, segundo o autor, “depois de terem sido já sexuais normais, se tornaram invertidos por qualquer motivo”.
Para Pires de Almeida, o tratamento dos “pervertidos” é somente um pouco mais simples do que dos “invertidos”. Para estes ele recomenda, entre outros procedimentos:
“O invertido deveria ser acompanhado desde a infância, vigiado por uma espécie de tutor que, à feição de um aparelho ortopédico moral, fosse-lhe obstáculo ao desvio, trabalhando pertinentemente para que a consolidação se efetue em absoluto. (…)
Antes de tudo, devemos lembrar que tais desregramentos são puramente moléstias mentais; e, por isso, aconselharei, quando não tenhamos acompanhando o indivíduo desde a infância, e hajamos iniciado o tratamento em idade tardia, medicá-lo pela estética sugestiva; isto é, por meio do magnetismo e da sugestão combinados: bem orientar-lhe o espírito, dirigindo sua atenção para a beleza das formas femininas, cercá-lo de modelos célebres em pintura, na estatuária principalmente, e obrigá-lo à leitura de obras românticas em que tais belezas despertem as paixões tumultuosas. Facilitar-se-lhe-á o encontro com mulheres plasticamente sensuais, fáceis às carícias, graciosas, faceiras; não se hesitará até diante de certos subterfúrgios a princípio, tal como, por exemplo, o de provocar o coito do invertido com mulheres vestidas de homem; ou mesmo obrigá-lo a pernoitar com mulheres completamente nuas, ainda que não as goze.
Se, porém, existe, da parte do doente, repulsão invencível para as sociedades ambíguas, recorrer-se-á à convivência em outro meio: mulheres atraentes, sim, porém puras, puríssimas, virtuosas: o seio perfumado das famílias.”
“Frescos Trópicos”
Autores: Ronald Polito, James Naylor Green
Editora: José Olympio
Páginas: 196
Quanto: R$ 23,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
Homofobia deve ser tratada como doença, diz analista
‘Amor entre Meninas’ fala sobre o momento de ‘sair do armário’
Leia relato de adolescente transgênero
How the hyperkinetic media is breeding a new generation of terrorists.
BY SCOTT ATRAN | APRIL 22, 2013

“Americans refuse to be terrorized,” declared President Barack Obama in the aftermath of the Boston Marathon bombings. “Ultimately, that’s what we’ll remember from this week.” Believe that, and I’ve got a bridge to sell you in Brooklyn.
The Boston bombings have provoked the most intense display of law enforcement and media coverage since the 9/11 attacks. Greater Boston was in full lockdown: “a ghost town,” “a city in terror,” “a war zone,” screamed the headlines. Public transit was stopped, a no-fly zone proclaimed, people told to stay indoors, schools and universities closed, and hundreds of FBI agents pulled from other pressing investigations to focus exclusively on the case — along with thousands upon thousands of other federal, state, and city agents equipped with heavy weapons and armored vehicles. It all came close to martial law, with all the tools of the security state mobilized to track down a pair of young immigrants with low-tech explosives and small arms who failed to reconcile their problems of identity and became suspected amateur terrorists.
Not that the events weren’t shocking and brutal. But this law enforcement and media response, of course, is part of the overall U.S. reaction to terrorism since 9/11, when perhaps never in history have so few, armed with so few means, caused so much fear in so many. Indeed, as with the anarchists a century ago, last week’s response is precisely the outsized reaction that sponsors of terrorism have always counted on in order to terrorize.
Nothing compares to the grief of parents whose child has been murdered like 8-year-old Martin Richard, except perhaps the collective grief of many parents, as for the 20 children killed in last December’s school massacre in Newtown, Conn. Yet, despite the fact that the probability of a child, or anyone else in the United States, being killed by a terrorist bomb is vastly smaller than being killed by an unregistered handgun — or even by an unregulated fertilizer plant — U.S. politicians and the public seem likely to continue to support uncritically the extravagant measures associated with an irrational policy of “zero tolerance” for terrorism, as opposed to much-more-than-zero tolerance for nearly all other threats of violence. Given the millions of dollars already spent on the Boston bombing investigation and the trillions that the national response to terrorism has cost in little more than a decade, the public deserves a more reasoned response. We can never, ever be absolutely safe, no matter how much treasure we spend or how many civil liberties we sacrifice.
While there is always the chance that investigators will find foreign connections and broader plots beyond the doings of the two men suspected in the Boston bombing, our knowledge about terrorism suggests that what we already know about the April 15 bombing does not justify the disproportionate and overwrought response, including the “global security alert” U.S. authorities issued through Interpol for 190 countries. Even if the suspected Boston bombers prove to be part of a larger network of jihadi wannabes, as were the 2005 London subway suicide bombers, or had planned more operations before dying in a blaze of glory, as did the 2004 Madrid train bombers, these would-be knights under the prophet’s banner could never alone wreak the havoc that our reaction to them does.
The brothers Tsarnaev, the suspected Boston bombers, have been described by neighbors, friends, and relatives as fairly normal young men — regular Cambridge kinds. They left the Chechen conflict years ago and immigrated to the United States as asylum seekers under the U.S. government’s refugee resettlement program. Tamerlan, the oldest, was married with a 3-year-old daughter. A former Golden Gloves heavyweight boxer who once thought of competing for the United States, he had been increasingly drawn to radical Islam in the last few years. In a photo essay about his fondness for boxing, he worried, “I don’t have a single American friend; I don’t understand them.” He complained, “There are no values anymore,” forswearing drinking because “God said no alcohol.” Tamerlan’s YouTube page posts videos of radical Islamic clerics from Chechnya and elsewhere haranguing the West as bombs explode in the background. In 2011, the FBI interviewed Tamerlan at Russia’s request about connections to Chechen extremists, but the investigation found “no derogatory information.” Although Russian forces withdrew from Chechnya in 2009, violence has persisted in neighboring Dagestan, where Tamerlan visited his father last year and perhaps linked up with jihadi instigators who motivated him to act. Like the father of 9/11 pilot bomber Mohamed Atta, Tamerlan’s father claims his boy was framed and murdered. In his last reported phone communication, on Thursday, just hours before the police shootout began, he called his mother.
The younger brother, Dzhokhar, a sophomore at the University of Massachusetts in Dartmouth, played intramural soccer. On the day after the bombing he went to the dorms, worked out at the gym, and that night went to a party attended by some of his soccer buddies. Known to his friends as Jahar, he entered the university on a scholarship but lately had been failing his classes. He hung out with other students, had an easy relationship with the other young men and women, hardly ever talked politics, and was never pegged as an Islamist activist or sympathizer or even as particularly religious. Whereas relatives, friends, and teachers consistently describe Jahar as “always smiling,” “with a heart of gold,” acquaintances say Tamerlan never smiled and was aggressive. One cousin said he warned Jahar about being susceptible to the negative influence of the older brother he loved. In the last few months, Jahar’s tweets began turning darker: “i won’t run i’ll just gun you all out #thugliving,” “Do I look like that much of a softy … little do these dogs know they’re barking at a lion,” “I killed Abe Lincoln during my two hour nap #intensedream.” But declaring this wayward killer — and a naturalized citizen, at that — an “enemy combatant” borders on Orwellian.
Under sponsorship by the Defense Department, my multidisciplinary, multinational research team has been conducting field studies and analyses of the mental and social processes involved in radicalization at home and abroad. Our findings indicate that terrorist plotters against Western civilian populations tend not to be parts of sophisticated, foreign-based command-and-control organizations. Rather, they belong to loose, homegrown networks of family and friends who die not just for a cause, but for each other. Jihadists pretty much span the population’s normal distribution: There are very few psychopaths and sociopaths, few brilliant thinkers and strategists. Jihadi wannabes today are mostly emerging adults in transitional stages of their lives — students, immigrants, in search of jobs or companions — who are especially prone to movements that promise a meaningful cause, camaraderie, adventure, and glory. Most have a secular education, becoming “born again” into the jihadi cause in their late teens or 20s. The path to radicalization can take years, months, or just days, depending on personal vulnerabilities and the influence of others. Occasionally there is a hookup with a relative, or a friend of a friend, who has some overseas connection to someone who can get them a bit of training and motivation to pack a bag of explosives or pull a trigger, but the Internet and social media are usually sufficient for radicalization and even operational preparation.
The result is not a hierarchic, centrally commanded terrorist movement but a decentralized, self-organizing, and constantly evolving complex of social networks based on contingent adaptations to changing events. These are no real “cells,” but only clusters of mostly young men who motivate one another within “brotherhoods” of real and fictive kin. Often, in fact, there is an older brother figure, a dominant personality who mobilizes others in the group. But rarely is there an overriding authority or father figure. (Notably, for these transitional youth, there’s often an absence of a real father).
Some of the most successful plots, such as the Madrid and London bombings, are so anarchic, fluid, and improbable that they succeeded in evading detection despite the fact that intelligence and law enforcement agencies had been following some of the actors for some time. Three key elements characterize the “organized anarchy” that typifies modern violent Islamic activism: Ultimate goals are vague and superficial (often no deeper than revenge against perceived injustice against Muslims around the world); modes of action are decided pragmatically on the basis of trial and error or based on the residue of learning from accidents of past experience; and those who join are not recruited but are locally linked self-seekers — often from the same family, neighborhood, or Internet chat room — whose connection to global jihad is more virtual than material. Al Qaeda and associates do not so much recruit as attract disaffected individuals who have already decided to embark on the path to violent extremism with the help of family, friends, or a few fellow travelers.
Like the young men who carried out the Madrid and London attacks, most homegrown jihadi plotters first hook up with the broad protest sentiment against “the global attack on Islam” before moving into a narrower parallel universe. They cut ties with former companions who they believe are too timid to act and cement bonds with those who are willing to strike. They emerge from their cocoon with strong commitment to strike and die if necessary, but without any clear contingency planning for what might happen after the initial attack.
For the first time in history, a massive, media-driven political awakening has been occurring — spurred by the advent of the Internet, social media, and cable television — that can, on the one hand, motivate universal respect for human rights while, on the other, enable, say, Muslims from Borneo to sacrifice themselves for Palestine, Afghanistan, or Chechnya (despite almost no contact or shared history for the last 50,000 years or so). When perceived global injustice resonates with frustrated personal aspirations, moral outrage gives universal meaning and provides the push to radicalization and violent action.
But the popular notion of a “clash of civilizations” between Islam and the West is woefully misleading. Violent extremism represents not the resurgence of traditional cultures, but their collapse, as young people unmoored from millennial traditions flail about in search of a social identity that gives personal significance. This is the dark side of globalization.
Take Faisal Shahzad, the would-be bomber of Times Square in 2010, or Maj. Nidal Hasan, who killed 13 fellow soldiers at Fort Hood in 2009. Both were apparently inspired by the online rhetoric of Anwar al-Awlaki, a former preacher at a Northern Virginia mosque who was killed by a U.S. drone in Yemen in 2011. Although many commentators leapt to the conclusion that Awlaki and his ilk deviously brainwashed and recruited Shahzad and Hassan, in fact they sought out the popular Internet preacher because they were already radicalized to the point of wanting further guidance to act. As Defense Department terrorism consultant Marc Sageman notes: “Just like you saw Major Hasan send 21 emails to al-Awlaki, who sends him two back, you have people seeking these guys and asking them for advice.” More than 80 percent of plots in both Europe and the United States were concocted from the bottom up by mostly young people just hooking up with one another.
Especially for young men, mortal combat with a “band of brothers” in the service of a great cause is both the ultimate adventure and a road to esteem in the hearts of their peers. For many disaffected souls today, jihad is a heroic cause — a promise that anyone from anywhere can make a mark against the most powerful country in the history of the world. But because would-be jihadists best thrive and act in small groups and among networks of family and friends — not in large movements or armies — their threat can only match their ambitions if fueled way beyond actual strength. And publicity is the oxygen that fires modern terrorism.
It is not by arraying “every element of our national power” against would-be jihadists and those who inspire them that violent extremism will be stopped, as Obama once declared. Although wide-ranging intelligence, good police work, and security preparedness (including by the military and law enforcement) is required to track and thwart the expansion of al Qaeda affiliates into the Arabian Peninsula, Syria (and perhaps Jordan), North Africa, and East Africa, this is insufficient. As 2012 U.S. presidential candidate Mitt Romney quipped, “We can’t kill our way out of this mess.” In the United States, there are many pockets of displaced immigrant and refugee young people with even more than the usual struggles of personal development. Young Somalis seem to be having particular difficulty, and a small few are moving to the path of violent jihad. This is a good time to think about how we relate to them, though there are probably more easy mistakes than easy solutions. But political attempts to relate these problems to the very different issue of illegal immigration only adds to the scaremongering.
We need to pay attention to what makes these young men want to die to kill, by listening to their families and friends, trying to engage them on the Internet, and seeing whom they idolize, how they organize, what bonds them, and what drives them. U.S. power won’t stop the self-seeking, and preaching “moderate” Islam (or moderate anything) is hardly likely to sway young men in search of significance and glory. And even if every airplane passenger were to be scanned naked or every American city locked down, it would not stop young men from joining the jihad or concocting new ways of killing civilians.
Terrorists are directly responsible for violent acts, but only indirectly for the reaction that follows. Objectively, terrorist acts on even a 9/11 scale could never seriously harm American society; only our reaction can. By amplifying and connecting relatively sporadic terrorist acts into a generalized “war” or “assault on freedom,” the somewhat marginal phenomenon of terrorism has become a primary preoccupation of the U.S. government and American people. In this sense, Osama bin Laden has been victorious beyond his wildest dreams — not because of anything he has done, but because of how we have reacted to the episodic successes he inspires.
There are several ways to react to the political hype and media amplification of terrorism. Doing nothing and allowing this frenzied media environment to continue will only encourage future attacks; meanwhile, reporting that rushes to judgment and complements law enforcement’s denial of Miranda rights will only erode confidence in the integrity and fairness of the American press and U.S. government institutions. Legal regulation of media, as in many other countries, may not be compatible with a free society and if tried would certainly provoke persistent opposition and deep outrage. For example, previous attempts by the British government to ban interviews with terrorists and their supporters backfired. As the 6th U.S. Circuit Court of Appeals noted in 2002, “Democracies die behind closed doors.” Even noncoercive guidelines are likely to incite widespread resistance. As former New York Times Executive Editor A.M. Rosenthal put it: “The last thing in the world I want is guidelines. I don’t want guidelines from the government … or anyone else.”
But voluntary self-restraint by the media, which is less intrusive and supported by many, is not only possible but manageable. (Venerable journalist Edward R. Murrow, informed by President Franklin D. Roosevelt on the specifics of the Pearl Harbor attack, declined the scoop and didn’t file his report until the administration could formulate a reasoned response.) Of course, “gentle censorship,” like the initially successful attempts by George W. Bush’s administration to prevent airing of bin Laden messages or talks with terrorists, can seriously hamper the flow of knowledge necessary for understanding what makes terrorists tick and how to thwart them.
The First Amendment enables the news media to watchdog the republic and help prevent government excesses and abuses so that a well-informed public can monitor and decide where government policy should go. Yet the media is increasingly less a public service devoted to this task than a competitive business that believes it best succeeds through sensation, which violence privileges. For example, the typical television news story has declined from an average of several minutes in the 1950s and 1960s to today’s repeated sound bites — often no more than a few seconds — that sensationalize the spectacular. And despite the fact that one of the suspected Boston bombers is now dead and the other in custody, it can be argued that their terrorism succeeded through the spectacular theater of last week’s events, capturing our attention and stoking our deepest fears.
We can break this real, if unplanned, alliance between terrorism and the media through better reporting for the social good, which may prove to be the best business strategy of all. When we practice restraint and show the resilience of people carrying on with their lives even in the face of atrocities like that in Boston, then terrorism fails.
Scott Atran, an anthropologist at John Jay College, the University of Michigan, and Oxford University, is co-founder of ARTIS Research and author of Talking to the Enemy.
Por Ana Aranha | Reportagem 3 por 4 – 18.abr.2013
Os seis trabalhadores da construção civil estavam perdidos em meio à floresta amazônica, no norte de Rondônia. Algumas horas antes, eles tinham corrido mato a dentro para fugir do caos que tomara o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, onde a Polícia Militar reprimia o movimento grevista, em 2011. Depois de andar cerca de seis quilômetros, o grupo tentava encontrar o caminho de volta à obra, ou a estrada, ou qualquer sinal de urbanidade. Sem sucesso.
Ao invés disso, foram encontrados.
Sem perceber que estavam sendo cercados, os trabalhadores uniformizados se viram rodeados por oito índios nus. Eles tinham o rosto e corpo pintados, flechas em punho e “murmuravam” palavras em uma língua que os trabalhadores não conheciam. Mas logo interpretaram o sentido: estavam rendidos.
Índios isolados no Acre, fotografados pela Funai em 2008
Hoje, excepcionalmente, esse espaço não será dedicado a um retrato, mas a um encontro. Encontro que pode servir de pista para compor o retrato dos povos indígenas que habitam o nosso país e os quais temos tanta dificuldade de entender.
Assustados, os trabalhadores da usina se comportaram como prisioneiros dos índios. Seguiram seus passos e pararam quando eles sinalizaram. O coração disparava a cada vez que os índios se reuniam em círculo. Observaram a construção de uma espécie de churrasqueira com gravetos, onde um porco do mato foi assado. Disfarçando o mal estar, comeram cada pedaço de carne que lhes foi oferecido. À noite, um dos trabalhadores foi repreendido pelos colegas por espiar os seios da índia mais nova, a regra era olhar para o chão.
A madrugada avançou, alguns índios deitaram e adormeceram. Os trabalhadores ficaram alertas. Pela manhã, caminharam até chegar a um local onde se ouvia um barulho familiar. Os índios sinalizaram em direção ao som, disseram algumas frases que ninguém entendeu e foram embora. Os trabalhadores correram na direção indicada até que, exaustos, chegaram à rodovia federal BR 364.
Esse relato foi registrado pela historiadora Ivaneide Bandeira Cardozo, da ONG indigenista Kanindé, que entrevistou um dos trabalhadores na presença de um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio). Ela acredita que os homens e mulheres descritos sejam parte de um grupo que a entidade e a Funai tentam rastrear há anos. “Pela descrição, parecem ser Kawahiba isolados”.
“Isolados” são os índios que não têm contato com a nossa sociedade, ou porque nunca cruzaram com um não-índio (casos cada vez mais raros) ou porque recusam o contato.
Na região que foi alagada pela usina de Jirau, havia rastros de um grupo isolado e nômade. A empresa repassou dinheiro para que a Funai mapeasse esses rastros. Depois de identificados, eles deveriam ganhar uma área de proteção. Mas o investimento não foi suficiente para encontrar ou proteger os índios.
Ao contrário, foram eles que encontraram e salvaram os funcionários da usina. “É difícil entender o que passou na cabeça dos índios quando viram os trabalhadores perdidos”, reflete Ivaneide. “Por que decidiram ajudar? Nunca vamos saber”.
O encontro ocorrido em 2011 é o reflexo oposto do desencontro que se deu na Câmara dos Deputados essa semana. Na terça dia 16, em uma cena inédita, os deputados federais correram pelo plenário como uma manada assustada. Fugiam de homens seminus, pintados de urucum e que balançavam seus chocalhos para protestar contra a mudança da lei que define como as terras indígenas são demarcadas.
Se o comportamento dos índios isolados e dos deputados deixa alguma pista, é que continuamos longe de entender os povos que habitam a nossa terra.
Quando retornaram à usina, os trabalhadores contaram sobre o encontro, mas o supervisor deu risada, chamando-os de mentirosos. Como se fosse impossível haver índios nas proximidades da obra, cravada no meio da floresta amazônica.
Para Ivaneide, a precisão dos detalhes é a maior evidência da veracidade da história. “Os trabalhadores eram de outros estados, uma pessoa sem convivência com indígenas não poderia saber tanto. Ele descreveu a pintura no peito, os traços no rosto dos homens, diferente das mulheres, a pena do gavião real, como tratavam a ponta das flechas. Até os detalhes de como montaram o moquém, que é onde assam a carne”. Segundo ela, o relato bate com hábitos comuns a etnias que vivem ou viveram na região, algumas consideradas extintas.
Existem 82 pistas de grupos indígenas isolados no Brasil, é a maior concentração de povos isolados do mundo. Em março desse ano, os funcionários da Funai fizeram uma carta aberta com um “pedido de socorro”. Nela, escrevem que não há equipe para proteger esses grupos, cujos territórios estão sendo invadidos pelas grandes obras, madeireiros e traficantes.
Como lidar com índios isolados é um dos temas mais complexos dentro da política indigenista. Talvez a pequena mensagem deixada pelo grupo que resgatou os trabalhadores e pelos que invadiram o congresso seja justamente sobre os nossos limites. Os índios tem um modo diferente de ser, nem sempre seremos capazes de entende-los. Talvez esses encontros sejam os momentos para refletir sobre os impactos das nossas escolhas. E fazer um esforço para, a partir dessa nova realidade, respeitar as escolhas deles.
By Associated Press, Published: April 18
Survival International said in a statement that authorities have ignored a federal judge’s deadline “to evict all invaders from the heartland of Earth’s most threatened tribe by the end of March.” It said the deadline passed and not a single illegal logger or settler has been evicted.
The organization said the Awa tribe “is at extreme risk of extinction.”
It added that Funai, Brazil’s indigenous affairs agency was “still waiting for support from the Justice Ministry, the federal police and central government to evict the invaders.”
Funai’s press office said it had no immediate comment. Calls to the Justice Ministry and federal police went unanswered.
Survival International said that more than 30 percent of Awa territory has been deforested and that loggers are “rapidly closing in on their communities and have already been marking trees for deforestation.
It quotes an Awa Indian called Haikaramoka’a, as saying: “The loggers are ruining our forest. They have built roads. We are scared; they could go after the uncontacted Indians. We are scared because the loggers could kill us, and the uncontacted Indians.”
About 100 of the 450 Awa remain uncontacted and are at particular risk of diseases brought in by the outsiders. Survival International said.
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Thiago Pimenta – Portal EBC 12.04.2013 – 14h28 | Atualizado em 13.04.2013 – 17h09

Gersem Baniwa (Daiane Souza/UnB Agência)
Após manifesto de funcionários da Funai por um plano de indigenismo brasileiro, o Portal EBC entrevistou o indígena e doutor emantropologia Social, Gersem Baniwa, que atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Na opinião de Gersem, que é originário do grupo indígena Baniwa (localizado normalmente no noroeste do Amazonas), um plano indigenista passa previamente por um projeto de nação do país, não podendo acontecer de forma dissociada: “Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o Brasíl ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas”, destaca.
O pesquisador, que já trabalhou em projetos no Ministério da Educação, reconhece alguns avanços das ações do governo na área escolar e na saúde indígena. O pesquisador reforça os esforços de gestores e técnicos que tentam avançar nas políticas indigenistas, mas denuncia as pressões sofridas pelos índios brasileiros por outros setores.
PLANO INDIGENISTA
Portal EBC: Antes de tudo, em que consiste um plano indigenista?
Gersem: Um plano indigenista para o Brasil passa pela existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas.
Portal EBC: O texto da Constituição de 88 reconhece aos indígenas o direito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e dá a eles os direitos originários sobre as terras que ocupam. Jà a União é responsável por demarcar essas terras, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Não seria esse o começo desse projeto?
Gersem: A sociedade brasileira tentou dar sua contribuição por ocasião da Constituinte de 1988, assegurando direitos básicos que garantissem a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas, por meio dos direitos sobre suas terras tradicionais e o reconhecimento de suas culturas, tradições e organização social, além do reconhecimento da plena capacidade civil e de cidadania. Minha hipótese é de que essas conquistas legais tinham relação com sentimento de culpa pelos séculos de massacres e mortes impostos aos índios pelos colonizadores, portanto, como medidas reparadoras do ponto de vista moral.
Mesmo reconhecendo alguns avanços pontuais no campo da educação (acesso à educação básica e superior ampliado), do direito à terra principalmente na Amazônia Legal e de participação política (06 prefeitos e 76 vereadores indígenas), o Estado continua passando por cima das cabeças e de caveiras dos povos indígenas como acontece de forma escancarada e vergonhosa no Estado de Mato Grosso do Sul, onde os índios Guarani-Kaiowá continuam sob fogo cruzado por fazendeiros e políticos da região. Para as elites econômicas e políticas do país, os povos indígenas continuam sendo percebidos e tratados como empecilhos para o desenvolvimento econômico do país (que na verdade é o enriquecimento desses grupos). Portanto, um plano indigenista brasileiro depende necessariamente da clareza de que nação, sociedade e país se quer construir. Os povos indígenas só terão chance se o Brasil assumir com seriedade a construção de um projeto de nação baseada em uma sociedade pluriétnica, multicultural e solidária.
Portal EBC: Quais seriam os pontos são mais importantes para um bom plano indigenista para o país?
Gersem: O ponto mais importante de um plano indigenista é garantir as condições reais para a garantia plena dos direitos indígenas, baseadas no protagonismo e na cidadania dos indivíduos e coletividades indígenas. Somente a garantia desses direitos pode garantir a continuidade étnica e cultural desses povos, por meio de segurança territorial, segurança econômico-alimentar, política de educação adequada e política de saúde eficiente. Isso também daria sinal de que os povos indígenas podem ter seu espaço na sociedade brasileira. Percebemos uma grande contradição na política indigenista atual: uma parte minoritária do Estado (governo) que tenta adotar o discurso e a prática em favor dos povos indígenas e a outras majoritária que ao contrário, adota discursos e práticas anti-indígenas.
SITUAÇÃO ATUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS
Portal EBC: Como você vê a atual situação dos indígenas brasileiros? O que precisa mudar?
Gesem: Hoje os povos indígenas do Brasil passam por uma situação muito difícil e ruim, com violações constantes aos seus direitos e com a crescente violência física e de morte que sofrem. Os dez anos seguintes à promulgação da CF de 1988 foram de gradativo processo de conquistas de direitos concretos (demarcação de terras, educação escolar, organização social e participação política) mas, os últimos três anos foram de estagnação com forte tendência de retrocesso sem precedentes para os povos indígenas. A leitura que faço é que o Estado (comandado pelas elites políticas e econômicas) se arrependeu de reconhecer os direitos indígenas e agora faz de tudo para, em primeiro plano, violar esses direitos e em segundo plano, anular ou reduzir esses direitos. Ou é isso, ou o Estado está assumindo sua incapacidade e incompetência para garantir os direitos dos povos indígenas. As políticas existentes são completamente insatisfatórias. Estão sempre voltadas para resolver ou minimizar problemas acumulados. As políticas indigenistas continuam sendo autoritárias, paternalistas e tutelares. Embora o Brasil tenha adotado a Convenção 169 da OIT, há anos, até hoje ela não foi regulamentada. Neste sentido, um plano indigenista moderno precisa superar seriamente a visão imediatista, autoritária e de descaso institucional. Precisa ser construído um plano transparente e participativo de curto, médio e longo prazo, com metas, objetivos e condições claros de implementação. O mais importante é o plano indigenista ser do Estado e não apenas de um governo ou do órgão indigenista.
Portal EBC: Que ações merecem destaque na atual política indigenista?
Gersem: É importante reconhecer que nos últimos houve esforços e tentativas do governo federal em avançar nas políticas de atendimento voltadas para os povos indígenas, principalmente após o fim do monopólio da política indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), no início da década de 1990. O Ministério da Saúde tem se esforçado para tentar responder às demandas indígenas. O Ministério do Meio Ambiente iniciou experiências inovadoras ainda no final da década de 1990 em apoio técnico e financeiro para projetos socioeconômicos alternativos e autossustentáveis de comunidades indígenas na Amazônia. O Ministério da Educação empreendeu esforços junto aos estados e municípios em busca de melhorias no atendimento escolar às aldeias indígenas. Sem dúvida que essas experiências das últimas duas décadas lograram avanços e êxitos parciais e de algum modo contribuíram para a recuperação da autoestima e de esperança no futuro dos povos indígenas, expressa por meio do crescimento demográfico desses povos que está se aproximando de um milhão de indígenas no país (considerando que na década de 1960 chegaram à cifra de 200.000 indígenas) e da presença cidadã dos indígenas na vida do país. As experiências revelaram também questões preocupantes, como as limitações do Estado no atendimento aos direitos e anseios indígenas. Os gestores e técnicos de ministérios bem que tentaram avançar nas políticas voltadas aos povos indígenas, mas percebe-se atualmente o limite dessas possibilidades, diante do contexto político e econômico do país. Essas possibilidades esbarram na falta de vontade política dos dirigentes maiores em dar relevância às questões indígenas. Sem determinação política o tema nunca entra na lista de prioridades do governo e, por isso, as instâncias e estruturas que atuam junto a esses povos estão sempre esvaziadas, desestruturadas e desqualificadas, sem recursos financeiros, sem equipes e sem condições administrativas. Deste modo fica difícil assegurar os direitos indígenas que ficam a mercê dos interesses econômicos anti-indígenas. Muitas vezes parece que o governo se presta a servir aos interesses desses grupos.
Portal EBC: Como você avalia o trabalho da Funai hoje?
Gersem: Nos últimos dez anos a Funai tem se esforçado para estar ao lado dos povos indígenas no enfrentamento dos problemas existentes nas aldeias, mas é um órgão do Estado e dos governos, portanto, dominada pela incapacidade e ineficiência institucional. É um órgão com eminência de falência institucional, por ausência de força e crédito político, falta de recursos humanos, equipe reduzida e mal preparada, e com infraestrutura arcaica. É evidente o processo de sucateamento e enfraquecimento do órgão nos últimos anos, na mesma proporção em que as oligarquias econômicas e políticas nos municípios e Estados se organizaram e se fortaleceram contra os direitos indígenas. O enfraquecimento da Funai é o mais claro exemplo do descompromisso do governo e do Estado para com a defesa e garantia dos direitos indígenas no país. Com isso, os povos indígenas cada vez mais estão à mercê e se tornam reféns de municípios, estados e grupos políticos e econômicos hostis aos direitos indígenas. Isso deixa claro também a necessidade de reorganização e fortalecimento do papel do governo federal na defesa e garantia desses direitos.
Portal EBC: Como você vê a atual atenção à saúde prestada aos indígenas?
Gersem: A política de saúde indígena no Brasil é a que mais se esforçou na busca por um plano mais adequado para o atendimento aos povos indígenas que teve início com a implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI´s), enquanto uma etnoterritorialização do atendimento, o que é uma ideia inovadora com grandes possibilidades. No entanto, tem sofrido como todas as demais políticas indigenistas das profundas contradições e irracionalidades da política e da administração pública brasileira. Recentemente foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena, como resultado de décadas de luta dos povos indígenas, mais uma iniciativa relevante e, no entanto, foi neutralizada pelos gargalos administrativos homogêneos da burocracia estatal pensada para atender as realidades dos centros urbanos. Sem equipes e sem condições logísticas adequadas, a política de saúde indígena está sendo um pesadelo para a saúde dos povos indígenas. O mesmo acontece no campo das políticas de educação escolar indígena, principalmente em regiões da Amazônia e do Nordeste, onde construções de infraestrutura e transporte logístico básicas não são possíveis de serem resolvidas pelos irracionais procedimentos licitatórios. O mesmo acontece com a falta de recursos humanos qualificados para atuar nas aldeias ou próximo às aldeias, pois as formas de contratação, temporárias ou de carreira, não são adequadas, pois dificilmente profissionais qualificados se dispõem a trabalhar nas aldeias com baixos salários pagos pelo poder público.
Portal EBC: Como você vê a situação dos indígenas isolados e recém-contatados?
Gersem: Entendo que esses povos apresentam consciência sobre a situação de não estabelecerem contato permanente com a sociedade nacional e por isso devem ser respeitados nessa decisão. Neste sentido, cabe ao Estado protegê-los, criar condições de proteção sem ação interventiva ou esforço para estabelecer contato, pois estes povos fazem parte da nação brasileira, ainda que desconhecidos da população majoritária.
PRESSÕES SOFRIDAS POR POVOS INDÍGENAS
Portal EBC: Quais são as maiores pressões sofridas pelos indígenas brasileiros? Quais são os agentes dessas pressões?
Gersem: Na atualidade, as maiores pressões aos povos indígenas vêm dos grupos ruralistas e mineradores do país além, é claro, dos próprios agentes do Estado e das grandes construtoras interessados pelos territórios indígenas e principalmente pelos recursos naturais neles existentes. As principais ameaças vêm das elites econômicas, principalmente ruralistas, na medida em que estão, a todo custo, espoliando as terras indígenas. É importante afirmar que não é possível garantir a continuidade etnocultural dos povos indígenas sem a garantia territorial. Mas não podemos esquecer a outra ameaça que vem das igrejas religiosas, que estão realizando, verdadeiros massacres culturais por meio de suas imposições doutrinárias em detrimento das culturas e valores indígenas.
Portal EBC: De que forma essas pressões podem ser aliviadas?
Gersem: Primeiro, a partir de um ordenamento territorial, respeitando-se os direitos constitucionais dos povos indígenas. No Brasil, é necessário se criar o hábito e a cultura de se respeitar as leis e o Estado ou governos precisam criar vontade e capacidades para exerceram o poder para zelar pelo cumprimento das leis, indistintamente de classes, grupos sociais ou credos. Segundo, é necessário respeitar a legislação nacional e internacional que asseguram a participação e a consulta prévia e qualificada aos povos indígenas em qualquer projeto ou programa governamental que lhes afetem. Em terceiro lugar, o que é mais importante é a superação do preconceito histórico sobre os povos indígenas de que são empecilhos para o desenvolvimento do país e a superação do racismo que considera os povos indígenas como atrasados ou não civilizados. Não é possível pensar o Brasil desenvolvido e civilizado enquanto não aprender a respeitar e valorizar um dos seus três pilares étnicos, que formaram o povo e a nação brasileira, que são os povos indígenas ou povos originários.
Portal EBC: As grandes obras como a construção de hidrelétricas e rodovias também ameaçam os povos indígenas?
Gersem: Sem dúvida, depois da luta pela terra as construções de grandes obras ameaçam seriamente a vida presente e futura dos povos indígenas, na medida em que afetam diretamente os ecossistema dos territórios indígenas que são fundamentais para a sobrevivência física e cultural. É importante destacar que os povos indígenas precisam integralmente de seus territórios, enquanto ecossistemas integrados e abrangentes para perpetuarem suas culturas, tradições, seus conhecimentos e seus modos de vida.
Portal EBC: Qual a sua opinião sobre a recente militarização nessas grandes obras, como a presença da Força Nacional no Complexo Tapajós?
Gersem: Acho completamente desnecessária e mostra claramente a atitude arbitrária e autoritária do governo. Mostra ainda total falta de sensibilidade e capacidade de diálogo com o movimento social indígena. E o que mais assusta com essa atitude do governo é a possibilidade de que o governo esteja radicalmente decidido a seguir o discurso de em nome do “relevante interesse público” passar por cima dos povos indígenas, ou seja, mais uma vez os povos indígenas podem pagar com suas vidas o suposto bem estar da sociedade majoritária e pode no futuro próximo estimular instabilidade social nas regiões e no país. Um diálogo franco, transparente e democrático com os interessados deveria ser instituído para mediar e solucionar conflitos de interesses. Nem sempre a força física e militar é a melhor solução para muitos casos.
Portal EBC: A lei 5.371 diz que a Funai deve exercer o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. Como você vê a questão do poder de polícia conferido à Funai? A instituição deve ter autonomia ou deve recorrer a outros órgãos de segurança pública?
Gersem: Em primeiro lugar não tenho nada contra o poder de polícia da Funai, mas acho isso completamente inviável pelas condições em que o órgão se encontra: enfraquecido, desestruturado e principalmente sem equipe qualificada. Em segundo lugar, é importante considerar o papel do estado brasileiro na defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas e, para isso, dispõe de vários instrumentos e mecanismos institucionais, como Ministério Público, a Polícia Federal e a Força Nacional e outros órgãos. Não acredito que somente uma Funai armada irá resolver os problemas dela e dos povos indígenas, mas sim um plano indigenista sério, forte e eficiente, com o peso e a responsabilidade do Estado e dos governos.
Portal EBC: Um delegado da Polícia Federal da Delegacia Vilhena, em Rondônia, sugeriu que a Funai fizesse a regularização quanto ao porte de armas de fogo por parte dos servidores. Você é contra ou a favor do porte de armas por funcionários da instituição?
Gersem: Em primeiro lugar sou contra porte de armas para qualquer cidadão que não represente órgãos de segurança pública, de modo que os funcionários da Funai só deveriam portar armas caso eles exerçam poder de polícia, caso contrário sou completamente contra.
PERSPECTIVAS PARA O INDIGENISMO BRASILEIRO
Portal EBC: Na sua opinião, qual é a maior urgência do indigenismo brasileiro?
Gersem: A maior urgência é a definição clara de uma política indigenista para o país com metas de curto, médio e longo prazo. Uma política que estabeleça com clareza o lugar dos povos indígenas na nação brasileira. E para mostrar compromisso e seriedade com esta política é fundamental a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas que expresse este plano indigenista de curto, médio e longo prazo de forma articulado. O governo federal precisa assumir a responsabilidade pela defesa e proteção dos direitos desses povos, conforme determina a Constituição Federal. Só uma atuação exemplar do governo federal pode tirar os povos indígenas das mãos sanguinárias das elites econômicas, principalmente ruralistas.
Portal EBC: Quais são as perspectivas futuras para o indigenismo brasileiro?
Gersem: De muita angústia, muita dúvida e muita luta na tentativa de evitar que mais uma onda de genocídios volte a ser executada no Brasil. A esperança está em uma geração de jovens indígenas que estão se formando nas academias brasileiras e que ao longo dos próximos anos vão estar assumindo a liderança de suas aldeias e seus povos e, em muitos casos, também ocupando espaços nos órgãos da administração pública e nos poderes constituídos do país e que podem propor e construir novas alternativas de resistência e sobrevivência dos povos indígenas do Brasil. O grande desafio dessa nova geração de lideranças indígenas é domesticar a hostilidade, a ambição, a vaidade e o senso de tirania dos grupos políticos e econômicos que dominam as estruturas e as políticas do Estado e dos governos. Mas tenho certeza que os povos indígenas continuarão sua histórica luta de resistência mas também de fé por dias melhores em mundos melhores.
Edição: Leyberson Pedrosa
10/04/2013 2:44 pm
Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai. Fotos de Guilherme Perez
“A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso”
“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música.” Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.
A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.”
O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”
Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”
Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah, e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?
Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, têm poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.
O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido neste começo de ano, e aconteceu no final do ano passado, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. existem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.
Fórum – Mas você acha que, por conta dessas ocorrências, há uma coisa dirigida contra o rap?
Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano, porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.
Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que ocorreu, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.
Fórum – E quem está matando nas periferias?
Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.
Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…
Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.
Fórum – Da última vez que você deu entrevista à Fórum, há mais de 11 anos, boa parte da conversa foi sobre isso. Você é um ator importante dentro desse cenário, como está atuando para mudar a situação, está fazendo intervenções no governo, conversando com pessoas, ou só se manifestando pela sua arte mesmo?
Brown – Se eu disser que não uso meus contatos, estou mentindo. O que tem acontecido traumatizou todo mundo, então ficamos todos aqui com muita raiva, lógico que alguma coisa a gente fez. Mas não posso dizer o quê. Tenho minhas armas, mas não posso expor, parado a gente não ficou.
A partir do momento em que a gente nota realmente que nossa quebrada tem fragilidades, vê as famílias das pessoas com muitas mulheres e poucos homens, homens com pouca liberdade, pouca liberdade de movimento, vida pregressa com problema, pouca mobilidade na sociedade, caras condenados a viver no submundo, você começa a criar um exército na comunidade, de gente que vê aquele entra e sai da cadeia, de homens com vida pregressa que não conseguem mais arranjar emprego. As casas perdem esses caras, que deixam de ser úteis dentro de casa. Você vê a morte do homem da casa, cinco mulheres chorando; as famílias estão num processo que vai demorar, de restauração pra uma vida mais rotineira, mais calma, é uma corrente que tem de quebrar.
“Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra”
Fórum – Um cenário de guerra, mesmo.
Brown – É, não passou a ser guerra agora, depois da chacina, já vivia em guerra. As mães também lamentam os filhos que vão pra vida do crime, perder pra droga… A molecada negra tá muito exposta ao perigo, o salário é baixo, o risco é alto. A sociedade cobra muito, você tem de ter as coisas, tem de estar, tem de ser, tem de aparentar ser… Aparentar ser já custa caro, “ser” é outro estágio. O pessoal acha que é vaidade boba a pessoa gostar de marca, de perfume bom, mas são coisas que ajudam a pessoa a circular, a arrumar um emprego, a arrumar uma gata, tudo melhora. No momento em que no Brasil começa a sobrar um dinheirinho pra categoria, pra raça, o outro lado já começa a cobrar com a vida também. O excesso de gente usufruindo deste novo Brasil… Não pode, é excesso, tem de limpar. Tudo que é moleque de moto… Os excessos que o pessoal começa a reclamar, todo mundo com celular no busão. Antigamente, quando só o rico tinha, ninguém reclamava. Pobre com celular, com moto, não pode, o sistema cobra.
Fórum – Você entende isso como uma reação da elite?
Brown – Uma reação. Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto… Os caras reagiram. O que aconteceu em São Paulo aconteceu no resto do Brasil. Em Alagoas, o índice de negros mortos é muito alto, em Belém do Pará, Goiás…
Fórum – E você pediu o impeachment do governador Geraldo Alckmin em um evento na Assembleia…
Brown – Pedi o impeachment do Alckmin e ele tem de tomar providências. Naquela altura, estava em um estágio em que dava a impressão de que o Alckmin não estava nem aí. As declarações que ele deu foram piorando, chegou num ponto de eu achar que ele não sabia o que estava acontecendo. Era suicídio, como ele vai se eleger a qualquer coisa com esses números de morte?
Muitas vezes, acho a mídia com tanto medo e, de repente, vai um canal de direita, que é a Record, que começou a investigação. A gente conversava e sentia que tinha o medo no ar, eram jornalistas com medo, quando eu vi o [André] Caramante isolando e as pessoas pedindo pra ele não voltar, pensei: “Os caras tão com medo, o governo tá junto”. E as declarações que ele [Alckmin] estava dando mostravam isso, que não ia voltar atrás e era um movimento aprovado pelo povo, o povo estava com ele. Redução da violência, crime organizado, a guerra do PCC, o povo leu isso como uma coisa benéfica pra sociedade, mas estavam morrendo os filhos deles mesmos.
Fórum – Será que o povo leu isso desse jeito?
Brown – Pelo número de PMs que foi eleito, percebo que o povo está se dirigindo a votar dessa forma, tem medo. Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica.
“O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir”
Fórum – Qual a sua opinião sobre o PCC?
Brown – O PCC hoje tem tanto poder que eles nem precisariam da contravenção pra existir. Aí seria realmente um poder incontestável, e pelo número de mortes que foi reduzido em São Paulo, a gente sabe que muito tem a ver com eles. Já existe o PCC, não precisa fazer nada mais contra a lei. Se é que houve alguma coisa contra a lei… Não seria mais necessário usar contravenção, já existe a autoridade, existe a autoridade instalada, o povo aceitou.
Fórum – Como você vê a ascensão dos movimentos sociais hoje em São Paulo?
Brown – Sou privilegiado de ver acontecer isso, minha geração. Acho digno e muito importante mesmo todos os saraus, as reuniões, os diálogos, todo o movimento de jovens dedicado a isso, a conhecer as causas do Brasil, não só reclamar. É uma geração que não só reclama, que faz, que desce o beco da favela, vai trabalhar, vai bater nas portas. É um novo Brasil, novos médicos, novos advogados, novos pedreiros, novos motoboys, novos motoristas. O que todo mundo bebe, vai ser; o que todo mundo come, vai ser; o que todo mundo respira, vai ser. Daqui a 20 anos, você vai ver o país que está sendo implantado pelo Lula, pela Dilma, pelos Racionais, pelo Bill, pelo Facção Central. Daqui a 20 anos, vai ter um povo que vai ter essa cara.
Fórum – Fale um pouco mais de sua concepção desse novo Brasil.
Brown – Tenho 42 anos, sou fruto daquela geração dos anos 1980, aquela “geração lixo”. “Geração lixo”. Eu sou aquilo, com todos os defeitos e qualidades. Já os nossos filhos, nós que já aprendemos e sofremos um pouquinho mais, vão ser melhorados, mais ligeiros, mais práticos que eu, e não vão rodar tanto em volta do objetivo, vão direto ao foco.
Agora, os meus filhos, a molecada em geral… Ainda temos de lavar a roupa suja. Eu e eles. Não gosto de puxar a orelha dos moleques por revista e nem por entrevista, mas temos roupa suja pra lavar nas favelas, nas vielas, nas ruas, nos palcos, tem muita coisa pra melhorar ainda.
Fórum – Mas existe um orgulho hoje de quem vive na periferia, ele não se esconde mais. Há marcas que nascem na periferia.
Brown – É o que o judeu fez, o italiano fez, o japonês fez e o preto foi proibido de fazer. Nos dias de hoje, faz, monta time de futebol, loja, grupo de rap. Forma a família, que é onde está o foco nosso, a família, dialogar, organizar… Historicamente foi proibido pra nós, a gente vive correndo, se escondendo, um comportamento de foragido que talvez essa geração não vá ter mais.
Fórum – Será que esse não é o susto das elites, perceber que daqui a 20 anos o Brasil não vai ser mais esse?
Brown – O Brasil atrasado, os brancos também não querem isso, os brancos ligeiros não querem mais isso. Foi um ganho o branco acordar e o preto acordar também.
Fórum – “Fim de semana no parque” fez vinte anos agora. Você acha que essa foi a principal mudança nesse período, além do ganho econômico, também a elevação da autoestima?
Brown – Começa pela raça, pelo orgulho do que você é, de você ter na sua família a sua raiz. Se você não tem vergonha da sua mãe você vai ouvir mais ela, se você acha sua mãe bonita, seu pai bonito… Eu sou de uma geração em que muitos não tiveram pai, não tive pai, vários amigos não tiveram. Tive de aprender a ser meu pai, o homem da casa sempre fui eu. Isso também fez eu ser quem eu sou, mas acho que seria melhor se tivesse tido um pai. Em várias casas faltam um pai. Acho que a periferia vive este momento de fluxo de cadeia, da molecada se envolvendo na criminalidade, perdendo o direito de ir e vir, de oportunidade de emprego por conta de passagem [na polícia], então vai limitando e as famílias vão ficando empobrecidas. Mesmo que o governo faça, vai estar sempre correndo atrás, essa corrente tem de cortar. Dar oportunidade pra molecada – principalmente para os homens –, que não tem como demonstrar nada numa sociedade em que você tem de parecer que é, pelo menos. A molecada não tem oportunidade.
Fórum – Falando em oportunidade, o que você acha das cotas?
Brown – Como tudo que envolve o negro, é polêmico. Agora, se você negar que o Brasil prejudicou a raça negra… [As cotas] não vão resolver o problema, mas dizer que o negro não é merecedor disso é racismo. Historicamente teria de ter, mas, dentro da raça negra, o lance de cotas é tão dividido ou mais que entre os brancos. Se você chegar na inteligência negra, perguntar ali o que acha da cota… Mano, é treta! Você vai ter cara crânio que é contra, vai falar pra ele que tem de ser a favor… É dividido, acho bom ser polêmico. O problema tem de ser debatido, depois faz o acordo, mas de cara tem de conversar.
“Primeira coisa que se pensa: segurança. Segurança é polícia, entre um cantor de rap, um padre e um policial, ele vai eleger um policial. O voto explica”
Fórum – Qual a sua avaliação do movimento negro no Brasil?
Brown – O movimento negro evoluiu muito, tenho muito orgulho de ver como o movimento atua hoje, algumas reuniões em que eu fui, moleques muito inteligentes… Dá vontade de parar de falar e deixar só os moleques falarem. No dia do evento mesmo, antes tinha falado um garoto do movimento negro, ele já tinha falado tudo. Eu nem quis falar muito porque ele já tinha falado tudo. Antigamente, ia nos movimentos e era um debate muito primário, ranço de 300 anos debatido nos anos 1980, nós estamos em 2013 e a molecada já está debatendo outras coisas, outros poderes, não só os visíveis. Já não querem só a roupa de marca, os caras querem poder, os moleques vêm pesado na reivindicação, no direito, na história. São terríveis e estão vindo aí. Tenho orgulho, já foi um movimento confuso, hoje não é mais. É um movimento prático.
Fórum – Existe uma crítica de que somente o empoderamento econômico não traria consciência social para as pessoas, mas o seu depoimento não diz isso.
Brown – Traz. Traz porque o tempo é dinheiro pra todos, inclusive pra classe C. O micro-ondas, o carro que anda melhor vai fazer você chegar com mais conforto em casa, no seu trabalho, você vai ter tempo pra melhorar. Por que é conforto pro rico e pro pobre não? O pobre vai ficar bobo alegre, por quê? É preconceito. O que faz a vida do cara ter conforto, permitir organizar o tempo, poder estudar, trabalhar e cuidar do filho… Daqui a 20 anos, tá ele formado, o filho estudando, se ele não tivesse o carro, com certeza não trabalhava, não estudava, tinha cuidado só do filho. Ele não tinha estudado e era só o filho, não eram duas rendas, era uma. Bem material “aliena o pobre”, porque pobre é alienado, esse é o discurso… O pobre não tem inteligência… Sabedoria do povo é sabedoria do povo, tem de escutar, tem de entender a mensagem.
“Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê?”
Fórum – Você nunca pensou em se envolver com política?
Brown – Dá preguiça. Vou ser preso por agressão… Primeira reunião é agressão, é foda, tem de ter sangue frio.
Fórum – No Rio de Janeiro, o MC Leonardo saiu candidato. Você não acha que o movimento deveria lançar mais candidatos?
Brown – Não houve sucessos nas últimas eleições, é a ideia que falei da disputa do cantor de rap, do padre e do policial, foi isso que aconteceu. Houve candidatos com votação inexpressiva. O MC Leonardo pegou o Rio de Janeiro de cabeça pra baixo, tá todo mundo embriagado com a UPP. Ele fez o movimento contrário, eu falei pra ele: “Você vai bater de frente com a UPP? O povo tá do lado. Sua bandeira é essa, então é difícil ganhar”. Deixou de ter excesso, UPP é a contenção dos excessos. Vai ter cocaína em todo lugar, maconha em todo lugar, na farmácia, na padaria você compra, vai ter o funcionário que vende a maconhinha… O problema é o excesso, polícia dando tiro, facção trocando tiro, garoto novo com arma.
Fórum – Como você chegou no Marighella? Você pegaria em armas por algum desses motivos que falou aqui com a gente?
Brown – Pegaria. Não sou mais do que ninguém, mas pegaria. Não vejo por que não pegar, mesmo que eu fosse um mau soldado. Faria de tudo pra ser um bom soldado.
Fórum – E o Marighella, como você chegou a ele?
Brown – Eu tinha ouvido falar do Marighella há alguns anos, alguém disse que a gente era parecido até fisicamente, e é mesmo né, mano? Através da esposa de um rapper, amigo nosso, me falaram que ia sair um filme e o pessoal queria falar comigo, porque tinha tudo a ver, Marighella e Racionais. Aí entrei em contato com o pessoal do filme e peguei a missão de fazer a música.
Fórum – Você se surpreendeu com a história dele?
Brown – Me identifiquei demais com ele, pra caralho, como pessoa. Gostava de futebol, samba, poesia, mulheres e não tinha medo de morrer, por isso ele é um líder até hoje.
Fórum – E religião, você tem proximidade com alguma delas?
Brown – Minha mãe é seicho-no-iê, comecei a ir para a igreja por influência de amigos, estudei em colégio de ensino adventista, então tenho essa proximidade. Mas nasci dentro do candomblé e convivi com as duas culturas, uma conflitando com a outra. Imagina se eu sou confuso?
O adventista não agride tanto o candomblé ou qualquer outra religião, mas o neopentecostal é mais forte nisso, até porque os integrantes são tudo ex-filhos de santo, a maioria.
Fórum – As igrejas evangélicas estão cada vez mais presentes nas periferias de São Paulo…
Brown – Já foram mais.
Fórum – Qual a sua opinião sobre algumas lideranças religiosas, alguns pastores que estão enriquecendo?
Brown – O povo tá injuriado com esse duplo sentido deles, essa dúvida sobre a honestidade que deixam no ar. E outra, tá meio neutralizado esse avanço, o povo fica de olho nessa dúvida que eles deixam.
Fórum – E o que mudou?
Brown – O que mudou é esse monte de escândalos em que eles se envolvem. “Ah, o cara é representante de Jesus”, mas quem deu esse direito a ele? “Ah, Jesus falou…”. Então tá, falou pra ele e por que não falou pra mim?
Fórum – Eles nunca tentaram chegar em você?
Brown – Não. Eles xingam os Racionais na TV, mas sem saber. Vou na igreja, gosto da ideia e da fé. Gosto de ajudar, de descer a favela, ir na cadeira, sou devoto dessa ideia, seja do candomblé, do evangélico ou do comunista, o cara que coloca em prática o que Jesus falou.
“Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom”
Fórum – Você falou de pegar em armas. Na periferia já não existem grupos de garotos falando em reagir, vingar essas chacinas?
Brown – Essa resposta você vai ver em sete ou oito anos. Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.
Fórum – O governador Geraldo Alckmin, na sua opinião, está pecando por omissão ou é conivente com essa situação?
Brown – Peca por negligência, peca por prevaricação, por não executar a lei.
Fórum – Uns dois anos atrás, você disse que queria mudar sua imagem, que estava ficando “mapeada e óbvia”. Você mudou? Quem é o novo Brown?
Brown – O novo Brown não existe, porque esse termo “imagem” não existe, imagem é nada. Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música. Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive de fazer alguma coisa.
Fórum – Você sempre teve uma visão crítica da mídia. O que acha dela hoje?
Brown – Ando muito chateado com a mídia por conta da chacina do final do ano. Dá para ver quem são os mais contestadores, eles são mais jovens e não têm forças. Os mais velhos têm espaço, mas são conservadores. Quem é da mídia e queria falar estava amarrado, e quem poderia falar fechou com a polícia, meio que concordando, entendendo mais a polícia do que a gente. Ontem (6 de fevereiro), em outra chacina em Guarulhos, mataram três irmãos nossos, filhos da mesma mulher, que já não tinham pai. Típico. A mulher de 40 perde os filhos de 15, 18 e 21 porque um polícia morreu na quebrada deles e mataram cinco para vingar.
Fórum – A chacina em que morreu o Lah realmente marcou você…
Brown – Muito, mano. Eu estava acompanhando antes daquilo, na véspera da eleição eu falei, em novembro; avisei de novo, aí depois vem essa chacina… Foi uma ação suicida, deram tiro com a bala da delegacia, foi como se dissesse assim: “Governador, você não é homem, o Estado não existe. Brasil, você é uma merda. Vem me pegar se vocês quiserem, matei sete pessoas no bar, com arma da polícia, e não vai dar em nada”. Deixou o recado. Como um país como o Brasil pôde tolerar os números de mortes em São Paulo, em 2012? Ninguém vê? ONU? Unicef? Qual a justificativa para tantas mortes? Não estamos em guerra. Queria saber como a Dilma lidou com isso.
Fórum – Sua relação com o Lula sempre foi forte.
Brown – É uma relação de respeito, sem badalação. Desde adolescente, eu votava no Lula, eu era simpatizante do PT, criei empatia. Ele é um cara honesto, gosto do Lula.
Fórum – E você ainda tem simpatia pelo PT?
Brown – Tenho. O PT, com todos os defeitos, ainda é a única coisa que a gente tem para lutar contra o PSDB, o partido do Alckmin, do Serra, da polícia tal, do delegado tal.
Fórum – Olhando para trás, após 25 anos de Racionais, você consegue identificar por que os Racionais ficaram tão grandes?
Brown – Porque o povo é muito grande. De cara, eu e o KL Jay, a gente trabalhava juntos, e falávamos que a periferia é a maioria absoluta e não tinha para ninguém. Se eles vierem com a gente, tá feito. O rap é a única coisa que sabia [fazer] e acredito nele até hoje.
Fórum – Quantos discos o Racionais vendeu?
Brown – Não tenho ideia, uns 2 ou 3 milhões.
Fórum – O que você pensa da pirataria?
Brown – Ótimo. Eu como e bebo por causa da pirataria, é minha rádio. Minha música nunca parou de tocar por causa da pirataria, ganhei e perdi na mesma proporção. Tá bom.
Fórum – Seu disco novo vai vir mais romântico mesmo? Você sempre falou de sua admiração por Marvin Gaye e Barry White, está se inspirando neles?
Brown – Continuo sendo o mesmo cara, interessado pelas coisas políticas do Brasil, pelo povo. Musicalmente, sempre gostei de música romântica, do Jorge Ben, Djavan, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho… Hoje em dia, as pessoas esperam do Brown aquele posicionamento combativo, de luta e guerra, mas aí é um personagem também, né? O Brown é um cara atuante, que tá buscando na vida novidade, força, inspiração, razões, buscando pessoas… É o que eu mais busco: pessoas. Quando as pessoas viram as costas e saem andando, você tem de saber por quê. Para dar continuidade ao trabalho, temos de caminhar pra frente, não voltar ao zero toda hora. A juventude precisa de rapidez, mobilidade de ideias, não dá pra ficar na mesma ideia todo dia. Seria uma atitude até covarde, fácil, ficar jogando mais lenha na fogueira. Então, você tem de buscar outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.
Fórum – E essas novas ideias…
Brown – Passam pela raça, todas as ideias. Mas nenhuma ideia é desprezível.
Fórum – Você gosta de polêmicas, Brown?
Brown – O Brown está como sempre, velho e chato. Atuante, jamais calado ou inoperante. Tô aqui, ali, gesticulando, trazendo divisão de ideias, porque meu papel é esse também, trazer essas ideias, e tem de saber o que o povo quer também, não é só o que os intelectuais querem. Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir. Que nem quando escolheram o Serra, ficamos aqui, interagindo com as consequências da eleição do Serra [para prefeito, em 2004], encontrei gente na favela que votou nele. Quando a gente erra, o reflexo é violento.
Fórum – Você falou da eleição de policiais. A base de votos deles está na periferia.
Brown – A base de voto de todo mundo. O público-alvo é a massa, os números estão aqui. Os partidos não conseguem se eleger com conceitos, é com números, com votos dos que não sabem o que estão fazendo e dos que sabem, dos brancos, índios, negros, confusos. Depois, quando estão lá em cima, decidem que direção tomar. Ter candidatos de dentro das comunidades seria bom, mas acho que isso ainda vai demorar um pouco. Do mesmo jeito que o rico se cerca com cerca elétrica, o pobre quer pular.
Fórum – Apesar de não ter candidato, a comunidade está exercendo um poder de pressão não pela via política, mas pela mobilização. Você vê que as pessoas estão experimentando novas formas de fazer política que não sejam necessariamente pelo voto?
Brown – Há quem diga que o povo que votou no Serra queria mudança, o que é uma forma de inteligência. Mas trouxe consequências gravíssimas na relação entre o povo e o poder, acabou o diálogo. Vamos ver o número de homicídios na periferia, não é possível que, por mais que sejam maquiados, que a informação seja negada, alguns excessos como essa chacina… No caso do DJ Lah, foi quando eu vi a revolta realmente, sete pessoas mortas em um lugar onde já tinha morrido um, prometida uma vingança… O povo vê a fragilidade, a opressão, o medo das famílias.
Um povo que não tinha noção de direito, de cidadania nenhuma, não sabe o que representa, o poder que tem, não confia em ninguém e, consequentemente, não respeita ninguém. Não vai respeitar o orelhão, não vai respeitar o ônibus, o que tem cheiro de sistema é alvo de agressões. É o orelhão que o moleque, por ignorância, quebra, até a casa onde ele picha. Então, a relação é entre seres humanos, não entre robôs, o comandante que está ali atrás da farda é um ser humano, o cara que dá a palestra na hora de formar o soldado é um ser humano, tem mulher, tem filhos. O que ele lê, o que assiste na TV, o que ele come, o que sofreu na infância dele pra ter esse comportamento?
“Os comuns têm direito à opinião. E se a opinião dos comuns não for igual à dos intelectuais? Vai fazer uma ditadura, vai se isolar? Vai ter de interagir”
Fórum – Recentemente, você esteve em Nova York e encontrou o Criolo lá. Quando você sai do País, você vai nas periferias? Como você vê o comportamento da juventude nesses locais?
Brown – O negro brasileiro é caloroso, e o americano é arredio, é outro comportamento. Fui lá procurar uns contatos de uns negões, uns negros muçulmanos, pesado demais cara, sombria a parada. Os caras ensinando coisas ruins para os negões, ensinando a fazer bomba, vai vendo, vai só piorando, é foda [risos]. O cara coloca na cabeça dos meninos a religião e tira a preguiça do corpo, dão motivo para o cara querer lutar.
Fórum – O Racionais, de um tempo para cá, tem sido muito ouvido na classe média. Como você lida com isso?
Brown – Há quem diga que a classe média é que cresceu muito [risos]. Mas já estava lá. Vejo com respeito, ouço crítica, elogio, converso, é importante ouvir o que eles dizem. Acho da hora que eles venham falar, até pra explicar minhas teorias, há muitos que vão de embalo, mas no caso do Racionais, estamos meio à prova de “embalista”, porque estamos há dez anos sem lançar disco, curte quem gosta mesmo. Não tem “modinha” Racionais.
Fórum – Como você tem se relacionado com os movimentos culturais, como o Tecnobrega?
Brown – Apoio. Conheci a Gaby Amarantos na MTV, mina lutadora, a nossa luta é a mesma, ela como mulher e negra, a luta é duas vezes maior. Eu dialogo com todos, o pancadão, os saraus, a várzea, até a música gospel. Sou envolvido com o começo da música gospel no Capão, não como evangélico, mas como amigo dos caras, eu gostava dos caras e eles gostavam de mim do meu jeito, a cena é forte aqui.
Fórum – Como é a história daquele diálogo inicial do Vida Loka 1?
Brown – A gente correu um certo perigo naquela gravação, porque celular em presídio é proibido, tá ligado? E é passível de punição. Ele estava preso, o disco saiu assim e não pegou nada. Houve uma falha no sistema, que estava meio embriagado de poder e nem viu nada. Naquela época a cadeia estava cheia de celular, e aí, porra, a gravação foi feita daquele jeito, ele lá dentro, falando comigo aqui fora.
Fórum – E o Santos? Você é um dos torcedores símbolos do Santos.
Brown – Não reconhecido, o Santos nunca me chama para nada, eu até conheço o presidente do Santos. Inviabilizei a contratação do Rafael Moura, ah, melei mesmo, contrata a Xuxa também, tá de brincadeira [risos]. Aquela reunião foi treta, aí eu sugeri: “Traz o André aí”. O Santos tá com um complexo de pobreza que eu não compreendo, esse negócio ridículo de colocar vidro no estádio inteiro, não dá pra ouvir as vozes da torcida, diminui a pressão. Os caras ficam batendo nos vidros, ficam parecendo loucos, esse negócio de colocar televisão nos camarotes. O setor Visa é vazio o ano inteiro, eu já perguntei ao presidente pra quem que é bom o marketing da torcida vazia, abre a câmera e o estádio está vazio.
Fórum – E o Neymar?
Brown – O Neymar é sensacional, melhor coisa que aconteceu no Brasil depois da eleição do Lula. Só poderia ter nascido no Santos mesmo, é foda, não cabe em outro time, mano. F
Agradecemos à Produtora Boogie Naipe pela colaboração
Mar. 26, 2013 — People are quick to point the finger or dismiss the effect of violent video games as a factor in criminal behavior. New evidence from Iowa State researchers demonstrates a link between video games and youth violence and delinquency.
Iowa State researchers say there is a strong connection between violent video games and youth violence and delinquency. (Credit: Photo by Bob Elbert)
Matt DeLisi, a professor of sociology, said the research shows a strong connection even when controlling for a history of violence and psychopathic traits among juvenile offenders.
“When critics say, ‘Well, it’s probably not video games, it’s probably how antisocial they are,’ we can address that directly because we controlled for a lot of things that we know matter,” DeLisi said. “Even if you account for the child’s sex, age, race, the age they were first referred to juvenile court — which is a very powerful effect — and a bunch of other media effects, like screen time and exposure. Even with all of that, the video game measure still mattered.”
The results were not unexpected, but somewhat surprising for Douglas Gentile, an associate professor of psychology, who has studied the effects of video game violence exposure and minor aggression, like hitting, teasing and name-calling.
“I didn’t expect to see much of an effect when we got to serious delinquent and criminal level aggression because youth who commit that level of aggression have a lot of things going wrong for them. They often have a lot of risk factors and very few protective factors in their lives,” Gentile said.
The study published in the April issue of Youth Violence and Juvenile Justice examined the level of video game exposure for 227 juvenile offenders in Pennsylvania. The average offender had committed nearly nine serious acts of violence, such as gang fighting, hitting a parent or attacking another person in the prior year.
The results show that both the frequency of play and affinity for violent games were strongly associated with delinquent and violent behavior. Craig Anderson, Distinguished Professor of psychology and director of the Center for the Study of Violence at Iowa State, said violent video game exposure is not the sole cause of violence, but this study shows it is a risk factor.
“Can we say from this study that Adam Lanza, or any of the others, went off and killed people because of media violence? You can’t take the stand of the NRA that it’s strictly video games and not guns,” Anderson said. “You also can’t take the stand of the entertainment industry that it has nothing to do with media violence that it’s all about guns and not about media violence. They’re both wrong and they’re both right, both are causal risk factors.”
Researchers point out that juvenile offenders have several risk factors that influence their behavior. The next step is to build on this research to determine what combination of factors is the most volatile and if there is a saturation point.
“When studying serious aggression, looking at multiple risk factors matters more than looking at any one,” Gentile said. “The cutting edge of research is trying to understand in what combination do the individual risk factors start influencing each other in ways to either enhance or mitigate the odds of aggression?”
What does this mean for parents?
There is a lot of misinformation about video game exposure, Anderson said, that makes it difficult for parents to understand the harmful effects. Although it is one variable that parents can control, he understands that with mixed messages about the risks some parents may feel it’s not worth the effort.
“What parent would go through the pain and all the effort it takes to really control their child’s media diet, if they don’t really think it makes any difference? That is why it is so important to get out the simple and clear message that media violence does matter,” Anderson said.
Just because a child plays a violent video game does not mean he or she is going to act violently. Researchers say if there is a take away for parents, it is an awareness of what their children are playing and how that may influence their behavior.
“I think parents need to be truthful and honest about who their children are in terms of their psychiatric functioning,” DeLisi said. “If you have a kid who is antisocial, who is a little bit vulnerable to influence, giving them something that allows them to escape into themselves for a long period of time isn’t a healthy thing.”
Journal Reference:
BY GREG MILLER
03.26.13 – 3:40 PM
Photo: Erika Kyte/Getty Images
Brain scans of convicted felons can predict which ones are most likely to get arrested after they get out of prison, scientists have found in a study of 96 male offenders.
“It’s the first time brain scans have been used to predict recidivism,” said neuroscientist Kent Kiehl of the Mind Research Network in Albuquerque, New Mexico, who led the new study. Even so, Kiehl and others caution that the method is nowhere near ready to be used in real-life decisions about sentencing or parole.
Generally speaking, brain scans or other neuromarkers could be useful in the criminal justice system if the benefits in terms of better accuracy outweigh the likely higher costs of the technology compared to conventional pencil-and-paper risk assessments, says Stephen Morse, a legal scholar specializing in criminal law and neuroscience at the University of Pennsylvania. The key questions to ask, Morse says, are: “How much predictive accuracy does the marker add beyond usually less expensive behavioral measures? How subject is it to counter-measures if a subject wishes to ‘defeat’ a scan?”
Those are still open questions with regard to the new method, which Kiehl and colleagues, including postdoctoral fellow Eyal Aharoni, describe in a paper to be published this week in the Proceedings of the National Academy of Sciences.
The test targets impulsivity. In a mobile fMRI scanner the researchers trucked in to two state prisons, they scanned inmates’ brains as they did a simple impulse control task. Inmates were instructed to press a button as quickly as possible whenever they saw the letter X pop up on a screen inside the scanner, but not to press it if they saw the letter K. The task is rigged so that X pops up 84 percent of the time, which predisposes people to hit the button and makes it harder to suppress the impulse to press the button on the rare trials when a K pops up.
Based on previous studies, the researchers focused on the anterior cingulate cortex, one of several brain regions thought to be important for impulse control. Inmates with relatively low activity in the anterior cingulate made more errors on the task, suggesting a correlation with poor impulse control.
They were also more likely to get arrested after they were released. Inmates with relatively low anterior cingulate activity were roughly twice as likely as inmates with high anterior cingulate activity to be rearrested for a felony offense within 4 years of their release, even after controlling for other behavioral and psychological risk factors.
“This is an exciting new finding,” said Essi Viding, a professor of developmental psychopathology at University College London. “Interestingly this brain activity measure appears to be a more robust predictor, in particular of non-violent offending, than psychopathy or drug use scores, which we know to be associated with a risk of reoffending.” However, Viding notes that Kiehl’s team hasn’t yet tried to compare their fMRI test head to head against pencil-and-paper tests specifically designed to assess the risk of recidivism. ”It would be interesting to see how the anterior cingulate cortex activity measure compares against these measures,” she said.
“It’s a great study because it brings neuroimaging into the realm of prediction,” said clinical psychologistDustin Pardini of the University of Pittsburgh. The study’s design is an improvement over previous neuroimaging studies that compared groups of offenders with groups of non-offenders, he says. All the same, he’s skeptical that brain scans could be used to predict the behavior of a given individual. ”In general we’re horrible at predicting human behavior, and I don’t see this as being any different, at least not in the near future.”
Even if the findings hold up in a larger study, there would be limitations, Pardini adds. “In a practical sense, there are just too many ways an offender could get around having an accurate representation of his brain activity taken,” he said. For example, if an offender moves his head while inside the scanner, that would render the scan unreadable. Even more subtle strategies, such as thinking about something unrelated to the task, or making mistakes on purpose, could also thwart the test.
Kiehl isn’t convinced either that this type of fMRI test will ever prove useful for assessing the risk to society posed by individual criminals. But his group is collecting more data — lots more — as part of a much larger study in the New Mexico state prisons. “We’ve scanned 3,000 inmates,” he said. “This is just the first 100.”
Kiehl hopes this work will point to new strategies for reducing criminal behavior. If low activity in the anterior cingulate does in fact turn out to be a reliable predictor of recidivism, perhaps therapies that boost activity in this region would improve impulse control and prevent future crimes, Kiehl says. He admits it’s speculative, but his group is already thinking up experiments to test the idea. ”Cognitive exercises is where we’ll start,” he said. “But I wouldn’t rule out pharmaceuticals.”
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