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O esvaziamento da discussão ecológica atual que não questiona o modelo econômico e de desenvolvimento (EcoDebate)

Publicado em setembro 6, 2012 por 

“A pergunta passa a ser ‘o que eu devo fazer para ajudar?’ (…) enquanto a questão principal deveria ser ‘contra quem e contra o quê eu devo lutar?’”

 Vladimir Safatle faz parte de uma nova leva de intelectuais de esquerda que não se intimida diante da diversidade de questões trazidas pelo mundo contemporâneo. Nessa entrevista, o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a crise da democracia representativa pode ser a chave para compreender melhor fatos que à primeira vista não estão relacionados, desvelando mecanismos que ligam islandeses a pescadores brasileiros, ecologistas a jovens que voltam a reivindicar as ruas como espaço do fazer político. Um dos autores de ‘Occupy’ (Boitempo, 2012), Safatle defende que vivemos um momento em que a crítica da democracia, longe de balizar o totalitarismo, reacende a capacidade de reinvenção democrática na perspectiva da soberania popular. Com o lançamento de ‘A esquerda que não teme dizer seu nome’ (Três Estrelas, 2012), o filósofo propõe a urgência da saída do “cômodo e depressivo fatalismo”, que, desde a queda do muro de Berlim, alimenta a falsa impressão de que nenhuma ruptura radical está na pauta do campo político.

No seu livro, o senhor defende que falta à esquerda mostrar o que é inegociável. Abandonar o pragmatismo, superar os impasses da ‘governabilidade’, dentre outros elementos, seriam caminhos para isso. Em contrapartida, paira uma dúvida sobre os próprios partidos, sindicatos e estruturas semelhantes: será que serão capazes de se transformar? Os jovens que ocupam as ruas do mundo parecem não se identificar com esse tipo de organização da vida política. Por que isso acontece?

O que aconteceu com os partidos de esquerda?

Os partidos de esquerda passaram por duas fases. A primeira, muito marcada pela polaridade entre os partidos socialdemocratas e os partidos comunistas, sustentou o desenvolvimento dos Estados de bem-estar social na Europa nos anos 1950 e 1960. O segundo momento dos partidos de esquerda é resultado das ideias libertárias de maio de 1968, que vai gerar uma miríade de partidos libertários, sendo o mais importante deles o partido verde. Os partidos verdes vão conseguir impor uma pauta ecológica fundamental no debate político, mas este movimento também se esgotou. Talvez o último relance dele esteja acontecendo na Alemanha com o Partido Pirata. Só que falta uma terceira leva de partidos que sejam capazes de processar a situação fim de linha da crise de 2008, que ainda vai se perpetuar durante muito tempo.

Como esses partidos se caracterizariam?

Falta uma geração de partidos que tenha consciência de problemas vinculados à desigualdade econômica, coisa que esses partidos de segunda geração não têm. Diga-se de passagem, o Partido Verde alemão foi responsável pela lei que desregulamentou e flexibilizou o mercado de trabalho, votada na época do Gerhard Schröder [premier alemão de 1998 a 2005]. Falta uma geração de partidos com a coragem de radicalizar os processos de institucionalização da soberania popular. Partidos que não funcionem como partidos. Isso pode parecer uma coisa estranha, mas no fundo é muito importante. Partidos que não tenham essa estrutura centralizada, estrategicamente orientada, em que as discussões se submetem às estratégias político-partidárias eleitorais do dia. Por que os jovens não querem entrar em partidos hoje? Porque não querem ter a sua capacidade crítica instrumentalizada por cálculos eleitorais. Ninguém mais quer ficar fazendo uma aliança política com fulano para garantir a eleição de sicrano. Esse tipo de raciocínio de mercador, que conseguiu monopolizar a política em todos os seus níveis – inclusive no campo das esquerdas – é o que boa parte dos jovens de hoje se recusa veementemente a seguir, com todas as razões.

O que se coloca no lugar disso?

É fundamental encontrar um modelo de participação eleitoral em que esse tipo de posição não seja rifada. Ninguém aqui está fazendo a profissão de fé que vigorou nos anos 1990 de mudar o mundo sem tomar o poder. Isso não funcionou nem funcionará, o Egito é um exemplo. O grupo que realmente mobilizou o processo revolucionário chama-se Movimento 6 de abril. Eles decidiram não entrar no jogo eleitoral e estão cada vez mais isolados. Essa coisa da força que vem das ruas e vai pressionar o regime de fora tem limite. Então, não se trata de uma crítica abstrata do processo eleitoral, mas da constatação de que é necessário saber entrar nesse processo de uma maneira diferente da que vimos até hoje. Talvez a criação de alianças flexíveis para uma eleição que depois se dissolvem, como a Frente de Esquerda na França, coisas desse tipo. É difícil saber o que vai aparecer, mas uma coisa é certa: o que temos hoje não dá mais conta. Há uma fixação muito grande na democracia representativa. Desde os anos 1970 vivemos nas Ciências Políticas uma espécie de deleite em ficar discutindo como deve ser o jogo democrático, a estrutura dos partidos, dos poderes e blá, blá, blá. Esse tipo de perspectiva bloqueia radicalmente a ideia de que uma das questões centrais da democracia é fazer a crítica da democracia. Quando a democracia perde sua capacidade de reinvenção, ela morre. É o que está acontecendo agora.

O que contribuiu para a recomposição do espaço público das ruas e por que ele foi abandonado durante tanto tempo?

Para você ter crítica social e mobilização é necessário desencanto. Vários níveis de desencanto foram necessários para que as pessoas voltassem às ruas. Quando eu tinha vinte e poucos anos, o discurso era de que nunca mais veríamos grandes mobilizações populares. Poderia haver mobilizações pontuais sobre questões pontuais, mas nunca uma mobilização que colocasse em xeque o modelo de funcionamento e gestão da vida social no interior das sociedades capitalistas avançadas. Hoje vemos que quem fez essas previsões não só errou como tinha interesses ideológicos inconfessáveis. As pessoas que saíram às ruas em 2011 queriam discutir o modelo de funcionamento da estrutura econômica e social das nossas sociedades. No momento em que isso aconteceu, muitos, principalmente da imprensa, se deleitaram em dizer que eles não tinham propostas, o que é falso. Quem foi às ruas buscou o direito de colocar os problemas em questão. Muitas vezes, a pior maneira de se pensar em um problema é “solucioná-lo” muito rapidamente. Também houve quem não tenha ido às ruas e, diante da crise financeira, apareceu com soluções prontas. Essas ‘soluções’ só pioraram os problemas.

No que diz respeito à agenda ambiental, existem muitas ‘soluções’ que, na verdade, provocam um esvaziamento deliberado do potencial político das questões ecológicas. Vemos a individualização da responsabilidade pela poluição presente no discurso das sacolas plásticas, do tempo que as pessoas devem gastar tomando banho, etc. e também um esforço em afastar a população da discussão travestindo-a como eminentemente técnica. Como vê isso?

É uma tentativa de retirar a força política da questão ecológica transformando-a em uma questão moral. A discussão gira em torno dos atos dos indivíduos, que precisam ser modificados. Você precisa gastar menos tempo no banho, comprar produtos bio e coisas desse tipo. É uma maneira muita astuta de operar um deslocamento que é mortal para o problema ecológico, porque a pergunta passa a ser “o que eu devo fazer para ajudar?” – e, a princípio, parece legal todo mundo fazer alguma coisa para ajudar –, enquanto a questão principal deveria ser “contra quem e contra o quê eu devo lutar?”. Sem isso, a tendência é esvaziar completamente a dimensão da discussão ecológica, não se questiona o modelo econômico e de desenvolvimento. E o forte potencial político dessa discussão reside justamente nesse questionamento do modelo de desenvolvimento das sociedades capitalistas avançadas, colocando em xeque o modelo de organização e gestão das cidades, dos transportes, dos resíduos, da energia… Como resultado desse deslocamento da dimensão política para a moral, nada disso é colocado em questão, por mais que todo mundo defenda com a mão no coração “as florestas”, a questão que a ecologia trouxe está fora do debate.

A retórica do discurso técnico na qual as pessoas não conseguem ter acesso aos fatos sem a mediação de especialistas é um obstáculo para a reconstrução do campo político nas bases dessa democracia direta, estreitamente ligada aos reais interesses das populações, não?

Posso dar um exemplo sobre esse tipo de problema. A Islândia foi um dos primeiros países a entrar na crise financeira de 2008. Bancos islandeses venderam fundos de investimento na Holanda e na Inglaterra e quando esses bancos quebraram, os governos holandês e inglês exigiram que o governo da Islândia bancasse a dívida dos bancos. Diante disso, o parlamento islandês resolveu votar uma lei de ajuda aos bancos falidos e a lei passou. Mas o presidente da Islândia, que era um sujeito mais esclarecido, lembrou que a Constituição do país previa a convocação de um referendo popular em casos como aquele. Resumindo, ele lembrou que o princípio central da democracia é: quem paga a orquestra, escolhe a música. Quem pagaria aquela dívida não seria o parlamento, mas a população, que teria seus recursos e salários expropriados por uma série de impostos destinados ao pagamento da dívida dos bancos. A população islandesa decidiu que não queria isso. Depois do resultado do referendo, aconteceu a coisa mais fantástica, que é a essência da democracia parlamentar atual: o parlamento votou e aprovou mais uma vez a mesma lei de ajuda aos bancos. Então, novamente, o presidente acionou o mecanismo do referendo popular e, pela segunda vez, os islandeses disseram não. O que isso significa? Alguns podem questionar “como uma questão ‘técnica’ dessas vai parar em referendo popular?”, acusar o presidente de demagogia, etc., o que é absolutamente surreal. Não é possível que parlamentares que têm suas campanhas pagas por bancos definam o que vai acontecer com o dinheiro da população em relação ao pagamento ou não da dívida destes bancos. Não faltaram economistas prevendo que a Islândia iria quebrar. No entanto, de todos os países que entraram na crise, a Islândia é um dos que está em melhor situação atualmente. A tentativa de retirar a força política da decisão era simplesmente uma construção ideológica para legitimar os “técnicos”, que, no fundo, de técnicos não têm nada porque representantes do poder financeiro que conseguiu tomar conta de todas as instituições das democracias avançadas. Esse é o limite da democracia atual. O sistema financeiro é o grande inimigo da democracia.

Existe um tipo de agenda ambiental apoiada na entrada de bens comuns para o mercado que vem sendo denunciada como a solução encontrada pelo sistema financeiro para sair da crise ao mesmo tempo em que, também apoiada na retórica da crise, Angela Merkel lidera na zona do Euro políticas de austeridade que deslegitimam a vontade soberana dos povos, como no caso grego. Como ‘a esquerda que não teme dizer seu nome’ se coloca nesse processo?

Os problemas ligados à ecologia têm um forte potencial não só mobilizador como também transformador. No entanto, nós temos hoje duas ecologias. Uma tem um potencial transformador, mas a outra é conservadora. O capitalismo vê na ecologia um dos elementos de sua renovação. Hoje, qualquer liberal, qualquer analista de Wall Street vai admitir o discurso ecológico. Há alguns autores que falam que depois da bolha imobiliária, nós temos agora a bolha verde. Uma vez escrevi um pequeno texto sobre o filme Wall Street [2010], de Oliver Stone, que me impressionou pela agudez da metáfora. Um jovem analista do mercado aposta no potencial financeiro das energias renováveis. Ele era um visionário porque, de certa maneira, pregava uma reconciliação entre o setor mais rentista da economia e algumas exigências presentes na pauta ecológica. Isso só pode ser feito rifando completamente a dimensão em que a reflexão ecológica aparece como um elemento fundamental de afirmação da soberania popular. Existe uma tendência bizarra, mas muito concreta, de articulação entre um determinado setor de lutas ecológicas e o capital financeiro. Inclusive, do ponto de vista eleitoral, acontece muita coisa complicada. Os partidos verdes europeus preferem se aliar a partidos de centro do que aos partidos de esquerda. Por exemplo, na Alemanha, o Partido Verde prefere uma aliança com a CDU [partido democrata-cristão da primeira-ministra Angela Merkel] do que uma aliança com a Die LINK, que é um partido de esquerda mais dura. Na França foi a mesma coisa. Tudo isso me parece muito preocupante. É necessário livrar a agenda ecológica dessa tendência à justificativa de um liberalismo renovado para recolocá-la no lugar onde ela sempre esteve, ou seja, como elemento fundamental da reflexão da esquerda sobre o caráter deletério dos processos de desenvolvimento do capitalismo avançado.

Como o novo pensamento de esquerda pode articular uma mirada filosófica diferente para a questão do uso produtivista da natureza, característico do neodesenvolvimentismo aqui no Brasil?

Eu reconheço que esse produtivismo em relação à natureza também esteve muito presente em certos setores da esquerda que, durante muito tempo, entenderam a natureza como fonte de recursos e só. Basta lembrar que nos países comunistas a política ambiental foi catastrófica. Isso, inclusive, tem base teórica, vem de uma leitura do pensamento marxista em que a natureza era um discurso reificado, sem realidade ontológica em si. Em última instância, a natureza era o fruto do trabalho humano então a intervenção humana na natureza já estava justificada de antemão, sem maiores contradições. Mas acredito que do ponto de vista da esquerda hoje existe uma consciência tácita a respeito da centralidade da agenda ecológica. Não foram poucos os filósofos no século 20 que nos alertaram para o impacto negativo da redução da relação com a natureza a sua dimensão eminentemente técnica. Por mais que o desenvolvimento técnico pareça nos assegurar a dominação da natureza, o fato de compreender a relação humana com a natureza sob o signo da dominação já é um problema grave. Então, essa ideia de que, sim, vivemos em um país que tem necessidades de desenvolvimento maiores porque há urgências de inclusão social não invalida o fato de estarmos no interior de um processo de reflexão sobre o que significa riqueza social. Será que riqueza social significa ter um conjunto determinado de bens de consumo, ter transporte individual, ter uma relação extrativista da energia natural? Ou significa ser capaz de criar um modelo de relação com a natureza que garanta de maneira fundamental a qualidade de vida? Essa é uma bela questão que só o debate ecológico foi capaz de colocar.

Assim como em movimentos urbanos, a exemplo do Ocuppy, a pauta ecológica delineia um horizonte onde outro modelo de sociedade é possível, fazendo cada vez mais a crítica ao poder do sistema financeiro para bloqueá-lo?

A pauta ecológica atinge o modelo na sua esfera econômica mais clara ao afirmar que nós não queremos uma situação na qual todos os agentes econômicos estejam submetidos aos interesses de uma meia dúzia de multinacionais que detém não só a estrutura de produção, mas também o desenvolvimento da técnica. Quando se fala em agricultura familiar, o que isso quer dizer? Que, enquanto modelo econômico, não é possível estabelecer uma brutal concentração de terras, de tecnologia, de insumos. Insistir na agricultura familiar é, dentre outras coisas, insistir na pulverização radical da posse não só da terra, mas dos bens e das técnicas. Porque se isso não ocorrer, você tem não só consequências demográficas muito brutais, como o inchaço das periferias urbanas, mas também uma espécie de situação na qual a criatividade inerente à pulverização das técnicas é perdida. Milhares de produtores não vão produzir as mesmas coisas, nem sob as mesmas condições.

Por exemplo?

Por exemplo, quando essas questões ecológicas se vinculam ao problema da soberania alimentar. O fato de que você tem uma política agrícola que vai eliminando completamente a diversidade alimentar não é só uma questão de garantia das tradições – eu seria o último a fazer aqui a defesa abstrata da particularidade das tradições. Dentre outras coisas, é preciso reconhecer que a tradição tem uma dimensão de experiência que será muito importante para nós quando tivermos condições de compreender como os saberes alimentares se constituíram e o que eles garantem. Há uma tendência monopolista muito forte, nós vemos nas últimas décadas algo que está na base da tradição marxista, a ideia de que vai chegar um momento em que a própria noção de concorrência começa a desaparecer. Esse processo concentracionista toma a relação com a natureza de assalto, da maneira mais brutal possível. Todos esses movimentos camponeses, como a Via Campesina, insistem que há um risco não só econômico como social em se permitir a concentração das atividades agrícolas na mão de multinacionais. As sociedades pagarão caro se não conseguirem bloquear esse processo.

Pegando carona nesse exemplo da Via Campesina, cada vez mais surgem relatos de populações tradicionais emparedadas por esse modelo de desenvolvimento, mas, ainda sim, estes relatos bastante concretos e verificáveis são deslegitimados…

Tenta-se desqualificar essas resistências como uma espécie de arcaísmo. É como se dissessem “vocês precisam entender que têm uma visão absolutamente romântica do mundo”. É um discurso que condena “a crítica às luzes”, no final das contas. Diz muito a tentativa de retirar dessas lutas uma espécie de prova maior do conservadorismo de certas populações que no fundo são as populações mais vulneráveis, pois sabem que quando essas empresas chegam eles vão para o espaço simplesmente. Quando a Petrobrás chega para fazer a exploração de petróleo nas bacias, a vida dos pescadores é a última coisa na qual ela vai pensar. “Imagina você ficar preocupado com peixe quando o país quer se transformar em uma grande potência petrolífera?”. Ou seja, eles querem vender essa perspectiva, mas uma questão fundamental da esquerda é saber defender as alas mais vulneráveis da sociedade. Existe um modelo retórico que procura nos fazer acreditar que toda resistência seja, no fundo, uma recusa do progresso. Acho importante recolocar de maneira clara o que significa ‘progresso’ no interior desse contexto. O progresso procuraria dar conta de certas exigências fundamentais de bem-estar. O progresso científico não é simplesmente um processo de dominação da natureza, mas também um processo de otimização do bem-estar humano. Mas esse dito ‘progresso’ promete uma maior qualidade de vida para as populações e acaba produzindo o inverso. Para que essa inversão não ocorra, é necessária uma reconstituição brutal dos modelos de relação com a natureza. E, nesse processo, o interessante é que nasce outra consciência da organização social.

* Entrevista realizada por Maíra Mathias para a revista Poli n° 24, de julho e agosto de 2012

** Entrevista socializada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio(EPSJV/Fiocruz), publicada pelo EcoDebate, 06/09/2012

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Realistically What Might the Future Climate Look Like? (Skeptical Science)

Posted on 31 August 2012 by dana1981

Robert Watson, former Chair of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), recently made headlines by declaring that it is unlikely we will be able to limit global warming to the 2°C ‘danger limit’.  This past April, the International Energy Agency similarly warnedthat we are rapidly running out of time to avoid blowing past 2°C global warming compared to late 19th Century temperatures.  The reason for their pessimism is illustrated in the ‘ski slopes’ graphic, which depicts how steep emissions cuts will have to be in order to give ourselves a good chance to stay below the 2°C target, given different peak emissions dates (Figure 1).

ski slopes

Figure 1: Three scenarios, each of which would limit the total global emission of carbon dioxide from fossil-fuel burning and industrial processes to 750 billion tonnes over the period 2010–2050.  Source: German Advisory Council on Global Change, WBGU (2009)

Clearly our CO2 emissions have not yet peaked – in fact they increased by 1 billion tonnes between 2010 and 2011 despite a continued global economic recession; therefore, the green curve is no longer an option.  There has also been little progress toward an international climate accord to replace the Kyoto Protocol, which suggests that the blue curve does not represent a likely scenario either – in order to achieve peak emissions in 2015 we would have to take serious steps to reduce emissions today, which we are not.  The red curve seems the most likely, but the required cuts are so steep that it is unlikely we will be able to achieve them, which means we are indeed likely to surpass the 2°C target.

Thus it is worth exploring the question, what would a world with >2°C global surface warming look like?

Global Warming Impacts

The 2007 IPCC Fourth Assessment Report (AR4) summarizes the magnitudes of impact of various degrees of warming here, and graphically in Figure 2, relative to ~1990 temperatures (~0.6°C above late 19th Century temperatures).

fig spm.2

Figure 2: Illustrative examples of global impacts projected for climate changes (and sea level and atmospheric carbon dioxide where relevant) associated with different amounts of increase in global average surface temperature in the 21st century. The black lines link impacts, dotted arrows indicate impacts continuing with increasing temperature. Entries are placed so that the left-hand side of the text indicates the approximate onset of a given impact. Quantitative entries for water stress and flooding represent the additional impacts of climate change relative to the conditions projected across the range of Special Report on Emissions Scenarios (SRES) scenarios. Adaptation to climate change is not included in these estimations. Confidence levels for all statements are high.  IPCC AR4 WGII Figure SPM.2.  Click the image for a larger version.

Some adverse impacts are expected even before we reach the 2°C limit, for example hundreds of millions of people being subjected to increased water stress, increasing drought at mid-latitudes (as we recently discussed here), increased coral bleaching, increased coastal damage from floods and storms, and increased morbidity and mortality from more frequent and intense heat waves (see here), floods, and droughts.  However, by and large these are impacts which we should be able to adapt to, at a cost, but without disastrous consequences.

Once we surpass the 2°C target, the impacts listed above are exacerbated, and some new impacts will occur.  Most corals will bleach, and widespread coral mortality is expected ~3°C above late 19th Century temperatures.  Up to 30% of global species will be at risk for extinction, and the figure could exceed 40% if we surpass 4°C, as we continue on the path toward the Earth’s sixth mass extinction.  Coastal flooding will impact millions more people at ~2.5°C, and a number of adverse health effects are expected to continue rising along with temperatures.

Reasons for Concern

Smith et al. (2009) (on which the late great Stephen Schneider was a co-author) updated the IPCC impact assessment, arriving at similar conclusions.  For example,

“There is medium confidence that ~20–30% of known plant and animal species are likely to be at increased risk of extinction if increases in global average temperature exceed 1.5 °C to 2.5 °C over 1980–1999”

“increases in drought, heat waves, and floods are projected in many regions and would have adverse impacts, including increased water stress, wildfire frequency, and flood risks (starting at less than 1 °C of additional warming above 1990 levels) and adverse health effects (slightly above 1 °C)”

“climate change over the next century is likely to adversely affect hundreds of millions of people through increased coastal flooding after a further 2 °C warming from 1990 levels; reductions in water supplies (0.4 to 1.7 billion people affected with less than a 1 °C warming from 1990 levels); and increased health impacts (that are already being observed”

Smith et al. updated the 2001 IPCC report ‘burning embers’ diagram to reflect their findings (Figure 3).  On this figure, white regions indicate neutral or low impacts or risks, yellow indicates negative impacts for some systems or more significant risks, and red indicates substantial negative impacts or risks that are more widespread and/or severe.  They have grouped the various climate change consequences into ‘reasons for concern’ (RFCs), summarized below.

smith embers

Figure 3:  Risks from climate change, by reason for concern (RFC). Climate change consequences are plotted against increases in global mean temperature (°C) after 1990. Each column corresponds to a specific RFC and represents additional outcomes associated with increasing global mean temperature. The color scheme represents progressively increasing levels of risk and should not be interpreted as representing ‘‘dangerous anthropogenic interference,’’ which is a value judgment. The historical period 1900 to 2000 warmed by 0.6 °C and led to some impacts. It should be noted that this figure addresses only how risks change as global mean temperature increases, not how risks might change at different rates of warming. Furthermore, it does not address when impacts might be realized, nor does it account for the effects of different development pathways on vulnerability.

  • Risk to Unique and Threatened Systems addresses the potential for increased damage to or irreversible loss of unique and threatened systems, such as coral reefs, tropical glaciers, endangered species, unique ecosystems, biodiversity hotspots, small island states, and indigenous communities.
  • Risk of Extreme Weather Events tracks increases in extreme events with substantial consequences for societies and natural systems. Examples include increase in the frequency, intensity, or consequences of heat waves, floods, droughts, wildfires, or tropical cyclones.
  • Distribution of Impacts concerns disparities of impacts.  Some regions, countries, and populations face greater harm from climate change, whereas other regions, countries, or populations would be much less harmed—and some may benefit; the magnitude of harm can also vary within regions and across sectors and populations.
  • Aggregate Damages covers comprehensive measures of impacts. Impacts distributed across the globe can be aggregated into a single metric, such as monetary damages, lives affected, or lives lost. Aggregation techniques vary in their treatment of equity of outcomes, as well as treatment of impacts that are not easily quantified.
  • Risks of Large-Scale Discontinuities represents the likelihood that certain phenomena (sometimes called tipping points) would occur, any of which may be accompanied by very large impacts. These phenomena include the deglaciation (partial or complete) of the West Antarctic or Greenland ice sheets and major changes in some components of the Earth’s climate system, such as a substantial reduction or collapse of the North Atlantic Meridional Overturning Circulation.

All of these reasons for concern enter the red (substantial negative impact, high risk) region by 4°C.  Aggregate impacts are in the red region by 3°C, and some types of concerns are in the red region by 1°C.

For more details we also recommend Mark Lynas’ book Six Degrees, which goes through the climate impacts from each subsequent degree of warming, based on a very thorough review of the scientific literature.  A brief review of the book by Eric Steig and summary of some key impacts is available here.  National Geographic also did a series of videos on the Six Degrees theme, which no longer seem to be available on their websites, but which can still be found on YouTube.

This is Why Reducing Emissions is Critical

We’re not yet committed to surpassing 2°C global warming, but as Watson noted, we are quickly running out of time to realistically give ourselves a chance to stay below that ‘danger limit’.  However, 2°C is not a do-or-die threshold.  Every bit of CO2 emissions we can reduce means that much avoided future warming, which means that much avoided climate change impacts.  As Lonnie Thompson noted, the more global warming we manage to mitigate, the less adaption and suffering we will be forced to cope with in the future.

Realistically, based on the current political climate (which we will explore in another post next week), limiting global warming to 2°C is probably the best we can do.  However, there is a big difference between 2°C and 3°C, between 3°C and 4°C, and anything greater than 4°C can probably accurately be described as catastrophic, since various tipping points are expected to be triggered at this level.  Right now, we are on track for the catastrophic consequences (widespread coral mortality, mass extinctions, hundreds of millions of people adversely impacted by droughts, floods, heat waves, etc.).  But we’re not stuck on that track just yet, and we need to move ourselves as far off of it as possible by reducing our greenhouse gas emissions as soon and as much as possible.

There are of course many people who believe that the planet will not warm as much, or that the impacts of the associated climate change will be as bad as the body of scientific evidence suggests.  That is certainly a possiblity, and we very much hope that their optimistic view is correct.  However, what we have presented here is the best summary of scientific evidence available, and it paints a very bleak picture if we fail to rapidly reduce our greenhouse gas emissions.

If we continue forward on our current path, catastrophe is not just a possible outcome, it is the most probable outcome.  And an intelligent risk management approach would involve taking steps to prevent a catastrophic scenario if it were a mere possibility, let alone the most probable outcome.  This is especially true since the most important component of the solution – carbon pricing – can be implemented at a relatively low cost, and a far lower cost than trying to adapt to the climate change consequences we have discussed here (Figure 4).

Figure 4:  Approximate costs of climate action (green) and inaction (red) in 2100 and 2200. Sources: German Institute for Economic Research andWatkiss et al. 2005

Climate contrarians will often mock ‘CAGW’ (catastrophic anthropogenic global warming), but the sad reality is that CAGW is looking more and more likely every day.  But it’s critical that we don’t give up, that we keep doing everything we can do to reduce our emissions as much as possible in order to avoid as many catastrophic consequences as possible, for the sake of future generations and all species on Earth.  The future climate will probably be much more challenging for life on Earth than today’s, but we still can and must limit the damage.

Livros sobre a violência e as torcidas de futebol

Gol, guerra e gozo: o prazer pode golear a violênciaGol, Guerra E Gozo – o Prazer Pode Golear a Violência

Por Joaquim Z. B. Motta

Casa do Psicólogo, 2005

 

 

 

 

 

A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje

Por Maurício Murad

FGV Editora, 2007

Violência nos estádios de futebol: um olhar sobre quem faz a segurança (Universidade do Futebol)

Um estudo consistente sobre a relação entre os organismos de segurança e os eventos esportivos no Brasil

Felipe Leivas Alves* e Méri Rosane Santos da Silva

Resumo

Violência e futebol se confundem enquanto produções relevantes dentro de uma sociedade que vem ganhando noções de complexidade. Esta análise buscou uma abordagem da questão da violência nos estádios, partindo da ideia de se verificar a atuação dos órgãos de segurança pública em tais espetáculos e a relação estabelecida entre esses e os torcedores envolvidos em tal processo. Na busca por elementos contribuintes no debate, foram utilizados diários de campo e entrevistas com sujeitos responsáveis pela segurança nos estádios. Diante dos elementos emergentes da pesquisa, foi possível perceber a relação existente entre os órgãos públicos de segurança e os espetáculos de futebol, suas formas de lidar com o fenômeno da violência, bem como se dá a noção de violência com a qual trabalham esses organismos.

 

Introdução

Pensar o fenômeno do futebol atual é analisá-lo diante de diversas possibilidades. A partir das temáticas que emergiram com o decorrer do desenvolvimento desse esporte, a questão da violência nos estádios surge como elemento constituinte nesse processo. Como não encontramos nas referências pesquisadas nenhum estudo que discutisse a questão da violência no futebol na perspectiva dos organismos de segurança, essa temática se fez importante de ser analisada.

Sendo assim, propõe-se um estudo que possa contribuir no sentido de acrescentar informações, acredita-se, incomuns quando o assunto da violência em estádios de futebol é debatido. Para isso, se pretendeu analisar a temática, tomando como objeto de análise os organismos de segurança pública envolvidos no processo, invertendo a lógica presente na maioria dos estudos que tratam sobre esse tema, os quais apresentam as torcidas como foco de pesquisas que abordam a violência no futebol.

Para isso, se apresenta uma análise que tem como objetivo norteador verificar a relação dos órgãos de segurança pública com a temática da violência nos estádios de futebol, buscando elementos que indiquem como se dá a organização de tais organismos, a forma como atuam e a partir de que pressupostos trabalham no sentido de abordar essa questão.

Trabalhar com a ideia de analisar a violência nos estádio de futebol nem sempre apareceu como uma de minhas prioridades na abordagem que possuo com o esporte. Intencionado a desenvolver um trabalho mais voltado para questões técnicas do desporto, a temática do trabalho apareceu como uma oportunidade de desenvolver questões pertinentes ao campo de atuação ao qual pertenço, mas que nem sempre surgem como relevantes, mesmo que possuam relação com as atividades presentes no meu cotidiano.

Interessante foi perceber que, no decorrer da pesquisa, acaba-se deparando com o surgimento de diversos elementos, antes nunca imaginados, em uma partida de futebol. Quando apresentado ao campo de estudo, percebeu-se que elementos imaginados previamente, os quais havia suspeitas que fossem surgir, acabaram por não brotar ou tomaram outras proporções, da mesma forma que outros surgiram de forma surpreendente no decorrer da análise. Nesse sentido, foi importante a realização deste estudo no momento em que se pode confrontar ideias que pareciam estar em um completo estado de conformidade, mas no instante em que se procurou uma abordagem de suas aplicações, surgiram discussões relevantes com relação aos organismos de segurança nos jogos de futebol.

Para que se pudessem buscar elementos contribuintes no debate sobre a questão, alguns procedimentos metodológicos foram tomados. Como se tratou de uma análise qualitativa, que se interessou na busca por dados para posterior análise, foram utilizados dois instrumentos principais de coleta dos dados obtidos. Com o objetivo de levantar as informações relevantes presentes nos ambientes investigados, utilizou-se a ferramenta do Diário de Campo, onde foram feitos os registros de 11 partidas do Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão de 2009, que aconteceram no estádio Aldo Dapuzzo, pertencente ao Sport Club São Paulo e no estádio Arthur Lawson, de propriedade do Sport Club Rio Grande. Tais observações e registros preocuparam-se, em suma, em relatar a organização dos órgãos de segurança envolvidos nos jogos, sua atuação no espetáculo, bem como nos fatos que pudessem contribuir na análise da pesquisa.

Além da confecção do Diário de Campo, foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas com representantes dos organismos de segurança envolvidos nos jogos de futebol, sendo um entrevistado por parte da Brigada Militar e outro do Corpo de Bombeiros. A definição das pessoas para a realização das entrevistas foi realizada pelos próprios órgãos de segurança, tendo sido apenas solicitada a entrevista com os organismos e não com determinados sujeitos de tais instituições.

Ainda sobre o Diário de Campo, como atividade inédita para esse pesquisador, algumas dificuldades foram enfrentadas na realização de tal tarefa. Como o estádio de futebol é um ambiente rico, que proporciona uma gama grande de elementos que acontecem a todo instante, foi difícil estar presente nos quatro cantos ao mesmo tempo. Se fosse possível, convidaria um auxiliar, para que não se perdesse tudo o que acontece nos 90 minutos de cada jogo.

Cabe salientar que, no decorrer da análise dos dados obtidos, aqueles referentes ao Diário de Campo acabaram por não serem utilizados na discussão dos elementos alcançados. Isso ocorreu pelo fato de não haverem nos registros em campo, pontos que pudessem demonstrar relevância nas discussões apresentadas no texto.

Portanto, com o intuito de verificar essa relação existente entre organismos de segurança e espetáculos de futebol, foi necessária a verificação de diversas questões envolvidas nesse processo. Nesse sentido, é que se propõe um debate de três temáticas presentes no tema proposto: a primeira se refere ao futebol moderno e seu envolvimento com as questões da violência, bem como um panorama sobre o futebol brasileiro, aproximando as questões estudadas com o objeto de análise; a segunda dirá respeito aos órgãos de segurança envolvidos na realização de uma partida oficial de futebol, buscando desenvolver uma visão histórica e conceitual dessas instituições e, por fim, far-se-á a discussão dos dados coletados diante do que foi apreendido no decorrer da pesquisa.

Localizando o futebol profissional moderno

Falar sobre o fenômeno futebol nos tempos atuais é pensar em uma atividade com ares de complexidade. Deixar de associar esse desporto com outras questões presentes em nossa sociedade já não é algo distante de nosso cotidiano. Portanto, discutiremos o futebol profissional moderno visto sob o ângulo da atuação dos organismos de segurança nos espetáculos de futebol.

É sabido, que a origem do futebol moderno remonta à Inglaterra do século XIX. O processo de transformação do jogo em esporte culminou em uma série de mudanças na maneira de se praticar o agora desporto, como a criação de regras mais rígidas, a sistematização das funções dentro do campo de jogo etc. Mas, passando a discussão para o foco principal deste trabalho, apontamos a criação da Fifa (Federation Internationale de Football Association) como um marco importante nos rumos do futebol moderno.

Hoje, se sabe que a Fifa possui um papel centralizador nas mais variadas questões relativas à futebol profissional, estabelecendo padrões que são “adquiridos” em todos os lugares do globo em que se pratique futebol. Outra característica importante da instituição é a sua segmentação por todas as partes do globo por meio de federações nacionais, sendo que essas, por sua vez, apresentam atuação pautada sob as diretrizes da Fifa. Além disso, organiza eventos de grande visibilidade mundial, como a Copa do Mundo, que hoje é vista não só como um acontecimento reduzido somente à disputa esportiva, mas também como um tempo/espaço para oportunidades de negócio, como afirma Heloisa dos Reis Brunhs, em seu texto “Relação entre futebol moderno e Sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador”, em que diz:

Em torno não só do futebol, mas também da realização da Copa do Mundo de Futebol, criou-se um mundo do negócio milionário e que atrai os mais diferentes setores, como, por exemplo, o turismo, a indústria têxtil e de calçados, – particularmente de materiais esportivos, além da criação de novos profissionais, todos esportivos – os empresários, advogados, juízes, economistas, gestores e dirigentes (2005. p, 6).

Nesse sentido, buscando uma vinculação com o objeto de estudo deste artigo que trata das questões referentes à órgãos de segurança pública e espetáculos de futebol, vislumbro uma discussão em que se possa associar a unidade Fifa como mentora dos rumos de todo e qualquer campeonato de futebol profissional no mundo e mais precisamente aqui o Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão. Quem estabelece os dias dos jogos? Os horários? A organização do espetáculo? Se observarmos a relação macro e “micro” nos jogos pelo mundo, veremos semelhanças que parecem apresentar “padrões”. Jogos geralmente às quartas e quintas, ou aos sábados o domingos, nas tardes e noites, tudo isso “estabelecido” informalmente, mas que parece virar uma verdade para todos os “ramos” de futebol profissional no mundo.

Porém, pensar o futebol desvinculado da sociedade em que está inserido já não parece ser mais uma opção possível, e nesse sentido é que tais “designações” para os dias de jogos acabam por modificar o panorama de um lugar. Pela proporção dos espetáculos de futebol e por sua importância dentro do contexto social atual, as instituições de segurança pública passaram a ter papel importante nesse processo. E nesse contexto é que a centralidade das determinações da Fifa nem sempre vai de encontro às possibilidades dos locais em que se veja futebol profissional, pois não considera as peculiaridades de cada lugar e as possibilidades de cada ambiente. Com isso, pensar o futebol de hoje é vê-lo com um olhar de complexidade, pois além de tratar de questões técnicas de campo ele atinge também setores da vida social-cultural-econômica.

Outros pontos que pode contribuir nessa discussão é o papel da mídia na “venda” do futebol profissional como produto e espetáculo. Veículo cada vez mais dotado de legitimidade e confiança dentro de nossa sociedade possui força em promover qualquer fato que lhe pareça oportuno e rentável.

Aproximando nossa discussão sobre órgãos de segurança e futebol nos estádios, abordemos aqui como a mídia contribui na ideia de transformar um “simples jogos de bola” em algo monumental. A partir do momento em que ela percebeu o quanto pode ser favorável financeiramente esse fenômeno, os veículos de comunicação passaram a explorar diariamente tudo aquilo que “cheire” a futebol. A maioria dos canais de TV reserva nem que seja um comentário sobre futebol profissional, sem falar naqueles que o exploram 24 horas por dia.

Partindo dessa ideia é que percebemos o quanto a mídia tende a vender os jogos de futebol e criar uma necessidade no torcedor de que esse se sinta tentado a investir nesse produto. Ela promove e vende o espetáculo ao mesmo tempo, pois “convida” o torcedor a ir ao estádio, mas também oferece opções para aqueles que fiquem em casa.

Nesse sentido, é que, muitas vezes, na tentativa de engrandecer um jogo de futebol, as organizações midiáticas acabam promovendo algo que “teoricamente” não existe. Constantemente tratam o jogo com expressões de guerra, com ares de uma batalha e que assim o torcedor seria mais um guerreiro dentro do estádio a vencer esse “duelo”. Mas nem sempre esse discurso contribui em um estado de pacificação no ambiente de jogo, transformando um espetáculo em, aí sim, verdadeiros campos de batalha entre torcedores.
Ainda assim, a mídia possui papel “catalisador” na apreciação do espetáculo, promovendo e explorando-o, seja da maneira que for, mas vendendo a ideia ao torcedor da “importância” de ser um agente fundamental nesse processo.

Notas sobre o futebol profissional do Brasil

Falar sobre o futebol brasileiro sob o ponto de vista das diversidades culturais que um país continental como o nosso apresenta nem sempre parece uma das ideias mais fáceis de realizar, contudo, faz-se necessário abordar neste trabalho noções sobre o campo de pesquisa observado. Nesse caminho, será apresentado neste espaço um panorama daquilo que é vivenciado principalmente em termos de futebol profissional no Brasil, seus órgãos de comando, competições etc.

De maneira a iniciar a discussão, se faz necessário realizar uma abordagem de âmbito nacional a respeito do assunto referido anteriormente. Sobre esse aspecto, ressalta-se a presença da Confederação Brasileira de Futebol – CBF , como entidade encarregada pela grande maioria das ações referentes ao futebol profissional no Brasil. Entidade ligada e subordinada à Federação Internacional de Futebol e Associados – Fifa é ela quem, por exemplo, organiza os Campeonatos Brasileiros, desde a Série A até a D, como também a Copa do Brasil, essa constituída inclusive por sua versão feminina.

Mas, saindo um pouco da discussão sobre a CBF, passemos a direcionar a atenção em como funcionam essas competições de nível nacional, realizados no país. Conhecida por reunir os clubes de maior representatividade em cada época, a Série A do Campeonato Brasileiro conta com as grandes potências em termos de futebol no país. Atualmente, funciona com 20 clubes sob a forma de disputa de turno e returno, em que cada equipe joga 38 rodadas, 19 em seu estádio e mais 19 fora dele, alternadamente, e o campeão será aquele que somar o maior número de pontos no total. .O Campeonato Brasileiro da Série A apresenta em 2009 um calendário com início previsto em Maio e término em Dezembro. Algo similar pode também ser observado na disputa do Campeonato das Séries B e C também.

Entretanto, quando se observa os dias e horários dos jogos, nota-se uma alternância nos diferentes níveis. Enquanto, por exemplo, na Série A os jogos são realizados, usualmente, às quartas, quintas, sábados e domingos, os jogos da Série B apresentam dias de jogos nas terças, sábados e domingos. Com relação aos horários das partidas, tanto os da Série A, quanto os da Série B, apresentam horários que variam das 16h até jogos realizados às 20h50. Já os da Série C e D apresentam, em sua maioria, jogos entre 16h e 18h.

Já com relação à Copa do Brasil, como o próprio nome sugere, o torneio é disputado em forma de confrontos eliminatórios e não em turno e returno, sendo composto por 64 clubes, contando com a participação de equipes de todos os estados brasileiros. Os horários dos jogos se assemelham aos do Campeonato Brasileiro da Série A. Realizada no primeiro semestre de cada ano, é fortemente conhecida por também proporcionar ao campeão uma vaga para a disputa da Copa Libertadores, já que o Campeonato Brasileiro proporciona vagas para tal competição da mesma forma. Ainda cabe ressaltar a realização, desde 2007, da versão feminina do torneio, que, em 2009, contou com a participação de 32 clubes, sendo disputada no mesmo molde da masculina.

Saindo um pouco da apresentação sobre os campeonatos nacionais, vale comentar a existência de 26 federações estaduais de futebol, todas ligadas à CBF. Sobre essas, que são órgãos responsáveis, entre outras coisas, pelo suporte aos clubes de cada estado, se observa a tarefa principal de organização dos campeonatos estaduais. Esses, atualmente realizados no primeiro semestre de cada ano, normalmente com duração de Janeiro à Maio, salvo algumas exceções, representam uma das formas de disputa que dão a oportunidade de congregar o maior número de clubes profissionais em torno de uma competição regionalizada.

Trazendo a análise para o espaço e tempo de estudo deste trabalho, no estado do Rio Grande do Sul, verifica-se a presença da Federação Gaúcha de Futebol – FGF, como a entidade responsável em organizar tanto o Campeonato Gaúcho da Primeira Divisão quanto o da Segunda Divisão de Futebol Profissional.

Com relação ao Campeonato da Primeira Divisão, no ano de 2009, a competição contou com a presença de 16 clubes, dispostos em dois grupos. A disputa, realizada em dois turnos, promovendo a realização de jogos entre todas as equipes, obteve nessa edição como campeã a equipe do Sport Club Internacional, vencedora de ambos os turnos. No que diz respeito aos dias de jogos em que foram realizadas as partidas, os dias reservados foram quarta, quinta, sábado e domingo, com horários que variavam entre 16h e 22h. Resumidamente, tal campeonato representa uma disputa entre os clubes que, em anos anteriores, apresentaram os melhores desempenhos técnicos no campo de jogo, já que aqueles que não o obtiveram, se encontram disputando o Campeonato Gaúcho da Série B.

Sobre a disputa da Série B do Gaúcho, a mais relevante para este estudo, já que contempla alguns dos objetos de pesquisa deste trabalho, encontramos algumas diferenças se o compararmos ao da Primeira Divisão. No ano de 2009, a participação dos 23 clubes contrasta, por exemplo, com os 26 participantes do ano de 2008, algo não observado na Primeira Divisão, que conta sempre com o mesmo número de clubes. Tal situação se deve basicamente à falta de interesse ou de recursos econômicos de muitos clubes do estado, já que atualmente não existe uma Terceira Divisão, portanto, impossibilitando o acesso por promoção de divisão.
Em 2009, os tais 23 clubes, dentre eles o Sport Club Rio Grande e o Sport Club São Paulo, ambos objetos deste estudo, foram inicialmente distribuídos em três grupos, e por meio de qualificação e posteriores formações de outros grupos dentro da competição, renderam, ao final do campeonato, o acesso à Primeira Divisão do Campeonato Gaúcho para os clubes classificados em primeiro e segundo lugares.

No decorrer da competição, os jogos foram usualmente realizados as quartas, quintas, sábados e domingos, com horários dispostos entre e 20h30. Porém, por muitas vezes se observou mudanças imprevistas nos horários dos jogos. Muitas destas alterações visavam, entre outras razões, a diferenciação do horário de seus jogos em comparação com aqueles televisionados no mesmo momento, ocorrendo, por exemplo, jogos como o do Sport Club São Paulo e Grêmio Atlético Farroupilha, que foi realizado às 11h.

Transitando pelo debate sobre as torcidas

Hoje já não se percebe o fenômeno futebol sem a participação direta e/ou indireta do torcedor nesse processo. Aliada à noção mercadológica atribuída ao evento esportivo atual, criou-se um pensamento de que o papel do espectador nos jogos de futebol é tão vital para todo o espetáculo quanto para os profissionais envolvidos. Nesse panorama é que, principalmente nos períodos mais recentes, o foco dado às discussões sobre torcida/torcedor ganhou mais visibilidade. Diante disso, abordar-se-á, na discussão seguinte, questões presentes na relação torcida, espetáculo esportivo e órgãos de segurança.

Quando se fala em torcida/torcedor nos eventos de futebol, surge como carro chefe da discussão o conceito de torcida organizada. Altamente ligada à ideia de pertencimento ao clube, esses grupos se distinguem dos demais torcedores por possuírem, entre outras características, uma organização própria, geralmente de forma independente do clube; por sua fácil identificação em detrimento dos torcedores considerados “comuns”, no que diz respeito às suas vestimentas, uma vez que se utilizam de roupas próprias do seu grupo, “diferenciando-se” dos demais espectadores no estádio; por se utilizarem da criação de um espaço, dentro da vida urbana, que lhes possibilite uma visibilidade social enquanto grupo organizado, edificando a ideia em meio ao imaginário social de que devem ser vistos como uma categoria presente no futebol profissional, enfim, passaram a ser um dos mais importantes elementos envolvidos no fenômeno do futebol.

Sobre esses grupos, TOLEDO (1996), citando VELHO (1987), aponta para uma noção à cerca de tais organizações:

Estas organizações de torcedores são formadas por meio das paixões individuais que cada um traz consigo por um mesmo time, mas que, em torno de projetos coletivos, adquirem uma dimensão social pautada por interesses comuns. A organização de tais emoções, gostos e preferências, a priori subjetivos, norteia-se por estes projetos capazes de viabilizar, simbólica e materialmente, um sentido às emoções e expectativas individuais (p. 32).

Assumindo que as análises relacionadas às torcidas organizadas ganharam repercussão dentro das temáticas do futebol profissional atual, muito do que se pensa sobre violência nos estádios de futebol acaba por ser atribuído a tais grupos como forma de associar esses conjuntos a todo e qualquer episódio de confronto.

Sobre esse pensamento, podemos observar por meio do que pensa a Brigada Militar, como esses grupos são vistos por tal instituição: “principalmente nas torcidas organizadas (…) a gente se preocupa mais. Geralmente ali, o problema maior tá ali, do que as pessoas mais isoladas. (…) Geralmente sai dali, é uma preocupação com eles”.

Observa-se que independentemente do que aconteça, sempre se espera, por parte das torcidas organizadas, um episódio de conflito. Muito desta concepção emergiu do momento em que houve a associação entre as torcidas organizadas, típicas do Brasil, e os “hooligans”. Sobre esse assunto, TOLEDO (1996) aponta para uma diferenciação entre tais grupos, buscando um distanciamento entre tais:

A concepção de organização grupal das torcidas organizadas também difere daquela estrutura entre os hooligans que, de modo geral, prima pela transgressão deliberada e pelo anonimato (…) As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo (p,129).

Corroborando com a ideia de Toledo sobre torcida organizada e contrastando com o olhar dos órgãos de segurança sobre tal grupo, podemos observar que, esse grupo de torcedores tem obtido uma abordagem, por meio de exploração midiática e de discussões políticas, que procura problematizar a questão da violência nos jogos de futebol buscando nas torcidas organizadas o objeto fomentador de todo e qualquer tipo de transgressão que ocorra nos espetáculos de futebol. Contrastando com essa ideia, TOLEDO (1996), fala sobre a necessidade de uma reflexão sobre o tema da violência de forma mais ampla:

Longe de pertencerem ao universo estrito dos agrupamentos de torcedores, os fenômenos da transgressão e violência, veiculados de forma dramática por meio do futebol, fazem parte da própria experiência urbana mais ampla vivenciada nas cidades brasileiras: segregação espacial, desigualdades sociais, concepções sobre justiça e a polícia (p. 134).

Outra questão interessante a ser refletida é a percepção concebida pelos órgãos de segurança com relação ao trato com a torcida no estádio. Se analisarmos a fala da Brigada Militar que diz: “o nosso serviço no campo é a segurança da arbitragem e, depois, evitar que haja confronto entre torcedores assim né, qualquer tipo de confronto que haja lá dentro”, verificaremos que, no discurso, a principal função da Brigada Militar está na segurança do árbitro e não nas questões de torcida, contrastando com o que foi indicado anteriormente com relação, por exemplo, das torcidas organizadas, em que havia uma preocupação maior, mas que diante dessa fala já não se pode observar no mesmo sentido citado.

Assim, é que se observa por parte dos órgãos de segurança uma indefinição sobre a sua atuação dentro do espetáculo de futebol como também uma dificuldade em conceituar aquilo que é da torcida ou que papel que ela exerce, pois se nota uma dificuldade tanto em definir a sua preocupação principal dentro do estádio como órgão atuante, assim como definir em que “tipos” de torcedores é que os confrontos possam ocorrer.

Organismos de Segurança: pressupostos e ações

Em tempos atuais, quando se pensa futebol no Brasil, uma das principais preocupações referentes a esse espetáculo tem sido a questão da segurança dentro e fora dos estádios. Fruto de muita discussão científica e política, especialmente a partir da década de 1990, quando casos de conflitos entre torcedores obtiveram maior repercussão pública, esse assunto passou a ser tema da maioria dos debates que envolvem uma partida de futebol.

No âmbito político, inúmeras sansões visando à segurança já foram tomadas por meio de diversas leis e decretos, porém, uma em especial, ganhou maior destaque por sua “pretendida” reformulação no cenário esportivo, em especial no futebol. Tal medida, o Estatuto do Torcedor, surgiu trazendo consigo uma proposta de reestruturação dos locais esportivos, especialmente, os estádios de futebol, buscando uma “assepsia” desses locais, com fins preventivos e de combate à violência. Nesse sentido, analisando a aplicação de tal Estatuto dentro da realidade de nosso futebol, é apontada por RIGO et al (2006) com desconfiança, pois:

Sabemos também que em muitos casos algumas medidas preventivas por parte dos responsáveis pela organização do espetáculo podem evitar trágicos acidentes e muitas cenas de violência Nesse sentido consideramos que mais do que ocorreu durante a sua elaboração é importante que a implementação do EDT aconteça conectada a realidade do mundo futebolístico brasileiro, respeitando as peculiaridades dos clubes, dos jogadores e dos torcedores (p, 236).

Tratar de segurança no futebol é, antes de tudo, debater, analisar, verificar sobre qual espetáculo estamos falando, em qual realidade que ele é aplicado, para que se possa elaborar medidas que busquem, em meio às especificidades do ambiente ao qual elas serão aplicadas, um panorama de controle das atividades referentes ao espetáculo.

No caso do futebol da cidade de Rio Grande (RS), os órgãos de segurança pública envolvidos nos jogos, no campo da conceituação do que é segurança nesses ambientes, deixam entendidos, por meio de suas falas, uma tendência interessante: “a Polícia em geral trabalha em preventivo e ostensivo, ostensivo porque a gente trabalha fardado (…) nos mostrando ao máximo né? (…) e preventivo porque tu está ali para que não aconteça nada, para que a presença do policial faça com que as pessoas se desestimulem a fazer alguma coisa errada(…) para evitar que ocorra um tumulto, para evitar que daqui a pouco tu te estresse lá com um torcedor e queira partir para a paulada com ele. A gente ta lá nesse sentido, preventivo para que não ocorram esses fatos, essa é toda a finalidade do policiamento”.

“Prevenir”, “se mostrar”, essas palavras demonstram uma tendência clara dos órgãos de segurança, na qual a estabilidade nos estádios deve ser atingida por meio, primeiro, de ações concretas, do “corpo a corpo” e, em segundo, pela figura de autoridade que deve ser exposta e “temida” pelas pessoas presentes nas partidas. Diferentemente de como atuam os Bombeiros, que nesse processo se preocupam com as questões estruturais e de material nos estádios , como afirma uma representante desse órgão: “na verdade não há Lei ou Decreto Estadual que regulamente a atuação do Corpo de Bombeiros nos dias de jogos, a função é vistoriar a segurança do Estádio ou Ginásio para liberação do Alvará de Prevenção e Proteção contra incêndios”, o papel da Brigada está mais vinculado à ação de conter e combater as “agitações” presentes no estádio do que propriamente oferecer, atrelada às intenções do Estado, um espetáculo esportivo que ofereça um ambiente organizado e que respeite as pessoas envolvidas .

Sobre a Brigada Militar

Na tentativa de caracterizar essa instituição peculiar ao Estado do Rio Grande do Sul, primeiramente, abordaremos fatos referentes à sua criação e seu estabelecimento como órgão de segurança, para, então, falarmos sobre as questões pertinentes a sua linha de atuação sob uma perspectiva contemporânea.

A Brigada Militar tem sua origem ligada à Revolução Farroupilha, de 1835, que por meio da Lei Provincial nº 7, de 18 de novembro de 1837, instituiu a Força Policial, um órgão responsável por auxiliar na justiça, manter a ordem e a segurança na capital, nos subúrbios e comarcas. Exceto em caso de invasão inimiga, não poderiam deixar de cumprir essas obrigações.

Em 5 de maio de 1841, por meio da determinação do Dr. Saturnino de Souza Oliveira, então presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, ficou estabelecido a mudança da Força Policial para Corpo Policial, na qual se pode observar um destaque maior à tal companhia. Sua principal atuação inicial foi a de agir na tentativa de pacificação da província.

Passado alguns anos atuando como Corpo Policial, podendo ser observada sua participação na Guerra do Paraguai, em 1873, se deu a criação da Força Policial em seu lugar, que manteria algumas características militares anteriores, mas provocaria diversas mudanças em sua estrutura.

Posteriormente, com a Proclamação da República, o estado passou por diferentes adaptações ao novo panorama político e no campo dos órgãos de segurança não foi diferente. Em 1889, há novamente uma substituição na Força Policial, transformando-a em Guarda Cívica do Estado. Em um período curto de tempo, tal corporação obteve diferentes denominações, tais como Corpo Policial, Brigada Policial, Guarda Cívica, mas todas com pequena duração.

Já em 15 de outubro de 1892, a então Guarda Cívica, foi extinta e culminou com a criação da hoje conhecia Brigada Militar, que “nascia” com a função de “zelar pela segurança pública, manutenção da República e do Governo do Estado, fazendo respeitar a ordem e executar as leis” . Apresentando essa denominação, a Brigada esteve presente na Revolução Federalista, Campanha da Legalidade entre outras.

Com isso, por meio de uma busca histórica a respeito do surgimento da Brigada Militar e de suas primeiras ações, chegamos ao momento atual dessa instituição que hoje apresenta inúmeros desdobramentos dentro da sociedade gaúcha e que atua vinculado a estruturas administrativas que a regem dentro de leis, sendo essas capazes de organizar e legitimar a Brigada.

Sob o ponto de vista da Constituição Federal, o item relacionado à segurança Pública estabelece que a Polícia Militar, que, no caso do Rio Grande do Sul, é a Brigada Militar, deve ser vista como um dos órgãos do Estado destinados a preservar a ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (BRASIL, 1988). Ainda sobre o artigo, no parágrafo quinto, que trata especificamente sobre as polícias militares, em que se enquadra a Brigada, fica estabelecida uma outra função além daquelas vistas anteriormente, que é a de policiamento ostensivo.

Contudo, mesmo com as atribuições previstas na Constituição Federal, a Brigada Militar possui espaço dentro da Constituição Estadual do Rio Grande do Sul. Fica localizada mais precisamente dentro do Capítulo sobre Segurança Pública e aparece nos artigos 129 a 132. Nesses, pode se notar uma diferença com relação á disposição presente na Constituição Federal, que fala sobre as funções das polícias militares, sendo que agora fica incluída a função de policiamento externo de presídios e de polícia judiciária militar.

Pode ser citada ainda a Lei 10.991 do Estado do Rio Grande do Sul, em que são definidas as diretrizes que dispõem sobre a Organização Básica da Brigada, que entre muitas competências e cargos, vincula administrativa e operacionalmente esse órgão à Secretaria de Segurança Pública do estado do RS.

Um fato interessante sobre essa corporação atuante no Rio Grande do Sul é a sua denominação diferenciada com relação aos demais estados da União, mas como vimos em sua perspectiva histórica e como afirma o Regimento Interno da Brigada Militar, “a Brigada Militar, instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e na disciplina […] é a Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Sul”.

Sobre o Corpo de Bombeiros

Quando pensamos em Bombeiros, talvez uma das primeiras e principais funções das quais possamos atribuir a esse órgão seja a de combate aos incêndios, o que não nos induz a nenhuma inverdade, certamente, mas quando se faz uma análise mais minuciosa à respeito, é possível observar que outras incumbências também fazem parte das obrigações do Corpo de Bombeiros. É sobre essa perspectiva que trataremos a discussão a seguir, objetivando uma possível conceituação sobre o que é Corpo de Bombeiros (e aqui se entenda aqueles pertencentes ao Estado do Rio Grande do Sul), percorrendo um pouco de sua história e de sua legitimação enquanto órgão público.

Na Porto Alegre de 1895 era notável a expansão urbana do município, principalmente no que se tratava à questão de serviços, com destaque para os transportes, comércio e iluminação pública. Porém, a cidade em meio a tanto crescimento também via seus problemas aumentados. Incêndios eram cada vez mais difíceis de serem controlados em meio a ruas que se amontoavam umas por cima das outras, nascidas pelo aumento da cidade e também ainda pelo pouco aparato material que continham os corpos de voluntários, que mesmo desorganizados tentavam agir em meio aos acontecimentos, já que a cidade não possuía um serviço oficial para tal fim.

Diante desse panorama é que as Companhias de Seguros instaladas em Porto Alegre, sofrendo economicamente com as queimadas constantes, se organizaram e fundaram um Corpo de Bombeiros, administrando e estruturando-o. A iniciativa das Companhias oficializou o primeiro Corpo de Bombeiros da cidade, com aparelhamento semelhante ao das principais capitais do país na época. Foi então que em 1º de março de 1895 que a ideia de corpo de Bombeiros no Rio Grande do Sul surgiu, inicialmente com o efetivo de 17 funcionários, sendo 10 chamados de “soldados de fogo”, que contavam com um carro de bomba manual puxado por parelhas de cavalos usados no combate à incêndios na cidade de Porto Alegre.

Passados cerca de 40 anos, já era consenso nas Companhias que com os avanços nas exigências de serviços na cidade de Porto Alegre, o aumento de materiais mais modernos exigia mais recursos e, portanto, era vinculada a ideia de que esse serviço de Bombeiros fosse assumido pelo Governo ou Município, o que já era prática comum em grandes cidades. Nesse sentido, é que, em 27 de junho de 1935, o General Flores da Cunha, interventor no Governo do RS, emitiu um decreto transferindo a responsabilidade do corpo de Bombeiros, à época particular, de Porto Alegre à brigada Militar. Tal medida contribuiu no sentido de melhora estrutural dos Bombeiros, que agora usufruiriam dos recursos da Brigada Militar. Mas mesmo com o crescimento técnico obtido após a unificação do CCB (Comando do Corpo de Bombeiros) com a BM, por meio do Decreto 20.277 de 1970, a diretoria dos Bombeiros e seus órgãos foram desativados, transformados em Pelotões Especiais de Socorro, com subordinação às unidades de Policiamento. Durante o período de 1970 a meados de 1974, o que se pode observar foi um sucateamento do CCB.

Entre idas e vindas, depois de decretos e mais decretos, extinções e ressurgimentos dos Bombeiros, em 2002, o CCB foi novamente religado à Brigada Militar, com o objetivo de: “planejar, organizar, fiscalizar, controlar e instruir, é também responsável pelas atividades técnicas de bombeiro em todo o Estado, bem como pela orientação e instrução dos serviços auxiliares de combate a incêndio” . Cabe salientar que em 1997, com a reestruturação da Brigada Militar em 1997, foram criados 8 Comandos Regionais de Bombeiros, sendo que, em Rio Grande/RS (espaço desta pesquisa), se encontra atualmente o 3º Comando Regional de Bombeiros. Hoje, o CCB conta com três divisões principais que são: Divisão Técnica de Prevenção de Incêndio e Investigação, Divisão de Operações e Defesa Civil e Divisão Administrativa.

Agora, trazendo a discussão sob o ponto de vista legal, daquilo que organiza o Corpo de Bombeiros, temos em âmbito nacional, visto na constituição de 1989, uma pequena citação no art. 144, que trata sobre Segurança Pública que considera o Corpo de Bombeiros como um dos órgãos destinados a preservar a ordem social, como também cita no parágrafo 5º do mesmo artigo, ao determinar que cabe aos Bombeiros, além daquilo previsto na lei, a execução de atividades de defesa civil.

Considerando o que diz respeito ao Corpo de Bombeiros no estado do Rio Grande do Sul, observamos que no Decreto 42.871 de 2004, a localização do CCB dentro da Brigada Militar. No art. 3º, inciso II, nota-se que o Comando do Corpo de Bombeiros é compreendido como um órgão de apoio à BM, cabendo, de acordo com a seção II, do capítulo que trata dos comandos regionais e especiais, “administrar e executar as atividades de bombeiros, defesa civil e de segurança pública em seus respectivos espaços de responsabilidades territoriais, e também as atividades administrativo-operacionais dos OPM que lhes são subordinados” .

Futebol e organismos de segurança: uma relação a ser analisada

Aproximando essa discussão com o tópico tratado neste trabalho, que verifica a relação dos órgãos de segurança com os espetáculos de futebol, observar-se-á que surgem elementos interessantes que serão abordados a seguir.

Inicialmente, faz-se necessário discutir o envolvimento dos organismos de segurança em eventos como são os jogos de futebol.

Em termos organizacionais, a Brigada Militar, órgão presente nos dias de jogos, apresenta dois artifícios que norteiam sua atuação nos espetáculos. Um deles são as ordens de serviço, uma espécie de documento prévio que delega quais funções cada Brigada irá executar dentro do estádio, ou fora desse. Desde quem vai cuidar da segurança do árbitro até aqueles que trabalharão nas arquibancadas, tudo é estabelecido dentro desse documento, assim como são definidos, nas escalas, aqueles que serão incumbidos de participarem dos eventos, ou seja, uma forma de estabelecer aqueles brigadeanos que estarão presentes no estádio.

Basicamente, são esses os procedimentos utilizados pela Brigada Militar no que se refere à sua atuação e planejamento com relação aos jogos de futebol na cidade de Rio Grande(RS), como aponta um representante da BM: “todo o tipo de serviço da Brigada funciona assim, nada é feito ao “léu” assim, tem ordem de serviço para tudo, não só para o campo de futebol, qualquer operação”.

Já em termos conceituais, por parte da Brigada, o termo violência aparece vinculado a algo próprio das torcidas, uma tendência quase que “natural” desses grupos, uma vez que é apontado diante de uma fala da Brigada que:”já é diferente se eu sei que vai ter São Paulo e Brasil de Pelotas, aí eu sou obrigado a escalar um efetivo maior, porque eu sei que vai dar problema, porque é um jogo que dá problema, justamente por essa rivalidade que tem Rio Grande e Pelotas”.

Partindo do entendimento dessa fala, se percebe a noção de que a presença de policiamento nos estádios de futebol está mais relacionada à possibilidade de que ocorra algum episódio de violência do que propriamente da necessidade lógica de que esse serviço tenha que ser oferecido em tais ambientes. Interessante é pensar que não são só as partidas de futebol que produzem uma presença massiva de público, ou seja, outros eventos também a mesma perspectiva de concentração de pessoas, mas parece haver, nos estádios de futebol, uma tendência maior de que situações de conflito aconteçam. Sob essa questão, REIS (2005) contribui para essa discussão, afirmando que:

As formas de violência observadas em estádios de futebol são similares às presentes em eventos de multidões, o que respalda a análise de que a violência não é fruto do futebol em si, mas está associada aos eventos futebolísticos por vários fatores, e, em nosso país, podemos dizer que há uma cultura do vínculo de uma relação quase simbiótica entre futebol e violência (p. 117).

Partindo dessa suspeita com relação ao trato com as partidas de futebol e buscando uma análise com relação à atuação dos órgãos de segurança em tal evento, se percebe uma desvalorização de aspectos inerentes ao jogo de futebol, uma vez que esse ambiente produz situações próprias, o público envolvido gera momentos que são únicos daquele espaço/tempo, e que, normalmente são sufocados ou desprezados por quem é incumbido de realizar a segurança nesses lugares. Pensar uma partida de futebol e um show musical, por exemplo, é considerar que diferentes emoções estão envolvidas, das mais variadas motivações com relação ao evento podem ser esperadas, como também, que a configuração espacial também é, no mínimo, diferente.

No sentido de corroborar essas ideias apresentadas, são apresentadas algumas falas que indicam essas tendências: “só que no pequeno evento a gente vai tranquilo, menos efetivo, não é tão preocupante. (…) Tudo o que acontece aqui acontece em outros lugares (…) é a mesma coisa trabalhar aqui, lá no Olímpico, no Beira-Rio”.

Entretanto, do ponto de vista dos órgãos de segurança, independentemente do evento, a atuação deve ser a mesma. Elementos que possam caracterizar um lugar, um estádio, uma torcida não são levados em consideração na atuação da Brigada Militar. Para corroborar com esse pensamento, surge um depoimento do representante da Brigada Militar, afirmando que “a diferença é só em termos de efetivo O serviço é sempre o mesmo,o que nós temos que fazer em um grande evento, nós temos que fazer em um pequeno evento também”.

Não considerar as diferenças é acreditar na padronização de comportamentos. Nesse sentido, se pressupõe que, diante de uma unificação no modo de agir nos espetáculos de futebol por parte dos órgãos de segurança, estaria implícita uma intenção de criar no imaginário dos espectadores presentes nos estádios, uma uniformização no modo de torcer, modelando os sujeitos a um “jeito” de se portarem nas arquibancadas que fosse aceitável dentro de padrões esperados de um cidadão.

Contudo, ao analisarmos uma torcida de futebol, veremos que não há uma universalização no modo de torcer. Cada torcida apresenta configuração própria, influenciada por diferentes questões e locais, portanto, difícil é imaginar em uma uniformização no modo de portar-se e viver o futebol nas arquibancadas.

Ainda, cabe ressaltar uma discussão sobre a relação dos órgãos de segurança públicos em eventos, essencialmente, de cunho privado que são os jogos de futebol profissional. Se por um lado os jogos de futebol envolvem grandes massas, sendo locais com considerável aglomeração de pessoas, e que talvez seja uma justificativa para a presença dos órgãos de segurança nesses ambientes, não se pode conceber esses eventos como de interesse da vida pública, uma vez que possuem caráter privado por serem organizados por instituições particulares. Nesse sentido, considerando a Polícia um órgão de interesse do Estado, sob o ponto de vista lógico, qual a relação desses organismos com eventos produzidos de maneira privada? Sobre essa questão, uma fala retrata bem como os órgãos de segurança pública encaram esse assunto: “mas mesmo assim é missão nossa, é missão constitucional da Polícia Militar atuar em eventos esportivos (…) uma determinação que as Polícias Militares, elas estejam presentes onde haja qualquer tipo de aglomeração de pessoas, de qualquer evento que possa causar algum tumulto, que tenha necessidade, então é permissão constitucional”.

Conclusão

Vistas como umas das principais instituições públicas no nosso Estado, a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros apresentam, em termos históricos, um envolvimento nas questões sociais, que os proporcionaram um status de referência enquanto órgãos de segurança pública. Tanto o é que, somente no estado do Rio Grande do Sul, a Polícia Militar possui uma denominação diferenciada, sendo conhecida como Brigada Militar, visto sua importância dentro da sociedade gaúcha.

Tendo o futebol como um elemento produzido pela nossa sociedade, o qual, inclusive esses órgãos de segurança aparecem envolvidos, apresenta diversas ramificações no interior de nosso cotidiano, percebemos a importância desse desporto nos acontecimentos de nossa comunidade. Pensar que o futebol moderno determina, em meio a suas peculiaridades, como por exemplo, os horários de suas partidas, os funcionamentos de uma cidade, a organização espacial dessa, podemos pensá-lo em uma das atividades que, atualmente, fazem parte dos elementos constituintes de nossa sociedade.

Sobre esse futebol, alguns elementos aparecem como importantes em sua discussão, primeiro, a torcida, elemento, hoje visto como um das partes que constitui o espetáculo do jogo de futebol; em segundo lugar, a preocupação crescente com questões de segurança nos estádios de futebol, tema bastante debatido em tempos atuais; e a relação existente entre os organismos de segurança e os eventos esportivos, no caso, o futebol e seus desdobramentos.

Sob o ponto de vista das discussões sobre as partidas de futebol profissional, identifica-se que a presença da Brigada Militar, no caso do Rio Grande do Sul, e do Corpo de Bombeiros constitui um fato demarcador sobre os órgãos envolvidos nesse evento. Os Bombeiros, como órgão preocupado com questões estruturais e de combate a incêndios, possui uma atribuição mais relacionada à vistoria nos ambientes esportivos, do que propriamente de atuação nesses eventos, função essa, destinada à Brigada. Essa por sua vez, assume papel centralizador nas questões que dizem respeito a tudo que envolve futebol profissional.

No que diz respeito à Brigada, observa-se uma organização baseada em protocolos apenas voltados às questões de atuação, seja por ordem de serviço ou escala, mas que produzem a ideia de não haver uma preocupação em debater questões pertinentes a um jogo de futebol, no que diz respeito a elementos próprios de cada partida. Mesmo com essas intenções de protocolo, pareceu haver uma flexibilização diante de diferentes situações, uma vez que, o discurso apontava para uma organização-padrão diante de certas partidas, contrastando com o observado, já que, em algumas vezes, o número de efetivo não foi condizente com aquele apontado nas falas das pessoas entrevistadas.

Uma outra questão bastante importante nessa análise, centrou-se no papel estabelecido pela Brigada de se preocupar, prioritariamente, com a segurança da arbitragem, definido como função principal desse órgão nas partidas. Fato esse, não observado tanto nos jogos como nas entrevistas, já que, constantemente, foi veiculado uma obrigação da presença da Brigada quando se tratasse de eventos com multidão, bem como um discurso que apontavam as Torcidas Organizadas como o elemento causador de preocupação por parte da Brigada dentro do espetáculo. Enfim, muito do que se observou no discurso produzido por aqueles da Brigada Militar apontavam para uma realidade não observada no ambiente de atuação desse órgão, deixando claro que são várias as preocupações dentro de um jogo de futebol, mesmo que isso não apareça quando se observa o pensamento dos organismos de segurança.

Diante do que foi refletido, analisado, verificado, dois fatos surgiram como de necessidade para posteriores estudos. Primeiro, fica claro que os órgãos de segurança buscam, por meio de ações baseadas em um modelo pré-estabelecido, uma resposta padrão por parte dos espectadores nas arquibancadas, apontando para um comportamento definido do “torcer”.

Ainda, especula-se a necessidade de abrir um debate sobre a localização de um órgão de utilização pública dentro de um evento prioritariamente privado, sendo necessária a análise de quais argumentos co-relacionam ambos, buscando uma problematização do tema surgido a partir do estudo das questões de órgãos de segurança nas partidas de futebol.

Em suma, o estudo da violência nos espetáculos de futebol passa pela verificação de alguns aspectos constituintes de todo esse processo complexo que é uma partida de futebol. Como elementos incluídos nesse fenômeno, os organismos de segurança apresentam papel importante e decisivo na organização do espetáculo e das pessoas, entretanto, necessitariam de uma maior observação dos elementos presentes nas partidas, bem como de um debate que aproximasse a sua atuação com elementos conceituais, de forma a enxergar nos eventos de futebol algo mais complexo do que pode parecer.

Bibliografia

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REIS, Heloisa H.B; ESCHER, Thiago A. A relação entre futebol e sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador. In: Simpósio Internacional do Processo Civilizador, IX, 2005, Ponta Grossa (PR).

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TOLEDO, Luiz H. Torcidas organizadas de futebol. Campinas (SP): Autores Associados/Anpocs, 1996.

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< http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/ > Acesso em: 03/04/2010

< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/_ConstituiçaoCompilado.htm > Acesso em: 16/04/2010

< http://www.al.rs.gov.br/prop/legislacao/constituicao/constituicao.htm#T04C01 > Acesso em: 24/04/2010

*Acadêmico do Curso de Educação Física-Licenciatura da Universidade Federal de Rio Grande-FURG e Treinador da categoria sub-13 do Sport Club Rio Grande/RS. E-mail: felipzzz@hotmail.com

(1) Órgão maior responsável pelo futebol profissional no Brasil, que possui vinculação à FIFA.

(2) Seguindo a ideia de TOLEDO (1996), umas das características dos membros pertencentes às Torcidas Organizadas passa pela idéia existir, nesses grupos, uma congregação de paixões individuais em torno de uma mesma instituição, de maneira que emoções, gostos e preferências expressam-se de forma coletiva.

(3) Para mais acessar: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/museubm/index.html

(4) Aqui se refere a algo aparente ou aquilo para se mostrar.

(5) Para mais acessar em: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/hist-rs.html

(6) Para mais, ver no decreto 42.871, de 04 de fevereiro de 2004 do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que Regula a Lei de Disposição Básica da Brigada Militar.

Heloisa Reis, estudiosa da relação futebol x violência (Universidade do Futebol)

Na entrevista a pesquisadora trata do tema violência no futebol e seus reflexos sociais

Marcelo Iglesias

03/07/2009

Para os apaixonados por futebol, ir aos estádios assistir às partidas é uma experiência única de prazer. No entanto, por conta da violência que se observa em dias de jogos e pelas condições precárias de segurança, de conservação e de serviços que são oferecidas no Brasil, o momento genuíno do torcedor perde muito do seu valor.

Em alguns países em que a violência nos dias de jogos de futebol também era um problema grave, houve alterações nas leis para punir exemplarmente os causadores de episódios de tumulto. Além disso, foram realizadas melhorias nas condições dos estádios para que o público, agora visto como consumidor do espetáculo, pudesse desfrutar daquele momento da melhor maneira possível. Com isso, a própria população passou a enxergar o futebol de forma diferente, e a modalidade ganhou status de grande evento.

“Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas”, contou Heloisa Reis, professora assistente da Universidade Estadual de Campinas, graduada, mestra e doutora em Educação Física, atuando com ênfase em Sociologia do Esporte, Lazer e Pedagogia do Esporte, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Pensando no problema sério que se tornou a violência entre torcedores, dentro, no entorno e no caminho para os estádios, e na maneira como outros países fizeram para minimizar os casos de violência em dias de jogos, Heloisa Reis desenvolveu um estudo sobre o tema comparando o Brasil com a Espanha.

Durante a entrevista, ela falou sobre as conclusões dessa pesquisa, além de expor a sua opinião sobre algumas medidas governamentais brasileiras que visam a redução da violência nos estádios, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas. A pesquisadora também se posicionou em relação à preparação do Brasil para a Copa do Mundo de 2014.

Universidade do Futebol – Quais são as raízes da violência no futebol brasileiro?

Heloisa Reis – Elas estão centradas em dois focos: um macroestrutural e um microestrutural. Esse, eu chamo de ambiente do futebol e aquilo que está relacionado à infraestrutura dos estádios. Os países que montaram uma política de prevenção à violência com sucesso tomaram como principio básico a melhoria das estruturas dos locais de jogo e da organização do espetáculo.

Nessa atmosfera, alguns aspectos que mais têm relação com a violência são a venda dos ingressos, a maneira como os torcedores são conduzidos para dentro dos estádios e a sua abertura com grande antecedência. Seria interessante oferecer partidas preliminares para estimular os torcedores a entrarem antes, além da comercialização de ingressos de maneira mais eficiente.

Incluo nessas questões microestruturais, mas que também fazem parte das macroestruturais, um grupo de agentes de segurança especializados, que entendam mais a problemática da violência e conheçam o público de futebol, tratando-o como gente, e não como animais.

No entanto, quando se fala em raízes, temos que considerar mais a questão macroestrutural. Nós ainda vivemos em uma sociedade em que a violência é predominante em várias esferas. Sendo assim, tem-se o uso abusivo de armas de fogo, o que tem uma relação com o crescimento de homicídios no futebol.

Mais do que isso, as condições de moradia são precárias, a juventude está ociosa e a qualidade das escolas é muito baixa. Apesar de nos últimos anos ter-se aberto mais o acesso da população à escola, a qualidade do ensino caiu muito.

Essa questão da escolaridade de baixa qualidade desestimula os jovens ao estudo e faz com que eles não tenham projetos de vida em sociedade, o que os leva a procurar os seus iguais em grupos em que as maneiras de expressar, via de regra, são pela violência.

Outro ponto que deve ser destacado nessa questão das raízes é a exacerbação dos valores de masculinidade expressos por meio do futebol e por meio do esporte espetáculo, de modo geral, o que criou a cultura de que o esporte é para os homens, de maneira que, demonstrar nesses ambientes futebolísticos que se é agressivo, violento e forte, passa a ser uma marca distintiva de gênero, de masculinidade. Isso é uma questão mundial, não só brasileira, e que se atribui como a principal raiz da violência relacionada ao futebol.

Universidade do Futebol – Qual o melhor caminho para acabarmos com a violência entre as torcidas? Que medidas devem ser tomadas pelas autoridades?

Heloisa Reis – É importante que se coloque que o problema da violência é muito complexo e que abrange uma série de motivos, raízes e agentes que têm de ser modificados.

Então, a expressão que se poderia utilizar para sermos mais corretos sobre esse assunto é: como fazemos para minimizar os casos de violência que acontecem no futebol? É nessa perspectiva que se trabalha na Europa e que eu trabalho aqui no Brasil.

Acredito que para ocorrer a redução dessa violência, há que se diminuir, também, a impunidade no Brasil. A falta de punição, tanto nas questões relacionadas com a violência no futebol quanto no que se refere aos nossos políticos (a Câmara e o Senado), tem de mudar. Os governantes passam a ser modelos para a juventude. Muitas vezes eu ouvi torcedores dizendo que “os nossos exemplos, os políticos, são corruptos, não são sérios e não fazem o seu papel. Por que estão cobrando de mim que só quero ser respeitado e ter dignidade para assistir a um jogo de futebol?”.

Portanto, tem-se a impunidade como a grande inimiga da diminuição da violência na sociedade como um todo e, particularmente, no futebol. Por que particularmente no futebol? Porque é nesse ambiente que se concentra o maior número de jovens do sexo masculino, grande parte deles com a intenção de se auto-afirmarem, torcendo, sendo agressivos, alimentando a intolerância e as individualidades.

É preciso fazer modificações nas leis para que existam instrumentos legais de punição efetiva para aqueles que cometem crimes ou transgressões graves nos dias de jogos de futebol. Além disso, o Estado deve trabalhar junto às torcidas organizadas, tendo como intermediário a universidade, pois ela possui profissionais competentes e mecanismos para oferecer à população masculina jovem, que se concentra nessas entidades de torcedores, atividades de lazer esportivo de qualidade e oficinas as quais vão tratar das questões mais graves da juventude atual: o uso abusivo de álcool, responsável por parte da violência nos dias de jogos, e o uso de outras drogas não-lícitas, principalmente a maconha, a cocaína e o crack, os quais são usados dentro dos estádios com a permissividade da Polícia Militar.

Portanto, juntamente com as novas leis, há de se realizar campanhas educativas e projetos de desenvolvimento pessoal para esses jovens do sexo masculino, em parceria com as torcidas organizadas (todas elas). Essa é uma questão.

A outra, no âmbito do Estado, do governo, é a urgente retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência. Porque ela, que foi sugerida por mim e criada pelo presidente da República em 2004, tem como objetivo reunir os maiores especialistas sobre o tema para propor mudanças na lei, montar um arquivo nacional das ocorrências de violência e sugerir mudanças de curto, médio e longo prazos para prevenção e diminuição da violência nos dias de jogos.

Contudo, na época, essa comissão não foi constituída pelos melhores especialistas, mas sim pelos amigos do ex-ministro Agnelo Queiroz, responsável por indicar os seus membros. Mas, enfim…

Nos anos 2005 e 2006, a comissão foi coordenada por Marco Aurélio Klein, um sociólogo e especialista em marketing esportivo, e conseguiu elaborar um relatório com muitas qualidades, o qual ouviu os torcedores e vários especialistas. Só que esse trabalho está estagnado. Foi feita a primeira fase do projeto proposto e nunca mais a comissão se reuniu. É preciso que isso seja retomado.

Por outro lado, tenho sugerido trabalhos que propõem aos estados que possuem essa problemática mais agravada (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia) que criem comissões estaduais de prevenção da violência, reunindo os seus especialistas para proporem medidas, incluindo nessas discussões os representantes de torcidas organizadas, para que se possa tê-los como aliados na constituição de uma política de prevenção estadual e nacional de prevenção da violência.

Universidade do Futebol – Muitas pessoas acreditam que a extinção das torcidas organizadas resolveria esses problemas. Qual sua opinião sobre isso?

Heloisa Reis – Essa visão é completamente infundada e absurda, porque não são todos os torcedores organizados que brigam e aqueles que cometem os delitos nem sempre são torcedores organizados. Isso já justificaria a questão.

Conceituo as torcidas organizadas como agremiações de torcedores que se reúnem, inicialmente, para torcer por um clube. Essa associação se faz, principalmente, por membros do sexo masculino (93% dos componentes das principais torcidas organizadas de São Paulo são homens), os quais se juntam, em grande parte das vezes, não pura e simplesmente para torcer, mas para que se forme um grupo em que haja pessoas capazes de discutirem a política do clube, a política de esportes, e uma série de outras questões que, principalmente o jovem (entre 15 e 30 anos, os quais constituem o grosso dessas torcidas), não tem outro espaço para debater.

As escolas e as universidades não têm mais os centros acadêmicos desenvolvidos para a discussão dessas questões, e os ambientes de trabalho não são locais onde as pessoas congregam-se para debater sobre as políticas do país.

Acabar com as torcidas organizadas seria extinguir uma das poucas possibilidades de instituição social criada pela própria juventude. Acredito que seria matar uma juventude que está tentando participar do processo político. Além disso, existe o fato de que nem todos os membros são aqueles que brigam. Acho um tremendo equívoco.

Mais do que isso, o Estado perderia uma grande oportunidade de ter alguma influência sobre essas torcidas, as quais deixariam de ser instituições regularizadas. Outra questão que contribui para a minha posição contrária à extinção dessas agremiações é o fato de se saber que aquelas que não são legalizadas, que se auto-intitulam torcidas organizadas, com grupos pequenos de jovens, são, hoje, o maior problema da violência nos dias de jogos. Essas, normalmente, formam-se em bairros muito distantes, onde há enorme carência de políticas públicas de lazer, de educação, de moradia e de emprego. A partir daí, reúnem-se 10 ou 20 jovens que vão em direção aos estádios pelas estações de trem, de metrô e pela rua, intimidando e ameaçando as pessoas ou grupos de outros torcedores.

Esse fato demonstra que extinguir as torcidas organizadas e jogá-las na clandestinidade, junto de muitas outras, tornará o problema algo muito mais complicado para o Estado.

Porém, o meu posicionamento contrário à pura e simples extinção das torcidas organizadas não exclui a necessidade de punir aqueles grupos de torcedores que cometem crimes em dias de jogos ou mesmo as torcidas organizadas que não se prontificarem a colaborar com a política nacional, exigindo, por exemplo, os antecedentes criminais dos seus associados. Na medida em que se admitem pessoas em débito com a sociedade dentro dessas torcidas, elas também estão sendo coniventes com a violência e com a impunidade.

Universidade do Futebol – Você acredita que imprensa, jogadores e dirigentes também têm sua parcela de responsabilidade pela violência no futebol ao incitarem a rivalidade entre os times?

Heloisa Reis – Eles têm uma enorme responsabilidade. O que acontece nas análises da mídia, em geral, é responsabilizar de maneira rápida e leviana apenas as torcidas organizadas.

Eu penso que o coletivo formado pela imprensa, dirigentes, técnicos e demais agentes talvez seja mais responsável pela violência do que as próprias agremiações de torcedores, porque esses grupos pertencem a uma elite que pode até ser distinguida como intelectualizada. Grande parte deles frequentou a universidade, os dirigentes são parte de uma elite social, os próprios jogadores pertencem à elite econômica do país, e teriam que saber melhor a sua responsabilidade e o seu papel quando se dirigem ao público por meio da mídia.

Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas.

O que vivenciamos no Brasil nos últimos 12 meses em relação à declaração de dirigentes, certamente, na Espanha, teria resultado em cassações. Houve uma grande incitação da violência por parte dos dirigentes brasileiros, por exemplo, nos episódios em que se falou contra ou a favor da existência de 5% ou 10% de torcedores visitantes nos estádios.

De acordo com uma proposta do Ministério Público para tentar diminuir a violência, os dirigentes não poderiam insultar o outro público que recebeu apenas 10% dos ingressos. Esses dirigentes e representantes dos sindicatos dos técnicos e dos jogadores teriam que ser chamados para uma comissão nacional e outra estadual a fim de que se firmassem acordos e termos de ajustes de conduta com o Ministério Público, que é o instrumento legal adequado para que eles também se comprometam a não proferir declarações que incitem a violência. Por outro lado, a legislação também tem que prever multas e penas mais duras para dirigentes, técnicos, jogadores e imprensa quando um desses personagens incitar a violência.

A imprensa é um ator que merece ser responsabilizado em grande parte, porque poderia dar um foco diferente às entrevistas com dirigentes, não os provocando a declarações em que a intolerância ao outro aparece.

Realizei uma vasta pesquisa com os torcedores organizados do estado de São Paulo, e um percentual muito alto deles tem plena convicção de que são incitados à violência pela própria imprensa na maneira como são veiculadas as notícias durante a semana. Ou mesmo porque a principal emissora de TV do país, segundo os próprios torcedores, privilegia um determinado clube paulista na veiculação maior de jogos dessa equipe do que das demais.

As pesquisas inglesas, de Norbert Elias e Eric Dunning, que foram os principais estudos sobre violência nos anos 1980 e 1990, verificaram que a imprensa falada e a escrita têm grande responsabilidade sobre a violência no futebol, principalmente quando a televisão repete muitas vezes cenas de violência ou quando o jornal utiliza palavras bélicas para relatar os fatos ocorridos no futebol.

O que foi feito, em termos de legislação, na Espanha, para minimizar essa questão? O sindicato da imprensa foi chamado por uma comissão e foi elaborado um termo de ajuste de conduta para que não se repetissem cenas de violência em dias de jogos, ou mesmo de invasão de campo. As imagens de brigas não podem ser exibidas mais do que três vezes durante seis segundos por uma mesma emissora de TV, no mesmo dia. Já as invasões de campo não devem ser veiculadas para não incentivar outras pessoas a agirem da mesma maneira.

Na final da Copa do Mundo da Alemanha houve uma invasão de campo, e o Galvão Bueno comentou que nenhuma emissora do mundo estava transmitindo o acontecido, somente a “Globo”. Mal sabia ele que essa é uma política do Conselho da Europa para que não haja incentivo à invasão de campo.

Para quem gosta de ser o centro das atenções e nunca invadiu um campo, as imagens de invasões podem ser um chamariz. Como o principal motivo dessas pessoas é a aparição pelos meios de comunicação, essas mídias não estimulam as invasões dos campos, deixando de mostrar esse tipo de situação.

Universidade do Futebol – Em abril deste ano, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. No entanto, um contrato entre a Fifa e a Budweiser fará com que a comercialização seja liberada durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O que você pensa sobre a questão? 

Heloísa Reis – É um absurdo! Uma entidade do esporte ditar as regras do que deva e do que não deva ser mudado em um país para que ocorra um evento esportivo é ferir a soberania nacional.

Conseguiram isso com sucesso na Alemanha e estão impondo o mesmo para o Brasil. Encaro como uma questão de desrespeito à legislação e ao povo brasileiro, impondo isso como regra.

Além disso, essa situação demonstra claramente o poder do capital. A parceria da Fifa com uma empresa que só visa lucros e que está pouco preocupada com a saúde da população em qualquer país, porque vende bebida alcoólica e incentiva o seu consumo, acaba sobrepondo-se a uma legislação recém-criada, a qual foi feita a muito custo, com um trabalho enorme do Ministério Público junto à Confederação Brasileira de Futebol.

Na verdade, não foi uma lei que proibiu o consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas dentro e nas proximidades dos estádios, mas sim um protocolo de intenções celebrado, em 31 de agosto de 2007, pelo Conselho Nacional de Procuradores Gerais (CTNG) do Ministério Público dos estados e da União, e pela CBF, para jogos sob responsabilidade da confederação brasileira (Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro). Para os Estados de São Paulo e Minas Gerais, os respectivos Ministérios Públicos também formaram um termo de ajuste de conduta com as federações locais. O de São Paulo foi feito após a guerra do Pacaembu, em 1995, por iniciativa do promotor público Fernando Capez. Os termos nacional e de Minas Gerais tiveram como base as minhas pesquisas, as quais demonstram que existe forte relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a violência em dias de jogos.

De fato, ainda não existe uma lei proibindo, mas há um termo de ajuste de conduta que a CBF vai deixar de cumprir. Esse termo é recente e pode não ter desdobramentos. O meu grupo de pesquisas, por exemplo, está começando a elaborar um texto para enviar à grande mídia e para esse conselho de procuradores, mostrando que a intervenção da Fifa fere o direito de soberania nacional. Até que ponto um país tem que se curvar a uma instituição internacional?

Tenho plena convicção de que essa submissão se dá por conta do grande poder que o capital tem sobre qualquer outro valor humano em uma sociedade como a nossa, principalmente em relação ao capital periférico, que é o caso brasileiro.

Universidade do Futebol – Uma das medidas para reduzir a violência dentro dos estádios e nos dias de jogos seria termos clássicos com a presença apenas da torcida do time mandante. Qual é sua opinião sobre isso? Qual o impacto sociológico no curto, médio e longo prazos de uma medida como essa? 

Heloísa Reis – Primeiramente, uma medida como essa fere completamente a cultura do futebol. Sempre houve acesso aos ingressos por parte dos torcedores visitantes e, de repente, o Ministério Público vê como inviável garantir a segurança de uma quantidade grande de torcedores visitantes e impõe a restrição de 10% de público.

Isso é uma diminuição significativa na quantidade de pessoas, o que facilita o controle por parte dos agentes públicos de segurança. Só que quando se coloca esses 10% em números de espectadores, ainda é uma quantidade muito grande de torcedores visitantes, pois são entre 3.500 e sete mil lugares dos estádios brasileiros.

Existe uma experiência de sucesso na Espanha, onde se permite, em clássicos, nos maiores estádios do país, como, por exemplo, o do Barcelona, de 300 a 500 torcedores da equipe visitante. Funciona muito bem, porque a polícia nacional espanhola consegue dar proteção para esse número reduzido de torcedores. Então, por um lado, a diminuição do número de público visitante ou a sua inexistência pode facilitar o trabalho das autoridades públicas.

Por outro lado, quando essa iniciativa parte do Ministério Público é grave, pois as próprias autoridades estão decretando a falência da instituição que cuida da segurança pública no estado e no país, dizendo que não há condições de se dar segurança para a população em dias de jogos. Isso é muito grave!

Enquanto medida paliativa pode dar resultado. Deu certo na Espanha.

A mídia, de maneira geral, tem dito que isso acontece na Argentina. É mentira. Estive em contato com pesquisadores desse país há pouco tempo e eles disseram que essa experiência ocorreu em apenas um jogo entre River Plate e Boca Juniors, mas não se repetiu porque a população não admitiu esse tipo de mudança cultural no futebol. No entanto, isso é feito na terceira divisão do futebol argentino, na qual a medida foi bem vista.

Penso que, em vez de se proporem soluções mágicas para um problema complexo, já que isso não dá resultado, deve ser atacado em diversas frentes e por diferentes instituições governamentais. Deveria se tomar mais cuidado e agir com mais cautela ao realizar certos tipos de declarações e propostas, trabalhando mais as questões estruturais com projetos junto às torcidas organizadas para aproximá-las da universidade e mostrar que o Estado está preocupado com a juventude e, por isso, está auxiliando no desenvolvimento dos jovens por meio de propostas de lazer e de oficinas que vão ajudá-los no seu desenvolvimento humano, em um sentido mais positivo.

Isso surtiria muito mais efeito do que inflamar os torcedores, dizendo que eles não poderão mais assistir aos jogos como visitantes.

Universidade do Futebol – Você realizou um estudo comparativo entre a violência nos estádios no Brasil e na Espanha. Qual o resultado desse estudo? É possível traçar um paralelo com outros países, como Inglaterra, por exemplo?

Heloísa Reis – Realizei um estudo aprofundado sobre a Espanha, questionando por que diminuiu a violência por lá. Como houve essa redução? Quais eram as raízes dessa violência?

A pesquisa abordou a Europa de maneira geral, porque as ações tomadas na Espanha foram motivadas por um convênio feito no continente em 1985, o que também serviu de base para o que foi realizado na Inglaterra.

É gritante a diferença entre o que se observa no Brasil e o que se faz na Europa. Isso habita exatamente nas questões sobre as quais conversamos de maneira mais detalhada, que passam por uma legislação específica, muito bem elaborada e detalhada, que fez com que praticamente zerasse a impunidade nesses países. Realmente, as pessoas que cometem atos de violência são punidas e se tornam casos exemplares, o que desmotiva outras pessoas a fazerem o mesmo.

Simultaneamente a esses trâmites legais, houve a remodelação de todos os estádios, de maneira que se deu condições de conforto e segurança a todos os torcedores. Além disso, houve uma mudança radical no que se refere à venda de ingressos, motivando as pessoas a comprarem as entradas por temporada, o que minimizou muitos problemas de conflitos na busca por ingressos. Isso, no Brasil, é um dos fatores que mais gera conflitos: ninguém consegue comprar entradas nas bilheterias oficiais, para conseguir é preciso ficar de cinco a sete horas na fila, e ingressos de estudante acabam muito rápido, entre outros agravantes na situação.

Nesses países da Europa sobre os quais estamos falando, também há uma polícia especializada, altamente qualificada e competente para lidar com o público que vai aos estádios.

Resumidamente, essas mudanças, que são necessárias no Brasil, foram realizadas na Espanha e na Inglaterra, juntamente com campanhas educativas, que lá foram feitas em menor quantidade do que eu acredito que precise ser feito no Brasil, porque, nesses países europeus, a população tem educação pública de qualidade, tem, de fato, direitos de cidadão, o que ainda não conquistamos no Brasil, além de terem instituições públicas que protegem o cidadão. Ou seja: existe, verdadeiramente, cidadania nesses países-modelo; no Brasil, não.

Então, o paralelo que tem que se traçar é: o quanto estamos distantes de resolver esses tipos de problema? Porque, para minimizar a violência em dias de jogos temos que levar em conta pelo menos essas frentes que eu apontei, aliadas às questões estruturais de uma população com melhor nível de instrução, com moradia decente, que tenha projetos de vida, com condições familiares e de emprego adequadas. O que não se observa no Brasil.

Universidade do Futebol – Pela sua experiência no tema violência no futebol e na forma como ele é tratado pelas autoridades, seria possível projetar como o país estará na Copa do Mundo de 2014 nesse quesito?

Heloisa Reis – Se as coisas continuarem da maneira como estão, na Copa de 2014 vai estar tudo muito ruim nesse sentido. Isso me preocupa muito e parece que preocupa só a mim, talvez porque eu tenha uma dimensão maior do problema.

Por um lado, pode ser que não aconteçam grandes casos de violência, porque as cidades-sede poderão ser tomadas pelo Exército Brasileiro, como aconteceu no Pan de 2007, o que irá transmitir para as pessoas que estiverem no Brasil durante esses dias uma sensação de vigilância e de repressão que iniba casos de violência. Essa experiência do Pan do Rio de Janeiro mostrou que o governo brasileiro, quando quer colocar a tropa na rua, consegue inibir a violência.

Por outro lado, esse tipo de policiamento não é o melhor e põe em risco a população por não existir uma polícia especializada. Se houver a vinda dos hooligans ingleses e dos aguante (barra bravas) argentinos, será algo realmente preocupante. Existe um ódio muito grande entre a população desses dois países, em função da Guerra das Malvinas, e temo que elas tomem a Copa do Mundo do Brasil para continuar com um conflito político, que foi essa guerra. Acho muito provável que isso ocorra, porque um dos afazeres desses torcedores ingleses é viajar para outros países e causar tumultos que tomem espaço na mídia. Aliado a isso, os aguante também têm motivação de estar nos meios de comunicação. Acredito que esse encontro pode ser muito perigoso, principalmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde eles devem acontecer.

Por isso, se as nossas autoridades continuarem tratando o problema apenas com medidas paliativas, repressivas e autoritárias, não vamos chegar à Copa do Mundo de 2014 com uma política pública de qualidade como é necessário para se prevenir a violência nos estádios. Mas, no evento em si, como citei, pode ser que se coloque as tropas nas ruas, e isso seja uma tremenda intimidação para a população de um modo geral.

Essa questão também estará aliada ao tratamento que a mídia vai dar para a Copa, o que ainda não foi desenhado. É necessário conscientizar a população brasileira de que essa Copa não foi feita para nós. Esse evento vai ser, como sempre foi, para quem tem mais recursos financeiros, para os detentores do capital, que vão comprar os ingressos com muita antecedência.

Para o brasileiro vão sobrar os jogos que ninguém assiste, mas só para alguns brasileiros também. Não para as torcidas organizadas, não para os menos abastados. É importante deixar claro que esse é um macro-espetáculo esportivo que sempre foi das elites e não vai ser no Brasil que também não ficará nas mãos delas.

Universidade do Futebol – Como você acredita que o trabalho da imagem do atleta e a maneira que ele aparece na mídia podem influenciar a sociedade?

Heloísa Reis – A política da Espanha, por exemplo, demonstrou para o sindicato dos jogadores e para os clubes que é necessária a criação de uma imagem diferenciada do jogador. Não como um semideus, como um rei, como um ídolo intocável. É preciso que esses atletas tenham uma imagem de um ser comum que teve a oportunidade e se esforçou para se tornar um profissional bem-remunerado.

Então os jogadores, ao fazerem parte de um grande clube, precisam criar uma imagem exemplar, não ser uma figura que faça propaganda de bebidas alcoólicas ou de outras drogas lícitas. Uma imagem que está muito mais vinculada aos valores positivos do desenvolvimento humano, pessoas que não usam drogas. É inconcebível pensar um jogador fazendo campanha publicitária de uma marca de cerveja.

Além disso, na medida do possível, os jogadores têm que ficar mais próximos da torcida. Ao final do treino, os atletas dirigem-se aos torcedores que estão assistindo à preparação e, eventualmente, conversam com alguém que os procure. Quando estão em público, são atenciosos com as pessoas que se dirigem a eles de maneira educada para não criar a ilusão de que o atleta é uma estrela intangível, o que acaba fazendo com que as pessoas criem um fanatismo mais perigoso do que se for construída uma imagem de uma pessoa comum que, durante aquele momento da sua vida, está servindo a um grupo de torcedores que tem, nesse jogador, uma grande expectativa de despertar de emoções, de acordo com o que ele possa fazer dentro de campo.

É essencial que os jogadores não se envolvam em acidentes de carro estando bêbados. Na Europa, a pressão em relação a isso é muito grande, ao contrário do que acontece no Brasil. Aqui, o atleta envolve-se em acidentes, mata pessoas por estar dirigindo embriagado, e isso passa a ser uma questão privada, e não uma questão pública, como tem que ser. Ele tem que ser um exemplo, e não alguém que é beneficiado e vive a impunidade por ser uma figura pública.

Universidade do Futebol – Você acredita que a Sociologia pode ser uma ferramenta para que os brasileiros entendam a importância de receber uma Copa do Mundo e para que eles se preparem para acolher os turistas das diferentes partes do planeta? Como a universidade pode ajudar nessa conscientização e como ela pode dialogar com a população brasileira?

Heloisa Reis – A Sociologia é uma das áreas do conhecimento que mais podem contribuir para o entendimento da população sobre o que é esse esporte-espetáculo, o que é esse mega evento, e as razões pelas quais a Copa do Mundo acontecerá no Brasil.

A grande contribuição da universidade será como parte da construção de uma política nacional de prevenção da violência da maneira como tentamos fazer.

No entanto, participamos muito menos do que gostaríamos, pois existe uma resistência do Poder Público para que isso ocorra. Eventualmente, ele nos chama. Não falo só sobre mim, mas vários outros professores universitários já desenvolveram e desenvolvem pesquisas sobre o tema e, mesmo assim, são muito pouco acionados.

Acredito que o nosso papel é veicular, por meio da mídia ou por meio de artigos publicados nos meios de comunicação, os resultados obtidos com todas as pesquisas. Creio que não se pode negar entrevistas, não se pode eximir de falar com a imprensa e divulgar os resultados desses estudos.

A questão também passa pela falta de seriedade, pela falta de respeito com a universidade, o que vem até do próprio Poder Público. Ele poderia levar adiante mais sugestões dadas pelos pesquisadores. Isso é parte das instituições brasileiras, pois, na Espanha, por exemplo, a universidade era a voz mais ouvida na comissão em que se sugeriam propostas legislativas e de implementação de políticas educacionais.

Contudo, acredito que seja parte do caminho a ser seguido. Há pouco tempo, não existiam estudos, não havia o Estatuto do Torcedor, e não havia a comissão de prevenção da violência. Hoje, ela não funciona, mas já existe no papel. É um caminho muito lento, mas algumas coisas estão mudando para melhor. A própria cultura governamental ainda não reconheceu o papel que a universidade pode ter.

Por isso, confio que é super importante, por exemplo, o trabalho da Universidade do Futebol, que desempenha o seu real papel: divulgando novas pesquisas, novas tecnologias, novas visões, novas perspectivas e proporcionando várias coisas interessantes para o futebol e para a educação física, também.

Leia mais:
O cravo da violência
Na Europa, combate à violência ganhou força nos anos 1980
Estatuto do torcedor
A venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios e ginásios
Medidas tomadas pela Uefa para conter a violência
A infra-estrutura dos estádios e a gestão do espetáculo futebolístico
Visão psicológica da violência no esporte
Sociologia explica violência das torcidas
O perfil do torcedor brasileiro

Futebol – A gênese da estupidez (Portal Esportivo)

por http://www.portalesportivo.com.br (sem data; acessado em 4 de setembro de 2012)

Maurício Murad, sociólogo e autor do livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias hoje”

O sociólogo Maurício Murad, Coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj, é um dos pioneiros nos estudos do impacto que o futebol pode ter na sociedade – ou o contrário. Com vários artigos, capítulos de livros e cinco obras completas publicadas, Murad acaba de lançar pela Fundação Getúlio Vargas, o livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias de hoje. A obra traça um panorama da relação histórica entre violência e futebol.

Como se deu a relação entre violência e futebol ao longo dos anos?

Maurício Murad “O futebol acaba expressando a violência geral da sociedade. Então, aumentando a violência geral na sociedade, ela tende a aumentar também no futebol. É o que aconteceu no futebol brasileiro a partir dos anos 1980. Também há situações específicas da realidade brasileira que aumentaram a violência. Essas situações são basicamente duas: corrupção e impunidade. A corrupção principalmente policial e dos órgãos da Justiça, que nós temos acompanhado nos jornais. Outro fator que complementa a corrupção, porque um é irmão gêmeo do outro, é a impunidade. Também, à partir de 1996, aumentou o tráfico de drogas entre as torcidas. A polícia sabia, isso foi avisado e muito pouco foi feito para conter”.

Em que nível aumentou a violência no futebol brasileiro a partir dos anos 1980?

Maurício Murad – “As torcidas organizadas começaram no Brasil nos anos de 1940. A primeira é do São Paulo, em 1940, e no Rio de Janeiro é a “Charanga Rubro-Negra”, de 1942. Mas as torcidas entre o início dos anos 1940 e o final dos anos 1960 eram torcidas ‘carnavalizadas’. Famílias iam para o estádio fazer festa, cânticos, batucadas. Havia, inclusive, um concurso no qual a torcida mais animada ganhava uma geladeira, um eletrodoméstico raríssimo na época. No final dos anos 1960, no quadro da Ditadura Militar, começaram surgir essas torcidas organizadas violentas. Elas surgiram observando os padrões de autoritarismo e repressão, de militarismo que reinava naquela época. As torcidas se organizam em pelotões, tropas de choque, em destacamento. Curiosamente, não por coincidência, é época do governo Médici, o mais repressivo da Ditadura Militar.

Só que para essas torcidas, nascerem, crescerem, ganharem corpo e começarem a praticar atos de violência levou um tempo. Então, foi entre 1970 e 1985, que elas nasceram, saíram do papel, foram para a prática e começaram a aparecer nas páginas policiais, porque não houve contenção. Mas é importante frisar que são minorias dentro da organizadas, algo em torno de 5% ou 7%. Mas são minorias perigosas.

Banir as torcida organizadas ajuda a combater a violência?

Maurício Murad – “Houve uma tentativa por parte da Promotoria Pública do Estado de São Paulo – em 1995, após a morte de um torcedor – de acabar com as torcidas organizadas. Eles acabaram com a “Mancha Verde” do Palmeiras, que era considerada a torcida mais violenta do Brasil. A “Mancha Verde” não deixou de existir, ela mudou o nome, passou a se chamar “[Mancha] Alvi-Verde”, com os mesmos dirigentes, os mesmos grupos. Eles deram um drible na justiça.
Não é por aí. Se você tenta acabar com as torcidas você as empurra para a marginalidade, elas deixam de existir legalmente. Com isso se facilita a ação de grupos marginais, grupos infiltrados nas torcidas. Assim, se inibe a participação dos grupos legais, que estão ali para festa, para manifestar seu gosto pelo futebol”.

Como você avalia a cobertura da mídia com relação aos casos de violência nos futebol brasileiro?

Maurício Murad “A mídia acaba ajudando muito a violência. Ela vive como o país todo – e não é só o Brasil, esse é um traço da época contemporânea – a espetacularização. Tudo vira espetáculo, tudo vai para a televisão. A mídia não cria o fato, mas aumenta a sensação dele. Ela tinha que tomar cuidado, ter critérios éticos claros sobre o que publicar e como publicar.

O que as pesquisas provam é que os torcedores que vão para as primeiras páginas dos jornais, ou para a televisão no horário nobre, adoram isso. Eles viram heróis, ficam glamourizados. No entanto, os torcedores que querem defender a pacificação das torcidas sempre reclamam que não tem espaço. A mídia é uma situação dúbia: por um lado, ela aumenta a sensação de violência, mas por outro, ela é um instrumento fundamental de parceria que a gente tem para melhorar as coisa, porque na sociedade da imagem ela é essencial para educar”.

Qual a diferença entre a violência praticada por torcedores europeus para a praticada por torcedores brasileiros?

Maurício Murad – “Eu passei um período na Europa estudando isso e participei de um grupo de discussão da UEFA [entidade máxima do futebol europeu]. Na Europa tem grupos neo-nazistas, grupos contra imigrantes, grupos racistas, o que não tem muito aqui.

Lá tem tráfico de drogas e armas, coisa que aqui no Brasil é muito menor e mais recente. Na Europa tem violência de forma organizada muito maior do que aqui. Em compensação a punição é maior também, a ação dos órgãos de segurança é muito mais rápida e ágil do que aqui. Lá as práticas de violência são maiores e mais graves, mas em compensação a ação da sociedade estruturalmente organizada pela lei e pelos critérios da democracia é muito mais forte, então ocorre mais ou menos um equilíbrio.

O que me surpreende no Brasil é como não acontece uma grande tragédia a cada jogo. A inoperância policial, a falta de planejamento e a ineficácia é tão grande que o difícil não é entender quando acontece um fenômeno da violência, e sim como não acontece sempre esse fenômeno em cada grande jogo”.

Violência das torcidas de futebol na mídia

Cadastro de torcedores: solução para a violência nos estádios? (Universidade do Futebol)

Gustavo Lopes

06/07/2012

Autoridade e entidades organizadoras de eventos não devem aumentar exigência, mas tratar fãs com respeito

A segurança corresponde a um direito individual e social do cidadão brasileiro previsto nos artigos 5º e 6º da Constituição Federal. Sendo assim, de fato, é um dever de todos assegurá-la, impedindo a violência.

A violência no esporte é uma das faces da ausência de segurança cotidiana na sociedade e justamente na atividade esportiva onde deveria haver sua sublimação. Famílias por diversas vezes evitam os estádios, pois os vêem mais como espaço violento, que palco de acontecimentos esportivos.

Neste esteio, a união de todos os envolvidos com a atividade esportiva é essencial para que o desporto brasileiro não faça mais vítimas como o jovem Alex Fornan de Santana, de 29 anos, torcedor do Palmeiras, morto em 21 de fevereiro de 2010 após partida entre Palmeiras e São Paulo válida pelo campeonato paulista, em confronto de torcidas. Este caso recente é apenas um dentre centenas de outros ocorridos pelo mundo.

Muitas medidas são aventadas, propostas e estudadas. O Estatuto do Torcedor, após as alterações introduzidas pela Lei 12.299/2010, passou a exigir o cadastro de torcedores por parte das torcidas organizadas e, ainda, criminalizou uma série de atos dos torcedores. Há quem defenda que o cadastro de torcedores não deve se restringir às “Organizadas”, mas que deve se estender à totalidade de torcedores.

É imprescindível destacar que a violência nos estádios não é característica exclusiva dos desportos brasileiros, cujo nascedouro é atribuído às torcidas organizadas.

Na América Latina, especialmente na Argentina, os torcedores violentos são conhecidos como Barra Brava que correspondem a um tipo de movimento de torcedores que incentivam suas equipes com cantos intermináveis e fogos de artifício que, ao contrário das torcidas organizadas não possuem uniformes próprios, estrutura hierárquica e muitas vezes nem mesmo associados.

Na Europa, os torcedores violentos são conhecidos como hooligans, em especial a partir da década de 1960 no Reino Unido com o hooliganismo no futebol.

A maior demonstração de violência dos hooligans foi a tragédia do Estádio do Heysel, na Bélgica, durante a final da Taça dos Campeões Europeus de 1985, entre o Liverpool da Inglaterra e a Juventus da Itália. Esse episódio resultou em 39 mortos e um elevado número de feridos.

Os hooligans ingleses foram responsabilizados pelo incidente, o que resultou na proibição das equipes britânicas participarem em competições européias por um período de cinco anos.

A escalada de violência nos estádios do Reino Unido foi tamanha que começou a afetar não apenas os residentes locais, mas também a ter consequências para a Europa continental.

Por este motivo, o hooliganismo arranhou a imagem internacional do Reino Unido, que passou a ser visto por todos como um país de violentos arruaceiros, cujo ápice se deu com a tragédia de Heysel.

Insuflada por esse acontecimento, a então primeira-ministra britânica Margareth Thatcher entendeu que o hooliganismo havia se tornado problema crônico e que alguma providência deveria ser tomada.

Entendendo que o aumento do controle estatal minimizaria a violência, a “Dama de Ferro” sugeriu a criação da carteira de identidade dos torcedores de futebol (National Membership Scheme) no Football Spectators Act (FSA), em 1989.

Alguns meses após a divulgação do FSA, ocorreu a maior tragédia do futebol britânico. Na partida válida pelas semifinais da FA Cup entre Liverpool e Nottingham Forest, no estádio de Hillsborough, do Sheffield Wednesday, 96 torcedores do Liverpool morreram, massacrados contra as grades que separavam a arquibancada do campo.

A fim de apurar os motivos da tragédia, o governo britânico iniciou investigação cuja conclusão foi de que o problema não seria os torcedores, mas as estruturas que os atendiam. Muito pior que os hooligans, era a situação dos estádios britânicos naquela época. Não seria possível exigir que as pessoas se comportassem de maneira civilizada em um ambiente que não oferecia as menores condições de higiene e segurança.

Para evitar que novas tragédias se repetissem a investigação realizada, em sua conclusão, estabeleceu uma série de recomendações como, por exemplo a obrigação da colocação de assentos para todos os lugares do estádio, a derrubada das barreiras entre a torcida e o gramado e a diminuição da capacidade dos estádios. Dentre as recomendações estava o cancelamento do projeto da carteira de identificação dos torcedores, eis que havia o receio de que o cadastramento aumentasse o problema da violência, e não o contrário.

Além dos questionamentos sobre a real capacidade dos clubes conseguirem colocar em prática um sistema confiável de cadastro, controle e seleção de torcedores e, ainda, sobre a confiança na tecnologia que seria utilizada, o argumento se baseava na ideia de que a carteira de identidade para torcedores não seria uma ação focada na segurança, mas na violência e as tragédias nos estádios não seriam questão de violência, mas de segurança. Inclusive, a polícia inglesa, que poderia ser beneficiada com a carteira, rejeitou o projeto, que, acabou sendo abandonado.

Em razão das novas exigências, os clubes ingleses se organizaram e na temporada 1992/1993 criaram a “Premier League” que atualmente é o campeonato de futebol mais valioso do mundo.

Além do índice técnico, um dos requisitos para que um clube inglês dispute a “Premier League” é a existência de estádio com boa infra-estrutura aos torcedores.

É fato que no Brasil o problema da violência é grande, mas muito pior é o problema da insegurança. Muitas tragédias como o buraco nas arquibancadas da Fonte Nova, só aconteceu porque o estádio estava em condições ruins, caso em que a carteirinha de identificação não teria salvado as vítimas, mas melhor fiscalização nas reais condições do espaço e o fornecimento de uma estrutura apropriada para o público, certamente teria evitado a tragédia.

Destarte, apesar dos avanços conquistados, especialmente com o advento do Estatuto do Torcedor, o consumidor dos eventos esportivos no Brasil ainda não é respeitado.

Estádios com infraestrutura precária, venda de ingressos e acesso a estádios tumultuados são alguns dos problemas enfrentados rotineiramente pelos torcedores brasileiros.

O fato é que as autoridade e as entidades organizadoras de eventos esportivos ao invés de aumentar a exigência dos torcedores, devem passar a tratá-los com respeito atentando-se ao estabelecido no Estatuto do Torcedor e nos direitos básicos como segurança e organização dos eventos esportivos.
Referências bibliográficas

http://www.cidadedofutebol.com.br/Jornal/Colunas/Detalhe.aspx?id=10782, acessado em 13 de novembro de 2010.

http://www.universidadedofutebol.com.br/2010/10/1,14853,A+IMPORTANCIA+DO+DIREITO+DESPORTIVO.aspx?p=4, acessado em 13 de novembro de 2010.

http://esporte.ig.com.br/futebol/2010/02/22/confrontos+entre+torcidas+deixam+1+morto+e+20+feridos+9404363.html, acessado em 13 de novembro de 2010.

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A violência nos estádios de futebol (Universidade do Futebol)

Gustavo Lopes

15/06/2012

Colunista trabalha em dissertação de mestrado para analisar o tema e divide a questão em três partes

Nas últimas semanas, estive envolvido na conclusão da minha dissertação de mestrado que trata das causas e soluções para a violência nos estádios de futebol da América do Sul.

O trabalho desenvolveu a memória de algumas correntes existentes sobre a violência no futebol, a intenção de obter uma interpretação a partir das mais diversas teorias, como as de Eric Dunning, Norbert Elías, Heloisa Helena Bady dos Reis e outros para tentar esclarecer esse fenômeno esse fenômeno tão complexo que é a violência nos espetáculos esportivos, focando-se nos países da América do Sul filiados à Conmebol.

Os países sulamericanos filiados à entidade foram divididos em três grupos. O primeiro denominado América Andina é composto por Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. O segundo, a América Platina, é composta por Argentina, Paraguai e Uruguai.

Finalmente, por suas peculiaridades e importância futebolística, política e econômica, o Brasil é apresentado separadamente. Cada país é descrito geopolítica e futebolisticamente analisando-se a legislação antiviolência.

No capítulo seguinte, faz-se um histórico dos principais casos de violência na América do Sul para, no tópico seguinte, apontar as suas causas.

Dentre as causas da violência, busca-se a doutrina internacional para enumerar as que melhor se aplicam à América do Sul, com destaque para a falta de respeito para com os direitos dos torcedores, a precariedade da infraestrutura dos estádios de futebol, a situação sócio-econômica da população do país, a impunidade e a falta de atuação governamental.

Após, apontam-se medidas adotadas na legislação alienígena, especialmente na Inglaterra, Portugal, Espanha, Estados Unidos, dentre outros.

Por fim, na conclusão, apontam-se as causas investigadas com as respectivas soluções legislativas e/ou governamentais. Ante todo o estudado, pesquisado e avaliado, constata-se que é possível combater a violência nos estádios de futebol com medidas eficientes. Desenvolveremos algumas conclusões em colunas futuras.

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Violência das torcidas organizadas: um desafio para a Copa do Mundo de 2014

Setores radicais desses grupos precisam abandonar a violência como prática. Com isso, ganharão legitimidade e terão um longo caminho a percorrer na história do nosso esporte

Rodrigo Monteiro*

03/04/2012

A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro têm mobilizado autoridades e a sociedade brasileira em discussões acerca do legado que esses megaeventos deixarão para o país e, sobretudo, para as cidades-sede desses eventos.

Uma dessas heranças é o novo Estatuto do Torcedor, sancionado em julho de 2011. Seu principal objetivo é coibir a violência nos estádios.

Em pesquisa realizada pelo Ibope e pelo jornal Lance!, publicada em agosto de 2010, 60% dos entrevistados disseram-se a favor da extinção das torcidas organizadas. Por um motivo simples: depois de já terem ocorrido tantos conflitos violentos envolvendo torcedores, a sociedade enxerga esses grupos como uma ameaça.

Masculinidade exacerbada e disputa territorial constituem práticas comuns de alguns grupos de torcedores organizados e revelam o que o sociólogo alemão Norbert Elias chamou de ethos guerreiro (entendido como vontade e disposição para agredir e destruir fisicamente o rival) que constrói uma das muitas identidades masculinas.

A esperança é que a reforma do estatuto ajude a combater o problema. Uma das novas punições previstas para torcedores violentos exige que eles se apresentem em delegacias durante os jogos. A norma é inspirada na legislação inglesa que cuida dos famosos hooligans. O texto também proíbe e pune cambistas, exige maior transparência dos organizadores dos campeonatos e prevê penas severas para os árbitros desonestos. Não há, no entanto, qualquer menção a policiais que abusem de seus poderes ou desviem-se de suas funções contra torcedores.

Alguns pontos do estatuto, porém, são polêmicos. Ele determina, por exemplo, que as torcidas organizadas se tornem juridicamente responsáveis pelos atos de seus membros. Mas será justo condenar, social e legalmente, o todo pela parte? Isso pode criminalizar as organizadas e ameaçar o direito à livre associação, uma das garantias constitucionais básicas de qualquer democracia.

O estatuto também mantém a proibição da venda de bebidas alcoólicas. No entanto, é sabido que os únicos produtos que podem ser vendidos nos estádios e em seus arredores são os licenciados pela Fifa. Entre esses produtos, estão bebidas alcoólicas de empresas patrocinadoras da entidade. Ao que parece, essa questão já foi superada e a favor dos interesses da Fifa e de suas associadas.

Cabe, então, a pergunta: de quem será a soberania nos dias de Copa? Do Estado brasileiro ou da Fifa?

É evidente que os setores radicais das organizadas precisam abandonar a violência como prática. Com isso, ganharão legitimidade e terão um longo caminho a percorrer na história do nosso esporte. Para que isso ocorra, algumas medidas simples podem ser eficazes.

Bandeiras (em duplo sentido) legítimas para as organizadas não faltam: questionar o comando da CBF; bem como os mandos e desmandos das federações estaduais; a relação promíscua entre técnicos, empresários e dirigentes; o elevado preço dos ingressos; os bizarros e contraproducentes horários de transmissões esportivas; transparência nos gastos públicos para a construção de equipamentos esportivos para a Copa e as Olimpíadas, etc.

Caso nenhum desses argumentos sensibilize as organizadas, ao menos que critiquem e incentivem seus clubes amados de forma civilizada. Já terá sido válido.

*Rodrigo Monteiro é sociólogo, pós-doutorando (FAPERJ), pesquisador do NUPEVI/IMS/UERJ e autor do livro “Torcer, lutar, ao inimigo massacrar: Raça Rubro Negra!”, pela Editora FGV.

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Maurício Murad diz que impunidade motiva violência das torcidas (03:14)

Redação SportTV – 28/03/2012

Sociólogo explica problema tem níveis nacionais e exige soluções.

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Isto É – N° Edição:  2212 |  30.Mar.12 – 21:00 |  Atualizado em 04.Set.12 – 05:06

COMPORTAMENTO

Como acabar com as gangues do futebol

As torcidas organizadas agem como quadrilhas, matam e aterrorizam cidades por todo o país. A repressão a esses baderneiros se tornou um desafio nacional

Rodrigo Cardoso

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APÓS A BRIGA
Torcida do Palmeiras na quarta-feira 28: calmaria depois da batalha campal do domingo

A polícia de São Paulo tomou um drible desconcertante de gangues uniformizadas que usam as cores de times de futebol para espalhar medo e matar. No domingo 25, 300 palmeirenses e corintianos, membros de torcidas organizadas, se encontraram na avenida Inajar de Souza, zona norte de São Paulo, para brigar. Dois jovens morreram após uma batalha campal às 10 horas em uma via pública movimentada, a dez quilômetros do estádio do Pacaembu, onde Corinthians e Palmeiras disputariam uma partida seis horas depois. O confronto havia sido agendado pela internet na semana anterior. Diante de tanta gente enfurecida, armada e com sede de sangue, os quatro policiais presentes em duas viaturas não tiveram como evitar a tragédia anunciada. “Eles estavam usando fogos de artifício e bombas. E a polícia não teve outra saída a não ser recuar e praticamente assistiu ao conflito”, admitiu o cabo Adriano Lopomo.

A ação das torcidas organizadas há muito ultrapassou o limite da civilidade. A situação de São Paulo é mais grave, até pelo tamanho das torcidas. Por isso, mesmo regiões distantes dos estádios ficam reféns dessas gangues. Trechos de várias cidades brasileiras estão sujeitos à violência desses baderneiros em dia de futebol e a população fica sitiada. No mesmo domingo 25, na capital cearense, o clássico Ceará e Fortaleza foi marcado por ocorrências antes, durante e depois do jogo. Guardas municipais foram baleados por torcedores em um terminal de ônibus, pessoas consumindo drogas, praticando furtos e brigando na arquibancada acabaram na delegacia. Objetos foram lançados contra os carros na BR-116. Uma semana antes, em Campinas, um jovem de 28 anos foi espancado e morreu em uma briga entre torcedores dos times rivais Guarani e Ponte Preta.

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BADERNA
Torcida do Corinthias a caminho do jogo no
domingo 25: armas, bombas e fogos de artifício

Esses encrenqueiros começaram a frequentar as páginas policiais em meados dos anos 1980. Depois, desceram das arquibancadas e passaram a se enfrentar nas proximidades dos estádios. Ultimamente, porém, candidatam-se para brigas pré-agendadas pela internet em locais distante dos jogos. Rastrear esses choques de torcidas – com a utilização de softwares modernos e pessoal treinado para esse tipo de trabalho – é obrigação da polícia. É a maneira mais inteligente de prevenir brigas que podem causar mortes. “Um monitoramento mais eficiente das redes sociais é algo a ser pensado”, admite o major Marcel Soffner, porta-voz da PM paulista.

O procurador de Justiça Fernando Capez, que combateu a violência das torcidas organizadas antes de se tornar deputado estadual pelo PSDB paulista, defende medidas mais radicais. “Policiais devem se infiltrar nas organizadas para identificar os baderneiros. É preciso fazer interceptações telefônicas para rastrear as comunicações de quem marca esses encontros pela internet, providencia as armas, as drogas e comete outros delitos”, diz ele. O promotor Paulo Castilho, diretor do Departamento de Defesa dos Direitos do Torcedor do Ministério do Esporte, reforça que é necessário promover uma prisão em massa por formação de quadrilha, tráfico de entorpecentes e espancamento. Tem de ser assim porque as torcidas organizadas estão se transformando em criminosos organizados.

Isso foi constatado no estudo “A violência e as mortes do torcedor de futebol no Brasil”, realizado entre 1999 e 2008 pelo professor Maurício Murad, titular de sociologia do esporte no mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Investigador do comportamento de torcidas organizadas há 20 anos, ele acompanhou integrantes dessas facções nos estádios, onde ouviu de alguns que não gostavam de futebol e ficavam de costas para o campo provocando outras pessoas simplesmente para brigar. “Falta ação, vontade política para tratar o problema”, diz o professor. Os clubes de futebol também devem ser cobrados, pois as organizadas têm regalias. Existem agremiações que distribuem ingressos de graça para as facções ou disponibilizam a venda para elas em guichês exclusivos. Além disso, há membros de torcidas organizadas que participam de conselhos deliberativos de times.

Diante da incapacidade do poder público de prevenir o problema e garantir a segurança de todos, alguns clubes estão partindo para medidas extremas. A repercussão negativa da morte do torcedor em Campinas na semana passada fez com que os presidentes do Guarani e da Ponte Preta optassem, até segunda ordem, pela disputa do clássico com apenas uma torcida. O mesmo aconteceu no mês passado no Paraná. Apenas os torcedores do Atlético Paranaense puderam assistir ao clássico contra o Coritiba no estádio da Vila Capanema. A medida, porém, fere o Estatuto do Torcedor. Com esse argumento, a procuradoria paranaense denunciou os clubes e, na quarta-feira 4, o Tribunal de Justiça Desportiva julgará o caso. Os times podem ser penalizados com multa de até R$ 100 mil. A torcida única não é novidade. Em Minas Gerais, a medida é adotada nos jogos entre Atlético e Cruzeiro desde 2010. Por causa da Copa, o Mineirão está em obras e a Arena do Jacaré, que tem capacidade para 18.850 pessoas e passou a abrigar os clássicos, não oferece segurança para comportar as duas torcidas juntas.

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PLACAR
Acima, André Lezo, que morreu na briga das duas
torcidas. Sete pessoas foram presas pela polícia

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Em São Paulo, providências mais concretas foram tomadas no dia seguinte às mortes na Inajar de Souza. Sete pessoas foram presas, policiais inspecionaram as quadras da Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde e apreenderam computadores nas duas sedes. Na casa de um dos presos, que é irmão de um dos torcedores mortos, a polícia encontrou munição, canivete e cassetete. Para a delegada que conduz o caso, Margarette Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, não há mocinhos nesse caso. “Todos os indícios mostram que eles também são brigadores. Não estamos falando de vítimas, não estamos falando de nenhum chapeuzinho vermelho passeando na floresta”, diz ela. E, por ora, a Federação Paulista de Futebol proibiu a entrada das duas facções nos jogos.

A experiência internacional pode ser útil ao Brasil. Segundo o sociólogo Murad, que por dois anos viajou por 16 países europeus como integrante do grupo de estudos e prevenção à violência da Uefa, a entidade que rege o futebol na Europa, ninguém conseguiu acabar com a violência das torcidas. Mas contê-la e colocá-la em níveis aceitáveis foi possível em vários lugares. Na Inglaterra, a Scotland Yard criou um gabinete só para vigiar e punir os hooligans, os torcedores violentos daquele país, que foram proibidos de viajar para outras localidades da Europa. “Lá, eles foram cadastrados; clubes perderam pontos quando a torcida deles provocou conflitos; e chefes de torcidas, que também fazem tráfico de drogas, foram responsabilizados criminalmente”, enumera o professor. Os hooligans não foram extintos, mas estão sob controle da polícia e da Justiça. Na Itália, a polícia fiscaliza e prende quem combina brigas pela internet. Há muito a ser feito no Brasil e os caminhos são conhecidos. Prevenir, reprimir, prender e condenar exemplarmente é o que se espera do poder público.

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IN LOCO
A polícia apreendeu computadores nas sedes
da Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde

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Hooliganismo e a sedução da violência (Universidade do Futebol)

Caráter lúdico desse tipo de ação e ineficiência da prevenção simplesmente policial remete à necessidade de estudos sobre o comportamento social e dos governos das cidades

Carlos Alberto de Camargo

25/02/2011

Uma das ameaças a ser consideradas no planejamento da segurança da Copa do Mundo é o hooliganismo, que não se confunde com a violência das torcidas organizadas brasileiras – esta última, em termos de Copa do Mundo, representa uma ameaça mais remota; mas o estudo do hooliganismo contribui para o entendimento da violência de nossas torcidas.

A capacidade de sedução da violência é a principal mensagem que o diretor Phillip Davis pretendeu passar no vídeo “Fúria nas Arquibancadas”, em que o personagem John Brandon, policial britânico infiltrado com três outros companheiros na torcida do Shadwell (um time fictício) a fim de conseguir informações necessárias ao controle da violência, acaba sendo cooptado por essa violência, absolutamente fascinado por ela, adotando o mesmo modo de vida dos hooligans, com suas inúmeras brigas e intermináveis bebedeiras.

É a mesma sedução que consta no testemunho pessoal do jornalista Bill Buford, em seu livro “Entre os Vândalos”, também infiltrado durante quatro anos na torcida do Manchester United a fim de descobrir por que os jovens ingleses do sexo masculino se envolviam em tumultos todos os sábados.

Na estação londrina de Marble Arch, retornando de um fim de semana violento em Turim, onde fora com a torcida acompanhar o Manchester, o jornalista surpreendeu-se com sua própria atitude. Irritado com um casal de idosos que caminhava lentamente à sua frente, amparados por suas bengalas, ele os ultrapassou, empurrando-os bruscamente e, já na dianteira, voltou-se para xingar.

Bill Buford descreve assim a violência: “Fiquei espantado com aquilo que descobri. Não esperava que violência fosse tão prazerosa. Poderia supor, caso me tivesse disposto a pensar a respeito, que a violência fosse provocante – no sentido em que um acidente de trânsito é provocante -, mas aquele prazer puro e elementar era de uma intensidade diferente de tudo que eu previra ou experimentara anteriormente. Não se tratava, contudo, de uma violência qualquer. Não se tratava de violência fortuita, ou violência de sábado à noite ou brigas de pub – era violência de massa, era essa que importava; os mecanismos muito particulares da violência das multidões”.

E o autor arrisca-se mesmo a apontar o principal combustível que movimenta esse comportamento: “a adrenalina, que pode ser tanto mais poderosa, porque é gerada pelo próprio corpo, contendo, fiquei convencido, muitas das mesmas propriedades viciantes que caracterizam as drogas sinteticamente produzidas”.

O personagem John Brandon entregou-se a essa mesma sedução, mergulhando de cabeça na espiral descendente que leva à total degradação, à negação da dignidade humana, à negação das mínimas regras necessárias a uma sadia convivência em sociedade. Entregou-se, iludido pela miragem assim descrita por Bill Buford:

“A violência apresenta uma das experiências vividas com mais intensidade e, para aqueles capazes de se entregar a ela, um dos mais intensos prazeres”. Mesmo advertido pelos seus companheiros de que essa ilusão o estava levando à autodestruição.

Tanto o livro como o filme apresentam uma impressionante sequência de escaramuças entre torcidas rivais; destacam a imagem desagradável e mesmo repulsiva do torcedor violento, acostumado a ingerir enorme quantidade de álcool, que sente tédio nos dias em que não vê futebol e que pratica delitos; e ainda procuram mostrar uma polícia inglesa às vezes omissa e à vezes excessivamente violenta.

As imagens que reproduzem a atuação da polícia nos estádios não resistem a uma análise técnica: revista pessoal falha e por amostragem, o que permite a introdução de armas, dardos e outros objetos perigosos; o policial que não mantém detidos os torcedores apreendidos por comportamento inconveniente; cenas de violência policial e a omissão da polícia em certos casos ou sua impotência quando algumas pessoas decidem desobedecer às leis.

O filme termina com nosso personagem participando de uma passeata neonazista. O livro também aborda o assunto, descrevendo como os rapazes de terno do National Front assediam as torcidas, que são o campo ideal para o recrutamento, já que se constituem em massas violentas ainda não politicamente dirigidas.

O repórter Bill Buford, ao contrário, termina sua narrativa confessando que em dado momento – quando preparava-se para viajar para Turim, nas eliminatórias para a Copa de 90 – entrou em depressão profunda: a simples ideia de um novo contato com a violência e as bebedeiras dos Hooligans o deixou doente.

Para melhor ilustrar o que pretendemos alertar, novamente nos socorremos de um exemplo inglês, desta vez narrado pelo jornalista Otávio Dias. Reportando a rebelião ocorrida na cidade de Luton, ao norte de Londres, em julho de 1995, quando durante vários dias grupos de jovens entraram em choque com a polícia, incendiando carros, apedrejando e saqueando lojas e casas, ele transcreveu depoimento de um deles: “enfrentar a polícia é a única maneira de conseguirmos um pouco de emoção”.

Todas essas observações nos fazem ficar preocupados com um dos aspectos da violência coletiva: o seu caráter eventualmente lúdico, que torna ineficaz a prevenção simplesmente policial, e que, por isso, recomenda seja objeto da preocupação de estudiosos do comportamento social e dos governos das cidades. A cuidadosa observação da forma como este problema tem sido enfrentado em todo mundo nos demonstra como eficazes: a rápida e rigorosa punição dos infratores, capaz de eliminar o sentimento de impunidade; a ocupação territorial inteligente e preventiva pela polícia, tomando o espaço dos violentos; e atuação sobre as causas da violência, como fenômeno social.

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Violência entre torcidas: respeito é a solução

(Universidade do Futebol)

Estatuto do Torcedor preocupa-se demasiadamente com a violência, sem ater-se à qualidade no trato com o torcedor, o verdadeiro destinatário do espetáculo esportivo

Gustavo Lopes Pires de Souza*

28/01/2011

No dia 27 de novembro de 2010, os amantes de futebol foram surpreendidos com um fato bárbaro: o assassinato de um torcedor do Cruzeiro Esporte Clube, em Belo Horizonte. Responsáveis foram identificados e indiciados, mas a pergunta que sobe à garganta é: “até quando?”.

Segundo pesquisa realizada pela professora Heloísa Reis, da Unicamp, o ponto de partida da violência em Minas Gerais teria sido a morte de um torcedor atleticano, que entrou em confronto direto com um cruzeirense, em Belo Horizonte, em 1967, após o Atlético perder para o Uberaba e ser eliminado da disputa pelo seu primeiro título mineiro na “era Mineirão”.

Desde então, foram vários incidentes entre atleticanos e cruzeirenses que nos últimos quinze anos contabilizam dez mortes e centenas de feridos.

Em julho de 2010, por meio da Lei 12.299, o Estatuto do Torcedor foi alterado passando a prever punição às torcidas organizadas e criminalização de atos violentos dos torcedores.

Sem embargo, o Estatuto do Torcedor fora criado em 2003 para assegurar os direitos do torcedor, e não para puni-lo. Causa estranheza haver alterações que não cuidem de algumas das principais necessidades dos torcedores, como o preço dos ingressos e o horário dos jogos.

O Estatuto do Torcedor preocupa-se demasiadamente com a violência, sem ater-se à qualidade no trato com o torcedor, o verdadeiro destinatário do espetáculo esportivo.

De fato, os responsáveis devem ser punidos exemplarmente, mas a punição após a tragédia não é capaz de trazer de volta a vida de inocentes. Aliás, o italiano Beccaria, no século XVIII, já defendia a intervenção mínima, em sua obra “Dos Delitos e das Penas”.

Para a tão almejada paz nos estádios é necessário planejamento, respeito e organização. É preciso que a sociedade civil reivindique os direitos insculpidos no Estatuto do Torcedor, que o Poder Público atenda aos anseios e que os clubes e entidades organizadoras de eventos esportivos passem a tratar os torcedores com respeito, atentando-se ao fato de que fazem parte do patrimônio do clube.

Medidas como venda organizada de ingressos, conforto nos estádios, trariam efeitos positivos na luta contra a violência, tal como comprova a eficiente experiência inglesa que em uma década retirou o futebol local do ostracismo e transformou a Premier League em exemplo de organização e lucratividade.

Portanto, a cada ato de violência torna-se mais necessária a aplicação do Estatuto do Torcedor em sua plenitude, pois somente a lhanheza no trato com os torcedores oportunizará a queda do índice de violência nos estádios. E não se trata de inovar, mas tão somente de espelhar experiências de sucesso.

Referências

Jornal “Hoje em Dia”, Belo Horizonte, Minas Gerais, dos dias 20, 21, 23 e 24 de agosto de 2010.

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. O respeito ao torcedor como investimento com retorno esportivo e financeiro. Derecho Deportivo em Linea, Madrid. Disponível em Acesso em 27 jul. 2010

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. Os Direitos do Torcedor Brasileiro. Cidade do Futebol, São Paulo. Disponível em . Acesso em 27 jul. 2010

SOUZA, Gustavo Lopes Pires de. Estatuto do Torcedor: a evolução dos direitos do consumidor do esporte (Lei 10.671/2003), Alfstudio: Belo Horizonte, 2009.

*Coordenador do Curso de Capacitação em Direito Desportivo da SATeducacional. Professor de Organização Jurídica do Esporte no MBA de Gestão em Eventos Esportivos das Faculdades Del Rey. Autor do livro: “Estatuto do Torcedor: A Evolução dos Direitos do Consumidor do Esporte” (Lei 10.671/2003) Formado em Direito pela PUC/MG, Pós Graduado em Direito Civil e Processual Civil pela Unipac, Membro e colunista do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, Membro do Instituto Mineiro de Direito Desportivo e da Associação Portuguesa de Adepstos Colunista do Instituto de Direito Desportivo da Bahia e do portal “Papo de Bola”.

Agraciado com a medalha ” Dom Serafim Fernandes de Araújo” pela eficiência na atuação jurídica. Jurista, Articulista, Advogado licenciado em razão de função pública no TJMG. Professor de matérias Jurídicas no MEGA CONCURSOS, FAMINAS e Arnaldo Jansen.

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I Fórum Permanente para Discussão sobre a Violência das Torcidas de Futebol (Universidade do Futebol)

15 de setembro de 2010

Visando discutir sobre as questões sociais relevantes na atualidade que envolvem os eventos nos espetáculos futebolísticos, será realizado, em setembro, o I Fórum Permanente para Discussão sobre a Violência das Torcidas de Futebol.

O evento terá como presidente da mesa e mediador os advogados Fábio Sá Filho e Expedito Bandeira. Além deles, também contribuem para a realização do fórum o palestrante José Luiz Ratton e o debatedor Ailton Alfredo.

Veja a programação e outras informações:

Organização: Instituto Pernambucano de Direito Desportivo (IPDD), Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco (TJ/PE), Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional de Pernambuco (OAB/PE) e Escola Superior de Advocacia de Pernambuco (ESA/PE).

19:00 – Abertura

19:10
Painel Violência das Torcidas de Futebol

Presidente de mesa: Fábio Sá Filho/PE (Advogado. Mestre em Direito. Professor da FBV, UNICAP e ESA/PE. Membro da AIDTSS, do IBDD, da Comissão de Direito Desportivo da OAB/PE e do INAMA/PE. Diretor Presidente e Associado fundador do IPDD)

Mediador: Expedito Bandeira/PE (Advogado militante da área de Direito Público. Conselheiro da OAB/PE. Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB/PE)

Tema: Torcidas organizadas, cultura e sociabilidade no Brasil

Palestrante: José Luiz Ratton/PE (Professor pesquisador do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Criminalidade, Violência e Políticas de Segurança – NEPS – da UFPE. Assessor Especial do Governador para a área de Segurança Pública)

Debatedor: Ailton Alfredo/PE (Juiz Coordenador do Juizado Especial Cível e Criminal do Torcedor de Pernambuco. Mestrando em Direito. Professor Universitário. Membro do IBDD e Associado fundador do IPDD)

20:50 Encerramento

Inscrições:

Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional de Pernambuco (OAB/PE)

Rua do Imperador Pedro II, 235, Santo Antônio

Junto às Sras. Ana da Hora e Ana Maristela (Setor de Comissões)

Das 9h às 12h e 14h às 18h

Telefone: (81) 3424-1012 Ramal 230

Doações:

Não será cobrada taxa alguma. Apenas quem quiser, poderá doar 1 kg de alimento não-perecível, água mineral, roupas e/ou cobertores para serem repassados às vítimas da enchente em Pernambuco.

Atenção: os donativos serão coletados a qualquer tempo na sede da OAB/PE (de preferência, o quanto antes).

Organização: IPDD, TJ/PE, OAB/PE e ESA/PE

Apoio: Sport Club do Recife, Clube Náutico Capibaribe e Santa Cruz Futebol Clube.
Local: Auditório da OAB, Recife/PE

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Especial: violência na esfera do futebol (Universidade do Futebol)

Acontecimentos do último fim de semana no Estado de São Paulo reacendem necessidade de debate pautado na técnica e na profundidade social

Equipe Universidade do Futebol

26/02/2010

O saldo do clássico do último fim de semana entre Palmeiras e São Paulo não foi apenas os três pontos na tabela de classificação do Campeonato Paulista à equipe alviverde comandada pela primeira vez por Antônio Carlos Zago. Fora de campo – ou melhor, fora do estádio -, diversas ocorrências envolvendo torcedores das duas equipes foram relatadas pelas câmeras e detectadas pela polícia. Mas ainda mais distante da esfera principal, o jogo no estádio Palestra Itália, que se deu o chamariz.

Na Rodovia dos Bandeirantes, região de Jundiaí, um palmeirense foi morto. Dois suspeitos pelo crime foram presos pela Polícia Civil, que efetuou uma busca em pelo menos seis cidades do interior. A vítima pertencia à Mancha Alviverde. Enquanto os suspeitos têm ligação com a torcida organizada Tricolor Independente.

Além de ter provocado a morte de Alex Furlan de Santana, 29, a briga entre os dois grupos deixou 12 feridos, entre eles um são-paulino que teve amputada parte da mão direita após a explosão de uma bomba caseira. Ele foi ouvido e negou que tenha atirado o artefato.

Para a polícia, a briga pode ter sido premeditada. Na terça-feira, foram presos em São Carlos dois suspeitos de participação no crime. Os membros da Independente confessaram ter participado da briga. Mas o empresário Evandro Magno Vicentini Júnior, 29, e um adolescente, de 17 anos, negaram o crime. Vicentini continua preso, e o adolescente está numa unidade para menores de idade de São Carlos.

O menor de idade admitiu ter feito dois disparos durante a briga. Segundo ele, ninguém foi atingido, pois um tiro foi dado para cima e o outro, para o chão. Na casa do empresário, a polícia apreendeu duas espingardas cartucheiras, que passarão por perícia.

Delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Jundiaí e responsável pelo caso, Antonio Dota Júnior, acredita que os membros da organizada são-paulina que participaram da briga viajaram para assistir ao jogo em ônibus e vans que partiram de São José do Rio Preto e apanharam torcedores em outras cidades, como Piracicaba, Limeira, Campinas e Araras.

 

O comando da Polícia Rodoviária Estadual informou que policiais fizeram quatro disparos durante a briga na tentativa de dispersar o confronto. Um dos tiros atingiu a perna de um torcedor ainda não identificado.

Para Heloisa Reis, socióloga de formação e estudiosa dessa relação, a violência urbana nos dias de jogos de futebol transformou-se em uma questão de segurança pública em diversos países. Inicialmente, parecia um problema localizado apenas na Inglaterra, sob o nome de hooliganismo. Atualmente, entretanto, é um problema quase planetário. E para pensar em prevenção desta violência, é necessário buscar suas raízes, suas causas diretas e indiretas.

Todos os levantamentos científicos realizados no Velho Continente especificamente concluíram que a falta de infraestrutura dos estádios é geradora de atos de vandalismo e de outras formas de violência. Muitas recomendações do tratado europeu, então, dizem respeito à modernização dos estádios: ambientes confortáveis e seguros inibiriam ocorrências.

“No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas, inclusive como forma de protesto e enfrentamento. Aqui, a gota d’água foi o confronto de torcedores no Pacaembu em 1995, na final da Copa SP de juniores. O episódio chocou a sociedade pela crueldade dos jovens agressores armados com entulhos encontrados no próprio estádio, o que é inadmissível”, relatou Heloisa, citando justamente um duelo envolvendo palmeirenses e são paulinos, há 15 anos, pela Supercopa de Juniores.

Para ela, uma das explicações das raízes da violência relacionada ao esporte pode ser encontrada na gênese e no desenvolvimento do futebol moderno, visto como ambiente de produção e reprodução de valores de masculinidade. E outra, no sistema de metabolismo social do capital.

“Se levarmos em conta a primeira, não é de se estranhar que a ‘linha dura’ dos grupos agressores seja formada basicamente por jovens do sexo masculino. Para eles, a valentia e a força são elementos necessários para o enfrentamento do inimigo, que pode ser os torcedores adversários, a polícia – que representa ali o Estado -, os árbitros e até os jogadores do próprio time”, completou a mestra e doutora em Educação Física, atuando com ênfase em Sociologia do Esporte, Lazer e Pedagogia do Esporte.

A seguir, além da entrevista na íntegra com Heloisa Reis, a Universidade do Futebol apresenta ao público uma série de artigos relacionados à temática. E convida a comunidade a debater no espaço de comentários.

Leia mais:
Entrevista: Heloisa Reis, estudiosa da relação futebol x violência
Mais do mesmo
Medidas tomadas pela Uefa para conter a violência
Na Europa, combate à violência ganhou força nos anos 1980
Os cegos do castelo e a violência das torcidas de futebol
O combate ao problema e não às causas da violência
O perfil do torcedor brasileiro
Sociologia explica violência das torcidas
Apontamentos sobre o protagonismo do torcedor no espetáculo de futebol
Torcedores de futebol: uma análise sociológica
Violência nos estádios
Violência no futebol: quando as causas vão ser investigadas?
O cravo da violência
Comportamento e infraestrutura para a segurança nos estádios
Estado de choque. De novo
A consequência da violência para os clubes de futebol
Civilização e barbárie
Simpatia a organizadas estabelece momento de comemoração no futebol

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Violência no futebol: quando as causas vão ser investigadas? (Universidade do Futebol)

A atuação dos meios de comunicação em relação ao tema no meio esportivo é um aspecto que deve ser repensado

GEF

16/08/2009

Mortes relacionadas ao futebol brasileiro reacendem a discussão em torno da violência no esporte. Normalmente declarações precipitadas de autoridades públicas, assim como informações desencontradas e incoerentes veiculadas pela imprensa contribuem para a formulação de “soluções mágicas”, mas que poderão comprovar-se ineficazes, dado que não consideram a amplitude e a importância do
fenômeno.

Em um primeiro momento, consideramos ser fundamental a retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência nos Espetáculos Esportivos pelos Ministérios do Esporte e da Justiça e a criação de colegiados similares nos estados, que tenham a atribuição de tratar o tema com o devido cuidado e de trazer o poder público para o cerne da discussão. Há a necessidade, também urgente, de atualização da legislação específica para o esporte, como o Estatuto do Torcedor. A tarefa é especialmente oportuna neste momento, dado que o tema está sendo discutido no Senado. Alguns pontos importantes foram acrescentados à lei, mas outros, como a melhoria da infraestrutura dos estádios, ainda não foram contemplados.

Para que as atividades sejam efetivas e contínuas, é preciso incentivar e assegurar a participação, nas referidas comissões, de representantes de diferentes esferas da sociedade (governo, entidades esportivas, torcidas organizadas, imprensa e estudiosos), de maneira a enriquecer e ampliar o enfoque das análises. Da mesma forma, ainda verificamos a urgência da criação de uma corporação de segurança especializada em eventos esportivos, pois é notório que o despreparo dos atuais agentes públicos, e o tratamento por eles conferido aos torcedores – organizados ou não -, estão entre as principais causas dos conflitos violentos.

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Brasil lidera ranking de mortes ligadas ao futebol (Universidade do Futebol)

20/07/2009

No início das pesquisas, em 1999, o país estava atrás da Itália e da Argentina. Porém, em 10 anos, o Brasil passou a liderar essa estatística

Equipe Universidade do Futebol

Um dos principais problemas a ser solucionado até a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, é a questão da violência ligada ao futebol. De acordo com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em dados fornecidos por jornais, revistas e rádios, nos últimos 10 anos, o país foi o que registrou o maior número de mortes de torcedores. Foram 42 casos.

“Quando começamos a fazer o levantamento, o Brasil estava em terceiro lugar na comparação com outros países no número de óbitos. A ordem era Itália, Argentina e Brasil. Hoje, 10 anos depois, o Brasil conquistou o primeiro lugar. É uma conquista trágica, perversa”, afirmou Maurício Murad, sociólogo e autor do estudo.

Ele afirmou a violência deveria ser um dos temas que mais deve receber atenção de governantes, e que deve ser solucionado, caso o Brasil queira ser sede da Copa de 2014.

“Essa violência é uma preocupação para a Copa porque, de todos os problemas que a Fifa acompanha, e de tudo o que o caderno de exigências determina, a segurança pública é um dos principais. O problema da segurança pública é da maior importância para o Mundial”, disse Murad, em entrevista publicada pela Agência Brasil.

De acordo com o pesquisador, ao contrário da Itália, que promoveu uma reforma na legislação para punir exemplarmente dirigentes ou torcedores que estimularem a violência, o Brasil ainda não adotou medidas efetivas.

Segundo o estudo, os números pioraram. Se no período de 10 anos a média é de 4,2 mortes a cada ano, no período entre 2004 e 2008 o número de mortos totaliza 28, dando uma média de 5,6 por ano. Apenas em 2007 e 2008, 14 pessoas morreram, o que dá uma média de sete por ano.

“Cresceu a violência no futebol porque cresceu a violência no país. E cresceu a violência no país porque a impunidade e a corrupção são cada vez maiores”, disse o sociólogo.

Conforme a pesquisa, a maior parte das vítimas fatais era composta por jovens entre 14 e 25 anos, de classe baixa ou média baixa, com escolaridade até o ensino fundamental e, em geral, desempregado. Também foi constatado que, em grande parte, esses torcedores não eram ligados a práticas de violência.

“Em quase 80% dos casos, as pessoas não tinham nenhuma ligação com setores violentos ou delinquentes de torcidas organizadas. Apenas em 20% é que os óbitos eram de pessoas ligadas a grupos de vândalos”, concluiu Murad.

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O cravo da violência (Universidade do Futebol)

No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas

Heloisa Reis

03/07/2009

A violência urbana nos dias de jogos de futebol transformou-se em uma questão de segurança pública em diversos países. Inicialmente, parecia um problema localizado apenas na Inglaterra, onde recebeu o nome de hooliganismo. Hoje, no entanto, é um problema quase planetário. E para pensar em prevenção desta violência, é necessário buscar suas raízes, suas causas diretas e indiretas.

Quarenta e seis países europeus adotaram políticas nacionais de prevenção elaboradas a partir de um acordo firmado no Conselho da Europa. A gota d’água foi a tragédia do estádio Heysel, na Bélgica, em 1985, que deixou 39 mortos após tumulto na final da Copa dos Campeões.

Os primeiros participantes do Convênio Europeu sobre a violência e mau comportamento em eventos esportivos foram Inglaterra, Itália e Espanha. Hoje, países com o maior sucesso na promoção de espetáculos de futebol. Na Espanha, foram constituídas duas comissões para o estudo do problema: uma de senadores, com um período de trabalho de dois anos; e outra em âmbito interministerial. Tais trabalhos subsidiaram a elaboração da lei de esporte espanhola de 1990, que dedica um capítulo especificamente ao tema. A nova legislação tornou ágil o julgamento dos delitos e delimitou as penas impostas aos clubes em casos de violência de seus espectadores.

Todos os estudos realizados concluíram que a falta de infraestrutura dos estádios é geradora de atos de vandalismo e de outras formas de violência. Por isso, muitas recomendações do tratado europeu dizem respeito à modernização dos estádios. Ambientes confortáveis e seguros inibem a violência.

No Brasil, as frustrações geradas com o mau funcionamento dos serviços e da estrutura dos estádios contribuem para manifestações violentas, inclusive como forma de protesto e enfrentamento. Aqui, a gota d’água foi o confronto de torcedores no Pacaembu em 1995, na final da Copa SP de juniores. O episódio chocou a sociedade pela crueldade dos jovens agressores armados com entulhos encontrados no próprio estádio, o que é inadmissível.

Uma das explicações das raízes da violência relacionada ao esporte pode ser encontrada na gênese e no desenvolvimento do futebol moderno, visto como ambiente de produção e reprodução de valores de masculinidade. E outra, no sistema de metabolismo social do capital. Se levarmos em conta a primeira, não é de se estranhar que a “linha dura” dos grupos agressores seja formada basicamente por jovens do sexo masculino. Para eles, a valentia e a força são elementos necessários para o enfrentamento do inimigo, que pode ser os torcedores adversários, a polícia -que representa ali o Estado-, os árbitros e até os jogadores do próprio time.

A Europa vem enfrentando há alguns anos dificuldades com o racismo. Uma causa direta do problema é a intolerância dos integrantes de movimentos neonazistas que encontraram nos estádios um local para divulgar sua ideologia. Este cenário é mais um exemplo de que a violência pode se manifestar de diferentes formas. Lá, agora, a principal é o racismo. Aqui, ainda é o enfrentamento com os torcedores rivais e/ou com a polícia.

Skeptical Uses of ‘Religion’ in Debate on Climate Change (The Yale Forum on Climate Change & The Media)

Michael Svoboda   August 27, 2012

Religion’ and religion-inspired terms — savior, prophet, priests, heretic, dogma, crusade — are regularly used in efforts to influence public attitudes about climate change. But how does this language work, and on whom?

Over the past several months The Yale Forum has published a series of articles describing how major religious groups across America address climate change. Within the broader societal debate on this issue, however, the voices heard in these pieces may be outnumbered by those of a group with a very different take on the connections between religion and the environment: climate skeptics.

Since 2005, in op-eds published in newspapers (The Wall Street Journal, The Washington Examiner, The Washington Post, and The Washington Times), in magazines (Forbes, National Review, The Weekly Standard), and online (Fox News and Townhall and also climate-specific websites like Watts Up with That), conservative commentators have repeatedly described global warming as a religion.

So how does this use of religious language affect the public understanding of climate change? To answer this question, the Forum analyzed more than 250 op-eds, blog posts, and books published between 2005 and the present. The results suggest that this religious language may be most effective in fortifying the opinions of those using it: Calling global warming a “religion” effectively neutralizes appeals to “the scientific consensus.”

Taking the Measure of the Meme

To take your own quick measure of the global-warming-as-religion (hereafter GWAR) meme, try two related searches at Google: first search for “climate change” and “religion,” then for “global warming” and “religion.” The top ten items from the Forum‘s two most recent searches (20 items in all) broke down as follows:

  • 10% were by religious groups calling for action on climate change,
  • 25% were about religious groups calling for action on climate change,
  • 10% were against religious groups opposed to action on climate,
  • 50% described concern for global warming as a religion, and
  • 5% rebutted those who described concern for global warming as a religion.

Based on this sample, one is more likely to encounter an article or op-ed about global warming as a religion than an article or op-ed explaining how or whether a particular religious group addresses climate change.

The dominance of the GWAR meme is even greater when one looks specifically at conservative venues. Over the past year, approximately 100 op-ed pieces that touched on global warming were published in nationally recognized conservative newspapers and/or by nationally syndicated columnists whose work is aggregated by Townhall. Ten of these pieces equated accepting the science on global warming with religious belief; none offered a religious argument for action on climate change.

During the peak years of Al Gore’s An Inconvenient Truth (2006–2008), the ratio was far higher. Roughly 40% of the more than 150 conservative op-eds penned in response to the documentary, to its Academy Award, or to Al Gore’s Nobel Peace Prize included language (prophet, priests, savior, crusade, faith, dogma, heresy, faith, etc.) that framed concern for climate change as a religious belief. Some drew that analogy explicitly. (See, for example, Richard Lindzen’s March 8, 2007, op-ed piece forThe Wall Street Journal and The Daily Mail (UK) — “Global Warming: The Bogus Religion of Our Age.”)

And since then several climate skeptics — Christopher Horner (2007), Iain Murray (2008), Roy Spencer (2008), Christopher Booker (2009), Ian Wishart (2009), Steve Goreham (2010), Larry Bell (2011), Brian Sussman (2012), and Robert Zubrin (2012) — have included the GWAR meme in their books.

A Brief History of the Global-Warming-as-Religion Meme

The global-warming-as-religion meme is an offshoot of the environmentalism-as-religion meme, which, according to New American Foundation fellow and Arizona State University Law Professor Joel Garreau, can be traced back to religious critiques of Lynn White’s 1967 essay in Science, “The Historical Roots of Our Ecologic Crisis.” By pinning the ecological blame on the Judaeo-Christian tradition’s instrumental view of nature, these authors argued, White seemed to call for the revival of nature worship.

Elements of these early critiques were reworked in what is perhaps the most well-known instance of the environmentalism-as-religion argument, Michael Crichton’s speech to the Commonwealth Club of San Francisco in 2003.

The first* example of the more specific global-warming-as-religion claim appears to be the aside in Republican Senator James Inhofe’s January 4, 2005, “update” to his “greatest hoax” speech: “Put simply, man-induced global warming is an article of religious faith.” Using slightly different language, Inhofe repeated this charge a few months later in his “Four Pillars of Climate Alarmism” speech.**

In between these two speeches, in a February 16, 2005, editorial for Capitalism Magazine by American Policy Center President Tom DeWeese, the GWAR meme gained titular status: “The New Religion Is Global Warming.”

But the most fully developed version of the global-warming-as-religion analogy is the nearly 5,000-word essay published on the Web in 2007 by retired British mathematician John Brignell — who cites Crichton’s 2003 speech in his opening paragraph.

The more generic environmentalism-as-religion meme now seems confined to Earth Day, which Emory University economics professor Paul Rubin described in an April 22, 2010, WSJ op-ed piece as environmentalism’s “holy day.” Two recent examples, from this past April, were provided by former business consultant W.A. Beatty and by Dale Hurd, a “news veteran” for the Christian Broadcasting Network.

The GWAR meme appears as opportunities — cool summers; early, late, or heavy snowstorms; or scandals — arise. And its meaning can vary accordingly.

Nature/Climate as Sacred

Some of the first American “environmentalists” — David Thoreau, Ralph Waldo Emerson, John Muir — often used religious language. Nature was where they most vividly experienced the presence of God. But when contemporary environmentalists use quasi-religious language without explicitly avowing a particular faith, their opponents may suspect that nature itself has become the object of their worship. When James Lovelock named his homeostatic model of the planet and its atmosphere after the ancient Greek earth goddess, Gaia, he provided a new ground for this suspicion.

For conservatives, there are strong and weak versions of this charge.

The strong charge is “paganism,” that environmentalists or climate activists/scientists worship nature in ways akin to the practices of the Egyptian, Mesopotamian, Greek, and Roman empires in which the ancient Jews and early Christians lived. This strong charge is typically leveled by evangelicals who publicly profess their own faith. Physicist James Wanliss and his colleagues — whose book and dvd,Resisting the Green Dragon, offer “A Biblical Response to One of the Greatest Deceptions of the Day” — provide perhaps the most vivid example.

The weak version reduces the charge of paganism to misplaced values. Very arch religious language may still be used, but the meaning is now metaphorical. In these more frequent instances of the GWAR meme, conservatives accuse climate activists/scientists of essentializing climate, of being too willing to slow or even disable our economic engine because they believe Earth has an “optimal climate.”

Climate Science as Cult

“Cult” implies that a given set of beliefs or practices is arcane, outside the mainstream, and insular. Someone embedded in a cult will not acknowledge conflicting evidence. So whenever new facts or dramatic events challenge the validity of climate science, at least in the minds of conservative skeptics, “cult of global warming” op-eds appear. Major snowstorms, cold snaps, and years that fail to surpass 1998′s average annual temperature provide these new “facts.”

Odd religious news can also prompt “cult of global warming” op-eds. The third no-show of Harold Camping’s apocalypse provided the prompt, last fall, for op-eds by Michael Barone and Derek Hunter. (The “cult” in the title of Michael Barone’s piece, however, may be the work of the Post’s editor; thesame piece appeared under a different title in The Washington Examiner.)

Climate Science as Corrupt Orthodoxy

But it’s hard to depict a thoroughly institutionalized effort like climate science as a cult. The international undertaking that is science is more plausibly compared with the Roman Catholic Church. And for climate skeptics, the best of the many possible instances of that church is the Roman Catholic Church of the late Renaissance, the church that condemned both Luther and Galileo.

The very Nobel public profiles of Al Gore and the IPCC, from 2006 to 2008, prompted many comparisons with priests and popes, cardinals and curia. Add in carbon offsets and the Reformation riffs practically wrote themselves. Conservative columnist Charles Krauthammer’s March 16, 2007,column in Time exemplifies this subgenre:

In other words, the rich reduce their carbon output by not one ounce. But drawing on the hundreds of millions of net worth in the Kodak theatre [for the “carbon-neutral” 2007 Academy Awards], they pull out lunch money to buy ecological indulgences. The last time the selling of pardons was prevalent — in a predecessor religion to environmentalism called Christianity — Martin Luther lost his temper and launched the Reformation.

(It should be noted, however, that climate activists and environmental journalists have themselves sometimes written about their ecological “sins.”)

While green hypocrisy was the primary target of Krauthammer’s 2007 column, orthodoxy and dogma are always at least secondary targets in this use of the GWAR meme. And shots were taken at them in a February 9, 2007, National Review column by Rich Lowry; a May 30, 2008, Washington Post column by Charles Krauthammer; a March 9, 2009, Townhall piece by Robert Knight; a January 13, 2010, Townhallcolumn by Walter E. Williams; a November 29, 2011, Wall Street Journal column by Bret Stephens; and, most recently, an April 26, 2012, post by David Solway. This is the most common use of the GWAR meme.

Dissenting Religions and the Scientific Consensus

But one might argue that by depicting climate scientists and activists as members of an aloof and self-serving (and possibly self-deluding) priesthood, conservatives are themselves engaged in religious posturing, for self-righteous dissent is part of the DNA of the western religious tradition.

Ancient Israel was a small country surrounded by much more powerful empires. Some heroes of the Bible — e.g., Daniel, Shadrach, Meshach, and Abednego — worked as trusted bureaucrats within state-ecclesiastical systems based on cosmologies they did not believe in. When ordered to consent to the beliefs of their rulers, they refused.

During the Protestant Reformation religious dissent often became political dissent. Today’s evangelicals are dissenters from mainstream denominations that dissented first from the Church of England and then from King George. Now they dissent from Washington.

But in the U.S., Roman Catholics too can view themselves as a dissenting minority, as, for example, when the Catholic Bishops objected to parts of the new healthcare law.

In fact, Americans are so primed for dissensus that both sides in the climate debate find it plausible to claim the mantle of Galileo.


In the run-up to the December 2009 conference in Copenhagen, cartoonists Michael Ramirez and David Horsey published cartoons that drew exactly opposite conclusions from the history of science, including Galileo’s conflict with the Roman Catholic Church regarding Copernicus’s heliocentric model of the solar system.

Within this charged religious history, a steadfast minority (of Jews, early Christians, Protestants, or Puritans) has been correct more often than the majority, than the broader cultural consensus (of Egyptians/Assyrians/Babylonians/Persians, Greeks/Romans, Roman Catholics, or Anglicans). Thus the GWAR meme not only legitimizes dissent (because everyone is entitled to his or her own religious views), it also provides emotional reinforcement for it (because the “official” religion is almost always “false”). The Protestant vs. Catholic variant of the meme also reinforces climate skeptics’ narratives about greedy and scheming scientists and/or self-serving elites. For those who use it, the GWAR meme effectively inoculates them against “the scientific consensus.”

Managing the Meme

Much has been said and published by religious leaders trying to promote action on climate change. But these messages must compete against the global-warming-as-religion meme reinforced regularly in op-eds sent out by The Wall Street Journal to its two million plus subscribers and, more frequently, in columns posted by Townhall for its two million unique monthly visitors.

Are there counter-measures for this meme?

In his summer 2010 article in The New Atlantis, Joel Garreau, New American Foundation fellow and Lincoln Professor of Law, Culture and Values (Sandra Day O’Connor College of Law, Arizona State University), traced the emergence of environmentalism as a secular religion. In that piece, Gerreau speculated that “the two faces of religious environmentalism — the greening of mainstream religion and the rise of carbon Calvinism — may each transform the political and policy debate over climate change.” In response to an e-mailed query from The Yale Forum, after stressing that he did not “conflate faith-based environmentalism with the scientific study of climate,” Garreau explained his “pragmat[ic]” outlook:  ”I just lay out the facts (as startling as they may be to some), observe that faith-based systems are ubiquitous in history, and then ask, in public policy terms, how you deal with this situation.”

Garreau said he is not surprised that “climate change deniers [might] wish to point out the ironies of faith-based environmentalism rising up in parallel with scientific environmentalism.” But he said he does not think that would have much effect. He suggested no countermeasures but did anticipate a possible line of attack: “It would hardly be surprising if there were a few under-examined pieties in their own world view.”

From the title of University of Maryland School of Public Policy professor Robert H. Nelson’s 2010 book,The New Holy Wars: Economic Religion vs. Environmental Religion in Contemporary America, one might infer that the playing field for climate policy might be leveled by calling attention to the equally religious faith in economics, in economic growth in particular. But what would be gained from a “religious” standoff between economics and environmentalism? In response to an e-mail question, Nelson listed three benefits:

First, … it helps us to understand … the … intensity of the disagreements about climate policy. Second, it offers a note of caution to all participants, given [that past] religious disagreements have too often escalated beyond all reason …. Third, … [s]eeing economics and environmentalism as religions, and discussing them as such, [would bring their] core value assumptions to the surface.

In other words, pushing back with the same religious language might be an effective countermeasure, at least initially. Then, Nelson added,  ”a secular religious ‘ecumenical movement’” could perhaps resolve the tensions between economics and environmentalism.

One clearly should proceed with caution in pursuing any “religious” countermeasures. The cultural and historical associations evoked by religious language do not necessarily favor “consensus,” especially a consensus presented in authoritative terms. In American history, religious groups have splintered far more often than they have united.

Bottom line: Climate communicators should expect and prepare for religious language. But they should weigh the subtle cultural messages religious language carries before deciding whether or how to use or respond to it.

*If readers know of an earlier example, please send the reference and/or the link to the author.
**Brian McCammack’s September 2007 
American Quarterly article, “Hot Damned America: Evangelicalism and the Climate Policy Debate,” pointed the way to these two speeches by Senator Inhofe.

Michael Svoboda

Michael Svoboda (PhD, Hermeneutics) is an Asst. Prof. of Writing at The George Washington University. Previously the owner of an academic bookstore, he now tracks and analyzes efforts to communicate climate change, including the stream of research and policy published by NGOs. E-mail: msvoboda@yaleclimatemediaforum.org

Intriguing Habitats, and Careful Discussions of Climate Change (N.Y.Times)

THE ANIMAL LIFEBOAT

Gretchen Ertl for The New York TimesPacific Sea nettle jellyfish at the New England Aquarium in Boston. Zoos and aquariums are working to include educational elements about the environment without alienating visitors.

By 

Published: August 26, 2012

BOSTON — Sitting on an artificial mangrove island in the middle of the ray and shark “touch tank,” Lindsay Jordan, a staff member at the New England Aquarium, explained the rays’ eating habits as children and their parents trailed fingers through the water. “Does anyone know how we touch these animals when we are not at the aquarium?” she asked.

The children’s faces turned up expectantly.

“The ocean absorbs one-third of the world’s carbon dioxide emissions,” Ms. Jordan said, explaining that it upsets the food chain. “When you turn on your car, it affects them.”

Downstairs, next to the jellyfish tanks, a rhyming video told how the jellyfish population was exploding in the wild because they thrive in warmer waters. In the main room, a staff member pointed to a rare blue lobster, saying that some lobsters have been scuttling out of Massachusetts and settling in cooler climes to the north.

With many zoos and aquariums now working with conservation organizations and financed by individuals who feel strongly about threatened habitats and species, managers have been wrestling with how aggressive to be in educating visitors on the perils of climate change.

Surveys show that American zoos and aquariums enjoy a high level of public trust and are ideally positioned to teach.

Yet many managers are fearful of alienating visitors — and denting ticket sales — with tours or wall labels that dwell bleakly on damaged coral reefs, melting ice caps or dying trees.

“You don’t want them walking away saying, ‘I paid to get in, I bought my kid a hot dog, I just want to show my kid a fish — and you are making me feel bad about climate change,’ ” said Paul Boyle, the senior vice president for conservation and education at the Association of Zoos and Aquariums.

Some zoos and aquariums have therefore held back, relegating the theme to, say, a sign about Arctic melting in the polar bear exhibit. But many have headed in the other direction, putting climate change front and center in a way that they hope will inspire a young generation of zoogoers.

Working with cognitive scientists and experts in linguistics and anthropology, a coalition of aquariums set out in 2008 to develop a patter that would intrigue rather than daunt or depress the average visitor. After the group was pleased with the script, it secured a grant of about $1 million last year from the National Science Foundation to train staffs across the nation. This month, the foundation awarded the group an additional $5.5 million for a five-year education effort.

Dr. Boyle said that most of the association’s 224 members now have some sort of climate message.

The form varies from subtle to pointed. The zoos in Cincinnati and Toledo, Ohio, for instance, have installed prominent solar arrays over their parking lots to power exhibits and set an example. The San Diego Zoo and the Brookfield Zoo near Chicago have made their exhibits of polar bears and other Arctic species more direct about the threats posed by global warming.

So far the feedback has largely been positive, officials at most zoos say.

Ariella Camera, a counselor with a summer program run by Boston Rising, an antipoverty group, said some of her charges recently took part in a game at the New England Aquarium that taught them what emits carbon dioxide (many factories, most cars) and what absorbs it (trees and the ocean). They were then challenged to balance the two.

Afterward the students struck up a lively conversation about their carbon footprints, Ms. Camera said. “It was a very engaging presentation,” she said.

Such anecdotes gratify Howard Ris, the aquarium’s president. “We would like as many people, if not everyone, to leave encouraged to take action,” he said.

Others are dubious that it will work. “Zoos have been making claims about their educational value for 150 years,” said Jeffrey Hyson, a cultural historian and the director of the American studies program at St. Joseph’s University in Philadelphia. The zoos “say a lot more about what they think they are doing than they can really demonstrate.”

Zoo managers acknowledge that they initially struggled with the challenge of delivering bad news.

In the 1980s and ’90s, Dr. Boyle noted, some zoos and aquariums made a big push to emphasize threats like the depletion of the earth’s ozone layer, the razing of rain forests by loggers and farmers and the overfishing of the Pacific. Electronic boards toted up the numbers of acres being cleared, and enlarged photographs depicted denuded landscapes.

Surveys of visitors showed a backlash. “For lots of reasons, the institutions tended to approach the issues by talking about the huge scale of the problems,” Dr. Boyle said. “They wanted to attract people’s attention, but what we saw happening over time was that everyday people were overwhelmed.” It did not help that a partisan split had opened in the United States over whether global warming was under way, and whether human activity was the leading cause.

At the Georgia Aquarium in Atlanta, Brian Davis, the vice president for education and training, says to this day his institution ensures its guests will not hear the term global warming. Visitors are “very conservative,” he said. “When they hear certain terms, our guests shut down. We’ve seen it happen.”

Such hesitancy inspired the group of leading aquariums to develop, test and refine their model, which comes off as casual and chatty.

Word choices matter, research showed. The FrameWorks Institute, a nonprofit organization that studies how people process abstract concepts, found the phrase “greenhouse gas effect” perplexed people. “They think it is a nice place for plants to grow,” said FrameWorks’ president, Susan Bales. So her group advised substituting “heat-trapping blanket” to describe the accumulation of gases in the atmosphere.

Today’s guides also make a point of encouraging groups to focus first on the animals, leaving any unpleasant message for later.

At the New England Aquarium’s giant reef tank, visitors peered over the side and watched sand tiger sharks, sea turtles and tropical fish swim around a giant coral reef. As a diver entered the tank to feed the fish, a guide explained that the smaller ones tend to hide in coral for safety.

A few minutes passed before she told the crowd that corals around the world are bleaching and dying because of a pronounced rise in ocean temperature and acidity.

Upon leaving, the visitors were briefed on positive steps they could take, like using public transportation or bikes and being cautious about energy consumption.

Yet sometimes, the zoo animals are so entrancing that a climate-related message may fall on deaf ears.

Leanne Gaffney, who recently brought four high school students from a summer enrichment program to the New England Aquarium, said they were fascinated by creatures like leafy sea dragons and tropical snakes, but not so much by how their habitats were faring.

“They are teenage boys,” she said. “Mostly they just wanted to see the anacondas.”

Climate Science as Culture War (Stanford Social Innovation Review)

ENVIRONMENT

The public debate around climate change is no longer about science—it’s about values, culture, and ideology.

By Andrew J. Hoffman | 18 | Fall 2012

earth_first_members_environmentSouth Florida Earth First members protest outside the Platts Coal Properties and Investment Conference in West Palm Beach. (Photo by Bruce R. Bennett/Zum Press/Newscom)

In May 2009, a development officer at the University of Michigan asked me to meet with a potential donor—a former football player and now successful businessman who had an interest in environmental issues and business, my interdisciplinary area of expertise. The meeting began at 7 a.m., and while I was still nursing my first cup of coffee, the potential donor began the conversation with “I think the scientific review process is corrupt.” I asked what he thought of a university based on that system, and he said that he thought that the university was then corrupt, too. He went on to describe the science of climate change as a hoax, using all the familiar lines of attack—sunspots and solar flares, the unscientific and politically flawed consensus model, and the environmental benefits of carbon dioxide.

As we debated each point, he turned his attack on me, asking why I hated capitalism and why I wanted to destroy the economy by teaching environmental issues in a business school. Eventually, he asked if I knew why Earth Day was on April 22. I sighed as he explained, “Because it is Karl Marx’s birthday.” (I suspect he meant to say Vladimir Lenin, whose birthday is April 22, also Earth Day. This linkage has been made by some on the far right who believe that Earth Day is a communist plot, even though Lenin never promoted environmentalism and communism does not have a strong environmental legacy.)

I turned to the development officer and asked, “What’s our agenda here this morning?” The donor interrupted to say that he wanted to buy me a ticket to the Heartland Institute’s Fourth Annual Conference on Climate Change, the leading climate skeptics conference. I checked my calendar and, citing prior commitments, politely declined. The meeting soon ended.

I spent the morning trying to make sense of the encounter. At first, all I could see was a bait and switch; the donor had no interest in funding research in business and the environment, but instead wanted to criticize the effort. I dismissed him as an irrational zealot, but the meeting lingered in my mind. The more I thought about it, the more I began to see that he was speaking from a coherent and consistent worldview—one I did not agree with, but which was a coherent viewpoint nonetheless. Plus, he had come to evangelize me. The more I thought about it, the more I became eager to learn about where he was coming from, where I was coming from, and why our two worldviews clashed so strongly in the present social debate over climate science. Ironically, in his desire to challenge my research, he stimulated a new research stream, one that fit perfectly with my broader research agenda on social, institutional, and cultural change.

Scientific vs. Social Consensus

Today, there is no doubt that a scientific consensus exists on the issue of climate change. Scientists have documented that anthropogenic sources of greenhouse gases are leading to a buildup in the atmosphere, which leads to a general warming of the global climate and an alteration in the statistical distribution of localized weather patterns over long periods of time. This assessment is endorsed by a large body of scientific agencies—including every one of the national scientific agencies of the G8 + 5 countries—and by the vast majority of climatologists. The majority of research articles published in refereed scientific journals also support this scientific assessment. Both the US National Academy of Sciences and the American Association for the Advancement of Science use the word “consensus” when describing the state of climate science.

And yet a social consensus on climate change does not exist. Surveys show that the American public’s belief in the science of climate change has mostly declined over the past five years, with large percentages of the population remaining skeptical of the science. Belief declined from 71 percent to 57 percent between April 2008 and October 2009, according to an October 2009 Pew Research Center poll; more recently, belief rose to 62 percent, according to a February 2012 report by the National Survey of American Public Opinion on Climate Change. Such a significant number of dissenters tells us that we do not have a set of socially accepted beliefs on climate change—beliefs that emerge, not from individual preferences, but from societal norms; beliefs that represent those on the political left, right, and center as well as those whose cultural identifications are urban, rural, religious, agnostic, young, old, ethnic, or racial.

Why is this so? Why do such large numbers of Americans reject the consensus of the scientific community? With upwards of two-thirds of Americans not clearly understanding science or the scientific process and fewer able to pass even a basic scientific literacy test, according to a 2009 California Academy of Sciences survey, we are left to wonder: How do people interpret and validate the opinions of the scientific community? The answers to this question can be found, not from the physical sciences, but from the social science disciplines of psychology, sociology, anthropology, and others.

To understand the processes by which a social consensus can emerge on climate change, we must understand that people’s opinions on this and other complex scientific issues are based on their prior ideological preferences, personal experience, and values—all of which are heavily influenced by their referent groups and their individual psychology. Physical scientists may set the parameters for understanding the technical aspects of the climate debate, but they do not have the final word on whether society accepts or even understands their conclusions. The constituency that is relevant in the social debate goes beyond scientific experts. And the processes by which this constituency understands and assesses the science of climate change go far beyond its technical merits. We must acknowledge that the debate over climate change, like almost all environmental issues, is a debate over culture, worldviews, and ideology.

This fact can be seen most vividly in the growing partisan divide over the issue. Political affiliation is one of the strongest correlates with individual uncertainty about climate change, not scientific knowledge.1 The percentage of conservatives and Republicans who believe that the effects of global warming have already begun declined from roughly 50 percent in 2001 to about 30 percent in 2010, while the corresponding percentage for liberals and Democrats increased from roughly 60 percent in 2001 to about 70 percent in 2010.2 (See “The Growing Partisan Divide over Climate Change,” below.)

 

Climate change has become enmeshed in the so-called culture wars. Acceptance of the scientific consensus is now seen as an alignment with liberal views consistent with other “cultural” issues that divide the country (abortion, gun control, health care, and evolution). This partisan divide on climate change was not the case in the 1990s. It is a recent phenomenon, following in the wake of the 1997 Kyoto Treaty that threatened the material interests of powerful economic and political interests, particularly members of the fossil fuel industry.3 The great danger of a protracted partisan divide is that the debate will take the form of what I call a “logic schism,” a breakdown in debate in which opposing sides are talking about completely different cultural issues.4

This article seeks to delve into the climate change debate through the lens of the social sciences. I take this approach not because the physical sciences have become less relevant, but because we need to understand the social and psychological processes by which people receive and understand the science of global warming. I explain the cultural dimensions of the climate debate as it is currently configured, outline three possible paths by which the debate can progress, and describe specific techniques that can drive that debate toward broader consensus. This goal is imperative, for without a broader consensus on climate change in the United States, Americans and people around the globe will be unable to formulate effective social, political, and economic solutions to the changing circumstances of our planet.

Cultural Processing of Climate Science

When analyzing complex scientific information, people are “boundedly rational,” to use Nobel Memorial Prize economist Herbert Simon’s phrase; we are “cognitive misers,” according to UCLA psychologist Susan Fiske and Princeton University psychologist Shelley Taylor, with limited cognitive ability to fully investigate every issue we face. People everywhere employ ideological filters that reflect their identity, worldview, and belief systems. These filters are strongly influenced by group values, and we generally endorse the position that most directly reinforces the connection we have with others in our referent group—what Yale Law School professor Dan Kahan refers to as “cultural cognition.” In so doing, we cement our connection with our cultural groups and strengthen our definition of self. This tendency is driven by an innate desire to maintain a consistency in beliefs by giving greater weight to evidence and arguments that support preexisting beliefs, and by expending disproportionate energy trying to refute views or arguments that are contrary to those beliefs. Instead of investigating a complex issue, we often simply learn what our referent group believes and seek to integrate those beliefs with our own views.

Over time, these ideological filters become increasingly stable and resistant to change through multiple reinforcing mechanisms. First, we’ll consider evidence when it is accepted or, ideally, presented by a knowledgeable source from our cultural community; and we’ll dismiss information that is advocated by sources that represent groups whose values we reject. Second, we will selectively choose information sources that support our ideological position. For example, frequent viewers of Fox News are more likely to say that the Earth’s temperature has not been rising, that any temperature increase is not due to human activities, and that addressing climate change would have deleterious effects on the economy.5 One might expect the converse to be true of National Public Radio listeners. The result of this cultural processing and group cohesion dynamics leads to two overriding conclusions about the climate change debate.

First, climate change is not a “pollution” issue. Although the US Supreme Court decided in 2007 that greenhouse gases were legally an air pollutant, in a cultural sense, they are something far different. The reduction of greenhouse gases is not the same as the reduction of sulfur oxides, nitrogen oxides, carbon monoxide, or particulates. These forms of pollution are man-made, they are harmful, and they are the unintended waste products of industrial production. Ideally, we would like to eliminate their production through the mobilization of economic and technical resources. But the chief greenhouse gas, carbon dioxide, is both man-made and natural. It is not inherently harmful; it is a natural part of the natural systems; and we do not desire to eliminate its production. It is not a toxic waste or a strictly technical problem to be solved. Rather, it is an endemic part of our society and who we are. To a large degree, it is a highly desirable output, as it correlates with our standard of living. Greenhouse gas emissions rise with a rise in a nation’s wealth, something all people want. To reduce carbon dioxide requires an alteration in nearly every facet of the economy, and therefore nearly every facet of our culture. To recognize greenhouse gases as a problem requires us to change a great deal about how we view the world and ourselves within it. And that leads to the second distinction.

Climate change is an existential challenge to our contemporary worldviews. The cultural challenge of climate change is enormous and threefold, each facet leading to the next. The first facet is that we have to think of a formerly benign, even beneficial, material in a new way—as a relative, not absolute, hazard. Only in an imbalanced concentration does it become problematic. But to understand and accept this, we need to conceive of the global ecosystem in a new way.

This challenge leads us to the second facet: Not only do we have to change our view of the ecosystem, but we also have to change our view of our place within it. Have we as a species grown to such numbers, and has our technology grown to such power, that we can alter and manage the ecosystem on a planetary scale? This is an enormous cultural question that alters our worldviews. As a result, some see the question and subsequent answer as intellectual and spiritual hubris, but others see it as self-evident.

If we answer this question in the affirmative, the third facet challenges us to consider new and perhaps unprecedented forms of global ethics and governance to address it. Climate change is the ultimate “commons problem,” as ecologist Garrett Hardin defined it, where every individual has an incentive to emit greenhouse gases to improve her standard of living, but the costs of this activity are borne by all. Unfortunately, the distribution of costs in this global issue is asymmetrical, with vulnerable populations in poor countries bearing the larger burden. So we need to rethink our ethics to keep pace with our technological abilities. Does mowing the lawn or driving a fuel-inefficient car in Ann Arbor, Mich., have ethical implications for the people living in low-lying areas of Bangladesh? If you accept anthropogenic climate change, then the answer to this question is yes, and we must develop global institutions to reflect that recognition. This is an issue of global ethics and governance on a scale that we have never seen, affecting virtually every economic activity on the globe and requiring the most complicated and intrusive global agreement ever negotiated.

Taken together, these three facets of our existential challenge illustrate the magnitude of the cultural debate that climate change provokes. Climate change challenges us to examine previously unexamined beliefs and worldviews. It acts as a flash point (albeit a massive one) for deeper cultural and ideological conflicts that lie at the root of many of our environmental problems, and it includes differing conceptions of science, economics, religion, psychology, media, development, and governance. It is a proxy for “deeper conflicts over alternative visions of the future and competing centers of authority in society,” as University of East Anglia climatologist Mike Hulme underscores in Why We Disagree About Climate Change. And, as such, it provokes a violent debate among cultural communities on one side who perceive their values to be threatened by change, and cultural communities on the other side who perceive their values to be threatened by the status quo.

Three Ways Forward

If the public debate over climate change is no longer about greenhouse gases and climate models, but about values, worldviews, and ideology, what form will this clash of ideologies take? I see three possible forms.

The Optimistic Form is where people do not have to change their values at all. In other words, the easiest way to eliminate the common problems of climate change is to develop technological solutions that do not require major alterations to our values, worldviews, or behavior: carbon-free renewable energy, carbon capture and sequestration technologies, geo-engineering, and others. Some see this as an unrealistic future. Others see it as the only way forward, because people become attached to their level of prosperity, feel entitled to keep it, and will not accept restraints or support government efforts to impose restraints.6Government-led investment in alternative energy sources, therefore, becomes more acceptable than the enactment of regulations and taxes to reduce fossil fuel use.

The Pessimistic Form is where people fight to protect their values. This most dire outcome results in a logic schism, where opposing sides debate different issues, seek only information that supports their position and disconfirms the others’, and even go so far as to demonize the other. University of Colorado, Boulder, environmental scientist Roger Pielke in The Honest Broker: Making Sense of Science in Policy and Politics describes the extreme of such schisms as “abortion politics,” where the two sides are debating completely different issues and “no amount of scientific information … can reconcile the different values.” Consider, for example, the recent decision by the Heartland Institute to post a billboard in Chicago comparing those who believe in climate change with the Unabomber. In reply, climate activist groups posted billboards attacking Heartland and its financial supporters. This attack-counterattack strategy is symptomatic of a broken public discourse over climate change.

The Consensus-Based Form involves a reasoned societal debate, focused on the full scope of technical and social dimensions of the problem and the feasibility and desirability of multiple solutions. It is this form to which scientists have the most to offer, playing the role of what Pielke calls the “honest broker”—a person who can “integrate scientific knowledge with stakeholder concerns to explore alternative possible courses of action.” Here, resolution is found through a focus on its underlying elements, moving away from positions (for example, climate change is or is not happening), and toward the underlying interests and values at play. How do we get there? Research in negotiation and dispute resolution can offer techniques for moving forward.

Techniques for a Consensus-Based Discussion

In seeking a social consensus on climate change, discussion must move beyond a strict focus on the technical aspects of the science to include its cultural underpinnings. Below are eight techniques for overcoming the ideological filters that underpin the social debate about climate change.

Know your audience | Any message on climate change must be framed in a way that fits with the cultural norms of the target audience. The 2011 study Climate Change in the American Mind segments the American public into six groups based on their views on climate change science. (See “Six Americas,” below.) On the two extremes are the climate change “alarmed” and “dismissive.” Consensus-based discussion is not likely open to these groups, as they are already employing logic schism tactics that are closed to debate or engagement. The polarity of these groups is well known: On the one side, climate change is a hoax, humans have no impact on the climate, and nothing is happening; on the other side, climate change is an imminent crisis that will devastate the Earth, and human activity explains all climate changes.

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The challenge is to move the debate away from the loud minorities at the extremes and to engage the majority in the middle—the “concerned,” the “cautious,” the “disengaged,” and the “doubtful.” People in these groups are more open to consensus-based debate, and through direct engagement can be separated from the ideological extremes of their cultural community.

Ask the right scientific questions | For a consensus-based discussion, climate change science should be presented not as a binary yes or no question,7 but as a series of six questions. Some are scientific in nature, with associated levels of uncertainty and probability; others are matters of scientific judgment.

  • Are greenhouse gas concentrations increasing in the atmosphere? Yes. This is a scientific question, based on rigorous data and measurements of atmospheric chemistry and science.
  • Does this increase lead to a general warming of the planet? Yes. This is also a scientific question; the chemical mechanics of the greenhouse effect and “negative radiative forcing” are well established.
  • Has climate changed over the past century? Yes. Global temperature increases have been rigorously measured through multiple techniques and strongly supported by multiple scientific analyses.In fact, as Yale University economist William Nordhaus wrote in the March 12, 2012, New York Times, “The finding that global temperatures are rising over the last century-plus is one of the most robust findings in climate science and statistics.”
  • Are humans partially responsible for this increase? The answer to this question is a matter of scientific judgment. Increases in global mean temperatures have a very strong correlation with increases in man-made greenhouse gases since the Industrial Revolution. Although science cannot confirm causation, fingerprint analysis of multiple possible causes has been examined, and the only plausible explanation is that of human-induced temperature changes. Until a plausible alternative hypothesis is presented, this explanation prevails for the scientific community.
  • Will the climate continue to change over the next century? Again, this question is a matter of scientific judgment. But given the answers to the previous four questions, it is reasonable to believe that continued increases in greenhouse gases will lead to continued changes in the climate.
  • What will be the environmental and social impact of such change? This is the scientific question with the greatest uncertainty. The answer comprises a bell curve of possible outcomes and varying associated probabilities, from low to extreme impact. Uncertainty in this variation is due to limited current data on the Earth’s climate system, imperfect modeling of these physical processes, and the unpredictability of human actions that can both exasperate or moderate the climate shifts. These uncertainties make predictions difficult and are an area in which much debate can take place. And yet the physical impacts of climate change are already becoming visible in ways that are consistent with scientific modeling, particularly in Greenland, the Arctic, the Antarctic, and low-lying islands.

In asking these questions, a central consideration is whether people recognize the level of scientific consensus associated with each one. In fact, studies have shown that people’s support for climate policies and action are linked to their perceptions about scientific agreement. Still, the belief that “most scientists think global warming is happening” declined from 47 percent to 39 percent among Americans between 2008 and 2011.8

Move beyond data and models | Climate skepticism is not a knowledge deficit issue. Michigan State University sociologist Aaron McCright and Oklahoma State University sociologist Riley Dunlap have observed that increased education and self-reported understanding of climate science have been shown to correlate with lower concern among conservatives and Republicans and greater concern among liberals and Democrats. Research also has found that once people have made up their minds on the science of the climate issue, providing continued scientific evidence actually makes them more resolute in resisting conclusions that are at variance with their cultural beliefs.9 One needs to recognize that reasoning is suffused with emotion and people often use reasoning to reach a predetermined end that fits their cultural worldviews. When people hear about climate change, they may, for example, hear an implicit criticism that their lifestyle is the cause of the issue or that they are morally deficient for not recognizing it. But emotion can be a useful ally; it can create the abiding commitments needed to sustain action on the difficult issue of climate change. To do this, people must be convinced that something can be done to address it; that the challenge is not too great nor are its impacts preordained. The key to engaging people in a consensus-driven debate about climate change is to confront the emotionality of the issue and then address the deeper ideological values that may be threatened to create this emotionality.

Focus on broker frames | People interpret information by fitting it to preexisting narratives or issue categories that mesh with their worldview. Therefore information must be presented in a form that fits those templates, using carefully researched metaphors, allusions, and examples that trigger a new way of thinking about the personal relevance of climate change. To be effective, climate communicators must use the language of the cultural community they are engaging. For a business audience, for example, one must use business terminology, such as net present value, return on investment, increased consumer demand, and rising raw material costs.

More generally, one can seek possible broker frames that move away from a pessimistic appeal to fear and instead focus on optimistic appeals that trigger the emotionality of a desired future. In addressing climate change, we are asking who we strive to be as a people, and what kind of world we want to leave our children. To gain buy-in, one can stress American know-how and our capacity to innovate, focusing on activities already under way by cities, citizens, and businesses.10

This approach frames climate change mitigation as a gain rather than a loss to specific cultural groups. Research has shown that climate skepticism can be caused by a motivational tendency to defend the status quo based on the prior assumption that any change will be painful. But by encouraging people to regard pro-environmental change as patriotic and consistent with protecting the status quo, it can be framed as a continuation rather than a departure from the past.

Specific broker frames can be used that engage the interests of both sides of the debate. For example, when US Secretary of Energy Steven Chu referred in November 2010 to advances in renewable energy technology in China as the United States’ “Sputnik moment,” he was framing climate change as a common threat to US scientific and economic competitiveness. When Pope Benedict XVI linked the threat of climate change with threats to life and dignity on New Year’s Day 2010, he was painting it as an issue of religious morality. When CNA’s Military Advisory Board, a group of elite retired US military officers, called climate change a “threat multiplier” in its 2006 report, it was using a national security frame. When the Lancet Commission pronounced climate change to be the biggest global health threat of the 21st century in a 2009 article, the organization was using a quality of life frame. And when the Center for American Progress, a progressive Washington, D.C., think tank, connected climate change to the conservation ideals of Presidents Theodore Roosevelt and Richard Nixon, they were framing the issue as consistent with Republican values.

One broker frame that deserves particular attention is the replacement of uncertainty or probability of climate change with the risk of climate change.11 People understand low probability, high consequence events and the need to address them. For example, they buy fire insurance for their homes even though the probability of a fire is low, because they understand that the financial consequence is too great. In the same way, climate change for some may be perceived as a low risk, high consequence event, so the prudent course of action is to obtain insurance in the form of both behavioral and technological change.

Recognize the power of language and terminology | Words have multiple meanings in different communities, and terms can trigger unintended reactions in a target audience. For example, one study has shown that Republicans were less likely to think that the phenomenon is real when it is referred to as “global warming” (44 percent) rather than “climate change” (60 percent), but Democrats were unaffected by the term (87 percent vs. 86 percent). So language matters: The partisan divide dropped from 43 percent under a “global warming” frame to 26 percent under a “climate change” frame.12

Other terms with multiple meanings include “climate denier,” which some use to refer to those who are not open to discussion on the issue, and others see as a thinly veiled and highly insulting reference to “Holocaust denier”; “uncertainty,” which is a scientific concept to convey variance or deviation from a specific value, but is interpreted by a lay audience to mean that scientists do not know the answer; and “consensus,” which is the process by which the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) forms its position, but leads some in the public to believe that climate science is a matter of “opinion” rather than data and modeling.

Overall, the challenge becomes one of framing complex scientific issues in a language that a lay and highly politicized audience can hear. This becomes increasingly challenging when we address some inherently nonintuitive and complex aspects of climate modeling that are hard to explain, such as the importance of feedback loops, time delays, accumulations, and nonlinearities in dynamic systems.13 Unless scientists can accurately convey the nature of climate modeling, others in the social debate will alter their claims to fit their cultural or cognitive perceptions or satisfy their political interests.

Employ climate brokers | People are more likely to feel open to consider evidence when a recognized member of their cultural community presents it.14 Certainly, statements by former Vice President Al Gore and Sen. James Inhofe evoke visceral responses from individuals on either side of the partisan divide. But individuals with credibility on both sides of the debate can act as what I call climate brokers. Because a majority of Republicans do not believe the science of climate change, whereas a majority of Democrats do, the most effective broker would come from the political right. Climate brokers can include representatives from business, the religious community, the entertainment industry, the military, talk show hosts, and politicians who can frame climate change in language that will engage the audience to whom they most directly connect. When people hear about the need to address climate change from their church, synagogue, mosque, or temple, for example, they w ill connect the issue to their moral values. When they hear it from their business leaders and investment managers, they will connect it to their economic interests. And when they hear it from their military leaders, they will connect it to their interest in a safe and secure nation.

Recognize multiple referent groups | The presentation of information can be designed in a fashion that recognizes that individuals are members of multiple referent groups. The underlying frames employed in one cultural community may be at variance with the values dominant within the communities engaged in climate change debate. For example, although some may reject the science of climate change by perceiving the scientific review process to be corrupt as part of one cultural community, they also may recognize the legitimacy of the scientific process as members of other cultural communities (such as users of the modern health care system). Although someone may see the costs of fossil fuel reductions as too great and potentially damaging to the economy as members of one community, they also may see the value in reducing dependence on foreign oil as members of another community who value strong national defense. This frame incongruence emerged in the 2011 US Republican primary as candidate Jon Huntsman warned that Republicans risk becoming the “antiscience party” if they continue to reject the science on climate change. What Huntsman alluded to is that most Americans actually do trust the scientific process, even if they don’t fully understand it. (A 2004 National Science Foundation report found that two thirds of Americans do not clearly understand the scientific process.)

Employ events as leverage for change | Studies have found that most Americans believe that climate change will affect geographically and temporally distant people and places. But studies also have shown that people are more likely to believe in the science when they have an experience with extreme weather phenomena. This has led climate communicators to link climate change to major events, such as Hurricane Katrina, or to more recent floods in the American Midwest and Asia, as well as to droughts in Texas and Africa, to hurricanes along the East Coast and Gulf of Mexico, and to snowstorms in Western states and New England. The cumulative body of weather evidence, reported by media outlets and linked to climate change, will increase the number of people who are concerned about the issue, see it as less uncertain, and feel more confident that we must take actions to mitigate its effects. For example, in explaining the recent increase in belief in climate change among Americans, the 2012 National Survey of American Public Opinion on Climate Change noted that “about half of Americans now point to observations of temperature changes and weather as the main reasons they believe global warming is taking place.”15

Ending Climate Science Wars

Will we see a social consensus on climate change? If beliefs about the existence of global warming are becoming more ideologically entrenched and gaps between conservatives and liberals are widening, the solution space for resolving the issue will collapse and the debate will be based on power and coercion. In such a scenario, domination by the science-based forces looks less likely than domination by the forces of skepticism, because the former has to “prove” its case while the latter merely needs to cast doubt. But such a polarized outcome is not a predetermined outcome. And if it were to form, it can be reversed.

Is there a reason to be hopeful? When looking for reasons to be hopeful about a social consensus on climate change, I look to public opinion changes around cigarette smoking and cancer. For years, the scientific community recognized that the preponderance of epidemiological and mechanistic data pointed to a link between the habit and the disease. And for years, the public rejected that conclusion. But through a process of political, economic, social, and legal debate over values and beliefs, a social consensus emerged. The general public now accepts that cigarettes cause cancer and governments have set policy to address this. Interestingly, two powerful forces that many see as obstacles to a comparable social consensus on climate change were overcome in the cigarette debate.

The first obstacle is the powerful lobby of industrial forces that can resist a social and political consensus. In the case of the cigarette debate, powerful economic interests mounted a campaign to obfuscate the scientific evidence and to block a social and political consensus. Tobacco companies created their own pro-tobacco science, but eventually the public health community overcame pro-tobacco scientists.

The second obstacle to convincing a skeptical public is the lack of a definitive statement by the scientific community about the future implications of climate change. The 2007 IPCC report states that “Human activities … are modifying the concentration of atmospheric constituents … that absorb or scatter radiant energy. … [M]ost of the observed warming over the last 50 years is very likely to have been due to the increase in greenhouse gas emissions.” Some point to the word “likely” to argue that scientists still don’t know and action in unwarranted. But science is not designed to provide a definitive smoking gun. Remember that the 1964 surgeon general’s report about the dangers of smoking was equally conditional. And even today, we cannot state with scientific certainty that smoking causes lung cancer. Like the global climate, the human body is too complex a system for absolute certainty. We can explain epidemiologically why a person could get cancer from cigarette smoking and statistically how that person will likely get cancer, but, as the surgeon general report explains, “statistical methods cannot establish proof of a causal relationship in an association [between cigarette smoking and lung cancer]. The causal significance of an association is a matter of judgment, which goes beyond any statement of statistical probability.” Yet the general public now accepts this causal linkage.

What will get us there? Although climate brokers are needed from all areas of society—from business, religion, military, and politics—one field in particular needs to become more engaged: the academic scientist and particularly the social scientist. Too much of the debate is dominated by the physical sciences in defining the problem and by economics in defining the solutions. Both fields focus heavily on the rational and quantitative treatments of the issue and fail to capture the behavioral and cultural aspects that explain why people accept or reject scientific evidence, analysis, and conclusions. But science is never socially or politically inert, and scientists have a duty to recognize its effect on society and to communicate that effect to society. Social scientists can help in this endeavor.

But the relative absence of the social sciences in the climate debate is driven by specific structural and institutional controls that channel research work away from empirical relevance. Social scientists limit involvement in such “outside” activities, because the underlying norms of what is considered legitimate and valuable research, as well as the overt incentives and reward structures within the academy, lead away from such endeavors. Tenure and promotion are based primarily on the publication of top-tier academic journal articles. This is the signal of merit and success. Any effort on any other endeavor is decidedly discouraged.

The role of the public intellectual has become an arcane and elusive option in today’s social sciences. Moreover, it is a difficult role to play. The academic rules are not clear and the public backlash can be uncomfortable; many of my colleagues and I are regular recipients of hostile e-mail messages and web-based attacks. But the lack of academic scientists in the public debate harms society by leaving out critical voices for informing and resolving the climate debate. There are signs, however, that this model of scholarly isolation is changing. Some leaders within the field have begun to call for more engagement within the public arena as a way to invigorate the discipline and underscore its investment in the defense of civil society. As members of society, all scientists have a responsibility to bring their expertise to the decision-making process. It is time for social scientists to accept this responsibility.

Notes

1 Wouter Poortinga et al., “Uncertain Climate: An Investigation into Public Skepticism
About Anthropogenic Climate Change
,” Global Environmental Change, August 2011.
2 Aaron McCright and Riley Dunlap, “The Politicization of Climate Change and Polarization
in the American Public’s Views of Global Warming, 2001-2010
,” The Sociological
Quarterly
 52, 2011.
3 Clive Hamilton, “Why We Resist the Truth About Climate Change,” paper presented
to the Climate Controversies: Science and Politics conference, Brussels, Oct. 28, 2010.
4 Andrew Hoffman, “Talking Past Each Other? Cultural Framing of Skeptical and Convinced
Logics in the Climate Change Debate
,” Organization & Environment 24(1), 2011.
5 Jon Krosnick and Bo MacInnis, “Frequent Viewers of Fox News Are Less Likely to
Accept Scientists’ Views of Global Warming
,” Woods Institute for the Environment,
Stanford University, 2010.
6 Jeffrey Rachlinski, “The Psychology of Global Climate Change,” University of Illinois
Law Review
 1, 2000.
7 Max Boykoff, “The Real Swindle,” Nature Climate Change, February 2008.
8 Ding Ding et al., “Support for Climate Policy and Societal Action Are Linked to Perceptions
About Scientific Agreement
,” Nature Climate Change 1, 2011.
9 Matthew Feinberg and Robb Willer, “Apocalypse Soon? Dire Messages Reduce Belief in
Global Warming by Contradicting Just-World Beliefs
,” Psychological Science 22(1), 2011.
10 Thomas Vargish, “Why the Person Sitting Next to You Hates Limits to Growth,”
Technological Forecasting and Social Change 16, 1980.
11 Nick Mabey, Jay Gulledge, Bernard Finel, and Katherine Silverthorne, Degrees of Risk:
Defining a Risk Management Framework for Climate Security
, Third Generation Environmentalism,
2011.
12 Jonathan Schuldt, Sara H. Konrath, and Norbert Schwarz, “‘Global Warming’ or
‘Climate Change’? Whether the Planet Is Warming Depends on Question Wording
,”
Public Opinion Quarterly 75(1), 2011.
13 John Sterman, “Communicating Climate Change Risks in a Skeptical World,” Climatic
Change
, 2011.
14 Dan Kahan, Hank Jenkins-Smith, and Donald Braman, “Cultural Cognition of Scientific
Consensus
,” Journal of Risk Research 14, 2010.
15 Christopher Borick and Barry Rabe, “Fall 2011 National Survey of American Public
Opinion on Climate Change
,” Brookings Institution, Issues in Governance Studies,
Report No. 45, Feb. 2012.

George Will, Doomsday, and the Straw-Man Sighting (steadystate.org)

by Brian Czech

A funny thing happened on the way to this column. Right when I was ready to accuseWashington Post columnist George Will of building another straw man to tear apart, one of Will’s straw men appeared! It’s as if Will himself cued it up, as I’ll describe in a bit.

Meanwhile don’t get me wrong. Will isn’t right about a lot. He has long been loose with the facts on environmental issues, denying the causes and effects of resource scarcity, pollution, and climate change. His vision of perpetual economic growth is neoclassical naiveté. He displayed it again with “Calls for doomsday remain unheeded.”

Will stubbornly remains a fawning fan of the late perpetual growther Julian Simon. No one likes to criticize the deceased, and Will counts on this and other social conventions to protect himself from critique. (Recently he hid behind society’s respect for Native American tribes to shoot at federal government clean-air efforts.) But it’s not a fair tactic, I’m not falling for it, and Simon was no saint anyway. Simon’s culminating book (The Ultimate Resource 2) was the shoddiest semblance of “scholarship” I’ve ever seen, as I described at length in Shoveling Fuel for a Runaway Train. For Will to stick with Simon after all this time is a red flag over the teeny terrain of his scientific credentials.

Will has even been sucked into the junk-science vortex of Bjorn Lomborg, Simon’s disciple and darling of pro-growth propagandists like the Competitive Enterprise Institute. Will thinks “potential U.S. gas resources have doubled in the last six years,” as if even potential (not just economic) gas resources change with technology! No stranger to bad facts, Will says, “One of [Paul] Ehrlich’s advisers, John Holdren, is President Barack Obama’s science adviser.” In reality it was the other way around: Ehrlich was Holdren’s adviser. In other words Will uses a mistaken claim to unleash a twice-removed, guilt-by-association attack, all in one sentence!

Despite the fact that Will has the combined credibility of Barry Bonds and BP Oil on environmental and sustainability affairs, there are reasons for empathizing with him at times. In fact, one reason plopped in my inbox this morning! The sender, a sustainability activist, first quoted from a website of the Center for the Advancement of the Steady State Economy, “The CASSE position calls for a desirable solution — a steady state economy with stabilized population and consumption — beginning in the wealthiest nations and not with extremist tactics.” Then he went on to complain:

“Unfortunately, there is no ‘desirable solution’ — I wish there were… Industrialism is by its very nature a temporary phenomenon; in the process of perpetuating it we consume the natural resources — primarily finite, non-replenishing, and increasingly scarce NNRs — that enable it. Unfortunately the chickens are coming home to roost now — instead of 1,000 years from now — and there’s nothing that we as a species can or will do about it, except suffer the inevitable consequences.”

So when George Will talks pejoratively about “calls for doomsday,” he’s got that one legitimate point, at least. For someone (a sustainability activist no less) to claim there is no desirable solution to the problem of uneconomic growth is defeatist at best, and patently false besides. Just because a solution — such as a steady state economy running at optimal size — is difficult to achieve does not mean it is out of the question or undesirable. What we should all agree on is that perpetual growth is out of the question, and then strive for the best alternative, handling the growing pains (or in this case, the de-growing pains) along the way.

Next, to paint “industrialism” with such a broad brush that it cannot be sustained, period, is another target on the straw man’s back. We should expect Mr. Will to hit that bulls-eye every time. First of all, de-industrializing is no panacea; it’s easy to envision an unsustainable, non-industrial economy hell-bent on growth. More to the point, who is to say we cannot sustain some industrial capital and production, especially with the use of renewable resources (picture a sawmill running on hydropower), for such a very long time that no one would consider it unsustainable. The problem is perpetual growth — always expanding the capital base and trying to produce more — regardless of the mechanical means by which that growth occurs.

And then, to top it off with, “there’s nothing that we as a species can or will do about it, except suffer the inevitable consequences,” almost makes me wonder who is farther from the truth: Will or the sustainability activist. After all, the activist is either not doing anything “about it” after all, or considers himself too exceptional to be part of the human species. But I don’t, and CASSE doesn’t. We are trying to do something about it. That is, we’re advancing the steady state economy — a desirable solution — instead of sitting on our doomed derrières while lamenting the forces of “industrialism.”

I never thought I’d agree with George Will on a matter of sustainability, but I’ll admit one thing: The caricatures he constructs are not always comprised of straw. Doomsday straw does exist but, unfortunately, some sustainability activists wear it too well.

Calls for doomsday remain unheeded (Washington Post)

By George Will

11:15 PM, Aug 20, 2012

WASHINGTON — Sometimes the news is that something was not newsworthy. The United Nation’s Rio+20 conference — 50,000 participants from 188 nations — occurred in June, without consequences. A generation has passed since the 1992 Earth Summit in Rio, which begat other conferences and protocols (e.g., Kyoto). And, by now, apocalypse fatigue — boredom from being repeatedly told the end is nigh.

This began two generations ago, in 1972, when we were warned (by computer models developed at MIT) that we were doomed. We were supposed to be pretty much extinct by now, or at least miserable. We are neither. So, what when wrong?

That year begat “The Limits to Growth,” a book from the Club of Rome, which called itself “a project on the predicament of mankind.” It sold 12 million copies, staggered The New York Times (“one of the most important documents of our age”) and argued that economic growth was doomed by intractable scarcities. Bjorn Lomborg, the Danish academic and “skeptical environmentalist,” writing in Foreign Affairs, says it “helped send the world down a path of worrying obsessively about misguided remedies for minor problems while ignoring much greater concerns,” such as poverty, which only economic growth can ameliorate.

MIT’s models foresaw the collapse of civilization because of “nonrenewable resource depletion” and population growth. “In an age more innocent of and reverential toward computers,” Lomborg writes, “the reams of cool printouts gave the book’s argument an air of scientific authority and inevitability” that “seemed to banish any possibility of disagreement.” Then — as now, regarding climate change — respect for science was said to require reverential suspension of skepticism about scientific hypotheses. Time magazine’s story about “The Limits to Growth” exemplified the media’s frisson of hysteria:

“The furnaces of Pittsburgh are cold; the assembly lines of Detroit are still. In Los Angeles, a few gaunt survivors of a plague desperately till freeway center strips … Fantastic? No, only grim inevitability if society continues its present dedication to growth and ‘progress.’”

The modelers examined 19 commodities and said 12 would be gone long before now — aluminum, copper, gold, lead, mercury, molybdenum, natural gas, oil, silver, tin, tungsten and zinc. Lomborg says:

Technological innovations have replaced mercury in batteries, dental fillings and thermometers, mercury consumption is down 98 percent and its price was down 90 percent by 2000. Since 1970, when gold reserves were estimated at 10,980 tons, 81,410 tons have been mined and estimated reserves are 51,000 tons. Since 1970, when known reserves of copper were 280 million tons, about 400 million tons have been produced globally and reserves are estimated at almost 700 million tons. Aluminum consumption has increased 16-fold since 1950, the world has consumed four times the 1950 known reserves, and known reserves could sustain current consumption for 177 years. Potential U.S. gas resources have doubled in the last six years. And so on.

The modelers missed something — human ingenuity in discovering, extracting and innovating. Which did not just appear after 1972.

Aluminum, Lomborg writes, is one of earth’s most common metals. But until the 1886 invention of the Hall-Heroult process, it was so difficult and expensive to extract that “Napoleon III had bars of aluminum exhibited alongside the French crown jewels, and he gave his honored guests aluminum forks and spoons while lesser visitors had to make do with gold utensils.”

Forty years after “The Limits to Growth” imparted momentum to environmentalism, that impulse now is often reduced to children indoctrinated to “reduce, reuse, and recycle.” Lomborg calls recycling “a feel-good gesture that provides little environmental benefit at a significant cost.” He says “we pay tribute to the pagan god of token environmentalism by spending countless hours sorting, storing and collecting used paper, which, when combined with government subsidies, yields slightly lower-quality paper in order to secure a resource” — forests — “that was never threatened in the first place.”

In 1980, economist Julian Simon made a wager in the form of a complex futures contract. He bet Paul Ehrlich (whose 1968 book “The Population Bomb” predicted “hundreds of millions of people” would starve to death in the 1970s as population growth swamped agricultural production) that by 1990 the price of any five commodities Ehrlich and his advisers picked would be lower than in 1980. Ehrlich’s group picked five metals. All were cheaper in 1990.

The bet cost Ehrlich $576.07. But that year he was awarded a $345,000 MacArthur Foundation “genius” grant and half of the $240,000 Crafoord Prize for ecological virtue. One of Ehrlich’s advisers, John Holdren, is President Barack Obama’s science adviser.

George F. Will writes about foreign and domestic politics and policy for the Washington Post Writers Group. Email:georgewill@washpost.com.

La violencia en el fútbol desde todos lados (Mundo D)

http://mundod.lavoz.com.ar

Sábado 25 de Agosto, 12:26

Punto de vista. Para el sociólogo Pablo Alabarces, los actos vandálicos no son exclusivos de la barra brava. Sobre posibles soluciones, dijo: “Son parches. No existen medidas a largo plazo”.

Los hinchas de Belgrano en cancha de Colón. (Foto: Pedro Castillo)Los hinchas de Belgrano en cancha de Colón. (Foto: Pedro Castillo)

Por Joaquin Aguirre

“¡Me importa un pito que digan que fomentamos la violencia. Este pibe no es un barrabrava. Este es un salame!”. A los gritos y con una rabia un tanto impostada, un conocido presentador repasaba la secuencia televisiva en la que un plateísta de Boca arrojaba un cartel sobre el banco de suplentes de Independiente. “Que busquen al responsable en las villas. Ahí está la violencia”, decía.

Justamente lo contrario opina Pablo Alabarces, el sociólogo con más publicaciones referidas a la violencia en las canchas de fútbol. Según él, ésta es originada por “el hincha común”, la policía, los dirigentes y los medios de comunicación.

Para el reconocido autor de Crónicas del aguante, con lo ocurrido en Colón-Belgrano quedó demostrado “una vez más” que las agresiones que solemos ver domingo a domingo en las canchas no son patrimonio exclusivo de la barra brava.

Los plateístas de Colón tiran de todo y la culpa es de Olave. La policía reprime y la culpa es de Olave. Bueno… Olave también es culpable como todos los jugadores que desde su lugar también generan lo que generan. Pero se está equivocando el foco de la cuestión”, dice el profesional con creciente indignación.

Tratar estos incidentes como si fueran aislados no sirve para nada. Mi primer trabajo sobre violencia en el fútbol fue hace 12 años, así que imaginate que nada me sorprende a esta altura. Todo es previsible, esperable. Y también es esperable cómo se reacciona… Los medios dicen ‘los violentos, la culpa es de ellos’. Pero no dicen que entre ellos están los jugadores, la policía, los periodistas cordobeses… todos”.

Alabarces lidera un conjunto de intelectuales que hace unos meses presentó un polémico proyecto para erradicar la violencia aboliendo las actuales medidas (represión policial, mayores operativos, prohibición de público visitante, entre otras cosas) que a la luz de los hechos no han brindado soluciones. En lugar de ello, propone un trabajo conjunto de profesionales de distintas disciplinas para reeducar a los violentos. Reconocer la existencia de la barra. “No legalizarla, como malinterpretan algunos”, aclara. “Hasta ahora son todos parches. No existen medidas a largo plazo. Prohibir el ingreso de público visitante es un negocio televisivo”, agrega.

Días atrás, en una declaración para muchos desacertada, la presidenta Cristina Fernández sostuvo que “si el tema de la violencia lo circunscribimos únicamente a algunos grupitos vamos a equivocarnos y no vamos a darle una verdadera respuesta al problema, que tiene que ver más con cosas que pasan fuera de la cancha, que son las mas graves y no adentro”. Según Alabarces, la mandataria fue “demasiado liviana, hizo una alusión rápida y poco profunda del tema”.

–¿Cuál es la solución?

–La cultura futbolística argentina encierra una ética de la violencia llamada “el aguante”, reconocida y alentada desde los medios. En 10 años podemos solucionarlo. El responsable de la seguridad en Inglaterra me dijo que se “cura” en ese tiempo.

–¿Cómo se hace?

–Yo propongo una serie de medidas que van desde la intervención de la AFA a blanquear la guita que se maneja en el fútbol. A fines del año pasado empecé a analizar el “Fútbol para Todos”. Ahí hace tres años tenés publicidad gratis y no hay ni un aviso sobre la violencia.

–¿Qué más?

–Campañas. Sacar la policía y poner un batallón de antropólogos y trabajadores sociales. Trabajar con las comunidades, dialogar, convencerlos…

–Con progresismo…

–No es izquierdista, es lo más liberal… No prejuzgar a los barras, hacer al revés: darles un shock de confianza. Pero si exigís orden tenés que darles infraestructura. Los baños tienen que estar en condiciones y no como los ves en cualquier estadio. La gente tiene derecho a acceder a eso.

–Como en el “Primer Mundo”.

–Los ingleses decían “usted no puede tratar a los hinchas como animales y después quejarse porque se portan como animales”. Hubo casos en los que al comienzo cuando se encontraban con cosas nuevas en el estadio se las robaban, pero con el tiempo se sentían orgullosos de su nuevo estadio.

–¿Realmente creés que es posible un cambio?

–La idea de que el cambio cultural es posible lo demuestra que antes esa cultura no era así. La cultura cambió, y lo hizo en relación a cambios globales: el peso de los hinchas es mayor. Ellos se perciben a sí mismos como los únicos que garantizan la continuidad de esa cultura.

–Decís que los medios y los futbolistas también son responsables.

–Cuando Belgrano le empató a River en la promoción y el relator decía “River sale a matar o morir”, el hincha lo siente así. Y los jugadores son tribuneros, se besan el escudo, provocan… No sólo ellos, mirá a los árbitros cómo dirigen…

–¿Por qué creés que los dirigentes no le encontraron la vuelta a la violencia?

–Y… Mirá el mejor ejemplo es Cantero (presidente de Independiente). Venía bien enfrentándose con la barra. Pero en el partido que se suspendió por la lluvia contra Vélez, salió a quejarse y decir “el fútbol es para hombres”. Hasta el más sensato parece capturado por esa cultura del aguante.

–¿Te ofrecieron algún cargo público?

–No, y no lo aceptaría.

Cientistas apontam problemas da cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas (Fapesp)

Especialistas reunidos em São Paulo para debater gestão de riscos dos extremos climáticos manifestam preocupação com dificuldades enfrentadas por jornalistas para lidar com a complexidade do tema (Wikimedia)

21/08/2012

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Na avaliação de especialistas reunidos em São Paulo para discutir a gestão de riscos dos extremos climáticos e desastres, para que seja possível gerenciar de forma adequada os impactos desses eventos, é fundamental informar a sociedade – incluindo os formuladores de políticas públicas – sobre as descobertas das ciências climáticas.

No entanto, pesquisadores estão preocupados com as dificuldades encontradas na comunicação com a sociedade. A complexidade dos estudos climáticos tende a gerar distorções na cobertura jornalística do tema e o resultado pode ser uma ameaça à confiança do público em relação à ciência.

A avaliação foi feita por participantes do workshop “Gestão dos riscos dos extremos climáticos e desastres na América Central e na América do Sul – o que podemos aprender com o Relatório Especial do IPCC sobre extremos?”, realizado na semana passada na capital paulista.

O evento teve o objetivo de debater as conclusões do Relatório Especial sobre Gestão dos Riscos de Extremos Climáticos e Desastres (SREX, na sigla em inglês) – elaborado e recentemente publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – e discutir opções para gerenciamento dos impactos dos extremos climáticos, especialmente nas Américas do Sul e Central.

O workshop foi realizado pela FAPESP e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o IPCC, o Overseas Development Institute (ODI) e a Climate and Development Knowledge (CKDN), ambos do Reino Unido, e apoio da Agência de Clima e Poluição do Ministério de Relações Exteriores da Noruega.

Durante o evento, o tema da comunicação foi debatido por autores do IPCC-SREX, especialistas em extremos climáticos, gestores e líderes de instituições de prevenção de desastres.

De acordo com Vicente Barros, do Centro de Investigação do Mar e da Atmosfera da Universidade de Buenos Aires, o IPCC, do qual é membro, entrou há três anos em um processo de reestruturação que compreende uma mudança na estratégia de comunicação.

“A partir de 2009, o IPCC passou a ser atacado violentamente e não estávamos preparados para isso, porque nossa função era divulgar o conhecimento adquirido, mas não traduzi-lo para a imprensa. Temos agora um grupo de jornalistas que procura fazer essa mediação, mas não podemos diluir demais as informações e a última palavra na formulação da comunicação é sempre do comitê executivo, porque o peso político do que é expresso pelo painel é muito grande”, disse Barros.

A linguagem é um grande problema, segundo Barros. Se for muito complexa, não atinge o público. Se for muito simplificada, tende a distorcer as conclusões e disseminar visões que não correspondem à realidade.

“O IPCC trata de problemas muito complexos e admitimos que não podemos fazer uma divulgação que chegue a todos. Isso é um problema. Acredito que a comunicação deve permanecer nas mãos dos jornalistas, mas talvez seja preciso investir em iniciativas de treinamento desses profissionais”, disse.

Fábio Feldman, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas, manifestou preocupação com as dificuldades de comunicação dos cientistas com o público, que, segundo ele, possibilitam que os pesquisadores “céticos” – isto é, que negam a influência humana nos eventos de mudanças climáticas – ganhem cada vez mais espaço na mídia e no debate público.

“Vejo com preocupação um avanço do espaço dado aos negacionistas no debate público. A imprensa acha que é preciso usar necessariamente o princípio do contraditório, dando espaço e importância equânimes para as diferentes posições no debate”, disse.

De acordo com Feldman, os cientistas – especialmente aqueles ligados ao IPCC – deveriam ter uma atitude mais pró-ativa no sentido de se contrapor aos “céticos” no debate público.

Posições diferentes

Para Reynaldo Luiz Victoria, da Coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, é importante que a imprensa trate as diferentes posições de modo mais equitativo.

“Há casos específicos em que a imprensa trata questões de maneira pouco equitativa – e eventualmente sensacionalista –, mas acho que nós, como pesquisadores, não temos obrigação de reagir. A imprensa deveria nos procurar para fazer o contraponto e esclarecer o público”, disse Victoria à Agência FAPESP.

Victoria, no entanto, destacou a importância de que os “céticos” também sejam ouvidos. “Alguns são cientistas sérios e merecem um tratamento equitativo. Certamente que não se pode ignorá-los, mas, quando fazem afirmações passíveis de contestação, a imprensa deve procurar alguém que possa dar um contraponto. Os jornalistas precisam nos procurar e não o contrário”, disse.

De modo geral, a cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas é satisfatória, segundo Victoria. “Os bons jornais publicam artigos corretos e há jornalistas muito sérios produzindo material de alta qualidade”, destacou.

Para Luci Hidalgo Nunes, professora do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os negacionistas ganham espaço porque muitas vezes o discurso polêmico tem mais apelo midiático do que a complexidade do conhecimento científico.

“O cientista pode ter um discurso bem fundamentado, mas que é considerado enfadonho pelo público. Enquanto isso, um pesquisador com argumentos pouco estruturados pode fazer um discurso simplificado, portanto atraente para o público, e polêmico, o que rende manchetes”, disse à Agência FAPESP.

Apesar de a boa ciência ter, em relação ao debate público, uma desvantagem inerente à sua complexidade, Nunes acredita ser importante que a imprensa continue pluralista. A pesquisadora publicou um estudo no qual analisa a cobertura do jornal O Estado de S. Paulo sobre mudanças climáticas durante um ano. Segundo Nunes, um dos principais pontos positivos observados consistiu em dar voz às diferentes posições.

“Sou favorável a que a imprensa cumpra seu papel e dê todos os parâmetros, para que haja um debate democrático. Acho que isso está sendo bem feito e a própria imprensa está aberta para nos dar mais espaço. Mas precisamos nos manifestar para criar essas oportunidades”, disse.

Nunes também considera que a cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas, de modo geral, tem sido satisfatória, ainda que irregular. “O tema ganha vulto em determinados momentos, mas não se mantém na pauta do noticiário de forma permanente”, disse.

Segundo ela, o assunto sobressaiu especialmente em 2007, com a publicação do primeiro relatório do IPCC, e em 2012 durante a RIO+20.

“Em 2007, a cobertura foi intensa, mas a popularização do tema também deu margem a distorções e exageros. O sensacionalismo é ruim para a ciência, porque faz o tema ganhar as manchetes rapidamente por algum tempo, mas no médio prazo o efeito é inverso: as pessoas percebem os exageros e passam a olhar com descrédito os resultados científicos de modo geral”, disse.

In the Name of the Future, Rio Is Destroying Its Past (N.Y.Times)

OP-ED CONTRIBUTORS

By THERESA WILLIAMSON and MAURÍCIO HORA

Published: August 12, 2012

THE London Olympics concluded Sunday, but the battle over the next games has just begun in Rio, where protests against illegal evictions of some of the city’s poorest residents are spreading. Indeed, the Rio Olympics are poised to increase inequality in a city already famous for it.

Last month, Unesco awarded World Heritage Site status to a substantial portion of the city, an area that includes some of its hillside favelas, where more than 1.4 million of the city’s 6 million residents live. No favela can claim greater historical importance than Rio’s first — Morro da Providência — yet Olympic construction projects are threatening its future.

Providência was formed in 1897 when veterans of the bloody Canudos war in Brazil’s northeast were promised land in Rio de Janeiro, which was then the federal capital. Upon arriving, they found no such land available. After squatting in front of the Ministry of War, the soldiers were moved to a nearby hill belonging to a colonel, though they were given no title to the land. Originally named “Morro da Favela” after the spiny favela plant typical of the Canudos hills where soldiers had spent many nights, Providência grew during the early 20th century as freed slaves joined the soldiers. New European migrants came as well, as it was the only affordable way to live near work in the city’s center and port.

Overlooking the site where hundreds of thousands of African slaves first entered Brazil, Providência is part of one of the most important cultural sites in Afro-Brazilian history, where the first commercial sambas were composed, traditions like capoeira and candomblé flourished and Rio’s Quilombo Pedra do Sal was founded. Today 60 percent of its residents are Afro-Brazilian.

Over a century after its creation, Providência still bears the cultural and physical imprint of its initial residents. But now it is threatened with destruction in the name of Olympic improvements: almost a third of the community is to be razed, a move that will inevitably destabilize what’s left of it.

By mid-2013 Providência will have received 131 million reais ($65 million) in investments under a private-sector-led plan to redevelop Rio’s port area, including a cable car, funicular tram and wider roads. Previous municipal interventions to upgrade the community recognized its historical importance, but today’s projects have no such intent.

Although the city claims that investments will benefit residents, 30 percent of the community’s population has already been marked for removal and the only “public meetings” held were to warn residents of their fate. Homes are spray-painted during the day with the initials for the municipal housing secretary and an identifying number. Residents return from work to learn that their homes will be demolished, with no warning of what’s to come, or when.

A quick walk through the community reveals the appalling state of uncertainty residents are living in: at the very top of the hill, some 70 percent of homes are marked for eviction — an area supposedly set to benefit from the transportation investments being made. But the luxury cable car will transport 1,000 to 3,000 people per hour during the Olympics. It’s not residents who will benefit, but investors.

Residents of Providência are fearful. Only 36 percent of them hold documentation of their land rights, compared with 70 percent to 95 percent in other favelas. More than in other poor neighborhoods, residents are particularly unaware of their rights and terrified of losing their homes. Combine this with the city’s “divide and conquer” approach — in which residents are confronted individually to sign up for relocation, and no communitywide negotiations are permitted — and resistance is effectively squelched.

Pressure from human rights groups and the international news media has helped. But brutal evictions continue as well as new, subtler forms of removal. As part of the city’s port revitalization plan, authorities declared the “relocations” to be in the interest of residents because they live in “risky areas” where landslides might occur and because “de-densification” is required to improve quality of life.

But there is little evidence of landslide risk or dangerous overcrowding; 98 percent of Providência’s homes are made of sturdy brick and concrete and 90 percent have more than three rooms. Moreover, an important report by local engineers showed that the risk factors announced by the city were inadequately studied and inaccurate.

If Rio succeeds in disfiguring and dismantling its most historic favela, the path will be open to further destruction throughout the city’s hundreds of others. The economic, social and psychological impacts of evictions are dire: families moved into isolated units where they lose access to the enormous economic and social benefits of community cooperation, proximity to work and existing social networks — not to mention generations’ worth of investments made in their homes.

Rio is becoming a playground for the rich, and inequality breeds instability. It would be much more cost-effective to invest in urban improvements that communities help shape through a participatory democratic process. This would ultimately strengthen Rio’s economy and improve its infrastructure while also reducing inequality and empowering the city’s still marginalized Afro-Brazilian population.

Theresa Williamson, the publisher of RioOnWatch.org, founded Catalytic Communities, an advocacy group for favelas. Maurício Hora, a photographer, runs the Favelarte program in the Providência favela.

*   *   *

APRIL 2, 2012

Are the Olympics More Trouble Than They’re Worth?

ProtestingToby Melville/Reuters

Winning a bid to host the Olympics is just the beginning. As London prepares for the 2012 Games this summer, residents have plenty of doubts: Will it be too expensive? Will it disrupt life too much? In the end, will they be better off because of the Games, or just saddled with public debt and a velodrome no one knows what to do with?

What about Rio de Janeiro: Will it come out ahead, after having hosted the Pan American Games in 2007, the World Cup in 2014 and the Olympics in 2016?

READ THE DISCUSSION »

DEBATERS

Neil Jameson

The Games Help Londoners

NEIL JAMESON, LEAD ORGANIZER, LONDON CITIZENS

This is the world’s first “Living Wage Olympics,” and East London residents will reap the rewards.

Julian Cheyne

The Games Hurt Londoners

JULIAN CHEYNE, EVICTED RESIDENT, EAST LONDON

The Olympics are an expensive distraction that sets dangerous precedents, coddling the elite and trampling the poor.

Theresa Williamson

A Missed Opportunity in Rio

THERESA WILLIAMSON, FOUNDER, CATALYTIC COMMUNITIES

In preparing for the World Cup and the Olympics, Rio could make long-term investments and integrate the favelas. Instead it is aggravating its problems.

Bruno Reis

Brazil Can Come Out Ahead

BRUNO REIS, RISK ANALYST IN BRAZIL

These Games represent a golden opportunity, but will Rio de Janeiro repeat the success of Barcelona or the failure of Athens?

Andrew Zimbalist

Venues as an Asset or an Albatross

ANDREW ZIMBALIST, ECONOMIST, SMITH COLLEGE

Olympics planning takes place in a frenzied atmosphere — not optimal conditions for contemplating the future shape of an urban landscape.

Mitchell L. Moss

New York Is Lucky Not to Have the Games

MITCHELL L. MOSS, NEW YORK UNIVERSITY

London will be a morass this summer. Meanwhile, there has never been a better time to visit New York City.

Ações afirmativas e sistema de cotas nas universidades brasileiras

Mais um passo na luta pela democratização efetiva do Ensino Superior

dhescbrasil.org.br

10 de agosto de 2012

Em 07 de agosto de 2012 o Senado Federal aprovou um projeto que tramitava a cerca de  uma década no Congresso, instituindo a reserva de 50% das vagas das universidades e institutos tecnológicos federais para estudantes que cursaram o ensino médio em escola pública.

Além disso, a lei prevê que, destas vagas, metade serão destinadas a estudantes com renda familiar per capita até um salário mínimo e meio. Também prevê que em cada estado serão destinadas vagas para pretos, pardos e indígenas, respeitando o percentual destes grupos nos estados, de acordo com os dados do IBGE.

Tais medidas visam atender a demandas históricas de ativistas que lutam pelo direito à educação e também pela democratização efetiva do ensino superior no país. Como sabemos historicamente o sistema universitário brasileiro se desenvolveu de forma restrita em termos de número de vagas e também de grupos atendidos. O ensino superior foi pensado durante muito tempo como um sistema para poucos e, com frequência, para aqueles que conseguiram se preparar para competir por uma vaga num quadro altamente competitivo.

Ao longo dos anos 1990 e principalmente dos anos 2000 ampliou-se o consenso entre diferentes setores da sociedade brasileira sobre a enorme desigualdade no acesso ao ensino superior no Brasil, expresso no paradoxo conhecido de que entre os estudantes das universidades públicas predominam os estudantes que freqüentaram escolas particulares no ensino básico, sendo o inverso também verdadeiro.

Observou-se também que os jovens brasileiros que chegavam ao ensino superior eram predominantemente de classe média e de classe alta e em sua maioria brancos, deixando de fora desta possibilidade, portanto, um grande contingente de jovens pobres, pretos, pardos e indígenas.

Em face de esta exclusão educacional, entidades não governamentais e movimentos sociais se mobilizaram para oferecer oportunidades de formação complementar para os jovens pobres, pretos, pardos e indígenas aumentarem suas chances de ingresso. Universidades, prefeituras, empresas e igrejas também se engajaram nestas iniciativas, levando a resultados relevantes em termos de aprovação destes estudantes em exames de seleção.

Também órgãos governamentais passaram a desenvolver políticas para ampliar o acesso ao ensino superior de grupos historicamente excluídos, tais como a reserva de vagas em  universidades públicas, a criação do Programa Universidade para Todos (PROUNI), destinado a fornecer bolsas de estudo em instituições privadas de ensino superior e a  ampliação do investimento em universidades federais visando o aumento da oferta de cursos e vagas.

Em 2012 é possível afirmar que estas medidas produziram efeitos positivos no que diz respeito à ampliação do acesso ao ensino superior de jovens de grupos excluídos. Entretanto, ainda permanece uma distância entre o número de jovens que concluem o ensino médio em escola pública e os que conseguem ingressar em instituição pública de ensino superior. Também ainda é desproporcional o número de estudantes negros e indígenas que chegam ao ensino superior, em comparação com sua proporção na população.

A lei aprovada pelo Senado vem justamente ampliar de forma substantiva estas oportunidades, levando a um compromisso das instituições federais de ensino superior e técnico com esta expansão. A lei também traz um importante compromisso com a igualdade racial, através da formalização do compromisso de ampliação do ingresso de estudantes negros e indígenas em proporções definidas segundo sua representação na população de cada estado da federação.

Num país que, até recentemente, tinha dificuldades em aceitar a desigualdade racial presente na sociedade, a aprovação desta lei reveste-se de grande importância, pois permite que se avance na efetiva democratização de oportunidades de ingresso no ensino superior.

Cabe-nos, agora, perguntar? Todos os problemas se resolvem com esta medida? Obviamente não. Na verdade a aprovação desta lei traz desafios importantes, como a ampliação e consolidação de permanência de estudantes de menor renda no ensino superior, através de um efetivo e eficaz programa de assistência estudantil. Também traz o desafio de continuar ampliando as oportunidades para que milhões de jovens pobres, negros e indígenas possam ter acesso e completar com sucesso o ensino médio, a fim de que possam participar da seleção de ingresso ao ensino superior.

Medidas de democratização com as que estão contidas nesta nova lei são marcos importantes no longo caminho da realização do direito à educação no Brasil. Esperamos que, após a sanção desta lei pela presidência, possamos inaugurar um novo momento nas políticas educacionais no país, com ampliação do acesso, oportunidades mais democráticas de permanência no ensino superior e pela busca de maior igualdade em todos os níveis. O caminho é longo, mas, com esta lei, será dado um grande passo.

Rosana Heringer
Relatora do Direito Humano à Educação

*   *   *

INCLUSÃO NO ENSINO SUPERIOR: RAÇA OU RENDA?

João Feres Júnior*

Grupo Estratégico de Análise da Educação Superior no Brasil – FLACSO Brasil

A decisão por unanimidade do Supremo Tribunal Federal, no dia 26 de abril de 2012, que declarou a constitucionalidade do sistema de cotas étnico-raciais para admissão de alunos ao ensino superior, teve, entre várias consequências positivas, a virtude de abrir a possibilidade para que o debate acerca da inclusão por meio do acesso à educação superior se aprofunde. Mudamos, portanto, de um contexto no qual o debate era dominantemente normativo, preocupado principalmente com a questão da legalidade e constitucionalidade da ação afirmativa étnico-racial, para um novo contexto, no qual passa a importar a discussão concreta acerca dos mecanismos e critérios adotados pelas políticas de inclusão.

Além de sua pertinência moral, a decisão do Supremo é consonante com várias análises a partir de dados estatísticos sólidos, feitas a partir do final dos anos 1970 até o presente, que mostram a relevância da variável classe e da variável raça na reprodução da desigualdade no Brasil. Esse fato nos leva a intuir que o uso de ambas as variáveis em políticas de inclusão é recomendável. Tal intuição é em geral correta, mas não podemos nos esquecer de que da análise sociológica de dados populacionais ao desenho de políticas públicas a distância é grande e não pode ser percorrida sem mediações: identificação de públicos, adoção de categorias, criação de regras, estabelecimento de objetivos, avaliação de resultados etc.

Ao abordar a questão dos critérios de seleção, primeiro cabe fazer uma ressalva de caráter histórico. O debate midiático sobre ação afirmativa foca quase exclusivamente sobre a ação afirmativa étnico-racial. Contudo, a modalidade mais frequente de ação afirmativa adotada pelas universidades públicas brasileiras hoje tem como beneficiários alunos oriundos da escola pública: 61 de um total de 98 instituições, enquanto que apenas 40 têm políticas para negros (ou pretos e pardos).

Mas isso não é só: o processo de criação dessas políticas de inclusão no ensino superior brasileiro – hoje 72% das universidades públicas brasileira têm algum tipo de ação afirmativa – não pode ser narrado sem falarmos do protagonismo do Movimento Negro e de seus simpatizantes ao articular a demanda por inclusão frente às universidades por todo o Brasil. Ao serem pressionadas por esses setores da sociedade civil organizada, as universidades reagiram, cada uma a seu modo, pouquíssimas vezes criando cotas somente para negros (4 casos), muitas vezes criando cotas para
negros e alunos de escola pública (31), e majoritariamente criando cotas para alunos de escola pública. Não houve, por outro lado, nenhum movimento independente para a inclusão de alunos pobres no ensino superior. Em suma, se não fosse pela demanda por inclusão para negros, o debate sobre o papel da universidade no Brasil democrático certamente estaria bem mais atrasado.

O ponto mais importante, contudo, é entender que as mediações entre o conhecimento sociológico e a política pública têm de ser regidas por um espírito pragmatista que segue o seguinte método: a partir de uma concordância básica acerca da situação e dos objetivos, estabelecemos ações mediadoras para a implantação de uma política e então passamos a observar seus resultados. A observação sistemática (e não impressionista) dos resultados é fundamental para que possamos regular as ações mediadoras a fim de atingir nossos objetivos, ou mesmo mudar os objetivos ou a leitura da situação. Sem esse espírito é difícil proceder de maneira progressista na abordagem de qualquer assunto que diga respeito a uma intervenção concreta na realidade.

Assim, ainda que saibamos que ambas as variáveis, classe e raça, devam ser objeto de políticas de inclusão, não existe um plano ideal para aplicá-las. Será que deveriam ser separadas (cotas para negros e cotas para escola pública) ou combinadas (cotas que somente aceitem candidatos com as duas qualificações)? Fato é que pouquíssimas universidades adotam a primeira opção, enquanto 36 das 40 universidades públicas com ação afirmativa para negros têm algum critério de classe combinado, seja ele escola pública ou renda.

Há também outra questão importante: a variável classe deve ser operacionalizada pelo critério de renda ou escola pública? No agregado, as universidades escolheram preferencialmente “escola pública”, 30 das 40, pois ele é mais eficaz do que “declaração de renda” para se auferir a classe social do ingressante – pessoas com renda informal facilmente burlariam o procedimento. Contudo, 6 universidades, entre elas as universidades estaduais do Rio de Janeiro, exemplos pioneiros de adoção de ação afirmativa no país, adotam o critério de renda. No caso das universidades fluminenses, os programas que começaram em 2003 tinham cotas para escola pública separadas de cotas para “negros e pardos” (sic), mas em 2005 a lei foi alterada passando a sobrepor um limite de renda à cota racial.

Informações advindas de pessoas que participaram do debate que levou a tal mudança apontam para o fato de que a exposição do assunto à mídia, fortemente enviesada contra tais políticas, fez com que os tomadores de decisão tentassem se proteger do argumento de que a ação afirmativa beneficiaria somente a classe média negra. A despeito da causa que levou a tal mudança, o método sugerido acima nos leva a olhar para as consequências. Dados da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro) mostram que nos anos em que vigorou o sistema antigo, 2003 e 2004, entraram respectivamente 40 e 60 alunos não-brancos – aproximadamente 11% do total de ingressantes. A sobreposição de critérios que passou a operar no ano seguinte derrubou esse número para 19. A média de alunos não-brancos que ingressaram sob o novo regime de 2005 a 2009 é ainda menor – 13 –, o que representa parcos 3% do total de ingressantes.

Conclusão: uma política que produzia resultados foi tornada praticamente irrelevante devido à adoção de critérios que no papel parecem justos, ou adequados, ou politicamente estratégicos. Contudo, o resultado deveria ser a parte fundamental. O exemplo comprova nosso ponto de vista de que não há receitas mágicas. Se isso é verdade, então a experimentação faz-se necessária. Mas fica faltando ainda um elemento crucial nessa equação. Para avaliarmos os resultados da experimentação é preciso que as universidades com programas de inclusão tornem públicos seus dados, e isso não tem acontecido, com raríssimas exceções. Sem avaliações sólidas das políticas, corremos o risco de ficarmos eternamente no plano da conjectura e da anedota e assim não conseguir atingir o objetivo maior dessas iniciativas, que é o de democratizar o acesso à educação superior no Brasil.

Rio de Janeiro, junho de 2012

Este texto é uma contribuição do autor ao projeto Grupo Estratégico de Análise da Educação Superior
(GEA-ES), realizado pela FLACSO-Brasil com apoio da Fundação Ford.

Punishing Youth (counterpunch.org)

AUGUST 09, 2012

Saturated Violence in the Era of Casino Capitalism

by HENRY GIROUX

There is by now an overwhelming catalogue of evidence revealing the depth and breadth of the state sponsored assault being waged against young people across the globe, and especially in the United States. What is no longer a hidden order of politics is that American  society is at war with its children, and that the use of such violence against young people is a disturbing index of a society in the midst of a deep moral and political crisis.  Beyond exposing the moral depravity of a nation that fails to protect its youth, the violence used against American youth speaks to nothing less than a perverse death-wish, especially in light of the fact that As Alain Badiou argues, we live in an era in which there is zero tolerance for poor minority youth and youthful protesters and “infinite tolerance for the crimes of bankers and government embezzlers which affect the lives of millions.”  While the systemic nature of the assault on young people and its testimony to the rise of the neoliberal punishing state has been largely ignored by the mainstream media, youth in Canada and the United States are resisting the violence of what might be called neoliberalism or casino capitalism.  For instance, the Occupy Wall Street Movement and the Quebec Protest Movement are demonstrating against such assaults while simultaneously attempting to educate a larger public about the degree to which American and Canadian public spheres, institutions, and values have been hijacked by a culture of spectacular and unrelenting violence—largely directed against youthful protesters and those marginalized by class and race, who increasingly have become the targets of ruthless forms of state-sanctioned punishment.

Put into historical context, we can see that collective insurance policies and social protections in the United States, in particular, have over time given way to the forces of economic privatization, commodification, deregulation, and hyper individualism now driving the ongoing assault on democratic public spheres, public goods, and any viable notion of equality and social justice. At least since the 1980s, the American public has witnessed the transformation of the welfare state by punitive workfare programs, the privatization of public goods and spaces, and a hollow appeal to individual responsibility and self-interest as a substitute for civic responsibility and democratic engagement. Embracing the notion that market-driven values and relations should shape every domain of human life, a business-centered model of governance has eviscerated any viable notion of the public values and interests, while insidiously criminalizing social problems and cutting back on basic social services, especially for young people, the poor, minorities, immigrants, and the elderly. As young people and others organize to protest economic injustice and massive inequality, along with drastic cuts to education, workers benefits and pensions, and public services, the state has responded with the use of  injurious violence, while the mainstream media has issued insults rather than informed dialogue, critical engagement, and suggestions for meaningful reform. Indeed, it appears the United States has entered a new historical era when policy decisions not only translate into an intentional, systemic disinvestment in public institutions and the breakdown of those public spheres that traditionally provided the minimal conditions for social justice and democratic expression, but are also merging with state-sanctioned violence and the use of mass force against the state’s own citizenry. I am not referring to the violence now sweeping the United States in the form of the lone, crazed gunman shooting innocent victims in colleges, malls, and movie theaters. As horrifying as this violence is, it does not fully equate with the systemic violence now waged by the state on both the domestic and foreign fronts.

On the domestic front, state violence in response to the Occupy movement in its first six months has been decisive and swift: “There have been at least 6705 arrests in over 112 different cities as of March 6, 2012.”  Similarly, in Montreal, Canada thousands of peaceful protests have been arrested while protesting tuition increases, increasing debt burdens, and other assaults on young people and the social state. What does it mean as young people make diverse claims on the promise of a radical democracy and articulate their vision of a fair and just world that they are increasingly met with forms of physical, ideological, and structural violence? Abandoned by the existing political system, young people are placing their bodies on the line, occupying shrinking public spaces in a symbolic gesture that also deploys concrete measures demanding their presence be recognized when their voices are no longer being heard. They have, for the most part, protested peacefully while trying to produce a new language, political culture, public institutions, and a “community that manifests the values of equality and mutual respect that they see missing in a world that is structured by neoliberal principles.”  Young people are organizing in opposition to the structural violence of the state while also attempting to reclaim the discourse of the common good, social justice, and economic equality. Rejecting the notion that democracy and markets are the same or that capitalism is the only ideological and economic system that can speak in the name of democracy, youth movements are calling for an end to poverty, the suppression of dissent, the permanent warfare state, and the corporate control of the commanding institutions of politics and culture.

Many of us have been inspired by the hope for a better future that these young people represent for the nation as a whole. Yet, of utmost concern is the backlash the protesters have faced for exercising their democratic rights. Surely, what must be addressed by anyone with a stake in safeguarding what little remains of U.S. democracy is the immediate threat that an emerging police state poses not just to the young protesters occupying a number of North American cities but to the promise of a real democracy. This threat to the possibility of a democratic social order only increases with the ascendancy of a war-like mentality and neoliberal modes of discipline and education which make it that much more difficult to imagine, let alone enact, communal obligation, social responsibility, and civic engagement.  Unless the actions of young protesters, however diverse they may be, are understood as a robust form of civic courage commensurate with a vital democracy, it will be difficult for the American public to resist an increase in state violence and the framing of protests, dissent, and civic responsibility as un-American or, even worse, a species of criminal behavior.

Stuart Hall suggests that the current historical moment, or what he calls the “long march of the Neoliberal Revolution,” has to be understood in terms of the varied forms of violence that it deploys and reinforces. Such anti-democratic pressures and their provocation of the protests of young people in the United States and abroad have deepened an escalating crisis symptomatic of what Alex Honneth has termed the “failed sociality” characteristic of neoliberal states. In turn, state and corporate media-fueled perceptions of such a crisis have been used to stimulate fear and justify the creeping expansion of a militarized and armed state as the enforcer of neoliberal policies amid growing public dissent. Police violence against young people must therefore be situated within a broader set of categories that enables a critical understanding of the underlying social, economic, and political forces at work in such assaults. That is, in order to adequately address state-sponsored violence against young people, one should consider the larger context of the devolution of the social state and the corresponding rise of the warfare state. The notion of historical conjuncture—or a parallel set of forces coalescing at one moment in time—is important here because it provides both an opening into the factors shaping a particular historical moment and it allows for a merging of theory and strategy in our understanding of the conditions with which we are now faced. In this case, it helps us to address theoretically how youth protests are largely related to a historically specific neoliberal project that promotes vast inequalities in income and wealth, creates the student loan debt bomb, eliminates much needed social programs, eviscerates the social wage, and privileges profits and commodities over people.

Within the United States and Canada, the often violent response to non-violent forms of youth protest must also be analyzed within the framework of a mammoth military-industrial state and its commitment to extending violence and war through the entire society. As the late philosopher Tony Judt put it, “The United States is becoming not just a militarized state but a military society:  a country where armed power is the measure of national greatness, and war, or planning for war, is the exemplary (and only) common project.”  The blending of the military-industrial complex with state interests and unbridled corporate power points to the need for strategies that address what is specific about the current neoliberal project and  how different modes of power, social relations, public pedagogies, and economic configurations come together to shape its politics. Such considerations provide theoretical openings for making the practices of the warfare state and the neoliberal revolution visible in order “to give the resistance to its onward march, content, and focus, a cutting edge.” It also points to the conceptual value of making clear that history remains an open horizon that cannot be dismissed through appeals to the end of history or end of ideology.  It is precisely through the indeterminate nature of history that resistance becomes possible.

While there is always hope because a democratic political project refuses any guarantees, most Americans today are driven by shared fears, stoked to a great extent by media-induced hysteria. Corporations stand ready to supply a culture of fear with security and surveillance technologies that, far from providing greater public safety, do little more than ensure the ongoing militarization of the entire society, including the popular media and the cultural apparatuses that shape everyday life. Images abound in the mainstream media of such abuses. There is the now famous image of an 84-year-old woman looking straight into a camera after attending a protest rally, her face drenched in a liquid spray used by the police. There is the image of the 19-year-old pregnant woman being carried to safety after being pepper-sprayed by the police. There are the now all-too-familiar images of young people being dragged by their hair across a street to a waiting police van. In some cases, protesters have been seriously hurt. Scott Olsen, an Iraq war veteran, was critically injured in a protest in Oakland in October 2011. On March 17, 2012, young protesters attempting to re-establish an Occupy camp at Zuccotti Park in New York were confronted by excessive police violence. The Guardian reported that over 73 people were arrested in one day and that “A woman suffered a seizure while handcuffed on a sidewalk, another protester was thrown into a glass door by police officers before being handcuffed, and a young woman said she was choked and dragged by her hair….Witnesses claimed police punched one protester several times in the head while he was subdued by at least four officers.”  Another protester claimed the police broke his thumb and injured his jaw. Such stories have become commonplace in recent years, and so many are startling reminders of the violence used against civil rights demonstrators by the forces of Jim Crow in the fifties and sixties.

These stories are also indicative that a pervasive use of violence and the celebration of war-like values are no longer restricted to a particular military ideology, but have become normalized through the entire society.  As Michael Geyer points out, militarization in this sense is defined as “the contradictory and tense social process in which civil society organizes itself for the production of violence.” The war on terror has become a war on democracy, as police departments and baton-wielding cops across the 
nation are now being supplied with the latest military equipment and technologies imported straight from the battlefields of Iraq and Afghanistan. Procuring drones, machine-gun-equipped armored trucks, SWAT vehicles, “digital communications equipment and Kevlar helmets, like those used by soldiers used in foreign wars,” is justified through reference to the domestic war against “terrorists” (code for young protesters) and provides new opportunities for major defense contractors and corporations to become ever “more a part of our domestic lives.” As Glenn Greenwald confirms, the United States since 9/11 “has aggressively paramilitarized the nation’s domestic police forces by lavishing them with countless military-style weapons and other war-like technologies, training them in war-zone military tactics, and generally imposing a war mentality on them. Arming domestic police forces with paramilitary weaponry will ensure their systematic use even in the absence of a terrorist attack on U.S. soil; they will simply find other, increasingly permissive uses for those weapons.”

With the growth of a new militarized state, it should come as little surprise that “by age 23, almost a third of Americans are arrested for a crime.”  In a society that has few qualms with viewing its young people as predators, a threat to corporate governance, and a disposable population, the violent acts inflicted on youth by a punishing state will no doubt multiply with impunity. Domestic paramilitary forces will certainly undermine free speech and dissent with the threat of force, while also potentially violating core civil liberties and human rights. In other words, the prevailing move in American society toward permanent war status sets the stage for the acceptance of a set of unifying symbols rooted in a survival-of-the-fittest ethic that promotes conformity over dissent, the strong over the weak, and fear over civic responsibility. With the emergence of a militarized society, “the range of acceptable opinion inevitably shrinks,” as violence becomes the first and most important element of power and a mediating force in shaping all social relationships.

The grave reality is that violence saturates almost every aspect of North American culture. Domestically, violence weaves through the cultural and social landscape like a highly charged electric current burning everything in its path. Popular culture has become a breeding ground for a form of brutal masculine authority and the celebration of violence it incorporates has become the new norm in America. Representations of violence dominate the media and too often parade before viewers less as an object of critique than as a for-profit spectacle and heightened source of pleasure. As much as any form of governance seeks compliance among the governed, the permanent war state uses modes of public pedagogy—practices of pedagogical persuasion—to address, enlist, and construct subjects willing to abide by its values, ideology, and narratives of fear and violence. Legitimation in the United States is largely provided through a market-driven culture addicted to consumerism, militarism, and spectacles of organized violence. Circulated through various registers of popular culture, cruelty and violence imbue the worlds of high fashion and Hollywood movies, reality TV, extreme sports, video games, and around-the-clock news media. The American public is bombarded by an unprecedented “huge volume of exposure to… images of human suffering.” As Zygmunt Bauman argues, “the sheer numbers and monotony of images may have a ‘wearing off’ impact [and] to stave off the ‘viewing fatigue,’ they must be increasingly gory, shocking, and otherwise ‘inventive’ to arouse any sentiments at all or indeed draw attention. The level of ‘familiar’ violence, below which the cruelty of cruel acts escapes attention, is constantly rising.”

When an increasing volume of violence is pumped into the culture as fodder for sports, entertainment, news media, and other pleasure-seeking outlets, yesterday’s spine-chilling and nerve-wrenching violence loses its shock value. One consequence is that today’s audiences exhibit more than mere desensitization or indifference to violence. They are not merely passive consumers, but instead demand prurient images of violence in a way that fuels their increasing production. Spectacularized violence is now unmoored from moral considerations or social costs. It now resides, if not thrives, in a diverse commercially infused set of cultural apparatuses that offers up violence as a commodity with the most attractive and enjoyable pleasure quotient. Representations of torture, murder, sadism, and human suffering have become the stuff of pure entertainment, offering a debased outlet for experiencing intense pleasure and the thrill of a depoliticized and socially irresponsible voyeurism.  The consuming subject is now educated to take intense pleasure in watching—if not also participating as agents of death—in spectacles of cruelty and barbarism. After all, assuming the role of a first shooter in the age of video game barbarism has become an unquestioned badge of both pleasure and dexterity, leading potentially to an eventual employment by the Defense Department to operate Drone aircraft in the video saturated bunkers of death in some suburban west coast town.  Seemingly unconstrained by a moral compass based on a respect for human and non-human life, U.S. culture is increasingly shaped by a disturbing collective desire for intense excitement and a never-ending flood of heightened sensations.

Although challenging to ascertain precisely how and why the collective culture continues to plummet to new depths of depravity, it is far less difficult to identify the range of horrific outcomes and social costs that come with this immersion in a culture of staged violence. When previously unfamiliar forms of violence, such as extreme images of torture and death, become banally familiar, the violence that occurs daily becomes barely recognizable relegated to the realm of the unnoticed and unnoticeable. Hyper-violence and spectacular representations of cruelty disrupt and block our ability to respond politically and ethically to the violence as it is actually happening on the ground.  How else to explain the public indifference to the violence waged by the state against non-violent youthful protesters who are rebelling against a society in which they have been excluded from any claim on hope, prosperity, equality, and justice? Cruelty has saturated everyday life when young people, once the objects of compassion and social protections, are treated as either consumers and commodities, on the one hand, or suspects and criminals on the other.

Disregard for young people and a growing taste for violence can also be seen in policies that sanction the modeling of public schools after prisons. We see the criminalization of disadvantaged youth, instead of the social conditions which they are forced to endure. Behaviors that were once handled by teachers, guidance counselors, and school administrators are now dealt with by the police and the criminal justice system. The consequences have been disastrous for young people. Not only do schools take on the technologies and culture of prisons and engage in punishment creep, but young children are being arrested and put on trial for behaviors that can only be called trivial. There was the case of the 5-year-old girl in Florida who was put in handcuffs and taken to the local jail because she had a temper tantrum; or the 13-year-old girl in a Maryland school who was arrested for refusing to say the pledge of allegiance. Alexa Gonzales in New York was another student arrested by police—for doodling on her desk. There is more at work in these cases than stupidity and a flight from responsibility on the part of educators, parents, law enforcement officers, and politicians who maintain these policies. Clearly, embedded in these actions is also the sentiment that young people constitute a threat to adults, and that the only way to deal with them is to subject them to mind-crushing punishment. Students being miseducated, criminalized, and subjected to forms of penal pedagogy in prison-type schools provide a grim reminder of the degree to which the ethos of containment and punishment now creeps into spheres of everyday life that were once largely immune from this type of official violence.

Governing-through-crime policies also remind us that we live in an era that breaks young people, corrupts the notion of justice, and saturates the minute details of everyday life with the threat if not yet the reality of violence. A return to violent spectacles and other medieval types of punishment inflict pain on both the psyches and the bodies of young people. Equally disturbing is how law-and-order policies and practices in the United States appear to take their cue from a past era of slavery. Studies have shown that “Arrests and police interactions… disproportionately affect low-income schools with large African-American and Latino populations,” paving the way for these youth to move almost effortlessly through what has been called the school-to-prison pipeline.  Sadly, the next step one envisions for such a society is a reality TV franchise in which millions tune in to watch young kids being handcuffed, arrested, tried in the courts, and sent to juvenile detention centers.  This is not merely barbarism parading as reform—it is also a blatant indicator of the degree to which sadism and the infatuation with violence have become normalized in a society that seems to take delight in dehumanizing itself.

The prevalence of institutionalized violence in American society and other parts of the world suggests the need for a new conversation and politics that address what a just and fair world looks like. Young people and others marginalized by class, race, and ethnicity appear to have been abandoned as American society’s claim on democracy gives way to the forces of militarism, market fundamentalism, and state terrorism. Until educators, intellectuals, academics, young people, and other concerned citizens address how a physics and metaphysics of war and violence have taken hold on American society and the savage social costs they have exacted, the forms of social, political, and economic violence that young people are currently protesting against as well as the violence waged in response to their protests will become impossible to recognize and act on. The American public needs to make visible and critically engage the underlying ideological, political, educational, and economic forces that embrace violence as both a commodity, spectacle, and mode of governing.  Such an approach would address the necessity of understanding the emerging pathology of violence not just through a discourse of fear or isolated spectacles, but through policies that effectively implement the wider social, economic, and political reforms necessary to curb the culture of violence and the institutions that are sustained by it.  There is a cult of violence in America and it is reinforced by a type of collective ignorance spread endlessly by special interests such as the National Rifle Association, politicians wedded to the largess of the military-industrial complex, and national entertainment-corporate complex that both employs violence and uses it to refigure the meaning of news, entertainment, and the stories America tells itself about its national identity and sense of destiny.  Violence is not something to be simply criminalized by extending the reach of the criminal justice system to the regime of criminals that now run the most powerful financial services and industries. It must be also understood as part of a politics of distraction, a poisonous public pedagogy that depoliticizes as much as it entertains and corrupts.  That is, it must be addressed as a political issue that within the current historical moment is both deployed by the neoliberal state against young people, and employed as part of the reconfiguration or transformation of the social state into the punishing state. At the heart of this transformation is the emergence of new form of corporate sovereignty, a more intense form of state violence, a ruthless survival of the fittest ethic used to legitimate the concentrated power of the rich, and a concerted effort to punish young people who are out of step with neoliberal ideology, values, and modes of governance.  Of course, these anti-democratic tendencies represent more than a threat to young people, they also put in peril all of those individuals, groups, public spheres, and institutions now considered disposable because that are at odds with a world run by bankers, the financial elite, and the rich.  Only a well-organized movement of young people, educators, workers,  parents, religious groups, and other concerned citizens will be capable of changing the power relations and vast economic inequalities that have generated what has become a country in which it is almost impossible to recognize the ideals of a real democracy.

Henry A. Giroux holds the Global TV Network chair in English and Cultural Studies at McMaster University in Canada. His most recent books include: “Take Back Higher Education” (co-authored with Susan Searls Giroux, 2006), “The University in Chains: Confronting the Military-Industrial-Academic Complex” (2007) and “Against the Terror of Neoliberalism: Politics Beyond the Age of Greed” (2008). His latest book is Twilight of the Social: Resurgent Publics in the Age of Disposability,” (Paradigm.)

Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings (Cultural Anthropology)

Hot spot – Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings

Submitted by Cultural Anthropology on Fri, 2012-07-27 10:36

Introduction: Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings

Guest Edited by Jeffrey S. Juris (Northeastern University) and Maple Razsa (Colby College)

Occupy Wall Street burst spectacularly onto the scene last fall with the take-over of New York City’s Zuccotti Park on September 17, 2011, followed by the rapid spread of occupations to cities throughout the US and the world. The movement combined mass occupations of urban public spaces with horizontal forms of organization and large-scale, directly democratic assemblies. Making effective use of the viral flows of images and information generated by the intersections of social and mass media, the occupations mobilized tens of thousands around the globe, including many new activists who had never taken part in a mass movement before, and inspired many more beyond the physical encampments themselves. Before the wave of violent police evictions in November and December of 2011 drove activists into submerged forms of organizing through the winter, the Occupy movements had already captured the public imagination. Bequeathing to us potent new memes such as the 1% (those at the top of the wealth and income scale) and the 99% (the rest of us), Occupy provided a framework for talking about issues that have been long obscured in public life such as class and socio-economic inequality and helped to shift the dominant political-economic discourse from an obsession with budget deficits and austerity to a countervailing concern for jobs, equality, and economic fairness.

In other words, prior to Occupy, much of the populist anger stemming from the 2008 financial crisis in North America and Europe had been effectively channeled by the Right into both an attack on marginalized groups—e.g. immigrants, people of color, Gays and Lesbians—and a particularly pernicious version of the already familiar critique of unbridled spending. This was especially so in the US where the Tea Party tapped into the widespread public ire over the Wall Street bailouts to bolster a far-reaching attack on “big government” through a radical program of fiscal austerity. Of course, the debt problem was a consequence rather than a cause of the crisis, the result of deregulation, predatory lending, and the spread of highly complex financial instruments facilitated by the neoliberal agenda of the very people who were now seeking to impose budgetary discipline (see Financial Crisis Hot Spot).

However, the contributions of Occupy are not exclusively, or even primarily, to be assessed in terms of their intervention in public discourse. The Occupy movements are also a response to a fundamental crisis of representative politics embodied in an embrace of more radical, directly democratic practices and forms. In their commitment to direct democracy and action the politics put into practice in the various encampments are also innovative prefigurative attempts to model alternative forms of political organization, decision making, and sociability. This turn is crucial: while neoliberalism has been endlessly critiqued it seems to live on as the only policy response—in the form of austerity—to the crisis neoliberalism itself has produced. The need for ethnographic accounts of this prefigurative politics, and its attendant challenges and contradictions, is especially urgent given that Occupy has refused official representatives and because occupiers have extended democracy beyond formal institutions into new spheres of life through a range of practices, including the collective seizure of public space, the people’s mic, horizontal organization, hand signals, and general assemblies.

It is also important to remember that Occupy was a relative latecomer—if a symbolically important one—to the social unrest the global crisis and policies of austerity have provoked. Cracks in the veneer of conformity emerged during the 2008 rebellion in Greece, where students, union members, and other social actors, galvanized by the murder of a fifteen year old student, took to the streets to challenge the worsening economic conditions (See Greece Hot Spot). Students were also among the first wave of resistance elsewhere with protests against budget cuts and increased fees in California, Croatia, the UK, and Chile. In the US signs of wider social discontent finally surfaced during the Wisconsin uprising in February 2011, which included the occupation of the Wisconsin State House in opposition to Governor Scott Walker’s attack on collective bargaining for public sector unions under the guise of budgetary discipline (cf. Collins 2012). As in Wisconsin, the widespread circulation of images from the Arab Spring continued to spark the intense feelings of solidarity, political possibility, and agency that ultimately led to the occupation of Wall Street. From the pro-democracy marches in Tunisia in response to the self-immolation of Mohammed Bouazizi to the mass occupations of Cairo’s Tahrir Square in opposition to the Egyptian dictator Hosni Mubarak, the Middle East uprisings, imbued protesters with the sense that dramatic political transformation was possible even as subsequent events have indicated that actual political outcomes are always ambivalent and uncertain (see Arab Spring Hot Spot).

Inspired by the uprisings in Tunisia and Egypt and responding to the working and middle class casualties of Spain and Europe’s debt crisis, hundreds of thousands of protesters took to the streets of Madrid on May 15, 2011 and occupied the Puerta del Sol square, sparking a wave of similar mobilizations and encampments around the Spain that would become known as 15M or the movement of the Indignados. Indeed, the combination of mass public occupations with large-scale participatory assemblies provided a template that would be enacted in Zuccotti Park, in part via the influence of Spanish activists residing in New York. That summer a similar movement of Israeli youths sprang up in Tel Aviv, using tent cities and popular assemblies to shine a light on the rising cost of housing and other living expenses.

Finally, in response to an August 2011 call by the Canadian magazine AdBusters to occupy Wall Street in the spirit of these 2011 Global uprisings, activists occupied Zuccotti Park after being rebuffed by the police in an attempt to take Wall Street itself. The occupation initially garnered little media attention, until its second week when images of police repression started going viral, leading to a surge in public sympathy and support, and ever growing numbers streaming to the encampments themselves each time another protester was maced or a group of seemingly innocent protesters rounded up, beaten, and/or arrested. Occupations quickly spread around the US and other parts of the world, generating, for a moment, a proliferating series of encampments physically rooted in local territories, yet linked up with other occupations through interpersonal and online trans-local networks. Following the evictions in the US last fall, local assemblies and working groups have continued to meet—hosting discussions, planning actions and campaigns, producing media, and building and modifying organizational forms—even as the Occupy movements prepared for their public reemergence in the spring through mobilizations such as the May Day protests and mass direct actions against NATO in Chicago and the European Central Bank in Frankfurt.

Additionally, each of these uprisings has diffused through the widespread use of social media, reflecting the mutually constitutive nature of embodied and online protest. The use of social media, in particular, has allowed the Occupy movements, as in other recent mobilizations, to penetrate deeply into the social fabric and mobilize many newcomers who have never been active before in social movements. At the same time, these emerging “logics of aggregation” within the Occupy movements have resulted in a more individualized mode of participation and a form of movement that is more singularizing (e.g. the way the 99% frame can obscure internal differences) and more dependent on the long-term occupation of public space than other recent movements (Juris 2012). A particular set of tensions and strategic dilemmas have thus plagued the Occupy movements, including a divide between newer and more seasoned activists, the difficulty of recognizing and negotiating internal differences, a lack of common political and organizational principles beyond the General Assembly model, and the difficulty of transitioning to new tactics, strategies, visions, and structures in a post-eviction era. In short, activists are now faced with fundamental questions about how to build a movement capable of actually transforming the deep inequalities they have attempted to address.

In assembling this Hot Spot on Occupy we have invited contributions from anthropologists, ethnographers, and activists writing on the above themes: the mass occupation of public spaces, directly democratic practices and forms, the use of social media, the emotions and emerging subjectivities of protest, as well as the underlying political critiques and contradictions that have arisen in the movement. Similarly, in light of the global history we outline above, the range of other social movement responses to the current global economic crisis, as well as the ongoing links between struggles in the US, Europe, Latin America, and North Africa, we have been careful to include contributors conducting research beyond the US in countries such as Greece, Slovenia, Spain, Israel, Argentina, Egypt, and Canada. In so doing, we insist that Occupy must be understood in a global rather than a populist US-centric framework.

Our collaboration on this Hot Spot—which emerged from conversations around our articles on Occupy in the May 2012 edition ofAmerican Ethnologist (Juris 2012Razsa and Kurnik 2012)—also reflects our scholarly and political commitments, as well as those of our contributors. First, it was our priority to invite scholars and activists who are directly involved with these movements rather than adding to the abundant armchair punditry on Occupy. These contributions also reflect recent trends in anthropology with respect to the growing practice of activist research, militant ethnography, public anthropology, and other forms of politically committed ethnographic research, which are taking increasingly institutionalized forms with Cultural Anthropology “Hot Spots”like this one, “Public Anthropology Reviews” in American Anthropologist, recent interventions in American Ethnologist on Egypt, Wisconsin, and Occupy, as well as Current Anthropology “Current Applications.”

In addition to providing an ethnographically and analytically informed view of and from various occupations and kindred mobilizations, this Hot Spot thus provides another example of how anthropologists are making themselves politically relevant and are engaging issues of broad public concern. Given these shifts, together with the progressive inclinations of many anthropologists and the ubiquity and inherent interest of Occupy, it should come as no surprise that so many anthropologists and ethnographers from related fields, including those within and outside the academy, have played key roles in the Occupy movements and their precursors in countries such as Greece and Spain. Indeed, in their post Carles Feixa and his collaboratorsrefer to anthropologists as the “organic intellectuals” of the 15 M movement. As many of the contributions to this Hot Spot attest, a similar case might be made for the role of activist anthropologists within Occupy more generally.

As the contributions below make clear, our emphasis on participatory and politically committed research does not imply a romanticization of resistance or a refusal to confront the contradictions, limits, and exclusions of social movements, especially along axes of class, race, gender, sexuality, and citizenship. Given the disproportionate, though by no means exclusively White, middle class participation in the US Occupy movements, such critical perspectives are essential. Each of the following entries thus combines thick ethnographic description on the part of anthropologists, ethnographers, and activists who have been directly involved in the Occupy movements or other instances of mobilization during the 2011 global uprisings—either through engagement with one more encampments and/or the themes addressed by Occupy—with critical analysis of one or more of the issues outlined above.

NOTES

[1] Occupy has thus addressed many of the same themes and drawn on many of the organizational practices associated with the global justice movements of a previous era, even as it has resonated more strongly with domestic national contexts of the Global north.

[2] The people’s mic is a form of voice amplification whereby everyone in listening distance repeats a speaker’s words so that others situated further away can also hear (See Garces, this Hot Spot).

[3] For example, in the U.S. local encampments created “Inter-Occupy” groups maintain ties with other occupations, while twitter feeds, listservs, websites, and other digital tools were used to communicate and coordinate more broadly. See our digital resources page for additional links.

REFERENCES

Collins, Jane. 2012. “Theorizing Wisconsin’s 2011 Protests: Community-Based Unionism Confronts Accumulation by Dispossession.” American Ethnologist 39 (1):6–20.

Juris, Jeffrey. 2012. “Reflections on #Occupy Everywhere: Social Media, Public Space, and Emerging Logics of Aggregation.”American Ethnologist 39 (2):259-279.

Razsa, Maple and Andrej Kurnik. 2012. “The Occupy Movement in Žižek’s Hometown: Direct Democracy and a Politics of Becoming.” American Ethnologist 39 (2):238-258.

***ESSAYS***

Prefigurative Politics

Marianne Maeckelbergh, Horizontal Decision-Making across Time and Place

Chris Garces, People’s Mic and ‘Leaderful’ Charisma

Philip Cartelli, Trying to Occupy Harvard

Public Space

Zoltán Glück, Between Wall Street and Zuccotti: Occupy and the Scale of Politics

Carles Feixa, et al., The #spanishrevolution and Beyond

Dimitris Dalakoglou,  The Movement and the “Movement” of Syntagma Square

Experience and Subjectivity

Jeffrey S. Juris, The 99% and the Production of Insurgent Subjectivity

Diane Nelson, et al., Her earliest leaf’s a flower…

Maple Razsa, The Subjective Turn: The Radicalization of Personal Experience within Occupy Slovenia

Marina Sitrin, Occupy Trust: The Role of Emotion in the New Movements

Strategy and Tactics

David Graeber, Occupy Wall Street rediscovers the radical imagination

Kate Griffiths-Dingani, May Day, Precarity, Affective Labor, and the General Strike

Angelique Haugerud, Humor and Occupy Wall Street

Karen Ho, Occupy Finance and the Paradox/Possibilities of Productivity

Social Media

Alice Mattoni, Beyond Celebration: Toward a More Nuanced Assessment of Facebook’s Role in Occupy Wall Street

John Postill, Participatory Media Research and Spain’s 15M Movement

Critical Perspectives

Yvonne Yen Liu, Decolonizing the Occupy Movement

Manissa McCleave Maharawal, Fieldnotes on Union Square, Anti-Oppression, and Occupy

Uri Gordon, Israel’s “Tent Protests:” A Domesticated Mobilization

Alex Khasnabish, Occupy Nova Scotia: The Symbolism and Politics of Space

Post Normal Science: Deadlines (Climate Etc.)

Posted on August 3, 2012

by Steven Mosher

Science has changed. More precisely, in post normal conditions the behavior of people doing science has changed.

Ravetz describes a post normal situation by the following criteria:

  1. Facts are uncertain
  2. Values are in conflict
  3. Stakes are high
  4. Immediate action is required

The difference between Kuhnian normal science, or the behavior of those doing science under normal conditions, and post normal science is best illustrated by example. We can use the recent discovery of the Higgs Boson as an example. Facts were uncertain–they always are to a degree; no values were in conflict; the stakes were not high; and, immediate action was not required. What we see in that situation is those doing science acting as we expect them to, according to our vague ideal of science. Because facts are uncertain, they listen to various conflicting theories. They try to put those theories to a test. They face a shared uncertainity and in good faith accept the questions and doubts of others interested in the same field. Their participation in politics is limited to asking for money. Because values are not in conflict no theorist takes the time to investigate his opponent’s views on evolution or smoking or taxation. Because the field of personal values is never in play, personal attacks are minimized. Personal pride may be at stake, but values rarely are. The stakes for humanity in the discovery of the Higgs are low: at least no one argues that our future depends upon the outcome. No scientist straps himself to the collider and demands that it be shut down. And finally, immediate action is not required; under no theory is the settling of the uncertainty so important as to rush the result. In normal science, according to Kuhn,  we can view the behavior of those doing science as puzzle solving. The details of a paradigm are filled out slowly and deliberately.

The situation in climate science are close to the polar opposite of this. That does not mean and should not be construed as a criticism of climate science or its claims. The simple point is this: in a PNS situation, the behavior of those doing science changes. To be sure much of their behavior remains the same. They formulate theories; they collect data, and they test their theories against the data. They don’t stop doing what we notional  describe as science. But, as foreshadowed above in the description of how high energy particle physicists behave, one can see how that behavior changes in a PNS situation. There is uncertainty, but the good faith that exists in normal science, the faith that other people are asking questions because they actually want the answer is gone. Asking questions, raising doubts, asking to see proof becomes suspect in and of itself. And those doing science are faced with a question that science cannot answer: Does this person really want the answer or are they amerchant of doubt? Such a question never gets asked in normal science. Normal science doesn’t ask this question because science cannot answer it.

Because values are in conflict the behavior of those doing science changes. In normal science no one would care if Higgs was a Christian or an atheist. No one would care if he voted liberal or conservative; but because two different value systems are in conflict in climate science, the behavior of those doing science changes. They investigate each other. They question motives. They form tribes.  And because the stakes are high the behavior of those doing science changes as well. They protest; they take money from lobby groups on both sides and worse of all they perform horrendous raps on youTube. In short, they become human; while those around them canonize them or demonize them and their findings become iconized or branded as hoaxes.

This brings us to the last aspect of a PNS situation: immediate action is required. This perhaps is the most contentious aspect of PNS, in fact I would argue it is thedefining characteristic. In all PNS situations it is almost always the case the one side sees the need for action, given the truth of their theory, while the doubtersmust of necessity see no need for immediate action. They must see no need for immediate action because their values are at risk and because the stakes are high. Another way to put this is as follows. When you are in a PNS situation, all sides must deny it. Those demanding immediate action, deny it by claiming more certainty*than is present; those refusing immediate action, do so by increasing demands for certainty. This leads to a centralization and valorization of the topic of uncertainty, and epistemology becomes a topic of discussion for those doing science. That is decidedly not normal science.

The demand for immediate action, however, is broader than simply a demand that society changes. In a PNS situation the behavior of those doing science changes. One of the clearest signs that you are in PNS is the change in behavior around deadlines. Normal science has no deadline. In normal science, the puzzle is solved when it is solved. In normal science there may be a deadline to shut down the collider for maintenance. Nobody rushes the report to keep the collider running longer than it should. And if a good result is found, the schedules can be changed to accommodate the scienceBroadly speaking, science drives the schedule; the schedule doesn’t drive the science.

The climategate mails are instructive here. As one reads through the mails it’s clear that the behavior of those doing science is not what one would call disinterested patient puzzle solving. Human beings acting in a situation where values are in conflict and stakes are high will engage in behavior that they might not otherwise. Those changes are most evident in situations surrounding deadlines. The point here is not to rehash The Crutape Lettersbut rather to relook at one incident ( there are others, notably around congressional hearings ) where deadlines came into play. The deadline in question was the deadline for submitting papers for consideration. As covered in The Crutape Letters and in The Hockeystick Illusion, the actions taken by those doing science around the“Jesus Paper” is instructive. In fact, were I to rewrite the Crutape letters I would do it from the perspective of PNS, focusing on how the behavior of those doing science deviated from the ideals of openness, transparency and letting truth come on its own good time.

Climategate is about FOIA. There were two critical paths for FOIA: one sought data, the other sought the emails of scientists. Not quite normal. Not normal in that data is usually shared; not normal in that we normally respect the privacy of those doing science. But this is PNS, and all bets are off. Values and practices from other fields, such as business and government,  are imported into the culture of science: Data hoarding is defended using IP and confidentiality agreements. Demanding private mail is defended using values imported from performing business for the public. In short, one sign that a science is post normal, is the attempt to import values and procedures from related disciplines. Put another way, PNS poses the question of governance. Who runs science and how should they run it.

The “Jesus paper” in a nutshell can be explained as follows. McIntyre and McKittrick had a paper published in the beginning of 2005. That paper needed to be rebutted in order to make Briffa’s job of writing chapter 6 easier. However, there was a deadline in play. Papers had to be accepted by a date certain. At one point Steven Schneider suggested the creation of a new category, a novelty–  provisionally accepted — so that the “jesus paper” could make the deadline. McIntyre covers the issue here. One need not re-adjudicate whether or not the IPCC rules were broken. And further these rules have nothing whatsoever ever to do with the truth of the claims in that paper. This is not about the truth of the science. What is important is the importation of the concept of a deadline into the search for truth. What is important is that the behavior of those doing science changes. Truth suddenly cares about a date. Immediate action is required. In this case immediate action is taken to see to it that the paper makes it into the chapter. Normal science takes no notice of deadlines. In PNS, deadlines matter.

Last week we saw another example of deadlines and high stakes changing the behavior of those doing science. The backstory here explains .   It appears to me that the behavior of those involved changed from what I have known it to be. It changed because they perceived that immediate action was required. A deadline had to be met. Again, as with the Jesus paper, the facts surrounding the releasedo not go to the truth of the claims. In normal science, a rushed claimed might very well get the same treatment as an unrushed claim: It will be evaluated on its merits. In PNS, either the rush to meet an IPCC deadline– as in the case of the Jesus paper, or the rush to be ready for congress –as in the Watts case, is enoughfor some doubt the science.  What has been testified to in Congress by Christy, a co author, may very well be true. But in this high stakes arena, where facts are uncertain and values are in conflict, the behavior of those doing science can and does change. Not all their behavior changes. They still observe and test and report. But the manner in which they do that changes. Results are rushed and data is held in secret. Deadlines change everything. Normal science doesn’t operate this way; if it does, quality can suffer. And yet, the demand for more certainty than is needed, the bad faith game of delaying action by asking questions, precludes a naïve return to science without deadlines.

The solution that Ravetz suggests is extended peer review and a recognition of the importance of quality. In truth, the way out of a PNS situation is not that simple. The first step out of a PNS situation is the recognition that one is in the situation to begin with. Today, few people embroiled in this debate would admit that the situation has changed how they would normally behave. An admission that this isn’t working is a cultural crisis for science. No one has the standing to describe how one should conduct science in a PNS situation. No one has the standing to chart the path out of a PNS situation. The best we can do is describe what we see. Today, I observe that deadlines change the behavior of those doing science. We see that in climategate; we see that in the events of the past week. That’s doesn’t entail anything about the truth of science performed under pressure. But it should make us pause and consider if truth will be found any faster by rushing the results and hiding the data.

*I circulated a copy of this to Michael Tobis to get his reaction. MT took issue with this characterization. MT, I believe, originated the argument that our uncertainty is a reason for action. It is true that while the certainty about the science  has been a the dominant piece of the rhetoric, there has been a second thread of rhetoric that bases action in the uncertainty about sensitivity. I would call this certainty shifting. While the uncertainty about facts of sensitivity are accepted in this path of argument the certainty is shifted to certainty about values and certainty about impacts. In short, the argument becomes that while we are uncertain about sensitivity the certainty we have about large impacts and trans-generational obligations necessitates action.

Scientists struggle with limits – and risks – of advocacy (eenews.net)

Monday, July 9, 2012

Paul Voosen, E&E reporter

Jon Krosnick has seen the frustration etched into the faces of climate scientists.

For 15 years, Krosnick has charted the rising public belief in global warming. Yet, as the field’s implications became clearer, action has remained elusive. Science seemed to hit the limits of its influence. It is a result that has prompted some researchers to cross their world’s no man’s land — from advice to activism.

As Krosnick has watched climate scientists call for government action, he began pondering a recent small dip in the public’s belief. And he wondered: Could researchers’ move into the political world be undermining their scientific message?

Jon Krosnick
Stanford’s Jon Krosnick has been studying the public’s belief in climate change for 15 years, but only recently did he decide to probe their reaction to scientists’ advocacy. Photo courtesy of Jon Krosnick.

“What if a message involves two different topics, one trustworthy and one not trustworthy?” said Krosnick, a communication and psychology professor at Stanford University. “Can the general public detect crossing that line?”

His results, not yet published, would seem to say they can.

Using a national survey, Krosnick has found that, among low-income and low-education respondents, climate scientists suffered damage to their trustworthiness and credibility when they veered from describing science into calling viewers to ask the government to halt global warming. And not only did trust in the messenger fall — even the viewers’ belief in the reality of human-caused warming dropped steeply.

It is a warning that, even as the frustration of inaction mounts and the politicization of climate science deepens, researchers must be careful in getting off the political sidelines.

“The advice that comes out of this work is that all of us, when we claim to have expertise and offer opinions on matters [in the world], need to be guarded about how far we’re willing to go,” Krosnick said. Speculation, he added, “could compromise everything.”

Krosnick’s survey is just the latest social science revelation that has reordered how natural scientists understand their role in the world. Many of these lessons have stemmed from the public’s and politicians’ reactions to climate change, which has provided a case study of how science communication works and doesn’t work. Complexity, these researchers have found, does not stop at their discipline’s verge.

For decades, most members of the natural sciences held a simple belief that the public stood lost, holding out empty mental buckets for researchers to fill with knowledge, if they could only get through to them. But, it turns out, not only are those buckets already full with a mix of ideology and cultural belief, but it is incredibly fraught, and perhaps ineffective, for scientists to suggest where those contents should be tossed.

It’s been a difficult lesson for researchers.

“Many of us have been saddened that the world has done so little about it,” said Richard Somerville, a meteorologist at the Scripps Institution of Oceanography and former author of the United Nations’ authoritative report on climate change.

“A lot of physical climate scientists, myself included, have in the past not been knowledgeable about what the social sciences have been saying,” he added. “People who know a lot about the science of communication … [are] on board now. But we just don’t see that reflected in the policy process.”

While not as outspoken as NASA’s James Hansen, who has taken a high-profile moral stand alongside groups like 350.org and Greenpeace, Somerville has been a leader in bringing scientists together to call for greenhouse gas reductions. He helped organize the 2007 Bali declaration, a pointed letter from more than 200 scientists urging negotiators to limit global CO2 levels well below 450 parts per million.

Such declarations, in the end, have done little, Somerville said.

“If you look at the effect this has had on the policy process, it is very, very small,” he said.

This failed influence has spurred scientists like Somerville to partner closely with social scientists, seeking to understand why their message has failed. It is an effort that received a seal of approval this spring, when the National Academy of Sciences, the nation’s premier research body, hosted a two-day meeting on the science of science communication. Many of those sessions pivoted on public views of climate change.

It’s a discussion that’s been long overdue. When it comes to how the public learns about expert opinions, assumptions mostly rule in the sciences, said Dan Kahan, a professor of law and psychology at Yale Law School.

“Scientists are filled with conjectures that are plausible about how people make sense about information,” Kahan said, “only some fraction of which [are] correct.”

Shifting dynamic

Krosnick’s work began with a simple, hypothetical scene: NASA’s Hansen, whose scientific work on climate change is widely respected, walks into the Oval Office.

As he has since the 1980s, Hansen rattles off the inconvertible, ever-increasing evidence of human-caused climate change. It’s a stunning litany, authoritative in scope, and one the fictional president — be it a Bush or an Obama — must judge against Hansen’s scientific credentials, backed by publications and institutions of the highest order. If Hansen stops there, one might think, the case is made.

But he doesn’t stop. Hansen continues, arguing, as a citizen, for an immediate carbon tax.

“Whoa, there!” Krosnick’s president might think. “He’s crossed into my domain, and he’s out of touch with how policy works.” And if Hansen is willing to offer opinions where he lacks expertise, the president starts to wonder: “Can I trust any of his work?”

Richard Somerville
Part of Scripps’ legendary climate team — Charles David Keeling was an early mentor — Richard Somerville helped organize the 2007 Bali declaration by climate scientists, calling for government action on CO2 emissions. Photo by Sylvia Bal Somerville.

Researchers have studied the process of persuasion for 50 years, Krosnick said. Over that time, a few vital truths have emerged, including that trust in a source matters. But looking back over past work, Krosnick found no answer to this question. The treatment was simplistic. Messengers were either trustworthy or not. No one had considered the case of two messages, one trusted and one shaky, from the same person.

The advocacy of climate scientists provided an excellent path into this shifting dynamic.

Krosnick’s team hunted down video of climate scientists first discussing the science of climate change and then, in the same interview, calling for viewers to pressure the government to act on global warming. (Out of fears of bruised feelings, Krosnick won’t disclose the specific scientists cited.) They cut the video in two edits: one showing only the science, and one showing the science and then the call to arms.

Krosnick then showed a nationally representative sample of 793 Americans one of three videos: the science-only cut, the science and political cut, and a control video about baking meatloaf (The latter being closer to politics than Krosnick might admit). The viewers were then asked a series of questions both about their opinion of the scientist’s credibility and their overall beliefs on global warming.

For a cohort of 548 respondents who either had a household income under $50,000 or no more than a high school diploma, the results were stunning and statistically significant. Across the board, the move into politics undermined the science.

The viewers’ trust in the scientist dropped 16 percentage points, from 48 to 32 percent. Their belief in the scientist’s accuracy fell from 47 to 36 percent. Their overall trust in all scientists went from 60 to 52 percent. Their belief that government should “do a lot” to stop warming fell from 62 to 49 percent. And their belief that humans have caused climate change fell 14 percentage points, from 81 to 67 percent.

Krosnick is quick to note the study’s caveats. First, educated or wealthy viewers had no significant reaction to the political call and seemed able to parse the difference between science and a personal political view. The underlying reasons for the drop are far from clear, as well — it could simply be a function of climate change’s politicization. And far more testing needs to be done to see whether this applies in other contexts.

With further evidence, though, the implications could be widespread, Krosnick said.

“Is it the case that the principle might apply broadly?” he asked. “Absolutely.”

‘Fraught with misadventure’

Krosnick’s study is likely rigorous and useful — he is known for his careful methods — but it still carries with it a simple, possibly misleading frame, several scientists said.

Most of all, it remains hooked to a premise that words float straight from the scientist’s lips to the public’s ears. The idea that people learn from scientists at all or that they are simply misunderstanding scientific conclusions is not how reality works, Yale’s Kahan said.

“The thing that goes into the ear is fraught with misadventure,” he said.

Kahan has been at the forefront of charting how the empty-bucket theory of science communication — called the deficit model — fails. People interpret new information within the context of their own cultural beliefs, peers and politics. They use their reasoning to pick the evidence that supports their views, rather than the other way around. Indeed, recent work by Kahan found that higher-educated respondents were more likely to be polarized than their less-educated peers.

Krosnick’s study will surely spur new investigations, Kahan said, though he resisted definite remarks until he could see the final work. If the study’s conditions aren’t realistic, even a simple model can have “plenty of implications for all kinds of ways of which people become exposed to science,” he said.

The survey sits well with other research in the field and carries an implication about what role scientists should play in scientific debates, added Matthew Nisbet, a communication professor at American University.

“As soon as you start talking about a policy option, you’re presenting information that is potentially threatening to people’s values or identity,” he said. The public, he added, doesn’t “view scientists and scientific information in a vacuum.”

The deficit model has remained an enduring frame for scientists, many of whom are just becoming aware of social science work on the problem. Kahan compares it to the stages of grief. The first stage was that the truth just needs to be broadcast to change minds. The second, and one still influential in the scientific world, is that if the message is just simplified, the right images used, than the deficit will be filled.

“That too, I think, is a stage of misperception about how this works,” Kahan said.

Take the hand-wringing about science education that accompanied a recent poll finding that 46 percent of the United States believed in a creationist origin for humans. It’s a result that speaks to belief, not an understanding of evolution. Many surveyed who believed in evolution would still fail to explain natural selection, mutation or genetic variance, Kahan said, just as they don’t have to understand relativity to use their GPS.

Much of science doesn’t run up against the public’s belief systems and is accepted with little fuss. It’s not as if Louis Pasteur had to sell pasteurization by using slick images of children getting sick; for nearly all of society, it was simply a useful tool. People want to defer to the experts, as long as they don’t have to concede their beliefs on the way.

“People know what’s known without having a comprehension of why that’s the truth,” Kahan said.

There remains a danger in the emerging consensus that all scientific knowledge is filtered by the motivated reasoning of political and cultural ideology, Nisbet added. Not all people can be sorted by two, or even four, variables.

“In the new ideological deficit model, we tend to assume that failures in communication are caused by conservative media and conservative psychology,” he said. “The danger in this model is that we define the public in exclusively binary terms, as liberals versus conservatives, deniers versus believers.”

‘Crossing that line’

So why do climate scientists, more than most fields, cross the line into advocacy?

Most of all, it’s because their scientific work tells them the problem is so pressing, and time dependent, given the centuries-long life span of CO2 emissions, Somerville said.

“You get to the point where the emissions are large enough that you’ve run out of options,” he said. “You can no longer limit [it]. … We may be at that point already.”

There may also be less friction for scientists to suggest communal solutions to warming because, as Nisbet’s work has found, scientists tend to skew more liberal than the general population with more than 50 percent of one U.S. science society self-identifying as “liberal.” Given this outlook, they are more likely to accept efforts like cap and trade, a bill that, in implying a “cap” on activity, rubbed conservatives wrong.

Dan Kahan
A prolific law professor and psychologist at Yale, Dan Kahan has been charting how the public comes to, and understands, science. Photo courtesy of Dan Kahan.

“Not a lot of scientists would question if this is an effective policy,” Nisbet said.

It is not that scientists are unaware that they are moving into policy prescription, either. Most would intuitively know the line between their work and its political implications.

“I think many are aware when they’re crossing that line,” said Roger Pielke Jr., an environmental studies professor at the University of Colorado, Boulder, “but they’re not aware of the consequences [of] doing so.”

This willingness to cross into advocacy could also stem from the fact that it is the next logical skirmish. The battle for public opinion on the reality of human-driven climate change is already over, Pielke said, “and it’s been won … by the people calling for action.”

While there are slight fluctuations in public belief, in general a large majority of Americans side with what scientists say about the existence and causes of climate change. It’s not unanimous, he said, but it’s larger than the numbers who supported actions like the Montreal Protocol, the bank bailout or the Iraq War.

What has shifted has been its politicization: As more Republicans have begun to disbelieve global warming, Democrats have rallied to reinforce the science. And none of it is about the actual science, of course. It’s a fact Scripps’ Somerville now understands. It’s a code, speaking for fear of the policies that could happen if the science is accepted.

Doubters of warming don’t just hear the science. A policy is attached to it in their minds.

“Here’s a fact,” Pielke said. “And you have to change your entire lifestyle.”

For all the focus on how scientists talk to the public — whether Hansen has helped or hurt his cause — Yale’s Kahan ultimately thinks the discussion will mean very little. Ask most of the public who Hansen is, and they’ll mention something about the Muppets. It can be hard to accept, for scientists and journalists, but their efforts at communication are often of little consequence, he said.

“They’re not the primary source of information,” Kahan said.

‘A credible voice’

Like many of his peers, Somerville has suffered for his acts of advocacy.

“We all get hate email,” he said. “I’ve given congressional testimony and been denounced as an arrogant elitist hiding behind a discredited organization. Every time I’m on national news, I get a spike in ugly email. … I’ve received death threats.”

There are also pressures within the scientific community. As an elder statesman, Somerville does not have to worry about his career. But he tells young scientists to keep their heads down, working on technical papers. There is peer pressure to stay out of politics, a tension felt even by Somerville’s friend, the late Stephen Schneider, also at Stanford, who was long one of the country’s premier speakers on climate science.

He was publicly lauded, but many in the climate science community grumbled, Somerville said, that Schneider should “stop being a motormouth and start publishing technical papers.”

But there is a reason tradition has sustained the distinction between advising policymakers and picking solutions, one Krosnick’s work seems to ratify, said Michael Mann, a climatologist at Pennsylvania State University and a longtime target of climate contrarians.

“It is thoroughly appropriate, as a scientist, to discuss how our scientific understanding informs matters of policy, but … we should stop short of trying to prescribe policy,” Mann said. “This distinction is, in my view, absolutely critical.”

Somerville still supports the right of scientists to speak out as concerned citizens, as he has done, and as his friend, NASA’s Hansen, has done more stridently, protesting projects like the Keystone XL pipeline. As long as great care is taken to separate the facts from the political opinion, scientists should speak their minds.

“I don’t think being a scientist deprives you of the right to have a viewpoint,” he said.

Somerville often returns to a quote from the late Sherwood Rowland, a Nobel laureate from the University of California, Irvine, who discovered the threat chlorofluorocarbons posed to ozone: “What’s the use of having developed a science well enough to make predictions if, in the end, all we’re willing to do is stand around and wait for them to come true?”

Somerville asked Rowland several times whether the same held for global warming.

“Yes, absolutely,” he replied.

It’s an argument that Krosnick has heard from his own friends in climate science. But often this fine distinction gets lost in translation, as advocacy groups present the scientist’s personal message as the message of “science.” It’s luring to offer advice — Krosnick feels it himself when reporters call — but restraint may need to rule.

“In order to preserve a credible voice in public dialogue,” Krosnick said, “it might be that scientists such as myself need to restrain ourselves as speaking as public citizens.”

Broader efforts of communication, beyond scientists, could still mobilize the public, Nisbet said. Leave aside the third of the population who are in denial or alarmed about climate change, he said, and figure out how to make it relevant to the ambivalent middle.

“We have yet to really do that on climate change,” he said.

Somerville is continuing his efforts to improve communication from scientists. Another Bali declaration is unlikely, though. What he’d really like to do is get trusted messengers from different moral realms beyond science — leaders like the Dalai Lama — to speak repeatedly on climate change.

It’s all Somerville can do. It would be too painful to accept the other option, that climate change is like racism, war or poverty — problems the world has never abolished.

“[It] may well be that it is a problem that is too difficult for humanity to solve,” he said.

Mário Scheffer: “Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/Aids” (viomundo.com.br)

31 de julho de 2012

por Conceição Lemes

Mário Scheffer: “A condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância”

Terminou nesta sexta-feira, em Washington, Estados Unidos, a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. O Programa Nacional de DST/Aids, que até então era festejado e apontado como modelo para o mundo, sofreu críticas de especialistas durante toda a semana.

“A história de sucesso do programa brasileiro de aids entrou em declínio por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil”, avalia Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, EUA. “Historicamente, o programa brasileiro de aids tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar as populações difíceis de atingir.”

“O aumento da pressão de grupos religiosos e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-aids”, pondera Massimo Ghidinelli, coordenador de Aids/HIV da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Parece que, nos últimos anos, os grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade.”

Ontem, quinta-feira 26, ativistas brasileiros presentes à 19ª Conferência Internacional de Aids, em Washington, protestaram em frente ao estande do Ministério da Saúde contra o que definem como “retrocesso na resposta contra a epidemia”. O objetivo, segundo eles, foi mostrar ao mundo que o País “não é mais o mesmo” e “vive do sucesso do passado” no enfrentamento da doença.

“Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs e ativistas brasileiros. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados”, observa Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. “O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas. Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/aids.”

Ativista há mais de 20 anos e também professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Mário acompanha a epidemia de HIV/Aids desde o seu início nos anos 80. Além do olhar afiado e da expertise em saúde pública, ele conhece bem toda a trajetória do Programa Nacional de DST/Aids. Daí esta nossa entrevista:

Viomundo – Começou no domingo (22) e terminou hoje (27) em Washington a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. No decorrer da semana, foram feitas várias críticas ao momento atual do programa brasileiro de aids. Você concorda com elas?

Mário Scheffer – Com certeza. Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs brasileiras. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados. Elas são a prova maior de que o programa brasileiro não é mais a principal referência internacional, perdemos a liderança e o ineditismo, não ousamos mais nas respostas excepcionais que marcaram nossa história de combate à aids.

Viomundo – As ONGs de aids sempre tiveram boa interlocução com o Ministério da Saúde. O que aconteceu?

Mário Scheffer — As ONGs e os ativistas pioneiros que são obviamente mais críticos não são mais ouvidos. O governo atualmente elege os interlocutores que lhes são mais convenientes e deslegitima muitos daqueles que deram contribuições históricas.

Sinal de que as coisas não vão nada bem por aqui é que tanto a crítica ao programa quanto o reconhecimento às ONGs e aos ativistas brasileiros têm que vir de fora.

Aliás, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em seu discurso na abertura da Conferência Internacional de Aids, domingo passado em Washington, fez um vigoroso elogio aos ativistas e citou especificamente as ONGs brasileiras. Disse que se hoje é possível falar em controle da epidemia e vislumbrar o seu fim, isso se deve fundamentalmente às ações desses ativistas.

Viomundo –  ONGs de aids estão fechando as portas no Brasil. Por quê?

Mário Scheffer – Vários motivos. Crise de pessoal, financeira, de sustentabilidade, não têm sede física, não têm dinheiro para pagar aluguel e telefone, têm que compor diretorias com apenas três pessoas  porque não há mais gente disponível. Também não conseguem mais montar  equipes para executar projetos, para chegar até as populações vulneráveis, o que só as ONGs são capazes de fazer.

Em outras palavras: algumas ONGs estão fechando as portas, como você disse. Mas está havendo também retração das atividades de todas elas.

Viomundo – Mas as críticas não se devem apenas à crise financeira e de pessoal das ONGs de aids?

Mário Scheffer – Essa é apenas uma das pontas da crise sem precedentes da resposta brasileira à epidemia, que também perdeu tecnicamente. Além disso, não há sensibilidade nem determinação do governo para perceber e para contribuir com a superação da crise das ONGs. Pelo contrário. Atualmente há uma crise política de relacionamento e mesmo de desprezo pela história das ONGs. O governo federal tem feito a opção — e isso não é só na área de aids — pela relação paroquial com a sociedade civil, uma política de cooptação e quebra-galho. Não ha mais crítica nem debate qualificado de ideias. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas.

Viomundo – Quais?

Mário Scheffer – Primeiro, perdemos a força do trabalho voluntário por meio do qual as pessoas participavam de nossas ONGs, exprimiam sua solidariedade, doavam tempo, trabalho e talento para a luta contra a aids. Não é mais uma causa mobilizadora e isso tem a ver com a imagem trabalhada pelo governo de que temos o melhor programa do mundo e que por aqui está tudo resolvido.

Segundo, com a ascensão das ONGs picaretas e bandidas, criadas para alimentar a corrupção em vários ministérios, cresceu o preconceito e foram impostas mais barreiras para as organizações sérias, que já tinham dificuldade em acessar recursos públicos.

Desde que realizado com critério, transparência, concorrência pública e rigorosa prestação de contas, as ONGs deveriam ter o direito de acessar fundos públicos para exercer o controle, a fiscalização e a participação nas políticas públicas, como acontece em várias democracias.

Terceiro, diante da imagem de que o Brasil hoje é um país rico e resolveu o problema da aids (o que não é verdade), acabou o apoio internacional às ONGs brasileiras de aids.

Resultado: sem ajuda de comunidades e empresas e com uma causa que não toca mais o coração de doadores e voluntários, passamos a viver a dificuldade crescente de assegurar recursos institucionais para a manutenção das ONGs. Com isso, arrefeceu o nosso ativismo e controle sobre as políticas públicas.

Viomundo – E os financiamentos governamentais vinculados a projetos?

Mário Scheffer – Eles fazem parte de um modelo esgotado em que as ONGs de aids foram reduzidas a mão de obra barata para prestação de serviços que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde não conseguem realizar. Não bastasse isso, muitas vezes estados e municípios não repassam esse recursos às ONGs e quando o fazem, não há continuidade nem avaliação da eficácia das ações financiadas.

Viomundo – Um pouco atrás você falou que o programa brasileiro de aids perdeu tecnicamente. Em que medida? 

Mário Scheffer — Não houve renovação nem atualização dos quadros técnicos. Os desafios hoje são outros, mas a condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância. Sem a força e a autonomia de outrora, os programas de aids —  o nacional e vários estaduais e municipais — estão isolados e enfraquecidos politicamente dentro dos governos.

Em São Paulo, por exemplo, muitos serviços municipais de aids estão sem médicos,   os estaduais, superlotados, sendo privatizados, fechando leitos, e os programas de aids sem nenhuma governabilidade sobre isso.

Já o programa nacional nem sequer dá mais as fichas sobre a produção nacional de antirretrovirais genéricos. Hoje é um processo sem transparência. O Ministério da Saúde não dá um passo sem o amém da Casa Civil e dos fundamentalistas religiosos que integram a base governista, o que emperra programas de prevenção de aids.

Viomundo – O que ONGs e ativistas da área de aids querem?

Mário Scheffer — Queremos ser respeitados e ouvidos mas em novos patamares de relacionamento. Ninguém desistiu da luta. Nossas ONGs querem continuar atuando nas diversas frentes, na prevenção, na assistência das casas de apoio, nas assessorias jurídicas, na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV. Queremos continuar fazendo o mesmo ativismo que nos levou a conquistar o acesso universal aos medicamentos, derrubar patentes, lutar contra a exclusão de coberturas pelos planos de saúde privados, acessar os vulneráveis e alçá-los à condição de cidadãos.

O mesmo ativismo que nos leva a apontar que, diferentemente do que dizem, o acesso aos antirretrovirais no Brasil não é universal, pois o diagnóstico tardio é altíssimo e ainda existem desabastecimentos ocasionais. Que nos leva a dizer que não existe política de prevenção adequada a um perfil de epidemia concentrada em certas populações, como os homossexuais, atualmente os maiores negligenciados de prevenção em aids no Brasil.

Hoje estão ameaçados princípios essenciais que forjaram o combate à aids no Brasil, que um dia chegou a quebrar barreiras e tabus. Essa ousadia necessária deu lugar a um programa sem vida, covarde, que promove autocensura, se alinha com forças retrógradas, como no caso recente da campanha dirigida aos gays.

Um programa que se debruça sobre glórias do passado e exibe uma real incapacidade , lentidão e perda da capacidade técnica e política . Não tem conseguido dar respostas à altura das novas dinâmicas e desafios da epidemia e a comunidade internacional passou a perceber isso.

Neste momento de grandes mudanças, com esperança concreta da cura e controle da aids, novas armas para prevenção, necessidade de ampliarmos a oferta de testagem e tratamento a todos os infectados, o Brasil está paralisado, com seus indicadores de mortalidade e de novas infecções pelo HIV estacionados. O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional.

The Conversion of a Climate-Change Skeptic (N.Y.Times)

OP-ED CONTRIBUTOR

By RICHARD A. MULLER

Published: July 28, 2012

Berkeley, Calif.

CALL me a converted skeptic. Three years ago I identified problems in previous climate studies that, in my mind, threw doubt on the very existence of global warming. Last year, following an intensive research effort involving a dozen scientists, I concluded that global warming was real and that the prior estimates of the rate of warming were correct. I’m now going a step further: Humans are almost entirely the cause.

My total turnaround, in such a short time, is the result of careful and objective analysis by the Berkeley Earth Surface Temperature project, which I founded with my daughter Elizabeth. Our results show that the average temperature of the earth’s land has risen by two and a half degrees Fahrenheit over the past 250 years, including an increase of one and a half degrees over the most recent 50 years. Moreover, it appears likely that essentially all of this increase results from the human emission of greenhouse gases.

These findings are stronger than those of the Intergovernmental Panel on Climate Change, the United Nations group that defines the scientific and diplomatic consensus on global warming. In its 2007 report, the I.P.C.C. concluded only that most of the warming of the prior 50 years could be attributed to humans. It was possible, according to the I.P.C.C. consensus statement, that the warming before 1956 could be because of changes in solar activity, and that even a substantial part of the more recent warming could be natural.

Our Berkeley Earth approach used sophisticated statistical methods developed largely by our lead scientist, Robert Rohde, which allowed us to determine earth land temperature much further back in time. We carefully studied issues raised by skeptics: biases from urban heating (we duplicated our results using rural data alone), from data selection (prior groups selected fewer than 20 percent of the available temperature stations; we used virtually 100 percent), from poor station quality (we separately analyzed good stations and poor ones) and from human intervention and data adjustment (our work is completely automated and hands-off). In our papers we demonstrate that none of these potentially troublesome effects unduly biased our conclusions.

The historic temperature pattern we observed has abrupt dips that match the emissions of known explosive volcanic eruptions; the particulates from such events reflect sunlight, make for beautiful sunsets and cool the earth’s surface for a few years. There are small, rapid variations attributable to El Niño and other ocean currents such as the Gulf Stream; because of such oscillations, the “flattening” of the recent temperature rise that some people claim is not, in our view, statistically significant. What has caused the gradual but systematic rise of two and a half degrees? We tried fitting the shape to simple math functions (exponentials, polynomials), to solar activity and even to rising functions like world population. By far the best match was to the record of atmospheric carbon dioxide, measured from atmospheric samples and air trapped in polar ice.

Just as important, our record is long enough that we could search for the fingerprint of solar variability, based on the historical record of sunspots. That fingerprint is absent. Although the I.P.C.C. allowed for the possibility that variations in sunlight could have ended the “Little Ice Age,” a period of cooling from the 14th century to about 1850, our data argues strongly that the temperature rise of the past 250 years cannot be attributed to solar changes. This conclusion is, in retrospect, not too surprising; we’ve learned from satellite measurements that solar activity changes the brightness of the sun very little.

How definite is the attribution to humans? The carbon dioxide curve gives a better match than anything else we’ve tried. Its magnitude is consistent with the calculated greenhouse effect — extra warming from trapped heat radiation. These facts don’t prove causality and they shouldn’t end skepticism, but they raise the bar: to be considered seriously, an alternative explanation must match the data at least as well as carbon dioxide does. Adding methane, a second greenhouse gas, to our analysis doesn’t change the results. Moreover, our analysis does not depend on large, complex global climate models, the huge computer programs that are notorious for their hidden assumptions and adjustable parameters. Our result is based simply on the close agreement between the shape of the observed temperature rise and the known greenhouse gas increase.

It’s a scientist’s duty to be properly skeptical. I still find that much, if not most, of what is attributed to climate change is speculative, exaggerated or just plain wrong. I’ve analyzed some of the most alarmist claims, and my skepticism about them hasn’t changed.

Hurricane Katrina cannot be attributed to global warming. The number of hurricanes hitting the United States has been going down, not up; likewise for intense tornadoes. Polar bears aren’t dying from receding ice, and the Himalayan glaciers aren’t going to melt by 2035. And it’s possible that we are currently no warmer than we were a thousand years ago, during the “Medieval Warm Period” or “Medieval Optimum,” an interval of warm conditions known from historical records and indirect evidence like tree rings. And the recent warm spell in the United States happens to be more than offset by cooling elsewhere in the world, so its link to “global” warming is weaker than tenuous.

The careful analysis by our team is laid out in five scientific papers now online atBerkeleyEarth.org. That site also shows our chart of temperature from 1753 to the present, with its clear fingerprint of volcanoes and carbon dioxide, but containing no component that matches solar activity. Four of our papers have undergone extensive scrutiny by the scientific community, and the newest, a paper with the analysis of the human component, is now posted, along with the data and computer programs used. Such transparency is the heart of the scientific method; if you find our conclusions implausible, tell us of any errors of data or analysis.

What about the future? As carbon dioxide emissions increase, the temperature should continue to rise. I expect the rate of warming to proceed at a steady pace, about one and a half degrees over land in the next 50 years, less if the oceans are included. But if China continues its rapid economic growth (it has averaged 10 percent per year over the last 20 years) and its vast use of coal (it typically adds one new gigawatt per month), then that same warming could take place in less than 20 years.

Science is that narrow realm of knowledge that, in principle, is universally accepted. I embarked on this analysis to answer questions that, to my mind, had not been answered. I hope that the Berkeley Earth analysis will help settle the scientific debate regarding global warming and its human causes. Then comes the difficult part: agreeing across the political and diplomatic spectrum about what can and should be done.

Richard A. Muller, a professor of physics at the University of California, Berkeley, and a former MacArthur Foundation fellow, is the author, most recently, of “Energy for Future Presidents: The Science Behind the Headlines.”

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Climate change study forces sceptical scientists to change minds (The Guardian)

Earth’s land shown to have warmed by 1.5C over past 250 years, with humans being almost entirely responsible

Leo Hickman
guardian.co.uk, Sunday 29 July 2012 14.03 BST

Prof Richard MullerProf Richard Muller considers himself a converted sceptic following the study’s surprise results. Photograph: Dan Tuffs for the Guardian

The Earth’s land has warmed by 1.5C over the past 250 years and “humans are almost entirely the cause”, according to a scientific study set up to address climate change sceptics’ concerns about whether human-induced global warming is occurring.

Prof Richard Muller, a physicist and climate change sceptic who founded the Berkeley Earth Surface Temperature (Best) project, said he was surprised by the findings. “We were not expecting this, but as scientists, it is our duty to let the evidence change our minds.” He added that he now considers himself a “converted sceptic” and his views had undergone a “total turnaround” in a short space of time.

“Our results show that the average temperature of the Earth’s land has risen by 2.5F over the past 250 years, including an increase of 1.5 degrees over the most recent 50 years. Moreover, it appears likely that essentially all of this increase results from the human emission of greenhouse gases,” Muller wrote in an opinion piece for the New York Times.

Can scientists in California end the war on climate change?
Study finds no grounds for climate sceptics’ concerns
Video: Berkeley Earth tracks climate change
Are climate sceptics more likely to be conspiracy theorists?

The team of scientists based at the University of California, Berkeley, gathered and merged a collection of 14.4m land temperature observations from 44,455 sites across the world dating back to 1753. Previous data sets created by Nasa, the US National Oceanic and Atmospheric Administration, and the Met Office and the University of East Anglia’s climate research unit only went back to the mid-1800s and used a fifth as many weather station records.

The funding for the project included $150,000 from the Charles G Koch Charitable Foundation, set up by the billionaire US coal magnate and key backer of the climate-sceptic Heartland Institute thinktank. The research also received $100,000 from the Fund for Innovative Climate and Energy Research, which was created by Bill Gates.

Unlike previous efforts, the temperature data from various sources was not homogenised by hand – a key criticism by climate sceptics. Instead, the statistical analysis was “completely automated to reduce human bias”. The Best team concluded that, despite their deeper analysis, their own findings closely matched the previous temperature reconstructions, “but with reduced uncertainty”.

Last October, the Best team published results that showed the average global land temperature has risen by about 1C since the mid-1950s. But the team did not look for possible fingerprints to explain this warming. The latest data analysis reached much further back in time but, crucially, also searched for the most likely cause of the rise by plotting the upward temperature curve against suspected “forcings”. It analysed the warming impact of solar activity – a popular theory among climate sceptics – but found that, over the past 250 years, the contribution of the sun has been “consistent with zero”. Volcanic eruptions were found to have caused short dips in the temperature rise in the period 1750–1850, but “only weak analogues” in the 20th century.

“Much to my surprise, by far the best match came to the record of atmospheric carbon dioxide, measured from atmospheric samples and air trapped in polar ice,” said Muller. “While this doesn’t prove that global warming is caused by human greenhouse gases, it is currently the best explanation we have found, and sets the bar for alternative explanations.”

Muller said his team’s findings went further and were stronger than the latest report published by the Intergovernmental Panel on ClimateChange.

In an unconventional move aimed at appeasing climate sceptics by allowing “full transparency”, the results have been publicly released before being peer reviewed by the Journal of Geophysical Research. All the data and analysis is now available to be freely scrutinised at the Bestwebsite. This follows the pattern of previous Best results, none of which have yet been published in peer-reviewed journals.

When the Best project was announced last year, the prominent climate sceptic blogger Anthony Watts was consulted on the methodology. He stated at the time: “I’m prepared to accept whatever result they produce, even if it proves my premise wrong.” However, tensions have since arisen between Watts and Muller.

Early indications suggest that climate sceptics are unlikely to fully accept Best’s latest results. Prof Judith Curry, a climatologist at the Georgia Institute of Technology who runs a blog popular with climate sceptics and who is a consulting member of the Best team, told the Guardian that the method used to attribute the warming to human emissions was “way over-simplistic and not at all convincing in my opinion”. She added: “I don’t think this question can be answered by the simple curve fitting used in this paper, and I don’t see that their paper adds anything to our understanding of the causes of the recent warming.”

Prof Michael Mann, the Penn State palaeoclimatologist who has faced hostility from climate sceptics for his famous “hockey stick” graph showing a rapid rise in temperatures during the 20th century, said he welcomed the Best results as they “demonstrated once again what scientists have known with some degree of certainty for nearly two decades”. He added: “I applaud Muller and his colleagues for acting as any good scientists would, following where their analyses led them, without regard for the possible political repercussions. They are certain to be attacked by the professional climate change denial crowd for their findings.”

Muller said his team’s analysis suggested there would be 1.5 degrees of warming over land in the next 50 years, but if China continues its rapid economic growth and its vast use of coal then that same warming could take place in less than 20 years.

“Science is that narrow realm of knowledge that, in principle, is universally accepted,” wrote Muller. “I embarked on this analysis to answer questions that, to my mind, had not been answered. I hope that the Berkeley Earth analysis will help settle the scientific debate regarding global warming and its human causes. Then comes the difficult part: agreeing across the political and diplomatic spectrum about what can and should be done.”

Climate Change and the Next U.S. Revolution (ZNet)

Thursday, July 26, 2012

The U.S. heat wave is slowly shaking the foundations of American politics. It may take years for the deep rumble to evolve into an above ground, institution-shattering earthquake, but U.S. society has changed for good.

The heat wave has helped convince tens of millions of Americans that climate change is real, overpowering the fake science and right-wing media – funded by corporate cash – to convince Americans otherwise.

Republicans and Democrats alike also erect roadblocks to understanding climate change. By the politicians’ complete lack of action towards addressing the issue, the “climate change is fake” movement was strengthened, since Americans presumed that any sane government would be actively trying to address an issue that had the potential to destroy civilization.

But working people have finally made up their mind. A recent poll showed that 70 percent of Americans now believe that climate change is real, up from 52 percent in 2010. And a growing number of people are recognizing that the warming of the planet is caused by human activity.

Business Week explains: “A record heat wave, drought and catastrophic wildfires are accomplishing what climate scientists could not: convincing a wide swath of Americans that global temperatures are rising.”

This means that working class families throughout the Midwest and southern states simply don’t believe what their media and politicians are telling them.

It also implies that these millions of Americans are being further politicized in a deeper sense.

Believing that climate change exists implies that you are somewhat aware about the massive consequences to humanity if the global economy doesn’t drastically change, and fast.

This awareness has revolutionary implications. As millions of Americans watch the environment destroyed – for their grandchildren or themselves – while politicians do absolutely nothing in response, or make tiny token gestures – a growing number of Americans will demand political alternatives, and fight to see them created. The American political system as it exists today cannot cope with this inevitable happening.

The New York Times explains why: “…the American political system is not ready to agree to a [climate] treaty that would force the United States, over time, to accept profound changes in its energy [coal, oil], transport [trucking and airline industry] and manufacturing [corporate] sectors.”

In short, the U.S. government will not force corporations to make less profit by behaving more eco-friendly. This is the essence of the problem.

In order for humanity to survive climate change, the economy must be radically transformed; massive investments must be made in renewable energy, public transportation, and recycling, while dirty energy sources must be quickly swept into the dustbin of history.

But the economy is currently owned by giant, privately run corporations, that will continue destroying the earth if it earns them huge profits, and they make massive “contributions” to political parties to ensure this remains so. It’s becoming increasingly obvious that government inaction on climate change is directly linked to the “special interests” of corporations that dominate these governments.

This fact of U.S. politics is present in every other capitalist country as well, which means that international agreements on reducing greenhouse gasses will remain impossible, as each country’s corporations vie for market domination, reducing pollution simply puts them at a competitive disadvantage.

This dynamic has already caused massive delays in the UN’s already inadequate efforts at addressing climate change. The Kyoto climate agreement was the by-product of years of cooperation and planning between many nations that included legally binding agreements to reduce greenhouse gasses. The Bush and Obama administrations helped destroy these efforts.

For example, Instead of building upon the foundation of the Kyoto Protocol, the Obama administration demanded a whole new structure, something that would take years to achieve. The Kyoto framework (itself insufficient) was abandoned because it included legally binding agreements, and was based on multilateral, agreed-upon reductions of greenhouse gasses.

In an article by the Guardian entitled “US Planning to Weaken Copenhagen Climate Deal,” the Obama administration’s UN position is exposed, as he dismisses the Kyoto Protocol by proposing that “…each country set its own rules and to decide unilaterally how to meet its target.”
Obama’s proposal came straight from the mouth of U.S. corporations, who wanted to ensure that there was zero accountability, zero oversight, zero climate progress, and therefore no dent to their profits. Instead of using its massive international leverage for climate justice, the U.S. has used it to promote divisiveness and inaction, to the potential detriment of billions of people globally.

The stakes are too high to hold out any hope that governments will act boldly. The Business Week article below explains the profound changes happening to the climate:

“The average temperature for the U.S. during June was 71.2 degrees Fahrenheit (21.7 Celsius), which is 2 degrees higher than the average for the 20th century, according to the National Oceanic and Atmospheric Administration. The June temperatures made the preceding 12 months the warmest since record-keeping began in 1895, the government agency said.”

Activists who are radicalized by this global problem face a crisis of what to do about it. It is difficult to put forth a positive climate change demand, since the problem is global.  Demanding that governments “act boldly” to address climate change hasn’t worked, and lesser demands seem inadequate.

The environmental rights movement continues to go through a variety of phases: individual and small group eco-“terrorism,” causing property damage to environmentally damaging companies; corporate campaigns that target especially bad polluters with high-profile direct action; and massive education programs that have been highly successful, but fall short when it comes to winning change.

Ultimately, climate activists must come face to face with political and corporate power. Corporate-owned governments are the ones with the power to adequately address the climate change issue, and they will not be swayed by good science, common sense, basic decency, or even a torched planet.

Those in power only respond to power, and the only power capable of displacing corporate power is when people unite and act collectively, as was done in Egypt, Tunisia, and is still developing throughout Europe.

Climate groups cannot view their issue as separate from other groups that are organizing against corporate power. The social movements that have emerged to battle austerity measures are natural allies, as are anti-war and labor activists. The climate solution will inevitably require revolutionary measures, which first requires that alliances and demands are put forward that unite Labor, working people in general, community, and student groups towards collective action.

One possible immediate demand is for environmental activists to unite with Labor groups over a federal jobs program, paid for by taxing the rich, that makes massive investments in jobs that are climate related, such as solar panel production, transportation, building recycling centers, home retro-fitting, etc.

Another demand could be to insist that the government convene the most knowledgeable scientists in the area of clean energy. These scientists should be given all the resources they need in order to collectively create alternative sources of clean energy that would allow for a realistic alternative to the current polluting and toxic sources of energy.

However, any type of immediate demand will meet giant corporate resistance from both political parties. Fighting for a uniting demand will thus strengthen the movement, and for this reason it is important to link climate solutions to the creation of jobs, which are the number one concern of most Americans. This unity will in turn lead allies toward a deeper understanding of the problem, and therefore deeper solutions will emerge that challenge the whole economic structure that is deaf to the needs of humans and the climate and sacrifices everything to the private profit of a few.

Shamus Cooke is a social service worker, trade unionist, and writer for Workers Action (www.workerscompass.org). He can be reached at shamuscooke@gmail.com

http://www.businessweek.com/news/2012-07-18/record-heat-wave-pushes-u-dot-s-dot-belief-in-climate-change-to-70-percent

http://www.nytimes.com/2009/12/13/weekinreview/13broder.html

http://www.guardian.co.uk/environment/2009/sep/15/europe-us-copenhagen