Arquivo anual: 2013

Não é hora de sair do movimento (uninomade.net)

Por Giuseppe Cocco, no facebook

22/06/2013

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Esquematicamente, faço um balanço depois das manifestações de quinta-feira, 20 de junho de 2013, a partir da experiência no Rio de Janeiro:

1) A partir de ontem o movimento pelo passe livre “passou” a ser outra coisa. Realmente monstruosa e o monstro é horrível e belo ao mesmo tempo.

2) Essa outra coisa ninguém sabe o que é e está totalmente em disputa.

O fato que as agremiações de esquerda tenham sido agredidas não significa que o movimento seja de direita. Foram agredidas por pequenos grupos, mas no meio de uma hostilidade geral à politica, ao mesmo tempo em que as organizações populares passeavam tranquilamente.

O que é certo é que o movimento coloca em crise todas as representações políticas e os planos de governo, político-partidários, eleitorais etc.

A grande mídia e a direita estão jogando pesado. Pra começar, é preciso entender quem agrediu.

O PT subavaliou e subavalia o custo de se manter em coalizões espúrias, de pensar que poderia resolver tudo desde cima, com base no neodesenvolvimentismo e nas técnicas gerenciais e de marketing eleitoral. O PT poderia perceber que tudo isso entrou em pane e se faz necessário inovar. Rapidamente! Dar sinais fortes disso.

3) O campo progressista passa – ele todo – inclusive a oposição de esquerda e o setores multitudinários do movimento, por três desafios e armadilhas:

a) O campo de governo (o PT) não tem um plano B. A atuação do Haddad admitindo um recuo junto ao Alckmin é desastrosa: amplifica a sensação: direita e esquerda são a mesma coisa. Uma sensação difusa, que não se materializava eleitoralmente, mas agora explodiu. Aí, o governo espera que “passe”, só que não passa e o monstro continua lá.

b) Diante do imobilismo do governo federal, o campo do PT está tentado (sobretudo depois de ontem) em polarizar em torno do golpismo e, ao invés de ira para dentro do movimento, com base no que deveria ser uma franca abertura — por exempo, colocando um Paulo Vannucchi no MJ, um Célio Turino no MinC, uma Ermínia Maricato nos Transportes e Cidade (ministerios unificados), — declarando moratória geral sobre preços dos transportes, aberturas de assembleias de participação em todos os territorios etc etc.

c) Decretar a idiotice que todo o movimento é direita, além de ser uma inverdade, é entregá-lo nas mãos do golpismo e da direita. Entre esses indigentes políticos do PT, há aqueles que pedem repressão. Não dá nem para acreditar. E não se trata apenas de um princípio, mas do óbvio que a repressão quem faz e quem se aproveita é a direita. É só ler O Globo do dia seguinte, depois que PM gazeou todo mundo ontem até a meia-noite.

Aqueles que “fazem multidão” dentro do movimento tem o desafio nada simples de se organizar para entender que a radicalização é democrática e passa também por dentro do movimento. Criticar – inclusive radicalmente – a Copa e as Olimpíadas de Cabral e Paes, os símbolos do poder e não estar preocupado com a proliferação de cartazes e comportamentos fascistas NAS manifestações está virando uma outra forma de idiotice.

Isto significa que é preciso passar a criticar a forma-manifestação e – com base no recuo geral dos preços das passagens – propor outras coisas que propiciem processos instituintes.

Agora, tudo isso passa hoje por dentro das manifestações. É ali que é preciso fazer essa batalha política, e está tudo muito complicado. Mas é aí, dentro do movimento, que a democracia precisa avançar.

Divulgue na rede

NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others (Guardian)

• Top-secret Prism program claims direct access to servers of firms including Google, Apple and Facebook
• Companies deny any knowledge of program in operation since 2007
• Obama orders US to draw up overseas target list for cyber-attacks
Glenn Greenwald and Ewen MacAskill
The Guardian, Friday 7 June 2013
Prism

A slide depicting the top-secret PRISM program.

The National Security Agency has obtained direct access to the systems of Google, Facebook, Apple and other US internet giants, according to a top secret document obtained by the Guardian.

The NSA access is part of a previously undisclosed program calledPrism, which allows officials to collect material including search history, the content of emails, file transfers and live chats, the document says.

The Guardian has verified the authenticity of the document, a 41-slide PowerPoint presentation – classified as top secret with no distribution to foreign allies – which was apparently used to train intelligence operatives on the capabilities of the program. The document claims “collection directly from the servers” of major US service providers.

Although the presentation claims the program is run with the assistance of the companies, all those who responded to a Guardian request for comment on Thursday denied knowledge of any such program.

In a statement, Google said: “Google cares deeply about the security of our users’ data. We disclose user data to government in accordance with the law, and we review all such requests carefully. From time to time, people allege that we have created a government ‘back door’ into our systems, but Google does not have a back door for the government to access private user data.”

Several senior tech executives insisted that they had no knowledge ofPrism or of any similar scheme. They said they would never have been involved in such a program. “If they are doing this, they are doing it without our knowledge,” one said.

An Apple spokesman said it had “never heard” of Prism.

The NSA access was enabled by changes to US surveillance law introduced under President Bush and renewed under Obama in December 2012.

PrismThe program facilitates extensive, in-depth surveillance on live communications and stored information. The law allows for the targeting of any customers of participating firms who live outside the US, or those Americans whose communications include people outside the US.

It also opens the possibility of communications made entirely within the US being collected without warrants.

Disclosure of the Prism program follows a leak to the Guardian on Wednesday of a top-secret court order compelling telecoms provider Verizon to turn over the telephone records of millions of US customers.

The participation of the internet companies in Prism will add to the debate, ignited by the Verizon revelation, about the scale of surveillance by the intelligence services. Unlike the collection of those call records, this surveillance can include the content of communications and not just the metadata.

Some of the world’s largest internet brands are claimed to be part of the information-sharing program since its introduction in 2007. Microsoft – which is currently running an advertising campaign with the slogan “Yourprivacy is our priority” – was the first, with collection beginning in December 2007.

It was followed by Yahoo in 2008; Google, Facebook and PalTalk in 2009; YouTube in 2010; Skype and AOL in 2011; and finally Apple, which joined the program in 2012. The program is continuing to expand, with other providers due to come online.

Collectively, the companies cover the vast majority of online email, search, video and communications networks.

Prism 

The extent and nature of the data collected from each company varies.

Companies are legally obliged to comply with requests for users’ communications under US law, but the Prism program allows the intelligence services direct access to the companies’ servers. The NSAdocument notes the operations have “assistance of communications providers in the US”.

The revelation also supports concerns raised by several US senators during the renewal of the Fisa Amendments Act in December 2012, who warned about the scale of surveillance the law might enable, and shortcomings in the safeguards it introduces.

When the FAA was first enacted, defenders of the statute argued that a significant check on abuse would be the NSA’s inability to obtain electronic communications without the consent of the telecom and internet companies that control the data. But the Prism program renders that consent unnecessary, as it allows the agency to directly and unilaterally seize the communications off the companies’ servers.

A chart prepared by the NSA, contained within the top-secret document obtained by the Guardian, underscores the breadth of the data it is able to obtain: email, video and voice chat, videos, photos, voice-over-IP (Skype, for example) chats, file transfers, social networking details, and more.

PRISM slide crop
The document is recent, dating to April 2013. Such a leak is extremely rare in the history of the NSA, which prides itself on maintaining a high level of secrecy.

The Prism program allows the NSA, the world’s largest surveillance organisation, to obtain targeted communications without having to request them from the service providers and without having to obtain individual court orders.

With this program, the NSA is able to reach directly into the servers of the participating companies and obtain both stored communications as well as perform real-time collection on targeted users.

The presentation claims Prism was introduced to overcome what the NSAregarded as shortcomings of Fisa warrants in tracking suspected foreign terrorists. It noted that the US has a “home-field advantage” due to housing much of the internet’s architecture. But the presentation claimed “Fisa constraints restricted our home-field advantage” because Fisa required individual warrants and confirmations that both the sender and receiver of a communication were outside the US.

“Fisa was broken because it provided privacy protections to people who were not entitled to them,” the presentation claimed. “It took a Fisa courtorder to collect on foreigners overseas who were communicating with other foreigners overseas simply because the government was collecting off a wire in the United States. There were too many email accounts to be practical to seek Fisas for all.”

The new measures introduced in the FAA redefines “electronic surveillance” to exclude anyone “reasonably believed” to be outside the USA – a technical change which reduces the bar to initiating surveillance.

The act also gives the director of national intelligence and the attorney general power to permit obtaining intelligence information, and indemnifies internet companies against any actions arising as a result of co-operating with authorities’ requests.

In short, where previously the NSA needed individual authorisations, and confirmation that all parties were outside the USA, they now need only reasonable suspicion that one of the parties was outside the country at the time of the records were collected by the NSA.

The document also shows the FBI acts as an intermediary between other agencies and the tech companies, and stresses its reliance on the participation of US internet firms, claiming “access is 100% dependent on ISP provisioning”.

In the document, the NSA hails the Prism program as “one of the most valuable, unique and productive accesses for NSA”.

It boasts of what it calls “strong growth” in its use of the Prism program to obtain communications. The document highlights the number of obtained communications increased in 2012 by 248% for Skype – leading the notes to remark there was “exponential growth in Skype reporting; looks like the word is getting out about our capability against Skype”. There was also a 131% increase in requests for Facebook data, and 63% for Google.

The NSA document indicates that it is planning to add Dropbox as aPRISM provider. The agency also seeks, in its words, to “expand collection services from existing providers”.

The revelations echo fears raised on the Senate floor last year during the expedited debate on the renewal of the FAA powers which underpin the PRISM program, which occurred just days before the act expired.

Senator Christopher Coons of Delaware specifically warned that the secrecy surrounding the various surveillance programs meant there was no way to know if safeguards within the act were working.

“The problem is: we here in the Senate and the citizens we represent don’t know how well any of these safeguards actually work,” he said.

“The law doesn’t forbid purely domestic information from being collected. We know that at least one Fisa court has ruled that the surveillance program violated the law. Why? Those who know can’t say and average Americans can’t know.”

Other senators also raised concerns. Senator Ron Wyden of Oregon attempted, without success, to find out any information on how many phone calls or emails had been intercepted under the program.

When the law was enacted, defenders of the FAA argued that a significant check on abuse would be the NSA’s inability to obtain electronic communications without the consent of the telecom and internet companies that control the data. But the Prism program renders that consent unnecessary, as it allows the agency to directly and unilaterally seize the communications off the companies’ servers.

When the NSA reviews a communication it believes merits further investigation, it issues what it calls a “report”. According to the NSA, “over 2,000 Prism-based reports” are now issued every month. There were 24,005 in 2012, a 27% increase on the previous year.

In total, more than 77,000 intelligence reports have cited the PRISMprogram.

Jameel Jaffer, director of the ACLU’s Center for Democracy, that it was astonishing the NSA would even ask technology companies to grant direct access to user data.

“It’s shocking enough just that the NSA is asking companies to do this,” he said. “The NSA is part of the military. The military has been granted unprecedented access to civilian communications.

“This is unprecedented militarisation of domestic communications infrastructure. That’s profoundly troubling to anyone who is concerned about that separation.”

A senior administration official said in a statement: “The Guardian and Washington Post articles refer to collection of communications pursuant to Section 702 of the Foreign Intelligence Surveillance Act. This law does not allow the targeting of any US citizen or of any person located within the United States.

“The program is subject to oversight by the Foreign Intelligence Surveillance Court, the Executive Branch, and Congress. It involves extensive procedures, specifically approved by the court, to ensure that only non-US persons outside the US are targeted, and that minimize the acquisition, retention and dissemination of incidentally acquired information about US persons.

“This program was recently reauthorized by Congress after extensive hearings and debate.

“Information collected under this program is among the most important and valuable intelligence information we collect, and is used to protect our nation from a wide variety of threats.

“The Government may only use Section 702 to acquire foreign intelligence information, which is specifically, and narrowly, defined in the Foreign Intelligence Surveillance Act. This requirement applies across the board, regardless of the nationality of the target.”

Additional reporting by James Ball and Dominic Rushe

Outono Indigena. Entrevista especial com Jorge Eremites de Oliveira (Envolverde)

17/6/2013 – 07h29

por Redação do IHU On-Line

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Foto: racismoambiental.net.br

“O governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do desenvolvimento econômico a qualquer custo e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras”, diz o historiador.

“A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Ao citar o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, o historiador Jorge Eremites de Oliveira lembra que “este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses”.

Ao comentar os conflitos entre indígenas e ruralistas e as frequentes manifestações em todo o país, ele assegura que “na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da OIT”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, aponta ainda que a “política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes”. E dispara: “A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais”.

Jorge Eremites de Oliveira é professor de Antropologia Social e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. É licenciado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, mestre e doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com estágio de pós-doutoramento em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Foi pesquisador colaborador junto ao Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos e trabalhou como professor universitário em Mato Grosso do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nos últimos anos, indígenas de várias regiões do país manifestam sua indignação com a política indigenista e com o modelo desenvolvimentista do governo federal. Trata-se de uma crise específica, conjuntural, ou não? Como descreve tais manifestações?

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Foto: http://www.diarioliberdade.org

Jorge Eremites de Oliveira – O atual modelo desenvolvimentista adotado pelo governo brasileiro é baseado no paradigma do crescimento econômico a qualquer custo e isso, obviamente, tem reflexos negativos na política indigenista oficial. Trata-se de um modelo que sistematicamente viola os direitos elementares dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de classes sociais em situação de vulnerabilidade. O resultado disso é a existência de crises estruturais, com particularidades em cada região do país, dependendo da conjuntura local. Daí compreender a grande insatisfação e indignação dos povos indígenas para com o governo central e seus aliados, seja por conta da construção de hidrelétricas, seja por conta da não regularização de terras de ocupação tradicional ou outro motivo.

Conflitos no MS

O que estamos observando em Mato Grosso do Sul, onde há a segunda maior população indígena no país, assim como em outros estados, é uma espécie de Outono Indígena, em alusão à Primavera Árabe iniciada em fins de 2010. Refiro-me a um levante dos povos originários em defesa de seus direitos, sobretudo do direito às terras de ocupação tradicional. Assim o fazem como último recurso para garantir sua existência física e cultural, haja vista que não abandonaram seus territórios por livre e espontânea vontade, pelo contrário. Foram e têm sido vítimas de violentos processos de esbulho, não raramente com o uso da força e o assassinato de muitas de suas lideranças.

Na ausência da presença eficaz e moralizadora do Estado, os Terena, Guarani, Kaiowá e outros povos indígenas estão a fazer cumprir os direitos que lhes são assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pela Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, adotada em Genebra em 1989, da qual o Brasil é signatário e a ratificou internamente.

Demarcação de terras

Eis o que determina o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Lei Maior: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Este prazo expirou em 1993 e de lá para cá muito pouco tem sido feito para a regularização das terras indígenas. Disso resulta a perpetuação de inúmeros conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses. As consequências disso têm sido nefastas para muitos povos originários e afronta os artigos 231 e 232 da Carta Constitucional. Não é por menos que a bancada ruralista e seus aliados no Congresso Nacional querem mudar o texto constitucional com a PEC 215/2000, motivo de recentes protestos feitos naquela casa pelo movimento indígena. Se isso vier a acontecer, será um grande retrocesso.

No caso dos Terena de Buriti, e de tantas outras comunidades indígenas, quero explicar que eles tinham a posse da terra, mas não tinham o título de propriedade. A titulação da terra a favor de terceiros ocorreu em períodos mais recentes de nossa história, nos quais apenas as elites políticas e econômicas tinham seus direitos assegurados pelo Estado. Mas eram exatamente elas, claro, que controlavam a máquina estatal, inclusive, por exemplo, o departamento de terras do governo de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. De lá saíram muitos títulos de propriedade sobre terras indígenas não regularizadas, tidas como terras devolutas, localizadas no antigo sul do estado, atual Mato Grosso do Sul.

A expulsão das comunidades indígenas não se deu unicamente pela ação de fazendeiros e seus comandados. Esbulhos também foram perpetrados com a conivência e o apoio de agentes do próprio Estado, inclusive da agência indigenista oficial, conforme comprovado em muitos documentos disponíveis em seus arquivos. Na maioria das vezes, autoridades governamentais tomaram ciência do ocorrido e nada fizeram para intervir nos conflitos. Este é o caso do que ocorreu com os Kaiowá de Panambizinho, no município sul-mato-grossense de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), quando houve a Marcha para Oeste e a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados.

Situação semelhante também aconteceu com os Kaiowá de Ñande Ru Marangatu, no município de Antônio João, no mesmo estado, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Eles também foram expulsos de grande parte de seu território entre fins da década de 1940 e começo da de 1950, sendo que o órgão indigenista oficial recebeu denúncia formal sobre o ocorrido e nada vez para apurar os fatos e reverter a situação.

Por razões dessa natureza é que o Estado brasileiro culmina por ser coautor de muitos crimes cometidos no passado e no presente contra os povos originários. E não me refiro, bem entendido, aos tempos de Cabral ou dos portugueses que o sucederam no período colonial. Definitivamente não é isso. Refiro-me, principalmente, a processos de esbulho ocorridos a partir da primeira metade século XX, mas que ainda hoje são praticados no país. Esta questão precisa ficar cristalina porque o direito não foi feito para atender a demandas de povos abstratos e relegados a temporalidades coloniais ou pré-coloniais. Existe para atender a necessidades das sociedades contemporâneas, de seres humanos reais, de carne e osso, dentre os quais estão aqueles cujos antepassados chegaram a essas terras há pelo menos 12 mil anos.

Terra indígena de Buriti

Esta situação é muitíssimo bem conhecida para Mato Grosso do Sul e outros estados. Foi ali, precisamente no município de Sidrolândia, no dia 30-05- 2013, que o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi assassinado. Ele portava um pequeno arco e algumas flechas, e isso era mais um sinal diacrítico de sua indianidade e disposição de lutar pela terra do que uma arma. Por outro lado, policiais federais portavam armas de fogo com munição letal e as usaram contra os Terena. Os agentes estavam ali para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse, referente a uma propriedade existente dentro da Terra Indígena Buriti, já identificada, delimitada e periciada como tal.

A tragédia ocorreu porque os Terena resolveram fazer o que o próprio Estado não fez desde a década de 1920: regularizar aquela terra e garantir que seja de usufruto exclusivo e permanente da comunidade, segundo seus usos, costumes e tradições. Ocorre que no começo da década de 1930 uma comissão terena foi ao Rio de Janeiro, então a capital federal, denunciar o processo de esbulho que sofriam e solicitar providências para a garantia de seus direitos territoriais. De lá para cá já se passaram quase um século e nada foi feito de efetivo. Não é de se estranhar, portanto, que tenham decidido, como último recurso, retomar parte de suas terras devido à situação de vulnerabilidade dos cerca de 2.500 indígenas que ali vivem confinados em 2.090 hectares.

Até agora foram mais de duas centenas de lideranças indígenas mortas apenas em Mato Grosso do Sul. Muitos crimes não foram devidamente investigados, tampouco houve o julgamento e a condenação dos assassinos e seus mandantes. O que aconteceu em Sidrolândia com Oziel Gabriel foi, portanto, o mesmo que aconteceu no estado com Marçal de Souza, Guarani morto em 1983 na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, e com Marcos Verón, Kaiowá assassinado em 2003 na Terra Indígena Takuara. Naquela parte do Brasil, e em tantas outras, os índios são vistos e tratados pela maioria da população regional como estrangeiros não humanos e, por extensão, como um estorvo e um obstáculo ao progresso. A lei que ali impera ainda é, como aprendemos a dizer desde criança, a do 44, chamada “Justiça de Mato Grosso” (do Sul e do Norte). Não se trata de lei alguma, senão do calibre da arma de fogo com que se fazia justiça desde muito tempo na região, segundo é conhecido na historiografia regional. A violência é, com efeito, uma marca fortíssima na história de Mato Grosso do Sul.

Desenvolvimentismo

No que se refere ainda ao modelo desenvolvimentista atual, cumpre explicar que ele (re) surgiu após o fim da ditadura militar (1964-1985) e a promulgação da Constituição Federal de 1988. Saíamos de um regime de exceção, também marcado pelo fracasso do “milagre econômico brasileiro”, e testemunhávamos o reordenamento do papel do Estado nacional e as tentativas de retomada do crescimento do país. Isso ocorreu e tem ocorrido dentro de um contexto maior, ligado à mundialização do capital. Nesse cenário ocorrem concomitantemente o deslocamento de investimentos e atividades produtivas e a polarização da riqueza, conforme apontado pelo economista francês François Chesnais.

Por isso a maior parte da riqueza fica para países localizados no hemisfério Norte, onde o consumismo é enorme e precisa ser atendido, ao passo que para países do hemisfério Sul há a transferência dos impactos negativos desses investimentos e atividades produtivas. Nesta parte meridional do planeta, onde vivemos, estão países com jovens democracias, economias em crescimento e uma história marcada por ditaduras e políticas colonialistas, como é o caso do Brasil. É exatamente aqui onde existem classes sociais e minorias étnicas em situação de maior vulnerabilidade as que mais sofrem com tudo isso.

Esta situação é percebida no caso da construção de usinas hidrelétricas como a de Belo Monte, cuja existência é justificada pelo sofisma do desenvolvimento sustentável. Nesse caso específico, o que se viu até agora foi um conjunto de procedimentos irregulares ligados ao licenciamento ambiental de uma grande usina hidrelétrica. Exemplo disso é o fato de as comunidades indígenas afetadas direta e indiretamente pelo empreendimento não terem sido prévia e devidamente consultadas sobre o projeto. Essa é uma exigência legal, conforme determina a Convenção n. 169 da OIT. O paradoxal disso tudo é saber que este projeto foi concebido durante a ditadura militar e tem sido executado de maneira arbitrária e violadora de direitos humanos nos dias atuais.

Existem até projetos para construção de hidrelétricas no Pantanal, onde empreendimentos desse tipo causarão enormes e irreversíveis prejuízos socioambientais, tanto à bio quanto à sociodiversidade da região.

Para finalizar esta não muito curta explicação inicial, diria que para barrar o Outono Indígena será preciso cometer mais violência contra os indígenas. Mas representantes do movimento ruralista têm demonstrado disposição e ousadia para isso, inclusive com a possibilidade de contrabando de armas de fogo do Paraguai, conforme um fazendeiro de Paranhos, Mato Grosso do Sul, disse à imprensa em 2012. E foi no mesmo município que mais recentemente, no dia 12-05-2013, pistoleiros teriam feito emboscada e assassinado Celso Rodrigues, 42 anos, Kaiowá morador da Terra Indígena Paraguaçu, segundo noticiado pela imprensa.

Resolver esta situação conflituosa, assegurando aos povos indígenas seus direitos territoriais e outros garantidos em lei, é um dever do Estado e da sociedade nacional. Isso é necessário para corrigir erros do passado e consolidar um outro projeto de nação, onde também haja o devido respeito às diferenças étnico-raciais, religiosas, de gênero, orientação sexual etc. Ademais, o custo financeiro disso tudo será muitíssimo menor se comparado com a estimativa de 50,8 a 84,5 bilhões de reais correspondentes ao preço anual da corrupção no país. Isso sem falar no alto custo do legislativo brasileiro, um dos mais caros e menos eficientes do mundo.

IHU On-Line – Como a política indigenista foi construída e alterada ao longo da história brasileira?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, desde o período imperial até a promulgação da Constituição Federal de 1988, a política indigenista oficial foi orientada pelo paradigma da integração, via aculturação e assimilação, dos índios à sociedade nacional. Exemplo disso é o próprio Estatuto do Índio, a Lei n. 6.001/1973, cuja interpretação atual precisa estar em consonância com leis superiores e mais recentes.

A bem da verdade, o Estado nacional e o direito estatal agem de maneira reducionista para submeter os povos indígenas à ordem vigente. A ideia sempre foi – implícita ou explicitamente – a de tornar a sociedade nacional homogênea em termos socioculturais. Parece não existir qualquer possibilidade de convivência com os Outros, os originários, senão acabando com eles ou deportando-os para algum lugar longínquo, lá no meio da Amazônia, distante da civilização e dos nossos olhares. É o que podemos concluir a partir das palavras de Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de direito e procurador do estado do Paraná: “O Estado e seu Direito não conseguem aceitar as diferenças sociais e as injustiças que elas engendram e, na maior parte das vezes, as omitem ou mascaram, ajudando sua perpetuação”. [1]

Entretanto, o fato é que a Constituição Federal de 1988 é um divisor de águas no reordenamento do papel do Estado em relação aos povos indígenas e a outros assuntos. Com o Capítulo VII (Dos Índios), Artigos 231 e 232, por exemplo, pôs-se fim ao paradigma integracionista que vigorava até então, embora ainda se faça presente em sentenças proferidas na Justiça Federal. Por esse motivo, julgo ser necessário citar o que diz o texto constitucional:

CAPÍTULO VII – “DOS ÍNDIOS”

Artigo 231 – São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

1. São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
2. As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios, dos lagos nelas existentes.
3. O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivadas com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados das lavras, na forma de lei.
4. As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas são imprescritíveis.
5. É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso, garantindo em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
6. São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção do direito à indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
7. Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, 3 e 4.
8. Artigo 232 – Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo. [Destaques meus]

Embora a chamada Constituição Cidadã seja clara no que diz respeito a reconhecer as diferenças socioculturais e as terras das comunidades indígenas, torna-se contraditório qualquer ação unilateral do governo federal em querer integrá-las às economias regionais.

Por razões dessa natureza é que a Fundação Nacional do Índio – Funai é um dos piores e menos eficientes órgãos governamentais, pois sucessivos governos não deram a ela a devida atenção, exceto para ali colocar seus “afilhados” em cargos de confiança, desprestigiando funcionários de carreira. Isso explica o porquê da “questão indígena” nunca ter sido tratada como prioridades dentre as ações do Estado. Basta saber qual é o orçamento anual da Funai e entenderemos melhor o assunto.

IHU On-Line – Os dados acerca do território brasileiro destinado à ocupação indígena são controversos. É possível estimar que percentual das terras brasileiras é ocupado pelos indígenas e que percentual, por sua vez, deveria ser ocupado por eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Seria leviano de minha parte querer apresentar um percentual sobre o tamanho das terras indígenas no país, mas o fato é que a maior parte delas está na região amazônica. Conforme recentemente explicou o antropólogo João Pacheco de Oliveira, em entrevista concedida ao Estadão, naquela região há terras da União que não são destinadas apenas aos indígenas, mas também servem como áreas de preservação ambiental, algo que por si só é importante.

No caso de Mato Grosso do Sul, e de muitos outros estados, o que se vê é uma situação exatamente diferente. Ali há milhares de indígenas confinados em pequeníssimas reservas, como se fossem “ilhas” cercadas por fazendas e cidades, conforme avaliou o historiador Antonio Jacó Brand, falecido recentemente. Na Terra Indígena Dourados, por exemplo, onde há duas aldeias, Jaguapiru e Bororó, vivem por volta de 13.500 pessoas em pouco mais de 3.400 hectares.

Situações assim possibilitam entender melhor os conflitos pela posse da terra em certas regiões do país. Além disso, faz-se necessário deixar claro que não se podem ceifar direitos das comunidades indígenas que vivem em Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por exemplo, sob o pretexto de que “há muita terra para pouco índio” na Amazônia.

IHU On-Line – Há uma crítica recorrente de parte da sociedade de que os indígenas não precisam de tantas terras para viver. Qual a importância da terra para eles?

Jorge Eremites de Oliveira – Mas aonde, afinal de contas, estariam tantas terras assim? Com certeza, faço questão de registrar amiúde que não seria em Mato Grosso do Sul. Diria mais: se não precisam de “tantas terras”, então o que muitos de nós desejariam é vê-los mortos? Aí, sim, talvez tivessem alguma terra, ao menos para serem enterrados. Talvez seja esta dedução a que podemos chegar diante de tanta contrainformação, preconceito e violência cometida contra os povos indígenas.

Portanto, não é de se estranhar que setores da imprensa sejam financiados com dinheiro dos cofres públicos e do agronegócio em certos estados brasileiros, especialmente onde os conflitos pela posse da terra são grandes e envolvem indígenas e ruralistas.

Para os povos indígenas a terra não é uma mera mercadoria e, por isso, não pode ser percebida pela lógica do agronegócio. Mesmo assim, não é verdade que nelas não se produz alimento algum. Na Terra Indígena Buriti, por exemplo, os Terena produzem alimentos em suas roças e quintais, criam diversos animais e fazem manejo agroflorestal, entre outras atividades produtivas.

Uma terra indígena pertence à União, e para os índios ela é de fundamental importância para sua reprodução física e cultural. Para sociedades como a dos Guarani e Kaiowá, a terra possui, ao mesmo tempo, um grande valor econômico e religioso, chegando a ser quase como um parente, conforme tem sido explicado pelo antropólogo kaiowá Tonico Benites. Sem ela não há como viver bem, segundo uma cosmologia particular, e para eles a luta pela terra também é a luta em defesa da família extensa, da qual a terra faz parte.

IHU On-Line – Como avalia a postura do Estado brasileiro em relação aos indígenas? Percebe uma tentativa de diálogo ou o governo cede a interesses econômicos?

Jorge Eremites de Oliveira – Em complementação ao que disse anteriormente, avalio que o governo federal tem olhado para os povos indígenas com as lentes do agronegócio, recebidas do movimento ruralista. Isso faz parte da lógica do “desenvolvimento econômico a qualquer custo” e atende a projetos políticos para a disputa de eleições futuras.

Nesta linha de raciocínio, diria que há poucas e tímidas tentativas de diálogo com o movimento indígena, haja vista que o governo tende a ceder a interesses econômicos pragmáticos e não a um planejamento estratégico de longo prazo, no qual os povos indígenas tenham seus direitos assegurados.

IHU On-Line – Quais foram os resultados da política de demarcações de terras indígenas e quais os desafios ainda presentes?

Jorge Eremites de Oliveira – Em linhas gerais, temos avanços registrados após a promulgação da Constituição Federal de 1988, mas muito ainda precisa ser feito, especialmente em regiões onde o agronegócio é muito forte e o valor das terras, elevado. Este é o caso de Mato Grosso do Sul.

Ali um dos desafios colocados na pauta do dia diz respeito à indenização não apenas da benfeitoria, mas também da terra nua de propriedades que o Estado titulou a favor de terceiros. Isso garantirá a regularização mais rápida das terras indígenas, conforme tem sido apontado por lideranças do movimento ruralista e por indígenas. Como fazer sem mudar o Art. 231 da Lei Maior é que constituiu um desafio a ser enfrentando.

Após a regularização das terras indígenas, será necessário, aí sim, um conjunto de políticas públicas, concebidas para atender às particularidades de cada comunidade indígena visando, com isso, a construção de sua autonomia.

IHU On-Line – Entre as mudanças sugeridas recentemente pelo governo está a proposta, da ministra Gleisi Hoffmann, de que as demarcações das terras indígenas recebam pareceres da Embrapa. Como valia essa medida?

Jorge Eremites de Oliveira – Com o devido respeito, a referida ministra pouco ou nada conhece sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. Ela aderiu ao discurso e às propostas do movimento ruralista e isso sugere que tem a ver com suas pretensões de ganhar o governo do Paraná nas próximas eleições. Chega a ser um desserviço ao país e uma violência só conhecida nos tempos da ditadura militar. A Embrapa não tem competência formal para tratar do assunto, tampouco possui recursos humanos especializados para assim o fazer.

Salvo engano, a estratégia do governo federal, via Casa Civil, tem sido a de sistematicamente promover a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas, como se não houvesse clareza nesse processo. Neste último aspecto, vale registrar que, de um ponto de vista legal, a identificação e delimitação de terras indígenas tem que ser feito em observação ao Decreto n. 1.775 e à Portaria MJ n. 14, ambos de 1996. O primeiro “dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências”, e a segunda estabelece “regras sobre a elaboração do Relatório circunstanciado de identificação e delimitação de terras indígenas”.

Regularização de terras indígenas

Resumidamente, diria que no Brasil a regularização de terras indígenas passa por três processos, segundo alguns colegas já apontaram e escrevi em recente artigo: o político, o administrativo e o judicial.

O processo administrativo diz respeito à ação da Funai em constituir um Grupo Técnico (GT), sob a coordenação de um antropólogo, cujo estudo deve ser realizado em conformidade com o que determinam as leis citadas anteriormente. O resultado do estudo de identificação, quando aprovado técnica e politicamente pelo órgão, tem seu resumo circunstanciado publicado no Diário Oficial da União, o que garante a publicização dos atos.

O processo jurídico, por seu turno, está diretamente relacionado com o princípio do amplo direito de defesa, o qual assegura que as partes envolvidas no litígio (comunidades indígenas, fazendeiros, prefeituras etc.) apresentem, em caso de se sentirem prejudicadas, um contraditório ao estudo produzido pela agência indigenista oficial. Isso primeiramente deveria ser feito em um prazo de 90 dias e diretamente àquele órgão. No entanto, amiúde é feito em juízo e a partir daí é iniciado um processo judicial, no qual comumente os fazendeiros são autores e a União e Funai, rés. O mesmo princípio do contraditório, elementar para a garantia do Estado Democrático de Direito, garante a solicitação de outro estudo, independente do feito para a Funai. Trata-se de uma perícia judicial, solicitada pela Justiça Federal em atendimento às exigências do juízo ou ao pedido das partes. Durante a realização das perícias, as partes podem ter seus próprios experts, chamados de “assistentes técnicos”, os quais comumente atuam na elaboração de estudos (contralaudos) em defesa de quem os contratou.

O início e a conclusão do processo administrativo e, sobretudo, do processo judicial podem levar anos, às vezes décadas, sem que as comunidades consigam manter o usufruto exclusivo e a posse permanente das áreas reivindicadas, de onde normalmente foram expulsas em algum momento da história.

Por último, o processo político, em minha opinião o mais importante de todos, refere-se também às ações e estratégias políticas dos movimentos indígenas e seus eventuais aliados (ONGs indigenistas, Ministério Público Federal, pesquisadores, parlamentares etc.) para a completa regularização das terras de ocupação tradicional, inclusive nas instâncias do Judiciário.

Mas, enfim, o discurso oficial da Casa Civil é idêntico ao feito no regime militar para extinguir o antigo Serviço de Proteção ao Índio – SPI, em 1967, como se todo esse processo fosse algo desconhecido. E como disse o filósofo alemão Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. E é exatamente de uma farsa que estou falando.

IHU On-Line – Como avalia a declaração do secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, de, no futuro, a partir de uma mudança na legislação brasileira, ser possível a instalação de usinas hidrelétricas em terras indígenas, tendo como sócios do empreendimento os próprios índios, a exemplo do que já ocorre no Canadá?

Jorge Eremites de Oliveira – Esta é mais uma declaração que gera preocupação e insegurança jurídica aos povos indígenas, pois uma mudança na legislação brasileira, seguramente na Constituição Federal, será mais um retrocesso e uma forma de ceifar direitos conquistados recentemente.

IHU On-Line – Qual a melhor maneira de resolver os conflitos entre indígenas e não indígenas?

Jorge Eremites de Oliveira – Inexiste uma fórmula mágica para isso. Penso que tratar a “questão indígena” como uma das prioridades de Estado seria o primeiro passo. Se não for assim, os conflitos continuarão e, seguramente, mais vidas humanas serão ceifadas, em sua esmagadora maioria de indígenas. Quanto a isso não tenho dúvida alguma.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Jorge Eremites de Oliveira – Com a devida licença, registro aqui uma moção de apoio aos Terena e a outros povos indígenas no Brasil, aprovada pelo colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPel, onde trabalho.

MOÇÃO DE APOIO AOS TERENA DE BURITI E A TODOS OS POVOS INDÍGENAS QUE LUTAM POR SEUS DIREITOS TERRITORIAIS NO BRASIL

O colegiado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, reunido no dia 7 de maio de 2012, considerando:

– que o Estado Brasileiro não cumpriu com o que determina o Art. 67 da Constituição Federal de 1988 [ADCT]: “A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Esta situação é conhecida para todo o território nacional e também explica o prolongamento e o acirramento de muitos conflitos pela posse da terra envolvendo comunidades indígenas e setores contrários a seus interesses;

– que a política indigenista oficial tem sistematicamente violado os direitos dos povos indígenas, inclusive por meio do descumprimento de leis internacionais das quais o país é signatário. Este é o caso da Convenção nº 169 da OIT, de 1989, sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais, aprovada pelo Congresso Nacional em 2002 e promulgada pela Presidência da República em 2004. Exemplo disso é o que ocorreu durante o licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, quando os povos indígenas afetados pelo empreendimento não foram prévia e devidamente consultados sobre o projeto;

– que o Governo Federal, por meio da Casa Civil, tem sistematicamente promovido a desqualificação da Funai e dos estudos antropológicos feitos para a identificação e delimitação de terras indígenas. Esta postura é típica de regimes de exceção, gera insegurança jurídica aos povos indígenas e denota uma postura colonialista norteada pelos paradigmas da assimilação e do desenvolvimento econômico a qualquer custo, subordinando poderes constituídos na República a interesses do movimento ruralista e seus aliados;

– Que os estudos para a ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, localizada nos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul, foram devidamente concluídos e publicados em 2001, constituindo-se em um ato administrativo perfeito. Além disso, respeitando o direito ao contraditório, a área foi objeto de perícia judicial que concluiu se tratar de terra de ocupação tradicional indígena, conforme estabelece o Art. 231 da Carta Constitucional;

– e que no dia 30 de maio de 2013 o indígena Oziel Gabriel, 35 anos, foi morto por policiais enviados para a área de conflito para fazer cumprir um mandado de reintegração de posse dentro da própria Terra Indígena Buriti. Naquele mesmo dia outros indígenas também foram feridos por policiais a servido do Estado Brasileiro. Posteriormente, no dia 04 de junho de 2013, o indígena Josiel Gabriel Alves, 34 anos, primo de Oziel Gabriel, foi baleado nas costas por pessoas identificadas pelos Terena como “pistoleiros” a serviço de fazendeiros da região, correndo o risco de ficar com sequelas neurológicas, vem a público manifestar seu apoio e solidariedade aos Terena da Terra Indígena Buriti e a todos os povos indígenas que lutam por seus direitos territoriais no Brasil.

Nosso posicionamento se dá em defesa da vida humana, pela regularização das terras indígenas existentes no território nacional e em repúdio a qualquer tipo de violência cometida contra os povos e comunidades tradicionais no Brasil. Por este motivo, esperamos que a justiça haja com rigor na apuração dos crimes cometidos contra os Terena e defendemos o cumprimento dos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988, bem como da Convenção 169 da OIT, sem os quais não é possível existir no país o Estado Democrático de Direito.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

O sistema de transporte é mais violento do que a polícia (uninomade.net)

Por Bruno Cava, republicação do Quadrado dos loucos

14/06/2013

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Ligo o rádio e ouço que o trânsito está um caos. Desconfio imediatamente. O trânsito me parece muito organizado. Vejo fluxos turbulentos de ônibus, carros, motos, trens, indo e vindo do subúrbio ao centro e então do centro ao subúrbio. Todos os dias, ininterruptamente. São milhões de veículos abarrotados de uma gente resignada, olhares perdidos, no tempo morto do transporte diário. Vamos sentadinhos ou de pé, em qualquer caso comprimidos na massa de semelhantes de cara fechada. Acordamos cedo para enfrentar essa via-crúcis e no final do dia só queremos que acabe logo para chegar em casa, tomar banho e no dia seguinte subir a pedra de novo. São milhões e milhões de horas humanas gastas, jamais remuneradas. Pelo contrário, taxadas a preços que não param de aumentar.

Todos os dias nos acotovelamos, nos estranhamos, nos empurramos, passamos à frente, ou somos sobrepujados pelos mais espertos ou fortes. Brigamos por lugares apertadíssimos, repelindo a carne alheia. De carro, buzinamos, fechamos, brigamos com o motorista vizinho, xingamos o motociclista. A culpa é sempre do outro mal educado. Ou então é nossa, por ainda não podermos comprar o conforto do carro particular, por não morarmos ou trabalharmos no lugar correto. No mais das vezes, nos refugiamos nas mentes, lamentando a condição miserável de passageiro. Que passe logo.

Enquanto isso, uma dinheirama à noite estará depositada nos caixas dos ônibus, ficará nas bilheterias do metrô, do trem, das barcas, ou então estará trocada nos postos de gasolina, por ainda mais crédito medido em quilômetros para rodar no purgatório de asfalto. Esse dinheiro irrigará empresários, dirigentes, burocratas, campanhas eleitorais. Será reaplicado para tirar ainda mais valor dos fluxos. Não. Sejamos realistas. O trânsito está bem organizado. Nós somos a maior prova disso. Como poderíamos aguentar ainda outro dia, amanhã mesmo, se não tivesse sido pensado de cabo a rabo para funcionar assim? Só pode ser por que é para funcionar assim.

A grande imprensa faz crer que bastaria ajustar a eficiência do sistema, melhorar a gestão, reduzir a corrupção etc. Detalhes de minúscula importância. Vejo a TV chamando o trânsito de caótico, mas nenhuma palavra sobre o completo alijamento das pessoas na decisão sobre as linhas, as empresas, as obras e os equipamentos. A ausência de caráter democrático nas macro ou micro decisões no plano dos transportes é absoluta. Tampouco alguma reportagem, notícia ou artigo a respeito da confusão de prefeitura e empresa de ônibus, unha e carne num projeto político que vai das eleições à governabilidade. Nenhum jornalista dá nome aos bois. Aí quando um ônibus cai do viaduto, a culpa foi de um passageiro agressivo. Quando a mulher é estuprada numa vã ou num ônibus, a culpa é de alguns marginais. Escondem o fato que, por trás dessas exceções, subsiste uma regra menos confessável. Atrás do que o sensacionalismo diverte, há razões estruturais. O capitalismo é um sistema de dominação indireta.

Como se a tensão entre passageiros e motoristas/cobradores não fosse causada pelo ódio que todos têm dos ônibus. O que, por sua vez, exprime vicariamente o ódio que se tem pelo sistema de transportes como um todo. Isto é, pela simbiose entre prefeitura e empresa, numa gestão que parece operar mediante algum inacessível plano divino. Como se não fôssemos desgastados e estressados diariamente, até a exaustão mental (não fossem os tarjas pretas!). Como se as mulheres não tivessem de encarar, até a neurose, um abuso sexual sistemático, quase naturalizado pela indiferença com que esse abuso é observado pelos outros ao redor. Porque muitos homens se esfregam nelas nos veículos lotados, passam-lhes o pau, e alguns fazem isso como um ritual diário. Várias são estupradas nos pontos mais isolados, de dia ou de noite.

Antigamente, os escravos eram gastos no engenho e tinham de ser trocados a cada 7 ou 8 anos. Revoltavam-se demasiado. Fugiam. Culpavam o senhor. Hoje, a carne é moída pelo menos duas vezes ao dia, de manhã cedo e à tardinha. Mas os músculos e nervos a gente dá sobrevida com os modernos tratamentos da medicina do trabalho. Principalmente a televisão, a nossa maior terapeuta. A culpa geralmente é atribuída a nós mesmos, muitas vezes autoatribuída: se estamos sofrendo é porque fracassamos. Por não nos esforçarmos o suficiente para sair dessa vida de merda, como fulana ou beltrano…

Em vez de admitir como seria muito mais fácil, muito mais prático, lutar coletivamente por um transporte para todos, achamos que o problema é individual, que no fundo teríamos uma parcela da culpa, e nos resignamos. Imagine contudo o efeito político, se as energias que despendemos para, num esforço individual inglório, sair dessa condição e “subir na vida” fossem aplicadas coletivamente na luta dos transportes? Como teríamos um transporte muito melhor e para todos, do que tentar subir sozinho somente mais um degrau na escala de degradação generalizada da vida na metrópole?

Os movimentos e lutas do passe livre são a melhor saída. Talvez a única. Arregaçam à força um rombo no beco sem saída, aonde nos coloca a falsa oposição entre “público” e “privado”. Rejeitam em bloco as narrativas da grande imprensa, seus opinólogos e especialistas, de que faltaria gestão ou eficiência (e que o povo é mal educado). O problema do transporte afinal não é ele ser público nem privado, como estas também não são suas soluções. Nem ser mal gerido. O problema é e sempre foi falta de democracia.

E democracia, inexoravelmente, significa tumulto. O tumulto é o pulmão das democracias. É nele que atua o poder constituinte, o que faz a constituição e a lei não serem apenas folhas de papel para a exegese das faculdades de direito. Não devemos confiar a constituição a capas-pretas, cortes supremas ou ao francamente conservador discurso do “ativismo judicial”. O tumulto é o momento em que nós a fazemos nossa, e de onde dimanam todos os direitos e todas as instâncias democráticas. O tumulto é um ato de dignidade, o que só acontece ao irresignar-se diante do intolerável. A dignidade não é humana: é o oposto da humilhação. Uma das maiores e mais disseminadas violências hoje está no sistema de transportes.

Divulgue na rede

Bens públicos e violência: notas sobre São Paulo (uninomade.net)

Por Rafael Zanatta, no E-mancipação

14/06/2013

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Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.

De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.

O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.

O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.

Mas a dimensão da violência não é outra?

Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.

Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).

O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).

O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.

Qual a alternativa então?

Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).

Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.

Voltei terça-feira dos Estados Unidos e me deparei com a velha confusão de São Paulo. Ao olhar a cidade da janela do ônibus que me transportava de Garulhos até o centro, tudo parecia normal. Na minha mente, a maior preocupação era a vigilância de dados pelo governo estadunidense (cf. o texto-chave de Glenn Greenwald ‘NSA Prism program taps in to user data of Apple, Google and others‘). Como estava fora do país, não havia notado o que estava se passando no Brasil em termos de mobilizações sociais. Tampouco desconfiava da organização concertada dos protestos contra o aumento das tarifas dos transportes públicos (cf. ‘Protestos contra aumento da tarifa repercutem na imprensa internacional‘). Foi somente no trabalho que percebi algo estranho. Alguém comentou na Fundação Getulio Vargas: “Será que precisamos avisar que as aulas vão começar mais tarde? O protestou travou a Consolação e o congestionamento está gigantesco”.

De noite, no intervalo de uma aula, fui alertado pelo meu colega Francisco Cruz que a violência havia se alastrado no centro de São Paulo. O protesto – pacífico, alegre e cativante (cf. o relato ‘Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV‘, do Bruno Passos) – foi conturbado por uma série de depredações e atos violentos de pequenos grupos. Essas ações, geralmente realizadas por grupos e associações radicais, levaram ao uso desproporcional e ilimitado da violência por parte da Polícia Militar. O cenário, então, virou caótico. As imagens gravadas ontem, e que circularam nas redes sociais hoje, são apavorantes. Um exemplo é o espancamento do jornalista Pedro Ribeiro Nogueira, encurralado e agredido por diversos homens que integram a estrutura burocrática que detém o “uso legítimo da força” em nosso “regime democrático”. Não dê play se você não tiver nervos para encarar a realidade.

O uso desmedido da violência causa indignação para alguns, mas não para todos. A maioria da população paulistana acha que “esses baderneiros devem levar um cacete mesmo”. O paulistano médio apoia a violência policial (e não é à toa que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin – os dois em Paris negociando a realização de um mega-evento comercial em São Paulo – apelam para o discurso de que é preciso mais repressão). Dizer publicamente que os vândalos devem ser punidos é o mecanismo mais fácil para ganhar capital político.

O posicionamento reacionário é o senso comum. É um absurdo (mas como reverter a fabricação de consensos e a manipulação das massas?). Além de ignorarem o fato de que o pequeno grupo radical não faz parte doMovimento Passe Livre, consideram plenamente normal que diversos homens investidos em uma estrutura burocrática estatal possam utilizar da força para deixar uma pessoa inconsciente, algemá-la, colocá-la em um camburão, conduzi-la até uma delegacia e prendê-la. Para muitos, a violência de terça-feira foi basicamente o quebra-quebra de estações de metrô, bancas de jornal e pixações de locais públicos.

Mas a dimensão da violência não é outra?

Como bem colocou minha caríssima Silvia Horta, “violência é aquela diariamente praticada contra a dignidade dos trabalhadores que dependem de um transporte caro e ineficiente pra se deslocar; dano ao ‘patrimônio público’ são os milhões anualmente surrupiados do povo para manter o monopólio das empresas de transporte coletivo“. Aí está a violência, uma violência sistêmica que é nutrida pelo capitalismo-dependente brasileiro e pela deformação das instituições, que talvez já nasceram deformadas pela condição colonial e patrimonialista deste país. A revolta não é contra a correção inflacionária das tarifas, mas sim contra todo a teia de relações político-econômicas que sustentam um sistema de apropriação das rendas do povo sem uma contra-prestação eficaz de serviços estatais.

Ressalto mais uma vez esse ponto. O protesto do Movimento Passe Livre não está brigando por 20 centavos. A questão não é somente a correção das tarifas de transporte – algo que, em um raciocínio típico de economista, faria sentido considerando a inflação e o congelamento do valor do transporte há algum tempo em São Paulo. A passeata e a revolta estão direcionados a elementos mais amplos (cf. ‘Protestos vão muito além de R$0,20‘, de Orlando Pedroso).

O tumulto e os protestos, reprimidos de forma violenta pela Polícia Militar, atacam justamente a violência sistêmica brasileira, sendo o trânsito das metrópoles apenas um exemplo. Trata-se de uma violência que, segundo o argumento de Bruno Cava, foi arquitetada para funcionar assim (cf. ‘O sistema de transporte é mais violento do que a polícia‘).

O ponto central dos protestos contra o aumento das tarifas talvez seja que eles vão muito além de reivindicações por reduções nos preços das passagens. Ele canaliza uma série de frustrações e rebeldias contra o “Estado de Direito” brasileiro, contra a falácia da democracia e a precarização da vida no século 21, consequência das reestruturações do capitalismo em escala global – um capitalismo baseado em “cidades competitivas”, que acumulam riquezas e aprofundam desigualdades.

Qual a alternativa então?

Não há caminho fácil ou simplista. O que nos resta é aprofundar a experiência democrática com mais protestos, debates e articulações. Nesse sentido, o movimento de ir às ruas gritar por um transporte de qualidade deve ser apoiado por todos os indignados brasileiros. Trata-se de quebrar a docilidade dos corpos e as pedagogias dos afetos (tristes) e ir para o tumulto, onde a voz de um não é somente a voz de um, mas a voz de um todo, de uma luta comum. Não se trata de um incentivo à baderna. É uma práxis política. Precisamos repensar, tal como propõe Murilo Duarte Corrêa, o significado dos corpos rebeldes e da liberdade (cf. ‘Notas sobre a revolta profunda dos corpos‘).

Não proponho aqui nada de inovador, apenas que encaremos os protestos de São Paulo com outros olhos, enxergando a verdadeira violência política que se exerce de modo obscuro. Subverter o discurso raso do Estado de Direito e, em um exercício crítico, seguir o conselho político de Michel Foucault. O alerta de décadas atrás é extremamente válido: a verdadeira tarefa política é a de criticar o jogo das instituições aparentemente neutras e independentes; criticá-las e a de atacá-las de tal maneira que a violência política que se exercia obscuramente nelas seja desmascarada e que se possa lutar contra elas.

Divulgue na rede

Freud examina o que mantém uma multidão coesa (Folha de S.Paulo)

20/06/2013 – 14h06

da Livraria da Folha

Dentre os fenômenos da mente examinados por Sigmund Freud (1856-1939), “o que mantém coesa uma massa de pessoas?” intrigou o pai da psicanálise por muito tempo. “Psicologia das Massas e Análise do Eu” apresenta as considerações de Freud sobre este tema.

“A psicologia das massas trata do indivíduo como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição ou como elemento de um grupo de pessoas que, em certo momento e com uma finalidade determinada, se organiza numa massa”, escreve Freud na introdução da obra.

Publicado originalmente em 1921, o ensaio é fruto de anos de pesquisas e observações. O título está inserido no contexto do período entreguerras, quando ideais nazistas e fascistas começam a ganhar força na Europa devastada pela Primeira Guerra (1914-18).

“O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche”, escreve o psicanalista e professor Edson Sousa no prefácio à edição.

Freud se detém no funcionamento e nos mecanismos inconscientes que fazem uma multidão obedecer e idolatrar a um líder. Segundo Sousa, o livro “traz elementos que nos permitem abordar fenômenos sociais como o racismo, a intolerância religiosa e o fanatismo político”.

"Psicologia das Massas..." é um dos textos sociais de Sigmund FreudConhecido como um de seus textos sociais, a “Psicologia das Massas e Análise do Eu” debate as ideias de Gustave Le Bon (1841-1931) e usa conceitos como identificação, regressão, idealização, libido e recalque na investigação.

Nascido em 1856, na região da Morávia, Freud estudou medicina na Universidade de Viena e se demonstrava especialmente intrigado com a neurofisiologia. Já graduado, trabalhou no hospital da mesma cidade, quando conheceu Jean-Martin Charcot (1825-93) e o uso da hipnose.

Anos mais tarde, em 1895, publica “Estudo sobre Histeria” em parceria com o médico Joseph Breuer. “A Interpretação dos Sonhos”, considerada sua obra mais importante, chega quatro anos depois.

A edição de “Psicologia das Massas e Análise do Eu” publicada pela L&PM traz revisão técnica e prefácio de Edson Sousa e ensaio biobibliográfico de Paulo Endo e Edson Sousa. Leia trecho do livro (abaixo).

PREFÁCIO

Psicologia das massas:
Uma reflexão em contrafluxo

Quando o caminhante canta na escuridão.
recusa seu estado de angústia, mas nem por
isso pode ver mais claramente.
SIGMUND FREUD
Inibição, sintoma e angústia

Psicologia das massas e análise do eu surge de uma inquietação de Freud, a qual esteve presente em toda a sua vida e que pode ser resumida em uma tese explicitada logo na abertura do texto: “Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto, ajudante e adversário, e por isso, desde o princípio, a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social”. Assim, Freud responde, de forma contundente, aos críticos de ontem e de hoje que veem na psicanálise uma disciplina restrita aos conflitos individuais dos sujeitos, virando as costas para o que acontece no mundo. Os inúmeros textos escritos pelo pai da psicanálise sobre questões sociais, buscando sempre dialogar com outras disciplinas no campo da história, sociologia, antropologia, política, arte, arqueologia, biologia, filosofia e religião, mostram um pensador engajado e atento aos acontecimentos de seu tempo. Seus textos e sua extensa correspondência com dezenas de intelectuais das mais diversas áreas dão provas de seu posicionamento crítico sobre o que se passava no mundo em que vivia.

Psicologia das massas, publicado em 1921, foi gestado lentamente e não deixa de ser um esforço louvável de reflexão diante da barbárie que representou para o mundo, e especialmente para a Europa, a destruição provocada pela Primeira Grande Guerra. Freud sentira na própria pele seus efeitos. Três dos seus filhos estavam no front: Martin, Oliver e Ernst. Seu genro Max, assim como alguns colegas e muitos pacientes, também. Era uma época de incertezas e de muitas perguntas sobre o que levara a humanidade a tal grau de barbárie, de destruição e de violência. Escrevera na época: “Parece-nos como se nunca antes um acontecimento tivesse destruído tantos bens comuns preciosos da humanidade, confundido tantos dos mais lúcidos intelectos, degradado tão cabalmente os mais elevados”. Em algumas passagens de Psicologia das massas, Freud faz menção à guerra e escolhe o Exército como um dos fenômenos de massa que analisa. O outro coletivo que lhe aponta um horizonte de reflexão se refere aos grupos religiosos, entre os quais toma particularmente como objeto de estudo a Igreja Católica.

A cautela de Freud nesse campo de estudo se devia ao fato de ter que percorrer toda uma ampla bibliografia da nascente psicologia social no final do século XIX e início do século XX. Seu texto traz uma extensa análise crítica da obra de Gustave Le Bon, autor âncora de seu estudo, dialogando com o clássico livro do autor francês Psicologia das multidões, publicado pela primeira vez em Paris em 1895. Convida também para o debate William McDougall e seu livro The Group Mind [A mente grupal], Wilfred Trotter com Os instintos do rebanho na paz e na guerra e Gabriel Tarde com As leis da imitação. Muitos outros autores que se dedicaram a estudar os fenômenos de massa são evocados em um detalhe ou outro, de forma que Psicologia das massas acabou se tornando uma espécie de guia do estado da questão na época. O diálogo com a filosofia também se faz presente buscando pontos de articulação com alguns pensamentos de Platão, Kierkegaard e Nietzsche. Freud evoca também em seu texto um série de outros escritos seus, procurando situar o presente estudo em relação à sua obra. São inúmeras as referências a Três ensaios de teoria sexualTotem e tabuLuto e melancoliaAlém do princípio do prazer e Introdução ao narcisismo.

Freud busca responder, em seu ensaio, a uma das perguntas que considerava um divisor de águas nos diversos estudos com os quais teve contato: o que mantém uma determinada massa coesa? A resposta terá muitas derivações, as quais o leitor terá a oportunidade de encontrar na leitura do presente texto. Ele responde a essa questão resumindo-a em uma palavra: Eros. Freud não se contenta com análises mais descritivas presentes nos textos nos quais se deteve, pois as considera insuficientes para entender uma série de fenômenos grupais. Falar em sugestão, hipnose, mecanismos de fascinação, sede de poder não lhe parecia responder ao fenômeno que liga os elementos de uma massa entre si e em relação a um líder. Para compreender esses mecanismos psíquicos, Freud ousou transferir alguns conceitos já clássicos em sua obra para a compreensão do funcionamento psíquico das massas, tais como identificação, regressão, idealização, circuitos de investimento libidinal e a lógica do recalque com suas derivações, manifestadas sobretudo na formação dos sintomas.

Psicologia das massas nos abre alguns caminhos de reflexão. Freud vinha concebendo esse texto há algum tempo, recolhendo notas, lendo as obras disponíveis sobre o tema. Já havia desenvolvido anos antes uma série de estudos sobre as razões da posição masoquista do ser humano bem como sobre o conceito de pulsão (ou impulso, conforme se preferiu na presente tradução) de morte, crucial no entendimento de sua metapsicologia. Este último foi amplamente desenvolvido em seu texto Além do princípio do prazer (1920). Nesse mesmo ano, em uma viagem de férias aos Alpes, preparava as primeiras notas de Psicologia das massas e parecia muito cauteloso e sem pressa em finalizar seu estudo. Do alto das montanhas e em meio às inúmeras anotações que vinha recolhendo, escreve a seu biógrafo oficial, Ernst Jones: “Trouxe comigo o material para a Psicologia das massas e análise do eu, mas minha cabeça até agora se recusa obstinadamente a se interessar por esses problemas profundos”.

Cientistas sociais procuram modelo para onda de protestos no Brasil (Folha de S.Paulo)

23/06/2013 – 11h09

CASSIANO ELEK MACHADO
GRACILIANO ROCHA

Olhem para paris, diz Teresa Caldeira. Mas não a de Maio de 68: para a antropóloga brasileira radicada nos EUA, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, a análise das manifestações que tomaram o país na semana passada deve se pautar pelos distúrbios que eclodiram nas periferias francesas em 2005, quando cidades suburbanas na região metropolitana de Paris (“banlieues”) explodiram em uma onda de protestos sociais.

Especialista em antropologia urbana, Caldeira, 58, pesquisa a cultura da periferia, em especial a de São Paulo, e diz que se vários cientistas sociais se declararam surpresos, para ela não há novidade.

“Todos comparam com Istambul ou com a Primavera Árabe, mas deveriam olhar para o que houve em Paris há oito anos”, diz Caldeira. “Dá muito bem para entender o que está acontecendo e isso vem sendo articulado há muito tempo”, acredita a antropóloga, autora do livro “Cidade de Muro: Crime, Segregação e Cidadania” (Editora 34).

Ela lembra que o Movimento Passe Livre (MPL) existe há muitos anos e afirma que ele “articula todo o imaginário da produção cultural da periferia”.

“A Folha fez uma foto em 2010 de um grafite feito pelo MPL no Minhocão, em São Paulo, que dizia ‘A cidade só existe para quem pode se movimentar por ela’.”

Caldeira reproduziu a imagem em um artigo dela na revista “Public Culture” (Duke University Press, 2012) e a frase do grafite como uma ideia fundamental do movimento cultural da periferia. “Rap, literatura marginal, pixação, saraus, todos se fazem na base e rede e de circulação. E circular por São Paulo é um caos para quem não tem dinheiro.”

Opinião diferente tem o sociólogo francês Sebastian Roché. Em seu livro “Le Frisson de l’Émeute”, (Seuil, sem tradução no Brasil), ele afirma que as revoltas que inflamaram a França -cujo estopim foi a morte de dois adolescentes eletrocutados em uma perseguição policial- foram protagonizadas por jovens que se consideram vítimas da xenofobia por não terem a pele branca e, na maioria, filhos de imigrantes e muçulmanos.

“Os jovens muçulmanos, muito numerosos nas ‘banlieues’, não se sentem aceitos nem respeitados em suas crenças. Além disso, essa juventude foi abandonada à própria sorte. Nas ‘banlieues’, a taxa de desemprego oscila entre 25% e 40% entre jovens com menos de 25 anos”, frisa Roché.

Professor da celebrada Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos), da Universidade de Grenoble e pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Social), Roché diz ter acompanhado com atenção a onda de protestos no Brasil, e não vê “muitos pontos de comparação” entre o que aconteceu aqui e lá. Na França, diz ele, “não foram pobres destruindo o meio de vida de outros pobres”.

“A burguesia ou o governo não foram os alvos. Nenhum espaço do poder foi sitiado ou tomado. Ninguém se aproximou, por exemplo, do parlamento nem da sede do governo [como ocorreu no Brasil]. Aqui, os grupos operavam durante a noite, escondiam o rosto em capuzes e muitas vezes buscavam o confronto com a polícia. Não houve qualquer manifestação de massa, nenhum líder ou palavra de ordem emergiu.”

Teresa Caldeira, que no ano passado ganhou a prestigiosa bolsa Guggenheim de pesquisa, nos EUA, aponta outra foto dos movimentos recentes, que ela diz ter visto nas redes sociais, como icônica do que está acontecendo. Dois rapazes seguravam cartazes: um dizendo “O Brasil acordou” e outro “A periferia nunca dormiu”.

Também chamaram a atenção dela as faixas que faziam referências ao trabalho da polícia. “A PM está fazendo na Paulista o que faz todo dia na periferia”, dizia uma delas. “Há uma tensão de classes latente. E não me surpreende que os protestos tenham chegado agora na periferia”, diz ela, citando como exemplo as manifestações dos últimos dias em regiões como a estrada do M’Boi Mirim (na zona sul de São Paulo).

Ela aposta que, “tal como em Paris, em 2005, veremos agora a explosão da periferia”. Ainda que, segundo ela, a presença de classes A e B tenha tido importante papel na eclosão dos movimentos, os protestos veiculam uma insatisfação que vem sendo cozinhada nas periferias. “Uma coisa é de onde vem o caldo e a outra é a forma que a manifestação adquire. Na forma, parece um pouco com a Primavera Árabe: a maneira como circularam as informações e a insatisfação com as instituições políticas tradicionais”, diz.

“No conteúdo, é muito significativo que tenha estourado pelos R$ 0,20. Ninguém aguenta mais os ônibus da cidade. Conheço muita gente da periferia, devido às pesquisas, que todos os dias posta algo em mídias sociais contra o transporte público.”

Para o francês Roché, “a melhoria das condições de vida faz com que aqueles que se sentem excluídos se mobilizem coletivamente para reivindicar, como é o caso do Brasil”. “Na França, a questão é de exclusão social em um período de estagnação econômica, e a revolta de 2005 não gerou um modelo coletivo de massas e organizado. Não houve protesto contestador, mas sim apropriações individuais, como roubos e saques, ou então confrontos e destruição para exprimir a raiva. Nas ‘banlieues’, não houve reivindicação explícita.”

Ele afirma que, embora “revoltas possam ensinar muito aos governantes”, isso depende de eles “serem capazes de olhá-las de frente”. “Na França, nós não aprendemos muito. Em novembro de 2005, a França estava a um ano e meio das eleições presidenciais. O então ministro do Interior [Nicolas Sarkozy, presidente entre 2007-2012] viu naquilo uma oportunidade de reafirmar sua autoridade e estigmatizar as ‘banlieues’ e seus habitantes com vistas à eleição de 2007” -que ele terminaria vencendo. “Nenhuma análise política foi feita pelo Parlamento e menos ainda pelo ministério do Interior, proibido de refletir sobre sua atuação pelo próprio ministro.”

Para o sociólogo, as revoltas urbanas podem, ainda, exprimir um desejo de participação direta nas decisões públicas, no caso de países como Brasil e Turquia. “Nesses dois países, muitos jovens com acesso à educação apresentam reivindicações sobre o direito à diferença e que sejam levadas em conta suas demandas sociais pelo poder central desses países.”
O estudioso considera que “há progressos econômicos tanto no Brasil quanto na Turquia, e esses movimentos de contestação se dão em um contexto bem diferente do que ocorreu na França, cujo crescimento econômico tem sido mínimo ou nulo nos últimos anos”.

Para o sociólogo “o que está acontecendo no Brasil se parece mais com o Maio de 68”. “Naquela época a França vivia em pleno Les Trente Glorieuses [como ficaram conhecidas as três décadas de crescimento e prosperidade no pós-Guerra], e a juventude, com trabalho ou diplomas, mergulhou numa luta para que seu modo de vida e aspirações fossem reconhecidos pelo governo”, recorda.

Eliane Brum: “Quanto valem 20 centavos?” (Revista Época)

17/06/2013 10h01

O que une os manifestantes de São Paulo é o movimento: o ato literal e simbólico de romper o imobilismo da cidade parada e andar

ELIANE BRUM

Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos.

A multidão que tomou as ruas de São Paulo, ecoando o que já vinha acontecendo em outras cidades do Brasil, está longe de ser homogênea. Há grupos organizados – e alguns deles acreditam que a depredação é um ato legítimo de defesa, diante da violência sistemática praticada pelo Estado e pelo capital –, há partidos políticos de esquerda e há uma massa de pessoas, a maioria jovens, que aderiram movidas por suas próprias aspirações. O que une “os vários movimentos dentro de um” são os 20 centavos. Mas os 20 centavos deixaram de ser 20 centavos para se tornar expressão de um descontentamento difuso, mas nem por isso menos profundo. Uma decepção com a vida que se vive e um anseio por sentido.

As manifestações de rua são talvez a melhor notícia da democracia, a prova maior de sua vitalidade, mas elas expressam o sentimento de que os políticos que aí estão, os partidos que aí estão, a concepção de mundo, de país e de política que eles representam, já não representam um número crescente de pessoas. Especialmente os jovens pós-internet, mas não só. Contra aquilo que não se entende, mas que ameaça o poder estabelecido, joga-se a polícia. O que se viu na quinta-feira (13/6) foram cenas que lembravam a ditadura militar. Mas as semelhanças acabam aí. A demonstração de força era a expressão de uma fragilidade com a marca deste tempo histórico, do hoje.

A prova mais eloquente, talvez, se revela nas frases postadas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) no Twitter. Para qualquer pessoa que seguisse o governador e também pessoas que estavam na manifestação, a narrativa simultânea do momento era extremamente reveladora. Reproduzo aqui a sequência de frases de 140 hectares de Alckmin e frases de diferentes manifestantes ou jornalistas que cobriam a manifestação, postadas ao mesmo tempo que as do governador. Todos estão identificadas com nome e sobrenome no Twitter, mas, depois do que vi na quinta-feira, por precaução, eu prefiro chamá-los aqui apenas de @manifestantes:

“@GeraldoAlckmin O direito à livre manifestação é um princípio basilar da democracia. Assim como o direito de ir e vir e a preservação do patrimônio público/@manifestante: Praça enchendo em paz… bonito/ @GeraldoAlckmin Depredação, violência e obstrução de vias públicas não são aceitáveis. O Governo de São Paulo não vai tolerar vandalismo/@manifestante: Repressão brutal, pessoas desesperadas, moradores com crianças correndo. Se o Haddad compactuar com isso é o fim definitivo do PT!! /@GeraldoAlckmin Participei hoje, em Santos, da comemoração aos 250 anos do nascimento de José Bonifácio Andrada e Silva, o patriarca da independência/@manifestante: Ônibus pegando fogo na Augusta. Milhares correndo, descendo a rua pedindo paz. PM segue com bombas. Motoristas encurralados por gás/@GeraldoAlckmin Ainda em Santos inaugurei nova delegacia de polícia do Porto de Santos, que ano passado recebeu 1.1 milhão de turistas /@manifestante: Tentei sair. Eles atiraram na minha frente. Virei, atiraram atrás. Fiquei cega, entrei num motel. Consegui me recompor/@GeraldoAlckmin No Guarujá inaugurei o novo Hospital Emílio Ribas e anunciei a implantação do Restaurante Bom Prato/@manifestante: Pra dispersar, faz sentido jogar uma bomba no começo, uma no fim? Fiquei presa entre duas bombas de gás. Muita gente machucada/@GeraldoAlckmin Para Cubatão liberamos R$ 21,5 milhões para construir 800 apartamentos e mais 1.448 apartamentos para Santos que receberá mais uma Etec/@manifestante: Eu nunca vi nada parecido. Muita gente ‘refugiada’ no hotel, sangrando/@GeraldoAlckmin Estive também em São Vicente p/ autorizar a recuperação da belíssima Ponte Pênsil, a construção de 1.120 moradias e a implantação da 2ª ETEC/ @manifestante: Augusta em chamas”.

O governador despediu-se no Twitter, na noite que já está assinalada na história de São Paulo, a maior cidade do país, como uma das mais violentas desde a volta da democracia, com a seguinte frase: “@GeraldoAlckmin Parabéns a toda a população de Guaratinguetá pelos 383 anos da cidade. Boa noite a todos!”.

A frase fala por si. A simultaneidade de realidades também. Se alguém quiser documentar essa noite histórica num livro/e-book, a melhor expressão me parece ser a reprodução das narrativas simultâneas do governador e de alguns narradores que estavam na manifestação. O mesmo vale para quem estiver sem tema para uma tese de doutorado. É um retrato do momento, que abre uma rica paleta de possibilidades de análise e de interpretação.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), não se manifestou diretamente nas redes sociais na noite de quinta-feira. Mas sua ausência, em vários sentidos, esteve bem presente. Tão logo ficou claro que a violência policial era condenada até mesmo por aqueles que antes a haviam pedido em letras garrafais, o prefeito passou a se esforçar para se descolar do governador. Assim como o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que, se hoje critica a ação da polícia paulista, antes de os ventos mudarem tinha se apressado a oferecer apoio “no que for necessário” ao governo de São Paulo. Desta vez, PSDB e PT estiveram unidos pela incompreensão do momento histórico que vivem, atarantados diante da força das ruas e de uma linguagem que não dominam, nem sequer entendem.

Quando Alckmin só consegue enxergar “vândalos” e “baderneiros”, é o que não enxerga que aparece. Quando Haddad tenta se amparar no discurso de que o aumento do preço do transporte público foi abaixo da inflação, é a sua dificuldade de compreender o discurso novo das ruas que se torna explícita. Não é mesmo fácil ser político neste momento histórico em que as ruas nas quais os movimentos se iniciam não têm mais chão. Desorientados diante da novidade, alguns quadros e militantes do PT têm repetido que é preciso resgatar bandeiras históricas do partido que se forjou nas ruas, mas agora se descobre apartado delas. Se isso já se torna cada vez mais difícil, dada as posições retrógradas do governo de Dilma Rousseff, é preciso perceber que essas bandeiras perdidas são do século XX. Ainda que as reivindicações estruturais, de fundo, permaneçam, algumas delas com suas raízes no Brasil Colônia, elas foram acrescidas de novos desafios e nuances e de uma forma inteiramente diferente de se relacionar com o mundo. O que está em jogo hoje são bandeiras do século XXI, em que até o conceito de bandeira já não é mais o mesmo.

A avassaladora velocidade das mudanças nos deixa a todos perplexos. E também a imprensa, que vive um momento delicadíssimo. A cobertura ao vivo das TVs era acompanhada por quem estava no Twitter, mas já com uma leitura crítica. E com a comparação imediata do que era dito pelos apresentadores com a narrativa polifônica, em primeira pessoa, feita pelos manifestantes que estavam no centro dos acontecimentos. Em seguida, o relato de quem testemunhava o protesto nas ruas era comentado e replicado pelos manifestantes que não estavam nas ruas, mas também se manifestavam. E não só em São Paulo, mas no Brasil e também fora do país.

Quem tanto ironiza os “ativistas de sofá” precisa começar a entender que as fronteiras entre as ruas já não existem – ou pelo menos exigem outro tipo de interpretação. Mesmo jornalistas que estavam cobrindo o protesto para seus veículos, fizeram seu relato em tempo real no Twitter e no Facebook – e alguns escreveram artigos independentes depois. Para compreender melhor esse aspecto da manifestação de quinta-feira, sugiro a leitura da ótima análise de Fabio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de Estudos em Internet e Cultura (Labic) – aqui.

Os 20 centavos se alargam, sua teia de significados ganha dimensões cada vez maiores, superando qualquer fronteira física ou virtual. A violência da polícia paulista motivou a reação de outras camadas da população e de outras faixas etárias, levando novas adesões ao movimento. O que se vê nas redes agora é a soma daqueles que dizem ser preciso lutar pela democracia e pela liberdade de protestar. Esse sentimento é demonstrado nas quatro frases do Twitter mais republicadas, segundo a análise do professor Fabio Malini: “@LeoRossatto A tarifa virou a menor das questões agora. Os próximos protestos precisam ser, antes de tudo, pela liberdade de protestar/ @choracuica Não é mais sobre a tarifa. F…-se a tarifa. Isso ficou muito maior que a questão da tarifa/@gaiapassarelli Há algo grande acontecendo e é menos sobre aumento de tarifa e mais sobre tomar posição. Todo mundo deveria prestar atenção/ @tavasconcellos Não é mais uma discussão sobre tarifa. Transporte. Baderna. Sobre nada disso. É sobre o direito de se manifestar por qualquer causa”.

Tenho recebido e-mails de amigos e também de desconhecidos. Edson Natale, músico e produtor cultural, mandou o seguinte texto para o seu mailing, do qual também faço parte: “Vou pra rua na segunda (17/6). E vou porque acho que devo cuidar da rua e porque o Brasil não é só a rua por onde ando. Vou pra rua por minhas crenças e pelas crenças dos filhos: dos meus filhos e dos filhos dos outros. Não é muita coisa ir pra rua, mas não quero perder o direito de ir, quando quiser. Não tenho partido, nem religião, mas acredito sobretudo na vida, nas pessoas e no futuro, por exemplo. Tenho 51 anos e poderei (tentar) ajudar a evitar a violência ou a quebradeira, seja lá de quem for. Estarei lá para mostrar que não tenho gostado dos conchavos, das negociatas, das simulações e das dissimulações que têm acontecido tão intensamente nos bairros, cidades e estados; nas florestas, litorais e sertão, independentemente dos partidos responsáveis por elas. Tenho 51 anos e digo – com maturidade – que é preciso ir para a rua e levar as nossas crenças para passear um pouco e encontrar-se com outras crenças, diferenças e verdades. Acho que é assim que se faz um País e eu tinha me esquecido disso. Por isso agradeço aos que ocuparam as ruas antes de mim e por mim. E antes que alguém diga, ressalto que não vou para a rua defender partidos políticos, violência, quebradeira ou ódio… nem para impor a ‘minha’ verdade. E dessa forma encerro aqui o meu convite: vamos?”.

É possível que seja de qualificação do desejo que esse movimento fale. Talvez seja esta a única coesão entre tantos anseios diferentes, organizados ou não. O sentimento de que essa vida é pouca, de que essa política pautada mais pela reprodução das relações de poder do que por ideias de um Brasil melhor já não motiva ninguém. Em São Paulo, mais do qualquer uma das outras capitais que também se levantaram e se levantam, a questão do transporte explicita todo esse desencanto. É muito simbólico que Alckmin e sua polícia tenham frisado tanto que defendiam “o direito de ir e vir” dos cidadãos, como se cidadãos também não fossem aqueles que se manifestavam. Mas o mais irônico dessa justificativa para a repressão é que “ir e vir” é o que não se consegue fazer em São Paulo, imobilizados em ônibus e carros no trânsito parado, uma oposição já cristalizada na linguagem. Talvez o que una os manifestantes tão diferentes de São Paulo seja o movimento – o ato mesmo de literalmente romper o imobilismo e se mover. A maior transgressão é andar – e por isso era também crucial andar na imensamente simbólica Avenida Paulista. Pessoas, não carros, não ônibus 20 centavos mais caros. Não mais como zumbis sustentando uma vida insustentável em passos claudicantes e limitados, mas como pessoas no movimento desejante em busca de uma vida que faça mais sentido.

Vinte centavos talvez sejam o tanto de morte que uma vida humana já não pode suportar. Em São Paulo, mas também em Porto Alegre, no Rio, em Brasília, em várias cidades e capitais. Assim como em outras partes do mundo – antes, agora, possivelmente depois –, em cada uma delas com contextos, peculiaridades e rostos próprios, mas com algo em comum que é possível reconhecer. Algo que revela de um mundo que apodrece, de um modo de vida que já não dá conta da vida.

Talvez quem melhor tenha sintetizado os protestos que hoje tomam conta do Brasil tenha sido um velho, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em outro canto do mundo, quase dois anos atrás. Ao falar aos jovens que tomaram as ruas de cidades da Espanha como Barcelona e Madri, ele disse uma frase que se disseminou pela internet, traduzida para várias línguas: “Este mundo de merda está grávido de outro”.

Tomara que esteja. E que tenhamos a grandeza de sonhar com um mundo em que exista espaço para a vida.

Scott Atran: ” the best predictor (in the sense of a regression analysis) of willingness to commit an act of jihadi violence is if one belongs to an action-oriented social network, such as a neighborhood help group or even a sports team”

Here He Goes Again: Sam Harris’s Falsehoods

Sam Harris

Here He Goes Again: Sam Harris’s Falsehoods (This View of Life)

POST: JUNE 13, 2013 1:05 PM
AUTHOR: SCOTT ATRAN         SOURCE: TVOL EXCLUSIVE

Sam Harris posted a recent blog about my views on Jihadis that is unbecoming of serious intellectual debate, if not ugly. He claims that I told him following a “preening and delusional lecture” that “no one [connected with suicide bombing] believes in paradise.” What I actually said to him (as I have to many others) was exactly what every leader of a jihadi group I interviewed told me, namely, that anyone seeking to become a martyr in order to obtain virgins in paradise would be rejected outright. I also said (and have written several articles and a book laying out the evidence) that although ideology is important, the best predictor (in the sense of a regression analysis) of willingness to commit an act of jihadi violence is if one belongs to an action-oriented social network, such as a neighborhood help group or even a sports team (see Atran, TALKING TO THE ENEMY, Penguin, 2010).

Harris’s views on religion ignore the considerable progress in cognitive studies on the subject over the last two decades, which show that core religious beliefs do not have fixed propositional content (Atran & Norenzayan, “Religion’s Evolutionary Landscape,” BEHAVIORAL AND BRAIN SCIENCES, 2004). Indeed, religious beliefs, in being absurd (whether or not they are recognized as such), cannot even be processed as comprehensible because their semantic content is contradictory (for example, a bodiless but physically powerful and sentient being, a deity that is one in three, etc). It is precisely the ineffable nature of core religious beliefs that accounts, in part, for their social and political adaptability over time in helping to bond and sustain groups (Atran & Ginges, “Religious and Sacred Imperatives in Human Conflict,” SCIENCE, 2012). In fact, it is the ecstasy-provoking rituals that Harris describes as being associated with such beliefs which renders them immune to the logical and empirical scrutiny that ordinarily accompanies belief verification (see Atran & Henrich, “The Evolution of Religion,” BIOLOGICAL THEORY, 2010).

Harris’s generalizations of his own fMRIs on belief change among a few dozen college students as supportive of his views of religion as simply false beliefs are underwhelming. As Pat Churchland surmised: “There is not one single example in [Harris’s work] of what we have learned from neuroscience that should impact our moral judgments regarding a particular issue. There may EXIST examples, but he does not provide any.” (personal communication 2/24/11; see also the fMRI work by our neuroeconomics team lead by Greg Berns in the theme issue on “The Biology of Conflict,” PHILOSOPHICAL TRANSACTIONS OF THE ROYAL SOCIETY, 2012).

Context-free declarations about whether Islam, or any religion, is inherently compatible or incompatible with extreme political violence – or Democracy or any other contemporary political doctrine for that matter — is senseless. People make religious belief – whether Islam, Christianity, Judaism, Buddhism, and so forth – compatible with violence or non-violence according to how they interpret their religious beliefs. And how people interpret religious injunctions (e.g., the Ten Commandments), as well as transcendental aspects of political ideologies, almost invariably changes over time. For example, on the eve of the Second World War, political and Church leaders in Fascist Italy and Spain claimed that Catholicism and Democracy were inherently incompatible, and many Calvinist and Lutheran Protestants believed that God blessed the authoritarian regime. As Martin Luther proclaimed, “if the Emperor calls me, God calls me” – a sentiment that Luther, like many early Christians, believed was sanctified by Jesus’s injunction to “Render to Caesar the things that are Caesar’s, and to God the things that are God’s.” Nevertheless, the principles of modern liberal democracy first took root and grew to full strength in The European Christian and Colonial heartland. As Benjamin Franklin expressed it in his proposal for the motto of the new American Republic: “ Rebellion against Tyranny is Obedience to God.” Or, as the Coordinating Council of Yemeni Revolution for Change put it, an Islam of “basic human rights, equality, justice, freedom of speech, freedom of demonstration, and freedom of dreams!” (National Yemen, “The Facts As They Are,” Youth Revolutionary Council Addresses International Community, April 25, 2011).

That there is a cruel and repugnantly violent contemporary current in Islam, there is no doubt. Factions of the Christian identity movement, the Tamil Tiger interpretation of Hinduism as necessitating suicide attacks against Buddhist enemies, Imperial Japan’s interpretation of Zen Buddhism as a call to a war of extermination against the Chinese, all have produced cruel and barbarous behavior that has adversely affected millions of people. But Harris’s take on such matters is so scientifically uninformed and mendacious as to be a menace to those who seek a practical and reasoned way out of the morass of obscurantism.

As a final note, I should also mention that I am a lead investigator on several multiyear, multidisciplinary field-based science projects sponsored by the Department of Defense, including “Motivation, Ideology, and the Social Process in Radicalization,” aspects of which are taught to military personnel from general officers down. And I am recurrently asked to give briefings on these subjects to the White House, Congress and allied governments. I know of no comparable demands or operational interest among the political, defense or intelligence agencies of the U.S. and its allies for Harris’s musings on religious ecstasy. In Harris’s strange worldview, which is admittedly popular among many who believe that reason’s mission is to end religion to save the species, failure to apply those musings to stop religiously-directed violence across the globe may well be a another sign of the “crazy” ideas that he regularly ascribes to those who refuse his truth.

Here is what Harris wrote:

I have long struggled to understand how smart, well-educated liberals can fail to perceive the unique dangers of Islam. In The End of Faith, I argued that such people don’t know what it’s like to really believe in God or Paradise—and hence imagine that no one else actually does. The symptoms of this blindness can be quite shocking. For instance, I once ran into the anthropologist Scott Atran after he had delivered one of his preening and delusional lectures on the origins of jihadist terrorism. According to Atran, people who decapitate journalists, filmmakers, and aid workers to cries of “Alahu akbar!” or blow themselves up in crowds of innocents are led to misbehave this way not because of their deeply held beliefs about jihad and martyrdom but because of their experience of male bonding in soccer clubs and barbershops. (Really.) So I asked Atran directly:

“Are you saying that no Muslim suicide bomber has ever blown himself up with the expectation of getting into Paradise?”

“Yes,” he said, “that’s what I’m saying. No one believes in Paradise.”

At a moment like this, it is impossible to know whether one is in the presence of mental illness or a terminal case of intellectual dishonesty. Atran’s belief—apparently shared by many people—is so at odds with what can be reasonably understood from the statements and actions of jihadists that it admits of no response. The notion that no one believes in Paradise is far crazier than a belief in Paradise.

http://www.samharris.org/blog/item/islam-and-the-misuses-of-ecstasy

Scott Atran is an American and French anthropologist who is a Director of Research in Anthropology at the Centre National de la Recherche Scientifique in Paris, Senior Research Fellow at Oxford University in England, Presidential Scholar at John Jay College of Criminal Justice in New York, and also holds offices at the University of Michigan. He has studied and written about terrorism, violence and religion, and has done fieldwork with terrorists and Islamic fundamentalists, as well as political leaders.

La privatización de los comunes que encendió la Primavera Turca / A Primavera do Direito à Cidade (outraspalavras.net)

10/6/2013

Bernardo Gutierrez | Tradução: Bruna Bernacchio

Taksim é nosso, Istambul é nossa!”. Os gritos não pertencem a algum dos jovens que ocuparam o Parque Taksim Gezi, da capital turca, na virada do mês. Tampouco é um mote que esteja correndo o mundo no Twitter, sob a tag #OccupyGezi. “Taksim é nosso” está sendo pronunciado por um cidadão anônimo no vídeo Tkasim Square (Istambul Commons), durante uma manifestação celebrada no outono passado. “Taksim é nosso” – continua a voz no megafone – “não importa as opções políticas que tenham as pessoas”.

O vídeo foi produzido no âmbito do projeto Mapeando o Comum [Mapping the Commons], idealizado pelo estúdio sevilhano Hacktitetura e desenvolvido pelo ativistaPablo de Soto, em Atenas e Istambul. E contextualiza com perfeição a vertiginosa insurreição que está vivendo Istambul e toda a Turquia. O centro comercial planejado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, que incendiou #OccupyGezi, é apenas a ponta de um iceberg maior: um duro plano neoliberal para privatizar bens comuns (águas, bosques) e espaço público. Até que ponto o ataque ao comu, e concretamente a privatização dos espaços urbanos deflagraram a Primavera Turca?

O projeto Mapeando o Comum — definido por seus próprios autores como uma performance que pode tornar-se reflexão, uma obra de arte ou uma ação social — é um verdadeiro passeio pelas raízes de #OccupyGezi. A cartografia, realizada na plataformaMeipi, organiza o comu de Istambul em quatro categorias: bens naturais, cultura, espaço público e digital. Os vídeos publicados, todos com falas parcialmente em inglês, resumem os ataques que o o espaço público sofre na era Erdogan.

“Communication space”, por exemplo, revela, por meio dos protestos dos estudantes universitários, a luta pelo conhecimento e comunicação livres. Em “Water as a commons”, o assunto central é a privatização da gestão da água na região. “For-rest”denuncia que a terceira ponte sobre o estreito de Bósforo, que o governo de Erdogan planeja, implicaria na desaparecimento do bosque Belgrado, pulmão verde da cidade. A repressão no espaço público de manifestações sócio-culturais como festas nas ruas ou o fim da única praça de pedestres (Galata Square) de Istambul são tema os vídeos Cultural expressions in public space e o Galata Tower Square.

Até que ponto a privatização selvagem dos bens comuns naturais e urbanos de Istambul incendiou a revolta de #OccupyGezi? O ativista Pablo de Soto, em declarações ao jornal espanhol El Diario, sustenta que os fatos estão intrinsecamente relacionados: “O corte das árvores para construir um centro comercial para a elite e os turistas foi o pavio de incêndio, o catalizador final dos protestos por justiça social e econômica”.

A arquiteta turca Pelin Tan, em seu artigo Um relato de Gezi Park reforma a tese: “Para o governo turco, as novas políticas urbanas são a desculpa para atos de segragação, para incentivar estilos de vida neoliberais, o progressivo endividamento dos seus cidadãos, exploração, racismo, corrupção, e a instalação de um estado de exceção que viola os direitos humanos”. Por sua vez, a prestigiosa plataforma Architizer também situa os bens comuns urbanos como claro estopim da revolta.

#OccupyGezi é muito mais que um grito ecologista para salvar os árvores de Taksim. Mas não exclusivamente é apenas uma revolta antagonista contra a arrogância macropolítica do governo turco ou a suposta tentativa de islamização da Turquia que, segundo a imprensa ocidental, Erdogan conduz.

Em A Catedral e o Bazar, o hacker Eric S. Raymond contrapunha dois modelos na elaboração de software. A Catedral representa o modelo de desenvolvimento hermético e vertical do software proprietário. O bazar, com sua dinâmica horizontal e barulhenta, representaria a Linux e outros projetos de software livre, baseados no trabalho comunitário. Nenhum lugar como Istambul, com seu barulhento Gran Bazar, encarna melhor a metáfora urbana da tese de Raymond. De um lado, a catedral de receitas top down e privatizantes, do Governo de Erdogan. Do outro, o grande bazar humano de Istambul, seu espaço público, a tradição comunal das comunidades da cidade. #OccupyGezi e sua convivência humana resumem o choque de trens da história, entre dois modelos incompatíveis.

Derya Calik, estudante e ativista, descreve em uma entrevista a estratégia da catedral neoliberal contra os manifestantes de Taksim. “Na Turquia, não temos uma boa conexão 3G. Quando muito usada, a rede entra em colapso. Além disso, muitas pessoas foram informadas do uso de inibidores de sinal, por parte da polícia. Por isso, começamos a utilizar uma conexão VPN (Rede Virtual Privada). E, além disso, as lojas, restaurantes, hotéis e os residentes da zona cederam Wi-Fi aos manifestantes, abrindo as senhas de suas redes”. O bazar colaborativo de Istambul, no momento, driblou a aprisionadora catedral de Erdogan.

É possível fazer alguma comparação entre #OccupyGezzi e a acampada da Porta do Sol de Madri do 15M ou do Occupy Wall Street em Zuccotti? Pelin Tan, no texto já citado, destaca que “a ocupação de Gezi é um símbolo de estar juntos no comum (a arquiteta emprega a quase intraduzível palavra commoning), apesar de nossas diferenças”. Em #OccupyGezi, continua ela, envolveu-se “gente de diferentes classes, bairros e movimentos culturais — mais que organizações políticas e grupos de oposição”. Uma auto-organização transversal do bazar colaborativo, que a violência policial multiplicou até limites não esperados. Da praça ao mundo. Do hiperlocal à geopolítica.

Já o ativista Orsan Selap, habitual nas listas de correios de TakeTheSquare.net criadas no início do 15M espanhol, ressalta a El Diario a importância das redes na incipiente Primavera Turca: “O pensamento peer-to-peer (P2P) e em favor do comum nos dá uma alternativa clara ao capitalismo. Nesses momentos, nas redes sociais, as ruas e as lutas de Istambul estão convertendo-se em algo com muitos vínculos internacionais”.

(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim

De Taksim ao mundo. Do hiperlocal ao global. Do urbano à geopolítica. Em seu aclamado livro Cidades rebeldes, o sociólogo David Harvey afirma que a “revolução será urbana ou não será”. E adapta ao século XXI “o direito à cidade”, um velho grito dos anos sessenta, título de um mítico livro de Henry Lefebvre. O direito à cidade seria um “espaço social com interações e práticas onde a produção social tem lugar”.

A metrópole moderna tem um papel importante na produção do comum. Curiosamente, os movimentos sociais de Istambul estão remesclando o grito de Lefebvre-Harvey. No texto “O movimento pelo Direito à Cidade e o verão turco”, a jornalista independente Jay Cassano faz um detalhado repasse dos ataques neoliberais que Istambul está sofrendo nos últimos tempos, além do projeto de centro comercial para Gezi Taksim.

Jay cita em seu artigo a conversão do histórico cine Emek em shopping center. Menciona a terceira ponte sobre o Bósforo. E destaca o forte processo de segragação que Istambul está sofrendo, especialmente nos “bairros históricos de Sulukule, Tarlabasi, Tophane e Fener-Balat, onde vivem os imigrantes e a minoria curda”. Precisamente, Mapeando os Comuns dedica um vídeo ao distrito de Fenet-Balat-Ayvansaray, onde os vizinhos resistem ao plano urbanístico do Ajuntamento pela Associação Febayder.

O coletivo Reclaim Istambul, inspirado no coletivo britânico Reclaim the streets, que lutava pelo espaço público, faz uma verdadeira lista dos horrores urbanísticos planejados para a capital turca: “Centenas de edifícios gradeados, torres de escritórios, centros comerciais e projetos multiusos crescendo como flechas em toda a cidade”. Entre a penca de projetos de corte neoliberal, destacam Via Port Venezia (“redesenhamos Veneza e a trouxemos a Istambul”) ou Mall of Istambul (“aproveite de perto de um dos maiores shoppings da Turquia”). Em certo sentido, #OccupyGezi nasceu como grito coletivo para evitar que a milenária Istambul acabe se convertendo em Las Vegas ou Dubai.

O Reclaim Istambul é responsável por um dos documentários mais polêmicos dos últimos tempo, Ekümenópolis. Com um verdadeiro coquetel de imagens, entrevistas, músicas, gráficos e animações, Ekümenópolis desenha o selvagem ataque ao comum urbano e natural que sofre a cidade. A contundência de sua sinopse dá uma ideia da dureza de seu conteúdo: “Há alguns anos, Istambul tinha 3,5 milhões de habitantes. Hoje somos 15 milhões e em 15 anos seremos 23. Foram ultrapassados os limites ecológicos e de população. Perdeu-se a coesão social. Aqui surgiu uma imagem do urbanismo neoliberal: Ekümenópolis”.

“É mais que uma revolução tecnológica: é uma revolução cultural. Os rígidos modelos verticais para intensificar os sistemas de produção de massa do século passado estão sendo substituídos por flexíveis redes peer-to-peer, que nos levam até uma nova estética de códigos”. A frase é do arquiteto Joseph Grima, diretor da última edição da Bienal de Desenho de Istambul, celebrada ao final de 2012. Adhocracy, o título da Bienal, não foi casual. A adocracia, outro termo recentemente ressuscitado, é um novo modelo de organização flexível, intuitiva, transversal. A adocracia é horizontal, rotativa. Por isso, Adhocracy foi muito mais que uma exposição. Foi um laboratório.

Uma de suas comissárias, Ethel Baraona (dPr-Barcelona), respondendo a um questionário sobre #OccupyGezi, destaca o vínculo da Bienal com o comum urbano: “Uma grande parte dos projetos estava relacionada com o ativismo urbano, com a intenção de chamar a atenção do espaço público como espaço de intercâmbio de conhecimentos e de ação”. A Bienal adocrata espalhou por Istambul o dinamismo de coletivos-projetos como Crafting NeigborhoodsRecetas UrbanasOpen Structures,Maker Faire Africa, Arduino ou Zuloark (representando o madrilenho El Campo de Cebada).

Especialmente metafórico foi o projeto Drone Shade, da artista James Bridle. Depois de polvilhar de sombras de “drones” (aviões não tripulados) a Faixa de Gaza ou Londres, James desenhou com linhas brancas, no coração urbano de Istambul, a suposta sombra dos drones que os Estados Unidos utilizam da Turquia. O espaço público como tabuleiro do mundo. Como metáfora geopolítica. A metralhadora top down e neoliberal de Erdogan, representada em uma forma de contornos brancos. A aliança militar estadounidense-turca, que persegue o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte da Turquia e no norte do Irã, como uma verdade ao rés do chão. A cidade como campo de batalha.

Será #OccupyGezi é a primeira revolução incendiada pelo comum urbano? Talvez a primeira, mas não a última. O modelo da catedral neoliberal de Istambul replica-se em todo o mundo. As remoções e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro pré-olímpico são um exemplo. O projeto EuroVegas de Madri, como destaca Pablo de Soto, “é um escândalo de privatização e exceção da legalidade com mesmo grau destrutivo do parque Gezi em Taksim”.

Chegou a era das Cidades Rebeldes de David Harvey? Veremos uma sequência de revoluções urbanas em um planeta que esgota seus recursos naturais a um ritmo assustador? Ainda que não haja respostas, existem intuições. O antropólogo e ativista do 15M Adolfo Estalella, em seu provocador texto El procomún no es un commons vaticina uma forte politização dos núcleos urbanos: “O pró-comum é a figura que permite politizar a cidade. Se há dez anos a globalização era o objetivo de ativismo, agora é a cidade. Por isso, o comum é, para o ativismo atual o que a globalização era para este há dez anos”.

http://outraspalavras.net/2013/06/10/a-primavera-do-direito-a-cidade/

fonte original: http://www.eldiario.es/turing/privatizacion-comunes-encendio-Primavera-Turca_0_139986455.html

Centro brasileiro aumenta em quatro vezes a precisão da previsão do tempo (JC/O Globo)

JC e-mail 4746, de 13 de Junho de 2013.

Novo modelo do CPTEC, que usa o supercomputador Tupã, consegue mapear com resolução de cinco quilômetros quadrados. Reportagem de O Globo

Os olhos da previsão do tempo no Brasil passaram a enxergar melhor. Com quatro vezes mais precisão, mais precisamente. O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) lançou uma atualização do modelo Brams de previsão, turbinado agora pela alta capacidade de processamento do supercomputador Tupã, instalado em Cachoeira Paulista. Antes, o Brams fazia previsões de até uma semana com nitidez de 20 quilômetros quadrados. Agora, a resolução é de 5 quilômetros quadrados para os mesmos sete dias.

Com a nova versão, o nível de detalhe da previsão, que antes se limitava a uma cidade ou região, desta vez consegue diferenciar um bairro do outro. A consulta ao novo modelo meteorológico é gratuita e está disponível no site do CPTEC.

Para cobrir toda a América do Sul, o Brams dividiu o território como num grande jogo de batalha naval, com 1360 por 1480 células de área. Como é um modelo em três dimensões, há também 55 níveis verticais para cada uma destas células. No total, são 110 milhões de pontos, processados simultaneamente nos 9.600 processadores do Tupã.

Segundo o CPTEC, a versão 5.0 do Brams coloca o Brasil em posição de competitividade com os principais centros operacionais do mundo. O centro de previsão do National Centers for Environmental Prediction (NCEP), por exemplo, gera previsões a partir de um modelo similar – o National Mesoscale Model – de 4 quilômetros, 70 níveis verticais e grade de 1371 x 1100 células, que cobre toda a região continental dos Estados Unidos.

Para desenvolver esta nova versão do modelo BRAMS, também utilizado para a previsão e monitoramento da poluição do ar, são usados dados de estações meteorológicas de todo o país, de satélites, boias oceânicas e imagens de avião.

http://oglobo.globo.com/ciencia/centro-brasileiro-aumenta-em-quatro-vezes-precisao-da-previsao-do-tempo-8667823#ixzz2W6YkxWkF

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Inpe lança modelo de previsão de tempo com altíssima resolução

O novo padrão cobre toda a América do Sul

Uma nova versão do modelo regional Brams de previsão de tempo, que cobre toda a América do Sul, foi lançada pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC)do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCTI). O Brams, versão 5.0, já está operacional para até sete dias.

O modelo gera previsões com resolução espacial de 5 quilômetros, enquanto o anterior fornecia previsões com resolução de 20 quilômetros. O avanço só foi possível devido À alta capacidade de processamento do novo supercomputador Cray, do Inpe, o Tupã, instalado no CPTEC, em Cachoeira Paulista (SP).

Os desenvolvimentos para tornar a nova versão do Brams operacional levaram cerca de um ano. Para cobrir toda a extensão da América do Sul, foram necessárias 1.360 x 1.480 células horizontais e 55 níveis verticais. As células de grade, num total de 110 milhões, aproximadamente, são processadas simultaneamente nos 9.600 processadores do Cray, em computação paralela.

Este esforço coordenado pelo Grupo de Modelagem Atmosférica e Interfaces (Gmai) colocou o CPTEC em posição de competitividade em relação aos principais centros operacionais do mundo. O centro de previsão do National Centers for Environmental Prediction (NCEP), por exemplo, gera previsões a partir de um modelo similar – o National Mesoscale Model – de 4 quilômetros, 70 níveis verticais e grade de 1.371 x 1.100 células, que cobre toda a região continental dos Estados Unidos.

Para desenvolver esta nova versão do modelo Brams, também utilizado para a previsão e monitoramento da poluição do ar, utilizou-se um modelo não hidrostático, que representa com maior precisão processos físicos de menor escala, como o desenvolvimento e a dissipação de nuvens e chuvas. Diversos avanços em parametrização (representações matemáticas de processos físicos) foram realizados para nuvens, radiação solar e processos e dinâmicas de superfície.

(Ascom do Inpe)

Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios (FSP)

09/06/2013 – 02h26

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE

Roseli Ruiz tem diploma de antropóloga e faz perícias em terras em litígio. Sua filha, Luana, dirige a ONG Recovê -“conviver”, em guarani. Mas ambas estão entre os mais ferrenhos defensores dos proprietários rurais de Mato Grosso do Sul na disputa de terras com indígenas.

“Fui invadida em 1998 e, no ano seguinte, fui fazer direito para entender esse desmando. No decorrer do curso detectei que o que estava fundamentando não era a legislação, e sim um relatório antropológico”, explica Roseli, que fez uma pós-graduação na Universidade Sagrado Coração, em Bauru (SP).

A propriedade fica em Antônio João (a 280 km ao sul de Campo Grande), na fronteira com o Paraguai, e tem 10 mil hectares. Uma parte minoritária está tomada por famílias guaranis-caiovás.

Com o tempo, conta Roseli, ela passou a fazer relatórios antropológicos em vários Estados, como Mato Grosso e Paraná. Seu próximo trabalho será na área da Raposa Serra do Sol, em Roraima.

A fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtoresA fazendeira Roseli Ruiz durante protesto de produtores. Marlene Bergamo – 7.jun.2013/Folhapress.

Ela afirma que, em todos os estudos, não encontrou nenhuma terra indígena. Ela admite que algumas áreas indígenas precisam ser ampliadas, mas via indenização justa, “e não confisco”.

“Não é assunto para demarcação quando os índios foram retirados para colonização. Não se pode fundamentar em 1500. Senão, o prédio da Folha tem de ser desapropriado e entregue pra índio”, afirmou.

A antropóloga-fazendeira afirma que tem um bom relacionamento com os índios. “Na minha fazenda, do lado do Paraguai, temos uma aldeia. E, desde que nós mudamos, há 32 anos, quem socorre os índios sou eu. Quando ocorria uma picada de cobra, eles vinham na fazenda solicitar que fossemos buscar.”

Ao seu lado, a advogada Luana disse que a criação da ONG foi a solução encontrada para “nos legitimar e participar das reuniões e descobrir o que está acontecendo”.

A entrevista ocorreu durante uma carreata realizada pelos produtores rurais anteontem. Em certo momento, uma amiga cumprimentou Roseli brincando: “Não vai virar a casaca, hein?”.

*   *   *

12/06/2013 – 04h00

Presidente de associação contesta reportagem sobre índios

CARMEN RIAL
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA
DE FLORIANÓPOLIS (SC)

Esclarecemos que a mulher [Roseli Ruiz] objeto da reportagem “Fazendeira vira antropóloga e faz laudos contra índios” não é filiada à ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e que, conforme seu currículo Lattes, teria feito um curso “lato sensu” em antropologia, o que não equivale a um “diploma de antropóloga”.

Importa esclarecer que relatórios e laudos antropológicos são peças técnicas distintas, elaboradas por profissionais com formação acadêmica reconhecida e conhecimento etnográfico sobre o grupo ou a circunstância enfocados, impossíveis de serem elaborados em tempo exíguo e por profissionais sem a formação necessária. Sua atuação é incompatível com o nosso Código de Ética.

Mice Give New Clues to Origins of Obsessive-Compulsive Disorder (Science Daily)

June 10, 2013 — Columbia Psychiatry researchers have identified what they think may be a mechanism underlying the development of compulsive behaviors. The finding suggests possible approaches to treating or preventing certain characteristics of OCD.

Using a new technology in a mouse model, the researchers found that repeated stimulation of specific circuits linking the brain’s cortex and striatum produces progressive repetitive behavior. (Credit: Image courtesy of Columbia University Medical Center)

OCD consists of obsessions, which are recurrent intrusive thoughts, and compulsions, which are repetitive behaviors that patients perform to reduce the severe anxiety associated with the obsessions. The disorder affects 2-3 percent of people worldwide and is an important cause of illness-related disability, according to the World Health Organization.

Using a new technology in a mouse model, the researchers found that repeated stimulation of specific circuits linking the brain’s cortex and striatum produces progressive repetitive behavior. By targeting this region, it may be possible to stop abnormal circuit changes before they become pathological behaviors in people at risk for obsessive-compulsive disorder (OCD). The study, which was led by Susanne Ahmari, MD, PhD, assistant professor of clinical psychiatry at Columbia Psychiatry and the New York State Psychiatric Institute, was published in the June 7 issue of Science.

While the obsessions and compulsions that are the hallmarks of OCD are thought to be centered in the cortex, which controls thoughts, and the striatum, which controls movements, little is known about how abnormalities in these brain regions lead to compulsive behaviors in patients.

To simulate the increased activity that takes place in the brains of OCD patients, Dr. Ahmari and her colleagues used a new technology called optogenetics, in which light-activated ion channels are expressed in subsets of neurons in mice, and neural circuits are then selectively activated using light delivered through fiberoptic probes.

“What we found was really surprising,” said Dr. Ahmari. “That activation of cortico-striatal circuits did not lead directly to repetitive behaviors in the mice. But if we repeatedly stimulated for multiple days in a row for only five minutes a day, we saw a progressive development of repetitive behaviors — in this case, repetitive grooming behavior — that persisted up to two weeks after the stimulation was stopped.”

She added, “And not only that, when we treated the mice with fluoxetine, one of the most common medications used for OCD, their behavior went back to normal.” The current study, as well as others currently being performed by Dr. Ahmari and her team, may ultimately provide clues for new treatment targets in terms of both novel drug development and direct stimulation techniques, including deep brain stimulation (DBS).

The study was supported by grants from NIMH (K08MH087718; K24 MH091555), the Louis V. Gerstner, Jr. Scholars Program, the Irving Institute for Clinical and Translational Research, the Gray Matters Foundation, the Leon Levy Foundation, and a NARSAD Young Investigator Award.

Journal Reference:

  1. S. E. Ahmari, T. Spellman, N. L. Douglass, M. A. Kheirbek, H. B. Simpson, K. Deisseroth, J. A. Gordon, R. Hen.Repeated Cortico-Striatal Stimulation Generates Persistent OCD-Like BehaviorScience, 2013; 340 (6137): 1234 DOI: 10.1126/science.1234733

When Will My Computer Understand Me? (Science Daily)

June 10, 2013 — It’s not hard to tell the difference between the “charge” of a battery and criminal “charges.” But for computers, distinguishing between the various meanings of a word is difficult.

A “charge” can be a criminal charge, an accusation, a battery charge, or a person in your care. Some of those meanings are closer together, others further apart. (Credit: Image courtesy of University of Texas at Austin, Texas Advanced Computing Center)

For more than 50 years, linguists and computer scientists have tried to get computers to understand human language by programming semantics as software. Driven initially by efforts to translate Russian scientific texts during the Cold War (and more recently by the value of information retrieval and data analysis tools), these efforts have met with mixed success. IBM’s Jeopardy-winningWatson system and Google Translate are high profile, successful applications of language technologies, but the humorous answers and mistranslations they sometimes produce are evidence of the continuing difficulty of the problem.

Our ability to easily distinguish between multiple word meanings is rooted in a lifetime of experience. Using the context in which a word is used, an intrinsic understanding of syntax and logic, and a sense of the speaker’s intention, we intuit what another person is telling us.

“In the past, people have tried to hand-code all of this knowledge,” explained Katrin Erk, a professor of linguistics at The University of Texas at Austin focusing on lexical semantics. “I think it’s fair to say that this hasn’t been successful. There are just too many little things that humans know.”

Other efforts have tried to use dictionary meanings to train computers to better understand language, but these attempts have also faced obstacles. Dictionaries have their own sense distinctions, which are crystal clear to the dictionary-maker but murky to the dictionary reader. Moreover, no two dictionaries provide the same set of meanings — frustrating, right?

Watching annotators struggle to make sense of conflicting definitions led Erk to try a different tactic. Instead of hard-coding human logic or deciphering dictionaries, why not mine a vast body of texts (which are a reflection of human knowledge) and use the implicit connections between the words to create a weighted map of relationships — a dictionary without a dictionary?

“An intuition for me was that you could visualize the different meanings of a word as points in space,” she said. “You could think of them as sometimes far apart, like a battery charge and criminal charges, and sometimes close together, like criminal charges and accusations (“the newspaper published charges…”). The meaning of a word in a particular context is a point in this space. Then we don’t have to say how many senses a word has. Instead we say: ‘This use of the word is close to this usage in another sentence, but far away from the third use.'”

To create a model that can accurately recreate the intuitive ability to distinguish word meaning requires a lot of text and a lot of analytical horsepower.

“The lower end for this kind of a research is a text collection of 100 million words,” she explained. “If you can give me a few billion words, I’d be much happier. But how can we process all of that information? That’s where supercomputers and Hadoop come in.”

Applying Computational Horsepower

Erk initially conducted her research on desktop computers, but around 2009, she began using the parallel computing systems at the Texas Advanced Computing Center (TACC). Access to a special Hadoop-optimized subsystem on TACC’s Longhornsupercomputer allowed Erk and her collaborators to expand the scope of their research. Hadoop is a software architecture well suited to text analysis and the data mining of unstructured data that can also take advantage of large computer clusters. Computational models that take weeks to run on a desktop computer can run in hours on Longhorn. This opened up new possibilities.

“In a simple case we count how often a word occurs in close proximity to other words. If you’re doing this with one billion words, do you have a couple of days to wait to do the computation? It’s no fun,” Erk said. “With Hadoop on Longhorn, we could get the kind of data that we need to do language processing much faster. That enabled us to use larger amounts of data and develop better models.”

Treating words in a relational, non-fixed way corresponds to emerging psychological notions of how the mind deals with language and concepts in general, according to Erk. Instead of rigid definitions, concepts have “fuzzy boundaries” where the meaning, value and limits of the idea can vary considerably according to the context or conditions. Erk takes this idea of language and recreates a model of it from hundreds of thousands of documents.

Say That Another Way

So how can we describe word meanings without a dictionary? One way is to use paraphrases. A good paraphrase is one that is “close to” the word meaning in that high-dimensional space that Erk described.

“We use a gigantic 10,000-dimentional space with all these different points for each word to predict paraphrases,” Erk explained. “If I give you a sentence such as, ‘This is a bright child,’ the model can tell you automatically what are good paraphrases (‘an intelligent child’) and what are bad paraphrases (‘a glaring child’). This is quite useful in language technology.”

Language technology already helps millions of people perform practical and valuable tasks every day via web searches and question-answer systems, but it is poised for even more widespread applications.

Automatic information extraction is an application where Erk’s paraphrasing research may be critical. Say, for instance, you want to extract a list of diseases, their causes, symptoms and cures from millions of pages of medical information on the web.

“Researchers use slightly different formulations when they talk about diseases, so knowing good paraphrases would help,” Erk said.

In a paper to appear in ACM Transactions on Intelligent Systems and Technology, Erk and her collaborators illustrated they could achieve state-of-the-art results with their automatic paraphrasing approach.

Recently, Erk and Ray Mooney, a computer science professor also at The University of Texas at Austin, were awarded a grant from the Defense Advanced Research Projects Agency to combine Erk’s distributional, high dimensional space representation of word meanings with a method of determining the structure of sentences based on Markov logic networks.

“Language is messy,” said Mooney. “There is almost nothing that is true all the time. “When we ask, ‘How similar is this sentence to another sentence?’ our system turns that question into a probabilistic theorem-proving task and that task can be very computationally complex.”

In their paper, “Montague Meets Markov: Deep Semantics with Probabilistic Logical Form,” presented at the Second Joint Conference on Lexical and Computational Semantics (STARSEM2013) in June, Erk, Mooney and colleagues announced their results on a number of challenge problems from the field of artificial intelligence.

In one problem, Longhorn was given a sentence and had to infer whether another sentence was true based on the first. Using an ensemble of different sentence parsers, word meaning models and Markov logic implementations, Mooney and Erk’s system predicted the correct answer with 85% accuracy. This is near the top results in this challenge. They continue to work to improve the system.

There is a common saying in the machine-learning world that goes: “There’s no data like more data.” While more data helps, taking advantage of that data is key.

“We want to get to a point where we don’t have to learn a computer language to communicate with a computer. We’ll just tell it what to do in natural language,” Mooney said. “We’re still a long way from having a computer that can understand language as well as a human being does, but we’ve made definite progress toward that goal.”

Survival condemns Steven Pinker’s ‘Brutal Savage’ myth (Survival International)

12 June 2013

Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon.Steven Pinker, like Jared Diamond, bases his assertion that the Yanomami are a violent people solely on the work of controversial anthropologist Napoleon Chagnon. © Fiona Watson/Survival

Survival International has launched a vigorous rebuttal of Harvard ‘evolutionary psychologist’ Steven Pinker’s claim that tribal people are more violent than state societies.

In articles published this week in US journal Truthout, and the UK-based OpenDemocracy, Survival International’s Director Stephen Corry accuses Pinker – once named by Time magazine as one of the world’s 100 most influential people – of ‘claiming scientific support for what is mere opinion by falsely charging contemporary tribal peoples with more or less unremitting villainy.’

Corry writes, ‘Pinker’s baldly stated facts shake and buckle under cross-examination’. He accuses Pinker of: omitting facts which don’t fit his argument; getting many of his facts wrong; citing only those experts who agree with him; and ignoring the many others who don’t.

Starting with the first example in Pinker’s recent book ‘The Better Angels of Our Nature’ – the 5,200-year-old ‘Iceman’ named Ötzi – Corry reveals how Pinker’s suggestion that he was killed in a clash with another tribe is implausible. Corry goes on to expose countless other errors in Pinker’s supposedly ‘scientific’ argument, which has close parallels with the recent book ‘The World Until Yesterday’ by Jared Diamond.

Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia's armed forces.Pinker, like Diamond, accuses Papuans of being violent, but ignores the tens of thousands killed by Indonesia’s armed forces. © Survival

‘The data presented by these authors [Steven Pinker and Jared Diamond] is at least contentious, where it’s not plain wrong. They go out of their way to portray tribes as ‘Brutal Savages’ … [For example], twenty percent of the data Pinker uses to categorize the violence of the entire planet’s tribal peoples (excluding ‘hunter-gatherers’) is derived from a single anthropologist, Napoleon Chagnon – whose data has been severely criticized for decades.’

Of Pinker’s principal declaration – that our ancestors (and today’s tribal peoples) were more violent than ‘civilized’ Western society – Corry concludes, ‘Pinker [believes] we are brutal savages until tamed by a nation state bringing peaceful civilization. As far as contemporary tribal peoples are concerned, it couldn’t be further from the truth: the arrival of the state unleashes a savagery second to none in its brutality.’

Read more about the myth of the ‘Brutal Savage’ and how some writers are pushing the view that tribal people are particularly violent.

People Are Overly Confident in Their Own Knowledge, Despite Errors (Science Daily)

June 10, 2013 — Overprecision — excessive confidence in the accuracy of our beliefs — can have profound consequences, inflating investors’ valuation of their investments, leading physicians to gravitate too quickly to a diagnosis, even making people intolerant of dissenting views. Now, new research confirms that overprecision is a common and robust form of overconfidence driven, at least in part, by excessive certainty in the accuracy of our judgments.

New research confirms that overprecision is a common and robust form of overconfidence driven, at least in part, by excessive certainty in the accuracy of our judgments. (Credit: © pressmaster / Fotolia)

The research, conducted by researchers Albert Mannes of The Wharton School of the University of Pennsylvania and Don Moore of the Haas School of Business at the University of California, Berkeley, revealed that the more confident participants were about their estimates of an uncertain quantity, the less they adjusted their estimates in response to feedback about their accuracy and to the costs of being wrong.

“The findings suggest that people are too confident in what they know and underestimate what they don’t know,” says Mannes.

The new findings are published in Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science.

Research investigating overprecision typically involves asking people to come up with a 90% confidence interval around a numerical estimate — such as the length of the Nile River — but this doesn’t always faithfully reflect the judgments we have to make in everyday life. We know, for example, that arriving 15 minutes late for a business meeting is not the same as arriving 15 minutes early, and that we ought to err on the side of arriving early.

Mannes and Moore designed three studies to account for the asymmetric nature of many everyday judgments. Participants estimated the local high temperature on randomly selected days and their accuracy was rewarded in the form of lottery tickets toward a prize. For some trials, they earned tickets if their estimates were correct or close to the actual temperature (above or below); in other trials, they earned tickets for correct guesses or overestimates; and in some trials they earned tickets for correct guesses or underestimates.

The results showed that participants adjusted their estimates in the direction of the anticipated payoff after receiving feedback about their accuracy, just as Mannes and Moore expected.

But they didn’t adjust their estimates as much as they should have given their actual knowledge of local temperatures, suggesting that they were overly confident in their own powers of estimation.

Only when the researchers provided exaggerated feedback — in which errors were inflated by 2.5 times — were the researchers able to counteract participants’ tendency towards overprecision.

The new findings, which show that overprecision is a common and robust phenomenon, urge caution:

“People frequently cut things too close — arriving late, missing planes, bouncing checks, or falling off one of the many ‘cliffs’ that present themselves in daily life,” observe Mannes and Moore.

“These studies tell us that you shouldn’t be too certain about what’s going to happen, especially when being wrong could be dangerous. You should plan to protect yourself in case you aren’t as right as you think you are.”

Journal Reference:

  1. A. E. Mannes, D. A. Moore. A Behavioral Demonstration of Overconfidence in JudgmentPsychological Science, 2013; DOI: 10.1177/0956797612470700

Bolsa Família enfraquece o coronelismo e rompe cultura da resignação, diz socióloga (FSP)

11/06/2013 – 10h37

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

Dez anos após sua implantação, o Bolsa Família mudou a vida nos rincões mais pobres do país: o tradicional coronelismo perde força e a arraigada cultura da resignação está sendo abalada.

A conclusão é da socióloga Walquiria Leão Rego, 67, que escreveu, com o filósofo italiano Alessandro Pinzani, “Vozes do Bolsa Família” (Editora Unesp, 248 págs., R$ 36). O livro será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila do shopping Pátio Higienópolis. No local, haverá um debate mediado por Jézio Gutierre com a participação do cientista político André Singer e da socióloga Amélia Cohn.

Durante cinco anos, entre 2006 e 2011, a dupla realizou entrevistas com os beneficiários do Bolsa Família e percorreu lugares como o Vale do Jequitinhonha (MG), o sertão alagoano, o interior do Maranhão, Piauí e Recife. Queriam investigar o “poder liberatório do dinheiro” provocado pelo programa.

Aproveitando férias e folgas, eles pagaram do próprio bolso os custos das viagens. Sem se preocupar com estatística, a pesquisa foi qualitativa e baseada em entrevistas abertas.

Professora de teoria da cidadania na Unicamp, Rego defende que o Bolsa Família “é o início de uma democratização real” do país. Nesta entrevista, ela fala dos boatos que sacudiram o programa recentemente e dos preconceitos que cercam a iniciativa: “Nossa elite é muito cruel”, afirma.

Socióloga Walquiria Leão Rego, uma das autoras do livro sobre o Bolsa Família, que será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila, em SPWalquiria Leão Rego, uma das autoras do livro sobre o Bolsa Família, que será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila, em SP. Karime Xavier-31.mai.13/Folhapress

Folha – Como explicar o pânico recente no Bolsa Família? Qual o impacto do programa nas regiões onde a sra. pesquisou?

Walquiria Leão Rego – Enorme. Basta ver que um boato fez correr um milhão de pessoas. Isso se espalha pelos radialistas de interior. Elas [as pessoas] são muito frágeis. Certamente entraram em absoluto desespero. Poderia ter gerado coisas até mais violentas. Foi de uma crueldade desmesurada. Foi espalhado o pânico entre pessoas que não têm defesa. Uma coisa foi a medida administrativa da CEF (Caixa Econômica Federal). Outra coisa é o que a policia tem que descobrir: onde começou o boato. Fiquei estupefata. Quem fez isso não tem nem compaixão. Nossa elite é muito cruel. Não estou dizendo que foi a elite, porque seria uma leviandade.

Como assim?

Tem uma crueldade no modo como as pessoas falam dos pobres. Daí aparecem os adolescentes que esfaqueiam mendigos e queimam índios. Há uma crueldade social, uma sociedade com desigualdades tão profundas e tão antigas. Não se olha o outro como um concidadão, mas como se fosse uma espécie de sub-humanidade. Certamente essa crueldade vem da escravidão. Nenhum país tem mais de três séculos de escravidão impunemente.

Qual o impacto do Bolsa Família nas relações familiares?

Ocorreram transformações nelas mesmas. De repente se ganha uma certa dignidade na vida, algo que nunca se teve, que é a regularidade de uma renda. Se ganha uma segurança maior e respeitabilidade. Houve também um impacto econômico e comercial muito grande. Elas são boas pagadoras e aprenderam a gerir o dinheiro após dez anos de experiência. Não acho que resolveu o problema. Mas é o início de uma democratização real, da democratização da democracia brasileira. É inaceitável uma pessoa se considerar um democrata e achar que não tenha nada a ver com um concidadão que esteja ali caído na rua. Essa é uma questão pública da maior importância.

O Bolsa Família deveria entrar na Constituição?

A constitucionalização do Bolsa Família precisava ser feita urgentemente. E a renda tem que ser maior. Esse é um programa barato, 0,5% do PIB. Acho, também, que as pessoas têm direito à renda básica. Tem que ser uma política de Estado, que nenhum governo possa dizer que não tem mais recurso. Mas qualquer política distributiva mexe com interesses poderosos.

A sra. poderia explicar melhor?

Isso é histórico. A elite brasileira acha que o Estado é para ela, que não pode ter esse negócio de dar dinheiro para pobre. Além de o Bolsa Família entrar na Constituição, é preciso ter outras políticas complementares, políticas culturais específicas. É preciso ter uma escola pensada para aquela população. É preciso ter outra televisão, pois essa é a pior possível, não ajuda a desfazer preconceitos. É preciso organizar um conjunto de políticas articuladas para formar cidadãos.

A sra. quer dizer que a ascensão é só de consumidores?

As pessoas quando saem desse nível de pobreza não se transformam só em consumidores. A gente se engana. Uma pesquisadora sobre o programa Luz para Todos, no Vale do Jequitinhonha, perguntou para um senhor o que mais o tinha impactado com a chegada da luz. A pesquisadora, com seu preconceito de classe média, já estava pronta para escrever: fui comprar uma televisão. Mas o senhor disse: ‘A coisa que mais me impactou foi ver pela primeira vez o rosto dos meus filhos dormindo; eu nunca tinha visto’. Essa delicadeza… a gente se surpreende muito.

O que a surpreendeu na sua pesquisa?

Quando vi a alegria que sentiam de poder partilhar uma comida que era deles, que não tinha sido pedida. Não tinham passado pela humilhação de pedi-la; foram lá e compraram. Crianças que comeram macarrão com salsicha pela primeira vez. É muito preconceituoso dizer que só querem consumir. A distância entre nós é tão grande que a gente não pode imaginar. A carência lá é tão absurda. Aprendi que pode ser uma grande experiência tomar água gelada.

Li que a sra. teria apurado que o Bolsa Família, ao tornar as mulheres mais independentes, estava provocando separações, uma revolução feminina. Mas não encontrei isso no livro. O que é fato?

É só conhecer um pouco o país para saber que não poderia haver entre essas mulheres uma revolução feminista. É difícil para elas mudar as relações conjugais. Elas são mais autônomas com a Bolsa? São. Elas nunca tiveram dinheiro e passaram a ter, são titulares do cartão, têm a senha. Elas têm uma moralidade muito forte: compram primeiro a comida para as crianças. Depois, se sobrar, compram colchão, televisão. É ainda muito difícil falar da vida pessoal. Uma ou outra me disse que tinha vontade de se separar. Há o problema de alcoolismo. Esses processos no Brasil são muito longos. Em São Paulo é comum a separação; no sertão é incomum. A família em muitos lugares é ampliada, com sogra, mãe, cunhado vivendo muito próximos. Essa realidade não se desfaz.

Mas há indícios de mudança?

Indícios, sim. Certamente elas estão falando mais nesse assunto. Em 2006, não queriam falar de sentimentos privados. Em 2011, num povoado no sertão de Alagoas, me disseram que tinha havido cinco casos de separação. Perguntei as razões. Uma me disse: ‘Aquela se apaixonou pelo marido da vizinha’. Perguntei para outra. Ela disse: ‘Pensando bem, acho que a bolsa nos dá mais coragem’. Disso daí deduzir que há um movimento feminista, meu deus do céu, é quase cruel. Não sei se dá para fazer essa relação tão automática do Bolsa com a transformação delas em mulheres mais independentes. Certamente são mais independentes, como qualquer pessoa que não tinha nada e passa a ter uma renda. Um homem também. Mas há censuras internas, tem a religião. As coisas são muito mais espessas do que a gente imagina.

O machismo é muito forte?

Sim. E também dentro delas. Se o machismo é muito percebido em São Paulo, imagina quando no chamado Brasil profundo. Lá, os padrões familiares são muito rígidos. É comum se ouvir que a mulher saiu da escola porque o pai disse que ela não precisava aprender. Elas se casam muito cedo. Agora, como prevê a sociologia do dinheiro, elas estão muito contentes pela regularidade, pela estabilidade, pelo fato de poderem planejar minimamente a vida. Mas eu não avançaria numa hipótese de revolução sexual.

O Bolsa Família mexeu com o coronelismo?

Sim, enfraqueceu o coronelismo. O dinheiro vem no nome dela, com uma senha dela e é ela que vai ao banco; não tem que pedir para ninguém. É muito diferente se o governo entregasse o dinheiro ao prefeito. Num programa que envolve 54 milhões de pessoas, alguma coisa de vez em quando [acontece]. Mas a fraude é quase zero. O cadastro único é muito bem feito. Foi uma ação de Estado que enfraqueceu o coronelismo. Elas aprenderam a usar o 0800 e vão para o telefone público ligar para reclamar. Essa ideia de que é uma massa passiva de imbecis que não reagem é preconceito puro.

E a questão eleitoral?

O coronel perdeu peso porque ela adquiriu uma liberdade que não tinha. Não precisa ir ao prefeito. Pode pedir uma rua melhor, mas não comida, que era por ai que o coronelismo funcionava. Há resíduos culturais. Ela pode votar no prefeito da família tal, mas para presidente da República, não.

Esses votos são do Lula?

São. Até 2011, quando terminei a pesquisa, eram. Quando me perguntam por que Lula tem essa força, respondo: nunca paramos para estudar o peso da fala testemunhal. Todos sabem que ele passou fome, que é um homem do povo e que sabe o que é pobreza. A figura dele é muito forte. O lado ruim é que seja muito personalizado. Mas, também, existe uma identidade partidária, uma capilaridade do PT.

Há um argumento que diz que o Bolsa Família é como uma droga que torna o lulismo imbatível nas urnas. O que a sra. acha?

Isso é preconceito. A elite brasileira ignora o seu país e vai ficando dura, insensível. Sente aquele povo como sendo uma sub-humanidade. Imaginam que essas pessoas são idiotas. Por R$ 5 por mês eles compram uma parabólica usada. Cheguei uma vez numa casa e eles estavam vendo TV Senado. Perguntei o motivo. A resposta: ‘A gente gosta porque tem alguma coisa para aprender’.

No livro a sra. cita muitos casos de mulheres que fizeram laqueadura. Como é isso?

O SUS (Sistema Único de Saúde) está fazendo a pedido delas. É o sonho maior. Aliás, outro preconceito é dizer que elas vão se encher de filhos para aumentar o Bolsa Família. É supor que sejam imbecis. O grande sonho é tomar a pílula ou fazer laqueadura.

A sra. afirma que é preconceito dizer que as pessoas vão para o Bolsa Família para não trabalhar. Por quê?

Nessas regiões não há emprego. Eles são chamados ocasionalmente para, por exemplo, colher feijão. É um trabalho sem nenhum direito e ganham menos que no Bolsa Família. Não há fábricas; só se vê terra cercada, com muitos eucaliptos. Os homens do Vale do Jequitinhonha vêm trabalhar aqui por salários aviltantes. Um fazendeiro disse para o meu marido que não conseguia mais homens para trabalhar por causa do Bolsa Família. Mas ele pagava R$ 20 por semana! O cara quer escravo. Paga uma miséria por um trabalho duro de 12, 16 horas, não assina carteira, é autoritário, e acha que as pessoas têm que se submeter a isso. E dizem que receber dinheiro do Estado é uma vergonha.

Há vontade de deixar o Bolsa Família?

Elas gostariam de ter emprego, salário, carteira assinada, férias, direitos. Há também uma pressão social. Ouvem dizer que estão acomodadas. Uma pesquisa feita em Itaboraí, no Rio de Janeiro, diz que lá elas têm vergonha de ter o cartão. São vistas como pobres coitadas que dependem do governo para viver, que são incapazes, vagabundas. Como em “Ralé”, de Máximo Gorki, os pobres repetem a ideologia da elite. A miséria é muito dura.

A sra. escreve que o Bolsa Família é o inicio da superação da cultura de resignação? Será?

A cultura da resignação foi muito estudada e é tema da literatura: Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego. Ela tem componente religioso: ‘Deus quis assim’. E mescla elementos culturais: a espera da chuva, as promessas. Essa cultura da resignação foi rompida pelo Bolsa Família: a vida pode ser diferente, não é uma repetição. É a hipótese que eu levanto. Aparece uma coisa nova: é possível e é bom ter uma renda regular. É possível ter outra vida, não preciso ver meus filhos morrerem de fome, como minha mãe e minha vó viam. Esse sentimento de que o Brasil está vivendo uma coisa nova é muito real. Hoje se encontram negras médicas, dentistas, por causa do ProUni (Universidade para Todos). Depois de dez anos, o Bolsa Família tem mostrado que é possível melhorar de vida, aprender coisas novas. Não tem mais o ‘Fabiano’ [personagem de “Vidas Secas”], a vida não é tão seca mais.

“VOZES DO BOLSA FAMÍLIA”
AUTOR Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani
EDITORA Editora Unesp
QUANTO R$ 36 (248 págs.)
LANÇAMENTO hoje, às 19h, na Livraria da Vila – Shopping Higienópolis (av. Higienópolis, 618; tel. 0/xx/11/3660-0230)

You’re So Vain: Study Links Social Media Use and Narcissism (Science Daily)

June 11, 2013 — Facebook is a mirror and Twitter is a megaphone, according to a new University of Michigan study exploring how social media reflect and amplify the culture’s growing levels of narcissism.

New research shows that narcissistic college students and their adult counterparts use social media in different ways to boost their egos and control others’ perceptions of them. (Credit: © mtkang / Fotolia)

The study, published online inComputers in Human Behavior, was conducted by U-M researchers Elliot Panek, Yioryos Nardis and Sara Konrath.

“Among young adult college students, we found that those who scored higher in certain types of narcissism posted more often on Twitter,” said Panek, who recently received his doctorate in communication studies from U-M and will join Drexel University this fall as a visiting fellow.

“But among middle-aged adults from the general population, narcissists posted more frequent status updates on Facebook.”

According to Panek, Facebook serves narcissistic adults as a mirror.

“It’s about curating your own image, how you are seen, and also checking on how others respond to this image,” he said. “Middle-aged adults usually have already formed their social selves, and they use social media to gain approval from those who are already in their social circles.”

For narcissistic college students, the social media tool of choice is the megaphone of Twitter.

“Young people may overevaluate the importance of their own opinions,” Panek said. “Through Twitter, they’re trying to broaden their social circles and broadcast their views about a wide range of topics and issues.”

The researchers examined whether narcissism was related to the amount of daily Facebook and Twitter posting and to the amount of time spent on each social media site, including reading the posts and comments of others.

For one part of the study, the researchers recruited 486 college undergraduates. Three-quarters were female and the median age was 19. Participants answered questions about the extent of their social media use, and also took a personality assessment measuring different aspects of narcissism, including exhibitionism, exploitativeness, superiority, authority and self-sufficiency.

For the second part of the study, the researchers asked 93 adults, mostly white females, with an average age of 35, to complete an online survey.

According to Panek, the study shows that narcissistic college students and their adult counterparts use social media in different ways to boost their egos and control others’ perceptions of them.

“It’s important to analyze how often social media users actually post updates on sites, along with how much time they spend reading the posts and comments of others,” he said.

The researchers were unable to determine whether narcissism leads to increased use of social media, or whether social media use promotes narcissism, or whether some other factors explain the relationship. But the study is among the first to compare the relationship between narcissism and different kinds of social media in different age groups.

Funding for the study comes in part from The Character Project, sponsored by Wake Forest University via the John Templeton Foundation.

Journal Reference:

  1. Elliot T. Panek, Yioryos Nardis, Sara Konrath. Mirror or Megaphone?: How relationships between narcissism and social networking site use differ on Facebook and TwitterComputers in Human Behavior, 2013; 29 (5): 2004 DOI: 10.1016/j.chb.2013.04.012

Roberto DaMatta: Como não perder no futebol? (OESP)

12 de junho de 2013 | 2h 10

ROBERTO DAMATTA – O Estado de S.Paulo

-Qual é o maior problema do “nosso” futebol?

– Todos! Não ganhamos nada!

– Mas exportamos o futebol do Brasil para todo o mundo. Todos jogam como nós.

– Tudo bem… Mas por que não conseguimos ganhar?

– Precisamente por causa disso. Todo sucesso vira fracasso. Quem ganha perde…

Ouvi isso na barca indo para o Rio, eu que continuo insistindo em morar em Niterói. Ora, morar em Niterói é como não saber que o futebol sofre de um pecado original: o nosso time não pode perder. E, no entanto, se um time fosse eternamente ganhador os estádios ficariam vazios.

Num espaço de tempo que hoje engloba uns 100 anos, contabilizamos muitos jogos e, em consequência, muitas perdas e ganhos. As derrotas, contudo, são mais lembradas porque nossa memória retém – como dizia Freud – mais a ferida e o sofrimento (o trauma) do que o gozo, o encantamento e a beleza de céu estrelado das experiências transitórias (aliás, Freud tem um belíssimo ensaio sobre esse assunto). O belo passa e o feio fica? De modo algum. Mas o bom é amarrado com teias de aranha, ao passo que o ruim deixa cicatrizes. Pensamos a vida como uma escada quando, de fato, ela é uma bola que gira sem parar e corre mais do que nós.

Notei num ensaio presunçoso que, em inglês, existe uma diferença entre jogar e jogar. Entre “to gamble” e “to play”; entre ir a um cassino para apostar ou jogar tênis e tocar um piano. Num caso é necessário algum tipo de habilidade sem a qual não há música ou disputa, mas nos jogos de azar basta ter sorte. Mas além de “gamble” e “play” existe a palavra “match” para designar o encontro equilibrado entre dois adversários.

Veja o leitor. Na roleta não há um “match”, porque as chances são da banca. É um jogo com aficionados, mas sem “atletas”. Ninguém compete com uma roleta, mas contra ela. No mundo do esporte, porém, a disputa se transforma em competição. A igualdade inicial é um ponto central da dualidade constitutiva do esporte. Ora, a dualidade é o eixo sobre o qual gira a reciprocidade contida das fórmulas da caridade, das boas maneiras, da vingança e do dar-para-receber como viu Marcel Mauss. A palavra “partida” designa isso e antigamente era usada para se falar do futebol que retorna com a força das paixões recalcadas.

Para nós, brasileiros, o verbo jogar engloba tanto o jogo de azar (como o famoso e até hoje milagrosamente ilegal “jogo do bicho” e as loterias bancadas pelo governo) quanto o encontro esportivo regrado e igualitário, essa disputa agônica constitutivamente ligada à probabilidade de vencer ou perder.

Mas se uma mesma palavra – jogo – junta o jogo de azar e a disputa esportiva – nem por isso lembramos que o futebol é imprevisível. Nossa leitura canônica do futebol é sempre a de uma luta na qual o time do nosso coração vai ganhar, daí as desilusões das derrotas. Podemos perder, sem dúvida, mas resistimos freudianamente a pensar nessa possibilidade. Temos perdido muito, sem dúvida, mas recusamos perpetrar a única coisa acertada diante da derrota: aceitá-la.

Surge, então, o problema cósmico do futebol no Brasil. Como admitir que perder e ganhar fazem parte da própria estrutura desse jogo, se nós – em princípio – não lemos na palavra jogo a possibilidade de derrota? A agonia e o prazer do futebol estão ligados precisamente a essa possibilidade, mas isso é afastado do nosso consciente. Quando vamos ao jogo, vamos à vitória e há motivos para isso. Um deles eu mencionei na semana passada: o futebol foi o primeiro elemento extraordinariamente positivo de uma autovisão que era permanentemente negativa. Como imaginar que um povo convencido de sua inferioridade natural como atrasado, porque era mestiço, pudesse disputar (e vencer) os brancos “adiantados” e “puros”, que inventaram a civilização e o futebol?

Quando começamos a dominar o futebol dele, fazendo um fato social total: algo com elementos econômicos, religiosos, culturais, morais, políticos, filosóficos e cósmicos – uma grande tela que projetava tudo -, descobrimos que o que vinha de fora podia ser canibalizado e tornar-se nosso. Era possível inverter a lógica colonial. A digestão do outro pela sua incorporação ou englobamento sociopolítico no nosso meio é o pano de fundo do roubo do fogo dos deuses pelos homens.

No entanto, é preciso uma nota cautelar. Roubamos o futebol, mas não a vitória perpétua. Confundir a atividade futebolista com o sucesso permanente é infantil. Na política, isso surge com o vencer a qualquer custo ou, como diz um professor de poder no poder, o Sr. Gilberto Carvalho, “o bicho vai pegar…”. Ou seja: temos que vencer com ou sem jogo o que, lamentavelmente, mas graças a Deus, é bem diferente do futebol. Escrevi essas péssimas linhas antes da vitória de 3 a 0 contra a França! Somos, de agora em diante, somente vencedores? Um lado meu espera que sim…

*   *   *

O futebol como filosofia

05 de junho de 2013

ROBERTO DAMATTA – O Estado de S.Paulo

O jogo é um modelo da vida. Ele exige temporadas, palcos, equipamentos (mesas, baralhos, dados, roletas, bolas, uniformes, redes, tacos) e regras de modo a garantir uma atenção apaixonada. E como tem início, meio e fim o jogo reduz a indiferença da vida. Com isso, faz com que meros passantes possam posar de campeões. O domingo pode não ter mesa farta, mas tem o jogo do Brasil com sua pompa e seus resplendores de esperança. Os jogos são uma das passagens secretas que permitem escapar de nós mesmos.

Dentre os esportes modernos, o futebol praticado no Brasil é certamente o mais denso. Simoni Lahud Guedes, uma estudiosa pioneira do futebol sugere que ele seria uma tela sobre a qual projetamos nossas indagações. Nascido na Inglaterra industrial dos 1860, o futebol ganhou regras fixas e, desde então, tem sido o sujeito predileto de intensas projeções simbólicas em todo o planeta.

No Brasil, ele acordou reações. Embora tivesse a chancela colonial de tudo o que vinha de fora e da poderosa Inglaterra, era uma atividade desconhecida. Um “esporte” (uma disputa governada por normas e pela necessidade imperiosa de saber vencer e perder), algo inusitado num Brasil que conhecia duelos e brigas que sempre acabavam mal.

Ademais, exercícios físicos e banhos frios não faziam parte da prática nacional. Entre nós, a barriguinha sempre foi prova de riqueza e da imobilidade física – expressiva do ideal de imobilidade social. Como receber essa inovação marcada pela disputa física veloz e igualitária, na qual perder e ganhar são – como na democracia – parte de sua estrutura? Onde encontrar um lugar para um jogo livre das restrições aristocráticas do nome de família, da cor da pele, e da “aparência”. Esse marco com o qual convivemos até hoje no Brasil?

O futebol sofreu muitos ataques em nome de um nacionalismo que se pensava frágil como porcelana. E, no entanto, como estamos vendo nessas vésperas de Copas, canibalizamos e digerimos o “foot-ball”, roubando-o dos ingleses. Hoje, há um estilo brasileiro de jogar e produzir esse esporte. De quinta coluna capaz de desvirtuar, ao lado da música e do cinema americanos, o estilo de vida e a língua pátria, o futebol acabou servindo como um instrumento básico de reflexão sobre o Brasil, conforme eu mesmo assinalei no livro Universo do Futebol, no qual, em 1982, agrupei um conjunto de ensaios socioantropológicos de colegas sobre esse esporte. Em 2006, no livro A Bola Corre Mais Que os Homens, reuni trabalhos nos quais apresentava uma saída para o dilema do esporte como alienação ou consciência do mundo insistindo como, no Brasil, o sucesso futebolístico foi o nosso primeiro instrumento de autoestima diante dos países “adiantados” e inatingíveis. O futebol foi o alento de um Brasil que se concebia como doente pela mistura de raças e que, até hoje, tem problemas em conviver consigo mesmo. Ele é a garantia do recomeço honrado na derrota e do gozo sem arrogância e corrupção na vitória.

Como prova do imprevisível destino das coisa sociais, o futebol não veio confirmar a dominação colonial. Pelo contrário, ele nos fez colonizadores e, mais que isso, filósofos por meio de toda uma literatura que a partir de Nelson Rodrigues, Jacinto de Thormes (Maneco Muller), José Lins do Rego e Armando Nogueira, entre outros, nos permitiu articular uma leitura positiva do mundo.

Literatura? Não seria um exagero? Digo que não e vou mais longe para acrescentar: o futebol criou entre nós uma filosofia, uma antropologia e uma teologia. O seu maior papel foi, como eu disse algumas vezes, o de ensinar democracia. Foi o de revelar com todas as letras que não se ganha sempre e que o mundo é instável como uma bola. Perder e vencer, ensina o futebol, fazem parte de uma mesma moeda.

Nelson Rodrigues fala de jogos bíblicos, do mesmo modo que nos abre a uma metafísica quando associa jogos e craques a destinos fechados ou ao afirmar que já no começo do mundo aquele gol seria perdido. Sua condenação da “objetividade burra” é uma crítica aguda de um senso comum hierarquizado e aristocrático que tenta tornar a própria vida algo oficial, possuída pelo Estado. Por outro lado, sua antropologia inaugura uma neoaristocracia nativa insonhável de negros e mestiços que deixam de ser híbridos enfermiços e passam – tal como ocorreu no jazz de uns Estados Unidos segregados – a príncipes, duques, condes e reis, apesar de nossos desejos inconfessáveis de fracasso. A sub-raça envenenada dos que queriam curar o Brasil se tornou a metarraça que, driblando os nossos subsociólogos – esses cartolas acadêmicos -, nos brindou com cinco Copas do Mundo. “A pátria em chuteiras” abria um novo espaço para esse futebol não branco, permitindo a países como o Brasil, uma redefinição inclusive muito mais abrangente e sem preconceitos de suas identidades nacionais.

“La violencia define la vida de los pobres” (Tiempo Argentino)

19.05.2013 | entrevista a javier auyero

Con la maestra María Fernanda Berti, estudiaron en un barrio del Conurbano la otra cara de la inseguridad.

Por: Lucía Álvarez

Cuando el sociólogo Javier Auyero y la maestra María Fernanda Berti comenzaron su investigación en una escuela primaria de Ingeniero Budge, en la ribera del Riachuelo a metros de la Capital Federal, la intención era otra: replicar el trabajo en Villa Inflamable, estudiar el sufrimiento ambiental en otro barrio del Conurbano Bonaerense. Sin embargo, a semanas de haber empezado su trabajo de campo, surgió lo inesperado. Junto a los relatos “tóxicos” sobre los basurales a cielo abierto y el agua con sabor a aceite, los alumnos llevaban historias de asesinatos, violaciones, tiroteos y peleas domésticas. Retrataban una dimensión de la violencia invisible a los ojos de los investigadores; una violencia que permeaba y definía la vida de la gente.

“No estábamos equipados para estudiar este tema. Por eso, al principio decidimos no prestarle atención, pensábamos que nos distraía de nuestro objetivo. Pero la frecuencia en los registros y la insistencia de los relatos nos terminó forzando a indagar en esas violencias”, confiesa Auyero tres años después de ese punto de inflexión, y a una semana de que La violencia en los márgenes, publicado por la editorial Katz, llegue a las librerías.

No es la primera vez que el profesor de sociología de la Universidad de Texas, Austin, invita a reflexionar sobre temas que se creían saldados. Hace quince años, con La política de los pobres, Auyero derribó mitos en torno al clientelismo político y mostró que se trataba de una forma de sobrevivir a la pobreza y la desigualdad. Más tarde, reveló la trama en torno a los saqueos de 2001 con La zona gris y puso de manifiesto el complejo vínculo entre violencia colectiva, política partidaria y vida cotidiana. Ahora, Auyero y Berti se atrevieron a deconstruir el discurso sobre la seguridad para señalar que en la discusión pública no hay lugar para la violencia que sufren los pobres.

“Creo que si tomo como parámetro de comparación mi primer trabajo intensivo, en Villa Jardín, donde la gente hablaba de los pibes de la esquina que fumaban porro, a hoy, veinte años más tarde, el panorama es muy distinto. A diferencia de lo que sucedía un cuarto de siglo atrás, hoy la violencia permea y define la vida de los sectores populares. Tomando datos objetivos, estadísticos, y subjetivos, me quedan muy pocas dudas de que estos barrios son más violentos de lo que eran. Los chicos, adolescentes y adultos hablan casi compulsivamente de esta experiencia. No de un asalto, sino uno seguido de un tiro, de un cuchillazo, y muchas veces seguido de muerte”, reflexiona en diálogo con Tiempo Argentino.

–¿Los sectores populares no estuvieron desde siempre más expuestos a la violencia?

–Estamos hablando de más violencia, y en términos generales, de una nueva naturaleza de esta violencia. Antes, nos referíamos a la violencia del Estado, que hoy no ha desaparecido, pero que ahora vemos interactuando con otras formas que están concatenadas. Tenés violencia doméstica, con un marido que le pega a una mujer; sexual, con un tío que abusa de sus sobrinas; y una violencia que ocurre públicamente en asaltos, tiroteos y homicidios. Primero detectamos la frecuencia, y luego, comenzamos a hacer un trabajo de detectives, para ver cómo se conectaban entre sí. Porque veíamos que el dealer podía ser violento con un cliente, pero cuando iba a la casa, la mamá lo encadenaba y le pegaba para que no consuma. Esto quiere decir que este tipo de violencias que pensamos como fenómenos aislados, en algunos casos, están interconectadas.

–¿Cómo explica que, a pesar de una mayor presencia estatal y una mejor distribución de los ingresos, haya habido este retroceso en la calidad de vida de los sectores populares?

–Si uno toma dos fotos del mismo barrio, en los años setenta y hoy, lo que ve es un enorme proceso de informalización. Los sectores más afectados, los más pobres, experimentaron la desaparición de los modos formales de regulación del conflicto, las instituciones formales dejaron de regular la vida. Yo puedo estar o no de acuerdo en que se han recuperado ciertos derechos, que ha crecido la economía, que el Estado adquirió un rol más importante, pero también hay que remarcar la mayor presencia del Estado punitivo. Hoy hay más gente presa. Y a diferencia de hace 25 años, la cárcel se ha vuelto una institución de la vida cotidiana. Antes nadie hablaba de un familiar preso, o era muy raro. Hoy buena parte de las familias de los sectores populares están afectadas por el brazo punitivo. Si uno quiere entender el porqué puede decir que hay informalización, desproletarización, mayor degradación de las condiciones de vida, mayor presencia  de un Estado contradictorio. Pero es imposible encontrar una causa.

–La etnografía es en Arquitecto Tucci, ¿a qué sector social es extensible esta conclusión?

–No estamos en posición de generalizar. No sé si esto ocurre en Moreno, en José C Paz. Pero sí esta es una invitación a mirar que si hay muchos casos de violencia, es posible que estén concatenados. Y me parece que hay que empezar a decir, aunque esto no va a tranquilizar a los lectores, que las víctimas de la violencia están sobre todo entre los más postergados.

–¿Qué tipos de efectos colectivos e individuales generan a mediano y largo plazo “la violencia como aprendizaje”?

–Ese es el tema más complicado para investigar y reflexionar. Porque creo que en la teoría social se tiende a pensar que, a mayor exposición, se está más “dispuesto a”. No se trata de que estos sectores valoran la violencia. No estamos argumentando sobre valores, pero sí estamos señalando que al estar expuestos, aprenden a defenderse, a pegar una trompada, a ser más efectivo, a disciplinar a sus hijos, a manejarse en zonas del barrio. Esos chicos aprenden a lidiar con situaciones para las cuales mis hijos no están equipados. Eso no quiere decir que valoren más la violencia, sino que es otro repertorio de acción, otro habitus. A diferencia de la clase media, cuando un chico de diez años ya vio un cadáver, sabe dónde conseguir una bala, distingue entre calibres, se relaciona con la violencia de otra manera.

–¿En Argentina hay conciencia de este problema?

–A mí no me gusta hablar de una conciencia colectiva. Pero es cierto que el tema de la violencia que sufren estos sectores no es un tema que aparece con frecuencia en la discusión pública. Sí, en cambio, la que estos sectores perpetran sobre otros. El pibe chorro es una figura emblemática de la violencia. Y la discusión ronda en torno a cómo controlar a ese perpetrador, sin dar un debate sobre las condiciones que lo produce. Como apuesta política e intelectual, el libro propone mirar lo que pasa en estos lados, porque se sabe poco, se habla poco y se habla mal.

–¿Es correcto hablar de ghetto?

–La noción de ghetto, en Ciencias Sociales, se usa para características que no están presentes acá, porque hace referencia a cuestiones raciales de la población o de mecanismos de dominación racial. Sí es pertinente hablar de territorios segregados. Porque esta gente está bastante poco integrada con otras zonas de la Capital, toman peor agua, no tienen pavimento, van a peores escuelas. En ese sentido, hablo de margen urbano.

–Mencionaba el peso de la informalización, ¿cuánto colabora con este panorama el mercado ilegal de drogas?

–La economía de las drogas ilícitas es siempre un arma de doble filo. Las drogas pueden mantener a los barrios económicamente, y por el otro lado, los puede destruir. Yo no diría que es un mito que en Argentina ha aumentado el tráfico. Si se ven los mapas de distribución, hoy Argentina aparece en la región como un lugar, no sólo de paso, sino también de consumo: el mercado interno se ha consolidado. Cualquiera que haya estudiado cómo funciona este mercado sabe que en el Conurbano efectivamente ha aumentado el tráfico de drogas ilícitas. Pero la conexión entre drogas y violencia no se da exclusivamente por el efecto psicofarmacológico que produce. La mayor frecuencia de situaciones violentas producidas por las drogas es porque el mercado es ilegal y por ende inherentemente violento. Si a estos elementos –informalización, intervención de la policía, expansión del mercado de las drogas y su transformación interna– le sumás el trabajo en la Salada, el mercado localizado en donde hicimos trabajo de campo, uno entiende por qué es tan violento Arquitecto Tucci. Son miles de personas que salen con cash dos veces por semana. Así se presentan oportunidades para el crimen. El libro no intenta atribuir causalidad, pero es cierto que estos factores explican bastante.

–¿Funcionan esta concatenación de violencias como formas de control social?

–Me cuesta pensar que hay un agente detrás. Un plan, una intención de control. Efectivamente funciona sometiendo, fragmentando, debilitando, destruyendo a la gente que allí vive. No puedo decir que es un ejercicio de control de parte de los sectores dominantes. Ahora, el hecho de que una mujer tenga que acudir a la policía, que la sabe delincuente, para disciplinar su hijo, me parece una forma de lo más paradójica de gobernamentalidad, en el sentido foucaultiano de gobierno sobre las mentes y los cuerpos. Porque es el propio sujeto gobernado quien demanda ser gobernado. Este orden social está creando sufrimiento. Esto no ocurre porque los sectores populares, los pobres, son así. Ocurre porque el propio orden social ha creado esta monstruosidad.

–¿Cómo, cuándo y produciendo qué efectos el Estado interviene en las disputas de los más pobres?

–El Estado aparece de muchas maneras, con la Asignación Universal por Hijo, con la escuela, el hospital, y aparece, con mayor frecuencia y clandestinidad, en la forma de la policía. Me parece que es erróneo hablar de que no está presente. El Estado produce parte de esa violencia: cualquiera sabe en el barrio que la policía pacta con los transas. Y después está el Estado que provee la AUH. No es una realidad monocromática.

–¿Cómo reinterpretar a la luz de esta evidencia la AUH? ¿Alcanza? ¿Es un modelo?

–A veces me resulta extraño cuando leo en los diarios la perspectiva del progresismo hablando de la AUH. No sé si se han tomado el trabajo de ver qué lugar ocupa en el presupuesto de una familia marginada. Es una ayuda, una asistencia. Pero atribuirle efectos mágicos o empoderadores es, para hablar mal y pronto, delirante: en el mejor de los tiempos, cubre una semana de los gastos de una familia tipo. La AUH, para tener los efectos que se le atribuyen desde ciertas posiciones políticas, se debería multiplicar por diez. Debería ser un ingreso que cubra en serio las necesidades de los más pobres. Creo que es tan erróneo decir que los pobres no van a trabajar porque reciben la asignación, como atribuirle el efecto contrario: que es igualador, que empodera a los signatarios, porque eso tampoco se basa en la experiencia de quien la recibe. La gente que la cobra la valora mucho, es cierto. Es un programa que funciona, eso no hay duda. Pero no hay que sobredimensionar la cosa… en el país de los ciegos, el tuerto puede ser rey para la política, pero no para las Ciencias Sociales que investigan de manera cuidadosa.

–¿Cuánto margen de maniobra tiene la escuela?

–Fernanda, la otra autora del libro, que es maestra, apuesta por la función de la escuela como integradora, como posible actor del ascenso social. Me cuesta pensar en cuánto pueden hacer estas escuelas en las que chicos y chicas tienen dos horas y diez minutos promedio por día de horas efectivas de clase.

–En el libro trabajan con tasas de criminalidad y mencionan que no es correcto comparar con las de otros países. ¿Este es un proceso regional o es síntoma de que nuestra “estructura social” está más latinoamericanizada?

–Yo creo que buena parte de América Latina está asistiendo al crecimiento y la diversificación de la violencia. En ese sentido, se puede pensar en países como Venezuela, en donde la violencia comunitaria o familiar, o la vinculada a las drogas ha aumentado. En su naturaleza y en su intensidad. Hay nuevas formas de violencia coexistiendo. Pero no tiene mucho sentido citar las tasas en Centroamérica o Sudáfrica para comparar con Argentina. Te lleva a decirle a la gente que vive esa violencia, que lo viva como un estadística, es pedirle a la gente que viva su temor como lo estudia un demógrafo o un sociólogo. Otra mención sobre el trabajo con las tasas de criminalidad es la dificultad para encontrar datos. El Indec no me pudo proporcionar ni siquiera la cantidad de habitantes del barrio. Yo tuve otra relación con el Indec hace unos años. Si bien me costó mucho producir mis propios datos sobre criminalidad y violencia, tengo la confianza necesaria para decir que es una tendencia que existe en la Argentina.

–¿Qué soluciones hay?

–Yo creo que uno debe destacar el elemento estructural. Hay que volver a señalar que la raíz última es la informalización de la economía, la degradación de las condiciones de vida, la manera de operar del estado patriarcal. Pero sería muy útil pensar qué se puede hacer. Integrar al mercado laboral y al educativo, es una opción, pero además, hay que pensar otros problemas. ¿Cómo le pedimos a una mamá de un chico adicto, a la que el marido le pega, que viaje una hora a la comisaría de la mujer, y otra hora y media para tratar de internar al hijo? ¿Por qué no pensamos en una oficina del Estado que, para confrontar la violencia encadenada, integre su manera de tratar los problemas? En ese sentido es razonable decir que los más marginados están abandonados.

–En el libro hablan de una balcanización de las Ciencias Sociales para abordar la violencia, ¿también se puede hablar de una balcanización de las políticas públicas?

–La violencia está encadenada y la solución tiene que ser integral. Eso es lo que se desprende del libro. No podemos seguir tratando la adicción como un problema y la violencia doméstica como otro. En los efectos, la política pública está balcanizada.  -<dl