Roberto DaMatta: Como não perder no futebol? (OESP)

12 de junho de 2013 | 2h 10

ROBERTO DAMATTA – O Estado de S.Paulo

-Qual é o maior problema do “nosso” futebol?

– Todos! Não ganhamos nada!

– Mas exportamos o futebol do Brasil para todo o mundo. Todos jogam como nós.

– Tudo bem… Mas por que não conseguimos ganhar?

– Precisamente por causa disso. Todo sucesso vira fracasso. Quem ganha perde…

Ouvi isso na barca indo para o Rio, eu que continuo insistindo em morar em Niterói. Ora, morar em Niterói é como não saber que o futebol sofre de um pecado original: o nosso time não pode perder. E, no entanto, se um time fosse eternamente ganhador os estádios ficariam vazios.

Num espaço de tempo que hoje engloba uns 100 anos, contabilizamos muitos jogos e, em consequência, muitas perdas e ganhos. As derrotas, contudo, são mais lembradas porque nossa memória retém – como dizia Freud – mais a ferida e o sofrimento (o trauma) do que o gozo, o encantamento e a beleza de céu estrelado das experiências transitórias (aliás, Freud tem um belíssimo ensaio sobre esse assunto). O belo passa e o feio fica? De modo algum. Mas o bom é amarrado com teias de aranha, ao passo que o ruim deixa cicatrizes. Pensamos a vida como uma escada quando, de fato, ela é uma bola que gira sem parar e corre mais do que nós.

Notei num ensaio presunçoso que, em inglês, existe uma diferença entre jogar e jogar. Entre “to gamble” e “to play”; entre ir a um cassino para apostar ou jogar tênis e tocar um piano. Num caso é necessário algum tipo de habilidade sem a qual não há música ou disputa, mas nos jogos de azar basta ter sorte. Mas além de “gamble” e “play” existe a palavra “match” para designar o encontro equilibrado entre dois adversários.

Veja o leitor. Na roleta não há um “match”, porque as chances são da banca. É um jogo com aficionados, mas sem “atletas”. Ninguém compete com uma roleta, mas contra ela. No mundo do esporte, porém, a disputa se transforma em competição. A igualdade inicial é um ponto central da dualidade constitutiva do esporte. Ora, a dualidade é o eixo sobre o qual gira a reciprocidade contida das fórmulas da caridade, das boas maneiras, da vingança e do dar-para-receber como viu Marcel Mauss. A palavra “partida” designa isso e antigamente era usada para se falar do futebol que retorna com a força das paixões recalcadas.

Para nós, brasileiros, o verbo jogar engloba tanto o jogo de azar (como o famoso e até hoje milagrosamente ilegal “jogo do bicho” e as loterias bancadas pelo governo) quanto o encontro esportivo regrado e igualitário, essa disputa agônica constitutivamente ligada à probabilidade de vencer ou perder.

Mas se uma mesma palavra – jogo – junta o jogo de azar e a disputa esportiva – nem por isso lembramos que o futebol é imprevisível. Nossa leitura canônica do futebol é sempre a de uma luta na qual o time do nosso coração vai ganhar, daí as desilusões das derrotas. Podemos perder, sem dúvida, mas resistimos freudianamente a pensar nessa possibilidade. Temos perdido muito, sem dúvida, mas recusamos perpetrar a única coisa acertada diante da derrota: aceitá-la.

Surge, então, o problema cósmico do futebol no Brasil. Como admitir que perder e ganhar fazem parte da própria estrutura desse jogo, se nós – em princípio – não lemos na palavra jogo a possibilidade de derrota? A agonia e o prazer do futebol estão ligados precisamente a essa possibilidade, mas isso é afastado do nosso consciente. Quando vamos ao jogo, vamos à vitória e há motivos para isso. Um deles eu mencionei na semana passada: o futebol foi o primeiro elemento extraordinariamente positivo de uma autovisão que era permanentemente negativa. Como imaginar que um povo convencido de sua inferioridade natural como atrasado, porque era mestiço, pudesse disputar (e vencer) os brancos “adiantados” e “puros”, que inventaram a civilização e o futebol?

Quando começamos a dominar o futebol dele, fazendo um fato social total: algo com elementos econômicos, religiosos, culturais, morais, políticos, filosóficos e cósmicos – uma grande tela que projetava tudo -, descobrimos que o que vinha de fora podia ser canibalizado e tornar-se nosso. Era possível inverter a lógica colonial. A digestão do outro pela sua incorporação ou englobamento sociopolítico no nosso meio é o pano de fundo do roubo do fogo dos deuses pelos homens.

No entanto, é preciso uma nota cautelar. Roubamos o futebol, mas não a vitória perpétua. Confundir a atividade futebolista com o sucesso permanente é infantil. Na política, isso surge com o vencer a qualquer custo ou, como diz um professor de poder no poder, o Sr. Gilberto Carvalho, “o bicho vai pegar…”. Ou seja: temos que vencer com ou sem jogo o que, lamentavelmente, mas graças a Deus, é bem diferente do futebol. Escrevi essas péssimas linhas antes da vitória de 3 a 0 contra a França! Somos, de agora em diante, somente vencedores? Um lado meu espera que sim…

*   *   *

O futebol como filosofia

05 de junho de 2013

ROBERTO DAMATTA – O Estado de S.Paulo

O jogo é um modelo da vida. Ele exige temporadas, palcos, equipamentos (mesas, baralhos, dados, roletas, bolas, uniformes, redes, tacos) e regras de modo a garantir uma atenção apaixonada. E como tem início, meio e fim o jogo reduz a indiferença da vida. Com isso, faz com que meros passantes possam posar de campeões. O domingo pode não ter mesa farta, mas tem o jogo do Brasil com sua pompa e seus resplendores de esperança. Os jogos são uma das passagens secretas que permitem escapar de nós mesmos.

Dentre os esportes modernos, o futebol praticado no Brasil é certamente o mais denso. Simoni Lahud Guedes, uma estudiosa pioneira do futebol sugere que ele seria uma tela sobre a qual projetamos nossas indagações. Nascido na Inglaterra industrial dos 1860, o futebol ganhou regras fixas e, desde então, tem sido o sujeito predileto de intensas projeções simbólicas em todo o planeta.

No Brasil, ele acordou reações. Embora tivesse a chancela colonial de tudo o que vinha de fora e da poderosa Inglaterra, era uma atividade desconhecida. Um “esporte” (uma disputa governada por normas e pela necessidade imperiosa de saber vencer e perder), algo inusitado num Brasil que conhecia duelos e brigas que sempre acabavam mal.

Ademais, exercícios físicos e banhos frios não faziam parte da prática nacional. Entre nós, a barriguinha sempre foi prova de riqueza e da imobilidade física – expressiva do ideal de imobilidade social. Como receber essa inovação marcada pela disputa física veloz e igualitária, na qual perder e ganhar são – como na democracia – parte de sua estrutura? Onde encontrar um lugar para um jogo livre das restrições aristocráticas do nome de família, da cor da pele, e da “aparência”. Esse marco com o qual convivemos até hoje no Brasil?

O futebol sofreu muitos ataques em nome de um nacionalismo que se pensava frágil como porcelana. E, no entanto, como estamos vendo nessas vésperas de Copas, canibalizamos e digerimos o “foot-ball”, roubando-o dos ingleses. Hoje, há um estilo brasileiro de jogar e produzir esse esporte. De quinta coluna capaz de desvirtuar, ao lado da música e do cinema americanos, o estilo de vida e a língua pátria, o futebol acabou servindo como um instrumento básico de reflexão sobre o Brasil, conforme eu mesmo assinalei no livro Universo do Futebol, no qual, em 1982, agrupei um conjunto de ensaios socioantropológicos de colegas sobre esse esporte. Em 2006, no livro A Bola Corre Mais Que os Homens, reuni trabalhos nos quais apresentava uma saída para o dilema do esporte como alienação ou consciência do mundo insistindo como, no Brasil, o sucesso futebolístico foi o nosso primeiro instrumento de autoestima diante dos países “adiantados” e inatingíveis. O futebol foi o alento de um Brasil que se concebia como doente pela mistura de raças e que, até hoje, tem problemas em conviver consigo mesmo. Ele é a garantia do recomeço honrado na derrota e do gozo sem arrogância e corrupção na vitória.

Como prova do imprevisível destino das coisa sociais, o futebol não veio confirmar a dominação colonial. Pelo contrário, ele nos fez colonizadores e, mais que isso, filósofos por meio de toda uma literatura que a partir de Nelson Rodrigues, Jacinto de Thormes (Maneco Muller), José Lins do Rego e Armando Nogueira, entre outros, nos permitiu articular uma leitura positiva do mundo.

Literatura? Não seria um exagero? Digo que não e vou mais longe para acrescentar: o futebol criou entre nós uma filosofia, uma antropologia e uma teologia. O seu maior papel foi, como eu disse algumas vezes, o de ensinar democracia. Foi o de revelar com todas as letras que não se ganha sempre e que o mundo é instável como uma bola. Perder e vencer, ensina o futebol, fazem parte de uma mesma moeda.

Nelson Rodrigues fala de jogos bíblicos, do mesmo modo que nos abre a uma metafísica quando associa jogos e craques a destinos fechados ou ao afirmar que já no começo do mundo aquele gol seria perdido. Sua condenação da “objetividade burra” é uma crítica aguda de um senso comum hierarquizado e aristocrático que tenta tornar a própria vida algo oficial, possuída pelo Estado. Por outro lado, sua antropologia inaugura uma neoaristocracia nativa insonhável de negros e mestiços que deixam de ser híbridos enfermiços e passam – tal como ocorreu no jazz de uns Estados Unidos segregados – a príncipes, duques, condes e reis, apesar de nossos desejos inconfessáveis de fracasso. A sub-raça envenenada dos que queriam curar o Brasil se tornou a metarraça que, driblando os nossos subsociólogos – esses cartolas acadêmicos -, nos brindou com cinco Copas do Mundo. “A pátria em chuteiras” abria um novo espaço para esse futebol não branco, permitindo a países como o Brasil, uma redefinição inclusive muito mais abrangente e sem preconceitos de suas identidades nacionais.

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