Olga Tokarczuk: Coronavírus mostrou que todos sentimos medo e morremos igual (Folha de S.Paulo)

Artigo original

Olga Tokarczuk, 10 de abril de 2020

Da minha janela vejo uma amoreira branca, árvore que me fascina e que foi um dos motivos pelos quais escolhi morar aqui. A amoreira é uma planta generosa —ao longo de toda a primavera e de todo o verão alimenta dezenas de famílias de pássaros com os seus frutos doces e saudáveis. No entanto, agora a amoreira está sem folhas, e assim vejo um pedaço de uma rua quieta ao longo da qual raramente passeia alguém em seu caminho para o parque.

O tempo em Breslávia está quase veranil, brilha um sol que quase ofusca a vista, o céu está azul, e o ar, límpido. Hoje, enquanto passeava com o cachorro, vi duas pegas espantando uma coruja para longe do seu ninho. Nos entreolhamos com a coruja a uma distância de apenas um metro.Tenho a impressão de que os animais também esperam por aquilo que está por vir.

Para mim, já havia um bom tempo, o mundo estava em demasia. Por demais, rápido demais, barulhento demais.

Não passo, portanto, pelo “trauma do isolamento” e não sofro por não poder me encontrar com as pessoas. Não sinto pena que os cinemas não estejam funcionando, estou indiferente ao fechamento dos shoppings. Eu me preocupo apenas quando penso em todas aquelas pessoas que trabalhavam lá e perderam os seus empregos. Quando soube da quarentena preventiva, senti uma espécie de alívio e sei que muitas pessoas sentem o mesmo, embora estejam envergonhadas disso. Minha introversão abafada e maltratada pelo império dos extrovertidos impetuosos se espanou e saiu do armário.

Vejo pela janela o meu vizinho, um advogado esfalfado que eu via, ainda há pouco, saindo de manhã para o tribunal com uma toga pendurada em seu braço. Agora, trajando blusa e calça de moletom folgados, luta com um galho no jardim. Deve estar arrumando as coisas. Vejo um casal de jovens passeando com um cachorro velho que, desde o último inverno, mal consegue andar. O cachorro vacila sobre as patas, e eles o acompanham pacientemente, caminhando a passos lentos. O caminhão de lixo recolhe os despejos provocando um enorme barulho.

Obviamente, a vida continua, só que num ritmo completamente diferente. Arrumei o armário e levei os jornais velhos para fora, para o contêiner dos recicláveis. Transferi as plantas para vasos novos. Levei a bicicleta para o conserto. Sinto prazer em cozinhar.

Voltam até mim, com insistência, imagens da infância, quando havia muito mais tempo e era possível “desperdiçá-lo” olhando pela janela horas a fio, observando as formigas deitada debaixo da mesa, imaginando que era uma arca. Ou estudando a enciclopédia.

Não teríamos, por acaso, voltado para o ritmo normal da vida? O vírus não seria, então, um desvio da norma, muito pelo contrário —aquele mundo frenético antes do vírus teria sido anormal?

Afinal, o vírus trouxe à nossa memória aquilo que reprimimos apaixonadamente —que somos seres frágeis, compostos da matéria mais delicada. E que morremos, que somos mortais. E que a nossa “humanidade” e excepcionalidade não nos separam do mundo. Permanecemos emaranhados nele como numa espécie de rede enorme, interligados aos outros seres através de invisíveis fios de dependências e influências. E que existem correlações entre todos nós. Não importa de que países longínquos provimos, que língua falamos e qual é a cor da nossa pele. Todos, igualmente, contraímos doenças, sentimos o mesmo medo e morremos do mesmo jeito.

O vírus nos conscientizou de que não importa o quanto nos sentimos fracos e vulneráveis perante o perigo, há sempre, ao nosso redor, pessoas ainda mais fracas que precisam de ajuda. Ele nos relembrou quão delicados são os nossos pais e avós idosos e o quanto eles precisam dos nossos cuidados.

Ele nos mostrou que a nossa mobilidade frenética constitui uma ameaça para o mundo. E reavivou a mesma pergunta que poucas vezes tivemos a coragem de nos fazer: de que mesmo estamos à procura?
Então, o medo da doença nos fez retornar do caminho enredado e, por necessidade, evocou a existência dos ninhos de onde provimos e onde nos sentimos seguros. E, mesmo se fôssemos viajantes incansáveis, numa situação como esta o nosso destino seria uma casa.

Assim, se revelaram diante de nós tristes verdades —que em um momento de perigo volta o raciocínio que fecha e exclui por meio de categorias como nação e fronteiras. Neste momento difícil se descobriu quão fraca, em prática, é a ideia da comunidade europeia. A União Europeia basicamente entregou os pontos, passando as decisões no tempo de crise aos Estados. Considero o fechamento das fronteiras nacionais como a maior derrota deste tempo vago em que voltaram os velhos egoísmos e categorias como “os nossos” e “os estranhos”, ou seja, aquilo que ao longo dos últimos anos tentávamos combater com a esperança de que esses conceitos jamais formatassem nossas mentes. O medo do vírus automaticamente trouxe à memória a mais simples convicção atávica –que a culpa é dos estranhos e que eles sempre trazem o perigo de algum lugar. Na Europa, o vírus veio “de algures”, não é nosso, é alheio. Na Polônia, todas as pessoas vindas do estrangeiro se tornaram suspeitas.

Para muitos jovens, uma onda de fronteiras trancadas impetuosamente e filas monstruosas nas passagens fronteiriças devem ter sido um choque. O vírus nos relembra –as fronteiras continuam existindo e estão bem.

Receio também que o vírus evoque rapidamente outra antiga verdade –o quanto somos desiguais. Alguns de nós vão partir em seus aviões para a sua casa localizada numa ilha ou num aconchego silvestre, outros vão permanecer nas cidades operando termoelétricas ou estações de abastecimento de água. Outros ainda vão pôr a sua saúde em risco trabalhando nas lojas e hospitais. Uns vão enriquecer com a epidemia, outros vão perder tudo o que ganharam na vida. A crise que está se aproximando vai certamente abalar os princípios que nos pareciam estáveis. Muitos países não vão conseguir lidar com ela e em face de sua decomposição nascerá uma nova ordem, assim como muitas vezes acontece depois das crises.

Permanecemos em casa lendo livros e assistindo a séries, mas na realidade nos preparamos para uma grande batalha pela nova realidade que nem sequer conseguimos imaginar, percebendo, aos poucos, que nada será como antes. A situação da quarentena obrigatória e do enquartelamento da família em casa pode nos revelar algo que jamais queríamos admitir –que a família nos cansa e que os laços matrimoniais há muito tempo afrouxaram. Nossos filhos vão sair da quarentena viciados na internet e muitos de nós vão perceber o absurdo e a vagueza da situação em que permanecem mecanicamente e por força de inércia. E se o número de assassinatos, suicídios e doenças mentais crescer?

Diante dos nossos olhos se esvanece, feito fumaça, o paradigma civilizatório que nos moldou ao longo dos últimos 200 anos –que somos os senhores da criação, podemos fazer tudo e o mundo nos pertence.

Novos tempos estão por vir.

Tradução do polonês de Olga Bagińska-Shinzato

Olga Tokarczuk é autora de ‘Sobre os Ossos dos Mortos’ (Todavia) e venceu o prêmio Nobel de Literatura em 2019

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