Arquivo mensal: fevereiro 2014

Sobre o caso Mr. Rodoviária

 Aeroporto ou rodoviária? (O Estado de S.Paulo)

10 de fevereiro de 2014 | 2h 05

José Roberto de Toledo

Uma professora-doutora da universidade da elite do Rio de Janeiro fotografa homem de bermuda e camiseta regata que vislumbrou no Santos-Dumont, e estampa-o no Facebook, sob a indagação: “Aeroporto ou rodoviária?”. Nos comentários, compara seus trajes ao de um estivador e arremata: “O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo. Ao menos, não do meu lado. Ufa!”.

Outros integrantes da primeira classe acadêmica carioca se solidarizam nos comentários. “Esse tipo de passageiro fica roçando o braço peludo no seu porque não respeita os limites do assento.” “O glamour de voar definitivamente se foi.” “Isso é só uma amostra do que tenho visto pelo Brasil.” Sem perceber a autoironia, outra escreve: “O bom senso ficou em casa”.

João Santana não poderia sonhar com melhor roteiro de propaganda eleitoral gratuita e espontânea nas redes sociais. A máquina petista sacou a oportunidade e bombou a história através do perfil “Dilma Bolada”, no Twitter. Epidemia instantânea na rede.

Em 24 horas, a longeva carreira acadêmica da professora-doutora especializada em “português como segunda língua” estava relegada à décima página de resultados da busca pelo seu nome no Google. A primeira centena de links leva à história do Mr. Rodoviária – que se identificou e fala em processo. Mínima parte cita o envergonhado pedido de desculpas da professora-doutora.

O episódio é fascinante sob qualquer ângulo que se queira olhar. O mais óbvio é o efeito Big Brother. A sensação que o internauta tem de penetrar um círculo fechado e descobrir o que as pessoas realmente pensam e são capazes de dizer quando se acham dispensadas do politicamente correto e da mínima cortesia.

Soa exagerado de tão cru. Se fosse cena de novela, seria forçada demais e perderia credibilidade. Mas, como os personagens têm nome, cargo e página no Facebook, o exagero vira revelação: “Ah, é isso que eles acham”. Cai-se no estereótipo oposto. Se o emergente parece estivador, é peludo e ultrapassa os limites, a elite é demofóbica, cruel e segregacionista – sem exceções.

Talvez alguns dos personagens tenham escrito o que escreveram por pressão social, por vontade de ser aceito no grupo, de pertencer. Afinal, se o reitor e a doutora estão dizendo, essa só pode ser a norma, “a coisa certa” a fazer. É outro aspecto surreal da história: supostos guardiões da alta cultura disseminam e endossam preconceitos que deveriam combater.

Destila ainda do episódio uma ingênua nostalgia. A crença numa fantasia comercial. “Glamour de voar?”. Um voo de carreira é das experiências mais desagradáveis que há: fila de check-in, fila para despachar bagagem, fila para passar no raio X, fila para embarcar, para pegar a mala. Horas confinado em espaço apertado, respirando ar seco e, quando há, comendo comida requentada.

O tal glamour só existiu nas propagandas e nos filmes destinados a convencer o público de que pagar caro por horas de tormento é um privilégio. Poderia a elite intelectual sentir falta de algo que jamais existiu? Ou a nostalgia é uma metáfora? Será saudade de quando as divisões sociais eram claras, os espaços públicos eram exclusivos e as distâncias entre classes, intransponíveis?

Uma parte importante da sociedade brasileira incomoda-se com a novidade de um mercado de massa que nivelou o jogo via acesso quase universal ao consumo. Os incomodados não são os super-ricos, que continuam inalcançáveis. A aproximação dos que vêm de trás perturba quem já estava no meio e se sente igualado ou até superado por quem chegou agora e já quer sentar na janelinha.

Raras vezes esse conflito apareceu tão explícito quanto no caso da professora-doutora e seu Mr. Rodoviária. Mas a raridade tende a desaparecer mais rápido do que o glamour de voar. Como o mesmo episódio demonstrou, expor contradições e explorar divisões dá voto. Rodoviária e aeroporto viraram cabos eleitorais.

*   *   *

‘O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?’ (Carta Capital)

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada

por Matheus Pichonelli — publicado 07/02/2014 13:20, última modificação 10/02/2014 11:01

Preconceito

Professora universitária faz galhofa diante do rapaz que foi ao aeroporto sem roupa de gala. É o símbolo do país que vê a educação como fator de distinção, e não de transformação. Reprodução

O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

Mais à frente, ele contava como a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.

Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.

O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso comemora-se também à saída da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente é, por si, um privilégio.

Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.

Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).

Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.
Leia também

*   *   *

Professora é afastada da PUC-Rio por ironizar passageiro (Estadão)

Por AE | Estadão Conteúdo – 23 horas atrás

A Reitoria da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio afastou “temporariamente” da Coordenação Central de Cooperação Internacional (CCCI) da instituição nesta segunda-feira, 17, a professora Rosa Marina de Brito Meyer, do Departamento de Letras. O motivo do afastamento foi um comentário feito pela professora em seu perfil no Facebook sobre a aparência de um passageiro no Aeroporto Santos Dumont. Considerada preconceituosa, a postagem gerou milhares de críticas e compartilhamentos.

No dia 5, Rosa publicou na rede social uma foto tirada com seu Iphone de um passageiro na sala de embarque do Santos Dumont, no centro do Rio, acompanhada de um comentário: “Aeroporto ou rodoviária?” Na foto, aparece em destaque um homem sentado de bermuda, tênis e camiseta regata. Amigo de Rosa, o reitor da Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio), Luiz Pedro Jutuca, comenta: “O `glamour’ foi pro espaço.” Rosa responde: “Puxa, mas para glamour falta muuuitooo!!! Isso está mais para estiva.” Em seguida, ela comenta de novo: “O pior é que Mr. Rodoviária está no meu voo. Ao menos, não do meu lado!” A também professora Daniela Vargas complementa: “hehe. E sabe o pior? Quando esse tipo de passageiro senta exatamente a seu lado e fica roçando o braço peludo no seu, porque – claro – não respeita (ou não cabe) nos limites do seu assento.”

MEDIDAS LEGAIS – Com a repercussão do caso – no dia 6, o perfil Dilma Bolada divulgou uma reprodução das postagens -, o homem da foto foi identificado: é o advogado Marcelo Santos, de 33 anos, morador de Nova Serrana (MG), que estava de passagem pelo Rio, após ter participado de um cruzeiro. “A primeira reação foi de espanto, por achar inacreditável aquele tratamento ter vindo de pessoas ligadas à educação. Me senti vilipendiado e agredido. A conotação que quiseram dar foi esta. Vou tomar medidas legais contra todos os envolvidos”, afirmou ontem ao Estado o advogado.

No mesmo dia 6, Rosa publicou um pedido de desculpas: “Sabedora do desconforto que posso ter criado com um post meu publicado ontem à noite, peço desculpas à pessoa retratada e a todos os que porventura tenham se sentido atingidos ou ofendidos pelo meu comentário. Absolutamente não foi essa a minha intenção.” Ontem, ela não foi localizada. Daniela pediu desculpas pelo “comentário infeliz” em entrevista ao jornal O Globo, acrescentando que não tinha a intenção de ofender ninguém. O reitor da Unirio alegou que se referia ao estado dos aeroportos de maneira geral, mas também pediu desculpas a quem se sentiu ofendido.

Santos também disse ter ficado satisfeito com a repercussão positiva do caso e com as mensagens de apoio que recebeu. “Avião é simplesmente um meio de transporte. Aliás, muitas vezes é mais barato do que andar de ônibus.” O reitor da PUC-Rio, Josafá Carlos de Siqueira, que assina a portaria enviada ontem aos funcionários, informou que não daria entrevista por se tratar de uma “atitude pessoal” da professora. A PUC negou que Rosa Marina tenha pedido demissão. O professor Carlos Frederico Borges Palmeira, do departamento de Matemática, foi nomeado coordenador interino da CCCI. A coordenação é responsável pelos convênios que possibilitam, além do intercâmbio de estudantes, permuta de publicações científicas, realização de pesquisas conjuntas e intercâmbio de professores e pesquisadores.

Procurado, o Departamento de Letras não se pronunciou. No site da universidade, Rosa aparece como professora de quatro cursos, entre eles o de Aspectos Culturais do Português como Segunda Língua. Ela já orientou mais de 50 pesquisas, teses de doutorado e dissertações de mestrado. Rosa tem mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Uma página criada no Facebook com o nome da professora para criticá-la tinha até ontem 27 mil “curtidas”.

Earliest footprints outside Africa discovered in Norfolk (BBC)

7 February 2014 Last updated at 10:30 GMT

By Pallab Ghosh, Science correspondent, BBC News

Dr Nick Ashton shows Pallab Ghosh where the footprints were found

Scientists have discovered the earliest evidence of human footprints outside of Africa, on the Norfolk Coast in the East of England.

The footprints are more than 800,000 years old and were found on the shores of Happisburgh.

They are direct evidence of the earliest known humans in northern Europe.

Details of the extraordinary markings have been published in the science journal Plos One.

Infographic

The footprints have been described as “one of the most important discoveries, if not the most important discovery that has been made on [Britain’s] shores,” by Dr Nick Ashton of the British Museum.

“It will rewrite our understanding of the early human occupation of Britain and indeed of Europe,” he told BBC News.

The markings were first indentified in May last year during a low tide. Rough seas had eroded the sandy beach to reveal a series of elongated hollows.

Footprints

The footprints on Happisburgh beach are possibly those of a family in search of food

I walked with Dr Ashton along the shore where the discovery was made. He recalled how he and a colleague stumbled across the hollows: “At the time, I wondered ‘could these really be the case? If it was the case, these could be the earliest footprints outside Africa and that would be absolutely incredible.”

The footprints are one of the most important discoveries, if not the most important discovery, that has been made on these shores” – Dr Nick AstonBritish Museum

Such discoveries are very rare. The Happisburgh footprints are the only ones of this age in Europe and there are only three other sets that are older, all of which are in Africa.

“At first, we weren’t sure what we were seeing,” Dr Ashton told me, “but it was soon clear that the hollows resembled human footprints.”

The hollows were washed away not long after they were identified. The team were, however, able to capture the footprints on video that will be shown at an exhibition at London’s Natural History Museum later this month.

The video shows the researchers on their hands and knees in cold, driving rain, engaged in a race against time to record the hollows. Dr Ashton recalls how they scooped out rainwater from the footprints so that they could be photographed. “But the rain was filling the hollows as quickly as we could empty them,” he told me.

When I was told about the footprints, I was absolutely stunned” – Dr Isabelle De GrooteLiverpool John Moores University

The team took a 3D scan of the footprints over the following two weeks. A detailed analysis of these images by Dr Isabelle De Groote of Liverpool John Moores University confirmed that the hollows were indeed human footprints, possibly of five people, one adult male and some children.

Dr De Groote said she could make out the heel, arch and even toes in some of the prints, the largest of which would have filled a UK shoe size 8 (European size 42; American size 9) .

“When I was told about the footprints, I was absolutely stunned,” Dr De Groote told BBC News.

“They appear to have been made by one adult male who was about 5ft 9in (175cm) tall and the shortest was about 3ft. The other larger footprints could come from young adult males or have been left by females. The glimpse of the past that we are seeing is that we have a family group moving together across the landscape.”

Diagram of footprint scene

It is unclear who these humans were. One suggestion is that they were a species called Homo antecessor, which was known to have lived in southern Europe. It is thought that these people could have made their way to what is now Norfolk across a strip of land that connected the UK to the rest of Europe a million years ago. They would have disappeared around 800,000 years ago because of a much colder climate setting in not long after the footprints were made.

It was not until 500,000 years ago that a species called Homo heidelbergensis lived in the UK. It is thought that these people evolved into early Neanderthals some 400,000 years ago. The Neanderthals then lived in Britain intermittently until about 40,000 years ago – a time that coincided with the arrival of our species, Homo sapiens.

There are no fossils of antecessor in Happisburgh, but the circumstantial evidence of their presence is getting stronger by the day.

In 2010, the same research team discovered the stone tools used by such people. And the discovery of the footprints now all but confirms that humans were in Britain nearly a million years ago, according to Prof Chris Stringer of the Natural History Museum, who is also involved in the research at Happisburgh.

“This discovery gives us even more concrete evidence that there were people there,” he told BBC News. “We can now start to look at a group of people and their everyday activities. And if we keep looking, we will find even more evidence of them, hopefully even human fossils. That would be my dream”.

Happisburgh

The prints were first noticed when a low tide uncovered them

Footprints

The sea has now washed away the prints – but not before they were recorded

Huge chimpanzee population thriving in remote Congo forest (The Guardian)

Scientists believe the group is one of the last chimp ‘mega-cultures’, sharing a unique set of customs and behaviour

theguardian.com, Friday 7 February 2014 11.53 GMT

A mother chimp passing her tool-use expertise to her young

In one of the most dangerous regions of the planet, against all odds, a huge yet mysterious population of chimpanzees appears to be thriving – for now. Harboured by the remote and pristine forests in the north of the Democratic Republic of Congo (DRC) and on the border of the Central African Republic, the chimps were completely unknown until recently – apart from the local legends of giant apes that ate lions and howled at the moon.

But researchers who trekked thousands of kilometres through uncharted territory and dodged armed poachers and rogue militia, now believe the group are one of the last thriving chimp “mega-cultures”.

“This is one of the few places left on Earth with a huge continuous population of chimps,” says Cleve Hicks, a primatologist based at the Max Planck Institute in Leipzig, Germany, who says the group is probably the largest in Africa. “We estimate many thousands of individuals, perhaps tens of thousands.” A unique set of customs and behaviour is shared by the apes across a vast area of 50,000 sq km, revealing how they live naturally.

The unusually large chimps of the Bili-Uele forest have been seen feasting on leopard and build ground nests far more often than other chimps, as well as having a unique taste for giant African snails, whose shells they appear to pound open on rocks or logs. Motion-activated video cameras left in the forest for eight months also recorded gangs of males patrolling their territory and mothers showing their young how to use tools to eat swarming insects – although the footage did not confirm the lunar howls.

Gangs of males patrolling their territory

The camera traps also revealed an extraordinary range of other forest dwellers, including forest elephantsolive baboonsspotted hyena as well as red river and giant forest hogscrested guinea fowl and aardvark. “We saw incredible amounts of wildlife on our camera traps, but we did not catch a single film of a human,” says Hicks. “It remains one of the last untouched wildernesses in Africa.”

One camera even recorded its own destruction as it came under attack from a leopard, but all two dozen cameras were nearly lost when poachers invaded the area and burned the researchers’ camp. Only a swift two-day rescue mission retrieved the footage.

Forest elephants

Hick’s team first identified the existence of the Bili chimps in 2007 but their new survey, published this week in the journal Biological Conservation, reveals a vast, thriving mega-culture. Elsewhere in Africa, human damage has fragmented the continent’s chimp population from many millions to just a few hundred thousand over the last century.

However, while the chimp numbers have apparently remained stable, the numbers of forest elephants have crashed by half due to poaching. The slaughter, to feed the highly lucrative illegal ivory trade, mirrors the bloody picture across central Africa, where two-thirds of all forest elephants have been killed in the last decade. “We found the burned skulls of a mother and baby skull at a poachers camp,” says Hicks.

Footage of elephant skulls, a sign poachers are venturing deeper into forests to hunt elephants

“The area is at great risk of being opened up,” says John Hart, one of the team and who has spent decades in DRC at the Lukuru Wildlife Research Foundation. The team’s work was interrupted previously by gunmen protecting illegal gold mining operations in nearby areas but the security situation is getting worse, Hart told the Guardian. Speaking from the town of Kisangani, on the eve of returning to the forest, he said: “The Lord’s Resistance Army are moving through the area as we speak. Also refugees from the Central African Republic (CAR) war and armed brigands from the CAR’s Seleka and opposition groups are establishing bases in the region.”

The researchers fear that these increasing incursions into the virgin forest will draw in more hunters seeking to feed the enormous bushmeat trade in the Congo basin, that targets chimps and other animals. “Theincredible bushmeat trade we discovered [in the southern part of the forest in 2010] was totally without precedent.” Hart says, with an estimated 440 chimps being killed a year. “But with the availability of bushmeat declining elsewhere, commercial bushmeat hunters are going further and further into the forest.”

The chimps are an endangered species and fully protected in DRC law. “But it is only a law on paper,” says Hicks, who identifies both official security forces and militia as the source of much of the danger, as well as endemic corruption. “I think the military are giving guns to the poachers.” He says the forest and the chimp mega-culture it contains are currently completely unprotected.

Congo_WEB

The prime minister, David Cameron, and Prince William are due to host the highest level global summit to date on combating the $19bn-a-year illegal wildlife trade in London next Thursday. Delegates from more than 50 nations, including all African countries, will focus on the poaching crisis facing elephants and other species, which is not only driving many towards extinction but is strongly linked to international organised crimeand the poverty of many vulnerable communities. The aim is to deliver an unprecedented political commitment, along with an action plan and funding pledges, and Hicks says the Bili-Uele forest is in need of urgent help.

“It is one of the last great expanses of pristine African wilderness,” he says. “Elephants have already taken a major hit and unless we can muster the resolve to protect this precious area, we are at risk of losing it forever. At the very minimum need 20 wildlife guards who are able to sweep through the forest and set up roadblocks to stop the poachers and other hunters.”

Hart agrees: “It is a very significant opportunity to preserve a whole ecosystem of chimpanzees: elsewhere on this continent this opportunity just does not exist.”

• You can view more camera trap videos from the Bili forest here.

Transposição do Rio São Francisco: via de mão única (Agência Pública)

07/2/2014 – 12h13

por Marcia Dementshuk, para a Agência Pública

sertanejos Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Sertanejos convivem com a obra há quase sete anos sem soluções para as consequências da seca. Foto: Mano Carvalho

Na primeira matéria do projeto Reportagem Pública, a repórter viaja ao Eixo Leste – e mostra como a população está sendo afetada pelas obras

“Sem dúvida, com a transposição do rio São Francisco será oferecida segurança hídrica para o Nordeste”, garantiu o diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, durante nossa entrevista. A aposta do governo federal é alta: o orçamento atual da transposição é de R$ 8.158.024.630,97 (o dobro do previsto inicialmente), financiados pelo Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC I e II). Trata-se do maior empreendimento de infraestrutura hídrica já construído no Brasil, que mudará para sempre a cara da região.

Menos de 5% das reservas hídricas do país estão no Nordeste do país, que detém entre 12% e 16% das reservas de água doce no planeta. O clima semiárido, seco, quente e com poucas chuvas domina o sertão, território com mais de 22,5 milhões de habitantes (Censo IBGE/2010).

Neste cenário, a notícia de que seria possível transportar a água do Rio São Francisco para regiões mais secas transformou-se em esperança para os nordestinos de todas as épocas. Fala-se nessa obra desde os tempos do Império, quando, em 1877, o intendente do Crato, no Ceará, apresentou para dom Pedro II um projeto que levaria águas do Rio São Francisco até o rio Jaguaribe, no seu estado.

A obra foi iniciada 130 anos depois, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com base no projeto elaborado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Depois do investimento inicial, de cerca de R$ 4 bilhões, o rendimento dos trabalhos diminuiu em 2010 por problemas de adequação do Projeto-Base à realidade da execução , e novas licitações precisaram ser feitas. Somente no final de 2013, conforme o Ministério da Integração Nacional, responsável pelo projeto, as obras foram 100% retomadas.

Hoje, o empreendimento aponta 51% de avanço, e o orçamento dobrou. A nova previsão para a conclusão é em dezembro de 2015, quando as águas deverão alcançar afinal o leito do rio Paraíba, no Eixo Leste, e o reservatório Engenheiro Ávidos, pelo Eixo Norte, ambos na Paraíba.

Ali do lado, falta água

O projeto prevê que as águas captadas do Rio São Francisco em dois canais de aproximação (no Eixo Norte, em Cabrobó e no Eixo Leste, no reservatório de Itaparica, em Floresta,ambos em Pernambuco) serão conduzidas pelos canais até os reservatórios, de onde abastecerão dezenas de municípios dos estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, aproveitando a rede de saneamento existente. Projetos referentes a tomadas para uso difuso (pontos de tomada de água captadas ao longo dos canais para abastecer as comunidades instaladas nas proximidades) ainda estão em fase de elaboração. O Ministério da Integração ainda não definiu que pontos serão esses, nem os locais exatos de captação. Da mesma forma, os valores finais do custo desta água para a população ainda estão em estudo por parte do governo federal.

A realidade, porém, é que há mais de dois anos, muitos moradores dos municípios do semiárido nem sequer têm água nas torneiras; usam a água distribuída por caminhões-pipa, de poços particulares ou públicos (a maioria com água salobra) ou da chuva (quando chove).

Manoel Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Em Caiçara, distrito de Custódia, Maria Célia Rodrigues da Silva disse que falta água nas torneiras desde o início das obras do PISF. Foto: Mano Carvalho

Em Caiçara, distrito de Custódia, Pernambuco, próximo ao Lote 10, que corresponde a atual Meta 2L, da construção (veja o mapa), a população toma a água enviada pelo Exército, em caminhões-pipa, uma vez por semana. Toda semana é a mesma cena: a água é despejada em uma cisterna central, e cada morador tem que ir buscar – há carroceiros que cobram em torno de R$ 5,00 ou R$ 7,00 por viagem.

O riacho Custódia passa próximo da casa de Manoel Rodrigues de Melo, agricultor de 52 anos, mas o fio de água que resta é salobra, e só serve para lavar a casa ou os estábulos. “A água boa vem de Fátima, a uns 40 quilômetros daqui. O que a gente mais precisa aqui é água, que não tem”, suplica o agricultor. Nessas condições, ele e a esposas criaram oito filhos. Todos partiram em busca de melhores condições de vida. “É muito filho, até parece mentira! Mas antigamente os invernos eram melhores, chovia mais”.

Manoel Rodrigues de Melo, que nunca saiu da região onde nasceu, viu seu terreno ser dividido pelo canal do Eixo Leste: ficou com seis quilômetros de um lado do canal e com a mesma medida do outro. Dono de um sotaque sertanejo carregado, com poucos dentes na boca, as mãos calejadas e a pele castigada pelo sol, Manoel conta que agora os bichos têm de usar a ponte sobre o canal para passar. “Senão, eles ficam ou do lado de cá, ou do lado de lá, ou tem que fazer um volta tremenda lá por baixo, onde tem um lugar pra passar. Mas o que mais a gente espera é essa água que ‘tá’ pra vir. Isso vai mudar a nossa vida aqui. Vai ser muito bom”, diz o agricultor, ansioso.

“A gente tinha água pela torneira, era ruim, mas dava pra limpeza. Mas desde que começou essa construção (referindo-se à transposição) ela foi cortada”, lembra-se a vizinha de Manoel, a dona de casa Maria Célia Rodrigues da Silva, que cuida da mãe doente, com 82 anos. “Nem as cisternas não enchem. Estamos com dois anos de seca”, completou. A água encanada provinha de um poço escavado em outro vilarejo próximo de Caiçara, Fiúza, mas ela não sabe dizer se foi cortada em função das obras da transposição, ou se o poço secou. Mesmo com o encanamento de sua casa enferrujado e sem saber se terá água para beber no dia seguinte, a vida de Maria Célia continua. Ela não teve filhos. Cria alguns bodes, cabras e galinhas no quintal da casa e conta com o dinheiro da aposentadoria de sua mãe para o sustento das duas. Trabalhava na roça, mas nada mais resistiu à seca de dois anos.

Tradicional como a seca, o pífano de Zabé

Zabe Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Zabé da Loca. Foto: Mano de Carvalho

A tocadora de pífano Zabé da Loca nos recebeu às vésperas de completar 90 anos. Quando tinha 79 anos, 25 dos quais passados em uma gruta, na Serra do Tungão, próximo a Monteiro (PB), Zabé se tornou conhecida no mercado de música regional. Chegou a dividir o palco com músicos como Hermeto Pascoal e Gabriel Pensador em shows no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Paraíba e Brasília.

Típica sertaneja, que jamais conheceu o conforto de abrir uma torneira de onde corresse água em abundância, Zabé teve 14 irmãos, oito dos quais morreram por doenças originadas pela falta de água e desnutrição. Fumante inveterada, persistiu no hábito mesmo depois do tratamento de combate a um enfisema pulmonar e à pneumonia e não deixou de enrolar um cigarrinho durante a visita, enquanto lembrava: “Nessa serra sempre teve água da chuva que empoçava nas pedras. Mas tinha anos que não encontrávamos água em canto nenhum. A gente tinha que ir até o rio (afluente do rio Paraíba, próximo da nascente) pegar”.

Quando comentamos sobre a transposição do rio São Francisco ela reagiu: “esse negócio existe mesmo?”

Para o ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, Luiz Gabriel Azevedo, o custo de operação da água da transposição é elevado e requer investimentos vultosos, quando comparado a outras alternativas. “Parte do pacto, quando se pensou esse projeto, é de que os estados fariam um trabalho forte de racionalizar o uso dentro de seus territórios, de melhorar o sistema de gestão; e os estados estão aquém dessa expectativa”, analisa. Ele alega que os estados deveriam investir mais em obras que garantissem os recursos hídricos, como manutenção e construção de açudes, estudos para perfurações de poços e principalmente em obras de saneamento e rede de distribuição de água.

“Não valerá à pena trazer uma água cara para se desperdiçar do outro lado. Não dá para executar um projeto complexo se os recursos dos açudes não forem bem usados, se não houver um sistema de distribuição, se não se tem um sistema de gestão eficiente nos estados que vão receber para gerir a água”, complementou Luiz Gabriel Azevedo.

Por Lei, o órgão competente que determinará como a água será distribuída é o Conselho Gestor do Projeto de Integração do Rio São Francisco, instituído pelo Decreto 5.995/2006. Esse Conselho é formado por representantes dos estados beneficiados com o empreendimento – Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará – e tem por objetivo, entre outros, tratar da alocação das águas e dos rateios dos custos correspondentes.

moradores Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Desalentados pela seca, moradores de cidades do Sertão nordestino aguardam a chegada das águas da transposição. Foto: Mano Carvalho

Para o diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA) destaca que o Nordeste ainda carece de um conjunto de soluções hídricas, como aproveitamento máximo da escassa água da chuva, o controle do uso das águas dos reservatórios ou a transposição de águas de outras bacias hidrográficas, já que a escavação de poços do semiárido é considerada inviável. De acordo com o relatório de impacto Ambiental do PISF, (RIMA), “a maioria do território semiárido (70% da região) dispõe de pouca água subterrânea e possui solo impermeável, ou seja, absorve pouca água, limitando sua capacidade de disponibilidade. Além desse aspecto, a água, em geral, é de baixa qualidade”.

Realocação de moradores e uma vila partida ao meio

Cerca de 800 famílias foram deslocadas e receberam indenizações entre cerca de R$ 10 mil a R$ 15 mil para dar passagem às obras da transposição – de acordo com a gerência de Comunicação da CMT Engenharia, empresa responsável pelo acompanhamento das ações de compensação socioambiental do PISF – ao longo dos eixos Norte e Leste, em Pernambuco e no Ceará. De acordo com o supervisor de obras da empresa Ecoplan, Adilson Leal, porém, as terras não entraram na avaliação das propriedades a serem indenizadas por possuírem baixo valor de mercado, segundo a empresa, em função da pouca qualidade da terra para o plantio ou para o pasto, em uma região onde a chuva é escassa. Só as benfeitorias foram ressarcidas.

abastecimento Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Abastecimento de água potável para a população em Rio da Barra (PE), por onde passam os canais da transposição, ocorre duas vezes por semana. Foto: Mano de Carvalho

Em Rio da Barra, distrito de Sertânia, em Pernambuco, comunidade que beira o canal na altura do Lote 11, que corresponde à Meta 2L, (veja o mapa), a população se encontra duas vezes por semana na cisterna pública para se abastecer de água potável proveniente de um poço artesiano cavado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Um funcionário da prefeitura de Sertânia controla o abastecimento gratuito dos galões trazidos pela população na noite anterior. O local acaba se tornando o ponto de encontro do povoado. Mães carregando baldões chegam com as crianças arrastando baldes menores, carroças carregadas de galões estacionam ao lado e todos aguardam com paciência pelo precioso líquido. Maria José Araújo Pinheiro, uma dona de casa tímida, mas de olhos atentos, aguardava sua vez quando comentou que sua mãe, Creusa Davi da Silva, aceitou a oferta do governo para desocupar suas terras no sítio Chique-Chique. “Eles ofereceram pra ela R$ 14.400, ela pegou e foi morar em Sertânia. Como ela ganha aposentadoria, está bem. Mas pagaram só pela casa”, disse Maria José.

Marcia Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

O marido de Márcia Freire, Adilson Salvador, de Rio da Barra (PE,) é técnico ambiental nas obras da transposição. Foto: Mano de Carvalho

Márcia Maria Freire Araújo vem do outro lado do canal do Eixo Leste da transposição pegar água na cisterna pública de Rio da Barra. Ela chega sempre antes das seis da manhã, na companhia do cunhado que conduz uma carroça puxada a burro onde transportam os galões de água. Andam cerca de dois quilômetros, atravessam o canal por uma ponte provisória e os depositam em uma fila de recipientes que começou a ser formar no dia anterior. Sua família mora em outra propriedade pequena, que teve uma parte indenizada pelo Ministério da Integração Nacional. “Eu não acho que é justo perder um pedaço de terra, mas se é para fazer o bem pra tanta gente, então aceitamos”, conforma-se. Ela vê o lado bom: seu marido, Adilson Salvador, é empregado na construtora SA Paulista como técnico ambiental na transposição. “Ele conseguiu emprego desde o início da obra, primeiro por outra empresa, e agora pela Paulista”, orgulha-se Márcia Maria.

Em outra localidade, na zona rural de Sertânia, os moradores do Sítio Brabo Novo ficaram divididos pelo canal. Pelo menos treze famílias preferiram a remoção para terras acima do reservatório Barro Branco, ainda em fase de retirada da vegetação. Um número bem maior de famílias permaneceu do outro lado do reservatório.

Maria da Conceição Siqueira, viúva, de 51 anos, e seu filho, de 18 anos, deixarão a antiga moradia para trás e irão para Sertânia. “Já recebi R$ 7.500,00 por aquela casinha ali”, diz, apontando para uma casa que ficará submersa pelo reservatório, “e ganhei essa casa aqui. Mas vamos fechá-la e ir embora”. “Fiquei com um pedaço de terra muito pequeno, (cerca de 50m²) não dá pra nada. Meu filho está em tratamento, ele teve um derrame no cérebro e é melhor a gente ficar lá”, diz.

Lucineia Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Lucinéia ferreira Florêncio não acredita em distribuição justa das águas da transposição. Foto: Mano de Carvalho

A família das irmãs Lucicléia e Lucinéia Ferreira Florêncio, vizinhas de Maria da Conceição, tomou uma decisão diferente. “Nossa primeira casa era onde agora vai ser o reservatório, e já foi indenizada em 2007. Mas esse reservatório ocupou quase a metade do nosso terreno. Como ainda sobraram terras desse outro lado e esta é uma área liberada, decidimos construir aqui, com o dinheiro da indenização”, contou Lucinéia. Ela não soube informar o tamanho do sítio, mas a nova casa é grande. No terreno persiste uma plantação de palmas (um tipo de cactos que serve para alimentar os animais) e algumas árvores frutíferas. O resto foi perdido: abacaxi, macaxeira, milho, feijão… A irmã, Luciclélia, casou-se e construiu uma casa menor ao lado, onde vive com o marido e uma bebê de nove meses.

Lucinéia, professora, duvida que no futuro haja uma distribuição justa das águas da transposição. “Tem os pontos positivos, mas acho que vão ter os negativos também. Eu penso que com essa água toda vão começar a fazer mais obras por aqui e eu não sei se toda a comunidade vai ter acesso a essa água quando quiser. O pequeno produtor nunca é beneficiado como os grandes proprietários, nunca tem igualdade. E acho que o crescimento vai ser desordenado. A comunidade já tem uma associação de moradores, mas ainda não sabe como abordar esse assunto”, lamentou Lucinéia, dizendo que não há orientação nenhuma dos governos sobre isso.

sitio Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

O Sítio Passagem da Pedra, em Sertânia, dividido para a construção do túnel; zeladores recuam cerca que delimita área da propriedade. Foto: Mano de Carvalho

Na área onde será construído o túnel entre Sertânia e Monteiro, no Lote 12, atual Meta 3L (veja mapa), a retomada das obras em dezembro significou a perda de mais 100 metros de terreno pelos agricultores, além dos 100 metros que já tinham recuado. “Fazer o quê? Os donos já receberam a indenização e agora que vieram construir pediram mais esse pedaço de terra”, explicam Lenilton Cordeiro dos Santos e Quitéria Araújo da Silva, zeladores do sítio Passagem da Pedra, cortado tanto pelo canal da transposição quanto pelo túnel.

Ailton Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

“Ninguém sabe”, afirmou o capataz Aílton Ferreira falando sobre a data que deverá chegar as águas da transposição no túnel na divisa entre Pernambuco e Paraíba. Foto: Mano de Carvalho

No sítio ao lado, Aílton Ferreira de Oliveira cuida do terreno da sogra, que também foi reduzido. “Agora, o gado que sobrou, cinco cabeças, está no curral e come mandacaru, pois não tem mais o que comer por causa da seca, e o terreno ficou pequeno pro pasto”.

“E essa água, quando chega?”, interrompe o capataz do sítio, que prossegue, num monólogo: “Ninguém sabe…”.

Leia também as outras quatro reportagens da série e ainda um relato da repórter Márcia Dementshuk, onde ela conta os bastidores da reportagem.

Uma viagem ao canteiro de obras

Na Contramão da Transposição

O povo contra os areeiros

Leia os bastidores da reportagem

A Transposição, um projeto dos tempos do Império

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

New kinds of maths skills needed in the future – and new educational practices (Science Daily)

Date: February 5, 2014

Source: Suomen Akatemia (Academy of Finland)

Summary: The nature of the mathematical skills required from competent citizens is changing. Gone are the days of inertly applying and performing standard calculations. The mathematical minds of the future will need to understand how different economic, social, technological and work-related processes can be mathematically represented or modeled. A project is exploring new pedagogical practices and technological environments to prepare students for the flexible use of their math skills in future environments.

The nature of the mathematical skills required from competent citizens is changing. Gone are the days of inertly applying and performing standard calculations. The mathematical minds of the future will need to understand how different economic, social, technological and work-related processes can be mathematically represented or modeled. A project included in the Academy of Finland’s research program The Future of Learning, Knowledge and Skills (TULOS) is exploring new pedagogical practices and technological environments that can prepare students for the flexible and adaptive use of their mathematical skills in future activity environments.

“Our goal is to have students be able to use their mathematical skills in a highly adaptive and flexible way. We want to promote mathematical thinking so that future minds can recognize the mathematical aspects in their environments,” says Academy Professor Erno Lehtinen from the University of Turku, the project’s principal investigator. The new pedagogical methods, digital games and other applications promoting an active awareness and mathematical reading of the surrounding environment are aimed at sparking an interest in mathematical mind games.

The educational games developed in the research project are designed to support a creative application of flexible mathematical strategies for novel situations. The idea is also to help students view natural numbers as an interlinked system and understand mathematical contents, such as equations.

Inspired by everyday phenomena

The research project will also investigate how students understand fractions and decimals and how they flexibly apply their skills in interpreting various practical phenomena. “In our previous breakthrough studies, we’ve established the role of spontaneous quantitative focusing tendencies in the development of mathematical thinking. Now, we’re trying to develop new pedagogical practices and technological environments that will inspire students to observe quantitative relationships in their everyday surroundings,” Academy Professor Lehtinen explains.

The idea is to get students to use fraction-based thinking even before they actually are taught fractions at school. According to Lehtinen, the premise is that the ability to perceive quantitative and later fraction-based relationships in varying practical situations can help students manage the difficult conceptual transition from natural numbers to fractions and bridge school learning with students’ everyday activities.

The project will make use of both basic research and applied school research. The mathematical phenomena under study will be investigated in laboratory settings using precise experiments, observations and even brain-imaging methods. On the other hand, the research methods will also involve longitudinal studies in normal school environments. The plan is to test the new pedagogical methods and games in comprehensive teaching pilots using wide-ranging national-level data.

New application of physics tools used in biology (Science Daily)

Date: 

February 7, 2014

Source: DOE/Lawrence Livermore National Laboratory

Summary: A physicist and his colleagues have found a new application for the tools and mathematics typically used in physics to help solve problems in biology.

This DNA molecule is wrapped twice around a histone octamer, the major structural protein of chromosomes. New studies show they play a role in preserving biological memory when cells divide. Image courtesy of Memorial University of Newfoundland. Credit: Image courtesy of DOE/Lawrence Livermore National Laboratory

A Lawrence Livermore National Laboratory physicist and his colleagues have found a new application for the tools and mathematics typically used in physics to help solve problems in biology.

Specifically, the team used statistical mechanics and mathematical modeling to shed light on something known as epigenetic memory — how an organism can create a biological memory of some variable condition, such as quality of nutrition or temperature.

“The work highlights the interdisciplinary nature of modern molecular biology, in particular, how the tools and models from mathematics and physics can help clarify problems in biology,” said Ken Kim, a LLNL physicist and one of the authors of a paper appearing in the Feb. 7 issue ofPhysical Review Letters.

Not all characteristics of living organisms can be explained by their genes alone. Epigenetic processes react with great sensitivity to genes’ immediate biochemical surroundings — and further, they pass those reactions on to the next generation.

The team’s work on the dynamics of histone protein modification is central to epigenetics. Like genetic changes, epigenetic changes are preserved when a cell divides. Histone proteins were once thought to be static, structural components in chromosomes, but recent studies have shown that histones play an important dynamical role in the machinery responsible for epigenetic regulation.

When histones undergo chemical alterations (histone modification) as a result of some external stimulus, they trigger short-term biological memory of that stimulus within a cell, which can be passed down to its daughter cells. This memory also can be reversed after a few cell division cycles.

Epigenetic modifications are essential in the development and function of cells, but also play a key role in cancer, according to Jianhua Xing, a former LLNL postdoc and current professor at Virginia Tech. “For example, changes in the epigenome can lead to the activation or deactivation of signaling pathways that can lead to tumor formation,” Xing added.

The molecular mechanism underlying epigenetic memory involves complex interactions between histones, DNA and enzymes, which produce modification patterns that are recognized by the cell. To gain insight into such complex systems, the team constructed a mathematical model that captures the essential features of the histone-induced epigenetic memory. The model highlights the “engineering” challenge a cell must constantly face during molecular recognition. It is analogous to restoring a picture with missing parts. The molecular properties of a species have been evolutionarily selected to allow them to “reason” what the missing parts are based on incomplete information pattern inherited from the mother cell.

Story Source:

The above story is based on materials provided by DOE/Lawrence Livermore National Laboratory. The original article was written by Anne M Stark. Note: Materials may be edited for content and length.

Money makes people right-wing, inegalitarian, UK study finds (Science Daily)

Date: 

February 6, 2014

Source: University of Warwick

Summary: Lottery winners tend to switch towards support for a right-wing political party and to become less egalitarian, according to new research on UK data.

Evidence on Switchers: The Percentage of People Who Switched Right (Conservative), and Previously Did Not Vote Conservative, After a Lottery Win Source: BHPS Data, Waves 7-18. Credit: Source: BHPS Data, Waves 7-18; Graph courtesy of University of Warwick

Lottery winners tend to switch towards support for a right-wing political party and to become less egalitarian, according to new research on UK data by Professor Andrew Oswald of the University of Warwick and Professor Nattavudh Powdthavee of the London School of Economic and the Melbourne Institute of Applied Economic and Social Research, University of Melbourne.

Their study, published as a new University of Warwick working paper under the title “Does Money Make People Right-Wing and Inegalitarian: A Longitudinal Study of Lottery Wins”, shows that the larger the win, the more people tilt to the right. The study uses information on thousands of people and on lottery wins up to 200,000 pounds sterling. The authors say it is the first research of its kind.

The authors believe their paper has wide implications for how democracy works. Professor Oswald said he had become doubtful of the view that morality was an objective choice. “In the voting booth, monetary self-interest casts a long shadow, despite people’s protestations that there are intellectual reasons for voting for low tax rates.”

“We are not sure exactly what goes on inside people’s brains”, said Nick Powdthavee, “but it seems that having money causes people to favour conservative right-wing ideas. Humans are creatures of flexible ethics.”

The authors believe their paper has wide implications for how democracy works. Professor Oswald said he had become doubtful of the view that morality was an objective choice. “In the voting booth, monetary self-interest casts a long shadow, despite people’s protestations that there are intellectual reasons for voting for low tax rates.”

The authors’ paper comments that: “The causes of people’s political attitudes are largely unknown. One possibility is that individuals’ attitudes towards politics and redistribution are motivated by deeply ethical view. Our study provides empirical evidence that voting choices are made out of self-interest.”

Using a nationally representative sample of lottery winners in the UK – the British Household Panel Survey – the researchers have been able to explore the observed longitudinal changes in political allegiance of the bigger winners to the smaller winners. The effect is also sizeable. Winning a few thousand pounds in the lottery has an effect on right-wingness that is just under half of completing a good standard of education (i.e. A-levels) at high school.

The lottery winning effect is far stronger for males than females. The authors are not sure why.

The study has nobody who wins millions and millions. “We’d certainly love to be able to track the views of the rare giant winners”, said Professor Oswald, “if any lottery company would like to work with our research team.”

Journal Reference:

  1. Andrew Oswald, Nattavudh Powdthavee. Does Money Make People Right-Wing and Inegalitarian: A Longitudinal Study of Lottery WinsUniversity of Warwick, February 2014

Extremos climáticos mostram que futuro já chegou (O Globo)

JC e-mail 4890, de 07 de fevereiro de 2014

Editorial publicado em O Globo. Temperaturas máximas recordistas no Brasil, secas e nevascas intensas no Hemisfério Norte atestam que mundo perde tempo precioso para mitigar efeitos do aquecimento

No dia 31 de janeiro, das 10 estações meteorológicas que indicavam as maiores temperaturas do mundo, seis estavam no Rio e outras três no Brasil. A campeã mundial foi Joinville, em Santa Catarina, onde a sensação térmica chegou a 52 graus. O Rio ficou em segundo, com 51. A única fora do Brasil foi El Vigia, na Venezuela. O ranking é do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec), com base em informações de 4.232 estações acessadas pelo Inpe. Os que moram no Rio sentem isto na pele, agravado pela longa estiagem – as precipitações em janeiro foram de apenas 58mm, quando a média para o mês na cidade é de 202mm. Na terça-feira, a temperatura bateu novo recorde: 40,8 graus em Santa Cruz, com a sensação térmica de incríveis 57 graus.

Enquanto isso, nos EUA (Hemisfério Norte), nevascas das mais intensas já registradas criam problemas de todo o tipo. Nos últimos dias de janeiro, tempestades de neve atipicamente atingiram o Sul dos EUA, do Texas e Geórgia até as Carolinas, uma área de 60 milhões de habitantes. Sete pessoas morreram e o fechamento de rodovias e avenidas transformou Atlanta num caos. Na terça, 905 voos foram cancelados e 3.100 sofreram atrasos. Já no Alasca, a paisagem da costa muda rapidamente porque os lagos degelam mais cedo. Entre 1991 e 2011, a região perdeu 22% de sua camada de gelo, revelou estudo na revista “Cryosphere”, segundo o qual a causa são as mudanças climáticas.

Estudos americanos indicaram que a temperatura do planeta se manteve em alta em 2013. Segundo a Nasa, a média global foi de 14,6 graus centígrados, empatando com 2006 e 2009 como o sétimo ano mais quente desde 1880, quando as medições começaram. As temperaturas globais começaram a subir no final dos anos 1960, fenômeno associado ao acúmulo de gases estufa na atmosfera. A quantidade de dióxido de carbono é mais alta hoje do que em qualquer momento nos últimos 800 mil anos, adverte a Nasa.

Hoje, a maioria dos cientistas concorda que a ação humana contribui para as mudanças climáticas. Mas os principais líderes mundiais estão devendo muito em chegar a consensos que possibilitem ações essenciais para o futuro da Humanidade. Um grande avanço foi o governo dos EUA anunciar a criação de sete centros climáticos regionais para auxiliar fazendeiros e comunidades a enfrentar secas, inundações, incêndios e pestes. E a Agência de Proteção Ambiental (EPA) baixará normas severas para reduzir as emissões de termelétricas a carvão. Estão no caminho certo. No final de março, haverá nova avaliação do problema, com a divulgação, em Yokohama, no Japão, de novo relatório sobre o impacto das mudanças climáticas, elaborado por especialistas de mais de cem países reunidos no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Pode-se discutir em que proporção a Humanidade contribui para o aquecimento global. Porém, não se deveria mais colocar em dúvida a necessidade da redução das emissões de gases nocivos ao planeta.

(O Globo)
http://oglobo.globo.com/opiniao/extremos-climaticos-mostram-que-futuro-ja-chegou-11527392#ixzz2se99M9Es

Casa Branca anuncia a criação de sete centros climáticos (O Globo)

JC e-mail 4890, de 07 de fevereiro de 2014

Núcleos ajudarão agricultores a evitarem a ocorrência de eventos extremos, como seca, incêndios e enchentes

Na esteira da aprovação no Senado americano de uma nova lei agrícola, conhecida como Farm Bill, a Casa Branca anunciou esta quarta-feira a criação de sete “centros climáticos” para ajudar os agricultores e comunidades rurais a responderem aos riscos de mudanças climáticas, inclusive secas, ocorrência de pestes, incêndios e enchentes.
Os centros climáticos serão nos estados de Iowa, New Hampshire, Carolina do Norte, Oklahoma, Oregon, Colorado e Novo México.

Autoridades do governo americano descreveram a iniciativa como uma das ações executivas que o presidente Barack Obama tomará para atacar as mudanças climáticas sem um movimento do Congresso.

A criação de centros climáticos é considerado um passo limitado, mas é parte de uma campanha mais ampla do Executivo para usar sua autoridade, onde for possível, em políticas ligadas às mudanças do clima.

O governo tenta, também, ganhar apoio político para engajar-se em outros projetos, principalmente na elaboração de uma forte regulamentação que determine cortes de emissões de carbono em usinas do país. A criação do programa está sendo debatida na Agência de Proteção Ambiental.

A criação dos centros climáticos foi anunciada pelo secretário de Agricultura, Tom Villsack. A intenção do governo é que o programa ajude agricultores de cada região a adaptarem-se às mudanças climáticas, antes da elaboração de um projeto mais ambicioso.

– As mudanças climáticas são um desafio novo e complexo enfrentado pelos agricultores, e seus impactos são sentidos nas florestas e nas áreas de cultivo.

(Carol Davenport do New York Times/O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/casa-branca-anuncia-criacao-de-sete-centros-climaticos-11526131#ixzz2se5UT4FG

Pesquisa avaliará os impactos socioambientais de Belo Monte (Fapesp)

O pesquisador Emilio Moran, na frente da casa em que morou por 14 meses entre 1973 e 1974, em uma agrovila próxima à Transamazônica (arquivo pessoal)

10/02/2014

Por José Tadeu Arantes

Agência FAPESP – Uma pesquisa científica vai avaliar os impactos sociais e ambientais da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, próxima à cidade de Altamira, no Pará.  A pesquisa, intitulada “Processos sociais e ambientais que acompanham a construção da hidroelétrica de Belo Monte, Altamira, PA”, tem apoio da FAPESP por meio do SPEC – São Paulo Excellence Chair, que visa propiciar a vinda ao Brasil de pesquisadores de primeira linha do exterior para criar núcleos de pesquisa em universidades paulistas.

A pesquisa é liderada pelo cubano Emilio Federico Moran, professor da Michigan State University, nos Estados Unidos, agora vinculado ao Núcleo de Estudos Ambientais (Nepam) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com uma longa experiência no Brasil, resultante de quatro décadas de pesquisa sobre as transformações em curso no setor rural brasileiro, em especial na Amazônia, Moran coordena uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, de várias universidades brasileiras, centralizada pelo Nepam.

O trabalho de campo está em fase inicial de implantação em Altamira. A pesquisa deverá se estender até agosto de 2018. Participam da equipe cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina, da Universidade Federal do Pará e da Universidade Estadual do Pará.

“Começaremos com o levantamento dos impactos sobre a população urbana”, disse Moran, desde Altamira, à Agência FAPESP. “Elaborei junto com meus colaboradores um questionário para entender como a construção da hidrelétrica está afetando os moradores antigos, o pessoal que já estava aqui. Depois, enfocaremos os moradores novos, aqueles que vieram atraídos pela obra: operários, comerciantes, engenheiros, profissionais de vários tipos.”

“Também queremos determinar o efeito da usina sobre o setor agrícola, que é um setor muito produtivo nesta região da Amazônia”, prosseguiu o pesquisador.

“Tenho feito estudos na área desde os anos 1970, quando, para realizar minha pesquisa de doutorado, visitei a região pela primeira vez. No setor rural, parece que temos duas possibilidades. Pode ser que o crescimento da população urbana em função da hidrelétrica, fazendo aumentar a demanda de alimentos, promova uma intensificação agrícola na região. Mas pode ser também que as obras atraiam trabalhadores do campo, levando a um enfraquecimento da agricultura familiar por falta de mão de obra no setor agrícola. As primeiras observações apontam nesse sentido, mas estamos só começando os estudos”, disse.

Uma terceira linha de pesquisa vai acompanhar a população ribeirinha. Um contingente de 20 mil pessoas deverá ser reassentado em razão da barragem.

“Vamos acompanhar de perto essa população nativa, que será a mais diretamente afetada. Porque os indígenas conseguiram que a companhia mudasse o plano da barragem, de forma a não terem efeitos diretos. Terão, sim, efeitos indiretos. Já os ribeirinhos vivenciarão um reassentamento enorme: muitos povoados ribeirinhos vão ter de mudar e, de fato, vários já estão sendo removidos na área”, disse Moran.

Segundo o pesquisador, o termo “ribeirinho” pode se aplicar também a uma parte da população urbana, uma vez que há bairros constituídos por palafitas, na beira do rio Xingu, que serão alagados com a construção da barragem. Esses bairros são habitados por ribeirinhos que estão em processo de transição de uma existência isolada no meio do mato para uma vida com acesso a saúde, educação e outros serviços disponíveis na área urbana.

Uma das ocupações da equipe do projeto de pesquisa, em seus primeiros meses de atividade, será fazer um estudo exaustivo da literatura internacional sobre impactos socioambientais de hidrelétricas. Há obras de grande porte na China, na Índia, no Laos e em outros países emergentes que podem servir de parâmetro para o estudo de Belo Monte.

De acordo com Moran, as observações preliminares na área permitem perceber que alguns problemas que ocorreram no exterior já se manifestam também no Pará.

“A população de Altamira dobrou nos últimos dois anos. Já alcançou 150 mil pessoas. E vários preparativos para receber essa população foram prometidos, mas não realizados a tempo”, comentou. “De modo que Altamira está agora com sua capacidade esgotada em termos de leitos hospitalares, vagas escolares, efetivos de segurança etc., criando-se uma situação caótica para todos na cidade.”

“O supercrescimento deveria ter sido acompanhado por um superinvestimento em equipamentos para atender a essa nova população. A pesquisa poderá mostrar como deveremos agir em futuras hidrelétricas para reduzir os custos sociais e ambientais de grandes projetos como Belo Monte”, disse Moran.

“Esperamos poder subsidiar propostas para um planejamento que considere as pessoas tão importantes como a produção de energia”, disse o pesquisador.

Comissão especial da Câmara vai consolidar normas de proteção aos animais (Agência Câmara)

JC e-mail 4889, de 06 de fevereiro de 2014

Presidente da Câmara criou comissão para analisar os projetos sobre o tema em tramitação na Casa

O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, anunciou nesta terça-feira (4) a criação de uma comissão especial para consolidar, em uma única lei, os projetos e normas existentes referentes à proteção dos animais. O colegiado será composto por 23 membros titulares e o mesmo número de suplentes.

A criação da comissão foi uma reivindicação da bancada do PV, com apoio do Solidariedade (SDD), apresentada e aprovada pelo Colégio de Líderes em 10 de dezembro de 2013 – Dia Internacional dos Direitos dos Animais.

O objetivo dos partidos é dar tratamento uniforme e adequado a essas proposições. Tramitam atualmente na Casa 185 projetos de lei que disciplinam o assunto. “Uma legislação consolidada traz segurança jurídica, facilita o entendimento legal e elimina dúvidas sobre como lidar com a questão. Ela também irá estabelecer um marco regulatório da relação das pessoas com os animais, protegendo a fauna e, por sua vez, dando as respostas pelas quais a sociedade clama”, afirma o líder do PV, deputado Sarney Filho (MA).

Grupo de trabalho
O SDD criou ainda o Solidariedade Proteção aos Animais, grupo de trabalho que visa direcionar políticas específicas sobre maus-tratos, uso em pesquisas, controle populacional, abate, tráfico, criminalização, proteção, saúde, comércio e preservação das espécies, entre outros aspectos.

“O debate sobre os direitos dos animais é um dever do Poder Público. Discussões sobre maus-tratos, por exemplo, tomam proporções cada vez maiores. Nosso partido criou o Solidariedade Proteção aos Animais para entrar nessa importante discussão”, destacou o líder da legenda na Câmara, deputado Fernando Francischini (PR).

A iniciativa teve como motivação não só os episódios de maus-tratos a animais e seu uso em pesquisas científicas, mas, principalmente, a necessidade de preservar a riqueza e o bem-estar da fauna nativa, silvestre, doméstica, domesticada ou exótica, bem como atualizar a Lei de Proteção à Fauna (5.197/67), que no dia 3 de janeiro completou 47 anos.

Como marco do começo desse processo, ocorrerá em Brasília, entre os dias 17 e 20 de fevereiro, em frente ao Congresso, o Acampamento Nacional dos Animais, uma vigília que reunirá protetores e ativistas de todo o País pela aprovação de leis há anos em tramitação.

Memória humana é capaz de ‘reescrever’ o passado com experiências atuais (O Globo)

JC e-mail 4889, de 06 de fevereiro de 2014

Cientistas descobrem que nossas lembranças não são como vídeos, que armazenam perfeitamente as informações

Nossa memória viaja no tempo e arranca fragmentos do presente para inseri-los no passado. Essa foi a constatação de um novo estudo elaborado pela “Northwestern Medicine Feinberg School of Medicine”, de Chicago, nos Estados Unidos. O trabalho constatou que, em termos de precisão, ela está longe de se assemelhar às câmeras de video, que armazenam perfeitamente as informações. Assim, nossa memória reescreve o passado com as informações atuais, atualizando suas lembranças com novas experiências.

O estudo é o primeiro a mostrar especificamente como a memória humana relaciona tão fortemente o presente ao passado. Ele indica o ponto exato no tempo em que uma informação, de forma incorreta, é implantada em uma memória existente.

Segundo a autora do estudo, a pós-doutora em ciências sociais médicas Donna Jo Bridge, para nos ajudar a sobreviver, a memória se adapta a um ambiente em constante mudança e nos ajuda a lidar com o que é importante agora.

– Nossa memória não é como uma câmera de vídeo. Ela reformula e edita eventos para criar uma história adequada à realidade atual – ressalta Bridge à BBC News. Essa “edição” acontece no hipocampo.

Para a realização do experimento, 17 pessoas estudaram 168 objetos dispostos em uma tela de computador, com variadas imagens de fundo. Os cientistas observaram a atividade cerebral dos participantes, assim como o movimento dos olhos.

As imagens traziam cenas como o fundo do oceano ou a vista aérea de terras agrícolas. Em seguida, os pesquisadores pediram aos participantes para que eles colocassem o objeto no local original, mas em uma nova tela de fundo. O que se verificou foi que os objetos sempre eram colocados em um local incorreto.

– Eles sempre escolhiam o local que já haviam selecionado na etapa anterior. Isso mostra que sua memória original do local foi alterada para remeter a localização que lembravam na nova tela de fundo – disse a cientista.

Os participantes também fizeram testes de ressonância magnética para que fossem observadas as atividades cerebrais. O movimento dos olhos também foi estudado.

– Todo mundo gosta de pensar em memória como alguma coisa que nos permite lembrar vividamente nossa infância ou o que fizemos na semana passada. Porém, a noção de uma memória perfeita é um mito – disse à BBC News Joel Voss, autor sênior da pesquisa e professor assistente de ciências sociais .

Bridge acrescenta que o estudo pode ter implicações para depoimentos de testemunhas, por exemplo.

– Nossa memória é construída para mudar, não somente relatar fatos. Sendo assim, não somos testemunhas muito confiáveis – observou à BBC.

http://oglobo.globo.com/saude/memoria-humana-capaz-de-reescrever-passado-com-experiencias-atuais-11511975#ixzz2sY2I0RZv

Uma lei para salvar o planeta (O Globo)

JC e-mail 4889, de 06 de fevereiro de 2014

EUA debatem iniciativa histórica, que forçaria o corte nas emissões de gases-estufa por usinas a carvão

Enfrentando maratonas de reuniões, dezenas de advogados, economistas e engenheiros da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) lutam para criar o que pode vir a se tornar uma peça histórica no legado do presidente Barack Obama para o combate às mudanças climáticas. Se os autores forem bem sucedidos na elaboração de uma regulamentação forte e eficaz na determinação de cortes de emissões de carbono em 1.500 usinas a carvão americanas – a maior fonte de gases do efeito estufa do país -, o resultado pode ser a mais significativa ação já tomada pelos EUA no combate às mudanças climáticas. O país é um dos maiores responsáveis pelo aquecimento global.

Se a regulamentação for muito frouxa, o impacto ambiental pode ser mínimo. Mas, se for muito dura, pode levar ao fechamento de usinas antes que haja alternativas energéticas para substituí-las, o que poderia ocasionar blecautes de energia e anos de batalhas legais.

– O fracasso não é uma opção – afirmou o diretor-executivo da Associação Nacional de Limpeza, William Becker.

Em seu pronunciamento “Estado da União”, Obama deixou clara a intenção de usar sua autoridade – garantida pela Lei do Ar Limpo e por uma decisão de 2007 da Suprema Corte – para sancionar as novas regulamentações de redução das emissões de CO2. Ele está pressionando a agência a concluir os debates o mais rápido possível.

O presidente ordenou à EPA que apresente um rascunho da regulamentação já em 1º de junho. A nova lei deve orientar os estados a criar e executar planos para atender às metas nacionais para emissões de gases-estufa. Em princípio, as usinas poderiam não apenas cortar emissões, mas, por exemplo, usar tecnologias mais limpas, investir em fontes renováveis de energia e ainda fazer parte de um mercado de carbono – financiando, por exemplo, projetos em outros países.

Num primeiro momento, a nova lei atingiria as 600 usinas dos EUA que são movidas a carvão e pode, simplesmente, levá-las ao fechamento, dependendo de como a legislação for escrita. Estados em que a maior parte das usinas é movida a carvão estão fazendo um lobby pesado contra determinações mais radicais, alegando que ela pode levar ao colapso do fornecimento de energia.

Em geral, o carvão responde por 40% da energia elétrica produzida nos EUA. Mas em estados como Kentucky, Ohio e Missouri, o percentual vai de 80% a 90%. Por outro lado, se a legislação deixar muita abertura para cada estado decidir por si, corre o risco de não conseguir alcançar meta alguma e se tornar ineficaz.

(Coral Davenport do New York Times/O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/uma-lei-para-salvar-planeta-11516781#ixzz2sXw5gcLh

Who owns the bones? Should bodies in museum exhibits be returned home? (Science Daily)

Date: February 4, 2014

Source: Wiley

Summary: From Egyptian mummies to Ötzi the Iceman, human remains are a common, if macabre, feature of museum exhibits. A researcher now explores the argument that curators have an ethical obligation to return these bodies to their native communities for burial.

From Egyptian mummies to Ötzi the Iceman, human remains are a common, if macabre, feature of museum exhibits. Writing in Clinical Anatomy, Dr. Philippe Charlier explores the argument that curators have an ethical obligation to return these bodies to their native communities for burial.

The recent case of the ‘Irish Giant’ Charles Byrne reveals that this is not an issue limited to cadavers from pre-antiquity. Byrne found celebrity in the 1780s and while his skeleton remains in the Royal College of Surgeons in London, ethics experts argue his remains should be buried at sea in accordance with his wishes.

Dr. Charlier argues that human remains in museums and scientific institutions can be divided into four categories, ‘ethnographical elements’ such as hair samples with no certain identification; anatomical remains such as whole skeletons or skulls; archaeological remains; and more modern collections of skulls, used in now discredited studies in the early 20th century.

After exploring case study examples from around the world, Dr. Charlier argues that the concept of the body as property is anything but clear and depends heavily on local political views and the administrative status of the human remains. The author proposes that the only precise factor permitting restitution should be the name of the individual, as in the case of Charles Byrne.

“The ethical problem posed by the bones of this 18th century individual approximates to that of all human remains conserved in public collections, displayed in museums or other cultural institutions,” said Dr. Charlier. “In the near future, curators will have to choose between global conservation of all (or almost all) anthropological collections on the one hand and systematic restitution to their original communities or families on the other.”

Journal Reference:

  1. Adelheid Soubry, Cathrine Hoyo, Randy L. Jirtle, Susan K. Murphy. A paternal environmental legacy: Evidence for epigenetic inheritance through the male germ lineBioEssays, 2014; DOI: 10.1002/bies.201300113

How does radioactive waste interact with soil and sediments? (Science Daily)

Date: February 3, 2014

Source: Sandia National Laboratories

Summary: Scientists are developing computer models that show how radioactive waste interacts with soil and sediments, shedding light on waste disposal and how to keep contamination away from drinking water.

Sandia National Laboratories geoscientist Randall Cygan uses computers to build models showing how contaminants interact with clay minerals. Credit: Lloyd Wilson

Sandia National Laboratories is developing computer models that show how radioactive waste interacts with soil and sediments, shedding light on waste disposal and how to keep contamination away from drinking water.

“Very little is known about the fundamental chemistry and whether contaminants will stay in soil or rock or be pulled off those materials and get into the water that flows to communities,” said Sandia geoscientist Randall Cygan.

Researchers have studied the geochemistry of contaminants such as radioactive materials and toxic heavy metals, including lead, arsenic and cadmium. But laboratory testing of soils is difficult. “The tricky thing about soils is that the constituent minerals are hard to characterize by traditional methods,” Cygan said. “In microscopy there are limits on how much information can be extracted.”

He said soils are often dominated by clay minerals with ultra-fine grains less than 2 microns in diameter. “That’s pretty small,” he said. “We can’t slap these materials on a microscope or conventional spectrometer and see if contaminants are incorporated into them.”

Cygan and his colleagues turned to computers. “On a computer we can build conceptual models,” he said. “Such molecular models provide a valuable way of testing viable mechanisms for how contaminants interact with the mineral surface.”

He describes clay minerals as the original nanomaterial, the final product of the weathering process of deep-seated rocks. “Rocks weather chemically and physically into clay minerals,” he said. “They have a large surface area that can potentially adsorb many different types of contaminants.”

Clay minerals are made up of aluminosilicate layers held together by electrostatic forces. Water and ions can seep between the layers, causing them to swell, pull apart and adsorb contaminants. “That’s an efficient way to sequester radionuclides or heavy metals from ground waters,” Cygan said. “It’s very difficult to analyze what’s going on in the interlayers at the molecular level through traditional experimental methods.”

Molecular modeling describes the characteristics and interaction of the contaminants in and on the clay minerals. Sandia researchers are developing the simulation tools and the critical energy force field needed to make the tools as accurate and predictive as possible. “We’ve developed a foundational understanding of how the clay minerals interact with contaminants and their atomic components,” Cygan said. “That allows us to predict how much of a contaminant can be incorporated into the interlayer and onto external surfaces, and how strongly it binds to the clay.”

The computer models quantify how well a waste repository might perform. “It allows us to develop performance assessment tools the Environmental Protection Agency and Nuclear Regulatory Commission need to technically and officially say, ‘Yes, let’s go ahead and put nuclear waste in these repositories,'” Cygan said.

Molecular modeling methods also are used by industry and government to determine the best types of waste treatment and mitigation. “We’re providing the fundamental science to improve performance assessment models to be as accurate as possible in understanding the surface chemistry of natural materials,” Cygan said. “This work helps provide quantification of how strongly or weakly uranium, for example, may adsorb to a clay surface, and whether one type of clay over another may provide a better barrier to radionuclide transport from a waste repository. Our molecular models provide a direct way of making this assessment to better guide the design and engineering of the waste site. How cool is that?”

Model predicts growth, death of membership-based websites (Science Daily)

Date: February 4, 2014

Source: Carnegie Mellon University

Summary: Facebook is a proven success in what the late Nobel laureate Herbert Simon called “the marketplace of attention.” A new model assesses the viability of websites and social networks in this new attention economy to predict which sites are sustainable and which are not. The model attempts to replicate the dynamics of membership sites, including the role of active users as catalysts of website activity, turning dormant website members into active users and keeping them active.

Chart of Facebook use including predictions for future use. Credit: Image courtesy of Carnegie Mellon University

Facebook, now celebrating its 10th anniversary, is a proven success in what the late Nobel laureate Herbert Simon called “the marketplace of attention.” A new model devised at Carnegie Mellon University assesses the viability of websites and social networks in this new attention economy to predict which sites are sustainable and which are not.

The model, developed by Bruno Ribeiro, a post-doctoral researcher in Carnegie Mellon’s Computer Science Department, attempts to replicate the dynamics of membership sites such as Facebook, LinkedIn and TeaPartyNation, including the role of active users as catalysts of website activity, turning dormant website members into active users and keeping them active.

In applying the model to six years of user statistics for 22 membership-based websites, Ribeiro found that it was able to reliably predict which sites will be sustainable for the foreseeable future — including the Huffington Post news site, Ashley Madison dating site and The Blaze commentary site — and which sites could not be sustained, such as Flixster.com, OccupyWallSt.org and TeaPartyPatriots.org.

Unlike a recent, widely publicized academic study that predicted an 80 percent drop in Facebook membership from 2015 to 2017, Ribeiro’s model shows Facebook to be sustainable for the foreseeable future. As with all of these predictions, however, Ribeiro points out that even sustainable sites are vulnerable to upstarts that steal the attention of their members, as Facebook famously did to MySpace.

Ribeiro said his model could help investors understand which sites are self-sustaining and which are likely to fail, as well as help website managers identify and correct problems in the dynamics of attention to their sites.

It’s not enough to look at the total membership or the growth of membership of a site to understand which sites will be successful, Ribeiro said. His model accounts for the tendency of active members to become inactive, the influence that active members can have in encouraging friends to join or become active members, and the role of marketing and media campaigns in convincing people to join.

Ribeiro said he was inspired to take this approach by the writings of Simon, a Carnegie Mellon professor who won the 1978 Nobel Prize in economics. Simon had observed that many information systems were designed as if information was scarce, when the problem was just the opposite. “A wealth of information creates a poverty of attention and a need to allocate that attention efficiently among the overabundance of information sources that might consume it,” he said.

Ribeiro tested the model by evaluating both successful and unsuccessful sites. “If you don’t look at the negative examples, you never understand what makes for success,” he explained. Six years of daily number of active users (DAU) data, beginning in 2007, were obtained for 22 sites from Alexa, a Web analytics company. “This study couldn’t have been done even two years ago,” he added, “because data of this quality and breadth simply didn’t exist.”

In addition to separating the self-sustaining from the unsustainable sites, the model was able to discern which sites grew primarily from word of mouth, such as Facebook, Meetup.com and LinkedIn, and those powered by media and marketing, such as The Blaze, Bandstack and OccupyWallSt.

Unfortunately, the model also suggests that in the quest for attention, many sites are likely to increase annoying behaviors, such as sending emails about what friends on the site are doing.

“If this model is correct, social network sites will try to make your friends’ lives seem more interesting and your feedback on their posts more urgent,” Ribeiro said. Many teens, for instance, seem glued to their smartphones for fear of missing something that might get posted on a social site by or about a friend. “From the model’s perspective it is beneficial for companies to be encouraging this type of behavior,” he added.

O homem do tempo (Trip)

Cacique Cobra Coral: um espírito que luta contra o desequilíbrio da natureza

11.07.2012 | Texto: Millos Kaiser | Fotos: Abiuro

Foto: Abiuro

Empenhado em “intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”, o espírito do velho Cacique Cobra Coral se manifesta no Brasil e faz clientes entre produtoras de shows, governos e até em casamentos reais

De: The Weather Son
Sent from iPad 3 – from Rio City Maravilhosa

Depois de segurar por mais de dez dias a chuva e o vento para a montagem e o início da Rio+20, o cacique Cobra Coral ficou muito triste com a apresentação do relatório que deve ser ratificado pelos chefes de Estado. Acionado pelo prefeito Eduardo Paes diante da previsão de chuva durante a conferência da ONU, o cacique isolou as áreas do Forte de Copacabana e do Riocentro, onde ocorria a Rio+20, e conseguiu espantar totalmente as nuvens carregadas nesses locais, fazendo uma distribuição da chuva pelo estado do Rio de Janeiro.

O remetente do e-mail “The Weather Son”, o filho do tempo, é Osmar Santos, marido da médium Adelaide Scritori. Juntos, eles são responsáveis pela Fundação Cacique Cobra Coral, criada, segundo o site oficial, “para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Adelaide é a responsável pelo trabalho espiritual (ela prefere o termo “operações”), enquanto Osmar é “o homem do marketing”. “Eu trabalho usando uma conexão concreta, via celular, tablet e notebook, e a Adelaide opera com o cacique, conectada pelo espiritismo”, ele esclarece. A dupla contaria ainda com o auxílio de um professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), de um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e de outros conselheiros – até o escritor Paulo Coelho já foi um deles, entre 2002 e 2004.

Nos últimos dias, o casal estava na fronteira entre Brasil e Argentina, tentando atrasar a chegada de uma frente fria na Rio+20. No antepenúltimo dia do evento, porém, choveu. O cacique errou? “Não erramos a previsão, porque não é isso que fazemos. Alteramos o tempo para atender o povo. Funcionamos como um airbag, mas cada uma das peças do carro precisa também fazer sua parte. E isso não ocorreu. Céu azul não combina com desatenção, insensibilidade e falta de compromisso dos que se acham donos deste planeta. Não passarão incólumes ao crash climático de 2047, quando a Terra não terá mais água, comida ou ar limpo”, justifica Osmar, adiantando de quebra o ano em que será o apocalipse final.

Nem um mês antes, os dois estavam espantando tempestades no Grande Prêmio de Fórmula 1 em Mônaco e no Rock in Rio Lisboa. Terminando a Rio+20, embarcariam para a edição espanhola do festival, em Madri, e de lá seguiriam para Londres, onde dariam uma forcinha na abertura da Olimpíada. São quase todos clientes de longa data. A FCCC mantém convênio com a secretaria de obras do Rio de Janeiro desde o segundo mandato de César Maia, iniciado em 2001. Réveillon, Carnaval, Jogos Pan-Americanos, visitas de Bush, Obama e do papa à cidade… Em todos esses eventos, o cacique estava lá. Desde o mesmo ano, ele também pode dizer “Rock in Rio, eu fui”. Na época, o espírito teria salvado o festival de uma chuva que acometera toda a Barra da Tijuca, com exceção da Cidade do Rock, e convertido Roberto Medina – em sua autobiografia, o idealizador do RIR escreveu: “O cacique quase faz parte da empresa”.

“Contratamos sempre que dá. É satisfação garantida. Quando não dá para mandar a chuva para outro lugar, ele avisa antes” , diz uma produtora de eventos

Já com a Inglaterra a relação é ainda mais antiga, data do inverno de 1987. Londres agonizava sob 30 graus abaixo de zero e a então primeira-ministra Margaret Thatcher pediu socorro dos brasileiros. No dia seguinte, a temperatura já chegava a tolerável um grau negativo. O jornal The Guardian apelidou os milagreiros de “interceptadores de catástrofes”. Acabaram virando queridinhos do gabinete real, a ponto de intercederem no recente casamento do príncipe William com Kate Middleton.

Convênios com órgãos públicos são gratuitos. Em troca, a fundação pede aos governos que apresentem um comprovante de tudo que fizeram para reduzir os danos ambientais. Quem são os clientes particulares ou quanto pagam, a FCCC não revela, dizendo apenas que “eles estão espalhados por 17 países diferentes”. A produtora de eventos Valeria (nome fictício), que utilizou o serviço seis vezes, revela que o preço varia entre R$ 20 mil e R$ 25 mil, dependendo do porte do evento e do tempo de antecedência da contratação.

Contrata-se, na verdade, a Corporação Tunikito, um conglomerado com mais de dez CNPJs (El Niño Administração, Nostradamus Corretora de Seguros, La Niña Metereology, TWX Capas de chuva etc.) cuja sede fica na cidade de Guarulhos, em São Paulo. Osmar explica melhor: “A contratação pode incluir uma série de bens e serviços, como boletins meteorológicos, seguros contra desastres, aluguel de veículos e de capas de chuva. Mas é natural que quem contrate a Tunikito espere uma retribuiçãozinha providencial do cacique, afastando a chuva no dia de seu evento”. A fundação seria mantida com 20% dos lucros da Tunikito.

Iniciais no bolso
Adelaide e Osmar se conheceram quando eram promotores comerciais da Clam Clube de Assistência Médica, uma empresa do Grupo Silvio Santos. “Sempre trabalhamos com vendas”, ele conta. Quando não estão atuando como “senhores do tempo”, Adelaide trabalha como corretora de imóveis de luxo, “de acima de R$ 1 milhão”; o forte de Osmar são os seguros de automóveis.

A Fundação Cacique Cobra Coral foi fundada em 1931 por Ângelo, pai de Adelaide. Ele teria sido o primeiro Scritori a receber o espírito do índio norte-americano, que antes haveria encarnado no ex-presidente Abraham Lincoln e no cientista Galileu Galilei. Adelaide incorporaria também “uma equipe de engenheiros siderais, cada um responsável por um fenômeno da natureza”, e teria o dom de prever o futuro – no site da fundação há a cópia de uma carta supostamente enviada à Casa Branca comunicando ao presidente George W. Bush sobre o atentado de 11 de setembro, um mês antes do ocorrido. Suas habilidades mediúnicas estão sendo transmitidas para Jorge, o primogênito, 33 anos, de seus três filhos, sacerdote em um centro umbandista.

Abiuro

Osmar e Adelaide raramente dão entrevistas. ÀTrip, toparam falar apenas por e-mail, pois pessoalmente, alegaram, “o Astral não permitiu”. A reclusão suscita notícias a seu respeito que nem sempre procedem. Recentemente, por exemplo, a mídia anunciou que o Cacique Cobra Coral havia sido solicitado na gravação do show de Roberto Carlos em Jerusalém. “Eles estavam lá, é verdade”, esclarece Léa, assessora de comunicação do concerto. “Mas a lazer, até porque a cidade é um deserto e não chove nunca. Eles eram convidados da produção, ficaram no mesmo hotel que a gente, porém acabaram indo embora antes do show por causa de um chamado urgente.”

Geralmente, quem vai até os eventos é Osmar. Adelaide fica em um hotel na cidade ou em algum ponto estratégico. “Ele chega e começa a mapear as dissipações das nuvens, medir a umidade relativa do ar. E não larga do laptop”, conta Valeria. Osmar, em suas palavras, é “um senhor extremamente simpático, de aproximadamente 60 anos, pele clara e rosto arredondado, parecido com um executivo de banco”. Dirige um Citroën C3 e suas camisas costumam ter as iniciais de seu nome bordadas no bolso.

Valeria trabalhou com a FCCC pela primeira vez em 2008. Era cética, até que viu a mágica acontecer. “A tempestade era tanta que não dava nem para montar a estrutura do palco. Faltando cinco minutos para o show começar, o céu abriu em cima do palco, enquanto em volta estava tudo preto ainda”, ela rememora. “Depois dessa, contratamos ele sempre que dá. É satisfação garantida. Quando não dá para mandar a chuva para outro lugar, ele avisa antes.” Após se encontrarem em diversos trabalhos, os dois viraram amigos. “Vou ter um casamento sábado que vem. Escrevi para ele perguntando se vai chover, para saber com que roupa devo ir.” A resposta ainda não havia chegado.

Eduardo Coutinho: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo” (Agência Pública)

04/2/2014 – 12h02

por Mariana Rebuá Simões, para a Agência Pública

Eduardo Coutinho Foto Divulgação SESC 600x380 Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Eduardo Coutinho. Foto: Divulgação/SESC

Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o documentarista Eduardo Coutinho não escolhe as palavras para definir o que faz

Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no domingo, dia 2/2, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.

Quando consegui o número de telefone do escritório dele, achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meu pais me disseram.

Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.

Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia.

Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito.

Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.

Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.

Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.

Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.

Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?

Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.

Contra o jornalismo?

Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.

Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?

Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.

Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?

Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.

Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?

Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.

Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?

Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão.

EdificioMaster Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Edifício Master, documentário produzido por Coutinho em 2002

Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master…

É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.

Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse…

Em Copacabana?

Em Copacabana!

A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.

Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.

Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.

Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.

Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?

Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.

Você acha que vocês documentaristas são heroicos?

Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!

O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…

Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.

CabraMarcadopraMorrer Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Cabra marcado para morrer, de 1984

Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?

Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.

Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?

Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.

O Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…

Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.

Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.

Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor, o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.

A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?

Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.

Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?

Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.

Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…

Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.

Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…

Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.

Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…

Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar. Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.

De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?

Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.

Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?

Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.

Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?

Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

Can workshops on household water use impact consumer behavior? (Science Daily)

Date: January 31, 2014

Source: American Society for Horticultural Science

Summary: Researchers studied the effectiveness of workshops designed to focus on residential water conservation using a sample of irrigation water use data for 57 workshop participants and 43 nonparticipants. Results indicated that the 2-hour workshops were effective in reducing attendees’ irrigation water use; however, the effect was short lived. Results also showed that effects of workshop attendance depended on the household sample, and found that water use increased for some low-use workshop participants.

In Florida, where population growth, drought, and saltwater intrusion are affecting finite water sources, researchers are looking for effective ways to educate consumers about household water use habits. Despite an average annual rainfall of 55 inches, Florida was included on the Natural Resources Defense Council’s list of states with the greatest risk of water shortages in the coming years; the daily total state domestic water use in Florida is the fourth highest in the United States. A large proportion of Florida’s water is not used for human consumption, but is used for irrigating residential landscapes. In fact, a recent South Florida Water Management District study reported that outdoor water use in their area constitutes up to 50% of total household water consumption, and that up to 50% of the water applied to lawns is wasted through evaporation or overwatering.

Universities and municipalities are addressing this critical environmental concern through outreach and extension programs designed to educate the public about water conversation. But are these workshops effective in actually helping participants reduce their water use? Tatiana Borisova and Pilar Useche from the University of Florida conducted a study published in HortTechnology to determine the effectiveness of free, 2-hour irrigation management workshops conducted by the Florida Cooperative Extension Service in cooperation with a local water provider in order to find out if there were short- and long-term impacts of workshop participation. “Landscape management outreach programs have been implemented by regional and local agencies, Cooperative Extension Services, and other organizations to encourage more efficient irrigation water use and residential water conservation,” explained lead author Borisova. “However, limited information exists about the effectiveness of such programs.”

The team studied actual water use data for 12 months before and after workshops, and then compared water use data from workshop participants with the water use of households that did not participate in the workshop. They found “statistically significant reduction in water use” only in the month of the workshop. “Although the workshop has an impact on water use, this impact is very short-lived,” noted Borisova. “For workshop participants and nonparticipants, water use returns to the base level immediately in the months following the workshop.” The authors added that reinforcement of the educational message received during the workshop is probably required to sustain water-use reductions over time.

The team also found that the effect of workshop attendance depended on the sample of the households considered. For example, in the subsample of the low water-use households, water use tended to increase following the workshop. “The overall objective of the workshop was to improve the irrigation efficiency by reducing water wastes. However, households with low average water use may already be technically efficient, and workshop attendance cannot reduce their irrigation water use further without negatively affecting the yard aesthetics and plant health,” explained Borisova.

Borisova and Useche recommend development of a comprehensive evaluation approach for water use programs that includes evaluation of actual water use reductions in order to more accurately quantify program impact, design more effective educational programs, and better target the programs to consumers.

The complete study and abstract are available on the ASHS HortTechnology electronic journal web site: http://horttech.ashspublications.org/content/23/5/668.abstract

Journal Reference:

  1. Tatiana Borisova and Pilar Useche. Exploring the Effects of Extension Workshops on Household Water-use BehaviorHortTechnology, October 2013

Satellites show ‘total’ California water storage at near decade low (Science Daily)

Date: February 3, 2014

Source: UC Center for Hydrologic Modeling

Summary: Updates to satellite data show that California’s Sacramento and San Joaquin River basins are at near decade-low water storage levels.

Updates to satellite data show that California’s Sacramento and San Joaquin River basins are at near decade-low water storage levels. These and other findings on the State’s dwindling water resources were documented in an advisory report released today from the UC Center for Hydrologic Modeling (UCCHM) at the University of California, Irvine.

Responding to Governor Jerry Brown’s recent declaration of a drought emergency in California, a team of UCCHM researchers has updated its research on the state’s two largest river basins, and the source of most its water. The region also encompasses the Central Valley, the most productive agriculture region in the country. The Central Valley depends entirely on the surface and groundwater resources within the river basins to meet its irrigation needs and to produce food for the nation.

Using satellite data from NASA’s Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) mission, the researchers, led by UCCHM Director and UC Irvine Professor Jay Famiglietti, found that as of November 2013, total water storage in the river basins — the combination of all of the snow, surface water, soil moisture and groundwater, and an integrated measure of basin-wide water availability — had declined to its lowest point in nearly a decade. GRACE data for the record-dry 2013-2014 winter months were not yet available for analysis.

The data show particularly steep water losses between November 2011 and November 2013, the early phase of the current drought. Famiglietti and fellow UCCHM researchers estimate that the basins have already lost 10 cubic kilometers of fresh water in each of the last two years — equivalent to virtually all of California’s urban and household water use each year. “That’s the steepest decline in total water storage that we’ve seen in California since the GRACE mission was launched in 2002,” Famiglietti said.

The researchers noted that snowpack, surface water and soil moisture storage in the river basins were all at their lowest points in nearly a decade, illustrating a growing threat to groundwater supplies in the Central Valley, and highlighting the urgent need to manage them sustainably. Groundwater is typically viewed as a strategic reserve that supplements sparse surface water supplies in times of drought.

By combining their satellite-based estimates of 10 years (October 2003 — November 2013) of Central Valley groundwater storage changes with long-term estimates of groundwater losses from the U. S. Geological Survey, the researchers noted that steep declines in groundwater storage are typical during droughts, when Central Valley farmers are forced to rely more heavily on groundwater to meet irrigation demands.

The advisory report underscores that the rates of declining groundwater storage during drought almost always outstrip rates of groundwater replenishment during wet periods, and raises fears about the impact of long-term groundwater depletion on sustaining a reliable water supply in the current, record-setting drought. The team’s previous 2011 study estimated that the Central Valley lost 20 cubic kilometers of groundwater during the 2006-2010 drought.

Historically, drought conditions and groundwater depletion in the Central Valley are responsible for widespread land subsidence, reductions in planted acreage, higher food costs and ecological damage.

Famiglietti notes that if the drought continues “Central Valley groundwater levels will fall to all-time lows.” Stephanie Castle, a UCCHM researcher who contributed to the report, believes that groundwater supplies should be more actively managed. Castle states that “the path of groundwater use that we are on threatens the sustainability of future water supplies for all Californians.” She noted that several communities within the state are on track to run out of water within the next few months.

Download the report at http://www.ucchm.org/publications

Written all over your face: Humans express 4 basic emotions rather than 6 (University of Glasgow)

3-Feb-2014

 

By Stuart Forsyth

Human beings are emotional creatures whose state of mind can usually be observed through their facial expressions.

A commonly-held belief, first proposed by Dr Paul Ekman, posits there are six basic emotions which are universally recognised and easily interpreted through specific facial expressions, regardless of language or culture. These are: happiness, sadness, fear, anger, surprise and disgust.

New research published in the journal Current Biology by scientists at the University of Glasgow has challenged this view, and suggested that there are only four basic emotions.

Their conclusion was reached by studying the range of different muscles within the face – or Action Units as researchers refer to them – involved in signalling different emotions, as well as the time-frame over which each muscle was activated.

This is the first such study to objectively examine the ‘temporal dynamics’ of facial expressions, made possible by using a unique Generative Face Grammar platform developed at the University of Glasgow.

The team from the Institute of Neuroscience and Psychology claim that while the facial expression signals of happiness and sadness are clearly distinct across time, fear and surprise share a common signal – the wide open eyes – early in the signalling dynamics.

Similarly, anger and disgust share the wrinkled nose. It is these early signals that could represent more basic danger signals. Later in the signalling dynamics, facial expressions transmit signals that distinguish all six ‘classic’ facial expressions of emotion.

Lead researcher Dr Rachael Jack said: “Our results are consistent with evolutionary predictions, where signals are designed by both biological and social evolutionary pressures to optimise their function.

“First, early danger signals confer the best advantages to others by enabling the fastest escape. Secondly, physiological advantages for the expresser – the wrinkled nose prevents inspiration of potentially harmful particles, whereas widened eyes increases intake of visual information useful for escape – are enhanced when the face movements are made early.

“What our research shows is that not all facial muscles appear simultaneously during facial expressions, but rather develop over time supporting a hierarchical biologically-basic to socially-specific information over time.”

In compiling their research the team used special techniques and software developed at the University of Glasgow to synthesise all facial expressions.

The Generative Face Grammar – developed by Professor Philippe Schyns, Dr Oliver Garrod and Dr Hui Yu – uses cameras to capture a three-dimensional image of faces of individuals specially trained to be able to activate all 42 individual facial muscles independently.

From this a computer can then generate specific or random facial expressions on a 3D model based on the activation of different Actions Units or groups of units to mimic all facial expressions.

By asking volunteers to observe the realistic model as it pulled various expressions – thereby providing a true four-dimensional experience – and state which emotion was being expressed the researchers are able to see which specific Action Units observers associate with particular emotions.

It was through this method they found that the signals for fear/surprise and anger/disgust were confused at the early stage of transmission and only became clearer later when other Action Units were activated.

Dr Jack said: “Our research questions the notion that human emotion communication comprises six basic, psychologically irreducible categories. Instead we suggest there are four basic expressions of emotion.

“We show that ‘basic’ facial expression signals are perceptually segmented across time and follow an evolving hierarchy of signals over time – from the biologically-rooted basic signals to more complex socially-specific signals.

“Over time, and as humans migrated across the globe, socioecological diversity probably further specialised once-common facial expressions, altering the number, variety and form of signals across cultures.”

The researchers intend to develop their study by looking at facial expressions of different cultures, including East Asian populations whom they have already ascertained interpret some of the six classical emotions differently – placing more emphasis on eye signals than mouth movements compared to Westerners.

http://www.cell.com/current-biology/abstract/S0960-9822(13)01519-4

Humanity’s forgotten return to Africa revealed in DNA (New Scientist)

20:00 03 February 2014 by Catherine Brahic

Call it humanity’s unexpected U-turn. One of the biggest events in the history of our species is the exodus out of Africa some 65,000 years ago, the start ofHomo sapiens‘ long march across the world. Now a study of southern African genes shows that, unexpectedly, another migration took western Eurasian DNA back to the very southern tip of the continent 3000 years ago.

According to conventional thinking, the Khoisan tribes of southern Africa, have lived in near-isolation from the rest of humanity for thousands of years. In fact, the study shows that some of their DNA matches most closely people from modern-day southern Europe, including Spain and Italy.

Because Eurasian people also carry traces of Neanderthal DNA, the finding also shows – for the first time – that genetic material from our extinct cousin may be widespread in African populations.

The Khoisan tribes of southern Africa are hunter-gatherers and pastoralists who speak unique click languages. Their extraordinarily diverse gene pool split from everyone else’s before the African exodus.

Ancient lineages

“These are very special, isolated populations, carrying what are probably the most ancient lineages in human populations today,” says David Reich of Harvard University. “For a lot of our genetic studies we had treated them as groups that had split from all other present-day humans before they had split from each other.”

So he and his colleagues were not expecting to find signs of western Eurasian genes in 32 individuals belonging to a variety of Khoisan tribes. “I think we were shocked,” says Reich.

The unexpected snippets of DNA most resembled sequences from southern Europeans, including Sardinians, Italians and people from the Basque region (see “Back to Africa – but from where?“). Dating methods suggested they made their way into the Khoisan DNA sometime between 900 and 1800 years ago – well before known European contact with southern Africa (see map).

Archaeological and linguistic studies of the region can make sense of the discovery. They suggest that a subset of the Khoisan, known as the Khoe-Kwadi speakers, arrived in southern Africa from east Africa around 2200 years ago. Khoe-Kwadi speakers were – and remain – pastoralists who make their living from herding cows and sheep. The suggestion is that they introduced herding to a region that was otherwise dominated by hunter-gatherers.

Khoe-Kwadi tribes

Reich and his team found that the proportion of Eurasian DNA was highest in Khoe-Kwadi tribes, who have up to 14 per cent of western Eurasian ancestry. What is more, when they looked at the east African tribes from which the Khoe-Kwadi descended, they found a much stronger proportion of Eurasian DNA – up to 50 per cent.

That result confirms a 2012 study by Luca Pagani of the Wellcome Trust Sanger Institute in Hinxton, UK, which found non-African genes in people living in Ethiopia. Both the 2012 study and this week’s new results show that the Eurasian genes made their way into east African genomes around 3000 years ago. About a millennium later, the ancestors of the Khoe-Kwadi headed south, carrying a weaker signal of the Eurasian DNA into southern Africa.

The cultural implications are complex and potentially uncomfortably close to European colonial themes. “I actually am not sure there’s any population that doesn’t have west Eurasian [DNA],” says Reich.

“These populations were always thought to be pristine hunter-gatherers who had not interacted with anyone for millennia,” says Reich’s collaborator, linguist Brigitte Pakendorf of the University of Lyon in France. “Well, no. Just like the rest of the world, Africa had population movements too. There was simply no writing, no Romans or Greeks to document it.”

Twist in tale

There’s one more twist to the tale. In 2010 a research team – including Reich – published the first draft genome of a Neanderthal. Comparisons with living humans revealed traces of Neanderthal DNA in all humans with one notable exception: sub-Saharan peoples like the Yoruba and Khoisan.

That made sense. After early humans migrated out of Africa around 60,000 years ago, they bumped into Neanderthals somewhere in what is now the Middle East. Some got rather cosy with each other. As their descendants spread across the world to Europe, Asia and eventually the Americas, they spread bits of Neanderthal DNA along with their own genes. But because those descendants did not move back into Africa until historical times, most of this continent remained a Neanderthal DNA-free zone.

Or so it seemed at the time. Now it appears that the Back to Africa migration 3000 years ago carried a weak Neanderthal genetic signal deep into the homeland. Indeed one of Reich’s analyses, published last month, found Neanderthal traces in Yoruba DNA (Nature, DOI: 10.1038/nature12886).

In other words, not only is western Eurasian DNA ancestry a global phenomenon, so is having a bit of Neanderthal living on inside you.

Journal reference: PNAS, DOI: 10.1073/pnas.1313787111

Back to Africa – but from where?

Reich and his colleagues found that DNA sequences in the Khoisan people most closely resemble some found in people who today live in southern Europe. That, however, does not mean the migration back to Africa started in Italy or Spain. More likely, the migration began in what is now the Middle East.

We know that southern Europeans can trace their ancestry to the Middle East. However, in the thousands of years since they – and the ancestors of the Khoisan – left the region, it has experienced several waves of immigration. These waves have had a significant effect on the genes of people living in the Middle East today, and and means southern Europeans are much closer to the original inhabitants of the Levant than modern-day Middle Easterners.

Agropecuária brasileira torna-se mais produtiva, porém mais excludente (Fapesp)

Artigo publicado na revista Nature Climate Change analisa mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nos últimos 20 anos e ressalta “comoditização” da agricultura (foto:Margi Moss/Projeto Brasil das Águas)

04/02/2014

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – As mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nas duas últimas décadas são destaque da capa da edição de janeiro da revista Nature Climate Change.

A boa notícia apontada pelo artigo é que, nos últimos dez anos, ocorreu no país uma dissociação entre expansão agrícola e desmatamento – o que resultou em queda nas emissões totais de gases de efeito estufa. O fenômeno, segundo os autores, pode ser atribuído tanto a políticas públicas dedicadas à conservação da mata como à “profissionalização” do setor agropecuário, cada vez mais voltado ao mercado externo.

Mas essa “comoditização” da produção rural brasileira trouxe também impactos negativos, entre os quais se destacam o aumento da concentração de terras e o consequente êxodo rural.

“As grandes propriedades – maiores que 1 mil hectares – representam hoje apenas 1% das fazendas do país. No entanto, ocupam praticamente 50% das terras agrícolas”, ressaltou David Montenegro Lapola, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro e autor principal do artigo.

As conclusões são baseadas na análise de mais de cem estudos publicados nos últimos 20 anos. Entre os 16 autores – todos brasileiros – estão Jean Pierre Henry Balbaud Ometto e Carlos Afonso Nobre, ambos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e integrantes do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PRPMCG).

Também participaram Carlos Alfredo Joly (Universidade Estadual de Campinas) e Luiz Antonio Martinelli (Universidade de São Paulo), do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA), da FAPESP.

“Os dados mostram, em 1995, um pico de expansão na agricultura coincidindo com um pico de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Isso volta a ocorrer entre os anos de 2004 e 2005, quando também houve pico de crescimento do rebanho bovino do Brasil. Após esse período, porém, a expansão agropecuária se desacoplou do desmatamento, que vem caindo em todos os biomas brasileiros”, disse Lapola à Agência FAPESP.

Se na Amazônia é claro o impacto de políticas públicas voltadas à preservação da floresta – como criação de áreas protegidas, intensificação da fiscalização feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e pela Polícia Federal e corte de crédito para municípios campeões do desmate –, nos demais biomas brasileiros a queda parece ser resultante de iniciativas do próprio setor produtivo.

“As culturas que mais cresceram são as voltadas ao mercado externo, como soja, milho, cana-de-açúcar e carne. É o que chamamos no artigo de ‘comoditização’ da agropecuária brasileira. De olho no mercado estrangeiro, o setor passou a se preocupar mais com os passivos ambientais incorporados em seus produtos. O mercado europeu, principalmente, é muito exigente em relação a essas questões”, avaliou Lapola.

Também na Amazônia há exemplos de ações de conservação capitaneadas pelo setor produtivo, como é o caso da Moratória da Soja – acordo firmado em 2006, por iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e da Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), para impedir a comercialização e o financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas.

“Na Amazônia, a soja tem avançado sobre áreas antes usadas como pastagem. O mesmo pode ser observado no Estado de São Paulo, no caso das plantações de cana. A maior parte da expansão canavieira dos últimos anos ocorreu sobre áreas de pastagem”, afirmou Lapola.

Tal mudança no padrão de uso do solo teve um efeito positivo no clima local, apontou o estudo. Em regiões de Cerrado no norte de São Paulo, por exemplo, foi registrada uma redução na temperatura de 0,9° C.

“A maior cobertura vegetal aumenta a evapotranspiração, libera mais água para a atmosfera e acaba resfriando o clima localmente. Mas a temperatura ainda não voltou ao que era antes de ocorrer o desmatamento para dar lugar ao pasto. Nessa época, o aquecimento local foi de 1,6° C”, disse Lapola.

Êxodo rural

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que as áreas dedicadas à pecuária no Brasil estão diminuindo. No entanto, o número de cabeças de gado continua crescendo no país, o que significa um maior número de animais por hectare e maior eficiência na pecuária (o uso do solo predominante no país).

De acordo com Lapola, o mesmo pode ser observado no caso de outras culturas voltadas à alimentação, como arroz e feijão, que tiveram suas áreas de plantio reduzidas embora a produção total tenha aumentado. Graças a esse incremento na produtividade, a segurança alimentar brasileira – por enquanto – parece não ter sido afetada pela “comoditização” da agricultura.

O artigo revela, no entanto, que a concentração de terras em grandes propriedades voltadas ao cultivo de commodities intensificou a migração para as áreas urbanas. Atualmente, apenas 15% da população brasileira vive na zona rural.

Em locais onde a produção de commodities predomina, como é o caso do cinturão da cana no interior paulista, cerca de 98% da população vive em áreas urbanas. “Essa migração causou mudança desordenada de uso do solo nas cidades. O resultado foi o aumento no número de favelas e outros tipos de moradias precárias”, afirmou Lapola.

As mudanças no uso do solo afetaram também o padrão brasileiro de emissão de gases do efeito estufa. Em 2005, o desmatamento representava cerca de 57% das emissões totais do país e, em 2010, esse número já havia caído para 22%. Hoje, o setor agropecuário assumiu a liderança, contabilizando 37% das emissões nacionais em 2010, advindas principalmente da digestão de ruminantes, da decomposição de dejetos animais e da aplicação de fertilizantes.

Novo paradigma

No artigo, os autores defendem o estabelecimento no Brasil de um sistema inovador de uso do solo apropriado para regiões tropicais. “O país pode se tornar a maior extensão de florestas protegidas e, ao mesmo tempo, ser uma peça-chave na produção agrícola mundial”, defendeu Lapola.

Entre as recomendações para que esse ideal seja alcançado os pesquisadores destacam a adoção de práticas de manejo já há muito tempo recomendadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), como o plantio na palha, além do fortalecimento do Código Florestal (que estabelece limites de uso da propriedade) e a adoção de medidas complementares para assegurar que a legislação ambiental seja cumprida.

“Defendemos mecanismos de pagamento por serviços ambientais, nos moldes do programa de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), por meio do qual proprietários rurais recebem incentivos financeiros pela conservação da biodiversidade e outros recursos naturais”, explicou Lapola.

Os autores também apontam a necessidade de políticas públicas – entre elas a reforma agrária – que favoreçam um modelo de agricultura mais eficiente e sustentável. “Até mesmo alguns grandes proprietários não têm, atualmente, segurança sobre a posse da terra. Por esse motivo, muitas vezes, colocam meia dúzia de cabeças de gado no terreno apenas para mostrar que está ocupado. Mas, se pretendemos de fato fechar as fronteiras do desmatamento, precisamos aumentar a produtividade nas áreas já disponíveis para a agropecuária”, concluiu Lapola.

O artigo Pervasive transition of the Brazilian land-use system (doi:10.1038/nclimate2056), de David Lapola e outros, pode ser lido por assinantes da Nature Climate Changeem www.nature.com/nclimate/journal/v4/n1/full/nclimate2056.html

‘Modelo de escola é autoritário’, diz professor da Universidade de Columbia (O Globo)

Brian Perkins é autor de estudos sobre o clima em sala de aula, envolvendo expectativas de professores e alunos

LEONARDO VIEIRA

Publicado:3/02/14 – 8h00 / Atualizado:3/02/14 – 15h12

O professor Brian Perkins Foto: Foto de divulgação

O professor Brian Perkins Foto de divulgação

RIO – Professor da Universidade de Columbia, Brian Perkins é autor de estudos que mostram como o clima em sala de aula influencia o aprendizado. O especialista, que esteve no Rio no fim de 2013 para um evento na Escola Sesc, está hoje em conversas com a Secretaria municipal de Educação para fazer uma pesquisa semelhante na rede carioca.

Quem deve ser o líder dentro de uma sala de aula: o professor, o aluno ou ambos?

BRIAN PERKINS: Ambos. É preciso que haja oportunidades para que os alunos se apropriem da experiência de aprendizagem. Vou dar exemplo: quando eu estava na 6ª série, minha irmã estava na faculdade. Eu ficava lendo seus livros sobre o Egito Antigo. E, nas minhas aulas de História, eu percebi alguns equívocos do professor sobre o assunto. Daí levantei a mão para dizer que gostaria corrigir o professor. E ele disse: “ok , você venceu, pode me corrigir, desde que seja explicando para toda a classe”. E assim eu fiz. Agora, dando aula na universidade, também abro espaço para meus alunos compartilharem conhecimento sobre capítulos de livros, pois também quero saber as visões e perspectivas deles, o que eles adquiriram com o estudo. Isso é parte do aprendizado.

De que?

Acho que devemos aproveitar essas oportunidades, quando os alunos sabem mais sobre um assunto do que o professor. Eles também têm a capacidade de conhecer mais, se lhes for dada a atribuição. Não só é bom porque desenvolve a liderança, mas também porque o cérebro realmente funciona melhor se eles tiverem a oportunidade de criar a suas próprias experiências.

Quais são os benefícios de ser um líder na sala de aula?

Ser um líder traz muita responsabilidade e, por isso, é realmente difícil pensar em termos de benefício. É mais uma obrigação e uma responsabilidade. O benefício, em termos de aprendizagem, é que o professor é mais um facilitador. Eles não apenas leem os livros para os alunos, mas também criam perguntas para que os alunos possam responder. Então os alunos constroem seus conhecimentos em vez de apenas guardar tudo o que os professores lhes dizem. Não é para dizer aos alunos quais são fatos, mas, sim, deixá-los experimentar e explorar.

É como se o estudante fosse um autodidata?

Não exatamente. É ser responsável por aquilo que você aprende. Essa é a razão de você ficar bom em aprender coisas: você pode pensar que em qualquer coisa que você é bom, o motivo provavelmente é porque você gosta dela. E é por isso que defendo dar ao aluno a oportunidade dessa aprendizagem, para estudar e associar o estudo com as coisas que gosta.

Abordando agora suas pesquisas sobre o clima nas escolas, o que conta mais na hora da aprendizagem: o clima em sala de aula ou a qualidade do ensino?

Essa é uma pergunta muito boa, e fico me questionando o tempo todo. Mas o que posso dizer é que ambos são igualmente importantes. O lado do efeito “ambiente escolar” é tão importante quanto o lado cognitivo, o lado da aprendizagem que eles fazem. Por exemplo, considere uma escola com regras estabelecidas. Eu não tenho que dizer sempre aos alunos o que pode e o que não pode fazer, pois eu já parto do princípio de que eles já tem consciência. Agora, se o ambiente não é ordenado, eles não aprendem. Se não houver uma espécie de estado psicológico comum, os alunos não podem aprender. Se você descobre que os alunos de uma escola estão com medo de levantar a mão e fazer uma pergunta, não é um bom ambiente, porque você quer que os alunos façam perguntas. Mas se eles não fazem perguntas, eles não aprendem.

Você acha que o nosso modelo de escola é autoritário?

Eu acho que o modelo predominante de escolas em todo o mundo é autoritário. Nós queremos que os alunos assumam responsabilidades também. Queremos que eles digam ‘eu fui para a escola hoje, mas eu não me dei por satisfeito, e agora eu vou buscar por mim mesmo o que eu preciso. Mas são poucas escolas com modelo construtivo, de deixar os alunos descobrir as coisas, deixando-os criar e trabalhar em grupos que conversam entre si. As pessoas estão mais focadas no controle do que no conteúdo que elas estão aprendendo.

E nos casos de conteúdos mais “duros” como a Matemática, como ensiná-los sem ser autoritário?

Não ser autoritário não significa que é preciso abandonar a estrutura. Quer dizer, você ainda pode ter estrutura, mas tem que dar um sentido ao conteúdo. Não adianta ensinar Matemática sem significado. Eu vi uma vez uma camiseta que dizia: ‘Eu tenho 30 anos e eu ainda uso álgebra”. É o mesmo quando te dizem ainda pequeno ‘você ainda vai precisar disso um dia’. E é verdade.

Mas se esse dia nunca chegar?

Se nunca chegar, é porque ninguém mostrou a conexão. Você usa álgebra toda hora em sua vida, mas as pessoas não refletem muito sobre isso. O professor que ensina Matemática tem que repassar os conceitos de matemática. Ensinar o conceito não significa ser autoritário. Autoritária é a postura que você assume em seu ensino: “Eu sou o professor e eu sei de tudo e você tem que buscar o conhecimento através de mim agora”. É isso, você pode ensinar-lhes as habilidades e, em seguida, dizer-lhes onde eles pode aplicá-las. A postura influencia muito o ambiente de aprendizagem.

No Brasil, temos alguns exemplos de professores que tentam fugir desse modelo autoritário. Eles fazem um monte de piadas, dançam no meio da sala de aula, e dizem que esta é a forma como eles podem promover a curiosidade do conteúdo em seus alunos. Como você enxerga essa técnica?

Eu acho que pode ser uma boa ferramenta, mas não deve ser usada toda hora, é preciso equilibrar. As pessoas usam diferentes métodos para manter os alunos envolvidos, isso depende do seu estilo, mas as pessoas às vezes acabam abusando do humor, e o que acontece é que alguns se distraem. Você pode brincar, mas tem que manter o que eu chamo de “3 Rs”.

O primeiro é o rigor: você tem que ser rigoroso. O segundo é que ele tem que ser relevante, tanto para o professor quanto para o aluno. E por fim, tem que existir uma relação entre o professor e os alunos. E o relacionamento tem que ser aquele em que os alunos olham para o professor como uma boa fonte de informação, de companheirismo. Essas são as três coisas que eu digo que tem que estar no lugar em qualquer sala de aula.

Alguns estudantes no Brasil se queixam de que os nossos conteúdos são engessados. É melhor para o aluno escolher o tema sobre o qual ele iria se concentrar para seu futuro profissional?

Você tem alunos que são como Mozart. Tudo o que fez foi ser bom no piano. O talento deles pode torná-los ricos, mas o que mais eles poderiam saber além? Como eles poderiam funcionar em um mundo sem conhecer a história, ou a ciência? Você vê o que eu estou dizendo? Se você não ensinar-lhes mais disciplinas, mais áreas, eles não podem sobreviver. Então, é preciso dar-lhes as ferramentas e é isso que é o importante. É que eles tenham as ferramentas para fazer mais.

Em seus trabalhos, você demonstra que o clima é um dos principais agentes influenciadores do aprendizado. Aqui no Brasil, começamos a ter a ocupação de comunidades que antes eram negligenciadas pelo poder público e viviam com altos índices de violência. Você acredita que com a pacificação, as escolas dessas regiões podem ter melhor rendimento acadêmico?

Isso é óbvio. Como uma criança poderia que se escondia na escola durante tiroteios poderia aprender alguma coisa? Se o ambiente ao redor da escola muda, dentro da escola também vai haver reflexos. E nesse caso, para o lado positivo. Pesquisas daqui já demonstram que as unidades dentro e UPPP tem melhorado nos índices escolares. É um efeito diretamente proporcional. Os casos de escolas em áreas de conflito é o exemplo extremo de como o clima influencia o aprendizado.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/educacao/modelo-de-escola-autoritario-diz-professor-da-universidade-de-columbia-11482918#ixzz2sI0dm2T6 © 1996 – 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.