Arquivo da tag: Visualidade

Apenas 6,2% dos municípios do País têm plano de prevenção de catástrofes (O Estado de São Paulo)

JC e-mail 4624, de 14 de Novembro de 2012.

Levantamento do IBGE revela que, apesar do aumento no número de tragédias nos últimos anos causadas por fatores externos, como chuvas e deslizamentos, plano de redução de riscos só foi adotado em metade das cidades maiores, com mais de 500 mil habitantes.

Até o ano passado, apenas 6,2% das 5.565 cidades brasileiras tinham plano de redução de riscos relacionados a desastres naturais, segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), divulgada ontem (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros 10% informaram estar elaborando esses planos em 2011.

O estudo mostra que a preocupação é mais comum em cidades mais populosas. Entre os municípios com mais de 500 mil habitantes, 52,6% tinham plano de redução de riscos. Na divisão regional, o Sudeste apresentou a maior proporção de cidades com planos (9,6%) e a Região Sul, a menor (4,4%).

“O fato de o Brasil não ter terremoto nem furacão acaba causando uma impressão de que somos um país agraciado pela natureza, colocando a prevenção em segundo plano. A preocupação em relação a eventos extremos ainda é um assunto recente, que não faz parte de muitas agendas”, diz Valcler Rangel, vice-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para a área de meio ambiente.

Segundo ele, o Centro de Estudos e Pesquisas em Desastres, vinculado à Fiocruz, mostra um crescimento das consequências provocadas por eventos extremos. “A tragédia que matou mais de 900 pessoas em 2011 na Região Serrana do Rio é suficiente para demonstrar que não estamos preparados. Além das casas destruídas, quase 80% das escolas e unidades de saúde estavam em áreas de risco, sinal da ocupação desordenada.”

Lançado pela presidente Dilma Rousseff em agosto, o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais prevê que cada prefeitura tenha o seu plano para evitar danos causados por enchentes ou deslizamentos de terra, entre outros eventos. No entanto, ainda não há uma obrigatoriedade. Os planos municipais devem ter informações sobre ocupações irregulares, diagnósticos de áreas de risco e estratégias para remoção, entre outras.

É a primeira vez que o IBGE levanta essas informações na Munic. Os pesquisadores também perguntaram aos prefeitos se, independentemente da realização dos planos, haviam feito programas ou ações de gerenciamento de riscos de deslizamento e recuperação ambiental de caráter preventivo. Apenas 32% declararam realizá-los. As prefeituras que informaram realizar ações desse tipo se concentraram principalmente em drenagem urbana.

Para o levantamento de 2013, a Munic deverá verificar se municípios que sofreram danos causados por desastres naturais fizeram algo para evitá-los. A pesquisa também mostra que a maioria das prefeituras (84,6%) informou ter executado, nos dois anos anteriores, algum tipo programa no setor de habitação. A ação mais realizada foi a construção de unidades habitacionais (65,6%), seguida pela melhoria de unidades (44,3%).

Bolsa-aluguel na Bahia – Apesar de sofrer com grandes enchentes – pelo menos uma por ano desde 2001 – e deslizamentos de terras, o município de Lauro de Freitas (BA), na região metropolitana de Salvador, não tem uma política formal de prevenção de riscos na área habitacional. Mas, segundo a prefeitura, não há moradores nas áreas de risco catalogadas pelo município neste ano.

“Por mais que a gente planejasse e fizesse obras de infraestrutura contra desastres naturais, elas não dariam vazão ao grande volume de água que chega à cidade”, diz a prefeita Moema Gramacho (PT), lembrando que o município é cortado por seis rios. “Priorizamos a retirada das famílias que moravam nas áreas de risco”, explica.

Segundo a prefeita, um levantamento de 2005 mostrou que cerca de 10 mil pessoas (6,7% dos habitantes) moravam em áreas de “alto risco” para enchentes e deslizamentos. O estudo levou a uma lei municipal que garante a moradores de áreas de risco, cadastrados em programas sociais, como o Bolsa-Família, o pagamento mensal de aluguel em imóveis seguros, por parte da prefeitura.

O valor oferecido pela administração, no chamado “bolsa-aluguel”, é de R$ 150 a R$ 200 por mês, até que a prefeitura conceda ao beneficiário um imóvel – ou que ele deixe de se enquadrar no perfil. “Chegamos a ter 1.800 beneficiados pelo bolsa-aluguel; hoje são cerca de 600”, diz a prefeita.

A grande mudança veio com o Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, e com programas similares da própria prefeitura e do governo da Bahia nos últimos anos. Pelos programas, foram contratadas cerca de sete mil unidades habitacionais para a cidade, das quais 3,7 mil foram entregues.

Nas áreas de risco desocupadas, os imóveis foram destruídos e estão sendo instalados parques, para desestimular invasões. “Monitoramos essas áreas com frequência”, diz a prefeita. Para Moema, o próximo passo é universalizar o sistema de saneamento básico. Hoje, apenas 9% dos imóveis contam com esgotamento sanitário.

Qualidade da água – Apenas 28% dos municípios brasileiros têm política de saneamento básico, quase metade (47,8%) não fiscaliza a qualidade da água fornecida à população e apenas um terço (32,3%) tem programa de coleta seletiva de lixo em atividade. É o que revela a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) divulgada pelo IBGE. Em 2011, pela primeira vez foi abordada a questão do saneamento.

Cruzamento de dados com a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), de 2008, indica que não houve avanço significativo no período. Na Munic, as informações são levantadas com as prefeituras.

“Os municípios ainda não estão estruturados com ênfase para a questão do saneamento. Em relação à PNSB 2008, os dados são parecidos. Poderia ter havido um movimento melhor, por exemplo, na questão da coleta seletiva”, diz Daniela Santos Barreto, pesquisadora da coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

A Região Sul possuía a maior proporção de municípios com programas, projetos ou ações de coleta seletiva em atividade (55,8%), seguida pelo Sudeste, com 41,5%. Norte e Nordeste apresentaram as maiores proporções de municípios sem programas: 62,8% e 62,3%. Em Roraima, nenhum município tinha coleta seletiva em 2011.

A Munic também mostra que apenas um terço dos municípios brasileiros tinha estrutura única para cuidar do saneamento em 2011, apesar de o Plano Nacional de Saneamento Básico prever que todos deveriam ter. Além disso, 60% não realizavam nenhum acompanhamento das licenças relativas ao abastecimento de água, esgotamento sanitário e drenagem. De acordo com a pesquisa, as políticas de saneamento são fragmentadas. “Em relação à lei de saneamento, ainda é preciso uma sensibilização dos municípios, para que cumpram suas responsabilidades de fiscalizar e normatizar a execução de serviços”, acrescenta Daniela.

No caso da falta de órgão responsável pela fiscalização da qualidade da água, o índice chega a 58% dos municípios no Nordeste. O IBGE mostra que 30,7% das prefeituras tinham conhecimento da existência de cooperativas ou associações de catadores de materiais recicláveis, mas apenas 14,8% haviam realizado alguma parceria com esses trabalhadores.

Roraima expõe falta de política de lixo – Roraima é o melhor exemplo do descaso com tratamento de lixo no País. Nenhum dos 15 municípios do Estado tem programa de coleta seletiva. Apenas a capital, Boa Vista, dispõe de um aterro sanitário. Nos demais municípios, o lixo domiciliar e hospitalar é despejado em lixões a céu aberto.

No contrato que a prefeitura de Boa Vista mantém com a empresa Soma, por exemplo, há previsão de coleta seletiva, mas não há dinheiro para implementar a medida, informa o responsável pelo serviço de limpeza, Éder Jonas Coelho. A prefeitura paga R$ 900 mil pelo recolhimento do lixo e manutenção do aterro sanitário. “Com a coleta seletiva, o preço seria dobrado”, diz.

A coleta d elixo na capital foi prejudicada depois que o contrato com a Soma sofreu redução de 25%, por causa da queda nos valores do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Em muitas ruas da cidade a cena é de lixo acumulado nas calçadas.

Cultural Dimensions of Climate Change Are Underestimated, Overlooked and Misunderstood (Science Daily)

ScienceDaily (Nov. 11, 2012) — The impact of climate change on many aspects of cultural life for people all over the world is not being sufficiently accounted for by scientists and policy-makers. University of Exeter-led research by an international team, published on 11th November in Nature Climate Change, shows that cultural factors are key to making climate change real to people and to motivating their responses.

From enjoying beaches or winter sports and visiting iconic natural spaces to using traditional methods of agriculture and construction in our daily lives, the research highlights the cultural experiences that bind our communities and are under threat as a result of climate change. The paper argues that governments’ programmes for dealing with the consequences of climate change do not give enough consideration to what really matters to individuals and communities.

Culture binds people together and helps them overcome threats to their environments and livelihoods. Some are already experiencing such threats and profound changes to their lives. For example, the Polynesian Island of Niue, which experiences cyclones, has a population of 1,500 with four times as many Niueans now living in New Zealand. The research shows that most people remaining on the island resist migrating because of a strong attachment to the island. There is strong evidence to suggest that it is important for people’s emotional well-being to have control over whether and where they move. The researchers argue that these psychological factors have not been addressed.

Lead researcher Professor Neil Adger of the University of Exeter said: “Governments have not yet addressed the cultural losses we are all facing as a result of global climate change and this could have catastrophic consequences. If the cultural dimensions of climate change continue to be ignored, it is likely that responses will fail to be effective because they simply do not connect with what matters to individuals and communities. It is vital that the cultural impact of climate change is considered, alongside plans to adapt our physical spaces to the changing environment.”

Professor Katrina Brown from the University of Exeter’s Environment and Sustainability Institute adds: “The evidence is clear; when people experience the impacts of climate change in places that matter to them, the problems become real and they are motivated to make their futures more sustainable. This is as true in coastal Cornwall as in Pacific Islands.”

Journal Reference:

  1. W. Neil Adger, Jon Barnett, Katrina Brown, Nadine Marshall, Karen O’Brien. Cultural dimensions of climate change impacts and adaptationNature Climate Change, 2012; DOI: 10.1038/nclimate1666

Pesquisa Datafolha/Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre a “integração” dos índios ao “modo de vida urbano”; Folha de S.Paulo e Veja + Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

[A Folha se alinha com a Veja; não está claro se por má fé, interesse comercial, ou obtusidade. RT]

10/11/2012 – 04h00

MATHEUS LEITÃO

DE BRASÍLIA

Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles.

Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular.

Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados.

Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.

De todo modo, os números ainda estão longe dos percentuais de acesso a bens de consumo da média da população. No Brasil como um todo, segundo o IBGE, 98% têm televisão; 82%, aparelho de DVD; e 79% têm celular.

A pesquisa teve ainda o intuito de avaliar as condições de vida dos indígenas.

Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde.

A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%).

Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids.

A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Algumas características das aldeias: 69% têm postos de saúde; 88%, escolas; 59%, igrejas; 19%, mercados; e 6%, farmácias.

Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

Dois terços dos indígenas recebem do Bolsa Família
Guaranis-caiovás reclamam da falta de recursos para plantar

*   *   *

Pois é… as reservas indígenas brasileiras ocupam 13% do território nacional. Se depender da Funai e de alguns antropólogos do miolo mole, chega-se a 20%. A questão não está no número em si. Poder-se-ia destinar até 50% — desde que houvesse índios para tanto e que eles conseguissem tirar das imensas extensões de terra que dominam ao menos o suficiente para a sua subsistência. Mas não acontece. Não é só isso: as reservas são concedidas na suposição — falsa como nota de R$ 3 — de que aqueles enormes vazios econômicos em torno da comunidade são essenciais para que ela preserve sua cultura. Procurem na Internet a poesia indianista em prosa do ministro Ayres Britto, relator do caso Raposa Serra do Sol. Ele apelou a um índio que acabou junto com a literatura romântica. Ainda volto a esse aspecto.

Muito bem: pesquisa Datafolha demonstra que a maioria dos índios brasileiros está integrada às práticas próprias da vida urbana. Uma boa parcela conta com televisão, DVD, geladeira, celular… Esse aparato, não obstante, convive com a pobreza, razão por que quase a metade recebe cesta básica. Isso quer dizer que eles nem plantam nem caçam o que comem: vivem da caridade estatal — e em condições precárias.

As reservas são santuários para lustrar as aspirações de certa antropologia mistificadora, que ainda quer mais. Leiam o que informa Matheus Leitão naFolha. Volto depois:
*
Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles. Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.

Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular. Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados. Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.
(…)
Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde. A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%). Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids. A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Bolsa família e cesta básica
A pesquisa sobre o perfil indígena feita pelo Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela que 64% dos índios são beneficiários do Programa Bolsa Família, recebendo em média R$ 153 por mês. A região Nordeste é a campeã do benefício: 76% dos índios recebem o programa social do governo. O Sul aparece em segundo com 71%; seguido do Centro-Oeste (63%), Norte (56%) e Sudeste (52%).

Mesmo com os benefícios, 36% afirmam ser insuficiente a quantidade de comida que consomem. A maioria dos índios (76%) bebe água que não é filtrada nem fervida. As doenças infectocontagiosas atingem 68% e os problemas estomacais, como diarreia e vômito, 45%. Os índios também afirmam que luz elétrica, água encanada, rede de esgoto e casa de alvenaria são muito importantes para eles.

Mais de 70% dos índios ouvidos atribuem muita relevância à atuação da Funai (Fundação Nacional do Índio) na sua aldeia. No entanto, 39% reprovam o desempenho do órgão, avaliando-o como ruim ou péssimo.

Cesta básica
Quase metade dos entrevistados (46%) relatou receber cesta básica da Funai ou da Funasa (Fundação Nacional da Saúde). Os índios da região Nordeste são os que mais recebem o benefício: 79%. Na região Norte apenas 7% ganham a cesta básica.

O acesso ao atendimento médico é considerado difícil por 63% dos índios; 69% deles foram atendidos em postos de saúde dentro da aldeia e 12% dentro de casa. Eles ainda usam mais os remédios naturais (66%) do que os farmacêuticos (34%). A maioria dos índios (66%) sabe ler, e 65% sabem escrever na língua portuguesa. Segundo a pesquisa, 30% exercem trabalho remunerado, mas somente 7% têm carteira assinada.

A agricultura é exercida por 94%, e 85% praticam a caça; 57% deles consideram que o tamanho das terras onde vivem é menor do que o necessário. Os índios também citaram algumas medidas governamentais que poderiam melhorar a vida dos indígenas no país: intervenções na área da saúde (25%), demarcação de terras (17%), reconhecimento dos direitos indígenas (16%), investimentos públicos (15%) e educação (15%).

Procurada anteontem, a Funai afirmou, pela assessoria de imprensa, que tinha muitas demandas e que não poderia responder às questões da reportagem até o encerramento desta edição. “A presidente [Marta Azevedo] está em viagem, sem disponibilidade de agenda. Ela seria a pessoa mais indicada para comentar a pesquisa”, afirmou, por e-mail.
(…)

Voltei
Viram só o que o modelo das reservas, que está em expansão (?!), provoca? Uma horda de miseráveis com celular, televisão e DVD. Prega-se a expansão das terras indígenas para que se produza ainda menos em um território maior… Com Raposa Serra do Sol, aconteceu o óbvio: os arrozeiros tiveram de ir embora, deixando atrás de si uma legião de desempregados. Na terra agora sob o controle de caciques ideológicos disfarçados de militantes indígenas, não se produz quase mais nada. Muitos dos índios foram viver como favelados em Boa Vista. A razão é simples: ser indígena não quer dizer ser… índio!

Leiam este trecho do voto de Ayres Britto (em vermelho):
(…) III – ter a chance de demonstrar que o seu tradicional habitat ora selvático ora em lavrados ou campos gerais é formador de um patrimônio imaterial que lhes dá uma consciência nativa de mundo e de vida que é de ser aproveitada como um componente da mais atualizada ideia de desenvolvimento,  que é o desenvolvimento como um crescer humanizado. Se se prefere, o desenvolvimento não só enquanto categoria econômica ou material, servida pelos mais avançados padrões de ciência, tecnologia e organização racional do trabalho e da produção, como  também permeado de valores que são a resultante de uma estrutura de personalidade ou modo pessoal indígena de ser mais obsequioso: a) da ideia de propriedade como um bem mais coletivo que individual; b) do não-enriquecimento pessoal à custa do empobrecimento alheio (inestimável componente ético de que a vida social brasileira tanto carece); c) de uma vida pessoal e familiar com simplicidade ou sem ostentação material e completamente avessa ao desvario consumista dos grandes centros urbanos; d) de um tipo não-predatoriamente competitivo de ocupação de espaços de trabalho, de sorte a desaguar na convergência de ações do mais coletivizado proveito e de uma vida social sem narsísicos desequilíbrios; e) da maximização de potencialidades sensórias que passam a responder pelo conhecimento direto das coisas presentes e pela premonição daquelas que a natureza ainda mantém em estado de germinação; f)de uma postura como que religiosa de respeito, agradecimento e louvor ao meio ambiente de que se retira o próprio sustento material e demais condições de sobrevivência telúrica, a significar a mais fina sintonia com a nossa monumental biodiversidade e mantença de um tipo de equilíbrio ecológico que hoje a Constituição brasileira rotula como “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” (art. 225,  caput), além de condição para todo desenvolvimento que mereça o qualificativo de sustentado.

Encerro
Esse índio acima descrito só existe na cabeça de Ayres Britto, como aqui falei tantas vezes. A tal integração “telúrica” com a natureza é uma fantasia. O desenvolvimento “sustentado” se faz com Bolsa Família e cesta básica — cedidas por nossa civilização tão egoísta…

Britto transformou os índios em grandes ecologistas, o que é uma piada até antropológica! Existissem realmente aos milhões, a Amazônia já seria uma savana. O ministro tem de descobrir que a ideia de preservação da natureza é um valor desta nossa triste civilização. Não tem nada a ver com índio, que não louva o meio ambiente nem retira da terra o sustento.

Com as terras de que dispõem, os índios poderiam estar é produzindo comida para os seus e para muitos outros brasileiros. Em vez disso, estão na fila do Bolsa Família e da cesta básica.

Por Reinaldo Azevedo

 

O que realmente querem os índios e o que alguns antropólogos querem que eles queiram…

11/11/2012

Já publiquei ontem um texto sobre a pesquisa Datafolha com índios brasileiros, encomendada pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). A VEJA desta semana traz novos e impressionantes números. Mas, afinal, o que querem os índios, leitor amigo? Ora, o que queremos todos nós: bem-estar. Ocorre que uma boa parcela deles, sob a tutela da Funai e da antropologia do miolo mole, vive muito mal, dependente da caridade do estado.

Nada menos de 13% do território brasileiro são destinados a reservas indígenas. E se reivindica ainda mais terra — uma reivindicação de antropólogos, não dos índios propriamente, que têm outras necessidades e outras ambições.

Reproduzo abaixo trecho do texto de Leonardo Coutinho publicado na revista, entremeado com alguns dados da pesquisa.
*
Uma das principais reclamações dos índios é a de não serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar atenção para suas reivindicações. Na maioria das vezes, a sociedade brasileira só fica sabendo de suas demandas por meio de intermediários — padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indígenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pôs fim a essa lacuna. É o mais completo levantamento das opiniões dos índios brasileiros já realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regiões do país e entrevistaram 1222 índios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta, maior, proporcionalmente, do que a que costuma ser usada nas sondagens eleitorais.

As respostas revelam que os índios têm aspirações semelhantes às da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que é apresentado pelos intermediários da causa indígena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupações cotidianas dos entrevistados. “A pesquisa libertará os índios da sua falsa imagem de anacronismo”, diz a presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD/TO).

Nove em cada dez índios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria. Quase metade dos indígenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de índios donos de automóveis e seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. “Ninguém deixa de ser índio por querer viver bem. É inaceitável que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em consideração a nossa vontade”, diz Antônio Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurinã, por causa da falta de condições adequadas nas áreas demarcadas, muitas aldeias passam por um êxodo sem precedentes.

Há quatro anos, 12 500 índios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30.000 vivam apinhados em construções precárias na cidade. Se a criação de reservas é alardeada como a demanda mais urgente dos povos indígenas, por que eles as estão abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os índios. O problema mais citado é a precariedade dos serviços de saúde. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacêuticos (que eles valorizam tanto quanto os remédios tradicionais) e de médicos. Em segundo lugar, está a falta de emprego. “Nós não vivemos mais como nos meus tempos de infância. A nova geração compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo o que os filhos do homem branco têm. Falar português, ir para a universidades e ser reconhecidos como brasileiros e índios”, diz o cacique Megaron Txucarramãe, um dos mais respeitados líderes caiapós, de Mato Grosso.
(…)


Por Reinaldo Azevedo

*   *   *

Carta do antrópologo Henyo Barretto à Ombudsman da Folha de SP

Por , 12/11/2012 19:29

Prezada Srª,

Lamentável e, porque não dizer, medíocre a matéria de Matheus Leitão que apresenta a “pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil” sobre “o perfil indígena brasileiro”, publicada hoje [ontem] na Folha de São Paulo – “um jornal a serviço do Brasil”. A rigor não sei se os predicados se aplicam a matéria, ou a “pesquisa” que ela se propõe a descrever/relatar.

A começar pelo objeto/objetivo da enquete (palavra mais adequada para definir o que o Datafolha faz, pois “pesquisa” com dados agregados gerais sobre povos indígenas é uma outra coisa): o que é “o perfil indígena brasileiro”? A julgar pela matéria sobre a enquete – que não sei se é parâmetro (ou não) para emitir um juízo sobre a mesma (mas vamos em frente) – referido perfil corresponde ao processamento de respostas a um conjunto de
perguntas pretensamente factuais e opinativas sobre o acesso a bens, serviços e políticas públicas. Isso é suficiente para definir “um perfil” – indígena ou não? Ou, perguntando de outro modo, é assim que se define “um perfil” – indígena ou não? O meu perfil, o seu, o nosso?

O primeiro parágrafo da descrição da metodologia – os “critérios” – seria patético, se não fosse trágico – dadas as consequências potencialmente nefastas da conclusão a que chegou a enquete (chegarei a esta já, já). Diz-se que o sorteio das aldeias teria “lev[ado] em conta a região em que se localizam e o tamanho da população indígena residente”, mas não se explicita como: Quantas e quais regiões? Considerou-se o que na definição destas? São as áreas etnográficas da América do Sul (Melatti), as regiões das Coordenações Regionais da FUNAI, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, os Territórios Etnoeducacionais? Quais os distintos agregados demográficos considerados? Enfim, sem explicitar nada disso, a matéria (Ou seria a enquete? Ou seria a matéria como análise conclusiva dos dados  produzidos pela enquete?) afirma que: “os dados são representativos dos índios brasileiros” e “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano”.

Ademais, ao indicar que “somente a população indígena brasileira que fala português” foi entrevistada, revela-se o completo descaso com a política linguística da enquete – aspecto fundamental em qualquer pesquisa com povos indígenas que almeje o predicado de “digna.” Quaisquer categorias nativas porventura existentes, que nos dariam os matizes como cada cultura interpreta a pergunta, processa o seu enunciado e a responde, foram – dada essa opção – solenemente ignoradas. Isso patenteia a abordagem geral etnocêntrica e colonial da enquete.

Sem entrar no mérito da imprecisão do termo “índios brasileiros” (com a teoria política e cultural e os preconceitos sobre os povos indígenas que lhe são subjacentes) e nem esperando – embora devesse esperar – que a FSP dialogasse com a vasta literatura antropológica e sociológica sobre: (i) mudança cultural (em especial a distinção entre “integração” e “assimilação”), parte da qual, inclusive, enfoca etnograficamente a situação de índios citadinos (veja-se, por exemplo, Urbanização e Tribalismo de Roberto Cardoso de Oliveira); e (ii) as redes de relação e os fluxos rural/urbano, aldeia/cidade, Terra Indígena/município; é espantosa a afirmação conclusiva, que, ao contrário do que supõem o autor da matéria e/ou o ideólogo da enquete, deveria ser não o ponto de chegada: “os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano” – mas, sim, o ponto de partida para uma reflexão sobre as distintas e variadas condições em que os diversos povos indígenas se situam no Brasil de hoje. Diversidade e multiplicidade essa que a enquete anula em prol de um “perfil indígena” genericamente definido, que desconsidera aquilo que deveria ser o seu ponto de partida: a diversidade de modos de viver e existir que marcam o Brasil de hoje – seja em sua face indígena, seja em qualquer outra.

Não é necessário ter uma formação em Ciências Sociais muito sólida para ler a enquete naquilo que ela não diz, nas suas entrelinhas, nos objetivos e interesses que ela dissimula – na condição de encomenda da CNA ao Grupo Folha. Embora a enquete sinalize que 94% das pessoas entrevistadas exerçam a agricultura, e que a situação territorial figure em segundo lugar entre os principais problemas enfrentados pelos entrevistados – “tecnicamente empatado” [sic] com “as dificuldades de acesso à saúde”, em primeiro lugar; a conclusão telegráfica da enquete (ou seria da matéria, já não sei mais) conspira em favor da manutenção de um dos mais perniciosos preconceitos que pesam sobre os povos indígenas: que estes seriam seres de um passado remoto (e não povos que coabitam e coexistem conosco contemporaneamente, em sua multiplicidade de jeitos de viver) e que a sua “modernização” e/ou “urbanização” seria como que uma patologia a conspirar contra a sua autenticidade (e não uma das várias dimensões das constantes transformações a que seus múltiplos jeitos de viver estão submetidos) – razão pela qual, concluir-se-ia o raciocínio, não deveriam ser objeto de nenhum regime de atenção e/ou proteção especial.

Eis o alvo que mira a enquete-matéria como dispositivo de formação de opinião: as questões territoriais são secundárias para os povos indígenas, já que têm também outras preocupações e aspirações, e se beneficiam de programas governamentais de transferência de renda, razão pela qual a terra deveria ser eliminada da equação dos povos indígenas no futuro do país. Ao contrário, a terra constitui um problema para a expansão do chamado “setor produtivo” agrário nacional, representado pela instituição que encomendou a – isto é, pagou pela – enquete, motivo suficiente para que esses povos não muito outros tenham suas relações com seus territórios desenraizadas em benefício daquela expansão.

A que “Brasil”, de fato, esse jornal está “a serviço”?

Cordialmente,

Henyo T. Barretto Fº

Os Guarani Kaiowá e as perversidades do senso comum (dos “brancos”) (Canal Ibase)

Renzo Taddei – 09/11/2012

Canal Ibase

Nas últimas semanas recebi uma quantidade impressionante de solicitações, via redes sociais e e-mail, para manifestar meu apoio à causa dos Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Não me lembro, em minha experiência com redes sociais, de ter visto mobilização desse porte. Há pouco mais de uma semana, saiu decisão judicial a favor dos indígenas – ou, para colocar em termos mais precisos, revogando a reintegração de posse da área onde estão. Como atentou gente mais próxima ao movimento indígena, isso por si só não garante quase nada, apenas que violências maiores não sejam cometidas no curto prazo. De qualquer forma, não tive muito tempo para me alegrar com o que parecia uma vitória do potencial de mobilização descentralizada da sociedade civil: ao comentar a questão com um amigo, no Rio de Janeiro, recebi como resposta a pergunta, maliciosamente feita de forma a combinar ironia e seriedade em proporções iguais: “mas, afinal, para que servem os índios?” Desconcertado, não consegui articular nada, apenas retruquei: “não sei; mas e você, pra que serve?”

Não pude deixar de pensar no assunto nos dias que se seguiram. Mas, no caso, o assunto deixou de ser exatamente a situação dos Guarani Kaiowá, ou das especificidades de conflitos entre índios e não-índios, e passou a ser a situação de certa configuração de ideias do senso comum da população urbana – ou pelo menos das coletividades nas quais me insiro, no Rio de Janeiro e em São Paulo – sobre os índios, em primeira instância, e sobre aqueles que são irredutivelmente diferentes, em última. Obviamente esse é assunto complexo, e vou me limitar a apenas pontuar alguns temas que, creio, são importantes para iluminar o contexto no qual notícias sobre os conflitos envolvendo indígenas ganham significados, para a grande parcela da população brasileira que inevitavelmente participa disso tudo na posição de meros espectadores.

Sobre a natureza dos índios e não-índios

Certa vez, em uma aula de antropologia, na Escola de Comunicação da UFRJ, usei um exemplo hipotético de jovem índio que vinha à universidade estudar medicina. “Aí ele deixa de ser índio”, alguém disse. Na discussão que se seguiu, a opinião prevalecente era de que as expressões “índio urbano” e “índio médico”, usadas por mim, eram contradições em termos. Eu perguntei, então, se o fato de eu ser descendente de italianos, o que me dá, segundo a legislação italiana, o direito de “virar italiano”, faz com que eu deixe de ser alguma coisa – brasileiro, por exemplo. Confusão nas fisionomias. Por que eu posso virar italiano sem deixar de ser brasileiro, e ninguém vê problema nisso, e o índio não pode “virar” urbano sem deixar de ser índio? Concluímos – com vários autores estudiosos das populações indígenas – que, sem que as pessoas se deem conta, nós, urbanos, ocidentalóides, nos entendemos na maior parte do tempo como seres “culturais”, tendo algum controle sobre nossas identidades, portanto; enquanto isso, percebemos a essência indígena (se é que isso existe) como algo “natural”, sobre a qual eles não têm, nem podem ter, controle algum.

Nada mais natural, então, que pensar que lugar de índio é na floresta, e que índio tem que ser preservado, como se fosse parte da biodiversidade. Ou então índio deixa de ser índio e vira não-índio, arranja emprego, compra casa, toca a vida na cidade – se desnaturaliza. O problema é o índio que quer morar na cidade, ser médico, talvez, sem abandonar suas formas indígenas de entender o mundo e vida. Ou o índio que quer câmeras fotográficas, antibióticos, televisores, antenas parabólicas e escolas, mas não quer abrir mão da sua forma não-ocidental, e portanto não capitalista, de entender sua relação com a terra, por exemplo. Ou não quer abrir mão de sua forma não-ocidental, e portanto não marcada por um reducionismo materialista esvaziado e irresponsável, de relação com câmeras fotográficas, antibióticos, televisores, antenas parabólicas e escolas (é parte do senso comum que o que essas coisas são para mim são também para todos que delas fazem uso, o que não é verdade sequer para gente do mesmo grupo social). A questão se apresenta de forma pervasiva até entre gente politicamente progressista: na Cúpula dos Povos da Rio+20, uma grande amiga, ativista, me confidenciou ter ficado espantada ao ouvir de lideranças indígenas que eles gostariam de ter energia elétrica, saneamento, escolas. Eram afirmações que contrariavam suas expectativas “romanceadas”, nas suas próprias palavras, a respeito dos índios.

Por que é tão difícil aceitar a ideia de que quando o índio diz querer escola, ele não está fazendo nenhuma declaração sobre a sua identidade? Porque, dentre muitas outras coisas, identidade é paranoia de não-índio, mas não (necessariamente) paranoia de índio. Aqui começamos a chegar a algum lugar: é muito incômodo conviver com alguém que não compartilha nossas paranoias.

Uma das decorrências perversas desse estado de coisas é a forma como somos levados a ver os índios como pessoas “incompletas”, como sendo “menos” que os não-índios. Não é à toa que, juridicamente, os índios foram ao longo do século 20, até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças, ou seja, como seres incapazes e que demandavam tratamento jurídico diferenciado, justamente em função dessa incapacidade. O problema estava (e está) nos códigos jurídicos, fechados à possibilidade do direito à diferença, e não nos índios, que não são mais nem menos capazes que os não-índios, mas apenas diferentes em suas capacidades. A mudança constitucional de 1988, como a própria questão dos Guarani Kaiowá demostra, ocorreu infelizmente muito mais de juris do que de fato.

Foto: Rosa Gauditano

Os muitos significados do verbo servir

Mas voltemos à questão sobre a “serventia” dos índios. O tema apareceu novamente em reportagem da revista Veja, edição de 4 de novembro. Replicando argumentos usados em edições anteriores ao tratar do tema, o texto (que de jornalístico não tem quase nada) mescla desinformação e preconceito, ao fazer uso, por exemplo, de argumentos como a suposta “trágica situação [dos índios] de silvícolas em um mundo tecnológico e industrial”, de afirmações como “[a] Funai também apoia o expansionismo selvagem”, e de acusações descabidas, como a de que os antropólogos ligados ao Conselho Indigenista Missionário querem transformar o sul do Mato Grosso do Sul numa “grande nação guarani”, justamente na “zona mais produtiva do agronegócio” do estado. Em 2010, a revista havia afirmado, através de um malabarismo estatístico de quinta categoria (digno de envergonhar até ruralistas medianamente sofisticados), que 90% do território brasileiro é ocupado ou destinado a áreas de preservação ambiental, comunidades indígenas, quilombolas e áreas de reforma agrária; “a agricultura e demais atividades econômicas terão apenas 8% de área para se desenvolver”. Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala – no caso, os índios e todos os demais grupos de alguma forma ligados a usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.

Essa é uma questão, me parece, fundamental: é preciso discutir o conceito de serventia. Como a ideia de “servir” participa em nossas vidas, e na forma como aprendemos a entender e viver o mundo? Se a serventia dos que (supostamente) não estão integrados ao projeto da nação é um tema relevante – tanto ao pseudo-jornalismo da Veja como a certo senso comum urbano -, e nós, não-índios, (supostamente) integrados, afinal, servimos pra quê? E como isso afeta nossa compreensão das questões indígenas no Brasil contemporâneo, e mais especialmente o caso dos Guarani Kaiowá? Na minha opinião, isso tudo serve de pano de fundo contra o qual as audiências urbanas, dos grandes canais de mídia, distantes do Mato Grosso do Sul, atribuem sentido às notícias.

O caso dos Guarani Kaiowá traz à luz um elemento da vida cotidiana brasileira que é feito estrategicamente invisível na forma como somos ensinados a entender o mundo. Eles não querem ser “como nós”; tenho a impressão de que para a maioria da população urbana isso não apenas é contra intuitivo, mas figura como um choque, quase como uma afronta. Se eles gostam de fotografia, eletricidade, escolas e antibióticos, qual o problema, então?

Há uma diferença fundamental entre a experiência de mundo dos índios e dos não-índios brasileiros, e isso está ligado ao “lugar” onde se encontram as coisas verdadeiramente importantes. De acordo com trabalhos antropológicos que descrevem as visões de mundo e formas de vida de várias etnias indígenas sul-americanas, uma das características marcantes da vida indígena (para quem não é índio, obviamente), é a proximidade existencial das pessoas com os níveis mais altos da existência política e religiosa das suas sociedades. O poder político, em geral, não é algo que se manifeste em forma de hierarquias verticais, da forma como as entendemos, e provavelmente está ocupado por alguém com quem as pessoas da tribo tem relação pessoal direta, muitas vezes de parentesco. O mesmo se dá no que diz respeito à existência espiritual: está tudo logo ali, divindades, antepassados, espíritos, mediados pelas práticas do xamã, que também é conhecido de todos (ainda que, igualmente, talvez temido por todos). Há a percepção de que as coisas do mundo, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, são intrinsecamente ligadas à existência das pessoas da comunidade – os antropólogos chamam isso de relação de imanência.

O que é que a “integração” ao Brasil oferece, em contrapartida? Fundamentalmente, o deslocamento do centro de gravidade da existência para algum outro lugar, mais distante, abstrato, de difícil compreensão. Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo. Ou seja, resistem ao processo que os faz marginais. A marginalização, tomando a expressão de forma conceitual (ou seja, fazendo referência a quem está nas margens, nas bordas ou periferia), pode se dar deslocando-se alguém para a periferia do mundo, ou deslocando o centro de lugar, de modo que quem era central passa a ser periférico, e, portanto, marginal. De certa forma é exatamente isso que o Brasil oferece aos indígenas. Mas quem é que quer ser marginal?

O que a imensa maioria de nós, urbanitas ocidentalóides, não percebemos é que é isso, exatamente, que o Estado faz conosco. Assistimos à política e às outras formas de organização do nosso mundo – justiça, administração pública, economia – na qualidade de espectadores. Irritados, confusos, insatisfeitos, mas quintessencialmente espectadores. Somos mais capazes de interagir com um reality show do que com o mundo da política. Desde pequenos somos ensinados – e as políticas educacionais e conteúdos programáticos são desenhados cuidadosamente para tanto – que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz. Ou seja, para que possamos não pensar em nada que não seja nos mantermos vivos e sermos economicamente ativos – e assim contribuir com o “projeto da nação”. Ou seja, o Estado reduz nossa vida ao mínimo – pão e circo, bolsa família e telenovela – para que as coisas funcionem e efetivamente aconteçam em algum outro lugar. Somos espectros de cidadãos.

Ou seja, a pergunta sobre para que servem as pessoas deve ser recolocada em outros termos: do que é que cada um de nós abre mão para “participar” do Brasil? Nós servimos para servir ao Estado. Somos todos marginais, e não nos damos conta disso.

O escândalo da questão indígena é a resistência que eles têm em aceitar os nossos mitos, ou as nossas ilusões – sobre o Brasil, por exemplo. Acostumados à experiência da autodeterminação, eles talvez tenham uma visão do que é o Brasil, como “projeto de nação”, que em muitos sentidos pode ser mais realista do que a de todos nós.

O Estado brasileiro só vai ser capaz de avançar na questão dos conflitos indígenas quando parar de tratar o tema da autodeterminação como anátema. E só o fará quando deixar de ter na tutela dos seus súditos sua razão de ser – ou seja, quando as elites políticas abandonarem a visão que tem de que o Brasil é fundamentalmente habitado por gente desqualificada, intelectualmente e moralmente inferior, e mal intencionada, e que demanda, portanto, o esforço do Estado para corrigir desvios e induzir a massa ao caminho produtivo. O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.

E se um bocado de gente decide – muito arrazoadamente, por sinal – que a economianão deve mais crescer? Isso, dirão muitos, é obviamente um atentado à soberania nacional. Ou não? É, antes que tudo, e talvez apenas, um atentado à soberania do soberano. Pelo menos da tecnocrática soberana da ocasião.

Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. Como forma de materializar nosso apreço pela liberdade e pelo direito à diferença. Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos.

Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.

It’s Global Warming, Stupid (Bloomberg)

By  on November 01, 2012

http://www.businessweek.com/articles/2012-11-01/its-global-warming-stupid

Yes, yes, it’s unsophisticated to blame any given storm on climate change. Men and women in white lab coats tell us—and they’re right—that many factors contribute to each severe weather episode. Climate deniers exploit scientific complexity to avoid any discussion at all.

Clarity, however, is not beyond reach. Hurricane Sandy demands it: At least 40 U.S. deaths. Economic losses expected to climb as high as $50 billion. Eight million homes without power. Hundreds of thousands of people evacuated. More than 15,000 flights grounded. Factories, stores, and hospitals shut. Lower Manhattan dark, silent, and underwater.

An unscientific survey of the social networking literature on Sandy reveals an illuminating tweet (you read that correctly) from Jonathan Foley, director of the Institute on the Environment at the University of Minnesota. On Oct. 29, Foley thumbed thusly: “Would this kind of storm happen without climate change? Yes. Fueled by many factors. Is storm stronger because of climate change? Yes.” Eric Pooley, senior vice president of the Environmental Defense Fund (and former deputy editor of Bloomberg Businessweek), offers a baseball analogy: “We can’t say that steroids caused any one home run by Barry Bonds, but steroids sure helped him hit more and hit them farther. Now we have weather on steroids.”

In an Oct. 30 blog post, Mark Fischetti of Scientific American took a spin through Ph.D.-land and found more and more credentialed experts willing to shrug off the climate caveats. The broadening consensus: “Climate change amps up other basic factors that contribute to big storms. For example, the oceans have warmed, providing more energy for storms. And the Earth’s atmosphere has warmed, so it retains more moisture, which is drawn into storms and is then dumped on us.” Even those of us who are science-phobic can get the gist of that.

Sandy featured a scary extra twist implicating climate change. An Atlantic hurricane moving up the East Coast crashed into cold air dipping south from Canada. The collision supercharged the storm’s energy level and extended its geographical reach. Pushing that cold air south was an atmospheric pattern, known as a blocking high, above the Arctic Ocean. Climate scientists Charles Greene and Bruce Monger of Cornell University, writing earlier this year in Oceanography, provided evidence that Arctic icemelts linked to global warming contribute to the very atmospheric pattern that sent the frigid burst down across Canada and the eastern U.S.

If all that doesn’t impress, forget the scientists ostensibly devoted to advancing knowledge and saving lives. Listen instead to corporate insurers committed to compiling statistics for profit.

On Oct. 17 the giant German reinsurance company Munich Re issued a prescient report titled Severe Weather in North America. Globally, the rate of extreme weather events is rising, and “nowhere in the world is the rising number of natural catastrophes more evident than in North America.” From 1980 through 2011, weather disasters caused losses totaling $1.06 trillion. Munich Re found “a nearly quintupled number of weather-related loss events in North America for the past three decades.” By contrast, there was “an increase factor of 4 in Asia, 2.5 in Africa, 2 in Europe, and 1.5 in South America.” Human-caused climate change “is believed to contribute to this trend,” the report said, “though it influences various perils in different ways.”

Global warming “particularly affects formation of heat waves, droughts, intense precipitation events, and in the long run most probably also tropical cyclone intensity,” Munich Re said. This July was the hottest month recorded in the U.S. since record-keeping began in 1895, according to the National Oceanic and Atmospheric Administration. The U.S. Drought Monitor reported that two-thirds of the continental U.S. suffered drought conditions this summer.

Granted, Munich Re wants to sell more reinsurance (backup policies purchased by other insurance companies), so maybe it has a selfish reason to stir anxiety. But it has no obvious motive for fingering global warming vs. other causes. “If the first effects of climate change are already perceptible,” said Peter Hoppe, the company’s chief of geo-risks research, “all alerts and measures against it have become even more pressing.”

Which raises the question of what alerts and measures to undertake. In his book The Conundrum, David Owen, a staff writer at theNew Yorker, contends that as long as the West places high and unquestioning value on economic growth and consumer gratification—with China and the rest of the developing world right behind—we will continue to burn the fossil fuels whose emissions trap heat in the atmosphere. Fast trains, hybrid cars, compact fluorescent light bulbs, carbon offsets—they’re just not enough, Owen writes.

Yet even he would surely agree that the only responsible first step is to put climate change back on the table for discussion. The issue was MIA during the presidential debates and, regardless of who wins on Nov. 6, is unlikely to appear on the near-term congressional calendar. After Sandy, that seems insane.

Mitt Romney has gone from being a supporter years ago of clean energy and emission caps to, more recently, a climate agnostic. On Aug. 30, he belittled his opponent’s vow to arrest climate change, made during the 2008 presidential campaign. “President Obama promised to begin to slow the rise of the oceans and heal the planet,” Romney told the Republican National Convention in storm-tossed Tampa. “My promise is to help you and your family.” Two months later, in the wake of Sandy, submerged families in New Jersey and New York urgently needed some help dealing with that rising-ocean stuff.

Obama and his strategists clearly decided that in a tight race during fragile economic times, he should compete with Romney by promising to mine more coal and drill more oil. On the campaign trail, when Obama refers to the environment, he does so only in the context of spurring “green jobs.” During his time in office, Obama has made modest progress on climate issues. His administration’s fuel-efficiency standards will reduce by half the amount of greenhouse gas emissions from new cars and trucks by 2025. His regulations and proposed rules to curb mercury, carbon, and other emissions from coal-fired power plants are forcing utilities to retire some of the dirtiest old facilities. And the country has doubled the generation of energy from renewable sources such as solar and wind.

Still, renewable energy accounts for less than 15 percent of the country’s electricity. The U.S. cannot shake its fossil fuel addiction by going cold turkey. Offices and factories can’t function in the dark. Shippers and drivers and air travelers will not abandon petroleum overnight. While scientists and entrepreneurs search for breakthrough technologies, the next president should push an energy plan that exploits plentiful domestic natural gas supplies. Burned for power, gas emits about half as much carbon as coal. That’s a trade-off already under way, and it’s worth expanding. Environmentalists taking a hard no-gas line are making a mistake.

Conservatives champion market forces—as do smart liberals—and financial incentives should be part of the climate agenda. In 2009 the House of Representatives passed cap-and-trade legislation that would have rewarded more nimble industrial players that figure out how to use cleaner energy. The bill died in the Senate in 2010, a victim of Tea Party-inspired Republican obstructionism and Obama’s decision to spend his political capital to push health-care reform.

Despite Republican fanaticism about all forms of government intervention in the economy, the idea of pricing carbon must remain a part of the national debate. One politically plausible way to tax carbon emissions is to transfer the revenue to individuals. Alaska, which pays dividends to its citizens from royalties imposed on oil companies, could provide inspiration (just as Romneycare in Massachusetts pointed the way to Obamacare).

Ultimately, the global warming crisis will require global solutions. Washington can become a credible advocate for moving the Chinese and Indian economies away from coal and toward alternatives only if the U.S. takes concerted political action. At the last United Nations conference on climate change in Durban, South Africa, the world’s governments agreed to seek a new legal agreement that binds signatories to reduce their carbon emissions. Negotiators agreed to come up with a new treaty by 2015, to be put in place by 2020. To work, the treaty will need to include a way to penalize countries that don’t meet emission-reduction targets—something the U.S. has until now refused to support.

If Hurricane Sandy does nothing else, it should suggest that we need to commit more to disaster preparation and response. As with climate change, Romney has displayed an alarmingly cavalier attitude on weather emergencies. During one Republican primary debate last year, he was asked point-blank whether the functions of the Federal Emergency Management Agency ought to be turned back to the states. “Absolutely,” he replied. Let the states fend for themselves or, better yet, put the private sector in charge. Pay-as-you-go rooftop rescue service may appeal to plutocrats; when the flood waters are rising, ordinary folks welcome the National Guard.

It’s possible Romney’s kill-FEMA remark was merely a pander to the Right, rather than a serious policy proposal. Still, the reconfirmed need for strong federal disaster capability—FEMA and Obama got glowing reviews from New Jersey Governor Chris Christie, a Romney supporter—makes the Republican presidential candidate’s campaign-trail statement all the more reprehensible.

The U.S. has allowed transportation and other infrastructure to grow obsolete and deteriorate, which poses a threat not just to public safety but also to the nation’s economic health. With once-in-a-century floods now occurring every few years, New York Governor Andrew Cuomo and New York City Mayor Michael Bloomberg said the country’s biggest city will need to consider building surge protectors and somehow waterproofing its enormous subway system. “It’s not prudent to sit here and say it’s not going to happen again,” Cuomo said. “I believe it is going to happen again.”

David Rothkopf, the chief executive and editor-at-large of Foreign Policy, noted in an Oct. 29 blog post that Sandy also brought his hometown, Washington, to a standstill, impeding affairs of state. To lessen future impact, he suggested burying urban and suburban power lines, an expensive but sensible improvement.

Where to get the money? Rothkopf proposed shifting funds from post-Sept. 11 bureaucratic leviathans such as the Department of Homeland Security, which he alleges is shot through with waste. In truth, what’s lacking in America’s approach to climate change is not the resources to act but the political will to do so. A Pew Research Center poll conducted in October found that two-thirds of Americans say there is “solid evidence” the earth is getting warmer. That’s down 10 points since 2006. Among Republicans, more than half say it’s either not a serious problem or not a problem at all.

Such numbers reflect the success of climate deniers in framing action on global warming as inimical to economic growth. This is both shortsighted and dangerous. The U.S. can’t afford regular Sandy-size disruptions in economic activity. To limit the costs of climate-related disasters, both politicians and the public need to accept how much they’re helping to cause them.

Scientific Illiteracy: Why The Italian Earthquake Verdict is Even Worse Than it Seems (Time)

By Jeffrey Kluger – Oct. 24, 2012

image: An aerial view of the destruction in the city of L'Aquila, central Italy, April 6, 2009. GUARDIA FORESTALE HANDOUT / AP. An aerial view of the destruction in the city of L’Aquila, central Italy, April 6, 2009.

Yesterday was a very good day for stupid — better than any it’s had in a while. Stupid gets fewer good days in the 21st century than it used to get, but it enjoyed a great ride for a long time — back in the day when there were witches to burn and demons to exorcise and astronomers to put on trial for saying that the Earth orbits around the sun.

But yesterday was a reminder of stupid’s golden era, when an Italian court sentenced six scientists and a government official to six years in prison on manslaughter charges, for failing to predict a 2009 earthquake that killed 300 people in the town of l’Aquila. The defendants are also required to pay €7.8 million ($10 million) in damages. “I’m dejected, despairing,” said one of the scientists, Enzo Boschi, in a statement to Italian media. “I still don’t understand what I’m accused of.”

As well he shouldn’t. The official charge brought against the researchers, who were members of the National Institute of Geophysics and Volcanology (INGV), was based on a meeting they had in the week leading up to the quake, at which they discussed the possible significance of recent seismic rumblings that had been detected  in the vicinity of l’Aquila. They concluded that it was “unlikely,” though not impossible, that a serious quake would occur there and thus did not order the evacuation of the town. This was both sound science and smart policy.

The earthquake division of the U.S. Geological Survey (USGS) estimates that the world is shaken by several million earthquakes each year, most of which escape notice either because they are too small or are in remote areas that are poorly monitored. An average of 50 earthquakes do manage to register on global seismographs every day, or about 18,000 annually. The overwhelming majority do not lead to major quakes and the technology does not exist to determine which ones will. The best earthquake forecasters can do is apply their knowledge and experience to each case, knowing that you can’t evacuate 50 towns or cities every day — and knowing too that sometimes you will unavoidably, even tragically, be wrong.

“If scientists can be held personally and legally responsible for situations where predictions don’t pan out, then it will be very hard to find scientists to stick their necks out in the future,” said David Oglesby, an associate professor on the earth sciences faculty of the University of California, Riverside, according to CNN.com.

The Italian seismologists are appealing their sentences and the global outcry over the wrong-headedness of the ruling will likely weigh in their favor. But whatever the outcome of their case, they’re really just the most recent victims of  the larger, ongoing problem of scientific illiteracy.

Just the day after the ruling came down, University of Michigan researchers released the latest results from the Generation X Report, a longitudinal study funded by the National Science Foundation that has been tracking the Gen X cohort since 1986. One of the smaller but more troubling data points in the new release was the finding that only 43% of Gen Xers (53% of males and 32% of females) can correctly identify a picture of a spiral galaxy — or know that we live in one.

Certainly, it’s possible to move successfully through life without that kind of knowledge. “Knowing your cosmic address is not a necessary job skill,” concedes study author Jon D. Miller of the University of Michigan, in a release accompanying the report. But not knowing it does suggest a certain lack of familiarity with the larger themes of the physical universe — and that has implications. It’s of a piece with the people who believe humans and dinosaurs co-existed, or the 50% of Americans who do not believe that human beings evolved from apes, or the 1 on 5 who, like Galileo’s inquisitors, don’t believe the Earth revolves around the sun.

More troubling than these types of individual illiteracy are the larger, population-wide ones that have a direct impact on public policy. As my colleague Bryan Walsh observed, the issue of climate change received not a single mention in all three of this year’s presidential debates, and has barely been flicked at on the campaign trail. Part of that might simply be combat fatigue; we’ve been having the climate argument for 25 years. But the fact is there shouldn’t be any argument at all. Serious scientists who doubt that climate change is a real threat are down to just a handful of wild breeding pairs. But sowing doubt about the matter has been a thriving industry of conservatives for decades — most recently in the form of a faux scientific study published by the Cato Institute, that purports to debunk climate science as fatally flawed at best or a hoax at worst. Speaking of a federally funded and Congressionally mandated report by the U.S. Global Change Research Program that responsibly reviewed the state of climate science, the Cato publication argues:

It is immediately obvious that the intent of the report is not to provide a accurate [sic] scientific assessment of the current and future impacts of climate change in the United States, but to confuse the reader with a loose handling of normal climate[italics theirs]…presented as climate change events.

Well, no, but never mind. Our willingness to believe in junk science like this exacts a very real price — in an electorate that won’t demand action from its leaders on a matter of global significance; in parents who leave their babies unvaccinated because someone sent them a blog post fraudulently linking vaccines to autism; in young gays and lesbians forced to submit to “conversion therapy” to change the unchangeable; in a team of good Italian scientists who may spend six years in jail for failing to predict the unpredictable. No one can make us get smart about things we don’t want to get smart about. But every day we fail to do so is another good day for stupid — and another very bad one for all of us.

Nate Silver’s ‘Signal and the Noise’ Examines Predictions (N.Y.Times)

Mining Truth From Data Babel

By LEONARD MLODINOW

Published: October 23, 2012

A friend who was a pioneer in the computer games business used to marvel at how her company handled its projections of costs and revenue. “We performed exhaustive calculations, analyses and revisions,” she would tell me. “And we somehow always ended with numbers that justified our hiring the people and producing the games we had wanted to all along.” Those forecasts rarely proved accurate, but as long as the games were reasonably profitable, she said, you’d keep your job and get to create more unfounded projections for the next endeavor.

Alessandra Montalto/The New York Times

THE SIGNAL AND THE NOISE

Why So Many Predictions Fail — but Some Don’t

By Nate Silver

Illustrated. 534 pages. The Penguin Press. $27.95.

This doesn’t seem like any way to run a business — or a country. Yet, as Nate Silver, a blogger for The New York Times, points out in his book, “The Signal and the Noise,” studies show that from the stock pickers on Wall Street to the political pundits on our news channels, predictions offered with great certainty and voluminous justification prove, when evaluated later, to have had no predictive power at all. They are the equivalent of monkeys tossing darts.

As one who has both taught and written about such phenomena, I have long felt like leaning out my window to shout, “Network”-style, “I’m as mad as hell and I’m not going to take this anymore!” Judging by Mr. Silver’s lively prose — from energetic to outraged — I think he feels the same way.

Nate Silver. Robert Gauldin

The book’s title comes from electrical engineering, where a signal is something that conveys information, while noise is an unwanted, unmeaningful or random addition to the signal. Problems arise when the noise is as strong as, or stronger than, the signal. How do you recognize which is which?

Today the data we have available to make predictions has grown almost unimaginably large: it represents 2.5 quintillion bytes of data each day, Mr. Silver tells us, enough zeros and ones to fill a billion books of 10 million pages each. Our ability to tease the signal from the noise has not grown nearly as fast. As a result, we have plenty of data but lack the ability to extract truth from it and to build models that accurately predict the future that data portends.

Mr. Silver, just 34, is an expert at finding signal in noise. He is modest about his accomplishments, but he achieved a high profile when he created a brilliant and innovative computer program for forecasting the performance of baseball players, and later a system for predicting the outcome of political races. His political work had such success in the 2008 presidential election that it brought him extensive media coverage as well as a home at The Times for his blog, FiveThiryEight.com, though some conservatives have been critical of his methods during this election cycle.

His knack wasn’t lost on book publishers, who, as he puts it, approached him “to capitalize on the success of books such as ‘Moneyball’ and ‘Freakonomics.’ ” Publishers are notorious for pronouncing that Book A will sell just a thousand copies, while Book B will sell a million, and then proving to have gotten everything right except for which was A and which was B. In this case, to judge by early sales, they forecast Mr. Silver’s potential correctly, and to judge by the friendly tone of the book, it couldn’t have happened to a nicer guy.

Healthily peppered throughout the book are answers to its subtitle, “Why So Many Predictions Fail — but Some Don’t”: we are fooled into thinking that random patterns are meaningful; we build models that are far more sensitive to our initial assumptions than we realize; we make approximations that are cruder than we realize; we focus on what is easiest to measure rather than on what is important; we are overconfident; we build models that rely too heavily on statistics, without enough theoretical understanding; and we unconsciously let biases based on expectation or self-interest affect our analysis.

Regarding why models do succeed, Mr. Silver provides just bits of advice (other than to avoid the failings listed above). Mostly he stresses an approach to statistics named after the British mathematician Thomas Bayes, who created a theory of how to adjust a subjective degree of belief rationally when new evidence presents itself.

Suppose that after reading a review, you initially believe that there is a 75 percent chance that you will like a certain book. Then, in a bookstore, you read the book’s first 10 pages. What, then, are the chances that you will like the book, given the additional information that you liked (or did not like) what you read? Bayes’s theory tells you how to update your initial guess in light of that new data. This may sound like an exercise that only a character in “The Big Bang Theory” would engage in, but neuroscientists have found that, on an unconscious level, our brains do naturally use Bayesian prediction.

Mr. Silver illustrates his dos and don’ts through a series of interesting essays that examine how predictions are made in fields including chess, baseball, weather forecasting, earthquake analysis and politics. A chapter on poker reveals a strange world in which a small number of inept but big-spending “fish” feed a much larger community of highly skilled sharks competing to make their living off the fish; a chapter on global warming is one of the most objective and honest analyses I’ve seen. (Mr. Silver concludes that the greenhouse effect almost certainly exists and will be exacerbated by man-made CO2 emissions.)

So with all this going for the book, as my mother would say, what’s not to like?

The main problem emerges immediately, in the introduction, where I found my innately Bayesian brain wondering: Where is this going? The same question came to mind in later essays: I wondered how what I was reading related to the larger thesis. At times Mr. Silver reports in depth on a topic of lesser importance, or he skates over an important topic only to return to it in a later chapter, where it is again discussed only briefly.

As a result, I found myself losing the signal for the noise. Fortunately, you will not be tested on whether you have properly grasped the signal, and even the noise makes for a good read.

Leonard Mlodinow is the author of “Subliminal: How Your Unconscious Mind Rules Your Behavior” and “The Drunkard’s Walk: How Randomness Rules Our Lives.”

EUA reavaliam fator racial como critério a vaga em universidades (Folha de São Paulo)

JC e-mail 4608, de 22 de Outubro de 2012
Folha de São Paulo – 20/10/2012

Suprema Corte deve se pronunciar sobre caso de aluna que se considerou preterida no Texas. Enquanto isso, no Brasil, reitor da UFF afirma que lei de cotas é um retrocesso.

As sardas de Abigail Fisher, 22, podem fazer história. Desde o último dia 10, a Suprema Corte dos EUA examina sua queixa contra a Universidade do Texas por tê-la preterido supostamente por causa de sua cor de pele, e o veredicto pode acabar com as ações afirmativas nas universidades públicas americanas após cinco décadas em vigor.

A decisão sairá só em 2013, mas o caso acirra o debate entre defensores e detratores de critérios como raça, classe social e renda para a admissão em universidades públicas. A última vez em que o Supremo julgou o tema foi em 2003, quando, em uma queixa envolvendo a Universidade do Michigan, invalidou o uso de cotas, mas considerou constitucional o uso de raça entre os critérios de seleção.

Nos últimos 15 anos, cinco Estados americanos proibiram a ação afirmativa na admissão de universitários. No próximo dia 6, quando os EUA podem reeleger seu primeiro presidente negro (e escolhem entre dois ex-alunos da prestigiosa Escola de Direito de Harvard), Oklahoma decide se entrará para a lista.

Dois Estados trocaram a ação afirmativa por um programa de cunho socioeconômico: um percentual dos melhores estudantes de cada escola de ensino médio é automaticamente admitido. Na Flórida, 20%; no Texas, onde Fisher queria estudar, 10%. A Universidade do Texas, que Fisher almejava em 2008, adota esse critério para 81% de seus alunos.

Os demais 19% passam por um sistema de admissão que leva em conta, além do desempenho nas provas, aptidões como música, esportes e capacidade de liderança, trabalho voluntário, renda, situação familiar e raça.

A estudante, que estava entre os 15% melhores de sua escola e acabaria depois se formando pela Universidade Estadual da Louisiana, foi reprovada e sentiu-se alvo de preconceito por ser branca (a universidade alega que ela não tinha as qualificações). Em 2009, abriu o processo que, após veredictos negativos em duas instâncias, chega à Suprema Corte. Juristas preveem decisão apertada.

Especialistas – Para a professora de direito de Harvard Lani Guinier, uma das maiores especialistas em ação afirmativa e acesso ao ensino superior dos EUA, o debate corrente foca uma questão secundária. “Estamos preocupados com algo periférico no processo de admissão universitário. Deveríamos pensar é na missão dessas instituições e em como cumpri-la, não no mérito relativo dos inscritos.”

O que Guinier defende é que, se uma universidade tem como objetivo formar líderes -como diz a Universidade do Texas, pivô do caso na Suprema Corte dos EUA que pode reverter a ação afirmativa-, ela deveria procurar não só notas altas, mas vivências complementares, que ampliem a capacidade de resolver problemas em equipe.

Na visão da jurista, os exames de admissão nos EUA (que incluem testes de inglês e matemática, além de critérios mais subjetivos) servem diretamente uma elite bem educada, perpetuando o abismo educacional.

Mas a discussão, diz ela, não deveria se limitar a raça. “Se é hora de avançarmos [como alguns defendem], é hora também de repensarmos como admitimos todo mundo nas faculdades”, rebate. “A experiência dos negros aqui é como a dos canários que os mineiros levavam para o subsolo: se o ar se tornasse tóxico, eles morriam antes, mas quem continuasse ali morreria do mesmo jeito.”

Guinier sugere fixar um patamar necessário de conhecimento para entrar na universidade e depois disso o sorteio das vagas entre os aptos. “A questão é qual o papel das universidades no século 21 nas democracias. Elas querem escolher quem já é brilhante ou ser como o corpo de fuzileiros navais, que pega quem passa nos critérios básicos porque aceita a responsabilidade de formar?”

David Neumark, um professor de economia da Universidade da Califórnia que estuda o aspecto econômico da ação afirmativa, diz que em meio à cacofonia há pouca evidência ainda de que a política tenha consequências econômicas positivas ou, como alguns dizem, negativas.

Mas ressalta que, além de ver um imperativo de justiça, muitas escolas alegam que a diversidade agrega valor. Neumark acha mais factível a adoção de critérios socioeconômicos, que acabariam beneficiando largamente negros e hispânicos.

Mas rejeita a tese de alguns críticos de que a ação afirmativa prejudica, no longo prazo, aqueles que deveria beneficiar. “Tampouco há provas”, afirma. Na Califórnia, após o veto à ação afirmativa, em 1997, o número de calouros negros caiu. Na Universidade de Berkeley, por exemplo, foi de 7% em 1996 para 4% em 2010.

No Brasil – O reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Salles, afirmou ontem que a lei de cotas sancionada pela presidente Dilma Rousseff representará um retrocesso para a universidade. Ele disse temer que a medida traga problemas à instituição e cobrou o aumento de recursos para as universidades.

Segundo Salles, a UFF irá reservar 12,5% das vagas na próxima seleção “por imposição legal”. Em setembro, o reitor tinha dito que não iria acatar as cotas. Ontem, ele afirmou que mudou de ideia porque o procurador da universidade considerou que não há como recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal), que julgou as cotas constitucionais.

O percentual de 12,5% é o mínimo exigido pela lei em 2013 -com o passar dos anos, será elevado para 50%. Para o reitor, porém, o novo sistema é pior do que o que vinha sendo adotado pela UFF, que desde 2007 tinha políticas afirmativas próprias.

Para 2013, a universidade tinha decidido reservar 25% das vagas para candidatos oriundos do ensino médio de escolas públicas da rede estadual e municipal e com renda familiar per capita inferior a 1,5 salário mínimo.

Ele disse que os critérios da universidade são mais adequados do que os impostos pela nova lei, que beneficiará egressos de todas as escolas públicas, inclusive técnicas e federais, de melhor desempenho. “Esses alunos já competem em igualdade com os das escolas privadas. Os prejudicados serão os alunos das redes municipais e estaduais.” A lei prevê que metade das vagas reservadas seja para pretos, pardos e indígenas.

Salles disse que, para não prejudicar os alunos de baixa renda das redes municipais e estaduais, a universidade reservará mais 10% das vagas de cada curso para esse público. Com isso, as cotas somarão 22,5% das cercas de dez mil vagas em 2013. “Os congressistas criam essa lei, mas não preveem mais recursos para as universidades”, criticou ele, que tachou ainda de “ridícula” a discussão para duplicar o percentual destinado à educação em dez anos, para 10% do PIB. “A gente precisa dos recursos já.”

Os últimos 300 Muriquis: o macaco é um dos animais com maior risco de extinção no mundo (O Globo)

JC e-mail 4609, de 23 de Outubro de 2012.

Pesquisadores vão mapear os locais no Rio onde o maior primata das Américas e candidato a mascote das Olimpíadas de 2016 resiste.

Restam apenas 300 muriquis no estado do Rio de Janeiro. Eles são ameaçados pela diminuição das áreas de floresta, pela caça e por doenças transmitidas por outros bichos. Correndo risco de extinção, o maior primata das Américas e candidato a mascote dos Jogos Olímpicos de 2016 ainda padece com a falta generalizada de informações. Pesquisadores vão a campo a partir de janeiro e, num prazo de dois anos, pretendem concluir o primeiro censo populacional e o georreferenciamento do mono-carvoeiro, como também é conhecido esse macaco exclusivamente brasileiro.

Uma força-tarefa com 20 pesquisadores vai percorrer 350 mil hectares de florestas no estado. Além do censo e do georreferenciamento, eles pretendem coletar material genético, observar hábitos, costumes, analisar a dieta, identificar os vegetais que servem de alimento. Tudo isso para entender como se dá a interação dos muriquis com o meio ambiente. O trabalho, que custará em torno de R$ 5,5 milhões, vai servir de base científica para a criação de um plano estadual de proteção do macaco. Este documento deverá orientar desde a localização de novas áreas de preservação até a escolha das espécies de plantas usadas em programas de reflorestamento, sempre levando em consideração as preferências do animal.

A iniciativa faz parte de um conjunto de outras medidas, que incluem a campanha para a escolha da mascote dos Jogos Olímpicos, programas de educação ambiental e propagandas, que pretendem fazer do muriqui um animal conhecido e protegido. A meta é criar as condições que permitam aumento da população e, principalmente, a retirada da espécie da lista de extinção.

“O muriqui servirá de modelo para outros estudos científicos, com certeza. O boto-cinza, por exemplo, também receberá investimentos do estado para pesquisas científicas”, antecipa o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc.

O projeto, chamado oficialmente de “Conservação do Muriqui no Rio de Janeiro: levantamento da situação da espécie para a elaboração de um plano de ação estadual”, mobilizará especialistas da ONG Ecoatlântica, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), do Jardim Botânico, dos centros de primatologias do Brasil e do Rio de Janeiro, da Fiocruz, UFF e UFRJ, entre outras instituições.

Não vai ser fácil mapear os hábitos do muriqui. Ao menor barulho, ele foge, com uma agilidade tão grande que é praticamente impossível persegui-lo. A desenvoltura do animal na mata, que faz lembrar a agilidade de um atleta olímpico, é um dos argumentos para fazer do muriqui a mascote dos Jogos Olímpicos do Rio. Para observar de perto esse bicho arredio, os pesquisadores terão que escalar montanhas e se embrenharem em locais de difícil acesso.

A estratégia será dividir os especialistas em dez grupos. Nas primeiras incursões, eles se espalharão pelo estado em busca de relatos e de vestígios dos muriquis. Nos locais nos quais haja alguma probabilidade de encontrar o macaco, todos eles se reunirão para fazer a varredura para a contagem e coleta de material. Quando for possível, será realizada a captura, com o auxílio de armas que lançam tranquilizantes. Nestes casos, será feita a coleta de sangue e marcação do animal.

“O muriqui é um banco genético. A gente não tem ideia hoje de como está realmente a área verde. Por exemplo, quando fizermos o estudo das fezes e analisarmos as sementes encontradas, tenho quase certeza de que identificaremos espécies novas da flora da Mata Atlântica”, explica Paula Breves, veterinária e presidente da ONG Ecoatlântica. “O Jardim Botânico ficará responsável pela análise da flora. A UFF fará o georreferenciamento das informações, mapa de ameaças, do estudo botânico. Serão muitos mapas. O pessoal da Fiocruz vai desenvolver ações de educação ambiental. Por exemplo, como trabalhar com agricultores a prevenção das queimadas.”

Os especialistas pretendem comprovar, ainda, que o Rio é o único estado da federação no qual é possível encontrar não apenas o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), que também ocorre nas matas de São Paulo e extremo Norte do Paraná, como também o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus).

“Nenhum outro estado tem a ocorrência das duas outras espécies do animal. Vamos tentar identificar o muriqui-do-norte em Itatiaia”, antecipa Daniela Pires e Albuquerque, técnica do Inea.

Há diferenças físicas entre os muriquis-do-norte, mais despigmentado, e do sul, aparentemente mais escuro. O estudo vai permitir uma comparação entre ambas as espécies, já que hoje é grande a desinformação em relação ao muriqui-do-sul. Tanto que uma das hipóteses a ser verificada é a de que não se tratam de duas espécies distintas, mas de uma subespécie.

“Temos grandes dúvidas se realmente são duas espécies distintas. Ou se um deles é uma subespécie. Vamos tentar entender isso, porque até então não há um estudo genético do muriqui-do-sul”, salienta Paula. “A pesquisa não vai gerar informações apenas sobre o muriqui. Qualquer animal que aparecer será identificado. Vamos usar câmeras para tirar fotos de qualquer bicho que se mover em uma determinada área. Até pássaros, o que for observado, anotaremos. Será um resultado secundário, que vai gerar informação importante para os parques.”

Os pesquisadores terão atenção especial em áreas nas quais haja indícios da presença do muriqui, sobretudo os parques estaduais do Desengano (que se espalha por Santa Maria Madalena, São Fidélis e Campos), dos Três Picos (Cachoeiras de Macacu, Friburgo, Teresópolis, Guapimirim e Silva Jardim), Cunhambebe (Mangaratiba, Rio Claro, Angra e Itaguaí); parques nacionais da Serra dos Órgãos (Teresópolis, Guapimirim, Magé e Petrópolis), de Itatiaia; Área de Proteção Ambiental do Cairuçu; e Reserva Ecológica da Juatinga (ambas em Paraty).

“Este estudo de campo é fundamental para a preservação do muriqui”, resume Paula. “Ainda temos relatos de caça, em Cunhambebe, há um mês. O legal é que já estamos recebendo telefones de proprietários de áreas com mata perguntando o que eles podem fazer para ajudar o muriqui, o que eles podem plantar. Isso é fantástico.”

Outro importante local para especialistas é o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em Guapimirim. Mantido pelo Inea, há 22 espécies de primatas e 230 animais. Porém, faltam pesquisadores. Apenas o chefe da unidade, Alcides Pissinatti, desenvolve trabalhos científicos, dividindo seu tempo com a administração local. O CPRJ recebe estudiosos visitantes, mas sem vínculo com o local. Está prevista a contratação de um veterinário no próximo concurso público, diz o Inea.

“Com os muriquis em cativeiro, é possível conhecer a biologia e o comportamento da espécie. Temos seis animais, sendo que o último nasceu no dia 5 de fevereiro de 2012”, relata Pissinatti. “O ideal seria contar com cerca de 30 animais, que não podem ser da mesma família.”

Falta de espaço – Diferentemente do muriqui do Estado do Rio, que sofre com a falta de informações científicas, há cerca de 30 anos o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), sobretudo os que vivem na reserva Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga, Leste de Minas Gerais, vêm sendo estudado pelo grupo de pesquisadores liderados pela primatóloga americana Karen Strier, pesquisadora e professora da Universidade de Wisconsin-Madison. Neste período, a população do macaco pulou de 60 para cerca de 200. Se, por um lado, o crescimento revela o sucesso das medidas de preservação; por outro, mostra os problemas de manter o muriqui confinado em pequenas unidades de conservação. Já falta espaço.

Esta situação está provocando mudanças de comportamento do muriqui. Os macacos ficam mais no chão, para terem outros locais além da copa das árvores. E procuram matas vizinhas, nem sempre seguras. Por este motivo, os ambientalistas querem criar um corredor ligando as unidades de conservação, com o objetivo de dar mais espaço para o maior primata das Américas se expandir.

“A mata tem seus limites. Crescendo a população, para onde vão os muriquis? É a mesma situação de uma família, quando ela cresce, precisa ir para uma casa maior ou encontrar outro espaço”, explica Karen.

Pesquisadores também constataram o aumento do número de machos. Para a especialista, esta pode ser uma forma de controle do número de macacos. Se a população crescesse muito, haveria disputa entre os animais. Neste momento, a tendência é que o índice de crescimento da população diminua.

“Ninguém entende como esse mecanismo funciona, mas, quando há excesso de população, nascem mais machos. A população cresce mais quando há mais fêmeas”, revela Karen. “Os muriquis são as espécies mais pacíficas do mundo. Eles têm um comportamento sem agressividade, não brigam. Os dentes caninos são muito pequenos. Entre eles, em vários aspectos, não tem hierarquia. Vivem numa sociedade igualitária.”

Em vez de brigar, os muriquis têm o hábito de abraçar uns aos outros. De acordo com a pesquisadora, esta é uma forma de cumprimentar o companheiro. E, se algo os assusta, eles se abraçam para se sentirem mais confiantes. Os machos não têm dominância sobre as fêmeas. Quando copulam, os machos da maioria das outras espécies ficam muito agressivos, há forte competição. No caso do muriqui, não há disputa entre machos, que compartilham as fêmeas. Pesquisadores relatam casos em que os machos esperam em fila a sua vez de ficar com a fêmea.

“Já vi cinco machos copulando no prazo de 11 minutos, sem briga alguma. Por isso os muriquis já foram comparados com os hippies: paz e amor”, conta Karen. “Eles nos mostram que é possível viver numa sociedade, até mesmo em densidade demográfica alta, sem brigas, sem disputas. E com muita tolerância, paciência e pacifismo. Hoje em dia me inspiro no comportamento do muriqui. Quando eu percebo após 30 anos de trabalho, que a espécie está crescendo e que o problema agora é procura novas áreas protegidas para esta população, fico mais esperançosa. Existe solução, é fácil. Os próprios macacos estão nos mostrando de que eles precisam: mais florestas preservadas e protegidas.”

The Anthropocene? Planet Earth in the Age of Humans (AAA)

Posted on October 16, 2012 by Joslyn O.

Today’s guest blog post is by AAA member Shirley J Fiske. Fiske is an environmental anthropologist and Research Professor at University of Maryland’s College Park campus.  She is the Chair of the American Anthropological Association ’s task force on Global Climate Change. 

The first in a series of Grand Challenges symposia organized by the Smithsonian for the public (at least the highly educated, concerned public from what I could tell)—a full day with stellar speakers and response panels.  Invigorating discussion and ideas.  Kudos!  Many well-known names Charles Mann (1491, 1493 ), Richard Alley, Andrew Revkin, Senator Tim Wirth and incredibly moving & convincing presentation by photographer Chris Jordan whose images of “the infrastructure of our mass consumption” are familiar to many – as well as his photos of the stomach contents of dead baby Albatrosses on Midway Island, showing them starved with their bellies full of plastic debris.

Environmental humanities were well-represented and exciting, but the social sciences less so – disappointingly, economist Sabine O’Hara did nothing to illuminated the human aspects of the changes in the Anthropocene but chose to talk about “internalizing the economy.”  However, two archaeologists, both at the Smithsonian, did an excellent job as panelists-rapporteurs, ensuring that the audience kept the long dimension of human evolution and development in mind.  Rick Potts, (National Museum of Natural History, Human Origins Program Director), a paleo-anthropologist, offered a tantalizing insight, roughly paraphrased as a lot of change took place during periods of high climate variability (unstable periods)—such as innovations in lithic technology and other things.  He also stated that he’s in the process of getting a long core that will show us 500,000 years of climate change in East Africa during the time period of the development of our species.  Torben C. Rick (NMNH Director of the Program in Human Ecology and Archaeobiology)  focused on the “mid-term time frame”—the last 1,000 years!  and offered that sustainability rests on reconciling the short term developments with long term cycles.  The last 10,000 years has been a series of changes, re-organizations—not collapses.

The symposium was titled as a declarative, but there was a necessary and good discussion about whether naming it the Anthropocene showed abundant human hubris in our assumed agency in changing the world and the course of the earth .  In that vein, some concluded that whatever we do at this point won’t have any effect on the ‘big picture’ of the earth’s 4-billion year existence and that the Anthropocene is wrongly named.  Highlights and some familiar assumptions, brought to the fore, were that nature can no longer be studied in isolation from humans and human systems. (check!), that ‘homogenization’ of the planet started well before the industrial revolution (Mann), that we’re the first species that recognizes who recognizes that we’re having a global impact (compared with, say, cyanobacteria);  and that we need to move away from trying to “manage” the system and focus on monitoring and adapting;  the recognition that science-based decision have inherently imbedded values within them  (Revkin).

Richard Alley has re-focused his energy onto renewables, pointing out that is the direction we need to go, that all the easy oil is gone.  His talk made abundantly clear that the argument that encouraging renewable energy means loss of jobs is a blatant red herring; that the way to start such a massive transformation is to jettison the dirtiest and most dangerous (i.e. the work of coal mining is one of the most dangerous jobs in the US) of fossil fuel resources, coal, and develop the others.  He de-bunked the ‘myth of intermittency’ (my words) with wind and solar energy quite effectively.  One of the panelists aptly said Alley is a “radical center of an environmental view of the world.”  Glad to have him there.

The culture concept was constantly invoked, as it is almost universally these days.  “How do we change culture?”   (away from consumption, from “need,” from capitalism or communism)  The most insightful answers (although not necessarily action-oriented) came from photographer Chris Jordan, who argued that we should do essentially nothing, in the short term;  we should let our human-created disaster settle in and we should grieve.  It is only by grieving fully that we will reconnect with our spiritual side and with love, the fundamental emotion of humans.  The symposium was organized to begin a dialogue around the meaning of the Anthropocene, and it accomplished those goals.  The symposium led me to conclude, similar to one of the speakers (Alley?) who said that the meaning of the Anthropocene is ethical and moral – how do we want the future to look and what can we do with the knowledge we have?

Henry A. Giroux: Why Don’t Americans Care About Democracy at Home? (Truth-out.org)

Tuesday, 02 October 2012 13:47 – By Henry A GirouxTruthout | Op-Ed

Flag

(Photo: Lance Page / Truthout)“It is certain, in any case, that ignorance, allied with power, is the most ferocious enemy justice can have.”  – James Baldwin

Four decades of neoliberal policies have given way to an economic Darwinism that promotes a politics of cruelty. And its much vaunted ideology is taking over the United States.[1] As a theater of cruelty and mode of public pedagogy, economic Darwinism undermines all forms of solidarity capable of challenging market-driven values and social relations. At the same time, economic Darwinism promotes the virtues of an unbridled individualism that is almost pathological in its disdain for community, social responsibility, public values and the public good. As the welfare state is dismantled and spending is cut to the point where government becomes unrecognizable – except to promote policies that benefit the rich, corporations and the defense industry – the already weakened federal and state governments are increasingly replaced by the harsh realities of the punishing state and what João Biehl has called proliferating “zones of social abandonment” and “terminal exclusion.”[2]

To read more articles by Henry Giroux and other authors in the Public Intellectual Project, click here.

One consequence is that social problems are increasingly criminalized, while social protections are either eliminated or fatally weakened. Another result of this crushing form of economic Darwinism is that it thrives on a kind of social amnesia that erases critical thought, historical analyses and any understanding of broader systemic relations. In this instance, it does the opposite of critical memory work by eliminating those public spheres where people learn to translate private troubles into public issues. That is, it breaks “the link between public agendas and private worries, the very hub of the democratic process.”[3] Once set in motion, economic Darwinism unleashes a mode of thinking in which social problems are reduced to individual flaws and political considerations collapse into the injurious and self-indicting discourse of character. As George Lakoff and Glenn Smith argue, the anti-public philosophy of economic Darwinism makes a parody of democracy by defining freedom as “the liberty to seek one’s own interests and well-being, without being responsible for the interests or well-being of anyone else. It’s a morality of personal, but not social, responsibility. The only freedom you should have is what you can provide for yourself, not what the Public provides for you to start out.”[4] Put simply, we alone become responsible for the problems we confront when we can no longer conceive how larger forces control or constrain our choices and the lives we are destined to lead.

Yet, the harsh values and practices of this new social order are visible – in the increasing incarceration of young people, the modeling of public schools after prisons, state violence waged against peaceful student protesters and state policies that bail out investment bankers but leave the middle and working classes in a state of poverty, despair and insecurity. Such values are also evident in the GOP Social-Darwinist budget plan that rewards the rich and cuts aid for those who need it the most. For instance, the Romney/Ryan budget plan “proposes to cut the taxes of households earning over $1 million by an average of $295,874 a year,”[5] but at a cruel cost to those most disadvantaged populations who rely on social programs. In order to pay for tax reductions that benefit the rich, the Romney/Ryan budget would cut funds for food stamps, Pell grants, health care benefits, unemployment insurance, veterans’ benefits and other crucial social programs.[6] As Paul Krugman has argued, the Ryan budget “isn’t just looking for ways to save money [it’s] also trying to make life harder for the poor – for their own good. In March, explaining his cuts in aid for the unfortunate, [Ryan] declared, ‘We don’t want to turn the safety net into a hammock that lulls able-bodied people into lives of dependency and complacency, that drains them of their will and their incentive to make the most of their lives.'”[7] Krugman rightly replies, “I doubt that Americans forced to rely on unemployment benefits and food stamps in a depressed economy feel that they’re living in a comfortable hammock.”[8] As an extremist version of neoliberalism, Ryanomics is especially vicious towards American children, 16.1 million of whom currently live in poverty. Marian Wright Edelman captures the harshness and savagery of the Ryan budget passed in the House of Representatives. She writes:

Ryanomics is an all out assault on our poorest children while asking not a dime of sacrifice from the richest 2 percent of Americans or from wealthy corporations. Ryanomics slashes hundreds of billions of dollars from child and family nutrition, health, child care, education and child protection services, in order to extend and add to the massive Bush tax cuts for millionaires and billionaires at a taxpayer cost of $5 trillion over 10 years. On top of making the Bush tax cuts permanent, the top income bracket would get an additional 10 percent tax cut. Millionaires and billionaires would on average keep at least an additional quarter of a million dollars each year and possibly as much as $400,000 a year according to the Citizens for Tax Justice.[9]

Under the euphemism of a politics of austerity, we are witnessing not only widespread cuts in vital infrastructures, education and social protections, but also the emergence of policies produced in the spirit of revenge aimed at the poor, the elderly and others marginalized by race and class. As Robert Reich, Charles Ferguson, and a host of recent commentators have pointed out, this extreme concentration of power in every commanding institution of society promotes predatory practices and rewards sociopathic behavior. Such a system creates an authoritarian class of corporate and hedge-fund swindlers that reaps its own profits by

placing big bets with other people’s money. The winners in this system are top Wall Street executives and traders, private-equity managers and hedge-fund moguls, and the losers are most of the rest of us. The system is largely responsible for the greatest concentration of the nation’s income and wealth at the very top since the Gilded Age of the 19th century, with the richest 400 Americans owning as much as the bottom 150 million put together. And these multimillionaires and billionaires are now actively buying the 2012 election – and with it, American democracy.[10]

Unfortunately, the American public has remained largely silent, if not also complicitous with the rise of a neoliberal version of authoritarianism. While young people have started to challenge this politics and machinery of corruption, war, violence and death, they represent a small and marginalized part of the movement that will be necessary to initiate massive collective resistance to the aggressive violence being waged against all those public spheres that further the promise of democracy in the United States. The actions of student protesters and others have been crucial in drawing public attention to the constellation of forces that are pushing the United States into what Hannah Arendt called “dark times.” The questions now being asked must be seen as the first step toward exposing dire social and political costs of concentrating wealth, income and power into the hands of the upper one percent.

Neoliberal Ideology and the Rhetoric of Freedom

In addition to amassing ever expanding amounts of material wealth, the rich now control the means of schooling and education in the United States. They have disinvested in critical education, while reproducing notions of common sense that incessantly replicate the basic values, ideas and relations necessary to sustain the institutions of economic Darwinism. Both parties support educational reforms that increase conceptual illiteracy. Critical learning is now reduced to mastering test-taking, memorizing facts, and learning how not to question knowledge and authority. This type of rote pedagogy, as Zygmunt Bauman points out, is “the most effective prescription for grinding communication to a halt and for [robbing] it of the presumption and expectation of meaningfulness and sense.”[11]

This type of market-driven illiteracy has eviscerated the notion of freedom, turning it largely into the desire to consume and invest exclusively in relationships that serve only one’s individual interests. Citizens are treated by the political and economic elite as restless children and are “invited daily to convert the practice of citizenship into the art of shopping.”[12] Shallow consumerism coupled with an indifference to the needs and suffering of others has produced a politics of disengagement and a culture of moral irresponsibility. Language has been stripped of the terms, phrases and ideas that embrace a concern for the other. With meaning utterly privatized, words are reduced to signifiers that mimic spectacles of violence, designed to provide entertainment rather than thoughtful analysis. Sentiments circulating in the dominant culture parade either idiocy or a survival-of-the-fittest ethic, while anti-public rhetoric strips society of the knowledge and values necessary for the development of a democratically engaged and socially responsible public.

In such circumstances, freedom has truly morphed into its opposite. Neoliberal ideology has construed as pathological any notion that in a healthy society people depend on each other in multiple, complex, direct and indirect ways. As Lewis Lapham points out, “Citizens are no longer held in thoughtful regard … just as thinking and acting are removed from acts of public conscience.”[13] Economic Darwinism has produced a legitimating ideology in which the conditions for critical inquiry, moral responsibility and social and economic justice disappear. The result is that neoliberal ideology increasingly resembles a call to war that turns the principles of democracy against democracy itself. Americans now live in an atomized and pulverized society, “spattered with the debris of broken interhuman bonds”[14] in which “democracy becomes a perishable commodity”[15] and all things public are viewed with disdain. Increasingly, it appears the only bond holding American society together is a perverse collective death-drive.

Neoliberal Governance

At the level of governance, neoliberalism has turned politics into a tawdry form of money laundering in which the spaces and registers that circulate power are controlled by those who have amassed large amounts of capital. Elections, like mainstream politicians, are now bought and sold to the highest bidder. In the Senate and House of Representatives, 47 percent are millionaires and the “estimated median net worth of a current U.S. senator stood at an average of $2.56 million while the median net worth of members of Congress is $913,000.”[16] Elected representatives no longer do the bidding of the people who elect them. Rather, they are now largely influenced by the demands of lobbyists who have enormous clout in promoting the interests of the elite, financial services and mega corporations. Currently, there are just over 14,000 registered lobbyists in Washington, DC, which amounts to approximately 23 lobbyists for every member of Congress. Although the number of lobbyists has steadily increased by about 20 percent since 1998, the Center for Responsive Politics found that “total spending on lobbying the federal government has almost tripled since 1998, to $3.3 billion.”[17] As Bill Moyers and Bernard Weisberger succinctly put it, “A radical minority of the superrich has gained ascendency over politics, buying the policies, laws, tax breaks, subsidies and rules that consolidate a permanent state of vast inequality by which they can further help themselves to America’s wealth and resources.”[18] Democratic governance has been replaced by the sovereignty of the market, paving the way for modes of governance intent on transforming democratic citizens into entrepreneurial agents. The language of the market and business culture have now almost entirely supplanted any celebration of the public good or the calls to enhance civil society characteristic of past generations.

Neoliberal governance has produced an economy and a political system almost entirely controlled by the rich and powerful – what a Citigroup report called a “Plutonomy,” an economy powered by the wealthy.[19] These plutocrats are what I have called the new zombies sucking the resources out of the planet and the rest of us in order to strengthen their grasp on political and economic power and fuel their exorbitant lifestyles. Policies are now enacted that provide massive tax cuts to the rich and generous subsidies to banks and corporations – alongside massive disinvestments in job creation programs, the building of critical infrastructures and the development of crucial social programs, which range from health care to school meal programs for disadvantaged children. In reality, the massive disinvestment in schools, social programs and an aging infrastructure is not about a lack of money. The real problem stems from government priorities that inform both how the money is collected and how it is spent.[20] Over 60 percent of the federal budget goes to military spending, while only 6 percent is allocated toward education. The US spends more than $92 billion on corporate subsidies and only $59 billion on social welfare programs.[21] John Cavanagh has estimated that if there were a tiny tax imposed on Wall Street “stock and derivatives transactions,” the government could raise $150 billion annually.[22] In addition, if the tax code were adjusted in a fair manner to tax the wealthy, another $79 billion could be raised. Finally, Cavanagh points out that $100 billion in tax income is lost annually through tax haven abuse; proper regulation would make it costly for corporations to declare “their profits in overseas tax havens like the Cayman Islands.”[23]

At the same time, the financialization of the economy and culture has resulted in the poisonous growth of monopoly power, predatory lending, abusive credit card practices and misuses of CEO pay. The false but central neoliberal tenet that markets can solve all of society’s problems has no way of limiting the power of money and has given rise to “a politics in which policies that favor the rich … have allowed the financial sector to amass vast economic and political power.”[24] As Joseph Stiglitz points out, there is more at work in this form of governance than a pandering to the wealthy and powerful: There is also the specter of an authoritarian society “where people live in gated communities,” large segments of the population are impoverished or locked up in prison and Americans live in a state of constant fear as they face growing “economic insecurity, health care insecurity [and] a sense of physical insecurity.”[25] In other words, the authoritarian nature of neoliberal political governance and economic power is also visible in the rise of a national security state in which civil liberties are being drastically abridged and violated.

As the war on terror becomes a normalized state of existence, the most basic rights available to American citizens are being shredded. The spirit of revenge, militarization and fear now permeates the discourse of national security. For instance, under Presidents Bush and Obama, the idea of habeas corpus with its guarantee that prisoners have minimal rights has given way to policies of indefinite detention, abductions, targeted assassinations, drone killings and an expanding state surveillance apparatus. The Obama administration has designated 46 inmates for indefinite detention at Guantanamo because, according to the government, they can be neither tried nor safely released. Moreover, another “167 men now confined at Guantanamo … have been cleared for release yet remain at the facility.”[26]

With the passing of the National Defense Authorization Act in 2012, the rule of legal illegalities has been extended to threaten the lives and rights of US citizens. The law authorizes military detention of individuals who are suspected of belonging not only to terrorist groups such as al-Qaeda but to “associated forces.” As Glenn Greenwald points out, this “grants the president the power to indefinitely detain in military custody not only accused terrorists, but also their supporters, all without charges or trial.”[27] The vagueness of the law allows the possibility of subjecting US citizens who are considered in violation of the law to indefinite detention. Of course, that might include journalists, writers, intellectuals and anyone else who might be accused because of their dealings with alleged terrorists. Fortunately, US District Judge Katherine Forrest of New York agreed with Chris Hedges, Noam Chomsky and other writers who have challenged the legality of the law. Judge Forrest recently acknowledged the unconstitutionality of the law and ruled in favor of a preliminary barring of the enforcement of the National Defense Authorization Act.[28]

The anti-democratic practices at work in the Obama administration also include the US government’s use of state secrecy to provide a cover or prevent being embarrassed by practices that range from the illegal use of torture to the abduction of innocent foreign nationals. Under the rubric of national security, a shadow state has emerged that eschews transparency and commits unlawful acts. Given the power of the government to engage in a range of illegalities and to make them disappear through an appeal to state secrecy, it should come as no surprise that warrantless wiretapping, justified in the name of national security, is on the rise at both the federal and state levels. For instance, the New York City Police Department “implemented surveillance programs that violate the civil liberties of that city’s Muslim-American citizens [by infiltrating] mosques and universities [and] collecting information on individuals suspected of no crimes.”[29] And the American public barely acknowledged this shocking abuse of power. Such anti-democratic policies and practices have become the new norm in American society and reveal a frightening and dangerous move toward a 21st century version of authoritarianism.

Neoliberalism as the New Lingua Franca of Cruelty

The harsh realities of a society defined by the imperatives of punishment, cruelty, militarism, secrecy and exclusion can also be seen in the emergence of a growing rhetoric of insult, humiliation and slander. Teachers are referred to as welfare queens by right-wing pundits; conservative radio host Rush Limbaugh claimed that Michael J. Fox was “faking” the symptoms of Parkinson’s disease when he appeared in a political ad for Democrat Claire McCaskill; and the public is routinely treated to racist comments, slurs and insults about Barack Obama by a host of shock jocks, politicians and even one federal judge.[30] Poverty is not only seen as a personal failing, it has become the object of abuse, fear and loathing. Poor people, rather than poverty, are now the problem, because the poor, as right-wing ideologues never fail to remind us, are lazy (and after all how could they be poor since they own TVs and cell phones). Racism, cruelty, insults and the discourse of humiliation are now packaged in a mindless rhetoric that is as unapologetic as it is ruthless – and has become the new lingua franca of public exchange.

Republican Presidential candidate Mitt Romney echoed the harshness of the new lingua franca of cruelty when asked recently about the government’s responsibility to 50 million Americans who don’t have health insurance. Incredibly, Romney said they already have access to health care because they can go to hospital emergency rooms. In response, a New York Times editorial pointed out that emergency room care “is the most expensive and least effective way of providing care” and such a remark “reeks of contempt for those left behind by the current insurance system, suggesting that they must suffer with illness until the point where they need an ambulance.”[31] Indifferent to the health care needs of the poor and middle class, Romney also conveniently forgets that, as indicated in a Harvard University study, “more than 62 percent of all personal bankruptcies are caused by the cost of overwhelming medical expenses.”[32] The new lingua franca of cruelty and its politics of disposability are on full display here. To paraphrase Hannah Arendt, we live in a time when revenge has become the cure-all for most of our social and economic ills.

Neoliberalism and the Retreat from Ethical Considerations

Not only does neoliberal rationality believe in the ability of markets to solve all problems, it also removes economics and markets from ethical considerations. Economic growth, rather than social needs, drives politics. Long-term investments are replaced by short-term gains and profits, while compassion is viewed as a weakness and democratic public values are scorned because they subordinate market considerations to the common good. As the language of privatization, deregulation and commodification replaces the discourse of social responsibility, all things public – including public schools, libraries, transportation systems, crucial infrastructures and public services – are viewed either as a drain on the market or as a pathology.[33] Greed is now championed because it allegedly drives innovation and creates jobs. Massive disparities in income and wealth are celebrated as a justification for embracing a survival-of-the-fittest ethic and paying homage to a ruthless mode of unbridled individualism.

Morality in this instance becomes empty, stripped of any obligations to the other. How else to explain Mitt Romney’s gaffe caught on video in which he derided “47 percent of the people [who] will vote for the president no matter what?”[34] There was more at work here than what some have called “the killing of the American dream” or simply a cynical political admission by Romney that some voting blocs do not matter. [35]Romney’s comments about those 47 percent of adult Americans who don’t pay income taxes for one reason or another, whom he described as “people who believe that they are victims, who believe the government has a responsibility to care for them, who believe that they are entitled to health care, to food, to housing, to you-name-it,”[36] makes clear that a politics of disposability is central to the extreme right-wing philosophy of those who control the Congress and are vying for the presidency. Paul Krugman is on target in arguing that in spite of massive suffering caused by the economic recession – a recession that produced “once-unthinkable levels of economic distress” – there is “growing evidence that our governing elite just doesn’t care.”[37] Of course, Krugman is not suggesting that if the corporate and financial elite cared the predatory nature of capitalism would be transformed. Rather, he is suggesting that economic Darwinism leaves no room for compassion or ethical considerations, which makes it use of power much worse than more liberal models of a market-based society.

Politics of Disposability and the Breakdown of American Democracy

The not-so-hidden order of politics underlying the second Gilded Age and its heartless version of economic Darwinism is that some populations, primarily the elderly, young people, the unemployed, immigrants and poor whites and minorities of color, now constitute a form of human waste or excess. The politics of disposability delineates these populations as unworthy of investment or of sharing in the rights, benefits and protections of a substantive democracy.[38] What is particularly disturbing is how little opposition among there is among the American public to this view of particular social groups as disposable – this, perhaps more than anything else, signals the presence of a rising authoritarianism in the United States. Left unchecked, economic Darwinism will not only destroy the social fabric and undermine democracy; it will also ensure the marginalization and eventual elimination of those intellectuals willing to fight for public values, rights, spaces and institutions not wedded to the logic of privatization, commodification, deregulation, militarization, hyper-masculinity and a ruthless “competitive struggle in which only the fittest could survive.”[39] Clearly, this new politics of disposability and culture of cruelty will wreak destruction in ways not yet imaginable, despite the horrific outcomes of the economic and financial crisis brought on by economic Darwinism. All evidence suggests a new reality is unfolding, one that is characterized by a deeply rooted crisis of education, agency and social responsibility.

Under such circumstances, to paraphrase C. Wright Mills, we are seeing the breakdown of democracy, the disappearance of critical intellectuals, and “the collapse of those public spheres which offer a sense of critical agency and social imagination.”[40] Since the 1970s, we have witnessed the forces of market fundamentalism attempt to strip education of its public values, critical content and civic responsibilities as part of a broader goal to create new subjects wedded to the logic of privatization, efficiency, flexibility, consumerism and the destruction of the social state. Today, neoliberalism’s ascendency has made the educational force of culture toxic, while educational institutions – whether in public or higher education – have all but transformed from promoting the public good to affirming private interests.

Encountering an onslaught of neoliberal ideology from all sides, it becomes increasingly difficult for the larger public to hold on to ideas that affirm social justice, community and those public values central to the cultural and political life of an aspiring democracy. Within both formal education and the educational force of the broader cultural apparatus – with its networks of knowledge production in the old and new media – we are witnessing the emergence and dominance of a powerful and ruthless market-driven notion of politics, governance, teaching, learning, freedom, agency and responsibility. Such modes of education do not foster a sense of organized responsibility central to a healthy democracy. Instead, they foster what I have referred to in the past as a sense of organized irresponsibility – a practice that underlies the economic Darwinism, public pedagogy and corruption at the heart of both the current recession and American politics.

Beyond Neoliberal Mis-Education

The anti-democratic practices that drive free-market fundamentalism are increasingly evident in the neoliberal framing of public and higher education as a corporate-based sector that embraces commodifying the curriculum, supporting top-down management, implementing more courses that promote business values and reducing all spheres of education to job training sites. As universities turn toward corporate management models, they increasingly use and exploit cheap faculty labor. In fact, many colleges and universities are drawing more and more upon adjunct and non-tenured faculty, many of whom occupy the status of indentured servants who are overworked, lack benefits, receive little or no support and are paid salaries that qualify them for food stamps.[41] Students are buried under huge debts that are celebrated by the debt collection industry that is cashing in on their misfortune. Jerry Aston, one member of the industry, wrote in a column after witnessing a protest rally by students criticizing their mounting debt that “I couldn’t believe the accumulated wealth they represent – for our industry.”[42]

There is more at work here than infusing market values into every aspect of higher education. There is also a full-fledged assault on the very notion of public goods, democratic public spheres and the role of education in creating an informed citizenry. When Rick Santorum argued that intellectuals were not wanted in the Republican Party, he was mimicking what has become common sense in a society wedded to narrow instrumental values and various modes of fundamentalism. Critical thinking and a literate public have become dangerous to those who want to celebrate orthodoxy over dialogue, emotion over reason and ideological certainty over thoughtfulness. Hannah Arendt’s warning that “it was not stupidity but a curious, quite authentic inability to think”[43] at the heart of authoritarian regimes is now embraced as a fundamental tenet of Republican Party politics.

In the United States, many of the problems in higher education can be linked to low funding, the domination of universities by market mechanisms, the rise of for-profit colleges, the intrusion of the national security state and the lack of faculty self-governance, all of which not only contradicts the culture and democratic value of higher education, but also makes a mockery of the very meaning and mission of the university. Decreased financial support for higher education stands in sharp contrast to increased support for tax benefits for the rich, financial industries and corporations. Rather than strengthen civic imagination among students, public universities are wedded more and more to the logic of profitability, to producing students as useful machines and to a form of education that promotes a “technically trained docility.”[44]

Universities and colleges have been largely abandoned as democratic public spheres dedicated to providing a public service, expanding upon humankind’s great intellectual and cultural achievements and educating future generations to be able to confront the challenges of a global democracy. As a core political and civic institution, higher education rarely appears any longer to be committed to addressing important social problems. Instead, many universities and colleges have become unapologetic accomplices to corporate values and power, and in doing so increasingly make social problems either irrelevant or invisible. Just as democracy appears to be fading in the United States, so is the legacy of higher education’s faith in and commitment to democracy.

Unfortunately, one measure of this disinvestment in higher education as a public good can be seen in the fact that many states such as California are spending more on prisons than on higher education.[45] Educating low income and poor minorities to be engaged citizens has been undermined by an unholy alliance of law-and-order conservatives, private prison corporations and prison guard unions along with the rise of the punishing state, all of whom have more of a vested interest in locking people up than educating them. It is no coincidence that as the US disinvests in the institutions fundamental to a democracy, it has invested heavily in those apparatuses that propel the rise of the prison-industrial complex and the punishing-surveillance state. The social costs of prioritizing punishing over education is clear in one shocking statistic provided by a recent study that stated “by age 23, almost a third of Americans or 30.2 percent have been arrested for a crime…. Researchers say [this] is a measure of growing exposure to the criminal justice system in everyday life.”[46]

The assault on the university is symptomatic of the deep educational and political crisis facing the United States. It is but one lens through which to recognize that the future of democracy depends on achieving the educational and ethical standards of the society we inhabit.[47] Political, moral, and social indifference is the result, in part, of a public that is increasingly constituted within an educational landscape that reduces thinking to a burden and celebrates civic illiteracy as foundational for negotiating a society in which moral disengagement and political corruption go hand in hand.[48]

This collapse on the part of the American public into a political and moral coma is induced, in part, by an ever expanding mass mediated celebrity culture that trades in hype and sensation. It is also accentuated by a governmental apparatus that sanctions modes of training that undermine any viable notion of critical schooling and public pedagogy. While there is much being written about how unfair the left is to the Obama administration, what is often forgotten by these liberal critics is that Obama has virtually aligned himself with educational practices and policies that are as instrumentalist and anti-intellectual as they are politically reactionary and therein lies one viable reason for not supporting his candidacy.[49]What liberals refuse to entertain is that the left is correct in attacking Obama for his cowardly retreat from a number of progressive issues and his dastardly undermining of civil liberties. In fact, they do not go far enough in their criticisms. Often even progressives miss that Obama’s views on what type of formative educational culture is necessary to create critically engaged and socially responsible citizens is utterly reactionary and provides no space for the nurturance of a radically democratic imagination. Hence, while liberals point to some of Obama’s progressive policies – often in a new age discourse that betrays their own supine moralism – in making a case for his re-election, they fail to acknowledge that Obama’s educational policies do nothing to contest, and are aligned with, his weak-willed compromises and authoritarian policies. In other words, Obama’s educational commitments undermine the creation of a formative culture capable of questioning authoritarian ideas, modes of governance and reactionary policies. The question is not whether he is slightly less repugnant than Romney. On the contrary, it is about how the left should engage politics in a more robust and democratic way by imagining what it would mean to work collectively and with “slow impatience” for a new political order outside of the current moderate and extreme right-wing politics and the debased, uncritical educational apparatus that supports it.

The Role of Critical Education

One way of challenging the new authoritarianism is to reclaim the relationship between critical education and social change. Education both in and out of schools is the bedrock for the formative culture necessary to create not only a literate public but also a public willing to fight for its capacity to hold power accountable and to participate in the decisions and institutions that shape its everyday existence. The question of what kind of subjects and modes of individual and social agency are necessary for a democracy to survive appears more crucial now than ever before, and this is a question that places matters of education, pedagogy and culture at the center of any understanding of politics. We live at a time when the American people appear to have no interest in democracy – beyond the four-year ritual performance of voting, and even this act fails to attract a robust majority of citizens. The term has been emptied of any viable meaning, hijacked by political scoundrels, corporate elites and the advertising industry. The passion that democracy exhibits as an ongoing struggle for rights, justice and a future of hope has been transmuted into a misplaced desire to shop, fulfill the pleasure quotient in spectacles of violence and misappropriate the language of democracy to deploy it as a rationale for racist actions against immigrants, Muslims and poor minorities of color and class.

Clearly, as the Occupy Movement and other youth movements around the world have demonstrated, the time has come not only to redefine the promise of democracy but also to challenge those who have poisoned its meaning. We have already witnessed such a challenge by protest movements both at home and abroad in which the struggle over education has become one of the most powerful fulcrums for addressing the detrimental effects of neoliberalism. What these struggles, particularly by young people, have in common is the attempt to merge the powers of persuasion and critical, civic literacy with the power of social movements to activate and mobilize real change. They are recovering a notion of the social and reclaiming a kind of humanity that should inspire and inform our collective willingness to imagine what a real democracy might look like. The political philosopher, Cornelius Castoriadis, rightly argues that “people need to be educated for democracy by not only expanding the capacities that enable them to assume public responsibility but also through active participation in the very process of governing.”[50] The current attack on democracy is directly linked to a systemic destruction of all those public spheres that expand the power of the imagination, critical inquiry, thoughtful exchange and the formative culture that makes critical education and an engaged citizenry dangerous to fundamentalists of all ideological stripes.

As the crucial lens through which to create the formative culture in which politics and power can be made visible and held accountable, pedagogy plays a central role. But as Archon Fung points out, criticism is not the only public responsibility of intellectuals, artists, journalists, educators and others who engage in critical pedagogical practices. “Intellectuals can also join citizens – and sometimes governments – to construct a world that is more just and democratic. One such constructive role is aiding popular movements and organizations in their efforts to advance justice and democracy.”[51] In this instance, understanding must be linked to the practice of social responsibility and the willingness to fashion a politics that addresses real problems and enacts concrete solutions. As Heather Gautney points out:

We need to start thinking seriously about what kind of political system we really want. And we need to start pressing for things that our politicians did not discuss at the conventions. Real solutions – like universal education, debt forgiveness, wealth redistribution and participatory political structures – that would empower us to decide together what’s best. Not who’s best.[52]

Critical thinking divorced from action is often as sterile as action divorced from critical theory. Given the urgency of the historical moment, we need a politics and a public pedagogy which make knowledge meaningful in order to make it critical and transformative. Or as Stuart Hall argues, we need to produce modes of analyses and knowledge in which “people can invest something of themselves … something that they recognize is of them or speaks to their condition.”[53]

I want to conclude by quoting from James Baldwin, a courageous writer who refused to let the hope of democracy die in his lifetime and who offered that mix of politics, passion and courage that deserves not just admiration but emulation. His sense of rage was grounded in a working-class sensibility, eloquence and passion that illuminates a higher standard for what it means to be a public intellectual and an engaged intellectual. His words capture something that is missing from the American cultural and political landscape, something affirmative that needs to be seized upon, rethought, and occupied – as part of both the fight against the new authoritarianism and its cynical, dangerous and cruel practices, and the struggle to reclaim a notion of justice and mutuality that seems to be dying in all of us. In “The Fire Next Time,” Baldwin writes:

One must say Yes to life, and embrace it wherever it is found – and it is found in terrible places…. For nothing is fixed, forever and forever, it is not fixed; the earth is always shifting, the light is always changing, the sea does not cease to grind down rock. Generations do not cease to be born, and we are responsible to them because we are the only witnesses they have. The sea rises, the light fails, lovers cling to each other and children cling to us. The moment we cease to hold each other, the moment we break faith with one another, the sea engulfs us and the light goes out.

 

1.
Manfred B. Steger and Ravi K. Roy, [i]Neoliberalism: A Very Short Introduction,[/i] (Oxford University Press, 2010). Juliet B. Schor,[i] Plenitude: The New Economics of True Wealth[/i](New York: Penguin Press, 2010); Henry A. Giroux, [i]Against the Terror of Neoliberalism[/i] (Boulder: Paradigm, 2008); David Harvey,[i] A Brief History of Neoliberalism[/i] (New York: Oxford Press, 2005); John and Jean Comaroff, eds. [i]Millennial Capitalism and the Culture of Neoliberalism[/i]  (Durham: Duke University Press, 2001). On the moral limits and failings of neoliberalism, see Michael J. Sandel, [i] What Money Can’t Buy[/i] (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2012) and for positing a case for neoliberalism as a criminal enterprise, see Jeff Madrick,[i] Age of Greed: The Triumph of Finance and the Decline of America, 1970 to the Present [/i](New York: Vintage, 2011); Charles Ferguson, [i]Predator Nation [/i](New York: Crown Business, 2012); Henry A. Giroux, [i]Zombie Politics in the Age of Casino Capitalism[/i] (New York: Peter Lang, 2010).

2.
João Biehl, [i]Vita: Life in a Zone of Social Abandonment [/i](Los Angeles: University of California Press, 2005). These zones are also brilliantly analyzed in Chris Hedges and Joe Sacco, [i]Days of Destruction, Days of Revolt [/i](New York: Knopf, 2012).

3.
Zygmunt Bauman,”Does ‘Democracy’ Still Mean Anything? (And in Case It Does, What Is It?)” [i]Truthout [/i](January 21, 2011). Online: http://truth-out.org/index.php?option=com_k2&;view=item&id=73:does-democracy-still-mean-anything-and-in-case-it-does-what-is-it

4.
George Lakoff and Glenn W. G Smith, “Romney, Ryan and the Devil’s Budget,” The Berkeley Blog (August 23, 2012). Online: http://blogs.berkeley.edu/2012/08/23/romney-ryan-and-the-devils-budget-will-america-keep-its-soul/

 

5.
Robert Reich,”Mitt Romney and the New Gilded Age” [i]Truthout [/i](July 2, 2012). Online: http://truth-out.org/news/item/10109-mitt-romney-and-the-new-gilded-age

6.
David Theo Goldberg, “The Taxing Terms of the GOP Plan Invite Class Carnage,” (September 20, 2012). Online: http://truth-out.org/news/item/11630-the-taxing-terms-of-the-gop-plan-invite-class-carnage

7.
Paul Krugman,”Galt, gold and God,” [i]The New York Times, [/i](August 23, 2012), p. A25.

8. Ibid.

9.
 Marian Wright Edelman,”Ryanomics Assault on Poor and Hungry Children,” [i]Huffington Post [/i](September 14, 2012). Online: http://www.huffingtonpost.com/marian-wright-edelman/ryanomics-assault-on-poor_b_1885851.html

10. Reich,”Mitt Romney and the New Gilded Age,”http://robertreich.org/post/26229451132; Charles Ferguson, [i]Predatory Nation: Corporate Criminals, Political Corruption, and the Hijacking of America [/i](New York: Crown Business, 2012); Daisy Grewal,”How Wealth Reduces Compassion: As Riches Grow, Empathy for Others Seems to Decline,”[i] Scientific American[/i](April 10, 2012). Online: http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=how-wealth-reduces-compassion

11.
Bauman,”Does ‘Democracy’ Still Mean Anything?”

12.
Lewis H. Lapham,”Feast of Fools: How American Democracy Became the Property of a Commercial Oligarchy,” [i]Truthout[/i] (September 20, 2012). Online: http://truth-out.org/opinion/item/11656-feast-of-fools-how-american-democracy-became-the-property-of-a-commercial-oligarchy

13.
Ibid.

14.
Zygmunt Bauman, [i]This is Not a Diary[/i] (Cambridge: Polity Press, 2012), p. 102.

15. Lapham,”Feast of Fools,” http://truth-out.org/opinion/item/11656-feast-of-fools-how-american-democracy-became-the-property-of-a-commercial-oligarchy

16. Eric Lichtblau,”Economic Downturn Took a Detour at Capitol Hill,” [i]The New York Times[/i] (December 26, 2011). Online:http://www.nytimes.com/2011/12/27/us/politics/economic-slide-took-a-detour-at-capitol-hill.html?pagewanted=all

17. Peter Grier,”So Much Money, So Few Lobbyists in D.C.: How Does the Math Work?” [i]DC Decoder[/i] (February 24, 2012). Online:http://www.csmonitor.com/USA/DC-Decoder/Decoder-Wire/2012/0224/So-much-money-so-few-lobbyists-in-D.C.-How-does-that-math-work

18.
Bill Moyers and Bernard Weisberger,”Money in Politics: Where is the Outrage?” [i]Huffington Post [/i](August 30, 2012). Online:http://www.huffingtonpost.com/bill-moyers/money-in-politics_b_1840173.html

19.
It is difficult to access this study because Citigroup does its best to make it disappear from the Internet. See the discussion of it by Noam Chomsky in”Plutonomy and the Precariat: On the History of the U.S. Economy in Decline,”[i] Truthdig [/i](May 8, 2012). Online:http://www.truthdig.com/report/item/plutonomy_and_the_precariat_the_history_of_the_us_economy_in_decline_201205/

20.
Salvatore Babones,”To End the Jobs Recession, Invest an Extra $20 Billion in Public Education,” [i]Truthout [/i](August 21, 2012). Online: http://truth-out.org/opinion/item/11031-to-end-the-jobs-recession-invest-an-extra-$20-billion-in-public-education

21.
John Atcheson,”The Real Welfare Problem: Government Giveaways to the Corporate 1%,” [i]Common  Dreams [/i](September 3, 2012). Online:http://www.commondreams.org/view/2012/09/03-7

22.
John Cavanagh,”Seven Ways to End the Deficit (Without Throwing Grandma Under the Bus),” [i]Yes! Magazine [/i](September 7, 2012). Online: http://www.yesmagazine.org/new-economy/seven-ways-to-end-the-deficit-without-throwing-grandma-under-the-bus

23.
Ibid.

24.
Joseph Stiglitz,”Politics Is at the Root of the Problem,” [i]European Magazine[/i](April 23, 2012). Online:

http://theeuropean-magazine.com/633-stiglitz-joseph/634-austerity-and-a-new-recession

25.
Lynn Parramore,”Exclusive Interview: Joseph Stiglitz Sees Terrifying Future for America If We Don’t Reverse Inequality,” [i]AlterNet [/i](June 24, 2012). Online:

http://www.alternet.org/economy/155918/exclusive_interview%3A_joseph_stiglitz_sees_terrifying_future_for_america_if_we_don%27t_reverse_inequality

26.
Editorial,”America’s Detainee Problem,” [i]Los Angeles Times [/i](September 23, 2012). Online: http://articles.latimes.com/2012/sep/23/opinion/la-ed-detention-20120923

27.
Glenn Greenwald,”Unlike Afghan Leaders, Obama Fights for Power of Indefinite Military Detention,” [i]The Guardian[/i] (September 18, 2012). Online:http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/sep/18/obama-appeals-ndaa-detention-law. See also, Glenn Greenwald,”Federal Court Enjoins NDAA,” [i]Salon[/i] (May 16, 2012). Online:http://www.salon.com/2012/05/16/federal_court_enjoins_ndaa/ . See also, Henry A. Giroux, [i]Hearts of Darkness: Torturing Children in the War on Terror[/i](BoulderParadigm 2010).

28.
Charlie Savage,”Judge Rules against Law on Indefinite Detention,” [i]New York Times [/i](September 12, 2012). Online:http://www.nytimes.com/2012/09/13/us/judge-blocks-controversial-indefinite-detention-law.html?_r=0

29.
Karen J. Greenberg,”Ever More and Ever Less,” [i]TomDispatch[/i] (March 18, 2012). Online:

http://www.tomdispatch.com/archive/175517/

30.
Catherine Poe,”Federal Judge Emails Racist Joke about President Obama,” [i]Washington Times [/i](March 1, 2012). Online:http://communities.washingtontimes.com/neighborhood/ad-lib/2012/mar/1/federal-judge-emails-racist-joke-about-president-o/

31.
Editorial,”Why Romney Is Slipping,” [i]New York Times[/i] (September 25, 2012), p. A20.

32.
Brennan Keller,”Medical Expenses: Top Cause of Bankruptcy in the United States,” [i]Give Forward[/i] (October 13, 2011). Online:http://www.giveforward.com/blog/medical-expenses-top-cause-of-bankruptcy-in-the-united-states

33.
George Lakoff and Glenn W. G Smith,”Romney, Ryan and the Devil’s Budget,” [i]Berkeley Blog [/i](August 23, 2012). Online: http://blogs.berkeley.edu/2012/08/23/romney-ryan-and-the-devils-budget-will-america-keep-its-soul/

34.
David Corn, “Secret Video: Romney Tells Millionaire Donors What He Really Thinks of Obama Voters,” [i]Mother Jones[/i] (September 17, 2012). Online:http://www.motherjones.com/politics/2012/09/secret-video-romney-private-fundraiser

35.
Naomi Wolf,”How the Mitt Romney Video Killed the American Dream,” [i]The Guardian [/i](September 21, 2012). Online:http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/sep/21/mitt-romney-video-killed-american-dream?newsfeed=true

36.
Corn,”Secret Video,” http://www.motherjones.com/politics/2012/09/secret-video-romney-private-fundraiser

37.
Paul Krugman,”Defining Prosperity Down,” [i]New York Times [/i](August 1, 2010), p. A17.

38.
Zygmunt Bauman is the most important theorist writing about the politics of disposability.  Among his many books, see [i]Wasted Lives [/i](London: Polity Press, 2004).

39.
Robert Reich,”The Rebirth of Social Darwinism,” [i]Robert Reich’s Blog[/i](November 30, 2011). Online: http://robertreich.org/post/13567144944

40.
 
C. Wright Mills, [i]The Politics of Truth: Selected Writings of C. Wright Mills [/i](New York:OxfordUniversity Press, 2008), p. 200.

41.
Hart Research Associates, [i]American Academics: Survey of Part Time and Adjunct Higher Education Faculty[/i] (Washington, D.C.: AFT, 2011). Online:http://www.aft.org/pdfs/highered/aa_partimefaculty0310.pdfSteve Street, Maria Maisto, Esther Merves, and Gary  Rhoades, [i]Who Is Professor “Staff” and How Can This Person Teach So Many Classes?[/i] (Los Angeles: Center for the Future of Higher Education, 2012). Online:http://futureofhighered.org/uploads/ProfStaffFinal.pdf

42.
Andrew Martin and Andrew W. Lehren,”A Generation Hobbled by the Soaring Cost of College,” [i]New York Times [/i](May 12, 2012), p. A1.

43.
Cited in Richard J. Bernstein, [i]The Abuse of Evil: The Corruption of Politics and Religion since 9/11[/i] (London: Polity Press, 2005), pp. 7-8.

44.
Martha C. Nussbaum,[i] Not For Profit: Why Democracy Needs The Humanities[/i](New Jersey:PrincetonUniversity Press, 2010), p. 142.

45. Les Leopold,”Crazy Country: 6 Reasons America Spends More on Prisons Than On Higher Education,” [i]Alternet[/i] (August 27, 2012). Online http://www.alternet.org/education/crazy-country-6-reasons-america-spends-more-prisons-higher-education?paging=off. On this issue, see also the classic work by Angela Y. Davis, [i]Are Prisons Obsolete?[/i] (New York: Open Media, 2003); and Michelle Alexander, [i]The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness [/i](New York: New Press, 2012).

46.
Erica Goode,”Many in U.S. Are Arrested by Age 23, Study Finds,” New York Times(December 19, 2011), p. A15.

47.
Zygmunt Bauman,[i] The Individualized Society[/i] (London: Polity, 2001), p. 4.

48.
Leopold,”Crazy Country,” http://www.alternet.org/education/crazy-country-6-reasons-america-spends-more-prisons-higher-education?paging=off

49. See, for instance, Rebecca Solnit,”Rain on Our Parade: A Letter to the Dismal Left,” [i]TomDispatch.com[/i] (September 27, 2012). Online:http://www.tomdispatch.com/blog/175598/tomgram%3A_rebecca_solnit,_we_could_be_heroes/ TomDispatch refers to this article as a call for hope over despair. It should be labeled as a call for accommodation over the need for a radical democratic politics.  For an alternative to this politics of accommodation, see the work of Stanley Aronowitz, Chris Hedges, Henry Giroux, Noam Chomsky, and others.

50.
Cornelius Castoriadis,”Democracy as Procedure and Democracy as Regime,” [i]Constellations [/i]4:1 (1997), p. 5.

51.
Archon Fung,”The Constructive Responsibility of Intellectuals,” [i]Boston Review[/i](September 9, 2011). Online: http://www.bostonreview.net/BR36.5/archon_fung_noam_chomsky_responsibility_of_intellectuals.php

52.
Heather Gautney,”Why Do Political Elites All Hate Democracy?”[i] LA Progressive[/i] (September 19, 2012). Online: http://www.laprogressive.com/hate-democracy

53.
Stuart Hall and Les Back,”In Conversation: At Home and Not at Home,” [i]Cultural Studies[/i] Vol. 23, No. 4 (July 2009), p. 681.

British Met Office facing legal action over pessimistic forecasts (Independent.ie)

Wednesday October 03 2012

A tourist attraction is considering suing The Met Office after it claims a string of pessimistic forecasts kept visitors away.

Rick Turner owner of the Big Sheep in Abbotsham, Devon, said poor forecasting was to blame for lower attendance at his farm attraction business.

Mr Turner is so angry he says he’ll take the agency to court unless its forecasts improve.

He said: “The Met Office seems to come up with such pessimistic forecasts predicting chances of rain when we’re enjoying sunshine.

“We’ve had a lot rain – that’s why it’s nice and green.

“But it’s important for the tourist industry that when we do have sunshine we need to be shouting about it rather than saying there might be some chance of rain.

“The Met Office forecasters need to realise that everything they say has an impact on whether people go on holiday or go for a day out.”

The Met Office insists that forecasters have no reason to dampen spirits and are simply doing their best with the data available.

But the weather service admitted ‘No weather forecaster is going to get it 100 per cent right all the time.’

“We have to tell the weather as it is that’s what our job is. This summer has been thoroughly disappointing,” said forecaster Dave Britton.

“It’ll be hard to find someone who hasn’t found that. It’s been the wettest summer in 100 years.

“The UK is lucky enough to have one of the best weather forecasting services in the world – we should recognise that.

“We have to remember Devon is the third or fourth wettest county in England. The Met Office can’t stop it raining. We get it right 87 or 88 per cent of the time which is absolutely phenomenal.”

Malcolm Bell a tourism expert in the south west said forecasts needed to be more balanced: “The challenge is that in the forecasts the Met office says there could be showers here or there when in fact it could be dry for 90 per cent of the time.

“People just hear the word rain and that puts them off going somewhere for the day.

“There’s a difference between that goes on for two or three hours and rain that lasts ten minutes in a shower and then passes through.

“I know it’s an incredibly difficult task for the Met Office but I always advise people to look at the websites – you have to get quite local to get more accurate.”

In June Claire Jeavons, who runs the Beverley Park holiday site in Paignton, Devon, said “alarmist” forecasts which often proved groundless were having a major impact on bookings across the West Country.

Claire Jeavons, who runs the Beverley Park holiday site in Paignton, Devon, said “alarmist” forecasts which often proved groundless were having a major impact on bookings across the West Country.

“It is already causing holiday-makers to stay away,” she said. “Just a few days ago we were hearing that all caravan parks in the West Country were on flood alert, and this simply wasn’t the case.”

Tony Clish, director of Park Holidays UK which owns 700 caravans in Suffolk, said he believes weather forecasters are afraid of being caught out after recent predictions of a “barbecue summer” were proved to be inaccurate.

He said: “Coastal holiday parks in Suffolk often stay dry when it is raining inland, yet forecasters frequently tarnish the whole county with a single wet-weather symbol.

“We’re not asking them to bend the truth, but just to be more careful with phrasing. For example, they could say that while inland areas may have showers, coastal areas are expected to be dry.”

NASA Scientists Use Unmanned Aircraft to Spy on Hurricanes (Wired)

By Jason Paur

September 21, 2012

Image: NASA

Hurricane researchers are gathering unprecedented data this month by using two NASA Global Hawk unmanned aircraft. The airplanes were originally developed for the military, but have been modified to aid in atmospheric research.

One of the Global Hawks was flown to its new base at NASA’s Wallops Island Flight Facility on Virginia’s Atlantic coast earlier this month and has already flown several missions over developing tropical storms giving atmospheric scientists the ability to watch and measure storms for up to three times as long as they could with manned aircraft, including NASA’s modified U-2 spyplane. The second Global Hawk is set to depart the Dryden Flight Research Center in California and join its hangar mate in the next week or so.

The airplanes were first used to observe storm development on a limited basis in 2010. The earlier missions were flown out of Dryden, which cut short the amount of time the planes could spend over Atlantic storms. Now based on the East Coast, the Global Hawks can spend up to six hours off the coast of Africa as storms develop, or 20 hours or more as the storms approach North America.

This long loiter capability is what has scientists excited to gain new insight into the life of a hurricane, says Scott Braun, principal investigator on NASA’s Hurricane and Severe Storm Sentinel (HS3) project.

“We’ve kind of gone from reconnaissance, which is short-term investigations” said Braun, “to more of surveillance where you can stay with a storm and move with it for a while.”

The path flown by Global Hawk AV-6 over tropical storm Nadine on Sept. 12. (NASA)

On Wednesday, the Global Hawk known as AV-6 departed Wallops Island and flew for nearly 25 hours observing tropical storm Nadine over the central Atlantic. It was the third time AV-6 had flown over the storm in the past 10 days. The airplane carries an “environmental payload” designed to gather big-picture data by flying around the entire storm (above). In addition to a high-resolution infrared sounder and cloud-physics LIDAR for measuring the structure and depth of clouds, AV-6 can make direct measurements by dropping out radiosondes that can measure temperature, humidity, wind speed and air pressure as they descend by parachute from as high as 60,000 feet.

The other airplane, AV-1 has a different suite of remote sensing instruments on board focused on the development of the inner core of the storms, measuring variables including wind profiles, rain rates and liquid water content of the clouds.

Researchers have learned a lot about predicting the path of hurricanes over the past several decades. But being able to predict the intensification of storms, especially early in their development has not been as successful. One of the aspects of storm and hurricane development Braun and the HS3 team are hoping to learn more about is the role dry, dusty air masses blowing off the Sahara play in the intensification process. It’s something debated in the research community, and until now scientists have had limited capabilities to watch the interaction for long periods of time.

“In some ways the Saharan air layer is essential,” Braun said. “The question is, once you develop these waves, to what extent can this dry and dusty air get into these disturbances to disrupt the ability of thunderstorms to get rotation organized on smaller scales to spin up a hurricane.”

Braun says most of the storms form from the air masses that come off Africa, but in manned aircraft they may only get a few hours at a time to watch and gather data. Satellites are also used extensively, but they offer a few snapshots a day and cannot make direct measurements. The Global Hawks provide the capability to watch the storms develop for up to a day at a time. And with two of them the researchers will eventually be able to watch storms continuously.

“We could potentially follow them all the way across the Atlantic, so you’re looking at the full life cycle of these storms.”

The Global Hawks will remain in Virginia through early October until hurricane season is over. The airplanes will be back on the East Coast for more long flights next year as well as in 2014.

Kinsey Reporter: Free App Allows Public to Anonymously Report, Share Information On Sexual Behavior (Science Daily)

ScienceDaily (Sep. 5, 2012) — Indiana University has released Kinsey Reporter, a global mobile survey platform for collecting and reporting anonymous data about sexual and other intimate behaviors. The pilot project allows citizen observers around the world to use free applications now available for Apple and Android mobile platforms to not only report on sexual behavior and experiences, but also to share, explore and visualize the accumulated data.

The Kinsey Reporter platform is available free from Apple iOS and Google Play (for Android) online stores. Reports made by anonymous citizen scientists will be used for research and shared with the public at the Kinsey Reporter website. (Credit: Image courtesy of Indiana University)

“People are natural observers. It’s part of being social, and using mobile apps is an excellent way to involve citizen scientists,” said Julia Heiman, director of The Kinsey Institute for Research in Sex, Gender and Reproduction. “We expect to get new insights into sexuality and relationships today. What do people notice, what are they involved in, and what can they relate to us about their lives and their communities?”

The project will collect anonymous data and then aggregate and share it openly. Kinsey Reporter is a joint project between The Kinsey Institute and the Center for Complex Networks and Systems Research, or CNetS, which is part of the IU School of Informatics and Computing and the Pervasive Technology Institute. Both Kinsey and CNetS are based on the IU Bloomington campus.

CNetS director Filippo Menczer called development of the citizen reporting platform an opportunity to gather information on important issues that may have been difficult to examine in the past.

“This new platform will allow us to explore issues that have been challenging to study until now, such as the prevalence of unreported sexual violence in different parts of the world, or the correlation between various sexual practices like condom use, for example, and the cultural, political, religious or health contexts in particular geographical areas. These were some of our initial motivations for the project,” he said.

Users simply download the free app and begin contributing observed information on topics such as sexual activity, public displays of affection, flirting, unwanted experiences and birth control use. Even though no information identifying users submitting reports is collected or stored, the time and general location of the report is collected and input into the database. Users also have the option of selecting their own geographic preference for the report by choosing city/town, state/region or country.

Surveys will change over time, and users can view aggregated reports by geographic region via interactive maps, timelines or charts. All of these reporting venues can be manipulated with filters that remove or add data based on specific survey topics and questions selected by the user.

Both Heiman and Menczer said The Kinsey Institute’s longstanding seminal studies of sexual behaviors created a perfect synergy with research going on at CNetS related to mining big data crowd-sourced from mobile social media. The sensitive domain — sexual relations — added an intriguing challenge in finding a way to share useful data with the community while protecting the privacy and anonymity of the reporting volunteers, they added.

Reports are transmitted to Kinsey Reporter using a secure, encrypted protocol, and the only data collected are a timestamp, the approximate geo-location selected by the user, and the tags the user chooses in response to various survey questions. The protections and anonymity provided to those responding to surveys allowed IU’s Institutional Review Board to classify the research as “exempt from review,” which allows the data to be used for research and shared without requiring informed consent from users of the apps.

The Kinsey Reporter platform is now in public beta release. Apps are available for free download at both the Apple iOS and Android app stores. Accompanying the app release are a Kinsey Reporter website, a Twitter feed and a Facebook page. The four resources also provide links to information about sexuality, such as blogs and podcasts from the Kinsey Confidential website. YouTube videos on “What Is the Kinsey Reporter App” and “Making the Kinsey Reporter App” are also available for viewing.

The Kinsey Institute receives support from the Office of the Vice Provost for Research at IU Bloomington, which is dedicated to supporting ongoing faculty research and creative activity and developing new multidisciplinary initiatives to enhance opportunities for federal, state and private research funding.

Realistically What Might the Future Climate Look Like? (Skeptical Science)

Posted on 31 August 2012 by dana1981

Robert Watson, former Chair of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), recently made headlines by declaring that it is unlikely we will be able to limit global warming to the 2°C ‘danger limit’.  This past April, the International Energy Agency similarly warnedthat we are rapidly running out of time to avoid blowing past 2°C global warming compared to late 19th Century temperatures.  The reason for their pessimism is illustrated in the ‘ski slopes’ graphic, which depicts how steep emissions cuts will have to be in order to give ourselves a good chance to stay below the 2°C target, given different peak emissions dates (Figure 1).

ski slopes

Figure 1: Three scenarios, each of which would limit the total global emission of carbon dioxide from fossil-fuel burning and industrial processes to 750 billion tonnes over the period 2010–2050.  Source: German Advisory Council on Global Change, WBGU (2009)

Clearly our CO2 emissions have not yet peaked – in fact they increased by 1 billion tonnes between 2010 and 2011 despite a continued global economic recession; therefore, the green curve is no longer an option.  There has also been little progress toward an international climate accord to replace the Kyoto Protocol, which suggests that the blue curve does not represent a likely scenario either – in order to achieve peak emissions in 2015 we would have to take serious steps to reduce emissions today, which we are not.  The red curve seems the most likely, but the required cuts are so steep that it is unlikely we will be able to achieve them, which means we are indeed likely to surpass the 2°C target.

Thus it is worth exploring the question, what would a world with >2°C global surface warming look like?

Global Warming Impacts

The 2007 IPCC Fourth Assessment Report (AR4) summarizes the magnitudes of impact of various degrees of warming here, and graphically in Figure 2, relative to ~1990 temperatures (~0.6°C above late 19th Century temperatures).

fig spm.2

Figure 2: Illustrative examples of global impacts projected for climate changes (and sea level and atmospheric carbon dioxide where relevant) associated with different amounts of increase in global average surface temperature in the 21st century. The black lines link impacts, dotted arrows indicate impacts continuing with increasing temperature. Entries are placed so that the left-hand side of the text indicates the approximate onset of a given impact. Quantitative entries for water stress and flooding represent the additional impacts of climate change relative to the conditions projected across the range of Special Report on Emissions Scenarios (SRES) scenarios. Adaptation to climate change is not included in these estimations. Confidence levels for all statements are high.  IPCC AR4 WGII Figure SPM.2.  Click the image for a larger version.

Some adverse impacts are expected even before we reach the 2°C limit, for example hundreds of millions of people being subjected to increased water stress, increasing drought at mid-latitudes (as we recently discussed here), increased coral bleaching, increased coastal damage from floods and storms, and increased morbidity and mortality from more frequent and intense heat waves (see here), floods, and droughts.  However, by and large these are impacts which we should be able to adapt to, at a cost, but without disastrous consequences.

Once we surpass the 2°C target, the impacts listed above are exacerbated, and some new impacts will occur.  Most corals will bleach, and widespread coral mortality is expected ~3°C above late 19th Century temperatures.  Up to 30% of global species will be at risk for extinction, and the figure could exceed 40% if we surpass 4°C, as we continue on the path toward the Earth’s sixth mass extinction.  Coastal flooding will impact millions more people at ~2.5°C, and a number of adverse health effects are expected to continue rising along with temperatures.

Reasons for Concern

Smith et al. (2009) (on which the late great Stephen Schneider was a co-author) updated the IPCC impact assessment, arriving at similar conclusions.  For example,

“There is medium confidence that ~20–30% of known plant and animal species are likely to be at increased risk of extinction if increases in global average temperature exceed 1.5 °C to 2.5 °C over 1980–1999”

“increases in drought, heat waves, and floods are projected in many regions and would have adverse impacts, including increased water stress, wildfire frequency, and flood risks (starting at less than 1 °C of additional warming above 1990 levels) and adverse health effects (slightly above 1 °C)”

“climate change over the next century is likely to adversely affect hundreds of millions of people through increased coastal flooding after a further 2 °C warming from 1990 levels; reductions in water supplies (0.4 to 1.7 billion people affected with less than a 1 °C warming from 1990 levels); and increased health impacts (that are already being observed”

Smith et al. updated the 2001 IPCC report ‘burning embers’ diagram to reflect their findings (Figure 3).  On this figure, white regions indicate neutral or low impacts or risks, yellow indicates negative impacts for some systems or more significant risks, and red indicates substantial negative impacts or risks that are more widespread and/or severe.  They have grouped the various climate change consequences into ‘reasons for concern’ (RFCs), summarized below.

smith embers

Figure 3:  Risks from climate change, by reason for concern (RFC). Climate change consequences are plotted against increases in global mean temperature (°C) after 1990. Each column corresponds to a specific RFC and represents additional outcomes associated with increasing global mean temperature. The color scheme represents progressively increasing levels of risk and should not be interpreted as representing ‘‘dangerous anthropogenic interference,’’ which is a value judgment. The historical period 1900 to 2000 warmed by 0.6 °C and led to some impacts. It should be noted that this figure addresses only how risks change as global mean temperature increases, not how risks might change at different rates of warming. Furthermore, it does not address when impacts might be realized, nor does it account for the effects of different development pathways on vulnerability.

  • Risk to Unique and Threatened Systems addresses the potential for increased damage to or irreversible loss of unique and threatened systems, such as coral reefs, tropical glaciers, endangered species, unique ecosystems, biodiversity hotspots, small island states, and indigenous communities.
  • Risk of Extreme Weather Events tracks increases in extreme events with substantial consequences for societies and natural systems. Examples include increase in the frequency, intensity, or consequences of heat waves, floods, droughts, wildfires, or tropical cyclones.
  • Distribution of Impacts concerns disparities of impacts.  Some regions, countries, and populations face greater harm from climate change, whereas other regions, countries, or populations would be much less harmed—and some may benefit; the magnitude of harm can also vary within regions and across sectors and populations.
  • Aggregate Damages covers comprehensive measures of impacts. Impacts distributed across the globe can be aggregated into a single metric, such as monetary damages, lives affected, or lives lost. Aggregation techniques vary in their treatment of equity of outcomes, as well as treatment of impacts that are not easily quantified.
  • Risks of Large-Scale Discontinuities represents the likelihood that certain phenomena (sometimes called tipping points) would occur, any of which may be accompanied by very large impacts. These phenomena include the deglaciation (partial or complete) of the West Antarctic or Greenland ice sheets and major changes in some components of the Earth’s climate system, such as a substantial reduction or collapse of the North Atlantic Meridional Overturning Circulation.

All of these reasons for concern enter the red (substantial negative impact, high risk) region by 4°C.  Aggregate impacts are in the red region by 3°C, and some types of concerns are in the red region by 1°C.

For more details we also recommend Mark Lynas’ book Six Degrees, which goes through the climate impacts from each subsequent degree of warming, based on a very thorough review of the scientific literature.  A brief review of the book by Eric Steig and summary of some key impacts is available here.  National Geographic also did a series of videos on the Six Degrees theme, which no longer seem to be available on their websites, but which can still be found on YouTube.

This is Why Reducing Emissions is Critical

We’re not yet committed to surpassing 2°C global warming, but as Watson noted, we are quickly running out of time to realistically give ourselves a chance to stay below that ‘danger limit’.  However, 2°C is not a do-or-die threshold.  Every bit of CO2 emissions we can reduce means that much avoided future warming, which means that much avoided climate change impacts.  As Lonnie Thompson noted, the more global warming we manage to mitigate, the less adaption and suffering we will be forced to cope with in the future.

Realistically, based on the current political climate (which we will explore in another post next week), limiting global warming to 2°C is probably the best we can do.  However, there is a big difference between 2°C and 3°C, between 3°C and 4°C, and anything greater than 4°C can probably accurately be described as catastrophic, since various tipping points are expected to be triggered at this level.  Right now, we are on track for the catastrophic consequences (widespread coral mortality, mass extinctions, hundreds of millions of people adversely impacted by droughts, floods, heat waves, etc.).  But we’re not stuck on that track just yet, and we need to move ourselves as far off of it as possible by reducing our greenhouse gas emissions as soon and as much as possible.

There are of course many people who believe that the planet will not warm as much, or that the impacts of the associated climate change will be as bad as the body of scientific evidence suggests.  That is certainly a possiblity, and we very much hope that their optimistic view is correct.  However, what we have presented here is the best summary of scientific evidence available, and it paints a very bleak picture if we fail to rapidly reduce our greenhouse gas emissions.

If we continue forward on our current path, catastrophe is not just a possible outcome, it is the most probable outcome.  And an intelligent risk management approach would involve taking steps to prevent a catastrophic scenario if it were a mere possibility, let alone the most probable outcome.  This is especially true since the most important component of the solution – carbon pricing – can be implemented at a relatively low cost, and a far lower cost than trying to adapt to the climate change consequences we have discussed here (Figure 4).

Figure 4:  Approximate costs of climate action (green) and inaction (red) in 2100 and 2200. Sources: German Institute for Economic Research andWatkiss et al. 2005

Climate contrarians will often mock ‘CAGW’ (catastrophic anthropogenic global warming), but the sad reality is that CAGW is looking more and more likely every day.  But it’s critical that we don’t give up, that we keep doing everything we can do to reduce our emissions as much as possible in order to avoid as many catastrophic consequences as possible, for the sake of future generations and all species on Earth.  The future climate will probably be much more challenging for life on Earth than today’s, but we still can and must limit the damage.

Livros sobre a violência e as torcidas de futebol

Gol, guerra e gozo: o prazer pode golear a violênciaGol, Guerra E Gozo – o Prazer Pode Golear a Violência

Por Joaquim Z. B. Motta

Casa do Psicólogo, 2005

 

 

 

 

 

A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje

Por Maurício Murad

FGV Editora, 2007

Violência nos estádios de futebol: um olhar sobre quem faz a segurança (Universidade do Futebol)

Um estudo consistente sobre a relação entre os organismos de segurança e os eventos esportivos no Brasil

Felipe Leivas Alves* e Méri Rosane Santos da Silva

Resumo

Violência e futebol se confundem enquanto produções relevantes dentro de uma sociedade que vem ganhando noções de complexidade. Esta análise buscou uma abordagem da questão da violência nos estádios, partindo da ideia de se verificar a atuação dos órgãos de segurança pública em tais espetáculos e a relação estabelecida entre esses e os torcedores envolvidos em tal processo. Na busca por elementos contribuintes no debate, foram utilizados diários de campo e entrevistas com sujeitos responsáveis pela segurança nos estádios. Diante dos elementos emergentes da pesquisa, foi possível perceber a relação existente entre os órgãos públicos de segurança e os espetáculos de futebol, suas formas de lidar com o fenômeno da violência, bem como se dá a noção de violência com a qual trabalham esses organismos.

 

Introdução

Pensar o fenômeno do futebol atual é analisá-lo diante de diversas possibilidades. A partir das temáticas que emergiram com o decorrer do desenvolvimento desse esporte, a questão da violência nos estádios surge como elemento constituinte nesse processo. Como não encontramos nas referências pesquisadas nenhum estudo que discutisse a questão da violência no futebol na perspectiva dos organismos de segurança, essa temática se fez importante de ser analisada.

Sendo assim, propõe-se um estudo que possa contribuir no sentido de acrescentar informações, acredita-se, incomuns quando o assunto da violência em estádios de futebol é debatido. Para isso, se pretendeu analisar a temática, tomando como objeto de análise os organismos de segurança pública envolvidos no processo, invertendo a lógica presente na maioria dos estudos que tratam sobre esse tema, os quais apresentam as torcidas como foco de pesquisas que abordam a violência no futebol.

Para isso, se apresenta uma análise que tem como objetivo norteador verificar a relação dos órgãos de segurança pública com a temática da violência nos estádios de futebol, buscando elementos que indiquem como se dá a organização de tais organismos, a forma como atuam e a partir de que pressupostos trabalham no sentido de abordar essa questão.

Trabalhar com a ideia de analisar a violência nos estádio de futebol nem sempre apareceu como uma de minhas prioridades na abordagem que possuo com o esporte. Intencionado a desenvolver um trabalho mais voltado para questões técnicas do desporto, a temática do trabalho apareceu como uma oportunidade de desenvolver questões pertinentes ao campo de atuação ao qual pertenço, mas que nem sempre surgem como relevantes, mesmo que possuam relação com as atividades presentes no meu cotidiano.

Interessante foi perceber que, no decorrer da pesquisa, acaba-se deparando com o surgimento de diversos elementos, antes nunca imaginados, em uma partida de futebol. Quando apresentado ao campo de estudo, percebeu-se que elementos imaginados previamente, os quais havia suspeitas que fossem surgir, acabaram por não brotar ou tomaram outras proporções, da mesma forma que outros surgiram de forma surpreendente no decorrer da análise. Nesse sentido, foi importante a realização deste estudo no momento em que se pode confrontar ideias que pareciam estar em um completo estado de conformidade, mas no instante em que se procurou uma abordagem de suas aplicações, surgiram discussões relevantes com relação aos organismos de segurança nos jogos de futebol.

Para que se pudessem buscar elementos contribuintes no debate sobre a questão, alguns procedimentos metodológicos foram tomados. Como se tratou de uma análise qualitativa, que se interessou na busca por dados para posterior análise, foram utilizados dois instrumentos principais de coleta dos dados obtidos. Com o objetivo de levantar as informações relevantes presentes nos ambientes investigados, utilizou-se a ferramenta do Diário de Campo, onde foram feitos os registros de 11 partidas do Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão de 2009, que aconteceram no estádio Aldo Dapuzzo, pertencente ao Sport Club São Paulo e no estádio Arthur Lawson, de propriedade do Sport Club Rio Grande. Tais observações e registros preocuparam-se, em suma, em relatar a organização dos órgãos de segurança envolvidos nos jogos, sua atuação no espetáculo, bem como nos fatos que pudessem contribuir na análise da pesquisa.

Além da confecção do Diário de Campo, foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas com representantes dos organismos de segurança envolvidos nos jogos de futebol, sendo um entrevistado por parte da Brigada Militar e outro do Corpo de Bombeiros. A definição das pessoas para a realização das entrevistas foi realizada pelos próprios órgãos de segurança, tendo sido apenas solicitada a entrevista com os organismos e não com determinados sujeitos de tais instituições.

Ainda sobre o Diário de Campo, como atividade inédita para esse pesquisador, algumas dificuldades foram enfrentadas na realização de tal tarefa. Como o estádio de futebol é um ambiente rico, que proporciona uma gama grande de elementos que acontecem a todo instante, foi difícil estar presente nos quatro cantos ao mesmo tempo. Se fosse possível, convidaria um auxiliar, para que não se perdesse tudo o que acontece nos 90 minutos de cada jogo.

Cabe salientar que, no decorrer da análise dos dados obtidos, aqueles referentes ao Diário de Campo acabaram por não serem utilizados na discussão dos elementos alcançados. Isso ocorreu pelo fato de não haverem nos registros em campo, pontos que pudessem demonstrar relevância nas discussões apresentadas no texto.

Portanto, com o intuito de verificar essa relação existente entre organismos de segurança e espetáculos de futebol, foi necessária a verificação de diversas questões envolvidas nesse processo. Nesse sentido, é que se propõe um debate de três temáticas presentes no tema proposto: a primeira se refere ao futebol moderno e seu envolvimento com as questões da violência, bem como um panorama sobre o futebol brasileiro, aproximando as questões estudadas com o objeto de análise; a segunda dirá respeito aos órgãos de segurança envolvidos na realização de uma partida oficial de futebol, buscando desenvolver uma visão histórica e conceitual dessas instituições e, por fim, far-se-á a discussão dos dados coletados diante do que foi apreendido no decorrer da pesquisa.

Localizando o futebol profissional moderno

Falar sobre o fenômeno futebol nos tempos atuais é pensar em uma atividade com ares de complexidade. Deixar de associar esse desporto com outras questões presentes em nossa sociedade já não é algo distante de nosso cotidiano. Portanto, discutiremos o futebol profissional moderno visto sob o ângulo da atuação dos organismos de segurança nos espetáculos de futebol.

É sabido, que a origem do futebol moderno remonta à Inglaterra do século XIX. O processo de transformação do jogo em esporte culminou em uma série de mudanças na maneira de se praticar o agora desporto, como a criação de regras mais rígidas, a sistematização das funções dentro do campo de jogo etc. Mas, passando a discussão para o foco principal deste trabalho, apontamos a criação da Fifa (Federation Internationale de Football Association) como um marco importante nos rumos do futebol moderno.

Hoje, se sabe que a Fifa possui um papel centralizador nas mais variadas questões relativas à futebol profissional, estabelecendo padrões que são “adquiridos” em todos os lugares do globo em que se pratique futebol. Outra característica importante da instituição é a sua segmentação por todas as partes do globo por meio de federações nacionais, sendo que essas, por sua vez, apresentam atuação pautada sob as diretrizes da Fifa. Além disso, organiza eventos de grande visibilidade mundial, como a Copa do Mundo, que hoje é vista não só como um acontecimento reduzido somente à disputa esportiva, mas também como um tempo/espaço para oportunidades de negócio, como afirma Heloisa dos Reis Brunhs, em seu texto “Relação entre futebol moderno e Sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador”, em que diz:

Em torno não só do futebol, mas também da realização da Copa do Mundo de Futebol, criou-se um mundo do negócio milionário e que atrai os mais diferentes setores, como, por exemplo, o turismo, a indústria têxtil e de calçados, – particularmente de materiais esportivos, além da criação de novos profissionais, todos esportivos – os empresários, advogados, juízes, economistas, gestores e dirigentes (2005. p, 6).

Nesse sentido, buscando uma vinculação com o objeto de estudo deste artigo que trata das questões referentes à órgãos de segurança pública e espetáculos de futebol, vislumbro uma discussão em que se possa associar a unidade Fifa como mentora dos rumos de todo e qualquer campeonato de futebol profissional no mundo e mais precisamente aqui o Campeonato Gaúcho da Segunda Divisão. Quem estabelece os dias dos jogos? Os horários? A organização do espetáculo? Se observarmos a relação macro e “micro” nos jogos pelo mundo, veremos semelhanças que parecem apresentar “padrões”. Jogos geralmente às quartas e quintas, ou aos sábados o domingos, nas tardes e noites, tudo isso “estabelecido” informalmente, mas que parece virar uma verdade para todos os “ramos” de futebol profissional no mundo.

Porém, pensar o futebol desvinculado da sociedade em que está inserido já não parece ser mais uma opção possível, e nesse sentido é que tais “designações” para os dias de jogos acabam por modificar o panorama de um lugar. Pela proporção dos espetáculos de futebol e por sua importância dentro do contexto social atual, as instituições de segurança pública passaram a ter papel importante nesse processo. E nesse contexto é que a centralidade das determinações da Fifa nem sempre vai de encontro às possibilidades dos locais em que se veja futebol profissional, pois não considera as peculiaridades de cada lugar e as possibilidades de cada ambiente. Com isso, pensar o futebol de hoje é vê-lo com um olhar de complexidade, pois além de tratar de questões técnicas de campo ele atinge também setores da vida social-cultural-econômica.

Outros pontos que pode contribuir nessa discussão é o papel da mídia na “venda” do futebol profissional como produto e espetáculo. Veículo cada vez mais dotado de legitimidade e confiança dentro de nossa sociedade possui força em promover qualquer fato que lhe pareça oportuno e rentável.

Aproximando nossa discussão sobre órgãos de segurança e futebol nos estádios, abordemos aqui como a mídia contribui na ideia de transformar um “simples jogos de bola” em algo monumental. A partir do momento em que ela percebeu o quanto pode ser favorável financeiramente esse fenômeno, os veículos de comunicação passaram a explorar diariamente tudo aquilo que “cheire” a futebol. A maioria dos canais de TV reserva nem que seja um comentário sobre futebol profissional, sem falar naqueles que o exploram 24 horas por dia.

Partindo dessa ideia é que percebemos o quanto a mídia tende a vender os jogos de futebol e criar uma necessidade no torcedor de que esse se sinta tentado a investir nesse produto. Ela promove e vende o espetáculo ao mesmo tempo, pois “convida” o torcedor a ir ao estádio, mas também oferece opções para aqueles que fiquem em casa.

Nesse sentido, é que, muitas vezes, na tentativa de engrandecer um jogo de futebol, as organizações midiáticas acabam promovendo algo que “teoricamente” não existe. Constantemente tratam o jogo com expressões de guerra, com ares de uma batalha e que assim o torcedor seria mais um guerreiro dentro do estádio a vencer esse “duelo”. Mas nem sempre esse discurso contribui em um estado de pacificação no ambiente de jogo, transformando um espetáculo em, aí sim, verdadeiros campos de batalha entre torcedores.
Ainda assim, a mídia possui papel “catalisador” na apreciação do espetáculo, promovendo e explorando-o, seja da maneira que for, mas vendendo a ideia ao torcedor da “importância” de ser um agente fundamental nesse processo.

Notas sobre o futebol profissional do Brasil

Falar sobre o futebol brasileiro sob o ponto de vista das diversidades culturais que um país continental como o nosso apresenta nem sempre parece uma das ideias mais fáceis de realizar, contudo, faz-se necessário abordar neste trabalho noções sobre o campo de pesquisa observado. Nesse caminho, será apresentado neste espaço um panorama daquilo que é vivenciado principalmente em termos de futebol profissional no Brasil, seus órgãos de comando, competições etc.

De maneira a iniciar a discussão, se faz necessário realizar uma abordagem de âmbito nacional a respeito do assunto referido anteriormente. Sobre esse aspecto, ressalta-se a presença da Confederação Brasileira de Futebol – CBF , como entidade encarregada pela grande maioria das ações referentes ao futebol profissional no Brasil. Entidade ligada e subordinada à Federação Internacional de Futebol e Associados – Fifa é ela quem, por exemplo, organiza os Campeonatos Brasileiros, desde a Série A até a D, como também a Copa do Brasil, essa constituída inclusive por sua versão feminina.

Mas, saindo um pouco da discussão sobre a CBF, passemos a direcionar a atenção em como funcionam essas competições de nível nacional, realizados no país. Conhecida por reunir os clubes de maior representatividade em cada época, a Série A do Campeonato Brasileiro conta com as grandes potências em termos de futebol no país. Atualmente, funciona com 20 clubes sob a forma de disputa de turno e returno, em que cada equipe joga 38 rodadas, 19 em seu estádio e mais 19 fora dele, alternadamente, e o campeão será aquele que somar o maior número de pontos no total. .O Campeonato Brasileiro da Série A apresenta em 2009 um calendário com início previsto em Maio e término em Dezembro. Algo similar pode também ser observado na disputa do Campeonato das Séries B e C também.

Entretanto, quando se observa os dias e horários dos jogos, nota-se uma alternância nos diferentes níveis. Enquanto, por exemplo, na Série A os jogos são realizados, usualmente, às quartas, quintas, sábados e domingos, os jogos da Série B apresentam dias de jogos nas terças, sábados e domingos. Com relação aos horários das partidas, tanto os da Série A, quanto os da Série B, apresentam horários que variam das 16h até jogos realizados às 20h50. Já os da Série C e D apresentam, em sua maioria, jogos entre 16h e 18h.

Já com relação à Copa do Brasil, como o próprio nome sugere, o torneio é disputado em forma de confrontos eliminatórios e não em turno e returno, sendo composto por 64 clubes, contando com a participação de equipes de todos os estados brasileiros. Os horários dos jogos se assemelham aos do Campeonato Brasileiro da Série A. Realizada no primeiro semestre de cada ano, é fortemente conhecida por também proporcionar ao campeão uma vaga para a disputa da Copa Libertadores, já que o Campeonato Brasileiro proporciona vagas para tal competição da mesma forma. Ainda cabe ressaltar a realização, desde 2007, da versão feminina do torneio, que, em 2009, contou com a participação de 32 clubes, sendo disputada no mesmo molde da masculina.

Saindo um pouco da apresentação sobre os campeonatos nacionais, vale comentar a existência de 26 federações estaduais de futebol, todas ligadas à CBF. Sobre essas, que são órgãos responsáveis, entre outras coisas, pelo suporte aos clubes de cada estado, se observa a tarefa principal de organização dos campeonatos estaduais. Esses, atualmente realizados no primeiro semestre de cada ano, normalmente com duração de Janeiro à Maio, salvo algumas exceções, representam uma das formas de disputa que dão a oportunidade de congregar o maior número de clubes profissionais em torno de uma competição regionalizada.

Trazendo a análise para o espaço e tempo de estudo deste trabalho, no estado do Rio Grande do Sul, verifica-se a presença da Federação Gaúcha de Futebol – FGF, como a entidade responsável em organizar tanto o Campeonato Gaúcho da Primeira Divisão quanto o da Segunda Divisão de Futebol Profissional.

Com relação ao Campeonato da Primeira Divisão, no ano de 2009, a competição contou com a presença de 16 clubes, dispostos em dois grupos. A disputa, realizada em dois turnos, promovendo a realização de jogos entre todas as equipes, obteve nessa edição como campeã a equipe do Sport Club Internacional, vencedora de ambos os turnos. No que diz respeito aos dias de jogos em que foram realizadas as partidas, os dias reservados foram quarta, quinta, sábado e domingo, com horários que variavam entre 16h e 22h. Resumidamente, tal campeonato representa uma disputa entre os clubes que, em anos anteriores, apresentaram os melhores desempenhos técnicos no campo de jogo, já que aqueles que não o obtiveram, se encontram disputando o Campeonato Gaúcho da Série B.

Sobre a disputa da Série B do Gaúcho, a mais relevante para este estudo, já que contempla alguns dos objetos de pesquisa deste trabalho, encontramos algumas diferenças se o compararmos ao da Primeira Divisão. No ano de 2009, a participação dos 23 clubes contrasta, por exemplo, com os 26 participantes do ano de 2008, algo não observado na Primeira Divisão, que conta sempre com o mesmo número de clubes. Tal situação se deve basicamente à falta de interesse ou de recursos econômicos de muitos clubes do estado, já que atualmente não existe uma Terceira Divisão, portanto, impossibilitando o acesso por promoção de divisão.
Em 2009, os tais 23 clubes, dentre eles o Sport Club Rio Grande e o Sport Club São Paulo, ambos objetos deste estudo, foram inicialmente distribuídos em três grupos, e por meio de qualificação e posteriores formações de outros grupos dentro da competição, renderam, ao final do campeonato, o acesso à Primeira Divisão do Campeonato Gaúcho para os clubes classificados em primeiro e segundo lugares.

No decorrer da competição, os jogos foram usualmente realizados as quartas, quintas, sábados e domingos, com horários dispostos entre e 20h30. Porém, por muitas vezes se observou mudanças imprevistas nos horários dos jogos. Muitas destas alterações visavam, entre outras razões, a diferenciação do horário de seus jogos em comparação com aqueles televisionados no mesmo momento, ocorrendo, por exemplo, jogos como o do Sport Club São Paulo e Grêmio Atlético Farroupilha, que foi realizado às 11h.

Transitando pelo debate sobre as torcidas

Hoje já não se percebe o fenômeno futebol sem a participação direta e/ou indireta do torcedor nesse processo. Aliada à noção mercadológica atribuída ao evento esportivo atual, criou-se um pensamento de que o papel do espectador nos jogos de futebol é tão vital para todo o espetáculo quanto para os profissionais envolvidos. Nesse panorama é que, principalmente nos períodos mais recentes, o foco dado às discussões sobre torcida/torcedor ganhou mais visibilidade. Diante disso, abordar-se-á, na discussão seguinte, questões presentes na relação torcida, espetáculo esportivo e órgãos de segurança.

Quando se fala em torcida/torcedor nos eventos de futebol, surge como carro chefe da discussão o conceito de torcida organizada. Altamente ligada à ideia de pertencimento ao clube, esses grupos se distinguem dos demais torcedores por possuírem, entre outras características, uma organização própria, geralmente de forma independente do clube; por sua fácil identificação em detrimento dos torcedores considerados “comuns”, no que diz respeito às suas vestimentas, uma vez que se utilizam de roupas próprias do seu grupo, “diferenciando-se” dos demais espectadores no estádio; por se utilizarem da criação de um espaço, dentro da vida urbana, que lhes possibilite uma visibilidade social enquanto grupo organizado, edificando a ideia em meio ao imaginário social de que devem ser vistos como uma categoria presente no futebol profissional, enfim, passaram a ser um dos mais importantes elementos envolvidos no fenômeno do futebol.

Sobre esses grupos, TOLEDO (1996), citando VELHO (1987), aponta para uma noção à cerca de tais organizações:

Estas organizações de torcedores são formadas por meio das paixões individuais que cada um traz consigo por um mesmo time, mas que, em torno de projetos coletivos, adquirem uma dimensão social pautada por interesses comuns. A organização de tais emoções, gostos e preferências, a priori subjetivos, norteia-se por estes projetos capazes de viabilizar, simbólica e materialmente, um sentido às emoções e expectativas individuais (p. 32).

Assumindo que as análises relacionadas às torcidas organizadas ganharam repercussão dentro das temáticas do futebol profissional atual, muito do que se pensa sobre violência nos estádios de futebol acaba por ser atribuído a tais grupos como forma de associar esses conjuntos a todo e qualquer episódio de confronto.

Sobre esse pensamento, podemos observar por meio do que pensa a Brigada Militar, como esses grupos são vistos por tal instituição: “principalmente nas torcidas organizadas (…) a gente se preocupa mais. Geralmente ali, o problema maior tá ali, do que as pessoas mais isoladas. (…) Geralmente sai dali, é uma preocupação com eles”.

Observa-se que independentemente do que aconteça, sempre se espera, por parte das torcidas organizadas, um episódio de conflito. Muito desta concepção emergiu do momento em que houve a associação entre as torcidas organizadas, típicas do Brasil, e os “hooligans”. Sobre esse assunto, TOLEDO (1996) aponta para uma diferenciação entre tais grupos, buscando um distanciamento entre tais:

A concepção de organização grupal das torcidas organizadas também difere daquela estrutura entre os hooligans que, de modo geral, prima pela transgressão deliberada e pelo anonimato (…) As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo (p,129).

Corroborando com a ideia de Toledo sobre torcida organizada e contrastando com o olhar dos órgãos de segurança sobre tal grupo, podemos observar que, esse grupo de torcedores tem obtido uma abordagem, por meio de exploração midiática e de discussões políticas, que procura problematizar a questão da violência nos jogos de futebol buscando nas torcidas organizadas o objeto fomentador de todo e qualquer tipo de transgressão que ocorra nos espetáculos de futebol. Contrastando com essa ideia, TOLEDO (1996), fala sobre a necessidade de uma reflexão sobre o tema da violência de forma mais ampla:

Longe de pertencerem ao universo estrito dos agrupamentos de torcedores, os fenômenos da transgressão e violência, veiculados de forma dramática por meio do futebol, fazem parte da própria experiência urbana mais ampla vivenciada nas cidades brasileiras: segregação espacial, desigualdades sociais, concepções sobre justiça e a polícia (p. 134).

Outra questão interessante a ser refletida é a percepção concebida pelos órgãos de segurança com relação ao trato com a torcida no estádio. Se analisarmos a fala da Brigada Militar que diz: “o nosso serviço no campo é a segurança da arbitragem e, depois, evitar que haja confronto entre torcedores assim né, qualquer tipo de confronto que haja lá dentro”, verificaremos que, no discurso, a principal função da Brigada Militar está na segurança do árbitro e não nas questões de torcida, contrastando com o que foi indicado anteriormente com relação, por exemplo, das torcidas organizadas, em que havia uma preocupação maior, mas que diante dessa fala já não se pode observar no mesmo sentido citado.

Assim, é que se observa por parte dos órgãos de segurança uma indefinição sobre a sua atuação dentro do espetáculo de futebol como também uma dificuldade em conceituar aquilo que é da torcida ou que papel que ela exerce, pois se nota uma dificuldade tanto em definir a sua preocupação principal dentro do estádio como órgão atuante, assim como definir em que “tipos” de torcedores é que os confrontos possam ocorrer.

Organismos de Segurança: pressupostos e ações

Em tempos atuais, quando se pensa futebol no Brasil, uma das principais preocupações referentes a esse espetáculo tem sido a questão da segurança dentro e fora dos estádios. Fruto de muita discussão científica e política, especialmente a partir da década de 1990, quando casos de conflitos entre torcedores obtiveram maior repercussão pública, esse assunto passou a ser tema da maioria dos debates que envolvem uma partida de futebol.

No âmbito político, inúmeras sansões visando à segurança já foram tomadas por meio de diversas leis e decretos, porém, uma em especial, ganhou maior destaque por sua “pretendida” reformulação no cenário esportivo, em especial no futebol. Tal medida, o Estatuto do Torcedor, surgiu trazendo consigo uma proposta de reestruturação dos locais esportivos, especialmente, os estádios de futebol, buscando uma “assepsia” desses locais, com fins preventivos e de combate à violência. Nesse sentido, analisando a aplicação de tal Estatuto dentro da realidade de nosso futebol, é apontada por RIGO et al (2006) com desconfiança, pois:

Sabemos também que em muitos casos algumas medidas preventivas por parte dos responsáveis pela organização do espetáculo podem evitar trágicos acidentes e muitas cenas de violência Nesse sentido consideramos que mais do que ocorreu durante a sua elaboração é importante que a implementação do EDT aconteça conectada a realidade do mundo futebolístico brasileiro, respeitando as peculiaridades dos clubes, dos jogadores e dos torcedores (p, 236).

Tratar de segurança no futebol é, antes de tudo, debater, analisar, verificar sobre qual espetáculo estamos falando, em qual realidade que ele é aplicado, para que se possa elaborar medidas que busquem, em meio às especificidades do ambiente ao qual elas serão aplicadas, um panorama de controle das atividades referentes ao espetáculo.

No caso do futebol da cidade de Rio Grande (RS), os órgãos de segurança pública envolvidos nos jogos, no campo da conceituação do que é segurança nesses ambientes, deixam entendidos, por meio de suas falas, uma tendência interessante: “a Polícia em geral trabalha em preventivo e ostensivo, ostensivo porque a gente trabalha fardado (…) nos mostrando ao máximo né? (…) e preventivo porque tu está ali para que não aconteça nada, para que a presença do policial faça com que as pessoas se desestimulem a fazer alguma coisa errada(…) para evitar que ocorra um tumulto, para evitar que daqui a pouco tu te estresse lá com um torcedor e queira partir para a paulada com ele. A gente ta lá nesse sentido, preventivo para que não ocorram esses fatos, essa é toda a finalidade do policiamento”.

“Prevenir”, “se mostrar”, essas palavras demonstram uma tendência clara dos órgãos de segurança, na qual a estabilidade nos estádios deve ser atingida por meio, primeiro, de ações concretas, do “corpo a corpo” e, em segundo, pela figura de autoridade que deve ser exposta e “temida” pelas pessoas presentes nas partidas. Diferentemente de como atuam os Bombeiros, que nesse processo se preocupam com as questões estruturais e de material nos estádios , como afirma uma representante desse órgão: “na verdade não há Lei ou Decreto Estadual que regulamente a atuação do Corpo de Bombeiros nos dias de jogos, a função é vistoriar a segurança do Estádio ou Ginásio para liberação do Alvará de Prevenção e Proteção contra incêndios”, o papel da Brigada está mais vinculado à ação de conter e combater as “agitações” presentes no estádio do que propriamente oferecer, atrelada às intenções do Estado, um espetáculo esportivo que ofereça um ambiente organizado e que respeite as pessoas envolvidas .

Sobre a Brigada Militar

Na tentativa de caracterizar essa instituição peculiar ao Estado do Rio Grande do Sul, primeiramente, abordaremos fatos referentes à sua criação e seu estabelecimento como órgão de segurança, para, então, falarmos sobre as questões pertinentes a sua linha de atuação sob uma perspectiva contemporânea.

A Brigada Militar tem sua origem ligada à Revolução Farroupilha, de 1835, que por meio da Lei Provincial nº 7, de 18 de novembro de 1837, instituiu a Força Policial, um órgão responsável por auxiliar na justiça, manter a ordem e a segurança na capital, nos subúrbios e comarcas. Exceto em caso de invasão inimiga, não poderiam deixar de cumprir essas obrigações.

Em 5 de maio de 1841, por meio da determinação do Dr. Saturnino de Souza Oliveira, então presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, ficou estabelecido a mudança da Força Policial para Corpo Policial, na qual se pode observar um destaque maior à tal companhia. Sua principal atuação inicial foi a de agir na tentativa de pacificação da província.

Passado alguns anos atuando como Corpo Policial, podendo ser observada sua participação na Guerra do Paraguai, em 1873, se deu a criação da Força Policial em seu lugar, que manteria algumas características militares anteriores, mas provocaria diversas mudanças em sua estrutura.

Posteriormente, com a Proclamação da República, o estado passou por diferentes adaptações ao novo panorama político e no campo dos órgãos de segurança não foi diferente. Em 1889, há novamente uma substituição na Força Policial, transformando-a em Guarda Cívica do Estado. Em um período curto de tempo, tal corporação obteve diferentes denominações, tais como Corpo Policial, Brigada Policial, Guarda Cívica, mas todas com pequena duração.

Já em 15 de outubro de 1892, a então Guarda Cívica, foi extinta e culminou com a criação da hoje conhecia Brigada Militar, que “nascia” com a função de “zelar pela segurança pública, manutenção da República e do Governo do Estado, fazendo respeitar a ordem e executar as leis” . Apresentando essa denominação, a Brigada esteve presente na Revolução Federalista, Campanha da Legalidade entre outras.

Com isso, por meio de uma busca histórica a respeito do surgimento da Brigada Militar e de suas primeiras ações, chegamos ao momento atual dessa instituição que hoje apresenta inúmeros desdobramentos dentro da sociedade gaúcha e que atua vinculado a estruturas administrativas que a regem dentro de leis, sendo essas capazes de organizar e legitimar a Brigada.

Sob o ponto de vista da Constituição Federal, o item relacionado à segurança Pública estabelece que a Polícia Militar, que, no caso do Rio Grande do Sul, é a Brigada Militar, deve ser vista como um dos órgãos do Estado destinados a preservar a ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (BRASIL, 1988). Ainda sobre o artigo, no parágrafo quinto, que trata especificamente sobre as polícias militares, em que se enquadra a Brigada, fica estabelecida uma outra função além daquelas vistas anteriormente, que é a de policiamento ostensivo.

Contudo, mesmo com as atribuições previstas na Constituição Federal, a Brigada Militar possui espaço dentro da Constituição Estadual do Rio Grande do Sul. Fica localizada mais precisamente dentro do Capítulo sobre Segurança Pública e aparece nos artigos 129 a 132. Nesses, pode se notar uma diferença com relação á disposição presente na Constituição Federal, que fala sobre as funções das polícias militares, sendo que agora fica incluída a função de policiamento externo de presídios e de polícia judiciária militar.

Pode ser citada ainda a Lei 10.991 do Estado do Rio Grande do Sul, em que são definidas as diretrizes que dispõem sobre a Organização Básica da Brigada, que entre muitas competências e cargos, vincula administrativa e operacionalmente esse órgão à Secretaria de Segurança Pública do estado do RS.

Um fato interessante sobre essa corporação atuante no Rio Grande do Sul é a sua denominação diferenciada com relação aos demais estados da União, mas como vimos em sua perspectiva histórica e como afirma o Regimento Interno da Brigada Militar, “a Brigada Militar, instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e na disciplina […] é a Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Sul”.

Sobre o Corpo de Bombeiros

Quando pensamos em Bombeiros, talvez uma das primeiras e principais funções das quais possamos atribuir a esse órgão seja a de combate aos incêndios, o que não nos induz a nenhuma inverdade, certamente, mas quando se faz uma análise mais minuciosa à respeito, é possível observar que outras incumbências também fazem parte das obrigações do Corpo de Bombeiros. É sobre essa perspectiva que trataremos a discussão a seguir, objetivando uma possível conceituação sobre o que é Corpo de Bombeiros (e aqui se entenda aqueles pertencentes ao Estado do Rio Grande do Sul), percorrendo um pouco de sua história e de sua legitimação enquanto órgão público.

Na Porto Alegre de 1895 era notável a expansão urbana do município, principalmente no que se tratava à questão de serviços, com destaque para os transportes, comércio e iluminação pública. Porém, a cidade em meio a tanto crescimento também via seus problemas aumentados. Incêndios eram cada vez mais difíceis de serem controlados em meio a ruas que se amontoavam umas por cima das outras, nascidas pelo aumento da cidade e também ainda pelo pouco aparato material que continham os corpos de voluntários, que mesmo desorganizados tentavam agir em meio aos acontecimentos, já que a cidade não possuía um serviço oficial para tal fim.

Diante desse panorama é que as Companhias de Seguros instaladas em Porto Alegre, sofrendo economicamente com as queimadas constantes, se organizaram e fundaram um Corpo de Bombeiros, administrando e estruturando-o. A iniciativa das Companhias oficializou o primeiro Corpo de Bombeiros da cidade, com aparelhamento semelhante ao das principais capitais do país na época. Foi então que em 1º de março de 1895 que a ideia de corpo de Bombeiros no Rio Grande do Sul surgiu, inicialmente com o efetivo de 17 funcionários, sendo 10 chamados de “soldados de fogo”, que contavam com um carro de bomba manual puxado por parelhas de cavalos usados no combate à incêndios na cidade de Porto Alegre.

Passados cerca de 40 anos, já era consenso nas Companhias que com os avanços nas exigências de serviços na cidade de Porto Alegre, o aumento de materiais mais modernos exigia mais recursos e, portanto, era vinculada a ideia de que esse serviço de Bombeiros fosse assumido pelo Governo ou Município, o que já era prática comum em grandes cidades. Nesse sentido, é que, em 27 de junho de 1935, o General Flores da Cunha, interventor no Governo do RS, emitiu um decreto transferindo a responsabilidade do corpo de Bombeiros, à época particular, de Porto Alegre à brigada Militar. Tal medida contribuiu no sentido de melhora estrutural dos Bombeiros, que agora usufruiriam dos recursos da Brigada Militar. Mas mesmo com o crescimento técnico obtido após a unificação do CCB (Comando do Corpo de Bombeiros) com a BM, por meio do Decreto 20.277 de 1970, a diretoria dos Bombeiros e seus órgãos foram desativados, transformados em Pelotões Especiais de Socorro, com subordinação às unidades de Policiamento. Durante o período de 1970 a meados de 1974, o que se pode observar foi um sucateamento do CCB.

Entre idas e vindas, depois de decretos e mais decretos, extinções e ressurgimentos dos Bombeiros, em 2002, o CCB foi novamente religado à Brigada Militar, com o objetivo de: “planejar, organizar, fiscalizar, controlar e instruir, é também responsável pelas atividades técnicas de bombeiro em todo o Estado, bem como pela orientação e instrução dos serviços auxiliares de combate a incêndio” . Cabe salientar que em 1997, com a reestruturação da Brigada Militar em 1997, foram criados 8 Comandos Regionais de Bombeiros, sendo que, em Rio Grande/RS (espaço desta pesquisa), se encontra atualmente o 3º Comando Regional de Bombeiros. Hoje, o CCB conta com três divisões principais que são: Divisão Técnica de Prevenção de Incêndio e Investigação, Divisão de Operações e Defesa Civil e Divisão Administrativa.

Agora, trazendo a discussão sob o ponto de vista legal, daquilo que organiza o Corpo de Bombeiros, temos em âmbito nacional, visto na constituição de 1989, uma pequena citação no art. 144, que trata sobre Segurança Pública que considera o Corpo de Bombeiros como um dos órgãos destinados a preservar a ordem social, como também cita no parágrafo 5º do mesmo artigo, ao determinar que cabe aos Bombeiros, além daquilo previsto na lei, a execução de atividades de defesa civil.

Considerando o que diz respeito ao Corpo de Bombeiros no estado do Rio Grande do Sul, observamos que no Decreto 42.871 de 2004, a localização do CCB dentro da Brigada Militar. No art. 3º, inciso II, nota-se que o Comando do Corpo de Bombeiros é compreendido como um órgão de apoio à BM, cabendo, de acordo com a seção II, do capítulo que trata dos comandos regionais e especiais, “administrar e executar as atividades de bombeiros, defesa civil e de segurança pública em seus respectivos espaços de responsabilidades territoriais, e também as atividades administrativo-operacionais dos OPM que lhes são subordinados” .

Futebol e organismos de segurança: uma relação a ser analisada

Aproximando essa discussão com o tópico tratado neste trabalho, que verifica a relação dos órgãos de segurança com os espetáculos de futebol, observar-se-á que surgem elementos interessantes que serão abordados a seguir.

Inicialmente, faz-se necessário discutir o envolvimento dos organismos de segurança em eventos como são os jogos de futebol.

Em termos organizacionais, a Brigada Militar, órgão presente nos dias de jogos, apresenta dois artifícios que norteiam sua atuação nos espetáculos. Um deles são as ordens de serviço, uma espécie de documento prévio que delega quais funções cada Brigada irá executar dentro do estádio, ou fora desse. Desde quem vai cuidar da segurança do árbitro até aqueles que trabalharão nas arquibancadas, tudo é estabelecido dentro desse documento, assim como são definidos, nas escalas, aqueles que serão incumbidos de participarem dos eventos, ou seja, uma forma de estabelecer aqueles brigadeanos que estarão presentes no estádio.

Basicamente, são esses os procedimentos utilizados pela Brigada Militar no que se refere à sua atuação e planejamento com relação aos jogos de futebol na cidade de Rio Grande(RS), como aponta um representante da BM: “todo o tipo de serviço da Brigada funciona assim, nada é feito ao “léu” assim, tem ordem de serviço para tudo, não só para o campo de futebol, qualquer operação”.

Já em termos conceituais, por parte da Brigada, o termo violência aparece vinculado a algo próprio das torcidas, uma tendência quase que “natural” desses grupos, uma vez que é apontado diante de uma fala da Brigada que:”já é diferente se eu sei que vai ter São Paulo e Brasil de Pelotas, aí eu sou obrigado a escalar um efetivo maior, porque eu sei que vai dar problema, porque é um jogo que dá problema, justamente por essa rivalidade que tem Rio Grande e Pelotas”.

Partindo do entendimento dessa fala, se percebe a noção de que a presença de policiamento nos estádios de futebol está mais relacionada à possibilidade de que ocorra algum episódio de violência do que propriamente da necessidade lógica de que esse serviço tenha que ser oferecido em tais ambientes. Interessante é pensar que não são só as partidas de futebol que produzem uma presença massiva de público, ou seja, outros eventos também a mesma perspectiva de concentração de pessoas, mas parece haver, nos estádios de futebol, uma tendência maior de que situações de conflito aconteçam. Sob essa questão, REIS (2005) contribui para essa discussão, afirmando que:

As formas de violência observadas em estádios de futebol são similares às presentes em eventos de multidões, o que respalda a análise de que a violência não é fruto do futebol em si, mas está associada aos eventos futebolísticos por vários fatores, e, em nosso país, podemos dizer que há uma cultura do vínculo de uma relação quase simbiótica entre futebol e violência (p. 117).

Partindo dessa suspeita com relação ao trato com as partidas de futebol e buscando uma análise com relação à atuação dos órgãos de segurança em tal evento, se percebe uma desvalorização de aspectos inerentes ao jogo de futebol, uma vez que esse ambiente produz situações próprias, o público envolvido gera momentos que são únicos daquele espaço/tempo, e que, normalmente são sufocados ou desprezados por quem é incumbido de realizar a segurança nesses lugares. Pensar uma partida de futebol e um show musical, por exemplo, é considerar que diferentes emoções estão envolvidas, das mais variadas motivações com relação ao evento podem ser esperadas, como também, que a configuração espacial também é, no mínimo, diferente.

No sentido de corroborar essas ideias apresentadas, são apresentadas algumas falas que indicam essas tendências: “só que no pequeno evento a gente vai tranquilo, menos efetivo, não é tão preocupante. (…) Tudo o que acontece aqui acontece em outros lugares (…) é a mesma coisa trabalhar aqui, lá no Olímpico, no Beira-Rio”.

Entretanto, do ponto de vista dos órgãos de segurança, independentemente do evento, a atuação deve ser a mesma. Elementos que possam caracterizar um lugar, um estádio, uma torcida não são levados em consideração na atuação da Brigada Militar. Para corroborar com esse pensamento, surge um depoimento do representante da Brigada Militar, afirmando que “a diferença é só em termos de efetivo O serviço é sempre o mesmo,o que nós temos que fazer em um grande evento, nós temos que fazer em um pequeno evento também”.

Não considerar as diferenças é acreditar na padronização de comportamentos. Nesse sentido, se pressupõe que, diante de uma unificação no modo de agir nos espetáculos de futebol por parte dos órgãos de segurança, estaria implícita uma intenção de criar no imaginário dos espectadores presentes nos estádios, uma uniformização no modo de torcer, modelando os sujeitos a um “jeito” de se portarem nas arquibancadas que fosse aceitável dentro de padrões esperados de um cidadão.

Contudo, ao analisarmos uma torcida de futebol, veremos que não há uma universalização no modo de torcer. Cada torcida apresenta configuração própria, influenciada por diferentes questões e locais, portanto, difícil é imaginar em uma uniformização no modo de portar-se e viver o futebol nas arquibancadas.

Ainda, cabe ressaltar uma discussão sobre a relação dos órgãos de segurança públicos em eventos, essencialmente, de cunho privado que são os jogos de futebol profissional. Se por um lado os jogos de futebol envolvem grandes massas, sendo locais com considerável aglomeração de pessoas, e que talvez seja uma justificativa para a presença dos órgãos de segurança nesses ambientes, não se pode conceber esses eventos como de interesse da vida pública, uma vez que possuem caráter privado por serem organizados por instituições particulares. Nesse sentido, considerando a Polícia um órgão de interesse do Estado, sob o ponto de vista lógico, qual a relação desses organismos com eventos produzidos de maneira privada? Sobre essa questão, uma fala retrata bem como os órgãos de segurança pública encaram esse assunto: “mas mesmo assim é missão nossa, é missão constitucional da Polícia Militar atuar em eventos esportivos (…) uma determinação que as Polícias Militares, elas estejam presentes onde haja qualquer tipo de aglomeração de pessoas, de qualquer evento que possa causar algum tumulto, que tenha necessidade, então é permissão constitucional”.

Conclusão

Vistas como umas das principais instituições públicas no nosso Estado, a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros apresentam, em termos históricos, um envolvimento nas questões sociais, que os proporcionaram um status de referência enquanto órgãos de segurança pública. Tanto o é que, somente no estado do Rio Grande do Sul, a Polícia Militar possui uma denominação diferenciada, sendo conhecida como Brigada Militar, visto sua importância dentro da sociedade gaúcha.

Tendo o futebol como um elemento produzido pela nossa sociedade, o qual, inclusive esses órgãos de segurança aparecem envolvidos, apresenta diversas ramificações no interior de nosso cotidiano, percebemos a importância desse desporto nos acontecimentos de nossa comunidade. Pensar que o futebol moderno determina, em meio a suas peculiaridades, como por exemplo, os horários de suas partidas, os funcionamentos de uma cidade, a organização espacial dessa, podemos pensá-lo em uma das atividades que, atualmente, fazem parte dos elementos constituintes de nossa sociedade.

Sobre esse futebol, alguns elementos aparecem como importantes em sua discussão, primeiro, a torcida, elemento, hoje visto como um das partes que constitui o espetáculo do jogo de futebol; em segundo lugar, a preocupação crescente com questões de segurança nos estádios de futebol, tema bastante debatido em tempos atuais; e a relação existente entre os organismos de segurança e os eventos esportivos, no caso, o futebol e seus desdobramentos.

Sob o ponto de vista das discussões sobre as partidas de futebol profissional, identifica-se que a presença da Brigada Militar, no caso do Rio Grande do Sul, e do Corpo de Bombeiros constitui um fato demarcador sobre os órgãos envolvidos nesse evento. Os Bombeiros, como órgão preocupado com questões estruturais e de combate a incêndios, possui uma atribuição mais relacionada à vistoria nos ambientes esportivos, do que propriamente de atuação nesses eventos, função essa, destinada à Brigada. Essa por sua vez, assume papel centralizador nas questões que dizem respeito a tudo que envolve futebol profissional.

No que diz respeito à Brigada, observa-se uma organização baseada em protocolos apenas voltados às questões de atuação, seja por ordem de serviço ou escala, mas que produzem a ideia de não haver uma preocupação em debater questões pertinentes a um jogo de futebol, no que diz respeito a elementos próprios de cada partida. Mesmo com essas intenções de protocolo, pareceu haver uma flexibilização diante de diferentes situações, uma vez que, o discurso apontava para uma organização-padrão diante de certas partidas, contrastando com o observado, já que, em algumas vezes, o número de efetivo não foi condizente com aquele apontado nas falas das pessoas entrevistadas.

Uma outra questão bastante importante nessa análise, centrou-se no papel estabelecido pela Brigada de se preocupar, prioritariamente, com a segurança da arbitragem, definido como função principal desse órgão nas partidas. Fato esse, não observado tanto nos jogos como nas entrevistas, já que, constantemente, foi veiculado uma obrigação da presença da Brigada quando se tratasse de eventos com multidão, bem como um discurso que apontavam as Torcidas Organizadas como o elemento causador de preocupação por parte da Brigada dentro do espetáculo. Enfim, muito do que se observou no discurso produzido por aqueles da Brigada Militar apontavam para uma realidade não observada no ambiente de atuação desse órgão, deixando claro que são várias as preocupações dentro de um jogo de futebol, mesmo que isso não apareça quando se observa o pensamento dos organismos de segurança.

Diante do que foi refletido, analisado, verificado, dois fatos surgiram como de necessidade para posteriores estudos. Primeiro, fica claro que os órgãos de segurança buscam, por meio de ações baseadas em um modelo pré-estabelecido, uma resposta padrão por parte dos espectadores nas arquibancadas, apontando para um comportamento definido do “torcer”.

Ainda, especula-se a necessidade de abrir um debate sobre a localização de um órgão de utilização pública dentro de um evento prioritariamente privado, sendo necessária a análise de quais argumentos co-relacionam ambos, buscando uma problematização do tema surgido a partir do estudo das questões de órgãos de segurança nas partidas de futebol.

Em suma, o estudo da violência nos espetáculos de futebol passa pela verificação de alguns aspectos constituintes de todo esse processo complexo que é uma partida de futebol. Como elementos incluídos nesse fenômeno, os organismos de segurança apresentam papel importante e decisivo na organização do espetáculo e das pessoas, entretanto, necessitariam de uma maior observação dos elementos presentes nas partidas, bem como de um debate que aproximasse a sua atuação com elementos conceituais, de forma a enxergar nos eventos de futebol algo mais complexo do que pode parecer.

Bibliografia

DAOLIO, Jocimar. Futebol, cultura e sociedade. Campinas, SP: Autores Associados, 2005.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 2002.

REIS, Heloisa H.B; ESCHER, Thiago A. A relação entre futebol e sociedade: Uma análise histórico-social a partir da teoria do processo civilizador. In: Simpósio Internacional do Processo Civilizador, IX, 2005, Ponta Grossa (PR).

RIGO, Luis C. et al. Estatuto de Defesa do Torcedor: um diálogo com o futebol pelotense. Revista Movimento, v.12, n.02, p. 223-239, maio/agosto, 2006.

TOLEDO, Luiz H. Torcidas organizadas de futebol. Campinas (SP): Autores Associados/Anpocs, 1996.

< http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/museubm/index.html&gt; Acesso em: 29/03/2010

< http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/ > Acesso em: 03/04/2010

< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/_ConstituiçaoCompilado.htm > Acesso em: 16/04/2010

< http://www.al.rs.gov.br/prop/legislacao/constituicao/constituicao.htm#T04C01 > Acesso em: 24/04/2010

*Acadêmico do Curso de Educação Física-Licenciatura da Universidade Federal de Rio Grande-FURG e Treinador da categoria sub-13 do Sport Club Rio Grande/RS. E-mail: felipzzz@hotmail.com

(1) Órgão maior responsável pelo futebol profissional no Brasil, que possui vinculação à FIFA.

(2) Seguindo a ideia de TOLEDO (1996), umas das características dos membros pertencentes às Torcidas Organizadas passa pela idéia existir, nesses grupos, uma congregação de paixões individuais em torno de uma mesma instituição, de maneira que emoções, gostos e preferências expressam-se de forma coletiva.

(3) Para mais acessar: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/museubm/index.html

(4) Aqui se refere a algo aparente ou aquilo para se mostrar.

(5) Para mais acessar em: http://www.brigadamilitar.rs.gov.br/bombeiros/hist-rs.html

(6) Para mais, ver no decreto 42.871, de 04 de fevereiro de 2004 do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que Regula a Lei de Disposição Básica da Brigada Militar.

Heloisa Reis, estudiosa da relação futebol x violência (Universidade do Futebol)

Na entrevista a pesquisadora trata do tema violência no futebol e seus reflexos sociais

Marcelo Iglesias

03/07/2009

Para os apaixonados por futebol, ir aos estádios assistir às partidas é uma experiência única de prazer. No entanto, por conta da violência que se observa em dias de jogos e pelas condições precárias de segurança, de conservação e de serviços que são oferecidas no Brasil, o momento genuíno do torcedor perde muito do seu valor.

Em alguns países em que a violência nos dias de jogos de futebol também era um problema grave, houve alterações nas leis para punir exemplarmente os causadores de episódios de tumulto. Além disso, foram realizadas melhorias nas condições dos estádios para que o público, agora visto como consumidor do espetáculo, pudesse desfrutar daquele momento da melhor maneira possível. Com isso, a própria população passou a enxergar o futebol de forma diferente, e a modalidade ganhou status de grande evento.

“Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas”, contou Heloisa Reis, professora assistente da Universidade Estadual de Campinas, graduada, mestra e doutora em Educação Física, atuando com ênfase em Sociologia do Esporte, Lazer e Pedagogia do Esporte, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Pensando no problema sério que se tornou a violência entre torcedores, dentro, no entorno e no caminho para os estádios, e na maneira como outros países fizeram para minimizar os casos de violência em dias de jogos, Heloisa Reis desenvolveu um estudo sobre o tema comparando o Brasil com a Espanha.

Durante a entrevista, ela falou sobre as conclusões dessa pesquisa, além de expor a sua opinião sobre algumas medidas governamentais brasileiras que visam a redução da violência nos estádios, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas. A pesquisadora também se posicionou em relação à preparação do Brasil para a Copa do Mundo de 2014.

Universidade do Futebol – Quais são as raízes da violência no futebol brasileiro?

Heloisa Reis – Elas estão centradas em dois focos: um macroestrutural e um microestrutural. Esse, eu chamo de ambiente do futebol e aquilo que está relacionado à infraestrutura dos estádios. Os países que montaram uma política de prevenção à violência com sucesso tomaram como principio básico a melhoria das estruturas dos locais de jogo e da organização do espetáculo.

Nessa atmosfera, alguns aspectos que mais têm relação com a violência são a venda dos ingressos, a maneira como os torcedores são conduzidos para dentro dos estádios e a sua abertura com grande antecedência. Seria interessante oferecer partidas preliminares para estimular os torcedores a entrarem antes, além da comercialização de ingressos de maneira mais eficiente.

Incluo nessas questões microestruturais, mas que também fazem parte das macroestruturais, um grupo de agentes de segurança especializados, que entendam mais a problemática da violência e conheçam o público de futebol, tratando-o como gente, e não como animais.

No entanto, quando se fala em raízes, temos que considerar mais a questão macroestrutural. Nós ainda vivemos em uma sociedade em que a violência é predominante em várias esferas. Sendo assim, tem-se o uso abusivo de armas de fogo, o que tem uma relação com o crescimento de homicídios no futebol.

Mais do que isso, as condições de moradia são precárias, a juventude está ociosa e a qualidade das escolas é muito baixa. Apesar de nos últimos anos ter-se aberto mais o acesso da população à escola, a qualidade do ensino caiu muito.

Essa questão da escolaridade de baixa qualidade desestimula os jovens ao estudo e faz com que eles não tenham projetos de vida em sociedade, o que os leva a procurar os seus iguais em grupos em que as maneiras de expressar, via de regra, são pela violência.

Outro ponto que deve ser destacado nessa questão das raízes é a exacerbação dos valores de masculinidade expressos por meio do futebol e por meio do esporte espetáculo, de modo geral, o que criou a cultura de que o esporte é para os homens, de maneira que, demonstrar nesses ambientes futebolísticos que se é agressivo, violento e forte, passa a ser uma marca distintiva de gênero, de masculinidade. Isso é uma questão mundial, não só brasileira, e que se atribui como a principal raiz da violência relacionada ao futebol.

Universidade do Futebol – Qual o melhor caminho para acabarmos com a violência entre as torcidas? Que medidas devem ser tomadas pelas autoridades?

Heloisa Reis – É importante que se coloque que o problema da violência é muito complexo e que abrange uma série de motivos, raízes e agentes que têm de ser modificados.

Então, a expressão que se poderia utilizar para sermos mais corretos sobre esse assunto é: como fazemos para minimizar os casos de violência que acontecem no futebol? É nessa perspectiva que se trabalha na Europa e que eu trabalho aqui no Brasil.

Acredito que para ocorrer a redução dessa violência, há que se diminuir, também, a impunidade no Brasil. A falta de punição, tanto nas questões relacionadas com a violência no futebol quanto no que se refere aos nossos políticos (a Câmara e o Senado), tem de mudar. Os governantes passam a ser modelos para a juventude. Muitas vezes eu ouvi torcedores dizendo que “os nossos exemplos, os políticos, são corruptos, não são sérios e não fazem o seu papel. Por que estão cobrando de mim que só quero ser respeitado e ter dignidade para assistir a um jogo de futebol?”.

Portanto, tem-se a impunidade como a grande inimiga da diminuição da violência na sociedade como um todo e, particularmente, no futebol. Por que particularmente no futebol? Porque é nesse ambiente que se concentra o maior número de jovens do sexo masculino, grande parte deles com a intenção de se auto-afirmarem, torcendo, sendo agressivos, alimentando a intolerância e as individualidades.

É preciso fazer modificações nas leis para que existam instrumentos legais de punição efetiva para aqueles que cometem crimes ou transgressões graves nos dias de jogos de futebol. Além disso, o Estado deve trabalhar junto às torcidas organizadas, tendo como intermediário a universidade, pois ela possui profissionais competentes e mecanismos para oferecer à população masculina jovem, que se concentra nessas entidades de torcedores, atividades de lazer esportivo de qualidade e oficinas as quais vão tratar das questões mais graves da juventude atual: o uso abusivo de álcool, responsável por parte da violência nos dias de jogos, e o uso de outras drogas não-lícitas, principalmente a maconha, a cocaína e o crack, os quais são usados dentro dos estádios com a permissividade da Polícia Militar.

Portanto, juntamente com as novas leis, há de se realizar campanhas educativas e projetos de desenvolvimento pessoal para esses jovens do sexo masculino, em parceria com as torcidas organizadas (todas elas). Essa é uma questão.

A outra, no âmbito do Estado, do governo, é a urgente retomada dos trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência. Porque ela, que foi sugerida por mim e criada pelo presidente da República em 2004, tem como objetivo reunir os maiores especialistas sobre o tema para propor mudanças na lei, montar um arquivo nacional das ocorrências de violência e sugerir mudanças de curto, médio e longo prazos para prevenção e diminuição da violência nos dias de jogos.

Contudo, na época, essa comissão não foi constituída pelos melhores especialistas, mas sim pelos amigos do ex-ministro Agnelo Queiroz, responsável por indicar os seus membros. Mas, enfim…

Nos anos 2005 e 2006, a comissão foi coordenada por Marco Aurélio Klein, um sociólogo e especialista em marketing esportivo, e conseguiu elaborar um relatório com muitas qualidades, o qual ouviu os torcedores e vários especialistas. Só que esse trabalho está estagnado. Foi feita a primeira fase do projeto proposto e nunca mais a comissão se reuniu. É preciso que isso seja retomado.

Por outro lado, tenho sugerido trabalhos que propõem aos estados que possuem essa problemática mais agravada (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia) que criem comissões estaduais de prevenção da violência, reunindo os seus especialistas para proporem medidas, incluindo nessas discussões os representantes de torcidas organizadas, para que se possa tê-los como aliados na constituição de uma política de prevenção estadual e nacional de prevenção da violência.

Universidade do Futebol – Muitas pessoas acreditam que a extinção das torcidas organizadas resolveria esses problemas. Qual sua opinião sobre isso?

Heloisa Reis – Essa visão é completamente infundada e absurda, porque não são todos os torcedores organizados que brigam e aqueles que cometem os delitos nem sempre são torcedores organizados. Isso já justificaria a questão.

Conceituo as torcidas organizadas como agremiações de torcedores que se reúnem, inicialmente, para torcer por um clube. Essa associação se faz, principalmente, por membros do sexo masculino (93% dos componentes das principais torcidas organizadas de São Paulo são homens), os quais se juntam, em grande parte das vezes, não pura e simplesmente para torcer, mas para que se forme um grupo em que haja pessoas capazes de discutirem a política do clube, a política de esportes, e uma série de outras questões que, principalmente o jovem (entre 15 e 30 anos, os quais constituem o grosso dessas torcidas), não tem outro espaço para debater.

As escolas e as universidades não têm mais os centros acadêmicos desenvolvidos para a discussão dessas questões, e os ambientes de trabalho não são locais onde as pessoas congregam-se para debater sobre as políticas do país.

Acabar com as torcidas organizadas seria extinguir uma das poucas possibilidades de instituição social criada pela própria juventude. Acredito que seria matar uma juventude que está tentando participar do processo político. Além disso, existe o fato de que nem todos os membros são aqueles que brigam. Acho um tremendo equívoco.

Mais do que isso, o Estado perderia uma grande oportunidade de ter alguma influência sobre essas torcidas, as quais deixariam de ser instituições regularizadas. Outra questão que contribui para a minha posição contrária à extinção dessas agremiações é o fato de se saber que aquelas que não são legalizadas, que se auto-intitulam torcidas organizadas, com grupos pequenos de jovens, são, hoje, o maior problema da violência nos dias de jogos. Essas, normalmente, formam-se em bairros muito distantes, onde há enorme carência de políticas públicas de lazer, de educação, de moradia e de emprego. A partir daí, reúnem-se 10 ou 20 jovens que vão em direção aos estádios pelas estações de trem, de metrô e pela rua, intimidando e ameaçando as pessoas ou grupos de outros torcedores.

Esse fato demonstra que extinguir as torcidas organizadas e jogá-las na clandestinidade, junto de muitas outras, tornará o problema algo muito mais complicado para o Estado.

Porém, o meu posicionamento contrário à pura e simples extinção das torcidas organizadas não exclui a necessidade de punir aqueles grupos de torcedores que cometem crimes em dias de jogos ou mesmo as torcidas organizadas que não se prontificarem a colaborar com a política nacional, exigindo, por exemplo, os antecedentes criminais dos seus associados. Na medida em que se admitem pessoas em débito com a sociedade dentro dessas torcidas, elas também estão sendo coniventes com a violência e com a impunidade.

Universidade do Futebol – Você acredita que imprensa, jogadores e dirigentes também têm sua parcela de responsabilidade pela violência no futebol ao incitarem a rivalidade entre os times?

Heloisa Reis – Eles têm uma enorme responsabilidade. O que acontece nas análises da mídia, em geral, é responsabilizar de maneira rápida e leviana apenas as torcidas organizadas.

Eu penso que o coletivo formado pela imprensa, dirigentes, técnicos e demais agentes talvez seja mais responsável pela violência do que as próprias agremiações de torcedores, porque esses grupos pertencem a uma elite que pode até ser distinguida como intelectualizada. Grande parte deles frequentou a universidade, os dirigentes são parte de uma elite social, os próprios jogadores pertencem à elite econômica do país, e teriam que saber melhor a sua responsabilidade e o seu papel quando se dirigem ao público por meio da mídia.

Em países como a Espanha e a Inglaterra, que minimizaram a questão da violência, fizeram-se leis que criaram responsabilidades não apenas para as torcidas e para os torcedores, mas também para os dirigentes, técnicos e jogadores que façam declarações provocativas.

O que vivenciamos no Brasil nos últimos 12 meses em relação à declaração de dirigentes, certamente, na Espanha, teria resultado em cassações. Houve uma grande incitação da violência por parte dos dirigentes brasileiros, por exemplo, nos episódios em que se falou contra ou a favor da existência de 5% ou 10% de torcedores visitantes nos estádios.

De acordo com uma proposta do Ministério Público para tentar diminuir a violência, os dirigentes não poderiam insultar o outro público que recebeu apenas 10% dos ingressos. Esses dirigentes e representantes dos sindicatos dos técnicos e dos jogadores teriam que ser chamados para uma comissão nacional e outra estadual a fim de que se firmassem acordos e termos de ajustes de conduta com o Ministério Público, que é o instrumento legal adequado para que eles também se comprometam a não proferir declarações que incitem a violência. Por outro lado, a legislação também tem que prever multas e penas mais duras para dirigentes, técnicos, jogadores e imprensa quando um desses personagens incitar a violência.

A imprensa é um ator que merece ser responsabilizado em grande parte, porque poderia dar um foco diferente às entrevistas com dirigentes, não os provocando a declarações em que a intolerância ao outro aparece.

Realizei uma vasta pesquisa com os torcedores organizados do estado de São Paulo, e um percentual muito alto deles tem plena convicção de que são incitados à violência pela própria imprensa na maneira como são veiculadas as notícias durante a semana. Ou mesmo porque a principal emissora de TV do país, segundo os próprios torcedores, privilegia um determinado clube paulista na veiculação maior de jogos dessa equipe do que das demais.

As pesquisas inglesas, de Norbert Elias e Eric Dunning, que foram os principais estudos sobre violência nos anos 1980 e 1990, verificaram que a imprensa falada e a escrita têm grande responsabilidade sobre a violência no futebol, principalmente quando a televisão repete muitas vezes cenas de violência ou quando o jornal utiliza palavras bélicas para relatar os fatos ocorridos no futebol.

O que foi feito, em termos de legislação, na Espanha, para minimizar essa questão? O sindicato da imprensa foi chamado por uma comissão e foi elaborado um termo de ajuste de conduta para que não se repetissem cenas de violência em dias de jogos, ou mesmo de invasão de campo. As imagens de brigas não podem ser exibidas mais do que três vezes durante seis segundos por uma mesma emissora de TV, no mesmo dia. Já as invasões de campo não devem ser veiculadas para não incentivar outras pessoas a agirem da mesma maneira.

Na final da Copa do Mundo da Alemanha houve uma invasão de campo, e o Galvão Bueno comentou que nenhuma emissora do mundo estava transmitindo o acontecido, somente a “Globo”. Mal sabia ele que essa é uma política do Conselho da Europa para que não haja incentivo à invasão de campo.

Para quem gosta de ser o centro das atenções e nunca invadiu um campo, as imagens de invasões podem ser um chamariz. Como o principal motivo dessas pessoas é a aparição pelos meios de comunicação, essas mídias não estimulam as invasões dos campos, deixando de mostrar esse tipo de situação.

Universidade do Futebol – Em abril deste ano, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. No entanto, um contrato entre a Fifa e a Budweiser fará com que a comercialização seja liberada durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O que você pensa sobre a questão? 

Heloísa Reis – É um absurdo! Uma entidade do esporte ditar as regras do que deva e do que não deva ser mudado em um país para que ocorra um evento esportivo é ferir a soberania nacional.

Conseguiram isso com sucesso na Alemanha e estão impondo o mesmo para o Brasil. Encaro como uma questão de desrespeito à legislação e ao povo brasileiro, impondo isso como regra.

Além disso, essa situação demonstra claramente o poder do capital. A parceria da Fifa com uma empresa que só visa lucros e que está pouco preocupada com a saúde da população em qualquer país, porque vende bebida alcoólica e incentiva o seu consumo, acaba sobrepondo-se a uma legislação recém-criada, a qual foi feita a muito custo, com um trabalho enorme do Ministério Público junto à Confederação Brasileira de Futebol.

Na verdade, não foi uma lei que proibiu o consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas dentro e nas proximidades dos estádios, mas sim um protocolo de intenções celebrado, em 31 de agosto de 2007, pelo Conselho Nacional de Procuradores Gerais (CTNG) do Ministério Público dos estados e da União, e pela CBF, para jogos sob responsabilidade da confederação brasileira (Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro). Para os Estados de São Paulo e Minas Gerais, os respectivos Ministérios Públicos também formaram um termo de ajuste de conduta com as federações locais. O de São Paulo foi feito após a guerra do Pacaembu, em 1995, por iniciativa do promotor público Fernando Capez. Os termos nacional e de Minas Gerais tiveram como base as minhas pesquisas, as quais demonstram que existe forte relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a violência em dias de jogos.

De fato, ainda não existe uma lei proibindo, mas há um termo de ajuste de conduta que a CBF vai deixar de cumprir. Esse termo é recente e pode não ter desdobramentos. O meu grupo de pesquisas, por exemplo, está começando a elaborar um texto para enviar à grande mídia e para esse conselho de procuradores, mostrando que a intervenção da Fifa fere o direito de soberania nacional. Até que ponto um país tem que se curvar a uma instituição internacional?

Tenho plena convicção de que essa submissão se dá por conta do grande poder que o capital tem sobre qualquer outro valor humano em uma sociedade como a nossa, principalmente em relação ao capital periférico, que é o caso brasileiro.

Universidade do Futebol – Uma das medidas para reduzir a violência dentro dos estádios e nos dias de jogos seria termos clássicos com a presença apenas da torcida do time mandante. Qual é sua opinião sobre isso? Qual o impacto sociológico no curto, médio e longo prazos de uma medida como essa? 

Heloísa Reis – Primeiramente, uma medida como essa fere completamente a cultura do futebol. Sempre houve acesso aos ingressos por parte dos torcedores visitantes e, de repente, o Ministério Público vê como inviável garantir a segurança de uma quantidade grande de torcedores visitantes e impõe a restrição de 10% de público.

Isso é uma diminuição significativa na quantidade de pessoas, o que facilita o controle por parte dos agentes públicos de segurança. Só que quando se coloca esses 10% em números de espectadores, ainda é uma quantidade muito grande de torcedores visitantes, pois são entre 3.500 e sete mil lugares dos estádios brasileiros.

Existe uma experiência de sucesso na Espanha, onde se permite, em clássicos, nos maiores estádios do país, como, por exemplo, o do Barcelona, de 300 a 500 torcedores da equipe visitante. Funciona muito bem, porque a polícia nacional espanhola consegue dar proteção para esse número reduzido de torcedores. Então, por um lado, a diminuição do número de público visitante ou a sua inexistência pode facilitar o trabalho das autoridades públicas.

Por outro lado, quando essa iniciativa parte do Ministério Público é grave, pois as próprias autoridades estão decretando a falência da instituição que cuida da segurança pública no estado e no país, dizendo que não há condições de se dar segurança para a população em dias de jogos. Isso é muito grave!

Enquanto medida paliativa pode dar resultado. Deu certo na Espanha.

A mídia, de maneira geral, tem dito que isso acontece na Argentina. É mentira. Estive em contato com pesquisadores desse país há pouco tempo e eles disseram que essa experiência ocorreu em apenas um jogo entre River Plate e Boca Juniors, mas não se repetiu porque a população não admitiu esse tipo de mudança cultural no futebol. No entanto, isso é feito na terceira divisão do futebol argentino, na qual a medida foi bem vista.

Penso que, em vez de se proporem soluções mágicas para um problema complexo, já que isso não dá resultado, deve ser atacado em diversas frentes e por diferentes instituições governamentais. Deveria se tomar mais cuidado e agir com mais cautela ao realizar certos tipos de declarações e propostas, trabalhando mais as questões estruturais com projetos junto às torcidas organizadas para aproximá-las da universidade e mostrar que o Estado está preocupado com a juventude e, por isso, está auxiliando no desenvolvimento dos jovens por meio de propostas de lazer e de oficinas que vão ajudá-los no seu desenvolvimento humano, em um sentido mais positivo.

Isso surtiria muito mais efeito do que inflamar os torcedores, dizendo que eles não poderão mais assistir aos jogos como visitantes.

Universidade do Futebol – Você realizou um estudo comparativo entre a violência nos estádios no Brasil e na Espanha. Qual o resultado desse estudo? É possível traçar um paralelo com outros países, como Inglaterra, por exemplo?

Heloísa Reis – Realizei um estudo aprofundado sobre a Espanha, questionando por que diminuiu a violência por lá. Como houve essa redução? Quais eram as raízes dessa violência?

A pesquisa abordou a Europa de maneira geral, porque as ações tomadas na Espanha foram motivadas por um convênio feito no continente em 1985, o que também serviu de base para o que foi realizado na Inglaterra.

É gritante a diferença entre o que se observa no Brasil e o que se faz na Europa. Isso habita exatamente nas questões sobre as quais conversamos de maneira mais detalhada, que passam por uma legislação específica, muito bem elaborada e detalhada, que fez com que praticamente zerasse a impunidade nesses países. Realmente, as pessoas que cometem atos de violência são punidas e se tornam casos exemplares, o que desmotiva outras pessoas a fazerem o mesmo.

Simultaneamente a esses trâmites legais, houve a remodelação de todos os estádios, de maneira que se deu condições de conforto e segurança a todos os torcedores. Além disso, houve uma mudança radical no que se refere à venda de ingressos, motivando as pessoas a comprarem as entradas por temporada, o que minimizou muitos problemas de conflitos na busca por ingressos. Isso, no Brasil, é um dos fatores que mais gera conflitos: ninguém consegue comprar entradas nas bilheterias oficiais, para conseguir é preciso ficar de cinco a sete horas na fila, e ingressos de estudante acabam muito rápido, entre outros agravantes na situação.

Nesses países da Europa sobre os quais estamos falando, também há uma polícia especializada, altamente qualificada e competente para lidar com o público que vai aos estádios.

Resumidamente, essas mudanças, que são necessárias no Brasil, foram realizadas na Espanha e na Inglaterra, juntamente com campanhas educativas, que lá foram feitas em menor quantidade do que eu acredito que precise ser feito no Brasil, porque, nesses países europeus, a população tem educação pública de qualidade, tem, de fato, direitos de cidadão, o que ainda não conquistamos no Brasil, além de terem instituições públicas que protegem o cidadão. Ou seja: existe, verdadeiramente, cidadania nesses países-modelo; no Brasil, não.

Então, o paralelo que tem que se traçar é: o quanto estamos distantes de resolver esses tipos de problema? Porque, para minimizar a violência em dias de jogos temos que levar em conta pelo menos essas frentes que eu apontei, aliadas às questões estruturais de uma população com melhor nível de instrução, com moradia decente, que tenha projetos de vida, com condições familiares e de emprego adequadas. O que não se observa no Brasil.

Universidade do Futebol – Pela sua experiência no tema violência no futebol e na forma como ele é tratado pelas autoridades, seria possível projetar como o país estará na Copa do Mundo de 2014 nesse quesito?

Heloisa Reis – Se as coisas continuarem da maneira como estão, na Copa de 2014 vai estar tudo muito ruim nesse sentido. Isso me preocupa muito e parece que preocupa só a mim, talvez porque eu tenha uma dimensão maior do problema.

Por um lado, pode ser que não aconteçam grandes casos de violência, porque as cidades-sede poderão ser tomadas pelo Exército Brasileiro, como aconteceu no Pan de 2007, o que irá transmitir para as pessoas que estiverem no Brasil durante esses dias uma sensação de vigilância e de repressão que iniba casos de violência. Essa experiência do Pan do Rio de Janeiro mostrou que o governo brasileiro, quando quer colocar a tropa na rua, consegue inibir a violência.

Por outro lado, esse tipo de policiamento não é o melhor e põe em risco a população por não existir uma polícia especializada. Se houver a vinda dos hooligans ingleses e dos aguante (barra bravas) argentinos, será algo realmente preocupante. Existe um ódio muito grande entre a população desses dois países, em função da Guerra das Malvinas, e temo que elas tomem a Copa do Mundo do Brasil para continuar com um conflito político, que foi essa guerra. Acho muito provável que isso ocorra, porque um dos afazeres desses torcedores ingleses é viajar para outros países e causar tumultos que tomem espaço na mídia. Aliado a isso, os aguante também têm motivação de estar nos meios de comunicação. Acredito que esse encontro pode ser muito perigoso, principalmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde eles devem acontecer.

Por isso, se as nossas autoridades continuarem tratando o problema apenas com medidas paliativas, repressivas e autoritárias, não vamos chegar à Copa do Mundo de 2014 com uma política pública de qualidade como é necessário para se prevenir a violência nos estádios. Mas, no evento em si, como citei, pode ser que se coloque as tropas nas ruas, e isso seja uma tremenda intimidação para a população de um modo geral.

Essa questão também estará aliada ao tratamento que a mídia vai dar para a Copa, o que ainda não foi desenhado. É necessário conscientizar a população brasileira de que essa Copa não foi feita para nós. Esse evento vai ser, como sempre foi, para quem tem mais recursos financeiros, para os detentores do capital, que vão comprar os ingressos com muita antecedência.

Para o brasileiro vão sobrar os jogos que ninguém assiste, mas só para alguns brasileiros também. Não para as torcidas organizadas, não para os menos abastados. É importante deixar claro que esse é um macro-espetáculo esportivo que sempre foi das elites e não vai ser no Brasil que também não ficará nas mãos delas.

Universidade do Futebol – Como você acredita que o trabalho da imagem do atleta e a maneira que ele aparece na mídia podem influenciar a sociedade?

Heloísa Reis – A política da Espanha, por exemplo, demonstrou para o sindicato dos jogadores e para os clubes que é necessária a criação de uma imagem diferenciada do jogador. Não como um semideus, como um rei, como um ídolo intocável. É preciso que esses atletas tenham uma imagem de um ser comum que teve a oportunidade e se esforçou para se tornar um profissional bem-remunerado.

Então os jogadores, ao fazerem parte de um grande clube, precisam criar uma imagem exemplar, não ser uma figura que faça propaganda de bebidas alcoólicas ou de outras drogas lícitas. Uma imagem que está muito mais vinculada aos valores positivos do desenvolvimento humano, pessoas que não usam drogas. É inconcebível pensar um jogador fazendo campanha publicitária de uma marca de cerveja.

Além disso, na medida do possível, os jogadores têm que ficar mais próximos da torcida. Ao final do treino, os atletas dirigem-se aos torcedores que estão assistindo à preparação e, eventualmente, conversam com alguém que os procure. Quando estão em público, são atenciosos com as pessoas que se dirigem a eles de maneira educada para não criar a ilusão de que o atleta é uma estrela intangível, o que acaba fazendo com que as pessoas criem um fanatismo mais perigoso do que se for construída uma imagem de uma pessoa comum que, durante aquele momento da sua vida, está servindo a um grupo de torcedores que tem, nesse jogador, uma grande expectativa de despertar de emoções, de acordo com o que ele possa fazer dentro de campo.

É essencial que os jogadores não se envolvam em acidentes de carro estando bêbados. Na Europa, a pressão em relação a isso é muito grande, ao contrário do que acontece no Brasil. Aqui, o atleta envolve-se em acidentes, mata pessoas por estar dirigindo embriagado, e isso passa a ser uma questão privada, e não uma questão pública, como tem que ser. Ele tem que ser um exemplo, e não alguém que é beneficiado e vive a impunidade por ser uma figura pública.

Universidade do Futebol – Você acredita que a Sociologia pode ser uma ferramenta para que os brasileiros entendam a importância de receber uma Copa do Mundo e para que eles se preparem para acolher os turistas das diferentes partes do planeta? Como a universidade pode ajudar nessa conscientização e como ela pode dialogar com a população brasileira?

Heloisa Reis – A Sociologia é uma das áreas do conhecimento que mais podem contribuir para o entendimento da população sobre o que é esse esporte-espetáculo, o que é esse mega evento, e as razões pelas quais a Copa do Mundo acontecerá no Brasil.

A grande contribuição da universidade será como parte da construção de uma política nacional de prevenção da violência da maneira como tentamos fazer.

No entanto, participamos muito menos do que gostaríamos, pois existe uma resistência do Poder Público para que isso ocorra. Eventualmente, ele nos chama. Não falo só sobre mim, mas vários outros professores universitários já desenvolveram e desenvolvem pesquisas sobre o tema e, mesmo assim, são muito pouco acionados.

Acredito que o nosso papel é veicular, por meio da mídia ou por meio de artigos publicados nos meios de comunicação, os resultados obtidos com todas as pesquisas. Creio que não se pode negar entrevistas, não se pode eximir de falar com a imprensa e divulgar os resultados desses estudos.

A questão também passa pela falta de seriedade, pela falta de respeito com a universidade, o que vem até do próprio Poder Público. Ele poderia levar adiante mais sugestões dadas pelos pesquisadores. Isso é parte das instituições brasileiras, pois, na Espanha, por exemplo, a universidade era a voz mais ouvida na comissão em que se sugeriam propostas legislativas e de implementação de políticas educacionais.

Contudo, acredito que seja parte do caminho a ser seguido. Há pouco tempo, não existiam estudos, não havia o Estatuto do Torcedor, e não havia a comissão de prevenção da violência. Hoje, ela não funciona, mas já existe no papel. É um caminho muito lento, mas algumas coisas estão mudando para melhor. A própria cultura governamental ainda não reconheceu o papel que a universidade pode ter.

Por isso, confio que é super importante, por exemplo, o trabalho da Universidade do Futebol, que desempenha o seu real papel: divulgando novas pesquisas, novas tecnologias, novas visões, novas perspectivas e proporcionando várias coisas interessantes para o futebol e para a educação física, também.

Leia mais:
O cravo da violência
Na Europa, combate à violência ganhou força nos anos 1980
Estatuto do torcedor
A venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios e ginásios
Medidas tomadas pela Uefa para conter a violência
A infra-estrutura dos estádios e a gestão do espetáculo futebolístico
Visão psicológica da violência no esporte
Sociologia explica violência das torcidas
O perfil do torcedor brasileiro

Futebol – A gênese da estupidez (Portal Esportivo)

por http://www.portalesportivo.com.br (sem data; acessado em 4 de setembro de 2012)

Maurício Murad, sociólogo e autor do livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias hoje”

O sociólogo Maurício Murad, Coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol da Uerj, é um dos pioneiros nos estudos do impacto que o futebol pode ter na sociedade – ou o contrário. Com vários artigos, capítulos de livros e cinco obras completas publicadas, Murad acaba de lançar pela Fundação Getúlio Vargas, o livro “A violência e o futebol – dos estudos clássicos aos dias de hoje. A obra traça um panorama da relação histórica entre violência e futebol.

Como se deu a relação entre violência e futebol ao longo dos anos?

Maurício Murad “O futebol acaba expressando a violência geral da sociedade. Então, aumentando a violência geral na sociedade, ela tende a aumentar também no futebol. É o que aconteceu no futebol brasileiro a partir dos anos 1980. Também há situações específicas da realidade brasileira que aumentaram a violência. Essas situações são basicamente duas: corrupção e impunidade. A corrupção principalmente policial e dos órgãos da Justiça, que nós temos acompanhado nos jornais. Outro fator que complementa a corrupção, porque um é irmão gêmeo do outro, é a impunidade. Também, à partir de 1996, aumentou o tráfico de drogas entre as torcidas. A polícia sabia, isso foi avisado e muito pouco foi feito para conter”.

Em que nível aumentou a violência no futebol brasileiro a partir dos anos 1980?

Maurício Murad – “As torcidas organizadas começaram no Brasil nos anos de 1940. A primeira é do São Paulo, em 1940, e no Rio de Janeiro é a “Charanga Rubro-Negra”, de 1942. Mas as torcidas entre o início dos anos 1940 e o final dos anos 1960 eram torcidas ‘carnavalizadas’. Famílias iam para o estádio fazer festa, cânticos, batucadas. Havia, inclusive, um concurso no qual a torcida mais animada ganhava uma geladeira, um eletrodoméstico raríssimo na época. No final dos anos 1960, no quadro da Ditadura Militar, começaram surgir essas torcidas organizadas violentas. Elas surgiram observando os padrões de autoritarismo e repressão, de militarismo que reinava naquela época. As torcidas se organizam em pelotões, tropas de choque, em destacamento. Curiosamente, não por coincidência, é época do governo Médici, o mais repressivo da Ditadura Militar.

Só que para essas torcidas, nascerem, crescerem, ganharem corpo e começarem a praticar atos de violência levou um tempo. Então, foi entre 1970 e 1985, que elas nasceram, saíram do papel, foram para a prática e começaram a aparecer nas páginas policiais, porque não houve contenção. Mas é importante frisar que são minorias dentro da organizadas, algo em torno de 5% ou 7%. Mas são minorias perigosas.

Banir as torcida organizadas ajuda a combater a violência?

Maurício Murad – “Houve uma tentativa por parte da Promotoria Pública do Estado de São Paulo – em 1995, após a morte de um torcedor – de acabar com as torcidas organizadas. Eles acabaram com a “Mancha Verde” do Palmeiras, que era considerada a torcida mais violenta do Brasil. A “Mancha Verde” não deixou de existir, ela mudou o nome, passou a se chamar “[Mancha] Alvi-Verde”, com os mesmos dirigentes, os mesmos grupos. Eles deram um drible na justiça.
Não é por aí. Se você tenta acabar com as torcidas você as empurra para a marginalidade, elas deixam de existir legalmente. Com isso se facilita a ação de grupos marginais, grupos infiltrados nas torcidas. Assim, se inibe a participação dos grupos legais, que estão ali para festa, para manifestar seu gosto pelo futebol”.

Como você avalia a cobertura da mídia com relação aos casos de violência nos futebol brasileiro?

Maurício Murad “A mídia acaba ajudando muito a violência. Ela vive como o país todo – e não é só o Brasil, esse é um traço da época contemporânea – a espetacularização. Tudo vira espetáculo, tudo vai para a televisão. A mídia não cria o fato, mas aumenta a sensação dele. Ela tinha que tomar cuidado, ter critérios éticos claros sobre o que publicar e como publicar.

O que as pesquisas provam é que os torcedores que vão para as primeiras páginas dos jornais, ou para a televisão no horário nobre, adoram isso. Eles viram heróis, ficam glamourizados. No entanto, os torcedores que querem defender a pacificação das torcidas sempre reclamam que não tem espaço. A mídia é uma situação dúbia: por um lado, ela aumenta a sensação de violência, mas por outro, ela é um instrumento fundamental de parceria que a gente tem para melhorar as coisa, porque na sociedade da imagem ela é essencial para educar”.

Qual a diferença entre a violência praticada por torcedores europeus para a praticada por torcedores brasileiros?

Maurício Murad – “Eu passei um período na Europa estudando isso e participei de um grupo de discussão da UEFA [entidade máxima do futebol europeu]. Na Europa tem grupos neo-nazistas, grupos contra imigrantes, grupos racistas, o que não tem muito aqui.

Lá tem tráfico de drogas e armas, coisa que aqui no Brasil é muito menor e mais recente. Na Europa tem violência de forma organizada muito maior do que aqui. Em compensação a punição é maior também, a ação dos órgãos de segurança é muito mais rápida e ágil do que aqui. Lá as práticas de violência são maiores e mais graves, mas em compensação a ação da sociedade estruturalmente organizada pela lei e pelos critérios da democracia é muito mais forte, então ocorre mais ou menos um equilíbrio.

O que me surpreende no Brasil é como não acontece uma grande tragédia a cada jogo. A inoperância policial, a falta de planejamento e a ineficácia é tão grande que o difícil não é entender quando acontece um fenômeno da violência, e sim como não acontece sempre esse fenômeno em cada grande jogo”.

The eyes have it: Men do see things differently to women (BioMed Central)

By Hilary Glover

BioMed Central

The way that the visual centers of men and women’s brains works is different, finds new research published in BioMed Central’s open access journal Biology of Sex Differences. Men have greater sensitivity to fine detail and rapidly moving stimuli, but women are better at discriminating between colors.

In the brain there are high concentrations of male sex hormone (androgen) receptors throughout cerebral cortex, especially in the visual cortex which is responsible for processing images. Androgens are also responsible for controlling the development of neurons in the visual cortex during embryogenesis, meaning that males have 25% more of these neurons than females.

Researchers from Brooklyn and Hunter Colleges of the City University of New York compared the vision of men and women aged over 16 from both college and high school, including students and staff. All volunteers were required to have normal color vision and 20/20 sight (or 20/20 when corrected by glasses or contact lenses).

When the volunteers were required to describe colors shown to them across the visual spectrum it became obvious that the color vision of men was shifted, and that they required a slightly longer wavelength to experience the same hue as the women. The males also had a broader range in the center of the spectrum where they were less able to discriminate between colors.

An image of light and dark bars was used to measure contrast-sensitivity functions (CSF) of vision; the bars were either horizontal or vertical and volunteers had to choose which one they saw. In each image, when the light and dark bars were alternated the image appeared to flicker.

By varying how rapidly the bars alternated or how close together they were, the team found that at moderate rates of image change, observers lost sensitivity for close together bars, and gained sensitivity when the bars were farther apart. However when the image change was faster both sexes were less able to resolve the images over all bar widths. Overall the men were better able to resolve more rapidly changing images that were closer together than the women.

Prof Israel Abramov, who led this study commented, “As with other senses, such as hearing and the olfactory system, there are marked sex differences in vision between men and women. The elements of vision we measured are determined by inputs from specific sets of thalamic neurons into the primary visual cortex. We suggest that, since these neurons are guided by the cortex during embryogenesis, that testosterone plays a major role, somehow leading to different connectivity between males and females. The evolutionary driving force between these differences is less clear.”

Sources

Sex & vision I: Spatio-temporal resolution Israel Abramov, James Gordon, Olga Feldman and Alla Chavarga Biology of Sex Differences (in press)

Sex and vision II: Color appearance of monochromatic lights Israel Abramov, James Gordon, Olga Feldman and Alla Chavarga Biology of Sex Differences (in press)

People Merge Supernatural and Scientific Beliefs When Reasoning With the Unknown, Study Shows (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 30, 2012) — Reliance on supernatural explanations for major life events, such as death and illness, often increases rather than declines with age, according to a new psychology study from The University of Texas at Austin.

Reliance on supernatural explanations for major life events, such as death and illness, often increases rather than declines with age, according to a new psychology study. (Credit: © Nikki Zalewski / Fotolia)

The study, published in the June issue of Child Development, offers new insight into developmental learning.

“As children assimilate cultural concepts into their intuitive belief systems — from God to atoms to evolution — they engage in coexistence thinking,” said Cristine Legare, assistant professor of psychology and lead author of the study. “When they merge supernatural and scientific explanations, they integrate them in a variety of predictable and universal ways.”

Legare and her colleagues reviewed more than 30 studies on how people (ages 5-75) from various countries reason with three major existential questions: the origin of life, illness and death. They also conducted a study with 366 respondents in South Africa, where biomedical and traditional healing practices are both widely available.

As part of the study, Legare presented the respondents with a variety of stories about people who had AIDS. They were then asked to endorse or reject several biological and supernatural explanations for why the characters in the stories contracted the virus.

According to the findings, participants of all age groups agreed with biological explanations for at least one event. Yet supernatural explanations such as witchcraft were also frequently supported among children (ages 5 and up) and universally among adults.

Among the adult participants, only 26 percent believed the illness could be caused by either biology or witchcraft. And 38 percent split biological and scientific explanations into one theory. For example: “Witchcraft, which is mixed with evil spirits, and unprotected sex caused AIDS.” However, 57 percent combined both witchcraft and biological explanations. For example: “A witch can put an HIV-infected person in your path.”

Legare said the findings contradict the common assumption that supernatural beliefs dissipate with age and knowledge.

“The findings show supernatural explanations for topics of core concern to humans are pervasive across cultures,” Legare said. “If anything, in both industrialized and developing countries, supernatural explanations are frequently endorsed more often among adults than younger children.”

The results provide evidence that reasoning about supernatural phenomena is a fundamental and enduring aspect of human thinking, Legare said.

“The standard assumption that scientific and religious explanations compete should be re-evaluated in light of substantial psychological evidence,” Legare said. “The data, which spans diverse cultural contexts across the lifespan, shows supernatural reasoning is not necessarily replaced with scientific explanations following gains in knowledge, education or technology.”

Journal Reference:

  1. Cristine H. Legare, E. Margaret Evans, Karl S. Rosengren, Paul L. Harris. The Coexistence of Natural and Supernatural Explanations Across Cultures and DevelopmentChild Development, 2012; 83 (3): 779 DOI:10.1111/j.1467-8624.2012.01743.x

Earthquake Hazards Map Study Finds Deadly Flaws (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 31, 2012) — Three of the largest and deadliest earthquakes in recent history occurred where earthquake hazard maps didn’t predict massive quakes. A University of Missouri scientist and his colleagues recently studied the reasons for the maps’ failure to forecast these quakes. They also explored ways to improve the maps. Developing better hazard maps and alerting people to their limitations could potentially save lives and money in areas such as the New Madrid, Missouri fault zone.

“Forecasting earthquakes involves many uncertainties, so we should inform the public of these uncertainties,” said Mian Liu, of MU’s department of geological sciences. “The public is accustomed to the uncertainties of weather forecasting, but foreseeing where and when earthquakes may strike is far more difficult. Too much reliance on earthquake hazard maps can have serious consequences. Two suggestions may improve this situation. First, we recommend a better communication of the uncertainties, which would allow citizens to make more informed decisions about how to best use their resources. Second, seismic hazard maps must be empirically tested to find out how reliable they are and thus improve them.”

Liu and his colleagues suggest testing maps against what is called a null hypothesis, the possibility that the likelihood of an earthquake in a given area — like Japan — is uniform. Testing would show which mapping approaches were better at forecasting earthquakes and subsequently improve the maps.

Liu and his colleagues at Northwestern University and the University of Tokyo detailed how hazard maps had failed in three major quakes that struck within a decade of each other. The researchers interpreted the shortcomings of hazard maps as the result of bad assumptions, bad data, bad physics and bad luck.

Wenchuan, China — In 2008, a quake struck China’s Sichuan Province and cost more than 69,000 lives. Locals blamed the government and contractors for not making buildings in the area earthquake-proof, according to Liu, who says that hazard maps bear some of the blame as well since the maps, based on bad assumptions, had designated the zone as an area of relatively low earthquake hazard.

Léogâne, Haiti — The 2010 earthquake that devastated Port-au-Prince and killed an estimated 316,000 people occurred along a fault that had not caused a major quake in hundreds of years. Using only the short history of earthquakes since seismometers were invented approximately one hundred years ago yielded hazard maps that were didn’t indicate the danger there.

Tōhoku, Japan — Scientists previously thought the faults off the northeast coast of Japan weren’t capable of causing massive quakes and thus giant tsunamis like the one that destroyed the Fukushima nuclear reactor. This bad understanding of particular faults’ capabilities led to a lack of adequate preparation. The area had been prepared for smaller quakes and the resulting tsunamis, but the Tōhoku quake overwhelmed the defenses.

“If we limit our attention to the earthquake records in the past, we will be unprepared for the future,” Liu said. “Hazard maps tend to underestimate the likelihood of quakes in areas where they haven’t occurred previously. In most places, including the central and eastern U.S., seismologists don’t have a long enough record of earthquake history to make predictions based on historical patterns. Although bad luck can mean that quakes occur in places with a genuinely low probability, what we see are too many ‘black swans,’ or too many exceptions to the presumed patterns.”

“We’re playing a complicated game against nature,” said the study’s first author, Seth Stein of Northwestern University. “It’s a very high stakes game. We don’t really understand all the rules very well. As a result, our ability to assess earthquake hazards often isn’t very good, and the policies that we make to mitigate earthquake hazards sometimes aren’t well thought out. For example, the billions of dollars the Japanese spent on tsunami defenses were largely wasted.

“We need to very carefully try to formulate the best strategies we can, given the limits of our knowledge,” Stein said. “Understanding the uncertainties in earthquake hazard maps, testing them, and improving them is important if we want to do better than we’ve done so far.”

The study, “Why earthquake hazard maps often fail and what to do about it,” was published by the journal Tectonophysics. First author of the study was Seth Stein of Northwestern University. Robert Geller of the University of Tokyo was co-author. Mian Liu is William H. Byler Distinguished Chair in Geological Sciences in the College of Arts and Science at the University of Missouri.