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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

O homem do tempo (Trip)

Cacique Cobra Coral: um espírito que luta contra o desequilíbrio da natureza

11.07.2012 | Texto: Millos Kaiser | Fotos: Abiuro

Foto: Abiuro

Empenhado em “intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”, o espírito do velho Cacique Cobra Coral se manifesta no Brasil e faz clientes entre produtoras de shows, governos e até em casamentos reais

De: The Weather Son
Sent from iPad 3 – from Rio City Maravilhosa

Depois de segurar por mais de dez dias a chuva e o vento para a montagem e o início da Rio+20, o cacique Cobra Coral ficou muito triste com a apresentação do relatório que deve ser ratificado pelos chefes de Estado. Acionado pelo prefeito Eduardo Paes diante da previsão de chuva durante a conferência da ONU, o cacique isolou as áreas do Forte de Copacabana e do Riocentro, onde ocorria a Rio+20, e conseguiu espantar totalmente as nuvens carregadas nesses locais, fazendo uma distribuição da chuva pelo estado do Rio de Janeiro.

O remetente do e-mail “The Weather Son”, o filho do tempo, é Osmar Santos, marido da médium Adelaide Scritori. Juntos, eles são responsáveis pela Fundação Cacique Cobra Coral, criada, segundo o site oficial, “para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Adelaide é a responsável pelo trabalho espiritual (ela prefere o termo “operações”), enquanto Osmar é “o homem do marketing”. “Eu trabalho usando uma conexão concreta, via celular, tablet e notebook, e a Adelaide opera com o cacique, conectada pelo espiritismo”, ele esclarece. A dupla contaria ainda com o auxílio de um professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), de um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e de outros conselheiros – até o escritor Paulo Coelho já foi um deles, entre 2002 e 2004.

Nos últimos dias, o casal estava na fronteira entre Brasil e Argentina, tentando atrasar a chegada de uma frente fria na Rio+20. No antepenúltimo dia do evento, porém, choveu. O cacique errou? “Não erramos a previsão, porque não é isso que fazemos. Alteramos o tempo para atender o povo. Funcionamos como um airbag, mas cada uma das peças do carro precisa também fazer sua parte. E isso não ocorreu. Céu azul não combina com desatenção, insensibilidade e falta de compromisso dos que se acham donos deste planeta. Não passarão incólumes ao crash climático de 2047, quando a Terra não terá mais água, comida ou ar limpo”, justifica Osmar, adiantando de quebra o ano em que será o apocalipse final.

Nem um mês antes, os dois estavam espantando tempestades no Grande Prêmio de Fórmula 1 em Mônaco e no Rock in Rio Lisboa. Terminando a Rio+20, embarcariam para a edição espanhola do festival, em Madri, e de lá seguiriam para Londres, onde dariam uma forcinha na abertura da Olimpíada. São quase todos clientes de longa data. A FCCC mantém convênio com a secretaria de obras do Rio de Janeiro desde o segundo mandato de César Maia, iniciado em 2001. Réveillon, Carnaval, Jogos Pan-Americanos, visitas de Bush, Obama e do papa à cidade… Em todos esses eventos, o cacique estava lá. Desde o mesmo ano, ele também pode dizer “Rock in Rio, eu fui”. Na época, o espírito teria salvado o festival de uma chuva que acometera toda a Barra da Tijuca, com exceção da Cidade do Rock, e convertido Roberto Medina – em sua autobiografia, o idealizador do RIR escreveu: “O cacique quase faz parte da empresa”.

“Contratamos sempre que dá. É satisfação garantida. Quando não dá para mandar a chuva para outro lugar, ele avisa antes” , diz uma produtora de eventos

Já com a Inglaterra a relação é ainda mais antiga, data do inverno de 1987. Londres agonizava sob 30 graus abaixo de zero e a então primeira-ministra Margaret Thatcher pediu socorro dos brasileiros. No dia seguinte, a temperatura já chegava a tolerável um grau negativo. O jornal The Guardian apelidou os milagreiros de “interceptadores de catástrofes”. Acabaram virando queridinhos do gabinete real, a ponto de intercederem no recente casamento do príncipe William com Kate Middleton.

Convênios com órgãos públicos são gratuitos. Em troca, a fundação pede aos governos que apresentem um comprovante de tudo que fizeram para reduzir os danos ambientais. Quem são os clientes particulares ou quanto pagam, a FCCC não revela, dizendo apenas que “eles estão espalhados por 17 países diferentes”. A produtora de eventos Valeria (nome fictício), que utilizou o serviço seis vezes, revela que o preço varia entre R$ 20 mil e R$ 25 mil, dependendo do porte do evento e do tempo de antecedência da contratação.

Contrata-se, na verdade, a Corporação Tunikito, um conglomerado com mais de dez CNPJs (El Niño Administração, Nostradamus Corretora de Seguros, La Niña Metereology, TWX Capas de chuva etc.) cuja sede fica na cidade de Guarulhos, em São Paulo. Osmar explica melhor: “A contratação pode incluir uma série de bens e serviços, como boletins meteorológicos, seguros contra desastres, aluguel de veículos e de capas de chuva. Mas é natural que quem contrate a Tunikito espere uma retribuiçãozinha providencial do cacique, afastando a chuva no dia de seu evento”. A fundação seria mantida com 20% dos lucros da Tunikito.

Iniciais no bolso
Adelaide e Osmar se conheceram quando eram promotores comerciais da Clam Clube de Assistência Médica, uma empresa do Grupo Silvio Santos. “Sempre trabalhamos com vendas”, ele conta. Quando não estão atuando como “senhores do tempo”, Adelaide trabalha como corretora de imóveis de luxo, “de acima de R$ 1 milhão”; o forte de Osmar são os seguros de automóveis.

A Fundação Cacique Cobra Coral foi fundada em 1931 por Ângelo, pai de Adelaide. Ele teria sido o primeiro Scritori a receber o espírito do índio norte-americano, que antes haveria encarnado no ex-presidente Abraham Lincoln e no cientista Galileu Galilei. Adelaide incorporaria também “uma equipe de engenheiros siderais, cada um responsável por um fenômeno da natureza”, e teria o dom de prever o futuro – no site da fundação há a cópia de uma carta supostamente enviada à Casa Branca comunicando ao presidente George W. Bush sobre o atentado de 11 de setembro, um mês antes do ocorrido. Suas habilidades mediúnicas estão sendo transmitidas para Jorge, o primogênito, 33 anos, de seus três filhos, sacerdote em um centro umbandista.

Abiuro

Osmar e Adelaide raramente dão entrevistas. ÀTrip, toparam falar apenas por e-mail, pois pessoalmente, alegaram, “o Astral não permitiu”. A reclusão suscita notícias a seu respeito que nem sempre procedem. Recentemente, por exemplo, a mídia anunciou que o Cacique Cobra Coral havia sido solicitado na gravação do show de Roberto Carlos em Jerusalém. “Eles estavam lá, é verdade”, esclarece Léa, assessora de comunicação do concerto. “Mas a lazer, até porque a cidade é um deserto e não chove nunca. Eles eram convidados da produção, ficaram no mesmo hotel que a gente, porém acabaram indo embora antes do show por causa de um chamado urgente.”

Geralmente, quem vai até os eventos é Osmar. Adelaide fica em um hotel na cidade ou em algum ponto estratégico. “Ele chega e começa a mapear as dissipações das nuvens, medir a umidade relativa do ar. E não larga do laptop”, conta Valeria. Osmar, em suas palavras, é “um senhor extremamente simpático, de aproximadamente 60 anos, pele clara e rosto arredondado, parecido com um executivo de banco”. Dirige um Citroën C3 e suas camisas costumam ter as iniciais de seu nome bordadas no bolso.

Valeria trabalhou com a FCCC pela primeira vez em 2008. Era cética, até que viu a mágica acontecer. “A tempestade era tanta que não dava nem para montar a estrutura do palco. Faltando cinco minutos para o show começar, o céu abriu em cima do palco, enquanto em volta estava tudo preto ainda”, ela rememora. “Depois dessa, contratamos ele sempre que dá. É satisfação garantida. Quando não dá para mandar a chuva para outro lugar, ele avisa antes.” Após se encontrarem em diversos trabalhos, os dois viraram amigos. “Vou ter um casamento sábado que vem. Escrevi para ele perguntando se vai chover, para saber com que roupa devo ir.” A resposta ainda não havia chegado.

Eduardo Coutinho: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo” (Agência Pública)

04/2/2014 – 12h02

por Mariana Rebuá Simões, para a Agência Pública

Eduardo Coutinho Foto Divulgação SESC 600x380 Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Eduardo Coutinho. Foto: Divulgação/SESC

Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o documentarista Eduardo Coutinho não escolhe as palavras para definir o que faz

Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no domingo, dia 2/2, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.

Quando consegui o número de telefone do escritório dele, achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meu pais me disseram.

Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.

Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia.

Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito.

Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.

Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.

Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.

Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.

Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?

Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.

Contra o jornalismo?

Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.

Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?

Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.

Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?

Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.

Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?

Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.

Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?

Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão.

EdificioMaster Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Edifício Master, documentário produzido por Coutinho em 2002

Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master…

É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.

Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse…

Em Copacabana?

Em Copacabana!

A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.

Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.

Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.

Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.

Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?

Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.

Você acha que vocês documentaristas são heroicos?

Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!

O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…

Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.

CabraMarcadopraMorrer Tudo o que eu faço é contra o jornalismo

Cabra marcado para morrer, de 1984

Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?

Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.

Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?

Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.

O Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…

Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.

Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.

Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor, o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.

A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?

Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.

Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?

Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.

Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…

Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.

Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…

Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.

Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…

Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar. Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.

De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?

Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.

Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?

Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.

Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?

Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

Can workshops on household water use impact consumer behavior? (Science Daily)

Date: January 31, 2014

Source: American Society for Horticultural Science

Summary: Researchers studied the effectiveness of workshops designed to focus on residential water conservation using a sample of irrigation water use data for 57 workshop participants and 43 nonparticipants. Results indicated that the 2-hour workshops were effective in reducing attendees’ irrigation water use; however, the effect was short lived. Results also showed that effects of workshop attendance depended on the household sample, and found that water use increased for some low-use workshop participants.

In Florida, where population growth, drought, and saltwater intrusion are affecting finite water sources, researchers are looking for effective ways to educate consumers about household water use habits. Despite an average annual rainfall of 55 inches, Florida was included on the Natural Resources Defense Council’s list of states with the greatest risk of water shortages in the coming years; the daily total state domestic water use in Florida is the fourth highest in the United States. A large proportion of Florida’s water is not used for human consumption, but is used for irrigating residential landscapes. In fact, a recent South Florida Water Management District study reported that outdoor water use in their area constitutes up to 50% of total household water consumption, and that up to 50% of the water applied to lawns is wasted through evaporation or overwatering.

Universities and municipalities are addressing this critical environmental concern through outreach and extension programs designed to educate the public about water conversation. But are these workshops effective in actually helping participants reduce their water use? Tatiana Borisova and Pilar Useche from the University of Florida conducted a study published in HortTechnology to determine the effectiveness of free, 2-hour irrigation management workshops conducted by the Florida Cooperative Extension Service in cooperation with a local water provider in order to find out if there were short- and long-term impacts of workshop participation. “Landscape management outreach programs have been implemented by regional and local agencies, Cooperative Extension Services, and other organizations to encourage more efficient irrigation water use and residential water conservation,” explained lead author Borisova. “However, limited information exists about the effectiveness of such programs.”

The team studied actual water use data for 12 months before and after workshops, and then compared water use data from workshop participants with the water use of households that did not participate in the workshop. They found “statistically significant reduction in water use” only in the month of the workshop. “Although the workshop has an impact on water use, this impact is very short-lived,” noted Borisova. “For workshop participants and nonparticipants, water use returns to the base level immediately in the months following the workshop.” The authors added that reinforcement of the educational message received during the workshop is probably required to sustain water-use reductions over time.

The team also found that the effect of workshop attendance depended on the sample of the households considered. For example, in the subsample of the low water-use households, water use tended to increase following the workshop. “The overall objective of the workshop was to improve the irrigation efficiency by reducing water wastes. However, households with low average water use may already be technically efficient, and workshop attendance cannot reduce their irrigation water use further without negatively affecting the yard aesthetics and plant health,” explained Borisova.

Borisova and Useche recommend development of a comprehensive evaluation approach for water use programs that includes evaluation of actual water use reductions in order to more accurately quantify program impact, design more effective educational programs, and better target the programs to consumers.

The complete study and abstract are available on the ASHS HortTechnology electronic journal web site: http://horttech.ashspublications.org/content/23/5/668.abstract

Journal Reference:

  1. Tatiana Borisova and Pilar Useche. Exploring the Effects of Extension Workshops on Household Water-use BehaviorHortTechnology, October 2013

Satellites show ‘total’ California water storage at near decade low (Science Daily)

Date: February 3, 2014

Source: UC Center for Hydrologic Modeling

Summary: Updates to satellite data show that California’s Sacramento and San Joaquin River basins are at near decade-low water storage levels.

Updates to satellite data show that California’s Sacramento and San Joaquin River basins are at near decade-low water storage levels. These and other findings on the State’s dwindling water resources were documented in an advisory report released today from the UC Center for Hydrologic Modeling (UCCHM) at the University of California, Irvine.

Responding to Governor Jerry Brown’s recent declaration of a drought emergency in California, a team of UCCHM researchers has updated its research on the state’s two largest river basins, and the source of most its water. The region also encompasses the Central Valley, the most productive agriculture region in the country. The Central Valley depends entirely on the surface and groundwater resources within the river basins to meet its irrigation needs and to produce food for the nation.

Using satellite data from NASA’s Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) mission, the researchers, led by UCCHM Director and UC Irvine Professor Jay Famiglietti, found that as of November 2013, total water storage in the river basins — the combination of all of the snow, surface water, soil moisture and groundwater, and an integrated measure of basin-wide water availability — had declined to its lowest point in nearly a decade. GRACE data for the record-dry 2013-2014 winter months were not yet available for analysis.

The data show particularly steep water losses between November 2011 and November 2013, the early phase of the current drought. Famiglietti and fellow UCCHM researchers estimate that the basins have already lost 10 cubic kilometers of fresh water in each of the last two years — equivalent to virtually all of California’s urban and household water use each year. “That’s the steepest decline in total water storage that we’ve seen in California since the GRACE mission was launched in 2002,” Famiglietti said.

The researchers noted that snowpack, surface water and soil moisture storage in the river basins were all at their lowest points in nearly a decade, illustrating a growing threat to groundwater supplies in the Central Valley, and highlighting the urgent need to manage them sustainably. Groundwater is typically viewed as a strategic reserve that supplements sparse surface water supplies in times of drought.

By combining their satellite-based estimates of 10 years (October 2003 — November 2013) of Central Valley groundwater storage changes with long-term estimates of groundwater losses from the U. S. Geological Survey, the researchers noted that steep declines in groundwater storage are typical during droughts, when Central Valley farmers are forced to rely more heavily on groundwater to meet irrigation demands.

The advisory report underscores that the rates of declining groundwater storage during drought almost always outstrip rates of groundwater replenishment during wet periods, and raises fears about the impact of long-term groundwater depletion on sustaining a reliable water supply in the current, record-setting drought. The team’s previous 2011 study estimated that the Central Valley lost 20 cubic kilometers of groundwater during the 2006-2010 drought.

Historically, drought conditions and groundwater depletion in the Central Valley are responsible for widespread land subsidence, reductions in planted acreage, higher food costs and ecological damage.

Famiglietti notes that if the drought continues “Central Valley groundwater levels will fall to all-time lows.” Stephanie Castle, a UCCHM researcher who contributed to the report, believes that groundwater supplies should be more actively managed. Castle states that “the path of groundwater use that we are on threatens the sustainability of future water supplies for all Californians.” She noted that several communities within the state are on track to run out of water within the next few months.

Download the report at http://www.ucchm.org/publications

Written all over your face: Humans express 4 basic emotions rather than 6 (University of Glasgow)

3-Feb-2014

 

By Stuart Forsyth

Human beings are emotional creatures whose state of mind can usually be observed through their facial expressions.

A commonly-held belief, first proposed by Dr Paul Ekman, posits there are six basic emotions which are universally recognised and easily interpreted through specific facial expressions, regardless of language or culture. These are: happiness, sadness, fear, anger, surprise and disgust.

New research published in the journal Current Biology by scientists at the University of Glasgow has challenged this view, and suggested that there are only four basic emotions.

Their conclusion was reached by studying the range of different muscles within the face – or Action Units as researchers refer to them – involved in signalling different emotions, as well as the time-frame over which each muscle was activated.

This is the first such study to objectively examine the ‘temporal dynamics’ of facial expressions, made possible by using a unique Generative Face Grammar platform developed at the University of Glasgow.

The team from the Institute of Neuroscience and Psychology claim that while the facial expression signals of happiness and sadness are clearly distinct across time, fear and surprise share a common signal – the wide open eyes – early in the signalling dynamics.

Similarly, anger and disgust share the wrinkled nose. It is these early signals that could represent more basic danger signals. Later in the signalling dynamics, facial expressions transmit signals that distinguish all six ‘classic’ facial expressions of emotion.

Lead researcher Dr Rachael Jack said: “Our results are consistent with evolutionary predictions, where signals are designed by both biological and social evolutionary pressures to optimise their function.

“First, early danger signals confer the best advantages to others by enabling the fastest escape. Secondly, physiological advantages for the expresser – the wrinkled nose prevents inspiration of potentially harmful particles, whereas widened eyes increases intake of visual information useful for escape – are enhanced when the face movements are made early.

“What our research shows is that not all facial muscles appear simultaneously during facial expressions, but rather develop over time supporting a hierarchical biologically-basic to socially-specific information over time.”

In compiling their research the team used special techniques and software developed at the University of Glasgow to synthesise all facial expressions.

The Generative Face Grammar – developed by Professor Philippe Schyns, Dr Oliver Garrod and Dr Hui Yu – uses cameras to capture a three-dimensional image of faces of individuals specially trained to be able to activate all 42 individual facial muscles independently.

From this a computer can then generate specific or random facial expressions on a 3D model based on the activation of different Actions Units or groups of units to mimic all facial expressions.

By asking volunteers to observe the realistic model as it pulled various expressions – thereby providing a true four-dimensional experience – and state which emotion was being expressed the researchers are able to see which specific Action Units observers associate with particular emotions.

It was through this method they found that the signals for fear/surprise and anger/disgust were confused at the early stage of transmission and only became clearer later when other Action Units were activated.

Dr Jack said: “Our research questions the notion that human emotion communication comprises six basic, psychologically irreducible categories. Instead we suggest there are four basic expressions of emotion.

“We show that ‘basic’ facial expression signals are perceptually segmented across time and follow an evolving hierarchy of signals over time – from the biologically-rooted basic signals to more complex socially-specific signals.

“Over time, and as humans migrated across the globe, socioecological diversity probably further specialised once-common facial expressions, altering the number, variety and form of signals across cultures.”

The researchers intend to develop their study by looking at facial expressions of different cultures, including East Asian populations whom they have already ascertained interpret some of the six classical emotions differently – placing more emphasis on eye signals than mouth movements compared to Westerners.

http://www.cell.com/current-biology/abstract/S0960-9822(13)01519-4

Humanity’s forgotten return to Africa revealed in DNA (New Scientist)

20:00 03 February 2014 by Catherine Brahic

Call it humanity’s unexpected U-turn. One of the biggest events in the history of our species is the exodus out of Africa some 65,000 years ago, the start ofHomo sapiens‘ long march across the world. Now a study of southern African genes shows that, unexpectedly, another migration took western Eurasian DNA back to the very southern tip of the continent 3000 years ago.

According to conventional thinking, the Khoisan tribes of southern Africa, have lived in near-isolation from the rest of humanity for thousands of years. In fact, the study shows that some of their DNA matches most closely people from modern-day southern Europe, including Spain and Italy.

Because Eurasian people also carry traces of Neanderthal DNA, the finding also shows – for the first time – that genetic material from our extinct cousin may be widespread in African populations.

The Khoisan tribes of southern Africa are hunter-gatherers and pastoralists who speak unique click languages. Their extraordinarily diverse gene pool split from everyone else’s before the African exodus.

Ancient lineages

“These are very special, isolated populations, carrying what are probably the most ancient lineages in human populations today,” says David Reich of Harvard University. “For a lot of our genetic studies we had treated them as groups that had split from all other present-day humans before they had split from each other.”

So he and his colleagues were not expecting to find signs of western Eurasian genes in 32 individuals belonging to a variety of Khoisan tribes. “I think we were shocked,” says Reich.

The unexpected snippets of DNA most resembled sequences from southern Europeans, including Sardinians, Italians and people from the Basque region (see “Back to Africa – but from where?“). Dating methods suggested they made their way into the Khoisan DNA sometime between 900 and 1800 years ago – well before known European contact with southern Africa (see map).

Archaeological and linguistic studies of the region can make sense of the discovery. They suggest that a subset of the Khoisan, known as the Khoe-Kwadi speakers, arrived in southern Africa from east Africa around 2200 years ago. Khoe-Kwadi speakers were – and remain – pastoralists who make their living from herding cows and sheep. The suggestion is that they introduced herding to a region that was otherwise dominated by hunter-gatherers.

Khoe-Kwadi tribes

Reich and his team found that the proportion of Eurasian DNA was highest in Khoe-Kwadi tribes, who have up to 14 per cent of western Eurasian ancestry. What is more, when they looked at the east African tribes from which the Khoe-Kwadi descended, they found a much stronger proportion of Eurasian DNA – up to 50 per cent.

That result confirms a 2012 study by Luca Pagani of the Wellcome Trust Sanger Institute in Hinxton, UK, which found non-African genes in people living in Ethiopia. Both the 2012 study and this week’s new results show that the Eurasian genes made their way into east African genomes around 3000 years ago. About a millennium later, the ancestors of the Khoe-Kwadi headed south, carrying a weaker signal of the Eurasian DNA into southern Africa.

The cultural implications are complex and potentially uncomfortably close to European colonial themes. “I actually am not sure there’s any population that doesn’t have west Eurasian [DNA],” says Reich.

“These populations were always thought to be pristine hunter-gatherers who had not interacted with anyone for millennia,” says Reich’s collaborator, linguist Brigitte Pakendorf of the University of Lyon in France. “Well, no. Just like the rest of the world, Africa had population movements too. There was simply no writing, no Romans or Greeks to document it.”

Twist in tale

There’s one more twist to the tale. In 2010 a research team – including Reich – published the first draft genome of a Neanderthal. Comparisons with living humans revealed traces of Neanderthal DNA in all humans with one notable exception: sub-Saharan peoples like the Yoruba and Khoisan.

That made sense. After early humans migrated out of Africa around 60,000 years ago, they bumped into Neanderthals somewhere in what is now the Middle East. Some got rather cosy with each other. As their descendants spread across the world to Europe, Asia and eventually the Americas, they spread bits of Neanderthal DNA along with their own genes. But because those descendants did not move back into Africa until historical times, most of this continent remained a Neanderthal DNA-free zone.

Or so it seemed at the time. Now it appears that the Back to Africa migration 3000 years ago carried a weak Neanderthal genetic signal deep into the homeland. Indeed one of Reich’s analyses, published last month, found Neanderthal traces in Yoruba DNA (Nature, DOI: 10.1038/nature12886).

In other words, not only is western Eurasian DNA ancestry a global phenomenon, so is having a bit of Neanderthal living on inside you.

Journal reference: PNAS, DOI: 10.1073/pnas.1313787111

Back to Africa – but from where?

Reich and his colleagues found that DNA sequences in the Khoisan people most closely resemble some found in people who today live in southern Europe. That, however, does not mean the migration back to Africa started in Italy or Spain. More likely, the migration began in what is now the Middle East.

We know that southern Europeans can trace their ancestry to the Middle East. However, in the thousands of years since they – and the ancestors of the Khoisan – left the region, it has experienced several waves of immigration. These waves have had a significant effect on the genes of people living in the Middle East today, and and means southern Europeans are much closer to the original inhabitants of the Levant than modern-day Middle Easterners.

Agropecuária brasileira torna-se mais produtiva, porém mais excludente (Fapesp)

Artigo publicado na revista Nature Climate Change analisa mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nos últimos 20 anos e ressalta “comoditização” da agricultura (foto:Margi Moss/Projeto Brasil das Águas)

04/02/2014

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – As mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nas duas últimas décadas são destaque da capa da edição de janeiro da revista Nature Climate Change.

A boa notícia apontada pelo artigo é que, nos últimos dez anos, ocorreu no país uma dissociação entre expansão agrícola e desmatamento – o que resultou em queda nas emissões totais de gases de efeito estufa. O fenômeno, segundo os autores, pode ser atribuído tanto a políticas públicas dedicadas à conservação da mata como à “profissionalização” do setor agropecuário, cada vez mais voltado ao mercado externo.

Mas essa “comoditização” da produção rural brasileira trouxe também impactos negativos, entre os quais se destacam o aumento da concentração de terras e o consequente êxodo rural.

“As grandes propriedades – maiores que 1 mil hectares – representam hoje apenas 1% das fazendas do país. No entanto, ocupam praticamente 50% das terras agrícolas”, ressaltou David Montenegro Lapola, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro e autor principal do artigo.

As conclusões são baseadas na análise de mais de cem estudos publicados nos últimos 20 anos. Entre os 16 autores – todos brasileiros – estão Jean Pierre Henry Balbaud Ometto e Carlos Afonso Nobre, ambos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e integrantes do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PRPMCG).

Também participaram Carlos Alfredo Joly (Universidade Estadual de Campinas) e Luiz Antonio Martinelli (Universidade de São Paulo), do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA), da FAPESP.

“Os dados mostram, em 1995, um pico de expansão na agricultura coincidindo com um pico de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Isso volta a ocorrer entre os anos de 2004 e 2005, quando também houve pico de crescimento do rebanho bovino do Brasil. Após esse período, porém, a expansão agropecuária se desacoplou do desmatamento, que vem caindo em todos os biomas brasileiros”, disse Lapola à Agência FAPESP.

Se na Amazônia é claro o impacto de políticas públicas voltadas à preservação da floresta – como criação de áreas protegidas, intensificação da fiscalização feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e pela Polícia Federal e corte de crédito para municípios campeões do desmate –, nos demais biomas brasileiros a queda parece ser resultante de iniciativas do próprio setor produtivo.

“As culturas que mais cresceram são as voltadas ao mercado externo, como soja, milho, cana-de-açúcar e carne. É o que chamamos no artigo de ‘comoditização’ da agropecuária brasileira. De olho no mercado estrangeiro, o setor passou a se preocupar mais com os passivos ambientais incorporados em seus produtos. O mercado europeu, principalmente, é muito exigente em relação a essas questões”, avaliou Lapola.

Também na Amazônia há exemplos de ações de conservação capitaneadas pelo setor produtivo, como é o caso da Moratória da Soja – acordo firmado em 2006, por iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e da Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), para impedir a comercialização e o financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas.

“Na Amazônia, a soja tem avançado sobre áreas antes usadas como pastagem. O mesmo pode ser observado no Estado de São Paulo, no caso das plantações de cana. A maior parte da expansão canavieira dos últimos anos ocorreu sobre áreas de pastagem”, afirmou Lapola.

Tal mudança no padrão de uso do solo teve um efeito positivo no clima local, apontou o estudo. Em regiões de Cerrado no norte de São Paulo, por exemplo, foi registrada uma redução na temperatura de 0,9° C.

“A maior cobertura vegetal aumenta a evapotranspiração, libera mais água para a atmosfera e acaba resfriando o clima localmente. Mas a temperatura ainda não voltou ao que era antes de ocorrer o desmatamento para dar lugar ao pasto. Nessa época, o aquecimento local foi de 1,6° C”, disse Lapola.

Êxodo rural

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que as áreas dedicadas à pecuária no Brasil estão diminuindo. No entanto, o número de cabeças de gado continua crescendo no país, o que significa um maior número de animais por hectare e maior eficiência na pecuária (o uso do solo predominante no país).

De acordo com Lapola, o mesmo pode ser observado no caso de outras culturas voltadas à alimentação, como arroz e feijão, que tiveram suas áreas de plantio reduzidas embora a produção total tenha aumentado. Graças a esse incremento na produtividade, a segurança alimentar brasileira – por enquanto – parece não ter sido afetada pela “comoditização” da agricultura.

O artigo revela, no entanto, que a concentração de terras em grandes propriedades voltadas ao cultivo de commodities intensificou a migração para as áreas urbanas. Atualmente, apenas 15% da população brasileira vive na zona rural.

Em locais onde a produção de commodities predomina, como é o caso do cinturão da cana no interior paulista, cerca de 98% da população vive em áreas urbanas. “Essa migração causou mudança desordenada de uso do solo nas cidades. O resultado foi o aumento no número de favelas e outros tipos de moradias precárias”, afirmou Lapola.

As mudanças no uso do solo afetaram também o padrão brasileiro de emissão de gases do efeito estufa. Em 2005, o desmatamento representava cerca de 57% das emissões totais do país e, em 2010, esse número já havia caído para 22%. Hoje, o setor agropecuário assumiu a liderança, contabilizando 37% das emissões nacionais em 2010, advindas principalmente da digestão de ruminantes, da decomposição de dejetos animais e da aplicação de fertilizantes.

Novo paradigma

No artigo, os autores defendem o estabelecimento no Brasil de um sistema inovador de uso do solo apropriado para regiões tropicais. “O país pode se tornar a maior extensão de florestas protegidas e, ao mesmo tempo, ser uma peça-chave na produção agrícola mundial”, defendeu Lapola.

Entre as recomendações para que esse ideal seja alcançado os pesquisadores destacam a adoção de práticas de manejo já há muito tempo recomendadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), como o plantio na palha, além do fortalecimento do Código Florestal (que estabelece limites de uso da propriedade) e a adoção de medidas complementares para assegurar que a legislação ambiental seja cumprida.

“Defendemos mecanismos de pagamento por serviços ambientais, nos moldes do programa de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), por meio do qual proprietários rurais recebem incentivos financeiros pela conservação da biodiversidade e outros recursos naturais”, explicou Lapola.

Os autores também apontam a necessidade de políticas públicas – entre elas a reforma agrária – que favoreçam um modelo de agricultura mais eficiente e sustentável. “Até mesmo alguns grandes proprietários não têm, atualmente, segurança sobre a posse da terra. Por esse motivo, muitas vezes, colocam meia dúzia de cabeças de gado no terreno apenas para mostrar que está ocupado. Mas, se pretendemos de fato fechar as fronteiras do desmatamento, precisamos aumentar a produtividade nas áreas já disponíveis para a agropecuária”, concluiu Lapola.

O artigo Pervasive transition of the Brazilian land-use system (doi:10.1038/nclimate2056), de David Lapola e outros, pode ser lido por assinantes da Nature Climate Changeem www.nature.com/nclimate/journal/v4/n1/full/nclimate2056.html

‘Modelo de escola é autoritário’, diz professor da Universidade de Columbia (O Globo)

Brian Perkins é autor de estudos sobre o clima em sala de aula, envolvendo expectativas de professores e alunos

LEONARDO VIEIRA

Publicado:3/02/14 – 8h00 / Atualizado:3/02/14 – 15h12

O professor Brian Perkins Foto: Foto de divulgação

O professor Brian Perkins Foto de divulgação

RIO – Professor da Universidade de Columbia, Brian Perkins é autor de estudos que mostram como o clima em sala de aula influencia o aprendizado. O especialista, que esteve no Rio no fim de 2013 para um evento na Escola Sesc, está hoje em conversas com a Secretaria municipal de Educação para fazer uma pesquisa semelhante na rede carioca.

Quem deve ser o líder dentro de uma sala de aula: o professor, o aluno ou ambos?

BRIAN PERKINS: Ambos. É preciso que haja oportunidades para que os alunos se apropriem da experiência de aprendizagem. Vou dar exemplo: quando eu estava na 6ª série, minha irmã estava na faculdade. Eu ficava lendo seus livros sobre o Egito Antigo. E, nas minhas aulas de História, eu percebi alguns equívocos do professor sobre o assunto. Daí levantei a mão para dizer que gostaria corrigir o professor. E ele disse: “ok , você venceu, pode me corrigir, desde que seja explicando para toda a classe”. E assim eu fiz. Agora, dando aula na universidade, também abro espaço para meus alunos compartilharem conhecimento sobre capítulos de livros, pois também quero saber as visões e perspectivas deles, o que eles adquiriram com o estudo. Isso é parte do aprendizado.

De que?

Acho que devemos aproveitar essas oportunidades, quando os alunos sabem mais sobre um assunto do que o professor. Eles também têm a capacidade de conhecer mais, se lhes for dada a atribuição. Não só é bom porque desenvolve a liderança, mas também porque o cérebro realmente funciona melhor se eles tiverem a oportunidade de criar a suas próprias experiências.

Quais são os benefícios de ser um líder na sala de aula?

Ser um líder traz muita responsabilidade e, por isso, é realmente difícil pensar em termos de benefício. É mais uma obrigação e uma responsabilidade. O benefício, em termos de aprendizagem, é que o professor é mais um facilitador. Eles não apenas leem os livros para os alunos, mas também criam perguntas para que os alunos possam responder. Então os alunos constroem seus conhecimentos em vez de apenas guardar tudo o que os professores lhes dizem. Não é para dizer aos alunos quais são fatos, mas, sim, deixá-los experimentar e explorar.

É como se o estudante fosse um autodidata?

Não exatamente. É ser responsável por aquilo que você aprende. Essa é a razão de você ficar bom em aprender coisas: você pode pensar que em qualquer coisa que você é bom, o motivo provavelmente é porque você gosta dela. E é por isso que defendo dar ao aluno a oportunidade dessa aprendizagem, para estudar e associar o estudo com as coisas que gosta.

Abordando agora suas pesquisas sobre o clima nas escolas, o que conta mais na hora da aprendizagem: o clima em sala de aula ou a qualidade do ensino?

Essa é uma pergunta muito boa, e fico me questionando o tempo todo. Mas o que posso dizer é que ambos são igualmente importantes. O lado do efeito “ambiente escolar” é tão importante quanto o lado cognitivo, o lado da aprendizagem que eles fazem. Por exemplo, considere uma escola com regras estabelecidas. Eu não tenho que dizer sempre aos alunos o que pode e o que não pode fazer, pois eu já parto do princípio de que eles já tem consciência. Agora, se o ambiente não é ordenado, eles não aprendem. Se não houver uma espécie de estado psicológico comum, os alunos não podem aprender. Se você descobre que os alunos de uma escola estão com medo de levantar a mão e fazer uma pergunta, não é um bom ambiente, porque você quer que os alunos façam perguntas. Mas se eles não fazem perguntas, eles não aprendem.

Você acha que o nosso modelo de escola é autoritário?

Eu acho que o modelo predominante de escolas em todo o mundo é autoritário. Nós queremos que os alunos assumam responsabilidades também. Queremos que eles digam ‘eu fui para a escola hoje, mas eu não me dei por satisfeito, e agora eu vou buscar por mim mesmo o que eu preciso. Mas são poucas escolas com modelo construtivo, de deixar os alunos descobrir as coisas, deixando-os criar e trabalhar em grupos que conversam entre si. As pessoas estão mais focadas no controle do que no conteúdo que elas estão aprendendo.

E nos casos de conteúdos mais “duros” como a Matemática, como ensiná-los sem ser autoritário?

Não ser autoritário não significa que é preciso abandonar a estrutura. Quer dizer, você ainda pode ter estrutura, mas tem que dar um sentido ao conteúdo. Não adianta ensinar Matemática sem significado. Eu vi uma vez uma camiseta que dizia: ‘Eu tenho 30 anos e eu ainda uso álgebra”. É o mesmo quando te dizem ainda pequeno ‘você ainda vai precisar disso um dia’. E é verdade.

Mas se esse dia nunca chegar?

Se nunca chegar, é porque ninguém mostrou a conexão. Você usa álgebra toda hora em sua vida, mas as pessoas não refletem muito sobre isso. O professor que ensina Matemática tem que repassar os conceitos de matemática. Ensinar o conceito não significa ser autoritário. Autoritária é a postura que você assume em seu ensino: “Eu sou o professor e eu sei de tudo e você tem que buscar o conhecimento através de mim agora”. É isso, você pode ensinar-lhes as habilidades e, em seguida, dizer-lhes onde eles pode aplicá-las. A postura influencia muito o ambiente de aprendizagem.

No Brasil, temos alguns exemplos de professores que tentam fugir desse modelo autoritário. Eles fazem um monte de piadas, dançam no meio da sala de aula, e dizem que esta é a forma como eles podem promover a curiosidade do conteúdo em seus alunos. Como você enxerga essa técnica?

Eu acho que pode ser uma boa ferramenta, mas não deve ser usada toda hora, é preciso equilibrar. As pessoas usam diferentes métodos para manter os alunos envolvidos, isso depende do seu estilo, mas as pessoas às vezes acabam abusando do humor, e o que acontece é que alguns se distraem. Você pode brincar, mas tem que manter o que eu chamo de “3 Rs”.

O primeiro é o rigor: você tem que ser rigoroso. O segundo é que ele tem que ser relevante, tanto para o professor quanto para o aluno. E por fim, tem que existir uma relação entre o professor e os alunos. E o relacionamento tem que ser aquele em que os alunos olham para o professor como uma boa fonte de informação, de companheirismo. Essas são as três coisas que eu digo que tem que estar no lugar em qualquer sala de aula.

Alguns estudantes no Brasil se queixam de que os nossos conteúdos são engessados. É melhor para o aluno escolher o tema sobre o qual ele iria se concentrar para seu futuro profissional?

Você tem alunos que são como Mozart. Tudo o que fez foi ser bom no piano. O talento deles pode torná-los ricos, mas o que mais eles poderiam saber além? Como eles poderiam funcionar em um mundo sem conhecer a história, ou a ciência? Você vê o que eu estou dizendo? Se você não ensinar-lhes mais disciplinas, mais áreas, eles não podem sobreviver. Então, é preciso dar-lhes as ferramentas e é isso que é o importante. É que eles tenham as ferramentas para fazer mais.

Em seus trabalhos, você demonstra que o clima é um dos principais agentes influenciadores do aprendizado. Aqui no Brasil, começamos a ter a ocupação de comunidades que antes eram negligenciadas pelo poder público e viviam com altos índices de violência. Você acredita que com a pacificação, as escolas dessas regiões podem ter melhor rendimento acadêmico?

Isso é óbvio. Como uma criança poderia que se escondia na escola durante tiroteios poderia aprender alguma coisa? Se o ambiente ao redor da escola muda, dentro da escola também vai haver reflexos. E nesse caso, para o lado positivo. Pesquisas daqui já demonstram que as unidades dentro e UPPP tem melhorado nos índices escolares. É um efeito diretamente proporcional. Os casos de escolas em áreas de conflito é o exemplo extremo de como o clima influencia o aprendizado.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/educacao/modelo-de-escola-autoritario-diz-professor-da-universidade-de-columbia-11482918#ixzz2sI0dm2T6 © 1996 – 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 

Chineses criam macacos geneticamente modificados para estudo de doenças humanas (O Globo)

Pesquisadores utilizaram método revolucionário para alteração de genoma; caso amplia debate sobre ética em testes de animais

O GLOBO

Publicado:31/01/14 – 11h30

Gêmeos de macacos cinomologos criados em laboratório por pesquisadores chineses são modelos próximos dos seres humanos. Foto: DivulgaçãoGêmeos de macacos cinomologos criados em laboratório por pesquisadores chineses são modelos próximos dos seres humanos Divulgação

NANQUIM – Cientistas chineses criaram pela primeira vez dois macacos geneticamente modificados para o estudo de doenças humanas. A pesquisa, publicada na revista “Cell”, utilizou o método Crispr – que permite modificar genes específicos sem alterar outros pedaços do genoma. Este é o primeiro passo para a criação de modelos geneticamente modificados de primatas para ajudar no diagnóstico e tratamento de enfermidades como os males de Alzheimer e Parkinson, e amplia o debate sobre a ética em testes de animais.

O estudo foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Nanquim, na China, em conjunto com laboratórios de pesquisas genéticas de biomédicas do país e teve como alvo os macacos cinomologos (Macaca fascicularis) por seu tamanho e semelhanças com os humanos.

Para criar os dois filhotes, os cientistas modificaram três genes relacionados à doenças como o diabetes e o câncer em quinze embriões. O sequenciamento de DNA comprovou que as mutações tinham sido bem-sucedidas para dois genes em oito deles. Os embriões foram então inseridos em fêmeas e apenas dois sobreviveram.

Método revolucionário para a medicina genética

A técnica Crispr foi descoberta inicialmente como parte da defesa imunológica natural de algumas bactérias contra vírus invasores. Em 2012, cientistas liderados por Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia, publicaram um primeiro estudo mostrando que ela na verdade funcionava em qualquer área de um genoma se associado a uma enzima de restrição (capaz de cortar uma molécula num local bem definida) chamada CAS9.

O método torna possível editar qualquer parte dos pares de cromossomos sem ter depois mutações inesperadas ou falhas. Ele se tornou popular no ano passado na criação de ratos e camundongos geneticamente modificados, e foi a primeira vez que funcionou em primatas.

Como os macacos não apresentaram nenhuma outra mutação em seu genoma, os pesquisadores acreditam que estão mais próximos de tentativas de recriar doenças humanas que ainda não são compreendidas por completo.

“Com a precisão genética do sistema Crispr-CAS9, esperamos que muitos modelos de doenças possam ser gerados em macacos, o que trará um avanço significativo ao desenvolvimento de estratégias terapêuticas em pesquisas biomédicas”, escreveu Weizhi Ji, um dos autores da pesquisa, do Laboratório Yunnan Key de Pesquisas Biomédicas em Primatas, na China.

Polêmico teste em animais

Apesar de comemorado pela comunidade científica, o método é controverso. Grupos que se opõem ao teste de animais temem que ele amplie o uso de macacos em pesquisas.

– Embora os avanços tecnológicos na engenharia genética devam ser aplaudidos e admirados, sua posterior utilização para a produção de macacos geneticamente modificados é questionável – afirmou Andrew Bennett, do Centro Nacional de substituição , aperfeiçoamento e redução de animais em pesquisa (NC3Rs) ao “Guardian”. – Seria mais interessante o aumento de recursos na produção de modelos baseados em tecidos e células humanas, em vez de tentar desenvolver espécies de animais de laboratório mais sofisticados. Se você está trabalhando em doença humana, então é necessário o uso humano para prever respostas humanas.

Apesar de acreditar que modelos de primatas são essenciais para recriar distúrbios cerebrais de humanos, Nelson Freimer, diretor do Centro de Genética da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, acredita que os macacos só serão utilizados para pesquisa em último caso:

– Vai ser muito crítico definir os problemas para os quais a técnica será utilizada, assim como acontece com a pesquisa animal – disse. – Você precisa usar todas as alternativas antes de propor a pesquisa animal. O uso de macacos será reservado para doenças terríveis nas quais não conseguimos avançar de outra maneira.

No entanto, Troy Seidle, diretor de pesquisa e toxicologia na Humane Society International (HSI), pede a proibição total da manipulação genética de macacos.

– Você não pode manipular geneticamente um primata altamente sensível sem comprometer o seu bem-estar, talvez de forma significativa. Primatas transgênicos são tão inteligentes, sensíveis ao sofrimento físico e psicológico que seus pares não modificados – ressaltou Seidle. – Na verdade, o escopo para o sofrimento dos animais é maior porque a engenharia genética dá aos pesquisadores um poder quase ilimitado para criar animais doentes com sintomas potencialmente devastadores e incapacitantes, que podem incluir mutações fenotípicas totalmente inesperados. É importante notar também que esta pesquisa está sendo pioneira na China, onde não há atualmente nenhuma lei ou controle ético em experiências com animais.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/chineses-criam-macacos-geneticamente-modificados-para-estudo-de-doencas-humanas-11463007#ixzz2sHztieni  © 1996 – 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 

Teaching young wolves new tricks: Wolves are considerably better imitators than dogs (Science Daily)

Date: January 31, 2014

Source: Veterinärmedizinische Universität Wien

Summary: Although wolves and dogs are closely related, they show some striking differences. Scientists have undertaken experiments that suggest that wolves observe one another more closely than dogs and so are better at learning from one another. The scientists believe that cooperation among wolves is the basis of the understanding between dogs and humans.

Wolves are considerably better imitators than dogs. Credit: Walter Vorbeck

Although wolves and dogs are closely related, they show some striking differences. Scientists from the Messerli Research Institute at the University of Veterinary Medicine, Vienna have undertaken experiments that suggest that wolves observe one another more closely than dogs and so are better at learning from one another. The scientists believe that cooperation among wolves is the basis of the understanding between dogs and humans.

Their findings have been published in the online journalPLOS ONE.

Wolves were domesticated more than 15,000 years ago and it is widely assumed that the ability of domestic dogs to form close relationships with humans stems from changes during the domestication process. But the effects of domestication on the interactions between the animals have not received much attention. The point has been addressed by Friederike Range and Zsófia Virányi, two members of the University of Veterinary Medicine, Vienna (Vetmeduni Vienna) who work at the Wolf Science Center (WSC) in Ernstbrunn, Niederösterreich.

Wolves copy other wolves solving problems

The scientists found that wolves are considerably better than dogs at opening a container, providing they have previously watched another animal do so. Their study involved 14 wolves and 15 mongrel dogs, all about six months old, hand-reared and kept in packs. Each animal was allowed to observe one of two situations in which a trained dog opened a wooden box, either with its mouth or with its paw, to gain access to a food reward. Surprisingly, all of the wolves managed to open the box after watching a dog solve the puzzle, while only four of the dogs managed to do so. Wolves more frequently opened the box using the method they had observed, whereas the dogs appeared to choose randomly whether to use their mouth or their paw.

Watch closely …

To exclude the possibility that six-month old dogs fail the experiment because of a delayed physical or cognitive development, the researchers repeated the test after nine months. The dogs proved no more adept at opening the box than they were at a younger age. Another possible explanation for the wolves’ apparent superiority at learning is that wolves might simply be better than dogs at solving such problems. To test this idea, the researchers examined the animals’ ability to open a box without prior demonstration by a dog. They found that the wolves were rarely successful. “Their problem-solving capability really seems to be based on the observation of a dog performing the task,” says Range. “The wolves watched the dog very closely and were able to apply their new knowledge to solve the problem. Their skill at copying probably relates to the fact that wolves are more dependent on cooperation with conspecifics than dogs are and therefore pay more attention to the actions of their partners.”

The researchers think that it is likely that the dog-human cooperation originated from cooperation between wolves. During the process of domestication, dogs have become able to accept humans as social partners and thus have adapted their social skills to include interactions with them, concomitantly losing the ability to learn by watching other dogs.

Journal Reference:

  1. Friederike Range, Zsófia Virányi. Wolves Are Better Imitators of Conspecifics than DogsPLoS ONE, 2014; 9 (1): e86559 DOI: 10.1371/journal.pone.0086559

David Simon at the Festival of Dangerous Ideas (Moyers and Co.)

By Bill Moyers and Co.

January 30, 2014

David Simon, journalist and creator of the TV series The Wire and Treme, spoke about the divide between the rich and poor in America at the Festival of Dangerous Ideas in Sydney last November.

Simon began his speech by saying: “I come from a country that is now utterly schizophrenic when it comes to its society, its economy, its politics. There are definitely two Americas. I live in one, on one block in Baltimore that is part of the viable America, the America that is connected to its own economy, where there is a plausible future for the people born into it.” He then went on to take questions from the audience.

Nature can, selectively, buffer human-caused global warming, say scientists (Science Daily)

Date: February 2, 2014

Source: Hebrew University of Jerusalem

Summary: Can naturally occurring processes selectively buffer the full brunt of global warming caused by greenhouse gas emissions resulting from human activities? Yes, says a group of researchers in a new study.

As the globe warms, ocean temperatures rise, leading to increased water vapor escaping into the atmosphere. Water vapor is the most important greenhouse gas, and its impact on climate is amplified in the stratosphere. Credit: © magann / Fotolia

Can naturally occurring processes selectively buffer the full brunt of global warming caused by greenhouse gas emissions resulting from human activities?

Yes, find researchers from the Hebrew University of Jerusalem, Johns Hopkins University in the US and NASA’s Goddard Space Flight Center.

As the globe warms, ocean temperatures rise, leading to increased water vapor escaping into the atmosphere. Water vapor is the most important greenhouse gas, and its impact on climate is amplified in the stratosphere.

In a detailed study, the researchers from the three institutions examined the causes of changes in the temperatures and water vapor in the tropical tropopause layer (TTL). The TTL is a critical region of our atmosphere with characteristics of both the troposphere below and the stratosphere above.

The TTL can have significant influences on both atmospheric chemistry and climate, as its temperature determines how much water vapor can enter the stratosphere. Therefore, understanding any changes in the temperature of the TTL and what might be causing them is an important scientific question of significant societal relevance, say the researchers.

The Israeli and US scientists used measurements from satellite observations and output from chemistry-climate models to understand recent temperature trends in the TTL. Temperature measurements show where significant changes have taken place since 1979.

The satellite observations have shown that warming of the tropical Indian Ocean and tropical Western Pacific Ocean — with resulting increased precipitation and water vapor there — causes the opposite effect of cooling in the TTL region above the warming sea surface. Once the TTL cools, less water vapor is present in the TTL and also above in the stratosphere.

Since water vapor is a very strong greenhouse gas, this effect leads to a negative feedback on climate change. That is, the increase in water vapor due to enhanced evaporation from the warming oceans is confined to the near- surface area, while the stratosphere becomes drier. Hence, this effect may actually slightly weaken the more dire forecasted aspects of an increasing warming of our climate, the scientists say.

The researchers are Dr. Chaim Garfinkel of the Fredy and Nadine Herrmann Institute of Earth Sciences at the Hebrew University and formerly of Johns Hopkins University, Dr. D. W. Waugh and Dr. L. Wang of Johns Hopkins, and Dr. L. D. Oman and Dr. M. M. Hurwitz of the Goddard Space Flight Center. Their findings have been published in theJournal of Geophysical Research: Atmospheres, and the research was also highlighted in Nature Climate Change.

Journal References:

  1. C. I. Garfinkel, D. W. Waugh, L. D. Oman, L. Wang, M. M. Hurwitz. Temperature trends in the tropical upper troposphere and lower stratosphere: Connections with sea surface temperatures and implications for water vapor and ozoneJournal of Geophysical Research: Atmospheres, 2013; 118 (17): 9658 DOI: 10.1002/jgrd.50772
  2. Qiang Fu. Ocean–atmosphere interactions: Bottom up in the tropicsNature Climate Change, 2013; 3 (11): 957 DOI: 10.1038/nclimate2039

Líderes de rolezinhos reclamam de assédio de partidos políticos em SP (O Globo)

União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao PCdoB, chegou a anunciar filiação do jovem Vinicius Andrade, que negou categoricamente envolvimento com a sigla

LEONARDO GUANDELINE

Publicado: 31/01/14 – 19h05

SÃO PAULO – Em evidência nos últimos meses, jovens organizadores dos rolezinhos se transformaram em alvos de partidos políticos, com propostas de filiações a diferentes legendas. Nos últimos dias, o assédio partiu, entre outros, do PSD, PSDB, PMDB e o PCdoB, segundo os próprios responsáveis pelo movimento. A União da Juventude Socialista (UJS), ligada aos comunistas e que comanda também a União Nacional dos Estudantes (UNE), chegou a anunciar a filiação de Vinicius Andrade, à frente dos rolezinhos na zona sul. PSD e PMDB disseram que a informação “não procede” e desmentiram qualquer contato com lideranças dos rolezinhos. Procurados pelo GLOBO, o PSDB e a UJS não retornaram às ligações até as 19h desta sexta-feira.

No site da UJS, a filiação é dada como certa: “Vinicius Andrade, o organizador do ‘rolezinho’, e seus colegas participaram na tarde de hoje (segunda-feira) de um bate papo com a militância da UJS durante o Seminário Preparatório para o 17° Congresso da organização e se filiaram na entidade”, diz texto sobre evento da última segunda-feira. Andrade desmente categoricamente.

– Não me filiei a partido algum, nem à entidade. Eles se dispuseram a nos ajudar na questão dos rolezinhos. Não quero saber de partido político, do nosso movimento fugindo para o lado de partido – disse.

O líder dos rolezinhos na zona sul contou que obteve, inclusive, apoio ao movimento do secretário de Promoção da Igualdade Racial, Netinho de Paula, principal interlocutor da Prefeitura em relação ao assunto, e da vice-prefeita paulistana, Nádia Campeão, ambos do PCdoB. Mas negou que os dois tivessem feito convite aos jovens líderes.

– O Netinho ficou na dele. A Nádia Campeão também não nos convidou. Mas tenho recebido ligações de pessoas se apresentando como representantes de partidos políticos. Desligo o telefone na hora. Não sei nem como eles conseguem meu número – acrescenta Andrade.

José Ricardo “Sucesso”, produtor de funk e um dos principais organizadores dos rolezinhos na Zona Leste da capital paulista, ao lado de Jonathan David, o MC Chaverinho, disse já ter sido procurado por PSD, PSDB e PMDB, além do próprio PCdoB.

– Teve gente do PCdoB que estava filiando nossos meninos. Pedimos até para o Netinho intervir e ele nos falou que seríamos procurados, que viriam muito atrás de nós. Fazemos política, mas sem partido – disse Ricardo “Sucesso”, que trabalha há sete anos com funk, já foi produtor do MC Daleste e hoje produz o MC Chaveirinho, cantor também do chamado funk ostentação.

Rolezinhos organizados

Ricardo “Sucesso” disse que está marcada para a sexta-feira da próxima semana uma reunião com representantes do Shopping Itaquera, na Zona Leste, para definir como acontecerá o próximo rolezinho, marcado para aquele centro comercial. Ele disse que neste fim de semana dez manifestações do tipo que estavam agendadas foram canceladas.

– A gente conversou com os meninos e eles cancelaram os rolezinhos marcados enquanto não discutimos esse com o Shopping Itaquera. Tem um rolezinho marcado para o Shopping Aricanduva neste fim de semana, mas estamos tentando convencer a molecada a fechar com a gente – disse.

Organizadores de rolezinhos na capital paulista propuseram na quarta-feira um acordo prévio com a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) no qual, entre outros pontos, limitarão a participação de pessoas e informarão antecipadamente, em reuniões, data e horário das manifestações aos centros comerciais. Ao GLOBO, a Abrasce informou que se colocou à disposição para intermediar as conversas entre os donos de shopping centers e os jovens no intuito de evitar a judicialização do movimento. A primeira reunião nesse sentido será a dos jovens com representantes do Shopping Itaquera.

VEJA TAMBÉM

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/lideres-de-rolezinhos-reclamam-de-assedio-de-partidos-politicos-em-sp-8-11457822#ixzz2sGIwkZbY 
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Are you political on Facebook? (Science Daily)

Date: 

January 29, 2014

Source: Inderscience

Summary: Social media and networks are ripe for politicization, for movement publicity, advocacy group awareness, not-for-profit fund-raising campaigns and perhaps even e-government. However, the majority of users perhaps see these tools as being useful for entertainment, interpersonal connections and sharing rather than politics. A research paper reinforces this notion. The results suggest that the potential for political activism must overcome the intrinsic user perception that online social networks are for enjoyment rather than utility, political or otherwise.

Social media and networks are ripe for politicization, for movement publicity, advocacy group awareness, not-for-profit fund-raising campaigns and perhaps even e-government. However, the majority of users perhaps see these tools as being useful for entertainment, interpersonal connections and sharing rather than politics. A research paper to be published in the Electronic Government, An International Journal reinforces this notion. The results suggest that the potential for political activism must overcome the intrinsic user perception that online social networks are for enjoyment rather than utility, political or otherwise.

Tobias Kollmann and Christoph Stöckmann of the E-Business and E-Entrepreneurship Research Group, at the University of Duisburg-Essen, and Ina Kayser of VDI — The Association of German Engineers, in Düsseldorf, Germany, explain that while social networks have become increasingly important as discussion forums, users are not at present motivated to accept political decisions that emerge from such discussions. As such, Facebook is yet to properly break through as the innovative means of political participation that it might become.

The team roots this disjuncture in the psychological phenomenon of cognitive dissonance where two opposing concepts cannot be rationalized simultaneously and an individual discards one as invalid in favour of the other to avoid the feeling of psychological discomfort. For example, users enjoy logging on to a social network, such as Facebook, so that they can share photos, play games and chat online with friends. This is inherently at odds, it does not resonate, with the idea of Facebook being useful as a tool for discussing and implementing the perhaps more important realm of human endeavour we know as politics.

However, the team says, the advent of politically oriented Facebook games, such as “Campaigns” and “America 2049” blur the lines between the area of enjoyment and political discussion. Moreover, they point out that the boundaries were already blurred in terms of interpersonal discussions among some users where political discussion is facilitated by the network and also perceived as an enjoyable part of participation despite it falling in the “useful” camp. Indeed, the team’s data from several hundred randomly selected Facebook users would support the notion that the perception of mutual benefit arising from political participation on Facebook positively adds to the perception of usefulness as well as being enjoyable. They allude to the fact that the findings might apply equally well to other so-called “Web 2.0” tools on the Internet.

Journal Reference:

  1. Tobias Kollmann, Ina Kayser, Christoph Stöckmann. Understanding political participation on Facebook: the moderating role of intrinsic motivation.Electronic Government, an International Journal, 2013; 10 (3/4): 310 DOI:10.1504/EG.2013.058786

On View | An Artistic Celebration of the Beauty, Spectacle and Masculinity of Soccer (New York Times)

By BROOKE HODGE

JANUARY 30, 2014, 2:41 PM

“Verona #2,” by Lyle Ashton Harris, 2001-2004. Courtesy of the Robert E. Holmes Collection

“Pieta,” by Generic Art Solutions, 2008. Courtesy of the Jonathan Ferrara Gallery, New Orleans

“Sir Bobby,” by Chris Beas, 2007. Courtesy of the Martha Otero Gallery

“Hondjie,” by Robin Rhode, 2001.

“VOLTA,” by Stephen Dean, 2002-2003. Courtesy of Baldwin Gallery, Aspen

“Samuel Eto’o,” by Kehinde WIley, 2010. Courtesy of Roberts & Tilton, Culver City, Calif.

This Sunday might be the big game, but the Los Angeles County Museum of Art(LACMA) hasn’t forgotten about the other football — or soccer, as we refer to it in the United States. Opening the day of the Super Bowl, “Fútbol: The Beautiful Game” examines the sport through works of art ranging from video and photography to painting, sculpture and large-scale installation.

Timed in anticipation of this summer’s World Cup in Brazil, an event as beloved throughout the world as the Super Bowl is in America, the exhibition addresses issues of nationalism, identity, masculinity, hero worship and mass spectacle. “Zidane: A 21st-Century Portrait,” a room-size video installation by the artists Philippe Parreno and Douglas Gordon, is an intimate look at one of the greatest soccer players in history and celebrates the sheer beauty and elegance of the sport. Set to samba music, Stephen Dean’s video “Volta” directs its gaze at the audience, focusing on the pandemonium and organized ritual of the stadium crowds.

Not surprisingly, the curator, Franklin Sirmans, is passionate about the sport. “Growing up in New York in the ’70s, I was a big fan of the Cosmos,” he says. “I’ve played soccer since I was a kid and am always thinking about it. A show on soccer is a perfect platform to introduce complex ideas through a subject that is accessible to all viewers. I’m always looking for ways to introduce ideas of wider cultural significance like sport, spirituality and music into the museum.”

During the show, three of the video works in the exhibition will appear simultaneously on screens in the museum’s Stark Bar, where, beginning June 12, visitors will be able to kick back with a caipirinha and watch the World Cup.

“Fútbol: The Beautiful Game” is on view at LACMA through July 20, 2014; lacma.org.

Influência humana é clara no aquecimento “inequívoco” do planeta, diz IPCC (Portal Terra)

JC e-mail 4885, de 31 de janeiro de 2014

Os cientistas do IPCC – que já foram premiados com o Nobel da Paz em 2007 – fizeram um apelo enfático para a redução de gases poluentes

Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas divulga primeira parte de estudo sobre aumento da temperatura no globo e afirma que últimas três décadas foram sucessivamente mais quentes que qualquer outra desde 1850.

O aquecimento do planeta é “inequívoco”, a influência humana no aumento da temperatura global é “clara”, e limitar os efeitos das mudanças climáticas vai requerer reduções “substanciais e sustentadas” das emissões de gases de efeito estufa. A conclusão é do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que divulgou nesta quinta-feira (30/01), em Genebra, a primeira parte do quinto relatório sobre o tema.

Os cientistas do IPCC – que já foram premiados com o Nobel da Paz em 2007 – fizeram um apelo enfático para a redução de gases poluentes. “A continuidade das emissões vai continuar causando mudanças e aquecimento em todos os componentes do sistema climático”, afirmou Thomas Stocker, coordenador e principal autor da Parte 1 do quinto Relatório sobre Mudanças Climáticas, cuja versão preliminar já foi apresentada em setembro de 2013.

O documento serviu de base durante a Conferência das Partes (COP) das Nações Unidas sobre o Clima em Varsóvia, na Polônia, no final do ano passado. Em 1500 páginas, cientistas de todo o mundo se debruçaram sobre as bases físicas das mudanças climáticas, apoiados em mais de 9 mil publicações científicas.

“O relatório apresenta informações sobre o que muda no clima, os motivos para as mudanças e como ele vai mudar no futuro”, disse Stocker.

Correções
A versão final divulgada nesta quinta é um texto revisado e editado e não tem muitas mudanças em relação ao documento apresentado em setembro do ano passado, que elevou o alerta pelo aquecimento global e destacou a influência da ação humana no processo.

“A influência humana no clima é clara”, afirma o texto. “Ela foi detectada no aquecimento da atmosfera e dos oceanos, nas mudanças nos ciclos globais de precipitação, e nas mudanças de alguns extremos no clima.”

Segundo o IPCC, desde a década de 1950, muitas das mudanças observadas no clima não tiveram precedentes nas décadas de milênios anteriores. “A atmosfera e os oceanos estão mais quentes, o volume de neve e de gelo diminuíram, os níveis dos oceanos subiram e a concentração de gases poluentes aumentou”, diz um resumo do documento.

“Cada uma das últimas três décadas foi sucessivamente mais quente na superfície terrestre que qualquer década desde 1850. No hemisfério norte, o período entre 1983 e 2012 provavelmente foi o intervalo de 30 anos mais quente dos últimos 800 anos”, prossegue.

Aquecimento dos oceanos
O grupo de cientistas também lembra que o aquecimento dos oceanos domina o aumento de energia acumulada no sistema climático, e que os mares são responsáveis por mais de 90% da energia acumulada entre 1971 e 2010.

“É praticamente certo que o oceano superior (até 700m de profundidade) aqueceu neste período, enquanto é apenas provável que tenha acontecido o mesmo entre 1870 e 1970”, diz o relatório.

O nível dos mares também aumentou mais desde meados do século 20 que durante os dois milênios anteriores, segundo estima o IPCC. Entre 1901 e 2010, o nível médio dos oceanos teria aumentado cerca de 20 centímetros, diz o documento.

As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e protóxido de nitrogênio (conhecido como gás hilariante) aumentaram, principalmente por causa da ação humana. Tais aumentos se devem especialmente às emissões oriundas de combustíveis fósseis. Os oceanos, por exemplo, sofrem acidificação por absorver uma parte do CO2 emitido.

Futuro sombrio
A temperatura global deverá ultrapassar 1,5ºC até o final deste século em comparação com níveis estimados entre 1850 e 1900. O aquecimento global também deverá continuar além de 2100, mas não será uniforme, dizem os cientistas do clima. As mudanças nos ciclos da água no mundo também não serão homogêneos neste século, e o contraste entre regiões secas e úmidas e regiões de seca e de chuvas deverá aumentar.

O resumo do texto ainda constata que a acumulação de emissões de CO2 deverá ser determinante para o aquecimento global no final do século 21 e adiante. “A maioria dos efeitos das mudanças climáticas deverão perdurar por vários séculos, mesmo com o fim das emissões.”

Até outubro, o IPCC ainda vai publicar mais duas partes do relatório e também um documento final. A segunda parte será divulgada em março, no Japão, e detalhará os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade a mudanças climáticas. Em abril, Berlim será palco das conclusões do IPCC sobre mitigação.

(Portal Terra)

OMM prevê possível episódio climático do El Niño em meados de 2014 (AFP)

JC e-mail 4885, de 31 de janeiro de 2014

Hoje as condições são “neutras”, isto é, não se observa a chegada nem de um episódio de El Niño, nem de La Niña, segundo a OMM

O oceano Pacífico pode viver o fenômeno climático conhecido como El Niño no terceiro trimestre deste ano, anunciou nesta quinta-feira, em Genebra, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU.

Segundo a OMM, há dois possíveis cenários dentro de seis meses: ou “a persistência de condições neutras” ou “um episódio de El Niño de baixa intensidade durante o terceiro trimestre de 2014″.

Os dois cenários “são quase tão plausíveis, tanto um quanto o outro”.

Atualmente, as condições são “neutras”, isto é, não se observa a chegada nem de um episódio de El Niño, nem de La Niña, segundo a OMM.

Estas condições “persistirão provavelmente até o segundo trimestre de 2014″, acrescentou a organização.

Os episódios climáticos El Niño e La Niña têm grande influência no clima da Terra.

O El Niño acontece a cada dois e sete anos, quando os ventos tropicais sobre o oceano Pacífico perdem força, o que provoca fortes chuvas, com inundações e deslizamentos de terra a oeste da América do Sul, seca no Pacífico ocidental e mudanças de correntes ricas em alimentos para os peixes.

O último episódio ocorreu entre junho de 2009 e maio de 2010.

Ao El Niño se segue geralmente um episódio do La Niña, que supõe temperaturas mais baixas das águas superficiais do Pacífico central e tropical.

O último episódio terminou em abril de 2012.

(AFP, via portal UOL)

Brain regions thought to be uniquely human share many similarities with monkeys (Science Daily)

January 28, 2014

Source: Cell Press

Summary: New research suggests a surprising degree of similarity in the organization of regions of the brain that control language and complex thought processes in humans and monkeys. The study also revealed some key differences. The findings may provide valuable insights into the evolutionary processes that established our ties to other primates but also made us distinctly human.

 (A) The right vlFC ROI. Dorsally it included the inferior frontal sulcus and, more posteriorly, it included PMv; anteriorly it was bound by the paracingulate sulcus and ventrally by the lateral orbital sulcus and the border between the dorsal insula and the opercular cortex. (B) A schematic depiction of the result of the 12 cluster parcellation solution using an iterative parcellation approach. We subdivided PMv into ventral and dorsal regions (6v and 6r, purple and black). We delineated the IFJ area (blue) and areas 44d (gray) and 44v (red) in lateral pars opercularis. More anteriorly, we delineated areas 45 (orange) in the pars triangularis and adjacent operculum and IFS (green) in the inferior frontal sulcus and dorsal pars triangularis. We found area 12/47 in the pars orbitalis (light blue) and area Op (bright yellow) in the deep frontal operculum. We also identified area 46 (yellow), and lateral and medial frontal pole regions (FPl and FPm, ruby colored and pink). Credit: Neuron, Neubert et al.

New research suggests a surprising degree of similarity in the organization of regions of the brain that control language and complex thought processes in humans and monkeys. The study, publishing online January 28 in the Cell Press journal Neuron, also revealed some key differences. The findings may provide valuable insights into the evolutionary processes that established our ties to other primates but also made us distinctly human.

The research concerns the ventrolateral frontal cortex, a region of the brain known for more than 150 years to be important for cognitive processes including language, cognitive flexibility, and decision-making. “It has been argued that to develop these abilities, humans had to evolve a completely new neural apparatus; however others have suggested precursors to these specialized brain systems might have existed in other primates,” explains lead author Dr. Franz-Xaver Neubert of the University of Oxford, in the UK.

By using non-invasive MRI techniques in 25 people and 25 macaques, Dr. Neubert and his team compared ventrolateral frontal cortex connectivity and architecture in humans and monkeys. The investigators were surprised to find many similarities in the connectivity of these regions. This suggests that some uniquely human cognitive traits may rely on an evolutionarily conserved neural apparatus that initially supported different functions. Additional research may reveal how slight changes in connectivity accompanied or facilitated the development of distinctly human abilities.

The researchers also noted some key differences between monkeys and humans. For example, ventrolateral frontal cortex circuits in the two species differ in the way that they interact with brain areas involved with hearing.

“This could explain why monkeys perform very poorly in some auditory tasks and might suggest that we humans use auditory information in a different way when making decisions and selecting actions,” says Dr. Neubert.

A region in the human ventrolateral frontal cortex — called the lateral frontal pole — does not seem to have an equivalent area in the monkey. This area is involved with strategic planning, decision-making, and multi-tasking abilities.

“This might relate to humans being particularly proficient in tasks that require strategic planning and decision making as well as ‘multi-tasking’,” says Dr. Neubert.

Interestingly, some of the ventrolateral frontal cortex regions that were similar in humans and monkeys are thought to play roles in psychiatric disorders such as attention deficit hyperactivity disorder, obsessive compulsive disorder, and substance abuse. A better understanding of the networks that are altered in these disorders might lead to therapeutic insights.

Journal Reference:

  1. Franz-Xaver Neubert et al. Comparison of human ventral frontal cortex areas for cognitive control and language with areas in monkey frontal cortex.Neuron, Jan 28, 2014

Neanderthals Leave Their Mark on Us (New York Times)

JAN. 29, 2014

A reconstruction of a Neanderthal skeleton, right, with a modern human skeleton in the background. Frank Franklin II/Associated Press

By Carl Zimmer

Ever since the discovery in 2010 that Neanderthals interbred with the ancestors of living humans, scientists have been trying to determine how their DNA affects people today. Now two new studies have traced the history of Neanderthal DNA, and have pinpointed a number of genes that may have medical importance today.

Among the findings, the studies have found clues to the evolution of skin and fertility, as well as susceptibility to diseases like diabetes. More broadly, they show how the legacy of Neanderthals has endured 30,000 years after their extinction.

“It’s something that everyone wanted to know,” said Laurent Excoffier, a geneticist at the University of Bern in Switzerland who was not involved in the research.

Neanderthals, who became extinct about 30,000 years ago, were among the closest relatives of modern humans. They shared a common ancestor with us that lived about 600,000 years ago.

In the 1990s, researchers began finding fragments of Neanderthal DNA in fossils. By 2010 they had reconstructed most of the Neanderthal genome. When they compared it with the genomes of five living humans, they found similarities to small portions of the DNA in the Europeans and Asians.

The researchers concluded that Neanderthals and modern humans must have interbred. Modern humans evolved in Africa and then expanded out into Asia and Europe, where Neanderthals lived. In a 2012 study, the researchers estimated that this interbreeding took place between 37,000 and 85,000 years ago.

Sir Paul A. Mellars, an archaeologist at the University of Cambridge and the University of Edinburgh, who was not involved in the research, said the archaeological evidence suggested the opportunity for modern humans to mate with Neanderthals would have been common once they expanded out of Africa. “They’d be bumping into Neanderthals at every street corner,” he joked.

The first draft of the Neanderthal genome was too rough to allow scientists to draw further conclusions. But recently, researchers sequenced a far more accurate genome from a Neanderthal toe bone.

Scientists at Harvard Medical School and the Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology in Germany compared this high-quality Neanderthal genome to the genomes of 1,004 living people. They were able to identify specific segments of Neanderthal DNA from each person’s genome.

“It’s a personal map of Neanderthal ancestry,” said David Reich of Harvard Medical School, who led the research team. He and his colleagues published their results in the journal Nature.

Living humans do not have a lot of Neanderthal DNA, Dr. Reich and his colleagues found, but some Neanderthal genes have become very common. That’s because, with natural selection, useful genes survive as species evolve. “What this proves is that these genes were helpful for non-Africans in adapting to the environment,” Dr. Reich said.

In a separate study published in Science, Benjamin Vernot and Joshua M. Akey of the University of Washington came to a similar conclusion, using a different method.

Mr. Vernot and Dr. Akey looked for unusual mutations in the genomes of 379 Europeans and 286 Asians. The segments of DNA that contained these mutations turned out to be from Neanderthals.

Both studies suggest that Neanderthal genes involved in skin and hair were favored by natural selection in humans. Today, they are very common in living non-Africans.

The fact that two independent studies pinpointed these genes lends support to their importance, said Sriram Sankararaman of Harvard Medical School, a co-author on the Nature paper. “The two methods seem to be converging on the same results.”

It is possible, Dr. Akey speculated, that the genes developed to help Neanderthal skin adapt to the cold climate of Europe and Asia.

But Dr. Akey pointed out that skin performs other important jobs, like shielding us from pathogens. “We don’t understand enough about the biology of those particular genes yet,” he said. “It makes it hard to pinpoint a reason why they’re beneficial.”

Both teams of scientists also found long stretches of the living human genomes where Neanderthal DNA was glaringly absent. This pattern could be produced if modern humans with certain Neanderthal genes could not have as many children on average as people without them. For example, living humans have very few genes from Neanderthals involved in making sperm. That suggests that male human-Neanderthal hybrids might have had lower fertility or were even sterile.

Overall, said Dr. Reich, “most of the Neanderthal genetic material was more bad than good.”

Some of the Neanderthal genes that have endured until today may be influencing people’s health. Dr. Reich and his colleagues identified nine Neanderthal genes in living humans that are known to raise or reduce the risk of various diseases, including diabetes and lupus.

To better understand the legacy of Neanderthals, Dr. Reich and his colleagues are collaborating with the UK Biobank, which collects genetic information from hundreds of thousands of volunteers. The scientists will search for Neanderthal genetic markers, and investigate whether Neanderthal genes cause any noticeable differences in anything from weight to blood pressure to scores on memory tests.

“This experiment of nature has been done,” said Dr. Reich, “and we can study it.”

Correction: January 29, 2014
An earlier version of this article misstated the living groups in which Neanderthal genes involved in skin and hair are very common. They are very common in non-Africans, not non-Asians.

A dura realidade (Ciência Hoje)

[Uso generalizante, e portanto improdutivo, do conceito de “mito”]

Criação de mitos formaliza o desejo inconsciente de tranquilizar nossas mentes. História da ciência reúne vários exemplos do que parece ser uma necessidade humana: a produção de heróis.

Por: Franklin Rumjanek

Publicado em 28/01/2014 | Atualizado em 29/01/2014

A dura realidade

Há uma tendência de exacerbar o papel de certos personagens, como no caso de Fleming: não bastou descobrir a penicilina; atribui-se a ele sua produção em larga escala, o que foi feito por Howard Florey. (foto: Wikimedia Commons – CC BY SA 3.0)

A criação de mitos parece ser uma necessidade humana, algo que formaliza, em palavras ou em crenças, o desejo inconsciente de preencher algum recanto intranquilo de nossas mentes. A criação de heróis é um exemplo típico. Se eles não realizaram de fato certos feitos, o imaginário popular trata de preencher, de modo convincente, essa lacuna. Assim, os mitos duram até que alguém decida investigar a veracidade dos relatos.

Em interessante comentário na revista científica Nature (v. 502, nº 7.469, p. 32, 2013), Heloise Dufour e Sean Carroll abordam essa tendência de exacerbar o papel histórico de certos personagens, focando em Joseph Meister, Alexander Fleming e John Snow (ver ‘História da ciência e mitos’ em Ciência Hoje n° 309, disponível para assinantes no Acervo Digital).

Por vezes os mitos são impessoais e, nesse caso, têm funções variadas, desde validar preconceitos até trazer a esperança de uma vida longa e de qualidade

A participação de cada um deles em eventos que tangenciaram a ciência foi amplificada. No caso de Fleming, por exemplo, não bastou a descoberta da penicilina: atribui-se a ele a produção do medicamento em grandes quantidades, o que, na verdade, foi feito por Howard Florey. Este, sim, calcula-se, salvou mais de 80 milhões de vidas. Fleming teria também salvo a vida de Sir Winston Churchill duas vezes. Uma de afogamento e outra com a penicilina. Pura lenda urbana.

Por vezes os mitos são impessoais e, nesse caso, têm funções variadas, desde validar preconceitos até trazer a esperança de uma vida longa e de qualidade. O ressurgimento de pesquisas que abordam a relação entre o DNA e o comportamento, tema tratado aqui em várias colunas, é um exemplo da necessidade humana de, com base na ciência, reforçar não necessariamente a curiosidade que deve nortear os caminhos da investigação, mas o ideário previamente implantado em nossas mentes.

Níveis de tabu

Em outro trabalho, na mesma edição da Nature, Erika C. Hayden avalia os níveis de tabu gerados por tipos diferentes de trabalhos científicos em genética. Os que envolvem a pesquisa do chamado quociente de inteligência (QI) atingem, segundo a autora, ‘alto nível’ de tabu, superado apenas por qualquer projeto que envolva o estudo de raças humanas (‘nível muito alto’).

Em contraste, estudos sobre a herança genética da violência, ou da orientação sexual, merecem ‘nível moderado’, talvez porque o atual convívio cotidiano com ambas as manifestações ajude a diluí-las. Hayden acrescenta que esse tipo de mito é reforçado com cada vez mais força por conta da doutrina de que a genética é sinônimo de destino. Apesar de contarmos hoje com a sofisticada tecnologia que destrincha os genomas em pouco tempo e que, sistematicamente, mostra-se incapaz de fornecer subsídios que sustentem os projetos do tipo tabu, a noção de que somos todos escravos do DNA não esmorece.

Algo semelhante acontece com a informática. Possivelmente como resultado da grande influência desta em nossas vidas, cresce o contingente dos que precisam acreditar que o mundo virtual terá um papel importante na conquista da longevidade do cérebro. Embora tenha sido mostrado, já em 2010, que não há correlação entre bom desempenho mental e a prática de jogos de computador, a lenda recrudesce.

NeuroRacerA tentativa de manter idosos jogando o NeuroRacer para melhorar sua capacidade de realizar multitarefas busca o endosso científico, mas ainda não sobrevive a um exame mais rigoroso. (foto: YouTube.com)

A nova tentativa de manter idosos horas a fio diante de computadores jogando o NeuroRacer, para melhorar sua capacidade de realizar multitarefas, é o tema de Alison Abbott, também na Nature (v. 501, nº 7.465, p. 18, 2013). Essa prática contemporânea de transformar-nos a todos em malabares mentais busca o endosso científico, mas ainda não sobrevive a um exame mais rigoroso. Abbott alerta que neurocientistas e psicólogos acreditam que tanto o poder de concentração quanto a capacidade de memória são parâmetros fixos, que não se modificam, seja qual for o estímulo. Esses cientistas, porém, confrontam-se não apenas com os fabricantes de jogos de computador, mas também com o poder da mitologia, do desejo coletivo. De fato, é muito difícil convencer nossos pares de que somos mortais e que nossos últimos dias serão cercados de senescência.

Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Texto originalmente publicado na CH 310 (dezembro de 2013).

O rio e o índio (Ciência Hoje)

Publicado em 28/01/2014

Quando vai à pesca, o índio leva cultura e tradição, que o Museu da Amazônia ‘fisgou’ e apresenta em mostra que aborda relação vital e sagrada entre rio e homem.

O rio e o índioA fachada da exposição ‘Peixe e Gente’, organizada pelo Museu da Amazônia, foi ilustrada pelo artista Feliciano Lana, da etnia Desana. (foto: Vanessa Gama)

No coração da floresta amazônica, a relação do homem com o rio é de estreita dependência. Entre os índios, é da pesca que vem o principal alimento da tribo, e o caráter ritual dessa prática e o respeito à natureza associado a ela se refletem na tradição indígena. Esse vínculo é apresentado na exposição ‘Peixe e Gente’, organizada pelo Museu da Amazônia, em Manaus, e que reúne armadilhas, utensílios de cozinha, mapas e até registros de lendas mitológicas que jogam luz sobre essa proximidade vital e sagrada.

A exposição tem como foco a relação essencial e sagrada entre os indígenas e a pesca

A mostra se debruça sobre as crenças e os hábitos das etnias indígenas Tuiuca eTucano, habitantes do alto rio Negro, na região amazônica. Os indígenas abriram suas portas e ajudaram na concepção e montagem da exposição, dispostos a dividir com o Brasil e o mundo suas experiências e tradições culturais pouco difundidas.

Baseada no livro Gente e Peixe no Alto Rio Tiquié, do antropólogo Aloisio Cabalzar, a exposição tem como foco a relação essencial e sagrada entre as tribos e a pesca. A publicação trata dos conhecimentos nativos, mitos e concepções cosmológicas sobre a origem dos peixes e suas relações com o homem.

No Museu, estão expostos objetos indígenas, como armadilhas de pesca, que se revelam muito mais do que simples trabalhos manuais, uma vez que envolvem mitos e tradições sagrados. Um bom exemplo são os matapis – alguns trazidos das comunidades e outros confeccionados no próprio museu pelos índios (ver ‘Pesca dos povos tucanos’, em Ciência Hoje n° 305, disponível para assinantes no Acervo Digital).

MatapiQuando o matapi é colocado a favor das correntezas, os peixes acabam entrando na armadilha quando estão descendo o rio. (foto: Juan Soler)

Segundo a lenda, um indígena chamado Gente-Estrela teve seu filho devorado pela Cobra Grande e utilizou um matapi para capturar o bicho. Ao retirar os miúdos da cobra e os jogar no rio Negro, eles transformaram-se em peixes traíras: como castigo por ter comido o menino, a cobra teria seus descendentes comidos por toda a humanidade para sempre.

Mais do que artesanato, a construção de um matapi requer reflexões e rituais considerados imprescindíveis para a realização de uma boa pesca. Após confeccionar a armadilha, o pescador deve fazer jejum e seguir determinadas regras ao voltar para casa. “Não pode se assustar, fazer ou ouvir muito barulho, sorrir, falar alto, deitar com a mulher, entre outras coisas”, explicam os irmãos tucanos Adalberto e Roberval Pedrosa, da comunidade de serra de Mucura.

Armadilha cacuriSegundo os Tukano, construir um cacuri é construir também o corpo de uma mulher, pois as partes da armadilha coincidem com a anatomia feminina. (foto: Kenny Calderón)

Além de armadilhas, como matapi, jequi, cacuri e caiá, a exposição traz objetos de cerâmica onde são preparados pratos típicos do alto rio Negro, cestarias, peneiras, entre outros artefatos e curiosidades sobre a cultura tuiuca e tucana. A exposição está montada na tenda do Jardim Botânico Adolpho Ducke.

Isabelle Carvalho
Ciência Hoje On-line

Proposta anula leilão de exploração de petróleo no campo de Libra (Agência Câmara)

JC e-mail 4883, de 29 de janeiro de 2014

SBPC e ABC defendem mais pesquisas sobre eventuais danos ambientais da exploração do gás de xisto

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1289/13, do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), que susta a autorização do leilão de exploração de petróleo e gás no campo de Libra (RJ), realizado em outubro de 2013.

O deputado quer cancelar quatro normas que permitiram o leilão do campo onde haverá exploração do pré-sal brasileiro: as resoluções 4/13 e 5/13 do Conselho Nacional de Política Energética; a Portaria 218/13 do Ministério das Minas e Energia e o Edital de Licitação do Campo de Libra.

Com previsão de produção de 8 a 12 bilhões de barris de petróleo, o campo de Libra foi leiloado sob protestos e com forte proteção policial. Apesar da expectativa de participação de até quatro consórcios, houve apenas um, formado pelas empresas Petrobras, Shell, Total, CNPC e CNOOC. Ele venceu o leilão com a proposta de repassar à União 41,65% do excedente em óleo extraído – o percentual mínimo fixado no edital.

Alencar é contra as concessões para exploração de petróleo por considerar que a Petrobras pode explorar sozinha os campos brasileiros. Ele argumenta ainda que há vícios nas normas que permitiram o leilão. “A Agência Nacional do Petróleo publicou o texto final do edital e do contrato referentes ao leilão de Libra antes do parecer do Tribunal de Contas (TCU)”, apontou.

O deputado ressaltou ainda que as denúncias de espionagem estrangeira na Petrobras colocam suspeitas sobre o leilão. “A obtenção ilegal de informações estratégicas da Petrobras beneficia suas concorrentes no mercado e compromete a realização do leilão”, criticou.

Tramitação
A proposta será discutida pelas comissões de Minas e Energia; Finanças e Tributação; e Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois, a proposta precisa ser aprovada em Plenário.

Íntegra da proposta:

PDC-1289/2013

(Carol Siqueira/ Agência Câmara)

Manifesto da comunidade científica
SBPC e ABC pedem mais pesquisas sobre eventuais danos ambientais da exploração do gás de xisto – http://www.sbpcnet.org.br/site/artigos-e-manifestos/detalhe.php?p=2011

Acústica ecológica, medida para a biodiversidade (O Globo)

Especialista na gravação de sons naturais, o músico e naturalista americano Bernie Krause prova que a paisagem sonora de um ambiente tem muito a informar sobre o seu equilíbrio

BOLÍVAR TORRES

Publicado:28/01/14 – 8h00 / Atualizado:28/01/14 – 14h47

<br />Bernie Krause. Músico largou as vaidades de Hollywood para se dedicar às paisagens sonoras e à acústica ecológica<br />Foto: Terceiro / Divulgação/Tim ChapmanBernie Krause. Músico largou as vaidades de Hollywood para se dedicar às paisagens sonoras e à acústica ecológica Terceiro / Divulgação/Tim Chapman

RIO – Em um longínquo verão de 1988, o músico e naturalista americano Bernie Krause teve uma experiência reveladora. Um dos maiores especialistas do mundo em sons naturais, ele ganhou permissão para registrar a paisagem sonora de Lincoln Meadow, uma área de manejo florestal californiana localizada a três horas e meia de São Francisco, antes e depois de uma extração seletiva. Munidos de estudos prévios, a madeireira responsável e os biólogos locais tinham garantido à comunidade que os métodos de extração não causariam impactos ambientais, já que apenas poucas árvores seriam derrubadas.

Alguns dias antes do manejo, Krause instalou seu sistema de gravação na campina e registrou os sons do amanhecer. Uma rica música natural explodiu em seus fones de ouvido, executada por pica-paus, codornas, pardais e insetos de todos os tipos. Um ano depois, já com as árvores derrubadas, Krause regressou ao local, no mesmo dia do mesmo mês, à mesma hora e sob as mesmas condições meteorológicas.

Assim como prometeram os biólogos, a floresta parecia intacta. Aos olhos humanos, não havia sinais de deterioração. Porém, a nova “música” capturada pelo gravador revelava um cenário muito diferente. O que antes formava uma amplo mosaico sonoro, limitava-se agora a um punhado carente de ruídos, no qual se destacavam apenas o correr do rio e o martelar solitário de um pica-pau.

Com uma gravação de apenas alguns segundos, Krause acabara de comprovar que o som de um ambiente pode informar muito mais sobre seu equilíbrio do que fotografias ou imagens de satélite. Conhecido como “ecologia acústica” (soundscape ecology), o conceito se tornou hoje uma disciplina científica, da qual o músico é um dos pioneiros. Em resumo, a ideia consiste em usar a sonoridade dos organismos vivos não humanos (“biofonia”) e a de fontes não biológicas (“geofonia”) como indicadores de biodiversidade: quanto mais “musicais” e complexas as propriedades acústicas de um habitat, mais saudável ele será.

– As gravações biofônicas simplesmente confirmam nossas relações com o mundo natural – explica o músico, em entrevista por e-mail à Revista Amanhã. – Se elas são saudáveis, a paisagem sonora indicará os padrões necessários que confirmam em que grau essa relação existe. Se não são, então não haverá som em determinado habitat, ou os padrões bioacústicos serão caóticos e incoerentes.

Nascido em 1938, em Detroit, Bernie Krause passou mais da metade de seus 75 anos perseguindo sons naturais pelos quatro cantos do mundo. Depois de trabalhar com artistas como Bob Dylan, The Doors e Rolling Stones, e ajudar a criar efeitos de filmes como “Apocalipse Now” (do qual foi demitido e recontratado uma dezena de vezes durante as filmagens), o músico cansou das vaidades de Hollywood e passou a se dedicar exclusivamente à acústica ecológica. Fonte para numerosos discos e publicações, sua coleção inclui desde fontes não biológicas, como fragores de trovões e “cantos” de dunas de areia, aos mais improváveis sons de animais (vocalizações de larvas e grunhidos de anêmonas-do-mar). Um balanço destas experiências pode ser lido em “A grande orquestra da natureza”, seu último livro, publicado no Brasil pela Zahar, em 2013.

O trabalho de Krause representa um divisor de águas na história da paisagem sonora: antes da sua contribuição, a técnica consistia essencialmente em capturar fragmentos monofônicos de fontes isoladas, restringindo as pesquisas aos limites de cada vocalização. Como, por exemplo, quando uma equipe de ornitólogos registrou, em 1935, o canto do raríssimo pica-pau-bico-de-marfim. Se quisermos saber como soava esta criatura, hoje provavelmente extinta, temos a amostra gravada.

Com o músico e naturalista americano, no entanto, o escopo de pesquisa começou a ser ampliado. Ao explorar florestas equatoriais da África, Ásia e América Latina, Krause percebeu que o que nos chega da natureza é profundamente conectado. Como músicos em uma orquestra, as diferentes espécies harmonizam suas vocalizações, modulam em conjunto, de acordo com os sons naturais de fontes não biológicas (o vento, a água, o movimento da terra e da chuva) de cada habitat.

Assinatura acústica

Esta complexa acústica multidimensional precisava ser capturada como um todo, e Krause usou sua experiência na produção musical para modernizar os modelos de gravações, antes limitados a um só canal.

– Separar as vozes das espécies individuais, especialmente na biofonia, é um pouco como tentar entender a magnificência da quinta sinfonia de Beethoven abstraindo o som de um único violino, fora do contexto da orquestra, e ouvir apenas uma parte dela – compara Krause. – Ao fragmentar ou descontextualizar as paisagens sonoras do mundo natural, é impossível entender a sua voz, as razões de uma determinada vocalização, ou ainda a sua relação com todos os outros sons de animais emitidos em um habitat. Gravando todos os sons juntos, ao mesmo tempo, ganha-se uma explicação contextual.

Isso não significa, contudo, que Krause ignore vocalizações específicas. Pelo contrário. Cada organismo possui uma assinatura sonora própria, e seu arquivo reúne as mais variadas espécies de animais. Em “A grande orquestra da natureza”, ele descreve algumas curiosidades. Descobrimos a inacreditável amplitude sonora do camarão-pistola, que com apenas cinco centímetros é capaz de produzir, debaixo d’água, um barulho mais intenso do que os volumes registrados em shows de rock.

Também aprendemos que os lobos aproveitam a privilegiada ressonância e propagação da noite para vocalizar, ou que os sons dos golfinhos, se produzidos fora do ar, equivaleriam ao disparo de uma arma de grosso calibre.

Há ainda detalhes sobre uma das melodias mais bonitas que existem, gerada por casais de gibão da Indonésia. “Cada par desenvolve os próprios diálogos musicais bastante elaborados – duetos encantadores de entrosamento amoroso”, descreve Krause.

As gravações nos ajudam a entender manifestações emocionais de certos animais. Neste sentido, poucas coisas soam mais tristes do que o choro de um castor em luto.

O músico também compara as vocalizações de duas duplas de baleias – uma de um grupo ainda selvagem, outra cativa num parque temático. Enquanto a primeira apresentava sons cheios de energia e vitalidade, na segunda se destacava uma lentidão letárgica nas vocalizações.

Assim como acontece com os organismos vivos, cada fonte não biológica possui um ressonância peculiar. Para Krause, o mar de Ipanema, por exemplo, traz uma assinatura acústica diferente das de outras praias: “Sempre achei que o som sedutor, lento e ritmado dessas ondas me acolhia e me chamava para a tentadora arrebentação”, escreve. Por outro lado, ele conta que a arrebentação no litoral da Louisiana, no Golfo do México, passou a soar “gorgolejante, lamacenta e morosa, como se a água estivesse engasgada e afogada em si mesma” depois de um grande vazamento de petróleo em 2010.

Em “A grande orquestra da natureza”, Krause mostra que a conexão entre os mundos sonoros humano e não humano se perdeu. Nosso modo de vida não só nos priva da capacidade de escutar com atenção o que está ao redor, como ainda silencia a diversidade acústica dos recintos do planeta. O autor lembra que metade das fontes de seu arquivo, gravadas ao longo das últimas quatro décadas, se encontra hoje extinta por causa da intervenção humana. Em muitos desses lugares, as alterações sonoras acontecem num ritmo assustador, como as geleiras do Kilimanjaro e de Glacier Bay, ou os recifes de coral.

Segundo Krause, um sintoma deste divórcio com a natureza está na própria autorreferencialidade e antropocentrismo da música ocidental, que nos últimos séculos teria se alimentado apenas de suas próprias experiências. O que não acontece com muitos povos indígenas, como os ianomâmi, que usam as melodias da chuva caindo sobre a vegetação e outros ritmos geofônicos na sua música tradicional. Krause mostra como seres humanos que vivem intimamente ligados à floresta, como os bayaka na África, ou os kaluli em Papua-Nova Guiné, encontram na biofonia uma espécie de karaokê ecológico. Em suas performances, a natureza se transforma em uma banda de apoio. O que leva à conclusão óbvia de que a música humana teria se originado nas sonoridades do mundo natural.

– Como pré-requisito para concessão de um diploma, eu aconselharia qualquer instituição acadêmica que treina músicos e compositores se certificar de que cada aluno tem pelo menos um ano de experiência de escuta e gravação em habitats selvagens extremos, o mais afastado possível de áreas urbanas e antropofônicas – opina Krause.

Discoteca ecológica

Anêmona-do-mar: Emissora de sons incomuns, solta grunhidos altos e irritantes quando perturbada.

Castor: Uma das vocalizações mais tristes gravadas por Krause é a de um castor que acabara de perder sua companheira e filhotes e nadava em círculos gritando sua dor.

Vento: Por sua força mística, é um dos mais etéreos sons geofônicos.

Neve: Para quem se dedica ao registro sonoro da natureza, o som da neve caindo equivale a “um prato da alta gastronomia”, segundo Krause: difícil de conseguir, mas inigualável.

Ouça mais sons na página do livro “A grande orquestra da natureza”:http://bit.ly/orquestranatureza

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/revista-amanha/acustica-ecologica-medida-para-biodiversidade-11416452#ixzz2ru9qYO5n 
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Governo reconhece número recorde de decretos de emergência em 2013 (G1)

JC e-mail 4883, de 29 de janeiro de 2014

Foram 3.747, o maior dos últimos dez anos, segundo dados da Defesa Civil

O governo federal reconheceu 3.747 decretos de situação de emergência e estado de calamidade pública no ano passado. O número, o maior de toda a série histórica da Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), representa uma média de dez decretos reconhecidos por dia no país. Trata-se de um aumento de 182% em relação a 2003 (Veja o mapa ao lado com todos os decretos).

Ao todo, 1.940 cidades requisitaram ajuda federal, sendo que 2/3 delas fizeram isso mais de uma vez durante o ano. Ao decretar situação de emergência ou estado de calamidade pública, os municípios comunicam ao governo federal a ocorrência de um grande desastre natural e pedem a liberação de verba de emergência da União para tentar amenizar os danos.

A seca que assolou o Nordeste, por exemplo, considerada por alguns estados como a pior dos últimos 50 anos, fez com que 75% dos municípios da região tivessem decretos reconhecidos. Treze cidades (11 do Piauí e duas da Bahia) tiveram situação de emergência reconhecida quatro vezes em 2013.

A Bahia é o estado que concentra o maior número de municípios (284) em emergência e calamidade e é também o que detém a maior parcela dos decretos (680). O Piauí aparece logo atrás, com 612 reconhecimentos. No estado, 212 das 224 cidades entraram em emergência no ano passado.

A maioria (87%) dos reconhecimentos em todo o país se deu em razão de seca ou estiagem, que ainda persiste em parte do território nacional. Houve também decretos por inundações, geadas e granizo, erosões e deslizamentos, incêndios, vendavais e tornados, doenças infecciosas virais e até por infestação de uma praga em árvores – caso registrado em Belo Horizonte, em março.

Segundo o secretário nacional de Defesa Civil, Adriano Pereira Junior, muitos decretos foram renovados durante o ano passado em razão de eventos prolongados, provocando um aumento na estatística. Além disso, o fato de a população diretamente afetada nos municípios que tiveram reconhecimento do decreto poder sacar uma parte do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para refazer a vida ajuda a entender esse aumento de pedidos, já que várias ocorrências graves, com muitas pessoas atingidas, foram registradas em 2013, explica o secretário.

Alguns reconhecimentos realizados em 2013 são de pedidos feitos pelas cidades em 2012. Como eles tiveram efeito retroativo (ou seja, mesmo quando reconhecidos, passaram a valer a partir da data da solicitação) e a validade expirou, novos decretos foram reconhecidos em uma data próxima. Um erro da Sedec também fez com que alguns municípios tivessem um mesmo decreto reconhecido duas vezes, com publicação no Diário Oficial da União. O Ministério da Integração Nacional não sabe precisar o número, mas diz que isso não causou prejuízo às cidades nem aos cofres públicos, já que verbas só são repassadas após a apresentação de um plano de ação pelas administrações municipais.

Em 2013, houve ainda a criação do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID). Antes, os municípios precisavam entregar, em papel, documentos para comprovar os prejuízos sofridos. Atualmente, todo o processo é feito digitalmente, o que torna mais ágeis a ação dos municípios e o reconhecimento por parte do governo federal.

Em 2014, já foram feitos 141 reconhecimentos de decretos de emergência e calamidade pública em todo o país, sendo 65 (46%) em Minas Gerais, em decorrência das chuvas intensas.

Situação de emergência e estado de calamidade
Dos decretos reconhecidos em 2013, 3.740 são de situação de emergência e sete de calamidade pública. A situação de emergência é o reconhecimento pelo poder público de uma situação anormal provocada por um desastre natural com danos superáveis. Já a calamidade se refere a uma situação anormal que causa sérios danos à comunidade, à segurança e à vida dos moradores.

A partir do reconhecimento do decreto, os municípios podem receber uma verba de emergência, que chega mais rápido aos cofres locais, por meio das chamadas transferências obrigatórias. Os decretos têm uma validade máxima de 180 dias (não há um prazo mínimo). Já os recursos para reconstruir as áreas atingidas dependem da apresentação de um plano de trabalho no prazo de 90 dias da ocorrência do desastre.

Para ações de socorro imediato, como assistência a vítimas, aquisição de cestas básicas e aluguel social para desabrigados, as prefeituras precisam apenas do reconhecimento da emergência. A transferência é feita pelo Cartão de Pagamento de Defesa Civil (CPDC).

Controle
A Controladoria Geral da União (CGU) diz que tem acompanhado a execução dos gastos referentes aos repasses federais para as cidades em emergência ou calamidade. Em nota, a CGU informa que faz relatórios de diagnóstico situacional e de fiscalização, monitora as verbas do CPDC e orienta estados e municípios, elaborando manuais e participando de fóruns.

Segundo a CGU, de 2008 a 2010 foram fiscalizados recursos na ordem de R$ 1,8 bilhão, quantia que foi repassada para subsidiar ações de reconstrução.

“Buscou-se avaliar a confiabilidade das informações relacionadas à localização e aos danos provocados por desastres naturais sofridos pelos municípios, e a regularidade da execução das obras, bem como se as mesmas atingiram os benefícios esperados”, diz a CGU, em nota.

De acordo com o órgão, diversos problemas foram verificados. “As principais irregularidades identificadas foram falhas nos relatórios de avaliação de danos, conclusão de obras extrapolando o prazo de 180 dias ou ultrapassando o prazo estipulado para dispensa de licitação, falhas/impropriedades relativas à especificação das obras, como a inexecução de itens, superestimativa de quantitativos e obras em desacordo com as especificações técnicas, falhas/impropriedades relativas à medição, como o pagamento por serviços não executados, medição de quantidades maiores que as executadas, bem como o superfaturamento de alguns serviços.”

NÚMERO DE DECRETOS RECONHECIDOS NO BRASIL, POR ANO:
2013 – 3.747
2012 – 2.776
2011 – 1.282
2010 – 2.765
2009 – 1.292
2008 – 1.502
2007 – 1.615
2006 – 991
2005 – 1.711
2004 – 1.760
2003 – 1.325

(Thiago Reis / Portal G1)