Estudo examina as formas de interação entre os net-ativistas, as redes digitais e a territorialidade
JULIANA SAYURI | Edição 217 – Março de 2014
A máscara Anonymus foi um dos símbolos das manifestações do exterior usados pelos que não queriam mostrar o rosto
Muitos textos foram escritos sobre as passeatas de junho de 2013 no Brasil, especialmente em relação ao teor político, à legitimidade e à importância histórica dessas manifestações. Enquanto alguns intelectuais foram surpreendidos por sua dimensão, outros viram nas ruas uma expressão altamente simbólica das articulações do “net-ativismo”. Esta é, a propósito, a expressão-chave de um estudo sob o tema apoiado pela FAPESP,Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais, liderado pelo sociólogo italiano Massimo Di Felice, coordenador do Centro de Pesquisa Atopos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
O trabalho, impulsionado pelo caráter internacional do net-ativismo, teve a colaboração de três sociólogos europeus: Michel Maffesoli, fundador e diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano da Universidade Sorbonne, em Paris; José Bragança de Miranda, do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, e Alberto Abruzzese, do Núcleo Italiano de Midialogia da Universidade Livre de Língua e Comunicação, em Milão. Os três, aliás, e mais Pierre Levy, participaram de 6 a 8 de novembro passado do congresso internacional sobre “Net-ativismo, redes digitais e novas práticas de democracia”, na ECA-USP, cujos textos principais deverão estar reunidos em livro no final deste semestre.
Enquanto debatiam a montagem de um observatório internacional sobre o net-ativismo, Di Felice e colegas encontraram numerosas analogias, especialmente de forma, entre os novos modelos de participação nas redes digitais, entre 2011 e 2013. “Embora fossem surpreendentemente parecidas as reivindicações”, observa ele, os pesquisadores optaram por analisar as características das formas de interação entre os ativistas, as redes digitais e a territorialidade. Ou seja, em vez das motivações e dos argumentos políticos, “o que norteou a pesquisa foi a descrição das interacões nessas manifestacões e a amplitude de sua localização”, acrescenta.
Protesto no Congresso Nacional em junho de 2013 contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte, na saúde e educação
Antes, portanto, da efervescência política e cultural estimulada por diversas mobilizações nas redes e nas ruas, dentro e fora do eixo Rio-São Paulo, o sociólogo já tinha dado seus primeiros passos na investigação do potencial do ativismo articulado nas redes. “O início do estudo foi inspirado por meus percursos, que me levaram a investigar na década passada as formas de conflito na América Latina”, conta Di Felice. A princípio, o pesquisador se dedicou ao movimento zapatista, no México de 1994, que inaugurou o primeiro modelo de protesto global com cartas espalhadas na internet. “Em qualquer canto do mundo, todos os movimentos atuais encontram o zapa-tismo como movimento inspirador. Foi um marco. O rosto coberto dos black blocs e dos Anonymous vem dos zapatistas, assim como a recusa da luta pelo poder, a aversão às tradicionais bandeiras ideológicas e aos partidos políticos de qualquer tendência e a possibilidade de criar uma comunicação própria, como alternativa às mídias oficiais. Esses elementos já se encontravam todos no zapatismo”, diz.
A pesquisa de Di Felice identificou três momentos distintos para o ativismo digi-tal. Primeiro, na década de 1990, o desen-volvimento de movimentos internacionais temáticos, com a difusão de ativismos em redes centralizadas, e de movimentos teóricos da estética na Austrália e na Índia, que pretendiam criar estratégias de ações com os chamados tactical media. Sua atuação se dava nas artes e na política com a busca de táticas inovadoras de intervenções, com rápida ramificação internacional. Um exemplo é o surgimento dos protestos digitais do movimento Cyberpunk.
No segundo momento, ainda na década de 1990 e começo dos anos 2000, Di Felice assistiu aos desdobramentos da fase indígena e cibernética que encontrou expressão na luta zapatista e inspirou o Fórum Social Mundial. Assim vieram as primeiras práticas de protesto midiático internacional, em cidades como Seattle (em 1999), Praga (em 2000) e Davos (em 2001), marcando a experimentação das primeiras formas de conflitualidade, levando, com a internet, a ação social para dimensões planetárias.
Protestos em Seattle, em novembro de 1999
Por fim, o terceiro momento ocorreu a partir de 2000 e alcança o presente. Nele, o pesquisador destaca um novo ativismo, que, em muitos casos, provocou processos radicais de transformação – como no caso da Primavera Árabe, com a derrocada de regimes no Egito de Hosni Mubarak, na Líbia de Muamar Kadafi e na Tunísia de Zine el-Abdine Ben Ali – e o surgimento de novas movimentos, como o 5 Estrelas-M5S, na Itália (2009), o #YoSoy132, no México (2012), os indignados do M15, na Espanha (2011), e o M12M de Portugal (2011). Sem esquecer o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e as jornadas de junho, no Brasil (2013).
Mas o que mudou para propiciar o boom de movimentos tão amplos e diversos? Para Di Felice, a chave está na passagem da web 1.0 para a web 2.0. Antes, a internet era uma rede de computadores conectados por modems e linhas telefônicas, permitindo apenas a troca de textos e de imagens. Eram os tempos das primeiras noções de cibercultura. Na década de 1990, o ciberativismo era considerado uma modalidade de ação política direta de base, marcada pela difusão de informações na rede a fim de boicotar o consumo e realizar ocupações e protestos relacionados aos direitos humanos, civis e ecológicos.
Agora, com o avanço tecnológico e o advento das redes sociais digitais, a internet se tornou uma plataforma plural e conflitiva, com mobilidade e agilidade, facilitando o intercâmbio e o compartilhamento não só de textos e de imagens, mas de outros formatos multimídia. É possível dialogar, criar redes temáticas, trocar conteúdos e buscar soluções de forma colaborativa em tempo real. De acordo com Di Felice, o net-ativismo corresponde a uma forma intensiva de interação na rede, entre indivíduos, territórios e tecnologias digitais. Ao contrário de outros tempos, marcados pela oposição à globalização, esse novo ativismo sinaliza uma identidade cidadã global, possível e presente nas redes digitais, com pautas reivindicatórias direcionadas à democracia, à equidade e à sustentabilidade. “A internet é uma construção coletiva. É uma rede inteligente”, define Di Felice, em entrevista realizada por Skype, conectando Roma-São Paulo.
Na mesma linha, Henrique Antoun, autor de A internet e a rua (Sulina, 2013) e coordenador do Cibercult, laboratório da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa: “As redes digitais permitem que as populações experimentem as relações socioglobais e locais de modo lúdico e possam propor novas formas de trabalho, projetos autônomos e novos modos de coletividade e governança. Com o ciberativismo, a massa estúpida se fez uma multidão inteligente, fazendo o pensamento guiar as ações coletivas e submetendo a centralidade da estratégia ao descentramento das táticas”.
Movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2011
Nesse contexto, o estudo liderado por Di Felice, além de construir uma tipologia da ação net-ativista que caracteriza a qualidade da ação em frontal, imersiva, dialógica e reticular, indicou três características para a definição de net-ativismo. A primeira se refere à singular ecologia das ações que acontecem ao mesmo tempo nas ruas e nas redes digitais. “É uma nova ecologia, muito complexa, agregando dispositivos de conectividade, cidades, corpos e informacões digitais (Big data), por meio de diferentes tipos de atores e de interações. Não há mais distinção entre o mundo ‘real’ e o mundo ‘virtual’”, diz o pesquisador. “Isso inaugura uma nova forma de cidadania que supera a esfera pública, antes possibilitada pela mídia da opinião ‘publicada’, ou seja, pela opinião difundida na esfera pública midiática. Agora todo cidadão pode produzir e compartilhar informações.” Basta pensar nas últimas manifestações embaladas pela hashtag #vemprarua. O manifestante está presente fisicamente na rua e, ao mesmo tempo, pode registrar e postar fotos no Facebook comentando o protesto em tempo real e expandindo assim a localidade de sua atuação. Pode gravar e postar vídeos no YouTube, mostrando realidades diferentes das propagadas pela mídia tradicional. E pode também postar no Twitter, narrando impressões pessoais sobre o que acontece na rua e na rede.
Se não há mais contraposição aparente entre o universo “real” e o “virtual”, o que dizer da diferença entre a esfera pública e o espaço privado? “Atualmente não habitamos só o território, mas também redes inteligentes”, explica. “Esse processo que começou com a eletricidade amplia-se quantitativamente com as redes digitais e os dispositivos de conexão móveis. A conexão ubíqua aos fluxos informativos mediante dispositivos me permitem alterar a minha situação social e a minha experiência da localidade. Onde estamos e onde agimos é hoje cada vez mais o resultado de relações em redes ecológicas complexas”, comenta Di Felice.
A segunda característica do net-ativismo seria a valorização do anonimato (influenciada pelo movimento zapatista) e a recusa de uma identidade política ideológica, sintetizada num líder (recusa reverberada nos protestos no Brasil, por exemplo). Não há um centro difusor de ordens e ideias, mas uma relação horizontal entre os net-ativistas. A terceira característica seria a recusa da institucionalização, expressa na aversão a partidos políticos de quaisquer orientações, o que diferencia essencialmente os movimentos sociais nas redes digitais e os movimentos sociais modernos. “O ativismo digital possibilita a superação da velha ideia de militante, dos ativos nos grêmios universitários e nos partidos políticos. Isso se superou, pois todos nós podemos atuar nas redes digitais. Na rede estão presentes as atividades culturais, os estudos, as relações sociais. Assim, temos uma nova forma de democracia, em que o cidadão é chamado a ser cidadão ativo todos os dias – e não só na participação com um voto a cada quatro anos”, diz Di Felice.
Mas o net-ativismo está estritamente ligado ao #vemprarua? Isto é, para se realizar, é preciso estar de corpo e alma presente nas manifestações? Talvez não. “O net-ativismo não pode ser pensado apenas na dimensão do protesto ou do conflito. Há redes de cidadãos pensando soluções para diversos impasses de nosso tempo”, observa Di Felice. “A passeata é apenas a expressão visível das redes. Na verdade, o aspecto mais importante do ativismo em rede é o acesso às informações e os debates para a solução direta dos problemas através da criação de redes de inovação.” Na visão do pesquisador, “aí temos um importante papel das universidades. Elas têm a obrigação de estar nas redes e participar desse processo histórico que marca a passagem da sociedade do espetáculo para a sociedade das redes”, conclui.
Projeto
Net-ativismo: ações colaborativas e novas formas de participação em redes digitais (nº 2010/50999-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadorresponsável Massimo Di Felice; Investimento R$ 30.267,23 (FAPESP).
Agrotóxicos, metais pesados e substâncias que imitam hormônios podem estar na água que chega à torneira da sua casa ou na mineral, vendida em garrafões, restaurantes e supermercados. Saiba por que nenhuma das duas é totalmente segura
Pesquisar sobre a água não é fácil. Não existem leis ou regras que definam um critério uniforme para a divulgação de dados. Esperei mais de 15 dias, por exemplo, para receber as análises de qualidade para o município de São Paulo, segundo as normas da Portaria 2.914/2011, do Ministério da Saúde. Os mesmos resultados para o Rio de Janeiroestão disponíveis para consulta de qualquer pessoa no site da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), responsável pelo tratamento de água na cidade. Não se sabe por que uma das concessionárias fornece a informação publicamente, enquanto a outra não diz nada sobre o assunto.
Depois de muita espera e de uma dezena de e-mails trocados, recebi quase todas as análises da capital paulista feitas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), encarregada da água e do saneamento na metrópole. No primeiro envio, porém, faltavam vários dos parâmetros considerados pela portaria do Ministério da Saúde. Por quê? Não há como saber. Depois de insistir mais, recebi todos os dados (aqui, aqui, aqui e aqui).
Como primeiro resultado dessa investigação sobre a qualidade da água, posso dizer que, em São Paulo e no Rio de Janeiro, dá para beber a água da torneira sem correr o risco de ser vítima de uma contaminação microbiológica. Ninguém vai passar mal, nem ter diarreia. É preciso, no entanto, verificar se a caixa d’água do imóvel está limpa. Tanto em um prédio como em uma casa, ela precisa ser lavada a cada seis meses. Nos condomínios, o síndico é o responsável por cuidar da execução do serviço. Nas residências, o proprietário tem que fazer o trabalho ou contratar uma empresa para isso. Se a limpeza estiver em dia, tudo bem.
A água usada para abastecimento público passa por um processo de tratamento e desinfecção mecânico e químico, que elimina toda a poluição microbiológica (coliformes totais – grupos de bactérias associadas à decomposição da matéria orgânica – e Escherichia coli). “A água da torneira é controlada várias vezes por dia, para se ter certeza de que está sempre dentro dos padrões de qualidade”, afirma Jorge Briard, diretor de produção de água da Cedae, no Rio. Mas o fato de se poder beber a água da torneira não quer dizer que o líquido não esteja poluído – e que não possa causar problemas de saúde no longo prazo.
Regras “adaptadas à realidade brasileira”
Na água do abastecimento público existem vários tipos de poluentes tóxicos. Estudos científicos associam o consumo de muitos deles ao aumento da incidência de câncer na população, enquanto outros têm efeitos ainda pouco conhecidos na saúde. Estão presentes na água que bebemos substâncias químicas como antimônio, arsênio, bário, cádmio, chumbo, cianeto, mercúrio, nitratos, triclorobenzeno, diclorometano; agrotóxicos como atrazina, DDT, trifluralina, endrin e simazina; e desinfetantes como cloro, alumínio ou amônia.
A portaria do Ministério da Saúde controla os níveis de 15 produtos químicos inorgânicos (metais pesados), de 15 produtos químicos orgânicos (solventes), de sete produtos químicos que provêm da desinfecção domiciliar e de 27 tipos de agrotóxicos presentes na água. Na primeira norma de potabilidade da água do Brasil, a Portaria 56/1977, havia apenas 12 tipos de agrotóxicos, 10 produtos químicos inorgânicos (metais pesados) e nenhum produto químico orgânico (solventes), nem produtos químicos secundários da desinfecção domiciliar.
Tanques usados nas quatro fases do processo de tratamento de água da Estação do Guaraú, em São Paulo: coagulação, floculação, decantação e filtração. Foto: Anne Vigna
A mudança reflete a crescente poluição da indústria, que utiliza metais pesados e solventes; do setor agrícola, que usa agrotóxicos e fertilizantes; e de todos nós, que limpamos a casa com cada vez mais produtos químicos. A assessoria de comunicação do Ministério da Saúde afirma que as substâncias que hoje estão na Portaria 2.914/2011 foram escolhidas a partir “dos avanços do conhecimento técnico-científico, das experiências internacionais e das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2004), adaptadas à realidade brasileira”.
O último trecho da resposta do ministério, “adaptadas à realidade brasileira”, permite entender a diferença entre os agrotóxicos e contaminantes inorgânicos escolhidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e os listados na portaria brasileira. A OMS inclui um número muito maior de produtos químicos . Em um dossiê especial sobre agrotóxicos publicado em 2012, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) questiona essa discrepância: “Por que monitorar menos de 10% dos ingredientes ativos oficialmente registrados no país?” O ingrediente ativo, ou princípio ativo, é uma substância que tem algum tipo de efeito em organismos vivos.
Um exemplo é a bentazona. Considerada pela OMS como um poluente da água, a substância não aparece na portaria do Ministério da Saúde. Na bula de agrotóxicos que a contêm, como o Basagran, a bentazona é descrita como “um agroquímico da classe toxicológica I – extremamente tóxico e nocivo por ingestão”. Como herbicida, é muito usada nas culturas de soja, arroz, feijão, milho e trigo. E o que isso tem a ver com a água? Os próprios fabricantes dão a entender que, se for mal utilizada, a bentazona pode causar efeitos danosos sobre o ambiente aquático. “[O produto] é perigoso para o meio ambiente por ser altamente móvel, apresentando alto potencial de deslocamento no solo e podendo atingir principalmente as águas subterrâneas. Possui ainda a característica de ser altamente persistente no meio ambiente, ou seja, de difícil degradação”, diz o texto.
Outro exemplo: um estudo de 2009 sobre a contaminação de mananciais hídricos, liderado pelo pesquisador Diecson Ruy Orsolin da Silva, da Universidade Federal de Pelotas, monitorou a ocorrência de agrotóxicos em águas superficiais de sete regiões do sul do Brasil, associadas ao cultivo de arroz na safra 2007/2008. De todos os produtos detectados – clomazona, quincloraque, penoxsulam, imazetapir, imazapique, carbofurano, 3-hidróxido-carbofurano, fipronil e tebuconazol – somente o carbofurano é controlado pela portaria. Isso mostra que muitos dos agrotóxicos utilizados, e que estão presentes nos meios aquáticos no país, não são fiscalizados pelas empresas de tratamento de água. Elas não são obrigadas pelo Ministério da Saúde a fazer o controle.
Em São Paulo e no Rio, os níveis dos produtos químicos listados na portaria estão dentro dos limites permitidos. Na verdade, os valores de São Paulo são muitos melhores do que os do Rio. Isso é uma boa notícia? Sim e não. “Os processos de transformação química quebram as moléculas tóxicas, fazendo com que desapareçam. Essa manipulação da água cria outros compostos ou resíduos desconhecidos. Ninguém procura por eles e evidentemente não estão na portaria. Hoje ninguém sabe quais são os efeitos dessas moléculas”, diz Fabrice Nicolino, jornalista francês especializado em meio ambiente. Mesmo concentrações muito baixas de algumas substâncias podem ser perigosas.
A polêmica do alumínio
Como se tiram os poluentes da água? Tudo começa com um processo chamado coagulação. Nessa fase, são adicionados sulfato de alumínio e cloreto férrico, para agregar as partículas de sujeira presentes. O uso do sulfato de alumínio é muito polêmico no mundo todo. Ainda que não tenha sido provada uma relação direta entre esse produto químico e a doença de Alzheimer, vários cientistas europeus defendem que ele é responsável pelo aumento da incidência do problema nas últimas duas décadas.
Um estudo feito durante oito anos pelo Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), em Bordeaux, no sul da França, concluiu que uma forte concentração de alumínio na água, bebida a vida toda, pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de Alzheimer. Realizada por um dos centros de maior prestígio da França, a pesquisa causou – e continua a causar – muito barulho, tanto na imprensa quanto no mundo científico.
Também teve forte impacto um artigo científico dos pesquisadores Chris Exley, da Universidade Keele, e Margaret Esiri, da Universidade de Oxford – ambas no Reino Unido – publicado no Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry em 2006. Quando foi realizada a autópsia de Carole Cross, que morreu, aos 59 anos, de Alzheimer, observaram-se altas concentrações de alumínio no seu cérebro. Os autores relacionaram o achado a um acidente que atingiu a cidade de Camelford, na Inglaterra, onde Carole vivia em 1988. Na época, 20 toneladas de sulfato de alumínio foram depositadas por engano nas tubulações de água potável. Os pesquisadores não relacionam diretamente a presença do metal com a doença. Sabe-se, contudo, que o alumínio está ligado a alguns tipos de demência, e que Carole não tinha antecedentes familiares com doenças semelhantes.
Princípio da precaução
Faz um bom tempo que as empresas responsáveis pelo tratamento da água conhecem os perigos do alumínio. Em Paris, a substância deixou de ser usada nesse processo há mais de 20 anos. Adota-se o cloreto férrico. A prefeitura da capital francesa resolveu fazer a mudança pelo que é conhecido como princípio da precaução: se existem antecedentes ou experiências que sugiram um risco, não se espera que a ciência comprove isso. É melhor prevenir do que lidar com o problema depois.
Quando perguntei à Sabesp e à Cedae se achavam possível parar de usar o alumínio, a resposta foi clara. “Mas por quê? O produto funciona muito bem”, disse André Luis Gois Rodrigues, responsável pela qualidade da água na Sabesp. As duas empresas admitiram conhecer a polêmica. “Nada foi comprovado. O uso do alumínio é permitido pelo Ministério da Saúde e também pela OMS. Se um dia for demonstrado que há risco, com certeza deixaremos de usar”, explicou Jorge Briard, da Cedae. Além de ser barato, o sulfato de alumínio permite obter uma cor transparente, um pouquinho azul, bem bonitinha, semelhante à de um rio limpo. Por isso, é bem prático. Ninguém vai se queixar da cor da água.
Adicionam-se sulfato de alumínio, cloreto férrico ou outro coagulante à água. Nessa fase, a coagulação, as partículas de sujeira agregam-se. Foto: Anne Vigna
Vale lembrar que a água não é a única fonte de absorção do alumínio no corpo. Atualmente a substância encontra-se em altas concentrações na comida (nos legumes e especialmente nos aditivos alimentares, como conservantes, corantes e estabilizadores), nos cosméticos ou nos utensílios de cozinha. De acordo com a OMS, um adulto ingere cerca de 5 miligramas de alumínio por dia apenas da comida. Para a organização, os aditivos são a principal fonte de alumínio no corpo. Em comparação, a água traz um volume muito menor: em média 0,1 miligrama por litro, o que pode somar 0,3 miligrama se você bebe 3 litros por dia. Segundo a entidade, o alumínio na água representa só 4% do que um adulto absorve.
Essa relação também é válida para os agrotóxicos. É bem provável que, comendo legumes não-orgânicos, uma pessoa absorva uma quantidade muito maior desses produtos do que ao beber água. Fazer essa comparação é muito complicado, porque o jeito de contabilizar os agrotóxicos é diferente na comida e na água. Sabemos, porém, que os agrotóxicos são diretamente aplicados nas plantações, e as medições mostram que estão em proporção maior nos alimentos do que na água.
Por conta da grande utilização de medicamentos na criação de animais hoje, os cientistas reconhecem que a dose diária de absorção de antibióticos e hormônios de crescimento é mais importante pela comida do que pela água. O professor Wilson Jardim, da Unicamp, explica, no entanto, que isso não muda o fato de que, mesmo em doses pequenas, os contaminantes presentes na água possam ter um efeito negativo na saúde.
A saída é a garrafinha?
Seria então melhor para a saúde beber água engarrafada, que chega a custar 800 vezes mais do que a água da torneira? A resposta, de novo, não é simples. Em tese, a água envasada tem melhor qualidade por ser subterrânea, o que oferece uma proteção natural contra contaminação. Mas encontrar informações sobre a qualidade da água mineral também é muito complicado no Brasil. A Associação Brasileira de Indústria de Água Mineral (Abinam), que representa as envasadoras da água, negou os pedidos de entrevista para esta reportagem. A comunicação também não é muito aberta do lado das autoridades.
Na verdade, não há como ter acesso à documentação sobre a qualidade da água engarrafada. Para obter a lavraria e a renovação da concessão, uma empresa de água mineral recebe, a cada três anos, a visita dos funcionários do Laboratório de Análises Minerais (Lamin) da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), um órgão federal. Os resultados das análises são comunicados à empresa e ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), responsável pela água mineral no país, mas não ficam disponíveis para o público. Por quê? Não recebi resposta do DNPM.
Essas análises teriam que ser feitas seguindo a resolução RDC 274/2005, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A norma inclui agrotóxicos e é bem parecida com a portaria que regula a água da torneira. Além de os dados não estarem disponíveis publicamente, outro problema é a forma de fiscalização das fontes. O Lamin do Rio faz análises no país todo, enquanto o de São Paulo concentra-se no estado de São Paulo, onde fica a maior concentração de concessões de água mineral do país. Até o início de 2013, o Lamin do Rio não tinha os equipamentos necessários para fazer as análises dos agrotóxicos, e só no fim de 2014 o Lamin de São Paulo deverá fazer esse trabalho. Ou seja, a resolução levou oito anos para começar a ter todos os seus itens verificados.
Isso não acontece com a água da torneira, que é muito mais controlada. Primeiro, porque ela precisa chegar a toda a população. Segundo, porque a água bruta, a partir da qual se produz a água potável, vem em geral da superfície e está mais sujeita a todo tipo de contaminação. Isso requer atenção constante e análises mais frequentes. A água mineral vem de lençóis subterrâneos, onde fica confinada. É menos poluída do que a que vem dos rios e não recebe nenhum tratamento químico. Depois de um ano fazendo as análises de agrotóxicos, o Lamin do Rio disse que não encontrou esses produtos nas águas minerais de todo o país, com exceção de São Paulo (onde ainda não fazem essa análise e onde está a maior parte das fontes). Mas não tive acesso aos documentos que comprovariam isso.
Ao procurar informações adicionais, descobri que, em São Paulo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) iniciou, em 2011, o monitoramento de lençóis subterrâneos do estado em relação à presença de contaminantes e à atividade estrogênica – ou seja, à capacidade de algumas substâncias agirem no sistema reprodutivo humano, antecipando, por exemplo, a puberdade nas meninas ou produzindo esterilidade nos homens. “Não foi detectada atividade estrogênica na maioria dos 33 pontos de amostragem, selecionados em função de sua maior vulnerabilidade. Apenas três locais apresentaram atividade estrogênica baixa. Isso significa que não há potencial de preocupação para a saúde humana se a água for consumida”, explica Gilson Alves Quinaglia, gerente do setor de análises toxicológicas da Cetesb.
Tanques com cloro e outros produtos químicos usados para tornar a água potável. Foto: Anne Vigna
Agrotóxicos e medicamentos
As empresas de água mineral usam na publicidade o argumento de que a água subterrânea está confinada e, consequentemente, fica protegida da poluição moderna. Seria bom se fosse assim, mas existem estudos que comprovam que a poluição pode chegar a todos os lugares – até mesmo ao subsolo.
No ano passado, uma pesquisa encomendada a laboratórios independentes pelas ONGs 60 Milhões de Consumidores e Fundação Danielle Mitterrand-France Libertés, na França, encontrou tanto agrotóxicos como medicamentos na água engarrafada. “Foi uma surpresa, porque mostra que até a água mineral está poluída. Achamos um agrotóxico, a atrazina, usado no cultivo do milho, que está proibido no país há mais de dez anos. Essa substância tem a propriedade de ser muito persistente no meio ambiente. O que significa que, em dez anos, chega ao subsolo”, explica Thomas Laurenceau, da 60 Milhões de Consumidores.
Outra grande surpresa foi detectar o tamoxifeno, um hormônio usado no tratamento de câncer de mama, nas amostras analisadas. “Os níveis encontrados são muito baixos, mas a presença mostra até que ponto nosso meio ambiente está poluído”, acrescenta Emmanuel Poilane, presidente da France Libertés.
A contaminação não é causada pelas envasadoras de água, e sim pela deterioração geral do meio ambiente. “As empresas de água mineral sempre estão tentando proteger as fontes. Não depredam o meio ambiente. Não é conveniente para elas”, afirma Doralice Assirati, do DNPM. Na Europa e nos Estados Unidos, algumas delas foram obrigadas a fechar explorações, por conta da poluição detectada.
Uma das contaminações possíveis no Brasil seria pelas fossas sépticas, que, às vezes, são malfeitas. No estado de São Paulo, muitas envasadoras de água ficam em áreas urbanas, porque a proximidade do consumidor ajuda o negócio a ser mais lucrativo. Mas, na verdade, o maior problema das águas envasadas não vem do líquido, mas do contêiner de plástico. Se as garrafas e os garrafões fossem de vidro, poderíamos confiar mais na qualidade. Só que os problemas causados pelo uso do plástico já são bastante conhecidos e estudados.
PET, PP, PE, PVC, PC
O mundo dos plásticos é complicado. Aproximadamente 75% da água envasada no Brasil está em garrafões. “Eles podem ser confeccionados em todo e qualquer plástico – PVC, policarbonato (PC), polipropileno (PP) e polietileno (PE) –, desde que obedeçam aos regulamentos da Anvisa para embalagens em contato com alimentos”, afirma Carla Castilho, assessora técnica do Instituto Nacional do Plástico. Isso na teoria. Na prática, a indústria fabrica 90% dos garrafões em polipropileno e o restante, em politereftalato de etileno (PET) e policarbonato, segundo o Instituto Nacional do Plástico. O polipropileno tem custo baixo para o produtor. Isso é uma boa notícia, porque é o plástico menos propenso a ter Bisfenol A (BPA), uma substância química perigosa usada na produção.
A Anvisa autoriza o uso de BPA em materiais plásticos destinados ao contato com alimentos e estabelece, como limite seguro de migração, 0,6 miligrama por quilo de alimento e 0,6 miligrama por litro de bebida. A agência limita-se a estabelecer a quantidade de BPA que pode migrar de um produto para o alimento, não a quantidade máxima presente no produto.
Vários países europeus, como França e Dinamarca, estão proibindo o BPA nas embalagens de alimentos. Isso não tem relação com o nível de migração, e sim com os materiais onde está presente o BPA, como o policarbonato e as resinas epóxi em todas as latas de alumínio. É alta a probabilidade de que a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) reduza o nível de migração de 0,5 miligrama por quilo por dia para até 0,005 miligrama por quilo por dia.
No Brasil, somente as embalagens da água mineral Indaiá, do Grupo Edson Queiroz, um dos maiores do país, são feitas de policarbonato. Técnicos da empresa enviaram análises para nos convencer de que não há nenhum problema com os recipientes em policarbonato. Os resultados do laboratório, de fato, são ótimos. Só que os problemas causados pelos plásticos não acontecem quando as embalagens são novas, mas com a manutenção, a exposição ao calor e as múltiplas lavagens dos garrafões, que podem ser usados durante três anos. “Não podemos nos responsabilizar pela manutenção. Não depende da gente”, disse Francisco Sales, gerente industrial do grupo Edson Queiroz. Não, mas também ninguém pode dizer que a degradação dos plásticos não traz problemas para o consumidor. A degradação do PET, material das garrafas descartáveis, não é algo com que se preocupar se o recipiente for usado uma vez só.
Estudos científicos mostram ainda que, com o tempo, mesmo a qualidade da água mineral se degrada. Em 2009, uma pesquisa realizada por Martin Wagner e Jörg Oehlman, da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, detectou interferentes endócrinos – isto é, substâncias artificiais que agem no nosso corpo por serem parecidas com hormônios – em 12 das 20 amostras de água mineral analisadas. Os dois cientistas também inseriram moluscos em garrafas PET e de vidro e notaram que, nos recipientes plásticos, houve reprodução em uma velocidade maior. Isso também indica a presença desses contaminantes, que podem ter se desprendido do plástico das garrafas. As indústrias do plástico e da água contestaram os resultados.
Caminhão com garrafões expostos ao sol no Catumbi, Rio: calor pode soltar componentes do plástico na água. Foto: Anne Vigna
Praticamente na mesma época, as pesquisadoras Barbara Pinto e Daniela Reali, da Universidade de Pisa, na Itália, detectaram uma contaminação semelhante, mas em menor nível, em amostras de água mineral italiana. Elas não souberam explicar a origem dos interferentes que apareceram em 10% das garrafas. Isso levou vários cientistas a pedir para a indústria do plástico que revelasse os segredos de fabricação, para entender o que acontece em uma água que fica um certo tempo nesses recipientes. A resposta foi o silêncio.
Devido à pouca colaboração da indústria, os problemas causados pelos ftalatos, outros produtos químicos usados no plástico, ainda são pouco conhecidos e estudados. Tanto os ftalatos quanto o BPA estão presentes em praticamente todo o plástico que há nas nossas casas. Os ftalatos são usados na fabricação de acessórios domésticos (piso, papel de parede), produtos infantis (mamadeiras, brinquedos, colchonetes para troca de fraldas, mordedores), embalagens (filme transparente, garrafas descartáveis) e até em utensílios médicos (cateteres, bolsas de sangue e soro). O BPA está nos equipamentos esportivos, em dispositivos médicos e odontológicos, produtos para obturação dentária e selantes, lentes para os olhos, todos os produtos com PVC, e policarbonatos, CDs e DVDs, eletrodomésticos, embalagens de plástico duras, jarras de água em plástico duro e latas de alumínio.
“Existem na vida janelas de exposição do BPA mais problemáticas do que outras. As crianças são mais expostas do que um adulto. Também ocorre maior migração de produtos químicos para a comida ou a água com o calor”, diz o pesquisador Wilson Jardim, da Unicamp. Ou seja, ainda falta muita informação sobre o perigo dos produtos e a toxicidade dos que já estão no meio ambiente. Hoje, temos consciência do perigo de substâncias que a geração anterior à nossa usava de maneira regular, como o DDT. Mas, como acontece agora, a indústria ou não informava ou negava o problema da contaminação.
Qual água é melhor?
É impossível saber se a água envasada é de melhor qualidade do que a água da torneira, pois há muito pouca informação sobre o uso de recipientes plásticos. A água tratada também tem poluentes em um nível pouco conhecido, mas com certeza menor do que o da comida não orgânica. A grande diferença entre as duas é que a água envasada traz ainda mais problemas para o meio ambiente, pelo fato de gerar lixo, aumentar as emissões de carbono e envolver consumo de energia na sua produção.
Como melhorar a água da torneira? (Veja o infográfico animado aqui.)
Parece que o único caminho para salvar a água potável é o da cidadania. As melhores experiências para se obter uma qualidade de água razoável ocorrem quando os cidadãos participam da gestão da água, fiscalizando as empresas de tratamento e exigindo que as autoridades aumentem o orçamento para o recurso “água”.
Hoje, o monitoramento das concessionárias no Brasil é feito pelas agências de vigilância sanitária de cada estado. Mas até as empresas reconhecem que não há fiscalização. As autoridades não parecem ter vontade de aumentar o orçamento para saneamento, mesmo sabendo, há muitos anos, que isso é mais do que necessário para melhorar tanto a água e o meio ambiente quanto a saúde das pessoas.
Ainda é possível mudar as coisas. As soluções existem, só que custam caro. No mesmo estudo sobre a contaminação das garrafas de água com agrotóxicos e medicamentos, as ONGs foram para regiões mais poluídas da França (nem toda a França é como Paris), onde os agrotóxicos chegam a níveis bem acima do permitido pela legislação, há muitos anos. A poluição obrigou as autoridades a investir em tecnologia de ponta para melhorar a qualidade da água. Conseguiram. Entre essas novas tecnologias estão nanofiltração, ultrafiltração, osmose reversa e tratamento com raios ultravioleta solares. Mas, para que os impostos sirvam a essa causa, a mobilização das pessoas é obrigatória.
No Canadá, na Europa, no México ou na Bolívia, existem numerosos exemplos de como a população retomou o poder sobre a qualidade, o preço e, inclusive, a propriedade da água. Também é necessária a vontade política das autoridades para limitar o uso de produtos químicos no meio ambiente e aumentar o apoio à agricultura orgânica. E da ajuda de todos no momento das compras – um consumo consciente, que prefira produtos menos danosos ao meio ambiente, tanto na fabricação quanto na vida útil. Isso significa não trocar de celular a cada novo modelo ou deixar de beber três pequenas garrafas plásticas de água por dia.
Inter Press Service – Reportagens 19/3/2014 – 12h52
por Fabiana Frayssinet, da IPS
Cerca de 15 mil pessoas participaram, no dia 20 de novembro de 2013, da Marcha do Boné, na cidade argentina de Córdoba, denunciando a arbitrariedade policial contra os jovens, segundo sua aparência e condição. Foto: Cortesia do coletivo de Jovens por Nossos Direitos
Córdoba, Argentina, 19/3/2014 – Na província argentina de Córdoba, basta ser jovem, moreno, pobre e usar boné para ser detido como suspeito. A arbitrariedade policial se ampara no crime de “merodeo” (vadiagem), um instrumento de prevenção do crime que viola direitos constitucionais. José María Luque, conhecido como Bichi, perdeu a conta de quantas vezes foi detido pela polícia por essas características, em Córdoba, capital da província de mesmo nome. Residente em um bairro humilde, Luque, de 28 anos, foi detido pela primeira vez quando tinha 13 anos e voltava da escola com um amigo, vestido com uniforme escolar. Ficou detido por uma semana.
“Eles nos pararam, pediram documentos e nos levaram presos. Assim, sem mais nem menos. Inventaram uma acusação contra mim: tentativa de roubo qualificado e porte de arma de fogo. Saí por falta de provas”, contou Luque à IPS. Agora ele integra o Coletivo de Jovens por Nossos Direitos, que luta contra o abuso policial. Afirma que teve sorte porque sua família conseguiu pagar um advogado e não lhe restou antecedentes.
Porém, essa não é a realidade de muitos jovens detidos com base no Código de Faltas, de Córdoba, aplicado desde 1994 e reformado em 2007. Um estudo da Universidade Nacional de Córdoba e da espanhola Universidade de La Rioja revela que 95% dos detidos por esse Código não têm acesso a advogados. “Com uma falta em seu prontuário não se tem acesso ao atestado de boa conduta, um dos requisitos mais solicitados pelas empresas na hora de contratar”, ressaltou Luque.
O código pune condutas que supostamente prejudicam a convivência social, como escândalo em via pública, omissão de identificação, resistência à autoridade, alcoolismo, mendicância e ócio. Segundo o estudo, quase 70% dos infratores são acusados de vadiagem, uma falta muito polêmica que permite à polícia deter suspeitos de vadiar, o
que o dicionário da língua espanhola define como “vagar pelas imediações de algum lugar, em geral, com maus objetivos”.
O Artigo 98 do Código pune com multas e até cinco dias de detenção quem permanecer perto de veículos ou instalações urbanas ou rurais “em atitude suspeita, sem uma razão plausível, provocando intranquilidade entre seus proprietários, moradores, transeuntes ou vizinhos”. “É uma figura totalmente subjetiva e arbitrária. Não é explicada qual é a atitude que se deve ter para não ser detido”, apontou Luque, que trabalha desde adolescente e agora é pizzaiolo.
Bichi e outros jovens de semelhante extrato social costumam apresentar um padrão que os identifica: bonés coloridos, calças esportivas e sapatos vistosos. Mas a polícia equipara esse hábito cultural com a presunção de culpabilidade. “Muitos detidos usam boné. O boné é suspeito”, destacou Luque, um dos organizadores da Marcha do Boné, que a cada mês de novembro, há sete anos, pede a revogação do Código de Faltas e que, em 2013, reuniu 15 mil pessoas.
“Digam o que disserem, a acusação de vadiagem é aplicada para que, quando houver morenos com boné nos bairros da periferia, dando voltas por algum lugar, a polícia os detenha”, disse à IPS o advogado Claudio Orosz, representante em Córdoba da organização humanitária Centro de Estudos Legais e Sociais. Orosz atribui o Código a uma sociedade “conservadora e moralista”, herdeira da “repressão e do genocídio” da última ditadura argentina (1976-1983). Para este advogado de casos de crimes de lesa humanidade, por causa dessa cultura, os pobres sofrem o “labirinto kafkiano” da vadiagem.
Segundo um estudo universitário, os detidos nesse contexto são majoritariamente jovens entre 18 e 25 anos dos setores desfavorecidos. Durante 2011, foram detidas 73 mil pessoas na província, 43 mil delas na capital. “Acontece sempre o mesmo: se vem de um lugar pobre, é pobre, tem certa forma de se vestir, tem certos traços físicos, uma determinada cor de pele, e já se é perigoso para a sociedade”, explicou Luque.
Um dos pontos mais questionados do Código é que outorga atribuição de juiz ao delegado de polícia. Isso é uma ironia porque a polícia cordobesa é a que “estrutura e mantém os grandes problemas criminais, os que geram maior dano à sociedade, como tráfico de pessoas, narcotráfico, roubo de peças de carros e venda de armas”, disse Agustín Sposato, também integrante do coletivo juvenil.
Outro agravante, segundo Orosz, são os precários sistemas de impressão digital e investigação de antecedentes nas delegacias de Córdoba. “Às vezes, demora-se três dias para saber se alguém tem antecedentes para depois ser solto, o que constitui verdadeiras privações ilegítimas de liberdade”, ressaltou. “É um sistema de controle social, formalizado pela polícia, que fere os controles básicos de constitucionalidade”, afirmou.
Para Orosz, “o Código de Faltas entrega enorme poder de seletividade e de controle social às forças policiais, sem o controle judicial”. Luque sabe bem. “Nas vezes em que me detiveram, vivi essa sensação de privação ilegítima da liberdade, de sequestro, de não saber quando vai sair, não saber como avisar a família e os amigos que você está ali. A impotência é muito grande, muito obscura, muito feia”, enfatizou.
O governador de Códoba, José Manuel De la Sota, apresentou, em 1º de fevereiro, um projeto de reforma do Código de Faltas, que o parlamento provincial está analisando.
Sergio Busso, presidente do bloco legislativo da governante União por Córdoba, considera necessário manter a figura da vadiagem, porque é importante no combate à crescente insegurança da população na província. Ele disse à IPS que o Código “é um instrumento que regula e pune as condutas antijurídicas, que afetam o direito das pessoas ou da sociedade em seu conjunto e que, por serem leves, não chegam a configurar crime”.
No entanto, Busso admitiu que são necessárias reformas, para que “a prisão e a multa só sejam aplicadas em situações especiais e em seu lugar sejam utilizadas mais as penas substitutivas e acessórias, como trabalho comunitário”. Além disso, para o parlamentar, deve mudar quem pune. O projeto propõe que a falta seja dirimida por promotores ou juízes específicos, e não policiais, “para separar quem julga de quem executa o procedimento” e para garantir “um olhar independente”.
Segundo Orosz, isso já foi tentado e não se pôde aplicar porque o sistema judicial sofreu um colapso com a avalanche de casos. Busso explicou que a reforma contempla que a falta de vadiagem exija a denúncia prévia de um morador identificado. Mas Orosz criticou que esse denunciante é “igualmente subjetivo”. O advogado considera que se deve revogar o Código de Faltas e substituí-lo por outro de convivência, que estabeleça “quais são as condutas desejadas e mecanismos de resolução de conflitos que não sejam necessariamente a prisão”, como a mediação vicinal.
Para o jovem Sposato, as reformas propostas “são uma maquiagem, para acalmar o clima de conflito social” na província. “O que está em jogo é a vida, os direitos das pessoas, a possibilidade de todos na província serem iguais”, destacou.
Faltas versus direitos humanos
Os códigos de faltas e contravenções, para tratar condutas ilícitas que não chegam a ser delitos penais, existem nas 23 províncias da Argentina e na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Em 33% dos casos, é a polícia que detém, investiga e sanciona, o que propicia excessos e violações dos direitos humanos.
Em 2003, o Tribunal Interamericano de Direitos Humanos condenou o Estado argentino pela detenção ilegal, em 1991, de Walter Bulacio, de 17 anos, durante um show em Buenos Aires, pelo Código de Contravenções. O jovem morreu vítima da brutalidade policial. O tribunal ordenou ao país adequar o ordenamento jurídico interno à Convenção Americana sobre Direitos Humanos e outras normas internacionais.
Os códigos surgiram principalmente durante os regimes autoritários do século passado, mas foram atualizados pela democracia. Para muitas organizações humanitárias, um de seus problemas é que se introduzem dissimuladamente no âmbito penal, de competência nacional, criando de fato a figura de “delitos menores” provinciais.
Além disso, boa parte deles são difusos nas contravenções, o que colabora para sua discricionariedade, e negam o direito à defesa, à livre circulação, à liberdade pessoal, ao devido processo e ao juiz natural, entre outras anomalias jurisdicionais e humanitárias.
Fontes: Federação Argentina LGBT e Associação pelos Direitos Civis
Jack Whinery and family, homesteaders photographed in Pie Town, New Mexico, October 1940. Photo courtesy the Library of Congress
Peter Turchin is professor of ecology and mathematics at the University of Connecticut and vice president of the Evolution Institute. He co-authored Secular Cycles (2009).
Today, the top one per cent of incomes in the United States accounts for one fifth of US earnings. The top one per cent of fortunes holds two-fifths of the total wealth. Just one rich family, the six heirs of the brothers Sam and James Walton, founders of Walmart, are worth more than the bottom 40 per cent of the American population combined ($115 billion in 2012).
After thousands of scholarly and popular articles on the topic, one might think we would have a pretty good idea why the richest people in the US are pulling away from the rest. But it seems we don’t. As the Congressional Budget Office concluded in 2011: ‘the precise reasons for the rapid growth in income at the top are not well understood’. Some commentators point to economic factors, some to politics, and others again to culture. Yet obviously enough, all these factors must interact in complex ways. What is slightly less obvious is how a very long historical perspective can help us to see the whole mechanism.
In his book Wealth and Democracy (2002), Kevin Phillips came up with a useful way of thinking about the changing patterns of wealth inequality in the US. He looked at the net wealth of the nation’s median household and compared it with the size of the largest fortune in the US. The ratio of the two figures provided a rough measure of wealth inequality, and that’s what he tracked, touching down every decade or so from the turn of the 19th century all the way to the present. In doing so, he found a striking pattern.
We found repeated back-and-forth swings in demographic, economic, social, and political structures
From 1800 to the 1920s, inequality increased more than a hundredfold. Then came the reversal: from the 1920s to 1980, it shrank back to levels not seen since the mid-19th century. Over that time, the top fortunes hardly grew (from one to two billion dollars; a decline in real terms). Yet the wealth of a typical family increased by a multiple of 40. From 1980 to the present, the wealth gap has been on another steep, if erratic, rise. Commentators have called the period from 1920s to 1970s the ‘great compression’. The past 30 years are known as the ‘great divergence’. Bring the 19th century into the picture, however, and one sees not isolated movements so much as a rhythm. In other words, when looked at over a long period, the development of wealth inequality in the US appears to be cyclical. And if it’s cyclical, we can predict what happens next.
An obvious objection presents itself at this point. Does observing just one and a half cycles really show that there is a regular pattern in the dynamics of inequality? No, by itself it doesn’t. But this is where looking at other historical societies becomes interesting. In our bookSecular Cycles (2009), Sergey Nefedov and I applied the Phillips approach to England, France and Russia throughout both the medieval and early modern periods, and also to ancient Rome. All of these societies (and others for which information was patchier) went through recurring ‘secular’ cycles, which is to say, very long ones. Over periods of two to three centuries, we found repeated back-and-forth swings in demographic, economic, social, and political structures. And the cycles of inequality were an integral part of the overall motion.
Incidentally, when students of dynamical systems (or, more colourfully, ‘chaoticians’ such as Jeff Goldblum’s character in the filmJurassic Park) talk about ‘cycles’, we do not mean rigid, mechanical, clock-like movements. Cycles in the real world are chaotic, because complex systems such as human societies have many parts that are constantly moving and influencing each other. Despite this complexity, our historical research on Rome, England, France, Russia and now the US shows that these complex interactions add up to a general rhythm. Upward trends in variables (for example, economic inequality) alternate with downward trends. And most importantly, the ways in which other parts of the system move can tell us why certain trends periodically reverse themselves. Understanding (and perhaps even forecasting) such trend-reversals is at the core of the new discipline of cliodynamics, which looks at history through the lens of mathematical modelling.
So it looks like the pattern that we see in the US is real. Ours is, of course, a very different society from ancient Rome or medieval England. It is cut off from them by the Industrial Revolution and by innumerable advances in technology since then. Even so, a historically based model might shed light on what has been happening in the US over the past three decades.
First, we need to think about jobs. Unless other forces intervene, an overabundance of labour will tend to drive down its price, which naturally means that workers and their families have less to live on. One of the most important forces affecting the labour supply in the US has been immigration, and it turns out that immigration, as measured by the proportion of the population who were born abroad, has changed in a cyclical manner just like inequality. In fact, the periods of high immigration coincided with the periods of stagnating wages. The Great Compression, meanwhile, unfolded under a low-immigration regime. This tallies with work by the Harvard economist George Borjas, who argues that immigration plays an important role in depressing wages, especially for those unskilled workers who compete most directly with new arrivals.
Immigration is only one part of a complex story. Another reason why the labour supply in the US went up in the 19th century is, not to put too fine a point on it, sex. The native-born population was growing at what were, at the time, unprecedented rates: a 2.9 per cent growth per year in the 1800s, only gradually declining after that. By 1850 there was no available farmland in Eastern Seaboard states. Many from that ‘population surplus’ moved west, but others ended up in eastern cities where, of course, they competed for jobs with new immigrants.
This connection between the oversupply of labour and plummeting living standards for the poor is one of the more robust generalisations in history. Consider the case of medieval England. The population of England doubled between 1150 and 1300. There was little possibility of overseas emigration, so the ‘surplus’ peasants flocked to the cities, causing the population of London to balloon from 20,000 to 80,000. Too many hungry mouths and too many idle hands resulted in a fourfold increase in food prices and a halving of real wages. Then, when a series of horrible epidemics, starting with the Black Death of 1348, carried away more than half of the population, the same dynamic ran in reverse. The catastrophe, paradoxically, introduced a Golden Age for common people. Real wages tripled and living standards went up, both quantitatively and qualitatively. Common people relied less on bread, gorging themselves instead on meat, fish, and dairy products.
The tug of war between the top and typical incomes doesn’t have to be a zero-sum game, but in practice it often is
Much the same pattern can be seen during the secular cycle of the Roman Principate. The population of the Roman Empire grew rapidly during the first two centuries up to 165AD. Then came a series of deadly epidemics, known as the Antonine Plague. In Roman Egypt, for which we have contemporary data thanks to preserved papyri, real wages first fell (when the population increased) and then regained ground (when the population collapsed). We also know that many grain fields were converted to orchards and vineyards following the plagues. The implication is that the standard of life for common people improved — they ate less bread, more fruit, and drank wine. The gap between common people and the elites shrank.
Naturally, the conditions affecting the labour supply were different in the second half of the 20th century in the US. An important new element was globalisation, which allows corporations to move jobs to poorer countries (with that ‘giant sucking sound’, as Ross Perot put it during his 1992 presidential campaign). But none of this alters the fact that an oversupply of labour tends to depress wages for the poorer section of the population. And just as in Roman Egypt, the poor in the US today eat more energy-dense foods — bread, pasta, and potatoes — while the wealthy eat more fruit and drink wine.
Falling wages isn’t the only reason why labour oversupply leads to inequality. As the slice of the economic pie going to employees diminishes, the share going to employers goes up. Periods of rapid growth for top fortunes are commonly associated with stagnating incomes for the majority. Equally, when worker incomes grew in the Great Compression, top fortunes actually declined in real terms. The tug of war between the top and typical incomes doesn’t have to be a zero-sum game, but in practice it often is. And so in 13th-century England, as the overall population doubles, we find landowners charging peasants higher rents and paying less in wages: the immiseration of the general populace translates into a Golden Age for the aristocrats.
As the historian Christopher Dyer wrote, life was good for the upper-crust English around 1300. They drank more wine and spent their spare cash building or refurbishing castles, cathedrals, and monasteries. They didn’t just enjoy a better living standard; they also grew in number. For example, the number of knights and esquires tripled between 1200 and 1300. But disaster struck in 1348, when the Black Death removed the population surplus (and then some). By the 15th century, while the common people were enjoying their own Golden Age, the aristocracy had fallen on hard times. We can infer the severity of their financial straits from the amount of claret imported from France. Only the gentry drank wine, and around 1300, England imported 20,000 tuns or casks of it from France per year. By 1460, this declined to only 5,000. In the mid-15th century, there were simply fewer aristocrats and they were much poorer.
In the US between around 1870 and 1900, there was another Golden Age for the elites, appropriately called the Gilded Age. While living standards for the majority declined (seen vividly in dwindling average heights and life expectancies), the moneyed classes were enjoying ever more luxurious lifestyles. And just like in 13th-century England, the total number of the wealthy was shooting up. Between 1825 and 1900, the number of millionaires (in constant 1900 dollars) went from 2.5 per million of the population to 19 per million. In our current cycle, the proportion of decamillionaires (those whose net worth exceeds 10 million in 1995 dollars) grew tenfold between 1992 and 2007 — from 0.04 to 0.4 per cent of the US population.
This seems like a peculiar development. The reason for it — cheeringly enough, you might say — is that cheap labour allows many enterprising, hard-working or simply lucky members of the poorer classes to climb into the ranks of the wealthy. In the 19th century, a skilled artisan in the US could expand his workshop by hiring other workers, eventually becoming the owner of a large business; Sven Beckert’s The Monied Metropolis (2003) describes many instances of this story playing out. In America today, enterprising and hard-working individuals start dotcom companies or claw their way into jobs as the CEOs of large corporations.
On the face of it, this is a wonderful testament to merit-based upward mobility. But there are side effects. Don’t forget that most people are stuck with stagnant or falling real wages. Upward mobility for a few hollows out the middle class and causes the social pyramid to become top-heavy. Too many elites relative to the general population (a condition I call ‘elite overproduction’) leads to ever-stiffer rivalry in the upper echelons. And then you get trouble.
In the US, there is famously a close connection between wealth and power. Many well-off individuals — typically not the founders of great fortunes but their children and grandchildren — choose to enter politics (Mitt Romney is a convenient example, though the Kennedy clan also comes to mind). Yet the number of political offices is fixed: there are only so many senators and representatives at the federal and state levels, and only one US president. As the ranks of the wealthy swell, so too do the numbers of wealthy aspirants for the finite supply of political positions.
When watching political battles in today’s Senate, it is hard not to think about their parallels in Republican Rome. The population of Italy roughly doubled during the second century BC, while the number of aristocrats increased even more. Again, the supply of political offices was fixed — there were 300 places in the senate and membership was for life. By the end of the century, competition for influence had turned ugly. During the Gracchan period (139—110BC), political feuding led to the slaughter of the tribunes Tiberius and Gaius on the streets of Rome. During the next century, intra-elite conflict spilt out of Rome into Italy and then into the broader Mediterranean. The civil wars of the first century BC, fuelled by a surplus of politically ambitious aristocrats, ultimately caused the fall of the Republic and the establishment of the Empire.
Beside sheer numbers, there is a further, subtler factor that aggravates internal class rivalry. So far I have been talking about the elites as if they are all the same. But they aren’t: the differences within the wealthiest one per cent are almost as stark as the difference between the top one per cent and the remaining 99. The millionaires want to reach the level of decamillionaires, who strive to match the centimillionaires, who are trying to keep up with billionaires. The result is very intense status rivalry, expressed through conspicuous consumption. Towards the end of the Republic, Roman aristocrats competed by exhibiting works of art and massive silver decorations in their homes. They threw extravagant banquets with peacocks from Samos, oysters from Lake Lucrino and snails from Africa, all imported at great expense. Archaeology confirms a genuine and dramatic shift towards luxury.
The US political system is much more attuned to the wishes of the rich than to the aspirations of the poor
Intra-elite competition also seems to affect the social mood. Norms of competition and extreme individualism become prevalent and norms of co-operation and collective action recede. Social Darwinism took off during the original Gilded Age, and Ayn Rand (who argued that altruism is evil) has grown astonishingly popular during what we might call our Second Gilded Age. The glorification of competition and individual success in itself becomes a driver of economic inequality. As Christopher Hayes wrote in Twilight of the Elites (2012): ‘defenders of the status quo invoke a kind of neo-Calvinist logic by saying that those at the top, by virtue of their placement there, must be the most deserving’. By the same reasoning, those at the bottom are not deserving. As such social norms spread, it becomes increasingly easy for CEOs to justify giving themselves huge bonuses while cutting the wages of workers.
Such cultural attitudes work with economic forces to widen inequality. Economists know very well that few markets are ‘efficient’ in the sense that their prices are set entirely by the forces of supply and demand. Labour markets are especially sensitive to cultural norms about what is fair compensation, so prevailing theories about inequality have practical consequences. And labour markets are also strongly affected by government regulation, as the economist and Nobel laureate Joseph Stiglitz has argued. So let’s consider how politics enters the equation here.
The US, as we saw, breeds strong links between wealth and politics. Some wealthy individuals run for office themselves. Others use their money to support their favoured politicians and policies. As a result, the US political system is much more attuned to the wishes of the rich than to the aspirations of the poor. Kevin Phillips has been one of the most influential voices raised in alarm at the dangers for democracy of growing wealth disparity.
Inverse relationship between well-being and inequality in American history. The peaks and valleys of inequality (in purple) represent the ratio of the largest fortunes to the median wealth of households (the Phillips curve). The blue-shaded curve combines four measures of well-being: economic (the fraction of economic growth that is paid to workers as wages), health (life expectancy and the average height of native-born population), and social optimism (the average age of first marriage, with early marriages indicating social optimism and delayed marriages indicating social pessimism).
Yet the US political system has been under the influence of wealthy elites ever since the American Revolution. In some historical periods it worked primarily for the benefit of the wealthy. In others, it pursued policies that benefited the society as a whole. Take the minimum wage, which grew during the Great Compression era and declined (in real terms) after 1980. The proportion of American workers who were unionised changed in a similarly cyclical fashion, as the legislative field tilted first one way then the other. The top marginal tax rate was 68 per cent or higher before 1980; by 1988 it declined to 28 per cent. In one era, government policy systematically favoured the majority, while in another it favoured the narrow interests of the wealthy elites. This inconsistency calls for explanation.
It is relatively easy to understand the periods when the wealthy bent the agenda to suit their interests (though of course, not all rich people care exclusively about their own wealth). How, though, can we account for the much more broadly inclusive policies of the Great Compression era? And what caused the reversal that ended the Gilded Age and ushered in the Great Compression? Or the second switch, which took place around 1980?
History provides another clue. Unequal societies generally turn a corner once they have passed through a long spell of political instability. Governing elites tire of incessant violence and disorder. They realise that they need to suppress their internal rivalries, and switch to a more co-operative way of governing, if they are to have any hope of preserving the social order. We see this shift in the social mood repeatedly throughout history — towards the end of the Roman civil wars (first century BC), following the English Wars of the Roses (1455-85), and after the Fronde (1648-53), the final great outbreak of violence that had been convulsing France since the Wars of Religion began in the late 16th century. Put simply, it is fear of revolution that restores equality. And my analysis of US history in a forthcoming book suggests that this is precisely what happened in the US around 1920.
Reforms that ensured an equitable distribution of the fruits of economic growth turned out to be a highly effective counter to the lure of Bolshevism
These were the years of extreme insecurity. There were race riots (the ‘Red Summer of 1919’), worker insurrections, and an Italian anarchist terrorist campaign aimed directly at the elites. The worst incident in US labour history was the West Virginia Mine War of 1920—21, culminating in the Battle of Blair Mountain. Although it started as a workers’ dispute, the Mine War eventually turned into the largest armed insurrection that the US has ever seen, the Civil War excepted. Between 10,000 and 15,000 miners armed with rifles battled against thousands of strikebreakers and sheriff deputies. The federal government eventually called in the Air Force, the only time it has ever done so against its own people. Add to all this the rise of the Soviet Union and the wave of socialist revolutions that swept Europe after the First World War, triggering the Red Scare of 1921, and you get a sense of the atmosphere. Quantitative data indicate that this period was the most violent in US history, second only to the Civil War. It was much, much worse than the 1960s.
The US, in short, was in a revolutionary situation, and many among the political and business elites realised it. They began to push through a remarkable series of reforms. In 1921 and 1924, Congress passed legislation that effectively shut down immigration into the US. Although much of the motivation behind these laws was to exclude ‘dangerous aliens’ such as Italian anarchists and Eastern European socialists, the broader effect was to reduce the labour surplus. Worker wages grew rapidly. At around the same time, federal income tax came in and the rate at which top incomes were taxed began to increase. Somewhat later, provoked by the Great Depression, other laws legalised collective bargaining through unions, introduced a minimum wage, and established Social Security.
The US elites entered into an unwritten compact with the working classes. This implicit contract included the promise that the fruits of economic growth would be distributed more equitably among both workers and owners. In return, the fundamentals of the political-economic system would not be challenged (no revolution). The deal allowed the lower and upper classes to co-operate in solving the challenges facing the American Republic — overcoming the Great Depression, winning the Second World War, and countering the Soviet threat during the Cold War.
It almost goes without saying that there was a racist and xenophobic underside to all this. The co-operating group was mainly native-born white Protestants. African-Americans, Jews, Catholics and foreigners were excluded or heavily discriminated against. Nevertheless, while making such ‘categorical inequalities’ worse, the compact led to a dramatic reduction in overall economic inequality.
The ‘New Deal Coalition’ which ruled the US from 1932 to the late 1960s did so well that the business community, opposed to its policies at first, came to accept them in the post-war years. As the historian Kim Phillips-Fein wrote in Invisible Hands (2010):
Many managers and stockholders [made] peace with the liberal order that had emerged. They began to bargain regularly with the labour unions at their companies. They advocated the use of fiscal policy and government action to help the nation to cope with economic downturns. They accepted the idea that the state might have some role to play in guiding economic life.
When Barry Goldwater campaigned on a pro-business, anti-union and anti-big government platform in the 1964 presidential elections, he couldn’t win any lasting support from the corporate community. The conservatives had to wait another 16 years for their triumph.
But by the late 1970s, a new generation of political and business leaders had come to power. To them the revolutionary situation of 1919-21 was just history. In this they were similar to the French aristocrats on the eve of the French Revolution, who did not see that their actions could bring down the Ancien Régime — the last great social breakdown, the Fronde, being so far in the past.
The US elites, similarly, took the smooth functioning of the political-economic system for granted. The only problem, as they saw it, was that they weren’t being adequately compensated for their efforts. Feelings of dissatisfaction ran high during the Bear Market of 1973—82, when capital returns took a particular beating. The high inflation of that decade ate into inherited wealth. A fortune of $2 billion in 1982 was a third smaller, when expressed in inflation-adjusted dollars, than $1 billion in 1962, and only a sixth of $1 billion in 1912. All these factors contributed to the reversal of the late 1970s.
It is no coincidence that the life of Communism (from the October Revolution in Russia in 1917 to the fall of the Berlin Wall in 1989) coincides almost perfectly with the Great Compression era. The Red Scares of, firstly, 1919—21 and then 1947—57 suggest that US elites took the Soviet threat quite seriously. More generally, the Soviet Union, especially in its early years, aggressively promoted an ideology that was highly threatening to the political-economic system favoured by the US elites. Reforms that ensured an equitable distribution of the fruits of economic growth turned out to be a highly effective counter to the lure of Bolshevism.
Nevertheless, when Communism collapsed, its significance was seriously misread. It’s true that the Soviet economy could not compete with a system based on free markets plus policies and norms that promoted equity. Yet the fall of the Soviet Union was interpreted as a vindication of free markets, period. The triumphalist, heady atmosphere of the 1990s was highly conducive to the spread of Ayn Randism and other individualist ideologies. The unwritten social contract that had emerged during the New Deal and braved the challenges of the Second World War had faded from memory.
What, then, explains the rapid growth of top fortunes in the US over the past 30 years? Why did the wages of unskilled workers stagnate or decline? What accounts for the bitterness of election rhetoric in the US, the growing legislative gridlock, the rampant political polarisation? My answer is that all of these trends are part of a complex and interlocking system. I don’t just mean that everything affects everything else; that would be vacuous. Rather, that cliodynamic theory can tell us specifically how demographic, economic and cultural variables relate to one another, and how their interactions generate social change. Cliodynamics also explains why historical reversals in such diverse areas as economics and culture happen at roughly similar times. The theory of secular cycles was developed using data from historical societies, but it looks like it can provide answers to questions about our own society.
Our society, like all previous complex societies, is on a rollercoaster. Impersonal social forces bring us to the top; then comes the inevitable plunge. But the descent is not inevitable. Ours is the first society that can perceive how those forces operate, even if dimly. This means that we can avoid the worst — perhaps by switching to a less harrowing track, perhaps by redesigning the rollercoaster altogether.
Three years ago I published a short article in the science journalNature. I pointed out that several leading indicators of political instability look set to peak around 2020. In other words, we are rapidly approaching a historical cusp, at which the US will be particularly vulnerable to violent upheaval. This prediction is not a ‘prophecy’. I don’t believe that disaster is pre-ordained, no matter what we do. On the contrary, if we understand the causes, we have a chance to prevent it from happening. But the first thing we will have to do is reverse the trend of ever-growing inequality.
Correction, Feb 13, 2013: When first published, this article misidentified Michael Bloomberg, the mayor of New York City, as an inheritor of a large fortune. In fact he amassed most of his wealth himself.
For the first time since the construction of the Hoover Dam, water levels in Lake Mead are being intentionally lowered due to the ongoing drought. The result is striking.
Perhaps the best evidence of this problem lies in stark juxtaposition across a stretch of desert surrounding Las Vegas.
As my wife and I planned our route from Tucson, Ariz., to California for the#thirstywest Slate series, there were a couple of stopovers I wanted to make along the way. This short drive was one of them.
Within the span of a single afternoon, it’s possible to witness the past, present, and future of water issues in the West. We accomplished this by driving past the Hoover Dam, through Las Vegas, and on into California via Death Valley.
First, the past:
The Hoover Dam was the biggest civil engineering project in U.S. history, famously constructed in the midst of the Great Depression to tame the Colorado River, provide electricity, and create Lake Mead, the largest reservoir in the country. Now, climate change is starting to make it obsolete.
Lake Mead provides 90 percent of the water to the once-again booming city of Las Vegas, as well as indirectly to Phoenix, Tucson, Los Angeles, and agricultural areas downstream via diversions from the Colorado River. As the result of an ongoing multiyear drought, this giant lake is now approaching the lowest water levels since its construction.
When we saw it for the first time, we gasped.
The sight of so much water in the middle of a desert is in itself brain-twisting, but to see the bright-white “bathtub ring” marking the lake’s historic high-water mark more than 100 feet above current levels, contrasted with boats merrily speeding around on the dwindling reservoir, was nearly too much to take. It was a sharp reminder that despite building dams, aqueducts, and other super-human feats, water in the desert is inherently temporary. We stayed only a few minutes.
The last time water levels were this low, in 2010, federal officials contemplated worst-case scenarios of forced cuts to Las Vegas—of both electricity and water. It didn’t happen then, but the drought this time around is worse.
The lake is now expected to reach a new record low of 1,080 feet by April 2015 and to cross the first trigger for downstream water cutbacks at 1,075 feet shortly thereafter. By summer 2015, the water supply to Las Vegas itself could be affected if an $817 million tunnel project—currently months behind schedule—isn’t yet completed.That project, conceived as a way to extend Lake Mead’s usefulness in the face of climate change, is designed to suck water from the lake all the way to the very bottom—a point long after even the turbines of Hoover Dam would have to shut down, possibly for good.
The new tunnel can’t be finished fast enough. As the magnitude of the current drought started to hit home, construction of an impromptu tunnel designed to buy the larger project a few months of time was approvedlate last year. Officials described the newest tunneling project as an “emergency meant to avoid an emergency.”
It all has the feel of a patient on life support, with a spaghetti of IV lines coming out of both arms. The morbidly curious can follow the daily level of Lake Mead (down another 1.7 inches Monday), via the U.S. Bureau of Reclamation website. Which brings us to Las Vegas today.
A city built on sin can add another to its list: water.
The driest city in America still uses more water per capita than just about any other city in the country. This despite years of steady efficiency improvements and the resounding success of its “cash for grass” program that pays residents for each square foot of lawn they rip out and replace with rocks. Front lawns are now illegal in Las Vegas, yet verdant golf courses are still commonplace. About 70 percent of the city’s nearly maxed-out water diversion from Lake Mead still goes to landscaping.
Don’t get me wrong: The city has made major improvements in water efficiency, using about 40 percent less water per person over the past 25 years or so. The problem is the city’s population has tripled over that same time, and total water usage is up (though down from its peak about a decade ago—an improvement due at least partially to the economic downturn). It’s like a one-ton man patting himself on the back for losing 400 pounds. Great news, but there’s still a long way to go.
Environmental groups have taken the city to task for its water-wasting ways. In the most egregious cases, they’re winning. But the city isn’t going down without a fight. The city’s longtime water czar, known for her “whatever it takes” strategy in gobbling up new water rights statewide rather than focusing on efficiency at home, has recently retired. Now the city has rubber-stamped her handpicked successor. Here’s one alarming plan still under consideration, via the Las Vegas Review-Journal:
The biggest and most controversial project on the table is the authority’s decades-old plan to siphon groundwater from four rural valleys in eastern Nevada and send it to Las Vegas through a pipeline network expected to cost as much as $15 billion.
The idea has drawn loud opposition—and ongoing legal challenges—from critics who complain that it will cost too much, ravage the environment and fail to deliver as much water as authority officials promise.
Entsminger has done a great deal of work on behalf of what the agency calls its “in-state project,” and he said Tuesday that he has no plans to kill it, though he views it as “absolutely a Plan B.” If the water keeps dropping in Lake Mead, source for about 90 percent of the valley’s supply, the authority will have little choice but to pursue a backup source separate from the Colorado River, he said.
Getting a city built on excess to live within the limits dictated by climate and common sense is predictably no easy task. With water rates far lower than Santa Fe, N.M., orTucson and a strong libertarian streak, you end up with crazy things like a LEED-certified casino that is also the largest building in the United States. Sustainability here is a desert mirage.
As High Country News’ Jonathan Thompson explains, in Las Vegas, the mantra seems to be: “Only by consuming more … can we consume less.” He continues:
The result is what I call the Vegas paradox. A 2010 survey found that new homes used an average of 115,000 gallons annually, while pre-2003 homes used 185,000 gallons. … That means that, under current regulations, developers will have to keep building and building in order for the Water Authority to succeed in reducing per capita water-use to 199 gallons by 2035. The more the place grows, in other words, the more sustainable it appears.
For perspective, that goal of 199 gallons per person per day by 2035 is twice California’s current statewide average water consumption. One of the best in the West, San Francisco, uses less than a quarter of the water per person as Vegas—just 49 gallons per person per day.
In this case, what happens in Vegas doesn’t stay in Vegas. The city’s wastewater is pumped back into the Colorado River via the historically dry Las Vegas Washstreambed, now a lush oasis thanks to all that residential effluent. The less water Las Vegas puts back into the river, the less there is for the more populous states downstream—Arizona and California.
This year’s drought could be the catalyst for a new legal framework among the states that share that river’s water supply. Rogue irrigation districts have been testing legal limits, attempting to coax a bit more agricultural production out of the dwindling Colorado. If the drought lingers past current predictions, causing Lake Mead to fall further into uncharted territory, the cutbacks won’t be felt equally.
The labyrinthine rules by which the seven Colorado states share the river’s water are rife with potential points of conflict. And while some states have made huge strides in conserving water—and even reducing the amount they consume—they have yet to chart a united path through shortages that could last years or even decades.
Life in the desert is a gamble. But there’s only so much more time remaining before Mother Nature forces Vegas’ hand. Even money can’t buy water when there’s not enough to go around.
While exiting the city on Blue Diamond Road, we ran a gantlet of brand-new subdivisions, many with signs touting gargantuan square footage and four-car garages. This part of the drive was a little like opening up the front door one morning and having a real-live fire-breathing dragon calmly staring back at you. It simply should not be.
In my next part of the Thirsty West series, we arrive in Death Valley—one of the few parts of California that’s technically not in an extreme drought right now.
Wyatt Gallery: Displaced Home in Marsh, Midland Beach, Staten Island, November 2012; from the book #Sandy: Seen Through the iPhones of Acclaimed Photographers, to be published by Daylight in September. Gallery’s photograph also appears in the exhibition ‘Rising Waters,’ on view at the Museum of the City of New York until April 6, 2014. For more on the exhibition, see Michael Greenberg’s review on the NYRgallery blog,www.nybooks.com/gallery.
There is the scientific and ideological language for what is happening to the weather, but there are hardly any intimate words. Is that surprising? People in mourning tend to use euphemism; likewise the guilty and ashamed. The most melancholy of all the euphemisms: “The new normal.” “It’s the new normal,” I think, as a beloved pear tree, half-drowned, loses its grip on the earth and falls over. The train line to Cornwall washes away—the new normal. We can’t even say the word “abnormal” to each other out loud: it reminds us of what came before. Better to forget what once was normal, the way season followed season, with a temperate charm only the poets appreciated.
What “used to be” is painful to remember. Forcing the spike of an unlit firework into the cold, dry ground. Admiring the frost on the holly berries, en route to school. Taking a long, restorative walk on Boxing Day in the winter glare. Whole football pitches crunching underfoot. A bit of sun on Pancake Day; a little more for the Grand National. Chilly April showers, Wimbledon warmth. July weddings that could trust in fine weather. The distinct possibility of a Glastonbury sunburn. At least, we say to each other, at least August is still reliably ablaze—in Cornwall if not at carnival. And it’s nice that the Scots can take a little more heat with them when they pack up and leave.
Maybe we will get used to this new England, and—like the very young and recently migrated—take it for granted that April is the time for shorts and sandals, or that the New Year traditionally announces itself with a biblical flood. They say there will be butterflies appearing in new areas, and birds visiting earlier and leaving later—perhaps that will be interesting, and new, and not, necessarily, worse. Maybe we are misremembering the past! The Thames hasn’t frozen over for generations, and the dream of a White Christmas is only a collective Dickensian delusion. Besides, wasn’t it always a wet country?
It’s amazing the side roads you can will yourself down to avoid the four-lane motorway ahead. England was never as wet as either its famous novels suggest or our American cousins presume. The weather has changed, is changing, and with it so many seemingly small things—quite apart from train tracks and houses, livelihoods and actual lives—are being lost. It was easy to assume, for example, that we would always be able to easily find a hedgehog in some corner of a London garden, pick it up in cupped hands, and unfurl it for our children—or go on a picnic and watch fat bumblebees crawling over the mouth of an open jam jar. Every country has its own version of this local sadness. (And every country has its version of our arguments, when it comes to causation. Climate change or cars? Climate change or cell phone sites?) You’re not meant to mention the minor losses, they don’t seem worth mentioning—not when compared to the visions of apocalypse conjured by climate scientists and movie directors. And then there are all those people who believe that nothing much is happening at all.
Although many harsh words are said about the childlike response of the public to the coming emergency, the response doesn’t seem to me very surprising, either. It’s hard to keep apocalypse consistently in mind, especially if you want to get out of bed in the morning. What’s missing from the account is how much of our reaction is emotional. If it weren’t, the whole landscape of debate would be different. We can easily imagine, for example, a world in which the deniers were not deniers at all, but simple ruthless pragmatists, the kind of people who say: “I understand very well what’s coming, but I am not concerned with my grandchildren; I am concerned with myself, my shareholders, and the Chinese competition.” And there are indeed a few who say this, but not as many as it might be reasonable to expect.
Another response that would seem natural aligns a deep religious feeling with environmental concern, for those who consider the land a beauteous gift of the Lord should, surely, rationally, be among the most keen to protect it. There are a few of these knocking around, too, but again, not half as many as I would have assumed. Instead the evidence is to be “believed” or “denied” as if the scientific papers are so many Lutheran creeds pinned to a door. In America, a curious loophole has even been discovered in God’s creation, concerning hierarchy. It’s argued that because He placed humans above “things”—above animals and plants and the ocean—we can, with a clean conscience, let all those things go to hell. (In England, traditional Christian love of the land has been more easily converted into environmental consciousness, notably among the country aristocrats who own so much of it.)
But I don’t think we have made matters of science into questions of belief out of sheer stupidity. Belief usually has an emotional component; it’s desire, disguised. Of course, on the part of our leaders much of the politicization is cynical bad faith, and economically motivated, but down here on the ground, the desire for innocence is what’s driving us. For both “sides” are full of guilt, full of self-disgust—what Martin Amis once called “species shame”—and we project it outward. This is what fuels the petty fury of our debates, even in the midst of crisis.
During Superstorm Sandy, I climbed down fifteen floors, several months pregnant, in the darkness, just so I could get a Wi-Fi signal and e-mail a climate-change-denying acquaintance with this fresh evidence of his idiocy. And it only takes a polar vortex—a pocket of cold air that may lower temperatures—for one’s inbox to fill up with gleeful counternarratives from right-leaning relatives—as if this were all a game, and the only thing hanging in the balance is whether or not you or your crazy uncle in Florida are “alarmists” or “realists.” Meanwhile, in Jamaica, where Sandy first made landfall, the ever more frequent tropical depressions, storms, hurricanes, droughts, and landslides do not fall, for Jamaicans, in the category of ontological argument.
Sing an elegy for the washed away! For the cycles of life, for the saltwater marshes, the houses, the humans—whole islands of humans. Going, going, gone! But not quite yet. The apocalypse is always usefully cast into the future—unless you happen to live in Mauritius, or Jamaica, or the many other perilous spots. According to recent reports, “if emissions of global greenhouse gases remain unchanged,” things could begin to get truly serious around 2050, just in time for the seventh birthday party of my granddaughter. (The grandchildren of the future are frequently evoked in elegies of this kind.) Sometimes the global, repetitive nature of this elegy is so exhaustively sad—and so divorced from any attempts at meaningful action—that you can’t fail to detect in the elegists a fatalist liberal consciousness that has, when you get right down to it, as much of a perverse desire for the apocalypse as the evangelicals we supposedly scorn.
Recently it’s been possible to see both sides leaning in a little closer to hear the optimistic arguments of the technocrats. Some sleight of hand has occurred by which we begin to move from talk of combating and reversing to discussion of carbon capture and storage, and higher sea walls, and generators on the roof, and battening down the hatches. Both sides meet in failure. They say to each other: “Yes, perhaps we should have had the argument differently, some time ago, but now it is too late, now we must work with what we have.”
This will no doubt look very peculiar to my seven-year-old granddaughter. I don’t expect she will forgive me, but it might be useful for her to get a glimpse into the mindset, if only for the purposes of comprehension. What shall I tell her? Her teachers will already have explained that what was happening to the weather, in 2014, was an inconvenient truth, financially, politically—but that’s perfectly obvious, even now. A global movement of the people might have forced it onto the political agenda, no matter the cost. What she will want to know is why this movement took so long to materialize. So I might say to her, look: the thing you have to appreciate is that we’d just been through a century of relativism and deconstruction, in which we were informed that most of our fondest-held principles were either uncertain or simple wishful thinking, and in many areas of our lives we had already been asked to accept that nothing is essential and everything changes—and this had taken the fight out of us somewhat.
And then also it’s important to remember that the necessary conditions of our lives—those things that seem to us unavoidably to be the case—are not only debated by physicists and philosophers but exist, irrationally, in the minds of the rest of us, beneath contempt intellectually, perhaps, but we still experience them as permanent facts. The climate was one of those facts. We did not think it could change. That is, we always knew we could do a great deal of damage to this planet, but even the most hubristic among us had not imagined we would ever be able to fundamentally change its rhythms and character, just as a child who has screamed all day at her father still does not expect to see him lie down on the kitchen floor and weep. Now, do you think that’ll get me off the hook with my (slightly tiresome and judgmental) future granddaughter? I worry.
Oh, what have we done! It’s a biblical question, and we do not seem able to pull ourselves out of its familiar—essentially religious—cycle of shame, denial, and self-flagellation. This is why (I shall tell my granddaughter) the apocalyptic scenarios did not help—the terrible truth is that we had a profound, historical attraction to apocalypse. In the end, the only thing that could create the necessary traction in our minds was the intimate loss of the things we loved. Like when the seasons changed in our beloved little island, or when the lights went out on the fifteenth floor, or the day I went into an Italian garden in early July, with its owner, a woman in her eighties, and upon seeing the scorched yellow earth and withered roses, and hearing what only the really old people will confess—in all my years I’ve never seen anything like it—I found my mind finally beginning to turn from the elegiac what have we done to the practical what can we do?
Finnish education often seems paradoxical to outside observers because it appears to break a lot of the rules we take for granted. Finnish children don’t begin school until age 7. They have more recess, shorter school hours than many U.S. children do (nearly 300 fewer hours per year in elementary school), and the lightest homework load of any industrialized nation. There are no gifted programs, almost no private schools, and no high-stakes national standardized tests.
Yet over the past decade Finland has consistently performed among the top nations on the Programme for International Student Assessment (PISA), a standardized test given to 15-year olds in 65 nations and territories around the world. Finland’s school children didn’t always excel. Finland built its excellent, efficient, and equitable educational system in a few decades from scratch, and the concept guiding almost every educational reform has been equity. The Finnish paradox is that by focusing on the bigger picture for all, Finland has succeeded at fostering the individual potential of most every child.
I recently accompanied Krista Kiuru, Finland’s minister of education and science, when she visited the Eliot K-8 Innovation School in Boston, and asked her what Finland is doing that we could learn from.
I visited four Finnish schools while researching my book Parenting Without Borders. While there, I frequently heard a saying: “We can’t afford to waste a brain.” It was clear that children were regarded as one of Finland’s most precious resources. You invest significantly in providing the basic resources so that all children may prosper. How do these notions undergird your educational system?
We used to have a system which was really unequal. My parents never had a real possibility to study and have a higher education. We decided in the 1960s that we would provide a free quality education to all. Even universities are free of charge. Equal means that we support everyone and we’re not going to waste anyone’s skills. We don’t know what our kids will turn out like—we can’t know if one first-grader will become a famous composer, or another a famous scientist. Regardless of a person’s gender, background, or social welfare status, everyone should have an equal chance to make the most of their skills. It’s important because we are raising the potential of the entire human capital in Finland. Even if we don’t have oil or minerals or any other natural resources, well, we think human capital is also a valuable resource.
How well do you think Finland’s educational system, one based more squarely on equity rather than high achievement, is working?
We created a school system based on equality to make sure we can develop everyone’s potential. Now we can see how well it’s been working. Last year the OECD tested adults from 24 countries measuring the skill levels of adults aged 16-65, on a survey called the PIAAC (Programme for International Assessment of Adult Competencies), which tests skills in literacy, numeracy, and problem solving in technology-rich environments. Finland scored at or near the top on all measures. But there were differences between age groups. The test showed that all younger Finns who had had a chance to go to compulsory basic school after the reforms had extremely high knowledge; those who were older, and who were educated before the reforms, had average know-how. So, our educational system is creating people who have extremely good skills and strong know-how—a know-how which is created by investing into education. We have small class sizes and everyone is put in the same class, but we support struggling students more than others, because those individuals need more help. This helps us to be able to make sure we can use/develop everyone’s skills and potential.
I remember being struck by how many vocational or hands-on classes (home economics, art, technology, and so forth) were available to students at every Finnish school I visited. At one secondary school I visited, kids were cooking breakfast; at another, I saw that all the kids had learned how to sew their own bathing suits. More than one teacher remarked, “It’s important for students to have different activities to do during the day.”And there seems to be no stigma about vocational education. Is this attitude true of all schools in Finland?
Yes, we definitely believe that for young people handcrafts, cooking, creative pursuits, and sports, are all important. We believe these help young people benefit more from the skills they’re learning in school.
Do you think that this takes time away from academics?
Academics isn’t all kids need. Kids need so much more. School should be where we teach the meaning of life; where kids learn they are needed; where they can learn community skills. We like to think that school is also important for developing a good self-image, a strong sensitivity to other people’s feelings … and understanding it matters to take care of others. We definitely want to incorporate all those things in education.
I also believe that breaking up the school day with different school subjects is very important. We offer a variety of subjects during the school day. We’re also testing out what it’s like to have breaks in the middle of the school day for elementary school students. At a few elementary schools recently we’ve been offering sports, handcrafts, or school clubs during the middle of the school day, rather than just in the morning or after school as we already do. This is to help kids to think of something else, and do something different and more creative during the day.
An American librarian I spoke with, who was a visiting scholar in Finland, was struck by things like the fact that there was no concept of Internet filtering or censorship there. She was struck by how much autonomy was given to children as well as to teachers. At the same time, she noticed how much support teachers in Finland get. She visited one first-grade classroom that was taught by a relatively new teacher, and seven adults were standing in the back of the room watching the teacher: the master teacher, a specialty subject teacher from her teaching university, her advisor from university, and a couple of other student teachers. Right after the class, they got together and talked about how the lesson went. This sort of observation/debriefing seemed to be quite common. Finland is also well known for investing heavily in continuous professional development. Can you tell me more about this combination of independence and support?
Teachers have a lot of autonomy. They are highly educated–they all have master’s degrees and becoming a teacher is highly competitive. We believe we have to have highly educated teachers, because then we can trust our teachers and know they are doing good work. They do have to follow the national curriculum, although we do have local curriculums as well. But we think that we’ve been able to create good results due to our national, universal curriculum.
We don’t test our teachers or ask them to prove their knowledge. But it’s true that we do invest in a lot of additional teacher training even after they become teachers.
We also trust in our pupils. Of course we give them exams and tests so that we know how they are progressing but we don’t test them at the national level. We believe in our schools because we consider all schools equal. We don’t school shop in Finland and we don’t have to think about which area to live in to go to a good school.
In Finland we are starting to have some issues … in some suburban schools with more immigrants or higher unemployment, but we support those schools by investing more in them, in the struggling schools.
But you know, money doesn’t make for a better education necessarily. We don’t believe that spending on a particular school will make any one of them better so much as focusing on the content of what we do and giving children individual support.
People have been drawn to stories about exotic animals throughout our history. The further you go back in that history, the less likely those stories were accurate. Here is a gorgeous compendium of illustrations showing how people imagined real animals they had only heard about.
Crocodiles from Liber Floridus (Book of Flowers), an encyclopedia by Lambert, Canon of Saint-Omer between 1090 and 1120.
Summary: Shame on you. These three simple words can temporarily — or, when used too often, permanently — destroy an individual’s sense of value and self-worth.
Shame on you. These three simple words can temporarily — or, when used too often, permanently — destroy an individual’s sense of value and self-worth.
“In modernity, shame is the most obstructed and hidden emotion, and therefore the most destructive,” said Thomas Scheff, professor emeritus of sociology at UC Santa Barbara. “Emotions are like breathing — they cause trouble only when obstructed.”
When hidden, he continued, shame causes serious struggles not only for individuals but also for groups. In an article published in the current issue of the journal Cultural Sociology, Scheff examines the ubiquity of hidden shame and suggests it may be one of the keys to understanding contemporary society.
According to Scheff a society that fosters individualism (ours, for example) provides a ripe breeding ground for the emotion of shame because people are encouraged to “go it alone, no matter the cost to relationships,” he said. “People learn to act as if they were complete in themselves and independent of others. This feature has constructive and creative sides, but it has at least two other implications: alienation and the hiding of shame.”
Scheff noted that while shame is no less prevalent now than in previous years or decades or generations, it is more hidden. “Shame is a biological entity like other emotions, but people are more ashamed of it than they are of the others,” he said. “The hiding of emotions is more widespread in modern societies than in traditional ones.”
In exploring the connection between shame and aggression, Scheff cites research conducted by sociologist Neil Websdale, author of “Familicidal Hearts: The Emotional Styles of 211 Killers.” Familicide, the act of one spouse killing the other as well as their children and often himself or herself, stems from unacknowledged shame, Scheff said. “It’s about humiliation and hiding behind aggression or violence,” he explained. “The most interesting thing about the study is there’s a group of non-angry people — a minority — who lose their job and feel humiliated. So they pretend they’re going to work every day but are really planning the killing. Websdale describes them as ‘civic respectable.’
“Our society — our civilization — is civic respectable,” Scheff continued. “You’re not to be angry and you’re not to be ashamed.”
The problem with that kind of thinking, however, is that shame is, in reality, a very useful emotion. “Shame is the basis of morality,” Scheff said. “You can’t have a moral society without shame. It provides the weight for morality. There are a hundred things in your head about what you should or shouldn’t do, but the one that hits you is the one that has shame behind it.”
Scheff suggests that shame — or the reaction to it — can manifest itself in larger acts of aggression, such as wars and other military conflicts. “Especially for leaders, both shame and anger are carefully hidden behind a veil of rationality,” he writes in the article. “The Bush administration may have been deeply embarrassed by the 9/11 attack during their watch and their helplessness to punish the attackers. The invasion of Iraq on the basis of false premises might have served to hide their shame behind anger and aggression.”
While some people are more susceptible to the effects of shame, for others the emotion is more manageable. “Those lucky rascals who as children were treated with sympathetic attention from at least one of their caregivers feel more pride — accepted as they are — and, therefore, less shame and rejection,” Scheff said.
So how does one resolve hidden shame? The answer, according to Scheff, is to have a good laugh. “That is, laugh at yourself or at the universe or at your circumstances, but not at other people. Most of the laughing we do in comedy is good. No matter the actors, we are really laughing at our own selves that we see in their foolishness.”
Journal Reference:
T. Scheff. The Ubiquity of Hidden Shame in Modernity. Cultural Sociology, 2014; DOI: 10.1177/1749975513507244
Autoridades dos dois países se reuniram na terça e selaram acordo de cooperação
20 de março de 2014
Ariel Palacios – O Estado de S. Paulo
BUENOS AIRES – Os barrabravas, os violentos torcedores argentinos, estão se preparando para assistir à Copa do Mundo. O planejamento da viagem ao Brasil é bastante detalhado – passa até por contatos com líderes de torcida do futebol gaúcho, pois a ideia é fazer Porto Alegre de quartel-general. Preocupados, os governos de Brasil e Argentina firmaram acordo de cooperação para tentar controlar esses torcedores.
Marcos Brindicci/Reuters. Torcedores do Boca enfrentam a polícia
O plano dos barrabravas prevê até o que farão aqueles que não conseguirem ingressos. Eles ficariam do lado de fora dos estádios, fazendo o que os argentinos chamam de “el aguante”, expressão usada para definir o apoio fanático e apaixonado de uma torcida por seu time.
No fim do mês, uma comitiva com dez torcedores argentinos viajará a Porto Alegre para se reunir com contatos locais – entre eles José Hierro Martins, da Guarda Popular, do Internacional – para preparar o desembarque das organizadas argentinas na capital gaúcha, de onde partiriam para o resto do País. O grupo está organizando o financiamento da viagem desde 2011.
A seleção argentina está no Grupo F da Copa do Mundo e jogará no Rio de Janeiro em 15 de junho, contra a Bósnia; em Belo Horizonte no dia 21, contra o Irã; e no dia 25 em Porto Alegre, contra a Nigéria.
Diversas estimativas indicam que ao redor de 650 barrabravas de 38 clubes argentinos viajarão ao Brasil, em dez ônibus, aumento de 150% em relação ao contingente que foi à África do Sul em 2010. São integrantes das Torcidas Unidas Argentinas, entidade conhecida pela sigla HUA, que se apresenta como uma ONG para divulgar a “cultura do futebol”.
Em 2010, os barrabravas contavam com lideranças fortes, que serviam de interlocutores com diversos integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner que lhes conseguiam financiamentos. Atualmente, eles não possuem um comando único e recebem apoio econômico tanto de aliados da Casa Rosada como da oposição.
Analistas esportivos consultados pelo Estado sustentam que esse cenário de “atomização’’ das lideranças e vínculos complicou nos últimos anos o controle da violência dos barrabravas por parte das forças de segurança. No entanto, as autoridades argentinas prometem fiscalizar estes grupos violentos que viajarão ao Brasil. Os críticos ironizam, afirmando que o governo Kirchner nem sequer consegue controlá-los dentro do próprio país.
O município de Quilmes, na Grande Buenos Aires, foi o cenário de confrontos de barrabravas na semana passada. Os torcedores do Quilmes, famosos por sua violência, espancaram os rivais do All Boys com pás, além de desferir punhaladas. Segundo o deputado Fernando Pérez, da União Cívica Radical (UCR), “a Copa acelera as disputas porque os barrabravas se desesperam por financiar suas viagens ao Brasil”. Estimativas das agências de turismo indicam que, no total, 15 mil argentinos viajarão ao Brasil para acompanhar a Copa.
ACORDO
Na terça-feira, autoridades dos dois países se reuniram na embaixada da Argentina, em Brasília, e selaram acordo de cooperação. Por ele, a Argentina vai fornecer ao Brasil todas as informações solicitadas nas área de segurança e migração. O acordo prevê o reforço na segurança nas fronteiras entre os dois países. A entrada de torcedores argentinos no território brasileiro vai merecer controle especial.
A reunião em Brasília teve a presença também de policiais dos dois países, dirigentes do futebol argentino e representantes dos comitês do Rio, de Belo Horizonte e Porto Alegre, as cidades que receberão a seleção de Messi na primeira fase da Copa do Mundo.
MORTES E NEGÓCIOS
Desde o primeiro ataque protagonizado por barrabravas com morte na Argentina, em 1924, até o ano passado haviam morrido 230 pessoas em confrontos violentos e milhares ficaram feridas. As brigas, que até os anos 80 eram resolvidas com socos e pontapés, nos últimos 30 anos foram definidas à base de armas de fogo. Nestes 90 anos a Justiça argentina foi costumeiramente omissa, já que somente pouco mais de três dezenas de pessoas foram condenadas por essas mortes entre 1924 e 2013.
Ao contrário de outros países, onde muitas torcidas organizadas mais violentas estão vinculadas a grupos extremistas, como skinheads e neonazistas, na Argentina os barrabravas possuem fortes laços políticos e econômicos com ministros, senadores, deputados, governadores, prefeitos e vereadores, para os quais trabalham organizando comícios, como cabos eleitorais e seguranças.
This event is to be held
November 14-22, 2014
Haus der Kulturen der Welt (HKW), Berlin
The Anthropocene—or however you choose to name the current era of environmental transition on a planetary scale—is a more-than-real challenge for human civilization. A crucial aspect of this challenge is to ferret out and create new forms of collectives. First of all, there is a need for a wide array of habitual collectives to bring the technically empowered, and maybe out-of-control human agency into closer awareness of and care for this capacious non-site of immersion, formerly known as “Nature”. The Anthropocene discloses the immediate resonance between our actions—but also our omissions and failures—with the entire geosphere, so why not perceive them as one and the same collage, always changing and shifting in its pattern but staying true to their reciprocal dependency? Second, there is the challenge to re-create collectives in a more classical sense: assemblages of mutual attention and co-workmanship amongst the billions of different “anthropoi” who are and will be dwelling on this planet.
The project
This applies foremost to where critical knowledge is formed, shared and raised: the university. Within the confines of knowledge production and dissemination in higher education, the “Anthropocene Curriculum” project proposes an experiment to tackle this challenge and explore creative solutions in relation to it. Developed by the Haus der Kulturen der Welt (HKW) and the Max Planck Institute for the History of Science (MPIWG, both in Berlin, Germany) the “Anthropocene Curriculum” is a central, production-oriented element among a manifold of research-based exhibitions, experimental events, academic and curatorial workshops, as well as an ambitious publication project that comprise the output of the two-year “Anthropocene Project” led by HKW.
The “Anthropocene Curriculum” brings together university teachers from science, humanities, and art and design faculties from across the globe to collaboratively negotiate, develop, and supervise an exemplary curriculum on Anthropocene-relevant topics. Setting the curriculum as a practical goal the task is to creatively develop a mutual understanding of recursive themes and tropes within the confines of Anthropocene research, an emergent field that becomes more integrated and trans-disciplinary along the way. The curriculum itself will be implemented at the “Anthropocene Campus” taking place in November 2014 at HKW. Cast into the form of an autumn session helding a set of exemplary courses, a total of one hundred international young researchers from academia and civil society will get actively involved into the program, joining the effort by bringing in their own perspectives and expertise.
The immediate aim of this temporary co-learning space on the premises of a cultural institution and embedded within a more expansive situation in the HKW (exhibitions, screenings, artistic events), is to enter a productive discourse—free of university-curricular constraints—on knowledge design and dissemination, on skills and their trainings. As a result of the pre- and postwork of the 9-day event an “Anthropocene Coursebook” will be edited by the participants, ”instructors” and “students” alike. In the end, such cooperation seeks to adequately address the collaborative and educational skills needed to tackle the critical environmental challenges that the Anthropocene poses, challenges that immediately become social, technological, and epistemological on closer examination.
Hence, and on a more general note, the further goal of this ambitious project is to convey a wider grasp as well as epistemic sensibility for the spectra, interplays and metabolisms of elements taking place on and within a planet in transition. This includes efforts in prospectively conjoining the variegated systemic and anthropogenic exchange processes, from the biophysical and geochemical to the cultural, industrial, and virtual. Yet, it also critically reflects on social and aesthetic inputs and the effects that emanate from the general acceptance of a human-nature indivisibility. While this clearly speaks to the heart of the environmental humanities endeavour, such knowledge also implies the potency of design and actively pursues a readjustment of both “knowing” and “doing” within the broader geo-fabric. By incorporating diverse views and materials from different disciplines, by debating and combining them to form cross-disciplinary syllabi, a potent, earth-bound collective might be composed.
To be sure: the courses assembled within this project do not strive for a comprehensive, fully integrated tour d’horizon of the Anthropocene. Instead, they aim for a kaleidoscopic and resourceful approach that emerges from the glaring necessity to build a knowledge base simultaneously broad in its disciplinary perspectives, as well as out-of-the-box in its experimentation. An ideal curriculum informed by and calibrated for the Anthropocene does not teach disciplines, at least not as an end in itself. Working “in silos” certainly has its merits and so does rigorous disciplinary training. Nevertheless, the overall challenge to educate people for living up to the planetary scale of our pending crisis demands different approaches and methods.
Nor does an ideal “Anthropocene Curriculum” unify and equalize everything into a global view of nowhere. Instead, it composes out of localities, drawing connections between local concerns and local knowledge that carries it’s own historical contingencies. It mediates between different contemporary approaches and modes of scientific artistry. It prepares students for what will surely become turbulent times in the interdependency of science, culture, and a habitable planet. Its interdisciplinarity is genuine and rests on necessity. It provides methodical avenues for grappling with the scopes and scales of the Anthropocene predicament.
Moreover, the ever changing role of academia itself is hereby brought into the equation (or rather, multiple equations). Therefore, another central aim of this project is to accentuate the process of constructing and composing a curriculum and to bring this “becoming” to the foreground. Though building a curriculum with a panoramic view on topical, trans-disciplinary knowledge serves in and of itself as an end, the project’s desire is to also develop a self-reflexive discourse, as well as to highlight the uncertainties and humble limitations of scholarly engagement with the planet.
… and its procedures
As a result of general discussions and negotiations that took place since the start of the project in September 2013 on an internal online platform, and building on the presentations given at a midway meeting that took place January 23-24, 2014 at the MPIWG, the 27 participants of the project have now formed themselves into interdisciplinary groups of three or four. Within (but also across) these groups, the current task of each is to start elaborating their chosen topics and prepare materials for the seminars, excursions, exercises, and public lectures that will be presented during the “Anthropocene Campus” in November this year. Utilizing the online platform to mitigate communication procedures, the general discussion on goals and feasibilities of an Anthropocene-adequate knowledge base will continue.
Later this year the online platform will expand to include prospective students, while a public website presenting the compiled materials as well as videos of public presentations will be launched after the “Anthropocene Campus”. This will provide an accessible repository for further realizations of curricula that may be initiated at other places around the globe and added to the website later on. It is also planned to publish an open access edition of an “Anthropocene Coursebook”, consisting of the curriculum topics co-authored by the three tutors and their respective students.
All this is, no doubt, a bold and risky undertaking. Being a magnificent task in inter-disciplinary diplomacy, it challenges the academic folklore of often talking about collaboration but rarely putting it into practice. Here lies the virtue and open possibility of the Berlin “Anthropocene Project”: grounded within a cultural institution, it provides an extra-academic terrain to allow for another standard of exchange to happen. Strictly speaking, the “Anthropocene Curriculum” is a rare opportunity, namely one in which different perspectives may be debated in a frank and straightforward manner and controversial standpoints may be used in a productive way. The challenge here is to be a collective.
Nearly 30 years have passed since the Chernobyl plant exploded and caused an unprecedented nuclear disaster. The effects of that catastrophe, however, are still felt today. Although no people live in the extensive exclusion zones around the epicenter, animals and plants still show signs of radiation poisoning.
Birds around Chernobyl have significantly smaller brains that those living in non-radiation poisoned areas; trees there grow slower; and fewer spiders and insects—including bees, butterflies and grasshoppers—live there. Additionally, game animals such as wild boar caught outside of the exclusion zone—including some bagged as far away as Germany—continue to show abnormal and dangerous levels of radiation.
However, there are even more fundamental issues going on in the environment. According to a new study published in Oecologia, decomposers—organisms such as microbes, fungi and some types of insects that drive the process of decay—have also suffered from the contamination. These creatures are responsible for an essential component of any ecosystem: recycling organic matter back into the soil. Issues with such a basic-level process, the authors of the study think, could have compounding effects for the entire ecosystem.
The team decided to investigate this question in part because of a peculiar field observation. “We have conducted research in Chernobyl since 1991 and have noticed a significant accumulation of litter over time,” the write. Moreover, trees in the infamous Red Forest—an area where all of the pine trees turned a reddish color and then died shortly after the accident—did not seem to be decaying, even 15 to 20 years after the meltdown.
“Apart from a few ants, the dead tree trunks were largely unscathed when we first encountered them,” says Timothy Mousseau, a biologist at the University of South Carolina, Columbia, and lead author of the study. “It was striking, given that in the forests where I live, a fallen tree is mostly sawdust after a decade of lying on the ground.”
Wondering whether that seeming increase in dead leaves on the forest floor and those petrified-looking pine trees were indicative of something larger, Mousseau and his colleagues decided to run some field tests. When they measured leaf litter in different parts of the exclusion zones, they found that the litter layer itself was two to three times thicker in the “hottest” areas of Chernobyl, where radiation poisoning was most intense. But this wasn’t enough to prove that radiation was responsible for this difference.
To confirm their hunch, they created around 600 small mesh bags and stuffed them each with leaves, collected at an uncontaminated site, from one of four different tree species: oak, maple, birch or pine. They took care to ensure that no insects were in the bags at first, and then lined half of them with women’s pantyhose to keep insects from getting in from the outside, unlike the wider mesh-only versions.
Like a decomposer Easter egg hunt, they then scattered the bags in numerous locations throughout the exclusion zone, all of which experienced varying degrees of radiation contamination (including no contamination at all). They left the bags and waited for nearly a year—normally, an ample amount of time for microbes, fungi and insects to make short work of dead organic material, and the pantyhose-lined bags could help them assess whether insects or microbes were mainly responsible for breaking down the leaves.
The results were telling. In the areas with no radiation, 70 to 90 percent of the leaves were gone after a year. But in places where more radiation was present, the leaves retained around 60 percent of their original weight. By comparing the mesh with the panty hose-lined bags, they found that insects play a significant role in getting rid of the leaves, but that the microbes and fungi played a much more important role. Because they had so many bags placed in so many different locations, they were able to statistically control for outside factors such as humidity, temperature and forest and soil type to make sure that there wasn’t anything besides radiation levels impacting the leaves’ decomposition.
“The gist of our results was that the radiation inhibited microbial decomposition of the leaf litter on the top layer of the soil,” Mousseau says. This means that nutrients aren’t being efficiently returned to the soil, he adds, which could be one of the causes behind the slower rates of tree growth surrounding Chernobyl.
Stars mark sites where the researchers put the leaf bags, with colors corresponding to levels of radiation. Photo: Mousseau et al., Oecologia
Other studies have found that the Chernobyl area is at risk of fire, and 27 years’ worth of leaf litter, Mousseau and his colleagues think, would likely make a good fuel source for such a forest fire. This poses a more worrying problem than just environmental destruction: Fires can potentially redistribute radioactive contaminants to places outside of the exclusion zone, Mousseau says. “There is growing concern that there could be a catastrophic fire in the coming years,” he says.
Unfortunately, there’s no obvious solution for the problem at hand, besides the need to keep a stringent eye on the exclusion zone to try to quickly snuff out potential fires that breaks out. The researchers are also collaborating with teams in Japan, to determine whether or not Fukushima is suffering from a similar microbial dead zone.
Em entrevista à CH, o antropólogo brasileiro Cláudio Pinheiro analisa a dominação cultural da Europa e dos Estados Unidos sobre os países menos desenvolvidos, como o Brasil, e aponta mudanças que podem levar a uma produção de ideias e conhecimentos multipolarizada.
Por: Henrique Kugler, Ciência Hoje/ RJ
Publicado em 20/03/2014 | Atualizado em 20/03/2014
‘Table bay’, tela de Samuel Scott datada de 1730. Na esteira da colonização, países menos desenvolvidos, entre eles o Brasil, importam padrões culturais e estruturas políticas e intelectuais da Europa e dos Estados Unidos.
Sejamos honestos: nós, brasileiros, tornamo-nos praticantes passivos de alguma espécie de mimetismo pós-colonial. Imitamos padrões europeus e estadunidenses em quase tudo – desde detalhes aparentemente banais, como vestimentas que usamos ou músicas que ouvimos; até estruturas políticas ou intelectuais reproduzidas a partir de matrizes do Norte. E a academia não foge à regra. Os autores que lemos, afinal, são quase sempre os clássicos do Velho Mundo.
Nos ventos do século 21, porém, as periferias geopolíticas pedem um mundo multipolarizado – e, cada vez mais, esse movimento configura a nova realidade global. Ainda perdura, no entanto, a clivagem do cenário internacional em dicotomias datadas que reforçam a segregação do mundo em dois hemisférios simbólicos.
Sobre esse instigante tema, Ciência Hoje ouviu o historiador e antropólogo Cláudio Pinheiro, diretor da Sephis, agência holandesa dedicada à formação de quadros intelectuais de países do Sul, agora sediada no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pinheiro denuncia o colonialismo tardio do qual apenas começamos a nos libertar. E, dono de um papo tão pertinente quanto sofisticado, aposta suas fichas nos países austrais como promissores espaços de enunciação política, cultural e intelectual.
É correto afirmar que no Brasil, como em muitos países em desenvolvimento, ainda somos intelectualmente colonizados?
Essa colonização intelectual e acadêmica que vivemos não é uma conversa nova. Sua denúncia sistemática vem dos anos 1960. Mas, agora, a ideia está sendo desenvolvida com muito mais substância e continuidade. Dois anos atrás, veio ao Brasil uma das grandes intelectuais que debate a ideia de Sul: a antropóloga australiana Raewyn Connell. Sabe o que ela disse? “No evento acadêmico do qual participei aqui, as bancas de livros vendiam o mesmo que eu encontraria em um evento acadêmico na Austrália: Pierre Bourdieu, Jürgen Habermas, enfim, os autores clássicos europeus. Mas eu gostaria de ler, na verdade, autores clássicos brasileiros! E também os africanos, os indianos…”
Se o debate já tem quatro décadas, por que essa colonização permanece?
As agendas de pensamento estão muito profundamente ancoradas em conjuntos de teorias, temas, categorias de análise e agendas de financiamento à produção científica que se referem a uma experiência histórica particular, que é a do Atlântico Norte – tanto europeia, quanto norte-americana. É nessas experiências que nós, da periferia, acabamos baseando nosso discurso intelectual sociológico, antropológico, político e historiográfico.
Um dos grandes autores a denunciar isso, nos anos 1990, foi o indiano Dipesh Chakrabarty, da Universidade de Chicago. Ele escreveu um livro, em 2000, chamado Provincializando a Europa [Provincializing Europe, editado pela Princeton University Press, sem tradução para o português]. O argumento básico está no título: a Europa é uma paróquia. Só que essa paróquia se mundializou, a partir de um longo processo histórico associado ao colonialismo. E passamos a acreditar que nela estaria alguma espécie de grande verdade.
Conhecemos mais detalhes sobre a queda da Bastilha do que sobre grandes revoluções africanas
Pense em um estudante de ensino médio. O que ele estuda em história? História europeia. Estudos sobre África entraram para o nosso currículo apenas recentemente, em 2003, por uma medida governamental. Certo: o estudante sabe então sobre Europa e África. O que falta? Falta tudo. Conhecemos mais detalhes sobre a queda da Bastilha do que sobre grandes revoluções africanas. Estas passam completamente ao largo de nosso conhecimento. Como estudar história mundial sem estudar a história da África? Como entender o impacto que teve a diáspora de africanos nas Américas e na própria África? Como isso interferiu, por gerações e séculos, na capacidade africana de recuperar sua economia? Nossa própria forma de datação do tempo é marcada pela experiência europeia. Compreendemos o mundo em termos de história antiga, medieval, moderna e contemporânea. E é nesse trem que nos localizamos: o Brasil passa a existir no mundo a partir da história moderna – durante a expansão europeia.
Com a emergência de novas forças geopolíticas, a exemplo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), essas ‘categorias de análise’ podem ser remodeladas?
Não obstante países como os BRICs sejam mais e mais importantes no cenário político internacional, continuam não sendo donos do próprio arcabouço que define a maneira pela qual se conhece o conhecimento: a forma de datar o tempo, a forma de classificar sociedades, as categorias de compreensão do mundo. Exemplo: se falamos em ‘família’, um aluno do ensino médio pensa em pai, mãe, avós, tios, filhos, netos. Em muitas sociedades é assim. Mas em muitas outras, não. Para povos nativos brasileiros ou sociedades asiáticas, por exemplo, a noção de família engloba relações mais amplas, que podem incluir até animais.
O conceito ocidental baseado na experiência europeia não dá conta de toda a realidade
O conceito ocidental baseado na experiência europeia não dá conta de toda a realidade. Acontece que os demais modelos são invisibilizados por outros que nos fazem compreender o mundo de forma engessada. Isso vale não só para a ideia de família como também de Estado, política, democracia. Para alguns autores, não é o dinheiro que faz uma sociedade ser classificada como “periférica”. Mas sim o não domínio sobre as categorias que organizam o pensamento, a política e a sociedade.
Essa imitação subalterna é muito perceptível na academia…
Quase todo aluno de graduação no Brasil (desde enfermagem a agronomia, passando pela engenharia) estuda ciências sociais como disciplina obrigatória. Em muitos casos isso envolve a leitura dos ‘clássicos’: Karl Marx [1818-1883], Max Weber [1864-1920], Émile Durkheim [1858-1917]. Eles são interessantíssimos, não há dúvida. Mas parece uma igreja com seus santos principais. Cadê os santos da periferia? Que autores pensaram as sociedades que hoje são periféricas? É um desafio contemporâneo incluir outros clássicos no ensino e no debate. Muito se perde diante do fato de que as estruturas para conhecer o ‘outro’ estão marcadas pela experiência de uma província, de uma paróquia específica, que é a Europa. É preciso universalizar o vocabulário de categorias de análise de modo que o mundo seja mais polifônico.
Você leu apenas o início da entrevista publicada na CH 312. Clique no ícone a seguir para baixar a versão integral.
Summary: Scientists have discovered that all complex systems, whether they are found in the body, in international finance, or in social situations, actually fall into just three basic categories, in terms of how they can be controlled.
We don’t often think of them in these terms, but our brains, global financial markets and groups of friends are all examples of different kinds of complex networks or systems. And unlike the kind of system that exists in your car that has been intentionally engineered for humans to use, these systems are convoluted and not obvious how to control. Economic collapse, disease, and miserable dinner parties may result from a breakdown in such systems, which is why researchers have recently being putting so much energy into trying to discover how best to control these large and important systems.
But now two brothers, Profs. Justin and Derek Ruths, from Singapore University of Technology and Design and McGill University respectively, have suggested, in an article published in Science, that all complex systems, whether they are found in the body, in international finance, or in social situations, actually fall into just three basic categories, in terms of how they can be controlled.
They reached this conclusion by surveying the inputs and outputs and the critical control points in a wide range of systems that appear to function in completely different ways. (The critical control points are the parts of a system that you have to control in order to make it do whatever you want — not dissimilar to the strings you use to control a puppet).
“When controlling a cell in the body, for example, these control points might correspond to proteins that we can regulate using specific drugs,” said Justin Ruths. “But in the case of a national or international economic system, the critical control points could be certain companies whose financial activity needs to be directly regulated.”
One grouping, for example, put organizational hierarchies, gene regulation, and human purchasing behaviour together, in part because in each, it is hard to control individual parts of the system in isolation. Another grouping includes social networks such as groups of friends (whether virtual or real), and neural networks (in the brain), where the systems allow for relatively independent behaviour. The final group includes things like food systems, electrical circuits and the internet, all of which function basically as closed systems where resources circulate internally.
Referring to these groupings, Derek Ruths commented, “While our framework does provide insights into the nature of control in these systems, we’re also intrigued by what these groupings tell us about how very different parts of the world share deep and fundamental attributes in common — which may help unify our understanding of complexity and of control.”
“What we really want people to take away from the research at this point is that we can control these complex and important systems in the same way that we can control a car,” says Justin Ruths. “And that our work is giving us insight into which parts of the system we need to control and why. Ultimately, at this point we have developed some new theory that helps to advance the field in important ways, but it may still be another five to ten years before we see how this will play out in concrete terms.”
Journal Reference:
Justin Ruths and Derek Ruths. Control Profiles of Complex Networks. Science, 2014 DOI: 10.1126/science.1242063
Summary: As some countries and companies roll out new rules to limit animal testing in pharmaceutical products designed for people, scientists are stepping in with a new way to test therapeutic drug candidates and determine drug safety and drug interactions — without using animals. The development of “chemosynthetic livers” could dramatically alter how drugs are made.
As some countries and companies roll out new rules to limit animal testing in pharmaceutical products designed for people, scientists are stepping in with a new way to test therapeutic drug candidates and determine drug safety and drug interactions — without using animals. The development of “chemosynthetic livers” could dramatically alter how drugs are made.
This research was presented at the 247th National Meeting & Exposition of the American Chemical Society.
Mukund Chorghade, Ph.D., noted that the European Union enacted new regulations in 2010, known as REACH, that aim to dramatically reduce the use of animals in testing. But the development of new pharmaceuticals still depends heavily on the time-consuming and expensive process of animal testing.
“Researchers in drug discovery make small quantities of new potential drug compounds and then test them in animals,” said Chorghade, who is chief scientific officer of Empiriko Corporation and president of THINQ Pharma. “It is a very painstaking, laborious and costly process. Frequently, scientists have to sacrifice many animals, and even after all that, the results are not optimal.”
Typically, when researchers are onto a new compound that could address an unmet human health need, they test it on animals to see if it’s toxic before taking it into clinical trials with human subjects. They figure this out by doing something called metabolic profiling. That is, after giving an animal a test drug, the experimental compound does its designated job in the body until the liver breaks it down. Then researchers try to detect the resulting, minute amounts of molecular byproducts, or metabolites. It’s these metabolites that are often responsible for causing nasty side effects that can derail an otherwise promising therapeutic candidate.
This is where Empiriko’s patented chemosynthetic liver technology (Biomimiks™) comes in. Chorghade has developed these stand-ins, which are catalysts that act similarly to a group of enzymes known as cytochrome P450. Catalysts are substances that speed up processes that otherwise wouldn’t happen or would occur slowly. Many of these cytochrome P450 enzymes break down drugs in the liver.
So rather than using lab animals, researchers could figure out metabolic profiles of drugs by mixing them in test tubes with chemosynthetic livers. Chorghade’s team at Empiriko has already demonstrated how Biomimiks™ works with several pharmaceutical compounds.
“These chemosynthetic livers not only produce the same metabolites as live animals in a fraction of the time,” Chorghade said, “but they also provide a more comprehensive metabolic profile, in far larger quantities for further testing and analysis.”
Other possible applications are cropping up for these chemosynthetic livers. One of Empiriko’s scientific advisors suggested the use of Biomimiks™ to detoxify blood for liver transplant patients. Biomimiks™ could also be used in the near future to predict side effects when multiple drugs are taken together.
“The average American above 60 years of age is taking multiple drugs a day,” Chorghade explained. “Side effects from drug-to-drug interactions could be substantial.” In a case study, Chorghade and collaborators looked at two drugs commonly taken together, one for high cholesterol and the other for type 2 diabetes. They found that the cholesterol drug sped up the breakdown of the other one, which could potentially lower its effectiveness.
The chemosynthetic livers aren’t yet approved to take the place of animal tests. But Chorghade is optimistic. His group has tested more than 50 drugs so far to show that the catalysts accurately mimic how the human body processes them. He said that they’re working to get that number up to 100, which is what the U.S. Food and Drug Administration requires for regulatory approval.
Chorghade acknowledges funding from a private investor responsible for supporting this technology to date.
A Justiça de São Paulo ganhará, a partir de hoje, um órgão específico para analisar com rapidez casos de prisão em flagrante em grandes protestos. A medida é uma resposta às manifestações que, desde junho de 2013, têm terminado com dezenas de detidos após depredações.
O novo órgão também vai agilizar a transformação dos inquéritos policiais em processos criminais. Uma consequência esperada pelas autoridades é que a punição de alguns manifestantes sirva de exemplo a outros.
Eventuais prisões em flagrante que ocorram amanhã, quando estão previstas duas manifestações na capital paulista, já serão encaminhadas ao órgão. A expectativa das autoridades é que ele seja útil também durante a Copa.
O Tribunal de Justiça de São Paulo é o primeiro do país a implantar o Ceprajud (Centro de Pronto Atendimento Judiciário), conforme orientação do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério da Justiça.
“Na hipótese de um evento monstruoso, que acarrete 300 prisões em flagrante, o centro vai ter uma estrutura para comportar esse aumento repentino”, afirma o juiz Kleber de Aquino, assessor da presidência do TJ para assuntos de segurança pública.
Hoje, o manifestante detido é levado ao distrito policial, onde o delegado decide se irá liberá-lo ou prendê-lo em flagrante, de acordo com a gravidade do delito.
Quando alguém fica preso, uma cópia do auto de flagrante deve seguir em 24 horas para o Dipo (departamento que centraliza flagrantes), no fórum da Barra Funda.
Um juiz do Dipo decide se a prisão será mantida –decretando a preventiva– ou se o manifestante será liberado, mediante aplicação de medidas restritivas, como proibição de ir a certos lugares.
No caso de centenas de flagrantes de uma vez, o Dipo pode acabar atrasando a análise das prisões em dois ou três dias, explica Aquino. Por isso, essa análise passará a ser feita por juízes de plantão 24 horas no Ceprajud.
O centro poderá ainda convocar juízes e funcionários extras para atender à demanda.
“Essas decisões [sobre manter preso ou soltar] é que devem ser tomadas em caráter de urgência”, diz o juiz.
“A finalidade é a apreciação célere de procedimentos criminais de urgência e de eventuais excessos da repressão policial no curso de grandes manifestações.”
Martim de Almeida Sampaio, da comissão de direitos humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), critica a criação de uma “força-tarefa” do Judiciário para esses flagrantes e diz considerá-la parte de um conjunto de medidas para coibir protestos.
“Manifestantes que cometerem abuso devem ser punidos, mas essa via rápida voltada exclusivamente a eles é um pouco exagerada”, diz.
“A demanda da sociedade é por uma Justiça ágil, mas não voltada exclusivamente a processos contra movimento social”, afirma o advogado.
5th CIFAS Field School in Ethnographic Research Methods
June 16 to 27, 2014
The Comitas Institute for Anthropological Study (CIFAS) is pleased to announce the 5th CIFAS Field School in Ethnographic Research Methods, in New York City
The goal of the Field School is to offer training in the foundations and practice of ethnographic methods. The faculty works closely with participants to identify the required field methods needed to address their academic or professional needs. The Field School is suitable for graduate and undergraduate students in social sciences and other fields of study that use qualitative approaches (such as education, communication, cultural studies, health, social work, human ecology, development studies, consumer behavior, among others), applied social scientists, professionals, and researchers who have an interest in learning more about ethnographic methods and their applications.
The total work load of the course is 30 hours. Students interested in earning credits for the course may have additional assignments in order to totalize 45 hours of activities (what is equivalent to 3 credits).
Course venue: classes will take place at the Institute for Latin American Studies at Columbia University, in the Upper West Side of New York City.
See pictures of the previous editions of the CIFAS Summer Field School here.
Coordinators:
Renzo Taddei (Assistant Professor, Federal University of São Paulo/Affiliated Researcher, Columbia University). CV: http://bit.ly/1dn7RuJ.
Lambros Comitas (Gardner Cowles Professor of Anthropology and Education at Teachers College, Columbia University). CV: http://bit.ly/ZUHbMn
Registration and other costs: Places are limited. The tuition fee is US$900. The tuition fee does not cover accommodation, meals or transportation. Registration should be completed online here.
Accommodations: International House offers housing for participants for the discount price of US$ 60 per night (provided there are rooms available). Rooms and other facilities can be checked out on their website, on the virtual tour option (the blue button that says “take a tour”): http://www.ihouse-nyc.org/s/707/start.aspx?sid=707&gid=1&pgid=254.
Other information:
Insurance: Participants are required to have travel insurance that covers medical and repatriation costs (for international students). Proof of purchase of travel insurance must be presented at the first day of activities.
Fome, secas, epidemias, matanças: a Terra aproxima-se do apocalipse. Talvez daqui a 50 anos nem faça sentido falar em Brasil, como Estado-nação. Entretanto, há que resistir ao avanço do capitalismo. As redes sociais são uma nova hipótese de insurreição. Presente, passado e futuro, segundo um dos maiores pensadores brasileiros
Eduardo Viveiros de Castro, 62 anos, é o mais reconhecido e discutido antropólogo do Brasil. Acha que “a ditadura brasileira não acabou”, evoluiu para uma “democracia consentida”. Vê nas redes sociais, onde tem milhares de seguidores, a hipótese de uma nova espécie de guerrilha, ou resistência. Não perdoa a Lula da Silva ter optado pela via capitalista e acha que Dilma Rousseff tem uma relação “quase patológica” com a Amazônia e os índios. Não votará nela “nem sob pelotão de fuzilamento”.
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro é autor de uma obra influente, que inclui “A Inconstância da Alma Selvagem” e “Araweté — O Povo do Ipixuna” DÉBORAH DANOWSKI
Professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, autor de uma obra influente (destaque para A Inconstância da Alma Selvagem ou Araweté — O Povo do Ipixuna, este último editado em Portugal pela Assírio & Alvim), Viveiros de Castro é o criador do perspectivismo ameríndio, segundo a qual a humanidade é um ponto de vista: a onça vê-se como humana e vê o homem como animal; o porco vê-se como humano e vê a onça como animal. Humano é sempre quem olha.
Nesta longa entrevista, feita há um mês no seu apartamento da Baía de Botafogo — antes ainda da greve dos garis (homens e mulheres do lixo), um exemplo de revolta bem sucedida — Viveiros foi da Copa do Mundo ao fim do mundo. Acredita que estamos à beira do apocalipse.
Vê sinais de uma revolta nas ruas brasileiras? Aquilo que aconteceu em 2013 foi um levantamento mas não uma revolta generalizada. Acha que isso pode acontecer antes da Copa, ou durante?
É muito difícil separar o que você imagina que vai acontecer daquilo que você deseja que vá acontecer.
Vamos separar. O que desejaria que acontecesse?
Revolta popular durante a Copa.
E isso significa o quê, exactamente?
Manifestação. Não estou imaginando a queda da Bastilha nem a explosão de nada, mas gostaria que a população carioca o deixasse muito claro. Embora a Copa vá acontecer em várias cidades, creio que o Rio se tornou o epicentro do problema da Copa, em parte porque o jogo final será no Maracanã.
Mesmo nas manifestações, o Rio foi a cidade mais forte.
São Paulo também teve manifestações muito importantes, mais conectadas com o Movimento Passe Livre [MPL, estudantes que em Junho de 2013 iniciaram os protestos contra o aumento dos transportes]. Voltando ao que eu desejaria: que a população carioca manifestasse a sua insatisfação em relação à forma como a cidade está sendo transformada numa espécie de empresa, numa vitrine turística, colonizada pelo grande capital, com a construção de grandes hotéis, oferecendo oportunidades às grandes empreiteiras, um balcão de negócios, sob a desculpa de que a Copa iria trazer dinheiro, visibilidade, para o Brasil.
O problema é que vai trazer má visibilidade. Vai ser uma péssima propaganda para o Brasil. Primeiro, porque, se estou bem entendendo, vários compromissos contratuais com a FIFA não estão sendo honrados, atrasos muito grandes, etc. Segundo, porque essa ideia de que os brasileiros estão achando uma maravilha que a Copa se realize no Brasil pode ser desmentida de maneira escandalosa se os turistas, tão cobiçados, chegarem aqui e baterem de frente com povo nas ruas, brigando com a polícia, uma polícia despreparada, brutal, violenta, assassina. Tenho a impressão de que não vai fazer muito bem à imagem do Brasil.
Outra coisa importante é que a Copa foi vendida à opinião pública como algo que ia ser praticamente financiado pela iniciativa privada, que o dinheiro do povo, do contribuinte, ia ser pouco gasto. O que está se vendo é o contrário, o governo brasileiro investindo maciçamente, gastando dinheiro para essas reformas de estádios, dinheiro dos impostos. Então, nós estamos pagando para que a FIFA lucre. Porque quem lucra com as copas é a FIFA.
Desejaria que essa revolta impedisse mesmo a Copa?
Impedir a Copa é impossível, não adianta nem desejar. Não sei também se seria bom, poderia produzir alguma complicação diplomática, ou uma repressão muito violenta dentro do país. Existe uma campanha: Não Vai Ter Copa. O nome completo é: Sem Respeito aos Direitos Não Vai Ter Copa. No sentido desiderativo: não deveria haver, desejamos que não haja.
O que se está dizendo é que os direitos de várias camadas da população estão sendo brutalmente desrespeitados, com remoções forçadas de comunidades, desapropriando sem indemnização, modificando aspectos fundamentais da paisagem carioca sem nenhuma consulta. Isso tudo está irritando a população.
Mas não é só isso: a insatisfação com a Copa foi catalisada por várias outras que vieram surgindo nos últimos anos, que envolvem categorias sociais diversas, e não estão sendo organizadas nem controladas pelos partidos. Essas manifestações têm de tudo, uma quantidade imensa de pautas [reivindicações]. Tem gente que quer só fazer bagunça, tem gente de direita, infiltrados da polícia, neonazistas, anarquistas. Um conjunto complexo de fenómenos com uma combinação de causas. Uma coisa importante é que são transversais: tem gente pobre e de classe média misturada na rua. É a primeira vez que isso acontece. O que talvez tenha em comum é que são todos jovens. Da classe média alta à [favela da] Rocinha.
Mas agora não são muito expressivas em termos de números. E não são as favelas que estão em massa na rua.
As famosas massas ainda não desceram, e provavelmente não vão descer durante a Copa. Nem sei se vão descer em alguma momento, se existe isso no Brasil. Mas acho que vai haver uma quantidade de pequenas manifestações. Por exemplo, a Aldeia Maracanã [pequena comunidade de índios pressionada a sair, por causa das obras do estádio] produziu uma confusão muito grande, se você pensar no tamanho da população envolvida. Os moradores daquela casa eram 14 pessoas e não obstante mobilizaram destacamentos do Bope [tropa de elite], bombas, etc. Quem está, em grande parte, criando a movimentação popular é o estado, com a sua reacção desproporcional. O Movimento Passe Livre ganhou aquela explosão em São Paulo por causa da brutalidade da reacção policial. O Brasil nunca teve esse tipo de confronto entre a polícia e jovens manifestantes. A polícia não sabe como reagir, não tem um método, então reage de maneira brutal. Os próprios manifestantes não têm experiência de organização. O que estão chamando de black bloc não é a mesma coisa que black bloc na Dinamarca, na Alemanha ou nos Estados Unidos.
Mais volátil.
Ideologicamente pouco consistente. Sabemos que o black bloc europeu é essencialmente uma táctica de protecção contra a polícia. Noutros países, como os Estados Unidos, tem uma certa táctica de agressão a símbolos do capitalismo. Aqui no Rio está uma coisa meio misturada, ainda não se consolidou uma identidade, um perfil táctico claro para o que se chama de black bloc. E eles estão sendo demonizados. Acho até que, no caso do Brasil, o facto de que sejam black coloca uma pequena ponta de racismo nessa indignação. Não duvido de que no imaginário da classe média por trás da máscara negra esteja também um rosto negro. Pobres, bandidos, etc.
Mas isso está acontecendo ao mesmo tempo que a polícia continua invadindo as favelas, matando 10, 12, 15 jovens por semana. Até recentemente esse comportamento clássico do estado diante da população muito pobre, isto é, mandar a polícia entrar e arrebentar, era algo que a classe média tomava como… [sinal de longínquo].
Porque se passava lá nos morros.
Quando a violência começou a atingir a classe média — ainda que uma bala de borracha não seja uma bala de fuzil, porque o que eles usam na favela é bala de verdade e o que eles usam na rua é bala de borracha, ainda assim você pode matar com bala de borracha, pode cegar, etc —, à medida que a polícia começou a atacar tanto a rua quanto o morro houve um aumento da percepção da classe média em relação à violência da polícia nas favelas, o que é novidade. A imprensa fez uma imensa campanha para santificar a polícia com a coisa das UPP [Unidade de Polícia Pacificadora, programa para acabar com o poder armado paralelo nas favelas, instalando a polícia lá dentro], mas todo o mundo está percebendo que essas UPP são no mínimo ambíguas. Basta ver o caso do [ajudante de pedreiro] Amarildo, que foi sequestrado, torturado e morto pela polícia [em Junho de 2013, na Rocinha], e sumiu da imprensa.
Vinte e cinco policiais foram indiciados.
Quero ver o que vai acontecer. Quem deu visibilidade à morte do Amarildo não foi a grande imprensa. Foram as redes sociais, os movimentos sociais. Essa morte é absolutamente banal, acontece toda a semana nas favelas, mas calhou de acontecer na altura das manifestações, então foi capturada pelos manifestantes, o que produziu uma solidariedade entre o morro e a rua que foi inédita.
Num país como este, em que a desigualdade, a violência, continuam, porque é que as massas não saem?
Quem dera que eu soubesse a resposta. Essa é a pergunta que a esquerda faz desde que existe no Brasil. Acho que há várias razões. O Brasil é um país muito diferente de todos os outros da América Latina, por exemplo da Argentina. Basta comparar a história para ver a diferença em termos de participação política, mobilização popular. Tenho impressão de que isso se deve em larga medida à herança da escravidão no Brasil. O Brasil é um país muito mais racista do que os Estados Unidos. Claro que é um racismo diferente. O racismo americano é protestante. Mas no Brasil há um racismo político muito forte, não só ideológico como o americano, interpessoal. O Brasil é um país escravocrata, continua sendo. O imaginário profundo é escravocrata. Você vê o caso do menino [mulato] amarrado no poste [no bairro do Flamengo, por uma milícia de classe média que o suspeitava assaltante] e que respondeu de uma maneira absolutamente trágica quando foi pego: mas meu senhor, eu não estava fazendo nada. Só essa expressão, “meu senhor”… O trágico foi essa expressão. Continuamos num mundo de senhores. Porque o outro era branco.
Como um DNA, algo que não acabou.
Não acabou, pois é. É o mito de que no Brasil todas as coisas se resolvem sem violência. Sem violência, entenda-se, sem revolta popular. Com muita violência mas sem revolta. A violência é a da polícia, do estado, do exército, mas não é a violência no sentido clássico, francês, revolucionário.
E toda a vez que acontecem coisas como essas manifestações de Junho, por exemplo, há aquela sensação: dessa vez o morro vai descer. O morro não desceu. Em parte porque já não é mais o morro, boa parte do morro é de classe média. Evidentemente, houve um crescimento económico. As favelas da minha infância, nos anos 50, eram completamente diferente, como essas vilas da Amazônia, feitas de lona preta. Hoje são casas de alvenaria, feitas de tijolos. Ainda assim a miséria continua. Quero dizer apenas que a distância entre a classe média e o morro diminuiu do ponto de vista económico.
Ao fazer ascender esses milhões da miséria, o PT neutralizou a revolução?
Em parte pode ser isso. Houve uma espécie de opção política forçada do PT, segundo a qual a única maneira de melhorar a renda dos pobres é não mexer na renda dos ricos. Ou seja, vamos ter que tirar o dinheiro de outro lugar. E de onde é que eles estão tirando? Do chão, literalmente. Destruindo o meio ambiente para poder vender soja, carne, para a China. Não está havendo redistribuição de renda, o que está havendo é aumento da renda produzida pela queima dos móveis da casa para aquecer a população, digamos. Está um pouquinho mais quente, não estamos morrendo de frio, mas estamos destruindo o Brasil central, devastando a Amazônia. Tudo foi feito para não botar a mão no bolso dos ricos. E não provocar os militares.
A ditadura brasileira não acabou. Nós vivemos numa democracia consentida pelos militares. Compare com a Argentina: porque é que no Brasil não houve julgamento dos militares envolvidos na tortura? Porque os militares não deixam. Vamos ver o que vai acontecer agora, no dia 1 de Abril.
Com o aniversário do golpe militar.
Já existe uma campanha aí, subterrânea, para que no dia 31 de Março apaguem-se as luzes, toquem-se buzinas, para comemorar o 50º aniversário do golpe. Ou seja, existe uma campanha da direita para mostrar que a população ainda apoia a direita. Não sei que sucesso vai ter, mas não duvido que haja uma manifestação, oculta, pessoas que vão apagar as luzes das suas casas ou piscar as luzes à meia-noite, alguma coisa assim.
Mas nenhuma possibilidade de viragem à direita.
Não creio.
O actual regime não é uma democracia?
O Brasil é uma democracia formal, claro, mas consentida pelo status quo. A abertura foi permitida pelos militares. A Lei da Amnistia foi imposta tal qual pelo governo militar. Eles não foram destronados, presos, criminalizados. Simplesmente foram amnistiados. E boa parte do projecto de desenvolvimento nacional gestado durante a ditadura militar está sendo aplicado com a maior eficiência.
Pela esquerda.
Pela chamada esquerda, pela coalisão que está no poder, na qual a esquerda é uma parte mínima, porque tem os grandes proprietários de terra, os grandes empresários.
Está cumprindo um ideário que vem da ditadura?
O PT é um partido operário do século XIX. Eles têm um modelo que é indústria, crescimento, como se o Brasil fosse os Estados Unidos do século XXI. Com grande consumo de energia. Uma concepção antiga, fora de sintonia com o mundo actual. Agora está começando a mudar um pouco, mas a falta de sensibilidade do governo para o facto de que o Brasil é um país que está localizado no planeta Terra, e não no céu, é muito grande. Eles não percebem. Acham que o Brasil é um mundo em si mesmo.
Ou seja, que não vai ser afectado pelo aquecimento global, etc.
É, que todas essas coisas são com os outros. Um pouco como acontece nos Estados Unidos, em países muito grandes.
A única visão global que o Brasil tem é de se tornar uma potência geopolítica. O Brasil, hoje, é um actor maior, de primeira linha, em Moçambique, em Angola, nos países latino-americanos. Está disputando com a China pedaços de Moçambique. A Odebrecht está construindo hidroeléctricas [barragens] em Angola e assim por diante. O Brasil se imagina como potência que vai oprimir. Agora é a vez de sermos opressores, deixarmos de ser os oprimidos. Agora os brasileiros da vez vão ser os haitianos, os bolivianos, os paraguaios, que trabalham nas “sweetshops” de São Paulo, nas terras em que plantamos soja e etc. O PT nunca foi um partido de esquerda. É um partido que procurava transformar a classe operária numa classe operária americana.
E nunca o Brasil foi um país tão capitalista.
Minha mulher me contou que, conversando com um desconhecido, operador da bolsa de valores, isto em 2007, 2008, ele dizia: se eu soubesse que ia ser tão bom para nós jamais teria votado contra o Lula.
Onde está a esquerda? Qual é a sua opção de voto? Ou a opção deixou de ser votar?
Tanto a esquerda como a direita são posições políticas que você encontra dentro da classe média. A classe dominante é de direita de maneira genética, a grande burguesia, o grande capital. E os pobres, a classe trabalhadora… se eu fosse fazer um juízo de valor um pouco irresponsável diria que 60 a 70 por cento do Brasil estaria muito feliz com um governo autoritário, que desse dinheiro para comprar geladeira, televisão, carro, etc. Uma população que tem uma profunda desconfiança em relação a esses jovens quebradores de coisas na rua, que seria a favor da pena de morte, que é violentamente homofóbica.
Iapii-hi, índia Araweté, prepara doce de milho (fotografia de 1982) EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
Depois do garoto do Flamengo ter sido amarrado por aquela milícia, ouvi trabalhadores negros pobres dizerem: tem mais é que botar bandido na cadeia, fizeram foi pouco com ele.
Ou seja, é um país conservador, reaccionário, em que os pobres colaboram com a sua opressão. Não todos, mas existe isso. A escravidão venceu no Brasil, ela nunca foi abolida. Sou muito pessimista em relação ao Brasil, digo francamente. Em relação ao passado e ao futuro. Em relação ao passado no sentido de que é um país que jamais se libertou do ethos, do imaginário profundo da escravidão, em que o sonho de todo o escravo é ser senhor de escravos, o sonho de todo o oprimido é ser o opressor. Daí essa reacção: tem mais é que botar esses caras na cadeia. Em vez de se solidarizar. E podia ser o filho dele facilmente. E às vezes é o filho dele.
Oswald de Andrade, o poeta, dizia: “O Brasil nunca declarou a sua independência.” Em certo sentido é verdade, porque quem declarou a independência do Brasil foi Portugal, um rei português. Eu diria: e tão pouco aboliu a escravidão. Porque quem aboliu a escravidão foi a própria classe escravocrata. Não foi nenhuma revolta popular, nenhuma guerra civil.
E em relação ao futuro sou pessimista porque… talvez ainda tenha um pouco de esperança, mas acho que o Brasil já perdeu a oportunidade de inventar uma nova forma de civilização. Um país que teria todas as condições para isso: ecológicas, geográficas.
Uma espécie de terceira via do mundo?
É, outra civilização. Porque civilização não é necessariamente transformar um país tropical numa cópia de segunda classe dos Estados Unidos ou da Europa, ou seja, de um país do hemisfério norte que tem características geográficas e culturais completamente diferentes.
Lembremos que houve um projecto explícito no Brasil, e que deu certo, que está dando certo, por isso é que sou pessimista, que é o projecto iniciado com Pedro II, em parte inspirado pelo célebre teórico racista Gobineau, que era uma grande admiração de D. Pedro: o Brasil só teria saída mediante o braqueamento da população, porque a escravidão tinha trazido uma tara, uma raça inferior.
Havia que lavar o sangue.
É uma ideia antiga, que já vem dos cristãos-novos que vieram de Portugal, que tinham de limpar o sangue. A gente sabe que quase toda a população portuguesa que se instalou no Brasil é de cristãos-novos, Diria que 70 por cento desses brancos orgulhosos de serem brasileiros são judeus, marranos, convertidos a ferro e fogo pela Inquisição. Então, havia essa ideia de que o Brasil era um país racialmente inferior porque era composto de negros, índios, portugueses com essa origem um pouco duvidosa. E já Portugal em si não é…
A Holanda.
Exacto. Não é a coisa mais branca que podemos encontrar na Europa. A Península Ibérica é um pouco africana, foi dominada 800 anos pelos árabes. Então o Brasil só ia melhorar com branqueamento. Isso foi uma política de estado que durou décadas e trouxe para o Brasil milhões de imigrantes alemães, italianos, mais tarde japoneses. Com o propósito explícito de branquear, não só geneticamente, mas culturalmente e economicamente. E eles foram para o Sul, de São Paulo até ao Rio Grande. Mas, esse que é o ponto curioso, a partir do governo militar para cá essa população branca invadiu o Brasil, a Amazônia. A colonização da Amazônia a partir da década de 70 foi feita pelos gaúchos, muitos deles pobres, que foram expulsos, alemães pobres, italianos pobres, cujas pequenas propriedades fundiárias foram absorvidas pelos grandes proprietários, também gaúchos, também brancos, e que foram estimulados pelo governo, com subsídios, promessas mirabolantes, a irem para a Amazônia. Hoje, tem um cinturão de cidades no sul da Amazônia com nomes como Porto dos Gaúchos, Querência, que é um lugar onde se guarda o gado, típico do Rio Grande do Sul. Os gaúchos [de origem europeia] chegaram numa região temperada, subtropical [sul do Brasil] em que você podia mais ou menos copiar um tipo de estrutura agrícola, de produção alimentar do país de origem. Só que na Amazônia isso é uma abominação. É um preconceito muito difundido essa ideia de que pessoal do Norte não sabe trabalhar, é preguiçoso. Você ouve muito isto no Paraná, no Rio Grande do Sul. Quem sabe trabalhar é o colono alemão, italiano.
Hoje o Brasil foi branqueado. Essa cultura country aí é uma mistura de cultura europeia com cultura americana, de grande carrão, 4×4, pick ups, rodeos, chapéus americanos, botas. Existe um projecto de transformar o Brasil num país culturalmente do hemisfério norte, seja Estados Unidos, seja essa Europa mais reaccionária. Porque estamos falando de colonos alemães que vieram do campesinato reaccionário, bávaro, pomerano, e dos camponeses italianos, que eram entusiastas do nazismo e do fascismo na II Guerra. Continuam sendo. O que tem de grupo de extrema-direita no sul do Brasil é muito. O foco da direita fascista, nazista é o Paraná e o Rio Grande do Sul. Então o Brasil é um país dividido entre um sul branco e o resto não branco, português, negro no litoral, índio no interior.
O censo da população dá por uma unha uma maioria não-branca.
O agronegócio é na verdade o modelo gaúcho, desenvolvido no pampa, nos campos do Rio Grande. Plantação extensa de monocultura, de soja, de arroz, de cana. Então o Brasil está perdendo a oportunidade de se constituir como um novo modelo de civilização propriamente tropical, com uma nova relação entre as raças, que fosse efectivamente multinacional. Um país que se constituiu em cima do genocídio indígena, da escravidão, da monocultura. Que continua fazendo o que fez desde que foi criado, exportando produtos agrícolas. Que continua a alimentar os países industrializados. Primeiro a Europa, depois os Estados Unidos, agora a China. Continua sendo o celeiro do capitalismo.
E o matadouro.
O segundo maior rebanho bovino do mundo, depois da Austrália. Um país que se está destruindo a si mesmo para se transformar numa caricatura dos países que lhe servem de modelo cultural. Em vez de, ao contrário, saber utilizar a sua situação geográfica altamente privilegiada, a sua situação demográfica, uma população imensa, para construir um novo estilo de civilização.
O senhor está descrevendo a derrota do “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade [visão de um Brasil que se torna forte por comer, absorver o outro]
É, acho que sim. Bom, nenhuma derrota é definitiva. O meu pessimismo nem passa tanto pelo facto de que o Brasil não tem jeito, porque acho que ainda poderia haver uma revolução antropofágica no Brasil. Mas hoje isso é uma questão que já não teria mais sentido colocar pelo simples facto de que estamos numa situação planetária em que a catástrofe já se iniciou. O mundo está entrando, num sentido físico, termodinâmico, num outro regime ambiental que vai produzir catástrofes humanas jamais vistas, no meu entender: fome, epidemias, secas, mudança de regime hidrológico, tudo. Nessas circunstâncias, é possível que cheguemos a um momento em que noções como Brasil, Estados Unidos, países, comecem a perder a sua nitidez. Pode ser que daqui a 50 anos a palavra Brasil não tenha mais nenhum sentido. Que tenhamos que falar em Terra.
É um pré-apocalipse?
Dira que sim. Isabelle Stengers, filósofa belga, diz que a palavra crise não é adequada porque supõe que você pode superá-la, quando o que estamos vivendo é uma situação que não tem um voltar atrás. Vamos ter que conviver com ela para sempre. Um novo regime do mundo, de climas, de águas, não haverá mais peixes, os estoques estão acabando no mundo, a quantidade de refugiados que vão invadir a Europa vai ser brutal nas próximas décadas. Se a temperatura subir quatro graus, que é o que todos os climatologistas estão imaginando, isso vai produzir uma mudança total no que é viver na Terra. E a quantidade de africanos que vai invadir a Europa vai ser um pouco maior do que aqueles pobres que morrem afogados ali em Lampedusa. E como os países ricos vão reagir? É uma questão interessante. Vai ser com armas atómicas? Vão bombardear quem? O meu pessimismo passa mais por aí.
No Brasil as crises são estritamente políticas. Faz reforma política? Vai ter revolta da população? Será que há Copa? Tudo isso é verdade, fundamental, mas a gente não pode perder de vista o cenário mais amplo.
Não vê ninguém no Brasil, politicamente, que tenha uma visão ampla? O senhor votou na Marina Silva [nas últimas presidenciais].
Votei na Marina em 2010, com certeza. Não tenho certeza nenhuma de que votaria nela em 2014, talvez não.
Eduardo Campos [candidato pernambucano que fez uma aliança com Marina]?
De forma nenhuma. A Dilma, nem sob pelotão de fuzilamento voto nela. Esses idiotas do PSDB nem pensar. Então talvez eu não vote. Talvez vote nulo.
Qual é a missão, o papel, a hipótese para alguém como o senhor? Virar uma espécie de guerrilheiro nas redes sociais?
É. Eu diria que a revolução antropofágica do Oswald de Andrade só é possível sob o modo da guerrilha. Estamos falando de uma coisa que foi pensada em 1928…
Mas que foi revivendo, anos 60, agora.
O Oswald, um homem da classe dominante, pensava no Brasil como uma coisa sobre a qual você podia pôr e dispôr. Nesse sentido, ele pertence à geração dos teóricos do Brasil, que eram todos da elite dominante paulistana ou pernambucana: Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Eduardo Prado. Os modernistas eram uma teoria do Brasil, de como o Brasil deve ser organizado, governado.
Talvez os muitos povos brasileiros que compõem esse país só tenham chance de ganhar uma certa emancipação cultural, política, metafísica, no contexto do declínio geral do planeta. Nessas condições é possível que haja esperança para os negros, os índios, os quilombolas [descendentes de escravos], os gays, os pobres desse planeta favela. Não esqueçamos que o mundo tem três bilhões e meio de habitantes vivendo em cidade, metade da população mundial. Desses, no mínimo um bilhão vive em favelas. Ou seja, um sétimo da população mundial vive em favelas. O Brasil deve ter uma proporção maior que a Alemanha, Estados Unidos. Diria que deve andar na casa dos 30 milhões. [A população de] um bom país europeu.
Seria uma guerrilha nas redes sociais? Admite o uso de violência ou uma guerrilha virtual apenas?
Nem uma coisa nem outra. A existência da Internet mudou as condições da guerra, em geral, sim. O maior acto de guerra recente, no bom sentido, de que me consigo lembrar foi o Edward Snowden. Não mais os Estados Unidos espionando a Rússia, nem a Rússia espionando os Estados Unidos, mas o vazamento de informações secretas dos estados. Isso é muito significativo. Um jornalista morando aqui no Rio de Janeiro, que trabalha para um jornal inglês, que recebeu informações de um analista americano, que estava escondido em Hong Kong: isso só é possível com Internet. As redes sociais mudaram completamente as condições de resistência ao capitalismo.
Uma nova forma de guerrilha?
Que não é nececessariamente violenta, embora exista o problema do hacker, do bombardeio de sistema electrónico. Mas o que penso não é bem por aí. Quando penso em guerrilha, é no sentido de combates locais, ponto a ponto. Não estou falando de quebrar a porta do banco ou bater na polícia. Falo em combates em que você seja capaz de conectar combates locais através do mundo inteiro.
Existem formas novas de resistência e aliança entre as minorias étnicas, culturais, económicas do planeta que passam pela conectividade universal da rede, que é frágil, ao contrário do que se imagina, com pontos fracos, nós, gargalos, em que os Estados Unidos têm um poder muito grande. Mas eu diria que é muito difícil controlá-la até porque essa rede é indispensável para o capitalismo. Difícil o capitalismo danificá-la demais, senão vai perder seu principal instrumento hoje. Ainda que haja várias tentativas, no Brasil inclusive, de vigilância.
É possível que a gente passe para um estado de vigilância à la George Orwell. Tudo isso é possível. Mas acho também que a situação actual permite o desenvolvimento de uma guerrilha de informação, muito mais que de acção física, porque a informação hoje é uma mercadoria fundamental, estamos na economia do conhecimento, então a guerra é uma guerra também pela informação. É por aí que tenho alguma esperança, muito mais que numa saída nas ruas, com ancinhos, forcados, machetes.
Parar de imaginar uma luta de classes e imaginar uma guerrilha de classes. Classe definida, agora, não só de maneira classicamente económica mas no contexto da nova economia, que mudou a composição de classes. Vários intelectuais hoje pertencem à classe dominada, operária. Então, vejo mais uma guerrilha do que uma guerra, com a vantagem de que as guerras em geral terminam na constituição de um novo poder totalitário, um novo terror. O “Manifesto Antropófago” pode acabar se realizando mais por esse lado. O sonho clássico da revolução, como transformação de um estado A em estado B é um sonho pouco interessante.
Não há desfecho.
Não há desfecho. Prefiro falar em insurreição do que em revolução, hoje. Um estado de insurreição permanente como resistência. A palavra talvez seja mais resistência, insurreição, do que revolução e guerra. Guerrilha é sempre de resistência. O modelo da resistência francesa [na ocupação alemã], criar redes subterrâneas de comunicação. Estamos nessa posição, somos um planeta invadido por alienígenas, digamos, que é o grande capital, a TV Globo, o agronegócio, a hegemonia norte-americana sobre os sistemas de entretenimento; como é que você cria uma rede de resistência a esses “alemães”?
Sou um activista das redes, de facto. Mas não convoco para manifestações, não pertenço a nenhuma organização, estou um pouco velho para sair na rua.
Está com 62 anos.
É, mas para sair na rua como black bloc [sorriso]… Posso ir atrás do black bloc, na frente não dá.
Começou tarde a ser um activista/guerrilheiro. Porquê?
É uma questão interessante. A minha relação com o activismo na ditadura não foi receio físico. Não que eu não tivesse medo de enfrentar a repressão. Vi vários amigos presos, torturados, todo o mundo tinha medo. Mas não foi por isso que não entrei na luta contra a ditadura. Foi porque não acreditava nela, em tomar o poder para instituir uma nova ordem não muito diferente. Eu achava que era uma briga entre duas fracções da classe média alta para saber quem ia mandar no país. E eu não tinha a menor simpatia pela ideia de mandar no país. Tinha uma desconfiança, que infelizmente se confirmou, quando a gente vê que uma das pessoas que fez a luta armada está mandando no país. E ela está fazendo coisas muito parecidas com o que os militares queriam fazer, pelo menos na Amazônia. O projecto da Dilma na Amazônia é idêntico ao do Médici [terceiro presidente da ditadura, no período 1969-74].
O senhor se configura como um anarquista?
Talvez…
Fora do estado.
Digamos que sim. Mas não sou um anarquista daqueles que acham que a sociedade actual pode prescindir do estado. Acho isso um sonho um pouco infantil.
Acha que não pode prescindir do estado mas que é importante cultivar…
Uma oposição, sim. A ideia de uma abolição do estado nas presentes condições é fantasia. Existem algumas contradições que não podemos evitar. Por exemplo, o maior inimigo dos índios brasileiros, num certo plano, é o estado, que representa uma sociedade que os invadiu, exterminou, escravizou, expropriou de suas terras. Ao mesmo tempo, o estado brasileiro é a única protecção que os índios têm contra a sociedade brasileira. Se não fosse o estado, os fazendeiros já teriam aniquilado todos os índios. Mas é uma quimioterapia, como se o Brasil fosse o câncer e o estado fosse aquele remédio. Faz um mal horrível mas você tem de tomar, é o único jeito de ter esperança de se curar. Portanto, não posso ir contra o estado.
Tenho simpatia pela tese do [antropólogo francês Pierre] Clastres, “A Sociedade Contra o Estado”, um tipo de sociedade como ele entendia que era o caso de várias sociedades indígenas, mas não imagino que isso possa ser transferido para as nossas dimensões demográficas. Isto dito, não sei por quanto tempo vamos ter essas dimensões no planeta, estados-nação com milhões de habitantes. Precisamos guardar os anti-corpos contra o estado porque podemos precisar deles no futuro.
Defende que toda a lógica do que o Brasil poderia ser, oferecer, passaria por se tornar mais índio. Não os índios tornarem-se brasileiros mas o Brasil tornar-se índio, o que significaria uma outra forma de vida, não para produzir, não para consumir. Que significa isso na guerrilha das cidades e das redes? Como os índios podem estar presentes aí? O que podem dar à tal insurreição contínua?
Vou juntar isso com o final da pergunta anterior. Fui-me tornando mais activo nas redes porque apareceram, antes não existiam, e em função da minha enorme decepção com o final da ditadura, o facto de que continuamos reféns do grande capital, dos grandes clãs, dos capitães hereditários que continuam mandando no Brasil, José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros. Essa aliança entre o mais arcaico, que é Sarney, e o mais moderno do capitalismo, que são esses agronegociantes de alta tecnologia do Mato Grosso do Sul, todos eles combinados para manter a tranquilidade política: não deixemos as massas virem atrapalhar.
Então, a minha decepção com a trajectória depois da ditadura; a minha decepção maior ainda com a trajectória do PT, a partir da eleição do Lula, na qual ele escreveu uma carta aos brasileiros dizendo que não ia tocar no bolso dos ricos; a minha decepção ainda maior com a performance do governo Dilma em relação ao meio ambiente, à Amazônia, aos índios, a total incapacidade política da presidente para ter o mínimo de diálogo, por mais fictício que seja com as populações indígenas, ao contrário, ela demonstra um desprezo, um ódio mesmo, que me parece quase patológico; tudo isso me levou ao activismo.
Todo o mundo tem uma imagem do Brasil como país preguiçoso, relaxado, laid back, onde tudo é mais devagar. E existe uma grande ambiguidade nossa em relação a essa imagem. Por um lado achamos interessante a imagem de um país easy going, por outro lado temos uma grande vergonha disso, nos queremos transformar num país performante, que vai para a frente, produtivo. A gente quer ao mesmo tempo ser sambista e grande potência mundial. Eu acho que devia continuar sendo sambista. Que a gente devia saber explorar as virtudes do não-produtivismo. A ética protestante, que nos deu o espírito do capitalismo, para falar como Weber, nunca esteve inscrita no DNA do Brasil, graças a vocês portugueses, que também não a tinham [risos]. Tiveram durante século e meio, mas depois… Então, por um milagre histórico fomos preservados dessa maldição que é a ética produtivista do capitalismo. Fomos capturados pelo capitalismo porque nos invadiu, domou. O capitalismo foi possível porque a Europa invadiu a América. Se não fosse a America, a Europa não teria deixado de ser o que era na Idade Média, um fundo de quintal. Na Idade Média, as sociedades desenvolvidas eram o Islã, a India e a China. Os europeus eram um bando de bárbaros, sujos, mal vestidos, católicos. Mas por acaso os portugueses e os espanhóis deram de cara com o novo mundo e o capitalismo tornou-se possível. Porque foi o ouro do Novo Mundo, milhares de toneladas, e tudo o que saiu da América, novas plantas, novos recursos alimentares, que permitiu a expansão do capitalismo e depois a revolução industrial. Se não tivesse havido invasão da América, destruição da América não teria havido Europa moderna. Hoje, no mundo, as principais plantas que servem de alimentação mundial são de origem ameríndia: o milho, que se planta em toda a parte, a batata, que permitu a revolução industrial inglesa, a mandioca, da qual toda a África do Oeste hoje vive. Só que a América já era, não tem mais Novo Mundo para descobrir, a terra fechou, arredondou, além de que o pólo dinâmico do capitalismo foi para a China.
Voltando aos índios.
O Brasil tem muito poucos índios comparado com os países andinos ou mezo-americanos. Estão na casa de um milhão, num país de 200 milhões. Mas têm um poder simbólico muito grande, até porque têm uma base muito grande, 12 por cento do território brasileiro. Está tudo invadido [por obras ou fazendeiros] mas oficialmente é terra indígena. Além de que têm um poder de sedução no imaginário ocidental. A Amazônia tem um poder simbólico imenso. Embora, ao contrário do que os brasileiros pensam, não seja só brasileira, a maior parte da Amazônia está no Brasil. E é um objecto transcendente, uma espécie de última chance, último lugar da terra. O que dá ao Brasil um poder simbólico que ele não sabe usar, ao contrário, a Amazônia tem servido para atacar o Brasil por não saber cuidar da Amazônia. E sabe uma coisa? Não sabe mesmo. E não está sabendo se valer da Amazônia como um trunfo mundial. Nem como um lugar onde poderia se desenvolver uma civilização menos estúpida, do ponto de vista tecnológico e social. Os índios aí servem como exemplo. Estão na Amazônia há pelo menos 15 mil anos. Boa parte da floresta amazónica foi criada pela actividade indígena. Boa parte do solo foi criado com cinza de fogueira, detritos humanos. A Amazônia é essa floresta luxuriante em parte por causa da acção humana, dos índios.
Perante isto, o modelo sulino, gaúcho, europeu, de ocupação da Amazônia, é um plano liso que você possa encher de fertilizante, para poder plantar plantas transgénicas, resistentes a herbicidas, para produzir soja para vender para China, para em seguida pegar esse dinheiro e dar Bolsa Família. Não seria mais simples fazer com que essas pessoas não precisassem de Bolsa Família dando para elas terra para plantar, fazendo a célebre reforma agrária que jamais foi feita no Brasil?
Estamos exportando terra, solo e água na forma de carne, de soja. Um quilo de carne precisa de 15 mil litros de água para ser produzido, um quilo de soja, 7500 litros. Essa água toda, que poderia estar sendo usada para plantar comida para nós, está sendo usada para produzir soja para alimentar gado europeu, ou em tofu e miso na China.
O Brasil destruiu mais de metade da sua cobertura vegetal, a Mata Atlântica, que era igual à Amazônia do ponto de vista ambiental, para plantar cana e café durante a colonização. E ficámos mais ricos? Agora estão devastando a Amazônia para produzir soja e gado. Estamos ficando mais ricos? Os pobres estão melhores porque está caindo mais migalha da mesa dos ricos, não porque vieram sentar na mesa.
Meninos a pescar no rio Xingu (1982) EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
Isso também afectou os índios, não? Em São Gabriel da Cachoeira, o município mais indígena do Brasil [estado do Amazonas], um dos grandes problemas é o alcoolismo. Impressionante ver o estado em que muitos índios vivem em São Gabriel. É um resultado desse erro de tentar converter o índio em brasileiro nesse modelo que está a descrever?
O alcoolismo é uma praga da população indígena das três Américas. Tem a ver com várias coisas. Uma delas é genética, mesmo. Os índios têm, por razões de evolução, muito menos resistência ao metabolismo do açúcar no organismo. Por isso que eles têm essa tendência à obesidade e à diabetes. Segundo, os índios sempre tiveram álcool, na América do Norte menos, mas todos os índios da Amazônia preparavam bebidas fermentadas, etc. É a mesma coisa com o tabaco, só que ao contrário. O tabaco é indígena. Os índios fumavam, mas não tinham câncer, ou a taxa devia ser muito pequena, assim como o alcoolismo existe entre nós mas é muito menos violento. Porquê? Os índios, para fazerem o tabaco deles e a bebida deles, tinham que produzir à mão. Tabaco tinham de plantar, de enrolar, de fazer um charuto, levava cinco dias para fumar, eram objectos custosos. A cerveja que faziam levava semanas. Aí, chega de repente a cachaça, seis meses de trabalho indígena concentrado numa garrafa que custa dois reais. A mesma coisa com a gente: quando você pega num maço de cigarro que tem concentrado seis meses de trabalho indígena, você fuma um atrás do outro. Você morre de câncer aqui e os índios morrem de cirrose lá.
O capitalismo apresenta aos índios uma coisa que eles nunca tiveram: o infinito mercantil. Os objectos não acabam nunca. Você tem uma quantidade infinita de cachaça. É como se chegassem aqui marcianos que nos dessem soro da vida eterna. Os índios não entendem e consomem, consomem, consomem. Eles produziam pouco para ter tempo livre. O que acontece agora é que continuam produzindo pouco mas os produtos chegam em quantidade infinita. E eles não têm estrutura social, política, institucional. Vai levar séculos para que desenvolvam resistências. Todo o ser humano gosta de se drogar, alterar a consciência, desde o café até ao LSD, então nos índios o álcool entrou destruindo tudo. É certamente a coisa mais destrutiva em todos os índios das Américas.
Não há sociedades perfeitas. É preciso distinguir entre modelo e exemplo. Os índios são um exemplo, não um modelo. Jamais poderemos viver como os índios, por todas as razões. Não só porque não podemos como não é desejável. Ninguém está querendo parar de usar computador ou usar antibiótico, ou coisa parecida. Mas eles podem ser um exemplo na relação entre trabalho e lazer. Basicamente trabalham três horas por dia. O tempo de trabalho médio dos povos primitivos é de três, quatro horas no máximo. Só precisam para caçar, comer, plantar mandioca. Nós precisamos de oito, 12, 16. O que eles fazem o resto do tempo? Inventam histórias, dançam. O que é melhor ou pior? Sempre achei estranho esse modelo americano, trabalha 12 horas por dia, 11 meses e meio por ano, para tirar 15 dias de férias. A quem isso beneficia?
A única vantagem indiscutível que a civilização moderna produziu em relação às civilizações indígenas foram os avanços na medicina. Se você fosse viver o resto da vida no mato o que levaria? Penicilina. Foi de facto um avanço. Mesmo assim nossos avanços sempre avançam demais. Hoje preferimos manter uma pessoa de 90 anos sofrendo horrivelmente, tem de viver, tem de viver, a família vai à falência. Ou seja, não sabemos mais morrer. Todo o mundo antes do século XX sabia morrer.
Summary: Joining a gang in adolescence has significant consequences in adulthood beyond criminal behavior, even after a person leaves the gang. Former gang members are more likely to be in poor health, receiving government assistance and struggling with drug abuse than someone who never joined a gang.
Imagine two children, both with the exact same risk factors for joining a gang. As teenagers, one joins a gang, the other doesn’t. Even though the first teen eventually leaves the gang, years later he or she is not only at significantly higher risk of being incarcerated and receiving illegal income, but is also less likely to have finished high school and more likely to be in poor health, receiving government assistance or struggling with drug abuse.
University of Washington researchers have found that joining a gang in adolescence has significant consequences in adulthood beyond criminal behavior, even after a person leaves the gang. The research is published in the American Journal of Public Health.
“It turns out that, like violence, gang membership is as much a public health problem as a criminal justice problem,” said Karl Hill, study co-author and research associate professor in the School of Social Work. “Joining a gang in the teens had enduring consequences on health and well-being.”
The Seattle Social Development Project, which was founded by study co-author J. David Hawkins, followed 808 fifth-grade students from 18 elementary schools serving high-crime neighborhoods in Seattle, beginning in 1985. More than half of the students came from low-income families. Participants were interviewed every year until the age of 18, then every three years until the age of 33.
According to lead author Amanda Gilman, a doctoral candidate in the School of Social Work, joining a gang served as a turning point, creating consequences that cascaded into other areas of life for years afterward.
“Very few of them reported still being in a gang at age 27. The vast majority had left a long time ago, but the consequences stuck with them long-term,” Gilman said. Researchers used 23 risk factors to calculate a child’s propensity for joining a gang, and then compared 173 youth who had joined a gang with 173 who did not but showed a similar propensity for doing so, so that the only difference between the two groups was gang membership. The average age of joining a gang was just under 15 years old. No one in this study reported joining a gang after the age of 19, and the majority (60 percent) were in a gang for three years or less.
The 23 variables used to match the groups included individual factors such as antisocial beliefs, alcohol and marijuana use, violent behavior and hyperactivity; family factors such as poverty, family structure, sibling behavior and parent pro-violent attitudes; school factors such as academic aspiration and achievement; neighborhood factors such as the availability of marijuana and neighborhood kids in trouble; and whether the child associated with friends who engaged in problem behaviors. Researchers measured three areas of adult functioning at age 33: illegal behavior, education and occupational attainment, and physical and mental health. Those who joined a gang in adolescence were nearly three times more likely between ages 27 and 33 to report committing a crime, more than three times more likely to receive income from illegal sources, and more than twice as likely to have been incarcerated in the previous year.
Former gang members also were nearly three times more likely to have drug-abuse issues, were almost twice as likely to say they were in poor health, and twice as likely to be receiving public assistance. They were also half as likely to graduate from high school.
Gilman hopes the study will motivate schools and communities to develop and implement research-based strategies to prevent children from joining gangs, in the hopes of not only reducing crime, but increasing graduation rates and reducing physical and mental health costs.
Hill said everyone can be involved in gang prevention in their own way, by reducing the 23 variables shown to be risk factors. “If you’re a parent, manage your family well. If you’re a community member, be involved in kids’ lives. If you’re a teacher, engage your kids and recognize good work. We can’t solve all of the risks kids are exposed to alone, but we can if we work together,” he said.
Journal Reference:
Amanda B. Gilman, Karl G. Hill, J. David Hawkins. Long-Term Consequences of Adolescent Gang Membership for Adult Functioning. American Journal of Public Health, 2014; e1 DOI: 10.2105/AJPH.2013.301821
Pesquisadores brasileiros desenvolvem técnica de análise matemática de relatos sobre sonhos, capaz de auxiliar na identificação de sintomas de esquizofrenia e bipolaridade (imagem: divulgação)
17/03/2014
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – A pista dada por Sigmund Freud (1856-1939) no livro “A intepretação dos sonhos, de 1899, de que “os sonhos são a estrada real para o inconsciente”, chave para a Psicanálise, também pode ser útil na Psiquiatria, no diagnóstico clínico de transtornos mentais, como a esquizofrenia e a bipolaridade, entre outras.
A constatação é de um grupo de pesquisadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em colaboração com colegas do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática(Neuromat) – um dos CEPIDs da FAPESP.
Eles desenvolveram uma técnica de análise matemática de relatos de sonhos que poderá, no futuro, auxiliar no diagnóstico de psicoses.
A técnica foi descrita em um artigo publicado em janeiro na Scientific Reports, revista de acesso aberto do grupo Nature.
“A ideia é que a técnica, relativamente simples e barata, seja utilizada como ferramenta para auxiliar os psiquiatras no diagnóstico clínico de pacientes com transtornos mentais de forma mais precisa”, disse Mauro Copelli, professor da UFPE e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.
De acordo com Copelli – que realizou mestrado e doutorado parcialmente com Bolsa da FAPESP –, apesar dos esforços seculares para aumentar a precisão da classificação dos transtornos mentais, o atual método de diagnóstico de psicoses tem sido duramente criticado.
Isso porque ele ainda peca pela falta de objetividade e pelo fato de a maioria dos transtornos mentais não contar com biomarcadores (indicadores biométricos) capazes de auxiliar os psiquiatras a diagnosticá-los com maior exatidão.
Além disso, pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar muitas vezes apresentam sintomas psicóticos comuns, como alucinações, delírios, hiperatividade e comportamento agressivo – o que pode comprometer a precisão do diagnóstico.
“O diagnóstico dos sintomas psicóticos é altamente subjetivo”, afirmou Copelli. “Por isso mesmo, a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais [publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013] foi muito atacada”, avaliou.
A fim de desenvolver um método quantitativo para avaliar sintomas psiquiátricos, os pesquisadores gravaram, com o consentimento dos envolvidos, os relatos dos sonhos de 60 pacientes voluntários, atendidos no ambulatório de psiquiatria de um hospital público em Natal (RN).
Alguns dos pacientes já tinham recebido o diagnóstico de esquizofrenia, outros de bipolaridade e os demais, que formaram o grupo de controle, não apresentavam sintomas de transtornos mentais.
Os relatos dos sonhos dos pacientes, feitos à psiquiatra Natália Bezerra Mota, doutoranda na URFN e primeira autora do estudo, foram transcritos.
As frases dos discursos dos pacientes foram transformadas por um software desenvolvido por pesquisadores do Instituto do Cérebro em grafos – estruturas matemáticas similares a diagramas nas quais cada palavra dita pelo paciente foi representada por um ponto ou nó, como o feito em uma linha de crochê.
Ao analisar os grafos dos relatos dos sonhos dos três grupos de pacientes os pesquisadores observaram que há diferenças muito claras entre eles.
O tamanho, em termos de quantidade de arestas ou links, e a conectividade (relação) entre os nós dos grafos dos pacientes diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade ou sem transtornos mentais apresentaram variações, afirmaram os pesquisadores.
“Os pacientes com esquizofrenia, por exemplo, fazem relatos que, quando representados por grafos, possuem menos ligações do que os demais grupos de pacientes”, disse Mota.
Diferenças de discursos
Segundo os pesquisadores, a diferenciação de pacientes a partir da análise dos grafos de relatos dos sonhos foi possível porque suas características de fala também são bastante diversificadas.
Os pacientes esquizofrênicos costumam falar de forma lacônica e com pouca digressão (desvio de assunto) – o que explica por que a conectividade e a quantidade de arestas dos grafos de seus relatos são menores em comparação às dos bipolares.
Por sua vez, pacientes com transtorno bipolar tendem a apresentar um sintoma oposto ao da digressão, chamado logorreia ou verborragia, falando atabalhoadamente frases sem sentido – chamado na Psiquiatria de “fuga de ideias”.
“Encontramos uma correlação importante dessas medidas feitas por meio das análises dos grafos com os sintomas negativos e cognitivos medidos por escalas psicométricas utilizadas na prática clínica da Psiquiatria”, afirmou Mota.
Ao transformar essas características marcantes de fala dos pacientes em grafos é possível dar origem a um classificador computacional capaz de auxiliar os psiquiatras no diagnóstico de transtornos mentais, indicou Copelli.
“Todas as ocorrências no discurso dos pacientes com transtornos mentais que no grafo têm um significado aparentemente geométrico podem ser quantificadas matematicamente e ajudar a classificar se um paciente é esquizofrênico ou bipolar, com uma taxa de sucesso comparável ou até mesmo melhor do que as escalas psiquiátricas subjetivas utilizadas para essa finalidade”, avaliou.
O objetivo dos pesquisadores é avaliar um maior número de pacientes e calibrar o algoritmo (sequência de comandos) do software desenvolvido para transformar os relatos dos sonhos em grafos que possam ser usados em larga escala na prática clínica de Psiquiatria.
Apesar de utilizada inicialmente para o diagnóstico de psicoses, a técnica poderá ser expandida para diversas outras finalidades, contou Mota.
“Ela poderá ser utilizada, por exemplo, para buscar mais informações sobre estrutura de linguagem aplicadas à análise de relatos de pessoas não apenas com sintomas psicóticos, mas também em diferentes situações de declínio cognitivo, como demência, ou em ascensão, como durante o aprendizado e o desenvolvimento da fala e escrita”, indicou a pesquisadora.
Papel dos sonhos
Os pesquisadores também desenvolveram e analisaram, durante o estudo, os grafos de relatos sobre atividades realizadas pelos pacientes voluntários na véspera do sonho.
Os grafos desses relatos do dia a dia, chamados de “relatos de vigília”, não foram tão indicativos do tipo de transtorno mental sofrido pelo paciente como outros, disse Copelli.
“Conseguimos distinguir esquizofrênicos dos demais grupos usando a análise dos grafos dos relatos de vigília, mas não conseguimos distinguir bem os bipolares do grupo de controle dessa forma”, contou.
Os pesquisadores ainda não sabem por que os grafos dos discursos sobre o sonho são mais informativos sobre psicose do que os grafos da vigília.
Algumas hipóteses esmiuçadas na pesquisa de doutorado de Mota estão relacionadas a mecanismos fisiológicos de formação de memória.
“Acreditamos que, por serem memórias mais transitórias, os sonhos podem ser mais demandantes cognitivamente e ter maior impacto afetivo do que as memórias relacionadas ao cotidiano, e isso pode tornar seus relatos mais complexos”, contou a pesquisadora.
“Outra hipótese é que o sonho está relacionado a um evento vivenciado exclusivamente por uma pessoa, sem ser compartilhado com outras, e por isso talvez seja mais complexo de ser explicado do que uma atividade relacionada ao cotidiano”, disse.
Para testar essas hipóteses, os pesquisadores pretendem ampliar a coleta de dados aplicando questionários em pacientes com registro de primeiro surto psicótico, com o objetivo de esclarecer se outros tipos de relatos, como de memórias antigas, podem se equiparar ao sonho em termos de informação psiquiátrica. Eles também querem verificar se podem usar o método para identificar sinais ou grupo de sintomas (pródromo) e acompanhar efeitos de medicações.
“Pretendemos investigar em laboratório, com eletroencefalografia de alta densidade e diversas técnicas de mensuração de distâncias semânticas e análise de estrutura de grafos, de que forma os estímulos recebidos imediatamente antes de dormir influenciam os relatos de sonhos produzidos ao despertar”, disse Sidarta Ribeiro, pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN.
“Estamos particularmente interessados nos efeitos distintos de imagens com valor afetivo”, afirmou Ribeiro, que também é pesquisador associado do Neuromat.
Emoldurado por um nascer do sol no município acreano de Senador Guiomard, um castanheiro-do-pará ocupou o primeiro plano da capa de 6 de fevereiro da revista científica inglesa Nature, uma das mais prestigiadas do mundo. A árvore tropical simbolizava a Amazônia, tema central de um artigo que teve como autor principal Luciana Vanni Gatti, 53 anos, coordenadora do Laboratório de Química Atmosférica do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Luciana e os coautores do trabalho calcularam o chamado balanço de carbono da floresta amazônica – que é uma comparação entre a quantidade de carbono na forma de dióxido de carbono (CO2) emitida e a absorvida pela bacia Amazônica – em dois anos consecutivos que apresentaram temperaturas acima da média dos últimos 30 anos, mas uma variação significativa no regime de chuvas.
O ano de 2010 foi marcado por uma estiagem extrema e o de 2011 por chuvas acima da média. “Vimos que a Amazônia se comportou como uma fonte de carbono no ano seco quando também levamos em conta as queimadas”, diz Luciana, que dividiu a coautoria do artigo com Emanuel Gloor, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, e John Miller, da Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos. “Mas, no ano úmido, seu balanço de carbono foi próximo a neutro, a quantidade emitida e a absorvida foram mais ou menos equivalentes.” Os dados do estudo sobre gases atmosféricos foram obtidos por uma iniciativa comandada desde 2010 pela brasileira, cujos esforços de pesquisa fazem parte do Amazonica (Amazon Integrated Carbon Analysis), um grande projeto internacional coordenado por Gloor. A cada duas semanas, pequenos aviões alçam voo de quatro localidades amazônicas (Santarém, Alta Floresta, Rio Branco e Tabatinga) e coletam amostras de ar ao longo de um perfil vertical descendente, entre 4,4 quilômetros de altitude e 200 ou 300 metros do solo. As amostras são enviadas para o laboratório de Luciana no Ipen onde são quantificados gases de efeito estufa, entre outros. No trabalho foram estudados o CO2, o monóxido de carbono (CO) e o hexafluoreto de enxofre (SF6).
Os resultados foram interpretados como preocupantes, pois sugerem que a capacidade de a Amazônia absorver da atmosfera o CO2, principal gás de efeito estufa, parece estar associada à quantidade de chuvas. Em anos secos, como 2010, ocorrem mais incêndios em áreas com floresta e também nas já desmatadas, que liberam grandes quantidades de CO, e o estresse hídrico aparentemente reduz os níveis de fotossíntese das plantas e as fazem retirar menos CO2 da atmosfera. Nesta entrevista, Luciana fala dos resultados e das implicações de seu estudo e conta um pouco de sua carreira.
Você esperava que o trabalho parasse na capa daNature? Mais pela importância do tema do que pela qualidade do trabalho, esperava que saísse sim, mas não imaginava que fosse capa. Vou a muitos congressos e encontro gente do mundo inteiro falando da Amazônia. Essas pessoas não têm ideia do que é a região. Nunca vieram aqui e ficam fazendo modelagem, extrapolando dado local como se fosse representativo de toda a região. Vejo resultados muito variados de modelagem, mostrando a Amazônia como sendo desde grande absorvedora até grande emissora de CO2. A Amazônia faz diferença no balanço global de carbono. Por isso, descobrir qual é o seu peso nesse balanço é tremendamente importante. Hoje do que mais se fala? De mudança climática. O planeta está ficando hostil ao ser humano. Mas inicialmente pretendíamos publicar na Science.
Por quê? Era meu objetivo porque o [Simon] Lewis [pesquisador da Universidade de Leeds] publicou na Science em 2010 um paper com conclusões que queríamos contestar. Ele disse que a Amazônia tinha emitido naquele ano o equivalente à queima de combustíveis fósseis de todo os Estados Unidos. Era um trabalho feito com modelagem e tinha chegado a um resultado muito exagerado. Queria publicar na Science para responder ao Lewis. Chegamos a submeter para a revista uma versão de nosso artigo, na época apenas com os dados de 2010, um ano muito seco. Era um trabalho que determinava o balanço de carbono naquele ano. A Science disse que era um estudo relevante, mas que tinha um escopo técnico demais, fora de sua linha editorial. Nem mandaram o artigo para ser analisado por referees e sugeriram que o enviássemos para uma revista mais especializada. Mas, quando analisamos os dados de 2011, encontramos uma situação completamente diferente daquela de 2010. O entendimento de por que os efeitos sobre o balanço de carbono foram tão diferentes em 2010 e 2011 foi o que fez a Nature gostar do paper. Por esse motivo, sou a favor de estudos de longa duração. Se tivesse feito uma campanha em 2010, ia achar que a Amazônia se comporta daquele jeito todos os anos.
Em editorial, a Nature disse que os resultados do artigo são uma notícia ruim. Concorda com essa avaliação? Concordo. É uma notícia bem triste. Não esperávamos que a Amazônia pudesse apresentar um resultado tão baixo de absorção de carbono. Nunca ninguém mediu isso da forma como fizemos agora. Existem vários trabalhos que, a partir de um dado local, extrapolam uma média para a região. Mas tirar uma média é válido? Já sabemos que existe muita variação dentro da Amazônia.
Qual era o senso comum sobre o balanço de carbono na região? Que a Amazônia absorvia em torno de meio petagrama de carbono por ano, era o que se estimava. Todo mundo acha que a Amazônia é um grande sink [sumidouro] de carbono. Mas em 2010, por causa do estresse hídrico, as plantas fizeram menos fotossíntese e aumentou sua mortalidade. Então a floresta na média absorveu apenas 0,03 petagrama de carbono. Muito pouco. Isso equivale a 30 milhões de toneladas de carbono. O valor é igual à margem de erro do estudo. Devido a queimadas propositais e a incêndios florestais, a Amazônia emitiu 0,51 petagrama de carbono (510 milhões de toneladas de carbono). Portanto, no balanço de carbono a emissão foi muito maior do que a absorção. É uma notícia horrível. Em 2011, que foi mais úmido, o balanço foi praticamente neutro [a floresta emitiu 0,30 petagrama de carbono, mas abosorveu 0,25 petagrama, oito vezes mais que no ano anterior].
A quantidade de chuvas é o fator principal para entender o balanço de carbono na Amazônia? Não é bem isso. Nosso estudo mostra que a disponibilidade de água é um fator mais importante do que a temperatura. É questão de peso. Mas isso não quer dizer que a temperatura não seja importante. A grande diferença entre 2010 e 2011 foi a questão hídrica, só que ela também está ligada à variação de temperatura. É difícil dar uma resposta definitiva. Esse dado indica que não dá para fazer modelo de previsão climática levando em conta apenas o aumento de temperatura. É preciso colocar todas as consequências desse aumento de temperatura. Um modelo muito simplista vai ficar longe do que vai acontecer no futuro.
A seca de 2010 e as chuvas de 2011 foram anormais para a Amazônia? Não podemos dizer que a chuva de 2011 foi extrema, porque ela não foi acima da máxima histórica. Foi um ano chuvoso, acima da média, mas não incomum. É uma questão de definição. Houve outros anos com níveis semelhantes de precipitação. A seca de 2010 foi extrema, incomum, abaixo da mínima histórica. No entanto, não posso dizer que a capacidade de absorção em 2011 equivale à média de um ano chuvoso. Em 2010, a floresta tinha sofrido muito com a seca e, no ano seguinte, a vegetação ainda poderia estar sob efeito do impacto desse estresse absurdo. A história de um ano pode estar influenciando o ano seguinte. Pode ser que, depois de um ano chuvoso, o sequestro de carbono seja maior se houver em seguida um segundo ano também chuvoso.
Os dados de um ano não devem ser analisados de forma isolada. Exatamente! Por isso, temos que realizar estudos de longo prazo. Quando participei de campanhas e vi que havia essa variabilidade de ano para ano, desisti desse tipo de estudo. Acho vantajoso o fato de se reunir [em campanhas] muitos pesquisadores de varias áreas e os estudos de uns complementarem o de outros. Os avanços em alguns aspectos do conhecimento são muitos nesse tipo de situação, mas não no sentido de se conhecer um valor significativo que represente toda a Amazônia. Nesse aspecto existe muita variabilidade. Não dá pra estudar um mês na estação seca e outro na chuvosa e achar que esses períodos representam tudo o que ocorre no período de estiagem e no úmido e se estender o resultado para todo o ano. Esse número pode ser o dobro ou a metade do real, por exemplo. Durante nosso estudo de 10 anos em Santarém, vi essa grande variabilidade. Sou muito perfeccionista. Se sei que meu número pode estar muito errado, isso não me satisfaz.
Com dados de apenas dois anos, é seguro chegar a alguma conclusão sobre o balanço de carbono na Amazônia? Como 2010 foi tão diferente de 2011, concluímos que nem com quatro ou cinco anos, que era nosso plano original, chegaremos a uma média conclusiva. Agora estamos à procura de recursos para financiar a continuidade desse projeto por uma década. A média de 10 anos é suficiente? Sim, estudos sobre o ciclo de carbono são mais conclusivos se forem decadais. Mas é importante entender que a Amazônia está sendo alterada, tanto pelo homem como pelo clima, que o homem também está alterando. Então o que acharmos de resultado mediano pode ser diferente do que ocorreu na década passada e na retrasada. Vamos submeter um projeto para continuar esse estudo. Mas, além de recursos para as medidas, precisamos de recursos para ter uma equipe para conduzir o projeto também. Sou a única funcionária do Ipen atuando no projeto, todos os demais são pagos pelos projetos envolvidos nesse estudo. E, sem essa equipe tão afinada, não existiria esse projeto incrível. É um esforço muito grande de muitas pessoas.
Alguns estudos sugerem que o aumento dos gases de efeito estufa pode levar algumas plantas a fazer mais fotossíntese. Isso não poderá alterar o balanço de carbono na Amazônia no longo prazo? Não é só isso. É verdade que mais CO2 na atmosfera estimula a planta a fazer mais fotossíntese. Mas há outros mecanismos. Em uma situação de estresse hídrico, a raiz absorve menos água. A planta diminui seu metabolismo e assim absorve menos carbono. O que sabemos ao certo é que a floresta reduz sua capacidade de absorver carbono com a diminuição da disponibilidade de água.
Como o ar coletado em quatro pontos da Amazônia pode representar a atmosfera de toda essa enorme região? Em qualquer um dos pontos, as amostras coletadas nos voos representam uma massa de ar que passou por várias partes da Amazônia, desde a costa brasileira até o ponto de coleta e, no caso de Santarém, até de trechos do Nordeste. Se ela levou sete dias para chegar até o ponto de coleta, representa uma semana e não apenas o momento em que foi obtida. Ela guarda toda a história do caminho que percorreu dentro da Amazônia nesses sete dias, de todas as emissões e absorções que ocorreram nesse percurso. Não estamos, portanto, coletando uma amostra de ar referente a uma hora. Estamos coletando a história de uma coluna de ar que viajou todo esse caminho desde a costa brasileira. Calculamos o caminho que cada massa de ar fez até ser coletada em cada altitude amostrada.
Esse método não tem alguma limitação? A grande limitação é só termos feito coletas até 4,4 quilômetros de altura. O que ocorre acima disso está fora da nossa área de medição. Uma nuvem convectiva pode levar o ar que estava embaixo para cima e vice-versa. Isso pode fazer com que nossa coluna de ar seja parcialmente levada para uma altitude acima do nosso limite de voo. Nesse caso, perdemos informação. Essa é a maior fonte de erro do nosso método. O ideal seria voarmos a até 8 ou 12 quilômetros de altura. Já começamos a fazer isso no inicio de 2013 no ponto de estudo próximo a Rio Branco e os resultados são muito animadores. Nessa faixa de altitude, em um ano, não observamos uma variação muito significativa que indique um erro grande. Isso é muito animador.
Os quatro pontos de coleta de amostras de ar se comportam iguais? O ponto próximo a Santarém é diferente de tudo em termos de resultado. Vamos pensar em sua área de influência. Todo litoral tem uma densidade populacional grande. Nesse ponto da região amazônica temos a maior relação área/população. Nossos dados coletados ali sofrem influência urbana, antropogênica e de combustíveis fósseis que não aparecem tanto em outros pontos da Amazônia. Haveria influência inclusive da poluição vinda das cidades do Nordeste. Às vezes, na estação chuvosa, observamos nesse ponto emissão de carbono, enquanto nos outros três pontos que monitoramos há absorção.
O que explica essa diferença? Podem ser as atividades antropogênicas em áreas próximas a Santarém. As Guianas estão acima do equador. Quando é a estação chuvosa no Brasil, lá é a seca. Tem também as queimadas e as atividades antrópicas nas cidades próximas de nosso litoral. Dizem para eu parar as medidas em Santarém, que não representa a Amazônia. Mas tenho uma série histórica de 14 anos. O Brasil não tem série histórica de medidas desse tipo. Se pararmos de medir em Santarém… Fico em um dilema.
Mas Santarém não representa uma parte importante da Amazônia oriental? Na área de influência de Santarém, 40% é floresta. Se considerar a área de toda a floresta amazônica, Santarém pega uma “fatiazinha”, entre aspas porque é gigante, de 20%. Só descobrimos isso quando passamos a estudar o outro lado da Amazônia. As amostras obtidas no avião são resultantes de uma história de tudo o que aconteceu antes de o ar chegar lá. Com exceção do monóxido de carbono, que vem das queimadas de floresta, não há como saber a contribuição de cada fonte de carbono. No caso de Santarém, essa abordagem não funciona muito bem. Acreditamos que uma parte do monóxido de carbono venha de outras queimas de biomassa, talvez de combustíveis fósseis e não basicamente da queima de vegetação florestal.
Como começou seu trabalho na Amazônia? Participei do LBA [Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia] desde o início, em 1998. Fiz campanhas de campo. Há 10 anos, comecei as medidas sistemáticas em Santarém. Até então, as amostras dos perfis de ar iam para os Estados Unidos para serem analisadas em um laboratório da Noaa [National Oceanic and Atmospheric Administration]. Em 2004 montei meu laboratório no Ipen e as amostras pararam de ir para os Estados Unidos. Meu laboratório é uma réplica do laboratório da Noaa, o melhor laboratório do planeta de gás de efeito estufa. Fiz tudo igualzinho e importamos uma réplica do laboratório deles. Botamos tudo dentro de caixas e trouxemos para cá. Tudo, tudo. Do mouse à estante. O sistema todinho encaixotado. Podemos medir CO2, CH4, N2O, CO, SF6 e H2. O laboratório foi pago pela Nasa e o usamos no LBA. Tudo o que aprendi nessa área foi com a equipe da Global Monitoring Division da Noaa. Passei três temporadas lá. Estamos juntos sempre, eles têm acesso ao Magic, que é esse nosso sistema de análise. Tudo é feito em parceria com eles. São 10 anos trabalhando com esses caras. Sou filha deles. Depois de 2004 conseguimos uma frequência maior de medidas em Santarém. Naquele ano, voamos na estação seca e na estação chuvosa pela primeira vez. Tentamos também realizar medições em Manaus, mas dos três anos de coletas tivemos problemas de autorização de voo em um ano e no ano seguinte com as análises de CO2. Então o dinheiro acabou. Como só tinha dados de um ano inteiro, acabei nunca publicando essas informações. Mas isso é uma falha que tenho de corrigir. Ficamos só em Santarém até 2009, quando ganhamos verba da FAPESP e da Nerc [agência do Reino Unido de financiamento de pesquisas] e passamos a fazer medições em mais três pontos.
Quando os estudos se restringiam a Santarém foi possível chegar a alguma conclusão? Observamos que existe uma variabilidade muito grande no balanço de carbono durante a estação chuvosa na Amazônia. Publicamos esses dados num paper em 2010. Vimos que não adianta fazer um estudo de um ou dois anos. Tem de ser de muitos anos. Essa foi a primeira lição importante que aprendi com esse estudo.
Qual é o passo seguinte do trabalho na Amazônia? Calcular o balanço de carbono em 2012 e 2013. Já temos os dados. O ano de 2012, por exemplo, está no meio do caminho entre 2010 e 2011. Choveu absurdamente na parte noroeste e no resto foi mais seco do que em 2010. Por isso gosto do dado coletado em avião, que nos possibilita calcular a resultante [das emissões e absorções de carbono]. Se eu trabalhasse apenas com uma torre de emissão e ela estivesse no lado seco, concluiria uma coisa. Se estivesse do lado chuvoso, concluiria outra. Com o tipo de dado que usamos, podemos levar tudo em consideração e ver o que predominou. Calcular tudo e tirar a média. E, na média, 2012 foi seco na bacia toda. Em número de focos de queimada, deu bem entre 2010 e 2011.
Você começou sua carreira fora da química atmosférica. Como foi o início? Fiz iniciação científica e mestrado em eletroquímica. Mas tinha uma frustração enorme e me perguntava para que isso serviria. Houve então a primeira reunião de química ambiental no Brasil, que o Wilson Jardim [professor da Unicamp], organizou lá em Campinas em 1989. Fui lá e me apaixonei. Era aquilo que eu queria fazer da minha vida.
Você é de onde? Sou de Birigui, mas saí da cidade com 3 anos. Morei boa parte do tempo em Cafelândia, que tinha então 11 mil habitantes. Lá todo mundo se conhece. Por isso sou assim. Falo com todo mundo. Também falo muito com as mãos. Meus alunos dizem que, se amarrarem minhas mãos, não dou aula. O pessoal da portaria no Ipen nem pede meu crachá. É coisa de interiorano. O paulistano é capaz de estar sozinho no meio de uma multidão. De Cafelândia, minha família mudou-se para Ribeirão Preto, porque meu pai não queria que os filhos saíssem de casa para estudar. Ele escolheu uma cidade com muitas faculdades e mudou a família toda para lá. Ele era representante da Mobil Oil do Brasil. Para ele, tanto fazia estar em Cafelândia ou em Ribeirão. O engraçado é que minha irmã foi para Campinas, eu fui para a Federal de São Carlos, meu irmão foi para a FEI de São Bernardo e a única que ficou em casa foi a terceira irmã. Tive problema de saúde e precisei voltar para a casa dos meus pais antes de me formar. Me transferi para a USP de Ribeirão, mas ali o curso de química tinha quase o dobro de créditos do da federal de São Carlos. Levei mais três anos e meio para fazer o que faltava, que consumiria apenas um e meio na federal. Tudo tinha pré-requisito. Mas foi muito legal porque em São Carlos estudei bem apenas durante o primeiro ano. Depois virei militante de partido semiclandestino, dirigente estudantil. Fazia mais política que estudava. Éramos proibidos de assistir às aulas. Quando chegava a época de prova, xerocava o caderno dos amigos, varava a noite estudando e de manhã, sem ter dormido, ia lá, fazia prova e passava. Mas imagine o que ficava na cabeça. Ainda bem que praticamente tive de refazer a graduação. Que profissional seria eu se não tivesse tido que fazer a graduação de novo e aprendido a estudar muito?
Como eram as aulas na USP? Larguei o movimento estudantil, que tinha me decepcionado muito. Queria um mundo mais justo. Mas tive um namorado que era da direção nacional do partido revolucionário. Terminei com ele, que se vingou de mim usando o poder dele. Compreendi que o problema não estava no modo de produção, comunista ou socialista, mas no nível evolutivo do ser humano. Então resolvi que a única pessoa que eu podia mudar era eu mesma. Virei zen e espiritualizada e comecei a minha revolução interna. Compreendi que não podia mudar o mundo, mas podia me tornar uma pessoa melhor. Aí comecei minha carreira, praticamente do zero, porque na USP de Ribeirão Preto é muito puxado. Se não estuda, não passa. Fiz iniciação científica, ganhei bolsa da FAPESP, fui me embrenhando e me apaixonando pela química ambiental.
Como foi seu doutorado? Foi o que deu para fazer. Quando eu comecei o doutorado com o [Antonio Aparecido] Mozeto, era para ser sobre compostos reduzidos de enxofre, já na área de gases. Naquela época, ninguém trabalhava com gás. Só tinha um no Brasil, Antonio Horácio Miguel, que trabalhava na área, mas ele tinha ido para o exterior. Eu tinha que fazer tudo. Tinha, por exemplo, que desenvolver um padrão com tubo de permeação. Tive de desenvolver o tubo, comprar o líquido para permear e tudo mais. Quando fiz tudo funcionar e coloquei o tubo dentro do cromatógrafo, o aparelho pifou. O professor tinha comprado um cromatógrafo para medir compostos de enxofre que um professor da Universidade do Colorado tinha decidido fabricar. O projeto veio todo errado. Tinha uma cruzeta de aço inoxidável, com uma chama que, quando queima, produz hidrogênio e água. A chama esquentou a cruzeta e vazou água na fotomultiplicadora e queimou o aparelho. Durou um dia. O problema é que eu estava já havia dois anos fazendo isso e precisava de um novo aparelho para desenvolver o doutorado. O Wilson Jardim então me perguntou por que eu achava que ninguém trabalhava com gás no país. “Esse negócio é difícil! O único que trabalhava foi para fora do Brasil. Larga desse tema e vai para outra coisa”, ele me disse. Mas, a essa altura, eu já tinha perdido dois anos e era a única docente da Federal de São Carlos sem doutorado. Um professor então me disse que eu ainda estava em estágio probatório e que, se eu não fizesse um doutoradozinho de um ano para comprovar o título, não iam aprovar o estágio probatório. Saí correndo atrás de um tema que dava para fazer e que eu não me envergonhasse de ter feito. Fiz análise de sedimento de fundo de lagoas próximas ao rio Mogi-Guaçu. Apliquei análises que são usadas em trabalhos com aerossóis para descobrir a origem dos sedimentos e também datá-los. Dessa forma, dá para saber a história da ocupação da bacia dos rios. Acabei o doutorado na Federal de São Carlos e entrei para a química atmosférica, que era o que eu queria, área carente entre os pesquisadores brasileiros.
Conservative politicians in the US House of Representatives are renewing their push to limit the National Science Foundation’s (NSF) support for social-science research. The agency’s social, behavioural, and economic (SBE) sciences directorate would see its recommended funding cut by 42%, under a proposal introduced on 10 March by Representative Lamar Smith (Republican, Texas), the chairman of the House Science, Space, and Technology Committee.
The legislation, which would reauthorize NSF for fiscal years 2014‒15, also seeks major changes to the peer-review process by which the agency awards its grants. Smith’s plan would require the NSF to provide written justification that every grant it awards — in all fields — is in the “national interest”. That is defined broadly as research that satisfies at least one of six goals: economic competitiveness, health and welfare, scientific literacy, partnerships between academia and industry, promotion of scientific progress and national defence.
Details of Smith’s plan first surfaced about a year ago, sparking fierce criticism from social scientists and the broader US research community that seems sure to renew with the release of the new bill. Smith and his supporters argue that in a time of limited budgets, focusing on research areas that produce the clearest benefits is wise. But critics worry that the “national interest” requirement will hobble NSF’s time-tested peer review process.
“We don’t build rockets. We don’t usually have patentable goods,” says Rick Wilson, a political scientist at Rice University in Houston, Texas, and a former NSF programme director. “For a lot of these folks, it may just be that they really don’t believe that what we do has scientific merit.”
The bill recommends a budget of $7.17 billion for NSF in 2014, the current fiscal year — equal to what the agency actually received in the budget deal enacted in January — and $7.29 billion for 2015. In an unusual move, the proposal also lays out a detailed plan for distributing that cash to NSF’s seven research directorates. For example, it seeks to cap SBE funding at $150 million per year in 2014 and 2015, well below the directorate’s actual 2014 budget of $257 million.
“I don’t understand the antagonism toward the social, behavioral, and economic sciences,” says Michael Lubell, director of public affairs for the American Physical Society in Washington DC.
Lubell also finds fault with provisos that would restrict principal investigators to no more than five years of funding for a particular project, and allow researchers to include just five citations in grant proposals.
The full text of the bill can be found here. It will receive a public airing on 13 March, when a House subcommittee plans to discuss and vote on the measure.
Does “the big bad wolf” play an important role in the modern-day food web? In this video we journey to Washington State’s Cascade Mountains, where the return of wolves could have a profound impact on a vast wilderness area. We meet up with biologist Aaron Wirsing to explore why wolves and other top predators are needed for diverse ecosystems to flourish. Using a simple video camera (a “deer-cam”) Wirsing is gaining a unique perspective on predator/prey relationships and changing the way we think about wolves.
Wolves in the Crosshairs: Q&A with conservationist, Fred Koontz
Dr. Fred Koontz
Gray wolves are in the crosshairs of a heated conservation debate, with the federal government trying to strip all protections for them in the continental U.S. Dr. Fred Koontz, vice president of field conservation at Woodland Park Zoo, Seattle, has worked in conservation for three decades and has studied the wolf issue. We talked with Dr. Koontz about the future of wolves in the U.S. and the role they play in maintaining healthy ecosystems.
Wolves may be the most polarizing animal in North America, more so than other large carnivores like cougars or grizzly bears. Why? The gray wolf is one of the world’s most adaptable and widely distributed mammals, ranging over much of Asia, Europe, and North America. Wolves, the size of a German shepherd, are pack-hunting predators that sometimes kill livestock. Combined with wolves’ nocturnal behavior and haunting howling, this has resulted in a long history of conflict with people, especially as human numbers have increased exponentially in recent centuries and agricultural lands expanded into wolf habitat. There are, however, very few documented cases of wolves attacking people, but the rare times it’s happened it’s been sensationalized and blown out of proportion.
How have your perceptions or understanding of wolves changed over the years? At an early age, my mother read with much theatrical expression “Little Red Riding Hood,” which, like many children, left me fearing the “big bad wolf.” This negative image was reinforced with similar wolf-themed horror movies that I ashamedly spent far too much time watching in my youth. Only when I studied ecology and animal behavior in college and as a wildlife professional did I see a different image of the wolf. Wolves are important regulators of prey numbers and behavior, and as such, influence a web of ecological interactions that enrich biological diversity. I learned also that among many adaptive traits enabling their evolutionary success, wolves have a rich social life and extraordinary set of communication behaviors. The more I learned, the more fascinated I became in understanding how wolves and people might live together for their mutual benefit.
Gray wolves have been taken off the federal endangered species list in some states, such as Idaho, Wyoming, and Montana. And a recent federal proposal would strip all gray wolves in the continental U.S. of their federal protection. How did this come to be? What kind of politics are at play?
Gray wolves can come in an assortment of colors, such as these all-white wolves. Photo courtesy of Ryan Hawk, Woodland Park Zoo, Seattle.
Under the Endangered Species Act, the U.S. Fish and Wildlife Service (USFWS) in 1974 first listed gray wolves as endangered in the lower 48 states. Now they propose to remove them from the ESA list. This idea follows from three decades of actions undertaken by federal, state, and local partners that resulted in population recovery and delisting in 2011 of wolves living in the western Great Lakes states and northern Rockies. With about 6,000 wolves residing in these two recovery areas, USFWS believes that the gray wolf population in general is well established and stable enough to warrant delisting. Many state wildlife officials welcome the move as they are eager to take back the management authority for animals within their political borders.
However, many conservation scientists and wolf advocates believe that more time on the endangered species list — and [under] federal protection — would allow wolves a greater opportunity to reclaim more of their former territory and grow the number of their populations. This is important because, despite wolf recovery success in the Great Lakes states and Rocky Mountains, there is still a lot of their former range not yet occupied. Expanded range and more populations, in turn, will provide greater species resiliency to unexpected environmental disruptions like climate change and emerging diseases and also improve long-term wolf survival in the U.S.
An independent review panel recently found that the federal government used uncertain science when it proposed removing the gray wolf from the endangered species list across the lower 48 states. What could that mean for the future of wolves? This is important because under Endangered Species Act law the U.S. Fish and Wildlife Service is obligated to use the best available science. The Service claimed that new genetic research indicated that wolves living in the eastern U.S. were actually a different species, and thus should not be considered as part of the original listing or part of the historic range. The expert panel said the genetic research was uncertain and based largely on one paper. The panel’s report has reopened the debate about delisting gray wolves, and I suspect it will extend the time wolves remain listed. The final decision on delisting is yet to be determined — public comment isencouraged. [Note: deadline is March 27, 2014]
In the long run, the debate about delisting wolves invites larger questions like, what constitutes full recovery of any endangered species, and does the legal framework of the ESA reflect current conservation science and principles of sustainable living? Most importantly, there needs to be agreement at the onset about the ultimate purpose of recovery — is it simply species survival or restoring ecological function? There are no easy answers.
Is it possible for wolves and humans to coexist? What needs to change for that to happen? I think that wolves and humans ultimately will coexist by sharing land in two key places — protected areas and rural areas managed for the benefit of people and wildlife, for example, park buffer lands, multiple-use public lands, and designated wildlife corridors. For the reconciliation between wolves and humans to prove fully successful, we will first need a broader understanding of the role that apex predators play in creating healthy ecosystems and why healthy ecosystems are needed by people. In other words, there must be a broader understanding of why saving wolves is essential to sustainable living. Greater public will to save wolves will result in increased public spending needed to conduct science and carry out sound management actions. For example, we need more research on improving ranching practices to minimize wolf predation of livestock, and insurance programs that compensate ranchers for unavoidable losses. There is already good evidence from pilot efforts that such research and management programs are possible — and that they work!
Why should people care about the fate of wolves? The fate of wolves is tied directly to the greatest challenge facing humankind this century — sustainable living! With more than seven billion people consuming resources at an accelerating pace, this generation of world citizens must transform our societies to sustainable ones. We must, among other things, protect a wide variety of animal and plant species — scientists call this “biodiversity.” Many conservation scientists believe that apex predators (animals at the top of the food chain), like wolves, are necessary to maintain habitats rich in life. In turn, high levels of biodiversity bring many direct benefits to people — everything from providing food and fiber to protecting water supplies and enriching recreation.
Biologist Aaron Wirsing for the University of Washington (right) and graduate student Justin Dellinger (left) radio collar deer with video cameras in order to better understand predator-prey dynamics. Photo courtesy of Greg Davis.
Understanding the links between apex predators and biodiversity is a growing area of research for scientists like Aaron Wirsing of the University of Washington. Since 2008, wolves have been returning to Washington and have reestablished populations in the U.S. northern Rockies. This has provided a unique research opportunity for Wirsing and other scientists. For example, deer populations in Washington have likely over-browsed plants for decades in the absence of gray wolves. One consequence of deer eating trees along streambeds is less habitat for birds, and streams that are more likely to harbor fewer cold-water fish like trout because they are filled with sediments from soil erosion and overheated because of lack of shade. With wolves back in the state, Wirsing is leading a study to document how wolves are changing mule and white-tail deer populations, which in turn affects forest landscapes.
Why do you care about wolves? I care about wolves because as apex predators they contribute significantly to enriching biodiversity needed by people for sustainable living. I also care about wolves because I admire them! Wolves are amazing for many reasons, but I am especially fascinated by their complex social behavior and adaptable lifestyles, two traits that they share with humans. Also, one of the most important reasons I care is that wild wolves in the U.S. are a symbolic way of keeping our American heritage of wilderness alive.
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