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Notícias relacionadas à polêmica ao redor do gás de xisto

JC e-mail 4870, de 06 de dezembro de 2013

Extensa audiência pública sobre a exploração do gás de xisto causa polêmica

Encontro foi promovido ontem pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados

Os constantes debates acerca da exploração do gás de xisto no Brasil continuam gerando polêmica. O cerne da questão gira em torno dos graves impactos sobre o ambiente e a saúde pública. A contaminação de lençóis freáticos e o uso excessivo da água são as maiores críticas feitas pela forma como o gás é explorado.

Hoje é realizada uma técnica chamada fraturação hidráulica. Nesse processo, toneladas de água misturadas a produtos químicos e areia são injetadas na rocha para se extrair o gás, após furos verticais e horizontais. A água usada volta à superfície já poluída por hidrocarbonetos, metais e aditivos químicos.

Para debater a questão, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados promoveu mais uma audiência pública, realizada na manhã desta quinta-feira (5/12), em Brasília.

Contra a exploração, o Partido Verde quer impedir o procedimento no Brasil. “Não temos segurança tecnológica para explorar isso. Por que não damos ênfase nas energias renováveis?”, criticou o deputado Sarney Filho (PV/MA),líder do partido na Câmara dos Deputados. Ele afirmou que o PV vai propor uma moratória de cinco anos de prospecção do recurso. O parlamentar informou que o partido tomará a decisão como exemplo de países da União Européia, como a França.

“A exploração do xisto é relativamente nova. Tem ocorrido com bastante intensidade nos países afora. É preciso que se façam estudos cautelosamente”, afirmou o parlamentar. “E o Brasil, ao contrário dos Estados Unidos e França, tem alternativas. Temos produção de energia elétrica limpa, quase toda ela de hidrelétrica, temos potencial da energia solar e eólica, que está sendo subaproveitado”, explicou Sarney Filho.

Segundo Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Energia da ONG Greenpeace, o uso do gás de xisto não é imprescindível neste momento. “Ainda que a demanda energética nacional aumente mais de duas vezes até 2050, temos fontes renováveis e reservas de gás convencional suficientes para suprir a demanda do setor industrial e elétrico”, defendeu.

Para Carlos Alberto Bocuhy, do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, o País “não pode embarcar em uma aventura tecnológica (exploração de gás de xisto) ainda sem respostas”.

O professor da Universidade Federal de Santa Catarina Luiz Fernando Scheibe alertou que a exploração de gás não convencional, ou de xisto no País, deve ser submetida a uma avaliação ambiental estratégica antes de autorizada. A avaliação, prevista legalmente, é um instrumento mais amplo do que os estudos de impacto ambiental normalmente utilizados para o licenciamento de empreendimentos energéticos.

Também pesquisador do tema e Conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Jailson de Andrade lembrou que a maioria dos estudos sobre o assunto aponta a necessidade de estudos prévios locais para exploração. Segundo ele, ainda há muita controvérsia científica quanto à questão.

“Há um estudo da National Academy of Science, nos Estados Unidos, que mostra que, em 141 poços de água potável na Pensilvânia, quanto mais próximo de áreas de exploração de gás não convencional, maior a quantidade de metano (tóxico e inflamável) na água”, informou Jailson. “A controvérsia na literatura é se isso já existia antes ou se é resultado da perfuração para obtenção de gás”, observou o pesquisador.

E acrescenta “O Brasil está em uma posição muito confortável em relação à energia, sua matriz energética é majoritamente hídrica, renovável, tem um programa de bicombustível que é o melhor do mundo, então porque entrar nesta nova era sem a menor necessidade energética que justifique isto?”.

Nomenclatura
Apesar de chamar de gás de xisto, os especialistas da área esclareceram durante o debate que a questão é em relação ao gás natural extraído de folhelho (shale gas, em inglês). Folheto é uma rocha argilosa de origem sedimentar; xisto é uma rocha metamórfica, de outra origem, portanto. Mas, há uma longa e equivocada tradição brasileira de chamar folhelho (shale) de xisto (schist), daí se falar muito em gás de xisto.

Carta
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciências (ABC) enviaram uma carta à presidente Dilma Rousseff, solicitando a suspensão da licitação para a exploração do gás de xisto, até que estudos mais conclusivos sobre a questão sejam realizados.

No documento, a presidente da SBPC, Helena Nader, e o presidente da ABC, Jacob Palis, justificam sua preocupação pelo fato de que a exploração econômica do gás de xisto vir sendo muito questionada pelos danos ambientais irreversíveis que pode causar.

Por isso, eles pedem que antes da realização da licitação sejam realizados novos estudos por universidades e institutos de pesquisa públicos, sobre a real potencialidade da utilização do método da fratura hidráulica para a retirada do produto das rochas e os possíveis prejuízos ambientais causados por isso.

Governo
Otaviano da Cruz Pessoa, gerente-geral da Gerência Executiva de Exploração da Petrobras, reconheceu que, de fato, há riscos na exploração de gás de xisto. Mas, segundo ele, são riscos inerentes a qualquer atividade energética, inclusive de gás convencional.

” A única diferença do gás de xisto em relação ao tradicional é que, no caso do xisto, as rochas onde está o gás têm menos fluidos e, por isso, você tem que perfurar milhares de poços”, explicou Pessoa.

De acordo com Luciano Teixeira, representante da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), os riscos inerentes à exploração de gás de xisto são reais e devem ser melhor conhecidos e mitigados. Mas, segundo ele, a exploração comercial do produto dependerá de autorização prévia, a partir de critérios que devem ser divulgados pela agência em janeiro em uma nova regulamentação.

“Essa regulamentação tem uma base forte na questão da apresentação de estudos e documentações que venham a demonstrar que aquele operador está em condições de realizar aquela atividade e que o ambiente onde ele vai realizar a atividade vai estar protegido da melhor forma possível”, afirmou.

No entanto, Luciano Teixeira explicou que “E, com isso, conta-se com a apresentação de licenciamentos ambientais, estratégia de utilização e disposição de efluentes gerais e o monitoramento de toda a região com relação à possível degradação dos recursos hídricos.”

Segundo o representante da ANP, a atual fase de pesquisa não depende de autorização prévia. Essa etapa pode levar até oito anos, prorrogáveis por mais seis.

Leilão
Em leilão realizado, no dia 28 de novembro, pela ANP, foram arrematados 72 de 240 blocos ofertados com possibilidade de exploração de gás de xisto.A Petrobras participará da exploração em 70% das áreas, localizadas, principalmente, em Sergipe, Alagoas, Bahia e Paraná. Em um primeiro momento, as empresas estão autorizadas apenas a fazer pesquisas para avaliar a segurança econômica, ambiental e social da exploração.

(Camila Cotta, com informações de Beatriz Bulhões e da Agência Câmara)

Matérias de arquivo do Jornal da Ciência:

SBPC e ABC enviam carta à presidente Dilma Rousseff solicitando a suspensão da licitação para a exploração do gás de xisto
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.php?id=88545

Cientistas querem adiar exploração de xisto
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.php?id=90623

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JC e-mail 4870, de 06 de dezembro de 2013

Petrobras diz que pode devolver blocos de xisto se a exploração for inviável

A Petrobras arrematou 70% dos 72 blocos leiloados pela ANP, na última semana

Questionado por representantes da sociedade civil presentes à audiência pública sobre exploração de gás de xisto, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, nesta quinta-feira, o representante da Petrobras, Otaviano da Cruz Pessoa, disse que, se a pesquisa indicar insegurança econômica, regulatória ou ambiental, a empresa poderá devolver blocos arrematados para exploração de gás não convencional. A Petrobras arrematou 70% dos 72 blocos leiloados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na última semana.

“Embora áreas tenham potencial de existência de recurso não convencional, a Petrobras prioriza o convencional”, disse. “Se, ao fim da fase exploratória (pesquisa), os recursos se mostrarem viáveis economicamente e a produção, segura e regulada, a Petrobras poderá fazer. Caso isso não se verifique, a Petrobras poderá devolver áreas”, completou.

Também questionado por parlamentares e representantes da sociedade civil sobre a necessidade de leilão para gás de xisto neste momento, mesmo com o potencial do país em outras matrizes energéticas, inclusive renováveis, o representante da ANP, Luciano Teixeira, afirmou que, nesse campo, quanto antes os estudos começarem, melhor.

“A gente não tem muito margen para esperar tudo acontecer para realizer estudos. Parte dos estudos implica ver o que temos lá e se ele é viável”, destacou Teixeira.

A audiência pública sobre a exploração de gás de xisto já se encerrou.

(Ana Raquel Macedo/Agência Câmara)

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JC e-mail 4870, de 06 de dezembro de 2013

Conselho Nacional de Recursos Hídricos quer mais pesquisa sobre exploração de xisto

O gás de xisto ou folhelho está armazenado entre rochas no subsolo, geralmente a mais de mil metros de profundidade

O Conselho Nacional de Recursos Hídricos deve votar, no próximo dia 17 de dezembro, moção pedindo mais ênfase nas pesquisas antes que a exploração comercial de gás de xisto (tecnicamente, chamado de gás de folhelho) seja liberada no País. A informação é de Marcelo Medeiros, da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, que participa de audiência pública sobre o assunto na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, nesta quinta-feira.

De acordo com Medeiros, o edital do leilão da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis (ANP) realizado para exploração do gás não convencional ou de xisto, na última semana, prevê que os estudos devem ser feitos por um período de cinco a oito anos, podendo ser estendido por mais seis anos. Dos 240 blocos oferecidos no leilão, 72 foram arrematados, principalmente em Sergipe, Alagoas, Bahia e Paraná.

“Não somos contra perfuração para pesquisa, tem que haver nível de conhecimento sobre questão. A exploração para pesquisa deve ser feita e, se for o caso, estendida,” avaliou Medeiros.

O representante do Ministério do Meio Ambiente destacou que, no curto prazo, os efeitos da exploração comercial de gás de xisto, a partir da técnica de fraturamento hidráulico de rochas subterrâneas, podem levar à contaminação de lençóis freáticos por gás metano (que é tóxico e explosivo) ou substâncias químicas, inclusive radioativas, usadas no processo. Há, de acordo com Marcelo Medeiros, uma preocupação sobre a quantidade de água gasta no processo e uma indefinição sobre meios seguros de destinação do líquido residual do fraturamento, possivelmente contaminado.

O gás de xisto ou folhelho está armazenado entre rochas no subsolo, geralmente a mais de mil metros de profundidade. Para extraí-lo, as rochas são quebradas ou fraturadas, com a injeção de grandes quantidades de água, areia e produtos químicos.

Mais avaliação
Segundo Fernando Roberto de Oliveira, gerente de Águas Subterrâneas da Superintendência de Implementação e Projetos da Agência Nacional de Águas (ANA), os impactos da obtenção do gás não convencional ainda precisam ser melhor avaliado antes da liberação comercial dos recursos.

“Se não tivermos conhecimento geológica local, a possibilidade de avançarmos com segurança fica comprometida. Temos que conhecer melhor a hidrogeologia”, explicou.

Um dos autores do pedido de realização da audiência, o deputado Sarney Filho (PV-MA) alertou que falta regulamentação sobre o setor. “Não sabemos efeitos que exploração pode causar nos aquíferos, meio ambiente e no social”, disse.

A audiência pública continua no Plenário 8.

(Ana Raquel Macedo/ Agência Câmara)

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JC e-mail 4869, de 05 de dezembro de 2013

Comissão discute exploração de xisto e seus efeitos sobre o meio ambiente

Há preocupação com riscos de vazamentos subterrâneos, contaminação de aquíferos, danos aos reservatórios e possibilidade de abalos sísmicos

A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável promove audiência pública hoje, às 10 horas, para discutir a exploração do xisto em território nacional e seus efeitos sobre o meio ambiente. O evento foi solicitado pelos deputados Sarney Filho (PV-MA), Penna (SP) e Pedro Uczai (PT-SC).

Os parlamentares estão preocupados com o leilão de gás de xisto proposto pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP): “A exploração desse gás no Brasil ocorre no Paraná, mas em pequena escala. Não serve de parâmetro para os projetos em grande escala que estão sendo anunciados pela ANP”.

Também chamado de gás não convencional, o gás de xisto está armazenado entre rochas no subsolo, geralmente a mais de mil metros de profundidade. Para extraí-lo, as rochas são explodidas, ou fraturadas, com a injeção de grandes quantidades de água, areia e produtos químicos. O método é chamado de fraturamento hidráulico.

Aumento do consumo nos EUA
Nos Estados Unidos, o gás de xisto corresponde, hoje, a 16% da demanda nacional de gás natural; em 2000, era apenas 1% desse total. Os empresários estimam que em 2035 essa fonte possa ocupar 46% do consumo de gás nos EUA.

Os deputados argumentam que os problemas ambientais relacionados à exploração do gás de xisto são imensos: “Conforme estudiosos há riscos de vazamentos subterrâneos; contaminação de aquíferos; danos aos reservatórios produtores de água; possibilidade de abalos sísmicos”.

Eles ressaltam que a tecnologia usual faz uso de uma grande quantidade de água e, consequentemente, também gera um grande volume de rejeitos líquidos poluídos: “O processo industrial é extremamente perigoso. Existe a grande possibilidade de explosões, incêndios, vazamentos de fluidos contaminando solo, e danos aos poços perfurados”.

Convidados
Foram convidados para discutir o tema com os deputados:
– o representante da área de Segurança Operacional e Meio Ambiente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) Luciano Silva Pinto Teixeira;
– o gerente de Águas Subterrâneas da Superintendência de Implementação e Projetos da Agência Nacional de Águas, Fernando Roberto de Oliveira;
– o gerente geral de Interpretação e Avaliação das Bacias Terrestres da área de Exploração e Produção da Petrobras, Otaviano da Cruz Pessoa;
– o professor da Universidade Federal de Santa Catarina Luiz Fernando Shceibe;
– o especialista em efeitos ambientais na prospecção do gás de xisto Jailson de Andrade;
– o coordenador da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo; e
– o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Alberto HailerBocuhy.
A audiência ocorrerá no Plenário 8.

(Agência Câmara)

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JC e-mail 4865, de 29 de novembro de 2013

Preocupações de indígenas com exploração de gás e petróleo serão levadas a autoridades

A Funai denunciou que a ANP não levou em conta o relatório feito pela Fundação sobre o leilão de 240 blocos de petróleo e gás que está sendo realizado hoje no Rio

As sugestões e preocupações apresentadas pelos participantes da audiência que discutiu o leilão de blocos de petróleo e gás sobrepostos a terras indígenas e unidades de conservação serão colocadas em um documento e levados a diversas autoridades, como o Ministério de Minas e Energia e a Presidência da República. A iniciativa será apoiada pelo presidente da Comissão de Legislação Participativa, deputado Lincoln Portela (PR-MG).

No debate realizado nesta quinta-feira, encerrado há pouco, a Funai denunciou que a Agência Nacional de Petróleo (ANP) não levou em conta o relatório feito pela Fundação sobre o leilão de 240 blocos de petróleo e gás que está sendo realizado hoje no Rio de Janeiro.

Já representantes de comunidades indígenas disseram estar preocupados com a preservação ambiental das áreas de exploração em que há comunidades indígenas e disseram estar dispostos a entrar em guerra pela causa.

(Silvia Mugnatto/Agência Câmara)

Racism remains ‘institutionalized’ in Brazil: UN panel (CTV News)

Brazil racism

Nubia de Lima, 29, poses for a photo in her Rio de Janeiro apartment in Brazil on Feb. 25, 2013. (AP / Felipe Dana)

The Associated Press
Published Friday, December 13, 2013 2:32PM EST

RIO DE JANEIRO, Brazil — Institutionalized racism persists in Brazil despite government efforts to tackle the issue, members of a United Nations panel examining conditions among black Brazilians said Friday.

Two members of the U.N.’s working group on Afro-descendants said their 10-day fact-finding mission to five Brazilian cities underscored that the government has finally acknowledged the problem and has “shown its willingness to combat racism.”

But the panel said Brazilian blacks “still suffer from structural, institutional and interpersonal racism.”

“Historical injustices continue profoundly affecting the lives of millions of Afro-Brazilians and are present throughout all levels of Brazilian society,” panel member Mireille Fanon-Mendes-France told journalists at a news conference in Rio de Janeiro.

Brazil received more African slaves than any other country in the Americas and was the last major nation to abolish slavery, and people of colour here still tend to languish at the bottom of the social pyramid.

“To overcome the legacy of colonialism and slavery, the challenges Brazil faces are enormous,” Fanon said. “Afro-Brazilians represent more than half of the Brazilian population, however they’re sub-represented and invisible in most positions of power, in the media and the private sector.”

She added that blacks continued to face hurdles in accessing quality education, the courts, health care, basic sanitation and other state services.

“Although Brazil has progressed in reducing poverty, we note that there’s still a great contrast between the situation of black Brazilians and the country’s rapid economic growth,” Fanon said, reading from a report with the group’s initial conclusions.

She praised a series of recent government measures aimed at stamping out the lasting legacy of slavery, including affirmative action in universities.

Still, Fanon added that “advances in dismantling of racial discrimination remains slow.”

The group will report its findings to the Brazilian government next year, with a series of non-binding recommendations.

Read more: http://www.ctvnews.ca/world/racism-remains-institutionalized-in-brazil-un-panel-1.1591369#ixzz2negBg4Bn

Plano Clima: Versão final deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014 (Ministério do Meio Ambiente)

13/12/2013 – 12h16

por Tinna Oliveira, do MMA

klink Plano Clima: Versão final deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014

Klink: propostas da sociedade foram incorporadas. Foto: Martim Garcia/MMA

Reunião presencial marca fim da consulta pública do Plano Clima

A sociedade civil contribuiu, por meio de consulta pública, para a atualização do Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima), o principal instrumento para a implantação da Política Nacional sobre Mudança do Clima. A consulta pública eletrônica ficou aberta de 25 de setembro a 8 de novembro. Nessa quinta-feira (12) aconteceu a última reunião presencial. Durante o período, qualquer cidadão brasileiro pode oferecer suas contribuições, por meio do formulário disponível na internet. Do total de 27 formulários enviados, foram totalizadas 111 contribuições da consulta pública eletrônica. A versão final do plano revisado deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) é o coordenador do Grupo Executivo (GEx) do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM). Apresentado em 2008 pelo governo federal, o Plano Clima visa incentivar o desenvolvimento e o aprimoramento das ações de mitigação no Brasil, colaborando com o esforço mundial de redução das emissões de gases de efeito estufa, bem como objetiva a criação das condições internas para lidar com os impactos da mudança global do clima (adaptação).

Avaliação

O secretário de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do MMA, Carlos Klink, destacou que a consulta pública permitiu incorporar os avanços que aconteceram no Brasil na questão de mudanças do clima e a suas articulações com a negociação internacional. “Isso mostra o tamanho da ambição que o tema mudanças do clima tem dentro do país, pois não é só uma questão internacional, mas também a sociedade brasileira está muito engajada”, enfatizou.

Klink lembra que existem nove planos para mitigação e já está sendo construído o Plano Nacional de Adaptação, previsto para ser concluído até 2015. O tema de mudanças do clima está em destaque no País. “Estamos nos tornando um exemplo internacionalmente e, aqui no Brasil, está criando raízes muito fortes em todos os setores da sociedade”, explicou. Para o secretário, a governança permite um diálogo para construção e elaboração de todos esses planos, com envolvimento de todos os setores dentro e fora do governo. “O documento reflete esse avanço e mostra de maneira sintética esse tremendo trabalho de coordenação”, salientou.

Etapas

A atualização do Plano Clima passou por várias etapas. Desde janeiro, foram realizadas 17 reuniões do Grupo Executivo e sete reuniões do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC). “O fórum é o canal entre a sociedade e o governo para essa questão clima, por isso a gente sempre estimulou que a sociedade usasse o Fórum nas discussões”, explicou o diretor de Climáticas do MMA, Adriano Santhiago.

Segundo ele, vários setores trouxeram contribuições que foram incorporadas no texto apresentado durante a consulta eletrônica. A contribuição da população foi encerrada nesta reunião presencial, na qual participaram representantes do governo, da academia, do setor produtivo e da sociedade civil. O próximo passo é uma discussão governamental para fechar o documento final.

Em 2009, o Congresso Nacional aprovou a Política Nacional sobre Mudança do Clima, com o ineditismo da adoção de vários compromissos nacionais voluntários de redução de emissões. Além disso, foi criado o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e lançados diversos planos setoriais. Outros pontos que merecem destaque são a redução substancial do desmatamento no país, a mudança do perfil das emissões nacionais de gases de efeito estufa e a transformação substantiva da forma como diversos setores, governamentais ou não, se engajaram no esforço para enfrentar a mudança do clima..

* Publicado originalmente no site Ministério do Meio Ambiente.

Sobre a COP 19 de Varsóvia

JC e-mail 4864, de 28 de novembro de 2013

Resultados de conferência da ONU sobre o clima ficaram abaixo da expectativa, diz Capiberibe

Ele observou que as dificuldades encontradas durante a conferência terminaram por adiar por um dia o encerramento das negociações

O senador João Capiberibe (PSB-AP) comentou nesta quarta-feira (27) a realização da 19ª Conferência Mundial do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), encerrada no último sábado, em Varsóvia. Na avaliação de Capiberibe, os resultados da conferência ficaram abaixo da expectativa, principalmente porque foi mal recebida pelos países desenvolvidos a tese de responsabilidade histórica pelos danos ambientais.

Ele observou que as dificuldades encontradas durante a conferência terminaram por adiar por um dia o encerramento das negociações.

– A conferência, na verdade, deveria ter sido concluída na sexta-feira, e nós aguardamos até as 19h para o encerramento a apresentação do relatório final, que não foi possível em função das enormes contradições que envolvem esse tema. Os negociadores vararam a noite e só foi possível apresentar relatório final no sábado quando já estávamos de volta a nosso país – relatou Capiberibe.

O senador ainda afirmou que as mudanças no clima representam uma crise global que veio para ficar e exige decisões rápidas. Capiberibe destacou o compromisso do Brasil com o desenvolvimento sustentável e classificou o novo Código Florestal como um retrocesso que põe em risco o meio ambiente:

– E do ano passado para cá nós tivemos um aumento de 28% no processo de desmatamento, e isso pode estar ligado – nós não podemos afirmar – ao novo Código Ambiental, que terminou permitindo, anistiando desmatadores, anistiando aqueles que agridem a legislação, anistiando os que cometem crimes ambientais, e isso, evidentemente, estimula o desmatamento – afirmou.

(Agência Senado)

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JC e-mail 4864, de 28 de novembro de 2013

Vanessa Grazziotin: conferência do clima surpreende e obtém avanço na proteção a florestas

O maior avanço alcançado foi o estabelecimento de regras para o pagamento aos países que protegerem suas áreas de florestas, o chamado REDD+

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) registrou a participação dela e de outros senadores na 19ª Conferência do Clima da ONU, a COP 19, ocorrida em Varsóvia, na Polônia, na semana passada. Ela se disse surpresa com os resultados de uma reunião em torno da qual “não pairava qualquer expectativa”.

Segundo a parlamentar, o maior avanço alcançado foi o estabelecimento de regras para o pagamento aos países que protegerem suas áreas de florestas, o chamado REDD+. Para ter acesso aos recursos, os países devem reduzir emissões de carbono por desmatamento e degradação florestal.

– É uma mudança de lógica, de paradigma, dentro da própria política internacional sobre mudanças climáticas, já que até então o que tínhamos eram recursos para nações que recuperassem florestas degradadas. Isso é importante para o mundo inteiro, mas em particular para o nosso país, por que temos a maior floresta tropical do mundo e estamos em processo de desenvolvimento – explicou a parlamentar.

Vanessa Grazziotin observou, ainda, que o tema do pagamento pela proteção de florestas ganhou mais importância nas discussões da COP 19 que o do comércio de carbono, por meio do qual países podem pagar a outros pelo excesso de emissão de gases causadores do efeito estufa.

– Isso não ajuda o clima. Então esse debate ficou em plano secundário – assinalou Vanessa Grazziotin. Ela esclareceu que as regras aprovadas em Varsóvia preveem a utilização de dinheiro do Fundo Verde, aprovado em 2010 e que já tem recursos disponíveis a partir deste ano, embora a maior parte das verbas vá ser aportada em 2014.

Vanguarda
A parlamentar pelo Amazonas chamou a atenção para o papel relevante do Brasil no avanço da agenda ambiental. Sétimo no ranking da economia mundial, o país é “uma nação líder” no que se refere a proteção ao meio ambiente. Não só por causa da maior floresta tropical do mundo, mas também das posições importantes que assume nos fóruns internacionais, entre as quais as de fortalecimento do grupo dos 77 países em desenvolvimento e do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China).

O Brasil, observou ainda Vanessa Grazziotin, tem uma meta interna voluntária, em lei, “das maiores do mundo”: de 36% a quase 39% de redução das emissões brasileiras até o ano de 2020, levando-se em conta índices de 1995.

Tanto a Conferência das Partes, realizada na Polônia, como a próxima, que será realizada em Lima, no Peru, serão preparatórias para a 21ª Conferência das Partes, marcada para ocorrer em Paris. Na 21ª Conferência, será elaborada uma nova convenção, pela qual todos países terão regras estabelecidas internacionalmente para a redução de emissão de gases de efeito estufa.

Estiveram em Varsóvia, além de Vanessa Grazziotin, os senadores João Capiberibe (PSB-AP), Sérgio Souza (PMDB-PR) e Anibal Diniz (PT-AC). O grupo participou igualmente de uma reunião da Globe Internacional, entidade ambiental que reúne parlamentares de vários países.

(Agência Senado)

Sua flecha é a palavra (Boletim da UFMG)

Nº 1845 – Ano 40
18.11.2013

Bárbara Pansardi

“Pra quem não me conhece, sou Davi Kopenawa, filho da Amazônia, que vive no meio da floresta.” As palavras simples e fortes do líder indígena são certeiras como uma flecha que acerta direto no coração – é o que ele mesmo diz. O xamã yanomami acredita que sua arma é a palavra, com a qual protege a floresta amazônica e os povos autóctones.

“Nós, Yanomami, somos guerreiros para defender nossos direitos, nosso povo, nossas crianças, nossa terra própria. Nossos antepassados não sabiam se defender, não sabiam brigar por não compreender a língua portuguesa”, explica o xamã e intérprete da Funai, que utiliza o idioma como instrumento político. “Eu não posso viver isolado. Meu povo yanomami já foi isolado. Hoje não, nós conversamos com políticos sobre o problema da nossa terra, da saúde”, afirma.

Sua mensagem é firme, mesmo quando sua expressão parece hesitar, revelando a cadência de quem não tem o português como língua materna. “Minha fala é diferente; não é fala de cidade, não. Eu falo sobre natureza, sobre meio ambiente, terra, sobre o que é bom pra nós todos”, justifica Kopenawa.

A convite do Programa Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), Davi veio à UFMG ensinar o que os napë [homem branco, não índio] parecem não saber. “Será que o homem não tem pensamento, não pensa em seu futuro, nas gerações que vão sofrer? Consciência dos napë é diferente da consciência indígena. Terra é nossa vida, sustenta a barriga, é nossa alegria”, alega, tecendo dura crítica às atividades econômicas que se valem da exploração das riquezas naturais.

Para Kopenawa, o problema gerado pelo homem branco com a extração dos recursos é incontornável, não há reflorestamento que o resolva. “Reflorestar não vai trazer ar limpo, não vai chamar a chuva; só miséria, fome, sofrimento”, afirma, fazendo uma analogia com as cicatrizes que se formam quando ferimos a pele, sobre as quais não voltam a nascer pelos. “Na terra, depois que corta, não cresce de novo, não nasce urihi [cobertura florestal], porque não tem força, não tem água lá embaixo. Derrama sangue da terra e ela fica seca, a água vai embora.”

Davi explica o que em sua filosofia indígena designa por “coração da terra”. De acordo com ele, trata-se de um processo cíclico segundo o qual a água é conduzida por caminhos subterrâneos que a elevam para que em seguida se precipite novamente, em movimento continuamente circular, como na corrente sanguínea. “Nós estamos circulando juntos”, acrescenta, esclarecendo que o coração humano pulsa sob mesmo ritmo. Homem e natureza, portanto, estão ligados. Então, “destruímos a nós mesmos ao devastar a terra; nosso coração bate junto com a hutukara, terra-mãe”.

Diferentes, porém complementares

O xamã acredita na capacidade de mobilizar os outros como multiplicadores de uma consciência ambiental renovada, e se alegra porque vê seu conhecimento reconhecido na esfera acadêmica. “Sou analfabeto, mas tenho saber tradicional. Eles estão me escutando e achando bom. Estão interessados, gostando muito. Eu também estou gostando. Venho para me aproximar do homem branco que nunca conheceu de mim e para conhecê-lo como amigo. Não índio também está reconhecendo minha imagem, minha fala, a experiência que eu tenho e aprendi desde pequeno.”

Entre os xamãs yanomami, boa parte dos saberes advêm do campo onírico. Os sonhos – muitas vezes associados ao transe induzido pelo sopro do pó de yãkoana [alucinógeno] – funcionam como revelações esclarecedoras. Os xapiri [espíritos] são os responsáveis por alumbrar as ideias e desvelar a sapiência do líder. Davi conta que ele próprio “sonha terra, floresta, chuva, trovão, tudo o que tem no universo”. Por isso, irrita-se com os antropólogos que, “como formigas, andam procurando sabedoria” e valem-se do conhecimento alheio. “Eu não quero antropólogo falso, que só quer trair o meu povo, que só quer aprender, tirar e copiar conhecimento yanomami”, revolta-se, em alusão à experiência com o americano Napoleon Chagnon, que trata os yanomami como ferozes e violentos.

No livro La chute du ciel, escrito em conjunto com o antropólogo francês Bruce Albert, Kopenawa conta que pediu ao xori [amigo] que o ajudasse. Como discordava dos pesquisadores que frequentavam sua aldeia e imputavam juízos sobre o modo de vida indígena, resolveu manifestar-se. “Quem vai falar sobre meu povo yanomami sou eu. Eu não sou antropólogo, mas Bruce me ajudou a escrever como no meu sonho, um sonho conhecimento. Eu queria escrever para os antropólogos da cidade, para mostrar como o Yanomami pensou. Esse livro é um mensageiro para entrar na capital. Antropólogo que não conhece índio, não conhece aldeia, não conhece mato vai ler. Esse livro foi escrito para fazer antropólogo respeitar. Foi muito bom pra mostrar minha capacitação, a capacidade que eu tenho de quem conhece rio, terra, mato”, relata.

Quanto à sua participação nas palestras ao longo da semana, o xamã mostrou-se alegre e satisfeito por cumprir a tarefa que lhe foi confiada pelos anciões. “Estou com orgulho de mim. Sou um yanomami em paz. Estou dizendo boas coisas pra eles [homens brancos] entenderem, pensarem e depois fazer respeitar. Nós somos povo indígena, guardião da terra; estamos aqui para proteger”, assevera.

É um erro escolarizar o conhecimento tradicional, avalia pesquisadora da USP (Notícias da UFMG)

Foca Lisboa/UFMG
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Manuela Carneiro propôs projeto de valorização do conhecimento tradicional

Quinta-feira, 21 de novembro de 2013, às 5h50

As possibilidades de cooperação entre os cientistas acadêmicos e os chamados “conhecedores tradicionais” – em especial os indígenas – foram abordadas em conferência na UFMG da professora Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo (USP), no início deste mês. O evento integrou a programação doColóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami.

Para a professora, é um contrassenso tentar escolarizar o conhecimento tradicional. “Ele não é só conteúdo; são também formas de existência e de transmissão desse conteúdo. Assim, em vez de se pensar em escolarização, devemos propor programas de pesquisa de conhecimentos tradicionais estabelecendo pontes entre o conhecimento prático e o que se aprende na escola”, defendeu.

Na ocasião, Maria Manuela detalhou a proposta que submeteu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a criação de programa focado na valorização do conhecimento tradicional e na criação de uma economia na Amazônia que seja compatível com o conceito de “floresta em pé”

“Fizemos a proposta ao Ministério, que parece ter gostado do projeto, e o incluiu no seu programa para o período de 2010-2014. A ideia é que o projeto resulte em editais anuais, e que fomente a distribuição equitativa de poder e de recursos”, explicou.

O Portal UFMG resumiu aspectos da conferência de Maria Manuela Carneiro da Cunha. Confira a seguir.

O contexto político
Formamos um conselho consultivo e propusemos ao MCTI um programa focado na importância da valorização dos conhecimentos tradicionais para o Brasil. O Ministério demonstrou interesse e pôs o programa na sua agenda para o período 2010-2014. Mas quiseram começar de uma forma mais prudente do que se poderia esperar. Encomendaram um estudo de três anos para avaliar a viabilidade e o formato de um programa permanente. É o que estamos fazendo atualmente. Mas sabemos que, quando mudam governo e secretário, mudam as políticas. E em 2014 teremos novas eleições. Portanto, não temos nenhuma segurança de que o programa vai se reverter em algo permanente. Mas estamos trabalhando para isso. Já foi um importante avanço tratar a questão no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em vez do Ministério da Educação (MEC).

Floresta em pé
O programa se chama Bases para um programa de pesquisas interculturais e fortalecimento do conhecimento tradicional e tem dois pilares principais. Um trata de fomentar a criação de um tipo de economia na Amazônia que seja compatível com a ideia de “floresta em pé”. Essa parte foi mais facilmente aceita. O segundo diz respeito à valorização dos conhecimentos tradicionais. Ou seja, de se reconhecê-lo e buscar o auxílio das populações tradicionais, que têm o know-how nesse tipo de manejo da floresta, para fomentar seu uso sustentável. Essa é uma ação que enfrenta mais resistência. Temos implantado projetos pilotos. São tentativas de demonstrar que é possível criar uma agricultura da “floresta em pé”, de que essa mudança de paradigma é interessante para todas as partes – populações tradicionais, cientistas das universidades e para a sociedade como um todo.

Contribuição do saber tradicional
Tenho trabalhado junto a especialistas solicitando levantamentos sobre as contribuições econômicas que os conhecimentos tradicionais podem oferecer. Mas temos de ter em mente que o mais importante não é mensurável. Não se pode medir o conhecimento tradicional pelo seu valor econômico; existem questões mais importantes. Um grande problema hoje é que, se o aspecto econômico não é mensurado, a contribuição oferecida pelo conhecimento tradicional não é apreciada, não é levada em conta, apesar de ser imprescindível para o trabalho. Pesquisadores fazem “descobertas” e não reconhecem o conhecimento tradicional embutido em seus trabalhos. Dizem: “não devo nada aos conhecimentos tradicionais”, quando, na verdade, devem muito.

Repartição equitativa
Até hoje não temos uma medida precisa para fazer essa avaliação. Mas estamos chegando a algum tipo de consenso de como deve ser feita a regulamentação desse reconhecimento. O Congresso Nacional está recebendo um projeto de lei que vai substituir medida provisória sobre o assunto. A ideia é estipular o pagamento equitativo, a recompensa, a “repartição equitativa de benefícios”; esse é o termo, porque essa recompensa pode até mesmo ser não monetária. Uma frente de trabalho tem sido a de colaborar para o estabelecimento de qual deve ser, do ponto de vista econômico, o aporte a ser feito em remuneração ao conhecimento tradicional embutido nos processos científicos. No entanto, cabe repetir: não se pode exigir uma justificativa estritamente econômica para preservar a diversidade de línguas, práticas e cantos. Reduzir tudo isso à questão do capital seria um absurdo.

Conhecimento em construção
Quando os cientistas apreciam o conhecimento tradicional, eles pensam o seguinte: “vamos fazer um levantamento e então guardar o recurso para futuras pesquisas”. O problema é que essa postura desconsidera que o conhecimento tradicional é fruto de um processo vivo, que está sempre em transformação. Ele depende da população que o gerou, depende dela para continuar se transformando, se aprimorando. Se você armazena cientificamente uma informação, ela não terá a mesma validade quando for retomada. Venho insistindo com o MCTI que não se deve pensar o conhecimento tradicional como algo pronto e consolidado, mas sim como conhecimento em constante construção, tal qual o conhecimento científico. Por incrível que pareça, isso é muito difícil de entrar na cabeça de biólogos, de cientistas acadêmicos.

O valor dos mateiros
Quando os cientistas vão adentrar a floresta, eles sempre precisam da orientação dos mateiros, oriundos da população local: são eles que conhecem a mata, os territórios, e que estão sempre descobrindo coisas novas, novos caminhos. Ainda assim eles são sempre depreciados nos institutos de pesquisa. Sempre são colocados como assistentes, sendo muito pouco valorizados no contexto da construção do conhecimento – e muito mal pagos. E a verdade é que os mateiros são os primeiros pesquisadores. Eles aprenderam no local e estão transmitindo esses conhecimentos para os pesquisadores científicos.

Desvalorização histórica
A história tradicional faz tudo para solapar o conhecimento tradicional. Por exemplo: a nossa escola, ao ser levada para essas comunidades, considera que o que a criança aprende em casa é algo sem valor. Faz com que esse conhecimento seja visto como de uma instância inferior. A escola atrapalha de várias maneiras: sua forma de elaborar seu calendário, seus horários… Por isso, as pessoas mais velhas dessas sociedades acabam se sentindo desvalorizadas quando em contato com a nossa. Em muitas dessas comunidades, eles são os responsáveis por passar certos conhecimentos de pai para filho. E a nossa escola canônica não entende ou aceita isso muito bem. A reação são as “escolas diferenciadas”, criadas pelas próprias comunidades indígenas – e que naturalmente vêm sofrendo muita resistência. São escolas que pensam seu calendário para que ele seja compatível com as atividades tradicionais da comunidade, que pensam a importância da língua, do conhecimento local, das tradições, das festas, da participação social. Aí está um aspecto muito importante a ser solucionado. É preciso que a escola se adapte à realidade dessas comunidades, no sentido de uma política de fortalecimento do conhecimento tradicional. Saber como fazer uma canoa, por exemplo, importa muito mais do que certos “conhecimentos” que as escolas acham importante disseminar.

Os riscos da ‘revolução verde’
Uma retomada histórica explica o desafio que se vive hoje na agricultura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma “revolução verde”: uma ambiciosa tentativa de aumentar a produção agrícola no mundo inteiro e resolver o problema da fome. Foi algo muito importante. Entre as mais de sete mil espécies de plantas alimentícias existentes no mundo, as trinta mais produtivas foram selecionadas para formarem a base da alimentação da maioria. Mas as demais espécies dessa enorme variedade foram de certa forma esquecidas. Apesar de sua importância na época, foi uma medida política muito arriscada. Quando a base de alimentação mundial é tão pequena, crescem os riscos de escassez caso algo aconteça com alguma dessas espécies. É uma medida em que não se considera que as variedades são adaptadas a cada lugar, ao tipo de solo, à quantidade de sol e chuva, às pragas. Então resolveram o problema da não adaptação das espécies às pragas e às demais dificuldades dos novos ambientes com o uso maciço de fertilizantes e de defensivos agrícolas. E hoje o Brasil é um “campeão” no uso dos dois. Resolveu-se o problema. Mas a que custo? Tornamo-nos reféns dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Ao custo do sacrifício das variedades locais. E o risco disso é enorme.

Cultivo on farm
Em algum momento, percebemos que o que se estava fazendo era uma política agrícola extremamente perigosa. Na Irlanda, por exemplo, aconteceu um desastre em função disso. Assim como na Bélgica, França, Alemanha, a base da alimentação no país era a batata, que havia sido domesticada pelos índios da América e levada para a Europa pelos espanhóis após a colonização. Os espanhóis levaram poucas espécies, as mais produtivas. Os irlandeses, em dado momento, estavam se alimentando só de duas espécies. Foi quando aconteceu uma praga que durou quatro anos e acabou com tudo. Um milhão de pessoas morreu de fome. Outro milhão migrou. É um exemplo de como é necessário guardar as variedades. Mas não basta fazer bancos de sementes como os da Embrapa, em que as sementes ficam em uma geladeira, mas não continuam se adaptando às mudanças do meio ambiente. O clima muda, o solo muda. Então, é preciso que as espécies continuem sendo cultivadas na roça, sendo cultivadas on farm, pois só se adaptam aquelas que continuam sendo cultivadas em campo. Isso é fundamental para a nossa segurança alimentar. E aí entra a questão dos conhecimentos tradicionais, dos índios, que tem o hábito de cultivar variedades.

Experiência no Rio Negro
Um desses projetos-pilotos de que falei está sendo desenvolvido às margens do Rio Negro, na Amazônia. Lá, a despeito das políticas governamentais que buscam consolidar a plantação apenas das poucas espécies mais produtivas, os índios estão plantando em seus roçados mais de cem variedades de mandioca, colaborando com a diversidade tão importante para a segurança de nosso sistema agrário. Hoje, 500 milhões de pessoas comem mandioca no mundo. É um alimento que tem enorme consumo na África, por exemplo. Se houvesse uma praga como a das batatas, teríamos hoje um problema enorme, a exemplo do que aconteceu na Irlanda. Esse caso da mandioca é um exemplo de como o conhecimento tradicional tem uma importância fundamental. Porque é o conhecimento tradicional dos índios que possibilita que lá, no Rio Negro, haja tanta variedade da espécie. Normalmente, a mandioca é plantada como “clone”; come-se a raiz e planta-se o caule. Mas a mandioca sabe dar flor, que tem semente. E, quando dá flor, é porque houve reprodução sexuada, de forma que essa semente não é um clone. A formiga gosta dessa semente, que é docinha. Então ela leva a semente para debaixo da terra. Essa é uma semente que só brota se houver fogo; só nasce na capoeira. Nesse sentido, ela tem brotado no Rio Negro em função do trabalho dos índios mais antigos, que gostam de cultivar as variedades e trabalham para que haja essa capoeira. As variedades também são fruto do trabalho das mulheres indígenas, que cultivam experimentalmente as sementes. Elas plantam em uma margem da roça algo que só vai dar a partir do segundo ou do terceiro ano. É um trabalho de colecionador. Essas mulheres de fato pesquisam para avaliar cada nova variedade e depois para cultivá-la. Há ainda a cultura de troca de sementes entre famílias e tribos, nas festas. Há um gosto pela coleção.

Virada política
Mesmo assim, ainda há hoje uma política do governo querendo disseminar o cultivo das espécies de mandioca entre as comunidades tradicionais, algo como “ensinar padre a rezar missa”. Insistem em focar nas espécies mais produtivas, ainda na lógica da revolução verde. E isso em um contexto em que o Brasil é signatário de um tratado que obriga o país a fomentar o cultivo de variedades na roça, de fomentar esse cultivo on farm, e não em bancos de sementes. O Brasil não está cumprindo esse tratado. Nesse sentido, nosso projeto-piloto visa transformar essas práticas tradicionais do Rio Negro em um sistema reconhecido como forma de conservação on farm valiosa e estratégica para o Brasil e para o mundo. É isso que a gente está construindo.

Leia também o perfil do líder yanomami David Kopenawa, publicado na edição 1845 do Boletim UFMG.

(Ewerton Martins Ribeiro)

Transforming San Francisco Into a Model of Disaster Preparedness (Quest)

Post by  for  on Nov 20, 2013

A mashup of San Francisco's Pacific Heights neighborhood right after the 1906 earthquake and what the area looks like today. Credit: Shawn Clover

A mashup of San Francisco’s Pacific Heights neighborhood right after the 1906 earthquake and what the area looks like today. Credit: Shawn Clover

Mention sleeping in Golden Gate Park, and most people think of homelessness. But the idea that San Francisco’s most famous park could be used as an emergency shelter for thousands of victims after a major earthquake – as it was after the 1906 earthquake – is again resurfacing.

Public Architecture, a San Francisco non-profit organization, recently asked three architecture and design firms to devise resiliency plans for the city that could be put in place as soon as next year and explore creative ways San Francisco could respond to natural disasters.

With everything from urine recycling to art installations that indicate areas at risk for earthquake liquefaction, tsunamis and floods, the firms drew up a variety of innovative strategies.

One of the plans, from San Francisco-based CMG Landscape Architecture, looks to the 1906 San Francisco earthquake. That catastrophe killed at least 3,000 people, destroyed more than 28,000 buildings and left 225,000 people homeless.

“We’re in earthquake country and it can be the elephant in the room—we know it could happen but we want to ignore it”

After the 7.6 magnitude earthquake hit, many victims flocked to the Presidio—then a military outpost—and to Golden Gate Park for refuge.

At first, tents were constructed, but as winter approached, soldiers from the Army built small houses that provided shelter for more than 16,000 survivors. CMG believes the Park can once again support many thousands of people, if necessary.

“We’re in earthquake country and it can be the elephant in the room—we know it could happen but we want to ignore it,” said CMG design leader Scott Cataffa.

CMG proposes new waste treatment facilities, emergency-response infrastructure and energy supplies by lining the Park’s polo fields with dry-composting restrooms and first aid stations. The restrooms would divert treated wastewater onto nearby turf for use as a natural fertilizer.

An on-site, sand-filter water treatment system also would serve as a 100-foot tall water tower and viewing deck. The observation deck, covered with solar panels and a modern-day windmill, would allow people to survey the surrounding area. Dutch and Murphy Windmills that already exist at the Park would serve as a back-up power source.

By integrating large-scale sanitation-systems, water treatment infrastructure and a water tower, the park could support up to 12,000 people, Cataffa estimated.

There is already a precedent for Golden Gate Park supporting a large influx of people in the 21st century.

Annual events, like the Outside Lands music festival, draw hundreds of thousands of fans into the park during the summer.

In fact, CMG officials believe that public events are ideal opportunities to teach disaster preparedness and encourage a sense of community among attendees. “During Super Storm Sandy, some communities had fewer economic resources but knew each other better and they looked out for each other,” Caffata said.

“We wanted to tap into the sharing economy of Burning Man and back-country camping,” he said, “and see if we could come together and get to know our neighbors.”

Next April 18, on the 108th anniversary of the 1906 earthquake, CMG proposes a “Camp the Park” event. Interested San Franciscans would spend the night in Golden Gate Park to test the city’s ability to mobilize and prepare for disaster response while meeting neighbors and learning about survival techniques.

Corporate sponsors would provide the funding while the San Francisco Recreation and Park Department would need to approve the event and any structural upgrades.

However, not everyone thinks it’s a good idea to herd thousands of people into Golden Gate Park after the next major earthquake.

“Our first choice is to keep people in their homes, not in a city that gets built in Golden Gate Park,” said Lt. Erica Arteseros, program coordinator for the San Francisco Fire Department’s Neighborhood Emergency Response Team.

Arteseros’ program, formed after the 1989 Loma Prieta Earthquake, allows roughly 2,000 people a year to receive 18 hours of disaster preparedness training from San Francisco firefighters and emergency responders.

“There’s not enough space and housing to accommodate everyone leaving their home,” she said. “If your home is safe enough to stay in, that’s the best.”

The San Francisco Planning and Urban Research Association, a non-profit planning group, has published a “Safe Enough to Stay” report that details what it would take to make people’s homes suitable as shelters after an earthquake.

If residents can stay in their homes, the process of rebuilding the city can begin much sooner, according to the report.

Even so, after a magnitude 7.0 earthquake or greater, many people would be left homeless.

In that scenario, the San Francisco Department of Emergency Management would work with the Red Cross to set up temporary shelters and use large spaces like the Bill Graham Civic Auditorium to provide longer term housing.

For all San Francisco’s current planning, CMG and Public Architecture say they are not evaluating optimal conditions. They anticipate a future that is hard to imagine and even harder to predict.

“We’re not planning for a best-case scenario,” said Public Architecture CEO John Peterson. “Unfortunately the best case is not realistic.”

ONGs abandonam conferência do clima (Folha de S.Paulo)

JC e-mail 4860, de 22 de novembro de 2013

É a primeira vez que as principais organizações ambientalistas deixam a reunião da ONU, realizada há 19 anos

Pela primeira vez nos 19 anos de realização das conferências mundiais do clima da ONU, as principais ONGs ambientalistas abandonaram o encontro, que deve acabar na noite de hoje em Varsóvia.

O maior objetivo da conferência é delinear um esboço para um acordo sobre redução de emissões de gases-estufa a ser fechado em 2015.

As ONGs, como Greenpeace, Oxfam e WWF, se dizem insatisfeitas com o ritmo das negociações e com países que voltaram atrás em compromissos ambientais.

Os articuladores estimam que 800 pessoas tenham abandonado a cúpula.

A ausência dos ambientalistas foi rapidamente percebida no Estádio Nacional de Varsóvia, onde acontecem as negociações. Além dos stands vazios, os corredores estavam em silêncio.

“Os governos deram um tapa na cara dos que sofrem com os perigosos impactos das mudanças climáticas”, disse KumiNaidoo, diretor-executivo do Greenpeace.

“Chegamos a um ponto tão difícil, com as coisas tão empacadas, que não havia outra solução. Não estamos abandonando o movimento, apenas essa conferência, que chegou a uma situação insustentável”, disse André Nahur, da WWF-Brasil.

A saída acontece após uma semana considerada de reveses pelos ambientalistas. O Japão anunciou que não vai cumprir suas metas de redução de emissões de gases-estufa e outros países ricos estão relutantes em destinar mais dinheiro à redução dos danos causados pela mudança climática. Na quarta-feira, o presidente da COP-19, MarcinKorolec, perdeu seu emprego como ministro do Meio Ambiente da Polônia.

Ele divulgou uma nota na qual lamenta a saída das ONGs. “Observadores não governamentais sempre mobilizaram os negociadores para maiores ambições.”

A decisão de abandonar as negociações não foi unanimidade. Após a saída do estádio, alguns manifestantes discretamente evitaram entregar seus crachás. “Quero voltar, o ato foi mais uma coisa simbólica”, disse uma ambientalista brasileira.

Enquanto ONGs e diplomatas mantiveram o tom pessimista ontem, o presidente da COP-19 enviou uma declaração à imprensa dizendo que as negociações avançaram.

“Após negociações que duraram a noite toda, atingimos um progresso considerável em financiamento climático. As conversas sobre a forma de um novo acordo global também entraram noite adentro. Estamos chegando perto do sucesso final.”

(Giuliana Miranda/Folha de S.Paulo)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/140054-ongs-abandonam-conferencia-do-clima.shtml

A internet e o “orgasmo democrático” (Outras Palavras)

06/11/2013 – 10h05

por Marcos Nunes Carreiro, do Outras Palavras

rede A internet e o “orgasmo democrático”

A emergente participação em rede não produzirá novas ideologias unitárias ou revoluções, mas poderá destruir o velho jogo da governança representativa.

Muito se fala de como as redes sociais vêm modificando o pensamento social e ampliando a capacidade de reflexão, sobretudo dos jovens, em razão da participação fundamental da internet nas manifestações e protestos que tomaram o Brasil nos últimos meses. As mani­festações já viraram pauta nas escolas e com certeza serão conhecidas das próximas gerações. Mas, afinal, qual é o papel político-social das redes sociais e da internet?

Há quem diga que o momento atual do Brasil é de orgasmo democrático, ao ver milhares de pessoas saindo às ruas em razão da situação político-econômica do país. E é realmente instigante acompanhar a efervescência da sociedade, até para quem não tem ânimo de participar. Todavia, há discordância quanto ao termo “orgasmo democrático”. O professor da Faculdade de Comu­nicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Magno Medeiros, por exemplo, diz que orgasmo é um fenômeno fugaz e de satisfação imediata, ao contrário do que vive o Brasil atualmente.

Para ele, o que ocorre, na verdade, é a erupção de uma dor crônica, sedimentada há várias décadas em torno da insatisfação em relação aos direitos de cidadania. “Direitos básicos, como ter um transporte urbano decente, como ter o direito de ser bem tratado na rede pública de saúde, como ter uma educação de qualidade e de acesso democrático a todos. O Brasil experimentou, nos últimos anos, avanços consideráveis no campo da redução das desigualdades sociais e da minimização dos bolsões de pobreza, mas os setores sociais pobres e miseráveis, que emergiram para a classe C, querem mais do que apenas consumir bens básicos como geladeira, fogão, computador, celular, etc. Eles querem ser tratados com dignidade”, diz.

Ideologia social

O autor da expressão que titula a matéria é o italiano Massimo Di Felice, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e PHD em sociologia pela Universidade Paris Descartes V, Sorbonne. Di Felice é professor da Escola de Comu­nica­ção e Artes da USP, onde fundou o Centro de Pesquisa Atopos e coordena as pesquisas “Redes digitais e sustentabilidade” e “Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais”.

O termo “orgasmo democrático” surgiu quando o professor foi questionado sobre como, antes, o que reunia milhares de pessoas eram ideologias políticas, e hoje já não é assim. Seria então possível afirmar que vivemos a época de um processo de criação democrática de ideologia social? Segundo Di Felice, a razão política ocidental moderna europeia, positivista e portadora de uma concepção unitária da história, criou as democracias nacionais representativas, que se articulavam pelo agenciamento da conflitualidade através dos partidos políticos e dos sindicatos. E a estrutura comunicativa dessas instituições, correspondente aos fluxos comunicativos da mídia analógica – imprensa, TV e jornais –, é centralizada e vertical, além de maniqueísta, isto é, divide e organiza o mundo em mocinhos e vilões, direita e esquerda, revolucionários e reacionários etc.

Contudo, as redes digitais criaram outros tipos de fluxo comunicativo, descentralizados, que permitem o acesso às informações e a participação de todos na construção de significados. “A razão política moderna é fálica e cristã, busca dominar o mundo, rotula pensamentos enquanto os simplifica, necessita de inimigos e promete a salvação. Já a lógica virtual é plural, se alimenta do presente e não possui ideologia, além de viver o presente ato impulsivo”, analisa.

Ele diz ser normal que a sociedade queira identificar e julgar os movimentos, rotulando-os por exemplo de “fascistas”, pois, segundo ele, a razão ordenadora odeia o novo e o que não compreende. “Porém, julgar os diversos não-movimentos que nasceram pelas redes (espontâneos e não unitários) é como julgar a emoção e a conectividade orgiástica (‘orghia’ em grego significa “sentir com”). A democracia do Brasil está passando de sua dimensão pública televisiva, eleitoral e representativa, para a dimensão digital-conectiva. O país está experimentando um orgasmo democrático. A lógica é, como diria Michel Maffesoli, dionisíaca e não ideológica.”

Segundo Di Felice, do ponto de vista sociopolítico, as arquiteturas informativas digitais e as redes sociais estão trazendo, no mundo inteiro, alterações qualitativas que podem ser classificadas em dez pontos: 1. A possibilidade técnica do acesso de todos a todas as informações; 2. O debate coletivo em rede sobre a questões de interesse público; 3. O fim do monopólio do controle e do agenciamento das informações por parte dos monopólios econômicos e políticos das empresas de comunicação; 4. O fim dos pontos de vista centrais e das ideologias políticas modernas (seja de esquerda ou direita) que tinham a pretensão de controlar e agenciar a conflitualidade social; 5. O fim dos partidos políticos e da cultura representativa de massa que ordenavam e controlavam a participação dos cidadãos, limitando-a ao voto a cada quatro anos.

A partir do sexto ponto, o professor classifica aquilo que trata da evolução sistêmica: 6. O advento de uma lógica social conectiva que se expressa na capacidade que as redes sociais digitais têm de reunir, em tempo real, uma grande quantidade de setores diversos e heterogêneos da população em torno de temáticas de interesse comum; 7. A passagem de um tipo de imaginário político baseado na representação identitária e dialética (esquerda-direita; progressistas-reacionários, etc.) para uma lógica experiencial, conectiva e tecno-colaborativa, que se articula não mais através das ideologias, mas através da experiência entre indivíduos, informações e territórios; 8. O advento de um novo tipo de gestão pública e de democracia; 9. A transformação da relação entre político e cidadão e do papel dos eleitos, que passam a ser considerados não mais como representantes do poder absoluto, mas porta-vozes e meros executores da vontade popular que os vigia a cada decisão; 10. A passagem de um imaginário político, baseado em uma esfera pública na qual a participação dos cidadãos era apenas opinativa, para formas de deliberação coletiva e práticas de decisão colaborativas que se articulam autonomamente nas redes. Acompanhe a entrevista:

Massimo Di Felice 350x200 A internet e o “orgasmo democrático”

Massimo Di Felice

Os protestos são organizados nas redes, mas nota-se que há líderes surgindo nas ruas. Como o senhor vê isso?

Os movimentos nascem nas redes, atuam em ruas, mas não em ruas comuns. Eles atuam em “ruas conectadas” e reproduzindo em tempo real, nas redes, os acontecimentos das manifestações. Através da computação móvel, debatem e buscam soluções continuamente, expressando uma original forma de relação tecno-humana e inaugurando o advento de uma dimensão meta-geográfica e atópica (do greco a-topos: lugar indescritível, lugar estranho, fora do comum). Embora o sociólogo espanhol Manuel Castells defenda que os movimentos sociais contemporâneos nascem nas redes e que somente depois, nas ruas, ganham maior visibilidade, não me parece ser esta a sua descrição mais apropriada. Ao contrário: o que está acontecendo em todas as ruas, em diversos países do mundo, é o advento de uma dimensão imersiva e informativa do conflito, que se exprime numa espacialidade plural, conectiva e informativa. Os manifestantes habitam espaços estendidos, decidem suas estratégias e seus movimentos nas ruas através da interação contínua nas “social networks” e da troca instantânea de informações. Não somente se deslocam conectados, mas a manifestação é tal e acontece de fato somente se é postada na rede, tornando-se novamente digital, isto é, informação. Não é mais possível pensar em espaços físicos versus espaços informativos. Os conflitos são informativos. Jogos de trocas entre corpos e circuitos informativos, experimentações do surgimento de uma carne informatizada, que experimenta as suas múltiplas dimensões: a informativa digital e a sangrenta material, golpeada e machucada. Ambas são reais e nenhuma é separada da outra, mas cada uma ganha a sua “veracidade” no seu agenciamento com a outra.

Todos esses dias de junho, em São Paulo, e em muitas outras capitais, jogamos games coletivos – todos fomos conectados a circuitos de informações, espaços e curtos-circuitos que alteravam nossos movimentos segundo as imagens e as interações dos demais membros do jogo. Todos experimentamos a nossa plural e interativa condição habitativa. O sangue dos manifestantes, golpeados pelos policiais, não caía apenas no chão das ruas, mas se derramava em espacialidades informativas. A polícia, através da computação móvel e das conexões instantâneas, tornou-se mídia, cúmplice de um ato informativo, e os manifestantes experimentaram o prazer de transformar seus corpos em informação. Transformar a polícia em mídia foi uma das grandes contribuições destes movimentos, que não possuem líderes nem direção única. Todas as tentativas oportunistas de direcionar e organizar os conjuntos de movimentos serão desmascaradas. Estamos falando da sociedade civil conectada e não deste ou daquele movimento social. Os atores destes movimentos, portanto, não são apenas os humanos, menos ainda alguns líderes. Não estamos falando de movimentos tradicionais que aconteciam nos espaços urbanos e industriais. Estamos, de fato, já em outro mundo.

Fora das redes, ainda há muita gente sem entender o que as manifestações significam, ou como elas surgiram. No ambiente virtual, há maior entendimento sobre o tema?

As manifestações do Brasil são expressões de uma transformação qualitativa que desde o advento da internet altera a forma de participação e o significado da ação social. O Centro de Pesquisa Atopos, da Universidade de São Paulo, está finalizando uma pesquisa internacional sobre o tema, com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

A pesquisa analisou as principais formas de net- ativismo em quatro países (Brasil, França, Itália e Portugal). Os resultados são interessantes e mostram claramente alguns elementos comuns que, mesmo em contextos diferentes, se reproduzem e aparecem como caraterísticas parecidas. Isso sublinha, mais uma vez, a importância das redes de conectividade e as caraterísticas tecno-informativas dessas expressões de conflitualidade que surgem na origem, na organização e nas formas de atuação destes movimentos. Em síntese, as principais caraterísticas comuns a todos eles são as seguintes: 1. O net-ativismo se coloca fora da tradição política moderna, pois expressa um novo tipo de conflitualidade que não tem como objetivo a disputa pelo poder. Todos os movimentos que marcam as diversas formas de conflitualidade contemporânea (os Zapatistas, os Indignados, Occupy Wall Street, Anonymous, M15 etc.) não têm como objetivo tornar-se partidos políticos e concorrer nas eleições. São todos explicitamente apartidários e contra a classe política. Reúnem-se todos contra a corrupção, os abusos e a incapacidade dessas mesmas classes políticas e de seus representantes; 2. São movimentos e ações que não estão organizados de forma tradicional, isto é, não são homogêneos, compostos por pessoas que se reconhecem na mesma ideologia ou em torno do mesmo projeto político. Ao contrário: são formas de protesto compostas por diversos atores e nos quais, como numa arquitetura reticular, as contraposições não são dialéticas e não inviabilizam a ação; 3. Possuem uma forma organizativa informal e, sobretudo, sem líderes e sem hierarquias; 4. O anonimato é um valor, não somente porque permite a defesa perante ações repressivas, mas porque é a forma através da qual é defendida a não-identidade, coletiva ou individual, de seus membros e das ações. Na tradição das ações net-ativistas, a ausência de identidade e a não visibilidade é o meio através do qual a conflitualidade não se institucionaliza, tornando-se, assim, irreconhecível, não identificável e capaz de conservar a sua própria eficácia conflitiva; 5. São movimentos ou ações temporários e, portanto, não duradouros, cujas finalidades e ambições máximas são o próprio desaparecimento.

Estes e outros elementos que encontramos em todas as ações net-ativistas são parte, já, de uma tradição que possui textos e reflexões que vão desde o cyberpunk até as contribuições de Hakim Bey, a guerrilha midiática de Luther Blisset, até a conflitualidade informativa zapatista. Os Anonymous e os Indignados e as diversas formas de conflitualidade digital contemporâneas são, na sua especificidade, a continuação disso. Não há uniformidade, nem pertença de nenhum tipo, mas inspiração.

A questão informativa é a grande façanha da tecnologia?

Na teoria da opinião pública, estamos assistindo a uma grande passagem do líder de opinião para o empreendedor cognitivo. O líder de opinião ganhava seu poder de persuasão através do poder midiático que lhe permitia, de forma privilegiada, através da TV ou das páginas de um jornal, alcançar grande parte da população de um país. Esta figura, geralmente um comentarista, um cientista político, um profissional da comunicação, um político ou uma personalidade pública, é hoje substituído no interior das novas dinâmicas dos fluxos informativos por outro tipo de informante e de mediador. Este é aquele que, por ter vivenciado ou por ter sido o próprio protagonista de um acontecimento, distribui, através das mídias digitais, diretamente, sem mediações, o acontecimento.

É o caso dos manifestantes que postaram tudo o que aconteceu nas ruas durante as manifestações. Nenhum comentarista ou líder de opinião conseguiu competir e disputar com eles outra versão dos acontecimentos. Eles, os manifestantes, fizeram a cobertura do evento com seus celulares, suas câmeras baratas, a partir do próprio lugar dos acontecimentos, ao vivo. A maioria das informações que circulavam foi produzida por eles. Isso foi possível porque existe uma tecnologia que permite que isso seja possível. Isto é, também um fato político que quebra em pedaços décadas de estudos sociológicos sobre a relação entre mídia e política, entre mídia e poder. A grande transformação que as redes digitais produzem é a interatividade. As pessoas conectadas buscam suas informações, as ordenam, obtêm mais fontes e elementos para avaliá-las. Digamos que, tendencialmente, a população é mais consciente, pois tem acesso direto a uma quantidade infinita de informações sobre qualquer tipo de assunto, tornando-se eles mesmos editores e criadores de conteúdo. Da mesma maneira, pelos mesmos dinamismos informativos, eles se tornam políticos, administradores e transformadores de suas cidades ou de suas localidades.

O senhor é europeu, mas vive há muitos anos na América Latina. Como difere o processo de expressão massiva entre os dois continentes?

Absolutamente não se distingue. Os movimentos possuem todos eles as mesmas características. Em cada país temos situações específicas e atores diferentes, mas que atuam de maneira análoga: através das redes digitais. Possuem a mesma específica forma de organização coletiva: não institucionalizada e sem hierarquia. Expressam as mesmas reivindicações: contra a corrupção dos partidos políticos, por maior transparência e eficiência, melhor qualidade dos serviços públicos. Desconfiam todos de seus representantes e querem decidir diretamente sobre os assuntos que lhes interessam.

Quais as consequências dessa posição que as manifestações assumem?

A rede é o “Além do Homem” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Não é fácil, no seu interior, construir éticas coletivas, nem majoritárias, pois o seu dinamismo é emergente e sua forma, temporária. A participação em rede não irá produzir novas ideologias unitárias, menos ainda revoluções, pois sua razão não é abstrata e universal, mas particular e conectiva, mutante e incoerente. Apenas poderá destruir o velho jogo vampiresco da governança representativa e partidária, pois esta não é mais representativa e gera um sistema baseado na corrupção, em que a corrupção não é exceção, mas regra e norma do jogo.

As ideologias políticas que prometiam a igualdade e a salvação do mundo fracassaram, não apenas em seu intento socioeconômico igualitário, mas naquele mais importante: de produzir um novo imaginário social e cultural que nos tornasse parte de uma sociedade mais justa, na qual pudéssemos nos tornar melhores do que somos. A não-ética coletiva das redes não será um decálogo de normas e uma visão de mundo organizada e proferida pela boca das vanguardas, ou dos líderes iluminados, sempre prontos a surfar uma nova onda, mas será muito mais humildemente particular. Não mudará o mundo, mas resolverá através da conectividade problemas concretos e específicos, que têm a ver com a qualidade do ar, o direito à informação, o preço do transporte público, a qualidade do atendimento nos hospitais, a qualidade da educação. Isto é: tudo aquilo que partido nenhum jamais conseguiu fazer.

Para certa esquerda, está em marcha o acirramento de um fascismo nas manifestações, cujo sintoma é a rejeição de partidos nas passeatas. Uma ala da direita, com o apoio da imprensa, também contesta as manifestações como sendo “armação” da esquerda.

É visível para todos o oportunismo e o desespero de uma cultura política da modernidade que se descobriu, de repente, obsoleta e fora da história. Nenhum partido de esquerda consegue hoje representar os anseios e as utopias sequer de uma parte significativa da população. Eles se encontram na singular e cômica situação do menino escoteiro que, para cumprir sua boa ação, tenta convencer a velhinha a atravessar a rua para poder ajudá-la. Só que a velhinha não quer cruzar a rua, mas deseja ir em outra direção. A lógica dialética, eurocêntrica e cristã, baseada na contraposição entre o bem e o mal, marca toda a cultura política da esquerda – que hoje se configura como uma religião laica, não mais racional nem propositiva, mas histérica.

O advento dos movimentos e das manifestações expressou com clareza o desaparecimento do papel de vanguarda, e a incapacidade histórica de análise e de abertura à diversidade e ao livre debate dos partidos. Como na lógica da salvação religiosa, o bom e o justo existem e justificam a sua função somente enquanto existe o mal. A caça às bruxas é uma exigência, a última tentativa de justificar sua função, e uma necessidade ainda de sua presença em defesa dos mais “fracos” e “necessitados”. Não excluo que, em casos não representativos, tenhamos tido a presença de grupos de alguns poucos e isolados indivíduos de direita. Mas a reação e a caça às bruxas que foi gerada é de natureza histérica e a-racional, a última tentativa de voltar no tempo e na história – um passado ameaçador em que havia necessidade de uma ordem, de uma ideologia e de uma vanguarda que representasse o confortador papel da figura paterna.

* Massimo Di Felice estará presente esta semana no I Congresso Internacional de Net-Ativismo, na USP, ao lado de outros pesquisadores renomados: Pierre Lévy, Michel Maffesoli, José Bragança de Miranda e Alberto Abruzzese. 

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

Manejo de água no país é crítico, afirmam pesquisadores (Fapesp)

Avaliação foi feita por participantes de seminário sobre recursos hídricos e agricultura, realizado na FAPESP como parte das atividades do Prêmio Fundação Bunge 2013 (Wikipedia)

09/10/2013

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – A gestão de recursos hídricos no Brasil representa um problema crítico, devido à falta de mecanismos, tecnologias e, sobretudo, de recursos humanos suficientes para gerir de forma adequada as bacias hidrográficas do país. A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do “Seminário sobre Recursos Hídricos e Agricultura”, realizado no dia 2 de outubro, na FAPESP.

O evento integrou as atividades do 58º Prêmio Fundação Bunge e do 34º Prêmio Fundação Bunge Juventude que, neste ano, contemplaram as áreas de Recursos Hídricos e Agricultura e Crítica Literária. Na área de Recursos Hídricos e Agricultura os prêmios foram outorgados, respectivamente, aos professores Klaus Reichardt, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), da Universidade de São Paulo (USP), e Samuel Beskow, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

“O Brasil tem problemas de gestão de recursos hídricos porque não há mecanismos, instrumentos, tecnologias e, acima de tudo, recursos humanos suficientemente treinados e com bagagem interdisciplinar para enfrentar e solucionar os problemas de manejo da água”, disse José Galizia Tundisi, pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia (IIE), convidado a participar do evento.

“É preciso gerar métodos, conceitos e mecanismos aplicáveis às condições do país”, avaliou o pesquisador, que atualmente dirige o programa mundial de formação de gestores de recursos hídricos da Rede Global de Academias de Ciências (IAP, na sigla em inglês) – instituição que representa mais de cem academias de ciências no mundo.

De acordo com Tundisi, as bacias hidrográficas foram adotadas como unidades prioritárias de gerenciamento do uso da água pela Política Nacional de Recursos Hídricos, sancionada em 1997. Todas as bacias hidrográficas do país, contudo, carecem de instrumentos que possibilitem uma gestão adequada, apontou o pesquisador.

“É muito difícil encontrar um comitê de bacia hidrográfica [colegiado composto por representantes da sociedade civil e responsável pela gestão de recursos hídricos de uma determinada bacia] que esteja totalmente instrumentalizado em termos de técnicas e de programas para melhorar o desempenho do gerenciamento de uso da água”, afirmou.

Modelagem hidrológica

Segundo Tundisi, alguns dos instrumentos que podem facilitar a gestão e a tomada de decisões em relação ao manejo da água de bacias hidrográficas brasileiras são modelos computacionais de simulação do comportamento de bacias hidrográficas, como o desenvolvido por Beskow, professor do Departamento de Engenharia Hídrica da UFPel, ganhador da atual edição do Prêmio Fundação Bunge Juventude na área de Recursos Hídricos e Agricultura.

Batizado de Lavras Simulation of Hidrology (Lash), o modelo hidrológico foi desenvolvido por Beskow durante seu doutorado, realizado na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, com um período na Purdue University, dos Estados Unidos.

“Há vários modelos hidrológicos desenvolvidos em diferentes partes do mundo – especialmente nos Estados Unidos e Europa –, que são ferramentas valiosíssimas para gestão e tomada de decisões relacionadas a bacias hidrográficas”, disse Beskow.

“Esses modelos hidrológicos são úteis tanto para projetar estruturas hidráulicas – pontes ou reservatórios –, como para fazer previsões em tempo real de cheias e enchentes, como para medir os impactos de ações do tipo desmatamento ou mudanças no uso do solo de áreas no entorno de bacias hidrográficas”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a primeira versão do Lash foi concluída em 2009 e aplicada em pesquisas sobre modelagem de chuva e vazão de água para avaliação do potencial de geração de energia elétrica em bacias hidrográficas de porte pequeno, como a do Ribeirão Jaguará, em Minas Gerais, que possui 32 quilômetros quadrados.

Em razão dos resultados animadores obtidos, o pesquisador começou a desenvolver, a partir de 2011, a segunda versão do modelo de simulação hidrológica, que pretende disponibilizar para os gestores de bacias hidrográficas de diferentes dimensões.

“O modelo conta agora com um banco de dados por meio do qual os usuários conseguem importar e armazenar dados de chuva, temperatura e umidade e uso do solo, entre outros parâmetros, gerados em diferentes estações da rede de monitoramento de uma determinada bacia geográfica e, que permitem realizar a gestão de recursos hídricos”, contou.

Uma das principais motivações para o desenvolvimento de modelos e de simulação hidrológica no Brasil, segundo o pesquisador, é a falta de dados fluviométricos (de medição de níveis de água, velocidade e vazão nos rios) das bacias hidrológicas existentes no país.

É baixo o número de estações fluviométricas cadastradas no Sistema de Informações Hidrológicas (HidroWeb), operado pela Agência Nacional de Águas (ANA), e muitas delas estão fora de operação, afirmou Beskow.

“Existem pouco mais de cem estações fluviométricas no Rio Grande do Sul cadastradas nesse sistema, que nos permitem obter dados de séries temporais de até dez anos”, disse o pesquisador. “Esse número de estações é muito baixo para fazer a gestão de recursos hídricos de um estado como o Rio Grande do Sul.”

Uso racional da água

Beskow e Klaus Reichardt – que também é professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) – destacaram a necessidade de desenvolver tecnologias para usar a água de maneira cada vez mais racional na agricultura, uma vez que o setor consome a maior parte da água doce prontamente disponível no mundo hoje.

Do total de 70% da água encontrada na Terra, 97,5% é salgada e 2,5% é doce. Desse percentual ínfimo de água doce, no entanto, 69% estão estocados em geleiras e neves eternas, 29,8% em aquíferos e 0,9% em reservatórios. Do 0,3% prontamente disponível, 65% são utilizados pela agricultura, 22% pelas indústrias, 7% para consumo humano e 6% são perdidos, ressaltou Reichardt.

“No Brasil, temos a Amazônia e o aquífero Guarani que poderão ser explorados”, afirmou o pesquisador que teve projetos apoiados pela FAPESP.

Reichardt ganhou o prêmio por sua contribuição em Física de Solos ao estudar e desenvolver formas de calcular o movimento de água em solos arenosos ou argilosos, entre outros, que apresentam variações. “Isso foi aplicado em vários tipos de solo com condutividade hidráulica saturada em função da umidade, por exemplo”, contou.

O pesquisador vem se dedicando nos últimos anos a realizar, em colaboração com colegas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tomografia computadorizada para medida de água no solo. “Por meio dessa técnica conseguimos desvendar fenômenos muito interessantes que ocorrem no solo”, disse Reichardt.

Custo da inanição

O evento contou com a presença de Eduardo Moacyr Krieger e Carlos Henrique de Brito Cruz, respectivamente vice-presidente e diretor científico da FAPESP; Jacques Marcovitch, presidente da Fundação Bunge; Ardaillon Simões, presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), e José Antônio Frizzone, professor da Esalq, entre outras autoridades.

Em seu pronunciamento, Krieger apontou que a Fundação Bunge e a FAPESP têm muitas características em comum. “Ao premiar anualmente os melhores pesquisadores em determinadas áreas, a Fundação Bunge revela seu cuidado com o mérito científico e a qualidade das pesquisas”, disse Krieger.

“A FAPESP, de certa forma, também faz isso ao ‘premiar’ os pesquisadores por meio de Bolsas, Auxílios e outras modalidades de apoio, levando em conta a qualidade da pesquisa realizada.”

Brito Cruz ressaltou que o prêmio concedido pela Fundação Bunge ajuda a criar no Brasil a possibilidade de pesquisadores se destacarem na sociedade brasileira por sua capacidade e realizações intelectuais.

“Isso é essencial para se construir um país que seja dono de seu destino, capaz de criar seu futuro e enfrentar novos desafios de qualquer natureza”, disse Brito Cruz. “Um país só consegue avançar tendo pessoas com capacidade intelectual para entender os problemas e criar soluções para resolvê-los.”

Por sua vez, Marcovitch avaliou que o problema da gestão do uso da água no país pode ser enfrentado de duas formas. A primeira parte da premissa de que o país está deitado em berço esplêndido, tem recursos naturais abundantes e, portanto, não precisaria se preocupar com o problema. A segunda alerta para as consequências da inação em relação à necessidade de se fazer gestão adequada dos recursos hídricos do país, como Tundisi vem fazendo, para estimular pesquisadores como Beskow e Reichardt a encontrar respostas.

“[Nós, pesquisadores,] temos a responsabilidade de elevar a consciência da sociedade sobre os riscos e o custo da inação em relação à gestão dos recursos hídricos do país”, disse.

As causas da grande mobilização indígena (Outras Palavras)

Ambiente

07/10/2013 – 11h49

por Marcelo Degrazia*

 As causas da grande mobilização indígena

Quais os projetos de mineradoras, madeireiras e ruralistas para avançar sobre territórios e direitos dos índios. Como tramitam, em silêncio, no Congresso Nacional

A Mobilização Nacional Indígena, deflagrada ao longo desta semana, é uma luta pela defesa dos direitos indígenas adquiridos e para barrar uma avalanche devastadora, liderada pela Frente Parlamentar do Agronegócio. A luta é pela terra, sua posse e uso. A convocação foi da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e envolve organizações indígenas e indigenistas de diversas partes do país, agora articuladas e em luta.

A linha do tempo vai até as caravelas de Cabral, mas vamos tomá-la a partir deste ano, para compreender melhor o contexto atual. Em 16 de abril, cerca de 300 índios ocuparam o plenário da Câmara, em protesto contra a instalação de Comissão Especial para analisar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que torna praticamente impossível a demarcação das terras indígenas, ao tirar esta prerrogativa da Fundação Nacional do Índio (Funai) e transferi-la ao Congresso Nacional.

Na ocasião o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), prometeu não instalar a comissão antes do final de agosto. A Casa criou então um grupo de trabalho para discutir a condição dos índios no Brasil, cujo relatório seria um subsídio importante para a decisão de constituir ou não a comissão. Integraram o grupo lideranças indígenas, deputados ruralistas e parlamentares que defendem os direitos dos índios. Segundo Lincoln Portela (PR-MG), mediador do grupo, “basicamente aprovamos a rejeição da PEC 215.” A rejeição, concluindo pela inconstitucionalidade do projeto, foi por unanimidade dos presentes, já que nenhum parlamentar da frente do agronegócio compareceu às reuniões.

Na noite de 10 de setembro, contrariando o parecer do grupo de trabalho criado por ele mesmo, Henrique Eduardo Alves instituiu a Comissão Especial para analisar a PEC 215. Alves estaria atendendo compromisso assumido com a bancada ruralista durante sua campanha para a presidência da Câmara. Muitos dos 27 deputados indicados então para a Comissão Especial integram a frente do agronegócio e são autores de projetos que suprimem direitos dos índios, como veremos.

Nessa semana da Mobilização, Alves pretendia instalar a Comissão Especial, com a indicação do relator e do presidente – mas teve de recuar diante das manifestações.

A PEC 215, de 2000, é de autoria do ex-deputado Almir Sá (PRB-RR), atualmente presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Roraima. Ela estabelece a competência exclusiva do Congresso Nacional para aprovar a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas e ratificar as demarcações já homologadas – hoje atribuições exclusivas do Executivo, que as executa por meio da Fundação Nacional do Índio (Funai). Na avaliação de organizações indígenas e indigenistas, na prática significará o fim de novas demarcações. O risco não seria apenas para o futuro, mas também para hoje, pois das 1.046 terras já demarcadas apenas 363 estão regularizadas. As demais, ainda em processo por vários fatores, ficariam com sua homologação na dependência do Congresso. “Como contamos nos dedos quantos congressistas defendem a causa indígena, com certeza nenhuma terra será demarcada”, considera Ceiça Pitaguary, líder do movimento indígena do Ceará.

“A PEC é flagrantemente inconstitucional”, afirmou Dalmo Dallari, professor de direito da Universidade de São Paulo, ao Instituto Socioambiental (ISA): ela não respeita a separação dos poderes. As demarcações e homologações são atribuições do Executivo, procedimentos de natureza administrativa; ao Legislativo compete legislar e fiscalizar. Para alguns antropólogos, o direito à ocupação dessas terras é originário, e está assegurado na Constituição – as demarcações são apenas reconhecimento desse direito pré-existente.

A opinião de Carlos Frederico Maré, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná vai na mesma direção. Ex-presidente da Funai, ele sustenta que a demarcação é um procedimento eminentemente técnico. Em entrevista ao ISA, disse que “a Constituição não deu direito à demarcação. Deu direito à terra. A demarcação é só o jeito de dizer qual é a terra. Quando se coloca todo o direito sobre a demarcação retira-se o direito à terra, porque então ele só existirá se houver demarcação. É isso que está escrito na PEC: que não há mais direitos originários sobre a terra. Muda-se a Constituição, eliminando-se um direito nela inscrito.”

O Projeto de Lei (PL) 1.610, de 1996, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), dispõe sobre a exploração e o aproveitamento de recursos minerais em terras indígenas. Foi apresentado a pretexto de defender o “interesse nacional” (a ser explorado pela iniciativa privada, conforme o Código de Mineração). Se aprovado, irá se converter em lei complementar ao artigo 231 (Capítulo VIII) da Constituição. O senador pediu regime de urgência. Quer votar, portanto, sem muita discussão, e a matéria só não foi submetida à apreciação da Casa devido à mobilização em torno do tema. Na prática, talvez seja tão ou ainda mais danosa que a PEC 215. E não seria de duvidar que esta estaria sendo o boi de piranha, já que o governo mostrou-se receptivo ao PL 1.610.

Já o PL 227, de 2012, retrata cruamente um dos aspectos centrais do chamado “sequestro da democracia” pelas instituições que deveriam expressá-la. Foi proposto pelo deputado Homero Pereira (PSD-MT), ex-presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio, a princípio com redação que visava dificultar as futuras demarcações de terras indígenas. Fazia-o diluindo atribuições da Funai e incluindo, entre as comissões encarregadas de definir novos territórios, os proprietários de terra. Já em sua origem era, portanto, anti-indígena.

Mas tornou-se muito pior, ao tramitar pela comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural da Câmara. Sem que tenha havido debate algum com a sociedade, os deputados que integram a comissão transformaram inteiramente sua redação. Converteram-no num projeto de lei que, se aprovado, revogará na prática, pela porta dos fundos, o Artigo 231 da Constituição.

Tal dispositivo trata dos direitos indígenas. Reconhece “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. Estabelece uma única exceção: em situações extremas, em que houvesse “relevante interesse público da União”a exclusividade dos indígenas seria flexibilizada e seus territórios poderiam conviver com outros tipos de uso. Esta possibilidade, rara, precisaria ser definida em lei complementar.

Na redação inteiramente nova que assumiu, o PL 227/2012 é transformado nesta lei complementar. E estabelece, já em seu artigo 1º, um vastíssimo leque de atividades que poderão ser praticadas nas terras indígenas. Estão incluídas mineração, construção de hidrelétricas, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, oleodutos, gasodutos, campos de treinamento militar e muitos outros.

Um inciso (o VIII), de redação obscura, procura ampliar ainda mais as possibilidades de violação dos territórios índios. Estabelece que é também “de relevante interesse público da União” a “legítima ocupação, domínio e posse de terras privadas em 5 de outubro de 1988”. Embora pouco claro, o texto dá margem a uma interpretação radical. A data mencionada é a da entrada em vigor da Constituição – quando foram reconhecidos os atuais direitos indígenas. Estariam legitimados, portanto, os “domínios e posses de terras privadas” existentes antes da Carta atual. Em outras palavras, a legislação recuaria no tempo, para anular na prática as demarcações que reconheceram território indígena e afastaram deles os ocupantes ilegítimos.

A PEC 237, de 2013, é de iniciativa do deputado Nelson Padovani (PSC-PR), titular do PSC na Comissão Especial da PEC 215, integrante da comissão do PL 1.610 e um dos signatários do pedido de criação da CPI da Funai, uma das estratégias da Frente para enfraquecer o órgão federal, já penalizado por redução de verbas. Essa PEC, se aprovada, tornará possível a posse indireta de terras indígenas a produtores rurais na forma de concessão. Será a porta de entrada do agronegócio aos territórios demarcados, e essa possibilidade tem tirado o sono de indígenas e indigenistas.

portaria 303, de iniciativa da Advocacia Geral da União (AGU) em 16/07/2012, é outro dispositivo que tolhe direitos indígenas, com tom autoritário, em especial no inciso V do art. 1º, em que o usufruto dos índios não se sobrepõe ao interesse da política de defesa nacional (!), à instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares, à expansão estratégica da malha viária, à exploração de alternativas energéticas de cunho estratégico e ao resguardo das riquezas de cunho estratégico, a critério dos órgãos competentes (Ministério da Defesa e Conselho de Defesa Nacional), projetos esses que serão implementados independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à Funai (grifo nosso).

É a pavimentação para o avanço econômico do capitalismo sem fronteiras, além de contrariar a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 1989, assinada pelo Brasil, a qual assegura o direito de os povos indígenas serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetar seus bens ou direitos.

Todas essas iniciativas legais têm por objetivo possibilitar o avanço do agronegócio e da exploração de lavras minerais sobre as terras indígenas. Assim se permitiria inclusive a intrusão em territórios de nações não contatadas. Basta um simples olhar na autoria dos projetos, na trajetória negocial de seus autores e apoiadores, em suas relações comerciais com o agronegócio nacional e estrangeiro e na sua atuação articulada através de uma Frente Parlamentar para se ter certeza de que o interesse econômico é privado, setorista e excludente, em nada aparentado ao interesse nacional, do bem comum ou da União. Se há diversificação de interesses nos projetos, é na razão direta da fome, mas de lucros, do agronegócio, da bancada ruralista, das mineradoras, das madeireiras e empreiteiras.

Marcelo Degrazia é escritor. Autor de A Noite dos Jaquetas-Pretas e do blog Concerto de Letras.

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

Antropólogos x ruralistas

JC e-mail 4826, de 03 de Outubro de 2013.

A Constituição em perigo

Ruralistas tentam tornar legais as transgressões da lei. Primeiro foi o Código Florestal. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas

Artigo de Manuela Carneiro da Cunha* publicado na Folha. Há 25 anos, em 1988, uma nova Constituição afirmou que o país queria novos rumos

O capítulo dos direitos dos índios na Constituição de 1988 foi emblemático dessa postura. Não tanto pelo reconhecimento do direito dos índios à terra, que já figurava em todas as Constituições do século 20. Mais significativo foi o abandono da ideia –esta do século 19– de que a missão da chamada civilização consistia em fazer os índios deixarem de ser índios. Em vez disso, pela primeira vez, celebrou-se a diversidade como um valor a ser preservado.

Em 1988, as expectativas de mineração e construção de hidrelétricas em áreas indígenas já eram contrárias à afirmação dos direitos dos índios. No entanto, a Confederação Nacional dos Geólogos se opôs aos interesses das mineradoras e entendeu que as terras indígenas constituíam uma reserva mineral. Ou seja, elas deveriam ser as últimas a serem consideradas para mineração, quando o minério fosse de interesse estratégico indiscutível e não houvesse alternativa no território nacional.

Na Constituinte, chegou-se finalmente a um acordo: exceções às garantias de usufruto exclusivo dos índios sobre suas terras, somente em caso de relevante interesse da União. Foi o parágrafo 6º do artigo 231 da CF. O entendimento era de que cada caso seria debatido e sua excepcionalidade comprovada.

Agora, 25 anos mais tarde, as exceções pretendem se tornar a regra. Como? Definindo –a pretexto de regulamentar o tal parágrafo– o “relevante interesse da União” de uma forma tão genérica e tão ampla que tudo caiba nela. Pasme: passa a ser de “relevante interesse nacional” qualquer mineração e hidrelétrica, é claro, além de estradas, oleodutos, gasodutos, aeroportos, portos fluviais e até assentamentos agrários. E no final, a pérola que trai a origem da manobra: podem ser “de relevante interesse da União” até terras indígenas intrusadas, com títulos contestáveis.

Esse é o teor de um projeto de lei complementar na Câmara, de origem ruralista, o PLP 227/2012. Outro projeto, de redação mais sutil, mas com efeitos até piores, foi apresentado recentemente pelo senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, e, sem sequer ainda ter número, deve ter rápida tramitação. Deve-se reconhecer a esperteza da manobra, que pretende acabar de uma vez com todas as restrições.

O que está acontecendo? A bancada ruralista, aliada à bancada da mineração, está tomando conta do nosso Congresso. Por outro lado, desde 1988, as terras públicas remanescentes foram sendo destinadas para se garantir o que interessa ao Brasil como um todo, por exemplo a conservação ambiental.

A investida dos ruralistas, agora em posição de força no Congresso –e, portanto, no governo também– é no sentido de tornar legais todas as transgressões da lei que já eram praticadas. Primeiro foi o Código Florestal, desfigurado há dois anos, que anistiou os desmatamentos irregulares. Agora querem legalizar o esbulho de terras indígenas.

Na tentativa de influenciar a opinião pública, os ruralistas usam como fachada os pequenos agricultores. A situação hoje é a seguinte: a definição de áreas de conservação ambiental e a demarcação de terras indígenas e de quilombolas estão paradas. Multiplicaram-se os projetos de lei e de emendas constitucionais que lhes são hostis.

Um exemplo gritante é a proposta de emenda constitucional (PEC) 215, que quer tirar do Executivo e passar para o Congresso a demarcação das terras indígenas, o que, na prática, significa o fim das demarcações.

Por toda esta semana, índios e não índios protestam contra o desmantelamento do capítulo “Dos Índios” na Constituição Federal. Mas esse não é só um ataque aos índios. É todo o nosso projeto de futuro que está em jogo.

*Manuela Carneiro da Cunha é antropóloga, é membro da Academia Brasileira de Ciências e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo e da Universidade de Chicago

(Folha de S.Paulo)

 

É hora de defender o Brasil

Artigo de Luis Carlos Heinze* publicado na Folha. Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais e sem isenção e laudos tendenciosos prevalecem na farsa indigenista

O princípio da legalidade no Brasil é o de que a administração nada pode fazer senão o que a lei determina –e essa é justamente uma das principais garantias do cidadão.

Esse preceito, porém, não é observado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que, de forma arbitrária e ideológica, desrespeita até a Constituição. Impedir que seus atos sejam analisados por outros órgãos, como faz com o apoio do Ministério Público, é ainda uma afronta ao sistema democrático.

Com insistência, a Funai identifica pretensas terras indígenas por meio de procedimentos administrativos de natureza inquisitória. O resultado é a insegurança jurídica.

O direito ao contraditório e à defesa foram extintos. A perda da propriedade é a pena imposta a legítimos detentores de terras de forma afrontosa à cláusula pétrea do dispositivo constitucional.

Demarcações fundamentadas em estudos antropológicos superficiais, sem a necessária isenção, e laudos tendenciosos e fraudulentos prevalecem na farsa indigenista. A evidência é tanta que a Procuradoria-Geral da República firmou acordo com a Associação Brasileira de Antropólogos, e a Funai contrata apenas os profissionais sugeridos para desenvolver seus estudos, que são, claro, favoráveis aos indígenas.

Apoiada por interesses de ONGs, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e por setores do Ministério Público, a Funai se porta como um poder judiciário paralelo –ela mesma denuncia, julga e condena.

Com tantas irregularidades, apropriação de poderes e interpretações equivocadas, defendemos a aprovação da PEC 215 para esclarecer o que a Carta Magna estipula: é o Congresso Nacional que disciplina os bens da União. E o que são terras indígenas? Bens da União. Resta óbvio que os limites desses territórios são de competência do Legislativo. A PEC só faz reafirmar esse poder.

Também discutimos a regulamentação do artigo 231 da lei suprema para impor um marco temporal às demarcações, por meio do projeto de lei complementar (PLP) 227/12. Que mais uma vez é redundante: a Carta de 88 é claríssima ao expor que “a União concluirá as demarcações das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Constitucionalmente, esse é o prazo legal para as delimitações e deve ser respeitado rigorosamente. Hoje, 25 anos após a promulgação, existem mais de 500 processos em andamento e, a cada dia, surge um novo.

Segundo a Funai, no Brasil, há 110 milhões de hectares reconhecidos como terras indígenas –13% do território brasileiro– para atender uma população que não ultrapassa 900 mil índios –0,4% da população. Não bastasse, a Funai ainda quer mais 40 milhões de hectares –e não haverá limites, se não barrarmos o abuso.

Mais estranho ainda é o apoio do Ministério Público à Funai, ao desmerecer seu papel institucional de guardião da Constituição. É chegada a hora de defendermos o Brasil. Nós, deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, vamos impor esse respeito, para o bem do país e de seus cidadãos.

LUIS CARLOS HEINZE* é engenheiro agrônomo, deputado federal (PP-RS) e líder da Frente Parlamentar da Agropecuária

(Folha de S.Paulo)

Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais (IHU On-Line)

Sociedade

02/10/2013 – 11h26

por Redação do IHU On-Line

pescadores artesanais alto uruguai 370x230 Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais

Foto: http://bit.ly/1fNDm5V

Com a privatização das águas, “não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal”, adverte a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais.

Responsável por 70% da produção de pescado no país, a pesca artesanal está ameaçada pelo Projeto do Ministério da Pesca e da Aquicultura, denominado pelo movimento dos pescadores e pescadoras tradicionais de “privatização das águas públicas dos mares”.

Trata-se da Cessão de águas Públicas lançada em editais no mês de junho (Licitações: 11/2013- 12/2013-13/2013-14/2013), que transfere determinada área do mar para grupos que pretendem cultivar uma determinada espécie de peixe. Segundo a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, Elionice Sacramento, já serão privatizadas áreas em cinco estados brasileiros, sendo “três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Elionice enfatiza que “quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal”. Com o passar do tempo, acentua, o órgão passou a adotar políticas “que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil”.

Elionice Sacramento é integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O que caracteriza a privatização das águas públicas e qual é o objetivo desta privatização? Em que consiste essa política desenvolvida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura?

Elionice Sacramento – Queria dizer que quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal. Depois percebemos que ele estava adotando políticas que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil. Então, o governo passou a ver o Ministério como um espeço de promoção política de alguns deputados, tanto que se criou um esquema de corrupção muito grande no Ministério no que diz respeito à documentação de pescadores. Daí para frente começamos a ouvir falar em um projeto de privatização das águas públicas.

Em junho, foi lançado no país um edital para a privatização de áreas de quatro estados brasileiros, ou seja, serão privatizadas três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais. Trata-se de um modelo que passa por cima das comunidades tradicionais que utilizam aquele espaço com uma relação de respeito com o mar e que interessa às forças capitalistas.

IHU On-Line – Como funciona esse processo de privatização das águas?

Elionice Sacramento – Foi lançado um edital, os interessados demonstram seus interesses, concorrem a esses espaços. Após a licitação, o grupo interessado terá direito de fazer uso daquele espaço durante 20 anos e pagar uma quantia mínima aos cofres públicos.

IHU On-Line – O que a privatização das águas públicas significa para as comunidades tradicionais, especialmente, as pesqueiras? Além das comunidades, quem mais será prejudicado com a privatização desses espaços?

Elionice Sacramento – Não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal. Então, os turistas serão prejudicados, e o comércio dessas regiões também, porque esses pescados que são produzidos em cativeiro são pescados para exportação, e não para uso nacional. Por outro lado, haverá um processo de desequilíbrio do meio ambiente, porque espécies estranhas serão cultivada no mar, e o lixo produzido por elas ficará no mar.

Sem contar que os pescadores e pescadoras artesanais desempenham um papel fundamental no Brasil. Nós somos guardiões de uma tradição milenar, somos produtores de alimento, porque 70% de todo pescado produzido no país vem da pesca artesanal. Então, essa tradição só se manteve durante tantos anos porque estabelecemos com a natureza uma relação de completo respeito, uma relação de amor, mas principalmente uma relação de dependência e de respeito.

Respeitamos os períodos de reposição dos peixes, e agimos de acordo com a determinação da natureza. Esses processos industriais não têm respeito com nada. Eles atropelam tudo, desmontam processos de organização que já existem nas comunidades.

IHU On-Line – Já existem editais lançados para a compra de corpos d’águas em alguns estados. Do ponto de vista legal, como o movimento vem contestando os editais e esse processo de privatização?

Elionice Sacramento – Esse edital lançado em junho feriu algumas leis e alguns acordos internacionais. Por exemplo, o princípio de consulta às comunidades tradicionais não foi cumprido.

Então, as comunidades que fazem uso desses espaços não foram consultadas sobre esse processo de privatização das águas públicas. E isso já é motivo de ilegalidade do processo.

Quando o edital foi lançado na Bahia, o ministro em exercício à época não quis ouvir os integrantes do movimento e disse que apenas uma pessoa poderia falar. Quando nós nos negamos a aceitar essa proposta, o ministro levantou e disse que não ficava no encontro. Não houve nenhum tipo de diálogo com a comunidade. Por outro lado, nós visitamos a Secretaria de Patrimônio da União, que foi quem regularizou as áreas da água para ceder ao Ministério da Pesca, e questionamos por que os territórios não estão sendo cedidos aos pescadores, e sim para a apicultura. Segundo as pessoas que nos receberam, existia a Secretaria de Patrimônio da União desconhecia o porquê de essas áreas não serem destinadas para a pesca artesanal.

Então, entramos com um recurso contestando a ilegalidade do processo, fomos até a 6ª Câmara Federal, procuramos a Promotora Deborah Duprat, e também outros cinco promotores. Todos receberam esse processo com muita indignação.

IHU On-Line – Os editais determinam que as empresas vencedoras das licitações devem promover um número mínimo de empregos. Como você enxerga esse ponto específico?

Elionice Sacramento – A maioria dos empreendimentos, quando chegam às comunidades, apontam a justificativa de que vão gerar empregos. Por conta disso, esses empreendimentos acabam recebendo a aceitação de políticos e de pessoas que não têm vocação para a pesca. Só que isso é enganação. Temos muita clareza de que o discurso do emprego não é verdadeiro, até porque o processo que querem implementar é muito industrial.

IHU On-Line – Quais apoios são importantes no processo de luta para impedir a privatização das águas públicas?

Elionice Sacramento – Nós estamos em campanha pela própria ação e regularização dos territórios pesqueiros. Nessa campanha foi pensado um projeto de iniciativa popular onde a sociedade brasileira vai dizer, através de assinaturas, se concorda que o território pesqueiro seja protegido. Também temos divulgado o trabalho dos pescadores, porque somos invisível nesse país. Parece que a sociedade não sabe de onde vem o peixe que gostamos de comer.

IHU On-Line – Você gostaria de acrescentar algo?

Elionice Sacramento – Gostaria de sugerir que as pessoas acessem o nosso blog, assinem o abaixo assinado pela Campanha da Regulamentação dos Territórios Pesqueiros, e compreendam a importância da pesca artesanal e dos pescadores e pescadoras.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Todo o universo indígena está a perigo (Carta Capital)

Sociedade
02/10/2013 – 01h15

por Felipe Milanez*

indigenascapa 300x225 Todo o universo indígena está a perigo

Foto: Reprodução/ Internet

“A situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave”, afirma Sydney Possuelo, presidente da Funai durante o governo Collor.

Presidente da Funai durante o governo Collor, Sydney Possuelo foi o responsável pela demarcação da terra indígena Yanomami. É tido como criador do departamento de índios isolados da Funai (atual Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato), responsável por institucionalizar a postura de não-contato com os povos indígenas em isolamento voluntário.

O tema é complexo, e hoje, a situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave. Em várias situações, como entre os awa-guaja no Maranhão, ou os Piripkura no norte do Mato Grosso, ou grupos isolados Yanomami, a situação é de risco grave de genocídio.

A qualquer momento, um desastre pode acontecer, com um ataque feito por madeireiros ou garimpeiros, nesses casos citados, podendo ocasionar o extermínio massivo de uma população. Ou seja: o crime de genocídio. E muitas obras do governo atingem diretamente essas áreas ocupadas por povos isolados, desde prospecção de petróleo no Vale do Javari a Usina Belo Monte. Para Possuelo, “Todo o universo indígena está a perigo, inclusive os isolados”.

CartaCapital: O que está acontecendo hoje, como explicar esse ataque aos direitos indígenas?

Sydney Possuelo: De um modo geral, a sociedade nacional nunca gostou de índio. Hoje, se soma a essa postura histórica de nunca gostar e não respeitar, a ação governamental que se alia aos tradicionais inimigos dos povos indígenas. O agronegócio, no Brasil, esta aliado ao governo. O governo está mais desmatando do que tudo. As grandes obras nacionais, hidrelétricas, que também se aliam ao governo porque é o governo que esta fazendo. Há um monte de ONG que dependem do governo, e elas não tem mais voz. Dentro da Funai não se encontra mais nenhum defensor dos índios. Aquela Funai antiga, que vários companheiros faziam da Funai um órgão de luta de defesa dos povos indígenas, hoje não existe mais.

Há ha uma convergência de fatores, vários fatores tradicionalmente anti-indígena, e todos convergem junto do governo por interesses. Uma situação que faz recrudescer a tradicional indiferença nacional com os povos indígenas. E, contra os índios, o agronegócio, o grande desenvolvimento a qualquer preço, as obras. Essas convergências se misturam com ausência de pessoas e fatores, e a própria imprensa, que antigamente era mais atuante a favor dos povos indígenas. Na imprensa, de um modo geral, os artigos são contra os povos indígenas. Não se tem vozes nacionais que se levantem na defesa. Todos calados, alimentando esse processo do governo com suas obras, a ideia do “Brasil grande” que precisa se desenvolver.

CC: Qual a ameaça dessas mudanças legislativas (PEC 215, PLP 227) para o futuro?

SP: Os índios estão mais ameaçados. Antigamente, a esperança era maior. Porque tínhamos muita atividade indigenista, demarcávamos terra, bastante vozes se levantavam na imprensa, grupos, entidades, falavam sobre os povos indígenas. Existia mais esperança. Hoje, é o contrario. A esperança diminui e aumenta as dificuldades para os povos indígenas. O resultado é que desde 1500 até hoje, com pequenos momentos mais leves na nossa historia politica, todo o processo ameaça os povos indígenas. A sociedade até entende, mas a ganancia e a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer negócios predominam. Fatores que atuavam isoladamente, hoje estão todos juntos. Todo mundo em volta do governo, que é o elemento que converge esses interesses, que subordina a todos. Eu vejo esse governo como um dos mais nefastos com relação aos povos indígenas, desde a entrada do lula até hoje. A postura é: vamos desenvolver. O índio permanece sendo o entrave.

CC: Como esse processo de força contrário aos índios se tornou tão poderoso e influente?

SP: O polarizador foi o governo, com bilhões de reais, ele faz a estrada, e quem faz a estrada esta a favor do governo, é a empreiteira, o governo deixa desmatar, “autoriza”. E o governo alimenta essa situação porque o que eles querem é a produção de mais carne, de mais soja para mais gente criar boi na Europa e na China. Os interesses do governo convergem com parte da sociedade nacional, os construtores de estrada, os chamados desbravadores.

CC: O que pode ser feito? Ou o que deveria ser feito no Brasil?

SP: Não é simples, e não basta simplesmente mudar o governo. Historicamente, os governos de centro ou esquerda ou direita, seja qual for a tendência, sempre foram contrários aos índios. Uns mais, outros menos. Não acredito que venha um governo de centro, ou de direita, que vai transformar. É uma coisa incorporada a nossa sociedade, por vários motivos histórico. Como vamos ter um órgão a favor dos índios se o governo não se porta a favor dos índios. E não falo só do federal, mas o estadual e municipal: todos são contrários aos índios. Na época das demarcações que fizemos nos meus dois anos de presidência da Funai, tivemos uma ação demarcatória muito positiva, no governo Collor. Em um ano duplicamos a superfície de terras indígenas no brasil. Houve momento em que essa situação estava melhor, como voltar a uma atividade mais respeitosa. Como respeitar os povos indígenas se a gente não se respeita? Somos uma sociedade que tem que caminhar muito.

CC: E como está a situação dos povos indígenas isolados, tema com o qual o senhor trabalhou durante muitos anos?

SP: A situação dos índios isolados está igual a dos outros povos: de mal a pior. tudo aquilo que fizemos com a criação do departamento de índios isolados, com seis ou sete equipes funcionando, mantendo a terra, dando um pouco de sossego para os índios, tudo aquilo se perdeu. Perdeu-se a motivação porque não tem mais aquelas pessoas, que foram anuladas e mandadas embora, e a começar por mim mesmo, mas, todos os que contribuíram de alguma forma. Antes da criação desse departamento e toda a filosofia que eu implantei, cada um fazia aquilo que queria. Fizemos uma filosofia de não contato, porque são sociedades vulneráveis, e somos tão grande, porque não sermos um pouco generosos e deixá-los nas sua áreas? As frentes estão abandonadas, não tem pessoas motivadas trabalhando nelas. Os índios isolados estão tão a perigo quanto os que estão contatados. Todo o universo indígena esta a perigo, inclusive os isolados.

Eu não consigo ver lados positivos em qualquer desenvolvimento que não respeite as populações diretamente afetadas, que não considere elas, que não faça obras de atenuação dos impactos. Impactos sempre vão ocorrer, mas convém atenuar. Senão não é desenvolvimento nem sustentável nem ético.

* Felipe Milanez é pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Felipe Milanez escreve sobre meio ambiente, conflitos sociais e questões indígenas. É também pesquisador visitante na Universidade de Manchester e integra o European Network of Political Ecology (Entitle). Twitter: @felipedjeguaka

** Publicado originalmente no site Carta Capital.

Entrevista com Pablo Ortellado (Desentorpecendo a razão)

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Por Coletivo DAR e Desinformémonos, 10/09/2013

Com trajetória de ativismo primeiro no movimento punk e depois nas lutas antiglobalização da virada dos 1990 para os 2000, Pablo Ortellado hoje é professor de gestão de políticas públicas na USP Leste. Referência para os ativistas do movimento autônomo e autor de “Estamos vencendo: resistência global no Brasil”, Ortellado lançará nos próximos dias o livro “20 centavos: a luta contra o aumento”, escrito em parceria com Elena Judensnaider, Luciana Lima e Marcelo Pomar, e foi exatamente para entender a conjuntura das lutas sociais após o explosivo mês de junho, tema do livro, que ele encontrou um espaço em sua reta final de escritura para conversar com o Coletivo DAR e oDesinformémonos, que nessa postagem em comum esperam contribuir para a reflexão em torno do que compartilham, a busca pela transformação e pela autonomia.

Na entrevista, Ortellado traça um rico panorama do que foi o movimento autônomo em São Paulo e no Brasil desde suas origens, reflexão que ganha ainda mais importância em um momento em que todos buscam aprender e apreender as lições de horizontalidade e ação direta trazidas pelas mobilizações massivas ocorridas pelo país. Ele comenta as raízes zapatistas do movimento e como este desde seu princípio foi identificado com tecnologias que em verdade foram criadas em seu interior, e situa a importância de iniciativas como o Centro de Mídia Independente (CMI) no processo.

Além de imprescindíveis reflexões sobre o que o MPL tem para ensinar aos ativistas anticapitalistas, sobrou tempo também para uma crítica ao Fora do Eixo, definido por Ortellado não como uma experiência de política alternativa, mas como uma organização “hipercapitalista”.

Quando começou seu ativismo?

Minha militância começou no movimento punk dos anos 1980. É a geração dos punks que se politizaram, no finalzinho dos anos 1980. Deve ser a segunda ou a terceira geração do punk em São Paulo. Tem aquela do final dos 1970, que a gente chamava de “geração 82”, que eram uns caras mais velhos. E a nossa vai até 1988, 1989, é uma geração que se politizou, que fez o encontro da contracultura com a ação política.

Foi a geração que encontrou os sindicatos. Em 1987 e 1988 a gente tentava organizar o sindicato dos office-boys – eu era office-boy – junto com um processo de refundação da Confederação Operária Brasileira, que era a Confederação Operária Anarquista dos anos 1910.

E teve o processo de encontrar os velhinhos, os “anarco-nônos” como a gente chamava, no Centro de Cultural Social nos anos 1980. Foi muito importante para a minha geração, e acho que para eles também foi. Reencontrar com o anarquismo, surgindo de um jeito muito diferente. Foi um encontro importante também porque foi o encontro de duas gerações militantes. Eles já não eram a geração da greve de 1917, eram a geração derrotada, dos anos 1930. O Centro de Cultura Social foi uma estratégia do movimento operário derrotado pelos comunistas e depois pelo Estado Novo, eles optam por essa estratégia cultural de fundações de cultura social. E eles tem ainda, eles guardam a historia das lutas sociais dos anos 1910 e 1920, receberam essa vivencia dos mais velhos, mas sao uma geração da derrota, que foi mantendo vivo o legado do anarquismo em São Paulo durante quase todo o século 20.

Acho que para eles, deve ter sido muito vivo ver aquele bando de adolescentes nos anos 1980 cheios de interesse pelo anarquismo. E foi um movimento interessante de troca, no qual a gente aprendeu bastante com eles a respeito de toda essa história de lutas e eles também. Por incrível que pareça, embora a gente viesse da contracultura, um outro mundo do mundo dos sindicatos anarquistas dos anos 1930, houve muitos contatos. Inclusive nos elementos contraculturais. Por exemplo, o Centro de Cultura Social só tem uma propriedade, que é um sítio naturista. Então eles eram naturistas, eram vegetarianos, eram adeptos do amor livre. Então vários elementos da contracultura que a gente carregava ainda naqueles anos – porque o movimento punk em São Paulo tinha algumas características bem particulares, eram meio incipientes, meio confusos, a gente encontrou apoio e espelhamento na experiência histórica dos velhinhos e houve muita troca.

Houve casos super interessantes já nos anos 1990, dos velhinhos se tornarem veganos, que era uma coisa totalmente da nossa geração, a partir do intercâmbio com os punks. Tinha algumas coisas bem peculiares, a minha geração era uma que não usava drogas. Eu nunca fumei maconha. E fui beber depois dos 25 anos. Isso não tem nada a ver com os straight-edges, era outra coisa. Tem a ver com a cultura da disciplina militante do anarquismo dos anos 1930, uma coisa que a gente, do meu grupo pelo menos, da Santa Cecília, que frequentava o Centro de Cultura Social, incorporou. A gente não tolerava pessoas que bebiam e fumavam, porque “era coisa de gente alienada”. Uma percepção totalmente em desacordo com a cultura punk que é punk de esgoto que bebe pinga.

E já tinha isso.

Ah sim, claro, era a cultura dominante. A nossa geração, a geração dos punks que se politizaram, tinha ojeriza a isso, achava que era coisa de playboy. Eu não sei, acho que gerações posteriores não tiveram isso, mas essa que teve esse contato, incorporou elementos que não eram nossos, eram elementos dos velhinhos. Embora tivesse esse contato com a contracultura, que a gente acha que a contracultura é uma invenção dos anos 1960, dos hippies, mas a gente via nas discussões do movimento operário vários debates sobre feminismo, sobre natureza, sobre vegetarianismo, todos esses elementos que a gente considerava contraculturais, muito presentes.

Eles tratavam com muita tranquilidade, embora de um jeito totalmente diferente. Porque nosso discurso era anti-disciplinar, contra as instituições, contra as regras. O deles não, era auto-disciplinar, era a ideia de praticar o amor livre por não precisar do Estado ou da Igreja ditando para a gente como é, tipo “nós fazemos nossas regras”, diferente do “rejeitamos as regras”. Tinha contatos e diferenças e minha geração é desse intercâmbio, final dos anos 1980.

Como foram os anos 1990?

Acompanhei pouco, porque fui pros Estados Unidos, militei no hardcore, fiz outras coisas e só retomei no fim dos anos 1990, então tenho um hiato na história de São Paulo. Já no final dos anos 1990 surge o movimento antiglobalização que é a confluência de outras coisas. Tinha essa cultura anarquista ligada à contracultura, ao hardcore, ao punk; tinha uma tradição libertária no movimento estudantil, principalmente na FFLCH; e tinha esse contexto mundial de resistência ao neoliberalismo.

No final dos anos 1990 vários de nós estávamos acompanhando as listas das mobilizações, estava acontecendo bastante coisa na América Latina. Teve a greve da UNAM, depois teve o 501 na Argentina. O 501 foi um movimento muito importante, foi o pessoal que depois viria para o movimento antiglobalização. Surgiu contra o processo eleitoral e tem uma lei que o voto é obrigatório se você tiver a até 500 km do seu domicílio eleitoral. Então o movimento era uma caravana, com vários grupos ativistas, que levava você até 501 km.

Isso marcou muito a esquerda argentina porque era uma iniciativa dos jovens não anarquistas, era o que viria a ser o autonomismo argentino. Eles organizaram assembleias cujo lema era “Existe política além do voto”. Então a gente estava muito inspirado por essas coisas. Campanhas de apoio aos zapatistas, a greve na UNAM, o movimento 501 eram mais ou menos o panorama latino-americano.

E aí em 1997, no Segundo Encontro Intergaláctico pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, dos zapatistas, surgiu a ideia de fundar a Ação Global dos Povos (AGP), que era confederar os movimentos sociais de base voltados para a ação direta, para organizar globalmente uma oposição ao neoliberalismo.

No Brasil, como era a AGP?

No Brasil, a gente começou, era isso: a contracultura do hardcore e do punk, o movimento estudantil principalmente da USP não ligado a partidos e pequenos coletivos, pequenos coletivos feministas, pequenos coletivos ambientalistas… Esse era o caldo. A gente começou a se reunir, entrando para valer, no ano 2000.

Já tinha uma cultura de internet no movimento?

Sim, era totalmente cultura de internet. Uma das coisas totalmente distintivas do movimento antiglobalização em relação a movimentos anteriores dos quais ele é filiado é que ele era totalmente organizado globalmente.

Antes as coisas iam, se espelhavam, uma luta influenciava a outra, mas não havia uma organização de fato de as lutas se corresponderem. Com a internet isso mudou completamente, esse movimento foi completamente articulado.

Por exemplo, a gente sofreu repressão no A20 em 20 de abril de 2001. Aí ocuparam a embaixada brasileira em Amsterdã, em Roma e assim, completamente articulado, foi a partir dos relatos que a gente mandou para os companheiros. E vice versa: quando aconteceu a morte do Carlo Giuliani em 2001 a gente ocupou o consulado da Itália, e não era uma coisa espontânea, era uma coisa de articulação da rede de solidariedade. A gente ensaiou essa possibilidade de organização horizontal num nível internacional.

A grande inspiração você diria que foram os zapatistas?

Com certeza. A ideia da AGP nasceu num encontro zapatista, em Barcelona. Nasceu a ideia e o primeiro encontro fundador da AGP foi em Genebra em 1998.

Quais os princípios que ligavam essas pessoas e coletivos?

Todos exatos eu não lembro de cabeça, mas eram os princípios da autonomia, da horizontalidade, a ideia de não ser uma organização. A AGP não era uma organização, era uma espécie de rede de solidariedade e luta. A ideia da diversidade de estratégias de luta, de não termos uma linha única que fosse imposta, de rejeição dos modelos já estabelecidos de luta, e uma crítica muito forte a todas as formas de opressão. O que não era algo necessariamente novo, mas levávamos muito sério. Incorporamos essas lutas do feminismo, do movimento negro, de forma muito forte.

Na verdade a gente via o processo de globalização como uma oportunidade para federar as lutas que tinham se fragmentado nos anos 1960, era nossa leitura. Antes dos anos 1960 era o movimento operário que conduzia a luta social, depois se fragmentou no movimento feminista, movimento ecológico, movimento negro, e assim por diante.

E nossa ideia era que o processo de globalização econômica permitia federar essas lutas porque afetava as mulheres que estavam trabalhando num workshop no México, afetava o problema do desmatamento porque suspendia as regulações ambientais para gerar competitividade entre os países, então o movimento ambiental podia se somar, o movimento trabalhista porque suspendia também a proteção ao direitos trabalhistas para flexibilizar a mão de obra, etc.

Quando demos o nome de anticapitalismo no final dos anos 1990, é curioso, tinha uma acepção diferente, porque não era econômica. Era a ideia de que o capitalismo era a soma de todas essas formas de dominação e exploração, e que o anticapitalismo era a federação de todas essas lutas em uma luta comum, a luta contra o neoliberalismo. Foi realmente uma tentativa. Tanto que por exemplo, na nossa rede da AGP aqui teve vários grupos feministas, vários grupos ambientais, alguns sindicatos pequenos, no Ceará tinha um pessoal do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), então a gente confederava lutas muito diferentes, mas aqui muito orientadas na luta contra a ALCA [Área de Livre Comércio das Américas].

Como funcionava a AGP a nível mundial, como um coletivo daqui se vinculava, se relacionava?

A AGP não era nada. A AGP era uma ideia, uma carta de princípios. Qualquer um que respeitasse essa carta de princípios levantava a mão. Formalmente, nos encontros, tinha delegações da AGP. Então o primeiro que aconteceu em Genebra em 1998, o delegado brasileiro foi o MST. E o MST se somou às nossas primeiras manifestações, participava. Nossa primeira reunião se eu não me engano foi inclusive na sede da Consulta Popular, foi o MST que deu toda a infraestrutura. Mas aos poucos, digamos, eles participavam, mas não eram os atores mais importantes da AGP aqui.

E depois, o que houve para que a AGP fosse se desarticulando?

Esse ciclo se desgastou. Ficamos muito ativos desde 1998, acredito que o auge tenha sido em 2000, a gente fez o S-26, barrando um encontro do Banco Mundial e do FMI em Praga e acho que foi nossa grande conquista. Fizemos ações em cerca de 300 cidades no mundo e eram totalmente dominadas pelo movimento autônomo, conduzidas por nós, o grande feito político foi termos coordenado protestos em centenas de cidades, muitas milhões de pessoas. Depois tiveram outros grandes, protestos em Gênova, houve vários.

Mas a fórmula era tentar copiar o sucesso de Seattle. A ideia original eram os “carnavais contra o capitalismo”, que quem tinha dado a ideia eram os companheiros de Londres, do “Reclaim the streets”. Eles vinham da confluência do movimento de politização das raves e do movimento anti-estradas, ligado a coletivos ambientais. E faziam essas festas de rua que bloqueavam estradas e tal, e eles que lançaram a ideia de carnavais globais contra o capitalismo. Tinha esse caráter meio contracultural.

Essa ideia foi lançada e a primeira fez que aconteceu globalmente de fato foi no J18, 18 de junho de 1998, em dezenas de cidades. Aí em seguida teve Seattle, que foi 30 de novembro de 1999, e depois 26 de setembro de 2000. E em 2000 a gente já estava completamente articulado globalmente, foi quando a coisa atingiu centenas de cidades.

Em Seattle tinha dado muito certo, porque conseguiram barrar fisicamente a reunião da OMC [Organização Mundial do Comércio], da rodada do milênio. A estratégia era pegar um mapa, o lugar do encontro, barrar todos os acessos por meio de bloqueio de ruas. Atrasou os delegados, os sindicatos estavam fazendo uma megamanifestação, o Clinton estava na parede porque tinha eleição próxima, isso gerou um caos. E a rodada do milênio que era um projeto extremamente ambiciosa de desregulamentação econômica em âmbito mundial, falhou miseravelmente.

Isso virou um espécie de paradigma do movimento antiglobalização: fazemos grandes manifestações tentando bloquear ou invadir os eventos, e centenas de protestos pelo mundo para aumentar a pressão. Fizemos isso inclusive aqui, teve o encontro do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] em 2002 e fizemos protestos em Fortaleza, por exemplo.

Mas esse modelo começou a se esgotar, porque ficávamos correndo atrás, começou um sentimento de que a gente estava girando em falso, que a experiência de Seattle nunca mais ia acontecer. Teve o 11 de setembro que endureceu nos EUA e em outros países a maneira como o Estado combatia esse movimento, ameaçando aplicar leis antiterroristas por um lado e, por outro, a ameaça de uma guerra a nível global fez com que a gente fosse mudando gradativamente para o movimento antiguerra. Acho que essas duas questões foram levando esse modelo para o esgotamento, além dos aspectos internos, a sensação de que não estávamos caminhando para nenhum lugar.

Houve um movimento natural de ir voltando para os coletivos locais. O pessoal da Argentina, por exemplo, foi em peso para o Movimento Piquetero, alguns para o movimento de assembleias. Aqui, teve uma galera que foi para o Movimento Passe Livre (MPL).

Além dos bloqueios e manifestações de solidariedade, quais eram os outros eixos de atuação da AGP?

Aqui, por exemplo, a gente fazia muita campanha pública. Fizemos toda a campanha contra a ALCA, muito antes de entrarem as igrejas, os partidos políticos. A gente ia em escola, sindicato, associação de bairro, produzimos centenas de panfletos, jornais, fizemos uma campanha bem estruturada, de informação. Explicar o que era a ALCA, quais seus impactos, o que significava para as relações trabalhistas, para o meio ambiente, e assim por diante. Isso articulado com os protestos. Acho que adquirimos um nível bom de organização, e tinha bastante gente simpática ao movimento, financiavam nossas publicações.

Embora eu ache que para a coisa ter vingado tenha sido importante a participação dos partidos políticos, da igreja católica, o plebiscito que foi feito sobre a ALCA, isso ajudou a enterrar a ALCA, já por volta de 2003.

Quais as características e especificidades dos movimentos que se seguiram a esse processo, que hoje se convencionou chamar de movimentos autônomos?

A ideia de coletivos autônomos foi sendo construída muito no movimento antiglobalização. Antes a gente tinha uma cena anarquista. Isso tem a ver com a contracultura brasileira, que não teve a interface com a política. Foram dois caminhos, numa trilha os tropicalistas, os hippies, na outra, a luta armada contra a ditadura militar, a crítica ao stalinismo. Essas coisas não se encontravam, como aconteceu, por exemplos nos Estados Unidos, na Itália.

Essa fusão só aconteceu aqui com os punks. Que o punk antes era despolitizado, se associava o que a gente chama de punk 82 com algo mais social que político, era a classe trabalhadora gritando com uma guitarra. Um grito confuso, um grito sem experiência política, mas gritando. Um grito de revolta contra a pobreza, a exclusão, misturado com algo contracultural, existencialista, tudo junto e muito confuso.

Essa coisa do anarquismo é do fim da segunda e da terceira geração do punk, que se aproximou mais da tradição sindical do anarquismo brasileiro. Tem um fato que é muito marcante, em 1988 tem um 1 de maio que fazemos a segurança da manifestação, junto com a CUT [Central Única dos Trabalhadores]. Era a COB, a Confederação Operária Brasileira que a gente estava tentando refundar, junto com a CUT e outras centrais. Nesse momento estava começando a se definir entre os punks um grupo anarquista, que lia Proudhon, Bakunin, frequentava o Centro de Cultura Social, era uma novidade.

Outros grupos de punks, misturados com skinheads, que estavam caminhando para a direita, essa cisão só aconteceu no final dos anos 1980, e eles vão para esse 1 de maio para bater, e tomam uma surra. Menos dos punks porque a gente era muito miudinho, mais dos sindicalistas. Tomam um pau. Acho uma marca dessa cisão ideológica da contracultura brasileira. Para mim a fusão entre contracultura e política se concretizou nesse dia. Tem a direita e tem a esquerda. Os skinheads começaram a flertar com o integralismo e viraram fascistas e outro grupo eram os anarquistas.

No movimento antiglobalização, tinha, por um lado, a rejeição aos partidos políticos, à hierarquia, tinha discurso libertário mas tinha uma visão mais ampla. A gente dialogava com as ONGs, com movimentos mais tradicionais na sua forma de organização, começou a haver certa diferenciação com um anarquismo mais programático. Começou a surgir essa ideia do movimento autônomo, também sob inspiração da teoria político mais autonomista, seja na tradição francesa como Castoriadis, seja na italiana, como Negri ou Mario Tronti. Algumas pessoas começaram a ler, e foi se desenvolvendo esse entendimento, de se juntar também aos marxistas dissidentes mais horizontalistas, que nunca tinham sido bem vindos no movimento anarquista por razões históricas. Autonomia em relação ao Estado e em relação ao mercado. Isso é uma construção do final dos anos 1990, início dos 2000.

E o Fórum Social Mundial?

O Fórum Social Mundial foi uma construção totalmente separada da nossa. Tinha o Fórum Econômico Mundial de Davos, que juntava representantes das empresas, dos governos, do setor acadêmico e fazia um grande encontro de cúpula dos líderes mundiais para discutir assuntos de interesse global. O Fórum Social Mundial foi pensado exatamente nos mesmos termos originalmente. Era para ser um encontro das lideranças dos sindicatos, das lideranças dos movimentos sociais e das lideranças dos partidos políticos, numa grande conferência contra-hegemônica.

Nesse momento já tinha o movimento antiglobalização, um movimento de base horizontalista, e já tinha sua importância. As primeiras propostas do Fórum eram de um encontro de cúpula que as pessoas inscreviam lideranças. Aí abriram um negócio chamado oficinas que permitia a participação de todos. E as oficinas bombaram, porque o movimento era horizontal. E subverteu.

Apesar de não surgir da nossa tradição, os organizadores do Fórum souberam incorporar, digamos, esse caráter horizontalista e deixar o encontro virar outra coisa. Ficou mais participativo, mais rico. A gente nunca participou ativamente, da construção, mas aproveitava que vinha gente do mundo inteiro, e sempre fizemos, ao menos até 2005, encontros paralelos.

Você vê, então, o MPL como uma espécie de continuidade desse processo?

Totalmente. O MPL tem duas origens: o movimento antiglobalização e outra que vem ideologicamente do trotskismo, mas que vem talvez mais que isso, do movimento estudantil pelo passe livre. Nos anos 1990 tem a luta forte pelo passe livre estudantil que traz como inspiração as conquistas no Rio de Janeiro, então tem uma tradição estudantil forte.

Em Florianópolis, por conta do Juventude Revolução Independente, começaram a defender essa ideia da autonomia a partir do trotskismo. A partir de uma leitura e reflexão interna dentro do trotskismo, atuando com o conceito de autonomia nesse campo da luta pelo passe livre estudantil. Aí nasce dessa experiência de Floripa, por um lado da Juventude Revolução Independente por sua vez ligada ao processo do passe livre estudantil dos anos 1990, e por outro,  o movimento antiglobalização.

Vários militantes do movimento antiglobalização compuseram o MPL original de Floripa. Quando a gente faz o primeiro encontro do MPL lá no Fórum Social Mundial de 2005, estão presentes muitos do movimento antiglobalização e principalmente do CMI [Centro de Mídia Independente], que é, digamos, a face mais organizada do movimento.

O CMI era praticamente a expressão midiática do movimento antiglobalização. E o CMI era organizado, tinham vários grupos locais que se reuniam. Sempre funcionou como uma espécie de esqueleto da AGP, mais claramente organizado porque tinha coletivos, endereços, comunicação global, um site de referencia. Foi muito importante para o movimento antiglobalização como um todo. E serviu como meio de difusão do MPL. Tanto é que acho que quase todos os primeiros MPLs em 2005 vieram de coletivos do CMI.

Chegando nos tempos atuais, como você vê esses coletivos e movimentos autônomos que estiveram envolvidos na onda de mobilizações que começou em junho? E também as novas articulações entre esses movimentos que essa jornada de lutas tem impulsionado?

Acho que essa experiência da luta contra o aumento da tarifa trouxe um salto qualitativo muito importante. Essa tradição de luta que a gente remonta ao zapatismo, ao movimento antiglobalização, mais recentemente ao Occupy Wall Street, ao 15M, e lá atrás a maio de 1968, às lutas da autonomia italiana, essa tradição é muito marcada pela valorização do processo de organização.

Ou seja, a ideia de que devemos fazer política pré-figurativa. Que a forma de organização do movimento deve espelhar a sociedade que a gente quer. Então ser horizontal, inclusivo, não ser sexista, não ser racista, um enorme cuidado com o processo. É processo político e também criativo – então fazer intervenções divertidas, contraculturais, é a mesma valorização do processo: queremos uma vida prazerosa, desburocratizada das amarras institucionais.

Eu faço uma avaliação crítica que essa característica fez com que historicamente a gente fosse muito desatento aos resultados da luta. Várias experiências dessa se perderam por serem incapazes de ter um foco claro de luta. No movimento antiglobalização, era um esforço enorme a gente converter a luta em uma luta objetiva contra a ALCA. Vamos pressionar o governo brasileiro a não assinar a ALCA. Fazer isso era um esforço, porque a tendência do movimento era ser algo auto expressivo, carnaval contra o capitalismo. Uma explosão de rebelião antissistêmica.

O que estava valorizado aí? O processo, a forma de luta. Um dia, quando a gente vencer, que a gente não sabe como, vai ser por meio do fortalecimento da luta, que vai ser horizontal, participativa, comunitária. Mas isso fazia com que o movimento não tivesse um objetivo de curto prazo ligado a esse objetivo de longo prazo. Não tinha estratégia para vencer. Por sorte, em Seattle funcionou e criou um paradigma de estratégia para vencer: a gente barra. Foi tentado em vários lugares, nunca mais aconteceu.

Mas se olhar a experiência do 15M, do Occupy Wall Street e das ocupas pelo mundo todo, também daqui como o Ocupa Sampa, essa incapacidade de ter um foco apareceu. Isso aconteceu desde o final dos anos 1960 se pegarmos gênese do movimento.

E eu acho que a grande novidade aqui é que o MPL criou um novo paradigma. Ter um objetivo de curto prazo, que é um processo de uma utopia, de uma transformação mais profunda. Qual a transformação mais profunda? A desmercantilização do transporte. Direitos público à mobilidade urbana. Mas isso se concretiza num passo: a tarifa voltar para trás. É totalmente contra-intuitivo, do jeito que a coisa é, a tarifa sempre cresce. A partir do momento que ela volta para trás, você coloca no horizonte a possibilidade de voltar para trás até seu limite, que é o zero.

E isso, cara, parece selvagem, há dois meses atrás diriam que é coisa de extremista, de gente delirante, e eles mostraram isso que agora está no centro da pauta: não tem um partido, um veículo de comunicação ou um político que não estejam discutindo essa pauta que há dois meses era chamada de delirante, sem pé na realidade.

Eu acho que eles conseguiram criar isso. E era factível, apesar de bem difícil. Foi suado, custou bastante trabalho, muita gente foi presa, muita gente apanhou, teve gente que morreu, mas era factível, foi factível.  E isso ampliou os horizontes.

Mas tem mais do que isso aí, não? Porque já teve outros aumentos que foram barrados…

Já teve, já teve.  Na verdade eu estou falando do MPL como um todo…

Ah, você acha que já nas primeiras vitórias isso está contido?

Já contém isso, sim. Eu acho que o MPL daqui simplesmente deu muita visibilidade por estarmos em São Paulo, mas o MPL é isso, ele nasce do aprendizado da Revolta do Buzú de Salvador. A Revolta do Buzú foi um movimento espontâneo, de jovens – molecada mesmo, adolescentes, até pré-adolescentes – que saíram nas ruas e bloqueram a cidade durante vários dias contra o aumento das passagens e foram traídos pela UNE.

Eles não tinham um instrumento político. O MPL é a busca por aprender com esse erro, aprender com o processo espontâneo. Quem inventou, quem exemplificou essa estratégia de luta foram os meninos de Salvador, só que teve uma falha, já que não havia com quem negociar.  E eles fracassaram, perderam bem perdido com a traição da UNE. E aí a ideia do MPL é dar um estamento político pra essa luta, e fomentar essas revoltas que tinham nascido espontaneamente.  Um grupo político vai fomentar uma revolta.

E aconteceu em Floripa duas vezes, 2004 e 2005. Depois aconteceu em várias cidades, deve ter tido mais de dez revoltas de transporte entre 2004 e agora.  Talvez mais de vinte.  E as instituições políticas foram surdas a esse processo. E os meninos do MPL de São Paulo continuaram, “um dia vai virar aqui, tem que virar, ta virando em todo lugar”.  Eles apostaram, continuaram insistindo na luta e tiveram vários acertos estratégicos, amadureceram estrategicamente, começaram a pensar no curto prazo, em como fazer para pressionar, houve uma maturidade no jeito político de atuar que eu acho um aprendizado  para o movimento autônomo não só do Brasil como do mundo.

Sem brincadeira: Ocuppy WallStreet tinha muito a aprender com o que os meninos do MPL fizeram, se eles tivessem os vinte centavos deles pro sistema financeiro as coisas teriam sido muito diferentes, podia ter tido uma vitória. E que não é só uma pequena reforma,  o passe livre é uma pequena reforma que aponta imediatamente pra sua própria natureza de uma profunda transformação do sistema.  Liga-se com a desmercantilização do transporte, e isso abre o precedente para várias outras desmercantilizações, é como um novelo de lã que você começa a puxar e vai ampliando os horizontes.

Conseguiram colocar uma meta de curto prazo, exequível e intrinsicamente ligada ao processo de transformação da sociedade que a gente quer.  E ao invés de valorizar apenas o processo de luta, valoriza-se também o processo de luta, porque é um movimento autônomo, que faz essas discussões de que o processo tem que ser horizontal, independente dos partidos e etc., mas não descuida da conquista de objetivos práticos de curto prazo que vão acelerar essa passagem pro objetivo de longo prazo.

Desde esse começo da Internet que você fala desenvolve-se também um saber relativo a organização de movimentos pelas redes, mas isso talvez tenha explodido no senso comum agora, não? É de agora que vem mais à tona esse discurso de que as mobilizações são produto das redes sociais e da Internet?

Então, essa conversa não é nova. O movimento antiglobalização foi muito rotulado como o movimento da Internet.  E eu acho essa uma leitura tecno-determinista muito equivocada, porque a história é o inverso do que é contada. A história que a gente escuta é a de que as redes  são horizontais, democráticas e participativas e o movimento das ruas copia a forma de organização das redes.  Ou seja, a forma de organização das redes impõe a organização das ruas. E é exatamente o oposto. As redes foram desenhadas por nós pra ter esse formato e não o contrário, ou seja, as redes adquiriram esse formato horizontal e participativo.

A Internet era uma rede universitária até 1995, ela se privatizou, ou seja, foi aberta pra venda e serviço de acesso a Internet em 1995. E quando ela se privatizou o modelo que se tentou fazer é o modelo do portal, que é o mesmo da comunicação tradicional: um emissor e vários receptores.  E foi isso que estava imposto, o modelo da American Online (AOL),  do iG, do Uol… Eu vou ter um portalzão, uma redação com jornalistas que vão abastecê-lo…

Os portais até proviam acesso.

É, vou prover acesso, vou prover informação, serviço de e-mail… é um modelo de um para muitos, o modelo tradicional da comunicação de massa. E era esse modelo que estava sendo implementado nos anos 1990.

O CMI é um entendimento de que a gente devia usar as possibilidades da Internet, que era um veículo bidirecional, em que se falava e recebia, e subverter essa tentativa de transformá-la numa grande televisão ou numa grande revista e fazer uma forma de comunicação interativa, baseada nas experiências das rádios livres, das TVs comunitárias, dos fanzines, nessa tradição de comunicação alternativa. E foi assim que foi desenhado. O CMI era um site de publicação aberta, quando não existia nem blog. Quem inventou o conceito de blog foi o CMI, não tinha blog, as pessoas não faziam isso, elas faziam sites. Uma ideia de um blog,  que seja um negócio fácil de escrever e que possa ser atualizado rapidamente não existia, o CMI é pré-blog, é précreativecommons.

E não é à toa que do CMI saíram muitas das empresas de redes sociais: Twitter, Youtube, Flickr e Craigslist. Todas foram fundadas por pessoas que vieram do CMI.  Foi um duplo movimento, o CMI servindo como exemplo de que se pode fazer comunicação de outro jeito e gente do CMI que quando ele se exaure vai tentar viver de outra forma. Isso tem a ver também com a forma de organização da esquerda liberal americana que permite essas passagens do movimento social pro mercado de uma  maneira que a gente consideraria  bizarra – mas que no contexto americano não é tão bizarra.

Isso aconteceu, principalmente nos EUA e na Inglaterra, vários técnicos do CMI trabalhando nessas empresas e de certa maneira desenhando essas empresas. Ou elas sofreram influência direta, no sentido que de pessoas saíram e desenharam essas tecnologias,  ou por meio da inspiração do modelo de comunicação participativa. E hoje todo mundo faz né, a Globo News tem lá “mande seu vídeo”. Só que a gente inventou em 1999 o “mande seu vídeo”.

Mas isso aconteceu como? Uma conversão ideológica dessas pessoas ou mais uma questão de trabalho?

Eu acho que era mais uma coisa de decisão pessoal de arrumar um trabalho, mas nisso você carrega essa sua bagagem. Quando você vai desenvolver um projeto pra uma empresa, pensa em fazer algo participativo.  Mas é uma história oculta: essa história nunca foi contada porque os atores têm vergonha.  Conheço vários deles, eles têm vergonha porque são pessoas que são militantes até hoje. Do mesmo jeito que eu fui pra universidade eles foram trabalhar em empresas, se eu estava fazendo mestrado e tinha isso como caminho, o do cara que era programador era trabalhar em uma empresa onde pudesse programar pra viver.

Mas seria importante exemplificar pra ficar claro que nós não estamos copiando as redes, e sim foram elas que nos copiaram. Se você olhar hoje pra esse panorama de que hoje toda a comunicação eletrônica é participativa de certa maneiro isso é uma vitória do nosso projeto. E não precisava ser assim, cara, aliás a tendência nos meados dos anos 1990 era a de que a Internet fosse uma grande televisão e a interatividade seria você mudar de canal. Ela foi outra coisa porque houve participação popular e se tentou pegar as formas participativas de comunicação que vinham da comunicação popular e aplicar explorando as potencialidades da Internet.

Por exemplo no livro Mídia Radical, do Joe Downing, ele vai contando a história das rádios livres, das TVs comunitárias, e como tudo isso converge no CMI no final dos anos 1990.  Daria pra fazer um segundo volume do livro dele, mostrando como a partir daí acontece uma revolução nas empresas de tecnologia da informação.

Seu próximo livro é esse então?

Não, não. Mas eu já pedi pra vários amigos, vocês precisam contar essa história, perder a vergonha porque é importante, é uma história oculta, essa ninguém sabe.

E como fica o “terceiro setor” dessa história, que não é propriamente movimento nem mercado, esse negócio estranho aí que é o Fora do Eixo. Seriam também um produto dessa evolução?

Cara, eu acho que o Fora do Eixo é uma coisa totalmente à parte. Acho que o Fora do Eixo não tem nada a ver com essa história, de nenhum dos lados, acho que ele é uma tentativa de positivar a natureza do trabalho contemporâneo. O Fora do Eixo é o grupo político mais impressionante que eu já vi em mais de vinte anos de militância, nunca vi ninguém mais eficiente do que eles, são um fenômeno político impressionante.

Eles são uma organização hipercapitalista. O que eles fizeram: quando a natureza do trabalho virou informacional, você já não consegue mais separar trabalho de não trabalho. Você  trabalha com jornalismo, você não desliga, não é que nem um operário que pendura o macacão e vai pra casa. Você não desliga o cérebro, você tá pensando na pauta, senta pra conversar e está conversando sobre a pauta, aquilo te toma. Por isso que é muito difícil organizar tempo de trabalho neste tipo de trabalho informacional.

Todo mundo que trabalha atrás de uma tela de computador trabalha assim, você não tem como se desligar de um trabalho dessa natureza simbólica. E aí você tem essa mistura de trabalho e não trabalho, que é massacrante.  O que eles fizeram foi transformar isso numa coisa positiva e militante.

E escondem o lucro.

Eu acho que eles não são capitalistas nesse sentido, porque eles não estão atrás do lucro econômico. É curioso, você vai ver o núcleo do Fora do Eixo, os caras que moram na casa, eles vivem que nem estudante.  Moram em beliches, vivem muito pior do que eu. E têm uma conta com três milhões de reais. Não é orientado pro lucro: o que é mais capitalista, e não menos.

Mas se é muito orientado pro poder de Estado, que implica em lucros pessoais, de uma forma é orientado pro lucro, não?

Eu acho que a questão deles é poder, não é dinheiro. Posso estar enganado, estou analisando aqui de fora.  Quer ver o que eu penso? Guardadas as proporções, não estou querendo supervalorizar, eles são superinteressantes mas também não são tudo isso que o pessoal pinta não, mas pega o Webber, a ética protestante. Pega a definição de capitalismo marxista, é geração de valor pra geração de mais-valor, pegar dinheiro, investir e gerar lucro é totalmente pré-capitalista, é desde a Antiguidade.

Mas nessa época o que você faz? Pega e gasta. Na Antiguidade uma das condições de ser rico é que você não trabalhava, você entrava num empreendimento econômico pra não trabalhar, punha as pessoas pra trabalhar e só vivia na riqueza.  E o Webber fala assim: o capitalismo não é isso. Capitalismo é outra coisa, eu pego a riqueza e reinvisto,  gerando um processo de expansão econômica.  Isso é o que diferencia o capitalismo de outros processos econômicos, e ele vai buscar no ascetismo protestante essa lógica.

Os protestantes acumulavam dinheiro e reinvestiam. E a partir do momento que você tem essa lógica de não vou gastar com mulheres, bebidas e na vida de luxo, que é a forma tradicional das pessoas ricas viverem a vida, mas eu vou reinvestir na produção, a partir do momento que você faz isso você obriga todos os competidores do mercado a seguirem a sua mesma lógica. A lógica de trabalho capitalista, de expansão: trabalho, mais trabalho, mais rigor, mais acúmulo de capital.

E quem não entra nessa lógica perde pra você, e é comprado por você. O  capitalismo é uma lógica de expansão, e vai expandindo essa lógica do trabalho pra todas as esferas da vida.  É isso, cara. Então o capitalismo não é acumular dinheiro,  o capitalismo é não acumular dinheiro.  Por isso eu acho o projeto do Fora do Eixo profundamente perigoso, porque é um projeto de vida para o trabalho. Sem acumulação.

A acumulação é de poder?

É acumulação de poder, é um projeto que usa uma estrutura econômica para um projeto de poder oculto. Qual o projeto político do Fora do Eixo? Desconhecido.  Não tem documento público. Mas eles têm projeto político, eles são um partido, obviamente eles são um partido político. Eles não estão nessa por dinheiro, vai lá na casa deles, os caras comem miojo e vivem que nem estudante.  E eles trabalham pra caralho, e bem. Eles deram um choque de capitalismo, de organização capitalista, na cultura alternativa.  Chegaram em São Carlos e falaram “vamo organizar o circuito de bandas de São Carlos”.  Na cultura até a parte capitalista é super desorganizada, a parte alternativa da cultura é caótica. Cara, é o caos. Aí eles chegam com uma ética de trabalho rigorosa, com gente eficaz, e impõem isso.

E fazem isso positivando a distinção entre trabalho e não trabalho, criando uma cultura de que minha vida é o trabalho. Com um discurso ativista. Como se eles estivessem fazendo ativismo, mas eles não estão fazendo ativismo, estão fazendo atividade econômica sem finalidade de lucro, gerando mais acumulação.  É brilhante. E perigoso.

E desse processo de junho aparentemente eles saem favorecidos, afinal depois do MPL quem ganhou mais visibilidade foi a tal Mídia Ninja.

É impressionante. Eles têm um entendimento muito sofisticado da natureza do nosso capitalismo contemporâneo. Eles sabiam que como eles não tinham capacidade de ser um ator relevante, se eles controlassem a comunicação do movimento eles controlam o movimento, controlam a imagem de como o movimento é representado.

O que é o Ninja, cara? É uma coisa minúscula perto do que aconteceu, do fenômeno político que aconteceu. Mas eles são superexpostos, porque eles controlam a comunicação e a comunicação é chave pra maneira como as pessoas percebem o movimento e como o movimento se percebe. Então é estratégico.  E eles fazem de um jeito sofisticado, eles trabalham marca…  O trabalho de marca deles é impressionante, que organização política trabalha marca? Exposição do nome, exposição do logo,  constroem um texto político colocando o logo e o nome, trabalhando com alavancagem de marca pra usar a expressão publicitária.

Já falei várias vezes que a gente deveria aproveitar isso pra gente ganhar maturidade política, porque a gente só vai enfrentar um ator político dessa natureza se tornando muito mais sério no nosso entendimento da luta social, a gente é muito amador. Eles colocam o desafio num outro nível.  São mais eficientes que os capitalistas.

Mas engajam seus membros sob uma perspectiva de militância.

Essa forma é militante mas é despolitizada. Qual a plataforma pública deles? Nenhuma. Fizeram Marcha da Liberdade, em defesa da liberdade. Lutaram pra que mantivesse esse sentido genérico.  Fizeram Existe Amor em SP. É amor, liberdade, vão fazer algo pela paz, porque é uma estratégia de mobilizar sem causa. Curioso, é extremamente despolitizante.

Mas o Existe Amor em SP tinha uma causa, era eleitoral.

Tinha, mas era oculta. Era contra os fascistas, em tese. E depois que saiu o Russomano ficou ainda mais vago. Pela cidade… é um nível de total despolitização, eles não têm um programa político.  Eles não podem ter um programa político, por isso começaram pela cultura, que é o setor mais despolitizado. É muito interessante, porque é uma militância do não político. Porque não tem causa.

É uma grande construção política. Agora, eles chegaram a um limite. Porque o que aconteceu em junho é um grande chacoalhão. É uma enorme politização da sociedade brasileira. Minha tia está falando de política, tá todo mundo falando de política, a sociedade se politizou. E como eles vão reagir frente a isso? Se politizar é tomar posição, apoiar isso ou aquilo, essa forma de organização. Eles defendem qual forma de organização?  São a favor do mercado privado, são a favor da socialização, são a favor do PT, contra o PT?  Nada, você nunca sabe.

É que isso é uma discussão muito “rancorosa”.

Exatamente… Mas você não sabe, e essa é exatamente a força e o limite do projeto político. Imagino que em algum momento eles vão dar um salto, porque isso vai chegar no limite, e como eles são muito habilidosos eles vão criar uma outra coisa a partir do que eles construíram.  Eles já tão muito perto desse limite.

Por exemplo, eles fizeram o Ninja, que é um relativo sucesso,  mas ao mesmo tempo é um fracasso, porque eles não tiveram papel ativo nessa mobilização.

Mas esse desafio que eles lançam é importante pro movimento autônomo, porque eles expõem como a gente é amador. Isso é outro assunto, mas os movimentos autônomos são muito, mas muito principistas.

Outro aprendizado do MPL: eles foram, falaram no Jornal Nacional, falaram no Roda Viva,  sem pudor, sentaram pra negociar no Conselho da Cidade. Porra, isso é um ganho. Se você olhar pra história desses movimentos, fazer isso com essa maturidade, com clareza, com estratégia, nada disso era possível no movimento antiglobalização. Essas coisas eram absolutamente necessárias. O que acontecia? Pessoas faziam isso nas costas do movimento.

Porque é necessário, como é que eu vou organizar um movimento global sem dinheiro? Tem que fazer compra internacional, imprimir material, pagar servidor de Internet. E aí como eu gerencio doações?  O movimento não quer decisões delicadas desse tipo. Então algumas pessoas faziam. “Recebemos uma doação de cinquenta mil dólares”. Alguém falou com alguém pra conseguir esse dinheiro, não cai do céu – foi feito nas costas do movimento. E isso sabotava a autonomia do movimento. O movimento antiglobalização, ao contrário do MPL, não falava com a imprensa. E aí alguém falava com a imprensa, porque tinha setores da imprensa que apoiavam o movimento. Porque o movimento não tem maturidade pra lidar com essas coisas, com dinheiro, falar com a imprensa, pressionar o governo, trabalhos necessários se você ta fazendo luta política.

Eu acho que o MPL deu um show de maturidade política em relação aos nossos padrões anteriores. Fizeram tudo que era necessário e o resultado está aí. 600 milhões por ano no bolso da classe trabalhadora! Isso não tem o que discutir. E não eram coisas assim terríveis. Dar entrevista pra deus e o mundo fez uma puta diferença. E tinha gente nos meios de comunicação que apoiava. E que quando a coisa virou e o editor permitiu fez coisa boa. Tem que explorar isso, muda muito. MPL mostrou maturidade, de mostrar que se leva a sério, e assim consegue efeito político.

Esse aprendizado a gente tem que incorporar, eu espero que a lição de junho não seja nós fomos às ruas e vencemos, que é parte da verdade, mas não a mais importante. Nós fomos às ruas e vencemos com estratégia e com maturidade política, o que é muito diferente. Que é o que o OcuppyWallStreet não fez, o 15M não fez, o movimento antiglobalização não fez.

Interessante também que em relação ao diálogo com o governo, eles aceitaram os convites mas não negociaram nada.

Faz parte da estratégia deles, mas eles podiam estar numa estratégia em que fosse estratégico negociar. Mas no caso deles a reivindicação era muito simples.  O que a gente quer é revogar o aumento. “Vem aqui, vamos discutir corredor de ônibus, licitações, municipalização do imposto da gasolina…” Não, revogação do aumento. É uma mensagem simples, do ponto de vista de comunicar com a população é claríssimo. E significa um rompimento de paradigma, a tarifa volta para trás e é isso que eles tavam querendo, o projeto deles é zero. E eles conseguiram colocar isso, ganharam a revogação e tarifa zero ta na boca do povo.

E tarifa zero é muita coisa, é mobilidade como direito social. E uma vez que você conquista isso você fala: nossa, que mais é direito social? Quero mais. Que mais como membro de uma coletividade eu tenho direito, só por ser membro dessa coletividade?

Rising Seas (Nat Geo)

Picture of Seaside Heights, New Jersey, after Hurricane Sandy

As the planet warms, the sea rises. Coastlines flood. What will we protect? What will we abandon? How will we face the danger of rising seas?

By Tim Folger

Photographs by George Steinmetz

September 2013

By the time Hurricane Sandy veered toward the Northeast coast of the United States last October 29, it had mauled several countries in the Caribbean and left dozens dead. Faced with the largest storm ever spawned over the Atlantic, New York and other cities ordered mandatory evacuations of low-lying areas. Not everyone complied. Those who chose to ride out Sandy got a preview of the future, in which a warmer world will lead to inexorably rising seas.

Brandon d’Leo, a 43-year-old sculptor and surfer, lives on the Rockaway Peninsula, a narrow, densely populated, 11-mile-long sandy strip that juts from the western end of Long Island. Like many of his neighbors, d’Leo had remained at home through Hurricane Irene the year before. “When they told us the tidal surge from this storm would be worse, I wasn’t afraid,” he says. That would soon change.

D’Leo rents a second-floor apartment in a three-story house across the street from the beach on the peninsula’s southern shore. At about 3:30 in the afternoon he went outside. Waves were crashing against the five-and-a-half-mile-long boardwalk. “Water had already begun to breach the boardwalk,” he says. “I thought, Wow, we still have four and a half hours until high tide. In ten minutes the water probably came ten feet closer to the street.”

Back in his apartment, d’Leo and a neighbor, Davina Grincevicius, watched the sea as wind-driven rain pelted the sliding glass door of his living room. His landlord, fearing the house might flood, had shut off the electricity. As darkness fell, Grincevicius saw something alarming. “I think the boardwalk just moved,” she said. Within minutes another surge of water lifted the boardwalk again. It began to snap apart.

Three large sections of the boardwalk smashed against two pine trees in front of d’Leo’s apartment. The street had become a four-foot-deep river, as wave after wave poured water onto the peninsula. Cars began to float in the churning water, their wailing alarms adding to the cacophony of wind, rushing water, and cracking wood. A bobbing red Mini Cooper, its headlights flashing, became wedged against one of the pine trees in the front yard. To the west the sky lit up with what looked like fireworks—electrical transformers were exploding in Breezy Point, a neighborhood near the tip of the peninsula. More than one hundred homes there burned to the ground that night.

The trees in the front yard saved d’Leo’s house, and maybe the lives of everyone inside—d’Leo, Grincevicius, and two elderly women who lived in an apartment downstairs. “There was no option to get out,” d’Leo says. “I have six surfboards in my apartment, and I was thinking, if anything comes through the wall, I’ll try to get everyone on those boards and try to get up the block. But if we’d had to get in that water, it wouldn’t have been good.”

After a fitful night’s sleep d’Leo went outside shortly before sunrise. The water had receded, but thigh-deep pools still filled parts of some streets. “Everything was covered with sand,” he says. “It looked like another planet.”

A profoundly altered planet is what our fossil-fuel-driven civilization is creating, a planet where Sandy-scale flooding will become more common and more destructive for the world’s coastal cities. By releasing carbon dioxide and other heat-trapping gases into the atmosphere, we have warmed the Earth by more than a full degree Fahrenheit over the past century and raised sea level by about eight inches. Even if we stopped burning all fossil fuels tomorrow, the existing greenhouse gases would continue to warm the Earth for centuries. We have irreversibly committed future generations to a hotter world and rising seas.

In May the concentration of carbon dioxide in the atmosphere reached 400 parts per million, the highest since three million years ago. Sea levels then may have been as much as 65 feet above today’s; the Northern Hemisphere was largely ice free year-round. It would take centuries for the oceans to reach such catastrophic heights again, and much depends on whether we manage to limit future greenhouse gas emissions. In the short term scientists are still uncertain about how fast and how high seas will rise. Estimates have repeatedly been too conservative.

Global warming affects sea level in two ways. About a third of its current rise comes from thermal expansion—from the fact that water grows in volume as it warms. The rest comes from the melting of ice on land. So far it’s been mostly mountain glaciers, but the big concern for the future is the giant ice sheets in Greenland and Antarctica. Six years ago the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) issued a report predicting a maximum of 23 inches of sea-level rise by the end of this century. But that report intentionally omitted the possibility that the ice sheets might flow more rapidly into the sea, on the grounds that the physics of that process was poorly understood.

As the IPCC prepares to issue a new report this fall, in which the sea-level forecast is expected to be slightly higher, gaps in ice-sheet science remain. But climate scientists now estimate that Greenland and Antarctica combined have lost on average about 50 cubic miles of ice each year since 1992—roughly 200 billion metric tons of ice annually. Many think sea level will be at least three feet higher than today by 2100. Even that figure might be too low.

“In the last several years we’ve observed accelerated melting of the ice sheets in Greenland and West Antarctica,” says Radley Horton, a research scientist at Columbia University’s Earth Institute in New York City. “The concern is that if the acceleration continues, by the time we get to the end of the 21st century, we could see sea-level rise of as much as six feet globally instead of two to three feet.” Last year an expert panel convened by the National Oceanic and Atmospheric Administration adopted 6.6 feet (two meters) as its highest of four scenarios for 2100. The U.S. Army Corps of Engineers recommends that planners consider a high scenario of five feet.

One of the biggest wild cards in all sea-level-rise scenarios is the massive Thwaites Glacier in West Antarctica. Four years ago NASA sponsored a series of flights over the region that used ice-penetrating radar to map the seafloor topography. The flights revealed that a 2,000-foot-high undersea ridge holds the Thwaites Glacier in place, slowing its slide into the sea. A rising sea could allow more water to seep between ridge and glacier and eventually unmoor it. But no one knows when or if that will happen.“That’s one place I’m really nervous about,” says Richard Alley, a glaciologist at Penn State University and an author of the last IPCC report. “It involves the physics of ice fracture that we really don’t understand.” If the Thwaites Glacier breaks free from its rocky berth, that would liberate enough ice to raise sea level by three meters—nearly ten feet. “The odds are in our favor that it won’t put three meters in the ocean in the next century,” says Alley. “But we can’t absolutely guarantee that. There’s at least some chance that something very nasty will happen.”

Even in the absence of something very nasty, coastal cities face a twofold threat: Inexorably rising oceans will gradually inundate low-lying areas, and higher seas will extend the ruinous reach of storm surges. The threat will never go away; it will only worsen. By the end of the century a hundred-year storm surge like Sandy’s might occur every decade or less. Using a conservative prediction of a half meter (20 inches) of sea-level rise, the Organisation for Economic Co-operation and Development estimates that by 2070, 150 million people in the world’s large port cities will be at risk from coastal flooding, along with $35 trillion worth of property—an amount that will equal 9 percent of the global GDP. How will they cope?

“During the last ice age there was a mile or two of ice above us right here,” says Malcolm Bowman, as we pull into his driveway in Stony Brook, New York, on Long Island’s north shore. “When the ice retreated, it left a heap of sand, which is Long Island. All these rounded stones you see—look there,” he says, pointing to some large boulders scattered among the trees near his home. “They’re glacial boulders.”

Bowman, a physical oceanographer at the State University of New York at Stony Brook, has been trying for years to persuade anyone who will listen that New York City needs a harbor-spanning storm-surge barrier. Compared with some other leading ports, New York is essentially defenseless in the face of hurricanes and floods. London, Rotterdam, St. Petersburg, New Orleans, and Shanghai have all built levees and storm barriers in the past few decades. New York paid a high price for its vulnerability last October. Sandy left 43 dead in the city, of whom 35 drowned; it cost the city some $19 billion. And it was all unnecessary, says Bowman.

“If a system of properly designed storm-surge barriers had been built—and strengthened with sand dunes at both ends along the low-lying coastal areas—there would have been no flooding damage from Sandy,” he says.

Bowman envisions two barriers: one at Throgs Neck, to keep surges from Long Island Sound out of the East River, and a second one spanning the harbor south of the city. Gates would accommodate ships and tides, closing only during storms, much like existing structures in the Netherlands and elsewhere. The southern barrier alone, stretching five miles between Sandy Hook, New Jersey, and the Rockaway Peninsula, might cost $10 billion to $15 billion, Bowman estimates. He pictures a six-lane toll highway on top that would provide a bypass route around the city and a light-rail line connecting the Newark and John F. Kennedy Airports.

“It could be an asset to the region,” says Bowman. “Eventually the city will have to face up to this, because the problem is going to get worse. It might take five years of study and another ten years to get the political will to do it. By then there might have been another disaster. We need to start planning immediately. Otherwise we’re mortgaging the future and leaving the next generation to cope as best it can.”

Another way to safeguard New York might be to revive a bit of its past. In the 16th-floor loft of her landscape architectural firm in lower Manhattan, Kate Orff pulls out a map of New York Harbor in the 19th century. The present-day harbor shimmers outside her window, calm and unthreatening on an unseasonably mild morning three months to the day after Sandy hit.

“Here’s an archipelago that protected Red Hook,” Orff says, pointing on the map to a small cluster of islands off the Brooklyn shore. “There was another chain of shoals that connected Sandy Hook to Coney Island.”

The islands and shallows vanished long ago, demolished by harbor-dredging and landfill projects that added new real estate to a burgeoning city. Orff would re-create some of them, particularly the Sandy Hook–Coney Island chain, and connect them with sluice gates that would close during a storm, forming an eco-engineered barrier that would cross the same waters as Bowman’s more conventional one. Behind it, throughout the harbor, would be dozens of artificial reefs built from stone, rope, and wood pilings and seeded with oysters and other shellfish. The reefs would continue to grow as sea levels rose, helping to buffer storm waves—and the shellfish, being filter feeders, would also help clean the harbor. “Twenty-five percent of New York Harbor used to be oyster beds,” Orff says.

Orff estimates her “oystertecture” vision could be brought to life at relatively low cost. “It would be chump change compared with a conventional barrier. And it wouldn’t be money wasted: Even if another Sandy never happens, you’d have a cleaner, restored harbor in a more ecologically vibrant context and a healthier New York.”

In June, Mayor Michael Bloomberg outlined a $19.5 billion plan to defend New York City against rising seas. “Sandy was a temporary setback that can ultimately propel us forward,” he said. The mayor’s proposal calls for the construction of levees, local storm-surge barriers, sand dunes, oyster reefs, and more than 200 other measures. It goes far beyond anything planned by any other American city. But the mayor dismissed the idea of a harbor barrier. “A giant barrier across our harbor is neither practical nor affordable,” Bloomberg said. The plan notes that since a barrier would remain open most of the time, it would not protect the city from the inch-by-inch creep of sea-level rise.

Meanwhile, development in the city’s flood zones continues. Klaus Jacob, a geophysicist at Columbia University, says the entire New York metropolitan region urgently needs a master plan to ensure that future construction will at least not exacerbate the hazards from rising seas.

“The problem is we’re still building the city of the past,” says Jacob. “The people of the 1880s couldn’t build a city for the year 2000—of course not. And we cannot build a year-2100 city now. But we should not build a city now that we know will not function in 2100. There are opportunities to renew our infrastructure. It’s not all bad news. We just have to grasp those opportunities.”

Will New York grasp them after Bloomberg leaves office at the end of this year? And can a single storm change not just a city’s but a nation’s policy? It has happened before. The Netherlands had its own stormy reckoning 60 years ago, and it transformed the country.

The storm roared in from the North Sea on the night of January 31, 1953. Ria Geluk was six years old at the time and living where she lives today, on the island of Schouwen Duiveland in the southern province of Zeeland. She remembers a neighbor knocking on the door of her parents’ farmhouse in the middle of the night to tell them that the dike had failed. Later that day the whole family, along with several neighbors who had spent the night, climbed to the roof, where they huddled in blankets and heavy coats in the wind and rain. Geluk’s grandparents lived just across the road, but water swept into the village with such force that they were trapped in their home. They died when it collapsed.

“Our house kept standing,” says Geluk. “The next afternoon the tide came again. My father could see around us what was happening; he could see houses disappearing. You knew when a house disappeared, the people were killed. In the afternoon a fishing boat came to rescue us.”

In 1997 Geluk helped found the Watersnoodmuseum—the “flood museum”—on Schouwen Duiveland. The museum is housed in four concrete caissons that engineers used to plug dikes in 1953. The disaster killed 1,836 in all, nearly half in Zeeland, including a baby born on the night of the storm.

Afterward the Dutch launched an ambitious program of dike and barrier construction called the Delta Works, which lasted more than four decades and cost more than six billion dollars. One crucial project was the five-mile-long Oosterscheldekering, or Eastern Scheldt barrier, completed 27 years ago to defend Zeeland from the sea. Geluk points to it as we stand on a bank of the Scheldt estuary near the museum, its enormous pylons just visible on the horizon. The final component of the Delta Works, a movable barrier protecting Rotterdam Harbor and some 1.5 million people, was finished in 1997.

Like other primary sea barriers in the Netherlands, it’s built to withstand a 1-in-10,000-year storm—the strictest standard in the world. (The United States uses a 1-in-100 standard.) The Dutch government is now considering whether to upgrade the protection levels to bring them in line with sea-level-rise projections.

Such measures are a matter of national security for a country where 26 percent of the land lies below sea level. With more than 10,000 miles of dikes, the Netherlands is fortified to such an extent that hardly anyone thinks about the threat from the sea, largely because much of the protection is so well integrated into the landscape that it’s nearly invisible.

On a bitingly cold February afternoon I spend a couple of hours walking around Rotterdam with Arnoud Molenaar, the manager of the city’s Climate Proof program, which aims to make Rotterdam resistant to the sea levels expected by 2025. About 20 minutes into our walk we climb a sloping street next to a museum designed by the architect Rem Koolhaas. The presence of a hill in this flat city should have alerted me, but I’m surprised when Molenaar tells me that we’re walking up the side of a dike. He gestures to some nearby pedestrians. “Most of the people around us don’t realize this is a dike either,” he says. The Westzeedijk shields the inner city from the Meuse River a few blocks to the south, but the broad, busy boulevard on top of it looks like any other Dutch thoroughfare, with flocks of cyclists wheeling along in dedicated lanes.

As we walk, Molenaar points out assorted subtle flood-control structures: an underground parking garage designed to hold 10,000 cubic meters—more than 2.5 million gallons—of rainwater; a street flanked by two levels of sidewalks, with the lower one designed to store water, leaving the upper walkway dry. Late in the afternoon we arrive at Rotterdam’s Floating Pavilion, a group of three connected, transparent domes on a platform in a harbor off the Meuse. The domes, about three stories tall, are made of a plastic that’s a hundred times as light as glass.

Inside we have sweeping views of Rotterdam’s skyline; hail clatters overhead as low clouds scud in from the North Sea. Though the domes are used for meetings and exhibitions, their main purpose is to demonstrate the wide potential of floating urban architecture. By 2040 the city anticipates that as many as 1,200 homes will float in the harbor. “We think these structures will be important not just for Rotterdam but for many cities around the world,” says Bart Roeffen, the architect who designed the pavilion. The homes of 2040 will not necessarily be domes; Roeffen chose that shape for its structural integrity and its futuristic appeal. “To build on water is not new, but to develop floating communities on a large scale and in a harbor with tides—that is new,” says Molenaar. “Instead of fighting against water, we want to live with it.”

While visiting the Netherlands, I heard one joke repeatedly: “God may have built the world, but the Dutch built Holland.” The country has been reclaiming land from the sea for nearly a thousand years—much of Zeeland was built that way. Sea-level rise does not yet panic the Dutch.

“We cannot retreat! Where could we go? Germany?” Jan Mulder has to shout over the wind—we’re walking along a beach called Kijkduin as volleys of sleet exfoliate our faces. Mulder is a coastal morphologist with Deltares, a private coastal management firm. This morning he and Douwe Sikkema, a project manager with the province of South Holland, have brought me to see the latest in adaptive beach protection. It’s called the zandmotor—the sand engine.

The seafloor offshore, they explain, is thick with hundreds of feet of sand deposited by rivers and retreating glaciers. North Sea waves and currents once distributed that sand along the coast. But as sea level has risen since the Ice Age, the waves no longer reach deep enough to stir up sand, and the currents have less sand to spread around. Instead the sea erodes the coast here.

The typical solution would be to dredge sand offshore and dump it directly on the eroding beaches—and then repeat the process year after year as the sand washes away. Mulder and his colleagues recommended that the provincial government try a different strategy: a single gargantuan dredging operation to create the sandy peninsula we’re walking on—a hook-shaped stretch of beach the size of 250 football fields. If the scheme works, over the next 20 years the wind, waves, and tides will spread its sand 15 miles up and down the coast. The combination of wind, waves, tides, and sand is the zandmotor.

The project started only two years ago, but it seems to be working. Mulder shows me small dunes that have started to grow on a beach where there was once open water. “It’s very flexible,” he says. “If we see that sea-level rise increases, we can increase the amount of sand.” Sikkema adds, “And it’s much easier to adjust the amount of sand than to rebuild an entire system of dikes.”

Later Mulder tells me about a memorial inscription affixed to the Eastern Scheldt barrier in Zeeland: “It says, ‘Hier gaan over het tij, de maan, de wind, en wij—Here the tide is ruled by the moon, the wind, and us.’ ” It reflects the confidence of a generation that took for granted, as we no longer can, a reasonably stable world. “We have to understand that we are not ruling the world,” says Mulder. “We need to adapt.”

With the threats of climate change and sea-level rise looming over us all, cities around the world, from New York to Ho Chi Minh City, have turned to the Netherlands for guidance. One Dutch firm, Arcadis, has prepared a conceptual design for a storm-surge barrier in the Verrazano Narrows to protect New York City. The same company helped design a $1.1 billion, two-mile-long barrier that protected New Orleans from a 13.6-foot storm surge last summer, when Hurricane Isaac hit. The Lower Ninth Ward, which suffered so greatly during Hurricane Katrina, was unscathed.

“Isaac was a tremendous victory for New Orleans,” Piet Dircke, an Arcadis executive, tells me one night over dinner in Rotterdam. “All the barriers were closed; all the levees held; all the pumps worked. You didn’t hear about it? No, because nothing happened.”

New Orleans may be safe for a few decades, but the long-term prospects for it and other low-lying cities look dire. Among the most vulnerable is Miami. “I cannot envision southeastern Florida having many people at the end of this century,” says Hal Wanless, chairman of the department of geological sciences at the University of Miami. We’re sitting in his basement office, looking at maps of Florida on his computer. At each click of the mouse, the years pass, the ocean rises, and the peninsula shrinks. Freshwater wetlands and mangrove swamps collapse—a death spiral that has already started on the southern tip of the peninsula. With seas four feet higher than they are today—a distinct possibility by 2100—about two-thirds of southeastern Florida is inundated. The Florida Keys have almost vanished. Miami is an island.

When I ask Wanless if barriers might save Miami, at least in the short term, he leaves his office for a moment. When he returns, he’s holding a foot-long cylindrical limestone core. It looks like a tube of gray, petrified Swiss cheese. “Try to plug this up,” he says. Miami and most of Florida sit atop a foundation of highly porous limestone. The limestone consists of the remains of countless marine creatures deposited more than 65 million years ago, when a warm, shallow sea covered what is now Florida—a past that may resemble the future here.

A barrier would be pointless, Wanless says, because water would just flow through the limestone beneath it. “No doubt there will be some dramatic engineering feats attempted,” he says. “But the limestone is so porous that even massive pumping systems won’t be able to keep the water out.”

Sea-level rise has already begun to threaten Florida’s freshwater supply. About a quarter of the state’s 19 million residents depend on wells sunk into the enormous Biscayne aquifer. Salt water is now seeping into it from dozens of canals that were built to drain the Everglades. For decades the state has tried to control the saltwater influx by building dams and pumping stations on the drainage canals. These “salinity-control structures” maintain a wall of fresh water behind them to block the underground intrusion of salt water. To offset the greater density of salt water, the freshwater level in the control structures is generally kept about two feet higher than the encroaching sea.

But the control structures also serve a second function: During the state’s frequent rainstorms their gates must open to discharge the flood of fresh water to the sea.“We have about 30 salinity-control structures in South Florida,” says Jayantha Obeysekera, the chief hydrological modeler at the South Florida Water Management District. “At times now the water level in the sea is higher than the freshwater level in the canal.” That both accelerates saltwater intrusion and prevents the discharge of flood waters. “The concern is that this will get worse with time as the sea-level rise accelerates,” Obeysekera says.

Using fresh water to block the salt water will eventually become impractical, because the amount of fresh water needed would submerge ever larger areas behind the control structures, in effect flooding the state from the inside. “With 50 centimeters [about 20 inches] of sea-level rise, 80 percent of the salinity-control structures in Florida will no longer be functional,” says Wanless. “We’ll either have to drown communities to keep the freshwater head above sea level or have saltwater intrusion.” When sea level rises two feet, he says, Florida’s aquifers may be poisoned beyond recovery. Even now, during unusually high tides, seawater spouts from sewers in Miami Beach, Fort Lauderdale, and other cities, flooding streets.

In a state exposed to hurricanes as well as rising seas, people like John Van Leer, an oceanographer at the University of Miami, worry that one day they will no longer be able to insure—or sell—their houses. “If buyers can’t insure it, they can’t get a mortgage on it. And if they can’t get a mortgage, you can only sell to cash buyers,” Van Leer says. “What I’m looking for is a climate-change denier with a lot of money.”

Unless we change course dramatically in the coming years, our carbon emissions will create a world utterly different in its very geography from the one in which our species evolved. “With business as usual, the concentration of carbon dioxide in the atmosphere will reach around a thousand parts per million by the end of the century,” says Gavin Foster, a geochemist at the University of Southampton in England. Such concentrations, he says, haven’t been seen on Earth since the early Eocene epoch, 50 million years ago, when the planet was completely ice free. According to the U.S. Geological Survey, sea level on an iceless Earth would be as much as 216 feet higher than it is today. It might take thousands of years and more than a thousand parts per million to create such a world—but if we burn all the fossil fuels, we will get there.

No matter how much we reduce our greenhouse gas emissions, Foster says, we’re already locked in to at least several feet of sea-level rise, and perhaps several dozens of feet, as the planet slowly adjusts to the amount of carbon that’s in the atmosphere already. A recent Dutch study predicted that the Netherlands could engineer solutions at a manageable cost to a rise of as much as five meters, or 16 feet. Poorer countries will struggle to adapt to much less. At different times in different places, engineering solutions will no longer suffice. Then the retreat from the coast will begin. In some places there will be no higher ground to retreat to.

By the next century, if not sooner, large numbers of people will have to abandon coastal areas in Florida and other parts of the world. Some researchers fear a flood tide of climate-change refugees. “From the Bahamas to Bangladesh and a major amount of Florida, we’ll all have to move, and we may have to move at the same time,” says Wanless. “We’re going to see civil unrest, war. You just wonder how—or if—civilization will function. How thin are the threads that hold it all together? We can’t comprehend this. We think Miami has always been here and will always be here. How do you get people to realize that Miami—or London—will not always be there?”

What will New York look like in 200 years? Klaus Jacob, the Columbia geophysicist, sees downtown Manhattan as a kind of Venice, subject to periodic flooding, perhaps with canals and yellow water cabs. Much of the city’s population, he says, will gather on high ground in the other boroughs. “High ground will become expensive, waterfront will become cheap,” he says. But among New Yorkers, as among the rest of us, the idea that the sea is going to rise—a lot—hasn’t really sunk in yet. Of the thousands of people in New York State whose homes were badly damaged or destroyed by Sandy’s surge, only 10 to 15 percent are expected to accept the state’s offer to buy them out at their homes’ pre-storm value. The rest plan to rebuild.

A importância da imaginação pós-capitalista (Envolverde)

Economia
27/8/2013 – 11h47

por Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson, do The Irish Left Review*

david harvey 250 A importância da imaginação pós capitalista

David Harvey mergulha no estudo das contradições do sistema e busca alternativas: desmercantilização, propriedade comum, renda básica permanente, gratuidades… Foto: Divulgação/ Internet

Mês que vem completam-se cinco anos que Lehman Brothers foram protagonistas do maior caso de falência de banco na história dos EUA. O colapso sinalizou o início da Grande Depressão – a crise mais substancial do capitalismo mundial desde a 2ª Guerra Mundial. Como entender os fundamentos desse sistema agora em crise? E, com o sistema em guerra contra a classe trabalhadora, sob o disfarce da “austeridade”, como imaginar um mundo depois disso?

Poucos pensadores geraram respostas mais influentes para essas perguntas que o geógrafo marxista David Harvey. Aqui, em entrevista recente, ele fala a Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson sobre esses problemas.

The Irish Left Review – Você está trabalhando agora num novo livro, The Seventeen Contradictions of Capitalism [As 17 contradições do capitalismo]. Por que focar essas contradições?

David Harvey – A análise do capitalismo sugere que são contradições significativas e fundamentais. Periodicamente essas contradições saem de controle e geram uma crise. Acabamos de passar por uma crise e acho importante perguntar que contradições nos levaram à crise? Como podemos analisar a crise em termos de contradições? Uma das grandes ditos de Marx foi que uma crise é sempre resultado das contradições subjacentes. Portanto, temos de lidar com elas próprias, não com os resultados delas.

TILR – Uma das contradições a que você se dedica é a que há entre o valor de uso e o valor de troca de uma mercadoria. Por que essa contradição é tão fundamental para o capitalismo e por que você usa a moradia para ilustrá-la?

DH – Temos de começar por entender que todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. Se tenho um bife, o valor de uso é que posso comê-lo, e o valor de troca é quanto tenho de pagar para comê-lo.

A moradia é muito interessante, nesse sentido, porque se pode entender como valor de uso que ela garante abrigo, privacidade, um mundo de relações afetivas entre pessoas, uma lista enorme de coisas para as quais usamos a casa. Houve tempo em que cada um construía a própria casa e a casa não tinha valor de troca. Depois, do século 18 em diante, aparece a construção de casas para especulação – construíam-se sobrados georgianos [reinado do rei George, na Inglaterra] para serem vendidos. E as casas passaram a ser valores de troca para consumidores, como poupança. Se compro uma casa e pago a hipoteca, acabo proprietário da casa. Tenho pois um bem, um patrimônio. Assim se gera uma política curiosa – “não no meu quintal”, “não quero ter gente na porta ao lado que não se pareça comigo”. E começa a segregação nos mercados imobiliários, porque as pessoas querem proteger o valor de troca dos seus bens.

Então, há cerca de 30 anos, as pessoas começaram a usar a moradia como forma de obter ganhos de especulação. Você podia comprar uma casa e “passar adiante” – compra uma casa por £200 mil, depois de um ano consegue £250 mil por ela. Você ganha £50 mil, por que não? O valor de troca passou a ser dominante. E assim se chega ao boom especulativo. Em 2000, depois do colapso dos mercados globais de ações, o excesso de capital passou a fluir para a moradia. É um tipo interessante de mercado. Você compra uma casa, o preço da moradia sobe você diz “os preços das casas estão subindo, tenho de comprar uma casa”, mas outro compra antes de você. Gera-se uma bolha imobiliária. As pessoas ficam presas na bolha e a bolha explode. Então, de repente, muitas pessoas descobrem que já não podem usufruir do valor de uso da moradia, porque o sistema do valor de troca destruiu o valor de uso.

E surge a pergunta: é boa ideia permitir que o valor de uso da moradia, que é crucial para o povo, seja comandado por um sistema louco de valor de troca? O problema não surge só na moradia, mas em coisas como educação e atenção à saúde. Em vários desses campos, liberamos a dinâmica do valor de troca, sob a teoria de que ele garantirá o valor de uso, mas o que se vê frequentemente, é que ele faz explodir o valor de uso e as pessoas acabam sem receber boa atenção à saúde, boa educação e boa moradia. Por isso me parece tão importante prestar atenção à diferença entre valor de uso e valor de troca.

TILR – Outra contradição que você comenta envolve um processo de alternar, ao longo do tempo, entre a ênfase na oferta, na produção, e ênfase na demanda, pelo consumo, que se vê no capitalismo. Pode falar sobre como esse processo apareceu no século 20 e por que é tão importante?

DH – Uma grande questão é manter uma demanda adequada de mercado, de modo que seja possível absorver o que for que o capital esteja produzindo. Outra, é criar as condições sob as quais o capital possa produzir com lucros.

Essas condições de produção lucrativa quase sempre significam suprimir a força de trabalho. Na medida em que se reduzem salários – pagando salários cada vez menores –, as taxas de lucro sobem. Portanto, do lado da produção, quanto mais arrochados os salários, melhor. Os lucros aumentam. Mas surge o problema: quem comprará o que é produzido? Com o trabalho arrochado, onde fica o mercado? Se o arrocho é excessivo, sobrevém uma crise, porque deixa de haver demanda suficiente que absorva o produto.

A certa altura, a interpretação generalizada dizia que o problema, na crise dos anos 1930s foi falta de demanda. Houve então uma mudança na direção de investimentos conduzidos pelo Estado, para construir novas estradas, o WPA [serviços públicos, sob o New Deal] e tudo aquilo. Diziam que “revitalizaremos a economia” com demanda financiada por dívidas e, ao fazer isso, viraram-se para a teoria Keynesiana. Saiu-se dos anos 1930s com uma nova e forte capacidade para gerenciar a demanda, com o Estado muito envolvido na economia. Resultado disso, houve fortes taxas de crescimento, mas as fortes taxas de crescimento vieram acompanhadas de maior poder para os trabalhadores, com salários crescentes e sindicatos fortes.

Sindicatos fortes e altos salários significam que as taxas de lucro começam a cair. O capital entra em crise, porque não está reprimindo suficientemente os trabalhadores. E o “automático” do sistema dá o alarme. Nos anos 1970s, voltaram-se na direção de Milton Friedman e da Escola de Chicago. Passou a ser dominante na teoria econômica, e as pessoas começaram a observar a ponta da oferta – sobretudo os salários. E veio o arrocho dos salários, que começou nos anos 1970s. Ronald Reagan ataca os controladores de tráfego aéreo; Margaret Thatcher caça os mineiros; Pinochet assassina militantes da esquerda. O trabalho é atacado por todos os lados – e a taxa de lucros sobe. Quando se chega aos anos 1980s, a taxa de lucro dá um salto, porque os salários estão sendo arrochados e o capital está se dando muito bem. Mas surge o problema: a quem vender aquela coisa toda que está sendo produzida.

Nos anos 1990s tudo isso foi recoberto pela economia do endividamento. Começaram a encorajar as pessoas a tomarem empréstimos – começou uma economia de cartão de crédito e uma economia de moradia pesadamente financiada por hipotecas. Assim se mascarou o fato de que, na realidade, não havia demanda alguma. Em 2007-8, esse arranjo também desmoronou.
O capital enfrenta essa pergunta, “trabalha-se pelo lado da oferta ou pelo lado da demanda”? Minha ideia, para um mundo anticapitalista, é que é preciso unificar tudo isso. Temos de voltar ao valor de uso. De que valores de uso as pessoas precisam e como organizar a produção de tal modo que satisfaça à demanda por aqueles valores de uso?

TILR – Hoje, tudo indica que estamos em crise pelo lado da oferta. Mas a austeridade é tentativa de encontrar solução pelo lado da demanda. Como resolver isso?

DH – É preciso diferenciar entre os interesses do capitalismo como um todo e o que é interesse especificamente da classe capitalista, ou de uma parte dela. Durante essa crise, a classe capitalista deu-se muitíssimo bem. Alguns saíram queimados, mas a maior parte saiu-se extremamente bem. Segundo estudo recente, nos países da OECD a desigualdade econômica cresceu significativamente desde o início da crise, o que significa que os benefícios da crise concentraram-se nas classes mais ricas. Em outras palavras, os ricos não querem sair da crise, porque a crise lhes traz muitos lucros.
A população como um todo está sofrendo, o capitalismo como um todo não está saudável, mas a classe capitalista – sobretudo uma oligarquia que há ali – está muito bem. Há várias situações nas quais capitalistas individuais operando conforme os interesses de sua classe, podem de fato fazer coisas que agridem muito gravemente todo o sistema capitalista. Minha opinião é que, hoje, estamos vivendo uma dessas situações.

TILR – Você tem repetido várias vezes, recentemente, que uma das coisas que a esquerda deveria estar fazendo é usar nossa imaginação pós-capitalista, e começar por perguntar como, afinal, será um mundo pós-capitalista. Por que isso lhe parece tão importante? E, na sua opinião, como, afinal, será um mundo pós-capitalista?

DH – É importante, porque há muito tempo trombeteia-se nos nossos ouvidos que não há alternativa. Uma das primeiras coisas que temos de fazer é pensar a alternativa, para começar a andar na direção de criá-la.

A esquerda tornou-se tão cúmplice com o neoliberalismo, que já não se vê diferença entre os partidos políticos da esquerda e os da direita, se não em questões nacionais ou sociais. Na economia política não há grande diferença. Temos de encontrar uma economia política alternativa ao modo como funciona o capitalismo. E temos alguns princípios. Por isso as contradições são interessantes. Examina-se cada uma delas, por exemplo, a contradição entre valor de uso e valor de troca e se diz – “o mundo alternativo é mundo no qual se fornecem valores de uso”. Assim podemos nos concentrar nos valores de uso e tentar reduzir o papel dos valores de troca.

Ou, na questão monetária – claro que precisamos de dinheiro para que as mercadorias circulem. Mas o problema do dinheiro é que pessoas privadas podem apropriar-se dele. O dinheiro torna-se uma modalidade de poder pessoal e, em seguida, um desejo-fetiche. As pessoas mobilizam a vida na procura por esse dinheiro, até quem não sabe que o faz. Então, temos de mudar o sistema monetário – ou se taxam todas as mais-valias que as pessoas comecem a obter ou criamos um sistema monetário no qual a moeda se dissolve e não pode ser entesourada, como o sistema de milhagem aérea.

Mas para fazer isso, é preciso superar a dicotomia estado/propriedade privada, e propor um regime de propriedade comum. E, num dado momento, é preciso gerar uma renda básica para o povo, porque se você tem uma forma de dinheiro antipoupança é preciso dar garantia às pessoas. Você tem de dizer “você não precisa poupar para os dias de chuva, porque você sempre receberá essa renda básica, não importa o que aconteça”. É preciso dar segurança às pessoas desse modo, não por economias privadas, pessoais.

Mudando cada uma dessas coisas contraditórias chega-se a um tipo diferente de sociedade, que é muito mais racional que a que temos hoje. Hoje, o que acontece é produzimos e, em seguida, tentamos persuadir os consumidores a consumir o que foi produzido, queiram ou não e precisem ou não do que é produzido. Em vez disso, temos de descobrir quais os desejos e vontades básicas das pessoas e mobilizar o sistema de produção para produzir aquilo. Se se elimina a dinâmica do valor de troca, é possível reorganizar todo o sistema de outro modo. Pode-se imaginar a direção na qual se moverá uma alternativa socialista, se nos afastamos da forma dominante da acumulação de capital que hoje comanda tudo.

* Esse é um trecho da entrevista. A íntegra da entrevista será publicada na edição de outono de The Irish Left Review./ Tradução Vila Vudu.

** Publicado originalmente no site Irish Left Review e retirado do site Outras Palavras.

(Outra Palavras)

Global warming survey shows support for civil disobedience (Climate Connections)

20 August, 2013. Source: Climate Nexus

Photo: David Suzuki Foundation

Photo: David Suzuki Foundation

national survey finds that many Americans (24%) would support an organization that engaged in non-violent civil disobedience against corporate or government activities that make global warming worse.

Moreover, 13% say they would be willing to personally engage in non-violent civil disobedience for the same reason.

“Many Americans want action on climate change by government, business, and each other,” said lead researcher Anthony Leiserowitz, PhD, of Yale University. “The fact that so many Americans would support organizations engaging in civil disobedience to stop global warming  – or would be willing to do so personally – is a sign that many see climate change as a clear and present danger and are frustrated with the slow pace of action.”

Another key finding of the survey is that, in the past year, Americans were more likely to discuss global warming with family and friends (33% did so often or occasionally) than to communicate about it using social media (e.g., 7% shared something about global warming on Facebook or Twitter, 6% posted a comment online in response to a news story or blog about the topic, etc.).

“Our findings are in line with other research demonstrating that person-to-person conversations – about a wide variety of topics, not just global warming – are still the most common form of communication,” said Dr. Leiserowitz. “The notion that social media have completely ‘taken over’ most of our social interactions is incorrect. For example, we find that Americans are much more likely to talk about extreme weather face-to-face or over the phone than through social media.”

Furthermore, Americans are most likely to identify their own friends and family, such as a significant other (27%), son or daughter (21%), or close friend (17%), as the people who could motivate them to take action to reduce global warming.

“Our findings show that people are most willing to listen to those personally close to them when it comes to taking action against global warming,” said researcher Ed Maibach, PhD, of George Mason University. “In fact, if someone they ‘like and respect’ asks them to take action about global warming, a third say they would attend a public meeting about global warming or sign a pledge to vote only for political candidates that share their views about global warming, among other things.”

These findings come from a nationally representative survey – Climate Change in the American Mind – conducted by the Yale Project on Climate Change Communication and the George Mason University Center for Climate Change Communication.

Black Bloc: “Fazemos o que os outros não têm coragem de fazer” (Revista Fórum)

Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

Por Paulo Cezar Monteiro

20/08/2013 7:20 pm

“Os ativistas Black Bloc não são manifestantes, eles não estão lá para protestar. Eles estão lá para promover uma intervenção direta contra os mecanismos de opressão, suas ações são concebidas para causar danos às instituições opressivas.” É dessa forma que a estratégia de ação do grupo que vem ganhando notoriedade devido às manifestações no País é definida por um vídeo, divulgado pela página do Facebook “Black Bloc Brasil”, que explica parte das motivações e forma de pensar dos seus adeptos.

A ação, ou estratégia de luta, pode ser reconhecida em grupos de pessoas vestidas de preto, com máscaras ou faixas cobrindo os rostos. Durante os protestos, eles andam sempre juntos e, usualmente, atacam de maneira agressiva bancos, grandes corporações ou qualquer outro símbolo das instituições Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil “capitalistas e opressoras”, além de, caso julguem necessário, resistirem ou contra-atacarem intervenções policiais.

Devido ao atual ciclo de protestos de rua, o Black Bloc entrou no centro do debate político nacional. Parte das análises e opiniões classifica as suas ações como “vandalismo” ou “violência gratuita”, e também são recorrentes as críticas ao anonimato produzido pelas máscaras ou panos cobrindo a face dos adeptos. Mas o Black Bloc não é uma organização ou entidade. Leo Vinicius, autor do livro Urgência das ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global, da Conrad, (sob o pseudônimo Ned Ludd), a define o como uma forma de agir, orientada por procedimentos e táticas, que podem ser usados para defesa ou ataque em uma manifestação pública.

(Flickr.com/nofutureface)

Zuleide Silva (nome fictício), anarquista e adepta do Black Bloc no Ceará, frisa que eles têm como alvo as “instituições corporativas” e tentam defender os manifestantes fora do alcance das ações repressoras da polícia. “Fazemos o que os manifestantes não têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”, afirma.

O jornalista e estudioso de movimentos anarquistas, Jairo Costa, no artigo “A tática Black Bloc”, publicado na Revista Mortal, lembra que o Black Bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como uma forma utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (ocupações) e as universidades de ações da polícia e ataques de grupos nazistas e fascistas. “O Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc não é um tipo de organização anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma ação de guerrilha urbana”, contextualiza Costa.

De acordo com um dos “documentos informativos” disponíveis na página do Facebook, alguns dos elementos que os caracterizam são a horizontalidade interna, a ausência de lideranças, a autonomia para decidir onde e como agir, além da solidariedade entre os integrantes. Atualmente, há registros, por exemplo, de forças de ação Black Bloc nas recentes manifestações e levantes populares no Egito.

Manifestantes se reúnem em rua do Leblon, no Rio de Janeiro, próximos à casa do governador Sérgio Cabral (Foto: Mídia Ninja)

Black Bloc no Brasil

Para Leo Vinicius, é um “pouco surpreendente” que essa estratégia de manifestação urbana, bastante difundida ao redor do mundo, tenha demorado a chegar por aqui. “Essa forma de agir em protestos e manifestações ganhou muito destaque dentro dos movimentos antiglobalização, na virada da década de 1990 para 2000. Não é uma forma de ação política realmente nova”. No Brasil, existem páginas do movimento de quase todas as capitais e grandes cidades, a maior parte delas criadas durante o período de proliferação dos protestos. A maior é a Black Bloc Brasil, com quase 35 mil seguidores, seguida pela Black Bloc–RJ, com quase 20 mil membros.

A respeito da relação com o anarquismo, Vinicius faz uma ressalva. É preciso deixar claro que a noção de que “toda ação Black Bloc é feita por anarquistas e que todos anarquistas fazem Black Bloc” é falsa. “A história do Black Bloc tem uma ligação com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operação, pode ser utilizado até por movimentos da direita”, explica o escritor.

Para alguns ativistas, o processo de aceitação das manifestações de rua, feito pela grande mídia e por parte do público, de certa forma impôs que, para serem considerados legítimos, os protestos deveriam seguir um padrão: pacífico, organizado, com cartazes e faixas bem feitas e em perfeito acordo com as leis. Vinicius demonstra certa preocupação com a possibilidade do fortalecimento da ideia de que essa forma “pacífica” seja vista como o único meio possível ou legítimo de protestar. Ele afirma que não entende como violenta a ação Black Bloc de quebrar uma vidraça ou se defender de uma ação policial excessiva. “A violência é um conceito bastante subjetivo. Por isso, não dá pra taxar qualquer ato como violento, é preciso contextualizá-lo, entender as motivações por trás de cada gesto”, avalia.

Para ele, a eficácia de uma manifestação está em saber articular bem formas de ação “pacíficas” e “não pacíficas”. Foi esse equilíbrio, analisa, que fez com que o Movimento Passe Livre – São Paulo (MPL-SP) barrasse o aumento da tarifa na capital paulista. “Só com faixas e cartazes a tarifa não teria caído”, atesta. “Quem tem o poder político nas mãos só cede a uma reivindicação pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado”, sentencia.

Por outro lado, Vinicius alerta que é preciso perceber os limites para evitar que as ações mais “radicais” façam com que o movimento seja criminalizado ou se isole da sociedade e, com isso, perca o potencial de realizar qualquer mudança. Em sua obra, faz a seguinte definição daqueles que adotam a estratégia Black Bloc: “Eles praticam uma desobediência civil ativa e ação direta, afastando assim a política do teatro virtual perfeitamente doméstico, dentro do qual [a manifestação política tradicional] permanece encerrada. Os BB não se contentam com simples desfiles contestatórios, certamente importantes pela sua carga simbólica, mas incapazes de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas”, aponta.

Outra crítica recorrente é o fato de os BB usarem máscaras ou panos para cobrirem os rostos. Os adeptos da ação explicam que as máscaras são um meio de proteger suas identidades para “evitar a perseguição policial” e outras formas de criminalização, como também criar um “sentimento de unidade” e impedir o surgimento de um “líder carismático”.

Luta antiglobalização

Com o passar do tempo, segundo Jairo Costa, as táticas Black Bloc passaram a ser reconhecidas como um meio de expressar a ira anticapitalista. Ele explica que geralmente as ações são planejadas para acontecer durante grandes manifestações de movimentos de esquerda.

O estudioso destaca como um dos momentos mais significativos da história Black Bloc a chamada “Batalha de Seattle”, em 1999, contra uma rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 30 de novembro daquele ano, após uma tarde de confrontos com as forças policiais, uma frente móvel de black blockers conseguiu quebrar o isolamento criado entre os manifestantes e o centro comercial da cidade. Após vencer o cerco policial, os manifestantes promoveram a destruição de várias propriedades, limusines e viaturas policiais, e fizeram várias pichações com a mensagem “Zona Autônoma Temporária”. Estimativas apontam prejuízos de 10 milhões de dólares, além de centenas de feridos e 68 prisões.

Para Costa, um dos episódios mais impactantes – e duros – da história Black Bloc foi o assassinato de Carlo Giuliani, jovem anarquista de 23 anos, durante a realização simultânea do Fórum Social de Gênova e a reunião do G8 (Grupo dos oito países mais ricos), na Itália, em julho de 2001. Ele lembra que, após vários confrontos violentos – alguns deles vencidos pelos manifestantes, que chegaram a provocar a fuga dos policiais, que deixaram carros blindados para trás –, ocorreu o episódio que levou à morte de Giuliani.
“Ele partiu para cima de um carro de polícia tentando atirar nele um extintor de incêndio. Muitos fotógrafos estavam por lá e seus registros falam por si. Ao se aproximar do carro, Giuliani é atingido por dois tiros, um na cabeça. E, numa cena macabra, o carro da polícia dá marcha a ré e atropela-o várias vezes”, narra. Os assassinos de Carlo Giuliani não foram condenados. Dois anos após o fato, a Justiça italiana considerou que a ação policial se deu como “reação legítima” ao comportamento do militante.

Alvos capitalistas

Entre as formas de ação direta do Black Bloc destacam-se os ataques aos chamados “alvos simbólicos do capital”, que incluem joalherias, lanchonetes norte-americanas ou ainda a depredação de instituições oficiais e empresas multinacionais. Costa explica que essas ações “não têm como objetivo atingir pessoas, mas bens de capital”.

Zuleide justifica a destruição praticada contra multinacionais ou outros símbolos capitalistas, porque elas seriam mecanismo de “exploração e exclusão das pessoas”. “Queremos que esses meios que oprimem e desrespeitam um ser humano se explodam, vão embora, morram. Trabalhar dez horas por dia para não ganhar nada, isso é o que nos enfurece. Por isso, nossas ações diretas a eles, porque queremos causar prejuízos, para que percebam que há pessoas que rejeitam aquilo e que lutam pela população”, explica.

Ela reconhece que essas ações diretas podem deixá-los “mal vistos” na sociedade, já que há pessoas que pensam: “Droga, não vou poder mais comer no ***** porque destruíram tudo”. Porém, Zuleide afirma que o trabalhador, explorado por essas corporações, “adoraria fazer o que nós fazemos”, mas, por ter família para sustentar e contas a pagar, não faz. “Esse é mais um dos motivos que nos fazem do jeito que somos”, pontua.

Vinicius explica que, nas “ações diretas”, os black blockers atacam bens particulares por considerarem que “a propriedade privada – principalmente a propriedade privada corporativa – é em si própria muito mais violenta do que qualquer ação que possa ser tomada contra ela”. Quebrar vitrines de lojas, por exemplo, teria como função destruir “feitiços” criados pela ideologia capitalista. Esses “feitiços” seriam meios de “embalar o esquecimento” de todas as violências cometidas “em nome do direito de propriedade privada” e de “todo o potencial de uma sociedade sem ela [as vitrines]”.

Sem violência?

Em praticamente todas as manifestações, independentemente das causas e dos organizadores, tornou-se comum o grito: “Sem violência! Sem violência!”, que tinha como destinatários os policiais que, teoricamente, entenderiam o caráter “pacifista” do ato. Também seria uma tentativa de coibir a ação de “vândalos” ou “baderneiros”, que perceberiam não contar com o apoio do restante da massa.

Zuleide reconhece que, inicialmente, a ação Black Bloc era alvo desses gritos, mas, segundo ela, quando as pessoas entendem a forma como eles atuam, isso muda. “Os manifestantes perceberam que o Estado não iria nos deixar falar, nos deixar reivindicar algo, e começaram a nos reprimir. Quando há confronto [com a polícia], nós os ajudamos retardando a movimentação policial ou tirando eles de situações que ofereçam perigo, e alguns perceberam isso”, afirma.

Apesar de os confrontos com policiais não serem uma novidade durante as suas ações, os adeptos afirmam não ter como objetivo atacar policiais. Contudo, outro documento intitulado “Manifesto Black Bloc” deixa claro que, caso a polícia assuma um caráter “opressor ou repressor”, ela se torna, automaticamente, uma “inimiga”.

No “Manual de Ação Direta – Black Bloc”, também disponível na internet, a desobediência civil é definida como “a não aceitação” de uma regra, lei ou decisão imposta, “que não faça sentido e para não se curvar a quem a impõe. É este o princípio da desobediência civil, violenta ou não”. Entre as possibilidades de desobediência civil são citadas, por exemplo, a não aceitação da proibição da polícia que a manifestação siga por determinado caminho, a resistência à captura de algum manifestante ou, ainda, a tentativa de resgatar alguém detido pelos policiais.

Também são ensinadas táticas para resistir a gás lacrimogêneo, sprays de pimenta e outras formas de ação policial, além de dicas de primeiros socorros e direitos legais dos manifestantes. De acordo com o documento, as orientações desse manual tratam apenas da desobediência civil “não violenta”.

Outra orientação é que seja definido, antes da manifestação, se a desobediência civil será “violenta” ou “não violenta”. Caso se opte pela ação ‘não violenta’, essa decisão deve ser respeitada por todos, visto que não cumprir o combinado pode pôr “em risco” outros companheiros, além de ser um sinal de “desrespeito”.

Contudo, o mesmo manual deixa claro que o que “eles fazem conosco” todos os dias é uma violência, sendo assim, “a desobediência violenta é uma reação a isso e, portanto, não é gratuita, como eles tentam fazer parecer”.

Uma breve história

1980: O termo Black Bloc (Schwarzer Block) é usado pela primeira vez pela polícia alemã, como
forma de identificar grupos de esquerda na época denominados “autônomos, ou autonomistas”, que lutavam contra a repressão policial aos squats (ocupações).

1986: Fundada, em Hamburgo (Alemanha), a liga autonomista Black Bloc 1500, para defender o Hafenstrasse Squat.

1987: Anarquistas vestidos com roupas pretas protestam em Berlim Ocidental, por ocasião da presença de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, na cidade.

1988: Em Berlim Ocidental, o Black Bloc confronta-se com a polícia durante uma manifestação
contra a reunião do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

1992: Em São Francisco (EUA), na ocasião do 500º aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo, o Black Bloc manifesta-se contra o genocídio de povos nativos das Américas.

1999: Seattle contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Estima-se em 500 o número de integrantes do Black Bloc que destruíram o centro econômico da cidade.

2000: Em Washington, durante reunião do FMI e Banco Mundial, cerca de mil black blockers anticapitalistas saíram às ruas e enfrentaram a polícia.

2000: Em Praga (República Tcheca), forma-se um dos maiores Black Blocs que se tem notícia, durante a reunião do FMI. Cerca de 3 mil anarquistas lutam contra a polícia tcheca.

2001: Quebec (Canadá). Membros do Black Bloc
são acusados de agredir um policial durante uma marcha pela paz nas ruas de Quebec. Após esse evento, a população local e vários manifestantes de esquerda distanciaram-se da tática Black Bloc e de seus métodos extremos.

2001: A cidade de Gênova (Itália), ao mesmo tempo, recebeu a cúpula do G8 e realizou o Fórum Social de Gênova, com um grande número de Black blockers, além de aproximadamente de 200 mil ativistas. A ação ficou marcada pela violenta morte do jovem Carlo Giuliani, de 23 anos.

2007: Em Heiligendamm (Alemanha), reunião do G8 foi alvo de uma ação com a participação de cerca de 5 mil blackblockers . Mobilização Black Bloc de cerca de 5.000 pessoas

2010: Toronto (Canadá), na reunião do G20. Neste confronto, mais de 500 manifestantes foram presos e dezenas de outros ativistas foram parar em hospitais com inúmeras fraturas.

2013: Cairo (Egito). O Black Bloc aparece com forte atuação nos protestos da Praça Tahir, no combate e resistência ao exército do então presidente Hosni Mubarak.

Fonte: Artigo “A Tática Black Bloc”, escrito por Jairo Costa, na Revista Mortal, 2010

Occupying Wall Street: Places and Spaces of Political Action (Places)

PEER REVIEWED: JONATHAN MASSEY & BRETT SNYDER

The Design Observer Group

09.17.12
Occupy Wall Street digital activity timeline
Occupy Wall Street activity online. Click image to enlarge. [Timeline by the authors]

For nine weeks last fall crowds gathered every evening at the eastern end of Zuccotti Park, where a shallow crescent of stairs creates a modest amphitheater, to form the New York City General Assembly. A facilitator reviewed rules for prioritizing speakers and gestures by which participants could signal agreement or dissent. Over two hours or more, they worked through issues of common concern — every word repeated by the assembly, which formed a human microphone amplifying the speaker’s voice — until they reached consensus.

Such was the daily practice of Occupy Wall Street, paralleled in more than a thousand cities around the world. Participants borrowed tactics from Quaker meetings, Latin American popular assemblies, Spanish acampadas, and other traditions of protest and political organization. They also enacted something foundational to the western democratic tradition: constituting a polity as a group of speaking bodies gathered in a central public place.

At the same time, another crowd assembled in a range of online spaces. Moving between the physical and the virtual, participants navigated a hypercity built of granite and asphalt, algorithms and information, appropriating its platforms and creating new structures within it. As they posted links, updates, photos and videos on social media sites; as they deliberated in chat rooms and collaborated on crowdmaps; as they took to the streets with smartphones, occupiers tested the parameters of this multiply mediated world.

What is the layout of this place? What are its codes and protocols? Who owns it? How does its design condition opportunities for individual and collective action? Looking closely at these questions, we learn something about the possibilities for public life and political action created at the intersection of urban places and online spaces.


Top: Occupiers camp in Liberty Plaza as news vans line up across the street. Middle: Detail of#OccupyMap. Bottom: Occupy coordinators meet in the atrium of 60 Wall Street. [Photos by Jonathan Massey]

Occupying the Public Square 
Zuccotti Park — or Liberty Plaza — was the site not only of General Assembly but also of the bustling camp that materialized and sustained the occupation. As architects, we were fascinated by the intensive use of this privately owned public space. As citizens, we were inspired by the movement’s critique of the U.S. political system and its experiment with alternate forms of social organization. After the arrest of 700 protesters on the Brooklyn Bridge, Jonathan began visiting Liberty Plaza and occasionally participating in rallies. Brett tracked the movement’s use of new media to expose inequalities in wealth distribution. Jonathan enlisted friends to survey and document the encampment, while Brett developed an interactive project, Public Space 2.0, that linked Occupy to broader questions about public space. Following the eviction of occupiers in New York and other cities, we decided to collaborate on a project examining the spatial and social organization of Liberty Plaza.

In the tradition of urban demonstrations and sit-ins, the camp claimed a prominent and symbolically charged city space in order to call attention to a political cause. It provided logistical support as the first day of protest extended into a two-month occupation. It gave visitors a point of entry into the movement and its ideas. Moreover, it prefigured in microcosm the alternative polity desired by many participants, modeling and testing modes of self-organization partly autonomous from those provided by the state and the market.

As such, it embodied one of the defining tensions of Occupy Wall Street: between the aims of protest and prefiguration. [1] One reason for claiming Liberty Plaza was to command the attention of the public and the state. Indeed, the blog post that sparked the movement, by the Canadian magazine Adbusters, urged activists to create “a Tahrir moment” by insistently repeating “one simple demand” akin to the call for Egyptian president Hosni Mubarak’s resignation. [2] But some of the New York activists who planned the occupation pursued a vision of autonomous self-organization and self-government informed by anarchist principles. Occupiers refused to formulate their objectives as political demands, even though doing so might have strengthened their grip on the public imagination. Instead of a unified plea to elected representatives, broadcast from a central square, Occupy yielded a polyphony of discussions in the agoras of the hypercity.

Occupy Wall Street police observation tower
Top: Occupiers in mid-October. Bottom: NYPD Skywatch portable surveillance tower. [Photos by Jonathan Massey]

From its founding on September 17, 2011, the occupation traced contours of regulation and control. Its location, design and construction limned the legal, juridical and police affordances of New York’s public realm, revealing the constraints placed on people assembling to form a counterpublic — a public operating according to practices distinct from those of the mainstream. [3] The declared site of the first protest, carnival, and General Assembly was Chase Manhattan Plaza, but occupiers arrived to find the corporate space closed off by barricades and patrolled by police. Prior General Assemblies had been held in New York public parks and squares, but organizers knew the city tightly controlled those spaces by requiring permits, enforcing nighttime closures and barricading areas. The use of city sidewalks was also curtailed. Bloombergville, a sidewalk encampment near City Hall, had survived for three weeks in July, but a test camp-out on Wall Street on September 1 had been broken up by police. [4] When demonstrators found Chase Plaza closed, they moved to the privately-owned Zuccotti Park, three blocks away, claiming the space with signs, megaphones, sleeping bags and blankets.

The following weeks confirmed that the state would use police control to assert its hegemony over the terms of public assembly and discourse. When protesters crossed the border of Liberty Plaza onto city streets or squares, they encountered “order maintenance policing,” a euphemistic directive that empowers New York police to intervene in public events irrespective of criminal action. Over the past 15 years, the NYPD has expanded the practice to assert control over parades, festivals and rallies, often arresting participants for “disorderly conduct” and releasing them without charge. [5] Under this vague authority, NYPD limited the range and duration of Occupy demonstrations and tightly controlled their internal dynamics through barricades, kettling and arrests.

And yet Occupy Wall Street showed that possibilities foreclosed on private and public land could be actualized in the liminal territory of the city’s privately owned public spaces(POPS) — plazas, arcades and other spaces built by real estate developers in return for density bonuses under the terms of the 1961 Zoning Resolution. [6] The occupation of Zuccotti Park was made possible by ambiguities in the POPS system, which has created places where the city government must negotiate authority with corporate owners as well as site occupants. Even so, the city intervened in the camp’s internal organization and operation: fire marshals prohibited tents and other structures in the early weeks; they removed generators as the weather grew cold in late October; and, shortly after midnight on November 15, police forcibly cleared the park.

Zuccotti Park after eviction of protestors
Top: The planned site of the September 17 protest, Chase Manhattan Plaza, was barricaded at the request of its corporate owners. [Photo by David Shankbone] Bottom: Police patrol Zuccotti Park on November 15 after evicting protesters. [Photo by Jonathan Massey]

During the two-month occupation, protesters rewrote the social and spatial codes that had determined use of the block for decades. Created in the late 1960s as a POPS concession linked to the construction of One Liberty Plaza, the park was rebuilt by new owners Brookfield Properties in 2006 to a design by Cooper Robertson & Partners that serves downtown office workers by encouraging passive recreations like lunch and chess while discouraging active ones like cycling and skateboarding. In a related feature on Places, we look more closely at the Cooper Robertson design and its transformation into the Liberty Plaza encampment.

Stepping partially outside state and market systems, occupiers created their own structures for discussion and governance; for provision of daily services; for medical care and sacred space; for music, dance and art. Some aspects of this counterpublic resembled the exhilarating, liberatory “Temporary Autonomous Zones” described by anarchist writer Hakim Bey. [7] Others were pragmatic, even bureaucratic. Within days, working groups resembling urban agencies — dedicated to issues like Comfort, Medical, Kitchen, Library, Sanitation and Security — created a series of nodes or workstations that cut diagonally across the park. They appropriated design elements such as retaining walls, benches and tables to define functional zones.

In overlaying the permanent landscape of the park with new activities and installations, the occupation created what anthropologist Tim Ingold calls a “taskscape”: a topography of related activities deployed in space and changing over time. [8] Through their patterns of spatial appropriation, occupiers responded to the asymmetries of the park — its slope, the priority of Broadway relative to Trinity Place, and the more favorable sun and wind exposures available in the northeast corner — by programming the plaza along a gradient. Running from north and east to south and west, this gradient shaded from public to private, mind to body, waking to sleeping, and reason to faith. Outreach/Media/Legal claimed the location that afforded the most shelter and the best sun exposure while also being situated far from the noise and dust of the World Trade Center construction site.


Kitchen compost station and The People’s Library. [Photos by Jonathan Massey]

On the austere geometry of a tasteful corporate plaza, just under 33,000 square feet, the occupation created an entire world in which you could meditate, change your wardrobe, update your blog, cook lentils, read a book, sweep up litter, bandage a wound, bang a drum, roll a cigarette, debate how best to challenge corporate hegemony, make art, wash dishes and have sex, usually in the company of others.  The square teemed with friends and strangers, allies and antagonists; it was intensely public and interactive. Daily activities were saturated with a talky sociability in which the challenges and opportunities of every action, every decision, were open to reinterpretation and negotiation. At any moment, the call of “Mic check!” could ring out across the camp, obligating participants to drop personal conversations and become part of a communal discourse. The act of chanting in unison, as a human microphone, created a common sense of purpose, established relationships among neighbors and intensified awareness of surrounding bodies.

This new world could feel exhilarating and inspiring but also threatening and claustral. It was crowded. It was charged with strong emotions. Its core members were working hard, and they were often tired. On top of reforming global capitalism, they had to handle fights, thefts, drug use and sexual assaults, while operating under the strain of official hostility, police surveillance, constant interaction with supportive and hostile visitors, and weather. Radical openness and participatory self-government proved taxing. As the occupation stretched from days into weeks and months, participants took shelter from cold, rain and snow in tents and tarps. The plaza became more internalized and lost some of its intense sociability.

The functional zoning also reinforced sociological differences in the camp. Many of the most active members identified themselves as coordinators or occupiers. These groups were not mutually exclusive, but they gravitated toward spaces in separate ends of the park.Coordinators, who facilitated discussions and posted on blogs, often spent nights at home, while occupiers put their bodies on the line by living and sleeping in the park. A spatial gradient emerged, with occupiers’ tents clustered toward the western end. Not surprisingly, these constituencies were marked by differences in class, education level, ethnicity, sexuality and gender. The Daily Show even aired a skit about the differences, using “uptown” and “downtown” to describe the two ends of the park. [9]

Occupy Wall Street Sanitation Workstation


Top: Sanitation workstation. [Photo by Jonathan Massey] Bottom: Liberty Plaza Site Map drawn by Occupy participant on October 10. Click image to enlarge. [Map by Jake Deg]

Organizers worked hard to build the institutions needed to sustain the micro-city, but its autonomy was inherently limited; the camp was shaped by its adjacencies to the social, commercial and political networks of Lower Manhattan and the Financial District. Businesses provided restrooms. Sympathetic unions made facilities available. Organizations lent kitchen and office space. Individuals donated money, books, clothing and food. Murray Bergtraum High School opened its auditorium to meetings of the OWS Spokescouncil. A local government authority, Manhattan Community Board 1, mediated among protesters, neighborhood residents, Brookfield Properties and city officials in discussions about drum noise and other issues where order maintenance was enforced through claims about “quality of life.”

These interactions extended the spatial and social gradients of Liberty Plaza across a broader urban geography. Dozens of working groups met in the enclosed atrium at 60 Wall Street, a privately owned public space at the base of an office tower built by J.P. Morgan and currently occupied by Deutsche Bank. In that large room, designed by Roche and Dinkeloo and clad in marble and mirror and decorated with palm trees and postmodern grottoes, they shared space with chess-players and well-heeled denizens of the Financial District. From morning to night they used the tables, benches, chairs and wifi of the climate-controlled space as a purposeful, orderly extension of the eastern end of Liberty Plaza, establishing commuting patterns that figured 60 Wall as the Occupy office.

Occupying the Internet 
The Wall Street protests would not have materialized without extensive work by on-the-ground activists in New York. But it was the Adbusters blog post that gave the action a name and date. It also gave them #occupywallstreet, the first of thousands of #Occupy hashtags that enabled the spontaneous assembly of strangers on Twitter and other internet platforms. In the months leading up to the first occupation, and in the year afterward, Occupy established an online presence unmatched in the history of social action, leveraging multiple online spaces to stage protests and to generate a distinctive counter-public and alternative polity.


Top: Occupiers connect via laptops and smartphones from Liberty Plaza. [Photo by David Shankbone] Bottom: Instagram photo sent by Occupy activist: “Riding in a bus with 50 others, in cuffs writing this.” [Photo by pulseprotest]

In the United States, the internet was largely exempt from the state control and censorship that curtailed protest activity on the street, but it was inherently open to surveillance and imposed another set of exclusions based on access to online spaces and protocols. Its various platforms afforded ties that were both broader and weaker than those at Liberty Plaza. Discussions took place in specialized forums and channels quite unlike the multisensory, multiparticipatory assemblies, meetings, marches and rallies of the physical realm. From its inception, Occupy tested the capacities of the internet’s virtual spaces to sustain organizational activity, deliberative discourse and other kinds of public-making. [10]

As with the physical occupation, many online actions had precedent in earlier movements, from the anti-globalization protests of the 1990s to the Arab Spring of 2011. For years U.S. activists have used sites like Indymedia to distribute information and mobilize protest participation. [11] After posting its call to action, Adbusters sent word to its email distribution list and created a Facebook event, mobilizing a pre-existing network of followers. As one of the largest privately owned public spaces online, Facebook became a key platform for the Occupy movement. Facebook profiles such as OccupyWallSt,Gilded.Age and OccupyTogether, created in the weeks leading up to the first protest, provided broadly accessible channels for information. When individuals “liked” or commented on items in these newsfeeds, Occupy ideas propagated through user-generated social networks. Throughout the fall, members used the site’s text, link, note, and photo and video sharing features to endorse events and activities. [12]

During the groundwork phase, organizers also used open-source web-coding tools to create dedicated Occupy websites. The most important were Occupywallst.org, a Github site launched in mid-July as a clearinghouse and contact-point for the movement;NYCGA.net, a WordPress site created a few weeks later to serve the New York City General Assembly and its working groups; and the blog Occupytogether.org. These sites combined newsfeeds and social media links with manifestos, videos, crowdmaps and other resources, and they linked together other sites to create a sprawling landscape of information.


A selection of the more than 1600 posts submitted to the 99 Percent Project in October 2011.

In parallel, organizers tapped the internet’s capacity to build what sociologists Jennifer Earl and Katrina Kimport call “e-movements”: politically effective campaigns that circulate in the media without necessarily coalescing into mass gatherings. Online tools provide immediate and inexpensive site design and back-end functionality, allowing organizations or individuals to launch awareness campaigns and other political actions that demand little money or time from participants. [13] One such tool for Occupy activists was the image-based microblogging site Tumblr. In late summer, the 99 Percent Project invited people to “get known” as part of a majority disenfranchised by the super-rich. Under the slogan “We Are the 99 Percent,” the image blog featured self-portraits of working- and middle-class Americans holding handwritten signs or letters describing the circumstances of their indebtedness. The project called attention to the rise in income inequality and helpedpopularize the rhetoric of “the 99 percent.” [14] After September 17, it became an online analogue to Liberty Plaza, enabling a geographically dispersed set of participants to join the occupation of Wall Street and forging a common consciousness about debt and disenfranchisement. The self-portraits were often shot at a computer desk with a webcam, and overwhelmingly they were set in domestic interiors like living rooms, dens and bedrooms. But the handwritten signs pointed to a world outside those walls, evoking the signs of the homeless explaining their misfortunes and asking for help, as well as the signs of protesters bearing expressions of solidarity and calls to action. [15]


Global crowdmap on the Ushahidi platform. [Screenshot by the authors]

Contours of the Hypercity 
In the summer of 2011, before the first protesters had set foot in Liberty Plaza, the Occupy movement was evolving toward a model of General Assembly that hybridized online and offline discourse. While street activists in New York were practicing consensus decision-making in public parks, online participants were responding to a poll Adbusters created using Facebook’s “question” function: “What is our one demand?” Answers included abolishing capitalism, demilitarizing the police, legalizing marijuana, reinstating the Glass-Steagall Act and freeing the unicorns. (The winner was “Revoke Corporate Personhood.”) Through this asynchronous online polling, Facebook supported a weak form of political discussion that prefigured the stronger and more interactive deliberations that filled Liberty Plaza.

By September 10, General Assembly minutes were being posted online at NYCGA. Over time these became more elaborate, and note-takers projected their evolving documents on a screen in Liberty Plaza so that participants could respond to the minutes-in-the-making. Assembly meetings were livestreamed so that participants across the globe could follow in real time, and some were archived online in audio and video formats. Congregants also livetweeted the assemblies under Twitter handles such as @DiceyTroop and @LibertySqGA. These accounts attracted thousands of followers, many of whom responded to live events, adding a layer of online conversation that augmented the face-to-face assemblies.

Hybrid discussions were the norm for the working groups that handled the day-to-day and week-to-week activity of Occupy Wall Street. During and after the occupation, working groups met regularly at Liberty Plaza, the 60 Wall atrium, Union Square and other locations throughout New York. A blackboard at Liberty Plaza listed some of these meetings, but more reliable information was found online at NYCGA, where nearly every working group had a page with a blog, activity wall, shared documents and event calendar, and discussion forum involving members who had never attended the face-to-face meetings. By spring 2012, the site hosted roughly 90 working groups, some with just a handful of registered users and a couple of posts, others with many hundreds of users and more than 2,000 entries.


Top: Blackboard at Liberty Plaza announces working group meetings. [Photo by Jonathan Massey] Bottom left: Livestream at Occupy Detroit. [Photo by Stephen Boyle] Bottom right: “People’s Mic: Please join the Conversation.” 24/7 internet broadcast from Occupy Wall Street. [Photo by Chris Rojas]

As the weather changed in late October, the Town Planning forum hosted extensive discussions on a topic that simultaneously preoccupied the group’s in-person meetings and the General Assembly: how to sustain the camp into the winter. One participant lit up the forum with a long post advocating event tents that would cover large expanses of the park in communal enclosures, as an alternative to individual camping tents. “Safety teams are unfortunately learning … that privacy equals risk,” wrote Sean McKeown, “because privacy allows for unseen violence, unseen sexual menace, and for drugs, alcohol, and weapons to be kept in shockingly large number if we are to guess by the number of needles found around tents lately since they have gone up.” [16] Members suggested building geodesic domes or frame structures with salvaged materials, or claiming regulatory exemption by designating the camp as a Native American sacred site. The reconfiguration of Liberty Plaza at the beginning of November was negotiated simultaneously in the park, in dispersed work-group meetings, and on the internet.

While online forums, as the Latin term implies, evoke the experience of face-to-face discussion, other online technologies create public spaces without analogue in the physical world. The Twitter hashtag, for example, enables radically new modes of creating, discovering and organizing affinity clusters, which proved useful in movements like the January 25 Egyptian Revolution and the Green Revolution in Iran. In self-conscious emulation of those precedents, Adbusters branded September 17 with the hashtag#occupywallstreet, signaling an expectation that participants would use Twitter to communicate with one another and with larger publics.

It took more than a week for the hashtag to catch on, and from July 25 through the end of August, the four hashtags #occupywallstreet, #occupywallst, #occupy and #ows together accounted for an average of only 27 messages per day. Activity increased in September, and by the day of occupation, Twitter volume on this group of hashtags hit 78,351 as the broader public of participants, bystanders and commentators joined organizers in using the platform for realtime micoblogging of information, opinions and photos. Twitter’s instantaneous syndication was a valuable conduit for time-sensitive news, and its 140-character message limit was well suited to the mobile devices that predominated in Liberty Plaza. Some activists used photo, video and geotagging features on their phones to make Twitter a medium for mapping and building the extended Occupy taskscape. Volume on those four hashtags peaked at 411,117 on November 15, the day protesters were evicted from the park. [17]


Visualization of the Occupy movement online, July to December 2011, including activity on Google, Facebook, Twitter, blogs, and We Are the 99 Percent. Click image to enlarge. [Timeline by the authors]

Many other online spaces provided venues for discourse and arenas for participation. Internet relay chat channels allowed participants to talk to one another, individually and in groups. Live video streams from Liberty Plaza and other camps opened real-time windows onto parks, squares and streets around the world. Occupystreams.org compiled more than 250 such livestreams, each flanked on screen by a chat feed. Video and photo-sharing sites such as YouTube, Vimeo, Flickr and Instagram enabled participants to post, share and discuss images of Occupy protests, police actions, and other content. Much of this activity garnered only limited interest, but some posts went viral, such as the late September videoof a high-ranking NYPD officer pepper-spraying women who had already been corralled on the sidewalk. Edited and annotated with the low-tech tools that support user-generated content, the video broadened awareness of and sympathy for the occupation.

As social media expanded the range of channels for participation in Occupy Wall Street, it also changed the nature of the public that joined. Extrapolating from the work of anthropologist Jeffrey S. Juris, we can contrast the network logics that predominated in summer 2011, when organizations and activists used email lists and websites to mobilize pre-existing networks, with a new set of aggregation logics that developed as the event took off. Social media engaged many thousands of people who had no pre-existing connection to social change organizations and activist networks. These virtual spaces, even more than city parks, became points of encounter where previously unrelated individuals aggregated to form popular assemblies.

Focusing on Occupy Boston, Juris suggests that while the alter-globalization protests of the 1990s created “temporary performative terrains along which networks made themselves and their struggles visible,” the Occupy movement activated a wider public. “Rather than providing spaces for particular networks to coordinate actions and physically represent themselves,” he writes, “the smart mob protests facilitated by social media such as Facebook and Twitter make visible crowds of individuals aggregated within concrete locales.” [18]

Political scientist Stephania Milan has characterized Occupy protests as “cloud protesting,” comparing the movement to “a cloud where a set of ‘soft resources’ coexist: identities, narratives, and know-how, which facilitate mobilization,” much as social media hosted via cloud computing gives individuals the tools for “producing, selecting, punctuating, and diffusing material like tweets, posts and videos.” [19]


Top: Protest sign in Times Square: “Get off the internet. I’ll Meet you in the streets.” [Photo by Geoff Stearns] Bottom: Collaboratively edited User Map at OccupyWallSt.org.

Though Milan and Juris don’t address them, we could add crowdmaps to the list of “cloud tools” that activated aggregation logics in the Occupy movement. Online maps populated by user-generated content were published at Take the SquareUS Day of Rage,OccupyWallSt.org, and Occupy.net. Most used Ushahidi, free open-source crowdmapping software developed in 2008 in Kenya to support disaster relief and response efforts. By compiling data into a common geospatial framework, these crowdmaps visualized Occupy participants and camps as discrete elements that aggregated to form a global phenomenon. They associated people, texts, images and videos with particular places, constructing hypergeographies of action and potential. Animated timeline features encouraged users to visualize themselves and local events as part of a process of “#globalchange.”

The most robust crowdmap was the #OccupyMap at Occupy.net, built by the Tech Ops working group of NYCGA. It provided a web interface for reporting events such as marches, rallies and police interventions, with easy media embedding and compatibility with the Ushahidi app on iOS and Android mobile devices. It also populated automatically from Twitter: any tweet from a location-enabled device that included the hashtag #occupymap generated a geotagged report that could incorporate photos and videos via the Twitpic and Twitvid apps. By spring 2012, the map had aggregated some 900 entries from New York City into a database that could be sorted geographically and temporally, by medium and by event type — all viewable via map, timeline and photo interfaces. By pulling together disparate events and data across space and time, the #OccupyMap created a counterpublic integrated through its use of online media to contest state and corporate control of urban places.

The Occupy crowdmaps were most compelling rhetorically at larger scales, where they visualized landscapes fundamentally distinct from those visible in city streets. In counterpoint to the intense attention paid to Liberty Plaza, these virtual geographies redefined the public of Occupy Wall Street as a dispersed set of agents linked more by online communication channels than by proximity. Viewed at national scale, the red placemarker icons on the User Map at OccupyWallSt.org suggested a crowd of hot air balloons that had landed — or were preparing to take off — all across the country. In places they clustered so tightly as to create red contours marking an otherwise invisible topography of radicalism. But at the local scale, what had seemed a continuous landscape of occupiers thinned out; zooming in on Liberty Plaza, you saw only a forlorn green oblong scattered with a few markers.

Open-Source Urbanism 
While some online activists relied on corporate media such as Facebook and Twitter to reach a broad public, many made a point of using open-source software, sources and methods such as wikicoding. Occupy websites became spaces for the elaboration of what Christopher Kelty calls a recursive public, “a public that is vitally concerned with the material and practical maintenance and modification of the technical, legal, practical, and conceptual means of its own existence.” [20] In the physical realm, Liberty Plaza and other occupied spaces functioned as offline analogues of a wiki page. Participants without much prior affiliation built new worlds and organized themselves to maintain them while avoiding hierarchy and formalization whenever they could. At these “wikicamps,” open-source urbanism operated at a scale simultaneously local and global. [21] The New York camp was built with knowledge, idea and resources from Spain and Argentina, Chiapas and Cairo, as well as from local coalitions.


Jonathan Massey and Brett Snyder map Liberty Plaza’s functional zones and activities. See the sidebar  “Mapping Liberty Plaza” for axonometric drawings of the site’s transformation.

Participants have continued to explore the ways that digital media can reshape our public spaces and public spheres. One example is a course project at The New School that emerged from a multi-day, multi-city “hackathon” sponsored by the working group Occupy Research. The Twitter bot @OccupyPOPS is a script that cross-references check-ins on social media sites Foursquare and Twitter with the New York City government database of privately-owned public spaces, then automatically tweets a call to temporarily occupy a particular POPS at a specific date and time. Created by Christo de Klerk, @OccupyPOPS mobilizes virtual spaces, physical places and social networks to reshape urban public space and the regulations that govern it. Other New York-based projects addressing the issues foregrounded by Occupy include #whOWNSpace and The Public School, as well as pre-existing initiatives like Not an Alternative.

Open-source hypercity urbanism becomes increasingly important as governments constrain public assembly in the offline world. On November 15, the state cleared the experimental agora at Liberty Plaza. Police and sanitation workers with bulldozers removed tents and tarps while resisting occupiers fell back to the People’s Kitchen. As NYPD blockaded the surrounding streets and airspace, people and texts and media feeds streamed out from an atmosphere made toxic by chemical and sonic weapons. Coordinated police actions evicted occupiers in Oakland, Portland, Denver and other cities.

Occupy Wall Street working groups and General Assemblies continue to meet in the 60 Wall Street atrium and other public locations, and to stage intermittent marches, rallies and actions. Occupations were sustained in other cities around the world, and activists tried several times to retake Zuccotti Park. Without its base camp, the Occupy movement relied even more extensively on websites and other online media as its primary means of communication and self-representation. This activity expanded into an array of diffuse campaigns: to reduce and renegotiate student debt; to resist foreclosures and reclaim bank-owned houses; and to challenge corporate power on many fronts.


Top: Sign posted at the 60 Wall atrium on November 15: “No excessive use of space.” [Photo byJohanna Clear] Bottom: Protesters remove police barriers and reoccupy Zuccotti Park on November 17. [Photo by Brennan Cavanaugh]

Occupy Wall Street had an immediate impact on U.S. domestic politics. Counteracting anti-deficit rhetoric from the Republican Party and Tea Party activists who sought to cut social services while borrowing heavily to fund wars and regressive income redistributions, the Occupy movement shifted the focus of mainstream political discourse to income inequality and the burdens of consumer debt. For many participants and observers, though, its more compelling achievement was to embody a minimally hierarchical communitarian polity that combined consensual direct democracy with a high degree of individual autonomy, and also a voluntary sharing economy with the market logics and state service provision that dominate everyday urban life. The longer-term impact of #OWS may well stem from the techniques it modeled online and in the streets for building new publics and polities.

What might this history mean for the future of public space and political action? Events are still unfolding, so the question is open-ended. But here are some provisional conclusions:

  • Online tools are rapidly changing the dynamics of political action. The aggregative, rhizomatic, and exponentially expanding character of the Occupy movement reflects the distinctive capacities of social media.
  • Media are accelerating the pace of discourse and action. Flash mobs and viral tweets may be excessively hyped, but the compressed temporality of the new media landscape is reflected in the rapid emergence, metastasis, and dormancy of Occupy Wall Street.
  • Digital communities are good at building systems. Wikicoding and other modes of online collaboration can build online venues fast and well.
  • These communities may still require face-to-face interaction to achieve substantive change. Digital communication is easy, but for that reason it can feel too light and weightless to mobilize people for the tenacious action it often takes to achieve deep structural changes.
  • Bodies in the street still matter for commanding attention and galvanizing engagement.
  • Modern forms of police control violate basic civil liberties. From the constraints placed on all manner of public assembly to the everyday civil rights violations of the stop-and-frisk system, police in New York and some other American cities have passed a dangerous tipping point.
  • Asserting a broad right to the city means claiming public places, online and offline, for assembly, dialogue and deliberation by multiple publics with varying spatial and temporal requirements.
  • Privately owned public spaces offer platforms for experimentation. The prevalence of corporate enclaves in our cities and online often homogenizes and constrains public life, but Occupy Wall Street showed that POPS can be sites for public-making and political action.
  • But users should reclaim some of the value we create in using corporate media. Activists should find ways to gain at least partial control over the valuable and revealing information trails that users generate through activity online and in our cities.

Finally, initiative is shifting to global-local coalitions. While Occupy was often framed in nationalist terms, its more pervasive character was simultaneously transnational and highly local, reflecting the new geographies of capitalism and its media. The intersections between global and local, online and face-to-face, reformist and radical are promising sites for the creation of the new publics and polities that might open up futures beyond the neoliberal state.


Editors’ Note
 

See the sidebar “Mapping Liberty Plaza” for axonometric drawings of the site’s transformation, by Jonathan Massey and Brett Snyder.For related content on Places, see also “Occupy: What Architecture Can Do” and “Occupy: The Day After,” by Reinhold Martin, and “Housing and the 99 Percent,” by Jonathan Massey.

Authors’ Note 

Andrew Weigand and Grant D. Foster assisted with research and visualization for this project.

We would like to thank many colleagues who contributed research and ideas. Early discussions about Occupy Wall Street included Joy Connolly, Elise Harris, Greg Smithsimon and Jenny Uleman. Matt Boorady, Timothy Gale, Steve Klimek, Gabriella Morrone and Nathaniel Wooten contributed to the mapping and surveying of Liberty Plaza. Jennifer Altman-Lupu, Rob Daurio and Katie Gill shared Occupy Wall Street maps they had made and gathered. The Transdisciplinary Media Studio at Syracuse University supported our research with funding from a Chancellor’s Leadership Initiative.

The project benefited from feedback at two stages. The Aggregate Architectural History Collaborativeworkshopped an early version of the text. Organizers and participants in the National Endowment for the Humanities Summer Institute in Digital Humanities, “Digital Cultural Mapping,” held at UCLA in June and July 2012, helped us develop the project both intellectually and representationally. Particular thanks to organizers Todd Presner, Diane Favro and Chris Johanson, and to consultants Zoe Borovsky, Yoh Kawano, David Shepard and Elaine Sullivan, as well as Micha Cárdenas of USC.

Notes 

1. See Doug Singsen, “Autonomous Zone on Wall Street?,” Socialist Worker, October 11, 2011.
2. “#OCCUPYWALLSTREET,” Adbusters, July 31, 2011.
3. On Occupy Oakland as a counterpublic, see Allison Laubach Wright, “Counterpublic Protest and the Purpose of Occupy: Reframing the Discourse of Occupy Wall Street,” Plaza: Dialogues in Language and Literature 2.2 (Spring 2012): 138-146.
4. “Nine Arrested and Released Without Charge in Occupy Wall Street Test Run,” Occupy Wall Street, September 8, 2011. For early histories of OWS in New York, see Writers for the 99%, Occupying Wall Street: The Inside Story of an Action that Changed America (New York and London: OR Books, 2011), andOccupyScenes from Occupied America, ed. Astra Taylor, Keith Gessen, et al. (London: Verso, 2011).
5. See Alex Vitale, “NYPD and OWS: A Clash of Styles,” in OccupyScenes from Occupied America, 74-81; and Vitale, City of Disorder: How the Quality of Life Campaign Transformed New York Politics (New York: NYU Press, 2008).
6. On the POPS system, see Jerold S. Kayden et al., Privately Owned Public Spaces: The New York City Experience (John Wiley & Sons, 2000); and Benjamin Shepard and Greg Smithsimon, The Beach Beneath the Streets: Contesting New York City’s Public Spaces (Albany: Excelsior Editions/State University of New York Press, 2011), Chs. 2-3.
7. Hakim Bey, T.A.Z.: The Temporary Autonomous ZoneOntological AnarchyPoetic Terrorism (New York: Autonomedia, 1985). See also Shepard and Smithsimon, The Beach Beneath the Streets, Ch. 1.
8. Tim Ingold, “The Temporality of the Landscape,” World Archaeology, 25:2 (1993): 152-174. Thanks to Jennifer Altman-Lupu for suggesting this way of understanding Liberty Plaza.
9. The Daily Show with Jon Stewart, “Occupy Wall Street Divided,” 16 November 2011. For a more serious account, see Writers for the 99%, Occupying Wall Street, 61-67.
10. The Occupy movement online combined two modes that Sándor Végh describes as “internet-enhanced activism” and “internet-enabled activism.” See “Classifying Forms of Online Activism: The Case of Cyberprotests against the World Bank,” in Cyberactivism: Online Activism in Theory and Practice, ed. Martha McCaughey and Michael D. Ayers (Portsmouth, NH: Routledge, 2003), 71-96. These approaches constituted what we might call a digital repertory of contention. See Charles Tilly, Regimes and Repertoires (Chicago: University of Chicago Press, 2006), and Brett Rolfe, “Building an Electronic Repertoire of Contention,” Social Movement Studies 4:1 (May 2005): 65-74.
11. Jennifer Earl and Katrina Kimport call this “e-mobilization”: using the web to facilitate and coordinate in-person protest. See Digitally Enabled Social Change: Activism in the Internet Age (Cambridge: MIT Press, 2011).
12. Some commentators even used the site’s “notes” function to publish commentaries on and critiques of the movement for others to discuss and repost. See, for instance, Greg Tate’s note “Top Ten Reasons Why So Few Blackfolk Seem Down to Occupy Wall Street,” 17 October 2011.
13. See Earl and Kimport, Digitally Enabled Social Change, Introduction.
14. See Adam Weinstein, “‘We Are the 99 Percent’ Creators Revealed,” Mother Jones, 7 October 2011, and Rebecca J. Rosen, “The 99 Percent Tumblr and Self-Service History,” The Atlantic, 10 October 2011.
15. After a slow start in August 2011, participation in the 99 Percent Project spiked at the beginning of October 2011, as the Brooklyn Bridge march and arrests spread awareness of Occupy Wall Street. Activity peaked on October 20, when site managers posted 264 photos and site visitors added nearly 6,000 comments. By the end of May 2012, the project encompassed 3255 posts and more than 134,000 comments.
16. Sean McKeown, “Winter Event Tents for Liberty Plaza,” Town Planning forum, New York City General Assembly.
17. Twitter data is drawn from a dataset compiled by social analytics company PeopleBrowsr.
18. Jeffrey S. Juris, “Reflections on #Occupy Everywhere: Social media, public space, and emerging logics of aggregation,” American Ethnologist 39:2 (2012): 259-79: 260-61.
19. Stefania Milan, “Cloud Protesting: On Mobilization in Times of Social Media,” lecture, 10 February 2012 (abstract).
20. Christopher Kelty, Two Bits: The Cultural Significance of Free Software (Duke University Press, 2008). See also “Recursive Public,” The Foundation for P2P Alternatives.
21. “Wikicamps” adapts the term that sociologist Manuel Castells used to describe the camps that filled Spanish plazas beginning in May 2011. See Castells, “The Disgust Becomes a Network” (translation of “#Wikiacampadas,” La Vanguardia, 28 May 2011), trans. Hugh Green, Adbusters 97 (2 August 2011).

Peter Pál Pelbart: “Anota aí: eu sou ninguém” (Folha de S.Paulo)

19/07/2013 – 03h30

Slavoj Zizek reconheceu no “Roda Viva” que é mais fácil saber o que quer uma mulher, brincando com a “boutade” freudiana, do que entender o Occupy Wall Street.

Não é diferente conosco. Em vez de perguntar o que “eles”, os manifestantes brasileiros, querem, talvez fosse o caso de perguntar o que a nova cena política pode desencadear. Pois não se trata apenas de um deslocamento de palco –do palácio para a rua–, mas de afeto, de contaminação, de potência coletiva. A imaginação política se destravou e produziu um corte no tempo político.

A melhor maneira de matar um acontecimento que provocou inflexão na sensibilidade coletiva é reinseri-lo no cálculo das causas e efeitos. Tudo será tachado de ingenuidade ou espontaneismo, a menos que dê “resultados concretos”.

Como se a vivência de milhões de pessoas ocupando as ruas, afetadas no corpo a corpo por outros milhões, atravessados todos pela energia multitudinária, enfrentando embates concretos com a truculência policial e militar, inventando uma nova coreografia, recusando os carros de som, os líderes, mas ao mesmo tempo acuando o Congresso, colocando de joelhos as prefeituras, embaralhando o roteiro dos partidos –como se tudo isso não fosse “concreto” e não pudesse incitar processos inauditos, instituintes!

Como supor que tal movimentação não reata a multidão com sua capacidade de sondar possibilidades? É um fenômeno de vidência coletiva –enxerga-se o que antes parecia opaco ou impossível.

E a pergunta retorna: afinal, o que quer a multidão? Mais saúde e educação? Ou isso e algo ainda mais radical: um outro modo de pensar a própria relação entre a libido social e o poder, numa chave da horizontalidade, em consonância com a forma mesma dos protestos?

O Movimento Passe Livre, com sua pauta restrita, teve uma sabedoria política inigualável. Soube até como driblar as ciladas policialescas de repórteres que queriam escarafunchar a identidade pessoal de seus membros (“Anota aí: eu sou ninguém”, dizia uma militante, com a malícia de Odisseu, mostrando como certa dessubjetivação é condição para a política hoje. Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a “singularidade qualquer”).

Mas quando arrombaram a porteira da rua, muitos outros desejos se manifestaram. Falamos de desejos e não de reivindicações, porque estas podem ser satisfeitas. O desejo coletivo implica imenso prazer em descer à rua, sentir a pulsação multitudinária, cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos e apreender um “comum” que tem a ver com as redes, com as redes sociais, com a inteligência coletiva.

Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de “enclosure” é um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum.

Tornar cada vez mais comum o que é comum –outrora chamaram isso de comunismo. Um comunismo do desejo. A expressão soa hoje como um atentado ao pudor. Mas é a expropriação do comum pelos mecanismos de poder que ataca e depaupera capilarmente aquilo que é a fonte e a matéria mesma do contemporâneo –a vida (em) comum.

Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo, aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum, sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da história.

Mas não se deve subestimar a potência psicopolítica da multidão, que se dá o direito de não saber de antemão tudo o que quer, mesmo quando enxameia o país e ocupa os jardins do palácio, pois suspeita que não temos fórmulas para saciar nosso desejo ou apaziguar nossa aflição.

Como diz Deleuze, falam sempre do futuro da revolução, mas ignoram o devir revolucionário das pessoas.

PETER PÁL PELBART, 57, filósofo húngaro, é professor titular de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tradutor de Deleuze e autor de “Vida Capital”

Armadilhas para Dilma (Folha de S.Paulo)

JC e-mail 4768, de 15 de Julho de 2013.

Folha publica artigo assinado pela professora Maria Sylvia Carvalho Franco

Os atuais movimentos de massa no Brasil não se devem apenas a recentes demandas sociais, econômicas ou políticas. Essa atribuição toma o resultado pela gênese dos eventos. Estes determinam-se no interior de um arraigado sistema produzido em nossa história.

Destaca-se na origem da sociedade brasileira a ex­ploração de riquezas baseadas na escravidão moderna, instituição constitutiva do capitalismo, articulada às mudanças socioeconômicas, inclusive o trabalho livre, em curso na Europa. Não por acaso, J. Locke deu forma teórica às práticas capitalistas, fundamentou o pensamento liberal e legitimou a escravidão moderna, alicerçando-os no direito natural e individual à propriedade: só o proprietário pertence ao gênero humano. Os sem posses convertem-se em inferiores, justificando-se o seu jugo e a pena de morte para quem atenta contra a propriedade, “ipso facto”, contra a vida e a liberdade.

A violência do estado de natureza permeia a sociedade civil, garantindo –pela recusa de sua humanidade– a exploração do trabalhador livre e do escravo. Na vertente moderna e cristã exposta por Locke, o escravo está expulso do estado de natureza, segregado da religião, excluído da sociedade civil.

Entre nós, esse elenco articulou-se ao absolutismo português gerando, em nossa concretização do capitalismo, ampla rede de controle social arbitrário e economia espoliativa. Por séculos, mudanças decisivas ocorreram entre dominantes e dominados, mas subsiste a essência dessa ordem: a produção de lucro. Distraída desse fato, Dilma caiu em ciladas, algumas embutidas em sua própria ideologia.

A primeira delas foi acatar o esquema de poder construído por seu antecessor, que esbanjou ardis retribuindo os provedores de suas campanhas políticas e produziu, com astuciosa propaganda, o mito do herói em um país próspero e venturoso. Com essa herança, Dilma caminhou para o inferno ao cortar benesses. Perturbou o setor financeiro ao baixar juros e introduzir impostos para o capital externo, provocando fuga desses bens, elevação do câmbio, desequilíbrio no mercado.

Crente no “papel histórico da burguesia nacional”, cortou impostos, concedeu crédito copioso, subsidiou o consumo, supondo que os ganhos acrescidos se transformariam em produtividade. E veio a desaceleração industrial, o “pibinho”, as aventuras com recursos do BNDES e a volumosa remessa de lucros. Jogou com a inflação visando lastrear o desenvolvimento, mas conseguiu carestia e queda no consumo, suposto lastro para a ascensão social, produtor de nova classe média, na verdade inexistente.

Classes não se formam com artifícios de propaganda e participação rapsódica no mercado. Exemplar dessa falácia é o Minha Casa, Minha Vida. O banco oficial não empresta os recursos iniciais para construção, apenas ressarce o montante previamente aplicado pelo candidato, quantia que lhe é impossível amealhar; as prestações excedem os bolsos da família e é exorbitante o preço final do imóvel. Diante do impasse, o bancário aconselha o cliente a procurar um construtor “acostumado a trabalhar com a Caixa”, vale dizer, com a empreiteira favorecida pelo governo.

Dilma tropeçou no rijo sistema de privilégios e troca de favores. Nessa faina, o empresariado conta com lobbies operando no Congresso, influenciando os partidos oligarquizados e a burocracia estatal, com apropriação privilegiada e uso irresponsável dos dinheiros públicos.

Contra esses interesses destrutivos da imensa riqueza nacional, ergue-se a massa dela despojada. A revolta contra as tarifas de transporte não é a gota d’água, o estopim que acendeu o povo, mas parte importante da experiência diuturna de pessoas roubadas de seus direitos. Elas têm consciência de que preços maiores visam favorecer os concessionários que financiam eleições e ocupam cargos chaves na administração pública.

Aqui, é nulo o perigo de populismo tarifário e é inválida a alegação de que a estabilidade dos preços possa bloquear investimentos e, “ipso facto”, piorar o serviço. Esse automatismo não existe; o alvo é o lucro fácil, isento de contrapartida.

O peso desse arcabouço torna irrisória a assertiva de que a atual rebelião seria difusa, alheia a partidos, carente de alvos precisos. Nebulosa apolítica, seria a expressão do fortalecimento (“empowerment”) do indivíduo, sujeito da consciência e dos atos sociais, gerado no bojo da internet.

Trata-se de versão requentada da secular ideologia liberal, em que o indivíduo é constitutivo do universo. O poder de seres isolados –hoje como antes– anula-se diante dos monopólios estatais da força física, da norma jurídica e dos impostos. As massas assustam e um recurso para aplacá-las seria dissolvê-las em seus átomos. Mais vale compreender o sentido desses movimentos.

Eles não poderiam conjugar-se a partidos, por serem fonte da corrupção que recusam; a liderança não poderia ser hierárquica, pois são contra a oligarquização da política; suas demandas são exatas, referentes a direitos que lhes são roubados e pelos quais pagam tributos; não querem “mais”, como reza a propaganda, querem o imprescin­­dível. Nem são amorfos: as redes sociais ensejam a organização dos grupos e atividades.

Como toda técnica, ela é meio para ações cujo sentido define-se por seus atores e por seus fins.

Maria Sylvia Carvalho Franco é professora titular aposentada de filosofia da USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/07/1311127-maria-sylvia-carvalho-franco-armadilhas-para-dilma.shtml

Muito além de uma resposta do poder público (Canal Ibase)

Renzo Taddei, Colunista do Canal Ibase

Link original: http://www.canalibase.org.br/muito-alem-de-uma-resposta-do-poder-publico/

15/07/2013

Na quarta-feira, dia 10 de julho, o Juca Kfouri afirmou em entrevista à Agência Pública que “se não houver respostas, as manifestações serão maiores em 2014”. Na sexta (12) a Deutsche Welle publicou entrevista com Marina Silva, onde ela afirma que a reação do Congresso Nacional e da Presidência da República está “aquém da grandeza dos protestos”. Acredito que a imensa maioria dos analistas concorda com esse ponto: o governo não foi capaz, até o momento, de dar respostas à altura do que pede a ocasião. Nesse texto, no entanto, eu gostaria de discutir dimensões dos acontecimentos que estamos vivenciando que transcendem a resposta do estado.

Inicialmente, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido último do que estamos vivendo. Isso me parece redutor, porque coloca o estado no centro de tudo. Sou da opinião de que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é o fortalecimento de redes de organização, de articulação social, cultural e política; redes essas que existem de forma independente ao estado. A assembleia popular horizontal que ocorreu sábado (13) em Belo Horizonte, transmitida ao vivo na Internet pela PósTV/mídia NINJA, é um exemplo disso. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador perpétuo de tudo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. Em uma palavra, o que esses movimentos têm como fundamento de ação é a afirmação de que o mundo é maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Foto: Mídia Ninja

É em função disso que a tentativa de encontrar uma causa fundamental ou mais urgente, que dê uma identidade ao movimento das ruas, é tarefa vã. Trata-se da tentativa de negar a dimensão múltipla das manifestações, e, ao mesmo tempo, de não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo.

Que dimensão é essa? Em sua última coluna na Carta Capital, Vladimir Safatle afirma que além da crise de representação política, há o esgotamento do ciclo de desenvolvimento com distribuição de renda da época de Lula. A solução para isso é impossível no governo Dilma, diz Safatle, porque requer uma reforma fiscal que seja verdadeiramente de esquerda, algo impossibilitado pelo modelo de alianças partidárias que caracteriza o lulismo. Safatle tem razão, mas essa é apenas metade da história. A outra metade é exógena ao sistema político; está ligada a uma transformação maior em curso, que nos afasta das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis.

Ou seja, Safatle faz referência a um modelo de governabilidade em crise; eu diria que essa é apenas a ponta do iceberg: o que está em crise é o sistema todo; mais que o governo, é o próprio estado que se mostra incapaz de responder às demandas políticas da população. Isso se dá no contexto da crise do modelo republicano francês – crise que afeta a França há décadas e que se faz visível agora no Brasil. Aqui estou fazendo referência a como nosso sistema político, como o francês, depende do esforço do estado na criação de uma certa subjetividade política nos cidadãos; subjetividade essa que, em escala populacional, faz com que o país seja administrável à distância, quase que por controle remoto. Falando em bom português: há um esforço do estado e das instituições (escolas, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de forma que estes sejam politicamente passivos; o Brasil é mais administrável se todo mundo pensar de forma semelhante, e mais ainda se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV, anestesiados. Esse é o contexto da democracia representativa no Brasil, aquele que reduz a participação política da população às eleições, e onde grande parte das pessoas sequer consegue lembrar em quem votou para os cargos legislativos.

É esse modelo de estado que está em crise, e que nem a reforma política, nem a tributária, irá resolver. A crise da representatividade não se resume à falta de confiança na classe política; há também, e fundamentalmente, uma nova consciência do direito à diferença; para além de ser ineficiente e corrupto, o estado é entendido como fascista porque cala (com o apoio da FIFA, do COB e de empresários do petróleo) qualquer forma de diferença que se mostre inadministrável. Os ataques à imprensa corporativa, e em especial à Rede Globo, tem essa questão como pano de fundo, e não a questão da corrupção. A emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, são parte desse movimento. Resulta disso tudo a recusa a qualquer forma de representação, e a participação direta, nas ruas e na Internet, é seu principal sintoma.

Sendo assim, não vejo possibilidade de avanço no país que não passe pela transformação das instituições políticas, algumas vezes de forma radical (como a desmilitarização das polícias), de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir. Nesse contexto, não se trata do povo pedir e do governo atender. Ao invés disso, povo e governo tem a difícil missão de transformarem, juntos ou não, o estado em outra coisa, diferente do que ele é na atualidade.

A disputa dos sentidos associados à violência

Existe uma clara disputa pelos sentidos do que está ocorrendo, envolvendo governos, mídias, partidos, movimentos sociais. É importante notar que nem sempre essa disputa tem como objetivo o fazer-se ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Como resposta possível a essa questão, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não constando nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A polícia mostra que tem consciência de que está numa guerra de imagens: um sem número de policiais tem atuado na repressão às manifestações sem suas identificações; quando convém, no entanto, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa.

pm Manifestações– continuação

Foto: Movimento Passe Livre

O que não se pode ignorar, no entanto, é que existe uma dimensão pedagógica na violência policial. Para um bocado de gente, as balas de borracha e o gás lacrimogêneo estão servido como uma espécie de rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. Um jornalista gastronômico inglês que participou das manifestações de ontem (11 de julho) no Rio de Janeiro, e sofreu na pele a brutalidade policial, escreveu em seu site: “agora entendo como eventos como esse podem radicalizar as pessoas”. Tais acontecimentos estão ensinando a população a respeito do fascismo do estado; está fazendo parte da classe média experimentar o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Ou as duas coisas. Eu tenho a impressão de que essa repolitização está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

E o que é que pode dar errado? Há um outro lado dessa dimensão constitutiva da violência: a ação policial, não mediada por lideranças políticas responsáveis e capazes (e está claro a ausência disso em cidades como o Rio de Janeiro), pode criar uma realidade política inexistente no Brasil: grupos organizados de guerrilha urbana, que se armam para enfrentar a polícia. Recentemente, em debate sobre as manifestações no Instituto de Estudos Avançados da USP, Massimo Canevacci, antropólogo italiano, mencionou o conceito de mimese como algo importante na compreensão do que está ocorrendo no Brasil, em sua relação com eventos internacionais, como o que ocorre na Turquia, por exemplo. Isso imediatamente me trouxe à mente algo que vi em minha pesquisa de campo na periferia de Buenos Aires, junto a torcidas organizadas de futebol. Encontrei uma correlação entre o momento em que a polícia militar instalou delegacias nos bairros de periferia e começou uma história de conflito com as torcidas locais, e o início do uso de armas de fogo pelas mesmas torcidas (coisa que anteriormente era vista como sinal de covardia). Obviamente é difícil afirmar que existe uma relação causal entre uma coisa e outra; de qualquer forma, a ideia de equilíbrio de forças é parte fundamental do discurso dos líderes de torcidas mais velhos. Minha hipótese é que a polícia, que obviamente não tem qualquer interesse em igualar forças, mas sim de subjugar o outro, ao inserir uma desigualdade nesse panorama de busca do equilíbrio de forças, acabou fazendo com que as torcidas buscassem as mesmas armas de combate, o que resultou na adoção de armas de fogo pelas mesmas. Novamente, trata-se apenas de uma hipótese. Mas vejamos o que está ocorrendo no Brasil: nas primeiras manifestações de junho, não havia qualquer intenção, por parte dos manifestantes, de entrar em combate com a polícia. Foram brutalizados; e a brutalização tem se repetido, por várias semanas consecutivas, no país todo. Como resultado, o que temos visto é a disposição crescente, por parte de grupos específicos (e cada vez maiores), em preparar-se para o combate com a polícia: do uso de vinagre como instrumento de resistência, nas manifestações de junho, passamos a ver o uso de rojões e coquetéis molotov, como na última quinta (11), no Rio de Janeiro. Esses grupos estão mimetizando a ação da polícia, e isso se dá porque as lideranças políticas estão com suas cabeças enterradas, como avestruzes, e deixaram à polícia a responsabilidade de fazer política pública de segurança. Ou seja, não há interlocução; a polícia impõe a violência como única forma de comunicação. O Brasil pode estar a caminho de criar o seu Weather Underground, e isso é tudo o que a polícia precisa para justificar níveis ainda mais altos de violência contra a população civil, em razão do fortalecimento de agendas da direita. É essencial que as novas lideranças políticas, dos movimentos sociais, busquem atuar para desarticular essa guerrilha urbana nascente, de modo que o movimento todo não caia nisso que é, claramente, uma armadilha.

Foto: Manifestações Brasil 24h (Facebook)

Protestos podem voltar mais fortes e incontroláveis, diz sociólogo (Deutsche Welle)

Boaventura de Sousa Santos aponta a insatisfação popular como fruto da expansão da classe média brasileira, que ficou mais exigente. Para ele, só uma reforma política profunda pode evitar que povo volte às ruas.

Data 09.07.2013

Autoria Fernando Caulyt

Edição Renate Krieger / Rafael Plaisant

Os protestos no Brasil perderam intensidade, mas, se o governo não der uma resposta rápida às reivindicações do povo, podem voltar ainda mais fortes – e de forma incontrolável. O alerta é do português Boaventura de Sousa Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Yale (EUA) e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal).

Autor de estudos sobre emancipação social, direitos coletivos e democracia participativa, ele vê a onda de indignação que tomou as ruas do país como fruto das mudanças vividas pela sociedade brasileira nas últimas décadas. A classe média, afirma, cresceu e com ela as demandas dos cidadãos por melhores serviços públicos ganharam força.

Para Boaventura, o Congresso está “divorciado das prioridades dos cidadãos” e, por isso, uma reforma política se faz necessária. “Há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda. Neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades”, afirma em entrevista à DW Brasil.

Deutsche Welle: Como o senhor avalia a onda de protestos?

Boaventura de Sousa Santos: As manifestações foram uma surpresa tanto no plano interno como no plano internacional. Tudo levava a crer que tudo no Brasil estava indo bem. Internamente, os próprios partidos, especialmente o do governo, foram apanhados de surpresa. O que foi surpresa foi o motivo para que a explosão ocorresse. Havia um mal-estar, e ele resulta do êxito das políticas que foram instituídas no Brasil a partir de 2003 [quando Lula assumiu o poder] e que fizeram com que 40 milhões de pessoas entrassem para a classe média.

Protestos foram realizados em cidades brasileiras e no exterior

Elas criaram expectativas não só no que diz respeito à sua vida, mas também ao modo como se posicionam na sociedade, ao modo como usam os serviços públicos. E esses 40 milhões começaram a ver que, nos últimos tempos, pelo menos, havia uma certa estagnação dessas políticas. Os serviços públicos não acompanharam as transformações sociais.

A chamada “classe C” ficou mais exigente?

Eu penso que sim, pois as políticas de inclusão realizadas nos últimos dez anos atingiram seu limite e as formas de participação não são hoje tão eficazes quanto eram. Além disso, o serviço público não se desenvolveu como deveria. O caso da saúde é significativo. Por outro lado, num país que tem uma tradição de movimentos sociais fortes, eles viram suas atividades nos últimos tempos se tornarem bastante restringidas. Por isso começou a haver uma certa frustração quanto às prioridades do governo e, naturalmente, um desgaste.

Que medidas o governo Dilma deveria tomar para atender às exigências da população?

A medida fundamental é uma reforma política. Fica evidente que há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda, porque neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades. Dilma tomou essa medida corajosa, de propor uma revisão constitucional, mas o Congresso não tem grande vontade política para uma reforma política profunda.

As respostas que o governo e o Congresso deram até agora não são satisfatórias?

Como é que o Congresso é capaz de aprovar num prazo de uma semana tantas leis e questões importantes, como a [tipificação da] corrupção como crime hediondo? Essa correria tem um lado positivo e um lado negativo. Isso mostra que o Congresso só se move se houver pressão popular. Portanto, esse é o lado negativo: o Congresso está divorciado das prioridades dos cidadãos e só acorda quando os cidadãos o obrigam a acordar. É por isso que é necessária uma reforma política.

Sousa Santos diz que existe uma crise de representatividade no sistema político brasileiro e de outros países

Para o senhor, quem são os manifestantes?

As manifestações são muito importantes para pressionar as instituições, os partidos e os governos, mas elas não fazem propriamente uma formulação política. O que elas fazem é pressão para que haja formulação política. Vimos no Brasil como as agendas eram tão diversas quanto a composição das classes presentes nos protestos. Houve uma forte presença da juventude. As manifestações têm uma composição e, misturadas nelas, há forças aproveitadoras que tentaram tirar dividendos contra o PT. Mas elas são uma minoria. É uma insatisfação popular, sobretudo das camadas mais jovens, contra uma política que não responde aos seus anseios.

É possível manter uma mobilização de massa a longo prazo?

Mesmo nos casos dos países que ela se mantém durante mais tempo, como durante o Occupy, nos EUA, e agora no Egito, tudo acontece por etapas. Portanto, há momentos de refluxo. E eu penso que, no caso brasileiro, ela não se aguenta neste momento, embora possa vir a explodir mais tarde. Neste momento há uma certa espera, uma espera com esperança de que alguma coisa se faça. Se ela não se fizer, a situação pode voltar, pode até, aliás, ser mais incontrolável. Se não houver uma reposta rápida a estas reivindicações, o refluxo atual voltará eventualmente mais incontrolável e mais forte.

Muitos manifestantes nas ruas levantaram uma bandeira antipartidarista. Existe atualmente uma crise de representatividade no sistema político brasileiro?

Acho que sim. E neste momento não só no [sistema político] brasileiro, mas também no europeu. E ocorre fundamentalmente do fato de que os governos hoje estão capturados pelo capital financeiro internacional, se ver bem, em função das exigências do capital financeiro. O próprio Brasil compromete uma parte significativa de sua arrecadação para o pagamento do serviço da dívida. E este também é o caso da Europa. No fundo, é isso que está criando essa crise de representação, na medida em que os cidadãos não se sentem representados pelos seus representantes e é isso que faz com que as pessoas venham para a rua.

Para Sousa Santos, o Congresso Nacional está divorciado das prioridades dos cidadãos

As manifestações foram, de certa forma, uma demonstração de decepção com o governo. Esse governo do PT, apesar das medidas de inclusão social, perdeu a credibilidade?

Não. O problema é que, enfim, é um governo de esquerda que, no entanto, tem uma coligação problemática, dada a organização partidária no Brasil. O problema é que os brasileiros conhecem muito bem o que foram as políticas de direita [dos governos] anteriores, nenhum deles realizou as políticas de inclusão social que agora têm lugar. E, portanto, há um certo descrédito na política em seu conjunto. O PT e o governo da presidente Dilma têm uma crise de legitimidade a resolver. E só podem resolver com mais democracia, com mais políticas de inclusão, com mais dinheiro para os cidadãos e menos para as grandes empreiteiras e para o grande capital financeiro internacional.