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Leis para enfrentar mudanças climáticas já foram aprovadas em 15 estados (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4877, de 17 de dezembro de 2013

Estudo da USP define Rio de Janeiro como pioneiro no combate às mudanças climáticas

Relatório que será divulgado hoje cita que a cidade, além de obrigar as empresas a reportarem suas emissões de CO2, condiciona o licenciamento ambiental às metas globais e setoriais de emissões e exigir planos de mitigação de gases de efeito estufa das empresas

Quinze dos 27 estados brasileiros estão dando exemplos positivos no combate às mudanças climáticas, estabelecendo regras próprias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O mesmo não pode ser dito do governo federal, que precisa ser mais cobrado para criar uma agenda capaz de unificar essas iniciativas locais. Esta é a mensagem de um estudo que será divulgado nesta terça-feira em São Paulo pelo Núcleo de Economia Socioambiental da Universidade de São Paulo (USP), o Nesa. O relatório traz elogios específicos ao Rio de Janeiro: cita que o estado “tem se destacado no cenário nacional como pioneiro”.

– Além de obrigar as empresas a reportarem suas emissões de CO2, o Rio vai além: condiciona o licenciamento ambiental às metas globais e setoriais de emissões, além de exigir planos de mitigação de gases de efeito estufa das empresas – conta Juliana Speranza, pesquisadora do Nesa.

O estudo foi preparado em parceria com o Forum Clima, que reúne grandes empresas como Andrade Gutierrez, CSN, Odebrecht, Vale e Natura. A pesquisa cita ainda como boas iniciativas um programa de pagamento por serviços ambientais (PSA) já em vigor no Acre, que tem uma lei que permite a remuneração a quem preserva os serviços ecossistêmicos e a biodiversidade; além da iniciativa do Mato Grosso de criar uma legislação específica para a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (Redd). São Paulo, embora já obrigue suas empresas a reduzir emissões, ainda não tem projetos tão avançados quanto o carioca.

– O PSA e o Redd aconteceram antes nos estados. A nível nacional, eles ainda estão sendo discutidos. Seria muito melhor se houvesse um envolvimento a nível federal, que desse ao Brasil um programa nacional de mudanças climáticas, interministerial, para unificar toda essa metodologia. Caso contrário, estaremos falando lé com cré – avalia Speranza.

Segundo a pesquisadora, esta harmonização se daria em três frentes: nas políticas estatais entre si; no conjunto delas com a política nacional (criando, por exemplo, um inventário nacional de emissões de gases de efeito estufa), e na adoção do que chama de “postura pública coerente”.

– Você não pode sair reduzindo impostos para estimular o consumo de carros, por exemplo, enquanto sabe-se que os transportes individuais emitem mais CO2. Tem que ter coerência, tem que se criar uma estrutura de governança – opina a pesquisadora.

O relatório vê como positiva iniciativas do Ministério do Meio Ambiente de, até 2015, criar um plano nacional de adaptação às emissões de gases de efeito estufa. E elogia o fato de o país ter conseguido reduzir significativamente o desmatamento, o que deixa o Brasil numa posição confortável até 2020 – mesmo ano em que o Protocolo de Kyoto será revisto. Uma nova ordem mundial frente às mudanças climáticas ocorrerá em 2020. Por enquanto, o Brasil tem apenas um compromisso voluntário com Kyoto, mas esta situação, lembra o estudo, pode mudar.

– O país pode vir a ser obrigado a reduzir metas, num momento em que seu eixo de emissões mudou do desmatamento, que já foi reduzido e cujas metas estão batendo num teto, para a agropecuária e para o setor de energia e de transportes. Ou seja, é preciso pensar para além de 2020 – recomenda Speranza.

(Mariana Timóteo da Costa/ O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/estudo-da-usp-define-rio-de-janeiro-como-pioneiro-no-combate-as-mudancas-climaticas-11089052#ixzz2njxCIUU3

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JC e-mail 4877, de 17 de dezembro de 2013

Leis para enfrentar mudanças climáticas já foram aprovadas em 15 estados

As normas antecipam muitos pontos que estão apenas em discussão no plano federal, explica a pesquisadora do Núcleo de Economia Socioambiental da USP, Juliana Speranza, informa a agência Brasil

Leis que definem instrumentos para enfrentar as mudanças climáticas já foram aprovadas em 15 estados brasileiros, mostra a pesquisa O Desafio da Harmonização das Políticas Públicas de Mudanças Climáticas, divulgada hoje (17). As normas antecipam muitos pontos que estão apenas em discussão no plano federal, explica a pesquisadora do Núcleo de Economia Socioambiental da Universidade de São Paulo (USP), Juliana Speranza. “Há avanços, tem uma massa crítica de como se pensa a política, até os instrumentos, marcos regulatórios que são criados, anteriores ao que o governo federal agora vem discutir”, enfatiza.

O levantamento foi lançado pelo Fórum Clima, que reúne o Fórum Amazônia Sustentável, o Instituto Ethos e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Entre os destaques da pesquisa estão os estados do Amazonas, Acre e de Mato Grosso, que implementaram sistemas de remuneração para evitar o desmatamento. O Amazonas tem em sua política de mudanças climáticas mecanismos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) e de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Em 2013, o estado de Mato Grosso criou o marco regulatório para o Redd+, enquanto o Acre tem, desde 2010, legislação que prevê o PSA.

“Nos estados da Amazônia, sempre houve uma preocupação com a questão do desmatamento, você tem a sociedade civil ali muito presente e é natural que tenham emergido iniciativas de políticas estaduais”, explica. A pesquisadora lembrou que um programa nacional de PSA, que remunere proprietários de terra por conservar recursos naturais, está sendo discutido no Senado.

As metas de redução de emissões de gases são realidade em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Paraíba. Na avaliação de Juliana, ações como essas acabam ajudando o país a diminuir os níveis de poluição. “Se os estados começam a ter uma agenda doméstica, que está gerenciando essas emissões e assumem um compromisso de que lá na frente, em uma data X, tem que reduzir tantos por cento [as emissões], isso ajuda na conta que a gente tem para o Brasil como um todo”, acrescentou.

Além dos efeitos concretos, as políticas estaduais trazem, segundo a pesquisadora, determinados temas para a pauta nacional e também funcionam como experiência prática das medidas. “Os estados têm um universo de instrumentos de políticas públicas que já ocorrem em seu território e agora, em nível federal, você acaba bebendo um pouco na fonte desses estados”.

A especialista chama a atenção, no entanto, para a necessidade de coordenação das ações para obter melhores resultados. “Existe a necessidade de que, em nível nacional, você coordene um pouco as iniciativas, senão cada estado vai fazer da sua forma e você vai ter problemas de harmonização de metodologia, de parâmetros”, destacou Juliana sobre a necessidade de padrões de medidas e normas. A pesquisadora destaca que a falta de uma regulação unificada pode complicar, por exemplo, a situação de empresas que atuam em mais de um estado.

(Daniel Mello/Agência Brasil)

Racism remains ‘institutionalized’ in Brazil: UN panel (CTV News)

Brazil racism

Nubia de Lima, 29, poses for a photo in her Rio de Janeiro apartment in Brazil on Feb. 25, 2013. (AP / Felipe Dana)

The Associated Press
Published Friday, December 13, 2013 2:32PM EST

RIO DE JANEIRO, Brazil — Institutionalized racism persists in Brazil despite government efforts to tackle the issue, members of a United Nations panel examining conditions among black Brazilians said Friday.

Two members of the U.N.’s working group on Afro-descendants said their 10-day fact-finding mission to five Brazilian cities underscored that the government has finally acknowledged the problem and has “shown its willingness to combat racism.”

But the panel said Brazilian blacks “still suffer from structural, institutional and interpersonal racism.”

“Historical injustices continue profoundly affecting the lives of millions of Afro-Brazilians and are present throughout all levels of Brazilian society,” panel member Mireille Fanon-Mendes-France told journalists at a news conference in Rio de Janeiro.

Brazil received more African slaves than any other country in the Americas and was the last major nation to abolish slavery, and people of colour here still tend to languish at the bottom of the social pyramid.

“To overcome the legacy of colonialism and slavery, the challenges Brazil faces are enormous,” Fanon said. “Afro-Brazilians represent more than half of the Brazilian population, however they’re sub-represented and invisible in most positions of power, in the media and the private sector.”

She added that blacks continued to face hurdles in accessing quality education, the courts, health care, basic sanitation and other state services.

“Although Brazil has progressed in reducing poverty, we note that there’s still a great contrast between the situation of black Brazilians and the country’s rapid economic growth,” Fanon said, reading from a report with the group’s initial conclusions.

She praised a series of recent government measures aimed at stamping out the lasting legacy of slavery, including affirmative action in universities.

Still, Fanon added that “advances in dismantling of racial discrimination remains slow.”

The group will report its findings to the Brazilian government next year, with a series of non-binding recommendations.

Read more: http://www.ctvnews.ca/world/racism-remains-institutionalized-in-brazil-un-panel-1.1591369#ixzz2negBg4Bn

Unease among Brazil’s farmers as Congress votes on GM terminator seeds (The Guardian)

Environmentalists warn approval could shatter global agreement not to use technology, with devastating repercussions

 in Rio de Janeiro and 
theguardian.com, Thursday 12 December 2013 16.34 GMT

Brazil national congress

Brazil’s national Congress is under pressure from landowning groups to green light GM ‘terminator’ seeds. Photograph: Ruy Barbosa Pinto/Getty Images/Flickr RF

Brazil is set to break a global moratorium on genetically-modified “terminator” seeds, which are said to threaten the livelihoods of millions of small farmers around the world.

The sterile or “suicide” seeds are produced by means of genetic use restriction technology, which makes crops die off after one harvest without producing offspring. As a result, farmers have to buy new seeds for each planting, which reduces their self-sufficiency and makes them dependent on major seed and chemical companies.

Environmentalists fear that any such move by Brazil – one of the biggest agricultural producers on the planet – could produce a domino effect that would result in the worldwide adoption of the controversial technology.

Major seed and chemical companies, which together own more than 60% of the global seed market, all have patents on terminator seed technologies. However, in the 1990s they agreed not to employ the technique after a global outcry by small farmers, indigenous groups and civil society groups.

In 2000, 193 countries signed up to the UN Convention on Biological Diversity, which recommended a de facto moratorium on this technology.

The moratorium is under growing pressure in Brazil, where powerful landowning groups have been pushing Congress to allow the technology to be used for the controlled propogation of certain plants used for medicines and eucalyptus trees, which provide pulp for paper mills.

The landowning groups want to plant large areas with fast growing GMtrees and other non-food GM crops that could theoretically spread seeds over wide areas. The technology, they argue, would be a safeguard, ensuring that no second generation pollution of GM traits takes place. They insist that terminator seeds would only be used for non-food crops.

Their efforts to force a bill to this effect through Congress, ongoing since 2007, have been slowed due to resistance from environmentalists.

The proposed measure has been approved by the legislature’s agricultural commission, rejected by the environmental commission, and now sits in the justice and citizenship commission. It is likely to go to a full Congressional vote, where it could be passed as early as next Tuesday, or soon after the Christmas recess.

Environment groups say there would be global consequences. “Brazil is the frontline. If the agro-industry breaks the moratorium here, they’ll break it everywhere,” said Maria José Guazzelli, of Centro Ecológico, which represents a coalition of Brazilian NGOs.

This week they presented a protest letter signed by 34,000 people to thwart the latest effort to move the proposed legislation forward. “If this bill goes through, it would be a disaster. Farmers would no longer be able to produce their own seeds. That’s the ultimate aim of the agro-industry,” she said.

The international technology watchdog ETC, which was among the earliest proponents of a ban on terminator technology in the 1990s, fears this is part of a strategy to crack the international consensus.

“If the bill is passed, [we expect] the Brazilian government to take a series of steps that will orchestrate the collapse of the 193-country consensus moratorium when the UN Convention on Biological Diversity meets for its biennial conference in Korea in October 2014,” said executive director Pat Mooney.

But Eduardo Sciarra, Social Democratic party leader in the Brazilian Congress, said the proposed measure did not threaten farmers because it was intended only to set controlled guidelines for the research and development of “bioreactor” plants for medicine.

“Gene use restriction technology has its benefits. This bill allows the use of this technology only where it is good for humanity,” he said.

The technology was developed by the US Department of Agriculture and the world’s largest seed and agrochemical firms. Syngenta, Bayer, BASF, Dow, Monsanto and DuPont together control more than 60% of the global commercial seed market and 76% of the agrochemical market. All are believed to hold patents on the technology, but none are thought to have developed the seeds for commercial use.

Massive protests in the 1990s by Indian, Latin American and south-east Asian peasant farmers, indigenous groups and their supporters put the companies on the back foot, and they were reluctantly forced to shelve the technology after the UN called for a de-facto moratorium in 2000.

Now, while denying that they intend to use terminator seeds, the companies argue that the urgent need to combat climate change makes it imperative to use the technology. In addition, they say that the technology could protect conventional and organic farmers by stopping GM plants spreading their genes to wild relatives – an increasing problem in the US, Argentina and other countries where GM crops are grown on a large scale.

A Monsanto spokesman in Brazil said the company was unaware of the developments and stood by a commitment made in 1999 not to pursue terminator technology. “I’m not aware of so-called terminator seeds having been developed by any organisation, and Monsanto stands firmly by our commitment and has no plans or research relating to this,” said Tom Helscher.

On its website, however, the company’s commitment only appears to relate to “food crops”, which does not encompass the tree and medicinal products under consideration in Brazil.

• Additional research by Anna Kaiser

Background to a controversy

Ever since GM companies were found to be patenting “gene-use restriction” or “terminator” technologies in the 1990s, they have been accused of threatening biodiversity and seeking to make farmers dependent on big industry for their livelihoods.

In many developing countries, where up to 80% of farmers each year choose their best plants and save their own seed, terminator technology is a byword for all genetic modification, raising fears that sterile GM strains could contaminate wild plants and regular crops – with devastating consequences.

The GM companies, which claimed in the 1990s that they wanted to introduce the seeds only to stop farmers stealing their products, were forced to shelve the technology in the face of massive protests in India, Latin Amercia and south-east Asia.

In the face of growing international alarm, the 193 countries signed up to the UN Convention on Biological Diversity unanimously agreed in 2000 that there should be a de facto international moratorium. This was strengthened at the Conference of the Parties in 2006, under the presidency of Brazil.

Since then, the moratorium has held firm. But the GM companies have shifted their arguments, saying that gene-use restriction technologies now allow seeds to reproduce, but could “switch off” the GM traits. This, they argue, would reduce the possibility of the seeds spreading sterility. In addition, they say the technology could protect organic and conventional farmers from the spread of transgenes to wild relatives and weeds, which plagues GM farmers in the US and elsewhere.

The fear now is that the global moratorium could quickly unravel if Brazil, one of the most important agricultural countries in the world, overturns its national law to ban terminator technology. Other countries, pressed strongly by the powerful GM lobby, would probably follow, leading inevitably to more protests.

Plano Clima: Versão final deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014 (Ministério do Meio Ambiente)

13/12/2013 – 12h16

por Tinna Oliveira, do MMA

klink Plano Clima: Versão final deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014

Klink: propostas da sociedade foram incorporadas. Foto: Martim Garcia/MMA

Reunião presencial marca fim da consulta pública do Plano Clima

A sociedade civil contribuiu, por meio de consulta pública, para a atualização do Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima), o principal instrumento para a implantação da Política Nacional sobre Mudança do Clima. A consulta pública eletrônica ficou aberta de 25 de setembro a 8 de novembro. Nessa quinta-feira (12) aconteceu a última reunião presencial. Durante o período, qualquer cidadão brasileiro pode oferecer suas contribuições, por meio do formulário disponível na internet. Do total de 27 formulários enviados, foram totalizadas 111 contribuições da consulta pública eletrônica. A versão final do plano revisado deve ser apresentada no primeiro trimestre de 2014.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) é o coordenador do Grupo Executivo (GEx) do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM). Apresentado em 2008 pelo governo federal, o Plano Clima visa incentivar o desenvolvimento e o aprimoramento das ações de mitigação no Brasil, colaborando com o esforço mundial de redução das emissões de gases de efeito estufa, bem como objetiva a criação das condições internas para lidar com os impactos da mudança global do clima (adaptação).

Avaliação

O secretário de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do MMA, Carlos Klink, destacou que a consulta pública permitiu incorporar os avanços que aconteceram no Brasil na questão de mudanças do clima e a suas articulações com a negociação internacional. “Isso mostra o tamanho da ambição que o tema mudanças do clima tem dentro do país, pois não é só uma questão internacional, mas também a sociedade brasileira está muito engajada”, enfatizou.

Klink lembra que existem nove planos para mitigação e já está sendo construído o Plano Nacional de Adaptação, previsto para ser concluído até 2015. O tema de mudanças do clima está em destaque no País. “Estamos nos tornando um exemplo internacionalmente e, aqui no Brasil, está criando raízes muito fortes em todos os setores da sociedade”, explicou. Para o secretário, a governança permite um diálogo para construção e elaboração de todos esses planos, com envolvimento de todos os setores dentro e fora do governo. “O documento reflete esse avanço e mostra de maneira sintética esse tremendo trabalho de coordenação”, salientou.

Etapas

A atualização do Plano Clima passou por várias etapas. Desde janeiro, foram realizadas 17 reuniões do Grupo Executivo e sete reuniões do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC). “O fórum é o canal entre a sociedade e o governo para essa questão clima, por isso a gente sempre estimulou que a sociedade usasse o Fórum nas discussões”, explicou o diretor de Climáticas do MMA, Adriano Santhiago.

Segundo ele, vários setores trouxeram contribuições que foram incorporadas no texto apresentado durante a consulta eletrônica. A contribuição da população foi encerrada nesta reunião presencial, na qual participaram representantes do governo, da academia, do setor produtivo e da sociedade civil. O próximo passo é uma discussão governamental para fechar o documento final.

Em 2009, o Congresso Nacional aprovou a Política Nacional sobre Mudança do Clima, com o ineditismo da adoção de vários compromissos nacionais voluntários de redução de emissões. Além disso, foi criado o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e lançados diversos planos setoriais. Outros pontos que merecem destaque são a redução substancial do desmatamento no país, a mudança do perfil das emissões nacionais de gases de efeito estufa e a transformação substantiva da forma como diversos setores, governamentais ou não, se engajaram no esforço para enfrentar a mudança do clima..

* Publicado originalmente no site Ministério do Meio Ambiente.

Sobre a COP 19 de Varsóvia

JC e-mail 4864, de 28 de novembro de 2013

Resultados de conferência da ONU sobre o clima ficaram abaixo da expectativa, diz Capiberibe

Ele observou que as dificuldades encontradas durante a conferência terminaram por adiar por um dia o encerramento das negociações

O senador João Capiberibe (PSB-AP) comentou nesta quarta-feira (27) a realização da 19ª Conferência Mundial do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), encerrada no último sábado, em Varsóvia. Na avaliação de Capiberibe, os resultados da conferência ficaram abaixo da expectativa, principalmente porque foi mal recebida pelos países desenvolvidos a tese de responsabilidade histórica pelos danos ambientais.

Ele observou que as dificuldades encontradas durante a conferência terminaram por adiar por um dia o encerramento das negociações.

– A conferência, na verdade, deveria ter sido concluída na sexta-feira, e nós aguardamos até as 19h para o encerramento a apresentação do relatório final, que não foi possível em função das enormes contradições que envolvem esse tema. Os negociadores vararam a noite e só foi possível apresentar relatório final no sábado quando já estávamos de volta a nosso país – relatou Capiberibe.

O senador ainda afirmou que as mudanças no clima representam uma crise global que veio para ficar e exige decisões rápidas. Capiberibe destacou o compromisso do Brasil com o desenvolvimento sustentável e classificou o novo Código Florestal como um retrocesso que põe em risco o meio ambiente:

– E do ano passado para cá nós tivemos um aumento de 28% no processo de desmatamento, e isso pode estar ligado – nós não podemos afirmar – ao novo Código Ambiental, que terminou permitindo, anistiando desmatadores, anistiando aqueles que agridem a legislação, anistiando os que cometem crimes ambientais, e isso, evidentemente, estimula o desmatamento – afirmou.

(Agência Senado)

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JC e-mail 4864, de 28 de novembro de 2013

Vanessa Grazziotin: conferência do clima surpreende e obtém avanço na proteção a florestas

O maior avanço alcançado foi o estabelecimento de regras para o pagamento aos países que protegerem suas áreas de florestas, o chamado REDD+

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) registrou a participação dela e de outros senadores na 19ª Conferência do Clima da ONU, a COP 19, ocorrida em Varsóvia, na Polônia, na semana passada. Ela se disse surpresa com os resultados de uma reunião em torno da qual “não pairava qualquer expectativa”.

Segundo a parlamentar, o maior avanço alcançado foi o estabelecimento de regras para o pagamento aos países que protegerem suas áreas de florestas, o chamado REDD+. Para ter acesso aos recursos, os países devem reduzir emissões de carbono por desmatamento e degradação florestal.

– É uma mudança de lógica, de paradigma, dentro da própria política internacional sobre mudanças climáticas, já que até então o que tínhamos eram recursos para nações que recuperassem florestas degradadas. Isso é importante para o mundo inteiro, mas em particular para o nosso país, por que temos a maior floresta tropical do mundo e estamos em processo de desenvolvimento – explicou a parlamentar.

Vanessa Grazziotin observou, ainda, que o tema do pagamento pela proteção de florestas ganhou mais importância nas discussões da COP 19 que o do comércio de carbono, por meio do qual países podem pagar a outros pelo excesso de emissão de gases causadores do efeito estufa.

– Isso não ajuda o clima. Então esse debate ficou em plano secundário – assinalou Vanessa Grazziotin. Ela esclareceu que as regras aprovadas em Varsóvia preveem a utilização de dinheiro do Fundo Verde, aprovado em 2010 e que já tem recursos disponíveis a partir deste ano, embora a maior parte das verbas vá ser aportada em 2014.

Vanguarda
A parlamentar pelo Amazonas chamou a atenção para o papel relevante do Brasil no avanço da agenda ambiental. Sétimo no ranking da economia mundial, o país é “uma nação líder” no que se refere a proteção ao meio ambiente. Não só por causa da maior floresta tropical do mundo, mas também das posições importantes que assume nos fóruns internacionais, entre as quais as de fortalecimento do grupo dos 77 países em desenvolvimento e do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China).

O Brasil, observou ainda Vanessa Grazziotin, tem uma meta interna voluntária, em lei, “das maiores do mundo”: de 36% a quase 39% de redução das emissões brasileiras até o ano de 2020, levando-se em conta índices de 1995.

Tanto a Conferência das Partes, realizada na Polônia, como a próxima, que será realizada em Lima, no Peru, serão preparatórias para a 21ª Conferência das Partes, marcada para ocorrer em Paris. Na 21ª Conferência, será elaborada uma nova convenção, pela qual todos países terão regras estabelecidas internacionalmente para a redução de emissão de gases de efeito estufa.

Estiveram em Varsóvia, além de Vanessa Grazziotin, os senadores João Capiberibe (PSB-AP), Sérgio Souza (PMDB-PR) e Anibal Diniz (PT-AC). O grupo participou igualmente de uma reunião da Globe Internacional, entidade ambiental que reúne parlamentares de vários países.

(Agência Senado)

É um erro escolarizar o conhecimento tradicional, avalia pesquisadora da USP (Notícias da UFMG)

Foca Lisboa/UFMG
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Manuela Carneiro propôs projeto de valorização do conhecimento tradicional

Quinta-feira, 21 de novembro de 2013, às 5h50

As possibilidades de cooperação entre os cientistas acadêmicos e os chamados “conhecedores tradicionais” – em especial os indígenas – foram abordadas em conferência na UFMG da professora Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo (USP), no início deste mês. O evento integrou a programação doColóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami.

Para a professora, é um contrassenso tentar escolarizar o conhecimento tradicional. “Ele não é só conteúdo; são também formas de existência e de transmissão desse conteúdo. Assim, em vez de se pensar em escolarização, devemos propor programas de pesquisa de conhecimentos tradicionais estabelecendo pontes entre o conhecimento prático e o que se aprende na escola”, defendeu.

Na ocasião, Maria Manuela detalhou a proposta que submeteu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a criação de programa focado na valorização do conhecimento tradicional e na criação de uma economia na Amazônia que seja compatível com o conceito de “floresta em pé”

“Fizemos a proposta ao Ministério, que parece ter gostado do projeto, e o incluiu no seu programa para o período de 2010-2014. A ideia é que o projeto resulte em editais anuais, e que fomente a distribuição equitativa de poder e de recursos”, explicou.

O Portal UFMG resumiu aspectos da conferência de Maria Manuela Carneiro da Cunha. Confira a seguir.

O contexto político
Formamos um conselho consultivo e propusemos ao MCTI um programa focado na importância da valorização dos conhecimentos tradicionais para o Brasil. O Ministério demonstrou interesse e pôs o programa na sua agenda para o período 2010-2014. Mas quiseram começar de uma forma mais prudente do que se poderia esperar. Encomendaram um estudo de três anos para avaliar a viabilidade e o formato de um programa permanente. É o que estamos fazendo atualmente. Mas sabemos que, quando mudam governo e secretário, mudam as políticas. E em 2014 teremos novas eleições. Portanto, não temos nenhuma segurança de que o programa vai se reverter em algo permanente. Mas estamos trabalhando para isso. Já foi um importante avanço tratar a questão no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em vez do Ministério da Educação (MEC).

Floresta em pé
O programa se chama Bases para um programa de pesquisas interculturais e fortalecimento do conhecimento tradicional e tem dois pilares principais. Um trata de fomentar a criação de um tipo de economia na Amazônia que seja compatível com a ideia de “floresta em pé”. Essa parte foi mais facilmente aceita. O segundo diz respeito à valorização dos conhecimentos tradicionais. Ou seja, de se reconhecê-lo e buscar o auxílio das populações tradicionais, que têm o know-how nesse tipo de manejo da floresta, para fomentar seu uso sustentável. Essa é uma ação que enfrenta mais resistência. Temos implantado projetos pilotos. São tentativas de demonstrar que é possível criar uma agricultura da “floresta em pé”, de que essa mudança de paradigma é interessante para todas as partes – populações tradicionais, cientistas das universidades e para a sociedade como um todo.

Contribuição do saber tradicional
Tenho trabalhado junto a especialistas solicitando levantamentos sobre as contribuições econômicas que os conhecimentos tradicionais podem oferecer. Mas temos de ter em mente que o mais importante não é mensurável. Não se pode medir o conhecimento tradicional pelo seu valor econômico; existem questões mais importantes. Um grande problema hoje é que, se o aspecto econômico não é mensurado, a contribuição oferecida pelo conhecimento tradicional não é apreciada, não é levada em conta, apesar de ser imprescindível para o trabalho. Pesquisadores fazem “descobertas” e não reconhecem o conhecimento tradicional embutido em seus trabalhos. Dizem: “não devo nada aos conhecimentos tradicionais”, quando, na verdade, devem muito.

Repartição equitativa
Até hoje não temos uma medida precisa para fazer essa avaliação. Mas estamos chegando a algum tipo de consenso de como deve ser feita a regulamentação desse reconhecimento. O Congresso Nacional está recebendo um projeto de lei que vai substituir medida provisória sobre o assunto. A ideia é estipular o pagamento equitativo, a recompensa, a “repartição equitativa de benefícios”; esse é o termo, porque essa recompensa pode até mesmo ser não monetária. Uma frente de trabalho tem sido a de colaborar para o estabelecimento de qual deve ser, do ponto de vista econômico, o aporte a ser feito em remuneração ao conhecimento tradicional embutido nos processos científicos. No entanto, cabe repetir: não se pode exigir uma justificativa estritamente econômica para preservar a diversidade de línguas, práticas e cantos. Reduzir tudo isso à questão do capital seria um absurdo.

Conhecimento em construção
Quando os cientistas apreciam o conhecimento tradicional, eles pensam o seguinte: “vamos fazer um levantamento e então guardar o recurso para futuras pesquisas”. O problema é que essa postura desconsidera que o conhecimento tradicional é fruto de um processo vivo, que está sempre em transformação. Ele depende da população que o gerou, depende dela para continuar se transformando, se aprimorando. Se você armazena cientificamente uma informação, ela não terá a mesma validade quando for retomada. Venho insistindo com o MCTI que não se deve pensar o conhecimento tradicional como algo pronto e consolidado, mas sim como conhecimento em constante construção, tal qual o conhecimento científico. Por incrível que pareça, isso é muito difícil de entrar na cabeça de biólogos, de cientistas acadêmicos.

O valor dos mateiros
Quando os cientistas vão adentrar a floresta, eles sempre precisam da orientação dos mateiros, oriundos da população local: são eles que conhecem a mata, os territórios, e que estão sempre descobrindo coisas novas, novos caminhos. Ainda assim eles são sempre depreciados nos institutos de pesquisa. Sempre são colocados como assistentes, sendo muito pouco valorizados no contexto da construção do conhecimento – e muito mal pagos. E a verdade é que os mateiros são os primeiros pesquisadores. Eles aprenderam no local e estão transmitindo esses conhecimentos para os pesquisadores científicos.

Desvalorização histórica
A história tradicional faz tudo para solapar o conhecimento tradicional. Por exemplo: a nossa escola, ao ser levada para essas comunidades, considera que o que a criança aprende em casa é algo sem valor. Faz com que esse conhecimento seja visto como de uma instância inferior. A escola atrapalha de várias maneiras: sua forma de elaborar seu calendário, seus horários… Por isso, as pessoas mais velhas dessas sociedades acabam se sentindo desvalorizadas quando em contato com a nossa. Em muitas dessas comunidades, eles são os responsáveis por passar certos conhecimentos de pai para filho. E a nossa escola canônica não entende ou aceita isso muito bem. A reação são as “escolas diferenciadas”, criadas pelas próprias comunidades indígenas – e que naturalmente vêm sofrendo muita resistência. São escolas que pensam seu calendário para que ele seja compatível com as atividades tradicionais da comunidade, que pensam a importância da língua, do conhecimento local, das tradições, das festas, da participação social. Aí está um aspecto muito importante a ser solucionado. É preciso que a escola se adapte à realidade dessas comunidades, no sentido de uma política de fortalecimento do conhecimento tradicional. Saber como fazer uma canoa, por exemplo, importa muito mais do que certos “conhecimentos” que as escolas acham importante disseminar.

Os riscos da ‘revolução verde’
Uma retomada histórica explica o desafio que se vive hoje na agricultura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma “revolução verde”: uma ambiciosa tentativa de aumentar a produção agrícola no mundo inteiro e resolver o problema da fome. Foi algo muito importante. Entre as mais de sete mil espécies de plantas alimentícias existentes no mundo, as trinta mais produtivas foram selecionadas para formarem a base da alimentação da maioria. Mas as demais espécies dessa enorme variedade foram de certa forma esquecidas. Apesar de sua importância na época, foi uma medida política muito arriscada. Quando a base de alimentação mundial é tão pequena, crescem os riscos de escassez caso algo aconteça com alguma dessas espécies. É uma medida em que não se considera que as variedades são adaptadas a cada lugar, ao tipo de solo, à quantidade de sol e chuva, às pragas. Então resolveram o problema da não adaptação das espécies às pragas e às demais dificuldades dos novos ambientes com o uso maciço de fertilizantes e de defensivos agrícolas. E hoje o Brasil é um “campeão” no uso dos dois. Resolveu-se o problema. Mas a que custo? Tornamo-nos reféns dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Ao custo do sacrifício das variedades locais. E o risco disso é enorme.

Cultivo on farm
Em algum momento, percebemos que o que se estava fazendo era uma política agrícola extremamente perigosa. Na Irlanda, por exemplo, aconteceu um desastre em função disso. Assim como na Bélgica, França, Alemanha, a base da alimentação no país era a batata, que havia sido domesticada pelos índios da América e levada para a Europa pelos espanhóis após a colonização. Os espanhóis levaram poucas espécies, as mais produtivas. Os irlandeses, em dado momento, estavam se alimentando só de duas espécies. Foi quando aconteceu uma praga que durou quatro anos e acabou com tudo. Um milhão de pessoas morreu de fome. Outro milhão migrou. É um exemplo de como é necessário guardar as variedades. Mas não basta fazer bancos de sementes como os da Embrapa, em que as sementes ficam em uma geladeira, mas não continuam se adaptando às mudanças do meio ambiente. O clima muda, o solo muda. Então, é preciso que as espécies continuem sendo cultivadas na roça, sendo cultivadas on farm, pois só se adaptam aquelas que continuam sendo cultivadas em campo. Isso é fundamental para a nossa segurança alimentar. E aí entra a questão dos conhecimentos tradicionais, dos índios, que tem o hábito de cultivar variedades.

Experiência no Rio Negro
Um desses projetos-pilotos de que falei está sendo desenvolvido às margens do Rio Negro, na Amazônia. Lá, a despeito das políticas governamentais que buscam consolidar a plantação apenas das poucas espécies mais produtivas, os índios estão plantando em seus roçados mais de cem variedades de mandioca, colaborando com a diversidade tão importante para a segurança de nosso sistema agrário. Hoje, 500 milhões de pessoas comem mandioca no mundo. É um alimento que tem enorme consumo na África, por exemplo. Se houvesse uma praga como a das batatas, teríamos hoje um problema enorme, a exemplo do que aconteceu na Irlanda. Esse caso da mandioca é um exemplo de como o conhecimento tradicional tem uma importância fundamental. Porque é o conhecimento tradicional dos índios que possibilita que lá, no Rio Negro, haja tanta variedade da espécie. Normalmente, a mandioca é plantada como “clone”; come-se a raiz e planta-se o caule. Mas a mandioca sabe dar flor, que tem semente. E, quando dá flor, é porque houve reprodução sexuada, de forma que essa semente não é um clone. A formiga gosta dessa semente, que é docinha. Então ela leva a semente para debaixo da terra. Essa é uma semente que só brota se houver fogo; só nasce na capoeira. Nesse sentido, ela tem brotado no Rio Negro em função do trabalho dos índios mais antigos, que gostam de cultivar as variedades e trabalham para que haja essa capoeira. As variedades também são fruto do trabalho das mulheres indígenas, que cultivam experimentalmente as sementes. Elas plantam em uma margem da roça algo que só vai dar a partir do segundo ou do terceiro ano. É um trabalho de colecionador. Essas mulheres de fato pesquisam para avaliar cada nova variedade e depois para cultivá-la. Há ainda a cultura de troca de sementes entre famílias e tribos, nas festas. Há um gosto pela coleção.

Virada política
Mesmo assim, ainda há hoje uma política do governo querendo disseminar o cultivo das espécies de mandioca entre as comunidades tradicionais, algo como “ensinar padre a rezar missa”. Insistem em focar nas espécies mais produtivas, ainda na lógica da revolução verde. E isso em um contexto em que o Brasil é signatário de um tratado que obriga o país a fomentar o cultivo de variedades na roça, de fomentar esse cultivo on farm, e não em bancos de sementes. O Brasil não está cumprindo esse tratado. Nesse sentido, nosso projeto-piloto visa transformar essas práticas tradicionais do Rio Negro em um sistema reconhecido como forma de conservação on farm valiosa e estratégica para o Brasil e para o mundo. É isso que a gente está construindo.

Leia também o perfil do líder yanomami David Kopenawa, publicado na edição 1845 do Boletim UFMG.

(Ewerton Martins Ribeiro)

Transforming San Francisco Into a Model of Disaster Preparedness (Quest)

Post by  for  on Nov 20, 2013

A mashup of San Francisco's Pacific Heights neighborhood right after the 1906 earthquake and what the area looks like today. Credit: Shawn Clover

A mashup of San Francisco’s Pacific Heights neighborhood right after the 1906 earthquake and what the area looks like today. Credit: Shawn Clover

Mention sleeping in Golden Gate Park, and most people think of homelessness. But the idea that San Francisco’s most famous park could be used as an emergency shelter for thousands of victims after a major earthquake – as it was after the 1906 earthquake – is again resurfacing.

Public Architecture, a San Francisco non-profit organization, recently asked three architecture and design firms to devise resiliency plans for the city that could be put in place as soon as next year and explore creative ways San Francisco could respond to natural disasters.

With everything from urine recycling to art installations that indicate areas at risk for earthquake liquefaction, tsunamis and floods, the firms drew up a variety of innovative strategies.

One of the plans, from San Francisco-based CMG Landscape Architecture, looks to the 1906 San Francisco earthquake. That catastrophe killed at least 3,000 people, destroyed more than 28,000 buildings and left 225,000 people homeless.

“We’re in earthquake country and it can be the elephant in the room—we know it could happen but we want to ignore it”

After the 7.6 magnitude earthquake hit, many victims flocked to the Presidio—then a military outpost—and to Golden Gate Park for refuge.

At first, tents were constructed, but as winter approached, soldiers from the Army built small houses that provided shelter for more than 16,000 survivors. CMG believes the Park can once again support many thousands of people, if necessary.

“We’re in earthquake country and it can be the elephant in the room—we know it could happen but we want to ignore it,” said CMG design leader Scott Cataffa.

CMG proposes new waste treatment facilities, emergency-response infrastructure and energy supplies by lining the Park’s polo fields with dry-composting restrooms and first aid stations. The restrooms would divert treated wastewater onto nearby turf for use as a natural fertilizer.

An on-site, sand-filter water treatment system also would serve as a 100-foot tall water tower and viewing deck. The observation deck, covered with solar panels and a modern-day windmill, would allow people to survey the surrounding area. Dutch and Murphy Windmills that already exist at the Park would serve as a back-up power source.

By integrating large-scale sanitation-systems, water treatment infrastructure and a water tower, the park could support up to 12,000 people, Cataffa estimated.

There is already a precedent for Golden Gate Park supporting a large influx of people in the 21st century.

Annual events, like the Outside Lands music festival, draw hundreds of thousands of fans into the park during the summer.

In fact, CMG officials believe that public events are ideal opportunities to teach disaster preparedness and encourage a sense of community among attendees. “During Super Storm Sandy, some communities had fewer economic resources but knew each other better and they looked out for each other,” Caffata said.

“We wanted to tap into the sharing economy of Burning Man and back-country camping,” he said, “and see if we could come together and get to know our neighbors.”

Next April 18, on the 108th anniversary of the 1906 earthquake, CMG proposes a “Camp the Park” event. Interested San Franciscans would spend the night in Golden Gate Park to test the city’s ability to mobilize and prepare for disaster response while meeting neighbors and learning about survival techniques.

Corporate sponsors would provide the funding while the San Francisco Recreation and Park Department would need to approve the event and any structural upgrades.

However, not everyone thinks it’s a good idea to herd thousands of people into Golden Gate Park after the next major earthquake.

“Our first choice is to keep people in their homes, not in a city that gets built in Golden Gate Park,” said Lt. Erica Arteseros, program coordinator for the San Francisco Fire Department’s Neighborhood Emergency Response Team.

Arteseros’ program, formed after the 1989 Loma Prieta Earthquake, allows roughly 2,000 people a year to receive 18 hours of disaster preparedness training from San Francisco firefighters and emergency responders.

“There’s not enough space and housing to accommodate everyone leaving their home,” she said. “If your home is safe enough to stay in, that’s the best.”

The San Francisco Planning and Urban Research Association, a non-profit planning group, has published a “Safe Enough to Stay” report that details what it would take to make people’s homes suitable as shelters after an earthquake.

If residents can stay in their homes, the process of rebuilding the city can begin much sooner, according to the report.

Even so, after a magnitude 7.0 earthquake or greater, many people would be left homeless.

In that scenario, the San Francisco Department of Emergency Management would work with the Red Cross to set up temporary shelters and use large spaces like the Bill Graham Civic Auditorium to provide longer term housing.

For all San Francisco’s current planning, CMG and Public Architecture say they are not evaluating optimal conditions. They anticipate a future that is hard to imagine and even harder to predict.

“We’re not planning for a best-case scenario,” said Public Architecture CEO John Peterson. “Unfortunately the best case is not realistic.”

Um balanço da primeira semana da COP19 (Vitae Civilis)

Ambiente
18/11/2013 – 09h10

por Délcio Rodrigues e Silvia Dias*

cop19 ecod 300x183 Um balanço da primeira semana da COP19

Ao fim da primeira semana da CoP19, a sensação de dejá vú é inevitável. Mais uma vez, o negociador filipino foi o responsável pelo discurso mais emocionante. Mais uma vez, o Germanwatch divulga que os países pobres são os mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Mais uma vez, aliás, temos um evento climático vitimando milhares de pessoas enquanto acontece a conferência. Mais uma vez, temos a divulgação de que estamos vivendo os anos mais quentes da história recente do planeta, de que a quantidade de gases causadores do efeito estufa na atmosfera já está em níveis alarmantes, de que o certo seria deixar as reservas de combustíveis fósseis intocadas…

Mesmo o novo relatório do IPCC chega com um certo gosto de notícia velha. Pois apesar da maior gama de detalhes e da maior certeza científica, basicamente o AR5 confirma que estamos seguindo em uma trajetória que esgotará já em 2030 todo o carbono que poderemos queimar neste século sem alterar perigosamente o clima do planeta. Da mesma forma, a Agência Internacional de Energia (IEA) confirma o exposto por uma forte campanha feita na CoP18 contra os subsídios aos combustíveis fósseis. Segundo a IEA, os governos gastaram US$ 523 bilhões em subsídios aos combustíveis fósseis em 2011 – uma completa inversão de prioridades, do ponto de vista da mudança climática: para cada US$ 1 em apoio às energias renováveis​​, outros US$ 6 estão promovendo combustíveis intensivos em carbono. Parte dos subsídios aos combustíveis fósseis estão acontecendo em países emergentes e em desenvolvimento, haja vista os subsídios à gasolina impostos pelo governo brasileiro à Petrobrás. Mas talvez sejam mais importantes nos países ricos. Pesquisa do Overseas Development Institute, do Reino Unido, mostrou que os subsídios ao consumo de combustíveis fósseis em 11 países da OCDE alcançam o total de US$ 72 bilhões dólares, ou cerca de US$ 112 por habitante adulto destes países.

Essa perversidade econômica estrangula, no nascimento, as inovações tecnológicas que podem contribuir para evitarmos a colisão iminente entre a economia global (e o seu sistema energético) e os limites ecológicos do nosso planeta. Os recentes desenvolvimentos em energia eólica, solar, bio-combustíveis , geotermia, marés, células de combustível e eficiência energética estão aumentando as possibilidades de construção de um cenário energético de baixo carbono. Além de poderem afastar a crise climática, estas tecnologias poderiam abrir novas oportunidades de investimento, fornecer energia a preços acessíveis e sustentar o crescimento. Mas este potencial somente será realizado se os governos perseguirem ativamente políticas industriais sustentáveis. É necessário alinhar o objetivo de mitigação da crise climática com desincentivos para as fontes de energia intensivas em carbono por meio de impostos e apoio a alternativas sustentáveis.

O fim dos subsídios aos combustíveis fósseis precisa ser acompanhado por políticas que favoreçam a transferência de tecnologias limpas. Não podemos deixar de lado o exemplo da China, da Índia e também do Brasil, para onde multinacionais historicamente enviam plataformas de produção sujas e energo-intensivas. Infelizmente, as negociações sobre tecnologia estão entre as mais emperradas – tanto no formato anterior, estabelecido pelo Caminho de Bali, como agora, na chamada Plataforma Durban. Simultaneamente, tomamos conhecimento, pelo WikiLeaks, da Parceria Trans-Pacífica (TPP) referente a patentes e proteção intelectual – acordo que vem sendo negociado secretamente entre líderes de 12 países que concentram 40% do PIB e um terço do comércio global e que visa impor medidas mais agressivas para coibir a quebra de propriedade intelectual.

A discrepância entre o que a ciência recomenda e o que os governos estão promovendo permanece, independente do formato das negociações climáticas. Saímos dos dois trilhos estabelecidos em Bali para a Plataforma Durban, mas os compromissos financeiros ou metas mais agressivas de mitigação não vieram. Na primeira semana da CoP19, os discursos dos negociadores reviveram posicionamentos arcaicos e obstrutivos ao processo. Sim, é certo que já sabíamos que esta não seria uma conferência de grandes resultados. Mas o fato é que os bad guys resolveram ser realmente bad sob a condução complacente de uma presidência que não se constrange em explicitar sua conduta em prol do carvão e demais combustíveis fósseis. Tanto que a Rússia abriu mão de atravancar o processo, guardando suas queixas sobre o processo da UNFCCC para outra ocasião.

Esta outra ocasião pode ser a CoP20, no Peru, para onde as esperanças de negociações mais produtivas se voltam. Antes, porém, haverá a cúpula de Ban Ki Moon, para a qual as lideranças dos países estão convidadas. O objetivo é gerar a sensibilidade política que faltou em Copenhague e tentar definir metas antes da reta derradeira do acordo, em Paris. Esse encontro deve ser precedido e seguido de várias reuniões interseccionais para que os delegados avancem na costura do acordo e para que os itens críticos, como metas de mitigação e financiamento, comecem a adquirir contornos mais concretos.

Em outras palavras, uma agenda consistente de reuniões e o compromisso para apresentar metas no ano que vem são o melhor resultado que podemos esperar de uma conferência que corre o risco de entrar para a História como a CoP do carvão.

Délcio Rodrigues é especialista em Mudanças Climáticas do Vitae Civilis. Silvia Dias, membro do Conselho Deliberativo do Vitae Civilis, acompanha as negociações climáticas desde 2009.

Climate change pledges: rich nations face fury over moves to renege (The Guardian)

Typhoon Haiyan raises fear over global warming threat as Philippines leads attack on eve of key talks

 in Warsaw

The Observer, Sunday 17 November 2013

Typhoon Haiyan

Survivors of Typhoon Haiyan form a queue to receive relief goods at a devasted coastal area in Leyte. Photograph: Dondi Tawatao/Getty Images

Developing nations have launched an impassioned attack on the failure of the world’s richest countries to live up to their climate change pledges in the wake of the disaster in the Philippines.

With more than 3,600 people now believed to have been killed byTyphoon Haiyan, moves by several major economies to backtrack on commitments over carbon emissions have put the world’s poorest and most wealthy states on a collision course, on the eve of crucial high-level talks at a summit of world powers.

Yeb Sano, the Philippines’ lead negotiator at the UN climate change summit being held this weekend in Warsaw, spoke of a major breakdown in relations overshadowing the crucial talks, which are due to pave the way for a 2015 deal to bring down global emissions.

The diplomat, on the sixth day of a hunger strike in solidarity for those affected by Haiyan, including his own family, told the Observer: “We are very concerned. Public announcements from some countries about lowering targets are not conducive to building trust. We must acknowledge the new climate reality and put forward a new system to help us manage the risks and deal with the losses to which we cannot adjust.”

Munjurul Hannan Khan, representing the world’s 47 least affluent countries, said: “They are behaving irrationally and unacceptably. The way they are talking to the most vulnerable countries is not acceptable. Today the poor are suffering from climate change. But tomorrow the rich countries will be. It starts with us but it goes to them.”

Recent decisions by the governments of AustraliaJapan and Canada to downgrade their efforts over climate change have caused panic among those states most affected by global warming, who fear others will follow as they rearrange their priorities during the downturn.

In the last few days, Japan has announced it will backtrack on its pledge to reduce its emission cuts from 25% to 3.8% by 2020 on the basis that it had to close its nuclear reactors after the 2011 earthquake and tsunami.

Australia, which is not sending a minister to this weekend’s talks,signalled it may weaken its targets and is repealing domestic carbon lawsfollowing the election of a conservative government.

Canada has pulled out of the Kyoto accord, which committed major industrial economies to reducing their annual CO2 emissions to below 1990 levels.

China’s lead negotiator at the Warsaw talks, Su Wei, said: “I do not have any words to describe my dismay at Japan’s decision.” He criticised Europe for showing a lack of ambition to cut emissions further, adding: “They talk about ratcheting up ambition, but rather they would have to ratchet up to ambition from zero ambition.”

When the highest-level talks start at the summit on Monday, due to be attended by representatives from 195 countries, including energy secretary Ed Davey, the developing world will seek confirmation from states such as Britain that they will not follow the path of Japan and others. David Cameron’s comments this weekend in which he backed carbon emission cuts and suggested that there was growing evidence of a link between manmade climate change and disasters such as Typhoon Haiyan, will inevitably be used to pressure others to offer similar assurances.

The developing world also wants the rich western nations to commit to establishing a compensation scheme for future extreme weather events, as the impact of global warming is increasingly felt. And they want firm signals that rich countries intend to find at least $100bn a year by 2020 to help them to adapt their countries to severe climate extremes.

China and 132 nations that are part of the G77 block of developing countries have expressed dismay that rich countries had refused to discuss a proposal for scientists to calculate emissions since the start of the Industrial Revolution.

Ambassador Jose Antonio Marcondes de Carvalho of Brazil, who initially proposed the talks, said: “We were shocked, very much surprised by their rejection and dismissal. It is puzzling. We need to understand why they have rejected it.

“Developing countries are doing vastly more to reduce their emissions than Annexe 1 [rich] countries.”

Members of the Disaster Emergencies Committee, which co-ordinates British aid efforts, also warned leaders that the disaster offers a glimpse of the future if urgent action is not taken.

Aid agencies including Christian Aid, Cafod, Care International, Oxfam and Tearfund said ministers meeting in the Polish capital must act urgently because climate change is likely to make such extreme weather events more common in the future, putting millions more lives at risk.

Mudanças climáticas impulsionam tragédias naturais (O Globo)

JC e-mail 4855, de 13 de novembro de 2013

Condições meteorológicas extremas mataram 530 mil e causaram prejuízos de US$ 2,5 trilhões nos últimos 20 anos

Nos últimos 20 anos as condições meteorológicas extremas mataram 530 mil pessoas no mundo, causando prejuízos econômicos que chegam a US$ 2,5 trilhões, de acordo com o Germanwatch, instituição financiada pelo governo alemão. Este ano, somente o supertufão Haiyan, a 24ª tempestade tropical que assolou as Filipinas em 2013, pode ter matado 10 mil pessoas, embora o presidente Benigno Aquino agora negue a informação. Apesar dos números crescentes de fenômenos naturais extremos, muitos especialistas ainda temem traçar uma ligação direta com as mudanças no clima. A pergunta que muitos se fazem é até quando essa negativa vai continuar emperrando uma negociação mais contundente sobre as reduções das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), ainda apontados como principal motivo das alterações climáticas.

Em 2012, os países mais afetados por desastres naturais foram o Paquistão, o Haiti e justamente as Filipinas, divulgou ontem a Organização das Nações Unidas.

– A tragédia humana causada pelo desdobramento do Haiyan só será capturada em relatórios futuros – afirmou Soenke Kreft, coautor do documento divulgado nos bastidores da 19ª Conferência do Clima (COP-19), que acontece desde a última segunda-feira na Polônia.

Durante a abertura do evento, o delegado filipino Naderev Sano anunciou greve de fome até o final da conferência, e ontem foi seguido por 30 ativistas num ato tido como o mais importante do segundo dia de debates.

– Vamos fazer um jejum em solidariedade à delegação filipina, com as vítimas do tufão, e até que se concretizem ações políticas reais nesta COP-19 – disse Angeli Apparedi, coordenadora da iniciativa que uniu ONGs de todo o mundo para a causa filipina.

Sano lembrou a urgência de medidas concretas contra o aquecimento global para evitar tragédias como a do Haiyan e pediu para que os países desenvolvidos reduzissem as emissões e aumentassem seu comprometimento com o Fundo Verde do Clima, que deveria repassar US$ 100 bilhões aos países em desenvolvimento para a mitigação das emissões e adaptações aos impactos das mudanças climáticas em 2020. Até 30 de julho deste ano, o fundo, que foi criado em 2010, tinha apenas US$ 9 milhões.

Os desastres e o clima
Apesar do receio do mundo científico em afirmar que essas tragédias estão ligadas às mudanças climáticas, alguns efeitos causados pelo aumento das temperaturas do planeta já são apontados como a principal causa da maior intensidade dos ciclones tropicais.

– Uma coisa é bastante concreta – afirmou Will Steffen, diretor-executivo do “Australian National Climate Change Institute” à Reuters. – A mudança climática está causando o aquecimento das águas da superfície, o que, por sua vez, aumenta a energia deste tipo de tempestade.

Ontem, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou que a média mundial de temperatura entre janeiro e setembro deste ano foi meio ponto superior à registrada entre 1961 e 1990, o que faz de 2013 o ano mais quente da História. Além do aquecimento das águas, o aumento do nível do mar também é outro potencializador do tufões, dizem os especialistas. O relatório da OMM apontou que o nível dos mares e oceanos aumenta em média 3,2 milímetros por ano desde 1993.

– Não podemos afirmar que um fenômeno específico está ligado ou não às mudanças climáticas, pois eles naturalmente sempre aconteceram – diz André Ferretti, coordenador de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário e também do Observatório do Clima, que acompanha as negociações na Polônia. – Mas já é possível dizer que eles estão mais fortes e frequentes por causa das alterações do clima. Infelizmente isso não deve pressionar os governos para um acordo na COP-19.

Resistência a metas globais atrasam acordo
Um encontro que nasce errado, parte de um raciocínio antigo e é encerrado sem conclusões. Este quadro se encaixa em todos os painéis dedicados ao debate sobre as mudanças climáticas realizados nos últimos anos. Para especialistas, a fórmula pode se repetir nesta Convenção do Clima (COP-19).

Os países em desenvolvimento chegaram à Polônia insistindo em uma tese nascida há mais de 15 anos: “Responsabilidades Comuns, Porém Diferenciadas” no combate às mudanças climáticas. Segundo ela, só nações desenvolvidas devem submeter-se a metas para redução das emissões de CO2.

– É um raciocínio muito simplório – ataca Bernardo Baeta Neves Strassburg, diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio. – Desde que este argumento passou a ser usado, Brasil, Índia e China tornaram-se potências mundiais e, por isso, deveriam ter metas obrigatórias para diminuir suas emissões.

Brasil em posição ambígua
Entre os países emergentes, o Brasil seria o mais disposto a aceitar um acordo que limite a emissão de CO2, mas o governo estaria esperando a decisão da China, maior emissora mundial de gases-estufa, que negocia metas mais modestas.

Para Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o Brasil perdeu força nas conferências internacionais.

– Temos uma posição ambígua – critica. – Estamos entre as maiores economias do mundo, mas nossos problemas estruturais são idênticos aos dos países pobres. Essa contradição dificulta nossa habilidade em negociar.

Strassburg e Stella criticam o modelo do painel da COP, em que as decisões devem ser aceitas por unanimidade.

– É claro que o debate precisa ser democrático, mas questões tão importantes para a Humanidade não podem esbarrar no bloqueio de um determinado tema – ressalta Stella.

Ambos concordam que esta conferência, assim como a COP-20 – que será realizada no ano que vem, no Peru – são fundamentais para que, em 2015, os governantes enfim assinem um acordo que limite as emissões de CO2.

No início da semana, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou algumas adaptações em seu último relatório, concluído em setembro. As mudanças, segundo os cientistas, não são significativas, e foram descobertas após a revisão do documento.

(Maria Clara Serra e Renato Grandelle/O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/mudancas-climaticas-impulsionam-tragedias-naturais-10763216#ixzz2kX73SZ00

As causas da grande mobilização indígena (Outras Palavras)

Ambiente

07/10/2013 – 11h49

por Marcelo Degrazia*

 As causas da grande mobilização indígena

Quais os projetos de mineradoras, madeireiras e ruralistas para avançar sobre territórios e direitos dos índios. Como tramitam, em silêncio, no Congresso Nacional

A Mobilização Nacional Indígena, deflagrada ao longo desta semana, é uma luta pela defesa dos direitos indígenas adquiridos e para barrar uma avalanche devastadora, liderada pela Frente Parlamentar do Agronegócio. A luta é pela terra, sua posse e uso. A convocação foi da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e envolve organizações indígenas e indigenistas de diversas partes do país, agora articuladas e em luta.

A linha do tempo vai até as caravelas de Cabral, mas vamos tomá-la a partir deste ano, para compreender melhor o contexto atual. Em 16 de abril, cerca de 300 índios ocuparam o plenário da Câmara, em protesto contra a instalação de Comissão Especial para analisar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que torna praticamente impossível a demarcação das terras indígenas, ao tirar esta prerrogativa da Fundação Nacional do Índio (Funai) e transferi-la ao Congresso Nacional.

Na ocasião o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), prometeu não instalar a comissão antes do final de agosto. A Casa criou então um grupo de trabalho para discutir a condição dos índios no Brasil, cujo relatório seria um subsídio importante para a decisão de constituir ou não a comissão. Integraram o grupo lideranças indígenas, deputados ruralistas e parlamentares que defendem os direitos dos índios. Segundo Lincoln Portela (PR-MG), mediador do grupo, “basicamente aprovamos a rejeição da PEC 215.” A rejeição, concluindo pela inconstitucionalidade do projeto, foi por unanimidade dos presentes, já que nenhum parlamentar da frente do agronegócio compareceu às reuniões.

Na noite de 10 de setembro, contrariando o parecer do grupo de trabalho criado por ele mesmo, Henrique Eduardo Alves instituiu a Comissão Especial para analisar a PEC 215. Alves estaria atendendo compromisso assumido com a bancada ruralista durante sua campanha para a presidência da Câmara. Muitos dos 27 deputados indicados então para a Comissão Especial integram a frente do agronegócio e são autores de projetos que suprimem direitos dos índios, como veremos.

Nessa semana da Mobilização, Alves pretendia instalar a Comissão Especial, com a indicação do relator e do presidente – mas teve de recuar diante das manifestações.

A PEC 215, de 2000, é de autoria do ex-deputado Almir Sá (PRB-RR), atualmente presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Roraima. Ela estabelece a competência exclusiva do Congresso Nacional para aprovar a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas e ratificar as demarcações já homologadas – hoje atribuições exclusivas do Executivo, que as executa por meio da Fundação Nacional do Índio (Funai). Na avaliação de organizações indígenas e indigenistas, na prática significará o fim de novas demarcações. O risco não seria apenas para o futuro, mas também para hoje, pois das 1.046 terras já demarcadas apenas 363 estão regularizadas. As demais, ainda em processo por vários fatores, ficariam com sua homologação na dependência do Congresso. “Como contamos nos dedos quantos congressistas defendem a causa indígena, com certeza nenhuma terra será demarcada”, considera Ceiça Pitaguary, líder do movimento indígena do Ceará.

“A PEC é flagrantemente inconstitucional”, afirmou Dalmo Dallari, professor de direito da Universidade de São Paulo, ao Instituto Socioambiental (ISA): ela não respeita a separação dos poderes. As demarcações e homologações são atribuições do Executivo, procedimentos de natureza administrativa; ao Legislativo compete legislar e fiscalizar. Para alguns antropólogos, o direito à ocupação dessas terras é originário, e está assegurado na Constituição – as demarcações são apenas reconhecimento desse direito pré-existente.

A opinião de Carlos Frederico Maré, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná vai na mesma direção. Ex-presidente da Funai, ele sustenta que a demarcação é um procedimento eminentemente técnico. Em entrevista ao ISA, disse que “a Constituição não deu direito à demarcação. Deu direito à terra. A demarcação é só o jeito de dizer qual é a terra. Quando se coloca todo o direito sobre a demarcação retira-se o direito à terra, porque então ele só existirá se houver demarcação. É isso que está escrito na PEC: que não há mais direitos originários sobre a terra. Muda-se a Constituição, eliminando-se um direito nela inscrito.”

O Projeto de Lei (PL) 1.610, de 1996, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), dispõe sobre a exploração e o aproveitamento de recursos minerais em terras indígenas. Foi apresentado a pretexto de defender o “interesse nacional” (a ser explorado pela iniciativa privada, conforme o Código de Mineração). Se aprovado, irá se converter em lei complementar ao artigo 231 (Capítulo VIII) da Constituição. O senador pediu regime de urgência. Quer votar, portanto, sem muita discussão, e a matéria só não foi submetida à apreciação da Casa devido à mobilização em torno do tema. Na prática, talvez seja tão ou ainda mais danosa que a PEC 215. E não seria de duvidar que esta estaria sendo o boi de piranha, já que o governo mostrou-se receptivo ao PL 1.610.

Já o PL 227, de 2012, retrata cruamente um dos aspectos centrais do chamado “sequestro da democracia” pelas instituições que deveriam expressá-la. Foi proposto pelo deputado Homero Pereira (PSD-MT), ex-presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio, a princípio com redação que visava dificultar as futuras demarcações de terras indígenas. Fazia-o diluindo atribuições da Funai e incluindo, entre as comissões encarregadas de definir novos territórios, os proprietários de terra. Já em sua origem era, portanto, anti-indígena.

Mas tornou-se muito pior, ao tramitar pela comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural da Câmara. Sem que tenha havido debate algum com a sociedade, os deputados que integram a comissão transformaram inteiramente sua redação. Converteram-no num projeto de lei que, se aprovado, revogará na prática, pela porta dos fundos, o Artigo 231 da Constituição.

Tal dispositivo trata dos direitos indígenas. Reconhece “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. Estabelece uma única exceção: em situações extremas, em que houvesse “relevante interesse público da União”a exclusividade dos indígenas seria flexibilizada e seus territórios poderiam conviver com outros tipos de uso. Esta possibilidade, rara, precisaria ser definida em lei complementar.

Na redação inteiramente nova que assumiu, o PL 227/2012 é transformado nesta lei complementar. E estabelece, já em seu artigo 1º, um vastíssimo leque de atividades que poderão ser praticadas nas terras indígenas. Estão incluídas mineração, construção de hidrelétricas, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, oleodutos, gasodutos, campos de treinamento militar e muitos outros.

Um inciso (o VIII), de redação obscura, procura ampliar ainda mais as possibilidades de violação dos territórios índios. Estabelece que é também “de relevante interesse público da União” a “legítima ocupação, domínio e posse de terras privadas em 5 de outubro de 1988”. Embora pouco claro, o texto dá margem a uma interpretação radical. A data mencionada é a da entrada em vigor da Constituição – quando foram reconhecidos os atuais direitos indígenas. Estariam legitimados, portanto, os “domínios e posses de terras privadas” existentes antes da Carta atual. Em outras palavras, a legislação recuaria no tempo, para anular na prática as demarcações que reconheceram território indígena e afastaram deles os ocupantes ilegítimos.

A PEC 237, de 2013, é de iniciativa do deputado Nelson Padovani (PSC-PR), titular do PSC na Comissão Especial da PEC 215, integrante da comissão do PL 1.610 e um dos signatários do pedido de criação da CPI da Funai, uma das estratégias da Frente para enfraquecer o órgão federal, já penalizado por redução de verbas. Essa PEC, se aprovada, tornará possível a posse indireta de terras indígenas a produtores rurais na forma de concessão. Será a porta de entrada do agronegócio aos territórios demarcados, e essa possibilidade tem tirado o sono de indígenas e indigenistas.

portaria 303, de iniciativa da Advocacia Geral da União (AGU) em 16/07/2012, é outro dispositivo que tolhe direitos indígenas, com tom autoritário, em especial no inciso V do art. 1º, em que o usufruto dos índios não se sobrepõe ao interesse da política de defesa nacional (!), à instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares, à expansão estratégica da malha viária, à exploração de alternativas energéticas de cunho estratégico e ao resguardo das riquezas de cunho estratégico, a critério dos órgãos competentes (Ministério da Defesa e Conselho de Defesa Nacional), projetos esses que serão implementados independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à Funai (grifo nosso).

É a pavimentação para o avanço econômico do capitalismo sem fronteiras, além de contrariar a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 1989, assinada pelo Brasil, a qual assegura o direito de os povos indígenas serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetar seus bens ou direitos.

Todas essas iniciativas legais têm por objetivo possibilitar o avanço do agronegócio e da exploração de lavras minerais sobre as terras indígenas. Assim se permitiria inclusive a intrusão em territórios de nações não contatadas. Basta um simples olhar na autoria dos projetos, na trajetória negocial de seus autores e apoiadores, em suas relações comerciais com o agronegócio nacional e estrangeiro e na sua atuação articulada através de uma Frente Parlamentar para se ter certeza de que o interesse econômico é privado, setorista e excludente, em nada aparentado ao interesse nacional, do bem comum ou da União. Se há diversificação de interesses nos projetos, é na razão direta da fome, mas de lucros, do agronegócio, da bancada ruralista, das mineradoras, das madeireiras e empreiteiras.

Marcelo Degrazia é escritor. Autor de A Noite dos Jaquetas-Pretas e do blog Concerto de Letras.

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

Todo o universo indígena está a perigo (Carta Capital)

Sociedade
02/10/2013 – 01h15

por Felipe Milanez*

indigenascapa 300x225 Todo o universo indígena está a perigo

Foto: Reprodução/ Internet

“A situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave”, afirma Sydney Possuelo, presidente da Funai durante o governo Collor.

Presidente da Funai durante o governo Collor, Sydney Possuelo foi o responsável pela demarcação da terra indígena Yanomami. É tido como criador do departamento de índios isolados da Funai (atual Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato), responsável por institucionalizar a postura de não-contato com os povos indígenas em isolamento voluntário.

O tema é complexo, e hoje, a situação dos povos em isolamento voluntário, que são mais de 70 referências no Brasil, é grave. Em várias situações, como entre os awa-guaja no Maranhão, ou os Piripkura no norte do Mato Grosso, ou grupos isolados Yanomami, a situação é de risco grave de genocídio.

A qualquer momento, um desastre pode acontecer, com um ataque feito por madeireiros ou garimpeiros, nesses casos citados, podendo ocasionar o extermínio massivo de uma população. Ou seja: o crime de genocídio. E muitas obras do governo atingem diretamente essas áreas ocupadas por povos isolados, desde prospecção de petróleo no Vale do Javari a Usina Belo Monte. Para Possuelo, “Todo o universo indígena está a perigo, inclusive os isolados”.

CartaCapital: O que está acontecendo hoje, como explicar esse ataque aos direitos indígenas?

Sydney Possuelo: De um modo geral, a sociedade nacional nunca gostou de índio. Hoje, se soma a essa postura histórica de nunca gostar e não respeitar, a ação governamental que se alia aos tradicionais inimigos dos povos indígenas. O agronegócio, no Brasil, esta aliado ao governo. O governo está mais desmatando do que tudo. As grandes obras nacionais, hidrelétricas, que também se aliam ao governo porque é o governo que esta fazendo. Há um monte de ONG que dependem do governo, e elas não tem mais voz. Dentro da Funai não se encontra mais nenhum defensor dos índios. Aquela Funai antiga, que vários companheiros faziam da Funai um órgão de luta de defesa dos povos indígenas, hoje não existe mais.

Há ha uma convergência de fatores, vários fatores tradicionalmente anti-indígena, e todos convergem junto do governo por interesses. Uma situação que faz recrudescer a tradicional indiferença nacional com os povos indígenas. E, contra os índios, o agronegócio, o grande desenvolvimento a qualquer preço, as obras. Essas convergências se misturam com ausência de pessoas e fatores, e a própria imprensa, que antigamente era mais atuante a favor dos povos indígenas. Na imprensa, de um modo geral, os artigos são contra os povos indígenas. Não se tem vozes nacionais que se levantem na defesa. Todos calados, alimentando esse processo do governo com suas obras, a ideia do “Brasil grande” que precisa se desenvolver.

CC: Qual a ameaça dessas mudanças legislativas (PEC 215, PLP 227) para o futuro?

SP: Os índios estão mais ameaçados. Antigamente, a esperança era maior. Porque tínhamos muita atividade indigenista, demarcávamos terra, bastante vozes se levantavam na imprensa, grupos, entidades, falavam sobre os povos indígenas. Existia mais esperança. Hoje, é o contrario. A esperança diminui e aumenta as dificuldades para os povos indígenas. O resultado é que desde 1500 até hoje, com pequenos momentos mais leves na nossa historia politica, todo o processo ameaça os povos indígenas. A sociedade até entende, mas a ganancia e a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer negócios predominam. Fatores que atuavam isoladamente, hoje estão todos juntos. Todo mundo em volta do governo, que é o elemento que converge esses interesses, que subordina a todos. Eu vejo esse governo como um dos mais nefastos com relação aos povos indígenas, desde a entrada do lula até hoje. A postura é: vamos desenvolver. O índio permanece sendo o entrave.

CC: Como esse processo de força contrário aos índios se tornou tão poderoso e influente?

SP: O polarizador foi o governo, com bilhões de reais, ele faz a estrada, e quem faz a estrada esta a favor do governo, é a empreiteira, o governo deixa desmatar, “autoriza”. E o governo alimenta essa situação porque o que eles querem é a produção de mais carne, de mais soja para mais gente criar boi na Europa e na China. Os interesses do governo convergem com parte da sociedade nacional, os construtores de estrada, os chamados desbravadores.

CC: O que pode ser feito? Ou o que deveria ser feito no Brasil?

SP: Não é simples, e não basta simplesmente mudar o governo. Historicamente, os governos de centro ou esquerda ou direita, seja qual for a tendência, sempre foram contrários aos índios. Uns mais, outros menos. Não acredito que venha um governo de centro, ou de direita, que vai transformar. É uma coisa incorporada a nossa sociedade, por vários motivos histórico. Como vamos ter um órgão a favor dos índios se o governo não se porta a favor dos índios. E não falo só do federal, mas o estadual e municipal: todos são contrários aos índios. Na época das demarcações que fizemos nos meus dois anos de presidência da Funai, tivemos uma ação demarcatória muito positiva, no governo Collor. Em um ano duplicamos a superfície de terras indígenas no brasil. Houve momento em que essa situação estava melhor, como voltar a uma atividade mais respeitosa. Como respeitar os povos indígenas se a gente não se respeita? Somos uma sociedade que tem que caminhar muito.

CC: E como está a situação dos povos indígenas isolados, tema com o qual o senhor trabalhou durante muitos anos?

SP: A situação dos índios isolados está igual a dos outros povos: de mal a pior. tudo aquilo que fizemos com a criação do departamento de índios isolados, com seis ou sete equipes funcionando, mantendo a terra, dando um pouco de sossego para os índios, tudo aquilo se perdeu. Perdeu-se a motivação porque não tem mais aquelas pessoas, que foram anuladas e mandadas embora, e a começar por mim mesmo, mas, todos os que contribuíram de alguma forma. Antes da criação desse departamento e toda a filosofia que eu implantei, cada um fazia aquilo que queria. Fizemos uma filosofia de não contato, porque são sociedades vulneráveis, e somos tão grande, porque não sermos um pouco generosos e deixá-los nas sua áreas? As frentes estão abandonadas, não tem pessoas motivadas trabalhando nelas. Os índios isolados estão tão a perigo quanto os que estão contatados. Todo o universo indígena esta a perigo, inclusive os isolados.

Eu não consigo ver lados positivos em qualquer desenvolvimento que não respeite as populações diretamente afetadas, que não considere elas, que não faça obras de atenuação dos impactos. Impactos sempre vão ocorrer, mas convém atenuar. Senão não é desenvolvimento nem sustentável nem ético.

* Felipe Milanez é pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Felipe Milanez escreve sobre meio ambiente, conflitos sociais e questões indígenas. É também pesquisador visitante na Universidade de Manchester e integra o European Network of Political Ecology (Entitle). Twitter: @felipedjeguaka

** Publicado originalmente no site Carta Capital.

IPCC climate report: humans ‘dominant cause’ of warming – and other articles (BBC)

27 September 2013 Last updated at 09:12 GMT

By Matt McGrathEnvironment correspondent, BBC News, Stockholm

Climate change “threatens our planet, our only home”, warns Thomas Stocker, IPCC co-chair

A landmark report says scientists are 95% certain that humans are the “dominant cause” of global warming since the 1950s.

The report by the UN’s climate panel details the physical evidence behind climate change.

On the ground, in the air, in the oceans, global warming is “unequivocal”, it explained.

It adds that a pause in warming over the past 15 years is too short to reflect long-term trends.

The panel warns that continued emissions of greenhouse gases will cause further warming and changes in all aspects of the climate system.

To contain these changes will require “substantial and sustained reductions of greenhouse gas emissions”.

Infographic

Projections are based on assumptions about how much greenhouse gases might be released

After a week of intense negotiations in the Swedish capital, the summary for policymakers on the physical science of global warming has finally been released.

The first part of an IPCC trilogy, due over the next 12 months, this dense, 36-page document is considered the most comprehensive statement on our understanding of the mechanics of a warming planet.

It states baldly that, since the 1950s, many of the observed changes in the climate system are “unprecedented over decades to millennia”.

Each of the last three decades has been successively warmer at the Earth’s surface, and warmer than any period since 1850, and probably warmer than any time in the past 1,400 years.

“Our assessment of the science finds that the atmosphere and ocean have warmed, the amount of snow and ice has diminished, the global mean sea level has risen and that concentrations of greenhouse gases have increased,” said Qin Dahe, co-chair of IPCC working group one, who produced the report.

Speaking at a news conference in the Swedish capital, Prof Thomas Stocker, another co-chair, said that climate change “challenges the two primary resources of humans and ecosystems, land and water. In short, it threatens our planet, our only home”.

Since 1950, the report’s authors say, humanity is clearly responsible for more than half of the observed increase in temperatures.

Dr Rajendra Pachauri said he was confident the report would convince the public on global climate change

But a so-called pause in the increase in temperatures in the period since 1998 is downplayed in the report. The scientists point out that this period began with a very hot El Nino year.

“Trends based on short records are very sensitive to the beginning and end dates and do not in general reflect long-term climate trends,” the report says.

Prof Stocker, added: “I’m afraid there is not a lot of public literature that allows us to delve deeper at the required depth of this emerging scientific question.

“For example, there are not sufficient observations of the uptake of heat, particularly into the deep ocean, that would be one of the possible mechanisms to explain this warming hiatus.”

“Likewise we have insufficient data to adequately assess the forcing over the last 10-15 years to establish a relationship between the causes of the warming.”

However, the report does alter a key figure from the 2007 study. The temperature range given for a doubling of CO2 in the atmosphere, called equilibrium climate sensitivity, was 2.0C to 4.5C in that report.

In the latest document, the range has been changed to 1.5C to 4.5C. The scientists say this reflects improved understanding, better temperature records and new estimates for the factors driving up temperatures.

In the summary for policymakers, the scientists say that sea level rise will proceed at a faster rate than we have experienced over the past 40 years. Waters are expected to rise, the document says, by between 26cm (at the low end) and 82cm (at the high end), depending on the greenhouse emissions path this century.

The scientists say ocean warming dominates the increase in energy stored in the climate system, accounting for 90% of energy accumulated between 1971 and 2010.

For the future, the report states that warming is projected to continue under all scenarios. Model simulations indicate that global surface temperature change by the end of the 21st Century is likely to exceed 1.5 degrees Celsius, relative to 1850.

Prof Sir Brian Hoskins, from Imperial College London, told BBC News: “We are performing a very dangerous experiment with our planet, and I don’t want my grandchildren to suffer the consequences of that experiment.”

What is the IPCC?

In its own words, the IPCC is there “to provide the world with a clear scientific view on the current state of knowledge in climate change and its potential environmental and socio-economic impacts”.

The offspring of two UN bodies, the World Meteorological Organization and the United Nations Environment Programme, it has issued four heavyweight assessment reports to date on the state of the climate.

These are commissioned by the governments of 195 countries, essentially the entire world. These reports are critical in informing the climate policies adopted by these governments.

The IPCC itself is a small organisation, run from Geneva with a full time staff of 12. All the scientists who are involved with it do so on a voluntary basis.

Document

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O dióxido de carbono está reconfigurando o planeta (IPS)

Ambiente

30/9/2013 – 08h08

por Stephen Leahy, da IPS

stephen6401 O dióxido de carbono está reconfigurando o planeta

O derretimento da geleira de Orizaba, no México, é outra consequência do aquecimento global. Foto: Maurício Ramos/IPS

Nantes, França, 30/9/2013 – A Groenlândia pode acabar se tornando verde, pois a maior parte de sua enorme camada de gelo está condenada a derreter, informou, no dia 27, o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC). O resumo de 36 páginas apresentado em Estocolmo pelo IPCC, que funciona na órbita da Organização das Nações Unidas (ONU), inclui um alerta de que há 20% de possibilidades de os gelos da Groenlândia iniciarem um derretimento irreversível com apenas 0,2 grau de aquecimento adicional.

Essa quantidade de aquecimento agregado é uma certeza agora. Contudo, o derretimento definitivo do gelo na Groenlândia consumirá mil anos. “O novo informe é outro chamado para despertar, que nos diz que estamos com grandes problemas e vamos rumo a graus perigosos de mudança climática”, destacou David Cadman, presidente da Iclei, a única rede de cidades sustentáveis que opera em todo o mundo e envolve 1.200 governos locais.

“O IPCC será atacado por interesses (da indústria dos combustíveis fósseis e seus defensores. Eles tentarão assustar o público, alegando que tomar medidas coloca em risco os empregos e a economia. Isso não é verdade. Pelo contrário”, afirmou Cadman à IPS. O Resumo para Responsáveis por Políticas do Informe do Grupo de Trabalho I – Bases de Ciência Física estabelece claramente que os seres humanos estão esquentando o planeta, e confirma estudos que datam de 1997. Desde os anos 1950, cada década foi mais quente do que a anterior, diz o documento.

O texto completo será divulgado hoje e é o primeiro dos quatro volumes (os dos três grupos de trabalho mais a síntese) do Quinto Informe de Avaliação do IPCC, conhecido como AR5. No Hemisfério Norte, “as temperaturas entre 1983 e 2012 foram as mais quentes dos últimos 1.400 anos”, destacou Thomas Stocker, copresidente do Grupo de Trabalho I.

Em resposta às notícias dos últimos dias, falando sobre uma “interrupção do aquecimento”, Stocker disse que o sistema climático é dinâmico, sendo provável que nos últimos anos tenha ingressado mais calor nos oceanos e que tenha diminuído ligeiramente o ritmo dos aumentos das temperaturas superficiais. Há mais de cem anos pesquisadores demonstraram que o dióxido de carbono prende o calor do Sol.

A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento, a agricultura e outras atividades humanas emitem esse gás na atmosfera, onde permanece quase para sempre. Os maiores volumes de dióxido de carbono, por sua vez, acrescentam mais calor, pois atuam como outra camada de isolamento. Mais de 90% desta energia térmica adicional é absorvida pelos oceanos, segundo o Resumo. Isso explica a causa de as temperaturas da superfície ainda não terem superado o aumento médio mundial de 0,8 grau.

O Resumo destaca que a redução da camada de gelo do Ártico nas últimas três décadas foi a maior dos últimos 1.450 anos. Embora o derretimento no último verão boreal tenha sido menor que no ano passado, o Ártico segue no caminho de ficar sem gelo na temporada estival de 2050, bem antes do projetado por relatórios anteriores.

O informe do IPCC, uma revisão das pesquisas científicas disponíveis, se baseou em trabalhos de 259 autores de 39 países, e contou com 54.677 comentários. O informe de avaliação anterior, ou AR4, é de 2007. O IPCC não realiza pesquisas próprias e está sob a direção de 110 governos que passaram os últimos quatro dias aprovando o texto do sumário. “Cada palavra contida nas 36 páginas foi debatida. Alguns parágrafos foram discutidos por mais de uma hora”, contou Stocker em entrevista coletiva em Estocolmo. “Nenhum outro relatório científico jamais passou por um escrutínio tão crítico”, ressaltou.

O Resumo, redigido com cautela, detalha e confirma os impactos observados, com o aumento das temperaturas, as mudanças nos padrões pluviométricos e os extremos climáticos. Também confirma que estes e outros impactos vão piorar na medida em que aumentarem as emissões de dióxido de carbono. As atuais emissões deste gás estão no rumo do pior cenário.

O resumo do AR5 diz que a camada gelada da Groenlândia perdeu, em média, 177 bilhões de toneladas de gelo por ano entre 1992 e 2001. Estudos mais recentes demonstram que o gelo perdido aumentou substancialmente desde então. Segundo o relatório, há uma possibilidade em cinco de a camada gelada da Groenlândia derreter totalmente se as temperaturas globais aumentarem entre 0,8 grau e mais de um, como parece inevitável agora.

Um dos motivos é que a elevação das temperaturas no Ártico é quase três vezes maior do que o aumento médio mundial. Se a temperatura média mundial aumentar cerca de quatro graus será desencadeado um derretimento na Groenlândia, que elevaria o nível do mar em até sete metros. Apesar disto, o AR5 diz que não se espera que o nível do mar suba mais de um metro neste século.

Outros cientistas, entre eles James Hansen, ex-diretor do Instituto Goddar de Estudos Espaciais da Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), acreditam que o acelerado derretimento observado no Ártico, na Groenlândia, na Antártida e nas geleiras é um sinal de que neste século o mar pode subir vários metros, a menos que as emissões sejam reduzidas.

Mesmo antes de se tornar público o novo informe do IPCC, “os que negam a mudança climática” o atacaram e tergiversaram, tentando retratar suas conclusões como radicais ou extremistas, afirmou Charles Greene, professor de ciências atmosféricas e da terra na Cornell University, de Nova York. Greene se referia a um orquestrado esforço de propaganda de atores da indústria dos combustíveis fósseis e de organizações que tentam convencer o público de que o aquecimento global não é um assunto de extrema urgência. “Na verdade, o IPCC tem um longo histórico de subestimar os impactos” da mudança climática, afirmou Greene.

Embora a ação mundial contra o aquecimento esteja em ponto morto, algumas cidades já estão reduzindo suas emissões de carbono. Os membros do Iclei se comprometeram com uma redução de 20% até 2020 e de 80% até 2050. A maioria dos governos não está tomando iniciativas, o que revela claramente o poder e a influência do setor dos combustíveis fósseis, pontuou Cadman. “As cidades podem fazer até dez vezes mais, mas, simplesmente, não têm dinheiro”, ressaltou.

Envolverde/IPS

Quinto relatório do IPCC: repercussão

Documento divulgado nesta sexta (27/09) afirma que a temperatura do planeta pode subir quase 5 °C durante este século, o que poderá elevar o nível dos oceanos em até 82 centímetros (foto do Oceano Ártico: Nasa)

Especiais

Quinto relatório do IPCC mostra intensificação das mudanças climáticas

27/09/2013

Por Karina Toledo, de Londres

Agência FAPESP – Caso as emissões de gases do efeito estufa continuem crescendo às atuais taxas ao longo dos próximos anos, a temperatura do planeta poderá aumentar até 4,8 graus Celsius neste século – o que poderá resultar em uma elevação de até 82 centímetros no nível do mar e causar danos importantes na maior parte das regiões costeiras do globo.

O alerta foi feito pelos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), que divulgaram no dia 27 de setembro, em Estocolmo, na Suécia, a primeira parte de seu quinto relatório de avaliação (AR5). Com base na revisão de milhares de pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, o documento apresenta as bases científicas da mudança climática global.

De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos seis brasileiros que participaram da elaboração desse relatório, foram simulados quatro diferentes cenários de concentrações de gases de efeito estufa, possíveis de acontecer até o ano de 2100 – os chamados “Representative Concentration Pathways (RCPs)”.

“Para fazer a previsão do aumento da temperatura são necessários dois ingredientes básicos: um modelo climático e um cenário de emissões. No quarto relatório (divulgado em 2007) também foram simulados quatro cenários, mas se levou em conta apenas a quantidade de gases de efeito estufa emitida. Neste quinto relatório, nós usamos um sistema mais completo, que leva em conta os impactos dessas emissões, ou seja, o quanto haverá de alteração no balanço de radiação do sistema terrestre”, explicou Artaxo, que está em Londres para a FAPESP Week London, onde participou de um painel sobre mudança climática.

O balanço de radiação corresponde à razão entre a quantidade de energia solar que entra e que sai de nosso planeta, indicando o quanto ficou armazenada no sistema terrestre de acordo com as concentrações de gases de efeito estufa, partículas de aerossóis emitidas e outros agentes climáticos.

O cenário mais otimista prevê que o sistema terrestre armazenará 2,6 watts por metro quadrado (W/m2) adicionais. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre poderia variar entre 0,3 °C e 1,7 °C de 2010 até 2100 e o nível do mar poderia subir entre 26 e 55 centímetros ao longo deste século.

“Para que esse cenário acontecesse, seria preciso estabilizar as concentrações de gases do efeito estufa nos próximos 10 anos e atuar para sua remoção da atmosfera. Ainda assim, os modelos indicam um aumento adicional de quase 2 °C na temperatura – além do 0,9 °C que nosso planeta já aqueceu desde o ano 1750”, avaliou Artaxo.

O segundo cenário (RCP4.5) prevê um armazenamento de 4,5 W/m2. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre seria entre 1,1 °C e 2,6 °C e o nível do mar subiria entre 32 e 63 centímetros. No terceiro cenário, de 6,0 W/m2, o aumento da temperatura varia de 1,4 °C até 3,1 °C e o nível do mar subiria entre 33 e 63 centímetros.

Já o pior cenário, no qual as emissões continuam a crescer em ritmo acelerado, prevê um armazenamento adicional de 8,5 W/m2. Em tal situação, segundo o IPCC, a superfície da Terra poderia aquecer entre 2,6 °C e 4,8 °C ao longo deste século, fazendo com que o nível dos oceanos aumente entre 45 e 82 centímetros.

“O nível dos oceanos já subiu em média 20 centímetros entre 1900 e 2012. Se subir outros 60 centímetros, com as marés, o resultado será uma forte erosão nas áreas costeiras de todo o mundo. Rios como o Amazonas, por exemplo, sofrerão forte refluxo de água salgada, o que afeta todo o ecossistema local”, disse Artaxo.

Segundo o relatório AR5 do IPCC, em todos os cenários, é muito provável (90% de probabilidade) que a taxa de elevação dos oceanos durante o século 21 exceda a observada entre 1971 e 2010. A expansão térmica resultante do aumento da temperatura e o derretimento das geleiras seriam as principais causas.

O aquecimento dos oceanos, diz o relatório, continuará ocorrendo durante séculos, mesmo se as emissões de gases-estufa diminuírem ou permanecerem constantes. A região do Ártico é a que vai aquecer mais fortemente, de acordo com o IPCC.

Segundo Artaxo, o aquecimento das águas marinhas tem ainda outras consequências relevantes, que não eram propriamente consideradas nos modelos climáticos anteriores. Conforme o oceano esquenta, ele perde a capacidade de absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Se a emissão atual for mantida, portanto, poderá haver uma aceleração nas concentrações desse gás na atmosfera.

“No relatório anterior, os capítulos dedicados ao papel dos oceanos nas mudanças climáticas careciam de dados experimentais. Mas nos últimos anos houve um enorme avanço na ciência do clima. Neste quinto relatório, por causa de medições feitas por satélites e de observações feitas com redes de boias – como as do Projeto Pirata que a FAPESP financia no Atlântico Sul –, a confiança sobre o impacto dos oceanos no clima melhorou muito”, afirmou Artaxo.

Acidificação dos oceanos

Em todos os cenários previstos no quinto relatório do IPCC, as concentrações de CO2 serão maiores em 2100 em comparação aos níveis atuais, como resultado do aumento cumulativo das emissões ocorrido durante os séculos 20 e 21. Parte do CO2 emitido pela atividade humana continuará a ser absorvida pelos oceanos e, portanto, é “virtualmente certo” (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar. No melhor dos cenários – o RCP2,6 –, a queda no pH será entre 0,06 e 0,07. Na pior das hipóteses – o RCP8,5 –, entre 0,30 e 0,32.

“A água do mar é alcalina, com pH em torno de 8,12. Mas quando absorve CO2 ocorre a formação de compostos ácidos. Esses ácidos dissolvem a carcaça de parte dos microrganismos marinhos, que é feita geralmente de carbonato de cálcio. A maioria da biota marinha sofrerá alterações profundas, o que afeta também toda a cadeia alimentar”, afirmou Artaxo.

Ao analisar as mudanças já ocorridas até o momento, os cientistas do IPCC afirmam que as três últimas décadas foram as mais quentes em comparação com todas as anteriores desde 1850. A primeira década do século 21 foi a mais quente de todas. O período entre 1983 e 2012 foi “muito provavelmente” (90% de probabilidade) o mais quente dos últimos 800 anos. Há ainda cerca de 60% de probabilidade de que tenha sido o mais quente dos últimos 1.400 anos.

No entanto, o IPCC reconhece ter havido uma queda na taxa de aquecimento do planeta nos últimos 15 anos – passando de 0,12 °C por década (quando considerado o período entre 1951 e 2012) para 0,05°C (quando considerado apenas o período entre 1998 e 2012).

De acordo com Artaxo, o fenômeno se deve a dois fatores principais: a maior absorção de calor em águas profundas (mais de 700 metros) e a maior frequência de fenômenos La Niña, que alteram a taxa de transferência de calor da atmosfera aos oceanos. “O processo é bem claro e documentado em revistas científicas de prestígio. Ainda assim, o planeta continua aquecendo de forma significativa”, disse.

Há 90% de certeza de que o número de dias e noites frios diminuíram, enquanto os dias e noites quentes aumentaram na escala global. E cerca de 60% de certeza de que as ondas de calor também aumentaram. O relatório diz haver fortes evidências de degelo, principalmente na região do Ártico. Há 90% de certeza de que a taxa de redução da camada de gelo tenha sido entre 3,5% e 4,1% por década entre 1979 e 2012.

As concentrações de CO2 na atmosfera já aumentaram mais de 20% desde 1958, quando medições sistemáticas começaram a ser feitas, e cerca de 40% desde 1750. De acordo com o IPCC, o aumento é resultado da atividade humana, principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento, havendo uma pequena participação da indústria cimenteira.

Para os cientistas há uma “confiança muito alta” (nove chances em dez) de que as taxas médias de CO2, metano e óxido nitroso do último século sejam as mais altas dos últimos 22 mil anos. Já mudanças na irradiação solar e a atividade vulcânica contribuíram com uma pequena fração da alteração climática. É “extremamente provável” (95% de certeza) de que a influência humana sobre o clima causou mais da metade do aumento da temperatura observado entre 1951 e 2010.

“Os efeitos da mudança climática já estão sendo sentidos, não é algo para o futuro. O aumento de ondas de calor, da frequência de furacões, das inundações e tempestades severas, das variações bruscas entre dias quentes e frios provavelmente está relacionado ao fato de que o sistema climático está sendo alterado”, disse Artaxo.

Impacto persistente

Na avaliação do IPCC, muitos aspectos da mudança climática vão persistir durante muitos séculos mesmo se as emissões de gases-estufa cessarem. É “muito provável” (90% de certeza) que mais de 20% do CO2 emitido permanecerá na atmosfera por mais de mil anos após as emissões cessarem, afirma o relatório.

“O que estamos alterando não é o clima da próxima década ou até o fim deste século. Existem várias publicações com simulações que mostram concentrações altas de CO2 até o ano 3000, pois os processos de remoção do CO2 atmosférico são muito lentos”, contou Artaxo.

Para o professor da USP, os impactos são significativos e fortes, mas não são catastróficos. “É certo que muitas regiões costeiras vão sofrer forte erosão e milhões de pessoas terão de ser removidas de onde vivem hoje. Mas claro que não é o fim do mundo. A questão é: como vamos nos adaptar, quem vai controlar a governabilidade desse sistema global e de onde sairão recursos para que países em desenvolvimento possam construir barreiras de contenção contra as águas do mar, como as que já estão sendo ampliadas na Holanda. Quanto mais cedo isso for planejado, menores serão os impactos socioeconômicos”, avaliou.

Os impactos e as formas de adaptação à nova realidade climática serão o tema da segunda parte do quinto relatório do IPCC, previsto para ser divulgado em janeiro de 2014. O documento contou com a colaboração de sete cientistas brasileiros. Outros 13 brasileiros participaram da elaboração da terceira parte do AR5, que discute formas de mitigar a mudança climática e deve sair em março.

De maneira geral, cresceu o número de cientistas vindos de países em desenvolvimento, particularmente do Brasil, dentro do IPCC. “O Brasil é um dos países líderes em pesquisas sobre mudança climática atualmente. Além disso, o IPCC percebeu que, se o foco ficasse apenas nos países desenvolvidos, informações importantes sobre o que está acontecendo nos trópicos poderiam deixar de ser incluídas. E é onde fica a Amazônia, um ecossistema-chave para o planeta”, disse Artaxo.

No dia 9 de setembro, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) divulgou o sumário executivo de seu primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1). O documento, feito nos mesmos moldes do relatório do IPCC, indica que no Brasil o aumento de temperatura até 2100 será entre 1 °C e 6 °C, em comparação à registrada no fim do século 20. Como consequência, deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.

“A humanidade nunca enfrentou um problema cuja relevância chegasse perto das mudanças climáticas, que vai afetar absolutamente todos os seres vivos do planeta. Não temos um sistema de governança global para implementar medidas de redução de emissões e verificação. Por isso, vai demorar ainda pelo menos algumas décadas para que o problema comece a ser resolvido”, opinou Artaxo.

Para o pesquisador, a medida mais urgente é a redução das emissões de gases de efeito estufa – compromisso que tem de ser assumido por todas as nações. “A consciência de que todos habitamos o mesmo barco é muito forte hoje, mas ainda não há mecanismos de governabilidade global para fazer esse barco andar na direção certa. Isso terá que ser construído pela nossa geração”, concluiu.

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JC e-mail 4822, de 27 de Setembro de 2013.

IPCC lança na Suécia novo relatório sobre as mudanças climáticas (O Globo)

O documento reúne previsões do aquecimento global até 2100 apontando aumento de temperatura superior a 2 graus. ‘A influência humana no clima é clara’, diz trabalho

A previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) é que o aquecimento global até o final do século 21 seja “provavelmente superior” a 2 graus (com pelo menos 66% de chances disto acontecer), superando o limite considerado seguro pelos especialistas. Até 2100, o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros, considerando o pior cenário (ou de 26 a 55 centímetros, no melhor), e o gelo do Ártico pode diminuir até 94% durante o verão local.

Além disso, o relatório do IPCC — publicado na manhã desta sexta-feira em Estocolmo, na Suécia, com as bases científicas mais atualizadas sobre as mudanças climáticas — considera que há mais de 95% de certeza para afirmar que o homem causou mais da metade da elevação média da temperatura entre 1951 e 2010. Neste período, o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros.

O documento, com o trabalho de 259 cientistas e representantes dos governos de 195 países, inclusive o Brasil, ressalta que parte das emissões de CO2 provocadas pelo homem continuará a ser absorvida pelos oceanos. Por isso, é praticamente certo (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar, afetando profundamente a vida marinha.

– A mudança de temperatura da superfície do planeta deve exceder 1,5 grau, e, provavelmente, será superior a 2 graus – disse o copresidente do trabalho Thomas Stocker. – É muito provável que as ondas de calor ocorram com mais frequência e durem mais tempo. Com o aquecimento da Terra, esperamos ver regiões atualmente úmidas recebendo mais chuvas, e as áridas, menos, apesar de haver exceções.

Os especialistas fizeram quatro projeções considerando situações diferentes de emissões de gases-estufa. Em todas, há aumento de temperatura. As mais brandas ficam entre 0,3 ºC e 1,7 ºC. Nestes casos, seria necessário diminuir muito as emissões. Já no cenário mais pessimista, o aquecimento ficaria entre 2,6 ºC e 4,8 ºC.

– Na minha opinião, o relatório é muito bom, repleto de informações e todas muito bem fundamentadas – comentou a especialista brasileira Suzana Kahn, que faz parte do grupo de pesquisadores do IPCC em Estocolmo. – No fundo, o grande ganho é a comprovação do que tem sido dito há mais tempo, com muito mais informação sobre o papel dos oceanos, das nuvens e aerossóis. Isto é muito importante para o mundo científico, pois aponta para áreas que precisam ser mais investigadas.

Suzana conta que a dificuldade de fazer projeções e análises para o Hemisfério Sul causou muita polêmica. O grande problema é a falta de dados:

– Acho que isto foi interessante para comprovar que estávamos certos ao criar o Painel Brasileiro de Mudança Climática para suprir esta lacuna.

De acordo com Carlos Rittl, Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energias do WWF-Brasil, o relatório do IPCC deixa uma mensagem clara: o aquecimento global é incontestável. E é preciso começar agora contra os piores efeitos.

– O relatório do IPCC reafirma algumas certezas e vai além. Aponta a perda de massa de gelo, o aumento do nível dos oceanos, o incremento de chuvas onde já se chove muito, além da diminuição da umidade nas regiões mais áridas. No Brasil, o semiárido pode se tornar mais árido. Por outro lado, o Sul e Sudeste podem ter mais chuvas do que hoje – enumerou Rittl. – É importante ressaltar que o relatório fala de médias. Ou seja, em algumas regiões do país pode haver aumento de seis graus, com picos de mais de oito graus. A gente não está preparado para isso. E nossas emissões nos colocam numa trajetória de altíssimo risco, mais próxima dos piores cenários.

Para Rittl, a ciência está dando uma mensagem clara: é preciso diminuir as emissões. Isso significa levar os temas relacionados às mudanças climáticas para as decisões políticas:

– Hoje o aquecimento global ainda é um tema marginal. Os investimentos em infraestrutura, energia, o plano Safra, todos os grandes investimentos da escala de trilhões de reais não têm praticamente nenhuma vinculação com a lógica de baixo carbono. Estamos sendo pouco responsáveis.

Diplomacia e ciência
John Kerry, secretário de Estado dos EUA, ressalta que o relatório do IPCC não deve ser esquecido num armário, nem interpretado como uma peça política feita por políticos: “é ciência”, resume. De acordo com ele, os Estados Unidos estão “profundamente comprometidos em combater as mudanças climáticas”, reduzindo emissões de gases-estufa e investindo em formas eficientes de energia.

Este é mais um chamado de atenção: aqueles que negam a ciência ou procuram desculpas para evitar a ação estão brincando com fogo – afirmou Kerry. – O resumo do relatório do IPCC é este: a mudança climática é real, está acontecendo agora, os seres humanos são a causa dessa transformação, e somente a ação dos seres humanos pode salvar o mundo de seus piores impactos.

Lançado a cada seis anos, os relatórios do IPCC estão sob críticas de especialistas. O processo de análise dos documentos por representantes do governo acaba chegando a uma situação intermediária entre diplomacia e ciência, explica Emilio La Rovere, pesquisador da Coppe/UFRJ.

– O resultado é um meio termo entre diplomacia e ciência – afirmou Rovere.
Um dos pontos mais polêmicos são os chamados hiatos, períodos de cerca de 15 anos em que a temperatura média do planeta não aumenta. Por exemplo, a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha anunciou, nesta semana, que o último trimestre na Península Ibérica foi o menos quente desde 2008. Entretanto, o relatório de 2007 do IPCC não citou estas pausas do aquecimento, dando argumento aos céticos.

Limite do aquecimento global
As informações do IPCC são importantes para a criação de estratégias de combate às mudanças climáticas. Na Convenção do Clima da Dinamarca (COP-15, realizada em 2009), foi criada a meta de limitar o aquecimento global em 2 graus. Para isso acontecer em 2050, explica Emilio La Rovere, da Coppe/UFRJ, seria necessário cortar 80% das emissões em comparação com 1990:

– Os modelos matemáticos simulando evolução demográfica, economia mundial, demanda e oferta de energia mostram que fica realmente quase impossível atingir este objetivo.

Este é o Quinto Relatório do IPCC, que será lançado em quatro partes, entre setembro de 2013 e novembro de 2014. Nesta sexta-feira, foi publicado o documento do Grupo de Trabalho I (sobre os aspectos científicos das mudanças climáticas). Entre os dias 25 e 29 de março de 2014, será a vez do Grupo de Trabalho II (analisando os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade), que se reunirá em Yokohama, no Japão. O Grupo de Trabalho III (especializado na mitigação dos impactos das mudanças climáticas) está previsto para os dias 7 e 11 de abril em Berlim, na Alemanha. Por fim, será criado um relatório síntese, cujos trabalhos ocorrerão entre os dias 27 e 31 de outubro, em Copenhague, na Dinamarca.

(Cláudio Motta/O Globo)

http://oglobo.globo.com/ciencia/ipcc-lanca-na-suecia-novo-relatorio-sobre-as-mudancas-climaticas-10173671#ixzz2g6D6tmU6

Matéria complementar de O Globo:

Relatório destaca como a ação humana agrava o aquecimento
http://oglobo.globo.com/ciencia/relatorio-destaca-como-acao-humana-agrava-aquecimento-1-10171896#ixzz2g6MfZIsl

Veja mais em:

Folha de S.Paulo
Relatório sobe tom de alerta sobre aquecimento
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/131005-relatorio-sobe-tom-de-alerta-sobre-aquecimento.shtml

Agência Estado
ONU culpa atividades humanas por aquecimento global
http://www.territorioeldorado.limao.com.br/noticias/not297255.shtm

Zero Hora
Temperatura da Terra subirá entre 0,3°C e 4,8°C neste século, aponta IPCC
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/planeta-ciencia/noticia/2013/09/temperatura-da-terra-subira-entre-0-3c-e-4-8c-neste-seculo-aponta-ipcc-4283083.html

Correio Braziliense
Temperatura do planeta subirá entre 0,3 e 4,8ºC no século 21, diz IPCC
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2013/09/27/interna_ciencia_saude,390388/temperatura-do-planeta-subira-entre-0-3-e-4-8-c-no-seculo-21-diz-ipcc.shtml

 

Por trás do desmatamento da Amazônia (Fapesp)

Mais de 50% das emissões de gases de efeito estufa do bioma são causados pela demanda do restante do país e do exterior por insumos produzidos na região, aponta estudo feito na USP (Nasa)

Especiais

20/09/2013

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – O consumo interno do Brasil e as exportações de soja, carne bovina e outros produtos primários provenientes da Amazônia são responsáveis por mais da metade das taxas de desmatamento e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa (GEE) registradas pelo bioma.

A avaliação é de um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), no âmbito de um Projeto Temático, realizado no Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Os resultados do estudo foram apresentados no dia 12 de setembro durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), realizada pela FAPESP em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), em São Paulo.

“Mais da metade das emissões de GEE da Amazônia acontecem por conta da demanda de consumo fora da região, para abastecimento interno do país ou para exportação”, disse Joaquim José Martins Guilhoto, professor da FEA e um dos pesquisadores participantes do projeto.

De acordo com dados apresentados pelo pesquisador, obtidos do segundo Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa – publicado no final de 2010, abrangendo o período de 1990 a 2005 –, em 2005 o Brasil emitiu mais de 2,1 gigatoneladas de CO2 equivalente. A Amazônia contribui com mais de 50% das emissões de GEE do país.

A fim de identificar e entender os fatores econômicos causadores do desmatamento e, por conseguinte, das emissões de GEE na Amazônia naquele ano, os pesquisadores fizeram um mapeamento das emissões diretas por atividade produtiva separando a Região Amazônica do restante do Brasil e calcularam a parcela de contribuição de cada um na emissão de CO2 equivalente, assim como a participação das exportações.

Os cálculos revelaram que as exportações diretas da Amazônia são responsáveis por 16,98% das emissões de GEE da região. Já as exportações do resto do país são responsáveis por mais 6,29% das emissões da Amazônia, uma vez que há produtos provenientes da região que são processados e exportados por outros estados brasileiros.

O consumo interno, por sua vez, responde por 46,13% das emissões amazônicas, sendo 30,01% pelo consumo no restante do país e 16,12% pelo consumo dentro da própria Região Amazônica, aponta o estudo.

“A soma desses percentuais demonstra que mais de 50% das emissões de GEE da Amazônia ocorrem por conta do consumo de bens produzidos na região, mas consumidos fora dela”, afirmou Guilhoto. “Essa constatação indica que os fatores externos são mais importantes para explicar as emissões de GEE pela Amazônia.”

Segundo o estudo, a pecuária, a produção de soja e de outros produtos agropecuários são os setores produtivos que mais contribuem para as emissões de GEE pela Amazônia. Mas, além deles, há outros setores econômicos, como o de mobiliário, entre outros, que são fortemente dependentes de insumos produzidos na região.

“Os dados obtidos no estudo mostram que, de modo geral, apesar de haver uma dependência muito maior da Amazônia pelos insumos produzidos pelo resto do Brasil, a pouca dependência que o resto do Brasil tem do bioma se dá em insumos fortemente relacionados com a emissão de GEE na região”, resumiu Guilhoto.

Redução do desmatamento

Em outro estudo também realizado por pesquisadores da FEA, no âmbito do Projeto Temático, constatou-se que entre 2002 e 2009 houve uma grande expansão da área de produção agropecuária brasileira e, ao mesmo tempo, uma redução drástica das taxas de desmatamento da Amazônia.

A cana-de-açúcar, a soja e o milho responderam por 95% da expansão líquida da área colhida entre 2002 e 2009, enquanto o rebanho bovino teve um acréscimo de 26 milhões de cabeças de gado. Nesse mesmo período a Amazônia registrou uma queda de 79% do desmatamento.

A fim de investigar os principais vetores do desmatamento no país, uma vez que boa parte dos eventos de expansão agropecuária ocorre fora da Amazônia, os pesquisadores fizeram um estudo usando análises espaciais integradas do território brasileiro, incluindo os seis biomas do país.

Para isso, utilizaram dados sobre desmatamento obtidos do Projeto Prodes, do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), além de imagens georreferenciadas obtidas dos satélites Landsat, da agência espacial norte-americana Nasa.

O estudo revelou que, no período de 2002 a 2009, foram desmatados 12,062 milhões de hectares da Amazônia, 10,015 milhões de hectares do Cerrado, 1,846 milhão de hectares da Caatinga, 447 mil hectares do Pantanal, 375 mil hectares da Mata Atlântica e 257 mil hectares do Pampa.

“A soma desses números indica que o Brasil desmatou em sete anos o equivalente ao Estado de São Paulo mais o Triângulo Mineiro ou uma Grã-Bretanha”, calculou Rafael Feltran-Barbieri, pesquisador da FEA e um dos autores do estudo.

De acordo com o pesquisador, uma das principais conclusões do estudo foi que os outros biomas estão funcionando como uma espécie de “amortecedor” do desmatamento da Amazônia.

“Quando consideramos a expansão agropecuária do Brasil como um todo, vemos que boa parte da redução das taxas de desmatamento da Amazônia se deve ao fato de que os outros biomas estão sofrendo essas consequências [registrando aumento no desmatamento]”, afirmou.

Outra conclusão do estudo é de que há um impacto espacial sinérgico dos vetores do desmatamento no Brasil, uma vez que a expansão das diversas atividades agropecuárias – como o cultivo da cana e da soja ou a criação de gado – ocorre de forma concomitante e disputa território.

No caso da cana-de-açúcar, uma das constatações foi que, no período de 2002 a 2009, a cultura passou a ocupar áreas desmatadas por outras atividades agropecuárias, embora ela própria não tenha vocação para desmatar.

“Estamos percebendo que existe uma formação quase complementar entre as expansões [nos diferentes biomas] e isso faz com que os efeitos de desmatamento sejam altamente correlacionados”, disse Feltran-Barbieri.

“Essa constatação leva à conclusão de que, se o Brasil pretende assumir uma posição de fato responsável em relação às mudanças climáticas – e disso depende a agropecuária –, é preciso fazer planejamento estratégico do território, porque o planejamento setorial não está dando conta de compreender esses efeitos sinérgicos”, avaliou.

Seca no semiárido deve se agravar nos próximos anos – e outros artigos relacionados à Conclima (Fapesp)

Pesquisadores alertam para necessidade de executar ações urgentes de adaptação e mitigação aos impactos das mudanças climáticas previstos na região (foto: Fred Jordão/Acervo ASACom)

12/09/2013

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Os problemas de seca prolongada registrados atualmente no semiárido brasileiro devem se agravar ainda mais nos próximos anos por causa das mudanças climáticas globais. Por isso, é preciso executar ações urgentes de adaptação e mitigação desses impactos e repensar os tipos de atividades econômicas que podem ser desenvolvidas na região.

A avaliação foi feita por pesquisadores que participaram das discussões sobre desenvolvimento regional e desastres naturais realizadas no dia 10 de setembro durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima).

Organizado pela FAPESP e promovido em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), o evento ocorre até a próxima sexta-feira (13/09), no Espaço Apas, em São Paulo.

De acordo com dados do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), só nos últimos dois anos foram registrados 1.466 alertas de municípios no semiárido que entraram em estado de emergência ou de calamidade pública em razão de seca e estiagem – os desastres naturais mais recorrentes no Brasil, segundo o órgão.

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) – cujo sumário executivo foi divulgado no dia de abertura da Conclima – estima que esses eventos extremos aumentem principalmente nos biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga e que as mudanças devem se acentuar a partir da metade e até o fim do século 21. Dessa forma, o semiárido sofrerá ainda mais no futuro com o problema da escassez de água que enfrenta hoje, alertaram os pesquisadores.

“Se hoje já vemos que a situação é grave, os modelos de cenários futuros das mudanças climáticas no Brasil indicam que o problema será ainda pior. Por isso, todas as ações de adaptação e mitigação pensadas para ser desenvolvidas ao longo dos próximos anos, na verdade, têm de ser realizadas agora”, disse Marcos Airton de Sousa Freitas, especialista em recursos hídricos e técnico da Agência Nacional de Águas (ANA).

Segundo o pesquisador, o semiárido – que abrange Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Piauí e o norte de Minas Gerais – vive hoje o segundo ano do período de seca, iniciado em 2011, que pode se prolongar por um tempo indefinido.

Um estudo realizado pelo órgão, com base em dados de vazão de bacias hidrológicas da região, apontou que a duração média dos períodos de seca no semiárido é de 4,5 anos. Estados como o Ceará, no entanto, já enfrentaram secas com duração de quase nove anos, seguidos por longos períodos nos quais choveu abaixo da média estimada.

De acordo com Freitas, a capacidade média dos principais reservatórios da região – com volume acima de 10 milhões de metros cúbicos de água e capacidade de abastecer os principais municípios por até três anos – está atualmente na faixa de 40%. E a tendência até o fim deste ano é de esvaziarem cada vez mais.

“Caso não haja um aporte considerável de água nesses grandes reservatórios em 2013, poderemos ter uma transição do problema de seca que se observa hoje no semiárido, mais rural, para uma seca ‘urbana’ – que atingiria a população de cidades abastecidas por meio de adutoras desses sistemas de reservatórios”, alertou Freitas.

Ações de adaptação

Uma das ações de adaptação que começou a ser implementada no semiárido nos últimos anos e que, de acordo com os pesquisadores, contribuiu para diminuir sensivelmente a vulnerabilidade do acesso à água, principalmente da população rural difusa, foi o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC).

Lançado em 2003 pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) – rede formada por mais de mil organizações não governamentais (ONGs) que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência com a região semiárida –, o programa visa implementar um sistema nas comunidades rurais da região por meio do qual a água das chuvas é capturada por calhas, instaladas nos telhados das casas, e armazenada em cisternas cobertas e semienterradas. As cisternas são construídas com placas de cimento pré-moldadas, feitas pela própria comunidade, e têm capacidade de armazenar até 16 mil litros de água.

O programa tem contribuído para o aproveitamento da água da chuva em locais onde chove até 600 milímetros por ano – comparável ao volume das chuvas na Europa – que evaporam e são perdidos rapidamente sem um mecanismo que os represe, avaliaram os pesquisadores.

“Mesmo com a seca extrema na região nos últimos dois anos, observamos que a água para o consumo da população rural difusa tem sido garantida pelo programa, que já implantou cerca de 500 mil cisternas e é uma ação política de adaptação a eventos climáticos extremos. Com programas sociais, como o Bolsa Família, o programa Um Milhão de Cisternas tem contribuído para atenuar os impactos negativos causados pelas secas prolongadas na região”, afirmou Saulo Rodrigues Filho, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Como a água tende a ser um recurso natural cada vez mais raro no semiárido nos próximos anos, Rodrigues defendeu a necessidade de repensar os tipos de atividades econômicas mais indicadas para a região.

“Talvez a agricultura não seja a atividade mais sustentável para o semiárido e há evidências de que é preciso diversificar as atividades produtivas na região, não dependendo apenas da agricultura familiar, que já enfrenta problemas de perda de mão de obra, uma vez que o aumento dos níveis de educação leva os jovens da região a se deslocar do campo para a cidade”, disse Rodrigues.

“Por meio de políticas de geração de energia mais sustentáveis, como a solar e a eólica, e de fomento a atividades como o artesanato e o turismo, é possível contribuir para aumentar a resiliência dessas populações a secas e estiagens agudas”, afirmou.

Outras medidas necessárias, apontada por Freitas, são de realocação de água entre os setores econômicos que utilizam o recurso e seleção de culturas agrícolas mais resistentes à escassez de água enfrentada na região.

“Há culturas no semiárido, como capim para alimentação de gado, que dependem de irrigação por aspersão. Não faz sentido ter esse tipo de cultura que demanda muito água em uma região que sofrerá muito os impactos das mudanças climáticas”, afirmou Freitas.

Transposição do Rio São Francisco

O pesquisador também defendeu que o projeto de transposição do Rio São Francisco tornou-se muito mais necessário agora – tendo em vista que a escassez de água deverá ser um problema cada vez maior no semiárido nas próximas décadas – e é fundamental para complementar as ações desenvolvidas na região para atenuar o risco de desabastecimento de água.

Alvo de críticas e previsto para ser concluído em 2015, o projeto prevê que as águas do Rio São Francisco cheguem às bacias do Rio Jaguaribe, que abastece o Ceará, e do Rio Piranhas-Açu, que abastece o Rio Grande do Norte e a Paraíba.

De acordo com um estudo realizado pela ANA, com financiamento do Banco Mundial e participação de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, entre outras instituições, a disponibilidade hídrica dessas duas bacias deve diminuir sensivelmente nos próximos anos, contribuindo para agravar ainda mais a deficiência hídrica do semiárido.

“A transposição do Rio Francisco tornou-se muito mais necessária e deveria ser acelerada porque contribuiria para minimizar o problema do déficit de água no semiárido agora, que deve piorar com a previsão de diminuição da disponibilidade hídrica nas bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu”, disse Freitas à Agência FAPESP.

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do PBMC, no entanto, indica que a vazão do Rio São Francisco deve diminuir em até 30% até o fim do século, o que colocaria o projeto de transposição sob ameaça.

Freitas, contudo, ponderou que 70% do volume de água do Rio São Francisco vem de bacias da região Sudeste, para as quais os modelos climáticos preveem aumento da vazão nas próximas décadas. Além disso, de acordo com ele, o volume total previsto para ser transposto para as bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu corresponde a apenas 2% da vazão média da bacia do Rio São Francisco.

“É uma situação completamente diferente do caso do Sistema Cantareira, por exemplo, no qual praticamente 90% da água dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari são transpostas para abastecer a região metropolitana de São Paulo”, comparou.

“Pode-se argumentar sobre a questão de custos da transposição do Rio São Francisco. Mas, em termos de necessidade de uso da água, o projeto reforçará a operação dos sistemas de reservatórios existentes no semiárido”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a água é distribuída de forma desigual no território brasileiro. Enquanto 48% do total do volume de chuvas que cai na Amazônia é escoado pela Bacia Amazônica, segundo Freitas, no semiárido apenas em média 7% do volume de água precipitada na região durante três a quatro meses chegam às bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu. Além disso, grande parte desse volume de água é perdido pela evaporação. “Por isso, temos necessidade de armazenar essa água restante para os meses nos quais não haverá disponibilidade”, explicou.

As apresentações feitas pelos pesquisadores na conferência, que termina no dia 13, estarão disponíveis em: www.fapesp.br/conclima

 

Mudanças no clima do Brasil até 2100

10/09/2013

Por Elton Alisson*

Mais calor, menos chuva no Norte e Nordeste do país e mais chuva no Sul e Sudeste são algumas das projeções do Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (foto: Eduardo Cesar/FAPESP)

Agência FAPESP – O clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente – com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1 ºC e 6 ºC até 2100, em comparação à registrada no fim do século 20.

No mesmo período, também deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.

As conclusões são do primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), cujo sumário executivo foi divulgado nesta segunda-feira (09/08), durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima). Organizado pela FAPESP e promovido com a Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), oevento ocorre até a próxima sexta-feira (13/09), no Espaço Apas, em São Paulo.

De acordo com o relatório, tendo em vista que as mudanças climáticas e os impactos sobre as populações e os setores econômicos nos próximos anos não serão idênticos em todo o país, o Brasil precisa levar em conta as diferenças regionais no desenvolvimento de ações de adaptação e mitigação e de políticas agrícolas, de geração de energia e de abastecimento hídrico para essas diferentes regiões.

Dividido em três partes, o Relatório 1 – em fase final de elaboração – apresenta projeções regionalizadas das mudanças climáticas que deverão ocorrer nos seis diferentes biomas do Brasil até 2100, e indica quais são seus impactos estimados e as possíveis formas de mitigá-los.

As projeções foram feitas com base em revisões de estudos realizados entre 2007 e início de 2013 por 345 pesquisadores de diversas áreas, integrantes do PBMC, e em resultados científicos de modelagem climática global e regional.

“O Relatório está sendo preparado nos mesmos moldes dos relatórios publicados pelo Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas [IPCC, na sigla em inglês], que não realiza pesquisa, mas avalia os estudos já publicados”, disse José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do encontro.

“Depois de muito trabalho e interação, chegamos aos resultados principais dos três grupos de trabalho [Bases científicas das mudanças climáticas; Impactos, vulnerabilidades e adaptação; e Mitigação das mudanças climáticas]”, ressaltou.

Principais conclusões

Uma das conclusões do relatório é de que os eventos extremos de secas e estiagens prolongadas, principalmente nos biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga, devem aumentar e essas mudanças devem se acentuar a partir da metade e no fim do século 21.

A temperatura na Amazônia deverá aumentar progressivamente de 1 ºC a 1,5 ºC até 2040 – com diminuição de 25% a 30% no volume de chuvas –, entre 3 ºC e 3,5 ºC no período de 2041 a 2070 – com redução de 40% a 45% na ocorrência de chuvas –, e entre 5 ºC a 6 ºC entre 2071 a 2100.

Enquanto as modificações do clima associadas às mudanças globais podem comprometer o bioma em longo prazo, a questão atual do desmatamento decorrente das intensas atividades de uso da terra representa uma ameaça mais imediata para a Amazônia, ponderam os autores do relatório.

Os pesquisadores ressaltam que estudos observacionais e de modelagem numérica sugerem que, caso o desmatamento alcance 40% na região no futuro, haverá uma mudança drástica no padrão do ciclo hidrológico, com redução de 40% na chuva durante os meses de julho a novembro – o que prolongaria a duração da estação seca e provocaria o aquecimento superficial do bioma em até 4 ºC.

Dessa forma, as mudanças regionais decorrentes do efeito do desmatamento se somariam às provenientes das mudanças globais e constituíram condições propícias para a savanização da Amazônia – problema que tende a ser mais crítico na região oriental, ressaltam os pesquisadores.

“As projeções permitirão analisar melhor esse problema de savanização da Amazônia, que, na verdade, percebemos que poderá ocorrer em determinados pontos da floresta, e não no bioma como um todo, conforme previam alguns estudos”, destacou Tércio Ambrizzi, um dos autores coordenadores do sumário executivo do grupo de trabalho sobre a base científica das mudanças climáticas.

A temperatura da Caatinga também deverá aumentar entre 0,5 ºC e 1 ºC e as chuvas no bioma diminuirão entre 10% e 20% até 2040. Entre 2041 e 2070 o clima da região deverá ficar de 1,5 ºC a 2,5 ºC mais quente e o padrão de chuva diminuir entre 25% e 35%. Até o final do século, a temperatura do bioma deverá aumentar progressivamente entre 3,5 ºC e 4,5 ºC  e a ocorrência de chuva diminuir entre 40% e 50%. Tais mudanças podem desencadear o processo de desertificação do bioma.

Por sua vez, a temperatura no Cerrado deverá aumentar entre 5 ºC e 5,5 ºC e as chuvas diminuirão entre 35% e 45% no bioma até 2100. No Pantanal, o aquecimento da temperatura deverá ser de 3,5ºC a 4,5ºC até o final do século, com diminuição acentuada dos padrões de chuva no bioma – com queda de 35% a 45%.

Já no caso da Mata Atlântica, como o bioma abrange áreas desde a região Sul do país, passando pelo Sudeste e chegando até o Nordeste, as projeções apontam dois regimes distintos de mudanças climáticas.

Na porção Nordeste deve ocorrer um aumento relativamente baixo na temperatura – entre 0,5 ºC e 1 ºC – e decréscimo nos níveis de precipitação (chuva) em torno de 10% até 2040. Entre 2041 e 2070, o aquecimento do clima da região deverá ser de 2 ºC a 3 ºC, com diminuição pluviométrica entre 20% e 25%. Já para o final do século – entre 2071 e 2100 –, estimam-se condições de aquecimento intenso – com aumento de 3 ºC a 4 ºC na temperatura – e diminuição de 30% a 35% na ocorrência de chuvas.

Nas porções Sul e Sudeste as projeções indicam aumento relativamente baixo de temperatura entre 0,5 ºC e 1 ºC até 2040, com aumento de 5% a 10% no número de chuva. Entre 2041 e 2070 deverão ser mantidas as tendências de aumento gradual de 1,5 ºC a 2 ºC na temperatura e de 15% a 20% de chuvas.

Tais tendências devem se acentuar ainda mais no final do século, quando o clima deverá ficar entre 2,5 ºC e 3 ºC mais quente e entre 25% e 30% mais chuvoso.

Por fim, para o Pampa, as projeções indicam que até 2040 o clima da região será entre 5% e 10% mais chuvoso e até 1 ºC mais quente. Já entre 2041 e 2070, a temperatura do bioma deverá aumentar entre 1 ºC e 1,5 ºC  e haverá uma intensificação das chuvas entre 15% e 20%. As projeções para o clima da região no período entre 2071 e 2100 são mais agravantes, com aumento de temperatura de 2,5 ºC a 3 ºC e ocorrência de chuvas entre 35% e 40% acima do normal.

“O que se observa, de forma geral, é que nas regiões Norte e Nordeste do Brasil a tendência é de um aumento de temperatura e de diminuição das chuvas ao longo do século”, resumiu Ambrizzi.

“Já nas regiões mais ao Sul essa tendência se inverte: há uma tendência tanto de aumento da temperatura – ainda que não intenso – e de precipitação”, comparou.

Impactos e adaptação

As mudanças nos padrões de precipitação nas diferentes regiões do país, causadas pelas mudanças climáticas, deverão ter impactos diretos na agricultura, na geração e distribuição de energia e nos recursos hídricos das regiões, uma vez que a água deve se tornar mais rara nas regiões Norte e Nordeste e mais abundante no Sul e Sudeste, alertam os pesquisadores.

Por isso, será preciso desenvolver ações de adaptação e mitigação específicas e rever decisões de investimento, como a construção de hidrelétricas nas regiões leste da Amazônia, onde os rios poderão ter redução da vazão da ordem de até 20%, ressalvaram os pesquisadores.

“Essas variações de impactos mostram que qualquer tipo de estratégia planejada para geração de energia no leste da Amazônia está ameaçada, porque há uma série de fragilidades”, disse Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“Dará para contar com água. Mas até quando e onde encontrar água nessas regiões são incógnitas”, disse o pesquisador, que é um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 2 do relatório, sobre Impactos, vulnerabilidades e adaptação.

De acordo com Assad, é muito caro realizar ações de adaptação às mudanças climáticas no Brasil em razão das fragilidades que o país apresenta tanto em termos naturais – com grandes variações de paisagens – como socioeconômicas.

“A maior parte da população brasileira – principalmente a que habita as regiões costeiras do país – está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. Resolver isso não será algo muito fácil”, estimou.

Entre os setores econômicos do país, segundo Assad, a agricultura é um dos poucos que vêm se adiantando para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.

“Já estamos trabalhando com condições de adaptação há mais de oito anos. É possível desenvolver cultivares tolerantes a temperaturas elevadas ou à deficiência hídrica [dos solos], disse Assad.

O pesquisador também ressaltou que os grupos populacionais com piores condições de renda, educação e moradia sofrerão mais intensamente os impactos das mudanças climáticas no país. “Teremos que tomar decisões rápidas para evitar que tragédias aconteçam.”

Mitigação

Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB), e uma das coordenadoras do Grupo de Trabalho 3, sobre Mitigação das Mudanças Climáticas, apresentou uma síntese de estudos e pesquisas sobre o tema, identificando lacunas do conhecimento e direcionamentos futuros em um cenário de aquecimento global.

Bustamante apontou que a redução das taxas de desmatamento entre 2005 e 2010 – de 2,03 bilhões de toneladas de CO2 equivalente para 1,25 bilhão de toneladas – já teve efeitos positivos na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) decorrentes do uso da terra.

“As emissões decorrentes da geração de energia e da agricultura, no entanto, aumentaram em termos absolutos e relativos, indicando mudanças no perfil das emissões brasileiras”, disse.

Mantidas as políticas atuais, a previsão é de que as emissões decorrentes dos setores de energia e de transportes aumentem 97% até 2030. Será preciso mais eficiência energética, mais inovação tecnológica e políticas de incentivo ao uso de energia renovável para reverter esse quadro.

Na área de transporte, as recomendações vão desde a transformação de um modal – fortemente baseado no transporte rodoviário – e o uso de combustíveis tecnológicos. “É preciso transferir do individual para o coletivo, investindo, por exemplo, em sistemas aquaviários e em veículos elétricos e híbridos”, ressaltou Bustamante.

O novo perfil das emissões de GEE revela uma participação crescente do metano – de origem animal – e do óxido nitroso – relacionado ao uso de fertilizantes. “Apesar desses resultados, a agricultura avançou no desenvolvimento de estratégias de mitigação e adaptação”, ponderou.

Para a indústria, responsável por 4% das emissões de GEE, a lista de recomendações para a mitigação passa pela reciclagem, pela utilização de biomassa renovável, pela cogeração de energia, entre outros.

As estratégias de mitigação das mudanças climáticas exigem, ainda, uma revisão do planejamento urbano de forma a garantir a sustentabilidade também das edificações de forma a controlar, por exemplo, o consumo da madeira e garantir maior eficiência energética na construção civil.

Informação para a sociedade

Os pesquisadores participantes da redação do relatório destacaram que, entre as virtudes do documento, está a de reunir dados de estudos científicos realizados ao longo dos últimos anos no Brasil que estavam dispersos e disponibilizar à sociedade e aos tomadores de decisão informações técnico-científicas críveis capazes de auxiliar no desenvolvimento de estratégias de adaptação e mitigação para os possíveis impactos das mudanças climáticas.

“Nós, cientistas, temos o desafio de conseguir traduzir a seriedade e a gravidade do momento e as oportunidades que as mudanças climáticas globais encerram para a sociedade. Sabemos que a inação representa a ação menos inteligente que a sociedade pode tomar”, disse Paulo Nobre, coordenador da Rede Clima.

Por sua vez, Celso Lafer, presidente da FAPESP, destacou, na abertura do evento, que a Fundação tem interesse especial nas pesquisas sobre mudanças climáticas, expresso no Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), mantido pela instituição.

“Uma das preocupações básicas da FAPESP é pesquisar e averiguar o impacto das mudanças climáticas globais naquilo que afeta as especificidades do Brasil e do Estado de São Paulo”, afirmou.

Também participaram da abertura do evento Bruno Covas, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e Paulo Artaxo, membro da coordenação do PFPMCG.

Carlos Nobre ressaltou que o relatório será a principal fonte de informações que orientará o Plano Nacional de Mudanças Climáticas que, no momento, está em revisão.

“É muito importante que os resultados desse estudo orientem os trabalhos em Brasília e em várias partes do Brasil, em um momento crítico de reorientar a política nacional, que tem de ir na direção de tornar a economia, a sociedade e o ambiente mais resilientes às inevitáveis mudanças climáticas que estão por vir”, afirmou.

Segundo ele, o Brasil já sinalizou compromisso com a mitigação, materializado na Política Nacional de Mudanças Climáticas e que prevê redução de 10% e 15% das emissões entre 2010 e 2020, respectivamente, relativamente a 2005.

“São Paulo lançou, em 2009, um programa ambicioso, de redução de 20% das emissões, já que a questão da mudança no uso da terra não é uma questão tão importante no Estado, mas sim o avanço tecnológico na geração de energia e em processos produtivos. O Brasil é o único país em desenvolvimento com metas voluntárias para redução de emissões”.

Ele ressaltou, entretanto, que “a adaptação ficou desassistida”. “Não é só mitigar; é preciso também se adaptar às mudanças climáticas. As três redes de pesquisa – Clima, INCT e FAPESP – avançam na adaptação, que é o guia para o desenvolvimento sustentável.”

* Colaboraram Claudia Izique e Noêmia Lopes

 

Modelo para entender as variações climáticas no país

10/09/2013

Por Noêmia Lopes

Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre é considerado fundamental para pesquisas sobre o clima(foto:Nasa)

Agência FAPESP – O desmatamento da Amazônia, as queimadas, os processos de interação entre o Oceano Atlântico e a atmosfera são algumas das questões climáticas particulares do Brasil que o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM, na sigla em inglês) leva em consideração e pretende dar conta de uma forma que mesmo os melhores modelos do mundo não são capazes de fazer.

O modelo foi apresentado em detalhes na segunda-feira (09/09) na abertura da 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais, realizada em São Paulo.

Determinar o quanto o clima já mudou, o quanto as suas características ainda vão se alterar e onde isso ocorrerá é a base para o planejamento de políticas públicas de adaptação aos impactos das mudanças climáticas globais, segundo Paulo Nobre, coordenador geral do BESM e da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), na abertura do evento.

“O BESM é um eixo estruturante da pesquisa em mudanças climáticas no Brasil e oferece subsídios para o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), para a Rede Clima e para o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC)”, disse Nobre.

Com o intuito de colaborar com as previsões sobre as consequências do aquecimento global e o consequente aumento na frequência dos eventos extremos, o BESM roda no supercomputador Tupã da Rede Clima/PFPMCG, reunindo fluxos atmosféricos, oceânicos, de superfície e, em breve, químicos. Adquirido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com apoio da FAPESP, o Tupã está instalado na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de Cachoeira Paulista

Embora ainda não esteja em sua versão final e completa, o modelo já consegue, por exemplo, reconstituir a ocorrência dos últimos El Niños e estimar o retorno desse fenômeno, explicar as chuvas na Zona de Convergência do Atlântico Sul e até estimar a variação do gelo no globo de maneira satisfatória.

“Os cenários mais atuais, de 2013, estão disponíveis no supercomputador. Estamos tomando medidas para que o acesso seja disponibilizado ao público em geral até o final do ano”, afirmou Nobre.

Trinta pesquisadores estão diretamente envolvidos no desenvolvimento do BESM e outros 40 estão ligados indiretamente. De acordo com Nobre, esse número deve duplicar em cinco anos e duplicar novamente em 10 anos. “Para tanto, é preciso que cada vez mais jovens doutores integrem esse desafio.”

Nobre ressaltou ainda as graves consequências que o aumento da frequência dos eventos extremos – tais como secas, enchentes e tornados – tem sobre a vida das populações: “Nossas cidades e nossos campos não foram projetados para conviver com esse novo clima, o que torna essencial a entrada do Brasil na modelagem das mudanças climáticas”, disse.

Os quatro componentes

Iracema Cavalcanti, pesquisadora do Inpe, apresentou, durante o primeiro dia da conferência, os resultados já obtidos a partir do componente atmosférico do BESM.

Em comparação com os dados observados, o modelo consegue alcançar boas simulações de variabilidade sazonal (modificações climatológicas das estações), fluxos de umidade, variabilidade interanual (diferença entre anomalias de pressão), variabilidade da precipitação, entre outros. “Ainda há deficiências, como na maioria dos modelos globais. Mas as características gerais estão contempladas”, disse Cavalcanti.

Em relação aos oceanos, não é possível separá-los do que ocorre no modelo atmosférico, daí a modelagem acoplada ser estratégica para o funcionamento eficiente do BESM. A avaliação é de Leo Siqueira, também do Inpe, que apresentou os desafios desse componente.

“Já conseguimos boas representações, mas queremos melhorar as simulações de temperatura dos oceanos, principalmente nos trópicos, e do gelo marinho. Também queremos criar uma discussão saudável sobre qual modelo de gelo terrestre será adotado dentro do BESM”, disse Siqueira.

A modelagem do terceiro componente, superfície, foi apresentada por Marcos Heil Costa, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). “A principal função de um modelo que integra processos superficiais é fornecer fluxos de energia e vapor d’água entre a vegetação e a atmosfera. Isso é o básico. Mas o aprimoramento do sistema, ocorrido ao longo dos últimos anos, permitiu que outros processos fossem incorporados”, afirmou.

Alguns desses processos são: fluxos de radiação, energia e massa; ciclos do carbono e do nitrogênio terrestres; recuperação de áreas abandonadas; incêndios na vegetação natural; culturas agrícolas; vazão e áreas inundadas sazonais; uso do solo por ações humanas (desmatamento); representação específica dos ecossistemas; fertilidade do solo; entre outros.

Química é o quarto e mais recente dos componentes. “Sem um modelo químico, os demais precisam ser constantemente ajustados”, disse Sérgio Correa, pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Correa está à frente de estudos sobre química atmosférica que permitirão refinar os dados do BESM quando esse componente for acoplado ao modelo – uma das próximas fases previstas.

Colaborações com pesquisadores de instituições estrangeiras e treinamentos são outras estratégias que estão em vigor para melhorar as representações do Brasil e da América do Sul, com alcance também global.

Mais informações sobre a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais: www.fapesp.br/conclima

The Myth of ‘Environmental Catastrophism’ (Monthly Review)

Between October 2010 and April 2012, over 250,000 people, including 133,000 children under five, died of hunger caused by drought in Somalia. Millions more survived only because they received food aid. Scientists at the UK Met Centre have shown that human-induced climate change made this catastrophe much worse than it would otherwise have been.1

This is only the beginning: the United Nations’ 2013 Human Development Report says that without coordinated global action to avert environmental disasters, especially global warming, the number of people living in extreme poverty could increase by up to 3 billion by 2050.2 Untold numbers of children will die, killed by climate change.

If a runaway train is bearing down on children, simple human solidarity dictates that anyone who sees it should shout a warning, that anyone who can should try to stop it. It is difficult to imagine how anyone could disagree with that elementary moral imperative.

And yet some do. Increasingly, activists who warn that the world faces unprecedented environmental danger are accused of catastrophism—of raising alarms that do more harm than good. That accusation, a standard feature of right-wing attacks on the environmental movement, has recently been advanced by some left-wing critics as well. While they are undoubtedly sincere, their critique of so-called environmental catastrophism does not stand up to scrutiny.

From the Right…

The word “catastrophism” originated in nineteenth-century geology, in the debate between those who believed all geological change had been gradual and those who believed there had been episodes of rapid change. Today, the word is most often used by right-wing climate change deniers for whom it is a synonym for “alarmism.”

  • The Heartland Institute: “Climate Catastrophism Picking Up Again in the U.S. and Across the World.”3
  • A right-wing German blog: “The Climate Catastrophism Cult.”4
  • The Australian journal Quadrant: “The Chilling Costs of Climate Catastrophism.”5

Examples could be multiplied. As environmental historian Franz Mauelshagen writes, “In climate denialist circles, the word ‘climate catastrophe’ has become synonymous with ‘climate lie,’ taking the anthropogenic green house effect for a scam.”6

Those who hold such views like to call themselves “climate change skeptics,” but a more accurate term is “climate science deniers.” While there are uncertainties about the speed of change and its exact effects, there is no question that global warming is driven by greenhouse-gas emissions caused by human activity, and that if business as usual continues, temperatures will reach levels higher than any seen since before human beings evolved. Those who disagree are not skeptical, they are denying the best scientific evidence and analysis available.

The right labels the scientific consensus “catastrophism” to belittle environmentalism, and to stifle consideration of measures to delay or prevent the crisis. The real problem, they imply, is not the onrushing train, but the people who are yelling “get off the track!” Leaving the track would disrupt business as usual, and that is to be avoided at all costs.

…And From the Left

Until very recently, “catastrophism” as a political expression was pretty much the exclusive property of conservatives. When it did occur in left-wing writing, it referred to economic debates, not ecology. But in 2007 two quite different left-wing voices almost simultaneously adopted “catastrophism” as a pejorative term for radical ideas about climate change they disagreed with.

The most prominent was the late Alexander Cockburn, who in 2007 was writing regularly forThe Nation and coediting the newsletter CounterPunch. To the shock of many of his admirers, he declared that “There is still zero empirical evidence that anthropogenic production of CO2 is making any measurable contribution to the world’s present warming trend,” and that “the human carbon footprint is of zero consequence.”7 Concern about climate change was, he wrote, the result of a conspiracy “between the Greenhouser fearmongers and the nuclear industry, now largely owned by oil companies.”8

Like critics on the right, Cockburn charged that the left was using climate change to sneak through reforms it could not otherwise win: “The left has bought into environmental catastrophism because it thinks that if it can persuade the world that there is indeed a catastrophe, then somehow the emergency response will lead to positive developments in terms of social and environmental justice.”9

While Cockburn’s assault on “environmental catastrophism” was shocking, his arguments did not add anything new to the climate debate. They were the same criticisms we had long heard from right-wing deniers, albeit with leftish vocabulary.

That was not the case with Leo Panitch and Colin Leys. These distinguished Marxist scholars are by no means deniers. They began their preface to the 2007 Socialist Register by noting that “environmental problems might be so severe as to potentially threaten the continuation of anything that might be considered tolerable human life,” and insisting that “the speed of development of globalized capitalism, epitomized by the dramatic acceleration of climate change, makes it imperative for socialists to deal seriously with these issues now.”

But then they wrote: “Nonetheless, it is important to try to avoid an anxiety-driven ecological catastrophism, parallel to the kind of crisis-driven economic catastrophism that announces the inevitable demise of capitalism.”10 They went on to argue that capitalism’s “dynamism and innovativeness” might enable it to use “green commerce” to escape environmental traps.

The problem with the Panitch–Leys formulation is that the threat of ecological catastrophe isnot “parallel” to the view that capitalism will destroy itself. The desire to avoid the kind of mechanical determinism that has often characterized Marxist politics, where every crisis was proclaimed to be the final battle, led these thoughtful writers to confuse two very different kinds of catastrophe.

The idea that capitalism will inevitably face an insurmountable economic crisis and collapse is based on a misunderstanding of Marxist economic theory. While economic crises are endemic to capitalism, the system can always continue—only class struggle, only a social revolution, can overthrow capitalism and end the crisis cycle.

Large-scale environmental damage is caused by our destructive economic system, but its effectis the potentially irreversible disruption of essential natural systems. The most dramatic example is global warming: recent research shows that the earth is now warmer than at any time in the past 6,000 years, and temperatures are rising much faster than at any time since the last Ice Age. Arctic ice and the Greenland ice sheet are disappearing faster than predicted, raising the specter of flooding in coastal areas where more than a billion people live. Extreme weather events, such as giant storms, heat waves, and droughts are becoming ever more frequent. So many species are going extinct that many scientists call it a mass extinction event, comparable to the time 66 million years ago when 75 percent of all species, including the dinosaurs, were wiped out.

As the editors of Monthly Review wrote in reply to Socialist Register, if these trends continue, “we will be faced with a different world—one in which life on the planet will be massively degraded on a scale not seen for tens of millions of years.”11 To call this “anxiety-driven ecological catastrophism, parallel to…economic catastrophism” is to equate an abstract error in economic theory with some of the strongest conclusions of modern science.

A New ‘Catastrophism’ Critique

Now a new essay, provocatively titled “The Politics of Failure Have Failed,” offers a different and more sweeping left-wing critique of “environmental catastrophism.” Author Eddie Yuen is associated with the Pacifica radio program Against the Grain, and is on the editorial board of the journal Capitalism Nature Socialism.

His paper is part of a broader effort to define and critique a body of political thought calledCatastrophism, in a book by that title.12 In the book’s introduction, Sasha Lilley offers this definition:

Catastrophism presumes that society is headed for a collapse, whether economic, ecological, social, or spiritual. This collapse is frequently, but not always, regarded as a great cleansing, out of which a new society will be born. Catastrophists tend to believe that an ever-intensified rhetoric of disaster will awaken the masses from their long slumber—if the mechanical failure of the system does not make such struggles superfluous. On the left, catastrophism veers between the expectation that the worse things become, the better they will be for radical fortunes, and the prediction that capitalism will collapse under its own weight. For parts of the right, worsening conditions are welcomed, with the hope they will trigger divine intervention or allow the settling of scores for any modicum of social advance over the last century.

A political category that includes both the right and the left—and that encompasses people whose concerns might be economic, ecological, social, or spiritual—is, to say the least, unreasonably broad. It is difficult to see any analytical value in a definition that lumps together anarchists, fascists, Christian fundamentalists, right-wing conspiracy nuts, pre–1914 socialists, peak-oil theorists, obscure Trotskyist groups, and even Mao Zedong.

The definition of catastrophism becomes even more problematic in Yuen’s essay.

One Of These Things Is Not Like The Others…

Years ago, the children’s television program Sesame Street would display four items—three circles and a square, three horses and a chair, and so on—while someone sang, “One of these things is not like the others, One of these things doesn’t belong.

I thought of that when I read Yuen’s essay.

While the book’s scope is broad, most of it focuses, as Yuen writes, on “instrumental, spurious, and sometimes maniacal versions of catastrophism—including rightwing racial paranoia, religious millenarianism, liberal panics over fascism, leftist fetishization of capitalist collapse, capitalist invocation of the ‘shock doctrine’ and pop culture cliché.”

But as Yuen admits in his first paragraph, environmentalism is a very different matter, because we are in “what is unquestionably a genuine catastrophic moment in human and planetary history…. Of all of the forms of catastrophic discourse on offer, the collapse of ecological systems is unique in that it is definitively verified by a consensus within the scientific community…. It is absolutely urgent to address this by effectively and rapidly changing the direction of human society.”

If the science is clear, if widespread ecological collapse unquestionably faces us unless action is taken, why is this topic included in a book devoted to criticizing false ideas? Does it make sense to use the same term for people who believe in an imaginary train crash and for people who are trying to stop a real crash from happening?

The answer, although he does not say so, is that Yuen is using a different definition than the one Lilley gave in her introduction. Her version used the word for the belief that some form of catastrophe will have positive results—that capitalism will collapse from internal contradictions, that God will punish all sinners, that peak oil or industrial collapse will save the planet. Yuen uses the same word for the idea that environmentalists should alert people to the threat of catastrophic environmental change and try to mobilize them to prevent or minimize it.

Thus, when he refers to “a shrill note of catastrophism” in the work of James Hansen, perhaps the world’s leading climate scientist, he is not challenging the accuracy of Hansen’s analysis, but only the “narrative strategy” of clearly stating the probable results of continuing business as usual.

Yuen insists that “the veracity of apocalyptic claims about ecological collapse are separate from their effects on social, political, and economic life.” Although “the best evidence points to cascading environmental disaster,” in his view it is self-defeating to tell people that. He makes two arguments, which we can label “practical” and “principled.”

His practical argument is that by talking about “apocalyptic scenarios” environmentalists have made people more apathetic, less likely to fight for progressive change. His principledargument is that exposing and campaigning to stop tendencies towards environmental collapse has “damaging and rightward-leaning effects”—it undermines the left, promotes reactionary policies and strengthens the ruling class.

In my opinion, he is wrong on both counts.

The Truth Shall Make You Apathetic?

In Yuen’s view, the most important question facing people who are concerned about environmental destruction is: “what narrative strategies are most likely to generate effective and radical social movements?”

He is vague about what “narrative strategies” might work, but he is very firm about what does not. He argues that environmentalists have focused on explaining the environmental crisis and warning of its consequences in the belief that this will lead people to rise up and demand change, but this is a fallacy. In reality, “once convinced of apocalyptic scenarios, many Americans become more apathetic.”

Given such a sweeping assertion, it is surprising to find that the only evidence Yuen offers is a news release describing one academic paper, based on a U.S. telephone survey conducted in 2008, that purported to show that “more informed respondents both feel less personally responsible for global warming, and also show less concern for global warming.”13

Note first that being “more informed” is not the same as being “convinced of apocalyptic scenarios” or being bombarded with “increasingly urgent appeals about fixed ecological tipping points.” On the face of it, this study does not appear to contribute to our understanding of the effects of “catastrophism.”

What’s more, reading the original paper reveals that the people described as “more informed” were self-reporting. If they said they were informed, that was accepted, and no one asked if they were listening to climate scientists or to conservative talk radio. That makes the paper’s conclusion meaningless.

Later in his essay, Yuen correctly criticizes some environmentalists and scientists who “speak of ‘everyone’ as a unified subject.” But here he accepts as credible a study that purports to show how all Americans respond to information about climate change, regardless of class, gender, race, or political leanings.

The problem with such undifferentiated claims is shown in a 2011 study that examined the impact of Americans’ political opinions on their feelings about climate change. It found that liberals and Democrats who report being well-informed are more worried about climate change, while conservatives and Republicans who report being well-informed are less worried.14 Obviously the two groups mean very different things by “well-informed.”

Even if we ignore that, the study Yuen cites is a one-time snapshot—it does not tells us what radicals really need to know, which is how things are changing. For that, a more useful survey is one that scientists at Yale University and George Mason University have conducted seven times since 2008 to show shifts in U.S. public opinion.15 Based on answers to questions about their opinions, respondents are categorized according to their attitude towards global warming. The surveys show:

  • The number of people identified as “Disengaged” or “Cautious”—those we might call apathetic or uncertain—has varied very little, accounting for between 31 percent and 35 percent of the respondents every time.
  • The categories “Dismissive” or “Doubtful”—those who lean towards denial—increased between 2008 and 2010. Since then, those groups have shrunk back almost to the 2008 level.
  • In parallel, the combined “Concerned” and “Alarmed” groups shrank between 2008 and 2010, but have since largely recovered. In September 2012—before Hurricane Sandy!—there were more than twice as many Americans in these two categories as in Dismissive/Doubtful.

Another study, published in the journal Climatic Change, used seventy-four independent surveys conducted between 2002 and 2011 to create a Climate Change Threat Index (CCTI)—a measure of public concern about climate change—and showed how it changed in response to public events. It found that public concern about climate change reached an all-time high in 2006–2007, when the Al Gore documentary An Inconvenient Truth was seen in theaters by millions of people and won an Academy Award.

The authors conclude: “Our results…show that advocacy efforts produce substantial changes in public perceptions related to climate change. Specifically, the film An Inconvenient Truth and the publicity surrounding its release produced a significant positive jump in the CCTI.”16

This directly contradicts Yuen’s view that more information about climate change causes Americans to become more apathetic. There is no evidence of a long-term increase in apathy or decrease in concern—and when scientific information about climate change reached millions of people, the result was not apathy but a substantial increase in support for action to reduce greenhouse gas emissions.

‘The Two Greatest Myths’

Yuen says environmentalists have deluged Americans with catastrophic warnings, and this strategy has produced apathy, not action. Writing of establishment politicians who make exactly the same claim, noted climate change analyst Joseph Romm says, “The two greatest myths about global warming communications are 1) constant repetition of doomsday messages has been a major, ongoing strategy and 2) that strategy doesn’t work and indeed is actually counterproductive!” Contrary to liberal mythology, the North American public has not been exposed to anything even resembling the first claim. Romm writes,

The broad American public is exposed to virtually no doomsday messages, let alone constant ones, on climate change in popular culture (TV and the movies and even online)…. The major energy companies bombard the airwaves with millions and millions of dollars of repetitious pro-fossil-fuel ads. The environmentalists spend far, far less money…. Environmentalists when they do appear in popular culture, especially TV, are routinely mocked…. It is total BS that somehow the American public has been scared and overwhelmed by repeated doomsday messaging into some sort of climate fatigue.17

The website Daily Climate, which tracks U.S. news stories about climate change, says coverage peaked in 2009, during the Copenhagen talks—but then it “fell off the map,” dropping 30 percent in 2010 and another 20 percent in 2011. In 2012, despite widespread droughts and Hurricane Sandy, news coverage fell another 2 percent. The decline in editorial interest was even more dramatic—in 2012 newspapers published fewer than half as many editorials about climate change as they did in 2009.18

It should be noted that these shifts occurred in the framework of very limited news coverage of climate issues. As a leading media analyst notes, “relative to other issues like health, medicine, business, crime and government, media attention to climate change remains a mere blip.”19 Similarly, a British study describes coverage of climate change in newspapers there as “lamentably thin”—a problem exacerbated by the fact that much of the coverage consists of “worryingly persistent climate denial stories.” The author concludes drily: “The limited coverage is unlikely to have convinced readers that climate change is a serious problem warranting immediate, decisive and potentially costly action.”20

Given Yuen’s concern that Americans do not recognize the seriousness of environmental crises, it is surprising how little he says about the massive fossil-fuel-funded disinformation campaigns that have confused and distorted media reporting. I can find just four sentences on the subject in his 9,000-word text, and not one that suggests denialist campaigns might have helped undermine efforts to build a climate change movement.

On the contrary, he downplays the influence of “the well-funded climate denial lobby,” by claiming that “far more corporate and elite energy has gone toward generating anxiety about global warming,” and that “mainstream climate science is much better funded.” He provides no evidence for either statement.

Of course, the fossil-fuel lobby is not the only force working to undermine public concern about climate change. It is also important to recognize the impact of Obama’s predictable unwillingness to confront the dominant forces in U.S. capitalism, and of the craven failure of mainstream environmentalist groups and NGOs to expose and challenge the Democrats’ anti-environmental policies.

With fossil-fuel denialists on one side, and Obama’s pale-green cheerleaders on the other, activists who want to get out the truth have barely been heard. In that context, it makes little sense to blame environmentalists for sabotaging environmentalism.

The Truth Will Help the Right?

Halfway through his essay, Yuen abruptly changes direction, leaving the practical argument behind and raising his principled concern. He now argues that what he calls catastrophism leads people to support reactionary policies and promotes “the most authoritarian solutions at the state level.” Focusing attention on what he agrees is a “cascading environmental disaster” is dangerous because it “disables the left but benefits the right and capital.” He says, “Increased awareness of environmental crisis will not likely translate into a more ecological lifestyle, let alone an activist orientation against the root causes of environmental degradation. In fact, right-wing and nationalist environmental politics have much more to gain from an embrace of catastrophism.”

Yuen says that many environmentalists, including scientists, “reflexively overlook class divisions,” and so do not realize that “some business and political elites feel that they can avoid the worst consequences of the environmental crisis, and may even be able to benefit from it.” Yuen apparently thinks those elites are right—while the insurance industry is understandably worried about big claims, he says, “the opportunities for other sectors of capitalism are colossal in scope.”

He devotes much of the rest of his essay to describing the efforts of pro-capitalist forces, conservative and liberal, to use concern about potential environmental disasters to promote their own interests, ranging from emissions trading schemes to military expansion to Malthusian attacks on the world’s poorest people. “The solution offered by global elites to the catastrophe is a further program of austerity, belt-tightening, and sacrifice, the brunt of which will be borne by the world’s poor.”

Some of this is overstated. His claim that “Malthusianism is at the core of most environmental discourse,” reflects either a very limited view of environmentalism or an excessively broad definition of Malthusianism. And he seems to endorse David Noble’s bizarre theory that public concern about global warming has been engineered by a corporate conspiracy to promote carbon trading schemes.21 Nevertheless he is correct that the ruling class will do its best to profit from concern about climate change, while simultaneously offloading the costs onto the world’s poorest people.

The question is, who is he arguing with? This book says it aims to “spur debate among radicals,” but none of this is new or controversial for radicals. The insight that the interests of the ruling class are usually opposed to the interests of the rest of us has been central to left-wing thought since before Marx was born. Capitalists always try to turn crises to their advantage no matter who gets hurt, and they always try to offload the costs of their crises onto the poor and oppressed.

What needs to be proved is not that pro-capitalist forces are trying to steer the environmental movement into profitable channels, and not that many sincere environmentalists have backward ideas about the social and economic causes of ecological crises. Radicals who are active in green movements know those things perfectly well. What needs to be proved is Yuen’s view that warning about environmental disasters and campaigning to prevent them has “damaging and rightward-leaning effects” that are so severe that radicals cannot overcome them.

But no proof is offered.

What is particularly disturbing about his argument is that he devotes pages to describing the efforts of reactionaries to misdirect concern about climate change—and none to the efforts of radical environmentalists to counter those forces. Earlier in his essay, he mentioned that “environmental and climate justice perspectives are steadily gaining traction in internal environmental debates,” but those thirteen words are all he has to say on the subject.

He says nothing about the historic 2010 Cochabamba Conference, where 30,000 environmental activists from 140 countries warned that if greenhouse gas emissions are not stopped, “the damages caused to our Mother Earth will be completely irreversible”—a statement Yuen would doubtless label “catastrophist.” Far from succumbing to apathy or reactionary policies, the participants explicitly rejected market solutions, identified capitalism as the cause of the crisis, and outlined a radical program to transform the global economy.

He is equally silent about the campaign against the fraudulent “green economy” plan adopted at last year’s Rio+20 conference. One of the principal organizers of that opposition is La Via Campesina, the world’s largest organization of peasants and farmers, which warns that the world’s governments are “propagating the same capitalist model that caused climate chaos and other deep social and environmental crises.”

His essay contains not a word about Idle No More, or Occupy, or the Indigenous-led fight against Canada’s tar sands, or the anti-fracking and anti-coal movements. By omitting them, Yuen leaves the false impression that the climate movement is helpless to resist reactionary forces.

Contrary to Yuen’s title, the effort to build a movement to save the planet has not failed. Indeed, Catastrophism was published just four months before the largest U.S. climate change demonstration ever!

The question before radicals is not what “narrative strategy” to adopt, but rather, how will we relate to the growing environmental movement? How will we support its goals while strengthening the forces that see the need for more radical solutions?

What Must Be Done?

Yuen opposes attempts to build a movement around rallies, marches, and other mass protests to get out the truth and to demand action against environmental destruction. He says that strategy worked in the 1960s, when Americans were well-off and naïve, but cannot be replicated in today’s “culture of atomized cynicism.”

Like many who know that decade only from history books or as distant memories, Yuen foreshortens the experience: he knows about the mass protests and dissent late in the decade, but ignores the many years of educational work and slow movement building in a deeply reactionary and racist time. It is not predetermined that the campaign against climate change will take as long as those struggles, or take similar forms, but the real experience of the 1960s should at least be a warning against premature declarations of failure.

Yuen is much less explicit about what he thinks would be an effective strategy, but he cites as positive examples the efforts of some to promote “a bottom-up and egalitarian transition” by:

ever-increasing numbers of people who are voluntarily engaging in intentional communities, sustainability projects, permaculture and urban farming, communing and mil­itant resistance to consumerism…we must consider the alterna­tive posed by the highly imaginative Italian left of the twentieth century. The explosively popular Slow Food movement was origi­nally built on the premise that a good life can be had not through compulsive excess but through greater conviviality and a shared commonwealth.

Compare that to this list of essential tasks, prepared recently by Pablo Solón, a leading figure in the global climate justice movement:

To reduce greenhouse gas emissions to a level that avoids catastrophe, we need to:

* Leave more than two-thirds of the fossil fuel reserves under the soil;

* Stop the exploitation of tar sands, shale gas and coal;

* Support small, local, peasant and indigenous community farming while we dismantle big agribusiness that deforests and heats the planet;

* Promote local production and consumption of products, reducing the free trade of goods that send millions of tons of CO2 while they travel around the world;

* Stop extractive industries from further destroying nature and contaminating our atmosphere and our land;

* Increase significantly public transport to reduce the unsustainable “car way of life”;

* Reduce the emissions of warfare by promoting genuine peace and dismantling the military and war industry and infrastructure.22

The projects that Yuen describes are worthwhile, but unless the participants are alsocommitted to building mass environmental campaigns, they will not be helping to achieve the vital objectives that Solón identifies. Posing local communes and slow food as alternatives to building a movement against global climate change is effectively a proposal to abandon the fight against capitalist ecocide in favor of creating greenish enclaves, while the world burns.

Bright-siding versus Movement Building

Whatever its merits in other contexts, it is not helpful or appropriate to use the wordcatastrophism as a synonym for telling the truth about the environmental dangers we face. Using the same language as right-wing climate science deniers gives the impression that the dangers are non-existent or exaggerated. Putting accurate environmental warnings in the same category as apocalyptic Christian fundamentalism and century-old misreadings of Marxist economic theory leads to underestimation of the threats we face and directs efforts away from mobilizing an effective counterforce.

Yuen’s argument against publicizing the scientific consensus on climate change echoes the myth that liberal politicians and journalists use to justify their failure to challenge the crimes of the fossil-fuel industry. People are tired of all that doom and gloom, they say. It is time for positivemessages! Or, to use Yuen’s vocabulary, environmentalists need to end “apocalyptic rhetoric” and find better “narrative strategies.”

This is fundamentally an elitist position: the people cannot handle the truth, so a knowledgeable minority must sugarcoat it, to make the necessary changes palatable.

David Spratt of the Australian organization Climate Code Red calls that approach “bright-siding,” a reference to the bitterly satirical Monty Python song, “Always Look on the Bright Side of Life.”

The problem is, Spratt writes: “If you avoid including an honest assessment of climate science and impacts in your narrative, it’s pretty difficult to give people a grasp about where the climate system is heading and what needs to be done to create the conditions for living in climate safety, rather than increasing and eventually catastrophic harm.”23 Joe Romm makes the same point: “You’d think it would be pretty obvious that the public is not going to be concerned about an issue unless one explains why they should be concerned.”24

Of course, this does not mean that we only need to explain the science. We need to propose concrete goals, as Pablo Solón has done. We need to show how the scientific consensus about climate change relates to local and national concerns such as pipelines, tar sands, fracking, and extreme weather. We need to work with everyone who is willing to confront any aspect of the crisis, from people who still have illusions about capitalism to convinced revolutionaries. Activists in the wealthy countries must be unstinting in their political and practical solidarity with the primary victims of climate change, indigenous peoples, and impoverished masses everywhere.

We need to do all of that and more.

But the first step is to tell the truth—about the danger we face, about its causes, and about the measures that must be taken to turn back the threat. In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act.

Notes

  1.  Fraser C. Lott, Nikolaos Christidis, and Peter A. Stott, “Can the 2011 East African Drought Be Attributed to Human-Induced Climate Change?,” Geophysical Research Letters 40, no. 6 ( March 2013): 1177–81.
  2.  UNDP, “’Rise of South’ Transforming Global Power Balance, Says 2013 Human Development Report,” March 14, 2013, http://undp.org.
  3.  Tom Harris, “Climate Catastrophism Picking Up Again in the U.S. and Across the World,”Somewhat Reasonable, October 10, 2012 http://blog.heartland.org.
  4.  Pierre Gosselin, “The Climate Catastrophism Cult,” NoTricksZone, February 12, 2011, http://notrickszone.com.
  5.  Ray Evans, “The Chilling Costs of Climate Catastrophism,” Quadrant Online, June 2008. http://quadrant.org.au.
  6.  Franz Mauelshagen, “Climate Catastrophism: The History of the Future of Climate Change,” in Andrea Janku, Gerrit Schenk, and Franz Mauelshagen, Historical Disasters in Context: Science, Religion, and Politics (New York: Routledge, 2012), 276.
  7.  Alexander Cockburn, “Is Global Warming a Sin?,” CounterPunch, April 28–30, 2007, http://counterpunch.org.
  8.  Alexander Cockburn, “Who are the Merchants of Fear?,” CounterPunch, May 12–14, 2007, http:// counterpunch.org.
  9.  Alexander Cockburn, “I Am An Intellectual Blasphemer,” Spiked Review of Books, January 9, 2008, http://spiked-online.com.
  10.  Leo Panitch and Colin Leys, “Preface,” Socialist Register 2007: Coming to Terms With Nature(London: Merlin Press/Monthly Review Press, 2006), ix–x.
  11. 11.“Notes from the Editors,” Monthly Review 58, no. 10 (March 2007), http://monthlyreview.org.
  12.  Sasha Lilley, David McNally, Eddie Yuen, and James Davis, Catastrophism: The Apocalyptic Politics of Collapse and Rebirth (Oakland: PM Press, 2012).
  13.  Yuen’s footnote cites an article which is identical to a news release issued the previous day by Texas A&M University; see “Increased Knowledge About Global Warming Leads to Apathy, Study Shows,” Science Daily, March 28, 2008, http://eurekalert.org. The original paper, which Yuen does not cite, is: P.M. Kellstedt, S. Zahran, and A. Vedlitz, “Personal Efficacy, the Information Environment, and Attitudes Towards Global Warming and Climate Change in the United State,”Risk Analysis 28, no. 1 (2008): 113–26.
  14.  Aaron M. McCright and Riley E. Dunlap, “The Politicization of Climate Change and Polarization in the American Public’s Views of Global Warming, 2001–2010,” The Sociological Quarterly 52 (2011): 155–94.
  15.  A. Leiserowitz, et. al., Global Warming’s Six Americas, September 2012 (New Haven, CT: Yale Project on Climate Change Communication, 2013), http://environment.yale.edu.
  16.  Robert J. Brulle, Jason Carmichael, and J. Craig Jenkins, “Shifting Public Opinion on Climate Change: An Empirical Assessment of Factors Influencing Concern Over Climate Change in the U.S., 2002–2010,” Climatic Change 114, no. 2 (September 2012): 169–88.
  17.  Joe Romm, “Apocalypse Not: The Oscars, The Media and the Myth of ‘Constant Repetition of Doomsday Messages’ on Climate,” Climate Progress, February 24, 2013, http://thinkprogress.org.
  18.  Douglas Fischer. “2010 in Review: The Year Climate Coverage ‘Fell off the Map,’” Daily Climate, January 3, 2011. http://dailyclimate.org; “Climate Coverage Down Again in 2011,” Daily Climate, January 3, 2012, http://dailyclimate.org; “Climate Coverage, Dominated by Weird Weather, Falls Further in 2012,” Daily Climate, January 2, 2013, http://dailyclimate.org.
  19.  Maxwell T. Boykoff, Who Speaks for the Climate?: Making Sense of Media Reporting on Climate Change (Cambridge: Cambridge University Press, 2011), 24.
  20.  Neil T. Gavin, “Addressing Climate Change: A Media Perspective,” Environmental Politics 18, no. 5 (September 2009): 765–80.
  21.  Two responses to David Noble are: Derrick O’Keefe, “Denying Time and Place in the Global Warming Debate,” Climate & Capitalism, June 7, 2007, http://climateandcapitalism.com; Justin Podur, “Global Warming Suspicions and Confusions,” ZNet, May 11, 2007, http://zcommunications.org.
  22.  Pablo Solón, “A Contribution to the Climate Space 2013: How to Overcome the Climate Crisis?,”Climate Space, March 14, 2013, http://climatespace2013.wordpress.com.
  23.  David Spratt, Always Look on the Bright Side of Life: Bright-siding Climate Advocacy and Its Consequences, April 2012, http://climatecodered.org.
  24.  Joe Romm, “Apocalypse Not.”

Ian Angus is editor of the online journal Climate & Capitalism. He is co-author of Too Many People? Population, Immigration, and the Environmental Crisis(Haymarket, 2011), and editor of The Global Fight for Climate Justice(Fernwood, 2010).
He would like to thank Simon Butler, Martin Empson, John Bellamy Foster, John Riddell, Javier Sethness, and Chris Williams for comments and suggestions.

Poor Concentration: Poverty Reduces Brainpower Needed for Navigating Other Areas of Life (Science Daily)

Aug. 29, 2013 — Poverty and all its related concerns require so much mental energy that the poor have less remaining brainpower to devote to other areas of life, according to research based at Princeton University. As a result, people of limited means are more likely to make mistakes and bad decisions that may be amplified by — and perpetuate — their financial woes. 

Research based at Princeton University found that poverty and all its related concerns require so much mental energy that the poor have less remaining brainpower to devote to other areas of life. Experiments showed that the impact of financial concerns on the cognitive function of low-income individuals was similar to a 13-point dip in IQ, or the loss of an entire night’s sleep. To gauge the influence of poverty in natural contexts, the researchers tested 464 sugarcane farmers in India who rely on the annual harvest for at least 60 percent of their income. Each farmer performed better on common fluid-intelligence and cognition tests post-harvest compared to pre-harvest. (Credit: Image courtesy of Princeton University)

Published in the journal Science, the study presents a unique perspective regarding the causes of persistent poverty. The researchers suggest that being poor may keep a person from concentrating on the very avenues that would lead them out of poverty. A person’s cognitive function is diminished by the constant and all-consuming effort of coping with the immediate effects of having little money, such as scrounging to pay bills and cut costs. Thusly, a person is left with fewer “mental resources” to focus on complicated, indirectly related matters such as education, job training and even managing their time.

In a series of experiments, the researchers found that pressing financial concerns had an immediate impact on the ability of low-income individuals to perform on common cognitive and logic tests. On average, a person preoccupied with money problems exhibited a drop in cognitive function similar to a 13-point dip in IQ, or the loss of an entire night’s sleep.

But when their concerns were benign, low-income individuals performed competently, at a similar level to people who were well off, said corresponding author Jiaying Zhao, who conducted the study as a doctoral student in the lab of co-author Eldar Shafir, Princeton’s William Stewart Tod Professor of Psychology and Public Affairs. Zhao and Shafir worked with Anandi Mani, an associate professor of economics at the University of Warwick in Britain, and Sendhil Mullainathan, a Harvard University economics professor.

“These pressures create a salient concern in the mind and draw mental resources to the problem itself. That means we are unable to focus on other things in life that need our attention,” said Zhao, who is now an assistant professor of psychology at the University of British Columbia.

“Previous views of poverty have blamed poverty on personal failings, or an environment that is not conducive to success,” she said. “We’re arguing that the lack of financial resources itself can lead to impaired cognitive function. The very condition of not having enough can actually be a cause of poverty.”

The mental tax that poverty can put on the brain is distinct from stress, Shafir explained. Stress is a person’s response to various outside pressures that — according to studies of arousal and performance — can actually enhance a person’s functioning, he said. In the Science study, Shafir and his colleagues instead describe an immediate rather than chronic preoccupation with limited resources that can be a detriment to unrelated yet still important tasks.

“Stress itself doesn’t predict that people can’t perform well — they may do better up to a point,” Shafir said. “A person in poverty might be at the high part of the performance curve when it comes to a specific task and, in fact, we show that they do well on the problem at hand. But they don’t have leftover bandwidth to devote to other tasks. The poor are often highly effective at focusing on and dealing with pressing problems. It’s the other tasks where they perform poorly.”

The fallout of neglecting other areas of life may loom larger for a person just scraping by, Shafir said. Late fees tacked on to a forgotten rent payment, a job lost because of poor time-management — these make a tight money situation worse. And as people get poorer, they tend to make difficult and often costly decisions that further perpetuate their hardship, Shafir said. He and Mullainathan were co-authors on a 2012 Science paper that reported a higher likelihood of poor people to engage in behaviors that reinforce the conditions of poverty, such as excessive borrowing.

“They can make the same mistakes, but the outcomes of errors are more dear,” Shafir said. “So, if you live in poverty, you’re more error prone and errors cost you more dearly — it’s hard to find a way out.”

The first set of experiments took place in a New Jersey mall between 2010 and 2011 with roughly 400 subjects chosen at random. Their median annual income was around $70,000 and the lowest income was around $20,000. The researchers created scenarios wherein subjects had to ponder how they would solve financial problems, for example, whether they would handle a sudden car repair by paying in full, borrowing money or putting the repairs off. Participants were assigned either an “easy” or “hard” scenario in which the cost was low or high — such as $150 or $1,500 for the car repair. While participants pondered these scenarios, they performed common fluid-intelligence and cognition tests.

Subjects were divided into a “poor” group and a “rich” group based on their income. The study showed that when the scenarios were easy — the financial problems not too severe — the poor and rich performed equally well on the cognitive tests. But when they thought about the hard scenarios, people at the lower end of the income scale performed significantly worse on both cognitive tests, while the rich participants were unfazed.

To better gauge the influence of poverty in natural contexts, between 2010 and 2011 the researchers also tested 464 sugarcane farmers in India who rely on the annual harvest for at least 60 percent of their income. Because sugarcane harvests occur once a year, these are farmers who find themselves rich after harvest and poor before it. Each farmer was given the same tests before and after the harvest, and performed better on both tests post-harvest compared to pre-harvest.

The cognitive effect of poverty the researchers found relates to the more general influence of “scarcity” on cognition, which is the larger focus of Shafir’s research group. Scarcity in this case relates to any deficit — be it in money, time, social ties or even calories — that people experience in trying to meet their needs. Scarcity consumes “mental bandwidth” that would otherwise go to other concerns in life, Zhao said.

“These findings fit in with our story of how scarcity captures attention. It consumes your mental bandwidth,” Zhao said. “Just asking a poor person to think about hypothetical financial problems reduces mental bandwidth. This is an acute, immediate impact, and has implications for scarcity of resources of any kind.”

“We documented similar effects among people who are not otherwise poor, but on whom we imposed scarce resources,” Shafir added. “It’s not about being a poor person — it’s about living in poverty.”

Many types of scarcity are temporary and often discretionary, said Shafir, who is co-author with Mullainathan of the book, “Scarcity: Why Having Too Little Means So Much,” to be published in September. For instance, a person pressed for time can reschedule appointments, cancel something or even decide to take on less.

“When you’re poor you can’t say, ‘I’ve had enough, I’m not going to be poor anymore.’ Or, ‘Forget it, I just won’t give my kids dinner, or pay rent this month.’ Poverty imposes a much stronger load that’s not optional and in very many cases is long lasting,” Shafir said. “It’s not a choice you’re making — you’re just reduced to few options. This is not something you see with many other types of scarcity.”

The researchers suggest that services for the poor should accommodate the dominance that poverty has on a person’s time and thinking. Such steps would include simpler aid forms and more guidance in receiving assistance, or training and educational programs structured to be more forgiving of unexpected absences, so that a person who has stumbled can more easily try again.

“You want to design a context that is more scarcity proof,” said Shafir, noting that better-off people have access to regular support in their daily lives, be it a computer reminder, a personal assistant, a housecleaner or a babysitter.

“There’s very little you can do with time to get more money, but a lot you can do with money to get more time,” Shafir said. “The poor, who our research suggests are bound to make more mistakes and pay more dearly for errors, inhabit contexts often not designed to help.”

Journal Reference:

  1. A. Mani, S. Mullainathan, E. Shafir, J. Zhao. Poverty Impedes Cognitive FunctionScience, 2013; 341 (6149): 976 DOI: 10.1126/science.1238041

Paraíso sitiado (O Globo)

O drama dos índios Awá e a resistência de seu povo que tenta impedir a ação criminosa de madeireiros na Reserva Biológica Gurupi, onde o território indígena já perdeu 30% de sua paisagem original.

REPORTAGEM: MÍRIAM LEITÃO – FOTOS: SEBASTIÃO SALGADO

Vídeos

QUANDO A SOBREVIVÊNCIA EXIGE CORAGEM

O drama do povo Awá na luta contra o desmatamento na Reserva Biológica Gurupi

TESTEMUNHAS DA HISTÓRIA AWÁ

A repórter Míriam Leitão fala do privilégio de acompanhar o fotógrafo Sebastião Salgado pela Aldeia Juriti

A IMPUNIDADE ROMPE O SILÊNCIO DA NOITE

Míriam Leitão flagra madeireiros em ação à noite numa serraria clandestina no interior do Maranhão

Sobreviver com coragem

Considerados um dos últimos povos caçadores e coletores do planeta, os poucos mais de 400 Awá que povoam o que restou da Floresta Amazônica no Maranhão vivem o momento mais decisivo de sua sobrevivência: impedir que grileiros, posseiros e madeireiros destruam o seu mais valioso bem. É das árvores e da mata densa situadas na Reserva Biológica do Gurupi, de onde tiram o seu alimento, a sua certeza de amanhã poderem garantir a continuação de seu povo, de sua gente. Eles não querem nada mais do que a garantia do governo federal de que não terão o seu terrítório devastado pela ganância do homem branco, que avança a passos largos em busca de madeira nobre.

Apesar de sua terra já estar demarcada, homologada e registrada com 116.582 hectares pela União, eles enfrentam uma ameaça real de assistir à destruição da floresta da qual são tão dependentes e de onde tiram o sustento de seus filhos. Ainda que a Justiça já tenha determinada a retirada desses ‘intrusos’ ou não índios, como define a Funai, os Awá temem pela própria sorte, se afirmam em sua coragem e não vacilam quando veem sua resistência em xeque. “Não temos medo. Vamos resistir”, dizem em discursos emocionados.

A repórter Míriam Leitão, a convite do renomado fotógrafo Sebastião Salgado, viajou até a Aldeia Juriti e pôde comprovar como os Awá vivem essa dramática expectativa. Neste ambiente especial, que complementa a série de reportagens publicadas na edição dominical de O GLOBO, o leitor poderá saber mais do cotidiano dos chamados ‘índios invisíveis’, como vivem, e como reverenciam a sua sagrada cultura.

Sem Título-1Reserva Biológica Gurupi
Terra Indígena Awa
Terra Indígena Caru
Terra Indígena Alto Turiaçu

Áudio

A AMEAÇA DOS MADEIREIROS

Sebastião Salgado se prepara para fotografar os Awá

O DISCURSO AWÁ

Ouça trecho da fala de uma das lideranças Awá

DENÚNCIA

A repórter Míriam Leitão flagra a ação ilegal de madeireiros em uma serraria

O JOVEM GUERREIRO JUI’I

Ouça trecho de seu discurso

OS ÍNDIOS INVISÍVEIS

O antropólogo Uirá Garcia fala sobre a cultura Awá

O CANTO DA CAÇA

Ouça o canto do jovem guerreiro antes de ir à caça

“NÓS TEMOS CORAGEM TAMBÉM”

O jovem guerreiro Jui’i fala da ameaça dos madeireiros

Textos

A LUTA CONTRA A DESTRUIÇÃO DOS MADEIREIROS

Awás tentam sobreviver à ação criminosa dos desmatadores

PARA OS AWÁ, A TRAGÉDIA DO DESMATAMENTO ATINGE A TERRA E O CÉU

Fim da floresta os impedirá de virar ‘Karauaras’, seres que habitam o mundo após a morte

SILENCIOSOS, AWÁ SE CONFUNDEM COM A MATA

Audição acima dos padrões comuns permite ouvir som da devastação a quilômetros

‘ESTAMOS BRAVOS. ASSIM ELES VÃO NOS MATAR’, DIZ LIDERANÇA AWÁ

Após vencer a desconfiança dos índios, ouve-se o desabafo: ‘Quero ficar na minha casa’

FOTOGALERIA

Os Awás pelas lentes de Sebastião Salgado

MADEIREIROS IMPÕEM SUA LEI

Em emboscadas, comerciantes de madeira demostram ter mais força do que a Polícia Federal e a Força Nacional juntas

NO CAMINHO DA VOLTA, O ENCONTRO COM O CRIME

Na estradas que ligam terra Awá, grileiros, serrarias e caminhões agem na certeza da impunidade

MINISTRO: RETIRADA DE TERRA AWÁ TERÁ PF, IBAMA E EXÉRCITO

Ministro da Justiça programa operação, atrasada pela vinda do Papa, já para este semestre

REPORTAGEM: MÍRIAM LEITÃO | FOTOS: SEBASTIÃO SALGADO | EDIÇÃO: DANIEL BIASETTO | MAPA: DANIEL LIMA | ARTE E DESENVOLVIMENTO: GUSTAVO SARAIVA | DESENVOLVIMENTO: AYRTON TESHIMA

Os Awá-Guajá viram bichos-pau (Yahoo! Notícias)

Por  – ter, 20 de ago de 2013

As primeiras fotos de índios surgiram no início mesmo da invenção e popularização dos daguerreótipos e câmeras fotográficas. Pelo Oeste americano intrépidos aventureiros arriscavam suas vidas e suas imensas geringonças para obter um clique de um grupo de guerreiros a cavalo, um retrato de um chefe indígena Sioux, Apache ou Comanche engalonado em suas casacas de couro de búfalo e seus exuberantes cocares de pena de águia. Posavam hirtos, de cara dura, olhando para o horizonte infinito, como se estivessem em alguma solenidade com autoridades estrangeiras, quem sabe, o próprio presidente americano, manifestando sua dignidade humana para preservar ou recuperar seus territórios e ocupar um lugar digno no novo mundo que se criava ao seu redor.

Mas o destino lhes foi cruel demais.

Das fotos solenes, ao final dos anos de resistência (1830-1880) em que o Oeste foi definitivamente incorporado aos Estados Unidos da América, passou-se à dessacralização dos índios, quando até um líder de grande respeito, como Touro Sentado, chefe dos Sioux que destroçou o 6º Regimento de William Custer, na famosa batalha de Little Big Horn, se submeteu a ser uma das estrelas do famoso circo do fanfarrão Buffalo Bill, montando cavalos, dando gritos de guerra e empunhando um rifle winchester com balas de festim. O Wild West Circus fez história se apresentando nas cidades e bribocas que se formavam por todo o imenso centro-oeste americano. Mutatis mutandi, não pensem que no Brasil seja diferente!

As primeiras fotos de índios brasileiros, passado o tempo de viajantes estrangeiros fazendo desenhos e aquarelas, foram tiradas em cidades como Manaus e Cuiabá. Marc Ferrez, famoso por suas fotos do Rio de Janeiro, conseguiu levar um grupo de 11 índios Bororo para um studio em Cuiabá e os fotografou com maestria, mostrando como seres humanos dignos, em toda sua nudez virtuosa, ainda em 1880.

Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez

Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez

No campo, nas matas, nos cerrados, ao vivo em seus ambientes, fotos de índios brasileiros vão surgir pelas lentes de viajantes, cientistas e, no começo do século XX, pela Comissão Rondon, que percorreu todo o oeste do Mato Grosso, Rondônia e várias partes da Amazônia. Os índios aparecem ora desnudos completamente, com algum pano, uma tanga inventada na hora, ora vestidos em camisas sem gola, manga comprida, calças simples, como os pobres brasileiros da época, pés descalços, um ou outro em uniforme militar, as mulheres de saia e os seis expostos. Exceto nas missões, quando as saias desciam até os calcanhares.

A coloração em preto, cinza e branca dessas fotos é do tipo que hoje se chama sépia, a qual faz as imagens se diferenciarem tão somente pela textura e forma dos objetos, como se o mundo fosse uma penumbra. Visualizando isso, o espectador precisava de um esforço intelectual para ver e dar significado às distintas imagens. Por esse esforço as imagens ganhavam um significado muito além do real corriqueiro. De algum modo elas se sacralizavam, como se fosse um objeto antigo ou precioso. Daí porque naqueles tempos tornara-se de praxe os amigos se presentearem com retratos, que eram solenemente expostos nas salas e nos escritórios. Daí porque as fotos eram tratadas com reverência e carinho, e eram beijadas como se representassem as pessoas vivas.

A nitidez da coloração das fotos, desde os anos 1960, mudou o modo como as vemos e elas foram aos poucos se vulgarizando, tanto pela banalidade de sua existência quanto principalmente pelo realismo que elas nos evocam. A arte da fotografia, consequentemente, passou a requerer mais sutileza de luzes para obter algum senso de sacralidade do objeto visado.

E aqui chegamos ao objetivo desse artigo – as fotos tiradas pelo fotógrafo profissional Sebastião Salgado dos índios Awá-Guajá, do Maranhão, recentemente publicadas pelo jornal O Globo, em reportagem de Miriam Leitão.

Nessas fotos, os Guajá, a última sociedade a viver quase que exclusivamente da caça, pesca e coleta de animais, frutos e tubérculos da floresta, são fotografados em coloração sépia, com pouca luz, sob um fundo “natural” de árvores, raízes e chão. Apresentam-se nus, os homens com seus prepúcios amarrados com fibras de tucum, braceletes e auréolas de penas, meninos e meninas sem nada, e as mulheres em seus saiotes tecidos de fibras de tucum, bem como as tipóias em que carregam seus bebês.

Algumas fotos, talvez as que mais calaram fundo com os propósitos do fotógrafo mineiro-europeu, trazem grupos de homens e meninos adornados a caráter, todos em pé, fisionomias sérias, porém mudos e imóveis, arcos à mão, numa clara alusão de que são parte da floresta que lhes ladeia como o cenário de fundo e de compartilhamento.

Nas fotos de Salgado não há informação etnográfica, exceto aquela em que um caçador, que o reconheço pelo nome de Mutumhû, porta um macaco guariba morto pendurado às suas costas, com um olhar de inadvertida preocupação. Não sabemos como vivem os Guajá, como se alimentam, como amam e cuidam dos filhos, como se divertem e como sofrem. Não há tempo aqui. Nem eternidade, nem instantaneidade. Tempo morto.

A jornalista Miriam Leitão, emocionada com o quê viu, produziu alguns textos nos quais procura mostrar que os Guajá estão em perigo de sobrevivência, ecoando inadvertidamente as matérias da Survival International, uma ONG inglesa que alardeia que os Guajá são o povo em maior grau de perigo de sobrevivência do mundo. No total, os Guajá somam cerca de 360 pessoas, mas eram menos de 200 na década de 1980. A terra indígena visitada por Salgado e Leitão, chamada de Awá-Guajá, está parcialmente invadida por madeireiros e posseiros, sem dúvida, mas não consta nas matérias informação sobre por que isto está acontecendo e se a presença da FUNAI é eficiente ou não para deter esse perigo e para dar assistência aos índios. Por que tudo está tão ruim no indigenismo brasileiro da atualidade?

Os Guajá, em virtude de sua característica cultural de mobilidade, se dispersaram há mais de 100 anos por uma vasta área do oeste maranhense, e hoje se encontram morando em quatro terras indígenas, com pouco contato entre si. A terra indígena Awá-Guajá, com 116.000 hectares, conecta as terras indígenas Caru (172.000 ha) e Alto Turiaçu (530.000 ha), que juntas somam 718.000 hectares, compartilhadas com os povos Guajajara e Kaapor. Em vários trechos delas os últimos madeireiros do Maranhão se esbaldam, traçando picadas pelo meio da mata por onde passam seus tratores e caminhões carregados de toras de madeira de lei, sob as vistas grossas de alguns índios não Guajá, cooptados por migalhas, com rara presença do órgão indigenista, ultimamente em completa inatividade e decadência.

Aqueles Guajá que residem na Terra Indígena Awá-Guajá são, por ironia, os que estão mais bem protegidos por funcionários dedicados do órgão indigenista, funcionários que passam às vezes mais de 60 dias sem saírem do posto indígena perto do qual se fixou, há mais de 20 anos, o grupo Guajá visitado. Na verdade, o posto indígena não existe mais, foi extinto por um decreto presidencial, e só por teimosia é que os resolutos funcionários nele permanecem. É provável que tenham que se retirar de vez ainda este mês. Se ao menos essa informação e um pouco do histórico da luta desigual que esses funcionários travam para manter a dignidade dos índios, à indiferença das atitudes do poder federal, fossem divulgados aos leitores, algo mais verdadeiro e esperançoso teria surgido dessa expedição e das fotos obtidas.

Ilustrar com fotos artísticas e etnograficamente relevantes para informar o espectador e sensibilizá-lo para a causa indígena tem sido o mais nobre dos propósitos de fotógrafos e jornalistas. Neste caso, a informação jornalística sem dúvida pode pressionar o governo a tomar as medidas necessárias para seguir as ordens judiciais, exaradas há algum tempo pela Justiça Federal do Maranhão, para retirar de uma vez por todas todos os invasores que teimam em permanecer nessa terra, e coibir definitivamente as atividades destrutivas dos madeireiros. Nada disso é fácil, nas circunstâncias do anti-indigenismo oficial que estamos vivenciando. Este é o sentido que se esperava desta reportagem publicada em O Globo pelos dois competentes profissionais da informação.

Porém, para além desse propósito, as fotos de Sebastião Salgado têm um objetivo considerado transcendente. Salgado está engajado num projeto patrocinado por financiadores particulares e chancelado pela ONU com o intuito visionário, e, dir-se-ia, poético, no sentido de criativo, de captar do mundo atual, tão diversificado na natureza e nas culturas, mas tão dilapidado e com tendência à homogeneização, aquilo que representaria a gênese mesmo da Terra, da vida e do homem. Uma espécie de arqueologia ao vivo.

Assim, Salgado vem fotografando geleiras intocáveis, vulcões flamejantes, montanhas inalcançáveis e povos remotos e “imutáveis” na África, Ásia e Américas. Há sete anos passou um mês morando em duas aldeias dos índios do Alto Xingu capturando sua vida autêntica ao máximo. Durante a cerimônia do Kwarup, quando os índios celebram o fim de um período de luto pela morte de um parente respeitado, Salgado fez questão absoluta de fotografar a efeméride sem a presença de qualquer objeto exógeno à cultura xinguana, seja um cigarro de palha ou uma tira de pano, muito menos alguém não indígena, apesar da aldeia ter isso tudo e mais. As fotos são ahistóricas, pois todos os seus signos foram escoimados pelas lentes prístinas do fotógrafo. Entretanto, os índios xinguanos não vivem e não pensam assim: sabem que estão no meio do redemoinho histórico, sendo e vindo a ser, procurando seu lugar no mundo da atualidade, não flutuando em um éter deshistorizado.

Os Guajá sabem muito menos do nosso mundo, tão recente e tão sofrido tem sido sua aproximação conosco. Nós sabemos muito menos sobre eles. Sua cultura tradicional é viva, apesar dos objetos exógenos. Assim, retratá-los como figurantes da natureza, e mostrá-los como seres quase ctônicos, não deve ter sido difícil para Sebastião Salgado. Mas, ao invés do resultado se tornar uma imagem de auto-conhecimento para os Guajá para avançar em sua compreensibilidade do mundo que os massacra, e de ser um modo de nós os conhecer melhor para amá-los e os ajudar a sobreviver e encontrar um lugar seguro nesse mundo convoluto, essas fotografias se tornam um desserviço para todos nós, os Guajá em especial.

Por essas fotos, os Guajá se tornaram seres da natureza, animais ou vegetais, folhagem, até talvez bichos-pau mimetizados na sépia florestal. A estética da ecologização do mundo virou uma estética da desumanização do homem pelas lentes de um brasileiro que perdeu o senso de brasilidade e anda pelo mundo apegado às cadeias do espetáculo do faz-de-conta.

A importância da imaginação pós-capitalista (Envolverde)

Economia
27/8/2013 – 11h47

por Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson, do The Irish Left Review*

david harvey 250 A importância da imaginação pós capitalista

David Harvey mergulha no estudo das contradições do sistema e busca alternativas: desmercantilização, propriedade comum, renda básica permanente, gratuidades… Foto: Divulgação/ Internet

Mês que vem completam-se cinco anos que Lehman Brothers foram protagonistas do maior caso de falência de banco na história dos EUA. O colapso sinalizou o início da Grande Depressão – a crise mais substancial do capitalismo mundial desde a 2ª Guerra Mundial. Como entender os fundamentos desse sistema agora em crise? E, com o sistema em guerra contra a classe trabalhadora, sob o disfarce da “austeridade”, como imaginar um mundo depois disso?

Poucos pensadores geraram respostas mais influentes para essas perguntas que o geógrafo marxista David Harvey. Aqui, em entrevista recente, ele fala a Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson sobre esses problemas.

The Irish Left Review – Você está trabalhando agora num novo livro, The Seventeen Contradictions of Capitalism [As 17 contradições do capitalismo]. Por que focar essas contradições?

David Harvey – A análise do capitalismo sugere que são contradições significativas e fundamentais. Periodicamente essas contradições saem de controle e geram uma crise. Acabamos de passar por uma crise e acho importante perguntar que contradições nos levaram à crise? Como podemos analisar a crise em termos de contradições? Uma das grandes ditos de Marx foi que uma crise é sempre resultado das contradições subjacentes. Portanto, temos de lidar com elas próprias, não com os resultados delas.

TILR – Uma das contradições a que você se dedica é a que há entre o valor de uso e o valor de troca de uma mercadoria. Por que essa contradição é tão fundamental para o capitalismo e por que você usa a moradia para ilustrá-la?

DH – Temos de começar por entender que todas as mercadorias têm um valor de uso e um valor de troca. Se tenho um bife, o valor de uso é que posso comê-lo, e o valor de troca é quanto tenho de pagar para comê-lo.

A moradia é muito interessante, nesse sentido, porque se pode entender como valor de uso que ela garante abrigo, privacidade, um mundo de relações afetivas entre pessoas, uma lista enorme de coisas para as quais usamos a casa. Houve tempo em que cada um construía a própria casa e a casa não tinha valor de troca. Depois, do século 18 em diante, aparece a construção de casas para especulação – construíam-se sobrados georgianos [reinado do rei George, na Inglaterra] para serem vendidos. E as casas passaram a ser valores de troca para consumidores, como poupança. Se compro uma casa e pago a hipoteca, acabo proprietário da casa. Tenho pois um bem, um patrimônio. Assim se gera uma política curiosa – “não no meu quintal”, “não quero ter gente na porta ao lado que não se pareça comigo”. E começa a segregação nos mercados imobiliários, porque as pessoas querem proteger o valor de troca dos seus bens.

Então, há cerca de 30 anos, as pessoas começaram a usar a moradia como forma de obter ganhos de especulação. Você podia comprar uma casa e “passar adiante” – compra uma casa por £200 mil, depois de um ano consegue £250 mil por ela. Você ganha £50 mil, por que não? O valor de troca passou a ser dominante. E assim se chega ao boom especulativo. Em 2000, depois do colapso dos mercados globais de ações, o excesso de capital passou a fluir para a moradia. É um tipo interessante de mercado. Você compra uma casa, o preço da moradia sobe você diz “os preços das casas estão subindo, tenho de comprar uma casa”, mas outro compra antes de você. Gera-se uma bolha imobiliária. As pessoas ficam presas na bolha e a bolha explode. Então, de repente, muitas pessoas descobrem que já não podem usufruir do valor de uso da moradia, porque o sistema do valor de troca destruiu o valor de uso.

E surge a pergunta: é boa ideia permitir que o valor de uso da moradia, que é crucial para o povo, seja comandado por um sistema louco de valor de troca? O problema não surge só na moradia, mas em coisas como educação e atenção à saúde. Em vários desses campos, liberamos a dinâmica do valor de troca, sob a teoria de que ele garantirá o valor de uso, mas o que se vê frequentemente, é que ele faz explodir o valor de uso e as pessoas acabam sem receber boa atenção à saúde, boa educação e boa moradia. Por isso me parece tão importante prestar atenção à diferença entre valor de uso e valor de troca.

TILR – Outra contradição que você comenta envolve um processo de alternar, ao longo do tempo, entre a ênfase na oferta, na produção, e ênfase na demanda, pelo consumo, que se vê no capitalismo. Pode falar sobre como esse processo apareceu no século 20 e por que é tão importante?

DH – Uma grande questão é manter uma demanda adequada de mercado, de modo que seja possível absorver o que for que o capital esteja produzindo. Outra, é criar as condições sob as quais o capital possa produzir com lucros.

Essas condições de produção lucrativa quase sempre significam suprimir a força de trabalho. Na medida em que se reduzem salários – pagando salários cada vez menores –, as taxas de lucro sobem. Portanto, do lado da produção, quanto mais arrochados os salários, melhor. Os lucros aumentam. Mas surge o problema: quem comprará o que é produzido? Com o trabalho arrochado, onde fica o mercado? Se o arrocho é excessivo, sobrevém uma crise, porque deixa de haver demanda suficiente que absorva o produto.

A certa altura, a interpretação generalizada dizia que o problema, na crise dos anos 1930s foi falta de demanda. Houve então uma mudança na direção de investimentos conduzidos pelo Estado, para construir novas estradas, o WPA [serviços públicos, sob o New Deal] e tudo aquilo. Diziam que “revitalizaremos a economia” com demanda financiada por dívidas e, ao fazer isso, viraram-se para a teoria Keynesiana. Saiu-se dos anos 1930s com uma nova e forte capacidade para gerenciar a demanda, com o Estado muito envolvido na economia. Resultado disso, houve fortes taxas de crescimento, mas as fortes taxas de crescimento vieram acompanhadas de maior poder para os trabalhadores, com salários crescentes e sindicatos fortes.

Sindicatos fortes e altos salários significam que as taxas de lucro começam a cair. O capital entra em crise, porque não está reprimindo suficientemente os trabalhadores. E o “automático” do sistema dá o alarme. Nos anos 1970s, voltaram-se na direção de Milton Friedman e da Escola de Chicago. Passou a ser dominante na teoria econômica, e as pessoas começaram a observar a ponta da oferta – sobretudo os salários. E veio o arrocho dos salários, que começou nos anos 1970s. Ronald Reagan ataca os controladores de tráfego aéreo; Margaret Thatcher caça os mineiros; Pinochet assassina militantes da esquerda. O trabalho é atacado por todos os lados – e a taxa de lucros sobe. Quando se chega aos anos 1980s, a taxa de lucro dá um salto, porque os salários estão sendo arrochados e o capital está se dando muito bem. Mas surge o problema: a quem vender aquela coisa toda que está sendo produzida.

Nos anos 1990s tudo isso foi recoberto pela economia do endividamento. Começaram a encorajar as pessoas a tomarem empréstimos – começou uma economia de cartão de crédito e uma economia de moradia pesadamente financiada por hipotecas. Assim se mascarou o fato de que, na realidade, não havia demanda alguma. Em 2007-8, esse arranjo também desmoronou.
O capital enfrenta essa pergunta, “trabalha-se pelo lado da oferta ou pelo lado da demanda”? Minha ideia, para um mundo anticapitalista, é que é preciso unificar tudo isso. Temos de voltar ao valor de uso. De que valores de uso as pessoas precisam e como organizar a produção de tal modo que satisfaça à demanda por aqueles valores de uso?

TILR – Hoje, tudo indica que estamos em crise pelo lado da oferta. Mas a austeridade é tentativa de encontrar solução pelo lado da demanda. Como resolver isso?

DH – É preciso diferenciar entre os interesses do capitalismo como um todo e o que é interesse especificamente da classe capitalista, ou de uma parte dela. Durante essa crise, a classe capitalista deu-se muitíssimo bem. Alguns saíram queimados, mas a maior parte saiu-se extremamente bem. Segundo estudo recente, nos países da OECD a desigualdade econômica cresceu significativamente desde o início da crise, o que significa que os benefícios da crise concentraram-se nas classes mais ricas. Em outras palavras, os ricos não querem sair da crise, porque a crise lhes traz muitos lucros.
A população como um todo está sofrendo, o capitalismo como um todo não está saudável, mas a classe capitalista – sobretudo uma oligarquia que há ali – está muito bem. Há várias situações nas quais capitalistas individuais operando conforme os interesses de sua classe, podem de fato fazer coisas que agridem muito gravemente todo o sistema capitalista. Minha opinião é que, hoje, estamos vivendo uma dessas situações.

TILR – Você tem repetido várias vezes, recentemente, que uma das coisas que a esquerda deveria estar fazendo é usar nossa imaginação pós-capitalista, e começar por perguntar como, afinal, será um mundo pós-capitalista. Por que isso lhe parece tão importante? E, na sua opinião, como, afinal, será um mundo pós-capitalista?

DH – É importante, porque há muito tempo trombeteia-se nos nossos ouvidos que não há alternativa. Uma das primeiras coisas que temos de fazer é pensar a alternativa, para começar a andar na direção de criá-la.

A esquerda tornou-se tão cúmplice com o neoliberalismo, que já não se vê diferença entre os partidos políticos da esquerda e os da direita, se não em questões nacionais ou sociais. Na economia política não há grande diferença. Temos de encontrar uma economia política alternativa ao modo como funciona o capitalismo. E temos alguns princípios. Por isso as contradições são interessantes. Examina-se cada uma delas, por exemplo, a contradição entre valor de uso e valor de troca e se diz – “o mundo alternativo é mundo no qual se fornecem valores de uso”. Assim podemos nos concentrar nos valores de uso e tentar reduzir o papel dos valores de troca.

Ou, na questão monetária – claro que precisamos de dinheiro para que as mercadorias circulem. Mas o problema do dinheiro é que pessoas privadas podem apropriar-se dele. O dinheiro torna-se uma modalidade de poder pessoal e, em seguida, um desejo-fetiche. As pessoas mobilizam a vida na procura por esse dinheiro, até quem não sabe que o faz. Então, temos de mudar o sistema monetário – ou se taxam todas as mais-valias que as pessoas comecem a obter ou criamos um sistema monetário no qual a moeda se dissolve e não pode ser entesourada, como o sistema de milhagem aérea.

Mas para fazer isso, é preciso superar a dicotomia estado/propriedade privada, e propor um regime de propriedade comum. E, num dado momento, é preciso gerar uma renda básica para o povo, porque se você tem uma forma de dinheiro antipoupança é preciso dar garantia às pessoas. Você tem de dizer “você não precisa poupar para os dias de chuva, porque você sempre receberá essa renda básica, não importa o que aconteça”. É preciso dar segurança às pessoas desse modo, não por economias privadas, pessoais.

Mudando cada uma dessas coisas contraditórias chega-se a um tipo diferente de sociedade, que é muito mais racional que a que temos hoje. Hoje, o que acontece é produzimos e, em seguida, tentamos persuadir os consumidores a consumir o que foi produzido, queiram ou não e precisem ou não do que é produzido. Em vez disso, temos de descobrir quais os desejos e vontades básicas das pessoas e mobilizar o sistema de produção para produzir aquilo. Se se elimina a dinâmica do valor de troca, é possível reorganizar todo o sistema de outro modo. Pode-se imaginar a direção na qual se moverá uma alternativa socialista, se nos afastamos da forma dominante da acumulação de capital que hoje comanda tudo.

* Esse é um trecho da entrevista. A íntegra da entrevista será publicada na edição de outono de The Irish Left Review./ Tradução Vila Vudu.

** Publicado originalmente no site Irish Left Review e retirado do site Outras Palavras.

(Outra Palavras)

Abandoned in Indian Country (NY Times)

July 23, 2013

By THE EDITORIAL BOARD

It’s an old American story: malign policies hatched in Washington leading to pain and death in Indian country. It was true in the 19th century. It is true now, at a time when Congress, heedless of its solemn treaty obligations to Indian tribes, is allowing the across-the-board budget cuts known as the sequester to threaten the health, safety and education of Indians across the nation.

Many Republicans have lately taken to dismissing the sequester as a mild headache for a country that needs to tighten its belt. They are willfully averting their eyes from Indian reservations, where the cuts are real, specific, broad and brutal. The victims are among the poorest, sickest and most isolated Americans.

The sequester in a nutshell? “More people sick; fewer people educated; fewer people getting general assistance; more domestic violence; more alcoholism,” Richard Zephier, executive director of the Oglala Sioux Tribe, recently told Annie Lowrey of The Times.

The damage is being done to agencies and programs whose budgets rely nearly entirely on federal sources, now being slashed. In signing treaties with Indian nations in return for land, the federal government promised a wide array of life-sustaining services. One of the most important is the Indian Health Service, which serves about two million people on reservations and is grossly underfinanced even in good times. It routinely runs out of money halfway through the year. Though Medicare, Medicaid and veterans’ health were exempted from sequestration cuts, the Indian Health Service was not. It stands to lose about $228 million in 2013 from automatic sequester cuts alone, out of a $4 billion budget. That will mean 3,000 fewer inpatient admissions and 800,000 fewer outpatient visits every year.

On the Pine Ridge Indian Reservation in South Dakota, the tribal police force, facing cumulative budget cuts of 14 percent, or more than $1 million, has let 14 officers go. Its nine patrol cars are already pitifully inadequate for policing a 2.8-million-acre reservation plagued by poverty, joblessness, youth gangs, suicide, alcoholism and methamphetamine addiction. The tribe is cutting a program that serves meals to the housebound elderly. Its schools and Head Start program are cutting back. On a reservation with a chronic and worsening shortage of homes, where families double up in flimsy trailers without running water or electricity, a housing-improvement program with a 1,500-family waiting list was shut down. There were 100 suicide attempts in 110 days on Pine Ridge, officials there said, but the reservation is losing two mental-health providers because of the sequester.

The warnings about the cuts have come from many sources, all ignored. A report in May from the Center for Native American Youth described the looming damage to housing and juvenile-justice programs, child-welfare and mental-health services, and education. It predicted that sequester cuts to the Department of Education would lead to staff reductions, canceled programs and shortened school years affecting nearly 115,000 Indian youths at 710 schools.

In the Navajo Nation, in Arizona, the Window Rock Unified School District is cutting about $7 million from a $24 million budget; it let 14 employees go and shrunk to four buildings from seven. The United States attorney for North Dakota, Timothy Purdon, has warned tribes that sequester cuts could jeopardize public safety. Furloughs at the Justice Department, he said, could reverse the recent gains in the number of federal prosecutions of crimes in Indian country.

Byron Dorgan, the retired United States senator from North Dakota who founded the Center for Native American Youth, demanded in an Op-Ed article in The Times that Congress hold hearings to examine its broken treaty promises and develop a plan for restitution. He said it should exempt Indian country from sequestration. He is right. Where the deficit zealots see virtue, we see moral failure.

The next time any Republicans get pious about their party’s respect for life and the rule of law, someone should ask: What about Pine Ridge?