Mudanças climáticas impulsionam tragédias naturais (O Globo)

JC e-mail 4855, de 13 de novembro de 2013

Condições meteorológicas extremas mataram 530 mil e causaram prejuízos de US$ 2,5 trilhões nos últimos 20 anos

Nos últimos 20 anos as condições meteorológicas extremas mataram 530 mil pessoas no mundo, causando prejuízos econômicos que chegam a US$ 2,5 trilhões, de acordo com o Germanwatch, instituição financiada pelo governo alemão. Este ano, somente o supertufão Haiyan, a 24ª tempestade tropical que assolou as Filipinas em 2013, pode ter matado 10 mil pessoas, embora o presidente Benigno Aquino agora negue a informação. Apesar dos números crescentes de fenômenos naturais extremos, muitos especialistas ainda temem traçar uma ligação direta com as mudanças no clima. A pergunta que muitos se fazem é até quando essa negativa vai continuar emperrando uma negociação mais contundente sobre as reduções das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), ainda apontados como principal motivo das alterações climáticas.

Em 2012, os países mais afetados por desastres naturais foram o Paquistão, o Haiti e justamente as Filipinas, divulgou ontem a Organização das Nações Unidas.

– A tragédia humana causada pelo desdobramento do Haiyan só será capturada em relatórios futuros – afirmou Soenke Kreft, coautor do documento divulgado nos bastidores da 19ª Conferência do Clima (COP-19), que acontece desde a última segunda-feira na Polônia.

Durante a abertura do evento, o delegado filipino Naderev Sano anunciou greve de fome até o final da conferência, e ontem foi seguido por 30 ativistas num ato tido como o mais importante do segundo dia de debates.

– Vamos fazer um jejum em solidariedade à delegação filipina, com as vítimas do tufão, e até que se concretizem ações políticas reais nesta COP-19 – disse Angeli Apparedi, coordenadora da iniciativa que uniu ONGs de todo o mundo para a causa filipina.

Sano lembrou a urgência de medidas concretas contra o aquecimento global para evitar tragédias como a do Haiyan e pediu para que os países desenvolvidos reduzissem as emissões e aumentassem seu comprometimento com o Fundo Verde do Clima, que deveria repassar US$ 100 bilhões aos países em desenvolvimento para a mitigação das emissões e adaptações aos impactos das mudanças climáticas em 2020. Até 30 de julho deste ano, o fundo, que foi criado em 2010, tinha apenas US$ 9 milhões.

Os desastres e o clima
Apesar do receio do mundo científico em afirmar que essas tragédias estão ligadas às mudanças climáticas, alguns efeitos causados pelo aumento das temperaturas do planeta já são apontados como a principal causa da maior intensidade dos ciclones tropicais.

– Uma coisa é bastante concreta – afirmou Will Steffen, diretor-executivo do “Australian National Climate Change Institute” à Reuters. – A mudança climática está causando o aquecimento das águas da superfície, o que, por sua vez, aumenta a energia deste tipo de tempestade.

Ontem, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou que a média mundial de temperatura entre janeiro e setembro deste ano foi meio ponto superior à registrada entre 1961 e 1990, o que faz de 2013 o ano mais quente da História. Além do aquecimento das águas, o aumento do nível do mar também é outro potencializador do tufões, dizem os especialistas. O relatório da OMM apontou que o nível dos mares e oceanos aumenta em média 3,2 milímetros por ano desde 1993.

– Não podemos afirmar que um fenômeno específico está ligado ou não às mudanças climáticas, pois eles naturalmente sempre aconteceram – diz André Ferretti, coordenador de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário e também do Observatório do Clima, que acompanha as negociações na Polônia. – Mas já é possível dizer que eles estão mais fortes e frequentes por causa das alterações do clima. Infelizmente isso não deve pressionar os governos para um acordo na COP-19.

Resistência a metas globais atrasam acordo
Um encontro que nasce errado, parte de um raciocínio antigo e é encerrado sem conclusões. Este quadro se encaixa em todos os painéis dedicados ao debate sobre as mudanças climáticas realizados nos últimos anos. Para especialistas, a fórmula pode se repetir nesta Convenção do Clima (COP-19).

Os países em desenvolvimento chegaram à Polônia insistindo em uma tese nascida há mais de 15 anos: “Responsabilidades Comuns, Porém Diferenciadas” no combate às mudanças climáticas. Segundo ela, só nações desenvolvidas devem submeter-se a metas para redução das emissões de CO2.

– É um raciocínio muito simplório – ataca Bernardo Baeta Neves Strassburg, diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio. – Desde que este argumento passou a ser usado, Brasil, Índia e China tornaram-se potências mundiais e, por isso, deveriam ter metas obrigatórias para diminuir suas emissões.

Brasil em posição ambígua
Entre os países emergentes, o Brasil seria o mais disposto a aceitar um acordo que limite a emissão de CO2, mas o governo estaria esperando a decisão da China, maior emissora mundial de gases-estufa, que negocia metas mais modestas.

Para Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o Brasil perdeu força nas conferências internacionais.

– Temos uma posição ambígua – critica. – Estamos entre as maiores economias do mundo, mas nossos problemas estruturais são idênticos aos dos países pobres. Essa contradição dificulta nossa habilidade em negociar.

Strassburg e Stella criticam o modelo do painel da COP, em que as decisões devem ser aceitas por unanimidade.

– É claro que o debate precisa ser democrático, mas questões tão importantes para a Humanidade não podem esbarrar no bloqueio de um determinado tema – ressalta Stella.

Ambos concordam que esta conferência, assim como a COP-20 – que será realizada no ano que vem, no Peru – são fundamentais para que, em 2015, os governantes enfim assinem um acordo que limite as emissões de CO2.

No início da semana, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou algumas adaptações em seu último relatório, concluído em setembro. As mudanças, segundo os cientistas, não são significativas, e foram descobertas após a revisão do documento.

(Maria Clara Serra e Renato Grandelle/O Globo)
http://oglobo.globo.com/ciencia/mudancas-climaticas-impulsionam-tragedias-naturais-10763216#ixzz2kX73SZ00