Os Awá-Guajá viram bichos-pau (Yahoo! Notícias)

Por  – ter, 20 de ago de 2013

As primeiras fotos de índios surgiram no início mesmo da invenção e popularização dos daguerreótipos e câmeras fotográficas. Pelo Oeste americano intrépidos aventureiros arriscavam suas vidas e suas imensas geringonças para obter um clique de um grupo de guerreiros a cavalo, um retrato de um chefe indígena Sioux, Apache ou Comanche engalonado em suas casacas de couro de búfalo e seus exuberantes cocares de pena de águia. Posavam hirtos, de cara dura, olhando para o horizonte infinito, como se estivessem em alguma solenidade com autoridades estrangeiras, quem sabe, o próprio presidente americano, manifestando sua dignidade humana para preservar ou recuperar seus territórios e ocupar um lugar digno no novo mundo que se criava ao seu redor.

Mas o destino lhes foi cruel demais.

Das fotos solenes, ao final dos anos de resistência (1830-1880) em que o Oeste foi definitivamente incorporado aos Estados Unidos da América, passou-se à dessacralização dos índios, quando até um líder de grande respeito, como Touro Sentado, chefe dos Sioux que destroçou o 6º Regimento de William Custer, na famosa batalha de Little Big Horn, se submeteu a ser uma das estrelas do famoso circo do fanfarrão Buffalo Bill, montando cavalos, dando gritos de guerra e empunhando um rifle winchester com balas de festim. O Wild West Circus fez história se apresentando nas cidades e bribocas que se formavam por todo o imenso centro-oeste americano. Mutatis mutandi, não pensem que no Brasil seja diferente!

As primeiras fotos de índios brasileiros, passado o tempo de viajantes estrangeiros fazendo desenhos e aquarelas, foram tiradas em cidades como Manaus e Cuiabá. Marc Ferrez, famoso por suas fotos do Rio de Janeiro, conseguiu levar um grupo de 11 índios Bororo para um studio em Cuiabá e os fotografou com maestria, mostrando como seres humanos dignos, em toda sua nudez virtuosa, ainda em 1880.

Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez

Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez

No campo, nas matas, nos cerrados, ao vivo em seus ambientes, fotos de índios brasileiros vão surgir pelas lentes de viajantes, cientistas e, no começo do século XX, pela Comissão Rondon, que percorreu todo o oeste do Mato Grosso, Rondônia e várias partes da Amazônia. Os índios aparecem ora desnudos completamente, com algum pano, uma tanga inventada na hora, ora vestidos em camisas sem gola, manga comprida, calças simples, como os pobres brasileiros da época, pés descalços, um ou outro em uniforme militar, as mulheres de saia e os seis expostos. Exceto nas missões, quando as saias desciam até os calcanhares.

A coloração em preto, cinza e branca dessas fotos é do tipo que hoje se chama sépia, a qual faz as imagens se diferenciarem tão somente pela textura e forma dos objetos, como se o mundo fosse uma penumbra. Visualizando isso, o espectador precisava de um esforço intelectual para ver e dar significado às distintas imagens. Por esse esforço as imagens ganhavam um significado muito além do real corriqueiro. De algum modo elas se sacralizavam, como se fosse um objeto antigo ou precioso. Daí porque naqueles tempos tornara-se de praxe os amigos se presentearem com retratos, que eram solenemente expostos nas salas e nos escritórios. Daí porque as fotos eram tratadas com reverência e carinho, e eram beijadas como se representassem as pessoas vivas.

A nitidez da coloração das fotos, desde os anos 1960, mudou o modo como as vemos e elas foram aos poucos se vulgarizando, tanto pela banalidade de sua existência quanto principalmente pelo realismo que elas nos evocam. A arte da fotografia, consequentemente, passou a requerer mais sutileza de luzes para obter algum senso de sacralidade do objeto visado.

E aqui chegamos ao objetivo desse artigo – as fotos tiradas pelo fotógrafo profissional Sebastião Salgado dos índios Awá-Guajá, do Maranhão, recentemente publicadas pelo jornal O Globo, em reportagem de Miriam Leitão.

Nessas fotos, os Guajá, a última sociedade a viver quase que exclusivamente da caça, pesca e coleta de animais, frutos e tubérculos da floresta, são fotografados em coloração sépia, com pouca luz, sob um fundo “natural” de árvores, raízes e chão. Apresentam-se nus, os homens com seus prepúcios amarrados com fibras de tucum, braceletes e auréolas de penas, meninos e meninas sem nada, e as mulheres em seus saiotes tecidos de fibras de tucum, bem como as tipóias em que carregam seus bebês.

Algumas fotos, talvez as que mais calaram fundo com os propósitos do fotógrafo mineiro-europeu, trazem grupos de homens e meninos adornados a caráter, todos em pé, fisionomias sérias, porém mudos e imóveis, arcos à mão, numa clara alusão de que são parte da floresta que lhes ladeia como o cenário de fundo e de compartilhamento.

Nas fotos de Salgado não há informação etnográfica, exceto aquela em que um caçador, que o reconheço pelo nome de Mutumhû, porta um macaco guariba morto pendurado às suas costas, com um olhar de inadvertida preocupação. Não sabemos como vivem os Guajá, como se alimentam, como amam e cuidam dos filhos, como se divertem e como sofrem. Não há tempo aqui. Nem eternidade, nem instantaneidade. Tempo morto.

A jornalista Miriam Leitão, emocionada com o quê viu, produziu alguns textos nos quais procura mostrar que os Guajá estão em perigo de sobrevivência, ecoando inadvertidamente as matérias da Survival International, uma ONG inglesa que alardeia que os Guajá são o povo em maior grau de perigo de sobrevivência do mundo. No total, os Guajá somam cerca de 360 pessoas, mas eram menos de 200 na década de 1980. A terra indígena visitada por Salgado e Leitão, chamada de Awá-Guajá, está parcialmente invadida por madeireiros e posseiros, sem dúvida, mas não consta nas matérias informação sobre por que isto está acontecendo e se a presença da FUNAI é eficiente ou não para deter esse perigo e para dar assistência aos índios. Por que tudo está tão ruim no indigenismo brasileiro da atualidade?

Os Guajá, em virtude de sua característica cultural de mobilidade, se dispersaram há mais de 100 anos por uma vasta área do oeste maranhense, e hoje se encontram morando em quatro terras indígenas, com pouco contato entre si. A terra indígena Awá-Guajá, com 116.000 hectares, conecta as terras indígenas Caru (172.000 ha) e Alto Turiaçu (530.000 ha), que juntas somam 718.000 hectares, compartilhadas com os povos Guajajara e Kaapor. Em vários trechos delas os últimos madeireiros do Maranhão se esbaldam, traçando picadas pelo meio da mata por onde passam seus tratores e caminhões carregados de toras de madeira de lei, sob as vistas grossas de alguns índios não Guajá, cooptados por migalhas, com rara presença do órgão indigenista, ultimamente em completa inatividade e decadência.

Aqueles Guajá que residem na Terra Indígena Awá-Guajá são, por ironia, os que estão mais bem protegidos por funcionários dedicados do órgão indigenista, funcionários que passam às vezes mais de 60 dias sem saírem do posto indígena perto do qual se fixou, há mais de 20 anos, o grupo Guajá visitado. Na verdade, o posto indígena não existe mais, foi extinto por um decreto presidencial, e só por teimosia é que os resolutos funcionários nele permanecem. É provável que tenham que se retirar de vez ainda este mês. Se ao menos essa informação e um pouco do histórico da luta desigual que esses funcionários travam para manter a dignidade dos índios, à indiferença das atitudes do poder federal, fossem divulgados aos leitores, algo mais verdadeiro e esperançoso teria surgido dessa expedição e das fotos obtidas.

Ilustrar com fotos artísticas e etnograficamente relevantes para informar o espectador e sensibilizá-lo para a causa indígena tem sido o mais nobre dos propósitos de fotógrafos e jornalistas. Neste caso, a informação jornalística sem dúvida pode pressionar o governo a tomar as medidas necessárias para seguir as ordens judiciais, exaradas há algum tempo pela Justiça Federal do Maranhão, para retirar de uma vez por todas todos os invasores que teimam em permanecer nessa terra, e coibir definitivamente as atividades destrutivas dos madeireiros. Nada disso é fácil, nas circunstâncias do anti-indigenismo oficial que estamos vivenciando. Este é o sentido que se esperava desta reportagem publicada em O Globo pelos dois competentes profissionais da informação.

Porém, para além desse propósito, as fotos de Sebastião Salgado têm um objetivo considerado transcendente. Salgado está engajado num projeto patrocinado por financiadores particulares e chancelado pela ONU com o intuito visionário, e, dir-se-ia, poético, no sentido de criativo, de captar do mundo atual, tão diversificado na natureza e nas culturas, mas tão dilapidado e com tendência à homogeneização, aquilo que representaria a gênese mesmo da Terra, da vida e do homem. Uma espécie de arqueologia ao vivo.

Assim, Salgado vem fotografando geleiras intocáveis, vulcões flamejantes, montanhas inalcançáveis e povos remotos e “imutáveis” na África, Ásia e Américas. Há sete anos passou um mês morando em duas aldeias dos índios do Alto Xingu capturando sua vida autêntica ao máximo. Durante a cerimônia do Kwarup, quando os índios celebram o fim de um período de luto pela morte de um parente respeitado, Salgado fez questão absoluta de fotografar a efeméride sem a presença de qualquer objeto exógeno à cultura xinguana, seja um cigarro de palha ou uma tira de pano, muito menos alguém não indígena, apesar da aldeia ter isso tudo e mais. As fotos são ahistóricas, pois todos os seus signos foram escoimados pelas lentes prístinas do fotógrafo. Entretanto, os índios xinguanos não vivem e não pensam assim: sabem que estão no meio do redemoinho histórico, sendo e vindo a ser, procurando seu lugar no mundo da atualidade, não flutuando em um éter deshistorizado.

Os Guajá sabem muito menos do nosso mundo, tão recente e tão sofrido tem sido sua aproximação conosco. Nós sabemos muito menos sobre eles. Sua cultura tradicional é viva, apesar dos objetos exógenos. Assim, retratá-los como figurantes da natureza, e mostrá-los como seres quase ctônicos, não deve ter sido difícil para Sebastião Salgado. Mas, ao invés do resultado se tornar uma imagem de auto-conhecimento para os Guajá para avançar em sua compreensibilidade do mundo que os massacra, e de ser um modo de nós os conhecer melhor para amá-los e os ajudar a sobreviver e encontrar um lugar seguro nesse mundo convoluto, essas fotografias se tornam um desserviço para todos nós, os Guajá em especial.

Por essas fotos, os Guajá se tornaram seres da natureza, animais ou vegetais, folhagem, até talvez bichos-pau mimetizados na sépia florestal. A estética da ecologização do mundo virou uma estética da desumanização do homem pelas lentes de um brasileiro que perdeu o senso de brasilidade e anda pelo mundo apegado às cadeias do espetáculo do faz-de-conta.

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