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A Rio+20 e o valor da diferença (Canal Ibase)

Renzo Taddei*

Canal Ibase, 19/06/2012

Durante todo o processo de negociação em torno do documento final da Rio+20, o que tem chamado a atenção da mídia, de forma mais patente, é a dificuldade em se construir o consenso em torno dos temas em discussão. A falta de consenso é apresentada quase como escândalo, e o alinhamento de pensamentos é apresentado como algo intrinsecamente desejável. Isso, a meu ver, é um dos elementos mais problemáticos da cobertura midiática pobre da conferência das Nações Unidas.

Qualquer pessoa que pesquise a história da ONU, em sua relação com as questões mundiais de cada época e com as formas de vida locais, se dá conta de que nem tudo no mundo se conserta via diplomacia. Isso se dá por muitas razões, das quais a mais relevante é o fato de que a diplomacia só enxerga através da lente dos Estados-nação; e estes, por sua vez, são cada vez menos capazes de operar de forma autônoma. A Cúpula dos Povos, atividade paralela da sociedade civil, está aí para dar visibilidade a esse fato. E, para ela, a convergência de posicionamentos éticos e a coordenação de ações táticas sempre foi, e deve continuar sendo, mais importante do que o reconhecimento da necessidade de sintonização substantiva de ideias.

O risco da ideia de consenso substantivo extrapolar a esfera da diplomacia é o da perda do valor da diferença. Como disseram Isabela Fraga e Monike Mar na revista Democracia Viva 48, “o cotidiano e as práticas de quilombolas, indígenas, agricultores, jovens, mulheres, negros, hackers, coletivos de economia solidária e grupos comunitários mostram que existem alternativas à busca do crescimento econômico a qualquer custo”. Exatamente: alternativas, no plural. Se para a comunidade diplomática é importante a construção de um pensamento único, a defesa do direito à diferença tem sido, e tem que continuar sendo, parte integrante da agenda política das entidades da sociedade civil.

É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, enquanto a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio para que “entendam” os efeitos deletérios de suas práticas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso logocentrismo, esse foco exacerbado em informação e pensamento, onde diagnosticamos tudo como “falta de informação”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. O que se quer criar é um discurso único sobre o meio ambiente dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente economicista, materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento-vida, outras epistemologias-ontologias?

Como disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, precisamos aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum dos seres vivos. Que tipo de ética decorre daí, na relação entre humanos e não humanos? Índio não gosta da floresta por opção (apenas) estética, mas há uma outra ética, certamente mais humana, na relação entre humanos e meio ambiente. Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

Precisamos entender que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns” – a exaustão de elementos ambientais compartilhados, como a água ou o ar -, por exemplo, nem tentar esverdear a matriz energética que move as engrenagens de nossa economia, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade.

A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas – por exemplo, ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele -, são tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas. Slavoj Žižek, na sua atitude iconoclasta de sempre, afirmou recentemente que a ideia de que a sociedade urbana e tecnológica é ruim e a natureza é boa é sintoma do problema. Fugir para o mato não resolve nada; o contrário, na verdade, é que constitui alternativa interessante: é preciso aprender a “amar” a sociedade tecnológica e seus produtos. A palavra amar, aqui, – descontado o estilo peculiar do Žižek – refere-se à necessidade de se abandonar essa relação neurótica que temos com as coisas, onde o fetiche pela novidade se transforma em desapego radical, e nossos objetos de desejo se transformam em lixo, substituídos por novos fetiches, numa velocidade vertiginosa. Para que não geremos tanto lixo e tanto consumo, é preciso amar o que temos.

Às vezes perdemos essas questões de vista; nada como o impacto das diferenças culturais para que sejamos incentivamos a repensar nossas formas de vida. As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

*Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.

TATU OR NOT TATU Manifesto Uninômade +10

TATU OR NOT TATU
Manifesto Uninômade +10
15 de Junho de 2012
 
A palavra revolução voltou a circular. Nas ruas, nas praças, na internet, e até mesmo nas páginas de jornal, que a olha com olhos temerosos. Mas, principalmente, em nossos espíritos e corpos. Da mesma maneira, a palavra capitalismo saiu de sua invisibilidade: já não nos domina como dominava. Assistimos ao final de um ciclo – o ciclo neoliberal implementado a partir dos anos 80, mas cujo ápice se deu com a queda do muro de Berlim e o consenso global em torno da expansão planetária do mercado. Muitos dentre nós (principalmente os jovens) experimentam seu primeiro deslocamento massivo das placas tectônicas da história. 

Mas nossa era não é apenas crepuscular. Ao fim de um ciclo abrem-se amplas oportunidades, e cabe a nós transformar a crise da representação e do capitalismo cognitivo em novas formas de democracia absoluta. Para além das esferas formais, dos Estados e nacionalidades. Para além do capitalismo financeiro e flexível. Lá onde brilha nossa singularidade comum: a mulher, o negro, o índio, o amarelo, o pobre, o explorado, o precário, o haitiano, o boliviano, o imigrante, o favelado, o trabalhador intelectual e manual. Não se trata de um recitar de excluídos, mas de uma nova inclusão híbrida. A terra, enfim, nossa. Nós que somos produzidos por esta chuva, esta precipitação de encontros de singularidades em que nos fazemos divinos nesta terra.

É pelo que clama a multidão na Grécia, na Espanha e os occupy espalhados pelos Estados Unidos; é pelo que clamam as radicalidades presentes na primavera árabe, esta multidão situada para além da racionalidade ocidental. É o mesmo arco que une a primavera árabe, as lutas dos estudantes no Chile e as lutas pela radicalização da democracia no Brasil. Nossas diferenças é o que nos torna fortes.

A luta pela mestiçagem racial, simbólica, cultural e financeira passa pela materialidade do cotidiano, pela afirmação de uma longa marcha que junte nossa potência de êxodo e nossa potência constituinte. Acontecimento é o nome que nos anima para o êxodo perpétuo das formas de exploração. Êxodo para dentro da terra. Fidelidade à terra. Tatu or not tatu.

É preciso ouvir em nós aquele desejo que vai para além da vida e da sua conservação: para além do grande terror de uma vida de merda que nos impõe o estado de precariedade e desfiliação extrema. É preciso re-insuflar o grito que nos foi roubado à noite, resistir aos clichês que somos, e que querem fazer de nós: para além de nossas linhas de subjetivação suspensas entre o luxo excedente do 1% ou do lixo supérfluo dos 99%. 

É preciso não precisar de mais nada, a não ser nossa coragem, nosso intelecto e nossos corpos, que hoje se espraiam nas redes de conhecimentos comuns apontando para nossa autonomia. Somos maiores do que pensamos e desejamos tudo.  Não estamos sozinhos! É preciso resistir na alegria, algo que o poder dominador da melancolia é incapaz de roubar. Quando o sujeito deixa de ser um mero consumidor-passivo para produzir ecologias. Um corpo de vozes fala através de nós porque a crise não é apenas do capital, mas sim do viver. Uma profunda crise antropológica. Manifesta-se no esvaziamento de corpos constrangidos, envergonhados, refletidos na tela da TV, sem se expandir para ganhar as ruas. Nossos corpos paralisam, sentem medo, paranóia: o outro vira o grande inimigo. Não criam novos modos de vida. Permanecem em um estado de vidaMenosvida: trabalho, casa, trem, ônibus, trabalho, casa. A vida individual é uma abstração. Uma vida sem compartilhamento afetivo, onde a geração do comum se torna impossível. É preciso criar desvios para uma vidaMaisvida: sobrevida, supervida, overvida. Pausa para sentir parte do acontecimento, que é a vida.  Somos singularidades cooperativas. Pertencemos a uma esfera que nos atravessa e nos constrói a todo o momento.

O capitalismo cognitivo e financeiro instaura um perpétuo estado de exceção que busca continuamente reintegrar e modular a normalidade e a diferença: lei e desordem coincidem dentro de uma mesma conservação das desigualdades que produz e reproduz as identidades do poder: o “Precário” sem direitos, o Imigrante “ilegal”, o “Velho” abandonado, o “Operário” obediente, a “Mulher” subjugada, a “Esposa” dócil, o “Negro” criminalizado e, enfim, o “Depressivo” a ser medicalizado. As vidas dos pobres e dos excluídos passam a ser mobilizadas enquanto tais. Ao mesmo tempo em que precisam gerar valor econômico, mantêm-se politicamente impotentes.

O pobre e o louco. O pobre – figura agora híbrida e modulada de inclusão e exclusão da cadeia do capital –  persiste no cru da vida, até usando seu  próprio corpo como moeda. E o louco, essa figura que vive fora da história, “escolhe” a exclusão. Esse sujeito que se recusa a produzir, vive sem lugar. Onde a questão de exclusão e inclusão é diluída no delírio. Ninguém delira sozinho, delira-se o mundo. Esses dois personagens vivem e sobrevivem à margem, mas a margem transbordou e virou centro. O capital passa a procurar valor na subjetividade e nas formas de vida das margens e a potência dos sem-dar-lucro passa a compor o sintoma do capital: a crise da lei do valor, o capitalismo cognitivo como crise do capitalismo.

A crise dos contratos subprimes em 2007, alastrando-se para a crise da dívida soberana europeia, já não deixa dúvidas: a forma atual de governabilidade é a crise perpétua, repassada como sacrifício para os elos fragilizados do arco social. Austeridade, cortes, desmonte do welfare, xenofobia, racismo. Por detrás dos ternos cinza dos tecnocratas pós-ideológicos ressurgem as velhas bandeiras do biopoder: o dinheiro volta a ter rosto, cor, e não lhe faltam ideias sobre como governar: “que o Mercado seja louvado”, “In God we trust”. O discurso neutro da racionalidade econômica é obrigado a mostrar-se em praça pública, convocando o mundo a dobrar-se ao novo consenso, sem mais respeitar sequer a formalidade da democracia parlamentar. Eis o homo œconomicus: sacrifício, nação, trabalho, capital! É contra este estado de sítio que as redes e a ruas se insurgem. Nas mobilizações auto-convocadas em redes, nas praças das acampadas, a exceção aparece como criatividade do comum, o comum das singularidades que cooperam entre si.

No Brasil são muitos os que ainda se sentem protegidos diante da crise global. O consenso (neo) desenvolvimentista produzido em torno do crescimento econômico e da construção de uma nova classe média consumidora cria barreiras artificiais que distorcem nossa visão da topologia da crise: a crise do capitalismo mundial é, imediatamente, crise do capitalismo brasileiro. Não nos interessa que o Brasil ensine ao mundo, junto à China, uma nova velha forma de capitalismo autoritário baseado no acordo entre Estados e grandes corporações! 

O governo Lula, a partir das cotas, do Prouni, da política cultural (cultura viva, pontos de cultura) e da distribuição de renda (programas sociais, bolsa família, valorização do salário mínimo) pôde apontar, em sua polivalência característica, para algo que muitos no mundo, hoje, reivindicam: uma nova esquerda, para além dos partidos e Estados (sem excluí-los). Uma esquerda que se inflame dos movimentos constituintes que nascem do solo das lutas, e reverta o Estado e o mercado em nomes  do comum. Uma esquerda que só pode acontecer “nessa de todos nós latino-amarga américa”. Mais do que simples medidas governamentais, nestas políticas intersticiais, algo de um acontecimento histórico teve um mínimo de vazão: aqueles que viveram e morreram por transformações, os espectros das revoluções passadas e futuras, convergiram na construção incipiente de nossa emancipação educacional, racial, cultural e econômica. Uma nova memória e um novo futuro constituíram-se num presente que resistira ao assassinato simbólico da história perpetrado pelo neoliberalismo. A popularidade dos governos Lula tinha como lastro esses interstícios onde a política se tornava uma poética. Já hoje, nas taxas de aprovação do governo Dilma, podemos facilmente reconhecer também as cores deslavadas de um consenso prosaico. O “país rico” agora pacifica-se no mantra desenvolvimentista, retrocedendo em muitas das políticas que tinham vazado. Voltam as velhas injunções progressistas: crescimento econômico para redistribuir! Estado forte! As nuvens ideológicas trazem as águas carregadas do gerencialismo e do funcionalismo tecnocrático: menos política, mais eficiência! Desta maneira, removem-se e expropriam-se os pobres: seja em nome de um Brasil Maior e se seu interesse “público” (Belo Monte, Jirau, Vila Autódromo), seja em nome de um Mercado cada vez Maior e de seu interesse “privado” (Pinheirinho, TKCSA, Porto do Açu). Juntando-se entusiasticamente às equações do mercado, os tratores do progresso varrem a sujeira na construção de um novo “País Rico (e) sem pobreza”. Os pobres e as florestas, as formas de vida que resistem e persistem, se tornam sujeira. A catástrofe ambiental (das florestas e das metrópoles) e cultural (dos índios e dos pobres) é assim pacificada sob o nome do progresso. Dominação do homem e da natureza conjugam-se num pacto fáustico presidido por nenhum Mefistófeles, por nenhuma crise de consciência: já somos o país do futuro!
 
Na política de crescer exponencialmente, só se pensa em eletricidade e esqueceu-se a democracia (os Soviets : Conselhos). Assim, governa-se segundo a férrea lógica – única e autoritária – da racionalidade capitalista. Ataca-se enfim a renda vergonhosa dos “banquiplenos”, mas a baixa dos juros vai para engordar os produtores de carros, essas máquinas sagradas de produção de individualismo, em nome da moral do trabalho. Dessa maneira, progredir significa, na realidade, regredir: regressão política como acontece na gestão autoritária das revoltas dos operários das barragens; regressão econômica e biológica, como acontece com uma expansão das fronteiras agrícolas que serra a duração das relações entre cultura e natureza; regressão da vida urbana, com a remoção de milhares de pobres para abrir o caminho dos megaeventos; regressão da política da cultura viva, em favorecimento das velhas oligarquias e das novas indústrias culturais. O progresso que nos interessa não contém nenhuma hierarquia de valor, ele é concreta transformação qualitativa, “culturmorfologia”.

Este é o imaginário moderno em que a dicotomia prevalece: corpo e alma, natureza e cultura, nós e os outros; cada macaco no seu galho! Estes conceitos resultam em uma visão do mundo que distancia o homem da ecologia e de si mesmo. O que está em questão é a maneira de viver no planeta daqui em diante. É preciso encontrar caminhos para reconciliar estes mundos. Perceber outras configurações relacionais mais móveis, ativar sensibilidades. Fazer dessa revolução um grande caldeirão de desejos que crie formas de cooperação e modos de intercâmbio, recombine e componha novas práticas e perspectivas: mundos. Uma mestiçagem generalizada: nossa cultura é nossa economia e nosso ambiente é nossa cultura: três ecologias!

As lutas da primavera Árabe, do 15M Espanhol, do Occupy Wall Street e do #ocupabrasil gritam por transformação, aonde a base comum que somos nos lança para além do estado de exceção econômico: uma dívida infinita que busca manipular nossos corações e manter-nos acorrentados aos medos. Uma dívida infinita que instaura a perpétua transferência de renda dos 99% dos devedores ao 1% dos credores. Não deixemos que tomem por nós a decisão sobre o que queremos! 

A rede Universidade Nômade se formou há mais de dez anos, entre as mobilizações de Seattle e Gênova, os Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre e a insurreição Argentina de 2001 contra o neoliberalismo. Foram dois momentos constituintes: o manifesto inicial que chamava pela nomadização das relações de poder/saber, com base nas lutas dos pré-vestibulares comunitários para negros e pobres (em prol da política de cotas raciais e da democratização do acesso ao ensino superior); e o manifesto de 2005 pela radicalização democrática. Hoje, a Universidade Nômade acontece novamente: seu Kairòs (o aqui e agora) é aquele do capitalismo global como crise. Na época da mobilização de toda a vida dentro da acumulação capitalista, o capitalismo se apresenta como crise e a crise como expropriação do comum, destruição do comum da terra. Governa-se a vida: a catástrofe financeira e ambiental é o fato de um controle que precisa separar a vida de si mesma e opõe a barragem aos índios e ribeirinhos de Belo Monte,  as obras aos operários, os megaeventos aos favelados e aos pobres em geral, a dívida aos direitos, a cultura à natureza. Não há nenhum determinismo, nenhuma crise terminal. O capital não tem limites, a não ser aqueles que as lutas sabem e podem construir. A rede Universidade Nômade é um espaço de pesquisa e militância, para pensar as brechas e os interstícios onde se articulam as lutas que determinam esses limites do capital e se abrem ao possível: pelo reconhecimento das dimensões produtivas da vida através da renda universal, pela radicalização democrática através da produção de novas instituições do comum, para além da dialética entre público e privado, pelo ressurgimento da natureza como produção da diferença, como luta e biopolítica de fabricação de corpos pós-econômicos. Corpos atravessados pela antropofagia dos modernistas, pelas cosmologias ameríndias, pelos êxodos quilombolas, pelas lutas dos sem teto, sem terra, precários, índios, negros, mulheres e hackers: por aqueles que esboçam outras formas de viver, mais potentes, mais vivas.

A poucos dias de seu início, Xingu+23 recebe apoio de artistas, cantores e ambientalistas (Adital)

Belo Monte
11/6/2012 – 06h46

por Natasha Pitts, da Adital

A cada dia o Xingu+23, que acontecerá de 13 a 17, em Vitória do Xingu, Estado do Pará (Norte do país), para debater a resistência à hidrelétrica Belo Monte, recebe mais adesões. Além de artistas que já haviam confirmado presença no evento, há poucos dias o cantor Gilberto Gil, a ambientalista e ex-ministra Marina Silva, o cantor Arnaldo Antunes, e o teólogo, filósofo e escritor Leonardo Boff também divulgaram apoio à iniciativa.

Para chamar ainda mais atenção para a luta contra o megaempreendimento do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), Gilberto Gil cedeu sua canção Um sonho para ser transformada em clipe. Em poucos dias a música, que apesar de ser de 1977 ainda é atual, se tornou o hino do evento, por falar claramente sobre a luta contra o desenvolvimentismo, principal discurso em torno de Belo Monte.

c83 A poucos dias de seu início, Xingu+23 recebe apoio de artistas, cantores e ambientalistas

Por meio de ações como estas, sobretudo nas mídias sociais, o evento ganhou mais repercussão e deverá receber além de artistas, cantores e ambientalistas de Belém, São Paulo e São Luís, ativistas dos Estados Unidos e da Turquia.

Apesar da intensa participação de outros atores sociais, o Xingu+23 é voltado especialmente para pescadores, ribeirinhos, indígenas, agricultores e demais afetados por Belo Monte com o intuito de discutir as ações de resistência, conversar sobre o futuro do(as) atingidos(as) e suas famílias e fortalecer as ações da população local.

O Xingu+23 faz uma referência ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, ocorrido em 1989 em Altamira e organizado pelos kaiapó com a intenção de protestar contra as decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios e repudiar a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu. No encontro, os indígenas e ativistas conseguiram a primeira vitória na luta contra Belo Monte, pois impediram o primeiro projeto de barramento do rio.

Durante o Xingu+23, os participantes também querem marcar um importante momento de luta e resistência no Brasil. Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) e da Cúpula dos Povos, que acontecerão no Rio de Janeiro, o Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS) e seus parceiros decidiram chamar atenção da comunidade nacional e internacional para os impactos sociais e ambientais de Belo Monte e para as ilegalidades que cercam o seu processo de implantação.

Os interessados em participar podem encontrar informações no site oficial do evento. A estrutura oferecida é um acampamento com espaço para barracas e redes. No local não há sinal de telefonia, nem internet.

Programação

O Xingu+23 terá início na quarta-feira, dia 13, em Vila Santo Antônio, a 50 quilômetros de Altamira. A comunidade não foi escolhida por acaso. A Vila foi desapropriada quase em sua totalidade pela concessionária Norte Energia devido à proximidade do maior canteiro de obras de Belo Monte. Após a recepção e o credenciamento, acontecerá um debate sobre violações do Licenciamento e Instalação de Belo Monte. O dia será encerrado com a celebração da tradicional missa de Santo Antônio.

No dia 14, ainda na Vila, os atingidos pela obra vão se reunir em grupos para um debate. A programação do dia acabará com uma audiência pública em Altamira. A sexta-feira (15) será reservada para uma marcha e um ato público. Neste dia, a partir das 8h os(as) participantes vão iniciar a concentração em frente à empresa de energia Rede Celpa (Avenida 7 de setembro, 2190).

Já no sábado, dia 16, acontece a assembleia final do evento seguida por torneio de futebol e a festa do padroeiro da Vila. No domingo, acontece o encerramento.

* Publicado originalmente no site Adital.

Violence Hits Brazil Tribes in Scramble for Land (N.Y.Times)

Mauricio Lima for The New York Times. GUARDING TRADITION Guarani youths during a ceremony in Mato Grosso do Sul, Brazil.

By SIMON ROMERO, Published: June 9, 2012

  • ARAL MOREIRA, Brazil — The gunmen emerged from pickup trucks at dawn, their faces hidden in balaclavas, and stormed into an encampment surrounded by a field of soybean plants near this town on Brazil’s porous frontier with Paraguay.

Witnesses said the men then shot Nísio Gomes, 59, a leader of the indigenous Guarani people; loaded his corpse onto a truck; and drove away.

“We want the bones of my father,” said Valmir Gomes, 33, one of Nísio’s sons, who witnessed the November attack. “He’s not an animal to drag away like that.”

Whether the bodies are hauled away or left as testaments to battles for ancestral land, killings and disappearances of indigenous leaders continue to climb, leaving a stain on Brazil’s rise as an economic powerhouse.

Mauricio Lima for The New York Times. FALLEN LEADER A boy played near a memorial for Nísio Gomes, who disappeared in the state of Mato Grosso do Sul, where there has been a spate of attacks against indigenous peoples.

The expansion of huge cattle ranches and industrial-scale farms in remote regions has produced a land scramble that is leaving the  descendants of Brazil’s original inhabitants desperate to recover tribal terrains, in some cases squatting on contested properties. Nonindigenous landowners, meanwhile, many of whom live on land settled decades ago by their own ancestors under the government’s so-called colonization programs, are just as attached to their claims.

The conflicts often result in violent clashes, which sometimes end tragically for the squatters, armed here only with bows and arrows.

Fifty-one Indians were killed in Brazil in 2011; as many as 24 of the killings are suspected of being related to land battles, according to the Indigenous Missionary Council, an arm of the Roman Catholic Church.

The killings have focused attention on a problem that still plagues Brazil ahead of the United Nations Conference on Sustainable Development, a gathering of thousands scheduled to be held in Rio de Janeiro this month. Twenty years ago, ahead of the original Earth Summit in Rio, officials responded to international criticism over killings of Yanomami people by gold miners, creating a 37,000-square-mile reserve in the Amazon.

In a less striking gesture, President Dilma Rousseff moved ahead this month with the demarcation of seven much smaller indigenous areas. But Cleber César Buzatto, the executive secretary of the Indigenous Missionary Council, said the move was disappointing since the areas were generally not the focus of land battles or big state-financed infrastructure projects.

Meanwhile, land clashes in various parts of Brazil are still taking place. In some cases, courts have opened the way for some indigenous people, who account for less than 1 percent of Brazil’s population of 191 million, to recuperate lands.

In the northern state of Roraima in 2009, Brazil’s high court expelled nonindigenous rice farmers from the lands of 20,000 Indians, mainly the Macuxi people. In a case this year, the Supreme Federal Tribunal annulled the private titles of almost 200 properties in the northeastern Bahia State, ruling that the land belonged to the Pataxó Hã-Hã-Hãe people. The decision followed clashes that left at least two dead.

But the courts can accomplish only so much. Tension is also increasing over proposed legislation aimed at opening indigenous areas to mining, pointing to how demand for Brazil’s natural resources may exacerbate land disputes.

Attacks against indigenous peoples persist here in Mato Grosso do Sul, a sprawling state in southwest Brazil where multinationals like Louis Dreyfus, the French commodities giant, have put down stakes.

A surge in wealth contrasts with the sense of hopelessness among Mato Grosso do Sul’s indigenous peoples, who account for about 75,000 of the state’s population of 2.4 million. Their marginalization has roots in policies put in place in the 1930s, when Brazil’s rulers corralled the Guarani into small reserves with the intent of opening vast areas to settlers.

The results for indigenous people were disastrous. In the shadow of Mato Grosso do Sul’s prosperity, indigenous leaders have called attention over the past decade to the deaths of dozens of Guarani children from malnutrition and an epidemic of suicides, notably in Dourados, an urban area where thousands of Guarani live cheek by jowl on small plots of land.

“Dourados is perhaps the largest known indigenous tragedy in the world,” said Deborah Duprat, Brazil’s deputy attorney general.

Beyond the malnutrition and suicide, there have also been attacks on the Guarani. More than half of Brazil’s killings of indigenous people in 2011 took place in Mato Grosso do Sul. The violence is far from hidden.

The November attack on Mr. Gomes, days after he led a group of 200 Guarani who squatted on a soybean farm, was especially brutal. A gang of gun-wielding men, “pistoleiros” as they are called here, was said by witnesses to have carried out the attack, which also involved beatings of others adults and children in the encampment.

Brazil’s Federal Police found evidence that four landowners in the area had hired a private security firm to remove the Guarani, according to Agência Brasil, the government’s news agency. Ten people were identified in December as suspects in the attack, said Jorge Figueiredo, the official investigating the case. More than six months after the attack, the suspects remain free, despite witness accounts of the attack. Mr. Figueiredo said their identities could not be disclosed, as the authorities try to build a stronger case. Moreover, without Mr. Gomes’s body, investigators do not even have material proof that he was killed, even though his son Valmir said he saw his father shot dead that day.

As the investigation drags on, the Guarani live in fear. Families sleep under tarpaulins in the encampment, which they call a “tekohá,” or “sacred land.” Teenagers patrol with bows and arrows. When visitors are allowed in, children hold signs saying, “We want the bones of Nísio Gomes, our leader.”

The sense of impunity over the attack follows a pattern, Guarani leaders said, in which they face landowners who mount powerful legal efforts to oust squatters from their properties. Some landowners contend that Brazil’s labyrinthine legal system makes the resolution of disputes difficult.

“The rights of all have to be guaranteed,” said Roseli Maria Ruiz, whose family owns a ranch that has been partly occupied for more than a decade by Guarani squatters. Clashes on her property have emerged. “We cannot, as nonnative, be treated as second-class citizens,” she said. “Instead, we, too, should have the right to defend ourselves.”

Guarani leaders say they are also stymied in their claims by the legal process, involving anthropological studies and rulings by bureaucrats in Brasília for determining land ownership.

Meanwhile, tensions smolder across Mato Grosso do Sul, and threats persist against the Guarani. A Guarani leader, Tonico Benites, 39, described one harrowing encounter in April. He said a gunman on a motorcycle stopped him and his wife on a deserted road and threatened to kill him because of his efforts to recover lands. A thunderstorm ended that encounter, said Mr. Benites, who still shakes when recounting it. “I told myself, ‘I’ll scream until I’m killed; my wife will hear me, maybe someone else,’ ” he said. “They can eliminate me, but I won’t go without a scream.”

Lis Horta Moriconi contributed reporting from Rio de Janeiro.

A version of this article appeared in print on June 10, 2012, on page A6 of the New York editionwith the headline: Violence Hits Brazil Tribes In Scramble For Land.

This Forest Is Our Forest (N.Y.Times)

OP-ED CONTRIBUTOR

By LUIS UBIÑAS – Published: May 31, 2012

Twenty years ago, the world came together in Rio de Janeiro for a historic summit meeting to tackle the environmental issues that threaten the very sustainability and preservation of our planet. Now, as world leaders and thousands of other participants prepare for the Rio+20 Conference, we are facing an even more urgent set of environmental challenges.

Samrang Pring/Reuters. Koh Kong province, in southwestern Cambodia.

The pace of global climate change has worsened, representing a fundamental threat to the planet’s health and environmental well-being. And there is little indication the world’s leaders are ready to meet the challenges of building an environmentally sustainable future.

But there is some good news to report — and it’s coming from the world’s forests, a critical front line in the effort to slow climate change and conserve biodiversity. In a largely unreported global movement, some 30 of the world’s most forested countries have adopted an innovative idea for protecting forests: granting ownership rights to communities that reside in them.

Almost 90 percent of the laws granting such rights have been passed since the first Earth Summit in 1992, demonstrating that a global consensus can produce real change. A new report from the Rights and Resources Initiative — a global coalition of organizations working for forest-use reforms — presents a growing body of evidence that in places where local communities have taken ownership of forests, the results have been overwhelmingly positive. Protected areas, owned by indigenous communities in Asia and Latin America, have lower rates of deforestation, forest fires and, above all, carbon emissions.

Since forests also provide for the livelihoods of tens, even hundreds, of millions of people, clarifying and recognizing ownership rights is helping to spur economic growth and raise living standards.

In Brazil, which is hosting the Rio+20 summit — formally the United Nations Conference on Sustainable Development — deforestation rates have significantly declined, even as incomes in indigenous forest communities have increased. Brazil has moved toward this goal by giving communities the legal protections to keep out ranchers, loggers and others seeking to destroy their forests.

Yet the progress we’ve seen across the globe has been uneven, and the potential to build on it stands at risk. As chronicled in the R.R.I. report, most of the new laws that recognize customary rights circumscribe those rights and are applied at limited scale.

In Africa, nearly eight out of 10 laws that recognize the rights of indigenous peoples and communities do not allow them to exclude outsiders — a critical element of land ownership. Even where legal rights exist, complicated bureaucratic procedures often make it difficult to realize them. In Mozambique, for example, to qualify for “community concessions” local communities must provide six copies of a topographical map identifying all the detailed geographical features of the land. Not surprisingly, in 2009 — a decade after the act was passed — no concessions had been granted.

Worse still, some of the countries with rights on the books now find themselves at the center of a growing and troubling land grab by commercial investors focused on clearing forests for agriculture, with little concern for the local communities that call them home.

Recent efforts by wealthy ranchers to weaken land rights in Brazil illustrate this growing threat. In the face of rising food, mineral and energy prices, this fierce competition for land will only increase, making the need for strongly established community rights more important than ever before.

For all of these reasons, Rio+20 must build on the success of its predecessor and serve as a new impetus to expand and strengthen community rights to the world’s forests.

This means ensuring that billions of hectares of forest are turned over to local communities; it means engaging with the private sector to help clarify groups’ rights to land and forest; and it means creating new public/private partnerships, such as those that have been used to combat other global issues like H.I.V.-AIDS and malaria, to build public support for ownership rights. Above all, it means ensuring that the rights already recognized by governments are fully realized in local communities.

Taking action on these fronts will set us on a powerful course for a more sustainable and equitable future — just as it did 20 years ago. Actions that simultaneously strengthen human rights and achieve sustainable development are an unusual win-win. The fact that they also help stop deforestation and climate change makes them an even more attractive and urgent option.

At a time when the struggle against global warming seems more daunting than ever, our two decade-long experience with community forestry shows that we have within our means the ability to turn the tide.

Luis Ubiñas is president of the Ford Foundation.

Sobrevivência com créditos de carbono (Terramérica)

Carbono
28/5/2012 – 09h57

por Fabíola Ortiz*

c17 300x240 TERRAMÉRICA   Sobrevivência com créditos de carbono

O cacique Almir Suruí (E) em sua aldeia. Foto: Divulgação Povo Paiter-Suruí.

Os paiter-suruí,  do Estado brasileiro de Rondônia, na Amazônia, preveem arrecadar pelo menos US$ 40 milhões nos próximos 30 anos com o serviço ambiental de restaurar e fazer uso sustentável da selva.

Rio de Janeiro, Brasil, 28 de maio de 2012 (Terramérica).- O povo nativo paiter-suruí, no coração da Amazônia brasileira, não tinha contato com o mundo ocidental até 45 anos atrás. Hoje, aposta nos complexos mercados de carbono para garantir sua sobrevivência. Habitantes do território Sete de Setembro, quase 250 mil hectares localizados entre os Estados de Rondônia e Mato Grosso, perto da fronteira com a Bolívia, os paiter-suruí viveram uma história vertiginosa nas últimas décadas.

Apenas três anos depois de seu primeiro contato com o “homem branco”, em 1969, quase chegaram à extinção: a população de cinco mil pessoas caiu para apenas 300 devido à mortandade causada pelas doenças trazidas pelos invasores. Hoje são cerca de 1.350 e estão determinados a perdurar. Suruí é o nome que os antropólogos lhes deram. Porém, entre si, eles se chamam paiter, “o povo verdadeiro, nós mesmos” na língua tupi-mondé que falam.

O negócio que pretendem é parte do Projeto de Carbono da Floresta Suruí, aprovado em abril, que prevê mecanismos para neutralizar as emissões de dióxido de carbono, como evitar o desmatamento, mantendo esse elemento na massa florestal, e absorvendo-o da atmosfera, mediante o reflorestamento. Estas ações estão previstas no regime de Redução de Emissões provocadas pelo Desmatamento e pela Degradação das Florestas (REDD+), impulsionado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como instrumento para mitigar a mudança climática.

A compra e venda de direitos de emissão de carbono, ou certificados de carbono, está prevista nos sistemas de controle da mudança climática para que empresas ou países grandes emissores de gases-estufa paguem a outros que possuem mecanismos para reduzi-las. Após décadas resistindo ao embate dos madeireiros, caçadores e colonos, desde 2005 os paiter-suruí plantaram 14 mil exemplares de 17 espécies, entre elas cacau e café, árvores de madeira nobre como mogno, cerejeira e ipê, e frutíferas como açaí, pupunha e babaçu.

“Queremos beneficiar nosso povo e nos desenvolvermos de acordo com nossa necessidade da região, valorizando produtos florestais. Uma política econômica verde é justamente um planejamento de uso sustentável”, disse ao Terramérica o líder deste povo, Almir Suruí, que também integra a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. O cacique Almir, de 38 anos, sempre está com seu corpo pintado e usa colares de sementes nativas feitos pelas mulheres de seu povo. E também veste roupa ocidental quando tem compromissos fora de sua aldeia, mas que não escondem totalmente a pintura corporal.

Antes de ficar conhecido no Brasil, obteve reconhecimento internacional por denunciar na Organização dos Estados Americanos (OEA) a exploração ilegal de madeira nas terras de seu povo e por defender os direitos e a integridade dos grupos em isolamento voluntário, além de lutar contra a construção de represas hidrelétricas nos rios de Rondônia. Para conseguir seus objetivos de sustentabilidade, os paiter-suruí trabalham associados com várias organizações não governamentais e instituições estatais, como o governamental Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), que facilita a criação de mecanismos financeiros e ferramentas que garantam renda para os paiter-suruí.

O projeto Carbono Suruí tem duração de três décadas para a conservação de uma área com mais de 12 mil hectares, segundo Angelo dos Santos, um dos coordenadores da Funbio. “Todos os anos os paiter-suruí asseguram um volume de carbono não emitido que será oferecido ao mercado”, explicou Angelo ao Terramérica. “Nos próximos 30 anos, a quantidade que o povo paiter-suruí acumulará pelo desmatamento evitado será de oito milhões de toneladas de dióxido de carbono. E assim se pagará aos indígenas por não desmatarem”, acrescentou. As estimativas indicam que podem arrecadar US$ 40 milhões pela cotação atual do mercado, que está em US$ 5 para cada tonelada de carbono.

Segundo Angelo, há várias formas de comercializar os certificados de carbono. Uma delas é que sejam comprados por empresas interessadas em neutralizar ou compensar suas próprias emissões desse gás-estufa. “Isto é uma grande inovação”, ressaltou. Os recursos obtidos pela venda de certificados serão destinados ao Fundo de Gestão Paiter-Suruí, oficializado no começo de maio para incentivar um plano de desenvolvimento e tornar viáveis formas de gerar renda sem destruir a selva.

Já são produzidas mais de quatro mil toneladas por ano de café orgânico e cerca de dez mil toneladas de castanha amazônica, contou o cacique. As duas produções já contam com planos de negócios. Enquanto isso, “o Fundo Paiter-Suruí vai arrecadar recursos próprios com doações de bancos multilaterais e empresas, e pela venda de certificados de carbono”, detalhou Angelo. A meta é captar US$ 6 milhões nos próximos três anos. E em seis anos o Fundo será completamente administrado pelos paiter-suruí, que já estão se capacitando para isso.

É, sob todos os aspectos, um caso excepcional. Trata-se do primeiro mecanismo financeiro criado para um povo indígena que quer garantir sua sobrevivência e a de sua cultura. Estas iniciativas valeram ao cacique Almir o 53º lugar entre as cem pessoas mais criativas para negócios em 2011, um ranking preparado pela revista norte-americana Fast Company. Não por acaso, Almir foi convidado este mês para falar sobre inovação para dirigentes empresariais e pesquisadores, em um encontro organizado pela revista britânica The Economist.

* A autora é correspondente da IPS.

Rio+20: ruptura ou ajuste? (Mundo Sustentável)

Se você entende que há alguma razão para a mudança, manifeste-se. A Rio+20 é uma obra em construção. Ainda há tempo.

Diante do risco de a mais importante conferência do ano se transformar em uma “terapia de grupo”, onde o falatório e a papelada possam resultar em um novo acordo político genérico, convém prestar atenção desde já no posicionamento dos diferentes segmentos que marcarão presença na Rio +20.

Reunidos na PUC-RJ durante a conferência, aproximadamente 500 cientistas deverão compartilhar novas avaliações sobre o estado de fragilidade e degradação dos ecossistemas que  fornecem água, matéria-prima e energia à humanidade. De lá deverá surgir mais um grito de alerta em favor da vida sem nenhuma conotação política ou religiosa. Quem usa a ciência para medir os estragos causados pelo atual modelo de desenvolvimento é basicamente um cético: se orienta apenas e tão somente pelas evidências que a metodologia científica lhe revela.

Os povos indígenas causarão enormes constrangimentos aos organizadores da Rio+20. Representantes das etnias que sobreviveram a sucessivos massacres no Brasil e no exterior denunciarão o absurdo do uso insustentável da terra.

Os empresários engajados exibirão os resultados contábeis da ecoeficiência e assumirão novos compromissos em defesa da inovação tecnológica e da redução do desperdício. Haverá entre eles os que fazem maquiagem verde (falam de “sustentabilidade”, mas não praticam), os neo-convertidos, que ajustaram procedimentos mais por conveniência (do que por convicção) e os que, de fato, estão convencidos da necessidade de mudanças e conseguem enxergar mais além do lucro imediato.

A constelação das ONGs deverá confirmar o tamanho e a diversidade das múltiplas correntes de pensamento que não cabem na moldura da ONU, mas que emprestam densidade e legitimidade a uma das pautas mais importantes da Rio+20: governança. Os tomadores de decisão já reconhecem a força do terceiro setor num mundo onde as articulações em rede robustecem a democracia, oxigenam as instituições e promovem a transparência e a justiça.

Caberá às organizações civis e às mídias (todas as mídias, de todos os tamanhos) aquecer a panela de pressão onde os chefes de estado vão cozinhar o texto final da Conferência. Sem isso, será mais do mesmo. Obnubilados pelos afazeres e interesses mais imediatos, de curtíssimo prazo, os chefes de estado não conseguirão justificar mudanças estruturais de longo prazo sem que haja uma boa razão para isso. Se você entende que há alguma razão para a mudança, manifeste-se. A Rio+20 é uma obra em construção. Ainda há tempo.

André Trigueiro

14.mar.2012

Artigo publicado na edição de março 2012 da Revista GQ

Mudando para que nada mude (Cineclube Ciência em Foco)

SEXTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2012

 “A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. […] A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas […] são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas”.

 

Renzo Taddei – Doutor em Antropologia pela Univ. de Columbia, pesquisador da Coordenação do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos da ECO-UFRJ e palestrante do Ciência em Foco de 2 de junho.

1) O personagem central do filme Árido Movie é um profissional que apresenta diariamente a previsão do tempo para o Brasil em uma rede de TV em São Paulo. Ao voltar para sua terra natal no sertão nordestino, ele se vê deslocado na fissura entre estes dois “nordestes”: o da previsão do tempo, distante e virtual, e o concreto. Diante dos vários contrastes com os quais se defronta, como podemos pensar seu deslocamento?

Essa fissura não se limita à questão do “nordeste”, mas é ainda mais importante, ainda que menos saliente, na própria questão do clima. Somos levados a crer todo o tempo que o clima que importa está em algum outro lugar, e que só é acessível através da mediação de especialistas e equipamentos. Obviamente isso ocorre de fato, mas há efeitos deletérios nessa alienação entre os indivíduos e o meio ambiente: a questão passa a ser entendida como problema distante, vivido apenas de forma abstrata. Isso gera a atitude caracterizada pela ideia de que “eu não tenho nada com isso” – o que é exatamente o que o personagem do filme diz à avó quando percebe que esta espera que ele vingue a morte do pai. De certa forma, ele vivia a sua própria relação familiar de forma alienada, como algo abstrato, virtual, e as contingências da vida o obrigam a enfrentar a incontornável materialidade dos contextos locais. A crise ambiental atual nos confronta com esta materialidade incontornável. Se o personagem vivesse as suas relações familiares de forma mais integral, talvez o destino de todos ali fosse outro. Há responsabilidades que nos implicam, mas que não escolhemos – algo difícil de aceitar no contexto liberal em que vivemos. Mas a analogia acaba por aqui: felizmente não há morte alguma a ser vingada na questão climática (ou haverá?).

2) O fenômeno climático da seca é recorrente na filmografia brasileira. Pode-se dizer que o cinema traz representações do meio ambiente que muitas vezes nos forçam a pensar seus elementos a partir de sua relação com a sociedade e a cultura. Sem entregar muito de sua fala, poderia comentar algo em torno desta relação? Qual a importância destas perspectivas e seu papel no cenário das discussões oficiais?

Mais do que a seca propriamente dita, o elemento que povoou a imaginação de escritores e artistas foi o “sertão”. Hoje, especialmente para as audiências do sudeste urbano, sertão é quase sinônimo de nordeste rural, mas no passado a situação era diferente. Há debates acadêmicos sobre de onde vem a palavra sertão: uma das hipóteses é que tem origem na palavra desertão, sugerindo a ideia de área remota e desolada; outra, sugere que a palavra vem de sertus, termo do latim que significa entrelaçado, enredado. Na história do Brasil, o sertão sempre foi o espaço refratário à penetração do poder oficial, das instituições de controle do Estado. Um dos lugares onde isso é mais claro é na obraGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A obra se ambienta toda em Minas Gerais, em uma região que não é semiárida como o sertão nordestino, e numa época onde sequer existia o “Nordeste”, mas tudo o que ficava acima da Bahia era considerado “Norte”. No início, o Brasil todo era sertão; com a expansão do Estado ao longo do século XX, houve uma redução considerável do território que pode ser considerado sertão, nos sentidos mencionados acima: praticamente toda a região sudeste, por exemplo, se “dessertaniza” à medida que o espaço passa a ser ocupado por cidades e atividade agrícola em larga escala.

Desta forma, na imaginação artística o sertão funcionou, ao longo dos últimos dois séculos, como o “outro mundo” onde há liberdade em contraposição aos controles que marcam as sociedades urbanas, e onde há mais autenticidade, o que pode ser encarado por um viés romântico (como vemos em José de Alencar, por exemplo) ou onde coisas impensáveis podem ocorrer, numa espécie de mirada conradiana [referente a elementos da obra do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924), autor de Coração das trevas]. Mesmo com o Cinema Novo, onde há uma sociologização mais intensa do sertão, esse não deixa de ser espaço de liberdade e experimentação, como vemos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Mas é preciso que se diga que isso tudo marca uma perspectiva de quem olha de fora. O sertão não é uma coisa, são muitas.

O que a seca faz, em certo sentido, é ressertanizarmomentaneamente um território dessertanizado, porque ela tem o potencial de desorganizar processos políticos e sociais locais, inclusive no que diz respeito às instituições oficiais de poder. Em lugares onde as variações climáticas (como as secas) são recorrentes, como no nordeste brasileiro, em geral as relações de poder locais existem de forma associada às epidemias de sofrimento trazidas pela seca. A infame indústria da seca é um exemplo disso. Mas há limites em quanto as sociedades e instituições locais conseguem se ajustar à variação do clima: secas muito intensas podem efetivamente colocar toda uma sociedade em situação de crise, como se vê atualmente nos sertões de Pernambuco e da Bahia.

Um segundo ponto da questão menciona a forma como o cinema nos faz pensar o meio ambiente em sua relação com sociedade e cultura. Há duas formas de relacionar natureza e sociedade que parecem ser recorrentes na experiência humana. Por um lado, usamos elementos da natureza para pensar relações sociais, coisa que na antropologia chamamos de totemismo. A forma como usamos figuras de animais para pensar torcidas de futebol (urubu, gaviões, porco etc), ou como destacamentos militares usam símbolos animais (a onça em quartéis na Amazônia), ou ainda quando nos referimos a qualidades pessoais através de imagens animais (ao dizer que alguém “é” uma cobra, um rato, ou uma anta), são exemplos disso. Por outro, projetamos na natureza elementos humanos, culturais e sociais, o que, por sua vez, é conhecido na antropologia como animismo. Desta forma, uma tempestade é “traiçoeira”, ou uma estação chuvosa, como ouvi várias vezes em pesquisa de campo no sertão do Ceará, pode ser “velhaca” (isto é, promete e não cumpre). O cinema naturalmente se utiliza disso tudo como recurso narrativo.

Além disso, nossa percepção do ambiente é visceralmente marcada por nossas perspectivas contextuais. Uma pesquisa que coordenei a respeito das respostas sociais e culturais às secas do ano de 2005 – um ano em que houve secas na Amazônia, no Nordeste e no sul do Brasil – mostrou que as populações locais não pensam o meio ambiente como algo desconectado das demais dimensões da vida; como tais dimensões são variáveis, a percepção do ambiente o é também. Os resultados da pesquisa foram publicados no livroDepois que a chuva não veio, disponível em texto integral na Internet. O problema é que os governos centrais, como o federal, no Brasil, têm a tendência a homogeneizar tudo com o qual se relacionam, ignorando os contextos locais; e a ciência climática tende a pregar que o contexto local e o clima não têm relação causal direta (especialmente quando estão contestando a capacidade do conhecimento tradicional de produzir previsões climáticas válidas). No que diz respeito às relações entre sociedade e clima, vivemos uma situação verdadeiramente neurótica. O meio ambiente pode inclusive ser uma forma de eufemizar uma discussão demasiadamente sensível em termos políticos e sociais. Um manual de infoativismo editado na Inglaterra, por exemplo, sugere que personagens em forma de animais sejam usados em campanhas públicas em que questões politicas sensíveis dificultem a comunicação através de exemplos humanos.

As discussões oficiais são, infelizmente, demasiadamente economicistas e unilineares, presas a um utilitarismo frustrante, para levar qualquer dessas questões a sério.

3) No mês de junho, o Rio de Janeiro sediará a Rio+20, a conferência das Nações Unidas em torno do desenvolvimento sustentável, que articulará líderes mundiais em discussões que convidam à cooperação mundial para a melhoria de problemas sociais. Tendo em vista o cenário de mudanças climáticas, como abordar a participação social nestas discussões, face às diferenças culturais que estão em jogo?

As diferenças culturais não devem ser entendidas como obstáculo às ações relacionadas à crise ambiental. Pelo contrário, são recursos importantes. É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, e ao mesmo tempo a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio, por exemplo, para que “entendam” os efeitos deletérios de algumas de suas práticas cotidianas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso foco em informação e no pensamento, ou seja, ao diagnosticar tudo como “falta de informação” ou diferentes “formas de pensar”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões morais e éticas nos escapam muito facilmente.

A ideia de que diferenças culturais dificultam a construção de um entendimento mundial sobre as questões ambientais em geral, e sobre a questão climática, em particular, me assusta. A própria ideia de “entendimento mundial” em torno do meio ambiente evoca perigosamente um centralismo pouco democrático. Nunca na história da humanidade houve uma tentativa tão articulada para a criação de um discurso único sobre o meio ambiente. A polarização política que se vê nos Estados Unidos, em torno da questão climática, é uma farsa: o comportamento do partido republicano mostra com clareza que se trata de uma disputa pelo poder, onde os envolvidos se comportam estrategicamente e defendem qualquer posição que maximize suas chances de vitória. E, acima de tudo, apresentam o problema climático como se houvesse apenas duas alternativas – aceitar ou negar o efeito das ações humanas nas mudanças climáticas –, mas as duas são validadas dentro do mesmo paradigma ocidental, exacerbadamente materialista e utilitarista. E as outras formas de pensamento e de vida, outras epistemologias e ontologias? Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, é preciso aprender a pensar “com” os outros. Segundo o pensamento ameríndio, por exemplo, ao invés de tomar os humanos como excepcionais em sua humanidade, há a ideia de que a humanidade é a essência comum de todos os seres vivos. Que tipo de ética e moralidade decorre dai, na relação entre humanos e não humanos? Não se trata de romantizar as formas indígenas de vida, mas apenas de mostrar como outros pensamentos são extremamente interessantes na abordagem dos problemas ambientais.

No meu entender, o que sobressai nesta questão da participação social e da multiplicidade cultural é o fato de que é preciso que os ocidentais, e nós, ocidentalóides, entendamos que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais, por exemplo, não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns”, por exemplo, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade. A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas (ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele, por exemplo), são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas.

4) Contraplanos – expresse em poucas palavras (ou apenas uma) sua sensação com relação aos sentidos e problemáticas evocadas pelas seguintes palavras:

– tempo e clima: clima é um ponto de vista[1]; tempo é a vista (a partir) de um ponto[2] (notas: [1] Clima é “ponto de vista” no sentido de que trata-se de uma construção abstrata, resultante de cálculos estatísticos sobre medições de indicadores atmosféricos em intervalos amplos de tempo, e onde as técnicas estatísticas, o termômetro e outros mediadores técnicos têm tanta importância quanto a vibração das partículas que o termômetro busca medir; [2] tempo, no sentido dado ao conceito pela meteorologia, é o fenômeno atmosférico que existe num prazo de tempo mais curto, e portanto tende a fazer referência ao fenômeno em si, enquanto singularidade experiencial, ou seja, coisas que vivemos e lembramos, porque nos afetam num tempo e espaço específicos, e desta forma são a experiência a partir de um ponto).

 – sustentabilidade: o que exatamente se está tentando sustentar? Precisamos pensar a “mutabilidade” tanto quanto sustentabilidade. É muito difícil mudar o (insustentável) sistema econômico em que nos encontramos, e é preciso atentar para o fato de que, sob a fachada de “sustentabilidade”, há um esforço imenso de mudar apenas o que é necessário para que nada mude no final. O mercado de carbono é o exemplo paradigmático disso. Ou seja, em geral os debates sobre sustentabilidade (e sobre adaptação, resiliência etc.) são conservadores e insuficientes.

– construção social: já não há mais muita clareza a respeito do que significa tal associação de termos (o que é bom). Se tudo é construção social, a ideia deixa de ser relevante, porque não explica muita coisa. Tudo está em fluxo; se é “construção”, e se é “social”, depende de qual jogo semântico se está jogando. A expressão diz mais a respeito de quem usa a expressão do que sobre o fenômeno em questão. Tenho a impressão que dizer que o clima, por exemplo, é uma “construção social” constitui uma forma de evitar levar o clima a sério – e aqui estou repetindo ideias de autores como Bruno Latour ou Roy Wagner, por exemplo.

– ciência e cultura: há muito menos clareza a respeito do que significam tais termos (o que é melhor ainda). Num sentido mais propriamente filosófico, são duas ideias que morreram no século XX. Ou seja, tanto a Ciência como a Cultura, assim com “c” maiúsculo, que constituíam o santo graal do pensamento acadêmico Europeu dos séculos XIX e grande parte do XX se mostraram quimeras, principalmente em função dos trabalhos de gente como Heidegger, Merleau-Ponty, Wittgenstein, Gadamer, dentre muitos outros. Sobraram “ciências” e “culturas” com “c” minúsculo, ou seja, tais conceitos se transformaram em problemas empíricos. Puxando a sardinha pro meu lado (risos), se tornaram problemas antropológicos.

5) Roteiros alternativos – espaço dedicado à sugestão de links, textos, vídeos, referências diversas de outros autores/pesquisadores que possam contribuir com a discussão. Para encerrar essa sessão, transcreva, se quiser, uma fala de um pensador que o inspire e/ou seu trabalho.

No meu blog Uma (In)certa Antropologia (http://umaincertaantropologia.org) mantenho um arquivo de notícias e materiais acadêmicos sobre as relações entre cultura, sociedade e o clima. Há lá uma gravação em áudio de uma apresentação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro que toca no tema das mudanças climáticas como crise do Ocidente, e como outros povos e outras culturas se relacionam com isso, que vale a pena ser ouvida. Ela está no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/ViveirosdeCastro_IFCS_20111123.wav.

O livro Depois que a chuva não veio, mencionado acima, está disponível no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/DQACNV.htm.

O documentário “10 tacticts for turning information into action”, também mencionado acima, está no site http://informationactivism.org/original_10_tactics_project#viewonline, com subtítulos em português – o exemplo de uso de animais como personagens está na tática número 3.

Há um vídeo provocativo do Slavok Žižek, cujo título éEcology as Religion, que evoca discussões importantes sobre como o meio ambiente existe no senso comum e nas discussões políticas. O video está reproduzido em https://umaincertaantropologia.org/2012/04/12/slavoj-zizek-on-ecology-as-religion-youtube/

6) Como conhecer mais de suas produções?

Há uma lista de artigos acadêmicos e também escritos para jornais e revistas em meu website, no link http://www.taddei.eco.ufrj.br/Textos.htm

The Beginning of the End of the Census? (N.Y.Times)

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Published: May 19, 2012

THE American Community Survey may be the most important government function you’ve never heard of, and it’s in trouble.

This survey of American households has been around in some form since 1850, either as a longer version of or a richer supplement to the basic decennial census. It tells Americans how poor we are, how rich we are, who is suffering, who is thriving, where people work, what kind of training people need to get jobs, what languages people speak, who uses food stamps, who has access to health care, and so on.

It is, more or less, the country’s primary check for determining how well the government is doing — and in fact what the government will be doing. The survey’s findings help determine how over $400 billion in government funds is distributed each year.

But last week, the Republican-led House voted to eliminate the survey altogether, on the grounds that the government should not be butting its nose into Americans’ homes.

“This is a program that intrudes on people’s lives, just like the Environmental Protection Agency or the bank regulators,” said Daniel Webster, a first-term Republican congressman from Florida who sponsored the relevant legislation.

“We’re spending $70 per person to fill this out. That’s just not cost effective,” he continued, “especially since in the end this is not a scientific survey. It’s a random survey.”

In fact, the randomness of the survey is precisely what makes the survey scientific, statistical experts say.

Each year the Census Bureau polls a representative, randomized sample of about three million American households about demographics, habits, languages spoken, occupation, housing and various other categories. The resulting numbers are released without identifying individuals, and offer current demographic portraits of even the country’s tiniest communities.

It is the largest (and only) data set of its kind and is used across the federal government in formulas that determine how much funding states and communities get for things like education and public health.

For example, a question on flush toilets — one that some politicians like to cite as being especially invasive — is used to help assess groundwater contamination for rural parts of the country that do not have modern waste disposal systems, according to the Census Bureau.

Law enforcement agencies have likewise used the data to predict criminal activities like methamphetamine production.

Their recent vote aside, members of Congress do seem to realize how useful these numbers are. After all, they use the data themselves.

A number of questions on the survey have been added because Congress specifically demanded their inclusion. In 2008, for example, Congress passed a lawrequiring the American Community Survey to add questions about computer and Internet use. Additionally, recent survey data are featured on the Web sites of many representatives who voted to kill the program — including Mr. Webster’s own home page.

The legislation is expected to go to the Senate this week, and all sorts of stakeholders are coming out of the woodwork.

“Knowing what’s happening in our economy is so desperately important to keeping our economy functioning smoothly,” said Maurine Haver, the chief executive and founder of Haver Analytics, a data analysis company. “The reason the Great Recession did not become another Great Depression is because of the more current economic data we have today that we didn’t have in the 1930s.”

She added that having good data about the state of the economy was one of America’s primary competitive advantages. “The Chinese are probably watching all this with glee,” she said, noting that the Chinese government has also opted not to publish economic data on occasion, generally when the news wasn’t good.

Other private companies and industry groups — including the United States Chamber of Commerce, the National Retail Federation and the National Association of Home Builders — are up in arms.

Target recently released a video explaining how it used these census data to determine where to locate new stores. Economic development organizations and otherbusiness groups say they use the numbers to figure out where potential workers are.

Mr. Webster says that businesses should instead be thanking House Republicans for reducing the government’s reach.

“What really promotes business in this country is liberty,” he said, “not demand for information.”

Mr. Webster and other critics have gone so far as to say the American Community Survey is unconstitutional. Of course, the basic decennial census is specifically enumerated in the United States Constitution, and courts have ruled that this longer form of the census survey is constitutional as well.

Some census watchers — like Andrew Reamer, a research professor at the George Washington University Institute of Public Policy — say they do not expect the Senate to agree on fully eliminating the American Community Survey (as well as the Economic Census, which would also be effectively destroyed by the House bill).

Rather, Mr. Reamer suspects, Republicans may hope that when the Senate and House bills go to a conference committee, a final compromise will keep the survey, but make participation in it voluntary. Under current law, participation is mandatory.

If the American Community Survey were made voluntary, experts say, the census would have to spend significantly more money on follow-up phone calls and in-person visits to get enough households to answer.

But Congress also plans to cut the census budget, making such follow-ups prohibitively expensive.

“If it’s voluntary, then we’ll just get bad data,” saidKenneth Prewitt, a former director of the census who is now at Columbia University’s School of International and Public Affairs. “That means businesses will make bad decisions, and government will make bad decisions, which means we won’t even know where we actually are wasting our tax dollars.”

Catherine Rampell is an economics reporter for The New York Times.

Walter Neves: o pai de Luzia (Fapesp)

Arqueólogo e antropólogo da USP conta como formulou uma teoria sobre a chegada do homem às Américas

MARCOS PIVETTA e RICARDO ZORZETTO | Edição 195 – Maio de 2012

© LEO RAMOS

Ele é o pai de Luzia, um crânio humano de 11 mil anos, o mais antigo até agora encontrado nas Américas, que pertenceu a um extinto povo de caçadores-coletores da região de Lagoa Santa, nos arredores de Belo Horizonte. O arqueólogo e antropólogo Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), não foi o responsável por ter resgatado esse antigo esqueleto de um sítio pré-histórico, mas foi graças a seus estudos que Luzia, assim batizada por ele, tornou-se o símbolo de sua polêmica teo-ria de povoamento das Américas: o modelo dos dois componentes biológicos.Formulada há mais de duas décadas, a teoria advoga que nosso continente foi colonizado por duas levas de Homo sapiensvindas da Ásia. A primeira onda migratória teria ocorrido há uns 14 mil anos e fora composta por indivíduos parecidos com Luzia, com morfologia não mongoloide, semelhante à dos atuais australianos e africanos, mas que não deixaram descendentes. A segunda leva teria entrado aqui há uns 12 mil anos e seus membros apresentavam o tipo físico característico dos asiáticos, dos quais os índios modernos derivam.

Nesta entrevista, Neves, um cientista tão aguerrido como popular, que gosta de uma boa briga acadêmica, fala de Luzia e de sua carreira.

Como surgiu seu interesse por ciência?
Venho de uma família pobre, de Três Pontas, Minas Gerais. Por alguma razão, aos 8 anos, eu já sabia que queria ser cientista. As 12 anos, que queria trabalhar com evolução humana. Não tenho explicação para isso.

Quando você veio para São Paulo?
Foi em 1970, depois da Copa. Migramos para São Bernardo, onde morei grande parte da minha vida.

Como era sua vida?
Todo mundo em casa tinha que trabalhar. A família era pequena. Era meu pai, minha mãe, eu e meu irmão, três anos mais velho. Quando chegamos a São Paulo, meu pai era pedreiro e minha mãe vendia Yakult na rua. Eu tinha de 12 para 13 anos. Um ano depois de chegar aqui, comecei a trabalhar. Vendia massas uma vez por semana numa barraca de feirantes do meu bairro. Meu primeiro emprego fixo foi de ajudante-geral na Malas Primicia, para fazer fechadura de mala. E eu odiava. Era chato, não exigia qualificação. Durou pouco. Um mês depois fui contratado na fábrica de turbinas de avião da Rolls-Royce, em São Bernardo. Eu me beneficiei muito desse ambiente, que era refinado, cheio de regras e de valorização da hierarquia. Acho que desenvolvi minha excelente capacidade administrativa nos anos que passei na Rolls-Royce. Tive uma formação burocrática de primeira. Todos os dias, quando a gente chegava à fábrica, tinha um quadro da rainha da Inglaterra e a gente tinha que fazer mesura. Eu achava o máximo. Para quem vivia no mato, era um upgrade de glamour na vida. Tinha de 13 para 14 anos.

O que fazia?
Comecei como office-boy e quando saí era assistente da diretoria técnica. A Rolls-Royce no Brasil recebia as turbinas para fazer reparos e revisão geral. Meu chefe era diretor dessa parte e eu o ajudava em tudo. Trabalhava oito horas por dia e estudava à noite. Estudei em escola pública e entrei na USP, em biologia, em 1976. Tínhamos um ensino médio público de excelente nível.

Por que escolheu biologia?
Sempre achei que o caminho para estudar evolução humana era estudar história. Numa visita à USP no colegial, conheci o Instituto de Pré-história, que não existe mais. O instituto fora fundado por Paulo Duarte e funcionava no prédio da Zoo-logia, onde hoje fica a Ecologia. Nessa visita, fui ao prédio da História atrás de informação sobre o curso e me disseram que, se eu fizesse história, não aprenderia nada sobre evolução humana. Descendo a rua do Matão, vi numa plaquinha escrito Instituto de Pré-história, onde conheci a arqueó-loga Dorath Uchôa. Lá vi as réplicas de hominídeos fósseis e esqueletos pré-históricos escavados nos sambaquis da costa brasileira. Então disse para Dorath: “Quero fazer arqueologia e estudar esqueleto”. E ela disse: “Não faça história. Ou você faz biologia ou medicina”. Medicina não dava porque era em tempo integral. Optei por biologia. Foi um bom negócio. Em 1978 fui contratado, ainda na graduação, pelo Instituto de Pré-história como técnico.

Você estava em que ano da faculdade?
Do segundo para o terceiro, acho. Quando concluí a licenciatura em 1980, fui contratado como pesquisador e professor. Não tinha concurso. Era indicação.

Era um instituto independente?
Sim. Depois foi anexado ao Museu de Arqueologia e Etnologia, o MAE. Na época se fazia arqueologia em três lugares na USP: no Instituto de Pré-história, o mais antigo, no MAE e no setor de arqueologia do Museu Paulista, no Ipiranga. No final dos anos 1980, os três foram unidos em um só. Trabalhei no Instituto de Pré-história como pesquisador de 1980 a 1985. Em 1982 fui fazer doutorado sanduíche na Universidade Stanford. Eu era autodidata, porque não havia no Brasil especialista nessa área. No Instituto de Pré-história, o material estava lá, a biblioteca estava lá, mas não havia quem me orientasse.

Eles não trabalhavam com evolução humana?
O instituto era muito pequeno, tinha dois pesquisadores, que se achavam donos daquilo. Quando fui contratado, outra arqueóloga, a Solange Caldarelli, também foi contratada. Formamos um par muito produtivo. Trabalhamos no interior de São Paulo com grupos de caçadores-coletores, na faixa cronológica dos 3 mil aos 5 mil anos. Foi com ela que me tornei um arqueólogo. Minha transformação de biólogo para antropólogo físico foi autodidata. O crescimento do nosso grupo de pesquisa começou a expor a mediocridade do trabalho feito no Instituto de Pré-história e no Brasil. Isso levou a uma guerra entre nós e o establishment. Em 1985 fomos expulsos da universidade.

Como assim?
Expulsos. Demitidos sumariamente.

O que alegavam?
Nada. Não tínhamos estabilidade. A maior parte dos docentes era contratada a título precário e fomos chutados do Instituto de Pré-história pelo pessoal mais velho.

Qual a diferença do antropólogo físico e do arqueólogo? Você se considera o que hoje?
Me considero antropólogo e arqueólogo. Na verdade me considero uma categoria que tem nos Estados Unidos e se chama evolutionary anthopologyst, antropólogo evolutivo. Mesmo entre os antropólogos evolutivos são raros os que têm uma trajetória em antropologia física, arqueologia e antropologia sociocultural. Nesse sentido tenho uma carreira única, que os meus colegas no exterior não entendiam. Eu fazia antropologia física e antropologia biológica e tinha projetos de arqueologia. Quando fui para a Amazônia, trabalhei com antropologia ecológica. Sou uma das únicas pessoas no mundo que passou por todas as antropologias possíveis. Se por um lado não sou bom em nenhuma delas, por outro eu tenho uma compreensão do humano muito mais multifacetada do que meus colegas.

O arqueólogo faz o trabalho de campo e o antropólogo físico espera o material?
O antropólogo físico pode ir a campo, mas não vai. Espera os arqueólogos entregarem o material para ele estudar. Me rebelei contra isso no Brasil. Falei: quero ser arqueólogo também. Nos Estados Unidos, no final dos anos 1980, se definiu uma área chamada bioarqueologia, composta por antropólogos físicos que não aguentavam mais ficar na dependência dos arqueólogos. Aqui de maneira independente me rebelei contra essa situação. E a demissão do instituto em 1985 foi traumática porque tínhamos sete anos de pesquisa de campo e perdemos tudo. De uma hora para outra minha carreira foi zerada. A sorte é que àquela altura eu tinha defendido meu doutorado.

Aqui?
Aqui na Biologia, mas sobre paleogenética. Fui para Stanford por meio de uma bolsa sanduíche de seis meses do CNPq. Para me manter em Stanford e em Berkeley, eu contava com meu salário daqui, na época dava US$ 250, e o [Luigi Luca] Cavalli-Sforza, com quem trabalhei, me pagava no laboratório mais US$ 250.

Ele é um grande pesquisador, mas da genética de populações.
Me perguntam por que não fui trabalhar com um antropólogo físico, se eu era autodidata na parte osteológica. Não fui porque o que o Cavalli-Sforza faz é fascinante. Ele une várias áreas do conhecimento. Na época eu estava matriculado no mestrado na Biologia, quem me orientava aqui era o [Oswaldo] Frota-Pessoa.

Que também é da genética.
Da genética, mas com uma visão muito abrangente do ser humano. Se o Frota não existisse, eu não teria conseguido fazer o mestrado. Ele percebeu minha situação e foi muito generoso. Quando eu estava terminando o trabalho em Stanford, o Cavalli-Sforza descobriu que eu estava fazendo mestrado, e não doutorado. Ele olhava para mim e dizia: “Como você pode estar fazendo mestrado se já tem diversas publicações, coordena dois projetos de arqueologia e tem sete estudantes? Não tem sentido. Vou mandar uma correspondência para o Frota-Pessoa sugerindo que você faça direto o doutorado”. Hoje isso é comum. Foi o que me salvou. Defendi o doutorado em dezembro de 1984 e, meses depois, fui demitido. A Solange Caldarelli saiu tão enojada com a academia que nunca mais quis saber de carreira universitária. Eu queria voltar para a academia. Aí surgiram três possibilidades. Uma era fazer um pós-doc em Harvard; outra um pós-doc na Universidade Estadual da Pensilvânia e uma terceira coisa, inesperada. Quando eu fui demitido disse para o Frota que ia para o exterior. Sabia que a minha condição ia ser sempre conflituosa com a arqueologia brasileira. Nessa época existia o programa integrado de genética, do CNPq, importante para o desenvolvimento da genética no Brasil, e o Frota coordenava alguns cursos itinerantes. Aí o Frota disse: “Agora que a gente ia ter um especialista em evolução humana você vai embora. Eu entendo, mas eu vou te convidar para, antes de ir para o exterior, você dar um curso itinerante pelo Brasil sobre evolução humana”. Dei o curso na Universidade Federal da Bahia, na Federal do Rio Grande do Norte, no Museu Goeldi e na Universidade de Brasília. Fiquei muito bem impressionado com o Goeldi. No último dia de curso no Goeldi, o diretor quis me conhecer. Falei da minha trajetória e que estava indo para os Estados Unidos. Ele me perguntou: “Não tem nada que possa demover você dessa ideia?” Eu disse: “Olha, Guilherme”, o nome dele é Guilherme de La Penha, “a única coisa que me faria ficar no Brasil seria ter a oportunidade de criar meu próprio centro de estudos, que pudesse ser interdisciplinar e não estivesse ligado nem à antropologia, nem à arqueologia”. E ele me convidou para criar lá o que na época se chamou de núcleo de biologia e ecologia humana. Aconteceu também uma coisa no nível pessoal que me levou a optar por Belém.

Isso em 1985?
Ainda em 1985. Um pouco antes de eu dar esse curso pelo Brasil, eu me apaixonei profundamente pela primeira vez. Me apaixonei pelo Wagner, a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Se fosse para os Estados Unidos, dificilmente conseguiria levá-lo. Em Belém, seria mais fácil arrumar um emprego para ele e continuar o relacionamento. Por isso aceitei a ida para o Goeldi. Só que tive de me afastar dos esqueletos. Na Amazônia a última coisa do mundo que se pode fazer é trabalhar com esqueletos, porque eles não se preservam.

O que você fazia?
Comecei a me dedicar à antropologia ecológica.

E o que é antropologia ecológica?
Ela estuda as adaptações de sociedades tradicionais ao ambiente. Até então, era uma linha que os americanos trabalhavam muito na Amazônia. Como a nossa antropologia aqui é eminentemente estruturalista, e tem urticária de alguma coisa que seja biológica, essa linha nunca progrediu no Brasil. Aí pensei: “Bárbaro, vou comprar outra briga. Vou formar uma primeira geração em antropologia ecológica”. Grande parte das pesquisas sobre antropologia ecológica na Amazônia era feita com indígenas. Então decidi estudar as populações caboclas tradicionais.

Vocês publicaram um livro, não?
Publicamos a primeira grande síntese sobre a adaptação cabocla na Amazônia, que saiu aqui e no exterior. Coloquei alunos que trabalharam comigo na Amazônia para fazer doutorado no exterior.

Quais conclusões você destaca dessa síntese?
Estudando essas populações amazônicas tradicionais, ficou claro que todo mundo que chega lá, as ONGs principalmente, acha que eles têm problema de nutrição. De fato, eles têm um déficit de crescimento em relação aos padrões internacionais. Mas nosso trabalho mostrou que na verdade eles não têm deficiência de ingestão de carboidratos e de proteínas. O problema é parasitose.

Como você retornou para a USP?
Em 1988, pouco depois de mudar para a Amazônia, o Wagner foi diagnosticado  com Aids, e fizemos um trato. Quando ele chegasse na fase terminal, voltaríamos para São Paulo. Vim fazer um pós-doc na antropologia. Quando o Wagner morreu, em 1992, eu não queria mais voltar para a Amazônia e prestei dois concursos.

Você fazia pós-doc em antropologia na USP?
Sim, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Aí prestei dois concursos. Um na Federal de Santa Catarina, na área de antropologia ecológica, mas eu queria ficar em São Paulo. Como eu já tinha feito em 1989 a primeira descoberta do que se tornou o meu modelo de ocupação das Américas, pensei: “Tenho que ir para um lugar em que possa me dedicar a isso e voltar a me concentrar em esqueletos humanos”. Aí surgiu uma vaga aqui no departamento, na área de evolução. Passei em ambos os lugares, mas optei por aqui. Sabia que poderia criar um centro de estudos evolutivos humanos que tivesse arqueologia, antropologia física, antropologia ecológica.

Como teve a ideia de criar  um modelo alternativo de colonização das Américas?
Um dia, o Guilherme de La Penha, diretor do Goeldi, me chamou e disse: “Olha, Walter, daqui a uma semana tenho de ir a um congresso em Estocolmo sobre arqueologia de salvamento. Preciso que você me substitua”. Eu disse: “Mas assim, em cima da bucha?” Então lembrei que Copenhague fica na rota de Estocolmo. Negociei com ele a permissão para passar uns cinco dias em Copenhague e conhecer a coleção Lund. Fiz a viagem e não só conheci como medi os crânios de Lagoa Santa da coleção Lund. Quando voltei, falei com um pesquisador da Argentina que passava um tempo no Goeldi, o Hector Pucciarelli, meu maior parceiro de pesquisa e o mais importante bioantropólogo da América do Sul. Propus que fizéssemos um trabalhinho com esse material. Na época estavam surgindo os trabalhos de Niède Guidon com conclusões que me pareciam loucura, como dizer que o homem estava nas Américas havia 30 mil anos. Minha ideia no trabalho sobre os crânios de Lund era mostrar que os primeiros americanos não eram diferentes dos índios atuais. Bom, imagina nossa cara quando vimos que os crânios de Lagoa Santa eram mais parecidos com os australianos e os africanos do que com os asiáticos. Entramos em pânico. Vimos que precisávamos de um modelo para explicar isso.

O que vocês fizeram então?
Alguns autores clássicos, dos anos 1940 e 1950, como o antropólogo francês Paul Rivet, já haviam reconhecido uma similaridade entre o material de Lagoa Santa e o da Austrália. Só que o Rivet propôs uma migração direta da Austrália para a América do Sul para explicar a semelhança. Mais tarde, com o avanço dos estudos de genética indígena, principalmente com o trabalho do (Francisco) Salzano, ficou claro que todos os marcadores genéticos daqui apontavam para a Ásia. Não havia similaridade com os australianos. Pensamos então em criar um modelo que explorasse essa dualidade morfológica. Não queríamos cair em desgraça como o Rivet e começamos a estudar a ocupação da Ásia. Descobrimos que lá, no final do Pleistoceno, também havia uma dualidade morfológica. Havia os pré-mongoloides e os mongoloides. Nossas populações de Lagoa Santa eram parecidas com os pré-mongoloides. Os índios atuais são parecidos com os mongoloides. Foi daí que surgiu a ideia de que a América foi ocupada por duas levas distintas: uma com morfologia generalizada, parecida com os africanos e os australianos; e outra parecida com os asiáticos. Nosso primeiro trabalho foi publicado na revista Ciência e Cultura, em 1989. A partir de 1991 começamos a publicar no exterior.

Você então formulou esse modelo antes de examinar o crânio da Luzia.
Dez anos antes. No Brasil vários museus tinham acervos da região de Lagoa Santa. Mas, como eu era o enfant gâté da arqueologia brasileira, não me davam acesso às coleções. Por isso fui estudar a coleção Lund. Só passei a ter acesso às coleções no Brasil a partir de 1995, quando algumas das pessoas que colocavam barreiras morreram. Um dos crânios que eu tinha mais curiosidade de estudar era o da Luzia.

Já tinha esse nome?
Não. Eu é que dei. A gente conhecia como esqueleto da Lapa Vermelha IV, nome do sítio em que foi encontrado. O sítio foi escavado pela missão franco-brasileira, coordenada pela madame Annette Emperaire. O esqueleto da Luzia foi achado nas etapas de 1974 e 1975. Mas a madame Emperaire morreu inesperadamente. Com exceção de um artigo que ela publicou, não tinha mais nada escrito sobre a Lapa Vermelha.

No artigo ela falava que o crânio era antigo?
Madame Emperaire achava que havia dois esqueletos na Lapa Vermelha: um mais recente e outro mais antigo, datado de mais de 12 mil anos, antes da cultura Clovis, ao qual pertenceria o crânio da Luzia. Só que o André Prous (arqueólogo francês que participou da missão e hoje é professor da UFMG) revisou as anotações dela e percebeu que o crânio era do esqueleto mais recente, que estava cerca de um metro acima. Luzia não foi sepultada, foi depositada no chão do abrigo, numa fenda. Prous demonstrou que o crânio tinha rolado e caído num buraco de uma raiz de gameleira que tinha apodrecido. Portanto, o crânio pertencia a esses restos que estavam na faixa dos 11 mil anos de idade. Madame Emperaire morreu acreditando que tinha encontrado uma evidência pré-Clovis na América do Sul, o crânio que apelidei de Luzia.

Onde estava o crânio da Luzia quando você o examinou?
Sempre esteve no Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas as informações não. O museu era a instituição parceira da missão francesa.

O povo de Luzia era restrito a Lagoa Santa?
Lagoa Santa é uma situação excepcional. No artigo síntese do meu trabalho, que publiquei em 2005 na revista PNAS, usamos 81 crânios da região. Para se ter uma ideia de como são raros os esqueletos com mais de 7 mil anos no nosso continente, os Estados Unidos e o Canadá, juntos, têm cinco. Temos o que chamamos de fossil powerno que se refere à questão da origem do homem americano. Estudei também algum material de outras partes do Brasil, do Chile, do México e da Flórida e demonstrei que a morfologia pré-mongoloide não era uma peculiaridade de Lagoa Santa. Acredito que os não mongoloides devem ter entrado lá em cima por volta de uns 14 mil anos e os mongoloides por volta de 10 ou 12 mil anos. Na verdade, a morfologia mongoloide na Ásia é muito recente. Imagino que, entre uma e outra, não deve ter mais do que 2 ou 3 mil anos de diferença. Mas é puro chute.

Dois ou 3 mil anos são o suficiente para mudar o fenótipo?
Foram o suficiente para mudar na Ásia. Hoje está mais ou menos claro que a morfologia mongoloide é resultado da exposição das populações que saíram da África, com uma morfologia tipicamente africana, e se submeteram ao frio extremo da Sibéria. Meu modelo não é totalmente aceito por alguns colegas, inclusive argentinos. Eles acham que o processo de mongolização ocorreu na Ásia e na América de forma paralela e independente. Não vamos resolver o assunto por falta de amostras. Mas, em evolução, a gente sempre opta pela lei da parcimônia. Você escolhe o modelo que envolve o menor número de passos evolutivos para explicar o que encontrou. Pela regra da parcimônia, meu modelo é melhor do que outros, que dependem de ter havido dois eventos evolutivos paralelos e independentes. Mas há oposição ao meu modelo.

De quem?
Dos geneticistas. Mas acho que não dá para enterrar o meu modelo com esse tipo de dado. Não há razão para o DNA mitocondrial, por exemplo, se comportar evolutivamente do mesmo jeito que a morfologia craniana. Onde geneticistas veem certa homogeneidade do ponto de vista do DNA, posso encontrar fenótipos diferentes.

Também tem o argumento de que teria havido uma só leva migratória para as Américas, já composta por uma população com tipos mongoloides e não mongoloides como Luzia.
Existe essa terceira possibilidade. Mas teria que ter havido uma taxa de deriva genética assombrosa para explicar a colonização dessa forma. Por que teria desaparecido um fenótipo e ficado apenas o outro? Das opções ao meu modelo, acho essa a mais fraca.

Mas como você explica o desaparecimento da morfologia de Luzia?
Na verdade, descobrimos nos últimos anos que ela não desapareceu. Quando propusemos o modelo, achávamos que uma população tinha substituído a outra. Mas em 2003 ou 2004 um colega argentino mostrou que uma tribo mexicana que viveu isolada do resto dos índios, num território hoje pertencente à Califórnia, manteve a morfologia não mongoloide até o século XVI, quando os europeus chegaram pelo mar. Estamos descobrindo também que os índios botocudos, do Brasil Central, mantiveram essa morfologia até o século XIX. Quando se estuda a etnografia dos botocudos, vê-se que eles se mantiveram como caçadores-coletores até o fim do século XIX. Estavam cercados por outros grupos indígenas, com os quais tinham relação belicosa. O cenário foi esse. Sobrou um pouquinho da morfologia não mongoloide até recentemente.

O que você acha do trabalho da arqueóloga Niède Guidon no Parque Nacional Serra da Capivara? Para ela, o homem chegou ao Piauí há 50 mil, talvez 100 mil anos.
Mas cadê as publicações? Ela publicou uma nota na Nature nos anos 1990 e estamos esperando as publicações. Eu e a Niède fomos inimigos mortais por 20 anos. Uns anos atrás, a gente fumou o cachimbo da paz. Já estive no Piauí algumas vezes e até publicamos trabalhos sobre esqueletos de lá. No parque havia as duas morfologias de crânio. É muito interessante. Tive uma boa formação em análise de indústria da pedra lascada. A Niède abriu toda a coleção lítica para mim e o Astolfo Araujo (hoje no MAE). Saí 99,9% convencido do fato de que houve ali uma ocupação humana com mais de 30 mil anos. Mas tenho esse 0,1% de dúvida, que é muito significativo.

O que seria preciso para acabar com a dúvida?
A Niède deveria convidar os melhores especialistas internacionais em tecnologia lítica para ver o material e publicar os resultados das análises. Se ela estiver certa, teremos de jogar tudo que sabemos fora. Meu trabalho não terá servido para nada. Mas, graças a Deus, não só o meu, o de todo mundo.

Study links biodiversity and language loss (BBC)

13 May 2012

By Mark KinverEnvironment reporter, BBC News

Brazilian tribesman (Image: AP)The study identified that high biodiversity areas also had high linguistic diversity

The decline of linguistic and cultural diversity is linked to the loss of biodiversity, a study has suggested.

The authors said that 70% of the world’s languages were found within the planet’s biodiversity hotspots.

Data showed that as these important environmental areas were degraded over time, cultures and languages in the area were also being lost.

The results of the study have been published in the Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

“Biologists estimate annual loss of species at 1,000 times or more greater than historic rates, and linguists predict that 50-90% of the world’s languages will disappear by the end of the century,” the researchers wrote.

Lead author Larry Gorenflo from Penn State University, in the US, said previous studies had identified a geographical connection between the two, but did not offer the level of detail required.

Dr Gorenflo told BBC News that the limitation to the data was that either the languages were listed by country or there was a dot on the map to indicate the location.

“But what you did not know was if the area extended two kilometres or 200 kilometres, so you really did not get a sense of the extent of the language,” he explained.

“We used improved language data to really get a more solid sense of how languages and biodiversity co-occurred and an understanding of how geographically extensive the language was.”

He said the study achieved this by also looking at smaller areas with high biodiversity, such as national parks or other protected habitats.

“When we did that, not only did we get a sense of co-occurrence at a regional scale, but we also got a sense that co-occurrence was found at a much finer scale,” he said.

“We are not quite sure yet why this happens, but in a lot of cases it may well be that biodiversity evolved as part-and-parcel of cultural diversity, and vice versa.”

In their paper, the researchers pointed out that, out of the 6,900 or more languages spoken on Earth, more than 4,800 occurred in regions containing high biodiversity.

Dr Gorenflo described these locations as “very important landscapes” which were “getting fewer and fewer” but added that the study’s data could help provide long-term security.

“It provides a wonderful opportunity to integrate conservation efforts – you can have people who can get funding for biological conservation, and they can collaborate with people who can get funding for linguistic or cultural conservation,” he suggested.

“In the past, it was hard to get biologists to look at people.

“That has really changed dramatically in the past few years. One thing that a lot of biologists and ecologists are now seeing is that people are part of these ecosystems.”

Pela primeira vez no Brasil, antropólogo Roy Wagner dialoga com indígenas da Amazônia (A Crítica)

Autor de “A Invenção da Cultura”, Roy Wagner conheceu, pela primeira vez, indígenas da América do Sul e participou de ritual

Manaus, 08 de Agosto de 2011
ELAÍZE FARIAS

Antropólogo Norte Americano dialoga com índios do Amazônia – FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

Antropólogo norte-americano dialoga com índios da Amazônia. FOTO: ALEXANDRE FONSECA/ACRITICA

“Todo entendimento de uma outra cultura é uma experiência com a sua própria”, diz o norte-americano Roy Wagner, um dos principais nomes da antropologia contemporânea mundial, no livro “A Invenção da Cultura”.

Foi exatamente essa equivalência entre culturas que Roy Wagner vivenciou em sua primeira visita à Amazônia, na semana passada.

Em Manaus, Wagner realizou aula magna de abertura de ano letivo, participou de uma mesa redonda com graduandos e pós-graduandos indígenas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), visitou duas malocas de grupos indígenas que vivem na zona rural da capital amazonense e testemunhou o que ele chamou de “multiperspectivos”.

Autor da teoria sobre “a invenção e a noção da cultura”, que resultou no conceito de “antropologia reversa”, Wagner notabilizou-se pelos estudos que desenvolveu desde os anos 60 na Melanésia e na Nova Guiné (Oceania). Mas, somente agora, aos 73 anos, é que teve oportunidade de conhecer os povos nativos da América do Sul.

No sábado (06), último dia em Manaus, Roy Wagner conheceu e participou de um ritual dos índios tukano, tuyuka e dessana, em uma maloca localizada a quatro horas de Manaus em viagem de barco de recreio.

Na maloca, o indígena tuyuka Higino Tuyuka, que veio de São Gabriel da Cachoeira (a 851 quilômetros de Manaus), cidade onde 90% da população é indígena, apenas para participar das atividades e dialogar nos eventos com Roy Wagner, fez uma demonstração de um ritual de iniciação e apresentou ao antropólogo uma bebida típica chamada kahpí, de efeito alucinógeno e que é destinada apenas aos homens.

Perspectivas

“São muitas perspectivas se encontrando. Não considero um encontro de uma cultura nativa com um antropólogo, mas entre culturas compartilhando os mesmos espaços”, disse Wagner ao portal acrítica.com, ao final da experiência com os indígenas.

Esta foi a primeira vez que Wagner teve contato com os povos nativos da América do Sul, desde que começou seu trabalho como etnográfico e antropólogo.

Nas atividades desenvolvidas em Manaus, ele participou “uma conversa intercambiada sobre as cosmologias” e identificou semelhanças entre os ameríndios e os povos que estudou na Oceania.

A principal delas refere-se à relação entre o humano e os animais. “Na Austrália, os aborígenes têm uma relação, em sua cosmologia, com os corvos. Os animais são incorporados no mundo dos humanos. Aqui, vemos que os indígenas tem uma associação com os peixes. São os peixe-gente”, disse.

No seu diálogo com os indígenas brasileiros, Wagner, contudo, conta que encontrou uma característica específica: a preferência pelas “origens”. “Os povos daqui falam muito sobre o início, sobre a origem, a estrela Dalva, em contraste, por exemplo, com os povos aborígenes, que falam mais do poente, para a morte”, descreveu.

Intelectuais

Roy Wagner veio a Manaus numa articulação do Instituto Brasil Plural, que vincula a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade Federal de Santa Catarina.

Sua vinda ao Amazonas não estava prevista inicialmente. Convidado pelos professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Ufam, ele aceitou o convite para dialogar com os intelectuais indígenas – professores e estudantes.

A agenda do antropológo inclui palestras em Florianópolis (SC), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

“Os intelectuais indígenas são aqueles que detêm as suas formas específicas do conhecimento. Alguns não são necessariamente pessoas que passaram pela universidade, mas que detém um profundo conhecimento”, descreveu o professor Carlos Dias, do PPGAS.

Carlos Dias disse que Roy Wagner ficou muito impressionado com a experiência vivenciada no Amazonas, sobretudo pela interlocução com os indígenas com os quais teve oportunidade de conversar.

Dias contou que, no domingo (08), o orientando de Wagner entrou em contato com os professores da Ufam e contou que “o grande momento no Brasil do antropólogo foi sua vinda à Amazônia”.

Conforme Carlos, em seu contato com os indígenas, Wagner encontrou uma grande quantidade de paralelos em termos cosmológicos entre os ameríndios e os povos que estudou, no passado.

“O Roy Wagner cria uma nova teoria de noção da cultura quando leva a sério essas novas formas de pensar. Capturar o outro através de seu conhecimento.

João Paulo Barreto, indígena tukano e mestrando em antropologia da Ufam, comentou que Wagner ficou surpreso com a apresentação de perspectivas na visão indígena. Isto ocorreu quando o líder Higino Tuyuka, durante o ritual, relacionou o cocar utilizado por João Paulo com as estruturas da maloca.

Estévão Barreto, também tukano e mestre em Sociedade e Cultura da Amazônia, destacou que a presença de Roy Wagner indicou a necessidade de promover o diálogo “ciência indígena e o saber científico”.

Igualdade

Roy Wagner tem formação em literatura inglesa, história, astronomia e antropologia.

Seus trabalhos mais conhecidos foram realizados entre os Dabiri, na Nova Guiné, e entre os aborígenes, na Austrália. Sua obra mais conhecida, “A Invenção da Cultura”, foi lançada em 1975 e teve uma revisão em 1981. No Brasil, o livro foi traduzido apenas em 2010.

No Brasil, seu principal interlocutor é o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, autor do conceito de Perspectivismo.

No livro “A Invenção da Cultura”, Wagner diz que “o antropólogo usa sua própria cultura para investigar outras, e para estudar a cultura em geral”. Ou seja, “a idéia de cultura coloca o pesquisador em pé de igualdade com seus objetos de estudo: cada qual ‘pertence a uma cultura’.”.

Para Roy Wagner, “um antropólogo ‘experencia´de um modo ou de outro, seu objeto de estudo; ele o faz através do universo de seus próprios significados, e então se vale dessa experiência carregada de significados para comunicar uma compreensão aos membros de própria cultura”.

*  *  *

Antropólogo autor de “A Invenção da Cultura” ministra aula magna na Ufam nesta quinta

Roy Wagner é um dos maiores importantes antropólogos da atualidade. o norte-americano vem pela primeira vez ao Brasil

Manaus, 03 de Agosto de 2011

ACRITICA.COM

Um dos mais renomados antropólogos da atualidade, o norte-americano Roy Wagner, ministra aula magna de abertura do semestre do curso de mestrado em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), nesta quinta-feira (04), às 9h, no auditório Rio Solimões do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL/Ufam).

O professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), Gilton Mendes, disse que Roy Wagner interessou-se pelo convite de vir a Manaus estimulado pela ideia de conversar com “conhecedores sobre a antropologia indígena amazônica”.

Autor de “A Invenção da Cultura”, Roy Wagner estudou astronomia, literatura inglesa e história na Universidade de Harvard, e fez sua pós-graduação em antropologia na Universidade de Chicago.

O livro “A Invenção da Cultura” foi lançado em 1975, mas só teve edição no Brasil no ano passado. Era uma das obras mais esperadas pelo meio antropólogo nos últimos anos no país.

No dia 5 de agosto, Roy Wagner participará de uma mesa-redonda intitulada ‘Conversações Melanésias e Amazônia’, com os pesquisadores indígenas. Promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social em conjunto com o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai).

O evento acontecerá às 15h,  na Rua Coronel Sérgio Pessoa, 147, na Praça dos Remédios, Centro de Manaus. A mesa-redonda contará com a participação especial de Justin Shaffner, da Universidade de Cambridge (EUA).

Indígenas

Roy Wagner iniciou seu trabalho de campo entre os Daribi no monte Karimui, na Nova Guiné, sobre quem escreveu e publicou sua monografia dedicada aos princípios daribi de definição de clã e aliança.

A partir da etnografia daribi, Wagner desenvolveu uma teoria geral sobre a invenção de significado e sobre a noção de cultura, publicada em “A invenção da cultura”, que ganhou nova edição revista e ampliada em 1981.

A obra radicaliza uma reflexão sobre o polêmico conceito de cultura em antropologia: a partir da consideração dos modos de conceitualização nativos, ela reformula a própria disciplina antropológica.

Para Wagner, não se trata de entender o que outros povos produzem como “cultura” a partir de um dado universal (a “natureza”), mas antes, o que é concebido como dado por outras populações. Com isto, a própria noção de “natureza” como dado universal e de “cultura” ficam sob suspeição.

Sua vinda ao Brasil faz parte das iniciativas programadas do Instituto Brasil Plural, uma rede de pesquisadores articulada pelos Programas de Pós-Graduação da Universidade de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), financiada pelo CNPq, a Fapesc e a Fapeam.

Karl Marx and the Iroquois (libcom.org)

By Franklin Rosemont

There are works that come down to us with question-marks blazing like sawed-off shotguns, scattering here and there and everywhere sparks that illuminate our own restless search for answers. Ralegh’s so-called Cynthia cycle, Sade’s 120 Days, Fourier’s New Amorous World, Lautremont’s Poesies, Lenin’s notes on Hegel, Randolph Bourne’s essay on The State Jacque Vaches War letters, Duchamp’s Green Box, the Samuel Greenberg manuscripts: These are only a few of the extraordinary fragments that have, for many of us, exerted a fascination greater than that of all but a very few “finished” works.

Karl Marx’s Ethnological Notebooks -notes for a major study he never lived to write, have something of the same fugitive ambiguity. These extensively annotated excerpts from works of Lewis Henry Morgan and others are a jigsaw puzzle for which we have to reinvent the missing pieces out of our own research and revery and above all, our own revolutionary activity. Typically although the existence of the notebooks has been know since Marx’s death in 1883, they were published integrally for the first time only eighty-nine years later, and then only in a highly priced edition aimed at specialists. A transcription of text exactly as Marx wrote it- the book presents the reader with all the difficulties of Finnegan’s Wake and more, with its curious mixture of English, German, French, Latin and Greek, and a smattering of words and phrases from many non-European languages, from Ojibwa to Sanskrit. Cryptic shorthand abbreviations, incomplete and run-on sentences, interpolated exclamations, erudite allusions to classical mythology, passing references to contemporary world affairs, generous doses of slang and vulgarity; irony and invective: All these the volume possesses aplenty, and they are not the ingredients of smooth reading. This is not a work of which it can be said, simply, that it was “not prepared by the author for publication”; indeed, it is very far from being even a “rough draft?’ Rather it is the raw substance of a work, a private jumble of jottings intended for no other eyes than Marx’s own-the spontaneous record of his “conversations” with the authors he was reading, with other authors whom they quoted, and, finally and especially, with himself. In view of the fact that Marx’s clearest, most refined texts have provoked so many contradictory interpretations, it is perhaps not so strange that his devoted students, seeking the most effective ways to propagate the message of the Master to the masses, have shied away from these hastily written, disturbingly unrefined and amorphous notes.

The neglect of the notebooks for nearly a century is even less surprising when one realizes the degree to which they challenge what has passed for Marxism all these years. In the lamentable excuse for a “socialist” press in the English-speaking world, this last great work from Marx’s pen has been largely ignored. Academic response, by anthropologists and others, has been practically nonexistent, and has never gone beyond Lawrence Krader’s lame assertion, at the end of his informative 85-page Introduction, that the Notebooks’ chief interest is that they indicate “the transition of Marx from the restriction of the abstract generic human being to the empirical study of particular peoples.” It would seem that even America’s most radical anthropologists have failed to come to grips with these troubling texts. The Notebooks are cited only once and in passing in Eleanor Leacock’s Myths of Male Dominance: Collected Articles on Women Cross-culturally. And Stanley Diamond, who Krader thanks for reading his Introduction, makes no reference to them at all in his admirable study, In Search of The Primitive: A critique of Civilization.

The most insightful commentary on these Notebooks has naturally come from writers far outside the mainstream – “Marxist” as well as academic. Historian, antiwar activist and Blake scholar E. P. Thompson, in his splendid polemic, The Poverty of Theory and Other Essay’s, was among the first to point out that “Marx, in his increasing preoccupation in his last years with anthropology, was resuming the projects of his Paris youth.” Raya Dunayevskaya, in herRosa Luxemburg,Women’s Liberation and Marx’s Philosophy of Revolution, is more explicit in her estimate of these “epoch-making Notebooks which rounded out Marx’s life work:’ these “profound writings that…summed up his life’s work and created new openings;’ and which therefore have “created a new vantage-point from which to view Marx’s oeuvre as a totality.” Dunayevskaya, a lifelong revolutionist and a pioneer in the revival of interest in the Hegelian roots of Marxism, argued further that “these Notebooks reveal, at one and the same time, the actual ground that led to the first projection of the possibility of revolution coming first in the underdeveloped countries like Russia; a reconnection and deepening of what was projected in the Grundrisse on the Asiatic mode of production; and a return to that most fundamental relationship of Man/Woman which had first been projected in the 1844 essays”.

The suggestion that the Ethnological Notebooks signify Marx’s return to the “projects of his Paris youth” might turn out to entail more far-‘reaching implications than anyone has yet realized. Marx’s Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 arc unquestionably the brightest star of that heroic early period, but they should be seen as part of a whole constellation of interrelated activities and aspirations.

One of the first things that strikes us about Marx’s Paris youth is that this period precedes the great splits that later rent the revolutionary workers’ movement into so many warring factions. Marxists of all persuasions even though bitterly hostile to each other, have nonetheless tended to agree that these splits enhanced the proletariat’s organizational efficacy and theoretical clarity, and therefore should be viewed as positive gains for the movement as a whole. But isn’t it just possible -that, in at least some of these splits, something not necessarily horrible or worthless was lost at the same time? In any event, in 1844-45 we find Marx in a veritable euphoria of self-critical exploration and discovery: sorting out influences, puzzlling over a staggering range of problems, and “thinking out loud” in numerous manuscripts never published in his lifetime. In his Paris youth, and for several years thereafter, Karl Marx was no Marxist.

Early in 1845, for example, he and his young friend Engels were enthusiastically preparing an unfortunately-never-realized “Library of the Best Foreign Socialist Authors;’ which was to have included works by Theophile Leclerc and other enrages; as well as by Babeuf and Buonarroti, William Godwin, Fourier, Cabet and Proudhon-that is, representative figures from the entire spectrum of revolutionary thought out-side all sectarianism. They were especially taken with the prodigious work of the most inspired and daring of the utopians, Charles Fourier, who had died in 1837, and for whom they would retain a profound admiration all their lives. Proudhon on the other hand, influenced them not only through his books, but-at least in Marx’s case-personally as well, for he was a good friend in those days, with whom Marx later recalled having had “prolonged discussions” which often lasted “far into the night.”

It is too easily forgotten today that in 1844 Proudhon already enjoyed an international reputation; his What Is Property? (1840) had created an enormous scandal, and no writer was more hated by the French bourgeoisie. Marx, an unknown youth of 26, Still had much to learn from the ebullient journeyman printer who would come to be renowned as the “Father of Anarchism:’ In his first book, The Holy Family (1845), Marx hailed What is Property? as “the first resolute, -ruthless, and at the same time scientific investigation…of the basis of political economy, private property … an advance which revolutionizes political economy and for the first time makes a real science of political economy possible”.

In 1844 we find Engels writing sympathetically of American Shaker communities, which he argued, proved that “communism… is not only possible but has actually already been realized.” The same year he wrote a letter to Marx praising Max Stirner’s new work, The Ego and Its Own, urging that Stirner’s very egoism “can be built upon even as we invert it” and that “what is true in his principles we have to accept”; an article suggesting that the popularity of the German translation of Eugene Sue’s quasi-Gothic romance The Mysteries of Paris, proved that Germany was ripe for communist agitation;, and a letter to the editor defending an “author of several Communist books;’ -Abbe Constant, who, under the name he later adopted – EIiphas Levi-would become the most renowned of French occultists.

Constant was a close friend of pioneer socialist-feminist Flora Tristan, whose Union Ouvriere(Workers’ Union, 1842) was the first work to urge working men and women to form an international union to achieve their emancipation. One of the most fascinating personalities in early French socialism, Tristan was given a place of honor in The Holy Family, zealously defended by Marx from the stupid, sexist gibes of the various counter-revolutionary “Critical Critics” denounced throughout the book.

That Constant became a practicing occultist, and that he and Tristan were for several years closely associated with the mystical socialist and phrenologist Simon Ganneau, “messiah” of a revolutionary cult devoted to the worship of an androgynous divinity, reminds us that Paris in the 1830s and ’40s was the scene of a remark-able reawakening of interest in things occult, and that the milieux of occultists and revolutionists were by no means separated by a Chinese wall. A new interest in alchemy was especially evident, and important works on the subject date from that period, notably the elusive Cyliani’s Hermes devoile (1832)-reprinted in 1915, this became a key source for the Fulcanelli circle, which in turn inspired our own century’s hermetic revival-and Francois Cambriel’s Cours de Philosophie hermetique Ou d’Alchimie, en dir-neuf lecons (1843)

To what extent Marx and/or Engels encountered occultists or their literature is not known, and is certainly not a question that has interested any of their biographers. It cannot be said that the passing references to alchemy and the Philosophers’ Stone in their writings indicate any familiarity with original hermetic sources. We do know, however, that they shared Hegel’s high esteem for the sixteenth century German mystic and heretic Jacob Boehme, saluted by Marx in the Rheinische Zeitung in 1842 as “a great philosopher.” Four years earlier Engels had made a special study of Boehme, finding him “a dark but deep soul”,” very original” and “rich in poetic ideas.” Boehme is cited in The Holy Family and in several other writings of Marx and Engels over the years.

One of the things that may have attracted them to Boehme is the fact that he was very much a dialectical thinker. Dialectic abounds in the work of many mystical authors, not least in treatises on magic, alchemy and other “secret sciences” and it should astonish no one to discover that rebellious young students of Hegel had made surreptitious forays onto this uncharted terrain in their quest for knowledge. This was certainly the case with one of Marx’s close friends, a fellow Young Hegelian, Mikhail Bakunin, who often joined him for those all-night discussions at Proudhon’s. As a young man the future author of God and the State is known to have studied the works of the French mystic, Louis Claude de Saint-Martin, “The Unknown Philosopher” and “Lover of Secret things” as well as of the eccentric German romantic philosopher, Franz von Baader, author of a study of the mysterious eighteenth-century Portuguese-Jewish mage, Martinez de Pasqual, who is thought by some to have had a part in the formation of Haitian voodoo (he spent his last years on the island and died in Port-au-Prince in 1774), and whose Traite de la reintegration is one of the most influential occult writings of the last two centuries.

Mention of von Baader, whose romantic philosophy combined an odd Catholic mysticism and equally odd elements of a kind of magic-inspired utopianism that was all his own-interestingly, he was the first writer in German to use the word “proletariat”- highlights the fact that Boehme, Paracelsus, Meister Eckhart. Swedenborg, Saint-Martin and all manner of wayward and mystical thinkers contributed mightily to the centuries-old ferment that finally produced Romanticism, and that Romanticism in turn, especially in its most extreme and heterodox forms, left its indelible mark on the Left Hegelian/Feuerbachian milieu. Wasn’t it under the sign of poetry, after all that Marx came to recognize himself as an enemy of the bourgeois order? Everyone knows the famous thee components” of Marxism: German philosophy, English economics and French socialism. But what about the poets of the world: Aeschylus and Homer and Cervantes. Goethe and Shelley? To miss this fourth component is to miss a lot of Marx (and indeed, a lot of life). A whole critique of post-Marx Marxism could be based on this calamitous “oversight.” 1844, one does well to remember was also a year in which Marx was especially close to Heinrich Heine. Marx himself wrote numerous poems of romantic frenzy (two were published in 1841 under the title “Wild Songs”) and even tried his hand at a play and a bizarre satirical romance Scorpion and Felix. By 1844 he had renounced literary pursuits as such, but no philosopher, no political writer or activist and certainly no economist has ever used metaphor
with such exuberance and flair as the author of A Contribution to the Critique of Political Economy used throughout his life. To the last. Marx-and to a great extent this is also true of Engels-remained a fervent adept of “poetry’s magic fullness” (to quote one of his early translations of Ovid’s elegies). These ardent youths never ceased to pursue philosophy on their road to revolution, but it was poetry that, as often as not, inspired their daring and confirmed their advances.

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That Marx, toward the end of his life, was returning to projects that had been dear to his heart in the days of his original and bold grappling with “naturalist anthropology” as a theory of communist revolution, the days in which he was most deeply preoccupied with the philosophical and practical legacy of Hegel and Fourier, the days of his friendship with Proudhon and Bakunin and Heine, is resonant with meanings for today-all the more so since here, too, at the end as at the beginning a crucial motivating impulse seems to have been provided by poetry.

In 1880 the publication of James Thomson’s City of Dreadful Night, and Other Poems – the title-piece of which is often called the most pessimistic poem in the English language-made a powerful impression on the author of Capital. Especially enthusiastic about Thomson’s’ “Attempts at Translations of Heine,” Marx wrote a warm letter to the poet, urging that the poems were “no translations, but a reproduction of the original, such as Heine himself, if master of the English language, would have given” Although Marx’s biographers have maintained an embarrassed silence on the subject, it is really not so difficult to discern how Thomson-this opium-addicted poet of haunting black lyricism, who was not only one of the most aggressive anti-religious agitators in English but also the translator of Leopardi and among the first to write intelligently about Blake—could have stimulated a revival of the dreams and desires of Marx’s own most Promethean days. And then, just think of it: while his brain is still reeling with visions inspired by a true poet, he plunges into the richest, most provocative work of the most brilliant anthropological thinker of his time. Such chances are the very stuff that revelations are made of!

It was not mere “anthropology,” however, that Marx found so appealing in lewis Henry Morgan’s Ancient Society but rather, as he hints in his notes and as Engels spelled out in hisOrigin of the Family, Private Property and the State (1884), the merciless critique and condemnation of capitalist civilization that so well complements that of Charles Fourier.

And yet these Ethnological Notebooks are much more than a compilation of new data confirming already existing criticism. It must be said, in this regard, that The Origin of the Family, which Engels says he wrote as “the fullfillment of a bequest’-‘ Marx having died before he was able to prepare his own presentation of Morgan’s researches-is, as Engels himself readily admitted, “but a meager substitute” for the work Marx’s notes suggest. Several generations of Marxists have mistaken The Origin of the Family for the definitive word on the subject, but in fact it reflects Engels’ reading of Morgan (and other authors) far more than it reflects Marx’s notes. Engels’ sweeping notion of “the “world-historic defeat of the female sex,” for example, was borrowed from the writings of J.J Bachofen, and is not well supported by Marx’s notes, while several important comments that Marx did make were not included in Engels’ little book.

Clearly intending The Origin of the family to be nothing more than a popular socialist digest of the major themes of Ancient Society – Morgan’s famous systems of consanguinity, his extensive data on “communism in living,” the evolution of property and the State – Engels emphasized Morgan’s broad agreement with Marx and ignored everything in Morgan and in Marx that lay outside this modest plan. That Engels did not write the book that Marx might have written is not really such shocking news, and any blame for possible damage done would seem to rest not with Engels but with all those who, since 1884, devoutly assumed that Engels’ book said all that Marx had to say and therefore all that had to be said. Of course, had Marx’s followers taken to heart his own favorite watchword, De omnibus dubitandum (doubt every-thing) the history of Marxism would have been rather different and probably much happier And as the blues-singer sang, “If a frog had wings. . .

The Notebooks include excerpts from, and Marx’s commentary on, other ethnological writers besides Morgan, but the section on Morgan is the most substantial by far, and of the greatest interest Reading this curious dialogue one can almost see Marx’s mind at work-sharpening, extending, challenging and now and then correcting Morgan’s interpretations, bringing out dialectical moments latent in Ancient Society but not always sufficiently developed, and sometimes wholly undeveloped, by Morgan himself. Marx also seemed to enjoy relating Morgan’s empirical data to the original sources of his (Marx’s) own critique, notably Fourier and (though his name does not figure in these notes) Hegel, generally with the purpose of clarifying some vital current problem. As Marx had said of an earlier unfinished work, theGrundrisse (1857-58), the Ethnological Notebooks contain “some nice developments”.

Some of the most interesting passages by Marx that did not find their ‘way into Engels’ book have to do with the transition from “archaic” to “civilized” society, a key problem for Marx in his last years. Questioning Morgan’s contention that “personal government” prevailed throughout primitive societies, Marx argued that long before the dissolution of the gens (clan), chiefs were “elected” only in theory, the office having become a transmissible on; controlled by a property-owning elite that had begun to emerge within the gens itself. Here Marx was pursuing a critical inquiry into the origins of the distinction between public and private spheres (and, by extension, between “official” and “unofficial” social reality and ideological fiction) that he had begun in his critique of Hegel’s philosophy of law in 1843. The close correlation Marx found between the development of property and the state, on the one hand, and religion, their chief ideological disguise, on the other-which led to his acute observation that religion grew as the gentile commonality shrank-also relates to his early critique of the Rechtphilosophie, in the famous introduction to which Marx’s attack on religion attained an impassioned lucidity worthy of the greatest poets.

The poetic spirit, in fact, makes its presence felt more than once in these Notebooks. Auspiciously, in this compendium of ethnological evidence, Marx duly noted Morgan’s insistence on the historical importance of “imagination, that great faculty so largely contributing to the elevation of mankind,” From cover to cover of these Notebooks we see how Marx’s encounter with “primitive cultures” stimulated his own imagination, and we begin to realize that there is much more here than Engels divulged.

On page after page Marx highlights passages wildly remote from what are usually regarded as the “standard themes” of his work. Thus we find him invoking the bell-shaped houses of the coastal tribes of Venezuela; the manufacture of Iroquois belts “using fine twine made of filaments of elm and basswood bark”‘ “the Peruvian legend of Manco Capac and Mama Oello, children of the sun”; burial customs of the Tuscarora; the Shawnee belief in metempsychosis; “unwritten” literature of myth’s, legends and traditions”; the “incipient sciences” of the village Indians of the Southwest; the Popul Vuh, sacred book of the ancient Quiche Maya; the use of porcupine quills in ornamentation; Indian games and “dancing (as a] form of worship.”

Carefully, and for one tribe after another, Marx lists each each the animals from which the various clans claim descent, No work of his is so full of such words as Wolf grizzly bear; opossum and turtle (in the pages on Australian aborigines we find emu, kangaroo and bandicoot). Again and again he copies words and names from tribal languages. Intrigued by the manner in which individual (personal) names indicate the gen, he notes these Sauk names from the Eagle gens: “Ka-po-na (‘Eagle drawing his nest’); Ja-ka-kwa-pe (‘Eagle sitting with his head up’); Pe-a-ta-na-ka-hok (‘Eagle flying over a limb’).” Repeatedly he attends to details so unusual that one cannot help wondering what he was thinking as he wrote them in his notebook Consider, for example, his word-for-word quotation from Morgan telling of a kind of “grace” said before an Indian tribal feast: “It “was a prolonged exclamation by a single person on a high shrill note, falling down in cadences into stillness, followed by a response in chorus by the people.” After the meal, he adds, “The evenings [are] devoted to dance?”

Especially voluminous are Marx’s notes on the Iroquois, the confederation of tribes with which Morgan was personally most familiar (in 1846 he was in fact “adopted” by one of its constituent tribes, the Seneca, as a warrior of the Hawk clan), and on which he had written a classic monograph. Clearly Marx shared Morgan’s passional attraction for the “League of the Ho-de-no-sau-nee?’ among whom “the state did not exist,” and “Liberty, Equality and Fraternity, though never formulated, were cardinal principles,” and whose sachems, moreover, had “none of the marks of a priesthood?’ One of his notes includes Morgan’s description of the formation of the Iroquois Confederation as “a masterpiece of Indian wisdom,” and it doubtless fascinated him to learn that, as far in advance of the revolution as 1755, the Iroquois had recommended to the “forefathers [of the] Americans, a union of the colonies similar so their own.”

Many passages of these Notebooks reflect Marx’s interest in Iroquois democracy as expressed in the Council of the Gens, that “democratic assembly where every adult male and female member had a voice upon all questions brought before it,” and he made special note of details regarding the active participation of women in tribal affairs, The relation of man to woman-a topic of Marx’s 1844 manuscripts-is also one of the recurring themes of his ethnological inquiries. Thus he quotes a letter sent to Morgan by a missionary among the Seneca: “The women were the great power among the clans, as everywhere else. They did not hesitate, when occasion required, ‘to knock off the horns,’ as it was technically called, from the head of a chief, and send him back to the ranks of the warriors. The original nomination of the chief also always rested with them” And a few pages later he highlights Morgan’s contention that the “present monogamian family… must…change as society changes…It is the creature of a social system… capable of still further improvement until the equality of the sexes is attained.” He similarly emphasizes Morgan’s conclusion, regarding monogamy, that “it is impossible to predict the nature of its successor?'”

In this area as elsewhere Marx discerned germs of social stratification within the gentile organization, again in terms of the separation of “public” and “private” spheres, which he saw in turn as the reflection of the gradual emergence of a propertied and privileged tribal caste. After copying Morgan’s observation that, in the Council of Chiefs, women were free to express their wishes and opinions “through a” orator of their own choosing?” he added, with emphasis, that the “Decision (was] made by the (all-male) Council” Marx was nonetheless unmistakably impressed by the fact that, among the Iroquois, women enjoyed a freedom and a degree of social involvement far beyond that of the women (or men!) of any civilized nation. The egalitarian tendency of all gentile societies is one of the qualities of these societies that most interested Marx, and his alertness to deviations from it did not lead him to reject Morgan’s basic hypothesis in this regard. Indeed, where Morgan, in his chapter on “The Monogamian Family?” deplored the treatment of women in ancient Greece as an anomalous and enigmatic departure from the egalitarian norm, Marx commented (perhaps here reflecting the influence of Bachofen): “But the relationship between the goddesses on Olympus reveals memories of women’s higher position?”

Marx’s passages from Morgan’s chapters on the Iroquois are proportionally much longer than his of his excerpts from Ancient Society, and in fact make up one of the largest sections of theNotebooks. It was not only Iroquois social organization, however, that appealed to him, but rather a whole way of life sharply counter-posed, all along the line, to modern industrial civilization. His overall admiration for North American Indian societies generally, and for the Iroquois in particular, is made clear throughout the text, perhaps most strongly in his highlighting of Morgan’s reference to their characteristic “sense of independence” and “personal dignity?’ qualities both men appreciated but found greatly diminished as humankind’s “property career” advanced. Whatever reservations Marx may have had regarding the universal applicability of the Iroquois “model” in the analysis of gentile societies, the painstaking care with which he copied out Morgan’s often meticulous descriptions of the various aspects of their culture shows how powerfully these people impressed him. Whole pages of the Notebooks recount, in marvelous detail, Iroquois Council procedures and ceremonies:

at a signal the sachems arose and marched 3 times around the Burning Circle, going as before by the North… Master of the ceremonies again rising to his feet, filled and lighted the pipe of peace from his own fire; drew 3 whiffs, the first toward the Zenith (which meant thanks to the Great Spirit…); the second toward the ground (means thanks to his Mother, the Earth. for the various productions which had ministered to his sustenance); third toward the Sun (means thanks for his never-failing light, ever shining upon all). Then he passed the pipe to the first upon his right toward the North…

This passage goes on in the same vein for some thirty lines, but I think this brief excerpt suffices to show that the Ethnological Notebooks are unlike anything else in the Marxian canon.

***

The record of Marx’s vision-quest through Morgan’s Ancient Society offers us a unique and amazing close-up of the final phase of what Raya Dunayevskaya has called Marx’s “never-ending search for new paths to revolution?’ The young Marx of the Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 summed up revolution as “the supersession of private property.’ His starting-point was the critique of alienated labor which “alienates nature from man, man from himself. . [and man] from the species”-that is, labor dominated by the system ofprivate property, by capital, the “inhuman power” that “rules over everything:’ spreading its “infinite degradation” over the fundamental relation of man to woman and reducing all human beings to commodities. Thus the “supersession of private property” meant for Marx not only the “emancipation of the workers” (which of course involves “the emancipation of humanity as a whole”), but also “the emancipation of all the human qualities and senses” (the senses themselves having become directly, as he expressed it with characteristic humor; “theoreticians in practice”). This “positive abolition of private property, of human self-alienation” is also, at the same time, “the real appropriation of human nature’ -‘in other words,communism,

the definitive resolution of the antagonism between man and nature, and between man and man. It is the true solution of the conflict between existence and essence, between objectification and self-affirmation, between freedom and necessity, between individual and species. It is the solution of the riddle of history and knows itself to be this solution.

To such ways of seeing the old Marx seems to have returned as, in his mind’s eye, he took his three whiffs on the pipe of peace around the Iroquois council fire. But it was no self-indulgent nostalgia that led him to trace the perilous path of his youthful dreams and beyond, to the dawn of human society. A revolutionist to the end, Marx in 1880 no less than in 1844 envisioned a radically new society founded on a total transformation in human relationships, and sought new ways, to help bring this new society into being.

Ancient Society, and especially its detailed account of the Iroquois, for the first time gave Marx insights into the concrete possibilities of a free society as it had actually existed in historyMorgan’s conception of social and cultural evolution enabled him to pursue the problems he had taken up philosophically in 1844 in a new way, from a different angle, and with new revolutionary implications. Marx’s references, in these notes and elsewhere, to terms and phrases recognizable as Morgan’s, point toward his general acceptance of Morgan’s outline of the evolution of human society. Several times in the non-Morgan sections of the Notebooks, for example, he reproaches other writers for their ignorance of the character of the gens, or of the “Upper Status of Barbarism.” In drafts of a letter written shortly after reading Morgan he specified that “Primitive communities… form a series of social groups which, differing in both type and age, mark successive phases of evolution.”‘ But this does not mean that Marx adopted, in all its details, the so-called “unilinear” evolutionary plan usually attributed to Morgan-a plan which, after its uncritical endorsement by Engels in The Origin of the Family, has remained ever since a fixture of “Marxist” orthodoxy. Evidence scattered throughout theNotebooks suggests, rather, that Marx had grown markedly skeptical of fixed categories in attempts at historical reconstruction, and that he continued to affirm the multilinear character of human social development that he had advanced as far back as the Grundrisse in the 1850s.

Indeed, it is amusing, in view of the widespread misapprehension of Morgan as nothing but a mono-maniacal unilinearist, that Marx’s notes highlight various departures from unilinearity in Morgan’s own work. Morgan himself, in fact, more than once acknowledged the “provisional” character of his system, and especially of the “necessarily arbitrary” character of the boundary lines between the developmental stages he proposed; he nonetheless regarded his schemata as “convenient and useful” for comprehending such a large mass of data, and in any case specifically allowed for (and took note of) exceptions.

However, if our reading of Marx’s notes is right, he found things in Ancient Society infinitely more valuable to him than arguments for or against any mere classificatory system. The book’s sheer immensity of new information-new for Marx and for the entire scientific world, demonstrated conclusively the true complexity of “primitive” societies as welt as their grandeur, their essential superiority, in real human terms, to the degraded civilization founded on the fetishism of commodities. In a note written just after his conspectus of Morgan we find Marx arguing that “primitive communities had incomparably greater vitality than the Semitic, Greek, Roman and a fortiori the modern capitalist societies?” Thus Marx had come to realize that, measured according to the “wealth of subjective human sensuality,” as he had expressed it in the 1844 manuscripts, Iroquois society stood much higher than any of the societies “poisoned by the pestilential breath of civilization?’ Even more important, Morgan’s lively account of the Iroquois gave him a vivid awareness of the actuality of indigenous peoples, and perhaps even a glimpse of the then-undreamed of possibility that such peoples could make their owncontributions to the global struggle for human emancipation.

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Hard hit as they had been by the European capitalist invasion and US, capitalism’s west-ward expansion, the Iroquois and other North American tribal cultures could not in the 1880s and cannot now, a hundred years later; be consigned to the museums of antiquity. When Marx was reading Ancient Society the “Indian wars” were still very much a current topic in these United States, and if by that time the military phase of this genocidal campaign was confined to the west, far from Iroquois territory; still the Iroquois, and every surviving tribal society, were engaged (as they are engaged today to one degree or another) in a continuous struggle against the system of private property and the State.

In a multitude of variants, the same basic conditions prevailed in Asia, Africa, parts of Eastern Europe, Russia, Canada, Australia, South America, the West Indies, Polynesia-wherever indigenous peoples had not wholly succumbed to the tyranny of capitalist development. After reading Morgan’s portrayal of primitive communism” at the height of its glory, Marx saw all this in a new light. In the last couple of years of his life, to a far greater degree than ever before, he focused his attention on people of color; the colonialized, peasants and “primitives?”.

That he was not reading Morgan exclusively or even primarily for historical purposes, but rather as part of his ongoing exploration of the processes of revolutionary social change, is suggested by numerous allusions in the Notebooks to contemporary social/political affairs. In the Notebooks, as Raya Dunayevskaya has argued, “Marx’s hostility to capitalism’s colonialism was intensifying…[He] returns to probe the origin of humanity, not for purposes of discovering new origins, but for perceiving new revolutionary forces, their reason, or as Marx called it, in emphasizing a sentence of Morgan, “powers of the mind?”

The vigorous attacks on racism and religion that recur throughout the Notebooks, especially in the often lengthy and sometimes splendidly vituperative notes on Maine and Lubbock, leave no doubt in this regard.

Again and again when these smirking apologists for imperialism direct their condescending ridicule at the “superstitious” beliefs and practices of Australian aborigines or other native peoples, Marx turns it back like a boomerang on the “civilized canaille?” He accepted-at least, he did not contradict-Lubbock’s hypothesis that the earliest human societies were atheist, but had only scorn for Lubbock’s specious reasoning: that the savage mind was not developed enough to recognize the “truths” of religion! No, Marx’s notes suggest, our “primitive” ancestors were atheists because the belief in gods and other priestly abominations entered the world only with the beginnings of class society. Relentlessly, in these notes, he follows the development of religion as an integral part of the repressive apparatus through its various permutations linked to the formation of caste, slavery, patriarchal monogamy and monarchy. The “poor religious element,” he remarks, becomes the main preoccupation of the gens precisely to the degree that real cooperation and common property decline, so that eventually, “only the smell of incense and holy water remains?’ The author of the Ethnological Notebooksmade no secret of the fact that he was solidly on the side of the atheistic savages.

After poring over Ancient Society at the end of 1880 and the first weeks of ’81, a large share of Marx’s reading focused on primitive’ societies and “backward” countries. Apart from the works of John Budd Phear, Henry Sumner Maine and John Lubbock that he excerpted and commented on in the Ethnological Notebooks he read books on India, China and Java, and several on Egypt (two and a half months before his death, in a letter to his daughter Eleanor; Marx denounced the “shameless Christian-hypocritical conquest” of Egypt). After he returned from a brief visit to Algiers in the spring of *82, his son-in-law Paul Lafargue wrote that “Marx has come back with his head full of Africa and Arabs. “When he received a query from the Russian radical Vera Zasulich. asking whether the Russian rural communes could become the basis for a new collective society or whether her homeland would have to pass through a capitalist stage, Marx intensified his already deep study of Russian social and economic history. His remarkable reply to Zasulich offers a measure of Marx’s creative audacity in his last years, and demonstrates too, that his reading of Morgan involved not only a new way of looking at pre-capitalist societies, but also a new way of looking at the latest practical problems lacing the revolutionary movement. Zasulich’s letter to Marx had more than a hint of urgency about it, for, as she explained,

Nowadays, we often hear it said that the rural commune is an archaic form condemned to perish by history, scientific socialism and, in short, everything above debate. Those who preach such a view call themselves your disciples…their strongest argument is often: ‘Marx said so’ But how do you derive that from Capital?’ others object. ‘He does not discuss the agrarian’ question, and says nothing about Russia.’ ‘He would have said as much if he had discussed our country,” your disciples retort…’

Just how seriously Marx pondered the question may be inferred from the tact that he wrote no less than four drafts of a reply in addition to the comparatively brief letter he actually sent – a grand total of some twenty-five book pages. His reply was a stunning blow to the self-assured, dogmatic smugness of the Russian “Marxists” who not only refused to publish the letter but pretended that it did not exist (it was Published for the first time in 1924).

Stressing that the “historical inevitability” of capitalist development as articulated in Capitalwas “expressly restricted to the countries of Western Europe,” he concluded that

The analysis in Capital therefore provides no reasons-either for or against the vitality of the Russian Commune. But the special study l have mode of it, including a search for original source-material, has convinced me that the commune is the fulcrum for social regeneration in Russia.

The Preface to the second Russian edition of the Communist Manifesto (1882) co-signed by Engels, closed with a somewhat qualified restatement of this new orientation:

Can the Russian obshchina [peasant commune] a form, albeit highly eroded, of the primitive communal ownership of the Land, pass directly into the higher, communist form of communal ownership?… Today there is only one possible answer. If the Russian revolution becomes the signal for proletarian revolution in the West, so that the two complement each other, then Russia’s peasant communal land-ownership may serve as the point departure for a communist development.

The bold suggestion that revolution in an underdeveloped country might precede and precipitate revolution in the industrialized West did not pop up out of Nowhere – every idea has its prehistory – but few, will deny that it contradicts9 uproariously, the overwhelming bulk of Marx’s anterior work It is in fact, a flagrantly “anti-Marxist” heresy, as Marx’s Russian disciples surely were aware. Just six years earlier, in 1875, a Russian Jacobin, Petr Tkachev’, brought down upon himself a good dose of Engel’s ridicule – evidently with Marx’s full approval-for having had the temerity to propose some such nonsense about skipping historically ordained stages, and even the appalling fantasy that peasant-riddled Russia could reach the revolutionary starting-line before the sophisticated proletariat of the West. Such “pure hot air:’ Engels felt obliged to counsel the poor Russian “schoolboy;’ proved only that Thachev had yet “to learn the ABC of Socialism?”

Marx’s growing preoccupation with revolutionary prospects in Russia during the last decade of his life is a subject scrutinized from many angles and with marvelous insight in Teodor Shanin’s Late Marx and the Russian Road, a book of impeccable scholarship that is also a major contribution to the clarification of revolutionary perspectives today. As Shanin and his collaborators have shown, Marx was hostile to Russian Populism in the I860s, but began to change his mind early in the next decade when he taught himself Russian and started reading Populist literature, including works by the movement’s major theorist, N. G. Chernyshevsky, for whom he quickly developed the deepest admiration. By 1880 Marx was a wholehearted supporter of the revolutionary Populist Narodnaya Volyna (People’s Will), even defending its terrorist activities (the group attempted to assassinate the Czar that year, and succeeded the next), while remaining highly critical of the “boring doctrines” of Plekhanov and other would-be Russian “Marxists” whom he -derided as “defenders of capitalism.” Throughout this period Marx read avidly in the field of Russian history and economics; a list he made of his Russian books in August 1881 included nearly 200 titles.

The iconoclastic reply to Zasulich then, was conditioned by many factors, including the formation of a new Russian revolutionary movement, personal meetings with Populists and others from Russia, and Marx’s wide reading of scholarly and popular literature, as well as radical and bourgeois newspapers.

Several provocative coincidences relate Ancient Society to this major shift in Marx’s thought. First, Marx originally borrowed a copy of the book from one of his Russian visitors, Maxim Kovalevsky, who had brought it back from a trip to the U.S. Whether this was the COPY Marx excerpted is not known; Engels did not find the book on Marx’s shelves after his death. But Morgan’s work aroused interest among other Russian revolutionary émigrés as well, for we know that Marx’s longtime friend Petr Lavrov, a First-Internationalist and one of the most important Populists, also owned a copy, which he had purchased at a London bookshop. These are the only two copies of the book known to have existed in Marx’s immediate milieu during his lifetime.’

Second, Marx’s Morgan excerpts include interpolated comments of his own on the Russian commune. The Notebooks also touch on other themes-most notably the skipping of stages by means of technological diffusion between peoples at different stages of development-that recur in the drafts of the letter to Zasulich.

Third, and more strikingly, Zasulich’s letter to Marx reached him just as he was in the midst of, or had just completed, making these annotated excerpts from Morgan’s work.

Fourth, and most important of all, Marx cited and even quoted-or rather paraphrased-Morgan in a highly significant passage in one of the drafts of his reply to Zasulich:

the rural, commune [in Russia] finds [capitalism in the West] in a State of crisis that will end only when the social system is eliminated through the return of modern societies to the “archaic” type of communal property In the words of an American writer who, supported in his work by the Washington government, is not at all to be suspected of revolutionary tendencies [here Marx refers to the fact that Morgan’s Systems of Consanguinity and Affinity was published by the Smithsonian Institution] “the new system” to which modern society is tending “will be a revival, in a superior form, of an archaic social type.” We should not then, be too frightened by the word archaic.”

Scattered through the drafts of his letter to Zasulich, moreover; are a half dozen other unmistakable allusions to Morgan’s researches. 

Thus we have ascertained that Zasulich’s letter arrived at a time when Ancient Society was very much on Marx’s mind. Taken together; the foregoing “coincidences” strongly urge upon us the conclusion that Marx’s reading of Morgan was an active factor in the qualitative leap in his thought on revolution in under-developed countries.
***

If America’s “radical intelligentsia” were something more than an academically domesticated sub-subculture of hyper-timid and ultra-respectable seekers of safe at-all cost careers, Marx’sEthnological Notebooks might have spearheaded, among other things, a revival of interest in Lewis Henry Morgan. But no, the Notebooks have been conveniently ignored and, notwithstanding a few faint glimmers of change in the 1960s, the near-universal contempt for the author of Ancient Society remains in hill force today.

Even so perceptive and sensitive a critic as Raya Dunayevsakaya did not entirely avoid the unfortunate Morgan-bashing that has been a compulsory ritual of American anthropology, and of U.S. intellectual life generally, since the First World War. In her case, of course, she was responding to rather different rituals on the opposite side of the ideological fence: to what one could call the pseudo-Marxists’ pseudo-respect for Morgan. In truth, however; the traditional rhetorical esteem for Morgan on the part of Stalinists and social-democrats is only another form of contempt, for with few exceptions it was not founded on a scrupulous reading of Morgan but an unscrupulous reading of Engels.

Caught in the welter of a politically motivated and therefore all the more highly emotional “debate” between equally careless would-be friends and automatic enemies, Morgan’s writings have been practically lost from sight for decades.

Marx’s enthusiasm for Morgan’s work, discernible on every page of these Notebooks, becomes obvious when one compares the Morgan notes to those on the other ethnological writers whose books Marx excerpted: Sir John Phear, Sir Henry Maine and Sir John Lubbock. The excerpts from Morgan are not only much longer, half again as long as all the others combined-showing how deeply interested Marx was in what Morgan had to say-but also are free of the numerous and sometimes lengthy sarcastic asides sprinkled so liberally throughout the other notes. More-over, while Marx’s disagreements with the others are many and thoroughgoing, his differences with Morgan, as Krader admits are “chiefly over details.” As a longtime “disciple of Hegel:’ Marx disapproved by means of a parenthetical question-mark and exclamation-point-an inexact use of the adjective “absolute.” He further disputed Morgan’s interpretation of a passage from the Iliad, and another by Plutarch, neither of them central to Morgan’s argument. Such differences do not smack of the insurmountable, Earlier I noted a few instances in which Marx’s views diverged from Morgan’s on somewhat larger questions, but even these are as nothing compared to his complete disagreement in principle with Maine and the others. Indeed, at several points where Marx gave the “block-head” and “philistine” Maine and the “civilized ass’, Lubbock a good pounding for their shabby scholar-ship, their Christian hypocrisy, their bourgeois ethno-centrism and racism, their inability to “free themselves of their own conventionalities;’ he specifically cited Morgan as a decisive authority against them.

Accepting Morgan’s data and most of his interpretations as readily as he rejected the inane ideological claptrap of England’s royal ethnologists, with their typically bourgeois mania for finding kings and capital in cultures where such things do not exist’ Marx was no doubt pleased to discover in Ancient Society an arsenal of arguments in support of his own decidedly anti-teleological revolutionary outlook. What matters, of course, is not so much that Marx found Morgan to be, in many respects, a kindred Spirit, or even that he learned from him, but that the things he learned from Morgan were so important to him.

However much his approach to Morgan may have differed from Engels’, Marx certainly agreed with the latter’s contention (in a letter to Karl Kautsky, 26 April 1884), that “Morgan makes it possible for us to look at things from entirely new points of view?” Reading Ancient Societyappreciably deepened his knowledge of many crucial questions, and qualitatively transformed his thinking on other. The British socialist M.Hyndman, recalling conversations he had with Marx during late 1880/early 1881, wrote in his memoirs that “when Lewis Morgan proved to Marx’s satisfaction that the gens and not the family was the social unit of the old tribal system and ancient society generally, Marx at once abandoned his previous opinions based upon Niebuhr and others, and accepted Morgan’s view?” Anyone capable of making Karl Marx, at the age of 63, abandon his previous opinions, is worthy of more than passing interest.

It was only after reading Morgan that anthropology, previously peripheral to Marx’s thought, became its vital center. His entire conception of historical development, and particularly of pre-capitalist societies, now gained immeasurably in depth and precision. Above all, his introduction to the Iroquois and other tribal societies sharpened his sense of the livingpresence of indigenous peoples in the world, and of their possible role in future revolutions.

Reading Morgan, therefore, added far more than a few stray bits and pieces to Marx’s thought-it added a whole new dimension, one that has been suppressed for more than a century and is only beginning to be developed today.

The careful re-evaluation of Morgan’s work-for which Marx’s notes on his magnum opusprovide such a stimulus-is surely a long-overdue project for those who are struggling, with the clarity that comes only with despair, for ways out of the manifold impasses to revolution in our time. Too often simply reduced to a one-dimensional determinism and a bourgeois biologism, taken to task ad nauseum for the alleged “rigidity” of his evolutionary system – which he, however, held to be only “Provisional” – Morgan is in fact a complex figure: subtle, far-ranging, many-sided, non-academic, passionately drawn toward poetry (his devotion to Shakespeare was as great as Marx’s), and in many ways more radical than even his relatively few sincere and knowledgeable admirers have been willing to admit.

His sympathetic diary-notes on the Paris Commune, made on his brief sojourn in that city in June lSfl, and his public defense of the Sioux during the anti-Indian “Red Scare” following “Custer’s Last Stand” in 1876-to cite only two expressions of his dissident views on major issues of the day – show that Morgan had little in common with the pedestrian image of the pious Presbyterian and conservative burgher customarily used to characterize him, The strong critical-utopian undercurrent in his work, especially evident in the many remarkable parallels between his thought and Fourier’s, but also in his vehement anti-clericalism and his veneration for heretics such as Jan Hus, has hardly been explored at all.

Let it not be forgotten, finally, that, apart from his epoch-making researches in the field of anthropology, Morgan also left us a wonderful monograph on The American Beaver and His Works (1868), a treatise pronounced “excellent” by Charles Darwin, who cited’ it several times in The Descent of Man, In its last chapter, Morgan bravely developed the notion of a “thinking principle” in animals and came out for animal rights:

Is it to be the prerogative of man to uproot and destroy not only the masses of the animal kingdom numerically, but also the great body of the species? If the human family maintains its present hostile attitude toward [animals], and increases in number: and in civilization at the present ratio. It is plain to be seen that many species of animals must be extirpated from the earth. An arrest of the progress of the human race can alone prevent the dismemberment and destruction of a large portion of the animal kingdom… The present attitude of man toward the (animals] is not such as befits his Superior wisdom. We deny [other species] all rights, and ravage their ranks with wanton and unmerciful cruelty The annual sacrifice of animal life to maintain human life is frightful… when we claim that the bear was made for man food, we forget that man was just as much made to be food for the bear. Morgan hoped that with the development of a friendlier, less prejudiced, more intimate study of the other creatures of this planet, “our relations to them “will appear to us in a different, and in a better light?’

***

In the 1950s and ’60s the revelations of “Early Marx” gave the lie alike to the oppressors of East and West. Early Marx, as millions discovered for themselves was the irreconcilable enemy not only of genocidal, capitalist, “free enterprise” wage-slavery, but also of institutionalized, “official,” bureaucratic state-capitalist “Marxism?” Against all forms of man’s inhumanity to man: Marx’s youthful revolutionary humanism helped inspire a worldwide resurgence of radical thought and action that became known as the “New-left” and gave the bosses and bureaucrats of all countries their biggest scare since the Spanish Revolution of 1936. In an intellectual atmosphere already bright with molotov cock-tails tossed at Russian tanks by young workers in Budapest in 1956, and at U.S. tanks by black youth in Chicago and dozens of other U.S. cities ten years later; Marx’s Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 brought to the world exactly what revolutionary theory is supposed to bring: more light.

Early Marx was no Marxist, and never even had to pronounce himself on the matter, for Marxism hadn’t been invented yet. Late Marx was no Marxist, either; and said so himself, more than once. Lukewarm liberals and ex-radicals galore have genuflected endlessly on Marx’s jocular disclaimer, in vain attempts to convince themselves and the gullible that the author ofThe Civil War in France wound up on the side of the faint-hearted. But when Marx declared “I am no Marxist” he was certainly not renouncing his life’s work or his revolutionary passion)’ He was rejecting the reification and caricature of his work by “disciples” who preferred the study of scripture to the study of life, and mistook the quoting of chapter and verse and slogan for revolutionary theory and practice. Unlike these and legions of later “Marxists,” Marx refused to evaluate a constantly changing reality by means of exegeses of his own writings. For him, the study of texts-and he was a voracious reader if ever there was one – was part of a process of self-clarification and self-correction, a testing of his views against the arguments and evidence of others, a broadening of perspectives through an ongoing and open confrontation with the new and unexpected. For Late Marx, the motto doubt everything was no joke. Or at least it was not only a joke.

This is especially noticeable in the last decade of Marx’s life, and the Ethnological Notebooksare an especially revealing example of his readiness to revise previously held views in the light of new discoveries. At the very moment that his Russian “disciples” – those “admirers of capitalism,” as he ironically tagged them-were loudly proclaiming that the laws of historical development set forth in the first volume of Capital were universally mandatory, Marx himself was diving headlong into the study of (for him) new experiences of resistance and revolt against oppression – by North American Indians, Australian aborigines. Egyptians and Russian peasants. As we have seen, this study led him not only to dramatically and extensively alter his earlier views, but also to champion a movement in Russia that his “disciples” there and elsewhere scorned as “ahistorical,” “utopian’ “unrealistic” and “petty-bourgeois?’ Even today such epithets ate not unfamiliar to anyone who has ever dared to struggle against the existing order in a manner unprescribed by the “Marxist” Code of Law.

Late Marx also undercuts the several neo and anti-Marxisms that have, from time to time, held the spot-light in the intellectual fashion-shows of recent years-those hothouse hybrids concocted by specialists who seem to have persuaded themselves that they have gone “beyond Marx” by modifying his revolutionary project of “merciless criticism of everything in existence” into one or another specifically academic program of inoffensively mild and superficial criticism, not of everything, but only of whatever happens to fall within the four walls of their particular compartmentalized specialty. Not surprisingly, when the advocates of these neo-Marxisms’ finally get around to adopting a political position, it tends to be incurably reformist. Their sad fate in this regard serves to remind us that it is not by being less merciless in our criticism, less rigorous in, our research, or less revolutionary in our social activity that we are likely to go beyond Marx. Despite their pompous claims, ninety-seven percent of the neo- Marxists arc actually to the right of the crude and mechanical Marxists of the old sects, and the separation of their theory from their practice tends to be much larger. Certainly the Wobbly hobo of yesteryear, whose Marxist library consisted of little more than the IWW Preamble and the Little Red Song Book, had a far surer grasp of social reality – and indeed – of what Marx and even Hegel were talking about-than today’s professional phenomenologist-deconstructionist neo-Marxologist who, in addition to writing unreadable micro-analytical explications of Antonio Gramsci, insists on living in an all-white neighborhood, crosses the university clerical-workers’ picket line, and votes the straight Democratic ticket.

There is every reason to believe that “Late Marx” and the Ethnological Notebooks in particular; will provide for the next global revolutionary wave something of the illumination that Early Marx brought in the 60s. By helping to finish off what remains of the debilitating hegemony of the various “Marxist” orthodoxies a well as the evasive and confusional pretensions of the various “neo-Marxisms,” Late Marx will contribute to a new flowering ofaudacity, audacity and still more audacity that alone defines the terms of revolutionary theory and practice.

Late Marx emphasized as never before the subjective factor as the decisive force in revolution. His conclusion that revolutionary social transformation could proceed from different directions and in different (though not incompatible) ways was a logical extension of his multi-linear view of history into the present and future. This new pluralism turned out to b emphatically anti-reformist, however, and it is pleasant to discover that the proponents of gradualism, nationalization, Euro-communism, social-democracy, “liberation theology” and other sickeningly sentimental and fundamentally bourgeois aberrations will find no solace in Late Marx. On the contrary, the Ethnological Notebooks and Marx’s other Writings of the last period develop both the fierce anti-statism that became -a prime focus of his work” after the Paris Commune, and the merciless critique of religion that had provided the groundwork of his writings of 1843-45. Late Marx did not become an anarchist, but his last Writings establish a film basis for the historical reconciliation of revolutionary Marxists and anarchists that Andre Breton called for in his Legitime Defense in 1926.

Pivotal to all the excitement, playfulness, humor, discovery and diversity of Late Marx-so reminiscent of the mood of the 1844 texts-his anthropological investigations have a special relevance for today. If a century later, Marx’s “return to the projects of his Paris youth” still glows brightly with the colors of the future, it is because the possibilities of the revolutionary strategy suggested in these notebooks and related writings are far from being exhausted.

A gathering of the loose ends of a lifetime of revolutionary thought and action, theEthnological Notebooks embody the final deepening and expanding Of Marx’s historical perspectives, and therefore of his Perspectives for revolution, by Marx himself. They are, in a sense, the last will and testament of Marx’s own Marxism. In these notes the “philosophical anthropology” of 1844 is empirically filled in, made more concrete, theoretically rounded out and in the end qualitatively transformed for, as Hegel observed in the Phenomenology, “in the alteration of the knowledge, the object itself also…is altered”.

Fragmentary though they are, the Notebooks, together with the drafts of the letter to Vera Zasulich and a few other texts, reveal that Marx’s culminating revolutionary vision is not only coherent and unified, but a ringing challenge to all the manifold Marxism’s that still try to dominate the discussion”” of social change today, and to all truly revolutionary thought, all thought focused on the reconciliation of humankind and the planet ‘we live on. In this challenge lies the greatest importance of these texts’ A close, critical look back to the rise and fall of ancient pre-capitalist communities, Marx’s Ethnological Notebooks and his other last writings also look ahead to today’s most promising revolutionary movements in the Third World, and the Fourth, and our own.

Raya Dunayevskaya, to whom ‘we owe the best that has been written on the Notebooks, rightly pointed out that “there is no way for us to know what Marx intended to do with this intensive study?” One need not be a card-carrying prophet to know in advance that this undeveloped work on underdeveloped societies will be developed in many different ways in the coming years.

But here is something to think about, tonight and tomorrow: With his radical new focus on the primal peoples of the world; his heightened critique of civilization and its values and institutions; his new emphasis it on the subjective factor in revolution; his ever-deeper hostility to religion and State; his unequivocal affirmation of revolutionary pluralism; his growing sense of the unprecedented depth and scope of the communist revolution as a total revolution, vastly exceeding the categories of economics and politics; his bold new posing of such fundamental questions as the relation of Man and woman, humankind and nature, imagination and culture, myth and ritual and all the “passions and Powers of the mind.” Late Marx is sharply opposed to, and incomparably more radical than, almost all that we know today as Marxism. At the same time, and everyone who understands Blake and Lautreamont and Thelonious Monk will know that this is no mere coincidence, Marx’s culminating synthesis is very close to the point of departure of surrealism, the “communism of genius”.

Taken from the Antagonism website.

You can’t do the math without the words (University of Miami Press Release)

University of Miami anthropological linguist studies the anumeric language of an Amazonian tribe; the findings add new perspective to the way people acquire knowledge, perception and reasoning

Marie Guma Diaz
University of Miami

 VIDEO: Caleb Everett, assistant professor in the department of anthropology at the University of Miami College of Arts and Sciences, talks about the unique insight we gain about people by studying…

CORAL GABLES, FL (February 20, 2012)–Most people learn to count when they are children. Yet surprisingly, not all languages have words for numbers. A recent study published in the journal ofCognitive Science shows that a few tongues lack number words and as a result, people in these cultures have a difficult time performing common quantitative tasks. The findings add new insight to the way people acquire knowledge, perception and reasoning.

The Piraha people of the Amazon are a group of about 700 semi-nomadic people living in small villages of about 10-15 adults, along the Maici River, a tributary of the Amazon. According to University of Miami (UM) anthropological linguist Caleb Everett, the Piraha are surprisingly unable to represent exact amounts. Their language contains just three imprecise words for quantities: Hòi means “small size or amount,” hoì, means “somewhat larger amount,” and baàgiso indicates to “cause to come together, or many.” Linguists refer to languages that do not have number specific words as anumeric.

“The Piraha is a really fascinating group because they are really only one or two groups in the world that are totally anumeric,” says Everett, assistant professor in the Department of Anthropology at the UM College of Arts and Sciences. “This is maybe one of the most extreme cases of language actually restricting how people think.”

His study “Quantity Recognition Among speakers of an Anumeric Language” demonstrates that number words are essential tools of thought required to solve even the simplest quantitative problems, such as one-to-one correspondence.

“I’m interested in how the language you speak affects the way that you think,” says Everett. “The question here is what tools like number words really allows us to do and how they change the way we think about the world.”

The work was motivated by contradictory results on the numerical performance of the Piraha. An earlier article reported the people incapable of performing simple numeric tasks with quantities greater than three, while another showed they were capable of accomplishing such tasks.

Everett repeated all the field experiments of the two previous studies. The results indicated that the Piraha could not consistently perform simple mathematical tasks. For example, one test involved 14 adults in one village that were presented with lines of spools of thread and were asked to create a matching line of empty rubber balloons. The people were not able to do the one-to-one correspondence, when the numbers were greater than two or three.

The study provides a simple explanation for the controversy. Unbeknown to other researchers, the villagers that participated in one of the previous studies had received basic numerical training by Keren Madora, an American missionary that has worked with the indigenous people of the Amazon for 33 years, and co-author of this study. “Her knowledge of what had happened in that village was crucial. I understood then why they got the results that they did,” Everett says.

Madora used the Piraha language to create number words. For instance she used the words “all the sons of the hand,” to indicate the number four. The introduction of number words into the village provides a reasonable explanation for the disagreement in the previous studies.

The findings support the idea that language is a key component in processes of the mind. “When they’ve been introduced to those words, their performance improved, so it’s clearly a linguistic effect, rather than a generally cultural factor,” Everett says. The study highlights the unique insight we gain about people and society by studying mother languages.

“Preservation of mother tongues is important because languages can tell us about aspects of human history, human cognition, and human culture that we would not have access to if the languages are gone,” he says. “From a scientific perspective I think it’s important, but it’s most important from the perspective of the people, because they lose a lot of their cultural heritage when their languages die.”

Will one researcher’s discovery deep in the Amazon destroy the foundation of modern linguistics? (The Chronicle of Higher Education)

The Chronicle Review

By Tom Bartlett

March 20, 2012

Angry Words

chomsky everett

A Christian missionary sets out to convert a remote Amazonian tribe. He lives with them for years in primitive conditions, learns their extremely difficult language, risks his life battling malaria, giant anacondas, and sometimes the tribe itself. In a plot twist, instead of converting them he loses his faith, morphing from an evangelist trying to translate the Bible into an academic determined to understand the people he’s come to respect and love.

Along the way, the former missionary discovers that the language these people speak doesn’t follow one of the fundamental tenets of linguistics, a finding that would seem to turn the field on its head, undermine basic assumptions about how children learn to communicate, and dethrone the discipline’s long-reigning king, who also happens to be among the most well-known and influential intellectuals of the 20th century.

It feels like a movie, and it may in fact turn into one—there’s a script and producers on board. It’s already a documentary that will air in May on the Smithsonian Channel. A play is in the works in London. And the man who lived the story, Daniel Everett, has written two books about it. His 2008 memoir Don’t Sleep, There Are Snakes, is filled with Joseph Conrad-esque drama. The new book, Language: The Cultural Tool, which is lighter on jungle anecdotes, instead takes square aim at Noam Chomsky, who has remained the pre-eminent figure in linguistics since the 1960s, thanks to the brilliance of his ideas and the force of his personality.

But before any Hollywood premiere, it’s worth asking whether Everett actually has it right. Answering that question is not straightforward, in part because it hinges on a bit of grammar that no one except linguists ever thinks about. It’s also made tricky by the fact that Everett is the foremost expert on this language, called Pirahã, and one of only a handful of outsiders who can speak it, making it tough for others to weigh in and leading his critics to wonder aloud if he has somehow rigged the results.

More than any of that, though, his claim is difficult to verify because linguistics is populated by a deeply factionalized group of scholars who can’t agree on what they’re arguing about and who tend to dismiss their opponents as morons or frauds or both. Such divisions exist, to varying degrees, in all disciplines, but linguists seem uncommonly hostile. The word “brutal” comes up again and again, as do “spiteful,” “ridiculous,” and “childish.”

With that in mind, why should anyone care about the answer? Because it might hold the key to understanding what separates us from the rest of the animals.

Imagine a linguist from Mars lands on Earth to survey the planet’s languages (presumably after obtaining the necessary interplanetary funding). The alien would reasonably conclude that the languages of the world are mostly similar with interesting but relatively minor variations.

As science-fiction premises go it’s rather dull, but it roughly illustrates Chomsky’s view of linguistics, known as Universal Grammar, which has dominated the field for a half-century. Chomsky is fond of this hypothetical and has used it repeatedly for decades, including in a 1971 discussion with Michel Foucault, during which he added that “this Martian would, if he were rational, conclude that the structure of the knowledge that is acquired in the case of language is basically internal to the human mind.”

In his new book, Everett, now dean of arts and sciences at Bentley University, writes about hearing Chomsky bring up the Martian in a lecture he gave in the early 1990s. Everett noticed a group of graduate students in the back row laughing and exchanging money. After the talk, Everett asked them what was so funny, and they told him they had taken bets on precisely when Chomsky would once again cite the opinion of the linguist from Mars.

The somewhat unkind implication is that the distinguished scholar had become so predictable that his audiences had to search for ways to amuse themselves. Another Chomsky nugget is the way he responds when asked to give a definition of Universal Grammar. He will sometimes say that Universal Grammar is whatever made it possible for his granddaughter to learn to talk but left the world’s supply of kittens and rocks speechless—a less-than-precise answer. Say “kittens and rocks” to a cluster of linguists and eyes are likely to roll.

Chomsky’s detractors have said that Universal Grammar is whatever he needs it to be at that moment. By keeping it mysterious, they contend, he is able to dodge criticism and avoid those who are gunning for him. It’s hard to murder a phantom.

Everett’s book is an attempt to deliver, if not a fatal blow, then at least a solid right cross to Universal Grammar. He believes that the structure of language doesn’t spring from the mind but is instead largely formed by culture, and he points to the Amazonian tribe he studied for 30 years as evidence. It’s not that Everett thinks our brains don’t play a role—they obviously do. But he argues that just because we are capable of language does not mean it is necessarily prewired. As he writes in his book: “The discovery that humans are better at building human houses than porpoises tells us nothing about whether the architecture of human houses is innate.”

The language Everett has focused on, Pirahã, is spoken by just a few hundred members of a hunter-gatherer tribe in a remote part of Brazil. Everett got to know the Pirahã in the late 1970s as an American missionary. With his wife and kids, he lived among them for months at a time, learning their language from scratch. He would point to objects and ask their names. He would transcribe words that sounded identical to his ears but had completely different meanings. His progress was maddeningly slow, and he had to deal with the many challenges of jungle living. His story of taking his family, by boat, to get treatment for severe malaria is an epic in itself.

His initial goal was to translate the Bible. He got his Ph.D. in linguistics along the way and, in 1984, spent a year studying at the Massachusetts Institute of Technology in an office near Chomsky’s. He was a true-blue Chomskyan then, so much so that his kids grew up thinking Chomsky was more saint than professor. “All they ever heard about was how great Chomsky was,” he says. He was a linguist with a dual focus: studying the Pirahã language and trying to save the Pirahã from hell. The second part, he found, was tough because the Pirahã are rooted in the present. They don’t discuss the future or the distant past. They don’t have a belief in gods or an afterlife. And they have a strong cultural resistance to the influence of outsiders, dubbing all non-Pirahã “crooked heads.” They responded to Everett’s evangelism with indifference or ridicule.

As he puts it now, the Pirahã weren’t lost, and therefore they had no interest in being saved. They are a happy people. Living in the present has been an excellent strategy, and their lack of faith in the divine has not hindered them. Everett came to convert them, but over many years found that his own belief in God had melted away.

So did his belief in Chomsky, albeit for different reasons. The Pirahã language is remarkable in many respects. Entire conversations can be whistled, making it easier to communicate in the jungle while hunting. Also, the Pirahã don’t use numbers. They have words for amounts, like a lot or a little, but nothing for five or one hundred. Most significantly, for Everett’s argument, he says their language lacks what linguists call “recursion”—that is, the Pirahã don’t embed phrases in other phrases. They instead speak only in short, simple sentences.

In a recursive language, additional phrases and clauses can be inserted in a sentence, complicating the meaning, in theory indefinitely. For most of us, the lack of recursion in a little-known Brazilian language may not seem terribly interesting. But when Everett published a paper with that finding in 2005, the news created a stir. There were magazine articles and TV appearances. Fellow linguists weighed in, if only in some cases to scoff. Everett had put himself and the Pirahã on the map.

His paper might have received a shrug if Chomsky had not recently co-written a paper, published in 2002, that said (or seemed to say) that recursion was the single most important feature of human language. “In particular, animal communication systems lack the rich expressive and open-ended power of human language (based on humans’ capacity for recursion),” the authors wrote. Elsewhere in the paper, the authors wrote that the faculty of human language “at minimum” contains recursion. They also deemed it the “only uniquely human component of the faculty of language.”

In other words, Chomsky had finally issued what seemed like a concrete, definitive statement about what made human language unique, exposing a possible vulnerability. Before Everett’s paper was published, there had already been back and forth between Chomsky and the authors of a response to the 2002 paper, Ray Jackendoff and Steven Pinker. In the wake of that public disagreement, Everett’s paper had extra punch.

It’s been said that if you want to make a name for yourself in modern linguistics, you have to either align yourself with Chomsky or seek to destroy him. Either you are desirous of his approval or his downfall. With his 2005 paper, Everett opted for the latter course.

Because the pace of academic debate is just this side of glacial, it wasn’t until June 2009 that the next major chapter in the saga was written. Three scholars who are generally allies of Chomsky published a lengthy paper in the journal Language dissecting Everett’s claims one by one. What he considered unique features of Pirahã weren’t unique. What he considered “gaps” in the language weren’t gaps. They argued this in part by comparing Everett’s recent paper to work he published in the 1980s, calling it, slightly snidely, his earlier “rich material.” Everett wasn’t arguing with Chomsky, they claimed; he was arguing with himself. Young Everett thought Pirahã had recursion. Old Everett did not.

Everett’s defense was, in so many words, to agree. Yes, his earlier work was contradictory, but that’s because he was still under Chomsky’s sway when he wrote it. It’s natural, he argued, even when doing basic field work, cataloging the words of a language and the stories of a people, to be biased by your theoretical assumptions. Everett was a Chomskyan through and through, so much so that he had written the MSN Encarta encyclopedia entry on him. But now, after more years with the Pirahã, the scales had fallen from his eyes, and he saw the language on its own terms rather than those he was trying to impose on it.

David Pesetsky, a linguistics professor at MIT and one of the authors of the critical Languagepaper, thinks Everett was trying to gin up a “Star Wars-level battle between himself and the forces of Universal Grammar,” presumably with Everett as Luke Skywalker and Chomsky as Darth Vader.

Contradicting Everett meant getting into the weeds of the Pirahã language, a language that Everett knew intimately and his critics did not. “Most people took the attitude that this wasn’t worth taking on,” Pesetsky says. “There’s a junior-high-school corridor, two kids are having a fight, and everyone else stands back.” Everett wrote a lengthy reply that Pesetsky and his co-authors found unsatisfying and evasive. “The response could have been ‘Yeah, we need to do this more carefully,'” says Pesetsky. “But he’s had seven years to do it more carefully and he hasn’t.”

Critics haven’t just accused Everett of inaccurate analysis. He’s the sole authority on a language that he says changes everything. If he wanted to, they suggest, he could lie about his findings without getting caught. Some were willing to declare him essentially a fraud. That’s what one of the authors of the 2009 paper, Andrew Nevins, now at University College London, seems to believe. When I requested an interview with Nevins, his reply read, “I may be being glib, but it seems you’ve already analyzed this kind of case!” Below his message was a link to an article I had written about a Dutch social psychologist who had admitted to fabricating results, including creating data from studies that were never conducted. In another e-mail, after declining to expand on his apparent accusation, Nevins wrote that the “world does not need another article about Dan Everett.”

In 2007, Everett heard reports of a letter signed by Cilene Rodrigues, who is Brazilian, and who co-wrote the paper with Pesetsky and Nevins, that accuses him of racism. According to Everett, he got a call from a source informing him that Rodrigues, an honorary research fellow at University College London, had sent a letter to the organization in Brazil that grants permission for researchers to visit indigenous groups like the Pirahã. He then discovered that the organization, called FUNAI, the National Indian Foundation, would no longer grant him permission to visit the Pirahã, whom he had known for most of his adult life and who remain the focus of his research.

He still hasn’t been able to return. Rodrigues would not respond directly to questions about whether she had signed such a letter, nor would Nevins. Rodrigues forwarded an e-mail from another linguist who has worked in Brazil, which speculates that Everett was denied access to the Pirahã because he did not obtain the proper permits and flouted the law, accusations Everett calls “completely false” and “amazingly nasty lies.”

Whatever the reason for his being blocked, the question remains: Is Everett’s work racist? The accusation goes that because Everett says that the Pirahã do not have recursion, and that all human languages supposedly have recursion, Everett is asserting that the Pirahã are less than human. Part of this claim is based on an online summary, written by a former graduate student of Everett’s, that quotes traders in Brazil saying the Pirahã “talk like chickens and act like monkeys,” something Everett himself never said and condemns. The issue is sensitive because the Pirahã, who eschew the trappings of modern civilization and live the way their forebears lived for thousands of years, are regularly denigrated by their neighbors in the region as less than human. The fact that Everett is American, not Brazilian, lends the charge added symbolic weight.

When you read Everett’s two books about the Pirahã, it is nearly impossible to think that he believes they are inferior. In fact, he goes to great lengths not to condescend and offers defenses of practices that outsiders would probably find repugnant. In one instance he describes, a Pirahã woman died, leaving behind a baby that the rest of the tribe thought was too sick to live. Everett cared for the infant. One day, while he was away, members of the tribe killed the baby, telling him that it was in pain and wanted to die. He cried, but didn’t condemn, instead defending in the book their seemingly cruel logic.

Likewise, the Pirahã’s aversion to learning agriculture, or preserving meat, or the fact that they show no interest in producing artwork, is portrayed by Everett not as a shortcoming but as evidence of the Pirahã’s insistence on living in the present. Their nonhierarchical social system seems to Everett fair and sensible. He is critical of his own earlier attempts to convert the Pirahã to Christianity as a sort of “colonialism of the mind.” If anything, Everett is more open to a charge of romanticizing the Pirahã culture.

Other critics are more measured but equally suspicious. Mark Baker, a linguist at Rutgers University at New Brunswick, who considers himself part of Chomsky’s camp, mentions Everett’s “vested motive” in saying that the Pirahã don’t have recursion. “We always have to be a little careful when we have one person who has researched a language that isn’t accessible to other people,” Baker says. He is dubious of Everett’s claims. “I can’t believe it’s true as described,” he says.

Chomsky hasn’t exactly risen above the fray. He told a Brazilian newspaper that Everett was a “charlatan.” In the documentary about Everett, Chomsky raises the possibility, without saying he believes it, that Everett may have faked his results. Behind the scenes, he has been active as well. According to Pesetsky, Chomsky asked him to send an e-mail to David Papineau, a professor of philosophy at King’s College London, who had written a positive, or at least not negative, review of Don’t Sleep, There Are Snakes. The e-mail complained that Papineau had misunderstood recursion and was incorrectly siding with Everett. Papineau thought he had done nothing of the sort. “For people outside of linguistics, it’s rather surprising to find this kind of protection of orthodoxy,” Papineau says.

And what if the Pirahã don’t have recursion? Rather than ferreting out flaws in Everett’s work as Pesetsky did, Chomsky’s preferred response is to say that it doesn’t matter. In a lecture he gave last October at University College London, he referred to Everett’s work without mentioning his name, talking about those who believed that “exceptions to the generalizations are considered lethal.” He went on to say that a “rational reaction” to finding such exceptions “isn’t to say ‘Let’s throw out the field.'” Universal Grammar permits such exceptions. There is no problem. As Pesetsky puts it: “There’s nothing that says languages without subordinate clauses can’t exist.”

Except the 2002 paper on which Chomsky’s name appears. Pesetsky and others have backed away from that paper, arguing not that it was incorrect, but that it was “written in an unfortunate way” and that the authors were “trying to make certain things comprehensible about linguistics to a larger public, but they didn’t make it clear that they were simplifying.” Some say that Chomsky signed his name to the paper but that it was actually written by Marc Hauser, the former professor of psychology at Harvard University, who resigned after Harvard officials found him guilty of eight counts of research misconduct. (For the record, no one has suggested the alleged misconduct affected his work with Chomsky.)

Chomsky declined to grant me an interview. Those close to him say he sees Everett as seizing on a few stray, perhaps underexplained, lines from that 2002 paper and distorting them for his own purposes. And the truth, Chomsky has made clear, should be apparent to any rational person.

Ted Gibson has heard that one before. When Gibson, a professor of cognitive sciences at MIT, gave a paper on the topic at a January meeting of the Linguistic Society of America, held in Portland, Ore., Pesetsky stood up at the end to ask a question. “His first comment was that Chomsky never said that. I went back and found the slide,” he says. “Whenever I talk about this question in front of these people I have to put up the literal quote from Chomsky. Then I have to put it up again.”

Geoffrey Pullum, a professor of linguistics at the University of Edinburgh, is also vexed at how Chomsky and company have, in his view, played rhetorical sleight-of-hand to make their case. “They have retreated to such an extreme degree that it says really nothing,” he says. “If it has a sentence longer than three words then they’re claiming they were right. If that’s what they claim, then they weren’t claiming anything.” Pullum calls this move “grossly dishonest and deeply silly.”

Everett has been arguing about this for seven years. He says Pirahã undermines Universal Grammar. The other side says it doesn’t. In an effort to settle the dispute, Everett asked Gibson, who holds a joint appointment in linguistics at MIT, to look at the data and reach his own conclusions. He didn’t provide Gibson with data he had collected himself because he knows his critics suspect those data have been cooked. Instead he provided him with sentences and stories collected by his missionary predecessor. That way, no one could object that it was biased.

In the documentary about Everett, handing over the data to Gibson is given tremendous narrative importance. Everett is the bearded, safari-hatted field researcher boating down a river in the middle of nowhere, talking and eating with the natives. Meanwhile, Gibson is the nerd hunched over his keyboard back in Cambridge, crunching the data, examining it with his research assistants, to determine whether Everett really has discovered something. If you watch the documentary, you get the sense that what Gibson has found confirms Everett’s theory. And that’s the story you get from Everett, too. In our first interview, he encouraged me to call Gibson. “The evidence supports what I’m saying,” he told me, noting that he and Gibson had a few minor differences of interpretation.

But that’s not what Gibson thinks. Some of what he found does support Everett. For example, he’s confirmed that Pirahã lacks possessive recursion, phrases like “my brother’s mother’s house.” Also, there appear to be no conjunctions like “and” or “or.” In other instances, though, he’s found evidence that seems to undercut Everett’s claims—specifically, when it comes to noun phrases in sentences like “His mother, Itaha, spoke.”

That is a simple sentence, but inserting the mother’s name is a hallmark of recursion. Gibson’s paper, on which Everett is a co-author, states, “We have provided suggestive evidence that Pirahã may have sentences with recursive structures.”

If that turns out to be true, it would undermine the primary thesis of both of Everett’s books about the Pirahã. Rather than the hero who spent years in the Amazon emerging with evidence that demolished the field’s predominant theory, Everett would be the descriptive linguist who came back with a couple of books full of riveting anecdotes and cataloged a language that is remarkable, but hardly changes the game.

Everett only realized during the reporting of this article that Gibson disagreed with him so strongly. Until then, he had been saying that the results generally supported his theory. “I don’t know why he says that,” Gibson says. “Because it doesn’t. He wrote that our work corroborates it. A better word would be falsified. Suggestive evidence is against it right now and not for it.” Though, he points out, the verdict isn’t final. “It looks like it is recursive,” he says. “I wouldn’t bet my life on it.”

Another researcher, Ray Jackendoff, a linguist at Tufts University, was also provided the data and sees it slightly differently. “I think we decided there is some embedding but it is of limited depth,” he says. “It’s not recursive in the sense that you can have infinitely deep embedding.” Remember that in Chomsky’s paper, it was the idea that “open-ended” recursion was possible that separated human and animal communication. Whether the kind of limited recursion Gibson and Jackendoff have noted qualifies depends, like everything else in this debate, on the interpretation.

Everett thinks what Gibson has found is not recursion, but rather false starts, and he believes further research will back him up. “These are very short, extremely limited examples and they almost always are nouns clarifying other nouns,” he says. “You almost never see anything but that in these cases.” And he points out that there still doesn’t seem to be any evidence of infinite recursion. Says Everett: “There simply is no way, even if what I claim to be false starts are recursive instead, to say, “‘My mother, Susie, you know who I mean, you like her, is coming tonight.'”

The field has a history of theoretical disagreements that turn ugly. In the book The Linguistic Wars, published in 1995, Randy Allen Harris tells the story of another skirmish between Chomsky and a group of insurgent linguists called generative semanticists. Chomsky dismissed his opponents’ arguments as absurd. His opponents accused him of altering his theories when confronted and of general arrogance. “Chomsky has the impressive rhetorical talent of offering ideas which are at once tentative and fully endorsed, of appearing to take the if out of his arguments while nevertheless keeping it safely around,” writes Harris.

That rhetorical talent was on display in his lecture last October, in which he didn’t just disagree with other linguists, but treated their arguments as ridiculous and a mortal danger to the field. The style seems to be reflected in his political activism. Watch his 1969 debate on Firing Lineagainst William F. Buckley Jr., available on YouTube, and witness Chomsky tie his famous interlocutor in knots. It is a thorough, measured evisceration. Chomsky is willing to deploy those formidable skills in linguistic arguments as well.

Everett is far from the only current Chomsky challenger. Recently there’s been a rise in so-called corpus linguistics, a data-driven method of evaluating a language, using computer software to analyze sentences and phrases. The method produces detailed information and, for scholars like Gibson, finally provides scientific rigor for a field he believes has been mired in never-ending theoretical disputes. That, along with the brain-scanning technology that linguists are increasingly making use of, may be able to help resolve questions about how much of the structure of language is innate and how much is shaped by culture.

But Chomsky has little use for that method. In his lecture, he deemed corpus linguistics nonscientific, comparing it to doing physics by describing the swirl of leaves on a windy day rather than performing experiments. This was “just statistical modeling,” he said, evidence of a “kind of pathology in the cognitive sciences.” Referring to brain scans, Chomsky joked that the only way to get a grant was to propose an fMRI.

As for Universal Grammar, some are already writing its obituary. Michael Tomasello, co-director of the Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, has stated flatly that “Universal Grammar is dead.” Two linguists, Nicholas Evans and Stephen Levinson, published a paper in 2009 titled “The Myth of Language Universals,” arguing that the “claims of Universal Grammar … are either empirically false, unfalsifiable, or misleading in that they refer to tendencies rather than strict universals.” Pullum has a similar take: “There is no Universal Grammar now, not if you take Chomsky seriously about the things he says.”

Gibson puts it even more harshly. Just as Chomsky doesn’t think corpus linguistics is science, Gibson doesn’t think Universal Grammar is worthwhile. “The question is, ‘What is it?’ How much is built-in and what does it do? There are no details,” he says. “It’s crazy to say it’s dead. It was never alive.”

Such proclamations have been made before and Chomsky, now 83, has a history of outmaneuvering and outlasting his adversaries. Whether Everett will be yet another in a long line of would-be debunkers who turn into footnotes remains to be seen. “I probably do, despite my best intentions, hope that I turn out to be right,” he says. “I know that it is not scientific. But I would be a hypocrite if I didn’t admit it.”

Canibais? Nós? Imagine! (Revista Geo)

Canibais viveram na América do Sul ou na Nova Guiné – mas com certeza não na Europa! Que engano! Ainda no século 19, a antropofagia era praticada em Berlim ou Paris; embora não de forma tão grotesca como na gravura (à esquerda). Na Europa, partes do corpo humano eram consumidas por razões médicas…

Por Andreas Weiser

Edição 31 – 2011

No dia em que fui preso ainda navegávamos a cerca de sete milhas de distância de Bertioga, quando os selvagens tomaram o rumo de uma ilha. Eles puxaram as canoas para a terra e depois me arrastaram para fora. Eu não conseguia ver nada de tão machucado que estava meu rosto. Também não conseguia andar por causa da lesão na minha perna; portanto, fiquei caído na areia. Os selvagens me cercaram e indicaram com gestos ameaçadores que pretendiam me devorar.”

Hans Staden é o nome do infeliz tão gravemente ferido, caído em uma praia no litoral brasileiro naquela ensolarada tarde de dezembro de 1553. Ele é um “lansquenê” (do alemão Landsknecht, soldado mercenário alemão). Staden era procedente da região do atual estado de Hesse, na Alemanha, mas estava a serviço dos colonialistas portugueses comandando uma pequena fortificação não muito distante da atual cidade de São Paulo.

Levianamente, ele havia se afastado demais da área protegida pelo forte, caindo nas mãos dos índios tupinambá, que estavam em pé de guerra com os portugueses. Prisioneiros inimigos costumavam ser escravizados pelos índios litorâneos – ou eram devorados. “Quando nos aproximamos da aldeia chamada Ubatuba, vi sete cabanas. Perto da praia na qual eles tinham largado suas canoas havia mulheres trabalhando na roça… Fui forçado a lhes gritar de longe em sua língua Aju ne xe remiurama, que quer dizer: ‘Eu, vossa comida, estou chegando’.”

O lansquenê não estava destinado ao consumo imediato. Os tupinambá o reservariam para ser devorado durante uma festividade. Staden permaneceu em cativeiro durante nove meses.

Durante esse tempo ele foi obrigado a assistir como os índios matavam e comiam outros prisioneiros. Em seus diários, o alemão descreve o ritual nos mínimos detalhes – e de uma forma tão distante que é como se o medo de logo chegar a sua vez o tivesse feito sair de si mesmo e se transformado em um observador imparcial.

Uma crônica do século 16 ilustra como o lansquenê (do alemão Landsknecht, soldado mercenário alemão que, nos séculos 15 e 16 servia sob o comando de oficiais de sua nacionalidade) Hans Staden cai nas mãos dos “nus comedores de gente”

“Eles fazem borlas de plumas para a clava com o qual matam o prisioneiro”, escreveu o lansquenê. “Quando tudo está preparado, eles determinam o dia em que o infeliz morrerá e convidam índios de outras aldeias para essa celebração.”

Depois disso, o drama na mata Atlântica se aproxima de seu clímax: “Por fim, um dos homens pega a clava, se posiciona diante do prisioneiro e lhe mostra a arma de tal modo que a vítima é obrigada a olhar para ela. Enquanto isso, o índio que matará o prisioneiro sai em companhia de outros 13 ou 14. Eles pintam os corpos com cinzas antes de retornarem à praça onde está o cativo.”

Segue-se uma troca de palavras entre o prisioneiro e o índio que irá matá-lo. Depois disso, o guerreiro “o atinge com a clava por trás na cabeça”.

Imediatamente, as mulheres esfolam o cadáver sobre uma fogueira. Em seguida, Hans Staden descreve como o morto é esquartejado. Um homem “corta suas pernas acima do joelho e separa os braços do torso; então quatro mulheres pegam essas quatro partes e, com grande gritaria de alegria, correm com elas ao redor da cabana. Depois disso, eles separam as costas com o traseiro da parte dianteira do corpo. Eles comem as tripas e também a carne da cabeça. O cérebro, a língua e todo o resto comestível da cabeça são reservados para as crianças. Depois que tudo isso aconteceu, cada um volta para sua oca levando a sua parte”.

ISSO REALMENTE PODE ser verdade? Os relatos de Staden não lembram demais aquelas histórias em quadrinhos de canibais em que o homem branco cozinha no caldeirão de um cacique da selva todo enfeitado com plumas e ossos?

Atualmente, muitos cientistas acreditam que está provado que os tupinambá, bem como outras tribos indígenas, de fato eram canibais. Ao que tudo indica, aquela fração de antropólogos que queria categoricamente absolver “o bom selvagem” da acusação de antropofagia foi refutada: um patologista e bioquímico comprovou a existência de traços de proteínas humanas em restos de excrementos e em panelas centenárias dos índios anasazi norte-americanos – provas irrefutáveis de canibalismo. Na Amazônia, pesquisadores documentaram casos de antropofagia ritualística até o século 20. Os índios wari, por exemplo, não consumiam apenas seus inimigos mortos mas também parentes falecidos. A ideia de enterrar um ente querido na terra úmida e mofada da floresta lhes era repugnante.

Nos anos 90, o indianista Werner Hammer ainda presenciou como os índios yanomami misturavam as cinzas de seus mortos em uma papa de banana e depois a consumiam. Desse modo a comunidade internalizava seus falecidos.

Pergunta-se também o quanto Hans Staden foi verossímil como cronista. Sua obra Viagens e aventuras no Brasil (o título original é: História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com Essa Impressão”) foi publicada pela primeira vez em 1557, em Marburgo, Alemanha. Ela é um dos primeiros documentos detalhados de um mundo que já não existe mais. Muitos consideram o relato de Staden autêntico – e pesquisadores brasileiros também o utilizam como uma fonte valiosa de informação.

A antropofagia: (não) era um tabu na Europa

O canibalismo como expressão extrema de miséria também existiu na Europa: soldados espanhóis comem condenados à morte

Hans Staden descreve sem refletir sobre o que ocorre à sua volta. Ele não compreende que os tupinambá não matam e comem seus prisioneiros pelo puro prazer de matar. Ele é intelectualmente incapaz de conceber que o canibalismo praticado por eles brota de sua crença mágica de se apropriarem da força física e espiritual do inimigo por meio do ritual antropofágico.

De certa forma, a cerimônia era até uma homenagem à força do oponente: na Amazônia daquela época, ter um fim desses era considerado sofrer uma morte honrosa, explica Richard Sugg, da Universidade de Durham, na Inglaterra. Uma de suas áreas de pesquisa é o chamado “canibalismo medicinal”. Mas, para Staden, os indígenas não passavam de selvagens que comiam suas vítimas movidos apenas por um “grande ódio e inveja”.

ESTA ERA UMA OPINIÃO que certamente estava de acordo com o espírito de época vigente na Europa. Na Espanha do século 16, os habitantes nativos do Novo Mundo eram coletivamente demonizados – inclusive como justificativa para sua submissão e escravização. Para os europeus, o canibalismo era um fenômeno fora de seus próprios limites morais e geográficos. Um tabu, um ato de anomalia proibido por uma questão moral. Eram selvagens os que comiam a carne de sua própria espécie – algo impensável em uma sociedade civilizada. Ou pelo menos era nisso que os europeus queriam acreditar. Porém, eles estavam completamente equivocados.

Antropólogos distinguem três tipos básicos de comportamento antropofágico: o canibalismo por fome, o ritualístico e o medicinal. O primeiro é uma estratégia de sobrevivência na luta pela existência nua e crua, que ocorre em todas as sociedades a qualquer momento.

Cenas da vida cotidiana dos índios tupinambá, do ponto de vista de Hans Staden. O guerreiro à esquerda carrega a clava com a qual os presos eram abatidos antes de serem esquartejados

Na época em que Hans Staden aguardava seu próprio sacrifício na América do Sul, a Europa sofria com epidemias, atrocidades da guerra e fome. As cidades foram vitimadas pela peste; mais tarde a guerra dos Trinta Anos (1618-1648) devastou grandes áreas do continente e uma catastrófica mudança climática destruiu uma colheita atrás da outra. A Europa mergulhou em uma terrível fome.

Testemunhas da Alsácia de 1636 relataram, por exemplo, que as pessoas iam aos cemitérios e desenterravam cadáveres para comê-los, ou cortavam os enforcados do cadafalso para consumi-los. No mesmo ano, uma pastora de gado de Ruppertshofen, no sul da Alemanha, teria “arrancado a carne dos ossos de seu marido morto; cortando-a em pedaços, cozinhando e consumindo-a com seus filhos”.

NOS TEMPOS MODERNOS, a mais absoluta necessidade também pode transformar pessoas perfeitamente normais em canibais. Foi o que ocorreu com os membros de uma equipe de rúgbi do Uruguai, cujo avião caiu nos Andes, em 1972. Isolados durante 72 dias na gélida cordilheira, os sobreviventes se alimentaram da carne de seus colegas mortos. Sob o título Sobreviventes dos Andes, o trágico e sinistro episódio foi recriado em um filme de Hollywood.

O mesmo aconteceu no cerco a Leningrado, na União Soviética, entre 1941 e 1944, quando o exército alemão cortou todo e qualquer fornecimento de víveres à cidade. Desesperadas, as pessoas viram-se diante de duas alternativas: morrer de fome (o que aconteceu com centenas de milhares) ou fazer o impensável – o que centenas de fato fizeram.

Já o canibalismo ritualístico, como o praticado pelos índios tupinambá, não é um ato de necessidade ou desespero. Nem o canibalismo medicinal – a variante europeia de práticas antropofágicas.

Carne fresca da forca: particularmente cobiçada

Saque de cadáveres na guerra dos Trinta Anos: os famintos desenterravam até caixões. O canibalismo medicinal era a variante socialmente aceitável dessas ações repugnantes

Essas duas formas de antropofagia tinham suas raízes na idéia de que o corpo humano, mesmo depois de morto, ainda continha forças que podiam ser transferidas aos vivos – um conceito que sobreviveu até os primórdios da modernidade na cultura dos tupinambá, wari ou yanomami; bem como entre os povos das florestas tropicais da Nova Guiné, que ainda viviam na Idade da Pedra, e entre muitos cidadãos de Londres, Paris ou Berlim.

Os canibais europeus também consumiam partes do corpo humano para se beneficiar das forças obscuras do morto; contudo, eles não capturavam pessoas para consumi-las. Na Europa, aproveitavam-se os corpos de vítimas de execuções.

NO SÉCULO 16, quando Hans Staden ainda aguardava a sua morte na América do Sul –, médicos e farmacêuticos europeus acreditavam plenamente na energia mágica que, segundo eles, emanava dos corpos de recém-executados. A ingestão de carne humana não era, de forma alguma, um ritual secreto, realizado à luz bruxuleante de velas. Na Europa, os membros dos mortos ou as substâncias derivadas deles farão parte durante séculos do repertório do tratamento médico. O comércio de múmias e partes de cadáveres se transformou em um ramo altamente lucrativo da economia.

O famoso médico, alquimista, físico e astrólogo suíço Paracelso é considerado o representante mais conhecido do canibalismo medicinal – e ele deixou instruções precisas. No século 17, seu seguidor Johann Schroeder escreveu: “O ideal é você pegar o corpo de um homem ruivo, de cerca de 24 anos, que morreu de morte violenta”.

Cabelos ruivos eram sinal de “sangue mais leve” e de “uma carne melhor”. Era considerado particularmente importante que o cadáver não tivesse “dessangrado” – sangrado até a morte; pois, de acordo com a escola de pensamento dominante, um corpo sem sangue era um corpo sem alma.

Os tupinambá trazem o prisioneiro (a partir da esquerda); duas mulheres dançam ao redor da fogueira. A vítima é desmembrada. Sua cabeça é fervida; Staden está presente e reza

Todavia, o poder inerente ao cadáver era um produto altamente perecível. Era preciso captá-lo sem demora, para que não se esvaísse. De acordo com a imaginação da época, quando alguém morria, o vínculo entre a alma e o corpo se dissolvia em um prazo de 3 ou 4 dias. Portanto, somente quem se alimentasse de um cadáver fresco (ou de produtos derivados dele) podia ingerir também a sua alma e beneficiar- se de seus poderes.

Acreditava-se que era principalmente o sangue que continha aqueles “espíritos vitais” (Lebensgeister, em alemão) que uniriam a alma e o corpo. Dizem que quando o papa Inocêncio VIII estava à beira da morte, em 1492, os médicos teriam sangrado três meninos para ministrar ao seu proeminente paciente o sangue deles. Depois do procedimento, os meninos teriam morrido – e a intervenção aparentemente também não teria ajudado o Santo Padre.

NAQUELA ÉPOCA, os médicos papais também desconheciam o princípio que Paracelso postularia pouco mais tarde: “especialmente eficazes”, escreveu ele em sua Arte Necromantia, “são a carne e o sangue de criminosos executados”.

“Por que justamente os cadáveres de criminosos executados são considerados a melhor substância possível?”, pergunta a pesquisadora sociocultural Anna Bergman em seu livro Der entseelte Patient (“O paciente desalmado” – até onde pude verificar, sem tradução para o português), que descreve em detalhes as práticas do canibalismo medicinal. Uma parte da resposta parece ser puro pragmatismo: “Como, de que forma obter cadáveres jovens e frescos sem se tornar um assassino?” Para Bergman, a recomendação de Paracelso tem motivos mais profundos, que se enraízam nos mundos imaginários mágicos e nos rituais de execução cristãos – que hoje nos parecem tão bizarros quanto a crença tupinambá em espíritos.

De acordo com a convicção reinante na época, a alma do “pobre pecador” era purgada de todos os seus males (pecados) nos porões das câmaras de tortura da Justiça (significando que o pecador confessava sua culpa) – uma analogia à crucificação de Jesus Cristo. Estes corpos que, arrependidos e purificados pela Graça Divina, despedem-se deste mundo no cadafalso, são particularmente cobiçados pelos canibais da Europa.

Sangue dos decapitados: remédio para as massas
 

QUANDO O SANGUE esguicha e jorra das artérias e veias do delinquente decapitado, os espectadores se amontoam na cerca ao redor do cadafalso com recipientes coletores em punho. Os assistentes do carrasco coletam o sangue e devolvem os recipientes aos seus respectivos donos – que bebem avidamente o líquido. São epilépticos convencidos de que seu sofrimento pode ser curado com o sangue fresco de um executado. Eles querem incorporar sua alma – afinal, Hildegard von Bingen já havia explicado a epilepsia como uma “evasão da alma que sai do corpo”.

Essa cena no cadafalso não se passa na Idade Média, mas em Göttingen, na Alemanha, em 1858. Naquele ano, o primeiro cabo submarino entre Europa e América entrou em operação; Karl Marx escreveu sua Contribuição à crítica da Economia Política e Rudolf Virchow apresentou sua teoria, segundo a qual as doenças surgem em consequência de perturbações nas células do corpo – que substituiu o antigo conceito sobre o funcionamento dos fluidos corporais.

Para os adeptos do canibalismo medicinal, a coleta do sangue no cadafalso é apenas o começo do aproveitamento dos mortos. Médicos e anatomistas assediam os carrascos para obterem partes do corpo particularmente cobiçadas. O povo mais simples, por sua vez, tenta se apossar por conta própria das preciosas partes (sem passar pelo caminho da medicina, cara demais para eles) e começa a praticar saques tanto ao cadafalso como nos cemitérios. Frequentemente, os restos mortais dos executados são completamente dilacerados após poucos dias.

Hans Staden escapou com vida; os tupinambá o deixaram viver – talvez por que ele lhes parecesse covarde demais? Seus relatos tornaram-se uma fonte etnográfica

O QUE OCORREU NA EUROPA foi uma diversificação daquela prática que teve seu apogeu no século 17. Muitas receitas circulavam entre a população; transmitidas oralmente na medicina popular ou artisticamente impressas em tratados eruditos. O médico Johann Schröder, por exemplo, autor do manual de medicina mais importante do século 17, recomenda “cortar a carne humana em fatias, ou pedaços pequenos”, temperá-la, curti-la em aguardente de vinho e, por fim, secá-la.

A gordura corporal também é um produto muito desejado. Em 1675, o professor de medicina Tobias Andreae desmembra uma infanticida morta por afogamento, derrete sua carne e obtém 20 quilos da chamada “gordura do pecador pobre” (expressão que definia os criminosos condenados à morte). E, na Grande Enciclopédia Universal de Zedler, de 1739, pode-se ler como transformar essa gordura em um medicamento antropofágico para uso doméstico. Não seriam, portanto, os europeus que deveriam ser chamados de “selvagens ferozes comedores de gente”? Foi precisamente isso o que aconteceu entre os habitantes da África ao sul do Saara até o século 20: mesmo sem conhecimentos detalhados sobre o canibalismo praticado no hemisfério norte, os negros acreditavam que os brancos eram antropofágicos.

OS EUROPEUS JÁ HAVIAM levantado demasiado suspeitas perpetrando crimes colonialistas. Por volta de 1800, o explorador escocês Mungo Park, especializado no continente africano, relata que os escravos acorrentados tinham certeza de que os homens brancos os estavam levando ao abatedouro e não para realizar trabalhos forçados. No Peru, a primeira insurgência contra os espanhóis foi desencadeada pelo boato de que os senhores coloniais estavam matando os povos indígenas para obter gordura corporal.

O comércio de matérias-primas canibalescas na Europa assumiu proporções transcontinentais, envolvendo múmias. Entre 1500 e 1900, os médicos, os farmacêuticos e até os charlatães prescrevem a seus pacientes partes de cadáveres embalsamados, em pó ou forma esférica (comprimido), como remédio contra quase todos os males.

O negócio com a chamada mumia vera aegyptica (a “verdadeira múmia egípcia”) assume tais dimensões que em pouco tempo a demanda por exemplares autênticos do reino dos faraós não pode mais ser atendida. Comerciantes e farmacêuticos apelam para falsificações e corpos embalsamados de mendigos, leprosos e vítimas da peste. Fetos abortados também são secados e vendidos como múmias infantis.

As verdadeiras múmias egípcias são um artigo de luxo. O rei francês Francisco I (1494-1547) sempre carregava consigo uma pequena quantidade da preciosa substância para, no caso de uma queda do cavalo ou outro ferimento se medicar imediatamente. O filósofo inglês Francis Bacon (1561- 1626) apostava tanto no poder de cura das múmias quanto o poeta Léon Tolstoi, no final do século 19. Ainda em 1912, a empresa farmacêutica alemã Merck oferecia em seu catálogo a mumia vera aegyptica – “enquanto os estoques durassem”. O preço era citado por quilo: na época, o equivalente a 17,50 marcos alemães.

As vozes céticas eram escassas. Um dos críticos mais proeminentes foi o humanista francês Michel de Montaigne que em pleno século 16 rotulou a mania das múmias como comportamento canibal e chamaou a atenção para a “crítica hipócrita” dos europeus em relação à antropofagia indígena.

Com toda razão, julga o historiador de medicina britânico Richard Sugg. Segundo ele, o canibalismo do Velho Mundo possuiu uma dimensão muito mais abrangente do que o dos índios. O consumo de múmias não era uma cerimônia mágica, mas uma parte da cultura cotidiana e da vida econômica. Na Europa, médicos e farmacêuticos faziam bons negócios com o canibalismo. No topo dessa rentável cadeia comercial estavam os carrascos e os ladrões de túmulos. “A antropofagia europeia influiu nas mais diversas esferas e países”, resume Sugg. “Não se pode compará-la ao canibalismo limitado praticado, por exemplo, por uma tribo no Brasil.” Segundo o historiador, os verdadeiros canibais viviam na Europa.

DURANTE O SEU CATIVEIRO, Hans Staden observou, incrédulo, como os índios tupinambá tratavam bem aqueles que eles haviam reservado para suas festividades: “Eles lhe dão uma mulher que cuida dele, lhe dá de comer e também se deita com ele. Se ela engravidar, eles criam a criança… Alimentam muito bem o prisioneiro e o mantêm vivo por algum tempo, enquanto fazem todos os preparativos para a celebração. Eles fabricam muitos recipientes para as bebidas e outros mais especiais para as substâncias com as quais o pintam e decoram”.

Antes de ser abatida, a vítima desfruta do maior respeito; os tupinambá até permitem que ela gere descendentes – embora o venerado inimigo seja obrigado a provar que é digno de seu papel. Como?

Os sobreviventes da queda de um avião nos Andes, em 1972, alimentaram-se durante semanas da carne de seus companheiros de viagem mortos. Seu drama de sobrevivência se transformou em um filme de Hollywood

OS ASTECAS, por exemplo, torturavam seus prisioneiros para pôr à prova a sua coragem e assim determinar se eles eram ou não adequados para uma cerimônia antropofágica, explica Richard Sugg. Segundo ele, as vítimas cooperavam com seus torturadores – na certeza de estarem sendo criticamente observadas pelo deus sol.

Hans Staden relatou que os tupinambá também davam grande valor à força física e mental do inimigo. Afinal de contas, estas eram as características mais importantes que pretendiam incorporar ao devorá-lo. O lansquenê de Hesse, no entanto, foi um completo fracasso nesse sentido.

As regras desse jogo sinistro permaneceram incompreensíveis para ele. Em sua terra natal, a Europa do século 16, as pessoas que comerão e a que será comida não estabelecem nenhum tipo de relacionamento antes da morte da vítima. Staden havia perdido toda a sua coragem. Ele implorou, suplicou, chorou e rezou aos brados ao seu deus. E depois descreveu a reação dos tupinambá com as seguintes palavras: “Então eles disseram: ‘Ele é um verdadeiro português. Agora ele grita desse jeito porque está com horror da morte’… Eles zombaram cruelmente de mim; tanto os jovens como os velhos”.

A cientista cultural brasileira Vanete Santana Dezmann presume que o pânico de Hans Staden o tenha tornado indigno aos olhos dos índios. O que fazer com um pedaço de carne impregnado de covardia? Talvez tenha sido por essa razão que os tupinambá o libertaram novamente após nove meses de cativeiro.

O medo devora a alma: Staden teve a sorte do medroso. Ele voltou para Hesse e, juntamente com um médico, escreveu o seu livro sobre os comedores de gente.

Em Marburgo, o lansquenê abandonou o mercenarismo e foi trabalhar em uma jazida de salitre. Ele morreu em 1576.

A história não nos transmitiu o que aconteceu com o seu corpo.

How Do You Say ‘Disagreement’ in Pirahã? (N.Y.Times)

By JENNIFER SCHUESSLER. Published: March 21, 2012

Dan Everett. Essential Media & Entertainment/Smithsonian Channel

In his 2008 memoir, “Don’t Sleep, There Are Snakes,” the linguist Dan Everett recalled the night members of the Pirahã — the isolated Amazonian hunter-gatherers he first visited as a Christian missionary in the late 1970s — tried to kill him.

Dr. Everett survived, and his life among the Pirahã, a group of several hundred living in northwest Brazil, went on mostly peacefully as he established himself as a leading scholarly authority on the group and one of a handful of outsiders to master their difficult language.

His life among his fellow linguists, however, has been far less idyllic, and debate about his scholarship is poised to boil over anew, thanks to his ambitious new book, “Language: The Cultural Tool,” and a forthcoming television documentary that presents an admiring view of his research among the Pirahã along with a darkly conspiratorial view of some of his critics.

Members of the Pirahã people of Amazonian Brazil, who have an unusual language, as seen in “The Grammar of Happiness.” Essential Media & Entertainment/Smithsonian Channel

In 2005 Dr. Everett shot to international prominence with a paper claiming that he had identified some peculiar features of the Pirahã language that challenged Noam Chomsky’s influential theory, first proposed in the 1950s, that human language is governed by “universal grammar,” a genetically determined capacity that imposes the same fundamental shape on all the world’s tongues.

The paper, published in the journal Current Anthropology, turned him into something of a popular hero but a professional lightning rod, embraced in the press as a giant killer who had felled the mighty Chomsky but denounced by some fellow linguists as a fraud, an attention seeker or worse, promoting dubious ideas about a powerless indigenous group while refusing to release his data to skeptics.

The controversy has been simmering in journals and at conferences ever since, fed by a slow trickle of findings by researchers who have followed Dr. Everett’s path down to the Amazon. In a telephone interview Dr. Everett, 60, who is the dean of arts and sciences at Bentley University in Waltham, Mass., insisted that he’s not trying to pick a fresh fight, let alone present himself as a rival to the man he calls “the smartest person I’ve ever met.”

“I’m a small fish in the sea,” he said, adding, “I do not put myself at Chomsky’s level.”

Dan Everett in the Amazon region of Brazil with the Pirahã in 1981. Courtesy Daniel Everett

Still, he doesn’t shy from making big claims for “Language: The Cultural Tool,” published last week by Pantheon. “I am going beyond my work with Pirahã and systematically dismantling the evidence in favor of a language instinct,” he said. “I suspect it will be extremely controversial.”

Even some of Dr. Everett’s admirers fault him for representing himself as a lonely voice of truth against an all-powerful Chomskian orthodoxy bent on stopping his ideas dead. It’s certainly the view advanced in the documentary, “The Grammar of Happiness,” which accuses unnamed linguists of improperly influencing the Brazilian government to deny his request to return to Pirahã territory, either with the film crew or with a research team from M.I.T., led by Ted Gibson, a professor of cognitive science. (It’s scheduled to run on the Smithsonian Channel in May.)

A Pirahã man in the film “The Grammar of Happiness.” Essential Media & Entertainment/Smithsonian Channel

Dr. Everett acknowledged that he had no firsthand evidence of any intrigues against him. But Miguel Oliveira, an associate professor of linguistics at the Federal University of Alagoas and the M.I.T. expedition’s Brazilian sponsor, said in an interview that Dr. Everett is widely resented among scholars in Brazil for his missionary past, anti-Chomskian stance and ability to attract research money.

“This is politics, everybody knows that,” Dr. Oliveira said. “One of the arguments is that he’s stealing something from the indigenous people to become famous. It’s not said. But that’s the way they think.”

Claims of skullduggery certainly add juice to a debate that, to nonlinguists, can seem arcane. In a sense what Dr. Everett has taken from the Pirahã isn’t gold or rare medicinal plants but recursion, a property of language that allows speakers to embed phrases within phrases — for example, “The professor said Everett said Chomsky is wrong” — infinitely.

In a much-cited 2002 paper Professor Chomsky, an emeritus professor of linguistics at M.I.T., writing with Marc D. Hauser and W. Tecumseh Fitch, declared recursion to be the crucial feature of universal grammar and the only thing separating human language from its evolutionary forerunners. But Dr. Everett, who had been publishing quietly on the Pirahã for two decades, announced in his 2005 paper that their language lacked recursion, along with color terms, number terms, and other common properties of language. The Pirahã, Dr. Everett wrote, showed these linguistic gaps not because they were simple-minded, but because their culture — which emphasized concrete matters in the here and now and also lacked creation myths and traditions of art making — did not require it.

To Dr. Everett, Pirahã was a clear case of culture shaping grammar — an impossibility according to the theory of universal grammar. But to some of his critics the paper was really just a case of Dr. Everett — who said he began questioning his own Chomskian ideas in the early 1990s, around the time he began questioning his faith — fixing the facts around his new theories.

In 2009 the linguists Andrew Nevins, Cilene Rodrigues and David Pesetsky, three of the fiercest early critics of Dr. Everett’s paper, published their own in the journal Language, disputing his linguistic claims and expressing “discomfort” with his overall account of the Pirahã’s simple culture. Their main source was Dr. Everett himself, whose 1982 doctoral dissertation, they argued, showed clear evidence of recursion in Pirahã.

“He was right the first time,” Dr. Pesetsky, an M.I.T. professor, said in an interview. “The first time he had reasons. The second time he had no reasons.”

Some scholars say the debate remains stymied by a lack of fresh, independently gathered data. Three different research teams, including one led by Dr. Gibson that traveled to the Pirahã in 2007, have published papers supporting Dr. Everett’s claim that there are no numbers in the Pirahã language. But efforts to go recursion hunting in the jungle — using techniques that range from eliciting sentences to having the Pirahã play specially designed video games — have so far yielded no published results.

Still, some have tried to figure out ways to press ahead, even without direct access to the Pirahã. After Dr. Gibson’s team was denied permission to return to Brazil in 2010, its members devised a method that minimized reliance on Dr. Everett’s data by analyzing instead a corpus of 1,000 sentences from Pirahã stories transcribed by another missionary in the region.

Their analysis, presented at the Linguistic Society of America’s annual meeting in January, found no embedded clauses but did uncover “suggestive evidence” of recursion in a more obscure grammatical corner. It’s a result that is hardly satisfying to Dr. Everett, who questions it. But his critics, oddly, seem no more pleased.

Dr. Pesetsky, who heard the presentation, dismissed the whole effort as biased from the start by its reliance on Dr. Everett’s grammatical classifications and basic assumptions. “They were taking for granted the correctness of the hypothesis they were trying to disconfirm,” he said.

But to Dr. Gibson, who said he does not find Dr. Everett’s cultural theory of language persuasive, such responses reflect the gap between theoretical linguists and data-driven cognitive scientists, not to mention the strangely calcified state of the recursion debate.

“Chomskians and non-Chomskians are weirdly illogical at times,” he said. “It’s like they just don’t want to have a cogent argument. They just want to contradict what the other guy is saying.”

Dr. Everett’s critics fault him for failing to release his field data, even seven years after the controversy erupted. He countered that he is currently working to translate his decades’ worth of material and hopes to post some transcriptions online “over the next several months.” The bigger outrage, he insisted, is what he characterized as other scholars’ efforts to accuse him of “racist research” and interfere with his access to the Pirahã.

Dr. Rodrigues, a professor of linguistics at the Pontifical Catholic University in Rio de Janeiro, acknowledged by e-mail that in 2007 she wrote a letter to Funai, the Brazilian government agency in charge of indigenous affairs, detailing her objections to Dr. Everett’s linguistic research and to his broader description of Pirahã culture.

She declined to elaborate on the contents of the letter, which she said was written at Funai’s request and did not recommend any particular course of action. But asked about her overall opinion of Dr. Everett’s research, she said, “It does not meet the standards of scientific evidence in our field.”

Whatever the reasons for Dr. Everett’s being denied access, he’s enlisting the help of the Pirahã themselves, who are shown at the end of “The Grammar of Happiness” recording an emotional plea to the Brazilian government.

“We love Dan,” one man says into the camera. “Dan speaks our language.”

Colombia prosecutors question ‘shaman rain payment’ (BBC)

18 January 2012 Last updated at 16:49 GMT

By Arturo Wallace
BBC Mundo, Bogota

The tournament, won by Brazil, was held across Colombia with the final in Bogota

Colombian prosecutors are investigating why organisers paid a “shaman” $2,000 (£1,400) to keep rain away from the closing ceremony of the Fifa U-20 World Cup held in the country last year.

The inquiry was launched after cost overruns totalling $1m came to light.

But the focus of their questions is a 64-year-old man who says he uses dowsing to stave off or attract rain.

The event’s organisers defended their decision to use him, noting that the final event was indeed rain-free.

The “rain-stopper” in question, Jorge Elias Gonzalez, has been dubbed a “shaman” or medicine man by the Colombian media.

A dark joke doing the rounds in the capital, Bogota, asks why the shaman was not also hired to minimise the impact of the last rainy season, which killed 477 people and affected some 2.6 million Colombians.

Yet more cynical voices have said that, given the corruption allegations involving the Bogota authorities in recent years, Mr Gonzalez should be praised as the only contractor to deliver what he promised.

The spectacular closing ceremony in Bogota’s El Campin stadium on 20 August last year remained dry – a stark contrast with the opening event in Barranquilla a month earlier that was drenched.

Ana Marta de Pizarro, the anthropologist and theatre director who was in charge of the ceremony, used this argument to defend the hiring of a rain stopper.

“Had it rained, the event would not have taken place. It didn’t rain on the ceremony, it was successful and I would use him again if I needed to,” she said.

And Ms Pizarro also said Mr Gonzalez had been hired in the past to ensure Bogota’s International Theatre Festival was rain-free.

In an interview with a local radio station on Wednesday, Mr Gonzalez also said he was also hired to keep the rain away from the swearing-in ceremony of President Juan Manuel Santos.

This has, as yet, neither been confirmed nor denied by the president’s office.

Respect

Prosecutors are adamant that Mr Gonzalez’s contract will be investigated.

The procurement law requires efficiency and professionalism in all service providers paid for by public funds “and that doesn’t include shamans”, a statement from the local comptroller’s office said.

“We’ll ask him to explain in which circumstances, how and where he can stop rain,” said the deputy prosecutor, Juan Carlos Forero.

The debate has also drawn in those who want to make sure no public funds are used to pay for any sort of religious rites, and those who want the traditions of indigenous Colombians to be treated with more respect.

In a bizarre twist to the dispute, Mr Gonzalez has always insisted that he is not a shaman.

“I’m not indigenous, so don’t call me a shaman, for I don’t even know what that is. Nor am I a wizard,” he told a local newspaper several years ago.

Mr Gonzalez has said that he can stop or attract rain using dowsing, although he also prays.

Anthropologist Mauricio Pardo believes that by describing him as a shaman, the Colombian media might end up belittling an important indigenous tradition.

“And those traditions deserve to be respected. Even our constitution demands so,” he told BBC Mundo.

Antas dos brancos, veados grandes, onças de criação (ComCiência)

Artigo

Por Felipe Ferreira Vander Velden
10/12/2011

O antropólogo francês Philippe Descola argumentou certa vez que, se as Américas contribuíram de modo decisivo com produtos agrícolas, vegetais, para a economia e a culinária europeias, o traço distintivo do fluxo oposto – da Europa para terras americanas –bem poderia ter sido a introdução de numerosas espécies de animais domesticados no Novo Mundo: bois, cabras, ovelhas, cavalos, galinhas, porcos, e mesmo cães e patos, cujas populações nativas alcançavam apenas certas porções do continente (América do Norte e Central, Andes e a região do escudo das Guianas).

Pode-se afirmar, todavia, que o que de mais importante os europeus trouxeram para a América – e, aqui, passo a referir-me especificamente à América do Sul e, ainda mais precisamente, às terras baixas do continente, uma vez que a zona andina (as terras altas, montanhosas) possui características muito particulares quanto a essas questões – não foram os animais em si, mas a própria domesticidade enquanto critério definidor de certa relação entre seres humanos e animais. Com efeito, não havia animais domesticados, no sentido estrito do termo – populações animais mantidas em estreito contato com agrupamentos humanos por meio do controle reprodutivo e da seleção artificial – por estas plagas; havia, isto sim, e em abundância, animais que chamamos familiarizados, ou amansados (na tradução do inglês tamed, ou do francês apprivoisée), isto é, trazidos como filhotes da floresta e criados no convívio com humanos nas aldeias: aquilo que os povos Tupi costeiros denominavam xerimbabos.

Credito: Revista de Atualidade Indígena, ano II, nº 8, 1978. Funai. Primeiro contato com os Matis, no vale do Javari (AM): os índios pediram filhotes de cães aos funcionários da Funai

Essa domesticidade foi, evidentemente, transformada aqui, de modos diversos, processo que continua a se desenrolar hoje em dia. Não obstante, se a presença de animais de origem exógena nas aldeias indígenas na Amazônia e em outras partes das terras baixas sul-americanas despertou algum interesse (pouco, é verdade), este foi sobretudo anedótico ou, quando muito, impressionista: “abundam cães” em uma aldeia Tapirapé, ou os Parintintim “criam galinhas em quantidade” ou, ainda “os Bakairi adotaram a criação bovina no início do século XX”. Nada mais do que isso, carecemos de pesquisas detalhadas que compreendam o lugar ocupado por essas espécies alienígenas nos universos sociais, cosmológicos, técnico-econômicos e rituais das diferentes sociedades indígenas no continente, mesmo naqueles locais em que esses seres emergiram inequivocamente como de capital valor simbólico e de crucial importância no conjunto de práticas e conhecimentos nativos, tal o cavalo entre os Kadiweu (inclusive chamados, no período colonial, de “índios cavaleiros”) no Mato Grosso do Sul e os bovinos entre os Wayuu (também conhecidos como Guajiro) na fronteira venezuelana-colombiana.

Tal ausência dos animais domesticados de origem europeia nas reflexões de cientistas sociais contrasta fortemente com a ubiquidade desses seres nas aldeias, no passado e atualmente e, provavelmente, expressa uma faceta daquilo que a antropóloga Joanna Overing definiu como “um desinteresse antropológico pela domesticidade e pelo cotidiano”. Focada em uma interpretação que toma, como definidora das sociocosmologias nativas das terras baixas, a relação com a alteridade definida pelo idioma da afinidade (aliança) e atualizada em mecanismos de abertura violenta para o exterior como a caça, o canibalismo, o xamanismo e a guerra, a etnologia e a história indígenas da América do Sul têm deixado, tradicionalmente, de lado as dimensões “internas” das sociedades nativas, os modos por meio dos quais a sociedade é criada a partir das relações de consanguinidade, de filiação, de amizade, de companheirismo, de mutualismo, de confiança, de afeição. Ora, qualquer um que tenha animais de estimação, ou que se interesse minimamente pelo tema, sabe que este é o vocabulário absolutamente compreensível e corrente: falar de animais domésticos é falar em convivência (ou convivialidade, como a mesma Joanna Overing prefere dizer).

A afinidade, portanto, parece não servir bem como modelo para abordar as relações entre índios e animais domesticados. Serve para a caça, mas não para a domesticidade, melhor descrita pelos idiomas da familiarização e da consanguinidade. Os Karitiana – povo de língua Tupi-Arikém em Rondônia, com quem trabalho há dez anos, e entre os quais desenvolvi uma pesquisa sobre a presença desses seres exóticos – afirmam que “cachorro é como filho”, destacando, assim, a relação de familiaridade/consanguinidade que corta as fronteiras entre o humano e o não-humano. Como tal, os animais criados por eles assumem uma posição em tudo análoga à das crianças humanas: há um genuíno prazer na criação desses seres, no cuidado cotidiano com eles; prazer que, inclusive, porta dimensão estética, pois se diz que os animais de criação (como são chamados), como as crianças, “enfeitam a aldeia”, tornando-a agradável ao olhar de todos; há, ainda, a percepção de que esses seres cumprem um ciclo de vida tal qual o dos humanos: filhotes são mimados e protegidos, mas animais adultos devem portar-se como indivíduos autônomos e responsáveis, cuidando de suas próprias necessidades e desejos – da mesma forma que qualquer humano maduro; por fim, há de se frisar que o cuidado com os animais domésticos é, sobretudo, assunto de mulheres, competência de uma esfera de saberes e afetos propriamente femininos.

Como filhos, matar esses animais com quem se convive diuturnamente torna-se uma questão complexa e prenhe de implicações afetivas e emocionais. Há, nas aldeias Karitiana, sempre muitas galinhas, e os índios afirmam que as comem; entretanto, conforme relatado por outros autores, os Karitiana “dizem que comem, mas não comem”. Ao menos, não comem as galinhas de sua criação, pois não parece haver problema em deliciar-se com galinhas alheias, roubadas do vizinho, compradas na cidade ou cedidas para outrem. Apenas duas vezes vi pessoas terem de sacrificar suas próprias galinhas em função da necessidade de se ter carne para o almoço – e, como é amplamente sabido, na Amazônia uma refeição sem carne está lamentavelmente incompleta: nas duas ocasiões as aves foram perseguidas por homens armados de arco e flechas, numa perfeita simulação do ato de caçar. Assim, para que sejam tornadas alimento, as galinhas domésticas precisam, antes, ser convertidas em caça, des-familiarizadas violentamente, interpondo entre elas e a panela a ação das armas que buscam quebrar o vínculo forte entre os animais e as mulheres que as criam. O que não quer dizer que o consumo dessa carne seja, deste modo, tornado simples e desprovido de sentimentos: toda morte de um animal gera sentimentos ambíguos e, no caso dos animais de criação, genuína tristeza e raiva (contra o agressor), especialmente nas mulheres e nas crianças.

Para comer, pois, é necessário caçar: o termo Karitiana para (animal de) caça (himo) é, significativamente, o mesmo para carne. Os animais de criação, então, não são carne e, em certo sentido, não são mesmo animais, presos à convivência direta e contínua com seus pares humanos: o que define a animalidade propriamente dita – a intolerância à presença humana, a agressividade, a fuga, a timidez e, acima de tudo, a comestibilidade (pois caça é carne e é animal) – falta aos animais domésticos, comensais dos homens e mulheres, seus protegidos, seus filhos. Sua eventual conversão em carne, como visto acima, envolve operações simbólicas precisas não isentas, contudo, de fortes implicações afetivas.

O idioma da predação, portanto, não parece prestar-se à domesticidade. Isso, quanto aos animais introduzidos pelos brancos: este ser por definição doméstico não é familiarizado no sentido usual do termo – tornado familiar de um afim genérico, como acontece, por contraste, com o animal trazido do mato e amansado nas aldeias, conforme Carlos Fausto. Ele parece, desde já, portar uma familiaridade intrínseca, talvez por vir sempre acompanhado de humanos (brancos) e, em certo sentido, ser feito por eles: “criado”, na dupla acepção da palavra em português (fazer e cuidar). Talvez por isso os Karitiana sustentem uma diferença notável entre os animais nativos e aqueles introduzidos: estes, diz-se, “não têm história”, destacando-se que não existiam nos tempos míticos – o que denominam “tempo antigamente” – e não foram feitos pelos criadores do universo Karitiana, como aconteceu com os xerimbabos nativos. Vieram “pela mão dos brancos”, como contam as narrativas dos primeiros encontros de vários dos homens e mulheres mais idosos, que viram essas curiosas criaturas, pela primeira vez, na infância, lá pelos anos de 1940.

Assim, esses animais – exóticos, exógenos, introduzidos – portam uma dupla marca de estranheza, advinda do fato de terem se apresentado sempre na companhia dos colonizadores brancos: não partilham da história antiga do povo Karitiana, e não habitam a floresta (gopit), espaço por excelência dos animais criados pelo demiurgo Botyj no início de tudo. Estranheza que os Karitiana buscaram administrar por meio da designação dessas novas espécies de seres, feita a partir das criaturas que já conheciam: assim, cavalos viraram “veados grandes” (de ty), bois tornaram-se “antas dos brancos” (opoko irip’), cachorros, “onças de criação”, “onças domésticas” (obaky by’edna). Galinhas, denominadas opok ako, “o muito dos brancos”, quer seja, aquilo que os brancos possuem e carregam em abundância, sinaliza outro tema importante da percepção Karitiana não só desses animais, mas também dos brancos e de seus bens em geral: a multiplicidade, ou a capacidade de reproduzir-se de maneira descontrolada e exagerada. De fato, xerimbabos nativos só muito raramente reproduzem no interior das aldeias; galinhas, contudo, contrariam essa esterilidade aldeã de forma notável; assim fazendo, apontam na direção das formas de apropriação contemporânea desses animais entre numerosos povos indígenas nas terras baixas.

Mulher Tapuia, de Albert Eckhout (1643) pintada no período da ocupação holandesa do Nordeste. Símbolo da ferocidade e do caráter diabólico, a presença do cachorro está em consonância com a imagem que os europeus tinham dos índios do interior nordestino, selvagens e bárbaros em comparação com os Tupi da costa. A obra também pode sugerir a convivência e relação próxima existente entre índios e cães – introduzidos com a colonização – no sertão desde, pelo menos, o século XVII

O animal doméstico: história e antropologia

A introdução de animais domesticados de origem exógena em populações indígenas é uma constante na história do Brasil, intercâmbio inaugurado na própria certidão de nascimento do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha, que narra o encontro entre índios e portugueses no litoral sul da Bahia em abril de 1500, e que conta como os índios reagiram à aproximação de cabras e galinhas trazidas nas embarcações europeias. Desde então, esses seres exóticos espalharam-se rapidamente pelo território nacional, naquilo que o biogeógrafo Alfred Crosby definiu como “imperialismo ecológico”: a paulatina transformação da biota nativa em paisagens cada vez mais parecidas com a Europa, colonização movida pela “pata do boi”, no dizer de Capistrano de Abreu. Conhecemos razoavelmente bem os mecanismos e os efeitos da “frente de ocupação pastoril” – conforme a definiu Darcy Ribeiro – mas apenas em suas linhas-mestras; o detalhe permanece-nos obscuro, e sabemos menos ainda dos modos como a ocupação do Brasil por esses animais estrangeiros impactou as múltiplas sociedades indígenas que habitavam, e habitam, a região. Menos ainda se sabe sobre como esses seres – bovinos, caprinos, suínos, equinos, caninos, galináceos – ocuparam a Amazônia, dado que, nas áreas de floresta densa, os animais não podem se mover livremente, dependendo da condução de seres humanos: dado para o qual atentam os Karitiana, que afirmam ter conhecido esses seres desde sempre “na companhia dos brancos”. Uma história da ocupação animal da floresta amazônica ainda está por ser escrita.

Ocupação cuja face perversa estamos vendo se agravar nos dias correntes, com o avanço da pecuária sobre a hileia, na última fronteira do processo que tornou o Brasil o dono do maior rebanho de bois e o maior exportador de carne bovina do planeta. Este processo de transformação do país em um gigante global do agronegócio tem sido feito às custas da brutal destruição da Amazônia e da sua transformação em extensas pastagens.

Vários povos indígenas na Amazônia – como os Karitiana – e alhures não escapam a essa febre agropastoril, e vêm, crescentemente, se interessando por projetos de implementação de criação animal em suas aldeias. Vinculando a introdução da pecuária a políticas de segurança alimentar e combate à fome e à desnutrição, os proponentes desses projetos – ligados a esferas estatais e a organizações não-governamentais – ignoram aspectos importantes da natureza das relações entre índios e animais. O mecanismo de familiarização – animais tratados como filhos – acima evocado, por exemplo, traz importantes implicações para a tripla relação entre animais, povos indígenas e esses novos agentes de formulação e implantação de políticas públicas. Com efeito, muitos dos projetos destinados às aldeias indígenas, em seus componentes geração de renda e economia, preconizam a instalação da criação animal em escalas ampliadas. Esses projetos desconsideram, ainda, a experiência, pois as perspectivas de sucesso têm se mostrado, em geral, pífias: colecionam-se fracassos – galinheiros destruídos, bois abandonados, gramíneas forrageiras invasoras espalhando-se descontroladamente, abate indiscriminado, desconhecimento técnico – mas as razões para eles ainda são pouco conhecidas.

Olhar para a introdução de animais domesticados em povos indígenas nas terras baixas da América do Sul implica, portanto, também estar atento às inflexões locais de processos macropolíticos e macroeconômicos. Ademais, questões de saúde pública (zoonoses) também se colocam, sem falar na reflexão – ainda por fazer, mas mais do que necessária – sobre a precária condição de muitos desses seres nas aldeias vis-à-vis à legislação ambiental e de proteção aos animais do país e os intensos debates, acadêmicos e leigos, acerca da defesa e da libertação animal.

A antropologia pode e deve, seguramente, ser uma ferramenta a contribuir com esse importante conjunto de debates públicos, ao olhar com cuidado para as modalidades indígenas de constituição das relações entre humanos e animais. O foco nos afetos, emoções e vínculos, contudo, sugere que um passo a mais deve ser dado na análise consagrada de taxonomias e de representações indígenas de seres e da relação com esses mesmos seres. Não o animal como signo, ou símbolo, mas – conforme defende o antropólogo John Knight – o animal como sujeito, como partícipe ativo e agente na construção e reconstrução das sociabilidades comunitárias. Animais e humanos como elementos de um conjunto de laços de natureza simbiótica, naturezaculturas, na inspirada sugestão de Donna Haraway. Só assim poderemos compreender melhor o que é o animal domesticado, esta figura ambígua e complexa entre a natureza e a cultura ou, como dizem os Karitiana, entre a casa e o mato e entre a aldeia e a cidade. Assim poderemos avaliar com justeza o papel central que tiveram esses seres não só na história geral do Novo Mundo, mas nas histórias particulares de cada um de seus povos nativos.

Para saber mais:

– “Rebanhos em aldeias: investigando a introdução de animais domesticados e formas de criação animal em povos indígenas na Amazônia (Rondônia)”, de Felipe Vander Velden. Espaço Ameríndio, vol. 5, no. 1, 2011, disponível em http://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/view/16602)

– Número especial da Revista de História da Biblioteca Nacional (no. 60, setembro de 2010) dedicado a abordagens historiográficas sobre os animais, e que traz alguns artigos sobre a introdução de espécies no Brasil colonial. (disponível apenas para assinantes)

Felipe Vander Velden é professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A tese de doutorado (Inquietas companhias: sobre os animais de criação entre os Karitiana, Campinas, Unicamp, 2010) de Felipe Vander Velden, na qual discute aprofundadamente os temas apenas evocados neste artigo, será publicada, em breve, pela Alameda Casa Editorial.

Desenvolvimento e destruição (Ciência Hoje)

O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte aborda na sua coluna de dezembro as contribuições críticas de uma antropologia voltada ao enfrentamento direto dos desafios que o projeto de desenvolvimento econômico apresenta para o planeta e as sociedades contemporâneas.

Por: Luiz Fernando Dias Duarte

Publicado em 02/12/2011 | Atualizado em 02/12/2011

Desenvolvimento e destruiçãoA locomotiva a vapor, ícone da Revolução Industrial, foi ao mesmo tempo um símbolo do progresso triunfante e um agourento fantasma a recobrir de cinza e fumaça os campos e as cidades. (foto: Jim Daly/ Sxc.hu)

Há poucas categorias tão onipresentes nas discussões atuais sobre a condição de nossas sociedades quanto a de ‘desenvolvimento’. Cadernos inteiros de nossos jornais dedicam-se regularmente aos desafios e dilemas que cercam o projeto do desenvolvimento econômico de nosso país ou de toda a humanidade.

De um modo geral, estamos informados sobre a permanente busca das políticas governamentais modernas de progresso material por meio da expansão das bases da atividade econômica, de sua circulação mercantil e de sua apropriação pelo consumo generalizado.

Mas sabemos provavelmente mais ainda sobre os riscos e ameaças que essa expansão vem acarretando para nossa população e para o planeta em geral. Nos últimos dias, quem não se assustou com o vazamento de petróleo na costa fluminense ou não se preocupou com a retomada das obras da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu e com a possibilidade de abertura do Parque Nacional da Serra da Canastra à exploração de diamantes?

Ainda aqui na Ciência Hoje On-line, meu colega Jean Remy Guimarães acaba de descrever com detalhes os desastres ambientais decorrentes da mineração desenfreada de ouro no Equador (Leia coluna Sobre ouro, ceviche e arroz).

A questão não é nova, porém. Desde o começo da Revolução Industrial contrapõem-se sistematicamente os desejos de uma constante e infinita melhoria das condições de reprodução econômica das populações e os alertas sobre a destruição física e a degradação humana acarretadas pelo industrialismo e pelas relações capitalistas de produção.

A imagem da locomotiva a vapor foi ao mesmo tempo um símbolo do progresso triunfante e um agourento fantasma a recobrir de cinza e fumaça os campos e as cidades. O próprio socialismo, crítico da desumanização proletária, não renegou o princípio do avanço ilimitado das forças produtivas e dá, ainda hoje, o aval à desastrosa modernização chinesa.

Mancha de óleo provocada pelo vazamento no poço da Chevron na Bacia de Campos, no norte fluminense. Ao mesmo tempo em que somos informados sobre a busca permanente das políticas governamentais de progresso material, sabemos dos riscos envolvidos, para a população e o planeta em geral. (foto: Agência Brasil)

Antropologia e desenvolvimento

Acaba de se realizar em Brasília a 2ª Conferência de Desenvolvimento (Code), organizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com o propósito de “debater e problematizar as diversas formulações possíveis para conceitos, trajetórias, atores, instituições e políticas públicas para o desenvolvimento brasileiro”.

Diversas associações de ciências humanas juntaram-se a esse debate, tendo a Associação Brasileira de Antropologia organizado e participado de duas séries de mesas em que se assumiu o desafio do encontro.

Todos reconhecem a insanidade do sistema atual de exploração a qualquer custo dos recursos ambientais

Há duas vias possíveis para a discussão da relação entre desenvolvimento e antropologia.

A primeira segue o rumo da institucionalização crescente de uma ‘antropologia do desenvolvimento’, dedicada ao conhecimento das formas pelas quais se organiza esse campo, ou seja, as ações voltadas para o progresso material e a promoção social das populações humanas em situações desprivilegiadas ou vulneráveis em todo o planeta. Isso envolve particularmente o que se desenrola no plano internacional, associado à dinâmica da globalização.

A segunda via é a do reconhecimento e articulação de um vasto número de linhas de pesquisa antropológica que tem em comum abordar questões de reprodução, identidade e transformação social em contextos desprivilegiados, vulneráveis e subordinados a dinâmicas de grande escala, inclusive transnacionais.

No entanto, esses trabalhos não se voltam prioritariamente a uma problemática do ‘desenvolvimento’ em si. Constituem, assim, não uma especialização disciplinar, mas um foco, a que se pode chamar de ‘antropologia e desenvolvimento’.

No encontro de Brasília, antropólogos, sociólogos, economistas e cientistas políticos examinaram de diversos ângulos as formas contemporâneas do dilema do desenvolvimento.

“Todos reconhecem a insanidade do sistema atual de exploração a qualquer custo dos recursos ambientais e todos denunciam a violência com que os grandes projetos de desenvolvimento são implantados, em detrimento do interesse de amplas populações locais.”

Debate sobre Belo Monte no Congresso
Congressistas discutem com comunidades indígenas violações de direitos humanos na região onde funcionará a usina de Belo Monte, um dos grandes empreendimentos desenvolvimentistas do governo federal. (foto: Antonio Cruz/ ABr)

Desatino coletivo

Embora haja um grande ceticismo por parte desses atores em relação às possibilidades de plena assunção pelos governos atuais de uma nova visão de ‘desenvolvimento sustentável’, eles não pretendem esmorecer em sua ação combinada de estudos e intervenção pública, visando a conscientização e responsabilização pelo destino não apenas de nossa geração, mas de todo o planeta e, com ele, de toda a humanidade.

Essa verdadeira militância científica denuncia os procedimentos autoritários com que se afirmam os empreendimentos desenvolvimentistas e também os saberes que justificam tais políticas com argumentos naturalistas, tecnicistas, em que um abstrato ‘bem comum’ ocupa o lugar concreto do bem de todos e de cada um.

Luta por uma disposição democrática na condução dos projetos econômicos de grande escala, atenta ao que já se vem chamando de ‘justiça ambiental’ ou de ‘modernidades alternativas’.

É generalizada a consciência de que não se poderá mudar de um dia para o outro o paradigma do melhorismo iluminista, dessa aspiração de construção de um paraíso de consumo sobre a terra.

“Há conhecimento suficiente sobre a vida social, econômica e política de todo este mundo para deixar claro que o paradigma terá que ser desviado de um curso insano”

Há hoje, porém, conhecimento suficiente sobre a vida social, econômica e política de todo este mundo para deixar claro que o paradigma terá que ser modificado, nuançado, desviado de um curso insano.

A política da competição entre as nações, armada pela crescente interdependência econômica global, é por ora um estímulo ao desatino coletivo. A destruição se dá no Brasil, assim como no Equador, na China ou na África do Sul.

A antropologia se esforça para conhecer e dar a conhecer os infindáveis nódulos de tão grande trama e, nessa luta, não pode calar ao se deparar com os mil infernos localizados que essa inglória busca de gozo incendeia aqui e ali.

Mais do que o sentido, é o destino global do humano que está em jogo.

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Saber dos xamãs jaguares do Yuruparí é nomeado patrimônio imaterial (Folha de S.Paulo)

27/11/2011 – 06h19

DA EFE

O saber tradicional dos xamãs jaguares do Yuruparí, na Amazônia colombiana, entrou neste domingo para a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

O comitê de analistas da Unesco aprovou sua inclusão durante reunião em Bali, na Indonésia, ao considerar que este modo de vida, herança milenar dos ancestrais, é um sistema integral de conhecimento com características físicas e espirituais.

“Esta notícia é um enorme esperança para a comunidade que tem plena certeza de que esta decisão é um instrumento de salvaguarda desta sabedoria”, disse o diretor de Patrimônio da Colômbia, Juan Luis Isaza, em seu discurso de agradecimento.

Os xamãs do Yuruparí transmitem “uma cosmovisão associada a um território sagrado para eles, um conhecimento graças ao qual acham que o mundo pode estar em equilíbrio”, explicou Isaza.

Os jaguares de Yuruparí, que habitam nas cercanias do rio Pirá Paraná, transmitem por via masculina e desde o nascimento o Hee Yaia Keti Oka, uma sabedoria que foi entregue a eles desde suas origens pelos Ayowa (criadores) para cuidar do território e da vida.

O diretor de Patrimônio da Colômbia detalhou que esta cultura está ameaçada pela perda de interesse dos mais jovens e a interação com a “arrasadora cultura ocidental”.

A designação também ajudará, segundo Isaza, a combater os perigos que espreitam este povo que viveu sempre isolado do “contato com colonos, madeireiros, mineiros e políticos que, segundo os xamãs, vulneram o território e o equilíbrio”.

“O reconhecimento da Unesco serve para proteger e resgatar não só seu pensamento, também seu território, porque estão profundamente relacionados”, assegurou Isaza.